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Álvaro Vasco Utui

Alzira José Nhampimbe

Ana Bela Xavier Maxonissane

Reginaldina Rosália José Novela

Viriato Manusse Júnior

Tipos de frases: Sua reflexão no contexto moçambicano

Licenciatura em Ensino de Português com Habilitações em Inglês

Universidade Pedagógica de Moçambique

Gaza

2014
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Álvaro Vasco Utui

Alzira José Nhampimbe

Ana Bela Xavier Maxonissane

Reginaldina Rosália José Novela

Viriato Manusse Júnior

Trabalho de pesquisa sobre “Tipos de frases: Sua reflexão


no contexto moçambicano” realizado em cumprimento
das actividades programáticas da cadeira de Sintaxe,
Semântica e Pragmática do Português I, sob orientação do
docente Dr. Ângelo Mauai.

Universidade Pedagógica de Moçambique

Gaza

2014
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Índice Páginas

0.Introdução 6

0.1 Objectivos..................................................................................................................................7

0.2 Metodologia...............................................................................................................................7

0.3 Delimitação do Tema.................................................................................................................8

1.0 Referencial teórico.....................................................................................................................8

2.0 Tipos de frases.........................................................................................................................11

2.1 Frases declarativas...................................................................................................................11

2.2 Frases interrogativas: Seus tipos..............................................................................................11

2.2.2 Condições sobre o movimento Q nas interrogativas............................................................13

2.3 Frases imperativas...................................................................................................................15

2.3.1 Frases imperativas e Modo...................................................................................................15

2.3.2 Tipos de predicados e valor das imperativas........................................................................15

2.3.3 Imperativas directas e indirectas...........................................................................................15

2.3.4 Os Modificadores de intensificação ou atenuação do acto directivo de ordem....................15

2.4 Frases exclamativas: Seus tipos...............................................................................................16

2.5 Frases optativas........................................................................................................................17

2.6 Frases com tópicos marcados..................................................................................................18

3.0 Os constituintes das frases simples e suas funções sintácticas................................................19

4.0 Reflexão sobre estrutura de variação frásica do Português de Moçambique..........................27

5.0 Conclusão................................................................................................................................32

6.0 Bibliografia..............................................................................................................................33
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Lista de abreviaturas

LP- Língua Portuguesa

F- Frase

SN- Sintagma Nominal

N- Nome

SV- Sintagma Verbal

V- Verbo

SP- Sintagma Preposicional

T- Tempo

O- Objecto

S- Sujeito

Conc- Concordância

P.Perf.- Pretérito Perfeito

1ª sg- Primeira pessoa do singular

3ª sg- Terceira pessoa do singular

SCOMP- Sintagma Complementador

COMP- Complemetador

SFLEX- Sintagma Flexional

FLEX- Flexão

SADV- Sintagma Adverbial

ADV- Advérbio
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CDs – Compacto discos

INT- Interrogativo

Q- Questionamento

CV- Categoria vazia

i, j, n, r - Índices das categorias vazias

pro - Pronome recuperável


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0.Introdução
O presente trabalho com o tema “tipos de frases”, concretamente frases simples, têm em vista a
abordagem dos fundamentos básicos e relevantes da cadeira, no que tange a intenção da fala
como elemento essencial no estabelecimento da comunicação, pois os tipos de frases traduzem a
atitude do enunciador a respeito daquilo que enuncia perante o seu interlocutor.

Antes de mais nada é apresentado o conceito da frase como também o da frase simples, que
constitui o objecto de estudo da Sintaxe, sendo nesta área em que o nosso tema está enquadrado e
que a mesma interpenetra-se com a Semântica e Pragmática, dado que a Semântica deve ser vista
como instrumental em relação à Pragmática, e Sintaxe como instrumental em relação à
Semântica, contudo a Pragmática é vista como componente que comanda os estudos sobre os
aspectos sintácticos e semânticos.

Deste modo o trabalho apresenta os tipos de frases acompanhando sempre a intenção da fala e os
seus constituintes imediatos bem como as suas funções. Em seguida apresentaremos a nossa
reflexão sobre a frase no contexto moçambicano em relação ao Português Europeu, assim como
as conclusões a que chegamos depois das leituras efectuadas.

0.1 Objectivos
0.1.1 Objectivos Gerais

 Compreender a função dos tipos de frase durante a comunicação.

0.1.2 Objectivos Específicos

 Identificar os tipos de frases;

 Caracterizar os tipos de frases;

 Identificar as funções dos tipos de frase durante a comunicação;


 Distinguir os tipos de frases;
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0.2 Metodologia
Para a elaboração do trabalho e como forma de dar maior sustentabilidade científica recorreu-se
à consultas bibliográficas de vários autores que abordam sobre o assunto, bem como na análise
de construção frásica no Português falado em Moçambique.

0.3 Delimitação do Tema


A frase é uma construção indispensável para a comunicação entre os seres humanos. Ela
apresenta-se em tipos diferentes consoante a intenção dos interlocutores ou de contexto em que
se encontra. Entretanto, há casos em que os falantes do Português de Moçambique fazem o uso
inadequado dos diversos tipos de frase na comunicação e em certos casos constroem frases
distanciadas da norma europeia. Por isso, o trabalho abordará “ os tipos de frase: Sua
caracterização e reflexão no contexto moçambicano”.
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1.0 Referencial teórico


Antes de discutir a questão principal desta abordagem, para facilitar a compreensão do tema,
impõe-se-nos explorar alguns conceitos básicos e indispensáveis para a compreensão do trabalho

na base de alguns teorizadores com os quais iremos operar. São eles os conceitos de frase e frase
simples.

