Você está na página 1de 93

VILSON SÉRGIO DE CARVALHO

Metodologia da Pesquisa em
Pedagogia

1ª Edição

Brasília/DF - 2018
Autores
Prof. Dr. Vilson Sérgio de Carvalho

Produção
Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e
Editoração
Sumário
Organização do Livro Didático........................................................................................................................................4

Introdução...............................................................................................................................................................................6

Capítulo 1
A natureza do conhecimento......................................................................................................................................9

Capítulo 2
A Ciência e sua História............................................................................................................................................. 20

Capítulo 3
Como estudar melhor?............................................................................................................................................... 29

Capítulo 4
A arte da pesquisa....................................................................................................................................................... 40

Capítulo 5
Etapas e procedimentos de pesquisa................................................................................................................... 53

Capítulo 6
O plano de pesquisa................................................................................................................................................... 75

Referências........................................................................................................................................................................... 91
Organização do Livro Didático
Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em capítulos, de forma didática, objetiva e
coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros
recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também,
fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares.

A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização do Livro Didático.

Atenção

Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a


síntese/conclusão do assunto abordado.

Cuidado

Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o
aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado.

Importante

Indicado para ressaltar trechos importantes do texto.

Observe a Lei

Conjunto de normas que dispõem sobre determinada matéria, ou seja, ela é origem,
a fonte primária sobre um determinado assunto.

Para refletir

Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa
e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio.
É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus
sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas
conclusões.

4
Organização do Livro Didático

Provocação

Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor
conteudista.

Saiba mais

Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões


sobre o assunto abordado.

Sintetizando

Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o


entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.

Sugestão de estudo complementar

Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo,


discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.

Posicionamento do autor

Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o
aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado.

5
Introdução
Olá! Seja bem-vindo a este Livro Didático da disciplina “Metodologia da Pesquisa”. Este material
tem a pretensão de ser uma introdução aos fundamentos do método científico e, de modo geral,
de favorecer uma reflexão sobre as diferentes maneiras de se pensar e fazer ciência por meio de
estudos e pesquisas de natureza científica. Assim sendo, ele deverá ser utilizado como norteador
não apenas dessa disciplina em particular, mas, também, da disciplina relativa à elaboração de
seu TCC.

Sem querer complicar demais o que já é complexo por natureza – considerando as inúmeras
discussões do que seja realmente ciência –, podemos, inicialmente, entender a ciência como
uma maneira de produzir conhecimento a partir de princípios metodológicos rigorosos de
estudo. Maneira essa que vem evoluindo ao longo dos séculos e que tem como base a ausência de
preconceitos e juízos de valor (característicos do conhecimento de senso comum) e a comprovação.

A ciência é um exemplo de até onde a humanidade pode chegar movida pela curiosidade e
pela inteligência. Se pensarmos o desenvolvimento que ela teve ao longo dos séculos, será
impressionante constatar seu desenvolvimento. A questão do “método científico” é tão ampla que
ela já vem, desde que chegou ao seu estágio mais moderno e semelhante ao atual, por volta do
século XVII – com a metodologia da observação neutra e sistemática aliada ao método indutivo,
tendo como objetivo o estabelecimento de relações causais entre fenômenos até a formulação de
uma lei – sendo objeto de um ramo diferenciado da Filosofia, denominado “Filosofia da Ciência”,
cujas reflexões contribuíram significativamente para a análise crítica e melhor compreensão desta.

Apesar da importância que a ciência alcançou (em grande parte pelas conquistas tecnológicas) e
da autoridade que é conferida aos cientistas, vale deixar claro que seu objetivo não é, nem nunca
foi, o de produzir “verdades absolutas”, mas, sim, o de promover uma busca mais aproximada da
realidade de forma metódica, rigorosa e crítica. Um dos criadores do método científico, Francis
Bacon, afirmava, no século XVII, que a meta da ciência é o melhoramento da vida do homem na
Terra, e isso seria alcançado através da coleta de dados, uma observação criteriosa, e a derivação
de teorias e práticas a partir desta (CHALMERS, 1993). Concordando com esse pensamento,
apesar de todas as mudanças que a concepção de ciência sofreu, é importante destacar que o
objetivo que deve guiar qualquer tipo de procedimento científico sempre foi e será a melhoria
da vida humana. A produção de conhecimento científico, particularmente por meio da pesquisa,
não deveria nunca ignorar ou se desviar desse ideal.

Partindo do princípio de que uma das formas mais significativas de produzir conhecimento se
dá por meio da pesquisa, faz-se necessário conhecer o que esta é e os fundamentos e práticas
metodológicas voltadas à formação de um pesquisador de qualquer área. A leitura desse Livro
Didático quer dar a você a chance de fazer isso e estudar as diferentes etapas do método científico.

6
Objetivos

Este Livro Didático foi criado com a intenção de que você, ao final da disciplina, seja capaz de:

» Conhecer o que é pesquisa, sua importância para o desenvolvimento científico bem


como para responder a várias demandas sociais.

» Refletir sobre diferentes técnicas de estudo e coleta de dados com dicas práticas para
vencer os desafios impostos pelo exercício da pesquisa.

» Analisar alguns dos principais tipos de pesquisa, de modo a auxiliá-lo no processo de


elaboração de trabalhos científicos e avaliação de pesquisas já efetivadas.

» Auxiliar na elaboração de seu plano de pesquisa e, consequentemente, na construção


de sua futura monografia.

7
8
A NATUREZA DO CONHECIMENTO
CAPÍTULO
1

Disponível em: <http://blogdoscursos.com.br/a-importancia-de-ser-criativo/>. Acesso em: 14 jul. 2017.

Introdução

Neste primeiro capítulo, aprenderemos mais sobre o que é conhecimento e as diferentes


formas de conhecer. Além disso, teremos a chance de estudar a ciência como um conjunto de
conhecimentos racionais, provisórios, obtidos metodicamente, sistematizados, verificáveis,
expressos logicamente, e dedutivamente justificados por outros enunciados, para explicar,
descrever e prever a realidade dos fenômenos.

No decorrer deste capítulo, destacar-se-á a ideia de que a ciência não é um saber absoluto, e
sim um saber relativo às circunstâncias em que foi produzido a partir de determinado objeto de
estudo. Atente a esses pontos e bom estudo!

9
CAPÍTULO 1 • A natureza do conhecimento

Objetivos

» Entender com clareza o significado de conhecimento, bem como a natureza dos diferentes
tipos de conhecimento existentes.

» Reconhecer as principais diferenças entre o conhecimento científico e o chamado senso


comum.

» Refletir sobre como e em que medida temos adotado o espírito científico em nossas
posturas e práticas como estudantes e pesquisadores.

Entendendo a natureza do conhecimento

Comecemos nossos estudos com uma reflexão sobre a natureza do conhecimento. É possível
entender o conhecimento como o pensamento resultante da relação que se estabelece entre o
sujeito que quer conhecer (cognoscente) e um objeto a ser conhecido (cognoscível). O sujeito é
o ser humano e o objeto parte da realidade com a qual convivemos ou do próprio homem que
também pode ser objeto de estudos (como é o caso das ciências humanas e sociais).

Como estamos constantemente procurando conhecer, é possível afirmar que o conhecimento


não nasce do vazio, mas, sim, das experiências que acumulamos em nossa vida cotidiana,
mediante experiências, relacionamentos interpessoais, leituras de livros e artigos diversos. O
conhecimento é diferente de uma informação (dado mais bruto). Ele é fruto de uma reflexão
sobre a informação e sua riqueza.

Com efeito, o homem se distingue dos demais seres vivos pela possibilidade de conhecer.
Diferentemente de outros animais, o homem possui a razão, ou seja, o homem tem a faculdade
de avaliar, julgar, ponderar ideias universais, estabelecer relações lógicas, de conhecer, de
compreender, de raciocinar, sendo também a capacidade de relacionar e ir além da realidade
imediata. De fato, os seres humanos são os únicos capazes de criar e transformar o conhecimento;
de aplicar o que aprendem por diversos meios; os únicos capazes de criar um sistema de símbolos,
como a linguagem, e, com ele, registrar as próprias experiências dividindo-as com outros seres
humanos.

De um modo geral, o desejo de conhecer as coisas é inato, manifestando-se desde os primeiros


anos de vida. Ao entrar em contato com a realidade, o ser humano imediatamente apreende-a
em relação ao seu “EU”, à cultura e à história. O processo de conhecer se manifesta de maneira
tão natural que, em alguns momentos, nem sequer nos damos conta de sua complexidade. Desde
cedo, nossos pais e professores nos mostram a necessidade de aprender e conhecer o mundo, e,
mais tarde, a necessidade de autoconhecimento. Nesse complexo processo, somos inseridos na
“engrenagem” do conhecimento do mundo considerado real, sem então entendermos claramente

10
A natureza do conhecimento • CAPÍTULO 1

o real significado de conhecer. Valendo-se de suas capacidades cognitivas, o ser humano manifesta
o desejo de conhecer a si mesmo e o mundo no qual se encontra inserido.

Luckesi (1996) afirma que devemos pensar no conhecimento não apenas como um mecanismo
de transformação do mundo, mas, também, como uma necessidade para a ação e, ainda, um
elemento de libertação, caso contrário estaríamos ainda sujeitos à conformação e à sujeição da
natureza. É um instrumento para entendimento do sujeito, das relações entre sujeitos e dessas
relações com o ambiente.

Por ser fruto de uma relação entre sujeito e objeto, o conhecimento é sempre relativo. Supõe um
ponto de vista, limitações técnicas (a partir do uso de instrumentos) e limites do próprio sujeito
que conhece. O conhecimento absoluto é impossível, pois sua possibilidade implicaria um sujeito
sem limites – nem mesmo pessoais ou sócio-históricos (ARANHA; MARTINS, 2009). Isso fica ainda
mais claro quando nos deparamos com pessoas que privilegiam suas crenças religiosas, ou a
autoridade de algo ou alguém em detrimento de qualquer outro tipo de conhecimento. Como se
isso não bastasse, à medida que interagimos na relação com o mundo, com os inúmeros campos
e formas de conhecimento, muitas vezes questionamos a validade daquilo que anteriormente
tínhamos aceito como verdade.

Conforme Hessen (1999), é possível afirmar que existem cinco grandes formas de entender a relação
entre o sujeito e o objeto (posturas epistemológicas), visando à construção de conhecimento:

» O objetivismo defende que o objeto determina o sujeito e influencia na construção de


conhecimento do sujeito.

» O subjetivismo, contrário ao objetivismo, defende que a construção de conhecimento


se dá no próprio sujeito (consciência em geral), pois é o próprio sujeito que produz e
dá forma ao objeto. Protágoras (século V a.C.), por exemplo, dizia que o “homem é a
medida de todas as coisas”.

» O realismo sustenta a tese de que o objeto existe independentemente do sujeito, sendo


o objeto o ponto de partida do ato do conhecimento. A independência dos objetos,
em relação à consciência do homem, é real, uma vez que o objeto pode modificar-se
independentemente da ação do homem.

» O idealismo, contrário ao realismo, defende que não existem objetos reais, independentes
da consciência do homem, mas, sim, como um produto do pensamento do homem.
Vai-se do pensamento diretamente à análise do objeto.

» O fenomenalismo, por sua vez, estabelece uma relação entre o realismo e o idealismo,
pois considera que os objetos existem por meio da nossa consciência, mais do que
isso, é moldado pela própria consciência do sujeito. Para Kant, não conhecemos as
coisas em si (nômeno), mas como elas se nos apresentam (fenômeno, termo derivado

11
CAPÍTULO 1 • A natureza do conhecimento

de fenomenon = aparência). Há coisas reais, mas não podemos conhecer a “essência”


das coisas, só a sua aparência.

Existem diferentes tipos de conhecimento. Vejamos aqui alguns dos mais conhecidos.

Tipos de conhecimento

Conhecimento intuitivo

O termo “intuição” tem sua origem no latim in tueri, e significa “ver em”, “contemplar”. Na verdade,
a intuição é uma modalidade de conhecimento, com característica de tentar entender o objeto
sem “meio” de comparações. O conhecimento intuitivo é de ordem subjetiva e não empírica.

Para Aristóteles, o ser humano pode e consegue conhecer as coisas que o cerca justamente porque
tem uma capacidade para enxergar e intuir os princípios que regem os fenômenos. Assim sendo,
ele seria dotado de uma visão interior, que se traduz pela capacidade de ver o que é essencial
dentro dos dados da experiência sensorial. Essa visão poderia ser definida como intuição.

É fácil entender uma intuição sensorial se entendemos que os sentidos não analisam, não
comparam e não julgam, por exemplo, o conhecimento que se tem da temperatura da água de uma
vasilha em temperatura ambiente. Contudo, através da intuição, temos uma ideia da temperatura
no instante em que se toca com a mão; outro exemplo é a emoção do prazer que se experimenta
em determinada situação. É um dado de experiência interna apreendido imediatamente e que
associamos a outras experiências de modo intuitivo.

A percepção, cujo objeto passa para a mente sem necessidade de um conhecimento prévio, tem
sua origem na experimentação e no sentir mediante as sensações transmitidas pelos órgãos dos
sentidos: visão, audição, tato, gustação e olfato; a esse processo denomina-se conhecimento
intuitivo sensorial.

Entretanto, o conhecimento intuitivo sensorial não se realiza exclusivamente pela experiência


de fenômenos externos, visto que existe outra experiência interna, a qual denominamos de
reflexão, que pode ser entendida como a ação de examinar o conteúdo por meio do entendimento,
da razão.

A experiência externa utiliza os órgãos dos sentidos para a apreensão do objeto, e a experiência
interna limita-se a comparar os diferentes dados da experiência externa. Contudo, é possível
por meio da reflexão intuir (ter uma ideia) se fará sol ou chuva ou, ainda, se alguém concordará
conosco ou não. Evidentemente, como qualquer tipo de conhecimento, tal ideia poderá ser
verídica ou não. Só o tempo e a experiência dirão se ela foi verdadeira ou falsa.

12
A natureza do conhecimento • CAPÍTULO 1

Entre as vantagens desse tipo de conhecimento, poderíamos destacar:

» a possibilidade de formular juízos e ideias rápidas diante de situações que exigem


agilidade, independente das experiências sensoriais;

» permitir que o homem vá além das experiências sensíveis, formulando juízos com base
em experiências anteriores ou no bom senso;

» favorecer o pensamento mediante uma reflexão interior.

Conhecimento empírico ou de senso comum

Também conhecido como conhecimento sensório ou vulgar, o conhecimento empírico é o


conhecimento popular, e, como tal, a forma mais tradicional de conhecimento sobre algo. Nesse
tipo de conhecimento, a realidade é conhecida pela sensação de suas características principais. É
um conhecimento que se obtém ao acaso, ele não é metódico ou sistemático, resultando muitas
vezes em diversas tentativas de ensaio e erro sem qualquer compromisso com a apuração ou
análise mais aprofundada. Todo ser humano, no transcurso de sua existência, vai acumulando
conhecimentos daquilo que viu, ouviu, provou, cheirou e pegou; do mesmo modo vai acumulando
vivências e interiorizando as tradições da cultura da comunidade.

Na verdade, essas experiências (empirias) – que não atendem critérios e sistemas são ingênuas
por suas visões generalistas e desprovidas de críticas e demonstrações - oferecem informações de
tradições dispensando as análises de credenciais de testemunhos, embasando-se nos fundamentos
das crenças tradicionais de uma comunidade.

Todo ser humano bem informado traz consigo “conhecimentos” de “psicologia”, “farmacologia”,
especialmente algumas mulheres que já tiveram filhos, as quais se veem “habilitadas” para dar,
gratuitamente, “consultas” e “receitas infalíveis” para as cólicas do recém-nascido e para qualquer
dor de cabeça, elas têm conhecimento de um comprimido ou chá eficaz para o alívio; entretanto,
ignoram a composição do comprimido, a natureza da dor de cabeça e a ação do medicamento.
E é isso que caracteriza o conhecimento vulgar ou empírico, pois o conhecimento das coisas
ocorre de modo superficial, seja por informação ou experiência casual (ações não planejadas).

Cabe ressaltar que, para qualquer homem, a porção maior de seus conhecimentos pertence à
classe do conhecimento vulgar. Ninguém precisa estudar lógica e aprofundar-se em teorias sobre
validação científica da indução ou nas leis mais formais do raciocínio dedutivo para ser natural
e lógico; ninguém precisa devotar-se aos estudos mais avançados da psicologia e qualquer outra
ciência de saúde para integrar-se na família, no trabalho, na sociedade, assim como ninguém
precisa ser teólogo para adotar uma religião e ter suas convicções mais profundas da ciência,
uma vez que as convicções são subjetivas e se traduzem por uma absoluta fixação de enunciados
evidentes ou não, verdadeiros ou não.

13
CAPÍTULO 1 • A natureza do conhecimento

Vejamos alguns exemplos de aplicações resultantes do Conhecimento Empírico:

» a invenção da roda;

» a descoberta do fogo;

» a medicina popular.

Conhecimento filosófico

A palavra “filosofia” tem sido empregada com significados muito diferentes entre si. O significado
etimológico da palavra de origem grega significa “amor ao conhecimento”. A tarefa básica do
conhecimento filosófico é a reflexão continuada. Os antigos gregos chamavam de “filósofos”
os homens mais sábios, que apresentavam as explicações mais razoáveis na sua época para os
mistérios da natureza, do pensamento, do universo.

O conhecimento filosófico é caracterizado pela coerência lógica da argumentação, isto é, da


trama dos conceitos articulados em determinada formulação de ideias. Na construção desse
tipo de conhecimento, não há necessidade de uma confirmação experimental. Ele se distingue
do conhecimento científico pelo objeto de investigação – constituído por realidades que muitas
vezes escapam aos sentidos e a experiência – e pelo método que se baseia basicamente na
interrogação continuada.

A Filosofia procura compreender a realidade em seu contexto mais universal. Não traz soluções
definitivas para o grande número de questões, contudo leva o ser humano a fazer uso de suas
faculdades para ver melhor o sentido da vida (CERVO; BERVIAN, 2002). O campo da Filosofia
ultrapassa o campo de todas as ciências. Por sua dimensão mais ampla, abarca todas as ciências
sem, contudo, pretender substituí-las no estudo particular de seus objetos específicos.

Veja alguns exemplos de aplicações decorrentes do Conhecimento Filosófico:

» a Matemática.

» a Teoria do Conhecimento.

» a Lógica.

Conhecimento teológico ou de fé

De cunho religioso e místico, o conhecimento teológico ou de fé se detém na opinião de terceiros,


de modo especial por meio da chamada “revelação”. Existem objetos da realidade à nossa volta
que escapam tanto aos nossos sentidos quanto ao nosso raciocínio, impedindo, assim, que deles
tenhamos dados empíricos ou lógicos. Por exemplo: não sabemos ao certo o que alguém está
pensando ou sentindo, assim como não sabemos o que acontecerá conosco depois de nossa morte

14
A natureza do conhecimento • CAPÍTULO 1

biológica. Nesses casos, lidamos com essa realidade através da opinião de terceiros (revelação),
aceita como verdade.

O conhecimento revelado ocorre quando há algo oculto ou um mistério. Aquele que manifesta
o oculto é o revelador – que pode ser o homem ou o próprio Deus. Em geral, a fé teológica
está ligada a alguém que testemunha Deus diante de outras pessoas, isto é, alguém que vive o
mistério divino, que tem conhecimento dele e o revele a outra pessoa. Uma igreja, por exemplo,
seria constituída por um conjunto de pessoas que vive esse milagre, acredita no mesmo e dá
testemunho deste a outros.

As verdades do conhecimento teológico estão dispostas em textos como a Bíblia e o Alcorão,


considerados sagrados, ou ainda na tradição que nos é transmitida por terceiros (padre, rabino,
pastor etc.). Não adianta querermos buscar evidências para a Eucaristia ou a realização de um
milagre. Ou se acredita naquilo, por meio dos textos sagrados e das tradições religiosas, como
dogma, isto é, uma verdade inquestionável, ou não. Como afirma Ruiz (1980):

Se tudo o que está na Bíblia encerra a própria ciência divina comunicada por
Deus aos homens; se Deus merece todo crédito e exige que os homens revelem
sua palavra, que não se procure a evidência dos conteúdos da revelação
divina, mas que se aceite o dogma porque assim foi divinamente revelado
(RUIZ, 1980, p. 33).

O conhecimento teológico supõe uma autoridade e uma lógica acima da compreensão humana,
isto é, uma lógica e uma compreensão de ordem divina. A teologia não demonstra o dogma,
clama para a autoridade divina que o revelou e exige um voto de confiança (fé). A teologia
mostra a existência e a necessidade de uma especial iluminação divina para que o fiel consiga
conhecer a verdade divina da revelação. A fonte e o objeto de estudos da teologia são os livros
sagrados.

A ciência, nascida da razão, só admite o que foi provado, na exata medida em que se pode
comprovar experimentalmente, promovendo, dessa forma, o conhecimento, a partir da evidência
dos fatos. A Filosofia, por sua vez, também valoriza a lógica e os dados racionais. A diferença
entre esses e o conhecimento teológico é que neste último exige-se a fé, que brota do desejo e
da submissão, a partir da autoridade divina. Por isso, tanto a ciência quanto a Filosofia não se
baseiam no conhecimento de fé.

Como contribuições advindas do conhecimento teológico ou religioso, poderíamos citar:

» o desenvolvimento dos valores morais;

» a criação de princípios e teses sobre o sentido da vida;

» o cultivo da caridade e da esperança fundamentais para a vida em sociedade.

15
CAPÍTULO 1 • A natureza do conhecimento

Conhecimento científico

O conhecimento científico vai além do fenômeno em si, voltando-se para suas leis, causas e
consequências, mediante a capacidade de analisar, de explicar, de desdobrar, de justificar, de
induzir ou aplicar leis, de predizer com significativa e, em alguns fenômenos, com absoluta
margem de segurança, eventos futuros.

Para Cervo e Bervian (2002), até a Renascença o conhecimento científico era tido como o
conhecimento obtido a partir de um rígido sistema de proposições rigorosamente demonstradas,
constantes e gerais, que expressavam as relações existentes entre os seres vivos. Era um
conhecimento resultante da demonstração e da experimentação, que só aceitava como verdadeiro
aquilo que fosse comprovado. Hoje, a concepção de ciência mudou. É óbvio que ela continua
valorizando a razão, a sistematização e a comprovação pela pesquisa, contudo se sabe que a
ciência não é algo acabado, definitivo e infalível. Não sendo, de forma nenhuma, “a posse de
verdades imutáveis” (CERVO; BERVIAN, 2002, p. 9).

Atualmente, a ciência é entendida como: “uma busca constante de explicações e de soluções, de


revisão e de reavaliação de seus resultados, apesar de sua falibilidade e de seus limites” (CERVO;
BERVIAN, 2002, p. 10). Contudo, definitivamente a ciência não é ideologia (que busca a justificação
de posições vantajosas especialmente para quem está no poder), assim como também não é
mero senso comum (conhecimento acrítico e crédulo) ou simples bom senso.

Importante

Segundo Ander-Egg (1991), “A ciência é um conjunto de conhecimentos racionais, certos ou prováveis, obtidos
metodicamente, sistematizados e verificáveis, que fazem referência a objetos de uma mesma natureza” (ANDER-
EGG, 1991 apud LAKATOS; MARCONI, 1991, p. 15).

Citaremos algumas das principais características do conhecimento científico:

» visa a conhecer e a explicar os fenômenos;

» é sistemático e metódico;

» é crítico, rigoroso e objetivo;

» consolida-se na certeza das leis demonstradas;

» procura as relações entre os componentes do fenômeno para enunciar as leis gerais e


constantes que regem essas relações;

» justifica e demonstra os motivos e fundamentos de suas conclusões;

16
A natureza do conhecimento • CAPÍTULO 1

» estabelece leis válidas para todos os casos da mesma espécie que venham a ocorrer nas
mesmas condições;

» resulta de um processo complexo de análise e de síntese;

» fundamenta-se na objetividade e na evidência dos fatos.

Além disso, o conhecimento científico busca sempre cultivar a coerência (ausência de contradição
e argumentação bem estruturada e fundamentada); a consistência (capacidade de responder a
argumentações contrárias); a originalidade (criativa e inventiva) e a objetividade (entendimento
claro de determinado objeto de estudo como ele é de fato).

