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Especialização em

Informática em Saúde
Fundamentos e História da Informática em Saúde
ATUALIZADO PARA 5ª EDIÇÃO POR
Profª. Dra. Claudia Galindo Novoa
Profª. Josceli Maria Tenório, Ma.
Profª. Andrea Pereira Simões Pelogi, Ma.
AUTORES DA 4ª EDIÇÃO
Profª. Dra. Claudia Galindo Novoa
Dra. Renata Abramovicz Finkelsztain

São Paulo | 2017


SUMÁRIO
Computação em saúde 4

CAPÍTULO

01
Informática e sua aplicação em saúde 9

Conceitos atuais 10

Breve histórico: cenário brasileiro 12

Epistemologia da informática em saúde 17

Competências desenvolvidas em informática em saúde 18

Produção científica: congressos e conferências 20


Introdução
Para compreender a importância e as consequências da Informática em Saúde é preciso antes
uma reflexão sobre o contexto no qual ela se organizou como uma nova área de conhecimento
e disciplina.

Esta disciplina se propõe a apresentar uma perspectiva histórica que possa estimular a refle-
xão sobre esse contexto de forma que seja possível compreender a importância e atuação da
informática em saúde, e não simplesmente traçar uma linha cronológica completa composta
apenas por fatos e eventos.

A trajetória se inicia por uma breve história sobre o uso de computadores em saúde. A seguir
analisa-se o cenário internacional e, mais adiante, foca-se no cenário brasileiro. O texto apre-
senta os conceitos atuais ligados à área e finaliza com uma epistemologia da informática em
saúde e os principais eventos científicos da área.

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Capítulo 1
Computação em saúde
Mesmo antes da forte presença das ciências da computação, a saúde sempre foi fortemente
baseada na organização da informação. Porém, utilizar dados para nortear ações e políticas
públicas na área de saúde não era uma prática corrente até o século XIX.

Em uma época em que a coleta e análise de estatísticas sociais eram incomuns, a estatística e
reformadora social britânica Florence Nightingale (1820-1910) aprendeu, durante a Guerra da
Criméia (1854-56), que melhorar as condições sanitárias em hospitais militares poderia dimi-
nuir a taxa de mortalidade e salvar milhares de vidas. Ela utilizou registros e análise de dados
confiáveis sobre a incidência de óbitos evitáveis nos militares de forma a construir argumentos
convincentes para a realização de reformas na área de Saúde (Cohen, 1984).

BREVE HISTÓRICO

Florence Nightingale ficou conhecida por ser a pioneira no tratamento de


feridos de guerra durante a Guerra da Crimeia. Ganhou apelido de “a dama
da lamparina” devido ao fato de servir-se desse instrumento para ajudar
na iluminação ao auxiliar os feridos durante a noite. Nightingale lançou
as bases da enfermagem profissional com a criação em 1860 de sua Escola
de Enfermagem no Hospital Saint Thomas, em Londres, a primeira escola
secular de enfermagem do mundo, agora parte do King’s College. Foi
pioneira na utilização do modelo biomédico na enfermagem baseando-se na
medicina praticada pelos médicos. No entanto, durante a guerra Nightingale
angustiou-se por suas experiências com os feridos e começou a analisar as
taxas e as causas. Começou a utilizar métodos de representação visual de
informações, como o gráfico setorial (tipo pizza) criado inicialmente por
William Playfair. O gráfico que ela construiu mostrou que a maioria dos
soldados britânicos morreu por motivo de doença em vez de por feridas ou
por outras causas. Também mostrou que a taxa de mortalidade foi maior no
primeiro ano da guerra e, perante a Comissão Sanitária, conseguiu melhorar
a higiene nos acampamentos e hospitais. Nightingale percebeu que as
estatísticas padronizadas levariam a melhorias na prática médica e cirúrgica.
Sua proposta foi a de adquirir um registro padronizado de dados. Nightingale
também pediu a adoção de classificação de doenças de William Farr para a
tabulação de morbidade hospitalar.

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A evolução do registro e análise de dados em saúde ocorreu a partir do desenvolvimento dos


computadores nos séculos XIX e XX. A primeira aplicação prática da computação relevante
para a área da saúde foi o desenvolvimento de um sistema de processamento de dados codifi-
cados em cartões perfurados, um sistema essencialmente mecânico, criado por Herman Holle-
rith em 1890. Inicialmente utilizado para a realização do censo dos EUA daquele ano, o sistema
foi logo a seguir adotado para processar dados de questionários nas áreas de epidemiologia
e saúde pública (Shortliffe e Blois, 2001). A técnica dos cartões perfurados foi amadurecida e
amplamente utilizada nas décadas de 1920 e 1930. Ao final da década de 1940 os cartões perfu-
rados também começaram a ser utilizados como técnicas de armazenamento de sequências de
instruções, que são essencialmente programas de computador.

A grande revolução das máquinas de computar ocorreu em 1946 quando foi colocado em fun-
cionamento o primeiro computador eletrônico digital chamado Electronic Numerical Integra-
tor And Computer (ENIAC). Este fato iniciou a era dos computadores eletrônicos. Os avanços
teóricos, práticos e tecnológicos ocorridos na computação eletrônica na década de 1950 nos
EUA levaram à disseminação do uso de computadores eletrônicos na medicina e em projetos
odontológicos promovidos por Robert Ledley no Escritório Nacional de Padrões (National Bu-
reau of Standards). Nesta mesma época outras iniciativas foram promovidas pela Força Aérea
Americana que desenvolveu projetos médicos nos seus computadores enquanto incentivava
agências civis como a Academia Nacional de Ciências (National Academy of Sciences) e os
Institutos Nacionais de Saúde (National Institutes of Health) a dar suporte a esse trabalho.

O marco das iniciativas acadêmicas sobre o uso de computadores em saúde ocorreu com a pu-
blicação do artigo “Fundamentos Racionais do Diagnóstico Médico” publicado originalmente
em 1959 (Ledley e Lusted, 1991), que foi amplamente divulgado pela Science Magazine. Este
estudo mostrava a incorporação do computador especialmente no que tangia às atividades de
pesquisa, introduzindo técnicas do trabalho com computador para profissionais médicos. Este
artigo continuou influente por décadas, contribuindo especialmente no campo de tomadas de
decisões médicas.