Frase “é uma unidade sequencial autónoma - ordenação de palavras e morfemas delimitada no


início por uma maiúscula e no fim por um sinal de pontuação forte ou uma entoação descendente
ou ascendente – e uma unidade de sentido” (Figueiredo, 2004:130).

Segundo Gomes et all (1991:260), frase é “uma sequência organizada de palavras que constitui
uma unidade de sentido e assim permite a comunicação entre destinador e destinatário.”

Na óptica de Cunha & Cintra (2005:119), frase “é um enunciado de sentido completo, a unidade
mínima de comunicação.”

Concluímos que os três autores convergem no facto de que a frase é um enunciado de sentido
completo com uma intenção ilocutória ou comunicativa; e os três conceitos também
complementam-se, pois na escrita uma frase deve iniciar com letra maiúscula e terminar em
ponto característico do tipo de frase, e na fala o início e o fim da frase deve apresentar uma
entoação característica da frase.

Os mesmos autores acima citados, afirmam que a frase pode ser constituída:

a) De uma só palavra.

(1) Fogo!

Dependendo do contexto pode ter um sentido completo, portanto seria frase. É também
enunciado, pois contém momento de fala, ponto de evento e ponto de referência, e há
coincidência entre o momento de fala e ponto de evento.

b) De várias palavras, entre as quais se inclui ou não um verbo:

• Com verbo:
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(2) Alguns anos vivi em Itabira.

• Sem verbo:

(3) Que alegria!

Para Cunha & Cintra (2005:119) a frase é sempre acompanhada de uma melodia, de uma
entoação. Nas frases organizadas com verbo, a entoação caracteriza o fim do enunciado,
geralmente seguido de forte pausa.

(4) Cai a chuva lentamente…

Se a frase não possui verbo, a melodia é a única marca porque podemos reconhecê-la. Sem ela,
frases como: Atenção! Que inocência!

Seriam simples vocábulos, unidades lexicais sem função, sem valor gramatical.

Gomes et all (1991:260), consideram frase simples “a sequência assente em apenas um verbo
pleno”.

De acordo com Ribeiro, et all (240:2010), frase simples – “tem como elemento central um único
verbo central ou copulativo que atribui uma propriedade a uma entidade ou estabelece uma
relação entre entidades”.

Na óptica de Cunha & Cintra (2005:120), frase simples “é aquela que contém apenas uma
oração”.

Duarte (2000:157) afirma que numa frase simples o elemento central da predicação é o verbo
que se combina com os seus argumentos (internos e ou externos) de acordo com os seus padrões
sintácticos da língua.

Os quatro autores acima citados são unânimes na conceptualização de frase simples, pois
afirmam que é aquela que apresenta apenas um verbo.

i. Quando apresenta só forma verbal, clara ou oculta:

(5.a) O dia decorreu sem sobressalto.


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(5.b) Na cabeça, aquela bonita coroa.

ii. Duas ou mais formas verbais, integrantes de uma locução verbal:

(6.a) Podem vir os dois…

(6.b) Tudo de repente entrou a viver uma vida secreta de luz.

Feita a conceptualização terminológica, passamos a apresentar o desenvolvimento profundo do


nosso tema.

2.0 Tipos de frases


Os tipos de frases traduzem a atitude do enunciador a respeito daquilo que enuncia e a respeito
do destinatário.

Vários autores versam sobre o assunto, mas cada um apresentando a sua visão, sendo que uns
consideram quatro tipos (declarativo, interrogativo, exclamativo e imperativo), Mateus et all
(2003:435-436) afirmam que existem cinco tipos de frases que são:

2.1 Frases declarativas

Trata-se de frases com certas propriedades gramaticais, que podem exprimir qualquer tipo de
acto ilocutório.

(7) A amiga da Maria viu o filme.

Na construção acima está patente o acto ilocutório assertivo podendo exprimir uma acção
verdadeira ou falsa. Na mesma, sendo do tipo declarativo vamos encontrar os constituinte
imediatos da frase: sintagma nominal e sintagma verbal.

2.2 Frases interrogativas: Seus tipos


Na perspectiva de Mateus et all (2003:460), as frases interrogativas – são as que têm certas
propriedades gramaticais, que exprimem actos directivos de pedido (de acção ou de informação).

Segundo Fonseca et all (1998;12), interrogação refere-se apenas ao aspecto formal de um


enunciado, enquanto o conceito pergunta revela do âmbito pragmático. A interrogação é uma
entidade gramatical e a pergunta é uma entidade ilocutória.
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2.2.1Características da estrutura interrogativa

 Presença de determinados marcadores morfo-sintácticos,


 Existência de um pronome a ou advérbio interrogativo no início da frase, o qual,
constituindo uma variável que precisa de ser instanciada, é tipicamente interrogativo;
 A inversão do sujeito que ocorre frequentemente em francês, por exemplo, mas também
em Inglês e Português.
(8) Não queres tu tomar banho agora?

Em português há algumas construções sintácticas que estão sempre associadas à estrutura


interrogativa “será que…” é uma estrutura que nunca ocorre em frases assertivas nem
imperativas. “E não é que…” e “porventura …” também surge apenas nas frases interrogativas.

(9.a) Será que ele vem?


(9.b) E não é que tu tinhas razão?
(9.c) Porventura alguém sabe que eu estou aqui?

Uma interrogação é apenas uma forma, uma espécie de molde que pode ter vários usos, várias
funções, e uma dessas funções pode ser exactamente a de pergunta, de igual modo, a pergunta,
enquanto força ilocutória, pode provir de uma estrutura diferente, que não é a interrogativa.