Nos últimos 350 anos de história da humanidade, constatamos que a Terra é um planeta, que
o Sol é uma estrela de quinta grandeza, que as órbitas dos planetas são elípticas, que os corpos
biológicos são compostos de células, que os corpos físicos se formam e se sustentam em várias
cadeias de átomos, que a luz é um fenômeno físico, estimamos que o homem teria de 20 a 25
mil genes, entre outras inúmeras descobertas. Entendemos certas leis do universo e criamos
instrumentos e ferramentas que ampliaram nossos sentidos e elevaram nossa qualidade de
vida. Todas essas descobertas e invenções servem para exemplificar a importância do chamado
espírito científico.

Sobre o espírito científico

O chamado “espírito científico” pode ser entendido como uma atitude ou disposição subjetiva que
busca constantemente novas soluções, com métodos adequados, para problemas e interrogações
que caracterizam a pesquisa. Na prática, o espírito científico traduz-se pelo estímulo continuado
a uma mente crítica, objetiva e racional, sendo, portanto, algo a ser continuamente cultivado,
desde a educação infantil até a educação superior.

A objetividade é uma característica básica do espírito científico. O que vale não é o que o cientista
imagina ou pensa, mas, sim, o que realmente existe. Uma objetividade que não aceita soluções
parciais ou pessoais – o “eu acho...”, ou “penso ser assim...”; não satisfazem a objetividade do
saber científico.

Qualidades do espírito científico

A partir do que aprendemos sobre o espírito científico, é possível apontar algumas de suas
principais qualidades:

» Virtude intelectual

› Senso de observação, gosto pela precisão e pelas ideias claras. Imaginação ousada,
mas regida pela necessidade da prova.

17
CAPÍTULO 1 • A natureza do conhecimento

» Curiosidade

› Leva o sujeito a aprofundar os problemas na sagacidade e poder de discernimento.

» Humildade

› Moralmente o espírito científico assume a atitude de humildade e de reconhecimento


de suas limitações, das possibilidades de certos erros e acertos e enganos;

» Imparcialidade

› O espírito científico é imparcial. Não torce os fatos. Respeita escrupulosamente os


fatos;

» Não é acomodado

› Procura manter sempre em constante estado de vigília a curiosidade e a postura


investigativa necessárias ao desenvolvimento de uma pesquisa;

» Honestidade

› Não admite como seu o que os outros já fizeram (plágio); busca se comprometer com
a verdade dos fatos que investiga;

» Coragem

› Enfrenta os obstáculos e riscos que uma pesquisa possa oferecer;

» Ética

› Assume a atitude de humildade e de reconhecimento de suas limitações, da


possibilidade de cometer erros e enganos e de reconhecer outros trabalhos científicos
tão ou mais importantes do que o seu.

As qualidades do espírito científico elencadas podem ser traduzidas como valores que deverão
ser cultivados por você na elaboração de seu trabalho monográfico ou qualquer outro tipo de
trabalho científico que pretenda desenvolver.

Esperamos que esse primeiro capítulo reforce em você tais qualidades, de modo a fortalecê-las
ainda mais e auxiliá-lo em suas futuras produções de conhecimento científico de forma eficiente
e ética.

Saiba mais

Veja um interessante vídeo de uma palestra do físico Marcelo Gleiser, intitulada “A Nova Ciência e a Manutenção
da Vida”. Procure entender até que ponto sua fala vai de encontro ao que conversamos nesta unidade sobre
conhecimento e ciência.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=zQrGQJbyfho>.

18
A natureza do conhecimento • CAPÍTULO 1

Sintetizando

Neste capítulo:

» estudamos o significado de conhecimento enquanto uma relação entre sujeito e objeto através da análise de cinco
de suas expressões: conhecimento intuitivo, empírico, filosófico, de fé e científico.

» aprendemos a diferenciar e reconhecer propriedades comuns entre os cinco tipos mais conhecidos de
conhecimento.

» destacamos o papel do conhecimento científico como um tipo de conhecimento diferenciado, que se pauta em
uma metodologia própria e foi fundamental para o desenvolvimento da sociedade.

» refletimos, por fim, juntos sobre o que é espírito científico, suas características e a importância de seu cultivo por
parte daqueles que desejam ingressar no terreno da pesquisa e contribuir para o desenvolvimento da ciência.

19
CAPÍTULO
A CIÊNCIA E SUA HISTÓRIA 2
Introdução

A história da ciência é muito rica e acompanha a própria evolução do homem e sua maneira
de entender a si mesmo e a realidade à sua volta. De forma sucinta, nesta , aprenderemos mais
sobre o nascimento da ciência e sua evolução, desde o pensamento pré-científico dividido em
três momentos (medo, misticismo e pensamento filosófico) até as diferentes concepções da
ciência (racionalista, empirista e construtivista) passando pelas diferentes etapas do pensamento
científico.

Objetivos

» Compreender o conceito de ciência e sua trajetória histórica.

» Diferenciar os diferentes tipos de raciocínio utilizados no método científico.

» Entender melhor o contexto que favoreceu o aparecimento e o desenvolvimento do


método científico.

» Refletir sobre o papel e a importância da ciência em nossos dias.

O alvorecer da ciência

Não é exagero afirmar que a Ciência é fruto direto da evolução do homem no decorrer de sua
história. Convido você a examinar essa afirmativa a partir de três momentos que antecedem
o pensamento científico e traduzem essa evolução do homem e da ciência no decorrer de sua
história.

Oliveira (2011) destaca que, antes do surgimento da ciência propriamente dita, dois momentos
importantes caracterizaram a forma do homem conhecer e lidar com o desconhecido à sua
volta: o medo e o misticismo.

20
A Ciência e sua História • CAPÍTULO 2

O primeiro momento do alvorecer da humanidade é marcado pelo medo. Uma vez que nossos
ancestrais não detinham formas de lidar com aquilo que não conheciam (e esse desconhecimento
englobava tantos as alterações climáticas quanto as mudanças que se processavam em seu próprio
corpo), as primeiras reações que o ser humano experimentou diante de toda essa complexa e
ininteligível realidade foi o medo e o espanto.

O segundo momento, destacado por Oliveira (2011), que igualmente antecedeu a ciência foi o
misticismo. Frente ao que ignorava e não sabia explicar, o homem buscou vencer o medo através de
crenças e superstições. Essa era uma forma eficiente de lidar com todo tipo de dúvida e incerteza
associada à ignorância daquilo que acontecia consigo e à sua volta. Assim, a erupção vulcânica
era associada à ira divina, a boa colheita à vontade do deus X, o sucesso na caça ao deus Y, em
um jogo funcional de bênçãos e maldições. Esse pensamento mágico favoreceu a transformação
do medo em algo bem mais aceitável e de certa forma até “controlável”.

Um terceiro momento apontado por outros autores como o pensamento pré-científico seria
o pensamento filosófico, marcado pela observação e reflexão lógica. A Filosofia surgiu com o
objetivo de romper com o pensamento mítico e promover uma nova interpretação da realidade
baseada na razão. Como já estudado na unidade anterior, a Filosofia é considerada a mãe da
Ciência, por valorizar o pensamento racional, a reflexão lógica e sistemática. Todavia, ao contrário
da Ciência, a Filosofia não se preocupa necessariamente com a comprovação ou mensuração
daquilo que é observado. Indo muito além do observável. A Filosofia lida constantemente com
hipóteses que não podem ser submetidas à observação ou verificação. O critério de verdade da
Filosofia é a coerência lógica de seus enunciados e proposições.

O papel da Filosofia sempre foi o de interrogar a realidade e o homem enquanto ser inserido
tanto em seu contexto sócio-histórico quanto em um âmbito mais universal. A questão é que
não existem soluções definitivas para o grande número de questões que ela se propõe a formular
considerando sua natureza.

Finalmente o último momento dessa evolução das diferentes formas de entendimento da


realidade foi o surgimento da própria ciência, tendo em vista que os conhecimentos anteriores
deixavam lacunas e ainda não davam conta de explicitar a realidade na sua complexidade de
forma satisfatória. Nesse contexto, surgiu então o pensamento científico com sua metodologia
diferenciada. A ciência não se contenta com explicações lógicas, mas sim em uma observação
criteriosa e sistemática que favoreça a comprovação das afirmativas com base na demonstração
e experimentação.

Por um lado, o conhecimento científico é o mais restrito entre todos os tipos de conhecimento
apresentados na unidade anterior de promover conhecimento sobre a realidade, na medida em
que exige uma comprovação de seus enunciados. Todavia, ele é também o mais sofisticado entre

21
CAPÍTULO 2 • A Ciência e sua História

os demais, em função da sistematização, do rigor e da objetividade do método científico, que


favorece um conhecimento mais aprofundado da realidade.

Como já foi dito na introdução desse trabalho, isso não significa, em nenhuma hipótese, que
a ciência seja produtora de verdades absolutas, ou mesmo geradora do único conhecimento
verdadeiramente válido para entender a realidade. Não se trata aqui de desconsiderar a importância
de outras formas de conhecimento a partir da valorização do conhecimento científico, mas, sim,
de reconhecer os avanços e as descobertas promovidas pela ciência em busca de aproximação
da realidade.

Do mesmo modo, devem-se levar em consideração que, na efetivação do método científico, por
intermédio da pesquisa, as escolhas mais significativas recaem justamente sobre os aspectos
filosóficos, éticos, sociais, políticos e culturais, motivo pelo qual muitos autores como Japiassu
(1981) duvidam da chamada “neutralidade da ciência”.

A evolução do pensamento científico

A passagem através dos três momentos anteriormente analisados até chegarmos ao pensamento
científico (medo, pensamento mítico e reflexão filosófica) se deu de forma gradual através de
diferentes fatores como a valorização da escrita, as grandes navegações, o contato com outros
povos, o estabelecimento de princípios legais organizadores da vida em sociedade, o surgimento do
calendário. Segundo Araújo (2011), tais transformações foram decisivas para uma visão científica
primária que perdurou até sua substituição no mundo ocidental pelo domínio do catolicismo e,
portanto, da religião cristã, em que o conhecimento de fé e da autoridade religiosa se baseavam
no texto bíblico, fonte de todas as verdades. Isso se deu de tal forma que, na chamada Idade
Média, a Igreja Católica serviu de marco referencial para todas as ideias debatidas na época. Visto
que o saber era retido nos mosteiros, a população em geral não participava do acesso e, muito
menos, da construção desse saber. Qualquer saber que fosse contrário às afirmativas bíblicas,
era negado e considerado herético.

Apenas no final da Idade Média foi possível vislumbrar uma mudança nesse quadro quando
Tomás de Aquino buscou, por intermédio dos ensinamentos deixados por Aristóteles, conciliar
a fé com a razão. Tida apenas como uma auxiliar para a fé, a razão nunca podia, até então, se
opor à fé, uma vez que esta era tida como um dogma, ou seja, uma verdade inquestionável.
Com Tomás de Aquino, foi possível entender que era possível a formulação de conhecimentos
verdadeiros tanto por meio da fé quanto da razão, não sendo elas antagônicas.

A crise teológica derivada desse pensamento, no qual os milagres, por exemplo, não poderiam
contrariar as leis da lógica (precisavam ser comprovados logicamente), fez com que muito da
intervenção divina sobre a humanidade só pudesse ser explicada através da fé. Muitos autores

22
A Ciência e sua História • CAPÍTULO 2

concordam que esse foi o momento propício ao fortalecimento do humanismo e das ideias
renascentistas responsáveis pela valorização da ciência, da arte e da filosofia como representantes
legítimos da produção de conhecimento humano. De um lado, havia os teólogos que debatiam
os dogmas e as verdades religiosas e, de outro, os estudiosos e cientistas que tentaram entender
a realidade através de outros meios diferenciados do conhecimento religioso, como a lógica e a
observação sistemática.

No final da Idade Média, com o avanço do Renascimento (séculos XV e XVI) – que valorizava as
diferentes expressões do pensamento em sua multiplicidade – e o Iluminismo (XVII e XVIII) –
que propunha a valorização da luz da razão sobre as trevas das crenças e dogmas religiosos –, a
hegemonia dos estudos sobre a vida passou definitivamente das mãos da igreja para a ciência. É
válido destacar, entretanto, que, embora muitos membros do corpo eclesial tenham abandonado
seus estudos, o que fez com que a Igreja Católica fosse ao longo do tempo uma das religiões mais
associadas a descobertas científicas e patrocinadora de estudos científicos (WOODS, 2012).

O auge da ciência tal como a conhecemos se deu no século XIX, no momento em que a produção
científica passou a ser sinônimo de verdade, e tudo que não fosse científico não era digno de
importância. Entre os avanços nesse período, merecem destaque a Teoria da Hereditariedade das
Espécies (Teoria da Evolução), de Charles Darwin; a criação e o desenvolvimento da Sociologia,
por Auguste Comte, e a leitura de sociedade através das questões socioeconômicas proposta
por Marx e Engels.

As três concepções de ciência

Segundo Marilena Chauí (2000), a ciência se desenvolveu até seu estágio atual a partir de três
concepções diversas que marcaram o que conhecemos como ideal de cientificidade. São elas:

» Concepção racionalista (baseada na matemática como modelo de racionalidade).

» Concepção empirista (baseada na observação criteriosa e experimentação).

» Concepção construtivista (que vê o papel da ciência como a formuladora de modelos


próximos da realidade, mas não a realidade em si).

Tanto a Concepção Racionalista quanto a Concepção Empirista têm sua origem com os gregos
e se estende até o final do século XVII. Segundo essa concepção, a ciência é um conhecimento
racional e dedutivo semelhante à matemática e, como tal, deve ser capaz de elaborar enunciados
e atingir resultados que seriam verdades universais sem que existam sobre os mesmos qualquer
tipo de dúvida. O conhecimento nessa concepção é obtido inteiramente pela teoria e o objeto
de conhecimento seria a realidade. Assim sendo, as experiências científicas serviriam apenas
para verificar e confirmar as proposições teóricas.

23
CAPÍTULO 2 • A Ciência e sua História

Na Concepção Empirista, por sua vez, que se estendeu até o século XIX, existe uma inversão da
concepção anterior no que tange à teoria e à experimentação. Enquanto na concepção racionalista
a experimentação se dá a partir da formulação teórica, naquela concepção a ciência resulta
basicamente das observações dos experimentos que permitem estabelecer induções que vão
favorecendo a compreensão do objeto de estudo e a formulação teórica.

O elo comum das duas concepções citadas (racionalismo e empirismo) é o fato de que ambas
entendem a teoria como uma explicação aceitável e verdadeira da realidade. Ou seja, a teoria
científica é uma explicação da própria realidade tal como ela é.

Por fim, a concepção mais recente é a construtivista, que entende a ciência como um instrumento
de criação de modelos, os quais, embora se aproximem da realidade, não dão conta da realidade
em si mesma. Nesse sentido, mesmo usando o estabelecimento de postulados (típico dos
racionalistas) e a experimentação ativa (mais associada ao empirismo), a concepção construtivista
defende que a ciência não busca verdades absolutas, mas verdades aproximadas da realidade
que vão sendo aperfeiçoadas a partir da descoberta de novos estudos e desenvolvimento de
novos instrumentos de pesquisa.

Valoriza-se, assim, “a ideia de um conhecimento aproximativo e corrigível” (CHAUÍ, 2000, p. 321).

Karl Popper (1980) compactua com esse pensamento ao criticar duramente o pensamento
positivista. Para ele, a ciência sempre avança por meio da refutação das teorias já existentes,
de modo que a refutação de uma teoria implica a formulação de novas teorias mais aptas e
avançadas para explicar a realidade.

Formas de raciocínio científico

O debate sobre o método científico no século XX se deteve também nas características e diferenças
entre as duas formas de raciocínio bastante utilizadas no campo da ciência: o método indutivo
e o método dedutivo. Examinemos cada um deles cuidadosamente para entendermos bem a
lógica que cada raciocínio encerra:

O raciocínio indutivo (Método hipotético indutivo)

Este tipo de raciocínio parte de casos particulares para a formulação de uma conclusão geral.
Ele pode ser estruturado em duas etapas:

Etapa 1: definição de premissas a partir da observação sistemática da realidade, visando a


entender seus fenômenos constituintes e as relações entre eles.

24
A Ciência e sua História • CAPÍTULO 2

Etapa 2: conclusão: a relação entre os fenômenos anteriormente observada é valorizada e


generalizada (ampliada) para outros fenômenos de características semelhantes que não foram
observados.

Vamos ver um exemplo para entender melhor?

Premissas:

» A prata transmite eletricidade.

» O cobre transmite eletricidade.

» O níquel transmite eletricidade.

Conclusão:

» Todos os metais transmitem eletricidade.

A generalização que esse método defende é a existência de leis estáveis que regeriam a natureza
de tal modo que, a partir de condições semelhantes, as mesmas causas produziriam os mesmos
efeitos. O problema desse tipo de raciocínio é que, mesmo que as premissas estejam corretas,
isso não significa que a conclusão também esteja. No caso acima, é possível descobrir um metal
que não transmita eletricidade, ainda que a maioria tenha essa propriedade.

O raciocínio dedutivo (Método hipotético dedutivo), em oposição ao método indutivo, parte


de premissas gerais para chegar a conclusões específicas (particulares). Ele também se dá em
duas etapas.

Etapa 1

» Afirmar uma verdade válida para um caso geral e identificar um caso particular que se
insira nessa verdade.

Etapa 2

» Afirmar que a verdade válida para o caso geral também seria para o caso particular.

Vejamos um exemplo então:

» Premissa geral.

› Todo ser humano precisa respirar para viver.

» Caso particular

› Você que lê este caderno é um ser humano.

25
CAPÍTULO 2 • A Ciência e sua História

» Conclusão

› Logo, você também precisa respirar para viver.

O desafio associado a esse raciocínio é que ele precisa partir de premissas verdadeiras, pois, se
as premissas forem inverídicas, a conclusão obtida também será, ainda que tenha alguma lógica.

Atualmente, as pesquisas acadêmicas utilizam um ou outro dos dois métodos citados em função
do objeto de estudo, sua(s) área(s) e o tipo de pesquisa que se pretende desenvolver. Um exemplo
claro e atual que poderíamos utilizar para ilustrar a forma como o conhecimento científico tem
sido produzido hoje é o método da problematização (mais associado ao método hipotético
dedutivo), viabilizado por meio do Arco de Charles Maguerez.

O arco de Maguerez

Essa metodologia de pesquisa, também denominada de metodologia do arco, tem como ponto
de partida, e também de chegada, a relação “ação-reflexão-ação”, estimulando a experiência
e a análise crítica de forma contínua, sendo marcada por cinco etapas inter-relacionadas
(MAGUEREZ,1996 apud BORDENAVE, 2002):

a. observação da realidade e formulação de problema;

b. identificação/formulação de pontos-chave;

c. teorização;

d. construção de hipótese(s) de solução(ões);

e. aplicação à realidade.

Disponível em: <http://konrad-otto.tumblr.com/pequenogrupo>. Acesso em: 10 jun. 2017.

26
A Ciência e sua História • CAPÍTULO 2

Vejamos cada uma dessas etapas voltadas ao processo de construção do conhecimento científico:

a. Observação da realidade: a partir do tema/objeto de estudo predefinido, o pesquisador


parte da observação da realidade visando a identificar elementos que serão
problematizados;

b. Identificação/formulação de pontos-chave: por meio de uma análise crítica dos


elementos identificados, o pesquisador busca formular e hierarquizar diferentes causas
para a existência do problema. A partir dessa hierarquia, o pesquisador formula os
pontos-chave (fatores determinantes) que deverão ser estudados sobre o problema;

c. Teorização: nessa fase, os dados coletados e devidamente registrados são analisados e


discutidos buscando-se um sentido para eles. É nesse momento que o pesquisador se
organiza tecnicamente para buscar, por meio da pesquisa bibliográfica (e webgráfica),
uma solução para o problema encontrado, dentro de cada ponto-chave predefinido;

d. Hipóteses de solução: a partir do conhecimento adquirido na fase anterior, ou seja,


embasado teoricamente, o pesquisador formula hipóteses de solução dos problemas
levantados;

e. Aplicação à realidade: o pesquisador busca, nessa fase final, aplicar as hipóteses de


solução propostas à realidade estudada, como um retorno à primeira etapa de todo o
arco. É essa etapa que possibilita ao pesquisador uma intervenção direta na realidade
a partir das possíveis soluções obtidas.

Normalmente desenvolvida em grupo, vale ressaltar que os resultados obtidos com um Arco
de Maguerez pode servir ao início de muitos outros arcos. A riqueza dessa metodologia e suas
etapas reside na possibilidade de mobilizar diferentes habilidades intelectuais do pesquisador
de forma orientada a formular hipóteses e buscar resultados aplicáveis a realidade (COLOMBO;
BERBEL, 2007).

A partir do que foi analisado nessas duas unidades anteriores, é possível entender a ciência como
uma criação humana para entender e explicar os fenômenos da realidade. Sua contribuição
para o progresso em diferentes âmbitos foi decisiva especialmente quando consideramos a
cooperação entre ciência e tecnologia e o atual estágio do desenvolvimento técnico-científico em
que nos encontramos e que nos surpreende dia a dia com uma novidade. Como esclarece Rosa
(2012), “O Homo Sapiens que levara milhares de anos até a Revolução Agrícola e a descoberta
na utilização dos metais para iniciar a Revolução Industrial, necessitaria apenas cerca de um
século para ingressar na era do computador e da informática”. Nesse sentido, é notório o triunfo
do pensamento científico no mundo contemporâneo.

Na atual era do conhecimento, a Ciência passa a se caracterizar por uma crescente complexidade
teórica e experimental fazendo com que todos os seus ramos tenham evoluído em um ritmo

27
CAPÍTULO 2 • A Ciência e sua História

consideravelmente acelerado. A obra mais individualizada do cientista vem dando lugar ao


trabalho com um grupo de pesquisadores – e até mesmo redes de pesquisa – empenhado na
busca de solução para os desafios do mundo contemporâneo (ROSA, 2012). As instituições de
pesquisa, por sua vez, adquiriram uma posição cada vez mais acentuada de relevo na sociedade
particularmente mediante a parceria público-privada. E, ao que tudo indica, parece não haver
limites para a expansão do conhecimento científico, desde que os pilares éticos sejam preservados.

Sintetizando

Vimos até agora:

» como a ciência foi evoluindo no decorrer da história humana, especialmente desde os três momentos considerados
pré-científicos até a formação da ciência moderna tal qual nós a conhecemos.

» as diferentes concepções de ciência (racionalismo – século XVII, empirismo – século XVIII e construtivismo – século
XX) que contribuíram para sua conformação atual, bem como os dois tipos principais de raciocínio científico
(indutivo e dedutivo). Ademais, estudamos como é complexa e inacabada a discussão sobre o povoamento do
continente americano e do território brasileiro.

» um método prático de se fazer pesquisa, muito utilizado por profissionais de diferentes áreas por sua eficácia
e praticidade: o Arco de Maguerez ou Metodologia do Arco constituída das seguintes etapas: a) observação da
realidade; b) identificação/formulação de pontos-chave; c) teorização; d) hipótese de solução; e e) aplicação à
realidade.

28
COMO ESTUDAR MELHOR?
CAPÍTULO
3
Introdução

Neste terceiro capítulo, aprenderemos sobre diferentes estratégias de acesso à informação e


produção do conhecimento por meio do estudo. A chave para a elaboração de uma monografia
de qualidade é o estudo prévio que fundamenta o trabalho, fornece novas ideias ao pesquisador
e o auxilia no sentido de perceber a relevância e a originalidade do trabalho a ser desenvolvido.

No decorrer do capítulo, serão destacados pontos importantes para que você possa estudar melhor
trazendo uma série de dicas que irão auxiliá-lo desde a preparação exterior do local de estudo
até a preparação interior do aluno no sentido de estimular funções mentais superiores como
atenção, memória e criatividade. Aproveite as dicas fornecidas neste capítulo não apenas para a
preparação de sua monografia, mas em seu curso como um todo, visando ao aperfeiçoamento
de seus estudos.

Objetivos

» Esclarecer a importância do estudo para a vida acadêmica e fornecer dicas sobre como
torná-lo mais eficiente ao processo de produção do conhecimento científico.

» Apresentar diferentes técnicas de estudo como produção de fichas, esquemas, resumos


e outros.

» Promover uma autorreflexão sobre quais seriam os métodos mais adequados ao seu
ritmo de estudo.

O hábito de estudar

Um dos principais objetivos dos cursos universitários é o de desenvolver nos estudantes o espírito
científico caracterizado pela produção acadêmica. Entretanto, pouco se conseguirá, nesse sentido,
se os iniciantes em trabalhos científicos não tiverem adquirido hábitos de estudo sistemáticos
mediante a utilização de métodos e técnicas adequadas.

