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Walmir Monteiro (Org)

Bruna Spada
Vanessa Brum
Ariadne Portugal
Michele Nazário
Diana Vasconcellos
Lílian Guedes
Rafael Nunes
Juliana Gatti
Karina Conrado
Marianna Ferreira,
Bruno Pereira

PSICOLOGIA TEMÁTICA
1ª edição

Vassouras,RJ

Universidade Severino Sombra


2012
-2-

Supervisores de texto:
Claudio Ramos Peixoto (Capítulos VII e XI)
Fátima Rocha Niemeyer (Capítulo IX)
Fernanda Cabral Samico (Capítulos V e VI)
Flavia Mendes de Oliveira (Capítulo X)
Joyce de Paula e Silva (Capítulos I, II e IV)
Juliana Fernandes de Souza (Capítulo VIII)
Walmir dos Santos Monteiro (Capítulo III)

Apresentação:
Juliana Fernandes de Souza
-3-

APRESENTAÇÃO

O Curso de Psicologia da Universidade Severino


Sombra compõe a área das Ciências Humanas desta
Universidade e em julho deste ano comemora 10 anos de
existência. A ideia da elaboração deste livro partiu do Prof.
Walmir Monteiro, fruto da sua satisfação e encantamento em
relação aos resultados de vários Trabalhos de Conclusão de
Curso apresentados pela turma X do Curso de Graduação em
Psicologia, em novembro de 2011. O Trabalho de Conclusão
de Curso é uma demonstração dos conhecimentos adquiridos
durante todo o período de formação, e tem por finalidade
despertar a atenção e o interesse pela pesquisa
técnico/científica, baseado nos conhecimentos teóricos e
práticos. O livro é uma coletânea de alguns desses trabalhos e
os capítulos trazem a riqueza de diversas áreas do saber
psicológico. No primeiro, “Morte biológica e Morte
Simbólica: um olhar psicanalítico frente à significação do não
mais existir” Bruna Marçal Spada faz um longo percurso
histórico para apresentar significados sociais e culturais da
morte, recorrendo à Freud para rediscutir a visão de que o
homem vive constante conflito entre Eros e Tanatos, pulsões
de vida e de morte. No segundo capítulo, “A agressividade em
Winnicott”, Vanessa de Souza Brum apresenta o olhar de
Donald Winnicott sobre a agressividade, como essencial à
estruturação da personalidade da criança.
“O corpo próprio em Merleau-Ponty como nova
compreensão do ser humano: uma crítica ao dualismo
cartesiano” é o capítulo em que Ariadne Prado Goulart faz
uma profunda análise da fenomenologia de Merleau-Ponty,
comparando-a com o dualismo cartesiano e apontando
-4-

relevantes aplicações da fenomenologia-existencial à


psicologia.
Em seguida Michele Aparecida Brandão Nazário
Carvalheira, faz um completo e rico estudo das características
da adolescência na pós-modernidade.
No quinto capítulo intitulado “As funções do sintoma
na Neurose” Diana de Mello Vasconcellos escreve de forma
bem didática sobre psicodinâmica, com atenção especial ao
papel do sintoma segundo a psicanálise.
No sexto capítulo “A relação entre a mulher e sua mãe:
implicações na escolha da filha por uma modalidade de
parceria amorosa”, Lílian de Souza Guedes, discute as
vivências diferenciais do complexo de Édipo para meninas e
meninos, tratando com profundidade a questão da relação
entre a mulher e sua mãe. No capítulo seguinte, Rafael de
Souza Nunes, por meio de uma visão crítica do Biopoder,
discute a medicalização da família e da escola.
No oitavo capítulo, “O paciente oncológico e a
realidade da morte: um estudo psicológico” Juliana Gatti
apresenta com rara sensibilidade, apropriadas reflexões sobre
o paciente oncológico e a realidade da morte, ressaltando a
importância do acompanhamento psicológico para pacientes
de câncer em fase terminal.
Em seguida, Karina Conrado de Souza Pinto aborda
com muita clareza a fundamental atuação do psicólogo junto
ao paciente diabético, enfocando psicossomática e
medicalização.
No capítulo seguinte, Marianna Pereira de Souza
Ferreira escreve acerca do papel dos cuidadores familiares de
idosos portadores da doença de Alzheimer e os impactos desta
tarefa sobre a saúde e a qualidade de vida destes indivíduos.
Encerrando o livro, Bruno de Souza Pereira apresenta uma
-5-

pesquisa bíblica e histórica acerca das relações entre Igreja e


Sociedade.
Por fim, cabe agradecer ao Prof. Walmir Monteiro pelo
convite para produzir esta apresentação e pelo empenho na
organização deste livro, além de parabenizar aos alunos-
autores dos trabalhos, agora colegas de profissão, e seus
respectivos orientadores pelos excelentes resultados.

Profa. Juliana Fernandes de Souza


Coordenadora do Curso de Psicologia
-6-

ÍNDICE
I. Morte biológica e Morte simbólica: Um olhar
psicanalítico frente à significação do não mais Existir
Bruna Marçal Spada, 8

II. A agressividade em Winnicott


Vanessa de Souza Brum, 41

III. O corpo próprio em Merleau-Ponty como nova


compreensão do ser humano: uma crítica ao dualismo
cartesiano.
Ariadne Goulart Portugal, 68

IV. A Adolescência na Pós-Modernidade: Um Olhar


Psicanalítico.
Michele Nazário, 96

V. As Funções do Sintoma na Neurose


Diana de Mello Vasconcellos, 124

VI. A relação entre a mulher e sua mãe: implicações


na escolha da filha por uma modalidade de parceria
amorosa.
Lílian de Souza Guedes, 149

VII. A medicalização da família e da escola pela ótica


do biopoder.
Rafael de Souza Nunes, 184

VIII. O paciente oncológico e a realidade da morte:


um estudo psicológico.
Juliana Gatti, 210
-7-

IX. A medicalização e os transtormos psicossomáticos


no diabetes: O papel do psicólogo
Karina Conrado de Souza Pinto, 238

X. O Portador da Doença de Alzheimer e seu cuidador


Familiar: Impactos e Consequências
Marianna Pereira de Souza Ferreira, 262

XI. Igreja e cultura


Bruno Pereira, 293
-8-

I - Morte Biológica e Morte Simbólica:


Um olhar psicanalítico frente à significação
do não mais Existir

Bruna Marçal Spada

Direcionados pela instantaneidade e velocidade, nos


encontramos diante de um declínio em relação aos ritos de
passagem. Exige-se do sujeito pós-moderno uma elaboração
mais rápida e dinâmica, o que contribui para a diminuição da
ritualização pós-morte. Demanda-se frente ao processo de
elaboração a mesma rapidez presente no mercado capitalista,
fazendo com que o tempo interno seja burlado e
desconsiderado.

A morte nas civilizações primitivas era permeada


por sentimentos de fascinação e pavor, com todo um aspecto
místico em torno do morrer que atraía os seres, mas também
os assustava. Cada época possui sua peculiaridade no
enfrentamento desta realidade com dinâmicas manifestações
históricas, como ocorria na Idade Média, em que os homens
habitualmente se aproximavam da temática do morrer,
incluindo sua própria morte, sempre resignados e
participativos. Rodrigues (2006) nos esclarece que “a partir do
século XV, até o início do século XVII, o indivíduo tinha
praticamente uma relação pessoal com a morte: resolvia suas
coisas, redigia seu testamento e frequentemente escrevia seu
próprio epitáfio. Essencialmente, o indivíduo via na morte um
momento excepcional, em que sua individualidade recebia
forma definitiva: ele não se sentia senhor de sua vida senão na
medida em que se sentisse senhor de sua morte.
-9-

Ariès (1977) nomeia a morte, neste momento da


história, de “Morte Domada”, pois o homem demonstrava
certa familiaridade com o morrer, eram valorizados os rituais
de despedida e de pós-morte, sendo mais temida a morte que
se dava repentinamente, pois impossibilitava o arrependimento
e o manejo das circunstâncias, como propõe Rodrigues (2006)
dizendo que “os funerais eram, durante toda a primeira Idade
Média, dominados pela expressão ritual de dor e de elogio do
defunto, bem como pelo cortejo fúnebre até à sepultura. Tais
ritos eram eminentemente civis. A participação religiosa era
importante, mas não possuía ainda o caráter dominante que
teria a partir do século XVII.
Na Idade Média havia certo predomínio da
religiosidade, a verdade estava vinculada ao sagrado, e a Igreja
exercia uma função reguladora do comportamento humano. O
temor da morte e principalmente da condenação eterna,
funcionavam como métodos de controle social. E sobre a
literatura medieval, Cotrim (1989), relata que existia uma
exaltação da figura do cavaleiro medieval, que deveria ser
obediente ao seu senhor. Lutar pelos menos favorecidos e
ainda quando possível, combater os hereges. Nas poesias
épicas, eram retratadas as grandes aventuras e torneios em prol
da defesa e expansão da cristandade e nas poesias líricas o
amor espiritualizado era o principal tema explorado. E um dos
maiores destaques desta época é Dante Alighieri, com sua
obra “Divina Comédia”, que retrata uma viagem simbólica
através do inferno, purgatório e paraíso. Assim como o
período Medieval descrito acima, a Idade Moderna e a
Contemporaneidade serão definidas a partir da perspectiva de
dois autores específicos, Gilberto Cotrim que trabalha esta
temática em seu livro: “História Geral: para uma geração
- 10 -

consciente da Antiguidade aos tempos atuais” e Maria Luiza


Abaurre em: “Português: língua e literatura”.
A Idade Moderna é conhecida como o período das
transformações, pois no plano econômico surge o sistema
capitalista, enquanto no religioso tem-se a reforma protestante
e culturalmente, a sociedade vive um período de
Renascimento. Tal como a época, o ideal de morte sofre
algumas oscilações, pois agora o caráter solitário da morte traz
consigo sentimentos de dor e pesar. “Com esta imagem
moderna de morte, com o desaparecimento das concepções
medievais, com os jogos obsessivos da época barroca, mas,
sobretudo com o protestantismo, a consciência da morte
progressivamente se individualiza diante de Deus, perde suas
colorações coletivas e festivas, dando nascimento à angústia
individual diante da morte. Dessa angústia surgirá o imenso
empreendimento moderno de exorcizar a morte: a idéia de
acumulação e de produção material, a santificação através do
investimento, do trabalho e do lucro, que se chama
comumente, com Max Weber, o “espírito do capitalismo”.1
No Renascimento, o homem passou a ser o centro
do universo e o pensamento racional individualista era o que
vigorava. Na arte e na literatura, procurava-se expressar o
poder humano, bem como seus talentos e grandes feitos. Um
dos maiores gênios desta época foi Leonardo da Vinci, que
contribuiu com grandes obras para os diversos campos do
saber. E diante da expansão do protestantismo, a Igreja
Católica visando obter novamente o poder que exercia no
período medieval mobiliza a Contra Reforma que inaugura um
novo estilo de se pensar e fazer arte. Surge, então, o Barroco
com seus excessos e teor religioso, onde a morte aparece
principalmente vinculada à fugacidade do tempo e a
1
Rodrigues (2006, p.125)
- 11 -

transitoriedade da vida. Um dos grandes poetas de destaque


da época é Gregório de Matos, que em suas obras sacras,
trabalhou como principais temas: a fragilidade humana diante
da mutabilidade e transitoriedade da vida.2
Na Idade Contemporânea, período que
compreende as duas Grandes Guerras e que pode ser estendido
até os dias atuais, a morte passou a ser temida, repudiada e
adiada a qualquer custo. O medo e sofrimento perante a morte,
que começaram a vigorar no início da Era Moderna devido à
angústia da solidão frente à finitude, na contemporaneidade
acentua-se. “A regra em nossa sociedade é a neutralização dos
ritos funerários e a ocultação de tudo que diga respeito à
morte. Veremos que os dois fenômenos estão associados
estreitamente: porque nossa civilização nega a morte, não
pode suportar sua ritualização; e, inversamente, por não
possuir os necessários instrumentos rituais para enfrentá-la, a
civilização ocidental moderna é obrigada a banir a morte e a
negá-la por todos os meios”.3
A literatura na Idade Contemporânea apresenta
momentos variados. Tem-se o Arcadismo pautado na
exaltação da natureza e a valorização do presente, “Carpe
Diem” onde frente à possível ameaça da morte caberia ao
homem aproveitar ao máximo seu dia. O Romantismo com
seu caráter pessimista e de exagero sentimental, onde a morte
por muitas vezes era evocada como única saída frente à dor do
amor. O Parnasianismo que buscava a perfeição, o rigor
formal opondo-se ao sentimentalismo do romantismo de forma
a alienar-se na arte, não abordando os problemas e questões
sociais. E por fim o Modernismo e o Pós-modernismo que
veiculam em suas obras as mazelas humanas, denunciando as

2
Cotrim (1989)
3
Rodrigues (2006, p.165)
- 12 -

injustiças sociais. Novamente a morte se faz presente em cada


uma das denúncias e protestos a favor de melhores condições
de vida. Dentre os diversos autores de destaque desta época,
podemos citar: Gonçalves Dias, José de Alencar, Manuel
Bandeira e Clarice Lispector.4
De acordo com Abaurre (2000), Manuel Bandeira,
em seu poema, “Momento num café”, retrata de forma
magnífica a relação íntima que se estabelece entre a morte e a
vida:

Quando o enterro passou


Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado


Olhando a esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem
finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

(Estrela da Manhã).

Inferimos que o medo funciona como defesa e


proteção a eventos que representam perigo, logo, o medo da
morte é essencial à vida. Este medo instintual, que tem como
4
Abaurre, 2000
- 13 -

objetivo a preservação da integridade está presente em toda a


espécie humana. Contudo, existe um medo da morte que é
culturalmente aprendido, visto que em algumas culturas,
principalmente no Oriente, a morte não necessariamente é
evitada e temida, mas pode estar carregada de sentimentos
positivos e ser até mesmo festejada. Na cultura Ocidental
capitalista, a morte é contornada por valores e atributos
específicos. Como propõe D’Assumpção (2010), a juventude
bem como o progresso, o pragmatismo e o consumismo são
fatores de significativa influência na concepção pós-moderna
de morte. O jovem, nesta cultura, está vinculado à noção de
vitalidade, força e dinamismo, enquanto o idoso encontra-se
mais próximo da improdutividade e morte. O valor essencial,
neste contexto, é o progresso que está pautado na velocidade
e agilidade, ideais que se contrapõem à morte, visto que esta
significa uma parada no curso da existência. Tudo no
capitalismo deve ter um fundamento prático, deve ser
funcional para manifestar algum valor ou importância, e a
morte foge a esta concepção. Um dos maiores problemas na
civilização ocidental, e talvez o que mais contribua para o
pavor diante da morte, é o sentimento de apego que muito se
aproxima da posse. De que adianta o ser humano trabalhar
arduamente para conquistar algo e até pessoas, se a morte os
toma sem pedir permissão. O sentimento de impotência faz
com que a morte seja detestada e considerada uma inimiga
em potencial.
O sistema do capital, que visa o lucro e os
benefícios, aproxima o homem do acúmulo e conquista, e
este se torna pobre em recursos psíquicos para enfrentar
perdas e infortúnios. Atualmente, quase tudo pode ser
comprado e controlado, porém a morte se impõe a todas as
tentativas de barganha, despertando nos mortais, indignação
- 14 -

e revolta. De acordo com D’Assumpção (2010), há no


Ocidente uma educação para a negação da morte. Esta
temática é pouco explorada nas escolas e famílias, até mesmo
no universo acadêmico, nos cursos de saúde, a morte é
desconsiderada sendo apenas mencionada como a inimiga
que deve ser combatida. Os meios de comunicação também
são utilizados de maneira a disseminar esta postura de
negação frente ao morrer. São transmitidos diariamente
imagens e informações sobre mortes, acidentes, assassinatos,
desastres, suicídios, de forma que tal assunto torna-se banal e
corriqueiro, não despertando no sujeito a capacidade de
reflexão e crítica.
Através da cultura, enxergamos a legitimação de
determinadas práticas, posturas, costumes e crenças sociais,
que acabam sendo reproduzidas de geração em geração. O
homem é considerado, além de seus aspectos biológicos e
psíquicos, como um ser social que vive em contato com uma
cultura que produz conhecimento e subjetividade. A respeito
da temática da morte não é diferente, cada sociedade e
cultura possuem padrões específicos de comportamento
perante o morrer. Pode-se dizer então, que não existe uma
única cultura, e sim uma pluralidade cultural que permeia a
vida e a morte. O luto, como processo de adaptação e
elaboração diante de uma perda, é constituído das mais
variadas expressões comportamentais, envolvendo
sentimentos e emoções diversas.
De acordo com D’Assumpção (2010) os ritos
mortuários são exclusivos da espécie humana, e estão
presente não somente diante da morte biológica, mas também
frente à impossibilidade de cura, que traz consigo a certeza
de finitude. O velório não pertence ao morto e sim aos
sobreviventes, que encaram este momento, como a
- 15 -

possibilidade da despedida e manifestação emocional. E não


importa o quão forte seja uma pessoa, ou quão temido um
homem. Ainda os mais sábios e cultos seres humanos, não
conseguiram elaborar estratégias funcionais para o
extermínio da morte. Nem mesmo os corajosos e valentes
guerreiros conseguiram a vitória sobre esta terrível inimiga.
“A morte, pois, permanece soberana,
imprimindo à espécie humana seu poder e terror. A morte é
um fato biológico, mas, além disso, tem aspectos sociais,
culturais, históricos, religiosos, legais, psicológicos, de
desenvolvimento, médicos e éticos, e, muitas vezes, eles
estão intimamente relacionados”.5 Por isso, quando morre
um indivíduo, continuam existindo lembranças, laços
afetivos e sentimentos que precisam ser trabalhados. Isto não
acontece de maneira instantânea, visto que tal adaptação é
vivida de modo particular. E apesar de a morte e o luto serem
experiências universais, possuem contextos socioculturais
específicos. Determinadas posturas frente à morte, tidas
como naturais em um dado lugar, podem gerar estranheza,
rejeição e conflito em outro.
Os ritos mortuários são considerados uma
espécie de “rito de passagem”, ou seja, uma comemoração em
função da transformação, que pode ser de ordem pessoal e/ou
coletiva. No caso da morte, a celebração da “passagem”
viabiliza o desligamento em relação ao moribundo,
eliminando qualquer elo deste com o mundo dos vivos. No
Senegal praticava-se a quebra dos ossos da perna do morto ou
ainda o vazamento dos olhos como certificação de uma
impossibilidade de retorno. Os ritos representam também, a
possibilidade de resgate simbólico da comunhão e relação

5
Papalia, Olds e Feldman (2006)
- 16 -

amistosa para com o defunto, as desavenças são superadas em


nome de uma paz eterna.6
Na atualidade, a sociedade ocidental capitalista
direcionada pela instantaneidade e velocidade, encontra-se
diante de um declínio em relação aos ritos de passagem.
Exige-se do sujeito pós-moderno uma elaboração mais rápida
e dinâmica, o que contribui para a diminuição da ritualização
pós-morte. O tempo tornou-se sinônimo de lucro e dinheiro,
portanto, não deve ser “desperdiçado”. Exige-se do sujeito
frente ao processo de elaboração a mesma rapidez presente no
competitivo mercado capitalista, fazendo com que este não
considere seu tempo interno, que acaba sendo burlado e
desconsiderado. A reflexão e a crítica em relação aos
acontecimentos na pós-modernidade são cada vez menores, o
sujeito torna-se desconhecedor de seu próprio sofrimento,
seguindo o curso da vida sem maiores implicações com suas
questões.
Sobre a colocação anterior Bauman (2001) propõe
que: “O tempo instantâneo e sem substância do mundo do
software é também um tempo sem consequências.
“Instantaneidade” significa realização imediata, “no ato” –
mas também exaustão e desaparecimento do interesse. A
distância em tempo que separa o começo do fim está
diminuindo ou mesmo desaparecendo; as duas noções, que
outrora eram usadas para marcar a passagem do tempo, e,
portanto para calcular seu “valor perdido”, perderam muito de
seu significado – que, como todos os significados, derivava de
sua rígida oposição”. E a reação subjetiva frente a uma perda,
sofre interferência direta e indireta de diversos fatores, como:
época, cultura, localidade, religiosidade, situação econômica e
social.
6
D’ Assumpção, 2010
- 17 -

Na atualidade, onde o avanço tecnológico e


digitalização são marcas fundamentais, novos
comportamentos e posicionamentos em relação à morte
acabam por surgir. Podemos citar como exemplo, o luto
virtual, que corresponde a um novo estilo de elaboração da
contemporaneidade, onde a presença física não é mais
considerada uma condição imprescindível para a ritualização e
demonstração de pesar. As redes sociais tornaram-se palco de
homenagens e protestos em prol daqueles que morreram ou
foram vítimas de algum tipo de violência, a dor é
compartilhada e a expressão de solidariedade é por muitas
vezes expressa nas páginas dos perfis. Recados são
direcionados àqueles que faleceram e fotos de momentos
vividos com a pessoa morta são compartilhados por
internautas que mantinham certo contato com aquele que
agora se encontra ausente, assim no mundo on-line um espaço
de manifestação afetiva e trabalho em relação à perda vai
sendo instaurado.
Sobre a morte no contexto virtual, pode-se pensar
inclusive, sobre a possibilidade de participação de funerais via
web. Aqueles, por exemplo, que se encontram distantes e,
portanto impossibilitados de comparecer a certa cerimônia
fúnebre, o faz pela internet quase que em tempo real.7 Se as
novas formas virtuais de luto são consideradas ideais,
benéficas ou maléficas, somente cada sujeito com sua
experiência poderá assim decidir. O fato é que a vida e os
relacionamentos na era digital tornam-se cada vez mais
superficiais, e com isso a morte pode ser experimentada com
maior solidão, visto que os companheiros e entes queridos não

7
Gurgel et al, 2011
- 18 -

necessariamente precisam estar presentes pessoalmente para


demonstrar seus sentimentos.
O luto refere-se ao processo de adaptação diante
de uma perda, onde o sujeito deve remanejar sua realidade em
função de uma falta. A forma como cada nação, cultura,
religião e sujeito vivenciam o luto, bem como seus rituais e
período de duração, são variados. “Na Austrália, os Walaroi
enterram as mulheres logo após o falecimento, enquanto os
homens só são enterrados depois de as carnes terem
apodrecido, quando restam apenas ossos.” (Rodrigues, 2006).
Outro exemplo de manifestação cultural perante a morte
corresponde a banquetes oferecidos aos mortos, pelos vivos,
que compartilham seus alimentos e por muitas vezes preparam
refeições unicamente para este fim, como citado em Rodrigues
(2006). A diversidade comportamental presente nos rituais
funerários, bem como a variedade de crenças em torno da
morte, fazem com que esta etapa apresente-se de maneira
desconhecida e misteriosa. Não há como definir quais reações
estarão presentes diante da possível interrupção da vida. Cada
cultura irá posicionar-se de maneira específica frente à morte,
e pensando mais além, cada sujeito emitirá seus próprios
significados sobre tal assunto. Como já fora abordado neste
capítulo, a morte assumiu diversas significações durante os
variados tempos históricos e o enfrentamento desta etapa
continuará por toda a existência humana, despertando os mais
variados sentimentos.
Freud, em sua teoria, propôs que o homem vive em
constante estado de excitação e conflito entre Eros e Tanatos,
pulsões de vida e de morte. As primeiras estão vinculadas ao
potencial de desenvolvimento, crescimento, integração e
manutenção da vida, enquanto as segundas inclinam-se à
desintegração, à finitude, ou seja, ao estado inorgânico da
- 19 -

morte. Para a manutenção da vida, ao contrário do que muitos


imaginam, são necessárias as duas pulsões que estão fundidas
num processo dialético.8 De acordo com Freud (1996), o
homem está inclinado à agressão, sendo esta, uma disposição
instintiva de morte que traz vastos empecilhos ao processo
civilizatório. Libido foi o nome dado às pulsões de Eros, ou
seja, às pulsões de vida, a fim de diferenciá-las de Tanatos,
pulsões de morte.
A morte, através de representações, está imersa em
cada uma das etapas do desenvolvimento humano, desde a
tenra infância até a velhice, portanto, ainda que a humanidade
tente desvincular a vida da morte, tais fenômenos são
indissociáveis. No passado o pensamento que vigorava e ainda
se faz presente em alguns contextos, é o de que no recém
nascido as pulsões de vida seriam predominantes. Contudo, no
início da vida o que se pode observar é uma luta sendo travada
contra a pulsão de morte. O lactante, tendo que lutar contra as
ameaças e os perigos para sobreviver, sente-se desamparado e,
portanto necessita do investimento dos pais para manter-se
vivo. 9 E frente ao nascimento, a criança porta poucos
recursos para lançar mão em prol de sua sobrevivência.
Quando o cuidador não comparece, a morte se impõe. A
função materna surge de maneira a impedir a descarga total do
organismo. A criança que não foi um hóspede bem vindo na
família, tende à morte.
Por outro lado, com relação ao investimento materno,
este se vincula à falta estrutural do sujeito, que como ser
incompleto busca recorrente preenchimento, seja através do
filho ou outros objetos, tendendo também à morte (condição
de homeostase). A mulher enquanto sujeito castrado e
8
Kovács, 2010
9
Ferenczi, 1929, p. 50
- 20 -

incompleto, busca no filho o preenchimento de sua falta


estrutural, logo, este passa a ocupar o lugar de objeto perdido
(objeto fálico) capaz de tamponar o furo da existência. A
aposta da mãe de completude através do filho é o que viabiliza
o investimento materno, este investimento contribui para o
desenvolvimento dos sentimentos de amor e acolhimento por
parte da criança e ainda para a sua luta frente às pulsões de
morte. Não há um dispositivo natural nas mulheres que as
façam ser boas mães, a maternidade está situada no campo do
desejo.
Neste contexto de idealização e investimento,
surge a metáfora paterna que instaura novamente a falta à mãe.
“O papel a ser exercido por esse pai é interditar a
mãe. Essa função de proibição situa o pai no registro real, o
que faz com que ele seja apreendido pela criança, ao nível
imaginário, como uma figura terrível e tirânica. É nesse
sentido que se deve compreender o pai real como agente da
castração”.10
Durante o curso de seu desenvolvimento, a criança
percebe-se como um ser distinto de sua mãe, e experimenta
sentimentos de solidão e desamparo. Através desta experiência
de ausência materna, vive uma ansiedade de separação similar
à que é experimentada por qualquer sujeito perante a morte, ao
desligar-se do mundo dos vivos.11 Atualmente ainda acredita-
se que criança desconhece a morte, e por tal motivo deve ser
poupada a qualquer custo deste assunto. Contudo, como já
citado acima, a morte está presente desde os primórdios da
existência humana, logo se pode inferir que todas as crianças
em algum momento já se encontraram com a morte de alguma