De acordo com Mateus et all (2003:461), as frases interrogativas podem ser de dois tipos: totais
(globais, proposicionais ou de sim/não), parciais (de constituintes, de instanciação ou
interrogativas “Q”) e interrogativas “tag”.

a) Interrogativas totais (globais, proposicionais ou de sim/não) – são formuladas com


objectivo de obterem, da parte do alocutário, uma resposta afirmativa ou negativa. A
resposta afirmativa a uma interrogativa total pode ser sim, seguido do verbo da pergunta,
mas normalmente é apenas constituída pelo verbo.

(10) O António telefonou? Em resposta: Sim, telefonou.

b) Interrogativas parciais – caracterizam-se pela presença de constituintes interrogativos


(pronomes, adjectivos ou advérbios), que marcam precisamente o foco da interrogação.

(11) Que vinho trago?


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2.2.2 Condições sobre o movimento Q nas interrogativas


Os morfemas ou sintagmas interrogativos são engendrados numa posição interna à frase e são
movidos para uma posição à esquerda, a essa deslocação designa-se movimento Q.

Uma frase interrogativa é descrita pela categoria funcional sintagma complementador (SCOMP)
e que o seu núcleo COMP (ou C), é caracterizado pelos traços [+ INT; + Q]. Nas interrogativas
indirectas um COMP [+ INT; -Q] corresponde à interrogativa global, iniciada pelo
complementador se COMP [+ INT; +Q], que corresponde a interrogativa parcial e motiva o
movimento de constituintes interrogativos.

Estrutura de frases interrogativas

(12.a) Que fazes?

(12.b) O que fazes?

SCOMP

SN COMP

COMP SFLEX

SN FLEX

FLEX SV

V SN

o que/que i [+INT; +Q] [pro] -s faze- [v]i

c) Interrogativas plenas e interrogativas “eco”

São as interrogativas sem movimento Q, onde a posição final dos constituintes interrogativos é
acompanhada da selecção de formas “fortes” ou “tónicas”.

(13) Queres o quê?


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d) Interrogativas parciais múltiplas

São as que têm mais de um constituinte interrogativo e a resposta típica é a que integra as
informações correspondentes aos constituintes interrogativos.

(14) Pergunta: Quem disparou contra quem?

Resposta: A polícia disparou contra os manifestantes.

e) Interrogativa “tag” – é uma forma de retoma de uma frase produzida no discurso anterior.

(15) Vocês lembram-se, não se lembram?

De acordo com Fonseca et all (1998;15) passamos apresentar mais dois tipos de interrogativas
que Mateus et all não os faz referência: Interrogativas directas e indirectas.

Os enunciados interrogativos directos constituem sempre frases independentes, ou seja, são


orações marcadas, no texto escrito, pela presença de um ponto de interrogação que pretende
transmitir a cura entonacional ascendente ou ascendente-descendente e são enunciados que pede
uma determinada informação.

(16.a) Onde já ouvi eu isto?


(16.b) Acha que sou um homem feio?

A interrogativa indirecta comporta a existência de uma frase complexa em que, à posição inicial
de um verbo de comunicação funcionando como introdutor de uma pergunta, se segue uma
proposição subordinada que, uma vez mais, deve indagar algo.

(17.a) Pergunto-te onde vais.


(17.b) Estou a inquerir-te sobre se ele estava de acordo.

Numa perspectiva sintáctica, há diferença entre uma interrogativa formulada através de uma
frase simples e uma construída a partir de uma frase complexa.

(18.a) Pergunto-te se sabes o final da história.

(18.b) Não sei se sabes o final da história.


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Estes dois casos, embora sintacticamente consideradas interrogativas indirectas, são, do ponto de
vista pragmático bastantes diferentes, pois o primeiro veicula acto de discurso directo explicitado
pela presença do verbo performativo, enquanto segundo exprime a pergunta só do modo directo.
O que se verifica na distinção entre interrogativa directa e indirecta é precisamente um dado de
domínio sintáctico e não pragmático.

2.3 Frases imperativas


Trata-se de frases com certas propriedades gramaticais que exprimem actos directivos de ordem,
podendo exibir também valores diversos: pedido, exortação, conselho e instrução.

De um ponto de vista pragmático são consideradas imperativas, todas as frases que expressam
um acto ilocutório directivo, ou seja, aquelas com que, através do seu enunciado, o locutor visa
obter num futuro imediato a execução de uma determinada acção ou actividade por parte do
ouvinte, ou de alguém a quem o ouvinte transmita o acto directivo.

(19) Cala-te!

Consoante o contexto situacional ou linguístico em que se insira, a frase pode ser interpretada
como uma ordem ou um pedido.

(20) Diz tudo o que sabes sobre o assunto!

2.3.1 Frases imperativas e Modo


a) O imperativo e o conjuntivo supletivo

Uma das características do imperativo é a presença de formas verbais específicas. Em Português


europeu este modo exibe apenas presente e possui duas únicas formas verbais, que ocorrem
exclusivamente em frases afirmativas da segunda pessoa do singular e da segunda pessoa do
plural, respectivamente para o verbo regular cantar e para o irregular ir.

(21) Canta tu! Vai-te embora!

Cantai vós! Ide-vos embora!

O conjuntivo na terceira pessoa do singular e do plural surge como supletivo do imperativo.

(22) Cante você! Cantem vocês!


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Vá-se (você) embora! Vão-se (vocês) embora!