29
CAPÍTULO 3 • Como estudar melhor

Desse modo, a primeira etapa que o aluno precisa vencer para se tornar um estudioso é conhecer
e utilizar procedimentos que possam favorecer seus estudos. Estudos realizados comprovam a
validade de tal afirmativa. Severino (1991), por exemplo, adverte que o ensino superior exige
dos universitários:

» autonomia no processo de aprendizagem e postura autônoma, didática rigorosa, crítica


e criativa aplicada aos estudos;

» um projeto de trabalho intelectual individualizado, apoiado em material didático e


científico, que se constitui, basicamente, na consulta e análise da bibliografia especializada.

Além disso, é sempre válido o conselho de Paulo Freire (1977) ao advertir que “Estudar exige de
quem o faz uma postura crítica, sistemática. Exige uma disciplina intelectual que não se ganha
a não ser praticando-a” (FREIRE, 1977, p. 9).

Sobre a pesquisa bibliográfica e a formação de um acervo pessoal, vale aqui algumas dicas:

Existem livros fundamentais (por vezes clássicos) nas diferentes áreas do conhecimento que
devem ser adquiridos ou pelo menos pesquisados. Do mesmo modo, a assinatura e/ou consulta
de revistas especializadas é um hábito a ser cultivado, uma vez que os relatórios de pesquisa e as
descobertas nas diferentes áreas do conhecimento, antes de aparecerem em livros, são publicados
nesses meios. As revistas também oferecem a oportunidade de se ampliar a bibliografia sobre
determinado assunto com novas e atualizadas referências. Atendem a essa mesma lógica as
revistas eletrônicas, como as revistas universitárias disponibilizadas on-line.

É importante que o estudante universitário acostume-se com o ambiente das bibliotecas, embora
em algumas delas o acervo seja limitado e pouco renovado. De qualquer maneira, o estudante
deve frequentá-las, explorá-las. Grande parte das bibliotecas universitárias de hoje possuem
obras de referência geral, periódicos, livros, dissertações de mestrado, teses de doutorado etc.

As bibliotecas são organizadas no sentido de auxiliar os leitores e pesquisadores. Assim, seu


acervo se apresenta classificado por assunto, título e autor, em fichas individuais reunidas em
fichários por ordem alfabética. Nas fichas, além de dados sobre a obra e o autor, está registrada a
referência da obra (código da biblioteca), através da qual ela é localizada nas prateleiras. Muitas
bibliotecas são informatizadas, oferecendo uma alternativa de organização mais moderna.

Atualmente, existe uma série de revistas e artigos eletrônicos que valem a pena consultar e conhecer
melhor de forma rápida, prática e dinâmica. As chamadas bibliotecas virtuais, por exemplo, são
uma forma bastante otimizada e eficiente de se ter acesso a uma bibliografia atualizada sobre
aquilo que o estudante pesquisa.

Mesmo tendo o devido cuidado de citar apenas sites confiáveis, é impossível deixar de considerar
a grande quantidade de material disponível na internet que ainda sequer foi publicado e,

30
Como estudar melhor • CAPÍTULO 3

provavelmente, nem venha a ser. É possível ainda ter acesso a várias obras disponibilizadas
na íntegra na internet (ebooks) por um preço bem mais acessível do que se essas obras fossem
adquiridas impressas.

Além do estudo, através de fontes bibliográficas e webgráficas, outros importantes espaços


de aprendizagem e intercâmbio de conhecimento são os encontros, seminários, congressos,
palestras, mesas redondas etc., que devem acompanhar o estudante por toda sua vida acadêmica.
A princípio, como participante, em seguida fazendo pequenas comunicações e, no decorrer da
vida acadêmica, integrando mesas-redondas, fazendo palestras etc., particularmente em eventos
associados à sua área de trabalho.

Saiba mais

Para quem quiser tirar à prova do quanto a internet pode auxiliar o trabalho do pesquisador, vale consultar o Scielo
(http://www.scielo.br). A Scientific Electronic Library Online (SciELO) é uma biblioteca eletrônica que abrange
uma coleção selecionada de periódicos científicos brasileiros. A SciELO é o resultado de um projeto de pesquisa da
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), em parceria com o Centro Latino-Americano e do
Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME). A partir de 2002, o Projeto conta com o apoio do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Outro aspecto a considerar, principalmente por aqueles que não têm muito tempo, uma vez que
precisam trabalhar e estudar, é o planejamento das atividades de estudo e a divisão adequada
do tempo através de uma programação (um roteiro de trabalho). Não se pode fazer um curso
se não houver tempo disponível para estudar e refletir. De fato, o estudante/pesquisador não
pode deixar de programar “seu tempo”, pois, sem essa administração, é difícil cumprir prazos
de trabalho e fazer um estudo sério e aprofundado.

Vale aqui observar algumas recomendações de Galliano (1986) sobre a utilização racional do
tempo, um de nossos bens mais preciosos:

» planeje seu tempo: essa é a forma correta de ganhar tempo para o estudo;

» procure utilizar melhor os períodos vagos em sua atividade profissional;

» substitua o horário de uma ou mais atividades não essenciais para obter mais tempo
de estudo;

» não estabeleça períodos muito longos de estudo sem pausa para descanso.

Para refletir

Examine sua rotina diária e veja até que ponto essas dicas podem lhe ajudar a aproveitar melhor seu tempo e investir
em seus estudos.

31
CAPÍTULO 3 • Como estudar melhor

Técnicas de leitura

Vejamos agora algumas técnicas de leitura que podem tornar nosso estudo mais proveitoso e
eficaz, especialmente se você não dispõe de tempo.

O ato de estudar impõe, segundo Luckesi (1996), que possamos assumir uma postura ativa como
sujeito da leitura, e não passiva, como objeto da leitura. A postura passiva é acrítica e se refere a
uma incapacidade de o leitor entender o texto com precisão e transcender as informações dadas.
Enquanto a postura ativa é crítica e se caracteriza por uma leitura consciente do texto que leva
o leitor a interrogar o autor e a tentar entender o que está nas entrelinhas do texto.

Galliano (1986) lembra-nos que toda leitura é feita com um propósito que pode ser a investigação,
a crítica, a comparação, a verificação, a ampliação ou a integração do conhecimento. Para atingir
esse propósito, devemos identificar as ideias principais do autor. Ocorre que poderemos estar
lendo um artigo, um livro, um capítulo de livro, ou mesmo um simples parágrafo. Sugerem os
especialistas que se proceda, inicialmente, a uma leitura integral do texto visando a identificar as
ideias centrais. Cada capítulo ou unidade pode conter uma ou mais ideias-chave que se articulam
com o objetivo central da obra estudada. Trabalhar a leitura a partir da identificação de tais ideias
facilita a sua compreensão, na medida em que o texto fica, assim, dividido em blocos que vão
sendo sucessivamente estudados a partir de suas ideias-chave.

Em algumas ocasiões, a ideia principal está explícita e é facilmente identificada. Em outras, ela
se confunde com as ideias secundárias. Quando se procura a ideia principal do autor em uma
obra, usam-se técnicas facilitadoras como a leitura do índice, dos títulos e subtítulos, do prefácio,
da introdução etc. (SALOMON, 1994). Para Severino (1991), essa fase da leitura caracteriza o que
ele denomina de “leitura temática”.

O último passo da leitura implica uma leitura interpretativa fazendo uma leitura mais crítica do
texto, procurando confrontá-lo com outras ideias de outros autores ou mesmo suas. É a partir
dessa leitura mais autônoma que se caracteriza a produção da leitura e consequentemente do
texto mais original e criativo.

Técnicas de esquematizar

O esquema é uma representação sintética do texto através de gráficos, códigos e palavras. Por
isso, é importante que este seja organizado segundo uma sequência lógica em que se destaquem
em primeiro lugar as ideias principais, seguidas por aquelas a elas subordinadas de maneira que
seja esclarecido o inter-relacionamento de fatos e ideias a essas relacionadas.

32
Como estudar melhor • CAPÍTULO 3

A elaboração de esquema exige a participação ativa do leitor na assimilação do conteúdo,


levando-o, também, a uma avaliação sobre a lógica do texto. Para Salomon (1994), as principais
características de um bom esquema são:

» fidelidade ao texto;

» estrutura lógica;

» adequação ao assunto estudado;

» utilidade;

» cunho pessoal.

Algumas pessoas têm grande facilidade de trabalhar com esquemas criando vários ao lado de cada
parágrafo lido, ou elaborando um esquema maior por capítulo ou unidade, ou ainda elaborando
um grande esquema como síntese de toda a obra (livro, artigo, pesquisa etc.).

Um bom exemplo do uso de esquemas aplicados ao aprendizado são os mapas mentais e os


mapas conceituais, uma espécie de fluxograma com ideias, desenhos, e, no caso dos mapas
conceituais, de conceitos-chave que se encadeiam e fornecem uma explicação geral das ideias
principais e secundárias de uma obra.

Vejamos um exemplo de um esquema simples:

Sujeito Objeto

Conhecimento

Intuitivo Empírico Filosófico Teológico Científico

Fonte: Elaboração própria do autor.

Técnicas de resumir

O resumo nada mais é do que uma condensação do texto reunindo suas ideias centrais. Ele pode
também trazer a interpretação do leitor, desde que este o faça separadamente a fim de que não
se confundam as ideias do autor com as ideias do leitor.

33
CAPÍTULO 3 • Como estudar melhor

Um dos objetivos do resumo é o de abreviar as ideias do autor, sem, contudo, se propor à concisão
de um esquema. Quando você considerar relevante, faça transcrições de palavras do próprio
autor, colocando-as entre aspas e o número da página entre parênteses. É possível apontar
também as observações e interpretações pessoais, as referências bibliográficas acompanham o
resumo, sem prejudicar a fidelidade ao texto. Essa técnica pode ser extremamente útil durante
a construção de seus trabalhos acadêmicos no momento em que você tiver de fazer citações
importantes sem ter de voltar à leitura de toda obra para achar a ideia que você pretende
enfatizar.

Técnicas de fichamento

Tudo que oferecer importância e utilidade na área acadêmica ou profissional do estudante


pode ser documentado: leituras, ideias pessoais, debates, palestras etc. A maneira mais
indicada é fazer registros em fichas e organizá-las em fichários físicos e/ou virtuais (bases de
dados acessadas em rede interna ou externa). Não se pode confiar apenas na memória, nossa
memória permanente precisa de auxílio para fixar o conhecimento, e o fichamento é uma
forma de fazer isso.

O fichamento é uma ferramenta de estudos que permite a você armazenar com exatidão dados
coletados em diferentes fontes e que servirão para o seu estudo. É preferível o uso de fichas do
que o de cadernos, devido às facilidades que elas oferecem para manipulação e arquivamento.
Existem diferentes tipos de fichas, segundo os objetivos a que se destinam, e que recebem
diferentes denominações. Em nosso Livro Didático, adotamos a nomenclatura usada por Lakatos
(1987): ficha bibliográfica, ficha de citações, ficha de resumo e ficha analítica.

A utilização de fichas escritas ou digitalizadas e sua organização em fichários físicos ou virtuais


pode ajudar significativamente o aluno fornecendo-lhe, de forma rápida e prática, subsídios
valiosos.

Saiba mais

Não deixe de ver o excelente vídeo explicativo da Profª. Dra. Anna Gicelle Garcia Alaniz sobre a importância do
fichamento como ferramenta de estudos. Ela fornece uma série de dicas sobre como desenvolver vários tipos de
fichamento de forma clara e didática. Aproveite!
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=gT3pyvT05jM>.

Lakatos (1987) é um dos autores que aborda a questão do aspecto físico, da composição, dos
respectivos conteúdos, a partir de diferentes tipos de ficha (com exemplos concretos deles) etc.
Vamos conferir juntos?

34
Como estudar melhor • CAPÍTULO 3

Ficha bibliográfica
Ficha mais geral voltada para uma breve apresentação da obra a partir das ideias centrais.

MARCONI, M. de A. Garimpos e Garimpeiros em Patrocínio Paulista. São Paulo:


Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1988.

Insere-se no campo da Antropologia Cultural. Utiliza documentação indireta de


fontes secundárias e direta, colhidos os dados através de formulários. Emprega
o método de abordagem indutivo e procedimento estatístico. A modalidade é
específica, intensiva, descritiva e analítica.

Apresenta a caracterização física do Planalto Nordeste Paulista. Analisa a


organização econômica do planalto, descrevendo o aspecto legal do sistema de
trabalho e das formas de contrato, assim como a atividade exercida e as ferramentas
empregadas em cada fase do trabalho. Registra os tipos e equipamentos das
habitações e examina o nível de vida das famílias.

Descreve o tipo de família, sua composição, os laços de parentesco e a educação


dos filhos. Examina a escolaridade e a mobilidade profissional entre gerações.

Apresenta as práticas religiosas com especial destaque para as superstições,


principalmente as ligadas ao garimpo. Discrimina as formas de lazer, os hábitos
alimentares, de higiene e de vestuário.

Leva em consideração o uso de uma linguagem específica, incluindo um glossário


de termos utilizados no garimpo.

Conclui que o garimpeiro ainda conserva a cultura rurícola, embora em processo


de aculturação. Exerce o nomadismo. É solidário. O traço de irresponsabilidade
é mais atenuado do que se esperava.

Apresenta quadros, gráficos, mapas e desenhos;

Esclarecer aspectos econômicos e socioculturais de atividade de mineração de


diamantes na região rural de maior número de garimpeiros no Nordeste Paulista.

Obra indicada para estudantes de Ciências Sociais, particularmente paras as


disciplinas de Antropologia Cultural, Antropologia Social, Geografia Cultural e
Ecologia Social.

Ao elaborar esse tipo de ficha, procure sempre:

» Ser breve – quando houver necessidade de pormenores, deve-se fazer ficha resumo e
não a bibliográfica;

» Empregar verbos ativos – exemplo: autor analisa, define, conclui, apresenta etc.;

» Ter certeza de que o objetivo da obra e suas ideias centrais estão contidos na ficha
bibliográfica.

35
CAPÍTULO 3 • Como estudar melhor

Ficha de citação

Como o nome indica, é uma ficha que reúne basicamente trechos fundamentais que podem
aclarar o pensamento do(s) autor(es) sobre a(s) temática(s) centrais da obra.

Nesse tipo de ficha, são reproduzidos frases e parágrafos, inteiros ou parte deles, considerados
essenciais ao entendimento da ideia geral da obra. O sinal (...) pode ser utilizado indicando a
supressão de partes do texto.

Ao elaborar a ficha, é necessário tomar alguns cuidados:

» colocar aspas no início e no término das citações;

» indicar, após cada citação, de forma precisa, o número da página;

Ficha de resumo (de conteúdo)

A ficha de Resumo ou de Conteúdo apresenta, por sua vez, a essência do texto em uma síntese
elaborada pelo leitor. Embora guarde semelhanças com a ficha bibliográfica, ela é bem mais
específica do que esta última.

Vamos conferir um exemplo desse tipo de ficha:

MARCONI, M. de A. Garimpos e Garimpeiros em Patrocínio Paulista. São Paulo:


Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1988.

Pesquisa de campo que se propõe a dar uma visão antropológica do Garimpo


em Patrocínio Paulista. Descreve um tipo humano característico, garimpeiro,
em uma abordagem econômica e sociocultural.

Enfoca aspectos geográficos e históricos da região, desde a fundação do povoado


até a constituição do município. Enfatiza as atividades econômicas da região
em que se insere o garimpo, sua correlação principalmente com as atividades
agrícolas, indicando que alguns garimpeiros do local executam o trabalho do
garimpo em fins de semana ou no período de entressafra, sendo, portanto, em
parte, trabalhadores agrícolas, apesar da maioria residir na área urbana. Dá
especial destaque à descrição das fases da atividade do garimpo incluindo as
ferramentas utilizadas. Apresenta a hierarquia de posições existentes e os tipos
de contrato de trabalho que diferem do rural e o respeito do garimpeiro à palavra
empenhada. Aponta o sentimento de liberdade do garimpeiro e justifica seu
nomadismo como consequência de sua atividade.

A análise econômica abrange ainda o nível de vida como sendo, de modo geral,
superior ao do egresso do campo e a descrição das casas e seus equipamentos,
indicando as diferenças entre os ranchos da zona rural e as casas da zona
urbana.

36
Como estudar melhor • CAPÍTULO 3

Sob o aspecto sociocultural demonstra a elevação do nível educacional e a


mobilidade profissional entre as gerações. Dificilmente o pai do garimpeiro
exerceu essa atividade e as aspirações para os filhos excluem o garimpo. Faz
referência ao tipo de família mais comum – a nuclear -, aos laços de parentesco
e ao papel relevante do compadrio. Considera adequados a alimentação e os
hábitos de higiene, tanto dos garimpeiros quanto de suas famílias. No que diz
respeito à saúde, comprova a predominância da consulta aos curandeiros e aos
medicamentos caseiros.

Faz um levantamento das crendices e superstições, com especial destaque ao


que se refere à atividade de trabalho. Aponta a influência dos sonhos nas práticas
diárias.

Finaliza com um glossário que esclarece a linguagem especial dos garimpeiros.

É possível perceber com clareza que a ficha bibliográfica é mais generalista, enquanto a Ficha de
Resumo destaca todas as principais ideias do autor. Vejamos, agora, um exemplo de uma ficha
analítica, também elaborada a partir do mesmo artigo trabalhado nos dois tópicos anteriores.

Ficha analítica

A Ficha Analítica traz os seus comentários pessoais sobre aquilo que o autor defende em sua
obra. Não se trata apenas de registrar as ideias do autor, mas, também, as suas opiniões sobre
tais ideias, de forma crítica. Nesse tipo de ficha em particular, é possível tecer comparações entre
diferentes teorias e obras já lidas anteriormente e fazer classificações, críticas e observações
particulares, tomar posição diante das ideias e teorias, entre outras possibilidades.

MARCONI, M. de A. Garimpos e Garimpeiros em Patrocínio Paulista. São Paulo:


Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1988.

Caracteriza-se por uma coerência entre a parte descritiva, a consulta bibliográfica


e a pesquisa de campo.

Os dados obtidos por levantamento próprio, com emprego do formulário e


entrevistas, caracterizam a sua originalidade.

Foi dado especial destaque à fidelidade das denominações próprias tanto das
atividades de garimpo quanto do comportamento e atitudes ligadas a ele.

O principal mérito é o fato de ter dado uma visão global do comportamento do


garimpeiro, que difere da apresentada pelos escritores que abordam o assunto,
mais superficiais em suas análises, e evidenciando a colaboração que o garimpeiro
tem dado não apenas à cidade de Patrocínio Paulista, mas a outras regiões, pois
o fruto de seu trabalho extrapola o município.

37
CAPÍTULO 3 • Como estudar melhor

O artigo carece, por outro lado, de uma análise mais aprofundada quanto às
considerações da inter-relação entre o garimpeiro e o rurícola em cujo ambiente
às vezes trabalha e o citadino, ao lado de quem vive.

De todos os trabalhos sobre garimpeiros, é o mais detalhado, sobretudo nos


aspectos socioculturais, porém não permite generalizações por se tratar de um
estudo de caso sobre o garimpeiro de Patrocínio Paulista.

Para ter sucesso nos estudos

Para finalizar este capítulo, seguem algumas dicas que irão auxiliá-lo a alcançar sucesso em seus
estudos:

» Tenha uma rotina de trabalho. É fácil se deixar levar pelo comodismo e sempre adiar
o começo da tarefa. Assim, evite atrasos e procure trabalhar sempre no mesmo lugar e
horário. Isso facilita a concentração e cria hábitos produtivos.

» Leia cada página das obras fazendo anotações e registrando suas dúvidas e colocações
pessoais.

» Construa uma espécie de resumo pessoal do material que você consultou. Pode ser
uma espécie de fichamento com observações e pontos que você destacaria em relação
ao material ou, ainda, registros em um caderno com resumos esquemáticos. Escolha a
técnica com a qual você melhor se identifica.

» Elabore mapas, desenhos, gráficos e diagramas. Estes também podem auxiliá-lo em


seus estudos, especialmente quando se trata da análise de um conteúdo mais extenso
e complexo.

» Aproprie-se das obras consultadas que você considera importante. Se puder, tire xerox
para que você possa: sublinhar, rabiscar, fazer anotações, enfim aproveitá-la ao máximo,
porque, na hora de uma consulta rápida, isso poderá lhe facilitar bastante.

» Reveja a bibliografia, se possível busque ter acesso a, pelo menos, algumas das obras
citadas, mediante empréstimos em bibliotecas, por exemplo. Hoje existem também as
grandes livrarias nas quais você pode consultar as obras enquanto saboreia um delicioso
café.

» Faça a si próprio a pergunta: “Que significa isso?”. Se ao responder houver dúvidas, volte
a estudar objetivando esclarecer o porquê delas.

» Disponibilize um canto de estudo que seja sossegado, arejado e bem iluminado. Caso
não tenha isso em casa, busque um espaço como bibliotecas públicas, em que isso seja
possível.

38
Como estudar melhor • CAPÍTULO 3

» Ao estudar, evite distrações que poderão atrapalhá-lo, como, por exemplo, o celular, o
rádio e a TV. Procure se concentrar de fato no que está lendo, buscando compreender
e memorizar o conteúdo das leituras.

» Ao interromper o estudo, deixe um sinal específico para retomar a aprendizagem


exatamente de onde parou, sem perda de esforço ou de tempo.

» Não tente estudar tudo ao mesmo tempo, estabeleça algumas metas como três páginas
por dia ou algo semelhante de acordo com sua disponibilidade.

» Lembre-se de que a aprendizagem é como uma corrente: cada elo seguinte depende
do elo anterior. Quando encontrar uma dificuldade, procure o elo que está faltando.
Se você não consegue aprender alguma coisa, isso não significa que você não é capaz.

» Mantenha sempre acesa sua motivação e você terá muito mais chances de alcançar
seus objetivos.

Para refletir

Provavelmente nem todas as dicas sugeridas se aplicam a você. Procure identificar, nos diferentes itens, as dicas que
lhe dizem mais respeito, buscando colocá-las em prática e levando em consideração as suas dificuldades.

Sintetizando

Neste capítulo:

» analisamos algumas técnicas que poderão lhe auxiliar em sua pesquisa, tais quais aquelas voltadas à leitura e à
elaboração de esquemas, resumos e fichamentos.

» conferimos, por meio da análise de alguns exemplos, como tais técnicas são práticas e fáceis de serem efetivadas,
podendo servir de auxiliar durante seus estudos.

» refletimos sobre a importância de um estudo organizado e metódico que favoreça o pesquisador em seu trabalho
de coleta de dados, construção de hipóteses e aprofundamento em sua temática de estudo.

39
CAPÍTULO
A ARTE DA PESQUISA 4
Introdução

Neste quarto capítulo, estudaremos a pesquisa e sua importância para a continuidade do


desenvolvimento científico. Do mesmo modo, teremos a chance de conhecer e aprender diferentes
técnicas de estudo que servem tanto à coleta de dados quanto a uma análise mais depurada
destes no ato de elaboração de uma pesquisa científica.

De forma prática e direta, você terá acesso a uma série de dicas que poderá aplicar, de modo
imediato, em seus estudos, até mesmo desse livro didático em análise, auxiliando-o a destacar
ideias-chave, a fazer fichas-resumo e a assinalar pontos de determinado trecho de uma obra, de
maneira organizada, para que você possa utilizá-la futuramente.

Finalizando este capítulo, refletiremos um pouco sobre alguns dos principais paradigmas da
pesquisa científica tentando entender o reflexo deles em diferentes momentos da história da
ciência.

Objetivos

» Esclarecer o que é pesquisa enquanto um instrumento fundamental de produção de


conhecimentos científicos.

» Apresentar diferentes tipos de pesquisa e níveis de investigação analisando seus


procedimentos, instrumentos e objetivos.

» Estimular o desenvolvimento de pesquisas e estudos científicos no decorrer da vida


acadêmica.

Pesquisa: a origem do termo

Não há dúvidas de que a pesquisa faz parte de nosso cotidiano enquanto uma atividade intelectual
que resulta da curiosidade do homem sobre o mundo à sua volta. Mesmo sem ter muita clareza do

40
A arte da pesquisa • CAPÍTULO 4

que esta seja, todos nós, em algum momento, já efetuamos algum tipo de pesquisa. Quando nos
informamos sobre como chegar a algum lugar, quando procuramos por determinado endereço
em uma lista telefônica ou quando queremos saber como estará o clima em determinado local
antes de viajarmos até ele, ainda quando investigamos respostas para determinada questão,
em todas essas situações estamos fazendo um tipo de pesquisa. Em uma primeira concepção,
podemos dizer que a pesquisa é:

Importante

Uma investigação, busca ou estudo metódico com a finalidade de descobrir ou estabelecer princípios relativos a um
campo qualquer do conhecimento.

