Você está na página 1de 2

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS


DISCIPLINA: LÍNGUA PORTUGUESA IV - MORFOLOGIA
DOCENTE: Prof. Dr. Ivo da Costa do Rosário

CONCEITOS BÁSICOS DA MORFOLOGIA GERATIVA

A. GRAMÁTICA SUBJACENTE
- Gramática subjacente = gramática internalizada, implícita
- Conhecimento que o falante-ouvinte tem de sua língua.

B. COMPETÊNCIA LEXICAL
- Conhecimento que o falante tem do léxico da sua língua.
- LÉXICO – conjunto das entradas lexicais de uma língua.
- Conhecer o léxico significa saber usar os itens lexicais e poder estabelecer relações entre eles.
- A competência lexical de um falante nativo compreende:
- o conhecimento de uma lista de entradas lexicais;
- o conhecimento da estrutura interna dos itens lexicais, assim como relações entre os vários itens.
- conhecimento subjacente à capacidade de formar entradas lexicais gramaticais novas.

C. REGRAS MORFOLÓGICAS E REGRAS SINTÁTICAS


- As regras morfológicas diferem nitidamente das regras sintáticas.
- As criações sintáticas no nível da frase são efêmeras, servem para uma comunicação imediata e específica.
- As criações morfológicas no nível da palavra tendem a ser perenes, ou seja, tendem a um congelamento.
- Formações esporádicas – palavras que são criadas com existência efêmera.
- As línguas possuem dicionários de palavras, mas não dicionários de sentenças.

D. REGRAS DE ANÁLISE ESTRUTURAL (RAE’s) E REGRAS DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS (RFP’s)


- Formas institucionalizadas – palavras familiares aos falantes.
- Com relação aos itens complexos institucionalizados, é possível ao falante reconhecer a estrutura das
palavras. Ao fazer isso, o usuário estará empregando uma Regra de Análise Estrutural, ou seja, uma RAE.
- Ao produzir novos itens lexicais, o falante estará fazendo uso de uma RFP, ou seja, de uma Regra de
Formação de Palavras.
- Toda RFP corresponde a uma RAE. Ao criar uma palavra nova ou ao interpretar um novo item lexical, o
falante demonstra conhecer a estrutura do item recém-criado. Essa transparência morfo-semântica permite o
surgimento de novas entradas lexicais, pois, antes de mais nada, as pessoas querem entender e ser entendidas.
- Uma RAE pode corresponder a uma RFP, ou não. A RAE que permite reconhecer as estruturas de palavras
como florista, maquinista, artista, corresponde à RFP que permite criar itens novos, como encontrista,
palestrista e zapatista. Já RAE's que estabelecem as estruturas de palavras como momentâneo, celeste,
campestre, róseo e natalício, não correspondem a RFP’s, uma vez que na língua atual não se criam novas
palavras com os sufixos –âneo, -este, -estre, -eo e –ício.
- Aronoff (1976): “A maior diferença entre a sintaxe e a morfologia (...) é que na morfologia derivacional há
uma distinção para ser feita entre as classes de palavras possíveis e as realmente existentes. (...) há muitas
palavras que uma gramática pode gerar em uma língua que, acidentalmente ou assistematicamente, nunca
aparecem”.

E. PRODUTIVIDADE LEXICAL
- Os dicionários deixam de assinalar vários termos familiares a uma comunidade lingüística, como imexível –
do mesmo modo como registram palavras que não se usam mais – como algibeira (arcaísmo). Sob o ponto de
vista exclusivamente científico, é difícil definir se uma palavra existe ou não, em uma língua.