Guiado pelas pesquisas de Ledley no final dos anos 1950 o uso do computador na biologia e
na medicina foi levado a cabo principalmente pela Academia Nacional de Ciências e pelo Con-
selho Nacional de Pesquisa, EUA, que fizeram o primeiro grande esforço para que isso aconte-
cesse. Um dos usos de computadores constava da quantificação de movimentos humanos, algo
cientificamente precursor para medir desvios do considerado padrão no desenho de próteses.
Segundo Shortliffe e Blois (2001), nessa época as possibilidades de uso dos computadores tam-
bém constavam de sistemas para auxiliar os médicos na decisão clínica.

Durante a metade dos anos 1960, patrocinados em grande parte pelos Institutos Nacionais de
Saúde (National Institutes of Health) dos EUA, investiu-se no desenvolvimento de sistemas
especialistas (expert systems), como o MYCIN e o INTERNIST-I. O MYCIN foi concebido como
um sistema especialista baseado em inteligência artificial para identificar infecções severas
causadas por bactérias e para recomendar o uso de antibióticos com dosagem ajustada para o
peso corporal do paciente. O próprio nome do programa deriva dos antibióticos que possuem

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o sufixo “-mycin”. O INTERNIST-I foi desenvolvido pela Universidade de Pittsburgh. Foi um


sistema utilizado para realizar diagnósticos em casos muito difíceis com uma precisão igual ou
às vezes superior a de médicos experientes.

Em 1965 a Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA, maior biblioteca em medicina do mundo,
passou a desenvolver o MEDLINE e o MEDLARS. O MEDLINE é um banco de dados biblio-
gráficos de ciências naturais e informação biomédica que contempla informações bibliográ-
ficas de artigos e jornais acadêmicos, os quais discorrem sobre assuntos ligados à medicina,
enfermagem, farmácia, odontologia, veterinária e ao cuidado em saúde. O MEDLARS é um sis-
tema de análise e recuperação da literatura médica; é a versão computadorizada desse sistema.

Nesse mesmo período, apesar da tendência – a dos sistemas voltados para o apoio à decisão
médica –, alguns pesquisadores começaram a se preocupar com a computação para a informa-
ção hospitalar como um todo, o que viria a ser identificado como hospital information system
(HIS) (Shortliffe e Blois, 2001). Uma das iniciativas para o desenvolvimento de um HIS ocorreu
no Massachusetts General Hospital (MGM) em Boston, EUA. Os pesquisadores Neil Pappa-
lardo, Curtis Marble e Robert Greene desenvolveram a linguagem de programação Multi-User
Multi-Programming System (MUMPS) ou sistema multiprogramável multiusuário no Labora-
tório de Ciência Computacional do MGM, um centro de computação biomédica que recebeu
o importante apoio dos Institutos Nacionais de Saúde para uso no ciclo de admissões e em
relatórios de exames de laboratório.

Durante os anos 1970 e 1980 o MUMPS foi a linguagem de programação mais utilizada para
aplicações médicas. A partir de 2004 um descendente desse sistema vem sendo usado no sis-
tema de hospitais dos veteranos de guerra dos Estados Unidos. O departamento que cuida de
assuntos de veteranos de guerra nos EUA (U.S. Department of Veterans Affairs – VA) possui
um renomado sistema de informática em saúde, que inclui o prontuário eletrônico médico
conhecido como Veterans Health Information Systems and Technology Architecture (VistA)
(Arquitetura Tecnológica do Sistema de Informação em Saúde dos Veteranos).

Nos EUA o primeiro projeto de informatização hospitalar, denominado Hospital Computer


Project, foi realizado em 1962 a partir de um contrato firmado entre o Massachusetts General
Hospital (MGH) e uma empresa de Cambridge denominada Bolt Beranek and Newman (BBN
Technologies), tendo sido financiado pelo National Institutes of Health e também pelo Ame-
rican Hospital. Em função desse projeto diversos aplicativos começaram a ser desenvolvidos
no MGH por Octo Barnett – um dos profissionais que mais contribuições fez para a área de
informática em saúde – e seus associados. Dentre essas contribuições destacam-se programas
de admissão e alta, relatórios de laboratórios e resumos de prescrições.

Também durante os anos 1960 Morris Collen, médico que trabalhava para a divisão de pesqui-
sa do grupo médico americano Kaiser Permanente, desenvolveu um sistema computadorizado
para automatizar aspectos dos check-ups na área da saúde. Esse sistema se tornou o alicerce
para a grande base de dados médicos que a Kaiser Permanente desenvolveu durante os anos
1970 e 1980.

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Durante os anos 1970 um número crescente de empresas começou a comercializar sistemas


de prontuário eletrônico e práticas de gerenciamento. Embora exista grande oferta desses pro-
dutos nos dias atuais, apenas uma pequena parcela de profissionais da área de saúde utiliza
sistemas de prontuário eletrônico. Na mesma época, projetos similares começaram a ser desen-
volvidos em outros hospitais americanos: Latter Day Saints Hospital (LDS) em Salt Lake City,
Kaiser Permanente, Universidade de Stanford etc. Na Europa, os precursores da área foram
Wagner em Heidelberg e Reichertz em Hannover (Alemanha); François Grémy em Paris (Fran-
ça); J. Anderson em Londres (Inglaterra); e Peterson em Estocolmo (Suécia). O professor Peter
Reichertz foi um dos primeiros a escrever na década de 1970 sobre a importância da informá-
tica médica tanto na pesquisa quanto na melhora do currículo médico.

Com o surgimento do microcomputador na década de 1970, a informática sofreu um notável


processo de democratização e de popularização. Surgiram também as linguagens de alto nível
– bastante próximas da linguagem coloquial que, associadas a poderosos sistemas operacio-
nais, provocaram mudança radical no perfil dos usuários de computador. O acesso às máqui-
nas menores e de menor custo e programas cada vez mais fáceis de usar contribuíram para a
grande explosão de mercado da indústria da computação.