O termo “pesquisa” possui uma dupla origem: espanhola e latina. Segundo o pesquisador
Marcos Bagno (2000), já existia em latim o verbo perquiro, que significava “procurar; buscar com
cuidado; informar-se; inquirir; perguntar; indagar bem”. O particípio passado desse verbo latino
era perquisitum. Com o tempo, o primeiro R se transformou em S na passagem do latim para o
espanhol, originando o verbo pesquisar que conhecemos hoje.

De maneira geral, a pesquisa faz parte do nosso cotidiano, sendo difícil imaginar qualquer ação
humana que não seja precedida por algum tipo de investigação. Uma investigação tem como
base a informação que nos chega através dos programas de TV, rádio, jornais, revistas e até nos
comunicados gerais de instituições escolares e empresariais, como boletins e circulares. Assim
sendo, podemos afirmar que a troca de informações ajuda a formar o conhecimento cotidiano,
ou seja, a estarmos “informados” sobre os fatos. Contudo, tudo isso não passa de um conjunto
de informações superficiais, se sobre os elas não houver um trabalho de reflexão e análise. Em
outras palavras, o conhecimento virá a partir do momento em que o indivíduo se interessar por
determinado assunto e refletir sobre ele, sem se contentar com o óbvio, por meio de um trabalho
mais sério de aprofundamento e “pesquisa”.

Poderíamos reproduzir o que acabamos de estudar a partir da fórmula: “Informação gera


pesquisa que gera conhecimento” apresentando a pesquisa como um caminho para a produção
do conhecimento.

A aplicação do conhecimento no dia a dia, isto é, o caminho da valorização e da prática daquilo


que foi fruto de uma reflexão e uma pesquisa mais apurada corresponde ao que nós chamamos
de sabedoria. De nada adiantaria pesquisarmos meses sobre a melhor compra de um imóvel se,
na hora de fecharmos o negócio, ignorássemos esse trabalho de pesquisa.

41
CAPÍTULO 4 • A arte da pesquisa

A pesquisa levada a sério

É preciso deixar claro, contudo, que não é desse tipo de pesquisa que vamos nos ocupar aqui.
A pesquisa que nos interessa neste Livro Didático é um tipo especial de pesquisa, ou seja, a
pesquisa científica, que pode ser entendida como:

Importante

Uma investigação feita com o objetivo expresso de obter conhecimento específico e estruturado sobre um assunto
preciso.

A pesquisa pode ser pensada como o caminho para se chegar ao conhecimento e à Ciência,
devendo esta última ser igualmente entendida como um tipo de conhecimento que é fruto de um
estudo formal, metódico e sistematizado de forma científica. De fato, a pesquisa é o fundamento
de toda e qualquer Ciência seguindo uma metodologia específica, o chamado método científico.

Importante

Método científico é o conjunto de princípios e procedimentos intelectuais e técnicos adotados para se atingir o
conhecimento de forma eficiente através da pesquisa.

Quando falamos em metodologia da pesquisa, estamos nos referindo, portanto, aos estudos
desses procedimentos diferentes voltados ao desenvolvimento de uma pesquisa. Os métodos
de estudo e pesquisa tornam mais eficaz e rápida a busca de respostas a um dado problema, o
saneamento da inquietação e a resolução da dúvida.

Vimos o significado do termo pesquisa, agora vejamos o que significa a palavra método. Essa
palavra origina-se do grego meta (ao longo de) e hodós (caminho), portanto significa caminho
para se chegar a um objetivo ou a determinado resultado. Assim, a metodologia do estudo é um
caminho que o estudante trilha, adquirindo, durante o percurso, os instrumentos exigidos para
obter êxito no seu trabalho intelectual.

A escolha do meio, instrumento ou procedimento a ser adotado para o desenvolvimento de uma


pesquisa deverá ser orientada em função do tipo de pesquisa a desenvolver e dos resultados que
pretende obter. A grosso modo, poderíamos tecer a seguinte comparação: uma pá é mais eficiente
do que uma picareta para cavar, assim como esta última é mais eficiente do que a primeira para
fazer um buraco no cimento. Daí a importância de se definir o tipo de pesquisa e da escolha do
instrumental ideal a ser utilizado antes de desenvolver uma investigação científica propriamente
dita. A escolha de instrumentos inadequados, ou na ignorância de determinados procedimentos,
pode comprometer de forma parcial ou total os resultados de uma investigação científica.

42
A arte da pesquisa • CAPÍTULO 4

Não existem regras a serem adotadas para gerar resultados completamente livres de erros e/ou
desvios, bem como também não existe nenhuma área do conhecimento limitada a um conjunto
fixo de métodos. A ciência é dinâmica e, por conseguinte, novos métodos podem ser desenvolvidos
e aprimorados em qualquer tempo e lugar. O fato é que o conhecimento do método é de extrema
importância para uma boa condução de um processo de pesquisa e de sua avaliação.

Importância da pesquisa

Para Deslandes (1998), a pesquisa é a atividade básica da ciência na sua indagação e construção
da realidade. É a pesquisa que alimenta a atividade de ensino. Não se trata de um ato isolado,
como afirma Demo (2000), mas, sim, de uma “atividade processual de investigação diante do
desconhecido e dos limites que a natureza e a sociedade nos impõem” (DEMO, 2000, p. 16). Assim
sendo, fica claro entender porque sem pesquisa não há ciência e, se não há ciência, o progresso
também fica comprometido. Devido à sua importância, não apenas as universidades, mas quase
todas as grandes empresas do mundo possuem departamentos voltados às áreas de pesquisa e
desenvolvimento, sempre tentando dar um passo à frente para a obtenção de novos produtos
que respondam melhor às exigências cada vez maiores dos consumidores ou, simplesmente,
que permitam vencer a concorrência das outras empresas.

As indústrias farmacêuticas vivem à procura de novos medicamentos mais eficazes contra velhas
e novas doenças. As montadoras de automóveis querem produzir carros mais econômicos,
menos poluentes, mais seguros. A informática não para de nos assustar com seus computadores
mais rápidos a cada dia, com maior capacidade de memória, baterias com longa capacidade de
duração, maior velocidade e programas mais eficientes e de fácil interface.

Se não houvesse pesquisa, todas as grandes invenções e descobertas científicas não teriam
acontecido. Nas universidades, a pesquisa ocupa um lugar fundamental, renovando o conhecimento
e promovendo novos questionamentos e descobertas nas mais diferentes áreas. O professor
universitário deve evitar se limitar a dar suas aulas buscando, na medida do possível, estar engajado
em algum projeto de pesquisa. Afinal, a Universidade não pode ser apenas um “depósito” do
conhecimento acumulado ao longo dos séculos. Ela deve ser também um lócus de produção de
novos conhecimentos, o que só é possível por meio da pesquisa.

A importância da pesquisa é reconhecida também pelos órgãos governamentais. No Brasil,


por exemplo, em nível nacional, existem entidades como a Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq) e a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ)
que financiam projetos de pesquisa. Existem fundações privadas como a FUNDAÇÃO FORD,
por exemplo, que apoiam pesquisadores, dando-lhes condições de levar adiante seus projetos.

43
CAPÍTULO 4 • A arte da pesquisa

Além disso, no campo da Pós-Graduação, existem também as Associações Nacionais e Internacionais


de Pesquisa, como, por exemplo, a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia
(ANPEPP), a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS)
e a Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED).

Para a vida acadêmica, vale destacar que a pesquisa permite a construção de um corpo de
conhecimentos específicos, propiciando uma melhoria das práticas educativas e uma renovação
do conteúdo ensinado em aula. Em sua busca, através de caminhos metodológicos coerentes, a
pesquisa contribui para o favorecimento de melhores condições de existência do homem e dos
demais seres vivos, o que vai ao encontro, inclusive, da responsabilidade social que a universidade
deve responder e cultivar.

O objetivo fundamental da pesquisa é descobrir respostas para problemas mediante o emprego


de procedimentos científicos. Assim sendo, podemos entender pesquisa como sendo um processo
que, utilizando a metodologia científica, permite a obtenção de novos conhecimentos no campo
da realidade social a partir de uma problematização, ou seja, um questionamento que servirá
como mola propulsora de todo o trabalho acadêmico.

Os produtos de uma pesquisa são variados: artigos, livros, ensaios, estudos, monografias,
dissertações e teses. Contudo, é bem provável que um dos produtos mais importantes de uma
pesquisa seja justamente a formulação de novas questões e problemas decorrentes de seus
resultados. Em outras palavras, a resposta encontrada por um pesquisador pode ser encarada
como um problema para outro, e assim a pesquisa nunca se esgota, assim como o conhecimento
sobre algo, uma vez que sempre há a possibilidade de novas questões, de novas formas de
investigação, de novos instrumentos voltados ao entendimento do objeto de estudo.

Níveis de investigação

Os termos pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa são utilizados para classificar o tratamento
metodológico empregado em trabalhos científicos. Entende-se por qualitativa a pesquisa cuja
finalidade é a de buscar entendimentos, extrapolações para situações similares e bases que irão
fundamentar a criação de hipóteses. De modo geral, ela lida com o indivíduo em seu dia a dia de
trabalho, em suas relações e atividades sem se preocupar em pesquisar a partir de um ambiente
controlado.

A pesquisa qualitativa parece ter vocação para mergulhar na profundidade dos fenômenos levando
em conta toda a sua complexidade e particularidade. Não almeja alcançar a generalização, mas,
sim, o entendimento das singularidades.

Como apontam alguns autores, esse tipo de pesquisa privilegia a compreensão como princípio
do conhecimento, que prefere estudar relações complexas em vez de explicá-las por meio do

44
A arte da pesquisa • CAPÍTULO 4

isolamento de variáveis. Nota-se certa ênfase na totalidade do indivíduo como objeto de estudo,
isso é essencial à pesquisa qualitativa. Além do mais, a concepção do objeto de estudo qualitativo
sempre é vista na sua historicidade, no que diz respeito ao processo de desenvolvimento do
indivíduo e no contexto dentro do qual o indivíduo se formou (GÜNTHER, 2006).

Uma das técnicas mais utilizadas no desenvolvimento de pesquisas qualitativas é a entrevista,


uma vez que ela permite uma análise mais aprofundada de uma realidade sob a ótica do
entrevistado, favorecendo diferentes tipos de análise subjetiva, como a análise do discurso e a
análise de conteúdo.

Por QUANTITATIVA, entende-se a pesquisa que lida com hipóteses preestabelecidas, amostras
e probabilidades. É a pesquisa que se aplica à dimensão mensurável da realidade e que busca
estabelecer relações de causa e efeito entre as variáveis, de tal modo que perguntas do tipo:
“quanto?” “como?” “por quê? ” e “em que medida? ” possam ser respondidas com razoável rigor.
Em uma pesquisa quantitativa, são utilizados métodos estatísticos cuja finalidade é a de buscar
determinações causais, predições e generalizações dos resultados.

É importante entender que os métodos qualitativos e quantitativos não são excludentes entres
si. Tanto a pesquisa qualitativa pode lidar com medidas estatísticas como a pesquisa quantitativa
pode buscar resultados menos pontuais. Recentemente, a situação da pesquisa qualitativa mudou
consideravelmente, adquiriu mais respeitabilidade. No entanto, essa aceitação foi alcançada a um
custo que requereu, senão a capitulação completa para critérios quantitativos de confiabilidade e
validade, pelo menos uma tendência para aplicá-los. Não deve haver dúvidas de que a finalidade
dos dois caminhos metodológicos deve ser a contribuição mais aprofundada destes para o
estudo e a análise de determinada realidade ou fenômeno estudado e, consequentemente, sua
contribuição para o desenvolvimento de determinada área do conhecimento humano.

Críticas são feitas a ambos os métodos, chegando mesmo a existir o que alguns autores chamam de
Radicalismos Metodológicos. Criticam os métodos qualitativos por gerarem análises superficiais,
por trabalharem com procedimentos não explicitamente detalhados, pela dificuldade destes em
reconhecer a necessidade de um afastamento entre o pesquisador (subjetividade) e seu objeto de
estudo, por tecerem generalizações apressadas quanto aos seus resultados e pela confiabilidade
excessiva em julgamentos e impressões pessoais. Por outro lado, criticam os métodos quantitativos
também por gerarem análises incompletas, por defenderem a neutralidade do pesquisador em
suas análises (o que seria uma utopia), por simplificarem demais a complexidade de seus objetos
de estudo e por selecionarem apenas problemas que possam ser manipulados quantitativamente
e pelo rigor metodológico excessivo.

O fato é que existe um grande número de procedimentos metodológicos que variam conforme
a disciplina e as áreas de estudo onde ela se situa. A realidade científica atual se caracteriza pela
busca de novos meios de se fazer ciência pautados na liberdade científica pelo uso da intuição,

45
CAPÍTULO 4 • A arte da pesquisa

pela subjetividade e pela interdisciplinaridade, de modo a permitir uma maior aproximação da


complexidade do real. Não existe método ideal, e sim o método que melhor se adéqua ao estudo
que estamos querendo efetivar (CARVALHO,1995). Devemos pensar essas duas metodologias de
pesquisa como duas faces de uma mesma moeda metodológica que, apesar das divergências,
complementam-se e oferecem ao pesquisador um referencial metodológico e instrumental bem
mais amplo de análise do objeto estudado do que radicalismos em outra direção metodológica.

A pesquisa também pode ser diferenciada em função de seus objetivos. Nesse sentido, ela pode
decorrer de razões de ordem intelectual, quando baseada no desejo de conhecer pela simples
satisfação ou voltada à ação (aplicação prática). Daí porque se pode falar na primeira grande
divisão de pesquisa: pesquisa pura e pesquisa aplicada.

Pesquisa pura, aplicada e suas derivadas

Pesquisa pura

Pesquisa que busca o progresso da ciência, procura desenvolver os conhecimentos científicos,


sem a preocupação direta com suas aplicações e consequências práticas. De base teórica, seu
desenvolvimento tende a ser bastante formalizado e objetiva a generalização, com vistas à
construção de teorias e leis.

Pesquisa aplicada

Esta pesquisa, por sua vez, apresenta muitos pontos de contato com a pesquisa pura, pois depende
de suas descobertas e se enriquece com o seu desenvolvimento; todavia, tem como característica
fundamental o interesse na aplicação, utilização e consequências práticas dos conhecimentos.
Sua preocupação está menos voltada ao desenvolvimento de teorias de valor universal que à
aplicação imediata em uma realidade circunstancial. De modo geral, é este o tipo de pesquisa a
que mais se dedicam as áreas técnicas.

Saiba mais

O professor Vilson Carvalho explicita no vídeo abaixo as principais diferenças entre pesquisa pura e pesquisa
aplicada. Não deixe de conferir:
<https://www.youtube.com/watch?v=1U-Y808VFns>.

A partir dessa diferenciação primária (básica e aplicada) é possível pensar uma série de outros
tipos de pesquisa. Vejamos as principais:

46
A arte da pesquisa • CAPÍTULO 4

Pesquisa experimental

É toda pesquisa que envolve algum tipo de experimento. Por exemplo, pinga-se uma gota de
ácido em uma placa de isopor por determinado período de tempo para observar o resultado de
tal aplicação. Ou, ainda, analisa-se uma aula ministrada com o uso de retroprojetor e outra com
o uso de datashow em uma mesma turma e, depois, avaliam-se os resultados.

Pesquisa exploratória

É toda pesquisa que busca constatar algo (explorar) em um organismo ou um fenômeno. Por
exemplo, conhecer como se dá a reprodução de um molusco marinho ou entender como o
videogame pode interferir no aumento da violência escolar.

Pesquisa social

É toda pesquisa que busca respostas de um grupo social. Por exemplo, saber quais os hábitos
alimentares de uma comunidade específica, entender como um trabalho de Educação Ambiental
pode promover o desenvolvimento de uma comunidade carente do Rio de Janeiro ou analisar
como uma escola Municipal de uma localidade foi beneficiada com a Política de Cotas.

Pesquisa histórica

É toda pesquisa que estuda o passado ou algo que faça referência a este, ou seja, um fato, ou situação
já ocorrida, bem como um objeto da antiguidade. Por exemplo, saber de que forma (detalhes)
se deu a Proclamação da República brasileira. Estudar a origem de um colar pré-histórico ou a
história de uma localidade.

Pesquisa teórica

É toda pesquisa que analisa uma determinada teoria. Por exemplo: saber o que é a neutralidade
científica; compreender melhor a influência da psicanálise na educação; entender os princípios
da Teoria da Complexidade de Edgar Morin; ou conhecer as implicações da Teoria da Relatividade
de Einstein.

Ao estudar determinado assunto, é comum que esbarremos em diferentes teorias associadas


àquele assunto, algumas mais antigas, outras mais recentes, algumas divergentes e outras
convergentes, mas o fato é que toda teoria pode se traduzir como um esforço de entendimento
do objeto estudado a partir de determinado referencial em determinado tempo. Assim sendo,
toda teoria é válida, a questão é até que ponto ela responde às questões atuais.

Vale observar, por fim, que as pesquisas elencadas nesta unidade estão associadas de tal modo
que uma pode ser desenvolvida a partir da outra (continuidade) ou de forma concomitante

47
CAPÍTULO 4 • A arte da pesquisa

a outra. E, se isso não bastasse para esclarecer tal inter-relação, uma mesma pesquisa pode se
enquadrar em mais de uma classificação, sendo simultaneamente histórica e teórica, por exemplo.

A partir do que já estudamos em relação ao papel da pesquisa e suas diferentes classificações,


vale ressaltar que, independente do tipo de pesquisa a considerar, o valor de uma pesquisa, no
sentido da continuidade e avanço de uma área de conhecimento, é inestimável. Não podemos
tratá-la com indiferença, menosprezo ou pouco caso. Se pretendermos entender uma pesquisa
em sua complexidade e importância, devemos analisar não apenas a abordagem ou a técnica em
si, mas, também, a postura filosófica e político-ideológica do pesquisador diante da realidade
estudada.

Paradigmas metodológicos da pesquisa científica

Para compreender os principais paradigmas metodológicos da pesquisa científica, examinaremos,


de forma resumida, as ideias básicas das principais correntes de pensamento contemporâneo que
mais têm orientado, em nossa época, a educação e a pesquisa em ciências sociais, destacando
seus princípios e situação atual. As correntes analisadas são:

» O Positivismo.

» A Fenomenologia.

» Materialismo Dialético e Materialismo Histórico.

O Positivismo caracteriza-se, segundo o filósofo francês Augusto Comte (1798-1857), seu


fundador, pela subordinação da imaginação e da análise à observação. Na ótica de Comte, a
visão positiva dos fatos abandona a ideia das causas dos fenômenos (procedimento teológico
ou metafísico) e valoriza a pesquisa de suas leis, entendidas como relações constantes entre
fenômenos observáveis. Seus princípios são: a busca da explicação dos fenômenos através das
relações deles e a exaltação da observação dos fatos, com base em uma teoria visando à formulação
de leis causais, favorecendo, assim, o controle de fenômenos e a previsão do futuro. A partir
de Comte, estabeleceu-se o mito da objetividade absoluta, que vai encontrar sua expressão na
experimentação. Ao positivismo não importavam as causas dos fenômenos, isso para ele era de
ordem metafísica não alcançável pela razão humana, o que importava eram os fatos e a relação
entre eles de forma objetiva e não subjetiva. Só é verdadeiro no positivismo o que for verificável,
deixando o que não atendia a esse princípio da verificação.

O predomínio da influência positivista foi incontestável até os anos oitenta quando então
começa a perder terreno devido a diferentes tipos de fatores como as críticas do neomarxismo
representado pela Escola de Frankfurt de Horkheimer, Adorno, Walter Benjamim e Erich Fromm,
e da fenomenologia, com raízes em Husserl, Merleau-Ponty e Heidegger. Muitas oposições
ao positivismo já eram conhecidas pelos pesquisadores da América Latina desde a década de

48
A arte da pesquisa • CAPÍTULO 4

sessenta, porém as condições históricas da época, geralmente caracterizadas pelo autoritarismo,


pela ditadura, impediram o avanço de ideias que pretendessem mudar o status quo existente.

Saiba mais

Escola de Frankfurt
A Escola de Frankfurt foi fundada em 1924 por iniciativa de Félix Weil. Antes dessa denominação tardia (só viria a
ser adotada, e com reservas, por Horkheimer na década de 1950), cogitou-se o nome Instituto para o Marxismo, mas
optou-se por Instituto para a Pesquisa Social.

Seja pelo anticomunismo reinante nos meios acadêmicos alemães nos anos 1920-1939, seja pelo fato de seus
colaboradores não adotarem o espírito e a letra do pensamento de Marx e do marxismo da época, o Instituto recém-
fundado preenchia uma lacuna existente na universidade alemã quanto à história do movimento trabalhista e do
socialismo.

Seguindo a tradição romântica de contestação ao racionalismo, seus integrantes afirmaram que a sociedade
moderna, ao conquistar a natureza por meio da tecnologia, provocara um empobrecimento geral dos seres humanos,
submetendo-os ao que Goethe denominara de o domínio da “cinzenta teoria”.

A abertura política que peculiarizava o começo da década de oitenta permitiu uma discussão
mais ampla das diversas tendências do pensamento. Por outro lado, o positivismo perdeu a
importância na pesquisa das ciências sociais, especialmente, nos cursos de Pós-Graduação das
Universidades, porque a prática da investigação, seguindo os seus parâmetros, transformou-se
em uma atividade mecânica, muitas vezes alheia às necessidades dos países.

Os enfoques fenomenológicos na pesquisa das ciências sociais, por sua vez, começaram, nos
últimos anos da década de setenta, aumentando sua importância, na medida em que diminuía a
tradição imperativa do positivismo. Nascida na segunda metade do século XIX, a Fenomenologia
se desenvolveu a partir das análises de Franz Brentano sobre a intencionalidade da consciência
humana. Ela trata de descrever, compreender e interpretar os fenômenos que se apresentam à
percepção. O método fenomenológico se define como uma “volta às coisas mesmas”, isto é, aos
fenômenos, aquilo que aparece à consciência, que se dá como objeto intencional.

Seu objetivo é chegar a intuição das essências, isto é, ao conteúdo inteligível e ideal dos
fenômenos, captado de forma imediata. Por isso, ela é chamada de estudo das essências. Na
ótica da Fenomenologia, toda consciência é “consciência de alguma coisa”. Assim sendo, a
consciência não é uma substância, mas uma atividade constituída por atos (percepção, imaginação,
especulação, volição, paixão etc.), com os quais visa a algo. Seu método mais usual era o da
Redução Fenomenológica, processo pelo qual tudo que é informado pelos sentidos é mudado
em uma experiência de consciência, em um fenômeno que consiste em se estar consciente de
algo. Coisas, imagens, fantasias, atos, relações, pensamentos, eventos, memórias, sentimentos
etc. constituem nossas experiências de consciência. O interesse para a fenomenologia não
é o mundo que existe, mas sim o modo como o conhecimento do mundo se dá, tem lugar, se

49
CAPÍTULO 4 • A arte da pesquisa

realiza para cada pessoa. A redução fenomenológica concentra-se na pessoa e naquilo que é a
realidade para ela.

Importante

A palavra “Fenômeno” é originária do termo grego phainomenon, que significa “observável”). O termo possui um
significado específico na filosofia de Immanuel Kant, que contrastou o termo ‘Fenómeno’ com ‘Nómeno’ na “Crítica
da Razão Pura”. Os fenómenos constituem o mundo como nós o experimentamos, ao contrário do mundo como
existe independentemente de nossas experiências

Por isso mesmo, uma das ideias-chave da fenomenologia é a noção de intencionalidade. Esta
intencionalidade é da consciência (de um sujeito) que sempre está dirigida a um objeto. Tende a
reconhecer o princípio de que não existe objeto sem sujeito (princípio da intencionalidade). Logo
é possível afirmar que a Fenomenologia é uma tendência filosófica que, entre outros méritos,
questionou os conhecimentos do Positivismo, elevando a importância do sujeito no processo
da percepção da realidade. O que passava a valer era o mundo vivido, a experiência de mundo,
uma vez que todo o universo da ciência é construído sobre ele.

Em diferentes áreas, ocorreu grande entusiasmo em relação a essa nova visão de pesquisa, que
procurava contextualizar historicamente os dados levantados, levando-se em consideração a
subjetividade humana. O hábito da pesquisa positivista de trabalhar, amarrado ao dado e à sua
relação fundamentalmente quantitativa com outra informação, não permitia a possibilidade de
interpretações mais ricas e aprofundadas das realidades estudadas. Assim, muitos pesquisadores
desenvolveram preconceitos em torno da dimensão objetiva da pesquisa, exaltando o lado subjetivo
e a interpretação qualitativa das informações. A busca de significado dos fenômenos e das suas
bases culturais privilegiou o enfoque antropológico, especialmente na pesquisa participante e
no campo da educação popular e de adultos.

