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Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Comarca de _____ (cidade/estado).

Processo-crime nº:
Autos nº:
Fulano de Tal, já qualificado nos autos (fl. ____) da açã o penal que lhe move o
Ministério Público do estado de ____, vem perante Vossa Excelência, por
intermédio de seu defensor dativo infrafirmado, apresentar, no prazo legal e com
fundamento no Có digo de Processo Penal, arts. 396 e 396-A, a sua RESPOSTA À
ACUSAÇÃO PENAL, conforme as seguintes asserçõ es de fato e de direito.
1. SÍNTESE DA DENÚ NCIA
O denunciado foi preso e autuado em flagrante delito, colocado em liberdade
provisó ria mediante fiança e está sendo processado sob a acusaçã o de ter cometido
o crime de lesã o corporal dolosa qualificado pela violência doméstica (Có digo
Penal, art. 129, § 9º, c/c arts. 5º, inc. III e 7º, inc. I, ambos da Lei nº 11.340/2006).
Pelos relatos constantes nos autos, o fato característico aconteceu no dia ___ do ano
em curso, por volta das __h__m, na Avenida e nº ____ cidade/estado _____.
Foi afirmado que tal delito ocorreu em razã o de o acusado ter rompido a uniã o
está vel com a Sra._____, um dia antes de ter praticado a referida conduta, e
prevalecendo-se das relaçõ es domésticas decorrentes desse relacionamento, o
acusado causou-lhe lesõ es corporais depois que ela retornava de uma festa para a
casa em que conviveram.
2. DOCUMENTAÇÃ O ANEXADA COM A DENÚ NCIA
2.1 Inquérito Policial
Da aná lise minuciosa dos “termos dos depoimentos” (fls. __/__) no inquérito
policial, conclui-se sem esforço mental que as testemunhas nã o presenciaram o
fato constitutivo da incriminaçã o. Também está claro que nã o foi assegurada pela
autoridade policial a incomunicabilidade entre as testemunhas, para preservar o
correto esclarecimento dos fatos.
Como se sabe, uma testemunha nã o deve influir no depoimento da outra, nem
conhecer o conteú do desse depoimento, para que as versõ es dos fatos sejam
espontâ neas e genuínas, para que possam se aproximar ao má ximo da verdade,
embora saibamos da impossibilidade desta ser absoluta.
O policial militar _____ apenas confirmou o depoimento do seu colega _____, ambos
os policiais estavam juntos quando atenderam a ocorrência. O ____, testemunha
instrumentária, estava de sobreaviso e foi convocado para auxiliar no atendimento
que estavam prestando na Delegacia.
Com efeito, confrontando-se os conteú dos dos aludidos documentos, está
estampado que nã o lograram êxito na reconstruçã o histó rica dos fatos de modo
que fosse a mais fiel possível. Por isso, os depoimentos das três pessoas
supramencionadas nã o podem assumir valor probató rio relevante.
Termo de Interrogatório em Auto de Prisão em Flagrante Delito (fls. __/__):
em suma, o indiciado respondeu que: (i) é verdadeira a imputaçã o que lhe é feita;
(ii) está arrependido da prá tica do crime; (iii) agiu normalmente [nã o estava
embriagado, sob forte emoçã o, a atitude nã o foi premeditada e o fim alcançado nã o
estava na sua vontade]; e (iv) ao chegar à casa da Sra. ____começaram a discutir e
ela agrediu-o fisicamente, tendo revidado as agressõ es.
Laudo médico (entre as fls. ___/__): consta que a ofendida sofreu as seguintes
lesõ es: “escoriaçõ es, hiperemia e edema na regiã o da face, sem demais queixas ou
ferimentos”.
3. PRELIMINARES
1. Condição específica de procedibilidade para o regular exercício do direito de
ação penal: exame de corpo de delito
Argui que nã o foi realizado o exame de corpo de delito direto ou indireto, por
perito (um oficial ou dois inoficiais), conforme determina a lei (CPP, arts. 158 e
159, caput, e § 1º; e Lei nº 11.340/2006, art. 12, caput, e inc. IV) no caso em tela,
por tratar-se de infraçã o penal que deixa vestígio real. Vale ressaltar: uma das
testemunhas afirmou que as lesõ es na ofendida eram visíveis.
O laudo médico fornecido por hospitais ou postos de saú de, apesar de admitido
como meio de prova, serve apenas para formaçã o, quando necessá rio, do exame de
corpo de delito indireto. Além disso, como argumentado no tó pico “2”, as três
testemunhas nã o presenciaram a ocorrência do alegado delito.