10
Jorge e Ferreira, 2011
11
Kovács, 2010
- 21 -

forma, seja através da perda de um animal de estimação ou


mesmo através de filmes e desenhos animados que transmitam
tais informações. Para as crianças um dos principais
mecanismos de defesa é a crença de que a morte só alcança os
outros, com isso, assumem o lugar de super-heróis capazes de
derrotar a maior das vilãs.
Assim como a criança, o adolescente não imagina
a própria morte como uma possibilidade real apesar de estar
diante de situações concretas de morte a todo o momento,
como: a perda de amigos em acidentes automobilísticos ou de
outra natureza, overdose, doenças, etc. Partindo da idéia de
que a morte pode ser considerada, não somente em seus
aspectos biológicos e concretos, entendemos o quanto se torna
extenso seu campo de atuação e significação. Na adolescência
a experiência com a morte está vinculada à noção de desafio.
O adolescente valoriza o risco e a adrenalina, características
da pulsão de morte, e sente-se estimulado a romper limites e
experimentar novos prazeres em busca de sua identidade que
está sendo construída.12
Ainda na adolescência podemos citar como
mais uma das representações de morte, o processo de “luto do
corpo infantil”, principalmente vivenciado em meio à
puberdade, onde o sujeito adolescente frente ao novo corpo
que se apresenta mais maduro e desenvolvido vê-se obrigado a
abandonar as características infantis que até então o definia. O
processo de adaptação ao novo corpo acontece de forma
particular e gradativa. Na fase adulta, o homem encontra-se
mais calmo e sereno, se comparado à sua antiga conduta de
adolescente, é um período de reflexão e balanço de vida, onde
a morte passa a ser considerada como um fenômeno que não
só pode atingir o outro, mas a qualquer um e a qualquer
12
Opus cit.
- 22 -

momento. Contudo, o ser humano vive na busca pela eterna


juventude. De acordo com Kovács (2010) o que buscamos não
é a vida eterna e sim a juventude eterna com seus prazeres,
força, beleza e não a velhice eterna com suas perdas, feiúra e
dores. E quem nunca ouviu a célebre frase do conto de fadas
da branca de neve: “Espelho, espelho meu! Há no mundo
alguém mais bela do que eu?”. O ideal de beleza e juventude é
passado de geração em geração, o belo atrai e seduz, enquanto
que as rugas e o envelhecimento imprimem no corpo a marca
do limite humano.
Quanto à velhice, é a fase do desenvolvimento
humano que apresenta maiores estigmas e atributos negativos,
devido ao elevado número de perdas que se fazem presentes,
como: diminuição da juventude, produtividade, condições
financeiras, dentre outras, e por isso, segundo Kovács, está tão
vinculada à morte. Efetivamente, o fato é que a morte circunda
o ser humano. Para cada experiência de vida há um dado de
morte presente, ainda que de forma indireta ou inconsciente. O
ser humano é o único animal que tem consciência de que irá
morrer em algum dia, e por isso, busca constantemente afastar
tais pensamentos de sua mente, recalcando-os ao plano
inconsciente. Logo, a negação inconsciente da morte, como
mecanismo de defesa, possibilita ao sujeito não abordar de
forma direta o assunto tão temido.
Como propõe Freud, o homem não consegue
imaginar sua própria morte, e ainda quando consegue
aproximar seus pensamentos desta, o faz mantendo uma
distância considerável como espectador. De acordo com a
psicanálise, todo sujeito acredita inconscientemente em sua
imortalidade, ainda que esbarre conscientemente com a morte
em alguns momentos de sua vida. (Freud, 1996) E ainda que
banida da consciência humana, a morte está mais próxima do
- 23 -

sujeito do que este supõe. O fim da vida em termos biológicos,


o homem enfrenta uma única vez, não obstante, a morte
simbólica, ou seja, todas as perdas e lutos que o sujeito
coleciona e elabora durante toda a sua existência, são
inúmeras e familiares. A morte envolve uma série de perdas,
como: perda da própria vida ou de um ente querido, dos
vínculos afetivos, das lembranças passadas, da possibilidade
de presente e ainda da perspectiva de futuro. Há um choque
entre a penosa realidade que se apresenta e os sonhos,
planejamentos e projetos que são interrompidos.
Sobre a postura do sujeito frente ao impacto da
morte, Freud (1996) considera que “o complemento a essa
atitude cultural e convencional para com a morte é
proporcionado por nosso completo colapso quando a morte
abate alguém que amamos – um progenitor ou um cônjuge,
um irmão ou irmã, um filho ou um amigo íntimo. Nossas
esperanças, nossos desejos e nossos prazeres jazem no túmulo
com esta pessoa, nada nos consola, nada preenche o vazio
deixado pelo ente querido [...] A vida empobrece, perde em
interesse, quando a mais alta aposta no jogo da vida, a própria
vida, não pode ser arriscada”.
As relações estabelecidas durante a vida são
investimentos libidinais. Em cada investimento há um
empobrecimento do ego, que retira libido de si para direcioná-
la ao objeto amado. Como é o caso da jovem apaixonada que
procura agradar ao máximo seu namorado, e, do jogador de
futebol que ocupa todo seu tempo e pensamento em função de
treinos e partidas ou ainda, da mulher que estando grávida só
investe seu dinheiro em enxovais para seu bebê que está por
vir. Aquilo que amamos e que consideramos importante em
nossa vida torna-se o principal alvo de nosso investimento. No
entanto, quando a inesperada perda objetal acontece, ou seja,
- 24 -

quando o objeto de investimento se torna ausente, há um


rompimento forçado de canalização libidinal, restando apenas
um ego empobrecido. Com isso, as perdas de uma forma geral
tornam-se dolorosas, pois neste processo há uma ferida
narcísica que se revela, onde o eu se encontra fraco e
desprovido de investimento. A perda do outro, revela uma
perda que é própria, pois se tirou tudo de si em função de um
outro que não existe mais. A ausência ou morte do objeto
desejado convoca o sujeito para o trabalho de luto, que
corresponde a um processo natural de elaboração diante da
perda, exigindo de cada sujeito tempo e mecanismos de
enfrentamento que lhe são específicos. Alguns diante de uma
perda choram e se deprimem, outros reagem com paralisia e
não aceitação, na realidade não existe uma manual ou regra de
como se posicionar frente à morte. O desconhecimento sobre a
vida e a morte, e a angústia que o “não saber” promove, é o
que nos faz ser humano.
Na ficção a morte pode ser confrontada, discutida,
pensada e até serve de inspiração para ousadas criações. Nas
telas do cinema, nas novelas, em músicas e literaturas, ou seja,
em um ambiente assistido e isento de perigos reais, a morte
pode ser considerada e explorada. Contudo, quando através da
mesma tela de ficção, a morte é anunciada por meio de
noticiários, programas que transmitem informações sobre
acontecimentos que estão mais próximos da realidade, a
comoção pública é maior, pois novamente o sujeito depara-se
com o limite do qual é constituído. Freud (1996) propõe que
no universo da ficção o sujeito pode experimentar a morte
quantas vezes forem necessárias, através da experiência do
outro. Ao identificar-se com aquele que está diante da morte
ou enlutado, enfrenta a morte mantendo a distância necessária
para sua inteireza. No domínio da ficção, encontra-se uma
- 25 -

pluralidade de vida, que contribui para um sentimento de


triunfo sobre a morte. Assim, muitas são as representações de
morte que perpassam o sujeito. Como citado por Kovács
(2010): “Uma das representações mais fortes da morte está
ligada ao seu caráter de sedução, presente nas figuras de
sereias, botos, arlequins.” Sobre a experiência do amor e o ato
sexual, são manifestações que se encontram próximas da
morte, visto que o ponto culminante no contato sexual, o
orgasmo, gera intensa ansiedade relacionada à ameaça de
dissolução egóica.13
No uso abusivo de drogas, segundo Kovács,
também podemos enxergar a representação da morte ligada à
alteração de consciência e percepção, proporcionando ao
usuário uma experiência de “barato” e viagem sem igual, tal
como a viagem da morte e há também um dado de morte
relacionado ao processo de obtenção de conhecimento e
construção de saber, pois o homem ao se deparar com uma
nova informação sai do campo da ignorância para o do saber,
e neste momento já se faz necessário um luto, relativo ao lugar
do “não saber” que fora abandonado. Então, a morte é um
fenômeno inevitável à espécie humana, não somente no que se
refere ao fim de um processo biológico, mas quanto às
representações ao longo da vida. A morte física é a última,
porém as pequenas mortes ou mortes simbólicas estão diluídas
em todo o processo vitalício do sujeito, exigindo deste
elaborações e trabalhos de luto constantes
De acordo com a psicanálise, a morte pode ser
considerada como uma das formas de o sujeito relacionar-se
com a vida. Segundo Garcia-Roza (2009), no centro do
discurso humano, existe o desejo, não o desejo enquanto
satisfação de uma necessidade, mas um desejo de ordem
13
Kovács, 2010
- 26 -

simbólica que aponta para uma falta. O “sujeito barrado” 14


da completude, através da linguagem e simbolização, acaba
por mover-se durante toda a sua vida em direção a múltiplos
objetos, em busca de uma satisfação que nunca será alcançada.
Segundo Longo (2006) O desejo que movimenta o sujeito
durante toda a sua vida está vinculado ao objeto a15, um
objeto inexistente, que repousa em alguns objetos concretos de
maneira temporária, possibilitando ao sujeito a ilusão de
satisfação e completude. De certa forma, a crença de que um
objeto pode ser capaz de preencher o vazio que constitui a
espécie humana e possibilita ao sujeito inquietar-se diante de
sua realidade levando-o a constantemente lançar-se a novos
desafios, metas e sonhos.
Na perspectiva psicanalítica, o sujeito encontra-se
vivo não apenas quando seu coração bate ou seu cérebro
funciona, ou seja, a vida não se resume a um bom andamento
orgânico, mas a uma postura desejante sustentada. O sujeito
pode encontrar-se “morto” ainda que biologicamente vivo, a
morte em questão é subjetiva e corresponde à ausência do
desejo e satisfação em viver. Diante desta realidade, o suicídio
ou a morte física, pode surgir como uma tentativa de abandono
da condição de “morte em vida”. Segundo Mello-Filho (2010)
“Você só pode encarar morrer se você viveu. A angústia de
morrer é um equivalente à angústia existencial de não ter
14
De acordo com Longo (2006, p. 62) o sujeito barrado, corresponde ao
sujeito do inconsciente, barrado pelo significante. Por isso mesmo, ele é
“barrado no baile” da completude de seu desejo, do conhecimento de toda
a verdade. O sujeito do inconsciente é incompleto e conhece a verdade
não-toda.
15
O objeto a é o objeto causa do desejo, que faz desejar. Ele é simbólico,
não existe de fato, mas representa o desejo que, às vezes, repousa em
algum objeto palpável – uma pessoa, um trabalho, uma mercadoria – que
dá ao sujeito a ilusão de ser o objeto que o tornará completo, satisfazendo
seu desejo. (LONGO, 2006, p.62)
- 27 -

vivido.” E a incapacidade de desejar, bem como o “mais


gozar” 16 excessivo, podem levar o sujeito a vivenciar uma
anulação subjetiva que caracteriza um estado de morte. O
excesso de estímulos e ofertas presente na sociedade
capitalista atual pode desencadear no sujeito contemporâneo
uma busca desenfreada pelo gozo. Nesta atual sociedade
consumista o homem está sempre buscando algo mais, seja
produto material, status, poder, dinheiro, segurança; e na
maioria dos casos, esta corrida desenfreada em prol da
conquista apresenta-se de forma patológica; Como propõe
Bauman (2001): “Não se compra apenas comida, sapatos,
automóveis ou itens de mobiliário. A busca ávida e sem fim
por novos exemplos aperfeiçoados e por receitas de vida é
também uma variedade do comprar [...]” A tentativa de
preenchimento e satisfação plena proporcionada pelas mais
variadas ofertas de consumo, traz de forma mascarada o ideal
de morte, visto que o ser só torna-se completo e isento de
inquietações quando morre. A corrida excessiva em prol do
consumo faz com que o homem deixe de ser sujeito e passe à
condição de objeto neste mundo dos excessos.
O desejo é o que movimenta o sujeito, e faz deste
um ser vivente. Contudo, o “mais- gozar” excessivo, ou seja, o
desejo compulsivo insaciável torna o sujeito escravo de um
sistema e de sua própria condição de incompletude e
mortalidade. E sobre a morte biológica e suas implicações
subjetivas, como propõe Rodrigues (2006): “Uma coisa é
encarar a morte como algo inscrito necessariamente ao destino
dos homens em geral, enquanto membros da classe dos seres
16
De acordo com Quinet (2004, p.14) o termo mais-de-gozar foi cunhado
por Lacan para nomear o objeto a no campo do gozo, o qual é estruturado
pelos discursos como laços sociais. Esse termo acentua seu caráter de
valor (derivado do termo “mais valia”, de Marx), que é valor de gozo, do
qual o sujeito está excluído sem, no entanto, deixar de ser por ele causado.
- 28 -

vivos. Outra coisa é pensar a realidade de cada morte


individual.”
De acordo com Kovács (2010): “O medo é a
resposta psicológica mais comum diante da morte. O medo de
morrer é universal e atinge a todos os seres humanos,
independente da idade, sexo, nível socioeconômico e credo
religioso”. E apesar de o medo da morte ser inerente à
condição humana, cada sujeito teme um certo aspecto desta. E
no que se refere à sua própria morte, o sujeito pode temer o
sofrimento e a dor, o desconhecido da vida após a morte e até
a extinção de sua genética. Quanto à morte daqueles que estão
à volta, ou seja, a morte do outro, o medo pode estar
relacionado à ausência e ao sentimento de separação e
abandono.
A psiquiatra Kübler Ross propôs cinco etapas de
ajustamento do sujeito frente à experiência do morrer, são
elas: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, não
necessariamente presentes nesta ordem. A negação
corresponde à recusa em aceitar a realidade que se impõe. Na
barganha estão presentes promessas e troca em prol de um
restabelecimento. A depressão é a fase onde o luto se
apresenta de forma mais evidente trazendo um sentimento de
profundo pesar e tristeza. Já a raiva está próxima da
inconformação e a aceitação corresponde à etapa de maior
tranqüilidade e acomodação. Sendo assim, por mais que se
tenham alguns tipos definidos de comportamento esperado
perante a morte, não se pode delimitar somente a estes
estágios a experiência e a emoção humana perante o luto.
Apesar do ser humano vivenciar algumas situações
de maneira coletiva, emite reações e significações altamente
particulares. A forma como cada sujeito interpreta o mundo à
sua volta depende de múltiplos fatores, que podem ser de
- 29 -

ordem subjetiva e sócio-cultural. O sujeito humano ao nascer é


inserido em um mundo repleto de conceitos previamente
estabelecidos e de natureza simbólica, que o atravessa. É a
partir da função simbólica, contato com a linguagem e cultura,
que o sujeito se constitui no mundo, construindo sua
percepção e seu discurso.
A criança, ao nascer é imersa em uma cultura e
sistema preexistentes, e por não possuir conceitos fixos, a
partir da fala dos adultos começa a construir sua cadeia
significante. Quando o cuidador começa a dar nomes ao que
antes não possuía, a criança escolhe adotar e incorporar alguns
destes significantes17 ao seu aparelho psíquico. Segundo
Garcia-Roza (1936) “é através da Linguagem que a criança
ingressa na cultura, na ordem das trocas simbólicas, rompendo
o tipo de relação dual que mantinha com a mãe. Esse
momento corresponde também à entrada do pai em cena e
conseqüentemente à formação da família: é o momento do
Édipo.
Após ter sido atravessado pela linguagem e ter se
constituído psiquicamente através do Outro, o sujeito passa a
enxergar e se relacionar com o mundo através de seus próprios
significantes. Portanto, ainda que o sujeito esteja inserido em
uma dada cultura de morte, que o permeia e o molda, adotará
seus próprios significantes a este respeito. Na relação sujeito,
significante e mundo existe uma dualidade. Uma parte dessa
relação está pautada na singularidade, visto que o sujeito

17
Para Lacan, o significante é o que Saussure chamou de signo,
englobando, pois, som e sentido. O significante lacaniano forma uma
cadeia resistente à significação; embora não se relacionem entre si, os
significantes formam uma amarração onde o sentido insiste, ainda que
nenhum dos significantes consista na significação da qual é capaz naquele
momento, pois há um deslizamento incessante do significado sob o
significante. (LONGO, 2006, p.63)
- 30 -

escolhe os significantes que incorporará ao seu psiquismo e a


outra parcela se refere ao aspecto cultural, na medida em que é
através do Outro que o inconsciente se constitui. De acordo
com Garcia-Roza (1936) “o ponto central do pensamento de J.
Lacan é o que concede ao simbólico o papel de constituinte do
sujeito humano”.
Vemos com Lévi-Strauss, que “toda cultura pode
ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos, na
primeira fila dos quais se situam a linguagem, as regras
matrimoniais, as relações econômicas, a arte, a ciência, a
religião.” E as significações atribuídas pelo sujeito à sua vida e
morte são subjetivas, logo não existe padrão fixo ou esperado
de comportamento sobre aquele que se encontra diante da
morte, portanto, qualquer reação e atitude de luto devem ser
consideradas em sua particularidade. Morrer, tal como viver é
uma experiência única e dotada de uma significação
individual.
A relação da vida com a temporalidade
proporciona a vivência de estados ambíguos, como início e
fim, nascimento e morte, e ainda, começo e término. O ser
humano desenvolve-se, ultrapassando as mais variadas etapas
do ciclo da vida e apresentando marcas em seu corpo desta
jornada da existência, seja através das rugas, doenças ou
cabelos brancos. Todo ser humano é potencialmente terminal,
e mesmo que nenhum mal o acometesse, ainda assim ele
chegaria ao fim. No entanto, legalmente falando, a morte não é
reconhecida como fenômeno natural, não se encara a morte
sem pensar em uma possível causalidade. Quem morre tem
sempre que morrer de alguma coisa, e o discurso médico se
faz presente para dar conta desta demanda.18

18
Mello-Filho, 2010
- 31 -

O novo modelo de morte, ou “morte pós-


moderna”, que muito se aproxima da noção de ausência de
doença e plena saúde, é fruto de uma construção histórica. Ao
longo do século XX, o hospital enquanto instituição passa a
ser reconhecido e responde do lugar de prestador de serviço,
em prol da saúde, e combate à doença e à morte. A partir das
duas grandes guerras, o avanço tecnológico acentuou a forma
racional e científica de se pensar a medicina e
consequentemente a doença. Neste contexto, há um aumento
da oferta de vida levantando questionamentos relativos ao
período de pré-morte.19 Ao lançar mão da tecnologia, o
homem tenta lutar contra o adoecimento e a morte, de forma
mais igualitária, o que se torna inviável em algum momento,
pois, algumas doenças e a finitude permanecerão invencíveis.
De acordo com Mello-Filho, “a medicina vive uma
época de grandes mudanças. Tornou-se um grande mercado,
no qual a eternidade é quase possível de ser comprada e a
morte é quase também uma opção. O aspecto de prevenção
tem sido superenfatizado. A doença e a saúde passaram a ser
mercadorias de consumo e a seguir leis de mercado. Mudou o
paciente que passou a ser um consumidor, um usuário e só
eventualmente, uma pessoa que sofre”.
A instantaneidade e facilidade do acesso a
informação, características do mundo globalizado e pós-
moderno, promovem certas nuances na relação que o sujeito
estabelece com o adoecimento, seja este orgânico ou psíquico.
O doente atual busca informações sobre sua própria doença
via internet, sabe identificar seus sintomas físicos e quais
medicamentos lhes são funcionais. O aumento dos benefícios
concedidos pelos planos de saúde e sua crescente propagação
no mercado, proporcionam ao sujeito uma maior proximidade
19
Menezes, 2004
- 32 -

do contexto médico. A supressão dos sintomas, e a extinção da


doença tornam-se os objetivos principais nesta nova era da
velocidade, e entender o corpo com suas manifestações são
tarefas relegadas ao segundo plano.
No que se refere a questões psíquicas, o homem
busca respostas e resultados de forma a reduzir tempo e custo,
tal como no universo capitalista competitivo. Não se respeita o
tempo interno de elaboração, pois a busca por rápidas soluções
se torna prioridade. O sujeito, ao procurar o psicólogo ou
analista, espera que este lhe transmita conselhos, ou ainda uma
receita, que sendo seguida, viabilizaria a extirpação de seus
conflitos. Com isto a relação do homem com o psiquismo, ou
seja, o trabalho psíquico se aproxima cada vez mais do campo
médico, onde a doença e os sintomas são combatidos com
medicação de forma a desaparecerem o mais rápido possível.
Um dos exemplos clássicos da medicalização desenfreada está
vinculado aos quadros depressivos. Atualmente, a pessoa que
se encontra triste ou desanimada, até mesmo por um motivo
considerado socialmente justificável, recorre por muitas vezes
à “pílula da felicidade” (a fluoxetina) ao invés de optar por um
acompanhamento psicoterápico, visto que o segundo não é tão
rápido e exige um trabalho e investimento por parte do sujeito.
Outra tentativa de controle sobre o adoecimento se dá através
do avanço tecnológico, onde máquinas cada vez mais
sofisticadas e precisas agem em prol do prolongamento e
manutenção da vida. No entanto, a tecnologia como forma de
se perpetuar a existência, utilizada de maneira desenfreada
provoca inquietação e descontentamento, gerando movimentos
sociais em prol da eutanásia.20

20
De acordo com dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o temo
eutanásia corresponde à morte sem dor nem sofrimento. Teoria que
- 33 -

No contexto médico, não somente a doença


carrega consigo uma imagem mortífera, mas o próprio
processo de hospitalização aproxima-se de tal significação,
pois desnuda o sujeito revelando seus anseios e temores, tal
como o falecido que também se encontra à mostra, sem
vontade e desejos. De acordo com Oliveira (2008), o sujeito
hospitalizado tem sua privacidade destituída. O contato com a
família torna-se restrito, sua rotina é alterada, bem como seu
estilo de vida e papéis exercidos. Não só o enfermo, como
todos os familiares próximos são obrigados a remanejar suas
atividades, em prol de uma nova condição estabelecida. O
sujeito, no contexto hospitalar, percebe-se sem as rédeas de
sua vida, pois as mesmas estão depositadas nas mãos de um
outro, seja este o médico ou Deus.
Embora a cultura médica seja permeada por ideais
de cura, a morte está sempre presente, apontando geralmente
para um fracasso da ciência médica e fragilidade humana. O
paciente que é diagnosticado como fora das possibilidades de
cura, parece experimentar uma morte antecipada, pois nada
mais pode ser feito para que seu destino seja outro. Há, em
alguns casos, um desinvestimento por parte dos próprios
profissionais que não suportam a implacável ação da morte e a
evidente condição mortífera da humanidade.21
Pensar em humanização no atendimento médico
levanta primeiramente a reflexão sobre o processo de
humanização do ensino na área da saúde. O profissional de
saúde deve receber treinamentos específicos para sua atuação

defende o direito a uma morte sem dor nem sofrimento a doentes


incuráveis.
21
Esslinger, 2004
- 34 -

profissional, mas também necessita enxergar suas limitações e


dificuldades, para aprender a lidar com a realidade de
impotência frente a algumas situações de seu cotidiano, como
a morte.
O que diferencia o profissional de saúde seja ele
médico, enfermeiro, psicólogo, das demais pessoas é sua
proximidade constante da morte. Ao lidar com o enfermo, o
profissional depara-se com a doença que na realidade
representa uma ameaça à vida, e, portanto, um indício de
morte. Há sobre os ombros do médico uma responsabilidade
enorme, visto que é este que confirma o momento e mais
precisamente à hora do óbito, bem como sua causa. (Kovács,
2010). Em sua atuação profissional, o médico esbarra com as
expectativas de melhora e possível cura de seus pacientes e
familiares, que nem sempre são supridas. Além de relacionar-
se com a dor física do outro, encontra-se perante alguém que
sofre psiquicamente por estar na condição de enfermo.
No processo de formação do profissional, na área
da saúde, pensamentos dicotômicos são repassados como
postura ideal a ser seguida. Há uma dicotomia entre órgão –
corpo, onde o paciente não é visto de forma total, mas divido
em partes. Uma dicotomia corpo-mente, onde o paciente com
suas questões geralmente são negligenciados, pois o foco do
atendimento está voltado para o corpo e ainda o órgão
específico que se encontra doente. Enfim, a dicotomia doença-
doente, em que a ênfase está no tratamento de uma doença e o
sujeito é desconsiderado, bem como suas necessidades.22 O
olhar profissional limitado, ou seja, com o foco apenas na
doença e no aspecto biológico, contribui para a propagação de
uma prática médica desumanizada, onde o paciente não é
encarado como um ser biopsicossocial.
22
Esslinger, 2004
- 35 -

A arte médica é uma prática antiga, anteriormente


exercida por feiticeiros, Xamãs23 e sacerdotes. Já a medicina
enquanto ciência é mais recente, começou a vigorar a partir do
século XIX, porém ainda sendo permeada por um teor místico.
A prática médica em seus primórdios e até há pouco tempo,
apresentava um caráter unidirecional, onde o médico portava
todo o saber e sua relação com o enfermo era distante e fria.
Na atualidade, a tendência crescente é de que o paciente
participe de maneira mais ativa em seu tratamento, o que
aproxima as figuras de médico e enfermo.
O maior contato entre profissional e doente pode
produzir efeitos positivos e negativos. A proximidade entre
paciente e profissional, ou seja, o contato mais humano é
menos distante, possibilita que o paciente sinta-se melhor
acolhido, assistido e amparado. Contudo, para o profissional
de saúde, a proximidade extrema pode evocar emoções
intensas e produzir dados contratransferenciais que impedem
seu exercício pleno. Portanto, a distância e delegação das
funções podem estar vinculadas a uma dificuldade de ordem
pessoal, e podem surgir como tentativa de manutenção da
neutralidade e controle dos sentimentos.
Como propõe Mello Filho (2010), a formação
do médico deve estar pautada em um tripé: conhecimento,
habilidade e atitude. O conhecimento está vinculado ao
conteúdo teórico aprendido e acumulado, através da formação
acadêmica, especializações e leituras. Já a habilidade
relaciona-se ao treinamento contínuo e à experiência prática,
enquanto que a atitude refere-se à disposição psíquica e

23
De acordo com dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o termo
Xamãs corresponde à: Indivíduo que se considera ter poderes especiais,
em geral mágicos, curativos ou divinatórios, especialmente em
comunidades xamanistas.
- 36 -

comportamental do profissional no desempenho de sua


profissão. Não há como pensar a formação psicológica do
profissional de saúde de forma individual. É imprescindível
considerar os relacionamentos estabelecidos, seja com
paciente, familiares e equipe, bem como os sentimentos
desencadeados a partir destas relações.
Tal como o paciente, o médico interpreta o
mundo através de suas representações pessoais. Contudo,
alguns conceitos e formas de pensar são compartilhados na
academia, como: definição de saúde e doença, tratamento,
distanciamento, finitude, etc. Tais concepções comuns são
transmitidas através das diversas gerações, formando um ideal
de conduta e pensamento profissional a ser seguido e
mantido.24 Um dos pensamentos vigentes a respeito do
médico é de que este não deve sentir ou chorar a morte de seu
paciente, exige-se deste profissional tamanha neutralidade,
aproximando sua postura à do homem de aço, e qualquer
alteração deste padrão socialmente esperado corrobora para a
contestação de sua competência técnica. Mediante tal
colocação surge a seguinte indagação: a manifestação de um
comportamento isento de emoções é possível?
De um modo geral, o profissional de saúde
encontra-se mais habituado com a morte, visto que esta é uma
frequentadora de sua práxis. São muitas as mortes que
presencia durante sua vida profissional, tantos óbitos, que a
intensidade com que enfrenta esta realidade torna-se menor.
No seu histórico de vida, há um cemitério pessoal onde são
armazenas cada uma de suas experiências e contato com a
morte. Entretanto, ao olhar para este cemitério, consegue
enxergar diversas mortes que tiveram um cenário comum, o
ambiente hospitalar, mas que ainda assim são únicas.
24
Mello Filho, 2010
- 37 -

De fato, deparar-se constantemente com a ameaça


de morte, através do óbito alheio não é uma tarefa fácil. Para
que o profissional de saúde tolere tal situação, o sujeito que
responde deste lugar acaba por lançar mão dos mais variados
mecanismos de defesa, possibilitando que o ego suporte a
proximidade com o tema, que até então havia sido ocultado e
reprimido. O mecanismo de defesa mais frequente é a
racionalização, que possibilita ao sujeito usar da coerência e
da lógica, para justificar ou explicar sentimentos, atitudes e
ações consideradas ameaçadoras.
De acordo com Oliveira (2008): “presenciar a
morte do outro, é entrar em contato com a nossa própria
condição de finitude”. As questões subjetivas dos profissionais
de saúde estão sempre presentes em sua prática, pois ainda que
venham buscar uma neutralidade profissional, em algum
momento, seus anseios, angústias, crenças e temores
aparecerão. Faz-se necessário o reconhecimento de que todo
profissional é antes de tudo, um sujeito, e embora receba um
treinamento específico para controlar suas emoções e manter
sua vida pessoal afastada do campo de trabalho, nem sempre
tal postura é possível.
Apesar de todo aparato tecnológico, a morte surge
como fenômeno inevitável. Diante deste poder esmagador, a
equipe de saúde mobiliza-se de maneira considerável e a
eficácia da medicina é por muitas vezes, posta em xeque.
Quando não há mais o que fazer, diante de um caso crítico
onde a morte é uma questão de tempo, os profissionais vivem
os mais intensos e dolorosos sentimentos de impotência e
frustração. O intenso desgaste físico e emocional pode
desencadear a síndrome do burnout, caracterizada pela
exaustão e esgotamento. E sabemos que as expectativas e
emoções expressas pelos profissionais de saúde, mediante sua
- 38 -

rotina de trabalho, variam de acordo com especialidade


escolhida, visto que cada campo demanda atitudes e posturas
específicas.
E de uma forma geral, na perspectiva do
profissional de saúde o hospital é o lugar de tratamento e cura,
e consequentemente de vida, onde a morte não é bem vinda e
muito menos considerada como fenômeno natural. Seus
esforços, desejos e ações extremamente calculadas, visam o
bem estar daqueles que de certa maneira, estão em suas mãos.
A morte é considerada como uma inimiga que deve ser
combatida, muitas vezes a qualquer custo, pois sua presença
significa além de um fracasso profissional, um lembrete de
que um dia todos terão um fim, apesar da imensa busca da
humanidade pela eternidade.
Como proposto por Freud a temática do morrer é
constantemente mantida pelo Ego, que visa sua integridade, no
plano inconsciente por meio do recalque. Assim o homem
consegue manter-se motivado e feliz durante sua vida, pois
conscientemente não há o constante lembrete de que um dia
tudo chegará ao fim.

REFERÊNCIAS

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- 39 -

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- 40 -

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- 41 -

II - A Agressividade em Winnicott
Vanessa de Souza Brum

Winnicott dizia que quando a agressividade se manifesta é


sempre uma tarefa difícil identificar suas origens. E a criança
começa a demonstrá-la em seu contexto familiar desejando
testar esse ambiente, tentando saber o quão resistente é esse
ambiente, para que ela se sinta segura e protegida. Por isso,
pode-se dizer que as crianças direcionam sua agressividade
principalmente aos que ama.