Nas frases negativas, o imperativo é suprido pelo conjuntivo; a utilização do indicativo é para
explicitar o grau de certeza de cumprimento da ordem proferida pelo locutor; o infinitivo na sua
forma variável é especialmente usado quando o destinatário do acto ilocutório directivo não é
específico ou pode ocorrer em contextos, que permitem determinar especificamente o
destinatário, o gerúndio não identifica um destinatário específico.

2.3.2 Tipos de predicados e valor das imperativas


As frases imperativas com valor de ordem, pedido ou conselho, envolvem predicados dinâmicos,
que denotam propriedades ou situações controláveis pela entidade a quem se dirige o acto
directivo. Quando apresentam predicados que designam propriedades ou situações não
controláveis pelo destinatário, as frases imperativas são interpretadas como desejos, exortações
ou até fórmulas mágicas.

(23) Come a sopa! Vence-os já!

Dorme bem!

As frases imperativas apresentam também a orientação para o futuro, que é a projecção do estado
de coisas denotado para o futuro, mesmo quando o verbo ocorre num tempo passado.

(24) Calou!

2.3.3 Imperativas directas e indirectas


As imperativas directas são frases independentes e as indirectas ocorrem em domínios de
subordinação.

(25.a) Não te sentes nessa cadeira!

(25.b) Diz-lhe que nos traga o café, por favor!

2.3.4 Os Modificadores de intensificação ou atenuação do acto directivo de ordem


Os modificadores adverbiais e preposicionais admitidos pelas frases imperativas servem para
acentuar ou atenuar o acto ilocutório directivo de ordem. Neste caso, os advérbios de tempo
como “já”, “imediatamente” acentuam o valor de ordem das imperativas evidenciando a
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necessidade de execução da acção num futuro imediato. Os modificadores que atenuam o sentido
directivo das imperativas podem ocorrer na periferia direita e esquerda da frase, é o caso das
expressões como por favor ou se não te importas, (Mateus et all, 2003:459).

(26) Lava já os dentes! Lava os dentes, por favor!

Lava imediatamente os dentes! Se não te importas, dá-me esse livro!

De acordo com Carreira (1994:107) A atenuação do carácter injuntivo, de manifestações


linguísticas exprime-se frequentemente através de fórmulas de delicadeza próximas do pedido
indirecto, como “por favor”, “se não se importa”, antepostas ou pospostas à injunção.

A teoria de delicadeza linguística defendida por Brown & Levinson assenta-se no respeito do
indivíduo enquanto entidade social e na sua distinção, dai existe delicadeza negativa (protecção
do “território do eu”) e delicadeza positiva (valorização da imagem do alocutário). A delicadeza
é marcada culturalmente por três factores principais: relação de poder, distância social e peso da
imposição ou o grau de ameaça para a face.

2.4 Frases exclamativas: Seus tipos

Trata-se de frases com certas propriedades gramaticais, que exprimem actos expressivos de
avaliação.

(27) Ele é tão simpático!

As frases exclamativas podem ser totais ou parciais, consoante a exclamação.

a) Exclamativas totais – são frases não elípticas, não ocorre nelas nenhum movimento de
constituintes específicos na sintaxe.

As frases exclamativas totais são descritas de seguinte modo: presença de um núcleo funcional,
com um traço interpretável em forma fonética e em forma lógica, o traço [+ avaliativo].

(28) Ela é liiinda!!!

b) Exclamativas parciais – incluem frases elípticas e não elípticas.


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 As elípticas podem ser constituídas por nomes simples antecedidos ou não de adjectivos
valorativos e por expressões adjectivais.

(29) Espantoso!

 As não elípticas apresentam em comum uma palavra de grau modificando um nome, um


adjectivo ou advérbio, seguida de uma frase encabeçada pelo complementador “que”.

(30) Tão bem que ela cantou!

c) Exclamativas-Q - ocorrem nas exclamativas parciais não elípticas como nas elípticas.

 Parciais não elípticas

(31) Que linda que ela é!

 Parciais elípticas

(32) Que falta de educação que isto é!

2.5 Frases optativas e seus tipos

Trata-se de frases com certas propriedades gramaticais, que exprimem actos expressivos de
desejo.

As frases do tipo optativo realizam actos elocutórios expressivos de um tipo particular:


exprimem desejo do locutor.

(33.a) Que ele seja feliz!

(33.b) Que o nosso amor dure para sempre!

São muitas vezes parafraseáveis por frases complexas que têm como verbo superior um verbo
optativo.

(34.a) Desejo que ele seja feliz!

a) As frases optativas não elípticas - exibem tipicamente o verbo no modo conjuntivo. Quando
os complementadores que e se condicional estão presentes e a ordem das palavras é canónica.
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(35.a) Se a guerra acabasse depressa!

(35.b) Que a guerra acabe depressa!

b) Optativas elípticas - neste tipo de frases, ocorrem formas participais seguidas de expressões
nominais que podem ser descritas como casos de elipse do verbo copulativo do verbo “ser”.

(36.a) Abençoados sejam os pobres de espírito!

(36.b) Malditas as Segunda-feiras!

Podem também ser introduzidas por nomes simples abstractos.

(37.a) Honra aos heróis!

(37.b) Justiça para todos!

(37.c) Que haja justiça para todos!

2.6 Frases com tópicos marcados


Para determinar se um constituinte é o tópico de uma frase deve fazê-lo ocorrer numa frase com
um verbo declarativo como complemento de acerca de, de acordo com o esquema x está a
afirmar acerca de tópico que dá frase.

[Aos miúdos,] [[-] [oferecemos-lhes CDs]]

sujeito predicado

Tópico comentário

a) Tópico não marcado – quando o constituinte acumula a relação gramatical de sujeito com o
papel discursivo de tópico.