Para refletir

Sob a ótica da fenomenologia, o objetivo de sua futura monografia seria o de captar a essência do seu objeto de
estudo, seja ele uma sala de aula, um método de trabalho ou um problema qualquer, como o fracasso escolar, a baixa
qualidade do ensino universitário ou a hiperatividade dos alunos.

Em meados dos anos setenta do século XX, na Inglaterra, iniciou-se uma corrente fenomenológica
fundamentalmente de natureza sociológica, que, em seguida, avançou com seus princípios no
campo da Educação, determinando ações e maneiras de encarar o desenvolvimento do currículo
na escola e, de maneira singular, a pesquisa no ensino. Se a pesquisa de natureza fenomenológica
ainda esbarrava na dificuldade de superar o hábito positivista, os embaraços aumentavam,

50
A arte da pesquisa • CAPÍTULO 4

notadamente, quando se realizava a tentativa de investigar usando a conceitualização básica


do materialismo dialético. A falta de tradição no emprego da análise marxista da realidade, no
meio acadêmico latino-americano, levanta sólidas barreiras aos pesquisadores que desejam
percorrer esse caminho.

Importante

O materialismo designa um conjunto de doutrinas filosóficas que, ao rejeitar totalmente a existência de um princípio
espiritual, liga toda a realidade à matéria e a suas modificações.

Para compreender melhor essa nova visão, é necessário conhecer um pouco mais sobre o
Materialismo Dialético e o Materialismo Histórico. A ideia materialista do mundo reconhece
que a realidade existe independentemente da consciência. Esta ideia-chave é fundamental para
compreender os dois tipos de materialismo citados.

O Materialismo Dialético é a base filosófica do marxismo e, como tal, realiza a tentativa de buscar
explicações coerentes e lógicas para os fenômenos da natureza, da sociedade e do pensamento.
Por um lado, o materialismo dialético é herança de uma longa tradição na Filosofia Materialista.
Por outro, é também antiga concepção na evolução das ideias e baseia-se em uma interpretação
dialética do mundo. Essas raízes se unem para formar, no materialismo dialético, uma concepção
da realidade, enriquecida com a prática social da humanidade. Essa concepção não somente tem
como base de seus princípios a matéria, a dialética e a prática social, mas também ambiciona ser
a teoria orientadora da revolução do operariado. Seu propósito maior é o estudo das leis mais
gerais que regem a natureza, a sociedade e o pensamento e como a realidade objetiva se reflete
na consciência. A dialética do materialismo é posição filosófica que considera a matéria como a
única realidade e que nega a existência da alma, de outra vida e de Deus. Nessa ótica, as leis do
pensamento correspondem às leis da realidade. A dialética não é só pensamento: é pensamento
e realidade a um só tempo.

O Materialismo Histórico, por sua vez, significou uma mudança fundamental na interpretação
dos fenômenos sociais que, até o surgimento do Marxismo, apoiava-se em concepções idealistas
da sociedade humana. Na teoria marxista, o materialismo histórico pretende a explicação da
história das sociedades humanas, em todas as épocas, através dos fatos materiais, essencialmente
econômicos e técnicos. A sociedade é comparada a um edifício no qual as fundações, a infraestrutura,
seriam representadas pelas forças econômicas, enquanto o edifício em si, a superestrutura,
representaria as ideias, os costumes, as instituições (políticas, religiosas, jurídicas etc.).

Para aclarar ainda mais, podemos dizer que o materialismo histórico é uma tese do marxismo,
segundo a qual o modo de produção da vida material condiciona o conjunto da vida social,
política e espiritual. É um método de compreensão e análise da história, das lutas e das evoluções
econômicas e políticas. É uma abordagem metodológica ao estudo da sociedade, da economia
e da história. A análise materialista histórica parte da questão de que a produção e a troca dos

51
CAPÍTULO 4 • A arte da pesquisa

produtos são pilares de toda a ordem social existente em todas as sociedades que desfilam pela
história. Sendo assim, a repartição desses produtos, aliada com ela à divisão dos homens em
classes ou camadas, é determinada pelo que e como a sociedade produz e pelo modo de trocar
as suas mercadorias.

Nota-se a defesa de um rigoroso determinismo econômico em todas as sociedades humanas, o


que acabou gerando um clima de polêmica que Marx e Engels mantiveram com seus opositores.
Tal ideia só era atenuada com a afirmativa de que existe constante interação e interdependência
entre os dois níveis que compõem a estrutura social.

Sob o paradigma marxista, calcado nesses dois tipos de materialismos citados, o pesquisador
deve ter presente em seu estudo uma concepção dialética da realidade natural e social do
pensamento, a materialidade dos fenômenos, e que estes são possíveis de serem conhecidos.
Tais princípios básicos do marxismo devem ser complementados com a ideia de que existe
uma realidade objetiva fora da consciência e que esta é um produto, resultado da evolução do
material. Isso significa que, para o marxismo, a matéria é o princípio primeiro e a consciência é
o aspecto secundário, o derivado.

Importante

Atualmente, este tem sido um dos grandes desafios para a pesquisa no mundo todo. Deixar de importar modelos
que nada têm a acrescentar à sua realidade local. É fundamental, no caso do Brasil, que possamos vir a desenvolver
pesquisas que respondam às nossas demandas nas mais diferentes ordens: culturais, econômicas, políticas.

Vale ressaltar que não buscamos com esse pequeno resumo dessas três correntes analisadas
(correspondentes aos principais paradigmas metodológicos de se fazer e pensar pesquisa)
esgotar o assunto a respeito delas. Nossa intenção foi a de facilitar o entendimento dos que estão
principiando na área de pesquisa sobre a importância do estudo desses métodos.

Sintetizando

Neste capítulo:

» vimos resumidamente os conceitos de pesquisa, pesquisa científica e metodologia da pesquisa.

» refletimos sobre o papel e a importância da pesquisa científica para o desenvolvimento da ciência, da tecnologia e
da sociedade como um todo.

» estudamos as diferenças e os pontos de intersecção entre as metodologias do tipo quantitativa e qualitativa.

» conhecemos, de forma sucinta, alguns dos principais paradigmas metodológicos que norteiam a pesquisa
científica.

» pensamos sobre a necessidade de, como docentes, nunca abandonarmos a pesquisa, uma vez que é preciso estar
sempre atualizados sobre aquilo que estamos selecionando em termos de conteúdo, métodos e instrumentos de
trabalho.

52
CAPÍTULO
ETAPAS E PROCEDIMENTOS DE
PESQUISA 5
Introdução

A pesquisa científica que se traduz a partir de uma metodologia que busca alcançar conhecimentos
sistematizados e seguros necessita de um planejamento específico no qual são consideradas as
suas diferentes fases desde a concepção até a conclusão. Entre as diversas formas de classificar
e agrupar os tipos de pesquisa, a partir de metodologias diferenciadas de pesquisa, este capítulo
destaca o estudo de alguns dos principais tipos de pesquisa. São eles: pesquisa bibliográfica,
pesquisa documental, pesquisa experimental, pesquisa descritiva e estudo de caso. Por meio da
leitura das páginas seguintes, você terá a chance de estudar cada uma delas, diferenciando-as e
entendendo o uso específico de cada uma. Além disso, veremos algumas dicas que certamente
lhe auxiliarão de forma significativa na realização de pesquisas e estudos acadêmicos.

Objetivos

» apresentar as principais etapas e procedimentos da pesquisa científica.

» analisar diferentes modalidades de pesquisa quanto à metodologia adotada.

» orientar o planejamento de uma pesquisa científica desde a escolha do tema até a


definição metodológica (em termos de coleta e análise de dados) e a formulação da
conclusão.

Delineamento da pesquisa científica

Como já vimos, para que uma pesquisa possa ser qualificada como científica, ela precisa ser
conduzida de maneira sistematizada e rigorosa. Para isso, utiliza-se um método próprio e técnicas
específicas de acordo com o tipo de pesquisa e o objeto de estudo. De um modo geral, o método
da pesquisa científica consiste na elaboração de procedimentos que conduzam cientificamente
a compreensão e o encontro da solução do problema em estudo.

53
CAPÍTULO 5 • Etapas e procedimentos de pesquisa

Toda pesquisa começa com algum tipo de problema ou indagação, ou seja, uma questão ou
dúvida em discussão ainda não resolvida em qualquer domínio de conhecimento, ou seja,
um problema (GIL, 2002). Em geral, esse problema acompanhará a pesquisa em todas as suas
fases até a conclusão na qual finalmente serão fornecidas algumas respostas a ele. É o que nos
aponta Köche (1997) ao afirmar que “Pesquisar significa identificar uma dúvida que necessita
ser esclarecida e construir e executar o processo que apresenta a sua solução, quando não há
teorias que a expliquem, ou quando as teorias que existem não estejam aptas para fazê-lo”
(KÖCHE, 1997, p. 121).

Além do problema a ser estudado, sua natureza e a situação espaço-temporal em que se depara,
convém ressaltar que o delineamento de uma pesquisa científica, isto é, o encadeamento de suas
etapas, é marcado também pela natureza e pelo nível de conhecimento do pesquisador. Assim
sendo, é preciso considerar tanto variáveis próprias do objeto estudado quanto variáveis relativas
ao pesquisador a partir de suas motivações (intenções), condições de pesquisa, capacidade e
seu contexto histórico.

Luna (1998) pontua alguns requisitos fundamentais para a realização de qualquer pesquisa,
independentemente do referencial teórico ou da metodologia empregada que servem bem ao
entendimento do que estamos chamando aqui de delineamento de uma pesquisa. Entre eles,
destacam-se:

» formulação de um problema de pesquisa, isto é, uma ou mais questões que se pretende(m)


responder, e cujas respostas mostrem-se novas e relevantes teórica ou socialmente;

» a determinação das informações necessárias para encaminhar as respostas a este;

» a seleção das melhores fontes dessas informações em função de critérios preestabelecidos;

» a definição de um conjunto de procedimentos que produzam essas informações;

» a seleção de um sistema de tratamento dessas informações e de uma base teórica para


sua interpretação;

» a produção de respostas às perguntas formuladas pelo problema;

» a indicação do grau de confiabilidade das respostas obtidas (observando se as condições


da pesquisa seriam as melhores respostas possíveis);

» a indicação ou não da generalidade dos resultados, isto é, a extensão dos resultados


obtidos.

Gostaria de convidá-lo a pensarmos juntos sobre o delineamento geral de uma pesquisa, tal
como apresentado por Luna (1998), a partir da análise de algumas questões bem práticas como se
estivéssemos de fato elaborando uma pesquisa. Inicialmente, é preciso escolher o que pesquisar,
isto é, o assunto a ser pesquisado. Ao definir o assunto que se pretende estudar, é necessária uma

54
Etapas e procedimentos de pesquisa • CAPÍTULO 5

leitura preliminar para que se possa identificar, com um maior conhecimento de causa, o tema
que se pretende pesquisar. Essa é a etapa inicial em que se forma a ideia sobre o conteúdo geral
a ser estudado por meio de diferentes leituras.

As leituras sucessivas permitem uma aproximação segura na área do objeto de estudo, o que
lhe dará uma base mais sólida em direção da pesquisa por um tema mais específico. Nesse
momento, as leituras lhe darão uma ideia concreta sobre as dificuldades, os questionamentos, as
discordâncias e as opiniões assumidas que vão esclarecer o assunto e possibilitar ao pesquisador
algumas pistas sobre o tema principal a ser pesquisado na monografia.

Fonte: Elaboração do autor.

Nessa pesquisa primária, você deve ter paciência, pois a meta é adquirir conhecimento sobre
um tema para posteriormente produzir ações interiorizadas (conscientização do fato) em
direção a novas ações exteriorizadas (opinião que possibilite discussão dialética sobre o tema).
É importante lembrar que o pesquisador deve ter consciência que o tema não pode ultrapassar
as fronteiras de seu curso (direcionamento), sob pena de proporcionar um aprofundamento em
várias direções, distanciando-o cada vez mais da situação problemática prevista. Se isso ocorrer,
corre-se um sério risco do estudo não conduzir a lugar algum no que se refere ao problema a
ser respondido. Para evitar essa dispersão, é fundamental que o pesquisador se mantenha fiel
ao tema e direcione sua pesquisa bibliográfica nesse sentido, com vistas a se aprofundar mais
e mais no assunto, o que demanda tempo e dedicação.

Do mesmo modo, toda pesquisa precisa em algum momento esclarecer os procedimentos


técnicos e práticos que viabilizaram sua elaboração (metodologia). Estes devem ser entendidos
como as ações que serão implementadas para a sua realização, assim como também as etapas
para o desenvolvimento da investigação, das fontes básicas e dos sujeitos da pesquisa.

55
CAPÍTULO 5 • Etapas e procedimentos de pesquisa

É importante que tais procedimentos respondam a um plano detalhado de como alcançar o(s)
objetivo(s), respondendo às questões propostas e/ou testando as hipóteses formuladas (caso
elas existam). A metodologia ideal é aquela que melhor se adéqua à solução do problema e aos
objetivos do estudo em função da população (sujeito(s), grupo(s), instituição(ões) investigadas)
e da amostra estudada (quantitativo da população que, por sua vez, obedece a determinados
critérios).

Do mesmo modo, é fundamental esclarecer quais serão os instrumentos de coleta de dados


(entrevistas, estruturadas ou não; questionários; testes; escalas; observação, participante ou não;
instrumentos de laboratório e outros) e, posteriormente, de análise e tratamento deles a utilizar.
É fundamental que tal escolha leve em consideração fatores como:

» o referencial teórico ou conceitual adotado na pesquisa, caso tenha sido definido;

» os resultados de estudos e pesquisas anteriores. Isso permitirá ao pesquisador ter


indicações precisas sobre as dimensões e categorias de análise ou as relações esperadas
entre as variáveis estudadas, a partir das quais os dados devem ser interpretados.

No caso de pesquisas de base quantitativa (envolvendo dados numéricos), deve-se especificar


ainda o tratamento estatístico dos dados (inclusive se foi ou não utilizado algum tipo de programa
de tratamento estatístico, como o SPSS).

Modalidades da pesquisa

É fato que uma pesquisa pode investigar a realidade sob os mais diversos aspectos, com distintos
objetivos e níveis de profundidade. Vimos que, partindo sempre de uma dúvida ou problema, a
pesquisa visa a encontrar uma resposta ou solução para ele. Para tal necessita, é preciso seguir
um caminho adequado, utilizar um método científico. Assim, em toda a pesquisa, teremos três
elementos básicos: o problema que se deseja resolver, a metodologia empregada adequada ao
tipo de problema e a solução.

Como já vimos, você poderá, por exemplo, apenas satisfazer um anseio intelectual pelo
conhecimento. Nesse caso, fará uma pesquisa pura ou básica, visando à atualização de
conhecimentos. Em outra situação, poderá estar em busca de soluções para problemas concretos,
necessitando de pesquisa aplicada com fins mais práticos.

Vemos, assim, que existem diferentes tipos de pesquisa, que são classificados pelos autores de
acordo com vários critérios. Optou-se, no presente estudo, pela classificação feita nas obras de
Cervo e Bervian (2002) e Kösche (1997), em virtude de seu alcance e generalidade, muito embora
alguns dos tipos de pesquisa citados por esses autores também estejam nas obras de Gil (1993),
Santos (1999) e vários outros.

56
Etapas e procedimentos de pesquisa • CAPÍTULO 5

O pesquisador pode estudar a realidade sob os mais variados aspectos, com distintos objetivos e
diversos níveis de profundidade. Dessa maneira, os autores citados classificam as modalidades
de pesquisa de acordo com diferentes critérios. Para cada obra que trata dessa temática, parece
existir uma classificação diferente. Veja, no quadro resumo abaixo, como as pesquisas podem
ser agrupadas, de acordo com:

MODALIDADES DE PESQUISAS
A área de conhecimento Pesquisas educacionais, acadêmicas, históricas, entre outras.
O lugar onde se desenvolvem Pesquisa de campo; pesquisa de laboratório
A utilização Pesquisa pura e pesquisa aplicada
O caráter dos dados coletados Pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa
A forma de raciocínio Pesquisa dedutiva e pesquisa indutiva.

Fonte: Elaboração do autor.

Segundo esses mesmos autores, existem quatro principais modalidades de pesquisa a considerar:

» exploratória;

» bibliográfica;

» descritiva;

» experimental.

Que tal nos aprofundarmos um pouco mais nelas?

Pesquisa exploratória

A pesquisa exploratória deve ser encarada como o primeiro passo do trabalho científico. Este tipo
de pesquisa tem por finalidade proporcionar maiores informações sobre determinado assunto;
facilitar a delimitação de uma temática de estudo; definir os objetivos ou formular as hipóteses
de uma pesquisa; ou, ainda, descobrir um novo enfoque para o estudo que se pretende realizar
diferente dos já existentes. Pode-se dizer que a pesquisa exploratória tem como objetivo central
o aprimoramento ou a descoberta de ideias para serem pesquisadas.

Na maior parte dos casos, a pesquisa exploratória envolve:

» levantamento bibliográfico;

» entrevistas com pessoas que tiveram experiências práticas com o problema pesquisado;

» análise de exemplos que estimulem a compreensão do fato estudado.

Por meio da pesquisa exploratória, avalia-se a possibilidade de se desenvolver um estudo inédito


e interessante sobre uma determinada temática. Sendo assim, esse tipo de pesquisa visa a

57
CAPÍTULO 5 • Etapas e procedimentos de pesquisa

proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito. De um
modo geral, essa pesquisa constitui um estudo preliminar para qualquer outro tipo de pesquisa.

Quanto mais geral for o problema da pesquisa, maiores são as chances dela ser considerada
exploratória.
Veja alguns exemplos:
» Qual é a importância da supervisão escolar na Educação atual?
» Qual é o papel do psicopedagogo junto ao processo de aprendizado?
» O que é Educação a Distância?

Fonte: do Autor.

Note que esses problemas (questões-chave) caracterizam pesquisas que claramente ainda estão
tentando entender melhor seu objeto de estudo antes de construir hipóteses sobre eles.

Observe como tais problemas seriam mais centrados caso fossem formulados da seguinte forma,
favorecendo a construção de hipóteses:

» Qual é a importância da supervisão escolar junto a crianças desmotivadas?

» Qual é o papel do psicopedagogo com crianças hiperativas?

» Como a Educação a Distância pode contribuir para a Educação Inclusiva?

Pesquisa bibliográfica

A pesquisa bibliográfica investiga o problema a partir do referencial teórico existente nas fontes
de pesquisa. Para Cervo e Bervian (2002), na área das ciências humanas, a pesquisa bibliográfica
é a pesquisa por excelência se constituindo no requisito básico para a pesquisa científica, a fim
de se ter um conhecimento prévio do estágio em que se encontra o assunto.

A maioria dos pesquisadores trabalha com fontes bibliográficas, isto é, com informações contidas
em livros, publicações, revistas, jornais. Mesmo aqueles que fazem pesquisas experimentais em
laboratórios delimitam as suas pesquisas com base nas informações existentes, mediante um
exame bibliográfico sobre tudo que já foi escrito quanto ao tema, fora aqueles que se encontram
realizando pesquisas e necessitam tomar ciência dos avanços que estão sendo alcançados por
outros pesquisadores.

A pesquisa bibliográfica tem como objetivo o levantamento das contribuições científicas e


culturais existentes sobre certo tema. Assim, oferece meios para definir, resolver problemas
conhecidos ou, até mesmo, explorar novas áreas de conhecimento. Para Malheiros (2007), sua
importância reside no fato de que a Pesquisa Bibliográfica levanta o conhecimento disponível
na área, identificando as teorias produzidas, analisando-as e avaliando sua contribuição para
compreender ou explicar o problema objeto da investigação.

58
Etapas e procedimentos de pesquisa • CAPÍTULO 5

Vale destacar na obra de Malheiros (2007), o fato de a pesquisa bibliográfica se constituir tanto
em uma pesquisa independente quanto também em um pré-requisito para todas as pesquisas
científicas. Assim sendo, torna-se essencial o aprendizado da pesquisa bibliográfica, pois o
pesquisador necessitará aplicá-la em toda a sua vida acadêmica e/ou profissional, na busca
do conhecimento científico que enseja uma visão da realidade livre das amarras das opiniões
pessoais, estigmatizadas ou preconceituosas.

De modo geral, essa pesquisa utiliza-se de material, em geral pertencentes a bibliotecas, preparado,
analisado e publicado em forma de livros, artigos diversos e impressos. Assumindo a finalidade
de levantar as contribuições científicas e culturais correntes sobre determinado assunto ou
tema. Somam-se hoje a essa gama de materiais os artigos e as revistas eletrônicas provenientes
de sites da internet.

Mediante esse tipo de pesquisa, é possível obter meios para definir e solucionar problemas
conhecidos. Por outro lado, pela pesquisa bibliográfica o pesquisador encontra possibilidade
para explorar novas áreas, em que os problemas ainda não se solidificaram suficientemente.
Graças às novas tecnologias, a chamada pesquisa webgráfica, que diz respeito à busca de fontes
na internet (como sites, blogs, revistas eletrônicas, ebooks e outros) também atende a esses
mesmos objetivos.

O trabalho de pesquisa bibliográfica passa por três fases de amadurecimento. No entender de


Severino (1991), essas fases são as seguintes:

1ª FASE: momento de invenção


Quando prevalece a intuição. O momento da descoberta, da formulação de hipóteses. É uma
fase eminentemente lógica, em que “o pensamento é mais provocador e o espírito mais atuante”.

2ª FASE: pesquisa positiva


Seja experimental, de campo ou bibliográfica. Marcada pelo confronto das hipóteses formuladas
e os fatos objetivos.

“Desse confronto nascerá uma posição amadurecida. Talvez seja preciso abandonar ideias
anteriores, acrescentar outras novas, reformular outras. Isso quer dizer que nossa primeira
formulação não será necessariamente definitiva: inicialmente e do ponto de vista lógico, será
tão somente provisória” (SEVERINO, 1991, p. 112).

3ª FASE: composição do trabalho


Com uma posição amadurecida, investe-se para a composição do trabalho. Torna-se preciso
ter em mãos uma formulação definitiva do problema, que poderá confirmar ou não a hipótese
formulada na primeira fase.

59
CAPÍTULO 5 • Etapas e procedimentos de pesquisa

Para que tenhamos clareza da importância dessa modalidade de pesquisa, vamos ver como a
pesquisa bibliográfica pode auxiliar a escolha do tema e da metodologia.

Em relação à escolha do tema

O pesquisador, considerando a sua experiência, formação, tendências, inclinações pessoais e


interesse por um assunto, escolherá um Tema, tomando por base sua disponibilidade de tempo
e de recursos destinados à pesquisa a ser desenvolvida, ora em fase de planejamento.

De modo a encontrar facilidades na seleção do Tema, o pesquisador precisa recorrer a leituras,


observações e análises de situações divergentes. Por outro lado, quanto a escolha do tema, não
deverá ignorar aspectos como importância, originalidade e viabilidade.

Essa revisão bibliográfica é imprescindível, pois, por meio dela, será possível acessar as experiências,
observações e bases conceituais já realizadas, sem as quais é impraticável haver verdadeira
observação científica. Como sustenta Rudio (2001):

[...] a revisão da literatura ajuda ao pesquisador delimitar e definir o problema,


fazendo com que se evite o manejo de ideias confusas e pouco definidas. Além
disso, faz o pesquisador evitar os setores estéreis do problema, considerando
as tentativas anteriores, assim como a duplicação de dados, já estabelecidos
por outros. A revisão da literatura pode, ainda, ajudar o pesquisador na revisão
da metodologia que pretende usar pelas sugestões e oportunidades de deduções,
recomendadas por pesquisas anteriores para que fossem feitas depois (RUDIO,
2001, p. 49).

Isso sem mencionar, como ressalta Rudio (2001), que a pesquisa bibliográfica pode servir
também à formulação de hipóteses (garantindo-lhes maior validade e consistência por meio
da comparação com o conhecimento consolidado na área de estudo ou em outras); a escolha
metodológica (em termos da decisão sobre os procedimentos metodológicos mais apropriados
ao trabalho em andamento), e até para a escolha ou elaboração de instrumentos de pesquisa
(em função do que já se tem disponível e a necessidade ou não de adaptações ou criações).

Em relação à metodologia

As informações necessárias, visando à pesquisa a ser realizada, podem ser obtidas das mais
variadas maneiras, de acordo com o critério ideal definido pelo pesquisador. Todo trabalho
científico envolve um amplo leque de elementos utilizados na busca do objetivo da pesquisa.