Na sociedade contemporânea a agressividade tem se


tornado cada vez mais motivo de debates, buscando saber
quando começam a surgir comportamentos agressivos em
crianças e quais seriam os motivos. Algumas crianças, ainda
tão pequenas, comunicam o que querem através da
agressividade, como o desejo por um brinquedo – e por não
poder possuí-lo naquele momento, ela pode gritar, chorar e
arremessar objetos, expressando seus impulsos agressivos
através da popularmente conhecida como “pirraça infantil”.
Seria isso normal ou uma falha da educação familiar?
Donald Woods Winnicott dedicou muita atenção e
trabalho ao estudo da agressividade. De acordo com ele “de
todas as tendências humanas, a agressividade, em especial, é
escondida, disfarçada, desviada, atribuída a agentes externos, e
quando se manifesta é sempre uma tarefa difícil identificar
suas origens”.
Ele afirmou ainda que a agressividade é inata a todo
ser humano, mesmo que não seja perceptível, pois existem
pessoas que são calmas, não brigam não falam alto e não
impõem aparente risco a ninguém, nem a elas mesmas.
Contudo, essas pessoas possuem seu potencial agressivo. A
- 42 -

diferença é como esses sujeitos irão satisfazer seus impulsos


agressivos sem que isso venha trazer maiores consequências
no meio social.
Encontram-se na atualidade cada vez mais
justificativas reducionistas para as más condutas, sejam elas
infantis, adolescentes, ou adultas. As diferentes explicações
incluem doenças, transtornos, desvios, e outras denominações,
que acabam por legitimar o comportamento agressivo somente
enquanto violência gratuita e não aceita. O que corrobora
ainda mais a idéia de Winnicott (2005) de que há uma
tendência em disfarçar, em esconder a agressividade, que na
verdade faz parte da constituição de todos nós.
Não se deve compreender a agressividade em
paralelo com a violência. A agressividade é inata e necessária
para a constituição do sujeito, já a violência é uma das
possíveis formas de se expressar essa agressividade. De
acordo com Winnicott (2005), por trás de um comportamento
antissocial existe uma privação emocional proveniente do
meio familiar. Por não saber como lidar com a privação que
lhe foi imposta o sujeito começa apresentar comportamentos
antissociais, como furtos, violência, entre outros
comportamentos.
O endereçamento dessa mensagem que é passada
através da agressividade e expressa nos comportamentos
antissociais é feito em um primeiro momento para a família,
que é o primeiro meio social onde essa criança/adolescente
estará inserida. A família será abordada visando suas
mudanças ao longo dos anos e a forma como essa mudança
acabou por influenciar na criação da criança e no que
Winnicott chamou de “maternagem suficientemente boa”,
descrevendo a importância do cuidado materno e a mãe
“suficientemente boa” como a que consegue se adaptar às
- 43 -

necessidades de seu bebê, reconhecendo suas diferentes


manifestações.
Caso não seja identificada enquanto mensagem pela
família, esse sujeito poderá direcionar sua mensagem a um
meio mais amplo, para a sociedade em geral, numa tentativa
de que a sociedade consiga compreender e sanar a falta de
algo familiar do qual foi privado. Tais comportamentos que
Winnicott citou como um desajuste pelo qual a criança passa,
pode chegar a levá-la até mesmo aos tribunais, como uma
criança desajustada. E caso não consiga ser sanado em tempo
hábil essa criança será considerada uma “criança
incontrolável”, podendo ser considerada ao chegar à fase de
jovem adulto como psicopata.
Assim como o termo psicopata tem sido utilizado
indiscriminadamente, tem-se também na atualidade termos e
nomeações que acabam por si só a designar conteúdos
agressivos, e dentre esses conteúdos agressivos incluem-se
principalmente os expressos através da violência, como o
transtorno de conduta, e o bullying. E como a violência é uma
das formas de se apresentar a agressividade, aqui abordaremos
características acerca dessas duas denominações.
Reduzir a compreensão da agressividade a uma só
perspectiva significaria empobrecê-la. Dar-lhe uma
denominação, médica ou pejorativa, acabaria por criar um
estigma no sujeito e não teria função alguma além de reforçar
que ele se comporte como é esperado pelo diagnóstico ou
nomenclatura que possui.
Muitas vezes os comportamentos apresentados por
crianças denominadas como antissociais pelas condutas de
furto, vadiagem e violência, podem ser um grito de socorro,
uma demonstração de que ainda há esperança de que sua
privação seja sanada, mas enquanto isso não acontece, esta
- 44 -

acabará por recorrer aos ganhos secundários da tendência


antissocial, e se nada for feito a tempo, pode não conseguir se
estruturar como deveria.
Observa-se que crianças fazem pirraças
principalmente quando são contrariadas e existe um potencial
agressivo independente da idade que o sujeito possua. A
grande questão é que o ser humano adulto tende a não aceitar
facilmente esse conteúdo agressivo nas crianças como inerente
e necessário à sua constituição, com isso o adulto busca
justificar determinados comportamentos considerados
agressivos produzidos pelos infantos.
A agressividade pode ser mais visivelmente
expressa através de brincadeiras, visto que representa a
maneira como a criança lida com o mundo. Um exemplo de
brincadeira são as torres de blocos de montar, onde as crianças
procuram construir algo, para em seguida destruir o que foi
feito. Se a agressividade é intrínseca ao sujeito, a criança ainda
não possui maneiras de exprimi-las, podendo externalizá-la
através da derrubada dos blocos, por exemplo, demonstrando
seu desejo de destruição sem que isso possa agredi-la ou
deixá-la desesperada. Assim como o bloco de montar, existem
outras brincadeiras, como a bola, por exemplo, entre outras
que excitam a competitividade, e que podem acabar por ajudar
o sujeito a lidar com sua agressividade sem que isso seja
prejudicial tanto a si própria quanto aos outros à sua volta. Vê-
se nas crianças uma expressão da agressividade para além dos
brinquedos, ou seja, também com crianças de suas relações,
muitas vezes com o intuito de chamar a atenção de alguém
querido. Sendo assim, pode-se repetir com Winnicott: “é no
brincar, e somente no brincar que o indivíduo criança ou
adulto, pode ser criativo e utiliza sua personalidade integral: e
é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu”.
- 45 -

É lógico que não podemos negligenciar outros


fatores envolvidos na agressividade, por exemplo, o social. A
condição social é um dos fatores que acabam por instigar
ainda mais o potencial agressivo inerente ao sujeito, pois
podem ser percebidos mais privilégios consumistas a uma
minoria e um crescente descaso com os investimentos
necessários à população em geral. Quando se fala, por
exemplo, em uma criança que rouba o lanche de outra criança,
deve-se avaliar também as dificuldades sociais que esta
criança está passando, situações de fome por viver na miséria.
Esses fatores são externos à criança, contudo, apesar de
influenciar, visto que é uma situação de frustração pela qual a
criança passa, cada um vai reagir de uma maneira. Ou seja,
não há fatores específicos que possam gerar a agressividade, o
que existe são maneiras encontradas pelas pessoas em lidar
com as situações que ocorrem no cotidiano. Às vezes, pessoas
passam pelas mesmas situações que possam instigar seus
potenciais agressivos, no entanto, a maneira como cada sujeito
se constituiu (ou a maneira como ainda está se dando esse
processo) fará com que eles se expressem de formas
diferentes.
No entanto, esses fatores não são decisivos na
maneira com a qual o indivíduo irá responder ao estímulo, eles
podem ser vistos como instigantes ou excitantes ao potencial
agressivo. No entanto, cada indivíduo possui fatores
intrínsecos que levam-no a escolher como lidar com a situação
em que se encontra. E, de tal modo, pode-se observar
diferentes respostas produzidas ao mesmo estímulo se
aplicados a sujeitos diferentes. Desta forma, utilizando o
conceito descrito por Winnicott, a agressividade é encontrada
no âmago de todas as relações humanas, fazendo parte da
- 46 -

constituição subjetiva, e está relacionada aos dois principais


componentes da relação entre as pessoas: o amor e o ódio.
Na confecção de seus estudos sobre a
agressividade, Winnicott utilizou muito dos conceitos
descritos por Melanie Klein como, por exemplo, a teoria da
posição depressiva25. A partir do conteúdo produzido por
Klein, Winnicott absorveu com mais detalhes o mundo interno
de infanto, e toda angústia pela qual este passara, sendo todo
esse processo necessário ao desenvolvimento, de acordo com a
psicanálise.
Conclui-se então que se a agressividade é inerente
e inata à condição humana, pode-se entender que a mesma se
apresenta também em bebês e crianças, independente da idade
que as mesmas possuam. Quando se fala em agressividade,
muitas vezes pensa-se apenas em condições externas ao
indivíduo, acreditando-se em algo que o levou a agir de
determinado modo.
Winnicott dizia que de todas as tendências
humanas a agressividade, em especial, é escondida, disfarçada,
desviada, atribuídas a agentes externos, e quando se manifesta
é sempre uma tarefa difícil identificar suas origens. E a criança
começa a demonstrar esses impulsos primitivos de
agressividade e destrutividade em seu contexto familiar. De
acordo com o autor, isso se dá pelo fato de a mesma desejar
testar esse ambiente, ela quer saber o quão resistente esse
ambiente pode ser para que consiga se sentir segura e
protegida. Por isso, pode-se dizer que as crianças direcionam
25
A teoria da posição depressiva de acordo com Melanie Klein é o momento em
que o bebê descobre a mãe como um objeto total, separada dele e com uma vida
própria, mantendo também relações com outras pessoas. O bebê percebe seu
desamparo, pela dependência que possui com sua mãe, pois ao mesmo tempo em
que consegue percebê-la como um objeto total, percebe a si mesmo também
como total.
- 47 -

sua agressividade principalmente aos que ama. E esse


comportamento infantil citado é o considerado normal e dado
como um estágio do desenvolvimento dos infantos.
Ao falar-se em condições familiares, deve-se levar
em conta também que essa família se apresenta com um
referencial a seus filhos, e é a partir desse lar que a criança vai
começar a conhecer o mundo e a lidar com o mesmo. É
importante lembrar também que a criança cria seu conteúdo
imaginário, e durante essa criação ela muitas vezes utiliza do
conteúdo por ela absorvido do meio em que está inserida,
fazendo uma recriação do que viu e escutou, e será a partir daí
que ela começará a criar seus valores morais.
É principalmente a mãe quem irá apresentar o
mundo ao bebê, pois ao nascer o mesmo ainda não consegue
diferenciar-se do mundo, e a agressão está sempre ligada,
desta maneira, ao estabelecimento de uma distinção entre o
que é e o que não é o eu. E para que haja a compreensão da
relação do bebê com a agressividade é necessário que se
entenda como a mesma se dá a partir da condição infantil. Ao
nascer, o bebê ainda não consegue se diferenciar do ambiente
ao qual está inserido e ao mesmo tempo não deixa de interagir
como ele nem um só momento. O conteúdo mais importante
dessa fase para que ocorra a compreensão da agressividade,
envolve-se com a motilidade, ou seja, o bebê move-se
espontaneamente, e encontra algo que se opõe a ele, e como
não se diferencia ainda do ambiente onde está inserido, acaba
por se debater com o inesperado. Nessa fase o bebê ainda não
conhece nada por si só, o mundo lhe é apresentado pela mãe
pouco a pouco. O meio ambiente passa a ser então descoberto
e redescoberto constantemente, e isso significa que a cada
redescoberta, dada pela repetição do contato, tem-se um
- 48 -

crescente conhecimento, e uma familiarização a respeito do


mundo e dos objetos externos.
A partir daí tem-se uma importante relação, ou
esse ambiente é favorável ao movimento infantil ou se opõe ao
mesmo. Com essa relação é que se originaria o potencial
agressivo, ou seja, o bebê passou por “invasões ambientais”
que lhes foram traumáticas e acabou por reagir de alguma
maneira a elas. E mais uma vez vê-se a importância da família
(principalmente da mãe ou cuidador) para o infanto, pois será
ela quem mediará a relação bebê-mundo.
Em seu livro “Privação e delinquência”, Winnicott
argumenta sobre a importância dos pais, e também de
professores, em cuidar das crianças para que se sintam
protegidas, pode-se dizer: quando elas possuem uma
autoridade que seja funcional. Caso contrário, elas podem
ficar sem controle, assumindo a própria autoridade.
Em contrapartida, em bebês fica cada vez mais
difícil identificar como se apresenta a agressividade,
principalmente porque é necessário que alguém qualifique
esse instinto como tal. Os bebês ao nascerem podem morder
os seios maternos e chegam até mesmo a tirarem-lhe sangue.
Mas essa mordida não se apresenta como uma frustração, ou
como uma ira. Na verdade, esse bebê se encontra excitado, e
muitas vezes não sabe o que fazer com tanta energia. E essa
foi uma das diferenças de Winnicott para outros teóricos, pois
ele não caracteriza tais atos pueris como agressão ou um
desejo de destruição, ao contrário, Winnicott vê com uma
expressão primitiva de amor, sugerindo que a palavra que
melhor representaria esse amor-apetite primário seria a
voracidade, e que este não representaria nenhuma intenção de
crueldade, mas sim um desejo de satisfação infantil. A
agressividade, portanto, pode ser compreendida de duas
- 49 -

maneiras distintas, em uma delas entendendo-a como uma


resposta a alguma frustração sofrida, e em outra, como uma
das fontes de energia desse indivíduo. Diferente do que muitos
pensam, a agressividade não existe a partir do momento em
que é externalizada, ela é inata, e o fato de uma criança ter
impulsos agressivos e outra ser tímida e recatada, não significa
que a segunda não possua os mesmos impulsos. O que poderá
ocorrer é que essa segunda criança consegue controlá-los de
forma mais eficaz do que a primeira. No entanto, retraimento e
timidez excessiva podem ser características de uma
agressividade passiva.
Existem muitas maneiras saudáveis de exprimir a
agressividade, entre elas os sonhos, pois apesar dessa
atividade onírica estar relacionada ao pensamento, existe
sensações de excitação do corpo, ou seja, vale como uma
atividade concreta. Relembramos que a agressividade também
pode ser expressa através das brincadeiras, é através da
fantasia e do simbólico que a criança conseguirá o alívio das
tensões mais inconscientes, e esse brincar poderá lhe trazer
infinitas possibilidades de experimentação.
No processo de amadurecimento pelo qual as
crianças passam existe uma importante relação entre as
mesmas e o desejo de destruição. E esse momento não pode
ser adiantado por fator algum, necessitando das experiências
da criança no meio em que atua. Ao encontrar no ambiente
condições favoráveis para um bom desenvolvimento, a criança
conseguirá responsabilizar-se por seus atos e pela natureza
destrutiva ao qual possuem, e a partir de então buscar um
brincar construtivo como sinal de saúde.
De acordo com Sonia Abadi, da mesma maneira
em que a agressão é inata, o amor também o é, então caberá
aos pais fazer com que a criança preze por sua capacidade
- 50 -

amorosa, preocupando-se com os outros, e tornando-se


responsável pelos próprios impulsos destrutivos, conseguindo
assim o autocontrole e preservando a quem se ama. Sendo
assim, é importante que se compreenda a importância dos
adultos, principalmente os pais ou cuidadores (mas engloba-se
também, por exemplo, os educadores a partir da fase escolar)
visto que o próprio Winnicott atribuiu ao ambiente a
importância de influenciar o bebê e as crianças na maneira
como irão lidar com seus impulsos agressivos.
Desse modo, a família é um dos determinantes na
aquisição da capacidade de se preocupar com o outro, e
consequentemente da culpa pela criança, o que irá favorecer o
aparecimento do autocontrole, a fim de proteger-se a quem se
ama. A tendência antissocial conforme escrita por Winnicott
não está relacionada a uma doença, mas a uma fase onde todos
os indivíduos passam em determinado momento de suas vidas.
Ele citou a importante relação entre a tendência antissocial e a
privação, e não deixou de citar a relevância de John Bowlby
como um dos precursores desses estudos, principalmente em
crianças entre um e dois anos de idade.
Para se entender a tendência antissocial a partir da
teoria winnicottiana é necessário que primeiro se compreenda
o conceito de privação descrito pelo autor. Quando pequenino,
o bebê não consegue diferenciar o eu e o não-eu, ele possui
uma relação intrínseca com a mãe que fantasiosamente é como
se este mesmo a “criasse”, e esta estivesse sempre pronta a
atender as necessidades do bebê. É como se a mãe fosse parte
dele mesmo e, se essa mãe falha logo no inicio da vida do
bebê, ocorre o que Winnicott descreveu como privação. Mas,
se por algum tempo essa mãe corresponde a essas expectativas
do bebê, então esse sistema criado pelo infanto acaba por
funcionar. No entanto, em algum momento, naturalmente essa
- 51 -

mãe, por algum motivo normal, não corresponde a essa


expectativa, e acaba por falhar. Como o bebê já possuiu em
algum momento um bom desenvolvimento e cuidados
adequados, ele acaba por perceber essa falha como vinda do
ambiente externo. Nos dois momentos pode-se perceber que
houve uma falha externa. A mãe mesmo que em algum
momento tenha conseguido êxito em sua função, em
determinado momento não conseguiu atender as expectativas e
desejos inconscientes da criança. E mesmo que a mãe assim
perceba e tente suprir essa falha em um primeiro momento ela
já falhou. A criança por sua vez acabará por se frustrar e com
isso buscará pelo que se lhe faltou naquele momento.
Contudo, quando se fala de uma mãe pela
capacidade que esta tem de atender a seu filho, e ao mesmo
tempo, da falha que comete não o atendendo por tempo
integral, não se está demonstrando nenhum erro por parte da
primeira. De acordo com Winnicott, a mãe “suficientemente
boa” precisa ser faltosa num determinado momento, fazendo
com que o filho se adapte às necessidades, passando de uma
fase de dependência absoluta para uma fase de dependência
relativa.
No entanto, essa falha materna pode ser intensa
demais para que o bebê consiga a adaptação sem que ocorra
um trauma. Podendo surgir assim a tendência antissocial.
Winnicott diz que não há somente uma carência, mas é
necessário que o sujeito sinta um vazio tão profundo que o
autor chegou a descrever como “um verdadeiro
desapossamento”, ou seja, o indivíduo já experienciou algo
que lhe foi muito bom e que por algum momento deixou de
existir, e essa falta foi por um tempo maior que essa criança
pode suportar. E ele acrescenta que como a criança pequena já
identificou essa falha advinda do seu meio externo, ela sente
- 52 -

que o “ambiente lhe deve algo”, e então direciona a sua


agressividade a alvos externos, na busca de resgatar aquilo que
lhe falta. A criança tenta passar através de seus atos agressivos
uma forma de comunicação que possui um direcionamento, e
que geralmente tem como mensagem a busca de um limite e
de um acolhimento. É como se a criança mostrasse, através
desse ato, um crédito a esse ambiente que um dia lhe falhou.
Se o indivíduo direciona essa agressividade para o
meio externo, pode-se entender então que isso ocorre através
de comportamentos, podendo ser descritos como
comportamentos antissociais. E, apesar da falha causadora do
comportamento ser advinda do ambiente familiar, a sua
expressão pode ser percebida não somente em seu lar como
também em todo o ambiente no qual está inserido. Esses
comportamentos passam então a ser expressos pela criança
para além do seu meio microssocial (família), chegando ao
meio macro-social, incluindo aí a escola, e todas as outras
relações sociais a qual possuem.
No entanto, para Winnicott, existem maneiras
maduras e mais saudáveis de se aliviar essa agressividade.
Uma das possibilidades de eliminação da agressão seria
através de lutas, ou até mesmo de jogos que envolvam
competição, pois dessa maneira podem-se eliminar os
impulsos ao invés de contê-los. Porém, existe na sociedade um
discurso afirmativo de que a utilização de jogos violentos ou o
até mesmo o exercício de lutas pode aumentar a agressividade
e criar comportamentos violentos nas crianças. Contudo, deve-
se lembrar que qualquer atividade possui limites e regras a
serem cumpridas, e é papel dos pais mediarem o exercício
dessas atividades e não apenas proibir esses possíveis escapes
dos impulsos agressivos infantis.
- 53 -

Não se tem aqui uma afirmação de que os jogos na


infância são completamente irrelevantes para a expressão da
agressividade e nem para comportamentos violentos, contanto
que se possua um adulto enquanto mediador do conteúdo
observado e que este ajude a essa criança o julgamento de
valores do que é visto e escutado. O que se pode afirmar é que
a agressividade ou o potencial agressivo já é existente em
todas as crianças, contudo o jogo pode ser mais um fator a ser
observado, mas não é determinante para a “aquisição” de um
comportamento agressivo. Essa idéia é corroborada por Alves
(2003), quando diz que a violência não possui apenas um fator
que a determine.
Outra maneira madura de se eliminar a agressão é
através da obtenção do medo. Este é então um importante
analisador do comportamento, pois o sujeito procura maneiras
de controlar a agressão para que a mesma não fuja do controle.
Neste caso, utiliza-se mais da dramatização do que da própria
repressão (Luz, 2008). Ou seja, o indivíduo acaba por “fingir”,
por negar seus desejos agressivos e destrutivos mesmo que
possua consciência desses mesmos, isso porque há um medo
de como possa se apresentar tais impulsos e suas
conseqüências. Contudo, esse fingimento não ocorre em um só
determinado momento, mas aparece como um sintoma criado
pelo sujeito afim de que consiga lidar com seus conflitos
internos.
Olhar o ato ou comportamento antissocial como
um sinal de esperança de sujeito que o produz significa
compreender o que lhe ocorre e isso possivelmente poderá
ajudá-lo muito mais em seu tratamento. E de acordo com o
próprio Winnicott (2005), o tratamento da tendência anti-
social não está apenas na psicanálise, mas sim relacionado aos
cuidados com a criança, é proporcionar a essa mesma um
- 54 -

ambiente estável e seguro, fazendo com que a mesma consiga


confiar nessa relação que um dia lhe foi falha.
Mas, e se esse “sinal de esperança” não for
devidamente entendido? E se essa criança não conseguir a tão
esperada ajuda para sanar sua intensa falta (diga-se como
forma inconsciente)? O que se poderá esperar? Então pode ser
que apresente a delinquência como um caminho sem volta.
A expressão delinquência muitas vezes é utilizada de forma
pejorativa. E só a utilizamos aqui para manter a fidelidade ao
conteúdo descrito por Winnicott, que usa essa expressão. Para
se falar em delinquência, é necessário explicitar o período
mais propício e com grande potencial do desenvolvimento em
que esse sujeito geralmente a apresenta, que é denominado
adolescência. Esses comportamentos aparecem com mais
frequência nesta fase de desenvolvimento, visto que nesse
momento todo o psiquismo do sujeito se encontra mais
vulnerável devido às mudanças que ocorrem naturalmente
nessa fase da vida, sejam elas físicas, psicológicas ou sociais,
o que dificilmente deixará com que essa fase passe sem que
haja qualquer alteração de comportamento.
Só por entrar nessa fase do desenvolvimento humano e que é
comum a todos, um sujeito já começa a apresentar diferenças
em seu comportamento. Isso muitas vezes ocorre, pois na
adolescência o sujeito não se vê mais como uma criança, e ao
mesmo tempo não pode ter a autonomia de um adulto. Essa
transição é uma fase de muitos conflitos, pois muitas vezes ele
já é “grandinho” para assumir determinadas responsabilidades
(geralmente relacionado à escola, e trabalhos), e muito novos
para decidirem por si mesmo o que devem fazer (muitas vezes
relacionados, por exemplo, a idas a bailes e ou outros lugares
que excedam ao limite imposto pelos pais). Isso tem relação
com a autonomia, pois se vêem mais próximos à fase adulta e
- 55 -

consequentemente da tomada de decisões por si só, e ao


mesmo tempo com autoridade, sendo que ainda não
respondem por si, tendo os pais como responsáveis, e dessa
forma sendo obrigados a responder às suas ordens.
Não incluir-se na infância possui um peso para alguns
adolescentes que não se veem apto a arcar com as
responsabilidades de suas escolhas, mas para muitos pode ser
um alívio, pois se compreendem a partir de então como mais
próximos a fase adulta, e podendo assim serem “donos de seu
próprio nariz”. E essa dúvida sobre a própria identidade, de
qual é a real possibilidade de escolha, e até da identificação de
si próprio gera muito sofrimento, mas se encerra com a
passagem dessa fase.
A mudança do corpo é a parte mais perceptível; são alterações
físicas causadas pela puberdade, que para quem ainda esta
vivendo-a pode ter várias conotações. Às vezes a maturação
física vem mais rápido que a maturação psicológica, e então
isso pode gerar conflitos psicológicos com alterações
comportamentais. Ver o corpo modificando, ter vergonha dos
seios que agora começam a aparecer, assim como os meninos
terem vergonha da barba, das espinhas, tudo isso são coisas
comuns na adolescência, mas também podem gerar certo
retraimento em situações sociais por acanhamento que pode
esconder um sofrimento psíquico excessivo.
Winnicott escreveu acerca das complicações da adolescência e
principalmente sobre a importância dos pais para o bom
desenvolvimento de seus filhos, pontuando que alguns
comportamentos excedem à expectativa que se tem pelas
mudanças que se passam. Quando o comportamento passa da
tendência antissocial a um ponto elevado, como a
delinquência, então é necessário primeiramente compreender
como foi o momento que se chegou a tal ação, ou seja, se
- 56 -

houve uma privação do sujeito ao qual se refere em suas


relações parentais, mesmo ainda na infância. Só assim se
poderia perceber como esse sujeito conseguiu lidar com seu
conteúdo agressivo para, se possível, entender então como se
apresentou o ato ou comportamento antissocial. Do ponto de
vista winnicottiano esse comportamento produzido como uma
expressão de ajuda não foi devidamente atendido. Essa
conclusão não é um denominador fácil de se chegar, e mesmo
que lhe alcance, não é sinônimo de êxito em nenhum
tratamento.
Winnicott, ao começar a estudar as questões da
delinquência juvenil, direcionou seu conteúdo às carências
advindas da relação familiar, mesmo sabendo que essa era
uma ampla área a ser estudada. Luz corrobora essa afirmação,
mostrando que a relação parental é de importante função para
a formação da personalidade, e se esta é conturbada, na
adolescência “verifica-se um problema traumático para o
sujeito que aflora na adolescência com ações delituosas”. .
No entanto não se pode concluir que se os pais
conseguem criar bem seus filhos dando-lhes atenção e carinho
e sendo-lhes “suficientemente bons” esses não apresentarão os
comportamentos indicados pela tendência anti-social. Ao
mesmo tempo não se pode afirmar que todo problema que
venha a surgir na adolescência será necessariamente um
retorno a uma falha obtida em sua criação ainda na infância.
Como já descrito por Winnicott, a agressividade quando se
manifesta, principalmente através da delinqüência e violência,
é sempre muito difícil identificar suas origens. E ele ainda
ressalta que existe uma ligação entre a maneira como se dá o
ato delinquente e as relações parentais. A partir de seu ponto
de vista, o roubo nada mais é do que a busca pela mãe.
Quando o fato ocorre dentro da própria casa, a criança na
- 57 -

verdade está em busca da afetividade que ela própria almejou


de sua mãe, pela capacidade de criar primitiva. E busca
também o pai, pois será ele quem cuidará e protegerá essa mãe
quando a criança tentar desestabilizá-la com sua
agressividade. E quando essa busca pela mãe se estender para
fora de sua casa, direcionado à sociedade, já mostrará uma
maior frustração em relação a essa falha familiar. E, se a
procura anteriormente era de um pai que apenas protegesse a
mãe, agora o que se espera é um pai que exerça sua autoridade
e ponha limite ao comportamento apresentado devido ao grau
de excitação em que o jovem se encontra, e ao mesmo tempo
também consiga ainda a função anterior de proteger a mãe no
momento em que essa for encontrada.
Em seu livro A Criança e seu Mundo, Winnicott
ainda destaca a diferença do desenvolvimento de crianças
ditas por ele como normais e crianças antissociais/doentes.
Partindo da idéia de privação emocional, Sá demonstra existir
duas saídas na qual o sujeito privado poderá optar por escolher
como resposta a situação na qual se encontra. De acordo com
o autor ao se deparar com a privação do objeto pedido e,
conseqüentemente, com a perda da confiabilidade no ambiente
ao qual se encontra, essa criança poderá tentar buscar e
“reconquistar a posse do objeto e a confiabilidade” sendo
assim buscará alguém que lhe imponha limites e contenha sua
destrutividade. Caso não consiga reagir dessa forma, a única
opção esperada é que opte pelo caminho do luto ou da
melancolia.
Sá tenta desvelar que apesar da privação sofrida pela
criança/adolescente poder trazer prejuízos a vida do mesmo, a
delinquência acaba por trazer algum fator positivo a esse
mesmo, para que consiga compensar os malefícios causados
anteriormente. Pode-se dizer assim que há certo ganho
- 58 -

secundário ao se manter um comportamento prejudicial como


a delinquência. Justo e Buchianeri descrevem como se
apresenta o ganho secundário a partir da conduta antissocial
do delinquente dizendo que a maioria dos delinquentes em
fase adulta já apresentou de alguma maneira atos antissociais
na fase da infância/adolescência, podendo-se fazer uma
ligação entre a teoria descrita por Winnicott lá na fase infantil,
com comportamentos antissociais na adolescência, chegando a
uma delinquência ainda nessa mesma fase, com a
possibilidade de se estender também na fase adulta.
Sá fez essa ligação ao descrever em um artigo sobre suas
observações de um presidiário. O autor descreveu a frase
escrita pelo presidiário na lousa de uma sala de aula “Solidão é
estar no meio de uma multidão de pessoas e sentir falta de
uma só” com algumas possibilidades de interpretação. Poderia
o presidiário estar apenas explicitando a falta que sente de
alguém querido que se encontra do lado de fora da instituição,
ou talvez que não viva mais. Contudo em última análise
poder-se-ia interpretar a situação como a falta sentida, ainda
que na infância, de um objeto perdido, como um trauma ainda
vivo da privação que um dia sofreu. E a maneira como o
sujeito irá solucionar os seus traumas relacionados à solidão
estará intrinsecamente ligada à intensidade do trauma sofrido.
Como vimos, a família é o primeiro micromundo
do bebê, principalmente a mãe. A partir do momento em que o
bebê começa a diferenciar-se surgem outras dimensões desse
mundo que ainda não era conhecido. Contudo, pode-se
perceber que todo esse “mundo” mudou. A constituição da
família não pode ser encontrada exatamente como há muitos
anos atrás. A família tradicional patriarcal, que era mais
reconhecida, hoje não possui o mesmo valor e nem mesmo a
proporção de existência como ocorria anteriormente.
- 59 -