O impacto dessa nova tecnologia na prática da medicina foi surpreendente. As técnicas não
invasivas de produção de imagem, como a ultrassonografia, a medicina nuclear, a tomografia
e a ressonância magnética, alteraram sensivelmente o processo de diagnóstico médico. Novos
equipamentos de monitorização de pacientes, como videolaparoscopia e analisadores auto-
máticos de eletrocardiogramas, fluxos sanguíneos e gasosos, globais e regionais, passaram a
oferecer informações vitais que auxiliam o médico no tratamento eficaz do paciente e apoio à
pesquisa.

Na prática médica a informática que era utilizada basicamente para a coleta, registro e na aná-
lise de dados passou a suportar a geração do conhecimento a partir da análise desses dados. A
abrangência do uso de computadores englobou todas as áreas da medicina, em nível microscó-
pico e macroscópico, da assistência individual à saúde coletiva. Esses sistemas de informação
utilizados em saúde podem monitorar o processo de assistência e aumentar a qualidade do
serviço oferecido ao paciente por auxiliar no diagnóstico ou na prescrição da terapia, por per-
mitir a inclusão de lembretes clínicos para o acompanhamento da assistência, de avisos sobre
interações de drogas, de alertas sobre tratamentos duvidosos e desvios dos protocolos clínicos.

Em resumo, o uso de computadores em saúde nos anos 1970 foi baseado no desenvolvimento
de sistemas de informação clínica em larga escala, como os sistemas de informação hospitalar
e os sistemas eletrônicos de registro médico. Esses produtos começaram a aparecer em institui-
ções acadêmicas pioneiras, seguidas posteriormente por produtos comerciais com capacidades
limitadas.

Os anos 1980 foram marcados pela massificação e ampliação do uso de computadores em saú-
de. Novos conceitos e aplicações surgiram, assim como a urgência no delineamento dos com-
putadores em saúde como uma área de conhecimento. Além disso, técnicas de aprendizagem

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de máquinas, mineração de dados e métodos automatizados de descoberta passaram a ser


utilizados em biomedicina. Outro importante acontecimento foi a fundação e ampliação de
associações para a organização de membros profissionais como a International Medical Infor-
matics Association (IMIA) em 1987 e da American Medical Informatics Association (AMIA)
em 1988.

Os anos 1990 foram marcados pelo desenvolvimento de extensas aplicações baseadas em rede,
como sistemas de informações clínicas cliente-servidor que possibilitaram a adoção generali-
zada de aplicações clínicas baseadas em microcomputadores por hospitais e clínicas de médio
a grande porte (por exemplo, exibição de dados laboratoriais, exibição de documentos tex-
tuais, troca de dados do tipo imagens radiológicas e outros). Com o advento da World Wide
Web mundial em 1991, novas aplicações e conceitos foram desenvolvidos para apoio na saúde,
como a telemedicina e a telessaúde. A área de telemedicina utiliza recursos tecnológicos para
desenvolver ações de saúde à distância. Nos anos de 1990 os computadores pessoais conecta-
dos à internet se tornaram um meio poderoso para o desenvolvimento da telemedicina.

Devido à amplitude das aplicações que utilizam a internet como plataforma, nos anos 2000
um conceito emergente em saúde emergiu: e-saúde. Em todo o mundo, países vêm investindo
sistematicamente em infraestrutura, sistemas, serviços, recursos humanos e em modelos de
organização para tornar a e-saúde parte do cotidiano da saúde. Esse é o caso dos EUA, da Aus-
trália, do Canadá e do Reino Unido, entre outros. Mas a Organização Mundial da Saúde (OMS)
explicita a necessidade de esforços nacionais em resoluções recentes, que encorajam os países
também a adotarem arquiteturas, padrões e mecanismos de interoperabilidade entre sistemas
para a saúde. Além disso, a OMS e a International Telecommunication Union (ITU) oferecem
ferramentas para auxiliar países a desenvolverem suas estratégias para o uso de informática
em saúde ou, simplesmente, e-saúde.

É impossível pensar em interoperabilidade de sistemas sem pensar em normas para a informá-


tica em saúde que a viabilizem. Entre essas normas se encontram os modelos de representação
da informação de saúde, os mecanismos para troca de mensagens e objetos, as terminologias e
serviços associados, e os critérios para garantir segurança e privacidade da informação.

A área de telemedicina tem uma influência nessa perspectiva histórica, principalmente a par-
tir dos anos 1990. Antes dessa época a saúde sempre tentou utilizar os avanços tecnológicos
das comunicações para fomentar uma ação de saúde a distância por meio de cartas, telegrafia,
radiofonia, telefonia, circuitos de TV e enlaces de satélite, mas sempre caracterizados por um
serviço ponto a ponto. Um dos principais propulsores foi a monitorização remota dos astro-
nautas e cosmonautas nos anos 1960 e 1970. No entanto, nos anos 1990, com o aparecimento
dos computadores pessoais e da internet comercial, os PCs se tornaram um meio poderoso
para o desenvolvimento da telemedicina. Essa convergência entre o computador e um meio
de comunicação digital padronizado permitiu um modelo de serviço de muitos para muitos,
tanto no alcance como na modalidade de mídias, sempre utilizando o mesmo meio mediado
por computador.

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Nos anos 2000 tanto a informática em saúde quanto a telemedicina foram reconhecidas pela
Organização Mundial da Saúde na forma de tecnologias de comunicação e informação (TIC)
em saúde, essenciais para a solução do problema de acesso à saúde de qualidade e à educação
para a saúde. Mais recentemente a OMS tem se referido ao termo e-saúde (e-health) da mesma
forma que outras áreas de conhecimento reconhecem nas TIC uma transformação cultural e
econômica – a chamada economia do conhecimento-, e atribui a e-saúde ou saúde eletrônica
um papel relevante para uma forma de consumo de saúde e bem-estar.