(38) Os miúdos telefonaram.

b) Tópico marcado – quando o tópico frásico não tem relação gramatical de sujeito.

(39) Aos miúdos oferecemos CDs.


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3.0 Os constituintes das frases simples e suas funções sintácticas


A análise em constituintes imediatos permite identificar a hierarquia dos elementos e as suas
relações de dependência que um elemento ou um grupo de elementos mantêm com um outro
elemento ou grupo de elementos, até se chegar ao grupo de extensão máxima que é a frase,
(Figueiredo, 2004:134).

O mesmo autor (2004:134) considera os seguintes constituintes imediatos:

Sintagma nominal tem como núcleo um nome com a função do sujeito da frase que pode
representar o Agente da acção expressa pelo verbo, o Paciente da acção, o Beneficiário e
Instrumento. Se a frase tiver um verbo transitivo o SN pode ser complemento directo, predicativo
do sujeito, o predicativo do complemento directo e o aposto. Um sintagma nominal é composto
de um nome e, eventualmente, dos elementos que o acompanham, tais como os complementos
do nome, os determinantes e os adjectivos.

(40.a) Lisboa agrada-me.

(40.b) A menina inteligente passou de classe.

O sintagma verbal tem como centro o verbo, que ocupa o lugar central da frase e em relação ao
qual se determinam as funções dos outros sintagmas. Ele tem a função de predicado da frase.

O verbo põe em relação o enunciado com a realidade extralinguística por meio das marcas
morfológicas de pessoa, tempo, modo e aspecto, supondo-se ainda a presença dos seus
respectivos complementos (do verbo, directo, directo e indirecto e circunstancial).

O sintagma verbal pode ser constituído por um só elemento, o verbo ou por vários elementos
associados ao verbo.

(41) O homem telefonou.

Sintagma preposicional (SP) – é introduzido por uma preposição e tem a função do completo
do verbo e da frase o que denomina-se por complemento circunstancial.

O SP pode apresentar as seguintes dependências: directamente da frase, directamente de um


verbo preposicional, de um verbo transitivo (directo e indirecto), de um adjectivo, pode
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introduzir um atributo, pode introduzir um atributo do complemento directo (nome predicativo),


pode introduzir um atributo do complemento circunstancial, cuja preposição indica o carácter da
relação.

(42.a) Os pássaros cantam no jardim.

(43.b) Ele veio por causa de ti.

Sintagma adverbial (SADV) – tem como núcleo um advérbio com a função de complemento do
verbo, da frase e complemento da enunciação.

(44) Ela comportou-se bem.

Segundo Mateus et al (2003:436) nas frases básicas do português considera-se a existência de


dois constituintes imediatos: o sintagma nominal (SN) e o sintagma verbal (SV).

A identificação do sujeito permite igualmente identificar o SN constituinte imediato de frase.

(45) A amiga da Maria viu o filme.

 A pronominalização e a substituição permitem perceber que a sequência constituída por


amiga da Maria é um SN.

(46.a) Ela viu o filme.

(46.b) A rapariga viu o filme.

 A deslocação (na passiva, na deslocação a direita):

(47.a) O filme foi visto pela amiga da Maria.

(47.b) Foi a amiga da Maria que viu o filme.

 Os procedimentos acima aplicados a parte das sequências em causa dariam resultados


agramaticais ou com interpretações não pretendidas.

(48.a) *O filme foi visto da Maria pela amiga.

(48.b) Foi a amiga que viu o filme da Maria.


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A identificação do sintagma verbal é possível através de um conjunto de testes:

 Formulação de uma interrogativa de instanciação em que ocorra o sintagma nominal,


sujeito da frase em questão e um substituto anafórico do predicado; o sintagma verbal
constitui a resposta não redundante a essa pergunta. Com predicadores não estativos
agentivos, o substituto anafórico do predicado é fazer; com predicadores não estativos
não agentivos, o substituto anafórico do predicado é geralmente acontecer.

(49.a) O miúdo comeu um gelado. (49.b) A casa ruiu.

(49.c) Pergunta: O que fez o miúdo? (49.d) Pergunta: O que aconteceu à casa?

(49.e) Resposta: Comeu um gelado. (49.f) Resposta: Ruiu.

 Construção de uma frase coordenada à frase em questão, com um sintagma nominal


sujeito não co-referente do sintagma nominal sujeito dessa frase e também como
substituto anafórico do sintagma verbal dessa frase.

(50.a) O miúdo comeu um gelado e a mãe também [-]

(50.b) A casa ruiu e o muro também [-]

A compreensão das frases coordenadas que ocorre nos exemplos acima implica que as
reconheçamos como paráfrases de: … e a mãe (também) comeu um gelado; … e a muro
(também) ruiu. Quer dizer, os constituintes “reconstituídos” representam o sintagma verbal.

SN SV

A amiga da Maria viu o filme.


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3.1 Argumentos a favor da categoria funcional flexão; Concordância sujeito-verbo; Acesso


do sintagma nominal sujeito ao nominativo; Movimento do verbo
O sintagma verbal contém pelo menos três tipos de informações: informações relativas à
estrutura de constituintes (número e forma dos constituintes e sua ordem intrínseca) informações
relativas à estrutura argumental do verbo e informações de tempo, modo, aspecto, pessoa e
número.

A flexão é uma categoria sintáctica que dá indicação de que estamos na presença de uma
proposição com tempo independente e, por outro lado, é a “marca” de que um processo
sintáctico de concordância se efectua na frase. A flexão pode ser considerada o núcleo funcional
de uma frase flexionada.

A concordância é um processo iminentemente sintáctico de compatibilização de informações de


pessoa e número no sintagma nominal sujeito e no verbo, independentemente da existência nesse
verbo de marcas concretas de flexão de pessoa e número.