A instituição familiar vem se modificando com o


passar dos anos, e seus membros acabam por se moldarem a
essas mudanças. E de acordo com Sarapião, a única
semelhança entre a família tradicional antiga e família pós-
moderna é o sentimento de pertencimento que seus integrantes
ainda possuem, pois as outras bases e referenciais que
fundamentavam uma família não mais existem.
Não se deve confundir o papel de autoridade
necessária à educação dos filhos com o autoritarismo de
alguns pais. Ter autoridade é saber dos papéis existentes em
cada família, e delimitar as funções de cada um, de acordo
com esses papéis. É impor os limites necessários, e intervir de
forma firme e precisa quando necessário
Uma situação característica que acabou por se
tornar rotineira na atualidade é o divórcio, todavia, a
separação, mesmo que traumática, pode ser mais benfeitora do
que manter a criança em um lar onde há uma família infeliz.
Sendo assim, ter as figuras parentais em constante conflito,
lançando mão da hostilidade, da intolerância e da agressão
entre si, será ainda mais prejudicial.
Winnicott afirmou que no processo de
amadurecimento da criança surge uma função importante que
é a “construção”. Isto quer dizer que quando possui um
ambiente favorável, a criança consegue tornar-se responsável
pela natureza destrutiva de sua ação, assim alcançando um
impulso construtivo. Dessa forma, essa construção por parte
da criança não pode ser produzida de outra forma, sendo uma
variedade de experiências vividas pela criança no ambiente em
que estão inseridas e que foi proporcionado pelos pais ou os
que exercem a função destes. Assim, corroborando essa idéia,
Luz revela a importância de um ambiente favorável, onde se
vê a responsabilidade dos cuidadores em manter as condições
- 60 -

adequadas para que a criança consiga lidar com a sua


capacidade destrutiva, e em sequência canalizar sua
agressividade em impulsos construtivos.
A psicanálise olha o sintoma apresentado por um indivíduo
como resposta aos seus conflitos emocionais internos. No
entanto, para fazer referência à sintomatologia do diagnóstico
médico busca um paralelo com o diagnóstico de transtorno de
conduta. Para que seja discutida essa relação é necessário
lembrar que o quadro clínico do transtorno da conduta é
caracterizado por comportamento antissocial persistente com
violação de normas sociais ou direitos individuais.
Os critérios diagnósticos do DSM IV para transtorno da
conduta incluem 15 possibilidades de comportamento anti-
social: (1) frequentemente persegue, atormenta, ameaça ou
intimida os outros; (2) frequentemente inicia lutas corporais;
(3) já usou armas que podem causar ferimentos graves (pau,
pedra, caco de vidro, faca, revólver); (4) foi cruel com as
pessoas, ferindo-as fisicamente; (5) foi cruel com os animais,
ferindo-os fisicamente; (6) roubou ou assaltou, confrontando a
vítima; (7) submeteu alguém a atividade sexual forçada; (8)
iniciou incêndio deliberadamente com a intenção de provocar
sérios danos; (9) destruiu propriedade alheia deliberadamente
(não pelo fogo); (10) arrombou e invadiu casa, prédio ou
carro; (11) mente e engana para obter ganhos materiais ou
favores ou para fugir de obrigações; (12) furtou objetos de
valor; (13) frequentemente passa a noite fora, apesar da
proibição dos pais (início antes dos 13 anos); (14) fugiu de
casa pelo menos duas vezes, passando a noite fora, enquanto
morava com os pais ou pais substitutos (ou fugiu de casa uma
vez, ausentando-se por um longo período); e (15) faltas à
escola sem motivo e frequentemente (início antes dos 15
anos). Os critérios diagnósticos do DSM-IV para transtorno da
- 61 -

conduta aplicam-se a indivíduos com idade inferior a 18 anos


e requerem a presença de pelo menos três desses
comportamentos nos últimos 12 meses e de pelo menos um
comportamento antissocial nos últimos seis meses, trazendo
limitações importantes do ponto de vista acadêmico, social ou
ocupacional.
A partir da descrição do conceito de transtorno de conduta
para a medicina, pode-se perceber a diferença entre as duas
definições de sintoma. Ao se falar do transtorno de conduta
tem-se uma gama de comportamentos que o indivíduo precisa
apresentar em um determinado período de tempo para que se
enquadre nos critérios de diagnósticos. O sintoma aparece aqui
como um reforçador do diagnóstico, ou então com a função de
formar um novo quadro clínico.
Outra diferença de extrema importância para a comparação
entre os olhares do sintoma é a maneira como a psicanálise irá
lidar com ele, tendo em contrapartida o trabalho médico. Para
a psicanálise existe um motivo pelo qual esse sintoma existe, e
ele também possui uma função na constituição psíquica do
sujeito, pois foi uma maneira que o sujeito encontrou para
lidar com seus conflitos internos. Desse modo, não é
interessante que se tenha como meta exclusivamente excluir
esse sintoma da vida do sujeito a qualquer preço, pois o
conflito psíquico continua a existir, e o que poderia acabar por
ocorrer seria aumentar o sofrimento psíquico do sujeito já que
se extingui uma saída.
A medicina muitas vezes busca a compreensão do
sintoma apenas por exames médicos, e ainda há certa
resistência em ver uma questão emergente no sujeito apenas
como um conteúdo emocional mal elaborado. Deve-se deixar
claro que não se pode negar a importância da medicina, e o
quanto esta tem crescido ao longo dos anos, permitindo que se
- 62 -

salvem a cada dia mais vidas. O ápice dessa discussão vem


apenas mostrar a importância de se observar o sujeito como
um ser biopsicossocial, e que nenhum desses três fatores ao
qual ele se insere pode ser negligenciado no momento da
construção do diagnostico, o sintoma é muito mais profundo
que a variedade de sinais ao qual este se apresenta.
Como citado por Guerra, com a nova rotina
familiar, alguns pais acabam por não dar conta da educação de
seus filhos, e assim transferem a responsabilidade à escola ou
Estado. E assim as escolas vivem uma crescente “descarga” de
agressividade. Como já descrito por Winnicott, a
agressividade é inerente ao sujeito, e cada um encontrará a sua
melhor forma de expressá-la, seja através de atividades físicas,
brincadeiras e outras formas sem que seja necessariamente por
uma forma de violência. A violência é na verdade uma das
formas pelo qual a agressividade pode ser expressa, e é uma
forma de linguagem a qual o sujeito preferiu utilizar para se
expressar, não sendo assim a violência inerente ao sujeito.
Porém, a violência nas escolas não é um
acontecimento novo, há muito tempo já se tem problemas
relacionados à indisciplina, delinquência, problemas
relacionais entre professor e aluno, assim como também entre
aluno e aluno, entre outros. No entanto, no Brasil, a
preocupação com esse assunto e o trabalho feito contra
atitudes como essas ainda são muito recentes.
Como argumentado por Guerra, com a família
cada vez mais ausente, as crianças acabam por procurar
lugares onde possam ser vistas, e com os quais possam se
comunicar, sendo a escola um desses lugares. De acordo com
Castro, a escola tem recebido um público cada vez mais
carente de cuidados e de atenção, muito fragilizado e com o
qual a instituição ainda não está apta a se responsabilizar.
- 63 -

Quando se fala em crianças pequenas, até uns dois


anos de idade, de acordo com Pietro e Jaeger, ainda não se
pode considerar como violência a agressão que ela venha a
causar, pois mesmo que morda um amiguinho na escola, esse
acontecimento pode ter sido o meio que a criança encontrou
de expressar-se via linguagem corporal, visto que ainda não
sabe usar a linguagem verbal.
Não se pode afirmar que exista uma única
justificativa para que a criança utilize a agressividade,
expressa através de condutas violentas, como uma alternativa
de linguagem. Entre as possíveis hipóteses pode-se dizer que
exista uma intenção de chamar a atenção de um ente querido,
ou uma simples disputa por um objeto de desejo, sendo assim,
não se tem intenção de destruir, de ferir ou causar mal ao
outro. Todavia deve-se sempre levar em consideração que é
uma escolha feita pelo próprio sujeito, mesmo que seja uma
escolha inconsciente, utilizar a agressividade, sendo expressa
por meios violentos, como meio de comunicação e linguagem.
Mas a agressividade nas escolas não é expressa
somente por quem ainda não possui uma boa linguagem verbal
como citado acima. A violência ocorre muitas vezes com uma
escolha consciente de agredir, de machucar, de magoar ao
outro. Desse modo, pode ser visto na atualidade crescentes
relatos de casos de bullying de todas as formas nas quais este
se apresenta. Para se falar desse tema, em que o nome é muito
mais novo do que o comportamento ao qual este representa, é
necessário explicar qual o significado.
Uma importante questão a ser observada a partir
do bullying é o que este representa atualmente para a
sociedade. Assim como as definições médicas de transtornos,
desvios e outros diagnósticos, o bullying tem se tornado uma
justificativa tanto social como psicológica para qualquer tipo
- 64 -

de comportamento relacionado à agressividade,


principalmente dentro das escolas, onde é comum ver crianças
recebendo apelidos de acordo com características que
apresentam, mas esses comportamentos sempre existiram, e é
comum entre os seres humanos brincadeiras que exaltem
determinadas característica do sujeito, sejam estes crianças ou
adultos.
Existem diversas maneiras de se expressar o
Bullying, entre elas estão: as formas diretas, que podem ser
físicas, como agressões ou ameaças físicas, roubo ou dano a
objetos alheios, ameaças/extorsão de dinheiro, entre outras; a
direta verbal, onde se inclui xingamentos, insultos, exaltar
uma característica, defeito ou deficiência alheia com intenção
de gozação; e a indireta, onde se exclui um sujeito ou o grupo
no qual este se insere, ou até mesmo a ameaça de exclusão na
tentativa de obter algo em troca. E possuem como
características pessoais mais específicas utilizadas como alvo
desses comportamentos como sendo desde físicas (como
obesidade e estatura) sócio-econômicas, opção sexual até
etnia.
As explicações de forma generalizada utilizando o
bullying como o causador de tantos traumas como têm
ocorrido atualmente mostram mais uma vez que esse assunto
ainda não foi completamente compreendido. A atribuição de
uma culpa pela expressão da agressividade, principalmente
relacionada a violência passa a ser vista como um resultado de
uma ação ao qual o sujeito foi acometido ainda na infância. A
utilização do termo bullying aparece como um modismo, e
uma solução justificar condutas.
Chegou-se a hipóteses através de influentes mídias
que uma pessoa possa ter cometido assassinatos devido ao
bullying que sofreu ainda na infância. É lógico que o bullying
- 65 -

pode sim trazer consequências negativas ao sujeito ao qual é


imposto, porém vê-lo como fator único não pode ser
considerada uma veracidade. Conforme Sagesse e Silva
existem outros condicionantes que podem se relacionar na
escolha do sujeito para determinada ação violenta, como por
exemplo, o meio social ao qual este sujeito está inserido como
sendo vulnerável a situações de violência (principalmente
dentro do lar), até mesmo a violência encontrada em toda a
sociedade, mas independente do contexto social não se pode
apagar o sujeito como determinante em sua própria escolha.
Sendo assim, com a afirmação de que a
agressividade é intrínseca ao ser humano, e acaba por ser uma
das formas que ele utiliza para lidar com os seus conflitos
internos, concomitantemente com a afirmação de que a
sociedade vem mudando muito rapidamente seus ideais e
valores principalmente ligados a família, temos um número
cada vez maior crianças que acabaram por perder além de seus
referenciais, também seu lugar de segurança e proteção,
deixando-os cada vez mais vulneráveis e utilizando de seus
impulsos agressivos como uma maneira de sobreviver
“sozinho”.

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- 68 -

III - O Corpo-Próprio em Merleau-Ponty


como nova compreensão do ser humano:
uma crítica ao dualismo cartesiano

Ariadne do Prado Goulart

Buscando uma fenomenologia existencialista, de cunho


eminentemente antropológico, Merleau-Ponty aboliu verdades
herméticas e pensamentos idealistas, sustentando que o
conhecimento é sempre incompleto, uma vez que não existe um
saber absoluto e a verdade é um movimento que se vai
constituindo no campo perceptivo, caracterizando-se como um
mistério inesgotável, uma gênese perpétua, sempre aberta.

Descartes foi importante para o desenvolvimento da


filosofia e da ciência porque rompeu com o aparato conceitual
da escolástica medieval para edificar seu próprio sistema, e
por isto é considerado um dos fundadores da filosofia
moderna. Revisou o conhecimento aristotélico, questionou a
hegemonia da igreja e apresentou um inovador sistema de
pensamento, o método cartesiano, que inaugurou a chamada
Revolução Científica, cujo ponto central era sempre a dúvida.
Mais tarde Descartes afirma que embora quisesse pensar que
tudo era falso, era preciso necessariamente que ele, que assim
pensava, fosse alguma coisa. Observando que a verdade
contida em “penso, logo existo” era tão firme e sólida que
nenhuma das mais extravagantes hipóteses dos céticos seria
capaz de abalá-la, julgou que podia aceitá-la como princípio
primeiro da filosofia que procurava.
- 69 -

Após a realização de algumas experiências, ele


entendeu que os sentidos não eram confiáveis, já que por eles
somos enganados em diversas situações. Por exemplo, quando
avistamos uma torre esta nos parece pequena, mas quando
observada de perto apresenta-se muito grande, em seu
tamanho real, diferente do que foi visto de longa distância.
Dessa forma, nossos sentidos, segundo o raciocínio cartesiano,
não devem ser utilizados como meio de conhecimento da
natureza humana e da verdade. Devemos, isto sim, recorrer à
razão, pois somente através dela é possível o discernimento do
verdadeiro e do falso.
Embora Descartes duvidasse de quase tudo, a partir de
tal descoberta teve certeza de sua existência. Assim, a essência
de um ser humano, para ele, era exclusivamente composta por
pensamentos (o humano é um "ser pensante"); e embora
reconhecesse a existência de um corpo, este era visto como
distinto e não como constituição do ser humano pelo fato de
não ter a capacidade de pensar. E afirmava: “... na medida em
que sou uma coisa pensante e inextensa, e que, de outro lado,
o corpo é apenas uma coisa extensa e que não pensa, é certo
que este eu, isto é, minha alma, pela qual eu sou o que sou, é
inteira e verdadeiramente distinta do meu corpo e que ela pode
ser ou existir sem ele.26
Através do cogito cartesiano (como ficou
conhecida a afirmação de Descartes, “penso, logo existo”)
pôde-se compreender que a essência da natureza humana para
ele residia no pensamento, tornando clara em sua teoria a
importância dada à mente e à independência desta em relação
ao mundo e ao entendimento do ser humano, além da rejeição
ao que é exterior. Então, ele afirma: “... somente ao espírito, e

26
DESCARTES, 1973
- 70 -

não ao composto espírito e corpo, compete conhecer a


verdade”.27
Dessa forma, Descartes dividiu sua concepção
da natureza humana em dois pólos distintos e independentes: a
mente e o corpo. Sendo a mente caracterizada pela capacidade
de pensar e de ter consciência, res cogitans (“coisa pensante”),
e o corpo por sua característica material, res extensa ("coisa
extensa"28). Para ele era necessária a decomposição de tudo
em suas menores partes para assim ser possível a compreensão
e o acesso à ordem lógica do funcionamento, inclusive do ser
humano.29
O corpo humano foi considerado como uma
máquina dividida em diversas partes, e mesmo que não
houvesse espírito, poderia funcionar normalmente, pois dele
não necessitaria para se mover e funcionar, uma vez que a
disposição de seus órgãos já é suficiente. Descartes diz que:
“O corpo, por sua própria natureza, é sempre divisível e o
espírito inteiramente indivisível. Quando considero meu
espírito na medida de uma coisa que pensa, não posso
distinguir parte alguma, pois me concebo como uma coisa
única e inteira. E conquanto o espírito pareça estar unido ao
corpo, nem por isso um pé, um braço ou qualquer outra parte
estando separada do meu corpo, subtrairia algo do meu
espírito.30
De acordo com Faria, podemos identificar
características entre matéria e extensão na forma cartesiana de
pensar. Os corpos materiais estão diretamente relacionados à

27
DESCARTES, 1973, p. 145.

28
Que ocupa lugar no espaço
29
CAPRA, 2006
30
DESCARTES, 1973, p.147.
- 71 -

extensão, ocupam lugar no espaço, são regidos por forças


mecânicas e leis da física que descrevem as interações entre
corpos extensos. Além da realidade material descrita,
Descartes conclui que havia outra realidade, esta imaterial,
responsável pela racionalidade do homem, com características
de indivisibilidade, e não ocupava lugar no espaço, além de
não ser regida pelas leis da mecânica. Dessa forma Descartes
formulou sua teoria dualista.
Inicialmente, Descartes nega o corpo e acredita
que o homem é composto exclusivamente de substância
pensante. Depois reconhece que corpo e alma se unem, mesmo
sendo substâncias que se excluem, e atribui ao espírito a
substância pensante, dominante. O que ele quer dizer é que
existe uma mistura entre a mente e o corpo, e não que o
homem em sua totalidade é corpo e alma. E afirma que “... a
natureza me ensina, também, por esses sentimentos de dor,
fome, sede etc., que não somente estou alojado em meu corpo,
como um piloto em seu navio, mas que, além disso, lhe estou
conjugado muito estreitamente e de tal modo confundido e
misturado, que componho com ele um único todo.31
Descartes explicou que, quando, por exemplo,
sentimos uma dor no pé, os nervos deste se comunicam com a
glândula pineal, fazendo com que o espírito experimente o
sentimento de dor e é por meio da glândula que recebemos as
impressões sensoriais e fazem parecer com que a dor esteja
localizada no pé. Por meio da glândula pineal a alma interage
e comunica-se com o corpo, e somente por meio dela.
Encontramos em Ventura (2009, p. 22) uma explicação para
seu funcionamento, quando diz que “o cérebro está conectado
a todas as regiões do corpo conforme a distribuição dos nervos
ou vias nervosas; no sangue que circula por estas veias existe
31
DESCARTES, 1973, p. 144.
- 72 -

um vento ou um ar muito sutil chamado espírito animal, que é


responsável pela comunicação propriamente dita, pois, se
temos o desejo de passear, por exemplo, a mente ligada à
glândula faz com que este espírito animal presente no cérebro
se mova com o sangue pelas vias nervosas até os músculos da
perna, fazendo-nos andar; se temos a sensação de calor, isto
ocorre devido a algum estímulo na pele que impele o espírito
animal a se mover até o cérebro pelo qual a glândula o traduz
em sentimento de calor, e assim por diante.
Depois de sua teoria ser postulada começou-se o
questionamento de como duas substâncias distintas podem
interagir e é a partir daí que Descartes apresenta a glândula
pineal como sendo a mediadora entre mente e corpo.
Entretanto, por se tratar de uma estrutura orgânica localizada
no cérebro a glândula pineal não pôde ser estudada
adequadamente por Descartes, não sendo então algo bem
esclarecido em sua teoria. Outro questionamento levantado
refere-se ao funcionamento da mente, já que esta não era
regida por leis da mecânica e Descartes explica ser pelo bom
senso que ocorre tal funcionamento. O bom senso,
característica essencial da razão, é comum a todos os homens
e os distingue dos animais. Por bom senso Descartes entendia
a capacidade de bem julgar, pois “não basta ter o espírito bom,
o principal é aplicá-lo bem”.32 Além disso, ele constata que
por meio da razão os homens tornam-se superiores aos
animais.
Por haver distinção entre alma e corpo deve-se
dividir claramente as funções correspondentes a cada uma
dessas partes. Para Descartes temos percepções que em nada
necessitam do auxílio do nosso corpo, assim como percepções
relacionadas diretamente e apenas ao corpo. Para isso utilizou
32
DESCARTES, 1969, p. 60.
- 73 -

como meio o da exclusão, dizendo que toda função humana


que de forma alguma possa ser atribuída ao corpo, será
concebida à alma, como o pensamento. O corpo por si só não
é capaz de pensar, somente sendo atribuível o pensamento à
alma, que tem por característica ser pensante. É notável que
Descartes considerava a mente totalmente independente do
corpo e este era considerado fria e simplesmente como uma
máquina.
Por considerar a divisão entre espírito e matéria, o
universo para Descartes foi visto como um sistema mecânico,
com objetos separados, onde estes foram reduzidos em suas
menores partes materiais. Essa concepção cartesiana de
compreensão do universo também foi estabelecida para os
seres humanos, pois para ele, nada mais somos do que uma
máquina caracterizada pelo somatório das partes. Eis,
portanto, em síntese a maneira mecânica de conceber o
homem que encontramos na filosofia cartesiana.
Embora Merleau-Ponty tenha criticado vários
postulados cartesianos, Descartes exerceu influência sobre a
sua obra. Merleau-Ponty teve por objetivo a superação do
dualismo para uma nova fundamentação do conhecimento, e
utilizou o corpo como tema central em seus trabalhos. Para
alcançar sua meta Merleau-Ponty utilizou conceitos como
corpo-sujeito, ou sujeito encarnado, e assim partiu da síntese
entre sujeito e mundo e não de uma relação sujeito-objeto
como foi proposta por Descartes, porque para Merleau-Ponty
o mundo e a consciência, o dentro e o fora, não estão
separados, são interdependentes.
Merleau-Ponty trabalha a questão do corpo
aliada a outros conceitos como percepção, intencionalidade e
mundo. Ele critica, efetivamente, a concepção cartesiana de
corpo, já que não estamos fora do mundo. Ambos, mundo e
- 74 -

sujeito, são inseparáveis. “O mundo não é mundo em idéia e o


corpo não é corpo em idéia”. Dessa forma “a tarefa da crítica
merleaupontyana a Descartes é indagar sobre a relação entre
representação e mundo, subjetividade e objetividade, que fora
empreendida pelo último para a ligação exclusiva entre sujeito
e objeto” .33
O conceito de corpo na filosofia de Merleau-Ponty
receberá significações totalmente inesperadas, que antes só
eram atribuídas à inteligência, à alma, à mente, ao espírito.
Merleau-Ponty terá que importar de outros conceitos
características que chamaremos transcendentais, a priori, para
embuti-las no conceito de corpo. Assim, o conceito termina
ampliando-se e tomando uma ressonância que permite, no
mínimo, um projeto de fundamentação do conhecimento.34
O corpo em Merleau-Ponty é conceituado e
apreendido diferentemente do que já havia sido proposto na
época, portanto “não é mero objeto orgânico (Korper) no
mundo e também não é idéia, é corpo ‘vivido’ (Leib)”35. O
corpo não sendo uma coisa entre as coisas, mas corpo vivido,
mostra-se como corpo próprio através da experiência vivida
sendo “veículo do ser no mundo”.36 Também podemos
compreender em Capalbo (2003, p. 16) essa questão quando
afirma que o corpo para a fenomenologia não é o corpo
objetivo que nega o espírito. Merleau-Ponty traz a questão da
corporeidade para o foro de “fenômeno vivido”, corpo que se
apresenta como sendo uma subjetividade, corpo próprio no
comportamento de um sujeito.

33
ANDRADE, 2010, p. 33
34
MACIEL, 1997, p. 105
35
MARTINI, 2006, p. 34
36
MERLEAU-PONTY, 1999, p. 122
- 75 -

Quando falamos de corpo-próprio estamos nos


referindo diretamente à motricidade deste corpo. Dessa forma
“Merleau-Ponty buscará a motricidade originária do corpo
como alternativa ao corpo mecânico cartesiano. A motricidade
do corpo-próprio é o movimento deste em direção ao mundo e
aos objetos, assim há um mundo direcionado ao corpo. Nas
palavras de Merleau-Ponty: “o corpo tem seu mundo e os
objetos ou o espaço podem estar presentes ao nosso
conhecimento sem estarem presentes ao nosso corpo. E
enquanto tenho um corpo e através dele ajo no mundo, para
mim o espaço e o tempo não são uma soma de pontos
justapostos, nem tampouco uma infinidade de relações das
quais minha consciência operaria a síntese e em que ela
implicaria meu corpo; não estou no espaço e no tempo; eu sou
no espaço e no tempo, meu corpo aplica-se a eles e os
abarca.37
O corpo apresenta-se como expressão, como
ação e gesto e assim comunica-se com o mundo, com o outro.
Encontramos embasamento em Martini (2006, p. 63) quando
afirma: “A experiência motora do corpo, antes de ser campo
do conhecimento, é comunicação com o mundo, da presença
de um mundo, do modo como as coisas se constituem para
nós”. O ato expressivo não está isolado, mas em conjunto com
o mundo, com as coisas ao redor e assim pode constituir-se.
Por exemplo, quando observamos um objeto temos a
percepção deste no espaço, em um determinado contexto,
assim como no momento que nos movimentamos para realizar
algo.
A relação estabelecida entre corpo e mundo não
ocorre no âmbito da espacialidade objetiva, mas possui um
caráter próprio, assim como o corpo que se movimenta no
37
MERLEAU-PONTY, 1999, p. 194
- 76 -

mundo não é o corpo objetivo, mas o corpo fenomenal, aquele


que age no mundo. Esse corpo reconhece que o espaço
coexiste com ele na relação que se dá entre ambos. Merleau-
Ponty realça a noção de corpo enquanto potência de ações,
cujas relações de coexistência com o mundo permitem
reconhecer o campo que o circunda. A relação primordial que
se estabelece corporalmente com o meio é do âmbito do
vivido, como possibilidade prática de "ter acesso ao mundo",
de projetar um mundo.
Em vários trechos da obra de Merleau-Ponty é
possível observar que este compreendia sujeito e mundo em
uma ligação permanente. Assim, salienta Dentz (2009, p. 30)
“O corpo-próprio deve ser entendido como mediador ativo
entre o sujeito e o mundo”. O sujeito está sempre envolvido
em relações com o mundo e com os outros constantemente. De
acordo com isso temos em Andrade (2010, p. 34) a afirmativa:
“Merleau-Ponty descreverá a fusão da consciência com o
universo e seu compromisso dentro de um corpo, ou seja, sua
coexistência com o outro”.
A noção de ser-no-mundo como o próprio nome já
diz, refere-se à presença do homem no mundo e através do
corpo atua como mediador de tal relação, assim como nas
relações interpessoais. O homem dirige-se ao mundo com seu
corpo e consciência intencional, onde sempre é dirigida a
alguém, algum objeto e a articulação da consciência com o
mundo ocorrem sempre em direção a alguma coisa, sendo
assim intencional. ‘
Para Merleau-Ponty antes de pensar é
necessário perceber o mundo e é através do corpo que ocorre
tal percepção38, pois “A experiência perceptiva é uma

38
RAMOS, 2010
- 77 -

experiência corporal” 39. O corpo está envolvido no mundo,


pois sujeito e mundo relacionam-se constantemente, não sendo
possível o sujeito ser sem o mundo. Nessa relação, ambos,
sujeito e mundo, fundem-se e formam uma relação onde não é
mais cabível a dicotomia sujeito – objeto.
A percepção é um conceito em Merleau-Ponty
amplamente articulado e possui característica única e marcante
como sendo’ uma experiência aberta para mundo. Dessa
forma, como afirma Capalbo, o homem só se realiza como
liberdade e como consciência de si se se dirigir para as coisas
graças ao contato vivido com o mundo e com o outro. Ao
seguir esta linha de raciocínio, Maciel ao fazer referência à
percepção, diz que ela está infalivelmente referida ao corpo,
ao corpo que percebe, que vê, que sente. A percepção é, pois,
o modo humano de se ter acesso ao mundo.
Na Fenomenologia da Percepção, Merleau-Ponty,
procurando afastar-se do dualismo, tenta articular a percepção
como o lugar originário. Não pretendia descrever a percepção
como tal, mas a percepção enquanto um elemento de caráter
transcendental, especulativo e não descritivo; nesse sentido,
seria um conceito, uma categoria que marcaria o paradigma
merleaupontyano.40
A tomada dos sentidos é mediada pelo corpo onde
são possíveis as mais diversas experiências e percepções como
afirma Nóbrega, dizendo que na concepção fenomenológica
da percepção a apreensão do sentido ou dos sentidos se faz
pelo corpo, tratando-se de uma expressão criadora, a partir dos
diferentes olhares sobre o mundo. É por meio da percepção
que se pode explorar as diversidades inesgotáveis do mundo, e
é nesse contexto que o ser se constitui como ser humano.