Os anos 2000 foram marcados pela ampliação da utilização de computadores para análise
de dados na área de ciências biológicas, o que define, de forma superficial, a bioinformática
(Luscombe et al., 2001). Os dados gerados constam de sequências de DNA, RNA e proteínas;
genomas e interações biomoleculares, por exemplo. Iniciativas como o GenBank constam de
armazenar e compartilhar esses dados para pesquisa. Notadamente, a área de saúde tem sido
beneficiada com esses estudos, o que pode propiciar a possibilidade de tratamentos mais espe-
cíficos, por exemplo.

Informática e sua aplicação em


saúde
O termo “informática” foi criado em 1962 por Philippe Dreyfus por meio da fusão de dois outros
termos, “informação” e “automático”, para representar a tradição milenar do automatismo (re-
gulação e controle focados pela cibernética) sobre a informação, mas considerando o autômato
programável para calcular e processar a informação.

A informática acabou por representar muito mais para o desenvolvimento da automação que
todos os domínios que a precederam. Assim, nas sociedades contemporâneas entende-se que
não é possível discutir “informação” de forma desarticulada do debate das tecnologias que lhe
dão suporte, mais precisamente a informática. Cada uma delas conserva a sua especificidade
epistêmica e funcional, constituindo as faces de um único movimento.

Na literatura, no entanto, não há um consenso sobre a definição de informática. Apesar disso


a maioria das definições considera dados, informação e conhecimento como objetos centrais
de estudo da informática. Bernstam et al. (2010) definiram informática como sendo a ciência
da informação, na qual informação é definida como dado com significado. O ponto central da
informática, nesse caso, é o intervalo entre a necessidade de informação do profissional e a
capacidade da tecnologia em fornecê-la/recuperá-la. Vale ressaltar que os seres humanos são
excelentes em construir e processar significados enquanto os computadores e máquinas são
excelentes em processar dados.

No que diz respeito à área da informática aplicada à saúde, diferentes terminologias foram
utilizadas para referir os estudos realizados. Nos anos 1950 os termos utilizados eram de com-

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Especialização em Informática em Saúde

putação clínica ou médica, ciência da computação médica. Nos anos 1960 um termo muito
comum era computação biomédica, uma mudança que pode indicar uma ampliação do domí-
nio da área. Nos anos 1970 passou-se a discutir a indicação de termos que descrevem melhor
o domínio dessa área.

Nas décadas seguintes, porém, novas aplicações e usos da informática tornaram necessárias
novos termos e definições como informática médica, informática biomédica, bioinformática,
informática em saúde, e-saúde (e-health) ou apenas informática (em inglês, informatics), que é
o termo utilizado pela AMIA.

Shortliffe e Blois (2001) descrevem que a relação entre os termos informática médica e infor-
mática biomédica não está clara. Entretanto, o termo informática médica foi gradualmente
substituído por informática biomédica em função da inclusão de aplicações biológicas com as
quais os grupos de informática médica estavam envolvidos. Trata-se, portanto, da evolução de
um termo que possibilita descrever a atuação da área de forma mais ampla.

Desta forma, a evolução dos conceitos mostra que a informática aplicada à saúde é uma área
de conhecimento em evolução, cujo foco tem sido ampliado em virtude da necessidade e de
novas aplicações relacionadas.

Conceitos atuais
Devido à evolução dos termos e à ampliação do escopo de atuação da área, novos conceitos
têm sido propostos. A seguir são apresentadas diferentes definições referentes aos conceitos
utilizados internacionalmente, essencialmente informática biomédica, informática médica e
e-saúde. A definição de informática em saúde, termo mais utilizado no Brasil, será tratada na
seção referente à epistemologia da informática em saúde.

Shortliffe e Blois (2006) definiram a informática biomédica como

...campo científico que lida com informações biomédicas, dados e


conhecimento - seu armazenamento, recuperação e uso ótimo para
resolução de problemas e tomada de decisão.

Uma nova definição, moldada pela necessidade de adequação às disciplinas da área, foi pro-
posta em 2012:
A informática biomédica é o campo interdisciplinar que estuda e busca
os usos efetivos de dados, informações e conhecimento biomédico para
pesquisas científicas, resolução de problemas e tomada de decisões,
direcionados pelos esforços para melhorar a saúde humana.

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Em relação ao conceito de informática médica, Greenes e Shortliffe (1990) propuseram uma


definição baseada em tarefa e domínio da área:

O campo que se ocupa das tarefas cognitivas, de processamento de


informação e de comunicação da prática médica, educação e pesquisa,
incluindo a ciência da informação e a tecnologia para apoiar essas
tarefas.

Bernstam utiliza a definição de Musen e Van Bemmel (1999):

...desenvolver e avaliar métodos e sistemas para aquisição,


processamento e interpretação de dados de pacientes com a ajuda de
conhecimento obtido na pesquisa científica.

Kulikowski et al. (2012) propuseram uma definição que especifica com exatidão o escopo do
conceito:

... refere-se apenas ao componente de pesquisa e prática em informática


clínica que se concentra em doenças e envolve predominantemente o
papel de médicos.

Observa-se que o conceito de informática médica evoluiu nas últimas três décadas. Um dos
aspectos importantes é que tornou-se parte de outro campo de pesquisa, com amplo domínio
tecnológico, restrito ao estudo de doenças e envolvendo predominantemente médicos. Atual-
mente devido à ampla utilização das TICs o conceito de e-saúde (e-health) tem sido utilizado
amplamente para descrever aplicações e pesquisas.

Eysenbach (2001) definiu:

...é um campo emergente na interseção de informática médica, saúde


pública e negócios, referente a serviços de saúde e informações entregues
ou aprimoradas através da Internet e tecnologias relacionadas.

Moghaddasi (2012), porém, ressalta que o conceito de e-saúde pode ter diferentes significados
em diferentes países e a variação semântica está relacionada ao nível de desenvolvimento e
implementação. O conceito de e-saúde está diretamente vinculado à tecnologia. Representa o
uso combinado de informática e de tecnologias da comunicação eletrônica em saúde, amplian-
do sua definição em decorrência do avanço tecnológico.

Um histórico dos termos utilizados na área e subáreas geralmente mencionadas em eventos


brasileiros são apresentados na tese de livre-docência do Prof. Ivan Pisa (Pisa, 2013, capítulo 2
seção 2.1, pág. 12) a partir de um estudo epistemológico aliado a uma análise estatística de pu-
blicações do Pubmed e de pesquisa de opinião com profissionais e pesquisadores experientes

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Especialização em Informática em Saúde

na área.