A frase é um sintagma flexionado (SFlex ou Flex‫)״‬, independentemente dos seus constituintes


sintagma nominal e o sintagma verbal, isto é, ela é a projecção máxima de informações de tempo
(T) e de concordância (Conc.).

F (= SFlex ou Flex‫)״‬

SN Flex‫׳‬

Flex SV

+ T (P.Perf ) V SN

A amiga da Maria + Conc (3ª sg.) viu o filme

A presença de flexão com tempo finito legítima o acesso do sintagma nominal sujeito ao caso
nominativo. Uma frase não finita como a que está contida em …sair não legítima a presença de
um sujeito lexical, ou seja, não legítima a presença de um sintagma nominal no nominativo.

(51.a) Eu Saio (51.b) Eu quero sair (41.c) Eu quero eu sair


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Os advérbios considerados adjuntos à esquerda a sintagma verbal, aparecem em posição pós-


verbal, condicionados pelo movimento do verbo para uma posição à esquerda dos advérbios,
precisamente para a categoria funcional flexão. O movimento do verbo para flexão constitui o
passo intermédio do movimento do verbo para outras posições, como é o movimento para a
posição de complementador (C ou Comp), estratégia que opera nas interrogativas parciais.

(52) O Luís compra frequentemente os livros na FNAC.

F (= SFlex ou Flex‫)״‬

SN Flex‫׳‬

Flex SV

V Flex ADV SV

+ T (P.Perf ) V SN

+ Conc (3ª sg.)

O Luís compraᵢ frequentemente [v]ᵢ um livro

3.1.2 Sujeitos nulos e consequências sintácticas

A existência de uma flexão verbal rica permite em Português sujeitos nulos ou subentendidos. Os
morfemas flexionais são tão variados que, na grande maioria dos casos, permitem recuperar o
sujeito, mesmo quando este está ausente; a única excepção acontece com certas formas verbais
de 1ª/3ª pessoas que podem ser idênticas, como no imperfeito do indicativo.

(53.a) Comprei um livro.

(53.b) Cantava muito naquele varão.

O sujeito subentendido é um sujeito pronominal não realizado e que precisa de ser legitimado
por flexão e identificado pelos traços de pessoa e de número da concordância.

A questão dos sujeitos nulos não é apenas um problema de natureza morfológica, mas a sintaxe
de Português e o confronto com outras línguas que não tem esta propriedade permitem chegar à
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conclusão de que certos fenómenos sintácticos, aparentemente não relacionados, decorrem desta
propriedade.

F (= SFlex ou Flex‫)״‬

SN Flex‫׳‬

Flex SV

V Flex V SN

+ T (P.Perf )

+ Conc (1ª sg.)

pro compreiᵢ [v]ᵢ um livro

3.1.3 Sujeitos nulos expletivos

Ocorrem em frases com verbos que não seleccionam um argumento externo, que não seja
necessário ocupar a posição do sujeito com um pronome “suporte”, um “sujeito expletivo”
lexicalmente realizado, o que acontece com os sujeitos “impessoais”, como chover, haver,
parecer, acontecer.

(54.a) Choveu imenso este Outono.

(55.b) Há cachorros quentes.

Há um mecanismo de concordância, os verbos estão na terceira pessoa de singular, por outro


lado, é possível encontrar, na oralidade ou no registo escrito com traços de oralidade, sujeitos
expletivos em frases apresentativas quer com verbos existenciais quer com verbos predicativos.
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(56) Ele há cada uma! F (= SFlex ou Flex‫)״‬

SN Flex‫׳‬

Flex SV

V Flex V

+T

+ Conc (3ª sg.)

[pro] ᵢ …ᵢ [v]ᵢ

3.1.4 Sujeito nulo “indeterminado” ou de referência arbitrária

Corresponde ao argumento externo do verbo dizer, sendo identificado pela concordância verbal
como terceira pessoa do plural, que tem em português duas interpretações: designação de um
conjunto contextualmente definido (eles, elas) ou de expressão do chamado sujeito
indeterminado ou de referencia arbitraria (“alguém”).

A interpretação do sujeito nulo como “indeterminado” ou de referência arbitrária com o verbo na


terceira pessoa do plural é uma especificidade das línguas como português e está completamente
ausente em línguas que não são de sujeito nulo.

(57) Dizem que vai haver eleições.

Pronome se impessoal - é usado para exprimir o sujeito indeterminado ou de referência


“arbitrária”.

(58.a) Diz-se que vai haver eleições.

(58.b) Não se diz que vai haver eleições.

A principal característica deste pronome impessoal é a de lhe ser associada a relação temática
que o verbo atribui ao seu argumento externo (se representa o agente de dizer), por outro lado a
agramaticalidade. O se impessoal é também designado se nominativo, pós mostra que o pronome
absorve a informação de caso nominativo que a flexão legitima. Caso esse que no exemplo
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abaixo seria duplamente realizado: por se e por ele. Este fenómeno só ocorre em línguas do
sujeito nulo.

(59) *Ele diz-se que…

3.1.5 A inversão livre do sujeito

É a “inversão de sujeito”, ou seja, a “ordem invertida” quando ocorre um verbo inergativo cujo
seu argumento externo pode estar em posição pré-verbal ou em posição pós-verbal.

(60.a) Muitos operários trabalham.

(60.b) Trabalham muitos operários.