39
NÓBREGA, 2008, p. 142
40
MACIEL, 1997, p. 89
- 78 -

Sou um corpo próprio, isto é, um poder exploratório


que não cansa de se surpreender com a riqueza inquietante do
mundo. Sou, ainda, um corpo falante, que realiza o
pensamento através das palavras. Sou percepção e
pensamento, porque não sou apenas um corpo material ou uma
mente soberana: sou um corpo sensível capaz de ir além de si
mesmo em direção à riqueza do mundo; sou um corpo falante
capaz de abrir o horizonte compartilhável do pensamento.41
A relação do corpo com o mundo se dá de forma
integrada onde todos os sentidos são convocados e o corpo por
inteiro é capaz de interagir com os estímulos que se
apresentam a ele pela percepção. O corpo humano não é
apenas a organização de diversos órgãos, mas possui os
sentidos pelos quais percebe o mundo e faz a ligação com este.
Para perceber sempre há o percebido, perceber é perceber
alguma coisa que está fora de mim, que está no mundo. Por
esta abertura dos sentidos para o mundo, Merleau-Ponty
chamou o corpo de uma estrutura intencional, conforme
Martini: “... o corpo enraizado no sensível, enquanto uma
potência de ações faz a mediação do sujeito com o mundo pelo
funcionamento de seus órgãos e sentidos de forma integrada,
sem que haja um 'princípio' para integrá-los".42
De acordo com Andrade, Merleau-Ponty
desejou formular o encontro do fisiológico e do psíquico por
assim compreender a existência direcionada ao mundo. Mas
esse encontro não estava na ordem da causalidade e se dava a
todo o momento em relações de trocas muitas vezes
indeterminadas. Assim a cada instante que se dá a existência.
há a união de corpo e alma onde por vezes não é possível
delimitar o que é corporal, o que é da alma por estes estarem

41
RAMOS, 2010, p. 48
42
Martini (2006, p. 62)
- 79 -

em relação constante. Sendo assim “Existe, portanto, uma


impossibilidade de distinguir o psíquico do fisiológico. Para
Merleau-Ponty, parece evidente a união vital entre ambos e
dessa maneira parece esclarecida a instauração de um meio
comum entre psíquico e fisiológico”.43
“A união entre a alma e o corpo não é selada por
um decreto arbitrário entre dois termos exteriores, um objeto,
outro sujeito. Ela se realiza a cada instante no movimento da
existência”.44 De acordo com Martini o corpo-sujeito, é a
maneira de um sujeito estar presente no mundo e deste ultimo
presentificar-se a ele por meio de experiências vividas como
sujeito pensante e sujeito corporal, o ser no mundo, dimensão
em que psíquico e somático estão integrados. Ao seguir a
mesma linha de raciocínio temos Veríssimo e Furlan (2007,
p.338) quando afirmam: “Quando o comportamento é tomado
em sua unidade e em seu sentido humano, não se trata mais de
uma realidade material, ou de uma realidade psíquica, mas de
um conjunto significativo”. Pode-se assim compreender, tendo
uma visão ampla do comportamento humano e de seu
significado, que não é uma simples união do psíquico com o
físico, mas algo que de fato acontece a todo o momento.
Para Merleau-Ponty, é o sujeito encarnado, isto
é, o pensamento deste que está em contato direto com a
experiência sensível, que está diante dos questionamentos do
mundo e do corpo, envolvido sempre em diversas relações. O
sujeito está aberto para o mundo, e a todo o momento tem as
influências deste, percebe e sente, assim como o mundo sofre
interferências do homem. Isso se dá das mais diversas formas,
pois cada sujeito irá perceber e sentir o mundo de forma
diferente, o que faz com que a experiência seja única e isto

43
ANDRADE, 2010, p. 103
44
MERLEAU-PONTY, 1999.p. 13
- 80 -

caracteriza a existência humana. As coisas do mundo não são


capazes de sentir e perceber por não possuírem consciência,
elas simplesmente são, ser-em-si. Diferentemente de nós que
temos consciência, para-si, o que caracteriza o humano como
capaz de sentir e perceber.
Como categoria da filosofia existencial o termo
existência significa a maneira de ser própria do homem. Só o
homem existe como modo de ser encarnado, enquanto corpo-
sujeito. Ele não é uma coisa no meio de outras coisas. Mas ele
não é também uma interioridade fechada sobre si mesma no
seio de suas representações imanentes como queria Descartes.
45 E apesar de Siqueira (2002) ter demonstrado que Merleau-
Ponty superou o dualismo sartriano do “em-si” e do “para-si”
por meio da percepção, o próprio Sartre (1997) sinaliza para a
realidade do homem, como ser-no-mundo, avançar
necessariamente para uma unidade entre o “em si” e o “para
si”. De todo modo, Merleau-Ponty, como Sartre, caracteriza o
homem como ser-no-mundo, o sujeito encarnado que se
constitui nesse contexto permanente com o mundo da sua
percepção.
Vimos com Descartes que o conhecimento se dá
por meio da reflexão e do pensamento. Já Merleau-Ponty
acentua a importância da percepção na construção do
conhecimento. Vimos também que no modo cartesiano “o
corpo é como uma soma de partes sem interior, e a alma um
ser inteiramente presente a si mesmo, sem distância”, como se
pudéssemos separar o de dentro e o de fora, não constituindo
uma unidade, mas Merleau-Ponty aponta que a distinção entre
corpo e alma não era bem determinada como afirmava
Descartes, não sendo possível fazer tal separação, pois o
conceito “corpo próprio” já demonstra a ambiguidade da
45
CAPALBO, 2003, p. 17
- 81 -

existência, em que não há causalidade, em que tudo se dá num


movimento único da existência. Não havia, portanto,
diferença entre corpo e alma, entre consciência e mundo, e sim
a fusão dessas instâncias Portanto, “a concepção
merleaupontyana de corpo é uma reação direta à concepção
cartesiana de corpo”.46
Em Descartes a percepção era enganosa e só era
possível chegar à verdade e ao conhecimento através do
pensamento e do raciocínio. Merleau-Ponty, contudo, é
pontual ao afirmar que quando Descartes nos diz que a
existência das coisas visíveis é duvidosa, mas que nossa visão,
considerada como simples pensamento de ver, não o é, essa
posição não é sustentável, pois não se teria o pensamento de
ver, mesmo que em possibilidade ou alucinação, se não se
tivesse a visão na realidade.47 Pela reflexão fenomenológica,
encontramos a visão não como ‘pensamento de ver’, segundo
a expressão de Descartes, mas como olhar em posse de um
mundo visível, e é por isso que aqui pode haver um olhar de
outrem, este instrumento expressivo que chamamos de um
rosto pode trazer uma existência assim como minha existência
é trazida pelo aparelho cognoscente que é meu corpo.48
Em Merleau-Ponty, percepção não é sinônimo de
sensações pontuais dadas pelos sentidos, como afirmava
Descartes, e ela não se dá pelo mero trabalho do espírito. A
percepção é o fenômeno que dá sentido às coisas, entendendo
que sentido é “um pensamento sujeito a um certo campo”,
pois o ser tem sentidos que lhe dão acesso ao mundo,
embora isto não signifique uma retomada do pensamento

46
FEITOSA et al, 2007,p. 86
47
MERLEAU-PONTY, 1999, p. 501
48
MERLEAU-PONTY, 1999, p. 471
- 82 -

causal, e sim que é possível “encontrar um sentido em


aspectos do ser sem que o próprio (ser) o tenha dado”.49
Descartes sustentava uma visão mecanicista de corpo,
concebendo-o “como uma máquina, cuja existência independe
totalmente da alma ou da consciência”, e seu funcionamento
obedeceria a leis do universo, seguindo princípios da
mecânica, e podendo até se movimentar sem a presença de
uma alma, ou seja, sem a intencionalidade.50
Merleau-Ponty falará da motricidade originária do
corpo como alternativa ao corpo mecânico cartesiano. E
argumenta que se o movimento é gerador do espaço, está
excluído que a motricidade do corpo seja apenas um
‘instrumento’ para a consciência constituinte, afinal, “o
movimento do corpo só pode desempenhar papel na percepção
do mundo se ele próprio for uma intencionalidade original,
uma maneira de se relacionar ao objeto, distinta do
conhecimento”.51 Dessa forma, pela ação do corpo próprio no
espaço, se torna possível fundar objeto e sujeito. E é através da
motricidade que o ser se lança ao mundo, em busca do sentido,
que “engloba tanto a significação intelectual (simbólica),
como a significação motora, de modo que não há separação
entre o dado sensível e o entendimento na apreensão que eu
tenho do mundo”.52
Outro ponto criticado por Merleau-Ponty na
teoria de Descartes foi o cogito, onde este afirmava possuir
certeza de sua existência por estar certo de pensar. De acordo
com Ramos (2010) Descartes acreditava que para refletir era
necessário isolar-se de tudo ao seu redor, em uma tentativa de

49
MERLEAU-PONTY, 1999, p. 292
50
MOREIRA, 1997
51
MERLEAU-PONTY, 1999, p. 518
52
MOREIRA, 1997, p. 403
- 83 -

se afastar do mundo, e assim o sujeito pensante iniciaria toda e


qualquer reflexão. Já para Merleau-Ponty o sujeito pensa e
decide estando já preso à relação com o outro: “não há vida
em grupo que nos livre do peso de nós mesmos, que nos
dispense de ter uma opinião; e não existe vida interior que não
seja como uma primeira experiência de nossas relações com o
outro”.53
O cogito cartesiano põe em destaque somente os
aspectos do pensamento e despreza os aspectos existenciais.
Em outras palavras, “o pensamento de Merleau-Ponty procura
recuperar o estatuto originário da percepção ou sensibilidade,
substituído na filosofia de Descartes pela ordem do
pensamento ou representação”.54 Merleau-Ponty afirma que é
indubitável que eu penso; mas afirma também que não se pode
separar o pensamento da coisa da percepção dessa coisa no
mundo. A percepção e o percebido têm necessariamente a
mesma modalidade existencial, já que não se poderia separar
da percepção a consciência que ela tem (ou, antes, que ela é)
de atingir a coisa mesma. Não se pode manter a certeza da
percepção recusando a certeza da coisa percebida. O
verdadeiro Cogito não define a existência do sujeito pelo
pensamento de existir que ele tem, não converte a certeza do
mundo em certeza do pensamento do mundo. O verdadeiro
cogito não substitui o próprio mundo pela significação mundo.
O cogito cartesiano desvaloriza o outro quando não trata da
percepção deste outro e quando afirma que o eu só é acessível
a mim mesmo.
Para Reis (2009) um dos grandes problemas em
Descartes, visto por Merleau-Ponty, foi não ter considerado a
dimensão do tempo, “ao sustentar uma conexão entre essência

53
MERLEAU-PONTY, 2004 apud ANDRADE, 2010, p. 33.
54
FURLAN e R0ZESTRATEN, 2005, p. 60
- 84 -

e existência dada pelo infinito e não pela experiência


temporal, de onde decorria sua idéia dogmática do ser” (REIS,
2009, p. 69). Merleau-Ponty (1999, p. 534): “Em suma,
restituímos ao cogito uma espessura temporal. Se não existe
dúvida interminável e se ‘eu penso’, é porque me lanço em
pensamentos provisórios e porque de fato domino as
descontinuidades do tempo”.
Sendo assim, é demonstrado que toda consciência
é uma consciência perceptiva encarnada e situada no mundo.
O sujeito está situado no mundo e dele não pode afastar-se,
pois “se o sujeito está em situação, se até mesmo ele não é
senão uma possibilidade de situações é porque ele só realiza
sua ipseidade55 sendo efetivamente corpo e entrando, através
desse corpo, no mundo”. 56
Merleau-Ponty afirma não compreender a posição
cartesiana de que um ser pode conhecer-se por inteiro. Ele
argumenta que o sujeito é o próprio tempo: “Nunca
compreenderemos como um sujeito pensante ou constituinte
pode pôr-se ou perceber-se a si mesmo no tempo”.57 Segundo
Feitosa et al (2007, p. 87) [...] “a unidade do corpo, no
horizonte do vivido, é necessariamente aberta e inacabada”. E
de acordo com Merleau-Ponty, podemos compreender o
Cogito como engajamento ao mundo, pois “o nosso corpo,
enquanto se move a si mesmo (no mundo) é inseparável de
uma visão de mundo, e é essa visão realizada, a sua condição
de possibilidade”.58

55
Aqui IPSEIDADE se refere ao movimento circular e constante, às vezes
paradoxal, que se estabelece entre o homem e o mundo, considerando que
o homem é ao mesmo tempo uma singularidade e uma realidade que não
pode se constituir fora do outro.
56
MERLEAU-PONTY, 1999, p. 547
57
MERLEAU-PONTY, 1999, p. 570
58
MERLEAU-PONTY, 1999, p. 519
- 85 -

É como presença do ser no mundo que Merleau-


Ponty compreende a existência, cuja expressividade o corpo
possibilita e inaugura. Diante de reflexões cartesianas, as
dimensões do cogito, da temporalidade e da liberdade são
vistas por ele como simples possibilidades do ser no mundo,
ou então como expressões existenciais do sujeito. A
temporalidade, além de dar acesso à subjetividade possui uma
linha transversal que forma uma rede de intencionalidades,
sendo o tempo a maneira como a pessoa temporaliza seu
próprio ser e, por consequência, o ser dos outros. Entendemos
então que o tempo para Merleau-Ponty é a forma como
projetamos nossas experiências e relações, e é assim, nesse
movimento, que sujeito e mundo vão projetando sentidos.
Toda essa dedicação de Merleau-Ponty em
repensar não somente a filosofia cartesiana, mas também todo
o conhecimento filosófico estabelecido até Kant e a
compreensão de homem que se tinha até então, teve o seu
início, segundo Monteiro (2007), em 1926 na Sorbonne,
quando Merleau-Ponty conheceu Jean-Paul Sartre e outros
estudantes que questionavam a filosofia ensinada na
Universidade, cujos cursos abordavam somente até Kant. Eles
reconheciam a importância do filósofo alemão, mas queriam
que a filosofia tratasse dos problemas da sua época, que se
preocupasse com a existência humana. Tal movimento causou
grande impacto na intelectualidade francesa, sobretudo por
pensar a condição humana em seu meio natural, cultural e
histórico, como ser-no-mundo, mais do que como essência ou
como ser ideal, como fazia a chamada filosofia da consciência,
inaugurada por Descartes e estabelecida com Kant.
Como observa Figueiredo, o projeto cartesiano se
norteia pela busca de um fundamento absoluto e indubitável
para o conhecimento e a ciência ainda sofre profunda
- 86 -

influência do pensamento cartesiano, como nos aponta Furlan


(2001), ao afirmar que quando a Medicina trata do corpo nos
aspectos físicos e químicos e a Psicologia trata da “alma”,
ambas reconhecem a influência da alma e do corpo no ser
humano, ainda que em categorias distintas. E é dessa forma
que o dualismo cartesiano “impede os médicos de
considerarem seriamente a dimensão psicológica das doenças
e impede os psicoterapeutas de lidarem com o corpo de seus
pacientes” (Capra, 2006, p. 55). De acordo com Capra o
método cartesiano foi de grande importância para o
desenvolvimento da ciência moderna e ainda pode ser
relevante nos dias atuais, entretanto, devem-se considerar suas
limitações. O pensamento cartesiano não deve ser assimilado
como verdade incontestável, ou como única forma de chegar
ao conhecimento, pois “A ciência desconsidera a relação que
se estabelece entre o homem e o mundo ao seu redor, partindo
do pressuposto da possibilidade da objetividade”.59 A
compreensão do ser humano como nos propôs Descartes é
uma forma reducionista e surge um grande impasse, pois [...]
“o problema é que os cientistas, encorajados por seu êxito em
tratar os organismos vivos como máquinas, passaram a
acreditar que estes nada mais são que máquinas” 60
Merleau-Ponty também reconhece algumas
contribuições de Descartes tendo em vista sua época e os
acontecimentos que vivenciava, sendo possível destacar os
avanços e as lacunas no pensamento cartesiano (Reis, 2009),
mas segundo Veríssimo e Furlan (2007), a Psicologia em seus
primórdios estava diretamente relacionada à Filosofia e
ocupava-se em descrever a percepção, o instinto e a vontade,
dentre outros. No século XIX, a Psicologia com o objetivo de

59
SILVA, 2009, p. 140
60
CAPRA, 2006, p. 57.
- 87 -

libertar-se da filosofia e situar-se no ramo da ciência aliou-se


às ciências experimentais de ordem psicofísica e
psicofisiológica, buscando “ser uma ciência natural e, assim,
permaneceu fiel ao realismo e ao pensamento causal”.61
Nas palavras de Merleau-Ponty: “Por muito
tempo se definiu o objeto da psicologia dizendo que ele era
“inextenso” e “acessível a um só”, e daí resultava que esse
objeto só podia ser apreendido por um ato todo especial, a
“percepção interior” ou introspecção, na qual o sujeito e o
objeto estavam confundidos e o conhecimento era obtido por
coincidência. Entretanto, Merleau-Ponty discorda desses
aspectos e afirma que “a própria introspecção, reconduzida ao
que tem de positivo, consiste em explicitar o sentido imanente
de uma conduta”.62 assim, a introspecção seria a descrição
daquilo que o ser em sua totalidade realiza em ações. Discorda
da introspecção do ponto de vista da psicologia clássica, pois
essa se separa do mundo físico e considera que a consciência é
uma parte do ser e não considera a existência do mundo em
torno dela, o que nos levar a crer que existia aí uma dualidade.
Como apontado, Merleau-Ponty criticou a
psicologia clássica devido à utilização da introspecção como
método para atingir os fenômenos interiores, assim como
também criticou a visão comportamental, onde os
acontecimentos psíquicos se dão em uma relação de causa e
efeito, baseado em funções biológicas e neurológicas. Ele
atribui ao comportamento um sentido diferente da metafísica
clássica da época, pois “o comportamento não é soma de
reflexos, mas surge como um conjunto de reações
significativas”.63 Também podemos compreender tal

61
VERISSIMO e FURLAN, 2007, p. 335
62
MERLEAU-PONTY, 1999, p. 91
63
CREMASCO, 2009, p.52
- 88 -

exposição em Maciel (1997, p. 124): “Merleau-Ponty inicia a


busca de uma via de acesso que torne possível o
comportamento como entrelaçamento do homem com seu
mundo, sem utilizar-se da hipótese de uma causalidade
produtora, mas referindo-se à noção de comportamento como
uma tentativa de superação da distinção clássica do psíquico e
do fisiológico.
Merleau-Ponty contribui de forma significativa
para a Psicologia, pois seus postulados estão diretamente
relacionados à fenomenologia, e de acordo com Silva (2009,
p. 139) “Para a fenomenologia conhecer é apropriar-se das
essências das coisas, o que só é possível a partir da atribuição
de sentido dada por uma consciência, ou seja, o fenômeno é
indissociável da subjetividade”. Silva (2009, p.142) nos
esclarece quando afirma que na medida em que se volta para
os fenômenos, a fenomenologia impõe uma crítica à ciência
meramente empírica, por entendê-la incapaz de apreensão das
coisas nas suas constituições originárias, em virtude do seu
compromisso com a objetividade.
Segundo Gonçalves et al (2008) na fenomenologia
de Merleau-Ponty a intencionalidade, que é o dirigir-se para as
coisas do mundo, torna-se atributo do corpo, e é pela
percepção que o homem está comprometido com o mundo e
não mais pela consciência constituinte. Dessa forma [...] "a
ênfase na percepção diminui a importância da consciência no
estudo psicológico, colocando em seu lugar o corpo e a
existência". A percepção permitiu a este filósofo cumprir a
tarefa primordial da fenomenologia: retornar às coisas
mesmas. O uso que ele faz do método fenomenológico
consiste na denúncia de que os experimentos científicos sobre
o comportamento negligenciam a existência sensível, nos
quais seus postulados se apóiam.
- 89 -

Como nos mostra o método fenomenológico


apresentado por Merleau-Ponty, há uma unidade entre corpo e
mente - representações inseparáveis. A compreensão do ser
humano deve ser pensada não como a soma de suas partes,
mas sim como um todo indivisível, sujeito biopsicossocial. A
compreensão do sujeito perpassa por conflitos e segundo
Piccino (2003), em qualquer experiência transtornante, não é o
corpo ou o psíquico, ou esta ou aquela parte do corpo ou do
psíquico que é afetada, mas a relação do homem com o
mundo. Independente da complexidade do transtorno ele é
existencial e está relacionado com a experiência vivida pelo
sujeito, o que significa a capacidade do homem em apreender
o essencial das coisas. Muitas foram as contribuições de
Merleau-Ponty para a psicologia, porém aqui destacamos
algumas que são básicas.
O conceito de redução fenomenológica de Husserl
sofre importante inflexão em Merleau-Ponty. Spurling (1977)
apud Moreira (2007) assinala que o existencialismo de
Merleau-Ponty pode ser entendido como uma tentativa de que
a fenomenologia de Husserl finque os pés no chão. Buscando
uma fenomenologia existencialista, de cunho eminentemente
antropológico, Merleau-Ponty aboliu verdades herméticas e
pensamentos idealistas, sustentando que o conhecimento é
sempre incompleto, uma vez que não existe um saber absoluto
e a verdade é um movimento que se vai constituindo no campo
perceptivo, caracterizando-se como um mistério inesgotável,
uma gênese perpétua, sempre aberta.
Sabemos que a redução fenomenológica em
sua concepção original e husserliana é a atitude de colocar
entre parênteses o mundo para que venha à tona o fenômeno
tal como ele é em si mesmo. A inflexão feita por Merleau-
Ponty admite a fundamental importância de não projetarmos
- 90 -

no fenômeno, de modo idealista, os pressupostos (noésicos) de


nossa consciência, mas por outro lado ele assinala que na
verdade é impossível nos desprendermos do mundo quando
visamos qualquer fenômeno ou objeto, seja uma pessoa em
seu sofrimento, em sua realidade, seja uma mera paisagem ou
algum acontecimento. Coelho Júnior (1988) apud Moreira
(2007, p. 224) mostra essa compreensão de Merleau-Ponty da
seguinte forma: “Husserl não duvida da existência do mundo,
mas apenas reconhece que este não pode ser objeto de uma
filosofia que proponha um conhecimento rigoroso. Para
alcançar esse rigor é necessário que primeiro coloquemos em
suspenso esse mundo, depois o juízo que temos dele, do nosso
eu e dos atos desse eu julgador. Merleau-Ponty (1945) apud
Moreira (2007, p. 224) escreve a respeito, assinalando que
todo o mal entendido de Husserl com seus intérpretes, com os
existencialistas “dissidentes” e, finalmente, consigo mesmo,
fundamenta-se em que é exatamente para vermos o mundo e
captá-lo como paradoxo, que devemos romper nossa
familiaridade com ele, e essa ruptura não nos pode ensinar
nada mais do que o surgir imotivado do mundo. O maior
ensino da redução fenomenológica é a impossibilidade de uma
redução completa. Daí que Husserl interrogue-se
constantemente sobre a possibilidade da redução.
Moreira (2004, p. 448) explica ao dizer que
Merleau-Ponty: “... defenderá a idéia de que homem é mundo
e o mundo é homem, o homem é parte do mundo e vice-versa.
Trata-se, então, do enraizamento do homem no mundo, [...] o
que justificará a necessidade da utilização da redução
fenomenológica como um artifício lógico para que o
pesquisador alcance a realidade, ainda que não se possa
esquecer que a maior característica da redução
fenomenológica é que esta nunca é completa. Ou seja, a
- 91 -

prática da redução fenomenológica será sempre uma tentativa,


nunca inteiramente realizada, exatamente pela
mundaneidade64 intrínseca ao homem.
A partir daí podemos compreender que Merleau-
Ponty reconhece a importância fundamental da redução
fenomenológica, embora afirme que ela não é possível em sua
totalidade por todas as razões expostas anteriormente.
Resguardadas as proporções poderíamos compará-la com a
perfeição: impossível alcançá-la, mas fundamental buscá-la.
Sublinhamos a discórdia de Merleau-Ponty com
relação à idéia cartesiana de separação entre sujeito e objeto,
de unilateralidade das relações e de que o mundo é construído
pelo sujeito. Para Merleau-Ponty há uma unidade entre o
individual e o social, por isso ele não repete o discurso
materialista de que o homem é determinado socialmente ou de
que o homem seja constituído pelo mundo ou pela sociedade.
Ele entende o mundo social como campo permanente ou
dimensão da existência, de modo que o sujeito se constitua
com o meio e não através do meio. Esse homem, que é visto,
sempre entrelaçado ao mundo, não é o centro do mundo. Ele
constitui o mundo tanto quanto o mundo o constitui, de tal
forma que inexiste um centro. “Eu não sou o resultado ou
encruzilhada de múltiplas causalidades que determinam o meu
corpo ou o meu ‘psiquismo’, eu não posso me pensar como
uma parte do mundo, como um simples objeto da Biologia, da
Psicologia e da Sociologia, nem encerrar-me no universo da
Ciência. E não se trata de repetir, como já se habituou fazer no
jargão fenomenológico-existencial que o homem é um ser-no-
mundo, mas de esclarecer o que é esse homem e o que é esse

64
O conceito de “pessoa mundana” ou “mundaneidade intríseca ao
homem” refere-se ao fato de o homem ser um ser-no-mundo, de modo que
a existência humana é mundana.
- 92 -

mundo, e seguindo ainda além, Merleau-Ponty busca


averiguar como se verifica o caráter mundano da realidade
humana, porque a conceituação de ser-no-mundo reconhece a
existência de uma experiência mundana que instaura o homem
no mundo antes que ele a reflita. É nesse sentido que Merleau-
Ponty diz que é uma condição pré-reflexiva, o homem se vê
no mundo não como uma escolha, mas é na relação com a
cotidianidade do mundo que o homem se constitui, se afirma,
se realiza. O homem não é um ser passivo e submisso ao que
lhe acontece, ele não é vítima da história. Ele também faz a
história, principalmente a sua própria história. Encontramos
em Sartre a mesma linha de pensamento, pois o homem surge
no mundo e, "de início, não é nada: só posteriormente será
alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo".65
Merleau-Ponty também conclui que na prática
clínica, cliente e terapeuta devem ser concebidos
mundanamente, numa relação que coloca ambos num mesmo
plano de possibilidades de contribuição a este processo, tanto
como sujeitos quanto como objetos, constituídos como
unidades em relação. Portanto, assim como na relação
homem-mundo não há um centro, também na relação
terapeuta-cliente o centro passa a ser a própria relação,
enquanto experiência terapêutica.

65
SARTRE, 1987, p.6
- 93 -

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- 96 -

IV - A Adolescência na Pós-Modernidade:
Um Olhar Psicanalítico

Michele Nazário

Tanto a ausência de regras na educação dos filhos, quanto o


excesso de rigidez, são negativos ao processo de adolescer. Faz-
se necessário que os pais em sua função encontrem um ponto de
equilíbrio. Não há receita. É através da convivência que pais e
filhos poderão identificar seus limites e produzir certas normas
em prol de um convívio melhor.

Na história ocidental, por muito tempo, a


adolescência não recebeu a devida atenção como fase de
desenvolvimento. As crianças não possuíam um espaço
específico na sociedade, e eram consideradas adultos em
miniatura. Conforme Philippe Áries, no período medieval, as
primeiras etapas do desenvolvimento eram enquadradas
apenas como anteriores à fase adulta, e apenas com o surgir da
modernidade a família se voltou para a criança e o cuidado
com os filhos. Somente a partir do século XVIII e
efetivamente no decorrer do século XIX, é que o emprego do
conceito adolescência estabeleceu-se de forma diferenciada no
mundo ocidental. A partir de então, o lugar do adolescente na
sociedade começou a ser constituído à parte da família e do
mundo infantil.
O processo histórico da construção da infância e
da adolescência ocorreu de forma gradativa, permeado por
eventos sociais, e ainda hoje passa por enfrentamentos e
transformações, marcando sua constante evolução.
Atualmente, o conceito de adolescência é múltiplo e não
possui consenso entre as disciplinas que abordam o tema, mas
de modo geral é definido como um processo biológico de
- 97 -

desenvolvimento, sendo um conjunto de transformações


físicas e psíquicas que marcam a transição entre a infância e a
fase adulta.
Assim, a adolescência é pautada por uma série de
transformações físicas e psicológicas, onde o corpo do sujeito
sofre intensas modificações e sua representação psíquica pode
acompanhar ou não tal processo. As mudanças psíquicas
articulam-se com o contexto social e a puberdade, podendo o
adolescente buscar atender expectativas sociais
contemporâneas na busca do “corpo ideal”. Entendendo-se por
corpo ideal na atualidade, um corpo definido, atraente e capaz
de despertar o interesse alheio.
A adolescência para a psicanálise é descrita como
um fenômeno recente. Segundo Alberti, sugere-se que o termo
tenha sido abordado inicialmente por Ernest Jones, e sua
definição tenha sido como um período do desenvolvimento
resultante dos estágios anteriores (primeira infância), “[...]
cujo final feliz se caracteriza pelo estabelecimento de uma
harmonia definitiva advinda da fusão dos diferentes objetivos
pulsionais em direção à genitalização.”
Percebe-se que as descrições fisiológicas e
comportamentais da adolescência definem o processo do
adolescer, mas sabe-se que vai além destes fatores. Como por
exemplo, o âmbito da sexualidade, que na adolescência é
despertada através da puberdade. No entanto, muitos
adolescentes que se encontram nesta fase ainda não estão
iniciados na experiência sexual e apresentam características
ligadas ainda à infância, marcando a complexidade desta fase.
Como propõe Quinet, “... o adolescente definido
simplesmente pela faixa etária que se inicia na puberdade – é
um sujeito que se depara com a conjunção do real do sexo e a
responsabilidade do ato”. O adolescente frente à possibilidade
- 98 -

de relacionar-se sexualmente percebe a responsabilidade e


pressões que tal postura exige, e não é sempre que se mostra
disponível ou preparado para responder de tal lugar. A grande
parte dos autores ao referir-se à adolescência, recorre a Freud
e à sexualidade, que entende a puberdade como um estádio em
que o sujeito pode vivenciar a sexualidade na fase genital66.
Esta concepção teórica entende que a puberdade
pode envolver um sofrimento em que o sujeito adolescente
necessita lidar quando é invadido por transformações
biológicas e sociais, podendo causar-lhe intensa angústia. O
sujeito após a entrada na adolescência, em que biologicamente
encontra-se apto para o exercício sexual, descobre o prazer
através do corpo do outro que agora é alvo do seu desejo. Na
abordagem psicanalítica, a importância da puberdade está na
sua repercussão psíquica, sendo, portanto, o ponto principal
desta etapa de transição entre a infância e a fase adulta.
Diferente da visão biológica, que compreende a puberdade
como um estágio da adolescência, não dando a ênfase da
referida teoria.
A partir do século XIX, quando a adolescência
passa a ser considerada e estudada, a vivência da sexualidade
na puberdade ainda era muito reprimida, tanto em meninas
quanto meninos não podiam expressar e viver seus desejos.
Conforme Bocayuva, a iniciação sexual ocorria nos meninos
por meios alternativos, com objetos como frutas, árvores ou
animais. Contudo, estes hábitos eram condenados
severamente. O Adolescente como sujeito do inconsciente

66
Conforme Laplanche e Pontalis (2001, p.180), a fase ou organização
genital se refere à etapa do “desenvolvimento psicossexual caracterizada
pela organização das pulsões parciais sob o primado das zonas genitais;
compreende dois momentos, separados pelo período de latência: a fase
fálica e a organização genital propriamente dita que se institui na
puberdade”.
- 99 -

possui suas peculiaridades e questões. Portanto, estar dentro


de uma faixa etária específica ou apresentar mudanças
corporais típicas, não necessariamente implica em vivenciar
de forma ampla a adolescência.
De acordo com Freud, “O termo puberdade,
compreende tanto as transformações corporais quanto as
transformações psíquicas que as acompanham. Para ele, o
período pubertário é a abertura de um túnel por seus dois
lados”, e se refere a toda a adolescência. Atualmente, muitos
autores a partir leitura psicanalítica, referem-se à adolescência
de forma diversa. Laufer (1983) define a adolescência como
“o período que vai da maturidade sexual física até o momento
em que o indivíduo afirmou uma identidade sexual irreversível
ou, como Freud o descreveu, uma ‘organização sexual
definitiva, estendendo-se de 12 ou 13 a 21 anos”.
O processo de angústia que o adolescente está
envolvido poderá gerar uma crise relacionada às diversas
alterações e modificações vivenciadas pelo sujeito que se
depara com novas situações a serem incorporadas ao seu estilo
de vida. Nova identidade, novos olhares, novo desejo, novo
corpo, entre outros. E lidar com tais mudanças, pode não ser
uma tarefa fácil, e por isso é comumente chamada de crise da
adolescência, contudo, esta não é necessariamente ruim ou
patológica.
O sujeito adolescente vive uma ambiguidade, em
que se depara com as exigências de um mundo próximo ao do
adulto, e ainda enxerga-se vinculado ao mundo pueril e
idealizado dos pais. Frente a tantas transformações típicas do
universo adolescente, saídas diversas são possíveis, e cabe ao
adolescente escolher qual adotar para si. Sobre o adolescente,
e suas transformações propõe Dantas que este possui vontades
e prazeres semelhantes daqueles vivenciados pelos adultos.
- 100 -