Um estudo comparativo (Colepícolo 2008), realizado no grupo brasileiro de pesquisa Saúde


360º, entre aspectos teóricos e práticos considerando como etapas os estudos estatístico, ter-
minológico e epistemológico, expõe que a área da informática em saúde é uma tecnociência
interdisciplinar que se ocupa da solução de problemas de um amplo leque de domínios e fatos
das ciências da vida, das ciências da saúde e da prática do cuidado em saúde, por meio da pes-
quisa científica proveniente de outras áreas do conhecimento e do desenvolvimento de suas
próprias tecnologias para uso na sociedade.

Breve histórico: cenário brasileiro


As primeiras aplicações de informática em medicina e no tratamento de saúde no Brasil come-
çaram por volta de 1968 com a instalação dos primeiros computadores de grande porte (main-
frames) nos hospitais e universidades públicas e com o uso de calculadoras programáveis em
aplicações de pesquisas científicas. Minicomputadores, como o IBM1130, foram instalados em
diversas universidades e as primeiras aplicações foram desenvolvidas a partir deles, como o
senso hospitalar na Escola de Medicina de Ribeirão Preto e os arquivos principais dos pacien-
tes (patient master files) no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, respectiva-
mente nas cidades de Ribeirão Preto e São Paulo.

Daniel Sigulem, professor titular em informática em saúde na Universidade Federal de São


Paulo (UNIFESP) e um dos pioneiros no Brasil, em sua tese de Livre-docência afirma que, no
Brasil, a situação dessa especialidade era bastante diversa do que ocorria na quase totalidade
dos países do hemisfério norte e da Europa onde a informática médica implicava hardware e
software avançados e abundância de recursos para o desenvolvimento e a manutenção de sis-
temas que utilizavam tecnologia de ponta.

Apesar das restrições impostas inicialmente pelo estabelecimento de uma comissão para a
Coordenação das Atividades de Processamento Eletrônico (CAPRE) em 1972 e, depois, pela
Lei Nacional de Informática institucionalizada em novembro de 1984, a área de informática
aplicada à saúde foi estudada, acompanhada e desenvolvida por grupos isolados em todo o
país. Destacam-se, entre outras, as iniciativas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS), da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), da Universidade de São Paulo
(USP), da Escola Paulista de Medicina (EPM) e do próprio Governo Federal.

Durante os anos 1970 vários mini computadores foram instalados nos hospitais públicos e nos
hospitais das forças armadas, sendo utilizados mais intensamente nas unidades de tratamento
intensivo, no diagnóstico cardiológico bem como no monitoramento do paciente e em outras
aplicações. Com a chegada dos microcomputadores mais baratos no começo dos anos 1980
ocorreu um intenso surgimento de aplicações em saúde para computadores. Em 1986 a Socie-
dade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS) foi fundada. O I Congresso Brasileiro de Infor-

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mática em Saúde (CBIS) ocorreu e o Jornal de Informática em Saúde brasileiro foi publicado.

No Brasil tivemos duas universidades pioneiras no ensino e na pesquisa de informática médi-


ca. Tanto a USP quanto a EPM ofereciam programas de graduação altamente qualificados na
área, assim como programas de extensão de graduação (mestrado e doutorado).

Sigulem descreve em 1997 um pouco da história do início da informática em saúde na


UNIFESP:

“Na Escola Paulista de Medicina, hoje Universidade Federal de São Paulo, a informáti-
ca começou a ser implantada em 1976 graças à visão, em nossa opinião revolucionária
na época, de um de seus médicos, o Prof. Dr. Sílvio Borges. Ciente das necessidades de
coleta padronizada da informação e de seu adequado armazenamento, esse professor
criou o Serviço de Informática, que mais tarde se transformou no Centro de Processa-
mento de Dados (CPD) da Escola Paulista de Medicina.

Diversos protocolos de coleta sistematizada de informações foram idealizados pelo


Prof. Silvio e são referidos até hoje por sua engenhosidade e adequação, e por revelarem
uma visão de futuro extremamente precisa. No entanto, muito pouco foi implemen-
tado. O professor vivia em uma época muito além da sua – não havia nem máquinas,
nem aplicativos, nem recursos humanos adequados para permitir que suas ideias fos-
sem colocadas em prática.

O CPD da EPM, hoje Departamento de Processamento de Dados (sic), tem como tarefas
o gerenciamento das informações administrativas da instituição e também o das infor-
mações do seu Hospital Universitário – o Hospital São Paulo (HSP).

A informática em saúde começou a ser concebida, em 1985, na pequena “sala de infor-


mática” instalada na Disciplina de Nefrologia do Departamento de Medicina da Escola
Paulista de Medicina, criada devido à sensibilidade, ao incentivo e ao apoio da chefia
dessa Disciplina.

Começamos com vantagens em relação a diversos precursores da informática médica


do mundo, já na era da microinformática. Acreditávamos firmemente que a informática
médica ocuparia um lugar cada vez mais importante dentro das instituições de saúde.
Tínhamos um sonho viável, porém ambicioso, e para concretizá-lo necessitávamos co-
nhecer os fundamentos teóricos da área e acompanhar o que estava sendo desenvolvi-
do em centros de excelência.

A primeira oportunidade de conhecer o estado da arte ocorreu em 1986 quando a Or-


ganização Pan-americana de Saúde (OPAS) patrocinou uma viagem de estudos de um
grupo de jovens administradores da América Latina. Durante 15 dias de intensa con-
vivência e de discussões, participamos do Fifth Congress on Medical Informatics, do
Tenth Annual Symposium on Computer Applications in Medical Care (SCAMC) e do
workshop International Collaboration on the Application of Medical Informatics em

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Especialização em Informática em Saúde

Washington. Nessa visita conhecemos alguns institutos de pesquisa em informática


em saúde como a National Library of Medicine (NLM), sediada no National Institutes
of Health. Essa visita causou um grande impacto em todo o grupo devido a sua incrível
infraestrutura de informática composta, nessa ocasião por 2.200 microcomputadores e
quatro mainframes IBM 3090. A NLM já era informatizada e possuía centenas de mi-
crocomputadores à disposição do público.

