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IDENTIFICAÇÃO DO TEMA

- A Indemnização Por Privação do Uso.

1 - DESCRIÇÃO SUMÁRIA:
Processo n.º ___, 1.º Juízo do Tribunal Judicial da Comarca
de Porto de Mós.

Caso Concreto:
A, sociedade por quotas cujo objecto consiste na compra e
venda de veículos automóveis, vem requerer indemnização por
privação de uso de um veículo propriedade sua, que foi
embatido num acidente de viação e cuja culpa na produção do
mesmo foi atribuída exclusivamente ao condutor do outro
veículo interveniente. O condutor culposo transferiu a sua
responsabilidade civil para B, Companhia de Seguros.
B vem contestar o pedido alegando em súmula que a
privação de uso só deve ser indemnizável perante a existência
concreta de danos produzidos na esfera jurídica do lesado. B
alega ainda que esses danos devem ter repercussão negativa no
património do lesado e que só perante a alegação e prova
desses mesmos danos é que a indemnização deve ser atribuída.

Coloca-se, pois a questão de se saber, se a ilegítima


privação (temporária) do uso de veículo automóvel em
consequência dum acidente de viação, constitui, por si só, o
agente ou o responsável na obrigação de indemnizar o lesado,
sem necessidade de prova de outros factos, ou se, ao invés, a
indemnização apenas pode ser atribuída quando se comprove a
existência de prejuízos concretos.

2 - PUBLICAÇÕES SUSCEPTÍVEIS DE CONSULTA:

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- ABRANTES GERALDES, António - “ Indemnização Do Dano
De Privação Do Uso”, 3ª Edição, Almedina, Coimbra;
- MENEZES LEITÃO, Luís M. - “Direito das Obrigações”, Vol. I,
4ª Edição, pág. 269, Almedina, Coimbra;
- GOMES, Júlio Manuel Vieira - “Cadernos de Direito
Privado”, nº 3, Almedina, Coimbra;
- MARCELINO, Américo Joaquim - “Acidentes de Viação e
Responsabilidade Civil”, 6ª ed., pág. 402, Petrony, Lda., 2005;
- GOMES DA SILVA –“O Dever de Prestar e o Dever de
indemnizar”, Vol I, fls. 78, Lisboa, 1944;
- GOMES DA SILVA - “O Dano da Privação do Veículo”, RDE,
Ano XII, 1986, 209 Lisboa;
- ALBERTO DOS REIS - “C.P.C. Anotado”, Vol. I pág. 614 e
segs. e V pág. 71, Coimbra;
- VAZ SERRA - RLJ, ano 114º, pág. 309;
- RODRIGUES BASTOS - “Notas ao C.P.C”, vol. III, pág. 233;
- ANTUNES VARELA, João M. - “Das Obrigações em Geral”,
Vol. I – 8ª edição -, pág. 616 e 617, Almedina, Coimbra;

POSIÇÕES DOUTRINAIS E JURISPRUDENCIAIS


CONTROVERSAS NO SENTIDO DA DECISÃO DO CASO
CONCRETO:

1 – IDENTIFICAÇÃO DAS POSIÇÕES CONTROVERSAS:


1.1 – Posição que defende que a privação do uso constitui por si
só a obrigação de indemnizar:
Segundo esta posição, considera-se indemnizável, per si, a
privação do uso do bem, mesmo sem a prova de quaisquer
perdas concretas, sustentando-se que o reconhecimento do
direito à indemnização não está necessariamente dependente
da prova das perdas efectivas de rendimento que a utilização do

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veículo poderia proporcionar ou das despesas a que a sua falta
directamente motivou, mas antes da própria indisponibilidade
do bem. Constituindo o uso (por via e regra diário) de um bem
próprio, uma vantagem susceptível de avaliação pecuniário, mal
seria que a respectiva privação não constituísse um dano.

1.2 - Posição que defende que a indemnização por privação do


uso apenas pode ser atribuída quando se comprove a existência
de prejuízos concretos:
Para os defensores desta tese, face ao nosso sistema
jurídico a indemnização no quadro da responsabilidade civil
depende da verificação concreta de danos. Quer dizer que a
pedra de toque desencadeadora de indemnização, é o dano.
Pelo que os defensores desta tese entendem que a simples
privação de um bem sem a demonstração e prova de qualquer
dano, isto é, sem qualquer repercussão negativa no património
do lesado, não é susceptível de fundar a obrigação de
indemnizar.