“Eles são adultos de férias, sem lei. Sabemos, no entanto, que


nem tudo são flores, neste universo de descobertas. A
adolescência é também tempo de conflito e luto”.
As demandas biopsicossociais provenientes do
desenvolvimento e mudança corporal fazem com que o
adolescente recorra a um processo de luto para que consiga
enxergar-se neste novo lugar. O luto corresponde não somente
ao corpo infantil, com suas características pueris que precisam
ser abandonadas, mas a todo um repertório de ideais e
conceitos que precisam ser reelaborados. O abandono dos
princípios e posturas anteriores gera intensa ansiedade, pois o
adolescente vê-se diante de um novo estado, que por muitas
vezes é temido por ser desconhecido. Todas essas oscilações
podem conduzir a um comportamento considerado de risco,
tendendo à morte, porém de maneira sutil, através dos jogos
grupais e condutas ousadas tão comuns no universo
adolescente.
O adolescente necessita de tempo para elaborar o
novo corpo, que se impôs à sua vontade, e assim se adaptar a
ele. Porém, só é possível se chegar a esta conformidade por
meio do enfrentamento do luto. Para que o trabalho de luto
aconteça, o adolescente contará com o apoio dos grupos com
os quais se identifica, pois juntamente a esses amigos é que ele
encontrará a confiança necessária para enfrentar esta nova
etapa da vida. Os pais são figuras importantes neste processo
de luto. Apesar de assumirem uma posição mais distante,
devem estar presente, caso os filhos necessitem de um suporte
e amparo. Há também neste contexto as paixões e desejos da
adolescência que inscrevem o sujeito, como um ser mais
erotizado e apto ao exercício sexual, o que possibilita o
investimento amoroso por parte do adolescente, auxiliando-o
no estabelecimento de um lugar.
- 101 -

De acordo com Dias “Esse encontro com o desejo,


se bem sucedido, permitirá a apropriação de um novo corpo –
o corpo sexuado, afetando não só a relação com o Outro
parental, como também a relação com o outro semelhante”. O
adolescente erotizado, e por muitas vezes nomeado de rebelde
e desobediente, traz uma nova configuração para a cena da
relação parental. De acordo com Aberastury, não só o
adolescente padece este longo processo, mas também os pais
têm dificuldades para aceitar o crescimento como
consequência do sentimento de rejeição que experimentam
frente à genitalidade e à livre manifestação da personalidade
que surge dela. Os pais necessitam realizar também um
trabalho de luto em função da criança que deixou de existir, e
está tornando-se adolescente. Neste momento, a relação de
dependência do filho é menor, o que pode causar um mal estar
nos pais, que sofrem por não exercer seus papéis paternos
como outrora.
Mediante todas as mudanças que se apresentam no
corpo do adolescente e suas implicações psíquicas, este deve
adotar uma postura diferente da dos tempos de infância, frente
ao mundo e aos pais. Contudo, para que este novo
posicionamento aconteça, o adolescente deverá ter elaborado
os vários lutos que estiveram presentes nesta etapa do
desenvolvimento como: o luto em função do corpo infantil
perdido, pelos pais da infância que já não o satisfaz e ainda, da
identidade infantil que deu lugar à maturidade do adolescer. O
adolescente ao olhar-se no espelho, se desconhece, desconhece
suas formas e seu corpo, que agora tem poucas características
de antes. As marcas da infantilidade deram lugar ao
crescimento e desenvolvimento mais erotizado, exigindo deste
sujeito um novo olhar e reconhecimento, não apenas físico,
mas também psíquico.
- 102 -

De acordo com Aberastury, o sujeito adolescente


só consegue se reconhecer como um ser em transformação e
inserido em um contexto flutuante quando enxerga o lugar de
onde saiu, neste caso a infância, com suas características
pueris, e se dirigir para o futuro representado pelas
responsabilidades e maturidade da vida adulta. Surge em meio
a tantas transformações, a necessidade do sujeito adolescente
incorporar ao seu psiquismo sua nova representação corporal,
que estará relacionada à sua nova forma de ser no mundo, ou
seja, sua real identidade. Sobre a identidade adolescente em
função do reconhecimento do corpo, propõe Aberastury, que
no inicio do processo do adolescer, o sujeito se encontra de
forma confusa, pois está separado do meio familiar, e as
alterações do seu corpo sugerem o desprendimento do corpo
infantil, sendo necessária a readaptação de seu lugar perante o
mundo e a realidade que o cerca.
O rompimento do vínculo parental causa
sofrimentos para o adolescente e seus pais, porém é
imprescindível para a construção de sua identidade adulta.
Além da ruptura com os pais, o adolescente deve desvincular-
se de sua imagem corporal infantilizada que perdurou durante
a infância que se fez presente até então. É importante afirmar
que este processo envolve a subjetividade e a idiossincrasia,
ou seja, cada adolescente reage de determinada maneira frente
a estas exigências do curso de desenvolvimento.
As mudanças corporais típicas da adolescência
significam para esse sujeito muito além das alterações
fisiológicas, está relacionada a alterações no exercício da
sexualidade e a construção da identidade adulta. Uma renúncia
do lugar infantil é demandada, pois ser considerado uma
criança para o adolescente pode ser algo pejorativo e
desagradável. As mudanças frente ao abandono do mundo
- 103 -

infantil podem ser dolorosas, e o indivíduo deve ter a


consciência que elas acontecem independentes de sua vontade
e escolha, causando um incômodo maior, fazendo com que o
adolescente mude externamente para sentir-se bem e incluído
neste novo mundo. De certa forma poder mudar seu estilo de
vestir, pentear-se ou maquiar-se, traz a impressão de controle,
controle este que desejava possuir frente suas alterações
internas que lhes são impostas.
O encontro com o sexo, ou seja, a erotização do
corpo infantil faz do adolescente não mais o alvo apenas dos
olhares paternos, seu corpo aparece como alvo do desejo de
outros. Contudo, este olhar desejante pode desencadear
sentimentos de angústia, insegurança e temor, em virtude dos
intensos conflitos. De acordo com Campagna & Souza (2006),
para que haja um reconhecimento do próprio corpo e uma
possível vivência da sexualidade, o adolescente deve trabalhar
não somente os seus sentidos, mas a representação que este
corpo possui em seu psiquismo e os sentimentos envolvidos.
A nova imagem corporal vai sendo admitida, através da
relação do sujeito consigo mesmo e com os outros, porém vale
ressaltar que esta imagem é dinâmica e sujeita a alterações.
Um exemplo de afirmação da imagem corporal na
adolescência são os agrupamentos que visivelmente
apresentam características físicas comuns, como: grupo de
roqueiros, intelectuais, populares, etc. A busca por amigos que
compartilhem características e comportamentos similares,
possibilitam ao adolescente maior segurança e autoafirmação.
O corpo amadurecido e transformado surge como
um estranho a este adolescente que estava habituado e
acostumado ao corpo infantilizado. É somente de forma
gradativa, e com reorganização da subjetividade que o
adolescente consegue adaptar-se à nova imagem,
- 104 -

possibilitando que o corpo até então estranho se torne familiar.


Em meio a todos os incômodos relativos ao processo de
maturação e desenvolvimento, como: aumento da acne,
crescimento desproporcional dos membros e aumento dos
pelos pubianos, cabe ao adolescente remanejar suas
imperfeições, de tal maneira, que consiga encontrar um estado
confortável para sua acomodação frente a tantas mudanças.
A adolescência é um período de significativas
mudanças em que o sujeito adolescente está construindo sua
identidade e marcando seu lugar; para que isto aconteça é
imprescindível que haja uma ruptura entre pais e filhos. Esta
separação pode acontecer de forma gradativa e dolorosa,
contudo, é importante para que o adolescente passe de um ser
desejado e idealizado, para um sujeito desejante. É necessário
que o sujeito exerça a sua subjetividade, e então, comesse a
desfrutar de mais autonomia e “liberdade”, explorando o
mundo a sua maneira e colecionando suas próprias
experiências. Da mesma forma que o adolescente é idealizado
perante os pais, estes possuem também uma idealização diante
do indivíduo em desenvolvimento. Os pais buscam encontrar
no adolescente as suas próprias fantasias, e anseios, marcando
um resgate dos seus desejos, revivendo a busca pela auto-
realização.
De acordo com Alberti, diferente do que algumas
pessoas pensam, o adolescente necessita da presença de seus
pais, mesmo que distante, pois, é importante para o sujeito a
opção de escolha de lançar mão ou não deles, caso contrário,
ou seja, diante da ausência dos mesmos, o indivíduo perde seu
poder de escolha. Apesar de o adolescente buscar a todo o
momento sua independência em relação aos pais, estes são
indispensáveis frente ao processo de separação, pois para que
tal processo ocorra, o adolescente deve sentir-se seguro e
- 105 -

amparado, tendo consciência de que frente às angústias de


suas escolhas tem para onde recorrer. Assim, a busca de
autonomia dos filhos pode ser interpretada como rebeldia, o
que leva muitos pais a se distanciarem e negligenciarem a
importância de sua função parental. Visando evitar conflitos,
optam pelo abandono, quando não se posicionam frente às
questões da adolescência.
Conclui-se com isso que o excesso de liberdade, a
falta do estabelecimento de regras, o não posicionamento dos
pais na educação dos filhos, bem como o excesso de rigidez e
controle, são considerados negativos ao processo do adolescer,
faz-se necessário que os pais em sua função encontrem um
ponto de equilíbrio. Ponto de equilíbrio este que irá depender
das características do filho, ou seja, como se apresenta este
sujeito. Não há receita e regras de como fazer o certo, através
da convivência pais e filhos poderão identificar seus limites e
assim produzir suas regras em prol de um convívio melhor.
Alberti descreve que a adolescência envolve antes
de qualquer coisa dois tópicos: 1) “um longo trabalho de
elaboração de escolhas e 2) um longo trabalho de elaboração
da falta do Outro.” No tópico 1, sobre as escolhas do
adolescente, considera-se: na adolescência o sujeito
construindo sua identidade, terá que em muitos momentos se
posicionar de forma incisiva, contudo, a causa de maior
angústia não se refere somente ao ato de escolha em si, mas à
sustentação deste desejo. Durante a adolescência escolhas
relacionadas ao grupo de amigos ao qual pertencer também
estão presentes, bem como, a nova posição a ser ocupada no
ambiente familiar, suas responsabilidades, escolhas
profissionais e afetivas que exigem deste adolescente um lugar
a ser conquistado.
- 106 -

Sobre o tópico 2, verifica-se que o adolescente


frente ao Outro67, ou seja, diante da cultura, meios de
comunicação, convívio social, e na sua relação familiar, se
reconhece tão faltoso quanto seus pais, tendo que a partir desta
nova realidade lidar com sua incompletude. Então, há para os
pais uma série de lutos que precisam ser vivenciados durante a
adolescência de seus filhos, como: o corpo infantil e o papel
de cuidadores de tempo integral que são perdidos. Como esses
lutos serão trabalhados depende do sujeito e da significação
que atribuirá a tais vivências. Os pais por muitas vezes, criam
expectativas e buscam realizar seus sonhos e desejos que
foram abandonados no passado, através da vida de seus filhos.
Então, enxergar o adolescente que agora dirige a sua própria
vida, com seus próprios sonhos, metas e objetivos, é diferente
para estes pais que terão de abrir mão novamente de seus
projetos e realizações devido ao novo posicionamento de seus
filhos. Assim, se verão duplamente fracassados.
Cabe aos pais aprenderem a reconhecer-se
enquanto falhos, visto que agora seus filhos não mais os
idealizam como antes e os confrontam com frequência.
Alberti, descreve que “[...] toda criança idealiza de alguma
forma por seus pais, mas à medida que ela cresce, percebe aos
poucos as suas falhas, de forma que o terreno vai se
preparando para o processo de separação da adolescência”. Os
adolescentes, agora não tão ligados aos pais, passam a investir
tempo e atenção na relação com os pares, buscando por meio
do processo de identificação o grupo de amigos ao qual se
integrar. Na adolescência, o sujeito não mais se encontra
pautado por aspectos infantis, e precisa abandonar o que não é

67
De acordo com Alberti (2008, p.13), o Outro corresponde “à referência a
uma alteridade, escreve-se com letra maiúscula, em virtude da importância
e especificidade em relação aos demais, os quais o sujeito possui relação”.
- 107 -

sustentado como verdade nesta etapa, como: o ideal de corpo


infantilizado e o apego aos pais. Neste contexto, o grupo de
amigos, exerce um significativo papel no acolhimento deste
adolescente, visto que são companheiros da mesma vivência
conflituosa.
No grupo ao qual está inserido, o adolescente
reconhece traços identificatórios que acabam por gerar
conforto e segurança, pois todos os presentes enfrentaram o
mesmo processo de ansiedade frente à saída do universo
infantil em direção à adolescência. É ainda em meio à
cumplicidade dos amigos que o sujeito adolescente encontra
suporte para trabalhar a desidealização das figuras parentais.
Os pais para o adolescente deixam de assumir o lugar de
referência, sendo deslocado para os pares, assim o adolescente
se torna mais vulnerável à fala dos amigos que são figuras de
grande importância neste momento. Podemos citar como
exemplo, o adolescente que diante do convite dos pais para
uma reunião em família e o convite dos amigos para uma
balada, não hesita em optar pela curtição com os amigos, visto
que agradar e ser aceito no grupo dos seus, tem uma
importância significativa nesta etapa do desenvolvimento.
Outro exemplo está situado no campo do discurso, onde os
conselhos dos amigos são considerados e por muitas vezes
seguido como verdade absoluta, enquanto que a fala dos pais
carregam uma significação retrógrada e careta.
O adolescente necessita de liberdade e espaço para
desempenhar sua função de sujeito, entretanto é
imprescindível que os pais exerçam certa autoridade, impondo
os limites necessários para que este se sinta amparado,
cuidado, observado e acolhido. Liberdade neste contexto, não
se refere a abandono, mas a credibilidade oferecida pelos pais,
para que o filho siga passo a passo seu curso de
- 108 -

desenvolvimento e transformação. De acordo com Alberti


(2008) o adolescente na construção de sua identidade e
subjetividade, ainda que utilize de certa liberdade para fazê-lo,
sofre influências não só dos pares, figuras com os quais se
identifica, mas também dos pais da infância que se encontram
introjetados em seu ser.
A adolescência com todas as suas transformações
e rupturas torna-se um processo difícil e conflituoso para pais
e filhos, exigindo de ambas as partes uma adaptação e
aceitação que acontece de forma gradativa. Apesar de a
adolescência ser reconhecida socialmente em função de uma
faixa etária, percebe-se através de toda esta discussão aqui
realizada, que o adolescer não se prende apenas a esta questão.
O sujeito sai da adolescência quando consegue exercer sua
autonomia em relação às vontades e expectativas dos pais,
assumindo sua própria identidade e desejo. O adolescente não
é mais considerado, a criança idealizada dos pais, nesta etapa
pode romper com as projeções parentais, para finalmente
marcar seu desejo e legitimar sua real identidade. A partir das
colocações aqui feitas sobre as dificuldades e transformações
da adolescência, o sujeito adolescente ainda que imerso em
uma sociedade fluida e competitiva, tem conquistado e
sustentado seu lugar, e é para esta questão que este capítulo se
dirige.
De acordo com Bauman, a sociedade moderna é
caracterizada por sua fluidez, e estado líquido o que
anteriormente não era evidente. Na modernidade os conceitos
e as tradições já não se apresentam de forma tão rigorosa, mas
de maneira dinâmica e volúvel. A modernidade líquida se
opõe ao rigor da época sólida, onde se notava um
aprisionamento temporal e espacial dos costumes e tradições
da sociedade. A velocidade aparece como um dos principais
- 109 -

atributos desta época, no campo do saber o acesso à


informação é rápido e simultâneo, assim como a disseminação
de idéias e notícias. Quanto ao movimento e a locomoção,
também se tornaram ágeis e úteis para o exercício do poder e
dominação.
A liquidez do tempo moderno pode ser descrita e
exemplificada através das mudanças nos modelos e padrões
familiares, em que arranjos diversos são produzidos
socialmente, o que antes era impossível devido à supremacia
do modelo de família nuclear tradicional. Assim como o
modelo familiar na modernidade não é mais único, o padrão
de beleza também é variante, bem como os ideais de
relacionamento e valores. As ofertas de consumo geram no
sujeito moderno um desenfreado comportamento em prol da
obtenção de produtos, onde quanto mais se tem, mais se
deseja, pois aquilo que fora adquirido perde o valor e se torna
descartável com muita facilidade, em virtude da necessidade
imposta de aquisição e imediatismo. Diante de tais
considerações acerca da nova organização social fluida, como
esperar do adolescente um posicionamento pautado em regras,
normas e tradicionalismo? Na modernidade há uma gama de
opções e estilos de vida que podem ser adotados, os
adolescentes podem escolher a que grupo pertencer, ser
surfista, roqueiro, intelectual, baladeiro, sem receber
aparentemente uma punição severa por isto. Não há uma única
identidade a ser idealizada ou buscada, atualmente existem
muitas possibilidades de grupos.
As mudanças dos padrões posturais rígidos para
modelos mais flexíveis e dinâmicos de relação começaram a
se estabelecer na idade moderna, estendendo-se à pós-
modernidade, onde ganha expressão e força. De acordo com
Outeiral, enxerga-se que estão presentes na pós-modernidade:
- 110 -

“... alguns traços como velocidade, cultura do descartável,


banalização, fragmentação, mundo de imagens, virtualidade,
globalização, dessubjetivação, desterritorialização, des-
historicização, etc.” Então, a descartabilidade da época pós-
moderna não se direciona apenas ao consumo, mas também às
relações afetivas. As vastas ofertas e facilidades na condição
de pagamento fazem com que o sujeito ceda ao fascínio e às
exigências de mercado, se constituindo um consumidor em
potencial. Os produtos tornam-se obsoletos e perdem sua
utilidade e até qualidade de forma acelerada, exigindo do
consumidor uma nova compra. No campo afetivo, as relações
tornam-se cada vez mais superficiais, onde o tempo disponível
para o conhecimento e dedicação ao outro se torna menor,
afinal, tempo significa produção e lucro, que resultará na
condição de consumir. Assim, o sucesso e a realização do
sujeito para a sociedade pós-moderna está diretamente ligado
à capacidade que este possui para consumir, assim como, as
relações afetivas estáveis, que vem se tornando escassas, já
que os relacionamentos assumiram o mesmo caráter do
consumo. Com advento da informática, o número de contatos
e relacionamentos virtuais também tem crescido o que
favorece a minimização do contato pessoal.
Na geração pós-moderna onde o ritmo é acelerado
e o tempo altamente valorizado, o sujeito busca adequar seu
estilo de vida a esta demanda social, tal ajuste acontece de
forma automática e muitas vezes aparentemente natural.
Diante desta realidade de oscilações, os mais idosos, aqueles
que vieram de uma cultura mais tradicional e rígida, sentem-se
por vezes perplexos e desalojados frente a tantas mudanças
que configuram esta realidade, e acabam por apresentar um
discurso ideológico de aversão e recriminação perante os
novos valores, hábitos e costumes vigentes.
- 111 -

Na pós-modernidade o ideal de juventude está


vinculado a atributos como força, vitalidade e felicidade, estes
são disseminados frequentemente através da mídia, formando
opiniões e construindo subjetividades. Existem marcas e
condições invisíveis, que são compartilhadas pelos jovens e
adolescentes, e que acabam sendo seguidas, ainda que de
maneira inconsciente. De acordo com Frota erroneamente a
infância é interpretada como a melhor etapa da vida humana,
repleta de sonhos, fantasias, brincadeiras e diversão. Este
cenário nem sempre se configura desta maneira mágica,
muitas crianças sofrem com o abandono e negligência de seus
cuidadores, buscando abrigo e proteção nas ruas da cidade, e
para estas, a infância não se mostra tão colorida e festiva. Da
mesma forma, a adolescência também é permeada por
estigmas e conhecida como etapa da crise, onde as múltiplas
oscilações causam repercussões negativas ao convívio diário,
como revolta, desobediência e rebeldia. A adolescência é sim
um período marcado por transformações biológicas
(puberdade) e psíquicas, contudo pode gerar diversos
sentimentos e modos variados de enfrentamento. Assim como
existem crianças abandonadas e infelizes, existem
adolescentes doces e responsáveis. Logo, não se pode falar em
um perfil geral traçado para os sujeitos que se encontram na
infância ou adolescência, cada um experimentará a vida à sua
maneira.
Segundo Ávila, “A adolescência da idade
contemporânea é, sobretudo, o período preparatório para a
vida adulta, esta sim melhor caracterizada pelos dois
parâmetros definitórios: o trabalho e o casamento”. A
adolescência, na cultura ocidental pós-moderna, é considerada
como período de transição onde o sujeito deve abandonar
posturas infantis, de forma a amadurecer e assumir um lugar
- 112 -

no universo adulto. Contudo, como propõe o mesmo autor, na


pós-modernidade o adolescente por muitas vezes vive privado
de autonomia e liberdade para adotar seus desejos e se
constituir de maneira singular. Há um processo de “eterno
adolescer”, onde a irresponsabilidade é estimulada, visto que
as obrigações são relegadas ao segundo plano, impedindo que
o sujeito amadureça e saia desta condição. Existe também o
incentivo ao estudo e profissionalização, que contribui para
que os relacionamentos e novas construções familiares sejam
estabelecidos tardiamente.
Muitas vezes a pós-modernidade exige do
adolescente uma permanecia maior na adolescência, ou seja, o
sujeito fica à mercê das necessidades da contemporaneidade, e
seu desejo de independência pode muitas vezes adiar a sua
concretização. Os fatores sócio-econômicos influenciam
diretamente no trajeto deste processo, pois conforme Bardagi,
et al, os jovens em situação menos favorável economicamente,
possuem oportunidades mais restritas de aperfeiçoamento
profissional e acesso ao ensino superior, dificultando a
competitividade no mercado de trabalho, e influenciar o
adolescente no desejo .
Nos primórdios da história, a infância bem como a
adolescência não era considerada uma etapa de grande
relevância no curso do desenvolvimento humano. As crianças
eram vistas como sendo portadoras das mesmas
responsabilidades e obrigações da vida adulta, perdendo por
muitas vezes as características infantis. Contudo, este cenário
varia quando o conceito de infância começa a ser explorado e
diante desta nova fase do desenvolvimento, os infantes
começam a conquistar um espaço próprio na sociedade. Como
propõe Postman, “A nova idade adulta por definição, excluiu
as crianças. E como as crianças foram expulsas do mundo
- 113 -

adulto, tornou-se necessário encontrar outro mundo que elas


pudessem habitar”. Esse outro mundo veio a ser conhecido
como a infância.
A adolescência também não era reconhecida em
suas particularidades e representava um período “natural” de
preparação e transição para a tão esperada vida adulta, o que
ainda hoje é considerado por muitos. Sabe-se, porém que a
adolescência representa muito mais que uma passagem
simples, pois é uma etapa da vida, onde o sujeito adolescente
precisa elaborar psiquicamente as diferentes mudanças pelas
quais está atravessando, isso trás muitos desafios ao
adolescente, ele sofre, conquista, se alegra, arrisca e
amadurece. Portanto, não deve ser considerada como menos
importante se comparada com as demais fases da vida.
Calligaris afirma que o principal objetivo do adolescente é
tornar-se adulto, contudo é exigido deste, uma espera para que
então possa integrar-se a este novo espaço. Ainda que seu
corpo e espírito já tenham amadurecido, a entrada na vida
adulta só se torna possível perante o reconhecimento do outro.
Sobre a personalidade flexível dos adolescentes. Morin, afirma
que: “Na adolescência a personalidade social ainda não está
cristalizada, os papéis ainda não se tornaram máscaras
endurecidas sobre os rostos, o adolescente está à procura de si
mesmo e à procura da condição adulta. [...] nessa busca, tudo é
intensificado: o ceticismo e os fervores”. Com isso, o
estabelecimento e a consolidação da adolescência os jovens
começaram a conquistar o seu espaço. Uma das primeiras
gerações jovens a ganhar força e fôlego foi a “Baby Boomer”,
onde de fato os jovens conquistaram o direito de curtir e viver
a juventude. Este período, que compreende as décadas de 60 e
70, foi marcado por uma explosão de recém-nascidos e os
ideais de liberdade e conquista foram amplamente propagados.
- 114 -

Havia neste contexto, espaço para o novo e o diferente, os


grupos começam a formar-se em prol de afinidades e
estereótipos.
Na adolescência as transformações relacionadas ao
corpo e a identidade, possibilitam ao sujeito a descoberta e
adoção de um novo estilo de vida, contudo, não foram em
todos os tempos históricos que o adolescente ou o jovem pôde
viver suas escolhas com liberdade. A autonomia sobre que
padrões e estilos de vida seguir, começaram a surgir com os
jovens Baby Boomers (Explosão de Bebês). As oscilações da
adolescência sempre estiveram presentes, porém, a forma de
lidar com esta nova realidade que se apresenta, seja no aspecto
biológico ou psíquico, é que sofre alterações com o passar dos
tempos. Nos garotos surge a barba, a mudança estranha da
voz, as espinhas, os pés passam a calçar números acima de 40,
a altura passa rapidamente de 1,50 a 1,70 e assim por diante.
A moda pode surgir para o adolescente como uma
ferramenta de defesa, pois o uso de tênis de marca, blusas que
sigam a tendência atual, ou cabelos transados acabam por
gerar no jovem um sentimento maior de aceitação e segurança
diante do Outro, mascarando as imperfeições e desproporções
que o corpo sofre frente ao processo do adolescer.
A seguir, surge a Geração X, que compreende as
décadas de 80 e 90, uma época onde a televisão passa a ser o
meio de comunicação mais utilizado, e os filhos tornam-se
mais independentes, visto que seus pais (incluindo a mãe)
agora trabalham fora. Diante da febre do vídeo game e jogos
eletrônicos têm-se um deslocamento de interesses, onde as
brincadeiras de rua são trocadas pela confinação dos quartos,
consolidando os comportamentos solitários e narcisistas.
Devido à influência dos comerciais televisivos, o pensamento
jovem torna-se acelerado, são as primeiras marcas da
- 115 -

instantaneidade e rapidez, que terão maior destaque na geração


seguinte. Com as ruas não sendo mais palco de revoluções e
reivindicações, a crença em prol de um futuro melhor torna-se
inexistente, o que contribui para o desenvolvimento de
sentimentos de melancolia e pessimismo, que marcam a
juventude deste tempo.
De acordo com Ferreira e Leblon, a Geração X foi
marcada pela busca intensa da realização dos desejos, prazeres
e pela individualidade, sendo constantemente influenciada
pela publicidade e propagandas, e pela música que é
caracterizada por um meio de identificações, em que os
artistas populares são considerados ídolos, seguidos e
imitados, sendo capazes de levar consigo multidões. Estes
meios estimulam as relações entre os adolescentes, pois
promovem a interação entre sujeitos com os mesmos
interesses, costumes, ideais, e aptidões.
A geração posterior corresponde à Geração Y, que
compreende o século XX e início do século XXI, podendo-se
perceber um aumento da relação do sujeito com as novas
mídias, onde não somente a televisão e o rádio veiculam
informações e formam opiniões, mas a internet torna-se neste
contexto a maior produtora de subjetividade. O avanço
tecnológico é assustador, existe tecnologia em toda parte e o
homem torna-se escravo de uma política pautada no consumo
excessivo.
O sujeito da geração Y vive imerso em dois
mundos, um real e outro virtual. Na virtualidade os
relacionamentos são numerosos, porém superficiais e a
descartabilidade das mercadorias acaba sendo estendida para
as relações. O foco dos contatos está na quantidade e não na
qualidade, conforme postula Ferreira e Leblon, a formação
social da geração Y é afetada devido ao maior tempo de
- 116 -

reclusão ao qual o jovem e a criança se submetem em suas


casas enquanto permanecem horas em frente ao computador.
As amizades, em sua maioria, são feitas hoje através de redes
sociais e canais de comunicação “on-line” como MSN, Twitter
e Facebook. Com o tempo as crianças e os jovens perdem o
contato com as outras e a troca de experiências pessoais passa
a ocorrer de forma virtual, sendo que na maioria das vezes,
estas pessoas jamais chegarão a se conhecer de forma
concreta. Eles se sentem à vontade para iniciar e manter
relacionamentos e tornar-se “bons amigos” de pessoas que
nunca encontraram pessoalmente.
A ilusão é uma característica peculiar desta época,
tudo pode ser recortado e colado no campo da ficção e no
universo digital, o que leva o sujeito a acreditar que tal
praticidade pode ser estendida à sua vida real. A experiência
on-line é capaz de despertar prazer, sensações intensas e
emoções incalculáveis, contudo, a ação é fluida e o sujeito
acaba por não criar raízes, perdendo por muitas vezes os
vínculos com sua tradição. Sobre a transitoriedade típica deste
tempo, Ferreira e Leblon afirmam que: “Uma dificuldade
ainda maior para quem não nasceu na geração internet é o fato
de que tudo hoje é efêmero, de que é preciso sempre estar
aprendendo usar novos programas, novas mídias e novos
equipamentos. Adaptar-se e manter-se nesse novo ritmo de
mudanças não deve ser muito fácil para quem estava
acostumado com, por exemplo, um estilo de trabalho, de
informação e de educação onde a prática, a experiência com
aparelhos tecnológicos não era tão essencial.
Com a globalização, a propagação da informação
tornou-se mais rápida e eficaz, em qualquer lugar e a qualquer
tempo o sujeito que acessa a internet consegue obter o maior
número de informação de que necessita sem ocupar grande
- 117 -