Ainda nessa viagem conhecemos o projeto pioneiro da Lister Hill National Center for
Biomedical Communications que desenvolvia a metodologia para gravar o acervo do
MEDLINE em CD-ROM. Tivemos ainda durante esse seminário contato com a área da
inteligência artificial e nos emocionamos com a frase do Prof. Marvin Minsky referin-
do-se a uma biblioteca do ano 2020 citada na abertura do SCAMC pelo Prof. Edward A.
Feigenbaum: “você pode imaginar que no passado havia bibliotecas onde os livros não
conversavam uns com os outros?”.

Participamos de discussões em um ambiente onde a informática médica já estava con-


solidada há mais de 15 anos e com profissionais experientes na área. Vimos alguns
resultados e muitos projetos em desenvolvimento, contudo era difícil absorver as difi-
culdades não só porque não as conhecíamos, mas, sobretudo, porque experiência não
se aprende – adquire-se.

Não temos hoje a menor dúvida de que essa viagem nos marcou profundamente e de-
finiu o rumo de nossas pesquisas. Conscientes da imensa distância existente na área
entre a situação brasileira e a dos países desenvolvidos, os grupos de pesquisadores
mapeados, agregados e estimulados pelo Dr. Reginaldo de Holanda Albuquerque, su-
perintendente da área de ciências da vida do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq), começaram a movimentar-se e a mostrar ao país que
era preciso preocupar-se com a informática em saúde.

Em fevereiro de 1988 a Secretaria Especial de Informática (SEI) do Ministério da Ciên-


cia e Tecnologia – por meio da Comissão Especial de Informática em Saúde composta
por dezenas de representantes do setor de saúde do país, dos governos federal, esta-
duais e municipais, de hospitais, universidades, centros de pesquisa e associações pro-
fissionais – apresentou a proposta de Plano Setorial de Informática em Saúde, visando
à orientação do uso da informática tanto nos aspectos da aplicação da tecnologia para
a solução dos problemas relativos à promoção, prevenção e recuperação da saúde da
população quanto nos aspectos de produção de equipamentos, programas e serviços
necessários a essa aplicação. Várias necessidades estão evidenciadas nesse documento:
a de formar profissionais especializados na área e a de equipar os centros de pesquisa já
existentes, bem como a de dar suporte a grupos emergentes, entre outras.

Em 1986, com o apoio da então diretoria da Escola Paulista de Medicina e com a pre-
disposição dos órgãos governamentais e de fomento de dar suporte aos centros de pes-
quisa de informática em saúde, o Centro de Informática em Saúde da Escola Paulista

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de Medicina (CIS-EPM) deixava de ser um ideal de poucos e passava a ser uma neces-
sidade institucional e um compromisso com a sociedade. Em março de 1988 o CIS-EPM
foi oficialmente inaugurado.

O CIS foi responsável, em seus primeiros dez anos de existência, pela disseminação da
cultura da informática em saúde da UNIFESP, bem como pela implantação da infraes-
trutura física de comunicação da rede de TI da universidade. Nesse período também foi
criada a Disciplina de Informática em Saúde para os cursos de graduação da universi-
dade. Além disso, foram investigados e desenvolvidos diversos sistemas e aplicativos
orientados ao gerenciamento da informação em saúde e à educação a distância. A partir
de 1999 o CIS passou a se chamar Departamento de Informática em Saúde (DIS), inte-
grando os departamentos acadêmicos da UNIFESP. Em 2002 o DIS recebeu aprovação
da CAPES para os cursos de mestrado e doutorado - a primeira pós-graduação stricto
sensu em informática em saúde na América Latina e Caribe.“

O Brasil utiliza sistemas de informação de reconhecida qualidade: o sistema bancário, o siste-


ma de votação eletrônica e o sistema de declaração de ajuste de renda por meio da internet são
exemplos de sistemas críticos que atendem ambientes complexos. O Brasil é o terceiro mer-
cado em volume de transações eletrônicos segundo Relatório Mundial sobre Pagamentos 2016
publicado pela consultoria Capgemini em parceria com o BNP Paribas (Lima, 2016). Entretanto,
na área da saúde, ainda há muito a ser desenvolvido.

No Brasil, considerando que a saúde é um direito universal, a área da informática em saúde


é um serviço para a sociedade, para a justiça social e o exercício para garantir atenção inte-
gral à saúde com qualidade equanimemente distribuída. Informações e informática em saúde
produzidas, desenvolvidas, geridas e disseminadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) cons-
tituem um bem público e um patrimônio da sociedade brasileira, que são determinados pelo
contexto histórico, político, social, econômico e científico em que são gerados e desenvolvidos
pelas articulações federativas, pesquisas em torno das condições de saúde-doença-cuidado de
indivíduos, de populações e de seus determinantes no mínimo cumprindo a Lei de Acesso à
Informação – Lei 12.527/2011 - e a democratização da informação em saúde como direito de
todos e como um dos alicerces da cidadania.

A história brasileira da informática em saúde, os estudos sobre as experiências de implantação


dos sistemas de informações de saúde de base nacional, as diversas iniciativas do Cartão Na-
cional de Saúde (CNS) desde 1999, os diferentes esforços para uma Política Nacional de Infor-
mação e Informática em Saúde são exemplos de algumas referências a serem levadas em conta
por suscitarem velhas questões ainda não resolvidas e questões novas, que requerem respostas
novas para a melhoria da informação e da informática em saúde no Brasil.

A análise da construção histórica da informação e da informática em saúde evidencia disputas


ao longo desse processo. Observam-se as diferentes concepções de saúde e de política de saú-
de, o que inclui as opções em torno das tecnologias de informação adotadas e, eventualmente,
até a pressão do mercado da computação e das telecomunicações. Nessas disputas a infor-

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Especialização em Informática em Saúde

mação em saúde é trabalhada como recurso/instrumento (matéria-prima) que agrega valor a


produtos e processos, um insumo fundamental para os processos dos sistemas de saúde, como
também a tecnologia da informação tem mudado a forma de se oferecer serviços de saúde. A
saúde depende de conhecimento e de tecnologia para ampliar o alcance e a qualidade dos seus
serviços.