Como consequência, a confissã o do acusado e/ou a prova testemunhal nã o podem
suprir a falta do exame de corpo delito (CPP, art. 158 c/c art. 167), má xime porque
os vestígios nã o haviam desaparecido.
Por se tratar de açã o penal pú blica incondicionada relacionada a crime de
resultado, é indispensá vel a realizaçã o do exame de corpo de delito, sendo
insuficientes para a propositura da açã o em apreço apenas o laudo médico
atestando lesõ es corporais na ofendida, com a confissã o do acusado e os
depoimentos de três policiais que sequer assistiram a ocorrência do fato típico
imputado na denú ncia e principalmente porque o flagrante foi na modalidade
imprópria.
Sobre a matéria, é essencial salientar os seguintes comentá rios de Herá clito
Antô nio Mossin (Comentários ao Código de Processo Penal: à luz da doutrina e
jurisprudência. Barueri-SP, Manole, 2005. p. 362):
“O regramento processual ancorado no art. 158 do Có digo de Processo Penal, que
está sendo objeto de interpretaçã o, é tã o absoluto, que o legislador nã o permite a
substituiçã o do corpus delicti direto e indireto pela confissã o do acusado:
antequam resu própria confessione possit condemnari, oportet ut constet de corpore
delicti.
[...]
Por outro lado, embora o art. 167 do Có digo de Processo Penal, [...], tenha por
objetivo amenizar o rigor do art. 158 do mesmo estatuto, deve ser visto e
interpretado com certas reservas para que o exame de corpo de delito nã o seja
indevidamente preenchido pela prova testemunhal, que por sinal nã o se confunde
com exame de corpus delicti indireto.
[...] Verifica-se pelo texto legal que a prova testemunhal apresenta-se como
expediente meramente supletivo para a comprovaçã o do corpo de delito[1],
somente sendo admissível quando for impossível a perícia por impedimento legal
ou por fato absolutamente invencível[2]. Logo, se a inspeçã o, por exemplo, nã o
pode ser realizada porque por incú ria da pessoa interessada ou da pró pria
autoridade a quem incumbia produzir a prova os vestígios desapareceram, nã o
pode essa ser substituída pela prova testemunhal, uma vez que nã o se verifica na
espécie fato absolutamente invencível.”
Na presente ACUSAÇÃ O, é patente a gravidade do ato administrativo viciado e, pior
ainda, o prejuízo que sua permanência acarreta para a efetividade do
contraditó rio, a correta aplicaçã o do direito e a justiça da decisã o.
Aliá s, por ser a regra do CPP, art. 564, inciso III, alínea b, uma das hipó teses de
nulidade absoluta, cumpre lembrar que a irregularidade apontada é cabível de ser
decretada de ofício pelo magistrado, com a consequente invalidade do laudo
médico como documento probató rio para substituir o exame de corpo delito.
Ainda sobre o tema, é importante citar mais comentá rios extraídos da mesma obra
(p. 564) do jurista anteriormente mencionado:
“Fazendo incidir consideraçõ es sobre nulidade, que no fundo é o objetivo dessa
aná lise, se houver a omissã o, a ausência material ou física do exame de corpo de
delito direito ou indireito (sic), a nulidade será absoluta, insaná vel, nos termos do
art. 564, III, b, do Có digo de Processo Penal.[3]
In casu, como a declaraçã o da nulidade absoluta seria totalmente inó cua, já que nã o
haveria como realizar-se o exame de corpo de delito pelo desaparecimento dos
vestígios do crime, a solução processual mais racional é a absolvição do
acusado por falta de prova. [...]” [grifei].
Vossa Excelência há de concordar que: (i) inexiste prova material direta (exame de
corpo de delito) do fato probando na denú ncia; (ii) há vício nos depoimentos das
testemunhas (comunicaçã o antecipada entre elas e sabiam sobre o que a outra
respondeu); e (iii) flagrante impróprio que impossibilita saber se realmente nã o
houve agressõ es físicas iniciadas pela ofendida.