parte do seu tempo. A sexualidade diante desta facilidade de


pesquisa tornou-se um tema mais explorado e discutido, não
representando um tabu na mesma proporção que no passado.
Porém, o amplo acesso á conteúdos, até mesmo de cunho
científico, acaba por condicionar os jovens a não desenvolver
pensamentos críticos, reproduzindo comportamentos de não
reflexão. No campo profissional, o mercado tornou-se
altamente competitivo e somente aqueles que buscam um
aperfeiçoamento e aprimoramento constante, conseguem
galgar um espaço nesta sociedade tão seletiva. A procura por
um lugar de destaque, aceitação e realização frente às
exigências sociais, acabam por desencadear na maioria dos
jovens, sentimentos intensos de insegurança e mal-estar.
Como descrito acima, o perfil da sociedade e
consequentemente dos jovens, adolescentes e crianças,
sofreram significativas oscilações durante os variados tempos
históricos. Algumas características típicas do desenvolvimento
humano presentes na primeira geração vão manter-se
constantes nas demais, como: as alterações corporais
vinculadas à puberdade, a própria necessidade de autonomia e
desvinculação com as figuras parentais. Contudo, o modo de
enfrentamento e as repercussões psíquicas destas vivências se
mostrarão dinâmicas e imprevisíveis.
Vimos que as crianças, durante muito tempo na
história e na sociedade não possuíam um lugar específico ou
diferenciado, eram tratadas como adulto em miniatura, com as
mesmas responsabilidades e demandas destes. Contudo, com o
passar dos tempos à infância passou a ganhar espaço e assim
tornou-se reconhecida em suas particularidades. Neste
contexto, as crianças passaram a vestir roupas específicas de
sua faixa etária, adquiriram o direito de brincar e possuir
brinquedos, e as responsabilidades agora estavam mais
- 118 -

próximas da realidade infantil. Portanto, a infância começou a


ganhar espaço e a estabelecer-se enquanto etapa do
desenvolvimento desvinculada da idade adulta.
A adolescência de uma maneira geral continua não
sendo tão valorizada, se comparada à infância e a vida adulta.
O adolescente ainda está conquistando seu espaço e se
esforçando para sustentar um lugar que ainda não é bem
delimitado e valorizado socialmente. Apesar de ser uma etapa
de extrema importância para o sujeito em meio a crises e
transformações, continua por muitos sendo desconsiderada.
Segundo propõe Aberastury, a referida etapa de
desenvolvimento, sugere que o indivíduo necessite de
liberdade para atender suas demandas, assim como, segurança
para lidar com as normas e adaptações pertinentes a realidade
do sujeito em desenvolvimento. Muitas vezes o adolescente é
estereotipado e rotulado pelo seu comportamento, pelas
manifestações de angústia da crise da adolescência, sendo este
estigmatizado por condutas nem sempre coincidentes com a
sua realidade. Por se tratar de estigmas, Schilling &
Miyashiro, conceituam como: “Marca ou cicatriz deixada por
ferida; qualquer marca ou sinal; mancha infamante e imoral na
reputação de alguém; sinal infamante outrora aplicado, com
ferro em brasa nos ombros ou braços de criminosos, escravos
etc.; aquilo que é considerado indigno, desonroso; falta de
lustre, brilho ou polimento; moral, desonra descrédito,
infâmia, demérito, descrédito, deslustro, enxovalho, infâmia,
labéu, mácula, nódoa, perdição, perdimento, raiva, vergonha”.
Os estigmas acabam por disseminar um perfil
único de adolescente, que por muitas vezes não condiz com a
realidade. Esta etapa do desenvolvimento vai além de revoltas
e questionamentos, refere-se a momento de estabelecimento
de uma nova identidade, parceria amorosa, amadurecimento,
- 119 -

direcionamento profissional, e ainda formação de novos


vínculos afetivos (identificação com os grupos), e deve ser
considerada também a partir de tais importantes questões.
Diferente da infância, a adolescência muitas vezes
não é permeada por idealizações, mas contornada por rótulos e
comportamentos de discriminação. Contudo, o adolescente
assim como a criança necessita do apoio e investimento dos
pais, pois para experimentarem a tão esperada liberdade e
autonomia necessitam da confiança e respaldo dos parentais,
caso algo não saia como o esperado. Os adolescentes gostam
de passear, ter amigos com quem curtir, assumem certos riscos
e responsabilidades, e, portanto não devem ser encarados
como delinquentes em potencial, mas sim como indivíduos
que estão atravessando uma etapa complexa de construção de
personalidade, e alicerces para a vida adulta.
Estes sujeitos estão saindo da infância em direção
à vida adulta, e diante de tantas oscilações, ainda sofrem com
diferentes cobranças sociais. Na família, seus pais esperam
posturas mais adultas e responsáveis em determinado
momento, porém, também fazem questão de tratá-los como
crianças em outros contextos.
Dentro da construção social da adolescência, o
manejo das regras e normas sociais é desenvolvido e
consolidado na primeira etapa de socialização, ou seja, pela
família. Conforme Luz & Lopes, cabe à família a
responsabilidade de transmitir os conceitos e regras de
convívio social para o adolescente, caso contrário, a
aprendizagem por outras vias (instituições como escolas)
sugere maior dificuldade e enfrentamento por este.
Apreendida as regras sociais, nos demais
convívios e nas outras instituições, como clube, igreja,
escolas, entre outros, também estão presentes normas e regras
- 120 -

que devem ser obedecidas pelo adolescente, gerando neste,


angústia por nem sempre poder realizar todos os seus desejos,
e ter que agora prestar conta de suas condutas. A adolescência
segundo Dantas, é um tempo repleto de cobranças sociais e
momento de declínio das identificações parentais. Contudo, a
sociedade não dispõe de dispositivos eficazes para fazer esta
passagem, tampouco tempo para a elaboração do sujeito em
interiorizar os conceitos de regras e normas sociais.
A entrada na adolescência, bem como a saída
desta, geralmente é associada a uma questão cronológica.
Delimitam-se idades para representar a etapa de vida em que o
sujeito se encontra. Porém, é certo que a vivência de cada fase
do desenvolvimento está mais relacionada aos aspectos sociais
e psíquicos, que cronológicos. Sobre a idade ideal para se
delimitar a adolescência, propõe Aberastury que o melhor
norteador é o social, e não a faixa etária como ainda hoje é
utilizado: “O juiz tomará como marca a maioridade penal; o
educador, o fim da escolaridade obrigatória, dezesseis anos.
Mas o legislador fixou nos dezoito anos a maioridade cívica.
A precocidade das relações sexuais, as fontes de informações
extrafamiliares, a televisão, a rua, as viagens ao exterior, os
estágios, os meios de locomoção individuais (duas rodas),
põem novamente em discussão a idade fatídica. É preciso
estabelecer maioridade aos dezesseis, quinze, quatorze anos?”
A postura do adolescente, bem como a sustentação
do seu lugar surge como uma construção social. Em uma
realidade fluida, onde os conceitos e padrões comportamentais
são altamente dinâmicos, onde a velocidade e a transformação
reinam soberanas, marcando a identidade da atualidade. Pode-
se afirmar que não existe uma única forma de ser adolescente,
a vivência desta etapa varia de acordo com o tempo histórico e
a cultura. Algumas questões características desta fase sempre
- 121 -

estarão presentes, porém os costumes e padrões


comportamentais seguirão o curso de suas transformações,
sendo produto de uma construção social, e não apenas
mudanças físicas. A implicação do adolescer no
desenvolvimento humano é de extrema importância na
constituição do adulto. Não se pode esquecer que o sujeito
adolescente é permeado pelo social, as duas instancias estão
imbricadas, as subjetividades constroem o social e o social
produz subjetividades.
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- 124 -

V – As Funções do Sintoma na Neurose

Diana de Mello Vasconcellos

A etiologia da neurose e da psicose, segundo Freud, é a mesma,


pois as duas se originam da frustração devido a não realização
de um desejo da infância. A patologia se diferenciará na
maneira que o ego vai lidar com o conflito, se tornando uma
neurose caso ele continue tentando silenciar o id devido às
exigências da realidade, e uma psicose, caso ele seja derrotado
pelo id e seja retirado da realidade.

A utilização do termo neurose já existia antes mesmo


do surgimento da Psiquiatria como ciência médica. Desde a
primeira vez em que foi utilizado para designar um conjunto
de doenças nervosas que não apresentavam alterações nos
órgãos, até os dias atuais em que designa um conjunto de
doenças caracterizadas pelo excesso de ansiedade, o termo
neurose sofreu inúmeras transformações e é visto sob diversos
olhares.
William Cullen, conhecido e renomado médico
escocês, foi quem primeiramente utilizou, em 1776, o termo
“neurose”, referindo-se a certas afecções que dependeriam
especificamente do pensamento. Em sua obra First Lines in
the Practice of Physic, ele afirmou que afecções do corpo
humano com características nervosas deveriam ser agrupadas
sob a denominação de neuroses, não se referindo a uma
espécie de doença em particular, mas a uma classe de doenças
que englobava adinamias como a síncope, a dispepsia e a
hipocondria, além de afecções espasmódicas sem febre, como
- 125 -

o tétano, a epilepsia, a asma, a histeria e ainda a mania


(loucura) e a melancolia.
Portanto, o termo neurose delimitava uma classe de
“doenças nervosas” pouco conhecidas na área médica.
Progressivamente, esse termo foi sendo utilizado de diversas
maneiras no campo médico em diferentes lugares do mundo.
Na obra de Philippe Pinel, médico francês pioneiro no
tratamento de doenças mentais, o termo “névrose” é utilizado
para designar as doenças do sistema nervoso sem base
orgânica conhecida. Por fim, o termo neurose passou por uma
série de transformações ao longo do tempo até chegar ao que
se conhece atualmente na Psiquiatria contemporânea.
Segundo Kaplan, “a neurose é um transtorno
crônico ou recorrente, não-psicótico, caracterizado,
principalmente, por ansiedade, que é experimentada ou
expressada de modo direto ou modificado através dos
mecanismos de defesa”. Na terceira edição do Manual
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-III)
um transtorno neurótico era definido como “um transtorno
mental no qual a perturbação predominante é um sintoma ou
grupo de sintomas que angustiam o indivíduo e que ele
reconhece como inaceitável e estranho (egodistônico); o teste
de realidade permanece globalmente intacto.
O comportamento não viola ativamente as
principais normas sociais (embora possa ser bastante
incapacitante). A perturbação é relativamente persistente ou
recorrente sem tratamento e não se limita a uma reação
transitória aos estressores. Não existe uma etiologia ou fator
orgânico responsável. Já no DSM-IV o termo neurose não é
mais utilizado, sendo substituído pelas categorias de
transtornos de ansiedade, transtornos somatoformes,
transtornos dissociativos e transtornos sexuais. Isso ocorreu
- 126 -

porque a Psiquiatria norte-americana se afastou das


conceitualizações baseadas nas formulações psicodinâmicas
das neuroses e tem utilizado critérios clínicos de validade e
confiabilidade reconhecidas, levando então à supressão do
termo “neurose”. Mas o termo ainda é encontrado em algumas
literaturas e na décima revisão da Classificação Internacional
de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), sob
forma de adjetivo na categoria de “transtornos neuróticos”.
O importante a se destacar é que a utilização
do termo “neuroses” para a Psiquiatria atual engloba uma
ampla série de transtornos com sinais e sintomas variados,
perdendo a sua precisão, exceto no que se refere ao teste de
realidade e à organização da personalidade do paciente, que
estão intactos. Porém, esses transtornos, geralmente, são
suficientes para prejudicar o funcionamento de uma pessoa. O
tratamento indicado para esses transtornos, segundo a
Psiquiatria, em sua maioria envolve a utilização de
medicamentos (ansiolíticos) associados à algum tipo de
psicoterapia.
O que se pode perceber ao longo do estudo
da evolução do termo neurose para a Psiquiatria, é que ele se
refere a um funcionamento “anormal” do indivíduo, sendo
considerada uma patologia. E sendo a Psiquiatria um ramo da
Medicina, o seu objetivo no tratamento de uma patologia é a
extinção dos seus sinais e sintomas, ou seja, a sua cura. A
Psicologia é também uma das principais áreas de estudo dos
processos mentais humanos, e com exceção das linhas que tem
como matriz a Fenomenologia, a Psicologia possui algumas
semelhanças com a Psiquiatria no que diz respeito à
classificação e tratamento de doenças mentais.
O interesse por questões referentes à
memória, aprendizagem, motivação, percepção, sonhos e
- 127 -

comportamentos anormais é presente entre os seres humanos


há vários séculos. Filósofos e teólogos gregos se interrogavam
sobre essas questões, que hoje em dia são temas estudados por
todos os psicólogos. Os mesmos questionamentos de séculos
atrás, ainda são feitos hoje em dia, e isso mostra que ao
mesmo tempo em que a Psicologia é uma das mais antigas
disciplinas acadêmicas, é uma das mais novas ciências. O que
distingue a Psicologia Moderna dos seus precursores não são
os questionamentos e sim os métodos utilizados na busca por
respostas a essas questões. Para tentar se firmar como campo
de estudo científico, a Psicologia passou a utilizar técnicas e
métodos de pesquisa bem sucedidos nas ciências físicas e
biológicas, como a observação e a experimentação, diferente
de suas raízes filosóficas que trabalhavam baseadas na
especulação, intuição e generalização.
No final do século XIX, os fisiologistas
começavam a utilizar métodos científicos para estudar o
cérebro, os nervos e os órgãos dos sentidos. O filósofo e físico
Gustav Fechner (1801-1887) se preocupava em mostrar que
era possível a aplicação de métodos científicos para o estudo
dos processos mentais. Em 1860, Fechner, em sua obra
Elementos de Psicofísica, mostrou que procedimentos
experimentais e matemáticos podiam ser utilizados para
estudar a mente humana, após se interessar pela relação entre
estimulação física e sensação, e inventar técnicas para
responder perguntas relacionadas a essa questão.
Wilhelm Wundt (1832-1920) era um
médico alemão que possuía grande interesse pelos processos
mentais. Seu objetivo era que a Psicologia se tornasse um
campo de estudo independente da Filosofia e em 1879, após
tornar-se professor de Filosofia da Universidade de Leipzig na
Alemanha, fundou o primeiro laboratório de Psicologia
- 128 -

experimental do mundo. Foi nesse ano, portanto, que a


Psicologia passou a ser reconhecida como ciência completa e
Wundt considerado o pai da Psicologia Moderna. Os
principais movimentos que influenciaram a criação da
Psicologia Moderna foram o estruturalismo, o funcionalismo,
o behaviorismo, a Psicologia da Gestalt e a teoria
psicanalítica.
Importante ressaltar o fato de que foi necessário
que estudiosos dessa área recorressem a técnicas e métodos de
investigação utilizados nas ciências naturais e biológicas para
responder a questões relacionadas aos processos mentais,
assim como ocorreu com a Psiquiatria, que como já foi
mostrado, só veio a ser considerada especialidade científica da
Medicina quando passou a utilizar os psicofármacos como a
principal forma de tratamento dos transtornos mentais. Esse
fato tem grande importância na maneira como algumas
correntes da Psicologia, assim como a Psiquiatria, classificam
a neurose como uma psicopatologia, que deve ser
diagnosticada e tratada.
Segundo Dalgalarrondo, nos casos em que as
alterações comportamentais e mentais são mais acentuadas, é
mais simples se delimitar a fronteira entre o normal e o
patológico. Porém, existem casos em que a delimitação da
fronteira entre comportamentos e formas de sentir normais e
patológicas se torna mais difícil. O filósofo e médico francês
Georges Canguilhem se dedicou ao estudo dessa questão e o
seu livro O normal e o patológico é uma obra indispensável na
discussão desse tema. Nesta obra, de 1943, Canguilhem
defendeu, em relação ao normal e o patológico, que se trata de
dois fenômenos qualitativamente diferentes e opostos, que
implicam forças em luta. Dessa maneira, ele contrariava o
pensamento dominante da época, segundo o qual os
- 129 -

fenômenos patológicos seriam meras variações quantitativas


dos fenômenos normais.
Entretanto, mesmo após o estudo e a obra de
Canguilhem, muitos profissionais usam critérios quantitativos
na diferenciação do sujeito “normal” e o sujeito com doenças
psicológicas. Aquele que é considerado doente costuma
apresentar maior perturbação cognitiva, menor aprovação
social e menor controle sobre suas emoções ou sobre si
mesmo, resultando num sofrimento vivido de maneira mais
intensa do que nas outras pessoas. De maneira geral, o
importante é tornar claro que dentro da Psicologia ainda existe
essa diferenciação e classificação entre o que é normal e o que
é patológico. Os psicólogos que defendem essa classificação
argumentam que ela é importante para esclarecer as causas do
problema, para delimitar as técnicas apropriadas no
tratamento, os sintomas que podem vir a surgir e evitar
possíveis surtos.
Assim como a Psiquiatria, a Psicologia também
se utiliza dos manuais de classificação de doenças, DSM-IV e
CID-10 e, portanto, “o construto neurose fornece essa moldura
conceitual e classificatória que abarca a grande sobreposição e
o intercâmbio de sintomas da série da ansiedade, da fobia, da
obsessão, da frustração, da dissociação e da somatização”.
Segundo Dalgalarrondo, no centro de todas as neuroses, está a
angústia. O homem neurótico vive os conflitos humanos
fundamentais de forma particularmente dolorosa e recorrente.
É importante ressaltar, que nos neuróticos, existe uma
perturbação do equilíbrio interior do sujeito e não uma perda
do seu sistema de realidade. As principais síndromes
neuróticas e somatoformes podem ser descritas e classificadas
como síndromes fóbicas, obsessivo-compulsivas, histéricas,
- 130 -

hipocondríacas e neurastênicas (atualmente, em parte,


compreendidas na síndrome de fadiga crônica).
Em relação aos distúrbios neuróticos ou
transtornos de ansiedade, a posição de algumas linhas da
Psicologia é semelhante ao da Psiquiatria. Feldman afirma que
o tratamento psicológico para distúrbios emocionais pode ser
feito de diversas maneiras. O tratamento pode ser feito através
da psicoterapia individual, na qual o sujeito recebe ajuda para
compreender melhor sua personalidade, seus relacionamentos,
sentimentos e comportamentos.
Tem sido bastante utilizada a terapia
medicamentosa no tratamento de distúrbios desse tipo. O
indicado é que os medicamentos sejam administrados em
associação com a psicoterapia, e não, em substituição a elas.
Por fim, podemos perceber que tanto a Psiquiatria como
algumas linhas da Psicologia possuem posições semelhantes
ao lidar com a neurose, no que diz respeito a sua etiologia,
seus sintomas e tratamento, sendo a neurose um termo
utilizado para enquadrar uma série de distúrbios emocionais
causados principalmente pela ansiedade patológica.
A Psicanálise possui uma visão diferente em
relação à neurose. Freud, após utilizar por algum tempo a
hipnose no tratamento de seus pacientes, passou a encontrar
algumas falhas nos seus resultados. Apesar de eliminar alguns
sintomas, a hipnose não parecia ser capaz de curar o paciente,
já que o mesmo, muitas vezes, retornava ao consultório com
um novo grupo de sintomas. Além disso, percebeu que alguns
pacientes não eram facilmente hipnotizáveis. Devido a esses
fatos, resolveu abandonar a hipnose como técnica de
tratamento, mas continuou utilizando o método catártico,
desenvolvendo a partir dele uma técnica muito importante
para o desenvolvimento da psicanálise: a associação livre.
- 131 -

Um momento considerado vital para o


entendimento da neurose e para o desenvolvimento geral da
psicanálise foi a descoberta de Freud sobre a importância da
sexualidade na etiologia das neuroses. Schultz nos lembra que
a partir de alguns acontecimentos que chamaram a atenção de
Freud, como a conclusão de Charcot de que os sintomas de
uma de suas pacientes tinham base sexual e a afirmação de um
de seus colegas de que uma paciente tinha crises de ansiedade
devido à impotência sexual do marido, Freud começou a
observar indícios de questões ligadas à sexualidade no
atendimento a seus pacientes. Em “Estudos sobre a histeria”,
Freud já relatava a certeza que possuía de que questões
sexuais tinham importância central na etiologia das neuroses.
Segundo Garcia-Roza, “a importância
concedida à sexualidade, tanto para a compreensão da neurose
como para a compreensão do indivíduo normal, torna-se cada
vez mais central em Freud, tendo sido este um dos motivos de
seu rompimento com Breuer”. E foi justamente logo após
terem publicado os Estudos sobre a histeria, que Freud e
Breuer, por discordarem sobre a etiologia das neuroses,
romperam a sua parceria.
Freud percebeu mais tarde, que embora as
cenas recordadas por seus pacientes, fossem fantasias, essas
fantasias são realidades psíquicas tão importantes quanto a
realidade prática, não podendo ser desconsideradas, já que “o
inconsciente funciona de tal forma que é impossível distinguir
a verdade da ficção investida de afeto”. Além disso, Freud
afirma que o papel do analista não é o de distinguir o que é
realidade do que é fantasia, pois qualquer relato do analisando
tem articulação com a fantasia e o desejo. As fantasias,
segundo ele, devem ser sempre consideradas, pois possuem
uma importância central na etiologia das neuroses, devido à
- 132 -

sua realidade psíquica. Segundo Laplanche e Pontalis, a


fantasia é definida como um “roteiro imaginário em que o
sujeito está presente e que representa de modo mais ou menos
deformado pelos processos defensivos, a realização de um
desejo e, e em última análise, de um desejo inconsciente”.
Sendo a fantasia, a expressão de desejos
inconscientes e estando ligada a um trauma sexual ocorrido na
infância, o que se pode concluir é que na infância já ocorrem
desejos inconscientes ligados à sexualidade. Rudge, afirma
que Freud “contrariamente ao que se pensava na época,
deduziu que deveria haver uma sexualidade na infância
dirigida primordialmente para os pais, primeiros objetos de
afeto e desejo da criança”. As descobertas do papel da fantasia
e da sexualidade infantil podem ser concentradas na
descoberta do complexo de Édipo. Em cartas endereçadas a
Fliess, no ano de 1897, Freud afirma que todas as crianças
possuem impulsos hostis contra os pais, no caso da menina
dirigidos à mãe, e no menino dirigidos ao pai, e faz referência
à lenda de Édipo como modelo da relação das crianças com os
pais.
Freud, no texto Dissolução do complexo de
Édipo (1924) afirma que para o indivíduo não manifestar mais
tarde uma patologia, o complexo de Édipo deve ser
completamente destruído, através do que ele chama de “mais
do que repressão”. Caso esse Édipo seja apenas reprimido, ele
continuará no inconsciente, manifestando-se como uma
patologia, através do sintoma.
Outro momento muito importante do
desenvolvimento da Psicanálise e do estudo das neuroses foi
quando Freud publicou o livro A interpretação dos sonhos, em
1900, introduzindo o conceito de inconsciente. Ele afirma que
a interpretação dos sonhos é a principal via que nos leva ao
- 133 -

conhecimento das atividades do inconsciente e o melhor


caminho para o estudo das neuroses. O autor denominou
“formações do inconsciente” o que dele surgia como seus
representantes mais diretos: além dos sonhos, os atos falhos e
os chistes. E deu ao sonho um estatuto especial, considerando-
o “via régia para o inconsciente”
No texto Neurose e psicose (1924 [1923]),
Freud diz que “a neurose é o resultado de um conflito entre o
ego e o id, ao passo que a psicose é o desfecho análogo de um
distúrbio semelhante nas relações entre o ego e o mundo
externo”.
O quadro da neurose é produzido quando um
impulso muito forte é impedido pelo ego de chegar ao seu
objeto de destino, através do mecanismo da repressão. Esse
material reprimido continua tentando chegar ao seu destino,
dessa vez através de uma representação que o substitua: o
sintoma. Como o ego continua se sentindo ameaçado, ele
mantém a sua luta contra o material que o representa perigo.
Essa luta do ego contra as exigências pulsionais do id ocorre a
serviço do superego e da realidade.
A etiologia da neurose e da psicose, segundo
Freud, é a mesma, pois as duas se originam da frustração
devido a não realização de um desejo da infância. A patologia
se diferenciará na maneira que o ego vai lidar com o conflito,
se tornando uma neurose caso ele continue tentando silenciar o
id devido às exigências da realidade, e uma psicose, caso ele
seja derrotado pelo id e seja retirado da realidade.
No texto A perda da realidade na neurose e na
psicose (1924), Freud corrige algumas informações que ele
havia descrito no texto anterior Neurose e psicose (1924
[1923]) com relação à realidade na neurose e na psicose. Ele
havia dito anteriormente que na psicose acontecia uma perda
- 134 -

da realidade, mas que na neurose, devido ao esforço do ego na


luta contra o id, essa perda não acontecia. Posteriormente,
Freud (1996) afirma que “toda neurose perturba de algum
modo a relação do paciente com a realidade servindo-lhe de
um meio de se afastar da realidade, e que, em suas formas
graves, significa concretamente uma fuga da vida real”. Ele
afirma ainda, que essa perda da realidade ocorre no momento
em que o id reage à repressão e consegue ultrapassá-la. Para
conseguir lidar com esse conflito, o ego se afasta da realidade.
“Ou ainda, expresso de outro modo: a neurose não repudia a
realidade, apenas a ignora; a psicose a repudia e tenta
substituí-la”.
Jacques-Marie Émile Lacan nasceu em Paris
no dia 13 de abril de 1901. Desde muito jovem, ele se
interessava pela leitura e frequentava grupos de discussão
sobre filosofia. Formou-se em Medicina, e do seu primeiro
interesse pela Neurologia passou a estudar Psiquiatria. Lacan
teve grande importância na história da Psicanálise, inclusive
pela sua releitura do complexo de Édipo, indispensável para o
entendimento da neurose como estrutura de arranjo psíquico.
O estruturalismo, estudado por Lacan, a partir
da antropologia de Lévi-Strauss, teve muita importância no
seu ensino. Lacan fez uma distinção entre fenômeno e
estrutura. Para ele, a estrutura está muito além do fenômeno.
Figueiredo e Machado (2000) descrevem essa
distinção entre fenômeno e estrutura feita por Lacan, dizendo
que o psicanalista, operando através da transferência, não
trabalha como um leitor de fenômenos e sim como nomeador
de um modo de incidência do sujeito na linguagem. O
diagnóstico aparece então como estrutural e não mais
fenomenológico. Por diagnóstico estrutural podemos entender
um diagnóstico que se dá a partir da fala dirigida ao analista,
- 135 -

logo, sob transferência, onde os fenômenos vão se orientar


com referência ao analista como um operador e não como uma
pessoa.
Na sua releitura do complexo de Édipo, Lacan
introduzirá o termo Nome-do-Pai, “com a finalidade de
estabelecer as funções do pai no processo de simbolização”. O
termo foi criado por Lacan como um significante da função
paterna e como instância mediadora do desejo.68 O processo
de simbolização se constitui de três tempos: frustração,
castração e privação, diretamente ligados aos três tempos do
complexo de Édipo e marcados pela falta do objeto. No
primeiro tempo, um terceiro elemento é introduzido na relação
da mãe com a criança: o Falo. Esse primeiro tempo é marcado
pelo questionamento de ser ou não ser o falo, tratando-se aí de
uma vivência identificatória primordial onde a criança é
radicalmente identificada com o objeto único do desejo da
mãe, o objeto do desejo do Outro, o seu falo.69
Ao ocupar esse lugar de falo da mãe que a criança é
introduzida no universo simbólico da Lei (Nome-do-Pai),
processo no qual a mãe é o agente. E ainda no primeiro
tempo, a frustração ocorre como “sendo o momento em que o
seio, como objeto de necessidade, se desloca do real para o
simbólico, adquirindo dessa forma valor de dom”.
O segundo tempo é marcado pela castração e pela
dialética de ter ou não ter o falo. A passagem do primeiro para
o segundo tempo ocorre na introdução de outro elemento na
relação mãe, criança e falo: o pai. O pai real vai atuar como
agente da castração ao interditar a mãe e ser apreendido no
nível do imaginário como aquele que possui o falo. Assim, “a

68
Dor, 1999
69
Dor, 1999, p. 27
- 136 -

onipotência, que a mãe tinha na frustração, se desloca para o


pai na castração, fazendo com que ele seja apreendido no nível
imaginário como uma figura ameaçadora. A função precisa do
pai real como operador estrutural é confirmar, ratificar e
reforçar a função simbólica do pai - Nome-do-Pai – inscrita na
frustração”.
É importante destacar a importância do papel da
palavra materna para que a função paterna se realize, ou seja, é
através do discurso da mãe que a criança percebe que não é o
seu objeto de desejo e que a mãe busca no pai aquilo que ela
não tem: o falo. A mãe deve reconhecer que está submetida à
Lei do pai.70
No terceiro tempo, o da privação, ocorre o
reconhecimento da castração do pai, transformando-o de pai
onipotente a pai potente. Isso significa que ele não possui o
falo, mas possui algo com o valor de dom. É nesse momento
que ocorre o que Freud chamou de declínio do Édipo, a
escolha do sexo pela via da identificação. A dialética deste
tempo é a de ter ou não ter o dom.
Jorge e Ferreira (2009) ainda resumem os três tempos da
seguinte maneira: “é preciso renunciar ao que nunca se foi e
ao que nunca se teve, mas que um dia se acreditou ser
(frustração) e ter (castração) para que seja possível a
simbolização do falo como objeto de dom (privação).”
As estruturas de arranjo psíquico são “diagnosticadas”
em Psicanálise de acordo com o posicionamento do sujeito
frente à castração. Segundo Faria (2003), a neurose, seja ela
histérica ou obsessiva, vai ter sempre a “nostalgia do ser”, já
que toda neurose implica a queda da identificação imaginária
com o falo da mãe.