Essas informações bibliográficas permitirão a confirmação das informações, aprofundamento do


estudo mediante a utilização das obras citadas, avaliação da profundidade do trabalho e, também,
tempo de existência das informações e ideias que sustentam a argumentação do pesquisador.

60
Etapas e procedimentos de pesquisa • CAPÍTULO 5

Podemos buscar informações em: enciclopédias, dicionários, livros especializados, revistas,


jornais, notas de aulas, arquivos, catálogos, bibliografias, internet.

Nas fontes bibliográficas encontramos:

» Nas enciclopédias: informações que permitem uma visão panorâmica sobre determinado
assunto.

» Nos dicionários: informações de ordens geral e/ou especializada; definições amplas,


sentido das palavras ou informações de ordem geral no setor especializado.

» Nos livros especializados: informações detalhadas sobre determinado assunto,


considerando-se um conhecimento mais profundo.

» Nas revistas e jornais: informações atuais e abordagem dinâmica da temática.

» Nos arquivos e catálogos: bibliografias, relação de livros, resumos informativos (abstracts).

» Nas bibliografias: relações de livros, teses, dissertações, monografias, folhetos, relatórios


e comentários sobre determinado assunto.

A Bibliografia é o conjunto de obras derivadas sobre certo assunto ou tema, escritas por diversos
autores, em distintas épocas. Utilizam-se todas ou partes das fontes bibliográficas para haurir
diretamente o que interessará à elaboração de nossa pesquisa. Como vimos, em síntese, após
o estabelecimento e a delimitação do tema de trabalho, e formulados o problema e a hipótese,
cabe realizar o levantamento. Sobre o levantamento da documentação existente, no dizer de
Severino (1991):

Esta é a fase da Heurística, ciência, técnica e arte de pesquisa de documentos.


Trata-se de desencadear uma série de procedimentos para a localização
dos documentos que possam interessar ao tema discutido. Trata-se de uma
busca metódica destes documentos. (...). Esta tem por objetivo a descrição e a
classificação dos livros e documentos similares, segundo critérios tais como autor,
gênero literário, conteúdo temático, data etc. Esta técnica resulta em Repertórios,
Boletins, Catálogos Bibliográficos” (SEVERINO, 1991, p. 113).

Assim, concluído o levantamento bibliográfico, tem partida o momento do trabalho da pesquisa


propriamente dita, o momento da execução da pesquisa bibliográfica.

Pesquisa documental

A Pesquisa Documental caracteriza-se pelo estudo das fontes primárias, ou seja, de dados que
não foram codificados, organizados e elaborados em um estudo científico, como documentos,
plantas, arquivos, desenhos, fotografias, gravações, estatísticas e leis (OLIVEIRA, 2011)

61
CAPÍTULO 5 • Etapas e procedimentos de pesquisa

A Pesquisa Documental investiga a realidade presente, diferentemente da pesquisa histórica


que se volta ao passado. Estuda documentos com o fim de descrever e comparar tendências,
usos e costumes visando a entender o momento presente. Considerando sua importância, Cervo
e Bervian (2002) alertam que toda pesquisa requer coleta de dados de variadas fontes, que se
desenvolve por meio de documentação direta ou indireta.

A documentação direta é aquela utilizada pelo processo de recolhimento de dados por intermédio
de entrevistas, observações e questionários locais da ocorrência dos fenômenos. São os casos das
pesquisas de laboratório e de campo. Quando o levantamento de dados é efetuado por outras
pessoas, acontece o processo de documentação indireta.

Enquanto a pesquisa bibliográfica utiliza-se fundamentalmente das contribuições dos diversos


autores sobre determinado assunto, a pesquisa documental utiliza-se de materiais que não
receberam tratamento analítico. As fontes de pesquisa documental são mais diversificadas e
dispersas do que as da pesquisa bibliográfica. Conforme Gil (2002) aponta, na pesquisa documental
existem os documentos de primeira mão, ou seja, aqueles que não receberam nenhum tratamento
analítico, tais quais documentos conservados em órgãos públicos e instituições privadas e
documentos de segunda mão que, de alguma forma, já foram analisados – relatórios de pesquisa,
relatórios de empresas, tabelas estatísticas.

Saliente-se que consultas a cartas, circulares, certidões, declarações, projetos, planos de ensino,
planos de aula, projeto político-pedagógico, projeções, mapas, diplomas, anotações, enfim
todo material impresso diferente de livro ou material bibliográfico de internet (ebooks, revistas
eletrônicas etc.), independente de sua data, pode ser entendido como documento. E, se a análise
desses materiais for importante para sua pesquisa, você fará sim uma pesquisa documental.

Pesquisa experimental

A Pesquisa Experimental, por sua vez, pretende explicar as razões e a maneira pela qual o fenômeno
estudado é produzido. Graças às inovações tecnológicas, existem meios, através de aparelhos
e equipamentos, que possibilitam alcançar os objetivos da pesquisa, permitindo perceber as
relações existentes entre as variáveis estudadas.

Dessa maneira, por meio da pesquisa experimental, realiza-se a manipulação direta das variáveis
relacionadas ao objeto da investigação. Cervo e Bervian (2002) expõem que o manuseio das
variáveis implica certos conhecimentos.

Através da criação de situações de controle, procura-se evitar a interferência de


variáveis intervenientes. Interfere-se diretamente na realidade, manipulando-se a
variável independente a fim de observar o que acontece com a dependente (CERVO,
BERVIAN, 2002, p. 69).

62
Etapas e procedimentos de pesquisa • CAPÍTULO 5

Cabe observar que a pesquisa experimental não se resume apenas às pesquisas de laboratório. Os
termos da ‘pesquisa de laboratório’, assim como a de ‘Campo’, apontam tão somente o contexto
de localização, isto é, onde elas se realizam. Podem ser experimental, que se desenrola tanto em
laboratório quanto no campo. Esse tipo de pesquisa (experimental) se distingue por meio de três
etapas: a OBSERVAÇÃO, a HIPÓTESE e a EXPERIÊNCIA.

» 1ª ETAPA

› Os fatos estabelecidos pela OBSERVAÇÃO devem servir de ponto de partida para o


pensamento.

» 2ª ETAPA

› O pensamento deve imaginar uma tentativa de explicação (a HIPÓTESE);

» 3ª ETAPA

› Essa explicação precisa ser controlada e confirmada por outros fatos que não foram
considerados inicialmente (EXPERIÊNCIA).

O método experimental consiste, portanto, no processo de passagem da observação à hipótese,


da hipótese à experimentação e, finalmente, desta à tese (ou, na formulação mais moderna na
linguagem Popperiana, hipótese-observação-experimentação-tese, em que a primeira etapa
é, mais do que uma “hipótese”, um “modelo hipotético-dedutivo”, formulação racionalista que
não deixa de poder ser considerada como fazendo parte integrante do “método experimental”)
(FOURASTIÉ, 1967).

A observação corresponde à exploração do real, ao armazenamento dos dados. Condição sine


qua non do trabalho científico. Uma coleção de fatos não pode, por si só, constituir uma teoria
científica, todavia, ela fornece uma base fundamental para o estudo em andamento, além
de estudos posteriores. A hipótese esboça a trama explicativa e tenta revelar as relações não
diretamente percebidas entre os fenômenos. Sem hipótese não há atividade científica.

A EXPERIMENTAÇÃO, por sua vez, controla a explicação sugerida pela hipótese. Mais difícil
ainda do que a etapa precedente, ao contrário do que por vezes se julga, a experimentação
deve proceder não somente à dosagem dos fatos destinados a confirmar a hipótese, mas
confrontar-se a cada instante com a teoria. Porque se a teoria precisa de verificação experimental,
não é menos verdade que os fatos, para serem verdadeiramente “fatos científicos”, devem ser
verificados teoricamente. Em suma, nessa perspectiva, a observação sugere a ideia, a hipótese
dirige a experiência e a experimentação julga a ideia (FOURASTIÉ, 1967).

De modo geral, a pesquisa experimental investiga, por conseguinte, a relação existente entre
fenômenos, buscando conhecer se um é causa do outro. Como afirma Rudio (2001), a pesquisa
experimental está interessada em verificar a relação de causalidade que se estabelece entre

63
CAPÍTULO 5 • Etapas e procedimentos de pesquisa

variáveis. Em outras palavras, é voltada para saber se a variável X (independente) determina a


variável Y (dependente).

Para tal, estabelece uma situação de controle efetivo, empenhando impedir que, na pesquisa
desenvolvida, estejam presentes influências estranhas ao processo de verificação que se pretende
conduzir. Posteriormente, interfere-se, diretamente, na realidade, de acordo com as condições que
foram determinadas, manuseando a variável independente a fim de observar o que ocorre com
a variável dependente. Assim, a variável independente (X) será a causa da variável dependente
(Y), nos seguintes casos:

» Y não apareceu antes de X;

» Y varia quando há também variação em X;

» Outras influências não fizeram X aparecer ou variar.

Por exemplo, é instituída uma pesquisa para se verificar se em um determinado grupo de pessoas
a prática da meditação (variável independente) evita doenças coronárias (variável dependente).
Para que a nossa resposta seja positiva (meditação reduz as doenças coronárias), é preciso
observar que:

» as doenças coronárias reduziram, após o início da prática de meditação;

» as doenças coronárias sumiram depois da prática da meditação;

» existe uma correlação negativa entre a efetividade da prática meditativa e a quantidade


de doenças coronárias;

» existem fatores determinantes para mostrar as ocorrências de doenças coronárias


naqueles que não praticam meditação.

Em síntese, como diz Rudio (2001), “Na pesquisa experimental, o pesquisador manipula
deliberadamente algum aspecto da realidade, dentro de condições anteriormente definidas, a
fim de observar se produz certos efeitos. A esse procedimento, denomina-se experimento: não
existe pesquisa experimental sem experimento” (RUDIO, 2001, p. 69).

Pesquisa ex-post-facto

A chamada Pesquisa Ex-Post-Facto, ou Pesquisa Descritiva, constata e avalia as relações entre as


variáveis, que se manifestam espontaneamente em fatos, situações e nas condições existentes.
Nesse tipo de pesquisa, não ocorre manipulação a priori das variáveis. A constatação de sua
manifestação acontece a posteriori, por isso o uso da nomenclatura em latim de “ex-post-facto”.
A pesquisa descritiva se distingue da experimental, anteriormente estudada, no que diz respeito
à manipulação das variáveis.

64
Etapas e procedimentos de pesquisa • CAPÍTULO 5

Na pesquisa experimental, há criação e produção de condições específicas, normalmente de forma


aleatória, quanto à amostra, e com elevado poder de manipulação das variáveis independentes e
controle das não conhecidas. Essa pesquisa pretende dizer e explicar de que modo ou por quais
causas o fenômeno é produzido.

A pesquisa ex-post-facto investiga as relações entre diversas variáveis de um certo fenômeno,


sem manipulá-las. Procura-se a constatação da frequência com que um fenômeno ocorre, sua
relação e ligação com outros, além de suas características e natureza. Nessa modalidade de
pesquisa, o pesquisador busca conhecer e interpretar a realidade, sem nela imprimir nenhuma
interferência para criar modificações. A palavra-chave é: descrever, isto é, narrar, descobrir e
interpretar os fenômenos que acontecem.

Para isso, a pesquisa precisa ser submetida constantemente às exigências metodológicas. Assim
sendo, é possível enumerar os passos metodológicos deste tipo de pesquisa:

» 1o PASSO

› Enunciar o problema em termos de indagar se um certo fenômeno ocorre ou não.

» 2o PASSO

› Que variáveis constituem o problema.

» 3o PASSO

› Como classificar e que semelhanças ou diferenças existem entre determinados


fenômenos.

» 4o PASSO

› Analisar e interpretar os dados obtidos, podendo ser estes qualitativos ou quantitativos.

A pesquisa ex-post-facto (descritiva) pode assumir variadas formas. Entre essas, exceto a
Documental (estudada anteriormente) e o Estudo de Caso, que veremos detalhadamente mais
adiante, destacamos as seguintes:

Estudos exploratórios

Chamados por alguns de pesquisa pré-científica ou não científica. Não elaboram hipóteses e se
restringem a definir objetivos e buscar informações mais aprofundadas sobre certo assunto. Esses
estudos são recomendados para a ampliação de conhecimentos sobre o problema estudado ou
ainda para uma nova percepção deste.

65
CAPÍTULO 5 • Etapas e procedimentos de pesquisa

Estudos descritivos
Visam a descrever as características, propriedades ou relações existentes no grupo ou da realidade
em que foi realizada a pesquisa.

Pesquisa de opinião (survey)


Busca conhecer tendências, atitudes, pontos de vista, comportamentos e preferências sobre algum
assunto. Serve para subsidiar a tomada de decisão. Abrange uma ampla faixa de investigação,
que objetiva a identificação de falhas ou erros, descreve procedimentos, reconhece tendências,
descobre interesses e valores. Segundo Oliveira (2011), esses estudos podem se dar frente a frente,
por telefone ou pelo correio. Pode ser definida ainda como sondagem.

Pesquisa de motivação
Procura saber as razões inconscientes ou ocultas que levam a determinar a preferência por algum
produto ou comportamento/atitudes. Também chamadas de pesquisa de mercado (Market
research).

Estudo de campo

O Estudo de Campo consiste na observação dos fatos da forma que ocorrem espontaneamente,
na coleta de dados e no registro de variáveis consideradas significativas para posteriores análises.
Esse tipo de pesquisa não corresponde à pesquisa experimental, por deixar de produzir ou de
não reproduzir os fatos investigados.

Durante o estudo de campo, é imprescindível que ocorra uma pesquisa de campo. Esta compreende
a observação de fatos e fenômenos exatamente como ocorrem no real, a coleta de dados referentes
a estes e, finalmente, a análise e interpretação desses dados, com base em uma fundamentação
teórica consistente, objetivando compreender e explicar o problema pesquisado.

O estudo de campo impede o isolamento e o controle das variáveis relevantes, porém permite o
estabelecimento de relações constantes entre determinadas condições (variáveis independentes)
e certos eventos (variáveis dependentes), que são observadas e comprovadas.

Importante

Convém sinalizar que pesquisas de observação dependem de tempo, afinal, é necessário ir até a situação a ser
observada, em grande parte das vezes através de uma permissão anterior de uma autoridade qualquer, como a
diretora da instituição ou o gerente do setor da empresa. Os dados são transcritos e/ou gravados e trabalhados
posteriormente pelo pesquisador. Além disso, o número de visitas até a situação observada é difícil de deduzir a
priori. Tudo isso permite um material excelente para análise, mas demanda um tempo considerável. Salvo se você já
faz parte da instituição a ser estudada, conhece bem o contexto a ser analisado ou algo do tipo.

66
Etapas e procedimentos de pesquisa • CAPÍTULO 5

Após a delimitação do problema e de acordo com a natureza da pesquisa (sociológica, psicológica,


antropológica, mercadológica, política, econômica etc.), torna-se necessário determinar as
técnicas que serão aplicadas na coleta de dados, as fontes de amostragem e as técnicas de registro
dos dados coletados.

Sugestão de estudo

Veja também a obra de Becker sobre a forma de as Ciências Sociais fazerem pesquisa: BECKER, H. Métodos de
pesquisa em ciências sociais. São Paulo: HUCITEC, 1992.

Técnicas para coleta de dados

Existem diversas técnicas para a coleta de dados, entre as quais enumeramos a entrevista, o
questionário e o formulário.

Entrevista

Funda-se no diálogo com o propósito de colher dados relevantes para a pesquisa conduzida, a
partir de certa pessoa entrevistada, determinada fonte. Para aplicação dessa técnica, devem-se
observar os seguintes passos, enumerados por Cervo e Bervian (2002):

» identificar os dados, ou as variáveis, sobre as quais serão feitas as questões;

» selecionar o tipo de pergunta a ser utilizada em face das vantagens e desvantagens de


cada tipo, com vistas ao tempo a ser consumido, para obter os dados e a maneira de
tabulá-los e analisá-los;

» elaborar uma ou mais perguntas referentes a cada dado a ser levantado;

» analisar as questões elaboradas quanto à clareza da redação, à classificação e à sua real


necessidade;

» codificar as questões para posterior tabulação e análise, com a inclusão dos códigos no
próprio instrumento;

» elaborar instruções claras e precisas para o preenchimento do instrumento;

» submeter as questões a outros técnicos para sanar possíveis deficiências;

» revisar o instrumento para dar ordem e sequência às questões;

» submeter o instrumento a um pré-teste para detectar possíveis reformulações ou


correções, antes de sua aplicação (CERVO; BERVIAN, 2002, p. 135).

67
CAPÍTULO 5 • Etapas e procedimentos de pesquisa

Não tenha dúvida de que a entrevista é um dos instrumentos mais eficazes para coleta de dados,
sendo utilizada por diferentes profissionais (jornalistas, pesquisadores, psicólogos). Diante de
uma pessoa capaz de informá-lo sobre elementos fundamentais para o desenvolvimento da
pesquisa, o pesquisador perderá o seu tempo e nada oferecerá de bom para a conclusão da
informação se não possuir habilidade em sua condução e, por consequência, escreverá uma
informação truncada e de difícil compreensão para o público leitor. É fundamental ter domínio
do assunto.

A entrevista deve ser produzida com calma e ordenadamente a ponto de se tornar um bate papo,
uma comunicação pessoal. Antes de mais nada, é preciso ter claro o objetivo da entrevista, ou
seja, o que pretendemos com ela. Esse ponto é fundamental se quisermos que possa atingir seus
objetivos. Depois, é importante elaborar um Roteiro de Entrevista com perguntas que atendam
a esse objetivo. Como já foi dito, esse roteiro não é uma regra a ser seguida, mas um caminho
possível de responder aos objetivos traçados (CARVALHO, 2014).

Classificação das entrevistas

As entrevistas podem ser classificadas sob dois aspectos importantes quanto ao entrevistado:
individual ou de grupo (subdivididas em Enquete e Entrevista de Pesquisa) e quanto aos
entrevistados (Pessoal ou Exclusiva).

Entrevista individual

Marcada com uma única e determinada pessoa significativa para o entendimento de uma realidade
ou fenômeno. Ela pode ser interessante em um estudo de caso em que a pessoa entrevistada é
uma fonte fundamental de informações sobre o entendimento desse estudo.

Entrevista de grupo

Ocorre quando várias pessoas falam a um ou mais entrevistadores. Outra forma é o questionário,
que pode ser passado em uma sala de aula, na empresa ou para um grupo de moradores. Assim,
é possível aferir as informações de forma rápida e coletiva.

Enquete

É aquela em que um ou diversos entrevistadores perguntam sobre o mesmo assunto a muitas


pessoas. Ex.: sobre o aumento de passagens no Rio, os horários noturnos nas faculdades. Assuntos
de grande interesse público. Reunindo perguntas simples e objetivas, esse tipo de entrevista
serve para favorecer uma amostragem das opiniões sobre um tema qualquer, sendo, portanto,
utilizado com frequência.

68
Etapas e procedimentos de pesquisa • CAPÍTULO 5

Entrevista de pesquisa

É aquela que se destina a colher informações que sirvam para a produção da informação de caráter
interpelativo, de maneira a esclarecer o leitor sobre o fato. Nesse caso, determinados assuntos
são investigados com o objetivo de esclarecê-los perante a opinião pública. O entrevistador
deve procurar sempre os especialistas no assunto, a fim de que a opinião deles, citada ou não
nominalmente, fundamente a matéria.

Caso venha a fazer uma entrevista de pesquisa, seguem algumas recomendações para obter
sucesso nela:

» ser discreto, evitando ser importuno;

» deixar muito à vontade o entrevistado;

» ser habilidoso e elegante ao evitar que a conversa se desvie dos propósitos da pesquisa;

» apenas coletar dados e não discuti-los com o entrevistado;

» falar pouco e ouvir muito;

Não confiar excessivamente na memória, anotando cuidadosamente as informações obtidas ou


gravando-as com o uso de gravador ou filmadora, após consulta ao entrevistado e obtenção de
sua permissão. As anotações devem ser feitas de modo sucinto no momento da entrevista e de
maneira ampliada – com mais detalhes – após ela.

Questionário

Nesta técnica, a pessoa fonte das informações escreve ou responde por escrito as questões
elencadas. Difere da entrevista, quando o entrevistado fala. O questionário oferece a vantagem
da aplicação simultânea a um elevado número de entrevistados. Afora a garantia do anonimato
das fontes, a não ser que esta faça parte do estudo.

É um dos procedimentos mais utilizados para obter informações de forma simples e direta, pois,
além dos motivos citados, possui um baixo custo, já que apresenta as mesmas questões para
todo o grupo pesquisado.

Se bem aplicado, o questionário é uma técnica bastante confiável quando se deseja medir
atitudes, opiniões ou mesmo determinado comportamento em uma dada circunstância. O
questionário pode ser aplicado de forma direta (frente a frente com o sujeito) ou indireta, por
meio de correspondência, internet, telefone etc. É uma ferramenta bastante flexível, podendo
ser aplicada a grupos ou a um único indivíduo.

69
CAPÍTULO 5 • Etapas e procedimentos de pesquisa

Em termos de estrutura, pode incluir questões abertas (discursivas) ou fechadas (de múltipla
escolha; sim e não, escala numérica etc.). A linguagem deve ser clara e evitar o uso de termos de
difícil compreensão, seja de ordem técnica ou gírias, salvo se o grupo ou o indivíduo pesquisado
solicitar esse tipo de linguagem informal.

Antes de ser aplicado, é fundamental que ele seja testado. A essa fase de definição do questionário,
chamamos de “pré-teste”, no qual o questionário ainda em fase de teste é aplicado a um número
reduzido de pessoas, a fim de verificarmos se ele está claro e não deixa margem para algum tipo
de dúvida por parte do sujeito pesquisado. Caso venha a ser reprovado nessa fase, o questionário
precisa ser alterado e testado novamente até que seja aprovado e tenha condições de ser utilizado
na pesquisa.

Vamos conferir alguns tipos de questões mais utilizadas em questionários, de modo a ajudar
você a elaborar esse instrumento de coleta de dados:

a. Pergunta fechada:

› Qual foi a última cidade em que residiu?

› ( ) Rio de Janeiro ( ) Curitiba ( ) Cuiabá ( ) São Paulo

b. Pergunta do tipo aberta:

› Qual é a sua opinião sobre o atual governo?

c. Pergunta semiaberta:

› Qual é o principal problema dessa empresa?

› ( ) Falta de Gestão ( ) Falhas de Comunicação ( ) Competição demasiada.

d. Perguntas dicotômicas:

› Você é favorável ao aborto?

› ( ) Sim ( ) Não

e. Perguntas encadeadas:

› Você é Católico?

› ( ) Sim ( ) Não

Caso a resposta seja positiva, responda:

› Quem é o papa atual?

› ( ) João Paulo II ( ) Francisco ( ) Bento XVI

› Com que frequência vai à missa:

› ( ) Todo domingo ( ) 1 vez por mês ( ) 1 vez por ano

70
Etapas e procedimentos de pesquisa • CAPÍTULO 5

f. Pergunta com ordem de preferência:

› O que você escolheria no almoço de final de ano em primeiro e em último lugar?

› ( ) Pernil assado ( ) Bacalhau com batatas

› ( ) Peru assado ( ) Pizza.

Essa técnica exige certos cuidados, como, por exemplo:

» apresentar todos os seus itens de modo bem claro, sem dúvidas ou ambiguidades;

» articular bem as questões;

» conter explicações iniciais para o correto preenchimento do questionário;

» planejar a aplicação, se será direta (você mesmo aplicará) ou se será indireta (alguém
irá aplicar por você como um colaborador) ou, ainda, se fará uso da internet por meio
do google docs, por exemplo, em que possa ser preenchido e corrigido à distância).

Formulário

Corresponde a um tipo de questionário, a ser preenchido pelo próprio pesquisador, conforme


as respostas do entrevistado. Possui a vantagem de se poder esclarecer verbalmente qualquer
dúvida que surgir.

Em síntese, o Estudo de Campo requer um planejamento para a coleta de dados, assim como para
os registros das informações colhidas. Essa forma de consulta pode realizar-se por intermédio de
entrevistas, questionários e formulários, de modo a permitir a coleta de dados que possibilitará
a análise e as conclusões, segundo os objetivos previamente definidos.

Estudo de caso

De modo geral, o Estudo de Caso realiza uma pesquisa sobre algum indivíduo, grupo ou
comunidade, visando a estudar diversos aspectos da vida ou o seu ciclo. Consiste, assim, em
verificar uma situação real, para que seja elaborada uma análise ou PROPOSTAS alternativas
de solução.