1) Palavras impossíveis. Por exemplo, só se criam palavras novas com o sufixo –dor, se a base é verbo.
Assim, *luzdor, *gizdor, *bonitodor são impossíveis. Neste caso dá-se o que se chama de transgressão
sufixal.
2) Palavras possíveis sob o ponto de vista da RFP, mas rejeitadas pelos falantes por algum motivo especial,
como fabricador.
3) Palavras possíveis sob o ponto de vista da RFP e que podem ser acionadas a qualquer momento numa
conversa, numa propaganda, em textos jornalísticos ou científicos, como cajuada, maracujada,
espalhamento. As pessoas não utilizam esses itens simplesmente porque eles não existem, mas nada impede
que sejam acionados a qualquer momento. Nestes casos, dá-se o fenômeno da inércia morfológica.
4) Palavras reais institucionalizadas, familiares a uma comunidade lingüística, mas não-dicionarizadas, por
serem recém-criadas. Por exemplo, parecerista, doleiro, grafiteiro, pichador, malufar etc.
5) Palavras que, apesar de dicionarizadas, não são conhecidas de uma comunidade lingüística, ou por serem
arcaísmos, ou por serem regionalismos, ou por serem palavras restritas a um grupo de falantes ou a uma
profissão, por exemplo.
6) Por fim, há as palavras reais, ou seja, aquelas que fazem parte efetiva de uma comunidade lingüística, ou
seja, da lista de entradas lexicais, independentemente de constar de dicionário ou não.

- Produtividade lexical = possibilidade de surgimento de novos itens lexicais na língua.


- A grande maioria das palavras usam no dia-a-dia palavras “congeladas” ou familiares, mas nada impede
que novas palavras sejam formadas, com grande nível de transparência, sob o ponto de vista morfológico e
semântico, como doleiro, taxista, carreata, buzinaço etc.
- Há, contudo, itens cristalizados que podem ser não só regulares como também irregulares. A irregularidade
pode ser morfológica ou semântica. Vejamos:

Irregularidade morfológica Irregularidade semântica


Expulsar – (?) expulsação – expulsão Palavra – palavrão (palavra inconveniente)
Eleger – (?) elegeção – eleição Amar – amante (quem tem parceiro clandestino)
Confundir – (?) confundição - confusão Refrigerar – refrigerante (tipo de bebida)

- As irregularidades são muito numerosas na língua portuguesa. Tal anomalia tem levado muitos estudiosos a
declararem a impossibilidade de se fazer um estudo regular e sistemático do léxico. Para Robins (1981), por
exemplo, a derivação estaria no campo da escolha pessoal do falante.

O ESTUDO DA MORFOLOGIA NAS GRAMÁTICAS BRASILEIRAS

- Há muitas críticas injustas à Gramática Tradicional.


- Questionamentos gerais:
1) Tradição – As gramáticas normativas são cópias de gramáticas antigas, que, por sua vez, são cópias da
gramática latina, que, por sua vez, é cópia da gramática grega. O peso da tradição dificulta bastante a revisão
e a adoção de novas posições.
2) Autoridade – Estranhamos nas gramáticas não o que elas dizem, mas a maneira como os dados são
colocados. É proposta, por exemplo, uma lista de sufixos, sem maiores explicações.
3) Omissão – O mais preocupante não é o que a gramática tradicional diz, mas o que ela não diz.
4) Compromisso com o ensino – A pesquisa de um modo geral não pode estar preocupada ou comprometida
com qualquer fator que não seja a própria pesquisa.
5) “Camisa de força” – O imobilismo do ensino de português, aliado a interesses comerciais, operam sobre os
compêndios gramaticais como verdadeiras “camisas de força”.

- Questionamentos específicos (caso da sufixação):


1) Confusão entre os planos sincrônico e diacrônico. Ora apela-se para explicações diacrônicas, ora elas são
descartadas. Veja-se o exemplo do verbo comem (cumedere, no latim).
2) Ausência de critérios. As gramáticas apelam para listas de sufixos e esquecem o raciocínio lógico.
3) Problema da sistematização. Alguns processos muito produtivos são postos ao lado de processos anômalos
4) Lista de sufixos. Parece que o estudo da sufixação se restringe a uma lista de sufixos. A GT costuma
apenas se preocupar com listas de palavras já formadas. Cegalla (1979), por exemplo, submete ao mesmo
item sufixos bem diferentes como –ada, -ção e –eza, que formam novas palavras a partir de categorias
lexicais distintas, o que vale dizer, através de regras morfológicas diferentes.

Referência bibliográfica:
ROCHA, Luiz Carlos de Assis. Estruturas morfológicas do Português. Belo Horizonte: Editora UFMG,
2003. (capítulos 1 e 2). Texto 3