O Brasil tem larga experiência no uso de sistemas de informação em saúde. Recentemente têm
sido desenvolvidos esforços significativos para melhorar e adequar os sistemas de informação
às três esferas de governo. São necessários, entretanto, esforços em longo prazo, já que a expe-
riência internacional aponta que os resultados do investimento começam a surgir, em média,
cerca de sete anos depois de iniciados os programas nacionais de e-saúde.

Em 1996 foi criada a Rede Interagencial de Informações para a Saúde (RIPSA), instituída por
iniciativa conjunta do Ministério da Saúde e da OPAS e aparentemente encerrada em 2015, teve
como propósito promover a disponibilidade adequada e oportuna de dados básicos, indicado-
res e análises sobre as condições de saúde e suas tendências, visando aperfeiçoar a capacidade
de formulação, gestão e avaliação de políticas e ações públicas pertinentes. Foi responsável
por articular com as entidades representativas dos segmentos técnicos e científicos nacionais
envolvidos na produção, análise e disseminação de dados, viabilizando parcerias capazes de
propiciar informações úteis ao conhecimento e à compreensão da realidade sanitária brasileira
e de suas tendências.

Em 2012, depois do Ministério da Saúde (MS) redefinir o Comitê de Informação e Informática


em Saúde (CIINFO) em 2011, foi elaborada uma nova versão da Política Nacional de Informa-
ção e Informática em Saúde (PNIIS) cujo texto atual apresenta princípios e diretrizes, tendo
como base a melhoria do acesso e da qualidade no SUS; a transparência e a segurança das in-
formações; o suporte da informação para tomada de decisão por parte do gestor e profissional
de Saúde; e, por fim, o desenvolvimento institucional do SUS. Nele a interoperabilidade dos
sistemas de informação em saúde é condição central nessa política; sendo assim, a PNIIS visa
ainda a uma melhor governança no uso da informação em Saúde e dos recursos de informática,
integrando- se ao conceito de governo eletrônico.

As TIC em saúde avançaram muito também desde 2006 quando foram lançados dois projetos
nacionais de telessaúde, a saber: a Rede Universitária de Telemedicina (RUTE) e o Telessaúde
Brasil Redes.

A Rede Universitária de Telemedicina (RUTE), uma iniciativa do Ministério da Ciência e Tec-


nologia (MCT) apoiada pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pela Associação
Brasileira de Hospitais Universitários (Abrahue), sob a coordenação da Rede Nacional de
Ensino e Pesquisa (RNP), visa contribuir com a melhoria de acesso e com o aprimoramento da
infraestrutura para a telemedicina já existente em hospitais universitários e de ensino, bem
como promover a integração de projetos entre as instituições participantes. Por outro lado, o
Telessaúde Brasil Redes é o programa do Ministério da Saúde para apoiar a consolidação das
Redes de Atenção à Saúde (RAS), que são ordenadas pela Atenção Básica do SUS por meio de

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teleconsultoria, telediagnóstico, segunda opinião formativa e tele-educação. Ambos os projetos


ampliaram a disseminação do conceito de tecnologia de informação e comunicação na saúde
por meio dos núcleos e das unidades de telessaúde, pontos de serviços de saúde a partir dos
quais os trabalhadores e profissionais do SUS demandam telessaúde. O sucesso foi tão grande
que o Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) de 2010 incluiu a cobertura total de todos os
estabelecimentos de saúde nos seus objetivos de conectividade pelo país para a economia do
conhecimento da sociedade brasileira.

Epistemologia da informática em
saúde
Informática em saúde integra a tecnologia da informação e as diferentes áreas da saúde com
o propósito de investigar a estrutura e as propriedades da informação médica. Adaptando a
definição de Shortliffe (Shortliffe e Blois, 2001) da informática biomédica para a informática em
saúde, termo utilizado no Brasil, temos a área da informática em saúde como

o campo científico que trata do armazenamento, recuperação e uso


otimizado da informação biomédica, de dados e do conhecimento para
o apoio à tomada de decisões visando à solução rápida de problemas.

É uma área que fica entre a arte e o conhecimento estruturado, em grande parte, pela pesquisa
científica.

Jacques Wainer (Wainer et al., 2006) discute o assunto e apresenta algumas considerações so-
bre a estruturação da pesquisa na área. De modo restrito considera o termo “pesquisa” como a
busca sistemática de respostas a indagações científicas e soluções tecnológicas às necessidades
da vida diária, entendendo o termo “ciência” como a atividade restrita à pesquisa de novos
conhecimentos e ampliação do entendimento daqueles já existentes. Pesquisas podem ainda
ser classificadas como teóricas ou experimentais em função do objeto de estudo e método uti-
lizado. Entende o termo “tecnologia” como o desenvolvimento e análise de novos materiais,
equipamentos e métodos de execução de determinadas tarefas. Considera que as expressões
“informática médica” e “informática em saúde” têm sido usadas como sinônimos. Aponta que
as atividades relativas à saúde abrangem não só a medicina, mas também a enfermagem, a
nutrição, a veterinária e a odontologia.

A Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS) utiliza o termo mais amplo “saúde”
em vez de “médica” ao contrário do que se faz na Europa, na Ásia e nos EUA. Nessas regiões
o adjetivo “medical” é utilizado em sentido tão amplo quanto o termo “saúde” que adotamos.
A expressão “informática médica” tem sua origem entre 1968 e 1970 na Rússia, na França e
em países de língua inglesa ao se referir, inicialmente, a uma interface entre disciplinas, como

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Especialização em Informática em Saúde

ciências da computação aplicada à medicina ou ciência da informação médica.

De um modo simplificado pode-se dizer que:

informática em saúde é o estudo e o uso de computadores e sistemas


de comunicação e informação na assistência médica, no ensino e
em pesquisa na área da saúde; são áreas correlatas à informática em
saúde, em particular às áreas de engenharia biomédica, bioinformática
e modelagem computacional de fenômenos biológicos/cognitivos, as
quais, embora próximas, têm suas próprias práticas científicas.