Esse tipo de estudo caracteriza-se pelo fato de as situações analisadas serem reais ou, com base
no real, o pesquisador poder aplicar hipóteses, sem deixar de ter como parâmetro a realidade.
Dessa maneira, a técnica de estudo de caso apresenta os seguintes objetivos:

» oferecer oportunidades para aplicação de conhecimentos assimilados em situações da


realidade;

» promover condições para o exercício da análise e da prática da tomada de decisões.

71
CAPÍTULO 5 • Etapas e procedimentos de pesquisa

Como podemos perceber, o estudo de caso torna-se recomendável à compreensão de uma


determinada situação e à interpretação de fatos, como alicerce para uma ação posterior. Quando
a coleta de dados da realidade também se faz presente, como a técnica por excelência, de igual
forma quanto as demais subdivisões da pesquisa descritiva. De acordo com o objetivo da pesquisa,
existem dois tipos de estudo de caso: Estudo de Caso - Análise e Estudo de Caso – Problema.

No primeiro caso, anteriormente citado, a pesquisa visa a desenvolver um trabalho analítico


sobre o objeto de estudo. A intenção é discutir, esmiuçar, embora possa não contemplar uma
solução, no universo das diversas soluções alternativas possíveis, dentro da delimitação do
problema determinado.

Quanto ao estudo de caso – problema, a pesquisa objetiva alcançar uma solução que seja a melhor
possível, dentro da delimitação do objeto de estudo e da sua problematização. Caracteriza-se por
um esforço de síntese. Essa técnica contribui para a capacidade de tomar decisões, de assumir
uma linha de ação após a análise de várias alternativas.

Cabe ao pesquisador manter o cuidado de não se deixar influenciar pelo risco de considerar que
o Estudo de Caso visa a chegar a conclusões dogmáticas, únicas ou ao consenso geral. Para isso,
necessita adotar certos procedimentos:

» definir os objetivos a serem alcançados com o estudo de caso;

» firmar os conhecimentos que serão aplicados na análise de caso e as formas de coleta


de dados;

» selecionar o fato real, objeto de estudo, ou então ter bem clara a hipótese de trabalho;

» manter como base de todo o estudo os dados da realidade;

» não descuidar do tempo disponível para a pesquisa, considerando o tempo de elaboração


de suas conclusões que, no que concerne ao estudo de caso, pode ser demorado.

Pesquisa de laboratório

É um tipo de pesquisa que tem como característica principal o fato de ocorrer em situações
controladas, valendo-se de um instrumental específico e preciso. Apesar do nome, é importante
ressaltar que, embora seja realizada em situações controladas, pode ser desenvolvida tanto
em recintos fechados quanto ao ar livre em ambientes artificiais ou reais, desde que este seja
adequado ao estudo a ser realizado em relação ao objetivo, controle de variáveis etc.

Oliveira (2011) fornece como exemplo de pesquisas de laboratório: uma pesquisa no âmbito social
que identifique o comportamento social de crianças de 24 a 48 meses em uma sala previamente
preparada e uma pesquisa no âmbito da saúde voltada à análise da acuidade auditiva utilizando
uma cabine acústica tratada e um audiômetro adequadamente aferido.

72
Etapas e procedimentos de pesquisa • CAPÍTULO 5

Grupos focais:

Nessa metodologia de coleta de dados, o objetivo é a organização de um grupo de discussão


informal a partir de um roteiro cuja finalidade é a aquisição de informações qualitativas. O grupo
é reduzido e a seleção de pessoas para participar dele segue critérios de amostragem levando em
consideração características em comum (bairro, religião, lazer, classe social, cor etc.), de modo
a ser um grupo representativo de um grupo maior (OLIVEIRA, 2011).

Os participantes de um Grupo Focal são incentivados por um moderador/facilitador (que pode


ser um integrante da pesquisa ou alguém contratado para essa tarefa), de modo a relatar suas
opiniões, necessidades, preferências, atitudes etc. A função do moderador é a de conduzir as
discussões, orientando-as de maneira a que todos os participantes tenham chance de se expor
e de interagir entre si.

Segundo Oliveira (2011), os Grupos Focais devem ter as seguintes características:

» possuir um número pequeno de participantes (de 10 a 12 pessoas), de modo a favorecer


a participação e a interação;

» não durar cada sessão mais de 90 minutos;

» concentrar a conversação em poucos tópicos (máximo de cinco assuntos/temas);

» deve seguir o moderador uma espécie de roteiro com os principais tópicos e subtópicos
a serem abordados;

» deve existir a presença de um observador externo (que não se manifesta), a fim de


analisar as reações dos participantes. O ideal, nesse caso, é que essa técnica seja aplicada
em uma sala com parede falsa (de espelho). Mais de um observador externo pode estar
atento ao que acontece durante o grupo focal.

Os grupos focais são bastante eficazes nos estágios exploratórios de uma pesquisa, auxiliando
a identificar aspectos relevantes para o pesquisador. Contudo, é fundamental que o moderador
tenha experiência para conduzir o grupo para facilitar as discussões sem influenciá-las. Do
mesmo modo, ao contrário de outros métodos de coleta de dados, no grupo focal não se pode
garantir o anonimato.

Observações diretas

Chamamos de observação direta aquela em que o pesquisador observa in loco seu objeto de
estudo. É uma técnica que depende muito da habilidade do pesquisador em captar informações
e registrá-las com fidelidade sem se deixar levar por opiniões pessoais. É espelhar a realidade
observada através do registro fiel dela.

73
CAPÍTULO 5 • Etapas e procedimentos de pesquisa

Por exemplo, em vez de estudar teoricamente uma escola, lendo livros ou vendo filmes sobre
ela, ir até a escola, assistir às aulas, fotografar os espaços, analisar as atividades pedagógicas
desenvolvidas, assistir a uma reunião de pais etc. Todas essas atividades em geral exigiriam uma
observação direta.

Consideremos juntos alguns pontos a observar na utilização dessa modalidade de coleta de dados:

» é importante que, antes de partir para a observação, você tenha um conhecimento prévio
do que irá observar, estudando e analisando previamente o local;

» dedique especial atenção ao registro, criando com antecedência uma espécie de checklist
do que precisa ser observado em termos de categorias e subcategorias;

» prepare-se para o registo de fenômenos inesperados ou não considerados no planejamento;

» prepare, caso deseje registrar em vídeo ou fotos a observação, os sujeitos para isso,
inclusive solicitando autorização para esse tipo de registro;

» não demore para fazer o relatório de observação, pois, quanto mais cedo o fizer, mas
acesa estará a memória sobre o que foi visto e mais completo será o registro.

Importante

A observação em ciência possibilita ao cientista comprovar, ou não, a sua hipótese sobre determinado problema, a
respeito de um comportamento ou de uma situação ambiental. Ela permite o registro de dados, através dos quais o
pesquisador poderá explicar, prever, produzir, interromper ou evitar o fenômeno com uma possibilidade de acerto
maior do que quem usa outros recursos.

Sintetizando

Neste capítulo:

» analisamos o que vem sendo chamado de delineamento de uma pesquisa desde a sua indagação inicial geradora
até a escolha do tipo de metodologia de pesquisa empregada em uma análise científica;

» estudamos e analisamos as diferenças entre distintos tipos de pesquisa a partir de critérios definidos por estudiosos
na área, como a área de conhecimento, lugar onde se desenvolve, utilização, tipo de dados coletados e forma de
raciocínio adotada em sua realização;

» examinamos variados tipos de pesquisa de campo procurando conhecer melhor suas aplicações e importância
para coleta de dados;

» conhecemos alguns dos principais instrumentos utilizados em pesquisa de campo, tais como os questionários e as
entrevistas, desde as suas concepções iniciais a aplicação.

» refletimos sobre os prós e os contras no que diz respeito à possibilidade da realização de uma pesquisa de campo
em nossa futura produção bibliográfica.

74
CAPÍTULO
O PLANO DE PESQUISA 6
Introdução

Neste capítulo, iremos nos dedicar à construção detalhada do PLANO DE PESQUISA. Podemos
dizer que este capítulo nos faz um interessante convite: Colocar em prática boa parte daquilo que
até agora só tínhamos trabalho do ponto de vista teórico. Eminentemente prático, seu objetivo
é bastante claro: auxiliá-lo a elaborar passo a passo seu Plano de Pesquisa. Considerando suas
diferentes etapas e elementos. Para a execução de tal tarefa, nos reportaremos muitas vezes a
conceitos e argumentações já vislumbrados nos módulos anteriores. Assim sendo, se você sentir
dificuldade com algum termo em particular, não hesite em voltar a eles para sanar dúvidas e
seguir em frente com maior segurança.

Objetivos

» Esclarecer o que é um plano de pesquisa e analisar sua importância.

» Apresentar as diferentes etapas da elaboração de um plano de pesquisa.

» Examinar cuidadosamente e dirimir dúvidas sobre os principais componentes de um


plano de pesquisa.

Chegou a hora de praticar

No decorrer das unidades que se seguiram, temos conversado sobre vários assuntos relacionados à
temática da metodologia da pesquisa, ou seja, sobre o estudo dos métodos e técnicas de se pensar
e fazer pesquisa científica em nossa realidade atual. Ao longo dessa caminhada já percorrida,
é possível destacar, entre estes assuntos, por exemplo, os diferentes tipos de conhecimento e
pesquisa existentes; as variadas técnicas de se pesquisar através de uma metodologia qualitativa
e/ou quantitativa de trabalho. Resumidamente: aprendemos juntos que a pesquisa é o fundamento
da ciência, razão de seu desenvolvimento e continuidade.

75
CAPÍTULO 6 • O plano de pesquisa

A partir de agora, conversaremos sobre o Projeto de Pesquisa. Este pode ser entendido como
um instrumento facilitador de uma pesquisa, uma vez que, por meio dele, você viabilizará a
busca da solução para um problema de pesquisa formulado. Existem diferentes tipos de Projeto
de Pesquisa, alguns bem elaborados. Nesta unidade, analisaremos os elementos de um projeto
simples que lhe permitam planejar a realização de um trabalho de pesquisa como o seu TCC.
Com ele será possível aumentar suas chances de viabilização e evitando, de forma preventiva,
riscos desnecessários relativos a questões diversas, como a necessidade de um tempo hábil para
a exequibilidade da proposta elevada e fora dos padrões sugeridos em nosso curso.

O Plano de Pesquisa é o Plano de Trabalho da pesquisa a ser realizada visando à definição de


caminhos a serem adotados, de acordo com seus objetivos e natureza específica, a fim de facilitar
sua execução (OLIVEIRA, 2011).

É, assim, a previsão racional do trabalho de pesquisa. Segundo Barreto e Honorato (1998), essa
previsão deve antecipar as ações necessárias, como as rotinas de pesquisa necessárias para se
atingir os objetivos de pesquisa. Nesse sentido, a reprovação por parte do professor orientador em
algum item do projeto, ou mesmo no projeto como todo, sinaliza que algo precisa ser modificado
antes que o trabalho maior de pesquisa seja realizado. Assim, o projeto pode ser comparado,
nessa situação, a um fusível que se queima primeiro, evitando que as peças mais importantes e
caras de um aparelho venham a ser danificadas.

Ressalte-se que, embora o projeto seja a base da construção do trabalho da pesquisa, isso
não significa que ele não possa sofrer pequenas modificações em relação ao que se pretende
desenvolver na monografia. O projeto é voltado para o futuro, e não temos como adivinhar o que
irá acontecer. Muitas vezes construímos um projeto, mas, no decorrer da pesquisa, deparamo-
nos com situações adversas que nos levam a fazer pequenas mudanças no projeto original ou
mesmo construir um novo projeto de pesquisa.

A estrutura do projeto de pesquisa

O desenvolvimento de trabalho monográfico tem o planejamento como uma de suas etapas mais
importantes. Sua elaboração, como já prevenimos, é essencial e evita perdas desnecessárias de
investimento de tempo, esforço e dinheiro. Em geral, sua elaboração já implica um conhecimento
mínimo da realidade estudada, fazendo com que o pesquisador se interesse por se aprofundar
nela, estudando pontos os quais lhe despertam curiosidade, dúvida ou estranhamento. Além
disso, é possível fazer emergir novas questões da realidade em foco, dependendo do senso crítico
e da criatividade do pesquisador ao propor novos ângulos de visão e/ou novas alternativas
metodológicas (VASCONCELOS, 2002).

76
O plano de pesquisa • CAPÍTULO 6

A estrutura básica de nosso projeto de pesquisa será formada pelos seguintes componentes:
Tema, Título, Problema, Justificativa, Objetivos (geral e específicos), Hipótese (ou Questões
Secundárias), Delimitação, Procedimento Metodológico e Cronograma. A partir desse momento,
analisaremos cada um desses itens considerando suas particularidades e importância para o
desenvolvimento de uma pesquisa.

O tema

O tema se refere basicamente ao fato ou fenômeno que o pesquisador pretende estudar. É um


assunto de caráter geral do qual emergirá o problema a ser enfocado. Ex.: “Educação a Distância”
ou “Ensino de História”.

A escolha do tema, ao contrário do que se pode pensar, é uma das etapas mais importantes
e difíceis na prática de pesquisa. Ela nasce de reflexões oriundas do interesse ou curiosidade
despertada pelo estudo de um autor, teoria, escola de pensamento, técnica etc. – ou mesmo de
reflexões surgidas na prática profissional. É importante que, ao escolher um tema, você tenha
condições de estudá-lo a partir de certa “neutralidade”. Se você optar pelo estudo de um tema
que odeie ou ame demais, será difícil, ao longo do estudo, independente do recorte que você
fizer, assumir uma postura mais neutra diante de seus resultados. Por outro lado, trabalhar um
assunto que não seja do seu agrado pode tornar a pesquisa um exercício de tortura extremamente
desgastante.

Segundo autores como Estrela (2001) e Gil (2002), na hora de se decidir por um tema qualquer,
procure levar em consideração os seguintes itens:

» pertinência do tema em relação ao curso em exercício;

» seu interesse pelo tema (sem exageros);

» a atualidade do tema (cuidado com questões já superadas ou exaustivamente tratadas


por outros autores);

» a produção bibliográfica existente sobre ele (revisão bibliográfica);

» as exigências do tema em relação ao tempo e o esforço a ser dispensado para seu


desenvolvimento.

Quanto a este último item em particular, deve-se levar em consideração a quantidade de atividades
a cumprir para executar o trabalho de pesquisa (coleta de dados, pesquisa bibliográfica, escrita,
revisão etc.) comparando o tempo necessário para essa execução com o tempo das demais
atividades realizadas em nosso cotidiano não relacionadas à pesquisa. Além disso, quando lidamos
com prazos relativamente curtos para finalização da pesquisa, não podemos nos enveredar por

77
CAPÍTULO 6 • O plano de pesquisa

assuntos que não nos permitirão cumpri-los. O tema escolhido deve sempre estar delimitado
dentro do tempo possível para a conclusão do trabalho.

Outras fatores importantes a considerar na escolha do tema de pesquisa:

Fatores internos
a. Afetividade em relação a um tema ou alto grau de interesse pessoal:

Para se trabalhar uma pesquisa, é preciso ter um mínimo de prazer nessa atividade. A escolha
do tema está vinculada, portanto, ao gosto pelo assunto a ser trabalhado. Trabalhar um assunto
que não seja do seu agrado tornará a pesquisa um exercício de tortura e sofrimento.

b. O limite das capacidades do pesquisador em relação ao tema pretendido:

É preciso que o pesquisador tenha consciência de sua limitação de conhecimentos para não
entrar em um assunto fora de sua área. Se minha área é a de ciências humanas, devo me ater
aos temas relacionados a essa área.

Fatores externos
a. O limite de tempo disponível para a conclusão do trabalho:

Quando a instituição determina um prazo para a entrega do relatório final da pesquisa, não
podemos nos enveredar por assuntos que não nos permitirão cumprir esse prazo. O tema escolhido
deve estar delimitado dentro do tempo possível para a conclusão do trabalho.

b. Material de consulta e dados necessários ao pesquisador:

Outro problema na escolha do tema é a disponibilidade de material para consulta. Muitos alunos
depois de fazerem sua proposta nos procuram dizendo não encontrar bibliografia sobre o assunto.
Antes de escolher seu tema, certifique-se de que terá acesso a uma bibliografia básica sobre ele.

O título

O título nada mais é do que a denominação de seu estudo. Como ele é, normalmente, o primeiro
item a ser considerado por aqueles que irão consultar o seu trabalho, é interessante que não
seja longo ou vago demais. Ao contrário, ao elaborá-lo, procure fazer com que seja sintético e
se refira à temática em estudo.

O título que você adotará em seu Plano pode ainda ter um caráter provisório e ser modificado se,
ao longo da pesquisa, você se deparar com um nome mais interessante ou apropriado para ele.

78
O plano de pesquisa • CAPÍTULO 6

Podendo ser escrito em estilos diferentes, é importante atentar às exigências de cada situação
ou mesmo da instituição em que seu projeto será enviado ou está sendo gestado.

No caso de nosso curso, no título do plano de pesquisa, não é exigido um maior formalismo em
sua elaboração desde que o leitor tenha clareza com relação a que o trabalho se refere (o que você
pretende com o estudo). Vejamos um exemplo relacionado ao estudo de motivação de gerente
de vendas, cujo título é apresentado nos estilos formal e informal:

ESTILO FORMAL:

» Estudo de práticas motivacionais aplicadas à gerência de vendas.

» O problema da desmotivação do gerente de vendas: caminhos e alternativas práticas.

» Motivação na gerência de vendas: refletindo sobre a aplicação de práticas motivacionais.

ESTILO INFORMAL:

» Motivando o gerente de vendas: desafios e propostas.

» Como motivar seu gerente de vendas?

» Lidando com a desmotivação do gerente de vendas.

» O que podemos fazer para manter nosso gerente de vendas motivado?

O problema

No cotidiano, costumamos dizer que o problema é o “X” da questão. Isto é, a raiz, a chave da questão.
Trazendo tal interpretação para o nosso Plano de Pesquisa, é possível afirmar que o problema
se refere à questão central de seu estudo, a mola mestra deste. Aquilo que o pesquisador deseja
realmente saber movido por um motivo qualquer, seja por não existir uma resposta conhecida,
seja por querer se posicionar diante das muitas respostas existentes.

É importante que o problema seja sempre escrito sob a forma de pergunta, afinal, ele é, acima
de tudo, um questionamento sobre determinado objeto, fato ou situação.

Exemplo:

TEMA: Educação a Distância

PROBLEMA: Quais seriam as Alternativas oferecidas pelo Ensino a Distância para o


Aprendizado de Física no Ensino Médio?

Note que o problema em si já oferece uma primeira especificação (recorte) do tema escolhido.
Não se trata do estudo da Educação a Distância de maneira ampla, mas de uma modalidade
própria de ensino a distância voltada ao aprendizado de Física. Uma segunda especificação diz

79
CAPÍTULO 6 • O plano de pesquisa

respeito ao público específico a que o estudo se refere, isto é, o Ensino Médio e não qualquer
ciclo de ensino.

Você deve evitar ainda que seu problema se torne geral e abrangente a ponto de inviabilizar sua
pesquisa. Esse é o momento da apresentação de um problema específico, previamente definido
e delimitado em termos de tempo e de espaço (quando e onde) que vai se constituir, como já
observado anteriormente, na questão central da pesquisa.

Na opinião de Humberto Eco, “o estudo deve dizer do objeto algo que ainda não foi dito ou rever
sob uma ótica diferente” (ECO, 1998, p. 22). Nesse sentido, o problema formulado deve fazer
referência a algo novo, ou seja, à sua contribuição para compreensão do estudo, o seu olhar
sobre o tema e sua(s) interrogação(ções) sobre ele.

Vejamos mais um exemplo com o objetivo de clarificar o que estamos falando. Consideremos o
seguinte tema: “A Situação da Mulher no Mercado de Trabalho”.

Esse tema remete-nos a questões de cidadania, e mais especificamente à situação da mulher


no mercado de trabalho. Sobre ele, você deverá criar um problema, isto é, uma pergunta que
funcionará como um recorte do seu estudo. Vejamos aqui algumas sugestões:

» Qual é a situação da mulher no mercado de trabalho no século XXI?

» Quais foram as maiores vitórias e derrotas da Mulher no Mercado de Trabalho nas


últimas décadas?

» Que desafios as mulheres precisam superar para conseguirem uma melhor colocação
no mercado de trabalho?

» O que mudou no mercado de trabalho com a ascensão feminina a partir dos anos 80?

Note como a formulação de questões (problemas) favorece o surgimento de dois resultados


concretos: a) um questionamento e b) um limite da abrangência do estudo (recorte). Mediante
esses dois elementos, o pesquisador pode iniciar sua pesquisa evitando riscos de se desviar do
tema em questão, perdendo-se na teia da complexidade que qualquer temática abrange.

A justificativa

É uma das partes mais importantes do Plano de Pesquisa, já que é nesta parte que se formularão
todas as intenções do autor do estudo ao realizá-lo. A justificativa, como o próprio nome indica,
trata do convencimento da necessidade da realização do trabalho de pesquisa. É através dela
que elementos como: o tema escolhido pelo pesquisador, o problema formulado e as hipóteses
levantadas serão justificados como merecedores de serem melhor estudados a fim de serem
comprovados ou não.

80
O plano de pesquisa • CAPÍTULO 6

Segundo Bagno (2000), justificativa é a defesa que você faz de sua ideia de pesquisa. Nela,
você apresentará uma série de argumentos pautados não apenas na sua experiência, mas
nas proposições teóricas de diferentes autores, de que seu trabalho é digno de interesse e
financiamento. Enfim, é nela que você irá «vender seu peixe», assim sendo, procure caprichar
em sua elaboração, fazendo com que ela convence seus leitores da importância de seu estudo.

Uma dica importante na elaboração da justificativa diz respeito à necessidade de se tomar certo
cuidado para não se tentar justificar a hipótese levantada, ou seja: tentar responder ou concluir
o que ainda vai ser buscado no trabalho de pesquisa. A justificativa apenas exalta a importância
do problema a ser investigado, fundamentando-o por meio de uma revisão teórica. Seu objetivo
é de ressaltar a importância da pesquisa e não de respondê-la previamente. Em outras palavras,
se você já sabe a resposta para seu problema antes de fazer a pesquisa, não há necessidade
de realizá-la. Se a justificativa já traz consigo a resposta do problema, em vez de favorecer sua
realização, justificará a não necessidade de efetivação dela.

No caso do projeto de pesquisa, seu objetivo é conseguir reunir, de forma unificada, os motivos
que justificam a necessidade do estudo e a base teórica sobre a qual ele se sustentará. Mais tarde,
no processo de elaboração monográfica, ela poderá ser desmembrada servindo a elaboração de
boa parte da introdução e de alguns capítulos.

Consideremos aqui um exemplo que Bagno (2000) dá ao justificar sua pesquisa sobre a vida e
obra de Monteiro Lobato de uma forma bem sintética.

Tornar mais bem conhecida dos alunos e da comunidade a importância de


Monteiro Lobato na literatura em outros aspectos do Brasil é de fundamental
importância (...). Monteiro Lobato é considerado até hoje o nosso mais importante
autor de literatura infantil, gênero em que foi pioneiro no Brasil. Além disso, teve
atuação fundamental na criação da indústria editorial brasileira, tendo sido o
fundador de algumas das primeiras editoras do país, que existe até hoje. Por
isso, a data de seu nascimento foi escolhida para se comemorar o Dia do Livro
(BAGNO, 2000, pp. 29-30).

No caso de nosso Plano, procure fundamentar melhor a defesa do seu tema incluindo na sua
justificativa a orientação teórica que você pretenderá seguir. No exemplo citado por Bagno,
ele assinala que sua pesquisa seria desenvolvida a partir da consulta de sites, cd-roms, revistas,
enciclopédias e algumas principais obras do autor.

Objetivos gerais e específicos

Os objetivos dizem respeito à meta final do estudo. O que ele pretende de forma geral. Os
objetivos de um estudo monográfico qualquer caracterizam de forma resumida a finalidade de
sua proposta, não existe pesquisa alguma sem um objetivo (CARVALHO et al., 2000).

81
CAPÍTULO 6 • O plano de pesquisa

Eles devem ser elaborados de forma clara e sucinta, a fim de destacar ao leitor a pretensão do
pesquisador ao desenvolver sua pesquisa. Provavelmente, com outras palavras, você já falou do
objetivo ao elaborar sua justificativa, contudo esse item sugere algo mais preciso e sintético. Como
é possível perceber através dos exemplos, o objetivo pode ser geral ou específico (explicitando
objetivos secundários).