Representação da estrutura da frase com o sujeito invertido

F (= SFlex ou Flex‫)״‬

SN Flex‫׳‬

Flex SV

V Flex SN V'

+T V

+C

Muitos operáriosᵢ trabalharaᵢ [v]ᵢ [v]ᵢ


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4.0 Reflexão sobre estrutura de variação frásica do Português de Moçambique


As inovações que caracterizam a LP em Moçambique abrangem múltiplas dimensões que
incluem aspectos Fonéticos, Fonológicos, Morfo-Sintacticos e Semântico-Pragmático. Neste
trabalho, importa-nos referir os aspectos sintácticos, semânticos e pragmáticos do nível básico.

4.1 Frases do tipo declarativo

Podem encontrar-se exemplos de padrões Morfo-Sintácticos inovativos no PM:

a) Retenção in situ da preposição depois do verbo e inserção de um pronome resumptivo,


em frases com um verbo preposicional numa oração relativa

(61.a) *O rapaz que ela gostava dele é moçambicano.

No modelo europeu, na construção acima, a preposição é «movida» para a posição inicial da


oração relativa, precedendo a conjunção “que”, que a introduz.

(61.b) O rapaz de ͥ que ela gostava [cv] ͥ é moçambicano.

b) Substituição das formas dativas por formas acusativas dos pronomes pessoais

(62.a) *Este João José é primo directo de José Jaime mas, mesmo assim, ele conseguiu matar-
lhe, tirar-lhe a viatura e vender ao preço de 70 milhões.

No modelo europeu, o verbo «matar» requer um paciente com o papel sintáctico de objecto
directo. Assim, o sintagma nominal que representa o paciente deveria ser pronominalizado por
um pronome pessoal acusativo, originando a seguinte construção:

(62.b) Este [João José]i é primo directo de [José Jaime]j mas, mesmo assim, [ele]i conseguiu
matá-[lo]j, tirar-[lhe]j [a viatura]n e [cv]i vender [cv]n ao preço de 70 milhões.

Parece que os falantes estão a anular a diferença nos papéis semânticos relacionados com os
pronomes directos e indirectos em formas que no modelo europeu são associadas somente a
objectos indirectos. Segundo Faria et all (1996:248) a reacção dos falantes perante certas
produções desviantes de falantes com fraco domínio do Português, bem como a atitude
correctiva que assumem em situações de interacção com as crianças em fase de aquisição de
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Português, são indícios da pluralidade de aspectos envolvidos no conhecimento sintáctico


intuitivo:

(63) * As geladas ervilhas rebolaram pelo chão.

O exemplo (63) mostra um aspecto mais óbvio da organização sintáctica das línguas naturais: as
combinações de palavras são linearmente ordenadas, não sendo, por isso, irrelevante dizermos
“geladas ervilhas” ou “ervilhas geladas”.

No exemplo apresentado, intervém juízo de gramaticalidade com base no conhecimento intuitivo


que têm da sua língua materna, os falantes que podem decidir se uma dada combinação de
palavras pertence à língua, isto é, é bem formada sintacticamente.

As diferentes ordens de palavras em frases declarativas simples reflectem o estatuto discursivo


das expressões que nela ocorrem, assim, a posição inicial da frase é reservada para o tópico e
afinal para o foco informacional, tanto em frases declarativas como em interrogativas ou
exclamativas as construções sintácticas especificas podem exigir a alteração da ordem básica
SVO.

(64.a) Não gosto do gelado que i os miúdos devoraram [cv]i.

↑ ↑ ↑

O S V

(64.b) Não sei o que i os miúdos devoraram [cv]i .

↑ ↑ ↑

O S V

(64.c) O que i devoraram j os miúdos [cv]i [cv]j ?

↑ ↑ ↑

O V S
29

(64.d) Que grande gelado j devoraram i os miúdos [cv]i [cv]j!

↑ ↑ ↑

O V S

4.1.1 Frases do tipo imperativo

Em frases imperativas, a forma «tu» requer o próprio imperativo, formado a partir do presente do
indicativo, enquanto «você» requer o presente do conjuntivo. Em Moçambique, a distinção entre
«tu» e «você» é frequentemente neutralizada, e têm surgido duas situações: ou as duas formas
são usadas arbitrariamente, ou «você» toma o lugar de «tu». Uma consequência da neutralização
da diferença entre «você» e «tu» é a frequente confusão nos correspondentes padrões de
concordância gramatical, geralmente com o «você» a tomar as formas de concordância que
correspondem a «tu», tal como é exemplificado na frase seguinte.

(65.a) *Se deseja trabalhos de tipografia e litografia, exige qualidade. Consulte-nos.

(65.b) Se [pro] deseja trabalhos de tipografia e litografia, [pro] exija qualidade. [pro] Consulte-
nos!

A construção (65.a) do ponto de vista pragmático faz parte de texto publicitário, este que tem a
função de coagir ou levar o alocutário a realizar uma acção futura, mas a mesma é agramatical
porque não se observou a concordância entre as formas verbais da primeira e da segunda oração
no que concerne a pessoa gramatical, pois a primeira oração corresponde a 3ª pessoa gramatical e
a segunda a 2ª pessoa gramatical. Neste caso, a forma correcta seria:

(65.a) Se [pro] desejas trabalhos de tipografia e litografia, [pro] exige qualidade. [pro] Consulte-
nos.

A construção (65.b) é gramatical pois, há concordância gramatical entre as formas verbais da


mesma.

(66) * Mãe, dá-me o pente para mim pentear a boneca.