Vale anotar a parte final das respostas do denunciado quando interrogado durante
sua prisã o (fl. ___):
“[...] QUE, ontem, terminou um relacionamento amoroso que manteve com ________
por dois anos; QUE, ao anoitecer de hoje, _____ lhe telefonou para que fosse até a
casa dela tratarem da reconciliação; QUE, lá chegando começaram a discutir e
______ começou a agredi-lo fisicamente, tendo revidado as agressões; QUE,
logo acalmou-se a situação, tendo prometido que retornaria posteriormente
para tratarem da reconciliação; QUE, estava em casa, já saindo para o
trabalho, quando a PM lá chegou e o deteve, recambiando-o para esta delegacia
[...]” [grifei].
Por tudo que foi exposto, requer-se a absolviçã o do denunciado, em razã o das
manifestas deficiências dos suportes fá tico e probató rio colhidos no inquérito
policial.
2. Existência manifesta de cláusula excludente da ilicitude do fato: legítima
defesa
Na hipó tese de indeferimento do pedido formulado no tó pico anterior, é imperioso
contra-argumentar que, com base no relato dos fatos e nas declaraçõ es da
ofendida, vê-se que o denunciado tinha ciú mes dela. Vale mencionar pequeno
trecho das declaraçõ es da Sra. ______ (parte final da fl. ___): “[...] QUE, as agressões
de _______ são por ciúmes”.
Por isso, cabível indagar se realmente o denunciado agrediu-a sem que tenha dado
motivos para tanto. Confrontando-se os conteú dos do depoimento do denunciado
com as declaraçõ es da ofendida, tudo está indicando que a resposta plausível para
a pergunta acima é: NÃO.
O rompimento da uniã o está vel, que durou dois anos, ocorreu um dia antes do
alegado delito. As partes estavam tentando se reconciliar. Nã o é de se estranhar
que tenha ficado com ciú mes dela ter ido a uma festa e terem discutido,
principalmente porque pretendiam a reconciliaçã o.
Nã o se está , evidentemente, dizendo que é lícito agredi-la; contudo, é necessá rio
levar em consideraçã o que o denunciado afirmou ter revidado as agressõ es que a
Sra. _____ iniciou durante a discussã o. Ele nã o premeditou a agressã o e tampouco
estava na casa da vítima com tal intuito.
Daí nã o ser exagero concluir-se que o denunciado agiu em legítima defesa ao
revidar, logo em seguida, as agressõ es iniciadas pela ex-companheira. No entanto,
apenas usou moderadamente dos meios necessá rios para repelir atual e injusta
agressã o física.
Em outras palavras, a ofendida deu causa para que o acusado revidasse as
suas agressões, de modo que agiu em legítima defesa. É ilusã o acreditar que,
em momentos dessa natureza, as pessoas envolvidas permanecem plá cidas.
Requer julgar procedente o pedido de absolviçã o sumá ria, por exclusã o de
ilicitude do fato que lhe foi imputado, haja vista que agiu em legítima defesa (CP,
arts. 23 e 25 c/c art. 397, inciso I, do CPP).
4. MÉ RITO
Se ultrapassadas as Preliminares antes elencadas, o que espera nã o ocorrer, e
pelos princípios da eventualidade e da impugnação específica, que devem nortear a
RESPOSTA À ACUSAÇÃ O, cumpre deduzir as seguintes defesas de mérito.
A pretensã o punitiva nã o deve ser provida nos moldes em que foi proposta na
DENÚ NCIA pelo representante do Ministério Pú blico, haja vista faltar amparo legal
para condenar o acusado pelo suposto crime que lhe foi imputado. Como será
demonstrado adiante de forma iniludível.
1. Desclassificação da imputação penal para lesão corporal privilegiada, com a
substituição da pena de detenção pela de multa (CP, art. 129, §§ 4º, parte final, e 5º)
Caso restar provado nos autos que o denunciado nã o agiu em legítima defesa e
Vossa Excelência decidir que nã o deve ser absolvido por tal exclusã o de ilicitude, é
necessá rio, ainda, perscrutar sobre a possibilidade de desclassificar a incriminaçã o
para o tipo penal previsto no CP, art. 129, § 4º (lesã o corporal privilegiada) e ainda
com a substituiçã o da pena, principalmente porque o laudo médico indica que as
lesõ es corporais foram leves.
Pelo que já foi argumentado, nã o parece crível que o denunciado agrediu-a por
maldade e gratuitamente. Tudo está indicando que a ofendida provocou-o, injusta
e intensamente, de modo a perturbar o seu estado emocional. Assim, ó bvio que
corroborou para a ocorrência do fato.
A toda evidência, o acusado agiu sob o domínio de violenta emoçã o, logo em
seguida as injustas provocaçõ es perpetradas pela Sra. _____.