Além disso, Wainer ainda apresenta uma classificação de pesquisa em informática em saúde:

• pesquisa empírica;

• pesquisa semi-empírica;

• meta-análises e reanálises;

• criação de um sistema computacional

• sistema inovador ou, pelo menos, incomum na saúde;

• sistema deve ser potencialmente útil para a saúde, mas não é preciso prová-lo;

• sistema com um componente computacional central;

• sistema de elaboração não trivial;

• estudos de implantação e utilização de sistemas no processo da saúde.

Competências desenvolvidas em
informática em saúde
Com o objetivo de estimular o desenvolvimento e reconhecimento da especialidade de infor-
mática em saúde no meio acadêmico, científico e profissional, William Hersh (Hersh, 2009)
descreveu as competências necessárias (Figura 1) para os profissionais que desenvolvem ati-
vidades na área de informática em saúde. Além disso, o autor também apontou as principais
oportunidades de carreira no setor (Figuras 2).

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Ciências da Saúde e Biologia


• Medicina, Enfermagem, etc.
• Saúde Pública
• Biologia

Competências
necessárias para
os profissionais
Ciências Básicas e Administrativas Ciência da Computação e Matemática
de Informática em
• Administração; Saúde • Ciência da Computação;
• Recursos Humanos; • Tecnologia da Informação;
• Comportamento Organizacional. • Estatística.

Figura 1 - Grandes categorias de competências em informática em saúde (Hersh, 2009).

Profissionais de Saúde
(ex.: médicos, enfermeiros,
fisioterapeutas, etc.). Oportunidades de trabalho em:
Pós-
Ciências Naturais • Sistemas e provedores/
Graduação
(biologia, genética, etc.). operadoras de saúde;
em
Ciência da Computação e Informática • Pesquisa Biomédica;
graduação em Informática. em Saúde
• Indústria;
Administração em
Informática em Saúde. • Academia (Universidades);
Outros: Administração, • Outros.
Biblioteconomia, Ciência da
Informação, etc.

Figura 2 - Possíveis carreiras na área da informática em saúde (Hersh, 2009).

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Especialização em Informática em Saúde

Produção científica: congressos e


conferências
Originalmente a informática médica e a bioinformática eram duas disciplinas totalmente inde-
pendentes com currículos educacionais e interesses acadêmicos distintos. No entanto, tópicos
de interesse comum às duas disciplinas surgiram principalmente nas áreas de pesquisa genô-
mica e medicina pessoal. Com o aumento do número de pesquisas e publicações envolvendo
ambas as disciplinas iniciou-se uma convergência das mesmas dando origem à disciplina de
informática biomédica (informática em saúde) (Hersh, 2009).

Atualmente há um consenso de que as interações entre as disciplinas da informática biomédi-


ca estão constantemente amadurecendo, levando a um aumento das oportunidades de estudo
e educação nessa área.

Os principais congressos na área de informática biomédica surgiram, na realidade, a partir


dos congressos originais da área de informática médica, que são: World Conference of Medi-
cal Informatics (MedInfo), Medical Informatics Europe (MIE) e American Medical Informa-
tics Association (AMIA). Esses três congressos originalmente tratavam de pesquisas na área
de informática médica e com a evolução das disciplinas tornaram-se atualmente a referência
para publicações de informática biomédica. É importante lembrar que os três congressos es-
tão diretamente relacionados com as associações profissionais locais e/ou internacionais, res-
pectivamente, International Medical Informatics Association (IMIA), European Federation for
Medical Informatics (EFMI) e American Medical Informatics Association (AMIA).

Uma vez que as publicações científicas são um indicador para avaliar e classificar o mérito aca-
dêmico de instituições e pesquisadores é importante verificar como se comportam os congres-
sos e as publicações na área. Em dois dos três congressos citados anteriormente verifica-se um
predomínio de publicações de autores “locais”, isto é, no congresso norte-americano (AMIA) há
uma predominância de autores de origem norte-americana. O mesmo ocorre no MIE no qual
há uma predominância de autores da comunidade européia. No MedInfo, por sua vez, ocorre
um equilíbrio maior de publicações norte-americanas e europeias; no entanto vale salientar
que o MedInfo é um congresso bianual enquanto que AMIA e MIE têm edições anuais.

Entre 19 e 23 de agosto de 2015 a 15a edição do MedInfo foi realizada em São Paulo. O tema
central foi saúde baseada em e-saúde (eHealth-enabled health). Foram realizadas diversas pa-
lestras, painéis, apresentações de trabalhos completos e pôsteres com a participação de pesqui-
sadores brasileiros. Durante a abertura do evento o Prof. Dr. Daniel Sigulem foi homenageado
por suas contribuições à informática em saúde. Em 2017, entre 21 e 25 de agosto o MedInfo
ocorre em Hangzhou, China, com o tema assistência em saúde de precisão através da informá-
tica (precision healthcare through informatics).

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De forma geral nas universidades e faculdades de medicina e ciências da saúde é dada maior
importância para publicações realizadas em periódicos na área em detrimento das publica-
ções realizadas em conferências e congressos. Apesar disso, os três congressos anteriormen-
te citados encontram-se indexados em algumas bases de dados, como ISI e Citeseer X, não
aparecendo indexados no Pubmed/Medline. A baixa classificação do MedInfo, MIE e AMIA
nesses rankings em contraste com conferências da área de bioinformática (que aparecem com
uma classificação muito superior) parece indicar um baixo reconhecimento das pesquisas de
informática biomédica fora da área. Faz-se necessário, portanto, um esforço maior por parte
da comunidade de informática biomédica para que essas conferências e congressos tenham
maior visibilidade para proporcionar um maior reconhecimento da disciplina na comunidade
científica em geral. Vale lembrar que nas faculdades ligadas à ciência da computação é dada
uma importância e um valor científico maior às publicações realizadas em conferências e con-
gressos, o que provavelmente contribui para a melhor classificação das conferências da área
nos índices das publicações.

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