A construção (66) revela o conhecimento sintáctico intuitivo das relações gramaticais e dos
processos da sua marcação. A mesma é agramatical pois o enunciador não observou as regras de
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cortesia, ou seja, as formas de tratamento perante o seu alocutário de modo a proteger o seu
território e a imagem do outro, por isso tratou a sua mãe de “tu”, também na segunda oração
verifica-se o uso desviante do pronome “mim” que mostra a relação de retoma do pronome “me”
presente na primeira oração com a função de objecto indirecto enquanto devia usar o pronome
pessoal “eu” mas sendo o Português uma língua que permite a existência do sujeito nulo, pode se
omitir o pronome pessoal “eu” e a forma correcta seria:

(66) Mãe, dê-me o pente para [pro] pentear a boneca.

4.2 Tipos interrogativo e exclamativo

De acordo com Duarte (2000:151) nas interrogativas directas, nas exclamativas e num
subconjunto de orações adverbiais não finitas existem alteração ao padrão básico de ordem de
palavras. Com efeito, nestes tipos de construções frásicas, o verbo precede obrigatoriamente o
sujeito, como mostram os exemplos (64.c) e (64.d).

Há casos em que com o uso do modo conjuntivo não se verifica a precedência obrigatória do
verbo ao sujeito, como mostra a construção abaixo:

(67) * Lamento que ela está triste.

A construção (67) é do tipo exclamativo e nela nota-se que faz parte do conhecimento intuitivo
que um falante tem da sua língua (léxico-semântico) pois, o verbo “lamentar” selecciona como
modo verbal do seu complemento finito o conjuntivo e não indicativo, assim sendo, a construção
correcta seria:

(67) [pro] Lamento que ele esteja triste.

No nosso contexto moçambicano é aceite o uso da interrogativa sem alteração ou a inversão do


sujeito-verbo; movimento-Q, sem alteração mas com “é que”; com movimento-Q mas com o
“COMP” duplamente preenchido; sem movimento-Q, isto é, como o Q in situ; com
movimento-Q para uma posição intermédia.

(67.a) O que i os miúdos devoraram [cv]i?


(67.b) O que i é que os miúdos devoraram [cv]i?
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(67.c) Quem i que chegou [cv]?

(67.d) [pro] Comeste o quê?

(67.e) [pro] Comeram i o que j os miúdos [cv]i [cv]j?

Tendo em conta o PE as construções são agramaticais aceitáveis porque não se verifica nas
mesmas a alteração ou inversão do sujeito, mas no contexto moçambicano as mesmas são
aceites. No PM é mais frequente encontrar interrogativas com “Q+que”, se o Q tiver um valor
locativo ou humano/SU, do que se tiver o valor de objecto/OD.

(68) Aquele casal está separado?!

A frase é interrogativa e exclamativa visto que o enunciador está a questionar e ao mesmo tempo
admirar o facto, o que nos revela que está a receber a informação e o deixou surpreso talvez
porque não esperava.
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5.0 Conclusão
Feita a abordagem do tema frases simples: “tipos de frases, reflexão sobre a estrutura e variação
do PM”, conclui-se que a frase sendo uma palavra ou um conjunto de palavras com sentido
completo e com a finalidade de transmitir uma ideia, estabelecendo assim a comunicação, deve
iniciar com letra maiúscula e terminar por um sinal de pontuação característico do tipo de frase
na escrita e na fala, o início e o fim da frase deve apresentar uma entoação característica da
mesma.

Quanto aos constituintes das frases simples e suas funções sintácticas, vimos que uma frase
simples domina imediatamente o sintagma nominal e o sintagma verbal, sendo este último
podendo agregar outros sintagmas dependendo da intenção do enunciado; respeitando a
concordância entre todos os elementos da frase quanto ao número e pessoa.

O Português comparativamente com as outras línguas apresenta a interpretação do sujeito nulo


como “indeterminado” ou de referência arbitrária o que está completamente ausente em línguas
que não são de sujeito nulo.

Existem algumas semelhanças nas interrogativas Q destas duas variedades do Português


(Moçambicano e Europeus): os falantes do PM têm preferência por interrogativas com
movimento Q para posição inicial, como no PE, e ainda por interrogativas com movimento-Q,
mas sem inversão sujeito-verbo e interrogativas com o «COMP duplamente preenchido», apesar
destas semelhanças, no PM ocorrem interrogativas com o constituinte Q numa posição
intermédia. No PE a inversão sujeito-verbo é obrigatório contrariamente ao que acontece no PM.

Nas exclamativas, verifica-se alteração ao padrão básico de ordem de palavras. Com efeito, o
verbo precede obrigatoriamente o sujeito. As frases optativas exprimem o desejo do locutor.
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6.0 Bibliografia
CARREIRA, Maria Helena de Araújo. Pedido de Desculpa e Delicadeza. 1994;

CUNHA Celso & CINTRA Lindley. Nova Gramática de Português Contemporâneo. 18ª Ed.
Edições João Sá da Costa, 2005;

DUARTE, Inês. Língua Portuguesa: Instrumentos de Análise, Universidade Aberta, Lisboa,


2000;

FARIA et all. Introdução à Linguística Geral e Português. 2ª Ed. Editorial Caminho, 1996;

FIGUERIREDO, Maria Olívia. Da palavra ao Texto. 6ª Ed. Asa Edições, Lisboa, 2004;

FONSECA et all. A Organização e o funcionamento dos discursos: Estudos sobre o Português.


Tomo II. Porto Editora, 1998;

MATEUS et al. Gramática da Língua Portuguesa. 7ª Ed. Editorial Caminho, Lisboa, 2003;

RIBEIRO et all. Gramática Moderna da Língua Portuguesa. Escolar Editora, 2010;

RODRIGUES et all. A Organização e Funcionamento dos discursos. Estudo sobre o Português.


Tomo II, Porto Editora, 1998.