Sobre o tema, é interessante o julgado abaixo[4]:
“Tratando-se de homicídio, de lesã o ou lesã o seguida de morte, a causa especial de
diminuiçã o da pena atua se o crime é cometido logo em seguida à injusta
provocaçã o (emoçã o-choque) e quando a violência da emoçã o domina o agente. Já
a atenuante genérica do art. 65, III, c, do CP nã o exige a emoçã o-choque, mas
apenas a emoçã o-estado, aludindo à influência da violenta emoçã o” (TJSP, AC, Rel.
Dante Busana, RT, 625:268).
Na hipó tese de ser condenado, requer a desclassificaçã o do fato incriminador para
o tipo penal previsto no dispositivo supramencionado e com substituiçã o da pena
de detençã o pela de multa ou restritiva de direitos, ou a cumulaçã o das duas
ú ltimas.
2. Circunstâncias Judiciais Atenuantes
Se negado o pedido de desclassificaçã o do crime, requer considerar na aplicaçã o
da pena cominada as circunstâ ncias judiciais elencadas no art. 59 do CP, fixando-a
no mínimo legal.
Isso porque a culpabilidade do denunciado deve ser amenizada, porquanto de
menor intensidade o seu dolo/culpa. Além disso, nã o tem antecedentes criminais,
possui emprego e domicílio fixo, bem como nã o é pessoa de má índole. Além das
lesõ es corporais terem sido leves, conforme atestado pelo médico no laudo
anexado aos autos.
3. Circunstâncias Legais Atenuantes
Adicionalmente, requer a incidência da circunstâ ncia legal atenuante especificada
no CP, art. 65, inciso III, c, parte final, bem como da alínea “e”, se for o caso de
confissã o espontâ nea em juízo da autoria do crime.
Sobre a circunstâ ncia legal atenuante prevista na aludida alínea “c”, é fundamental
a transcriçã o do julgado[5] abaixo:
“Lesã o corporal. Legítima defesa. Extinçã o da punibilidade. Quem aceita
provocaçã o, ainda que injusta, nã o age em legítima defesa, pois aquela nã o exige
reaçã o mediante desforço físico. No entanto, isso nã o afasta o reconhecimento do
privilégio da violenta emoçã o, se injusta a provocaçã o da vítima” (TJRS, AC
69000731331, Rel. Danubio Edon Franco, j. 17-6-1997).
5. REQUERIMENTOS E PEDIDOS
Ante o exposto, requer a Vossa Excelência:
a) seja recebida a presente RESPOSTA À ACUSAÇÃ O e deferida para que tenha
processamento regular de acordo com as normas legais;
b) como preliminares, julgar procedentes os pedidos formulados nesta petiçã o com
a consequente absolviçã o, conforme fundamentado no tó pico “3”;
c) caso indeferidos os pedidos das preliminares, requer a desclassificaçã o da
infraçã o penal para lesão corporal privilegiada como fundamentado no tó pico
“4.1”; ou, se isso lhe for denegado, sejam aplicadas as circunstâ ncias atenuantes
judiciais e legais, conforme razõ es apontadas no tó pico “4.2”.
Por ú ltimo, este defensor informa que telefonou vá rias vezes para o denunciado e
ficou combinado dele vir no escritó rio para conversarem sobre o processo.
Também avisou que era para providenciar os nomes e qualificaçõ es de suas
testemunhas. Tendo em vista que nã o foi possível o encontro porque ele nã o
compareceu, expediu-lhe mensagem pelo celular para que viesse até o fó rum desta
Comarca, no dia _____ à s ____horas.
Consequentemente, requer-se, excepcionalmente, que nã o seja negada ao
denunciado as oitivas de suas testemunhas, ainda que sejam conhecidas somente
no dia da audiência de instruçã o e julgamento.
Nesses termos, pede deferimento.
Local e data_____________
Nome do advogado ___________
OAB/___ nº _____

[1] RT 637/267; RTJ 99/101, 130/541. Obs: Extraído da obra doutriná ria citada.
[2] JUTACRIM 72/282. Obs.: Extraído da obra mencionada.
[3] JUTACRIM 38/210. Obs. idem
[4] BITENCOURT, Cezar Roberto. Código Penal comentado. 4. ed. atual. Sã o
Paulo: Saraiva, 2007. p. 468.
[5] BITENCOURT, Cezar Roberto. Código Penal comentado. 4. ed. atual. Sã o
Paulo: Saraiva, 2007. p. 466.