EXEMPLO 1

TÍTULO: O Papel da gestão democrática na empresa de hoje

OBJETIVO GERAL: Conhecer a importância da gestão democrática para o sucesso das


empresas nos dias de hoje.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS:

a. Desvelar como os processos de gestão democrática favorecem uma maior sintonia


da equipe de trabalho;

b. Discriminar as principais características de uma gestão democrática.

EXEMPLO 2

TÍTULO: A avaliação psicopedagógica da aprendizagem

OBJETIVO GERAL: Identificar os critérios utilizados por docentes e psicopedagogos na


avaliação psicopedagógica de problemas de aprendizagem.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS:

a. Identificar os meios utilizados por educadores e psicopedagogos para identificar


problemas de aprendizagem;

b. Analisar as concepções de educadores da escola investigada a respeito de problemas


de aprendizagem;

c. Propor alternativas de avaliação a educadores e psicopedagogos a partir das


contribuições da psicopedagogia.

Saiba mais

Não deixe de conferir o vídeo dos professores Vilson Carvalho e Fabiane Muniz sobre objetivos gerais e específicos:
<https://www.youtube.com/watch?v=3_Lgdn2LPm0>.

82
O plano de pesquisa • CAPÍTULO 6

Cuidados na formulação dos objetivos

Este seu planejamento é para uma pesquisa, um estudo, e não para a ação. Portanto, seus
objetivos devem ser os alvos de sua pesquisa, ou seja, o que você pretende analisar, observar,
comparar, todas essas atividades intelectuais envolvidas em uma pesquisa. Não faça objetivos
de intervenção, pois este não é um projeto de ação, e por isso seus objetivos (na pesquisa) não
podem se referir a ações como: conscientizar, construir, modificar, implementar etc. Pode
parecer estranho, pois muitas vezes esses são nossos desejos maiores, mas não são objetivos no
âmbito da pesquisa. Na prática, os resultados da sua pesquisa podem embasar a formulação de
um projeto de ação, e aí sim estes serão os seus objetivos. Use verbos de pesquisa no infinitivo
como: pesquisar, investigar, tecer considerações, comparar, discriminar etc.

A hipótese ou as questões secundárias

Hipótese (hipo = baixo + thesis = proposição) é uma palavra de origem grega, que significa
princípio, base ou simplesmente uma proposição. De modo geral, podemos concebê-la como
uma possível resposta ao problema formulado, independente de esta ser verdadeira ou falsa. É,
logo, uma suposição provisória sobre determinado problema que, ao final da pesquisa realizada,
será comprovada ou não (SALOMON, 1994). Um dos exemplos clássicos de hipótese é o seguinte.
Se eu jogo uma moeda para cima, tenho duas hipóteses possíveis: pode dar cara ou coroa.
Quando eu, enfim, resolvo jogar a moeda é que eu saberei em qual dos lados ela irá cair. Assim
como o problema, ela tem a função de orientar o pesquisador na direção daquilo que pretende
explicitar o demonstrar. Se comprovada, após realização da pesquisa, a hipótese pode adquirir
o status de tese.

A hipótese não deve ser confundida com uma mera opinião sobre um assunto. Ela se refere ao
resultado que você espera encontrar ao final de sua pesquisa, baseado em estudos prévios sobre
o que está sendo pesquisado (ANDRADE, 2003; RUIZ, 1993). À medida que ela se trata de uma
resposta a uma questão, ela deve ser expressa na forma afirmativa. No decorrer da pesquisa,
assim como após seu término, novas hipóteses poderão ser formuladas, através da observação
e da reflexão no decorrer da pesquisa, o que nos leva a entender que podem existir hipóteses
antes, durante e depois de uma pesquisa qualquer.

Observado/analisado o fenômeno, o cientista passa à formulação de uma hipótese que o explique


-- uma explicação provisória. A hipótese, embora se relacione com os dados da observação, não
deriva diretamente deles, sendo antes uma criação do cientista. No entanto, a indução está na
base de muitas hipóteses.

83
CAPÍTULO 6 • O plano de pesquisa

Que tal conferir alguns exemplos:

EXEMPLO 1

PROBLEMA: Como a Educação Ambiental pode promover um processo de Desenvolvimento


Comunitário?

Considerando o problema da página anterior é possível a construção de várias hipóteses como,


por exemplo:

» a Educação Ambiental pode promover o Desenvolvimento Comunitário através do


estímulo da organização da comunidade em prol da resolução de problemas essenciais
relacionados à Qualidade de Vida;

» a Educação Ambiental pode promover o Desenvolvimento Comunitário à medida que


consegue estimular potenciais comunitários latentes de organização e participação
política;

» o Desenvolvimento Comunitário só será possível se as questões socioambientais da


comunidade, preocupação central da Educação Ambiental, forem consideradas e tratadas
de forma consciente e crítica.

É a pesquisa sobre o tema, seja ela bibliográfica ou de campo (questionários, entrevistas etc.)
que irá dizer se as hipóteses acima serão refutadas ou confirmadas. O pesquisador não tem como
saber isso previamente.

Vale ressalvar que nem toda pesquisa parte necessariamente de hipóteses a serem testadas. No
caso de um estudo de caráter exploratório, em que o objetivo do pesquisador é conhecer algo do
qual possui pouca ou nenhuma informação, fica difícil inclusive formular algum tipo de hipótese.
Nesse caso em particular, o aluno poderá apenas formular algumas questões secundárias.

EXEMPLO 2

PROBLEMA: Quais as dificuldades mais encontradas na elaboração de um plano de negócios?

Fonte: do Autor.

Nesse caso, o estudo em questão será uma EXPLORAÇÃO das principais dificuldades que
profissionais de diferentes áreas encontram para elaborar um plano de negócios. Não há hipóteses
a serem testadas, mas, sim, apenas um problema a ser investigado que não deixa de oferecer
questionamentos ao pesquisador.

84
O plano de pesquisa • CAPÍTULO 6

Saiba mais

Os professores Vilson Carvalho (autor deste instrucional) e a Fabiane Muniz aparecem nesse rápido vídeo para
conversar sobre hipótese: confira! <https://www.youtube.com/watch?v=Z1xeKddxbvA>.

A delimitação

A delimitação pode ser definida com uma especificação mais concreta do seu problema em relação
à área de abrangência, local, tempo e amostra que servirá ao estudo. Por mais que tenhamos
tentado aclarar através dos objetivos e das hipóteses, o que queremos com nosso estudo é a
definição de algumas perguntas que ainda podem ficar sem respostas. São questões como: onde
o estudo será desenvolvido? Quantas pessoas serão entrevistadas? Quantos questionários serão
aplicados? Quantas escolas estarão envolvidas na pesquisa? Quando a observação foi feita? Etc.

Vejamos também alguns exemplos de delimitação:

EXEMPLO 1

TÍTULO: Seleção de pessoal: desafios e propostas

DELIMITAÇÃO: Este estudo será desenvolvido em uma empresa privada de Salvador (BA),
onde serão entrevistados 6 (seis) profissionais, de diferentes idades e sexos, que atuam na área
de seleção em 2004.

EXEMPLO 2

TÍTULO: Enfrentando o desafio da inclusão

DELIMITAÇÃO: a presente pesquisa delimita-se a duas escolas da rede pública localizadas em


Vitória (ES), onde 50 questionários serão distribuídos, sendo 30 destinados a professores e 10
destinados a psicopedagogos que atuam na área da inclusão. O estudo deverá ser efetivado no
período de março a abril de 2000.

Os procedimentos metodológicos

Um item fundamental do Projeto de pesquisa se refere aos procedimentos metodológicos a


serem utilizados na realização de seu estudo monográfico. Trata-se de uma explicação detalhada
dos métodos (meios) de pesquisa e a maneira de como estes deverão ser empregados em seu
estudo.

85
CAPÍTULO 6 • O plano de pesquisa

Neste item você deve incluir as técnicas, os procedimentos, os equipamentos e materiais


necessários, as variáveis consideradas e do tipo de coleta  e interpretação de dados a ser empregado.
Os aspectos estatísticos, quando for o caso, tanto no que diz respeito a técnicas descritivas
quanto aos testes a serem utilizados devem também ser discriminados.

O enfoque metodológico de uma pesquisa – no que se refere à clareza, à pertinência e ao domínio


– é de vital importância para o desenvolvimento dela e o alcance dos resultados perseguidos.
Em outras palavras, para o emprego de determinado método, faz-se necessário compreender
bem suas especificidades teóricas – sobretudo em seus princípios, que devem estar vinculados
ao objeto de estudo – e práticas (particularmente no caso do manuseio de um instrumento de
pesquisa qualquer).

É sempre bom destacar que a natureza do problema é que determina o método, ou seja, a
escolha do método é feita em função do problema estudado. Lembre-se de que o sucesso na
realização de uma pesquisa depende do domínio em três pontos essenciais aqui desenvolvidos:
o conhecimento teórico e conceitual; a metodologia a ser seguida e a aplicação das técnicas
e instrumentos (RAMPAZZO, 2005). Assim, procure estar bem informado sobre o caminho
teórico-metodológico a seguir e as técnicas que pretende aplicar no caso de uma pesquisa empírica.

A escolha entre a aplicação de um questionário ou a realização de uma entrevista, por exemplo,


dependerá do tipo de pesquisa que se desenvolver (quantitativa ou qualitativa) e os objetivos
da pesquisa a serem alcançados.

EXEMPLO

PROCEDIMENTO METODOLÓGICO

O instrumento utilizado para realização da pesquisa será um questionário. Este é composto


de cinco questões do tipo descritivo a serem respondidas por alunos de idades entre 13 e 16
anos e diferentes ciclos de estudo.

Deverão ser aplicados 44 questionários em duas escolas sendo 22 em uma escola da rede
pública e 22 em uma escola da rede privada. A aplicação deles será feita pelo próprio autor
em dia e horário a serem combinados nas instituições escolares. Ao final da coleta desses
dados, os questionário serão avaliados a partir de alguns critérios específicos, tais como:
pontualidade, participação, empenho e interesse.

Se você pretende fazer em seu estudo monográfico uma abordagem apenas teórica, a metodologia
será reduzida fundamentalmente à pesquisa bibliográfica (envolvendo aí não apenas livros,
mas, também, sites da Internet, artigos eletrônicos, CDs, revistas, artigos de jornais etc.) para
fundamentação conceitual desta. Nesse caso, é importante sinalizar a fundamentação bibliográfica

86
O plano de pesquisa • CAPÍTULO 6

sobre a qual seu estudo será efetivado. Sobre esse ponto, lembre-se de considerar em suas
referências os itens:

» Autor (ou coordenador, ou organizador, ou editor) - escreve-se primeiro o sobrenome


paterno do autor, em caixa alta, e, a seguir, o restante do nome, após uma separação
por vírgulas.

» Título e subtítulo - o título deve ser realçado por negrito, itálico ou sublinhado.

» Local da publicação – é o nome da CIDADE onde a obra foi editada e, após a referência
de local, devem ser grafados dois pontos (:), seguido da editora.

» Editora - só se coloca o nome da editora. Não se coloca a palavra Editora, Ltda., ou S.A.
etc. bastando apenas por Ática.

» Ano da publicação – ano em que a obra foi editada.

» Número de volumes (se houver).

» Número da edição (a partir da segunda edição) - Não se usa o sinal de decimal (a).

» Paginação – Quantidade de páginas da obra ou páginas referentes ao artigo citado (ex.:


pp. 10-15).

Vejamos um exemplo a título de esclarecimento:

EXEMPLO

No caso de um único autor – livro:

JAPIASSU, H. F. O mito da neutralidade científica. Rio de janeiro: Imago, 1975.

No caso de vários autores – livro:

CARVALHO, A. et al. Aprendendo metodologia científica. São Paulo: nome da rosa, 2000.

No caso de um autor – revista:

CARVALHO, V. A ética da educação ambiental. In: Revista veja, no 123, ano XX. São Paulo:
Abril Cultural, 2002. pp. 33-45.

O cronograma

Por fim, o Cronograma diz respeito aos prazos das etapas da pesquisa em termos das atividades
a serem desenvolvidas.

87
CAPÍTULO 6 • O plano de pesquisa

Seu objetivo é favorecer o planejamento do tempo de duração da pesquisa como um todo e


de cada uma de suas etapas, considerando o tempo disponível para sua execução. Em geral, o
cronograma é dividido em meses, mas é possível encontrar períodos dos cronogramas divididos
em semanas, bimestres, trimestres ou até semestres. Vejamos um exemplo simples:

MESES J F M A M J J A S O N D
ATIVIDADES
1. LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO X

2. ELABORAÇÃO DO PROJETO X X

3. SELEÇÃO DA EQUIPE X

4. COLETA DE DADOS X X X X

5. TRATAMENTO DE DADOS X X X

6. ELABORAÇÃO DO RELATÓRIO FINAL X

7. CONCLUSÃO E REVISÃO DO TEXTO X

8. ENTREGA DO TRABALHO

Fonte: Elaboração do autor.

Sobre a apresentação de trabalhos científicos

Os seminários, encontros, jornadas e workshops são espaços privilegiados para apresentar, divulgar,
confrontar e, de certa forma, promover a produção de conhecimentos. Com características próprias
– os seminários e as jornadas, por exemplo, duram mais de um dia, enquanto os encontros e
workshops podem acontecer em uma única tarde – cada um desses espaços favorece a exposição
de opiniões diversas, e até mesmo divergentes, entre si promovem um debate propício à inspiração
de novas ideias e com elas novas pesquisas.

Não apenas nesses espaços, mas também em outros diferentes momentos você será convidado
a apresentar seu trabalho, artigo ou mesmo seu projeto com o objetivo de convencer, obter
fomentos à pesquisa que será desenvolvida ou mesmo, como já foi dito, como o propósito de
divulgar, suas ideias e aprender com as possíveis críticas.

É importante lembrar que a participação nesse tipo de evento conta como produção tanto para
você quanto para seu(sua) orientador(a) e, caso você esteja associado a alguma instituição, essa
também pode ser beneficiada. Por isso, é importante que você não perca oportunidades de
divulgar o que você está fazendo e ampliar seu currículo lattes.

Seguem algumas dicas para facilitar esse momento:

» se prepare, evite ir para esse tipo de apresentação sem pelo menos um roteiro básico
do que apresentar de forma estruturada;

88
O plano de pesquisa • CAPÍTULO 6

» procure conhecer bem o assunto a ser apresentado, não apenas o assunto em si, mas
também sua história, seu contexto e suas implicações na pesquisa. Só comunicamos
bem o que sabemos.

» procure falar com segurança e com naturalidade sobre o tema. Lembre-se de que a
memorização leva a uma fala mais decorada e cansativa;

» ler o material escrito ou projetado leva o público a perder o interesse e ficar desmotivado.
Use o material para rápidas consultas como um roteiro, mas não como uma leitura
continua e enfadonha. Lembre-se de que nem todos os presentes tem o mesmo interesse
que você pelo seu objeto de pesquisa;

» faça um roteiro de apresentação, ou pelo menos organize as transparências, slides, telas


em uma sequência que favoreça sua apresentação;

» ao falar, olhe nos olhos dos participantes, convencendo a todos da importância de seu
estudo e do trabalho desenvolvido. Fale para todos os presentes, e não apenas para a
mesa, ou seu professor orientador;

» utilize as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) como os softwares


como prezi e o powerpoint para apresentar seu trabalho. Isso prenderá mais atenção
dos ouvintes e favorecerá a compreensão do conteúdo;

» cuidado para não falar de costas para o público ou se colocar na frente daquilo que será
projetado. Ao usar o datashow ou o retroprojetor em vez de apontar o dedo diretamente
na tela, procure utilizar algum tipo de sinalizador próprio para esses fins, como caneta
a laser, ou mesmo o “passador de slides”;

» faça algumas pausas, colocando-se à disposição dos ouvintes para esclarecer dúvidas.
Procure planejar sua apresentação, de modo que ela possua três momentos essenciais
e encadeados: abertura, desenvolvimento e encerramento.

» procure respeitar o tempo de apresentação, tendo assim consideração com os que ainda
irão apresentar seu trabalho;

» nunca deixe, no início da apresentação ou no final, de agradecer a oportunidade de estar


ali, uma vez que os trabalhos são selecionados, bem como ao seu(sua) orientadora. No
final, agradeça também as contribuições dos participantes. Lembre-se de que mesmo
as críticas servem ao aperfeiçoamento das suas ideias.

89
CAPÍTULO 6 • O plano de pesquisa

Sintetizando

Neste capítulo:

» Estudamos a definição de plano de pesquisa e sua importância.

» Analisamos minuciosamente todos os itens de um plano de pesquisa.

» Estabelecemos critérios a serem observados na elaboração do plano de pesquisa desde a escolha do tema,
passando pelo problema-chave que ele encerra, sua justificativa, objetivos até o seu referencial teórico e
metodológico.

90
Referências
ANDRADE, M. Introdução à metodologia do trabalho científico. São Paulo: Atlas, 2003.

ARANHA, M.; MARTINS, M. Filosofando: Introdução a Filosofia. Rio de Janeiro: Moderna, 2009.

ARAÚJO, M. Caderno de Metodologia de Pesquisa. Cursos de Graduação a Distância. Rio de Janeiro: AVM Faculdade
Integrada, 2011.

ARISTÓTELES. Órganom. Lisboa: Guimarães Editores, 1985.

BAGNO, M. Pesquisa na escola: o que é e como se faz? São Paulo: Loyola, 2000.

BARBOSA, L. Metodologia do trabalho científico. Rio de Janeiro: Universidade Castelo Branco, 2007.

BARRETO, A. V. P.; HONORATO, C. de F. Manual de sobrevivência na selva acadêmica. Rio de Janeiro: Objeto Direto, 1998.

BARROS, A.; LEHFELD, N. Fundamentos de metodologia científica: um guia para a iniciação científica. – 2. ed. – São
Paulo: Makron Books, 2000.

BERNARDO, S. A importância da pesquisa para o setor educacional. 2001. Disponível em: <http://www.folhadirigida.
com.br/professor2001/cadernos/nova_edu/40.html>. Acesso em: 12 jun. 2017.

BORDENAVE, J. D.; PEREIRA, A. M. Estratégias de ensino-aprendizagem. – 12. ed. – Petrópolis: Vozes, 2002.

CARVALHO, A. et al. Aprendendo metodologia científica. São Paulo: Nome da Rosa, 2000.

CARVALHO, V. Análises Quantitativa e Qualitativa: as duas faces da moeda metodológica. In: Cadernos: A palavra do
Aluno. Revista do Curso de Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social, ano 1, no 1, 1995.

CARVALHO, V. (Org.). Interfaces entre educação a distância e educação ambiental. Rio de Janeiro: Wak, 2014.

CERVO, A.; BERVIAN, P. Metodologia científica. – 5. ed. – São Paulo: Makron Books, 2002.

CHALMERS, A. F. O que é Ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993.

CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.

COLOMBO, A.; BERBEL, N. A Metodologia da Problematização com o Arco de Maguerez e sua Relação com o Saber
de Professores. In: Revista Semina: Ciência Sociais e Humanas. Londrina, v. 28, no 2, pp. 121-146, jul./dez., 2007.

CRUZ, C. A nova ciência do Brasil. 2000. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2307200001.


htm>. Acesso em: 13 jun. 2008.

DEMO, P. Metodologia do conhecimento científico. São Paulo: Atlas, 2000.

______. Pesquisa e informação: aportes metodológicos. São Paulo: Papirus, 2001.

DESLANDES, S. F. A Construção do Projeto de Pesquisa. In: MINAYO, M. (Org.) – Pesquisa Social: Teoria, Método e
Criatividade. Petrópolis (RJ): Vozes, 1998.

ECO, H. Como se faz uma Tese. São Paulo: Editora Perspectiva, 1998.

ESTRELA, C. Metodologia científica: ensino e pesquisa em odontologia. Porto Alegre: Artes Médicas, 2001.

FARIA, D. S. de. (Org.). Construção conceitual da extensão universitária na América Latina. Brasília: Universidade
de Brasília, 2001.

91
Referências

FÁVERO, M. Universidade & Poder. Rio de Janeiro: Achiamé, 1980.

FOURASTIÉ, J. Les conditions de l’espirit scientifique. Paris: Gallimard, 1967.

FREIRE, P. Ação cultural para a liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

GALLIANO, A. (Org.). O método científico. São Paulo: Harper & Row do Brasil, 1986.

______. O método científico: teoria e prática. São Paulo: Harbra, 1986.

GIL, A. Como elaborar projetos de pesquisa. – 4. ed. – São Paulo: Atlas, 2002.

______. Métodos e técnicas de pesquisa social. – 5. ed. – São Paulo: Atlas, 1999.

GRESSLER, L. A. Introdução à pesquisa: projetos e relatórios. – 2. ed. – São Paulo: Loyola, 2004.

GOLDEMBERG, M. A arte de pesquisar. Rio de Janeiro: Record, 1998.

GÜNTHER, I. A. Pesquisa para conhecimento ou pesquisa para decisão? Revista Psicologia: Reflexão & Crítica, 1(1),
pp. 75-78. Rio Grande do Sul: UFRGS, 1986.

HESSEN, J. Teoria do conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

HÜHNE, L. (Org.). Metodologia científica: caderno de textos e técnicas. Rio de Janeiro: Agir, 1999.

JAPIASSU, H. Introdução à epistemologia. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

______. O mito da neutralidade científica. – 2. ed. – Rio de Janeiro: Imago, 1981.

______.; MARCONDES, D. Dicionário básico de Filosofia. – 3. ed. – RJ: Zahar, 1996.

KANT, I. Manual dos cursos de lógica geral. Coleção Multilíngues de Filosofia Unicamp – Série A – Kantiana I. – 2.
ed. – São Paulo: Ed. Unicamp. 2006.

KERSCHER, M. A.; KERSCHER, S. A. Monografia como fazer. Rio de Janeiro: Thex, 1998.

KÖCHE, J. C. Fundamentos de metodologia científica: teoria da ciência e prática da pesquisa. – 14. ed. – Petrópolis:
Vozes, 1997.

LAKATOS, E.; MARCONI, M. Metodologia Científica. – 2. ed. – São Paulo: Atlas, 1991.

LUCKESI, C. Fazer Universidade: Uma Proposta Metodológica. São Paulo: Cortez, 1996.

LUNA, S. Planejamento de Pesquisa: uma introdução. São Paulo: EDUC, 1998.

MALHEIROS, B. T. Metodologia da Pesquisa em Educação. Rio de Janeiro: LTC, 2011.

PARRA FILHO, D.; SANTOS, J. Metodologia científica. São Paulo: Futura, 1998.

OLIVEIRA, E. A. Metodologia de pesquisa. Caderno de Estudos dos Cursos de Graduação Tecnológica em Gestão
Ambiental. Gestão Hospitalar e Gestão Pública. Rio de Janeiro: AVM Faculdade Integrada, 2011.

RAMPAZZO, L. Metodologia científica para alunos dos cursos de graduação e pós-graduação. São Paulo: Loyola, 2005.

RICHARDSON, R. J. Pesquisa social: métodos e técnicas. São Paulo: Atlas, 1999.

ROSA, C. A. A ciência e o triunfo do pensamento científico no mundo contemporâneo. – 2. ed. – Brasília: Fundação
Alexandre de Gusmão, 2012. v. 3.

RUDIO, F. Introdução ao projeto de pesquisa científica. Petrópolis: Vozes, 2001.

RUIZ, J. Á. Metodologia científica: guia para eficiência nos estudos. – 3. ed. – São Paulo: Atlas, 1993.

SALOMON, D. Como fazer uma monografia. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

SANTOS, A. Metodologia científica: a construção do conhecimento. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.

SANTOS, J. A.; PARRA FILHO, D. Metodologia científica. São Paulo: Futura, 1998.

92
Referências

SILVA, A.; MOURA, E. Metodologia do trabalho científico. Fortaleza: IVA, 2000.

SELLTIZ, W.; WRIGHTSMAN, L.; COOK, S. Métodos de pesquisa nas relações sociais. São Paulo: EPU, 1987.

SEVERINO, A. Metodologia de trabalho científico. – 17. ed. – São Paulo: Cortez, 1991.

TRUJILLO, A. Metodologia de pesquisa científica. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1982.

VASCONCELOS, E. Complexidade e pesquisa interdisciplinar: epistemologia e metodologia operativa. Rio de Janeiro:


Vozes, 2002.

VILELA, L. Considerações sobre os factos. In: Suplemento da Revista Litoral. Ano I, no 4, dez./1959, pp. 15-16.

WOODS, T. E. How the Catholic Church built western civilization. Washington, USA: Regnery Publisher, 2012.

93

Você também pode gostar