2 - INDICAÇÃO DA DOUTRINA E DA JURISPRUDÊNCIA QUE SUSTENTAM


CADA UMA DAS POSIÇÕES

2.1 – Doutrina e jurisprudência que sustenta que a privação do


uso constitui por si só a obrigação de indemnizar:
- ABRANTES GERALDES, in “ Indemnização Do Dano De
Privação Do Uso”, 3ª Edição, Almedina, Coimbra;
- MENEZES LEITÃO, in “Direito das Obrigações”, Vol. I, 4ª
Edição, pág. 269, Almedina, Coimbra;
- JÚLIO GOMES, in “Cadernos de Direito Privado”, nº 3,
Almedina, Coimbra;
- MARCELINO, Américo Joaquim, in “Acidentes de Viação e
Responsabilidade Civil”, 6ª ed., pág. 402, Petrony, Lda., 2005;

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- GOMES DA SILVA, in “O Dever de Prestar e o Dever de
indemnizar”, Vol I, fls. 78, Lisboa, 1944;
- GOMES DA SILVA, in “O Dano da Privação do Veículo”,
RDE, Ano XII, 1986, 209 Lisboa;
- Ac. Rel. Évora de 15-1-04 in www.dgsi.pt;
- Ac. do STJ de 21-4-05, in www.dgsi.pt;

- Ac da Rel. do Porto, de 7-7-05, in www.dgsi.pt;

- Ac. Do STJ de 28-9-2006, in www.dgsi.pt

- Ac. Ac. da Rel. de Coimbra de 3-10-06, in www.dgsi.pt;

- Ac. Do STJ de 10-10-06, in www.dgsi.pt;

- Ac. da Rel. de Lisboa de 4-12-06, in www.dgsi.pt;

- Ac. do STJ de 24-1-08, in www.dgsi.pt;

2.2 – Doutrina e jurisprudência que sustenta que a


indemnização por privação do uso apenas pode ser atribuída
quando se comprove a existência de prejuízos concretos:
- ALBERTO DOS REIS, “C.P.C. Anotado”, Vol. I pág. 614 e
segs. e V pág. 71, Coimbra;
- ANTUNES VARELA, in “Das Obrigações em Geral”, Vol. I –
8ª edição -, pág. 616 e 617, Almedina, Coimbra;
- VAZ SERRA, in RLJ, ano 114º, pág. 309;
- RODRIGUES BASTOS, in “Notas ao C.P.C”, vol. III, pág. 233;
- Ac. Da Rel. Do Porto de 17.10.84, in CJ, Tomo IV, pág. 246
- Ac. Do STJ de 8-6-06, in www.dgsi.pt;
- Ac. Do STJ de 5-7-07, in www.dgsi.pt;
- Ac. Do STJ de 13-12-07, in www.dgsi.pt;
- Ac. Do STJ de 16-9-08, in www.dgsi.pt;
- Ac. Do STJ de 6-5-08, in www.dgsi.pt;

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POSIÇÃO DEFENDIDA
Opção pelas posições que defendem que a privação do uso
constitui por si só a obrigação de indemnizar.
A simples invocação das regras da experiência quando se
estabelece a comparação entre a situação do proprietário que
manteve intacto o seu poder de fruição e a de um outro que
dele seja privado temporariamente permite concluir que não
existe entre ambas uma equivalência substancial. Verificando-se
uma lacuna de natureza patrimonial, correspondente à fatia de
poderes de que o proprietário ficou privado, é com naturalidade
que deve ser encarada a atribuição de uma compensação
monetária, face à constatação de que o simples reconhecimento
da ilegitimidade da privação e a condenação na restituição do
bem são insuficientes para repor a situação do lesado no estado
em que se encontraria caso não tivesse existido tal privação.

APRESENTAÇÃO DA QUESTÃO JURÍDICA SUBJACENTE AO


CASO CONCRETO

Ora, é um facto inquestionável que a possibilidade de


utilização de um veículo automóvel é um valor material em si,
sendo susceptível de quantificação com recurso a realidades
várias da vida quotidiana (desvalorização do veículo pelo
decurso do tempo, custo do seu uso no mercado de aluguer sem
condutor, etc.).
O dano sofrido pelo dono de um veículo automóvel é,
assim, constituído pela simples privação da possibilidade de uso
não sendo necessário demonstrar a concreta utilização que
daria ao veículo durante o período em que não o pode utilizar, a
não ser que alegue outros prejuízos para além dessa privação.

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Este é um entendimento que decorre do disposto no art.º 562.º
do c. Civil, que consagra o principio da reconstituição in natura.

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