70
Dor, 1999
- 137 -

Pode-se enfim, falar da estrutura histérica, que se


encontra dentro do conceito de estrutura neurótica. A estrutura
histérica se fixa na problemática de ter ou não ter o falo. A
todo o momento o histérico se julga injustiçado pelo fato de
não ter o falo e a dinâmica do seu desejo vai se dar ao nível do
ter. O histérico acredita que o pai possui o falo, por tê-lo
privado da mãe, o que gera a possibilidade de uma
reivindicação permanente, relacionada ao fato de a mãe
também poder possuir o falo ou ainda de ter o direito a ele. Os
histéricos são chamados, por isso, de militantes do ter. (DOR,
1999)
Em toda estrutura de arranjo psíquico podemos definir
alguns traços estruturais característicos, que serão essenciais
para a definição correta da estrutura. Esses traços não são
necessariamente restritos a uma determinada estrutura, pois
um indivíduo com estrutura obsessiva pode possuir um traço
característico da histeria, por exemplo. Na estrutura histérica
podemos descrever alguns traços mais marcantes, sendo o
primeiro deles a alienação subjetiva em sua relação com o
desejo do Outro. Isso significa que como o histérico se julga
injustamente privado do falo, ele delega a questão do seu
desejo àquele que acredita possuí-lo, o Outro, ou seja, o
histérico aliena-se ao desejo do Outro. (DOR, 1999)
Outro traço estrutural está ligado ao anterior e pode ser
chamado de identificação histérica. O histérico, quando
percebe outra pessoa que consegue desejar aquilo que não tem
junto ao Outro que supostamente o tem, acredita que se
identificando com essa pessoa, também vai conseguir possuir
o que deseja. Outra identificação realizada pelo histérico é a
identificação militante, na qual ele se identifica com outra
pessoa que sabe não possuir o falo, mas que se dedica a
reivindicá-lo.
- 138 -

Outro traço estrutural do histérico, segundo Dor


(1999), é o dado a ver. Esse processo ocorre através de um
deslocamento, no qual o histérico se coloca a serviço do outro,
mas com o único objetivo de mostrar-se a si mesmo através do
outro. Nesse caso, os histéricos abrem mão de todas as suas
manifestações pessoais, em função das manifestações do que
ele imagina ser o desejo do outro, com o objetivo de se
beneficiar do seu “esplendor”.
Por fim, pode-se dizer que em relação à sua identidade,
o histérico é sempre insatisfeito, frágil. Isso ocorre, pois o
histérico se vê como não tendo sido amado o suficiente pela
mãe, o Outro. Por mais que a estrutura histérica funcione em
função da falta do ter, o indivíduo histérico também realiza
uma identificação com o ser. O seu esforço vai ser sempre em
função de se tornar o objeto ideal do Outro que ele supõe
jamais ter sido. Ao ser o objeto de desejo de quem ele
acreditar possuir o falo, o histérico acredita que passará a
possuí-lo também.71 Para isso, é necessário que o seu desejo
permaneça sempre insatisfeito.
O tema tratado agora é a estrutura neurótica obsessiva.
Ao contrário dos histéricos que são os militantes do ter, os
obsessivos são os nostálgicos do ser. Isso significa que o
obsessivo sente-se amado demais pela mãe e que em algum
momento o discurso da mãe mostrou à criança que ela
conseguia satisfazer algo que o pai não conseguia. A criança
só consegue fazer a passagem do ser ao ter, quando percebe no
discurso da mãe que o seu desejo é completamente dependente
da pessoa do pai. Pode-se, então, dizer que a criança não se
fixa no lugar de objeto de desejo da mãe, pois isso a levaria a
perversão ou à psicose. O que ocorre é que a criança é

71
Dor,1999
- 139 -

confrontada com a lei do pai, mas percebendo que ainda há


alguma insatisfação da mãe, através do seu próprio discurso,
julga-se capaz de ocupar esse lugar que vai suprir a
insatisfação que ainda existe. Quando a criança se fixa num
dispositivo de suplência à satisfação do desejo materno, ela
terá a estruturação obsessiva. A economia do desejo do
obsessivo também possui alguns traços estruturais. Em
primeiro lugar, o obsessivo vai sempre atualizar a sua atitude
de fuga adiante na qual permanece como prisioneiro do desejo
insatisfeito da mãe, ou seja, o seu próprio desejo depende da
realização do desejo do Outro.
Geralmente, o que acontece na dinâmica do desejo, é
que ele se separa da necessidade para posteriormente se tornar
uma demanda. No caso do obsessivo, quando o desejo se
separa da necessidade, ele é tomado pela mãe, que encontra
nele o objeto de suplência de sua insatisfação. Ou seja, o
desejo do obsessivo é sempre marcado pela necessidade, pois
não teve tempo suficiente de se tornar uma demanda. Como
não consegue formular uma demanda, o obsessivo se sente no
dever de tudo aceitar, tudo suportar, como conseqüência de
sua atitude, ocupando o lugar de objeto de gozo do outro.
Por fim, é importante destacar que para o obsessivo a
perda é intolerável. Como o obsessivo se dispõe a ocupar o
lugar de tudo para o outro, ele acredita que deve controlar e
dominar tudo, para que o outro não deixe de desejá-lo, ou seja,
para que ele não perca nada. A perda o remete à castração, e a
castração o remete a uma falha na sua imagem narcísica. Ao
evitar a perda, o obsessivo evita se deparar com a castração, e
isso o mantém no status de falo para a mãe. Mas, a todo o
momento o obsessivo se depara com a Lei do pai e isso resulta
em uma culpa irremediável. O obsessivo possui uma questão
- 140 -

estruturante específica com o pai e tenta a todo o tempo


ocupar o seu lugar.
Um questionamento se impõe: por que uma pessoa
continua mantendo um sintoma se este lhe causa grande
sofrimento? Na Psicanálise, o sintoma é uma formação do
inconsciente e a maneira de se lidar com ele é bem diferente
da sua eliminação. A Psicanálise iniciou seu trabalho através
do estudo da neurose, quando Freud concluiu que os sintomas
neuróticos se formavam quando um acontecimento do passado
era esquecido, mas a emoção relacionada a ele não era
descarregada adequadamente.
No texto As neuropsicoses de defesa (1894) Freud
fala desse processo de formação dos sintomas histéricos e
obsessivos. Ele explica que para conseguir realizar o processo
de repressão, o ego precisa enfraquecer o material a ser
reprimido. Ele consegue realizar esse enfraquecimento ao
retirar da representação, o afeto (soma de excitação) da qual
ela está carregada. Essa representação fica enfraquecida, pois
não está mais ligada a nenhum afeto, e pode ser reprimida
mais facilmente. Já o afeto precisa buscar alguma outra
maneira de ser utilizado. Até então, o processo é o mesmo
para a formação dos sintomas histéricos e obsessivos. A partir
daqui os caminhos mudam. Na histeria, esse afeto se liga a
alguma representação somática, processo que ele nomeia de
conversão. Já na obsessão, o afeto se liga a outra
representação que seja semelhante à primeira, através do
processo de deslocamento. Se essa representação ainda for
muito semelhante à primeira, o ego realiza o mesmo processo
e o afeto vai se ligando a outras representações, até encontrar
alguma que esteja ainda ligada à primeira, mas de maneira
- 141 -

bastante distorcida.72 Posteriormente ele acrescentou a essa


formulação que, para que o efeito deste processo fosse
patológico a lembrança do acontecimento (representação)
deveria ser repugnante a ponto de fazer o ego procurar se
afastar e se defender dela.
Sendo, portanto, a neurose o conflito entre o ego e as pulsões
reprimidas que buscam satisfação, o sintoma seria o resultado
de um acordo entre essas duas partes, em que as pulsões
seriam parcialmente satisfeitas sem que representassem um
perigo maior ao ego.
Esse acordo a que se refere Freud é chamado de
formação de compromisso. As pulsões recalcadas buscam o
tempo todo, a sua satisfação, fazendo uma grande pressão sob
o ego. O ego, por sua vez, mantém a sua força repressora para
não permitir que esse conteúdo inconsciente tenha acesso à
consciência, por lhe representar um grande perigo. O caminho
encontrado para a solução deste conflito é uma conciliação
entre essas duas forças, na qual o conteúdo recalcado sofre
modificações para se tornar irreconhecível e conseguir obter
alguma satisfação, dando origem ao sintoma. Essas
modificações ocorrem através dos mecanismos de
condensação e deslocamento, descritos por Freud no texto A
interpretação dos sonhos (1900) como responsáveis pela
transformação do conteúdo latente do sonho em conteúdo
manifesto. A condensação consiste no processo de reunião de
vários elementos de alto valor psíquico em um só elemento de
baixo valor psíquico. O deslocamento é o mecanismo em que
os elementos de alto valor psíquico são substituídos por outros
de baixo valor psíquico através do deslocamento da ênfase
dada aos primeiros, para os segundos.

72
Freud, 1996, v. III
- 142 -

Esses mecanismos de deslocamento e condensação


são encontrados em todas as formações do inconsciente
consideradas normais, como os sonhos, os lapsos e os chistes.
Tendo o sintoma a mesma estrutura que as formações
consideradas normais, Freud faz com que se rompa a barreira
entre o normal e o patológico, não sendo o significado do
sintoma para a psicanálise, uma patologia.
O sintoma, para a Psicanálise, não revela a
verdade de uma doença, mas revela a verdade do sujeito do
inconsciente. Verdade esta, que o próprio indivíduo neurótico
desconhece, mas que ao mesmo tempo em que lhe
proporciona satisfação sexual se mantém como o lugar do seu
sofrimento.
É através da fixação em experiências anteriores,
infantis, que a libido consegue romper a censura e encontrar a
satisfação, mesmo que parcial. Tais experiências são da ordem
das fantasias e por ocorrerem em uma fase de desamparo e
dependência, possuem efeitos traumáticos. Segundo Freud
(2006, v. XX) como o sintoma é um substituto do impulso
reprimido, ele faz o seu papel, renovando constantemente as
suas exigências de satisfação. Isso faz com que o ego dê um
sinal de desprazer e se mantenha sempre em posição
defensiva.
Segundo Dias (2006, p. 401) “a psicanálise nos
mostra que, pelos mecanismos da condensação e do
deslocamento, o sintoma tornou-se uma satisfação substituta
de uma série de fantasias e de recordações de experiências
traumáticas do início da vida sexual”.
Brenner (1975, p. 200) vai descrever a visão do
ego e do id em relação à formação de um sintoma, da seguinte
maneira: “do ponto de vista do id, o sintoma psiconeurótico é
uma gratificação substituta de desejos que, de outro modo,
- 143 -

seriam reprimidos. Do ponto de vista do ego, é uma irrupção


na consciência de desejos perigosos e indesejáveis, cuja
gratificação só pode ser parcialmente dominada ou evitada,
mas que é, ao menos, preferível e menos desagradável que a
emersão daqueles desejos em sua forma original”.
Para Lacan, na primeira fase de seu estudo, por
volta dos anos 50, o sintoma, assim como o inconsciente, se
estrutura como uma linguagem, pois participa da linguagem e
de suas leis. Essa formulação de Lacan está baseada na
primazia do simbólico, também postulada por ele. Diante
disso, Lacan faz uma releitura da convicção de Freud de que
todo sintoma tem um sentido a ser decifrado, baseado na
lingüística estrutural, e afirma que o sintoma é definido como
“o significante de um significado recalcado da consciência do
sujeito”.73 Lacan afirma que no processo de análise, o
sintoma é decifrado ao se desdobrar e desenrolar a cadeia de
significantes ligados a ele. A relação de um significante com
outro é que vai determinar um significado e por isso a
associação livre, regra primordial da psicanálise, se dá pela via
do significante.
Quinet vai falar ainda da vertente do sintoma
como mensagem. O sintoma se manifesta como verdade para
o sujeito através de uma mensagem cifrada do Outro. Ao ser
decifrado, o sintoma revela “uma mensagem histórica da
alienação do sujeito aos significantes do Outro”. Ou seja, o
sintoma se forma através da articulação entre os significantes
expressos pelo Outro, que mais marcaram a história do sujeito.
No sintoma, a sua própria mensagem é recebida pelo sujeito
como se viesse do Outro (cujo discurso é o inconsciente).
Em uma fase mais adiantada de seu trabalho, no
ano de 1970, Lacan afirma que há algo no significado que é
73
Lacan, 1998 apud Dias, 2006, p. 402
- 144 -

resistente ao significante. Devido a isso, a verdade deixa de


ser apreendida como total e passa a ser meia-verdade. Lacan
irá conceber que o sintoma não é regido somente pela rede
simbólica, pois há algo que resta no desvendamento da rede de
significantes. A isso que resta ele dá o nome de gozo e o
localiza no campo do real, pois é algo que não está no reino do
sentido. O gozo absoluto buscado a todo tempo pelo sujeito é
intolerável. O sintoma, portanto, é uma forma de o sujeito
organizar o gozo.
Durante o seu estudo, Freud percebe uma
significante relação entre a geração de ansiedade e a formação
de sintomas. Inicialmente ele acreditava que a ansiedade era
causada pelo processo de repressão, mas depois verificou que
a ansiedade é o que impulsiona a repressão, e,
conseqüentemente, a formação dos sintomas. A ansiedade se
manifesta como medo de um perigo real ou julgado como real,
sendo esse perigo, evidentemente, a própria energia pulsional.
O sintoma é, portanto, criado para evitar o surgimento do
estado de ansiedade.74
Segundo Brenner (1975) esse seria o primeiro
ganho, ou ganho primário, que o indivíduo neurótico obtém na
formação dos sintomas. Permitindo que as emergências
pulsionais do id sejam parcialmente satisfeitas, o ego consegue
evitar o desprazer de experimentar a ansiedade. O sintoma é,
mesmo que precária, uma saída que o indivíduo neurótico
encontra que garante certa ordem ao sujeito.
Já se pode observar nessa primeira questão, um
motivo para que o indivíduo neurótico apresente uma
resistência a abandonar o seu sintoma. Apesar de causar uma
sensação de desprazer tolerável, o sintoma surge como solução
para um desprazer que seria intolerável. Brenner vai falar
74
Dias, 2006
- 145 -

ainda, do que Freud chamou de ganhos secundários dos


sintomas. A partir do momento em que o sintoma está
formado, o ego percebe que ele pode lhe trazer vantagens.
Para exemplificar uma situação de resistência ao
abandono de um sintoma, devido aos ganhos secundários,
pode-se citar o caso de uma adolescente que tem compulsão
por comer e que após comer tudo o que sente vontade, vomita
tudo o que está no estômago. Apesar de sofrer com todos os
males físicos e psíquicos que um transtorno alimentar pode
causar, a menina passou a receber total atenção dos pais, coisa
que antes não acontecia. A atenção dos pais pode ser um
ganho secundário tão grande, que a menina,
inconscientemente, ofereça resistência à análise.
Lacan ao falar do ganho oferecido por um sintoma,
vai se referir ao gozo. O sintoma é ao mesmo tempo a
possibilidade de satisfação (alívio) para o inconsciente e um
padecimento (sofrimento) para o ego. O efeito de satisfação ou
alívio do sintoma é tomado como uma das imagens principais
do gozo, dentre as três que Lacan distinguiu. Essa teoria do
gozo postulada por Lacan está diretamente ligada ao que
Freud escreveu sobre a energia psíquica. A satisfação parcial
encontrada pelas pulsões recalcadas ao romper a barreira do
recalque é denominada por Lacan de gozo fálico, ou seja, o
alívio incompleto da tensão inconsciente. Possui essa
nomeação, pois Lacan conceituou o falo como a barreira do
gozo.
A outra parte da tensão que permanece sem
satisfação, pois não consegue romper a barreira do
recalcamento, fica presa no interior do sistema psíquico
excitando as zonas erógenas e mantendo permanentemente
elevado o nível de tensão interna. Lacan dá o nome de mais-
gozar a esse gozo retido no interior do sistema psíquico, pois
- 146 -

sua saída é impedida pelo falo. Por fim, ele chama de gozo do
Outro, o estado hipotético na qual a tensão seria totalmente
descarregada, sem nenhum empecilho. Esse seria o gozo que o
sujeito supõe no Outro e que o busca o tempo todo, como um
estado de realização absoluta. Sabemos que essa descarga total
é impossível e que por isso o sujeito é sempre insatisfeito.
Sendo o sintoma, uma forma de organização do
gozo, segundo Lacan, podemos entender que por essa razão o
sujeito não renuncia a ele. Assim como há um saber
inconsciente, representado pelo significante recalcado, há um
saber sobre si como sujeito pulsional, representado pelo gozo.
O processo analítico é caracterizado pela
passagem do dizer do sintoma a seu dito. A ética da
psicanálise é a do bem dizer o sintoma. É necessário que o
sujeito considere seu sintoma como verdadeiro e também que
ele detenha algo de sua verdade, para que a análise se inicie.
Quando está em processo analítico, o sujeito espera a grande
revelação de sua verdade, mas quando consegue decifrar os
seus sintomas, a verdade não é totalmente desvendada.
No início da análise, o sintoma ainda não
encontrou seu dito e, no final da análise, o sujeito chega a um
bem dizer o sintoma, mesmo que não completamente. O
sintoma se reduz a um real bem dito. O bem dizer o sintoma
não significa a sua abolição, como na Psiquiatria e em
algumas áreas da Psicologia, mas a conciliação com ele. Essa
conciliação é diferente da conciliação entre o ego e a pulsão
recalcada, em que ocorre o recalque da verdade do sintoma.
Na conciliação do sujeito com o seu sintoma, a verdade não é
recalcada, e sim bem dita. Portanto, para que ocorra o final da
análise, o sujeito deve saber lidar com o seu sintoma.
Por fim, Dias (2006, p. 405) afirma que “o papel
do analista é permitir que a pulsão se presentifique na
- 147 -

realidade do inconsciente. A interpretação deve visar não tanto


ao sentido, mas principalmente à redução dos significantes-
mestres a seu não senso, a seus modos de gozo”.

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- 149 -

VI - A Relação entre a mulher e sua mãe:


implicações na escolha da filha por uma
modalidade de parceria amorosa.

Lílian de Souza Guedes

A mãe, enquanto mulher, não pode fornecer à filha nenhum


significante que seja consistente o suficiente para servir de
respaldo para uma identificação feminina, diferentemente do
pai, que pode encarnar o papel de representante fálico para as
identificações sexuais do filho. Desta relação entre mãe e filha,
ambas castradas, resultará o futuro da mulher, dependendo de
como essa questão for vivenciada por ela na relação com sua
mãe.

Freud demonstrou a importância do complexo de


Édipo como fenômeno central no desenvolvimento sexual de
meninas e meninos, na primeira infância. O próprio termo
‘complexo’ indica uma rede de relações que ocorrem na
infância e que é responsável pela organização de uma
subjetividade desejante. Sobre a universalidade dos desejos
edipianos afirmou que cada criança deve realizar um caminho
próprio, para superar o complexo de Édipo e ter acesso à
sexualidade adulta.
Laplanche e Pontalis definem o complexo de
Édipo como o conjunto organizado de desejos amorosos e
hostis que a criança sente em relação aos pais. Sob sua forma
dita positiva, o complexo apresenta-se como na história de
Édipo-Rei: o desejo da morte do rival que é a personagem do
mesmo sexo e desejo sexual pela personagem do sexo oposto.
- 150 -

Sob a forma negativa, apresenta-se de modo inverso: amor


pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento ao progenitor
do sexo oposto. Este fenômeno central no desenvolvimento da
sexualidade ocorre diferenciadamente em meninos e meninas.
Freud, já em 1905 em seu texto sobre a gênese da
sexualidade infantil, mostra que a maneira como cada criança
justificará a diferença entre os sexos é única, mas há uma
similaridade na maneira como os meninos lidam com a visão
da genitália feminina, atribuindo a todos, inclusive às
mulheres, a posse de um pênis. E quando se deparam com os
genitais de uma menina, acreditam que quando ela crescer o
pênis aumentará de tamanho. Essa teoria se refere a uma
universalidade do pênis que, posteriormente, originará o
complexo de castração quando menino e menina se deparam
com a visão dos órgãos genitais femininos. A fantasia da
mulher como um ser mutilado gera no menino a ameaça de
castração e, na menina, a inveja do pênis, é o que afirma Costa
(2010).
Freud (1908/1996) aponta que as meninas
demonstram interesse pelo pênis, tomadas por um sentimento
de inveja, porque se sentem prejudicadas. Quando notam o
pênis de um menino, irmão ou companheiro, elas o percebem
como um correspondente superior de seu próprio órgão e se
tornam vítima de inveja, tomando uma decisão: viu o pênis,
sabe que não o tem e quer tê-lo. Neste sentido há uma ferida
narcísica, pois gera um sentimento de inferioridade em relação
ao seu próprio sexo. A persistência na esperança de um dia
obter um pênis, denominado “complexo de masculinidade”,
pode dificultar grandemente o desenvolvimento normal da
feminilidade. Caso não seja superado esse complexo de
masculinidade, a inveja do pênis apresentará algumas
consequências de longo alcance. A primeira delas se refere ao
- 151 -

sentimento de inferioridade gerado por esta inveja. A menina


tenta inicialmente explicar sua falta de pênis como um castigo
pessoal e só depois descobre que todas as mulheres são
também desprovidas deste órgão, partilhando do desprezo
sentido pelos homens por esta inferioridade. Quando a inveja
do pênis abandona seu verdadeiro objeto, nota-se um
deslocamento dessa inveja sob a forma de ciúme, muito mais
presente na vida da mulher que na dos homens, pois é
reforçado pela inveja do pênis de forma deslocada, conforme
constatado por Freud (1925/1996). Além dessas duas
consequências já citadas, a inveja do pênis acarreta o
afrouxamento da relação afetuosa da menina com seu objeto
materno, pois a mãe é vista por ela como responsável por sua
falta.
Freud (1925/1996) também aponta outra
consequência, afirmando ser esta a mais importante de todas:
o abandono da sexualidade clitoridiana, devido ao sentimento
narcísico de humilhação experimentado pela inveja do pênis.
Não é somente a influência da educação que faz com que a
menina abandone essa atividade para dar lugar ao
desenvolvimento de sua feminilidade. Diante da inveja do
pênis e do sentimento de inferioridade causado pela ferida
narcísica a menina passa a acreditar que não pode competir
neste ponto com os meninos e então é melhor abandonar essa
idéia de masturbação. Este abandono é precondição para o
desenvolvimento da feminilidade, como afirma Freud
(1925/1996): “Seu reconhecimento da distinção anatômica
entre os sexos força-a a afastar-se da masculinidade e da
masturbação masculina, para novas linhas que conduzem ao
desenvolvimento da feminilidade”.
Na história edipiana do menino, o complexo de
castração funciona como operador para a saída do complexo
- 152 -

de Édipo. Já para a menina, a castração precede e a prepara


para o complexo de Édipo, que se torna uma formação
secundária. Assim, na menina falta o motivo para a demolição
do complexo de Édipo, que seria o medo da castração
experimentado pelos meninos, uma vez que, para ela, ser
castrada já é fato consumado.75
O desenvolvimento sexual da menina é mais
complicado porque ela tem a tarefa de abandonar sua principal
zona genital – clitóris – para dar lugar à vagina. E, além disso,
trocar seu objeto original de amor – a mãe – para se direcionar
ao pai. A ameaça de castração para o menino o faz dissolver
seu complexo de Édipo e o conduz à formação do superego.
Diferentemente se dá com a menina, que já se vendo castrada,
assume a sua própria inferioridade e a superioridade do sexo
oposto e se revolta com esta situação.76
Disto podem surgir três modos de
desenvolvimento: o primeiro seria abandonar sua atividade
fálica, sua sexualidade e parte de sua masculinidade diante do
choque da comparação com os meninos e sua consequente
insatisfação com seu clitóris ou uma condução à neurose; um
segundo modo seria desenvolver um complexo de
masculinidade, ao apegar-se à idéia de que ainda terá um
pênis, e o terceiro seria uma atitude feminina normal, ou seja,
tomar o pai como objeto, assumindo o caminho feminino para
o complexo de Édipo, que não é destruído pela castração, mas
simplesmente criado por ela.77
Laplanche e Pontalis (2001) colocam que no início
do desenvolvimento psicossexual, anterior à instauração do
complexo de Édipo, há o predomínio de um apego à mãe para

75
Freud, 1925/1996
76
Freud, 1925/1996
77
Freud, 1925/1996
- 153 -

ambos os sexos, caracterizando, neste sentido, a fase pré-


edipiana. Esse termo é cunhado por Freud após a constatação
da importância, complexidade e duração dessa relação
primária da menina com sua mãe, ao se debruçar sobre a
sexualidade feminina. A mãe é o primeiro objeto amoroso
tanto para a menina quanto para o menino. Mas no caso deste
último, ela continua sendo seu objeto de amor. A menina, por
outro lado, precisa encontrar o caminho em direção ao pai e
para isso precisa se desligar de sua mãe.78
Freud ainda aponta que essa ligação intensa com a
mãe, caracteriza na menina a fase do complexo negativo, onde
há uma ligação intensa com o genitor do mesmo sexo,
rivalizando com o do sexo oposto. Ou seja, o pai, nessa fase,
representa não mais que um rival incômodo. E esse período
precisa ser superado para que a menina atinja a normal
situação edipiana. Na teoria freudiana, inicialmente, se
considerava o papel do pai com certa exclusividade no
desenvolvimento da sexualidade feminina. Porém, Freud, em
seus últimos textos a respeito deste assunto, desloca esse papel
primordial do pai, para dar ênfase à relação da menina com
sua mãe.
Freud, (1931/1996) afirma que onde a ligação da
mulher com o pai era particularmente intensa, a análise
mostrava que essa ligação fora precedida por uma fase de
ligação exclusiva à mãe, igualmente intensa e apaixonada.
Assim, a fase pré-edípica ganha importância na obra de Freud
ao se dar conta da intensa ligação original percebida
principalmente entre uma mulher e sua mãe e que certas
mulheres não conseguiam de fato se desligar dessa relação
original para ir em direção aos homens. O pai, neste caso, é
sucessor da intensa ligação originária da menina com sua mãe.
78
Freud, 1931/1996
- 154 -

Dessa forma, o complexo de Édipo para a menina é


considerado uma formação secundária, sendo precedido pelas
operações do complexo de castração.
A menina, ao entrar na situação edipiana, precisa
mudar tanto de zona erógena quanto de objeto, ao contrário do
menino que mantém ambos. O afastamento da menina de sua
mãe é um passo extremamente importante para o seu
desenvolvimento, mais que do que simples mudança de
objeto. A rivalidade da menina para com sua mãe se origina na
fase pré-edipiana e será reforçada e explorada na situação
edipiana.79 As acusações e queixas contra a mãe que
justificam sua hostilidade decorrem “inevitavelmente da
natureza da sexualidade infantil, do caráter ilimitado de suas
exigências de amor e da impossibilidade de realizar seus
desejos sexuais”.
A menina censura sua mãe por diversos motivos:
Um deles pode ser pela fantasia de ter recebido pouco leite,
isto visto como falta de amor. Freud (1933/1996) ensina que a
avidez da criança pelo primeiro alimento é completamente
insaciável, a criança nunca supera o sofrimento de perder o
seio materno. Outra fantasia que faz com que a menina
censure sua mãe está ligada ao surgimento de outro bebê,
atrelando isto ao fato de não ter recebido mais leite da mãe
porque ela precisava dele para o próximo bebê e porque as
exigências de uma criança são ilimitadas, exigem
exclusividade e não toleram partilha. Ainda, a proibição das
atividades prazerosas com os seus genitais, às vezes com
ameaças severas e sinais de desagrado – atividade que a mãe
mesma iniciara a criança – gera uma hostilidade dessa criança
para com sua mãe. (Freud, 1933/1996) ainda afirma que a

79
Zalcberg, 2003
- 155 -

menina também responsabiliza sua mãe pela falta do pênis,


pois não a perdoa por ter sido colocada em desvantagem.
Essas justificativas da hostilidade demonstrada
pela menina em relação à sua mãe contribuem para o processo
de afastamento das duas, importante para que a menina se
dirija ao pai, entrando assim na situação edipiana. Ainda cabe
apontar que as primeiras experiências sexuais da menina em
relação à sua mãe são consideradas passivas, uma vez que é
amamentada, alimentada, limpa e vestida. Uma parte de sua
libido então desfruta da satisfação relacionada a estas ações da
mãe e outra parte tenta transformá-las em atividade. Assim,
junto ao afastamento da mãe, diminuem-se os impulsos ativos,
que dão lugar aos passivos. A transição para o objeto paterno,
com o auxílio das tendências passivas que escaparam à
catástrofe, abre o caminho para a feminilidade.80
À menina, no processo de tornar-se mulher, é
incumbida a primeira tarefa, que seria a renúncia à satisfação
ativa dirigida à mãe, inicialmente, não apenas para voltar-se ao
pai, mas para separar-se dela, constituindo esta como a
segunda tarefa deste processo. Zalcberg (2003, p.25) ainda
afirma que cabe à menina, para tornar-se mulher, um encargo
trabalhoso e contínuo. Mais do que ser, a feminilidade é
tornar-se. Portanto, essa passagem de objetos de amor, da mãe
para o pai, não é uma passagem fácil e nem sempre se realiza.
Também nos voltamos para o processo de tornar-
se mulher pelo qual passa a menina, que deve abandonar tanto
sua mãe como primeiro objeto de amor para voltar-se ao pai,
assim como trocar a zona erógena clitoridiana pela vaginal.
Essas mudanças são grandes responsáveis pela entrada da
menina na sua feminilidade. O processo de desenvolvimento
80
Freud, 1931/1996
- 156 -

na menina tem uma especificidade que se diferencia do


menino, pela questão da falta de um significante
especificamente feminino. Uma vez que a organização genital
infantil do estádio fálico é marcada pela antítese entre possuir
um órgão genital masculino e ser castrado, não há registro de
um significante que represente o sexo feminino no aparelho
psíquico. Há somente o falo como representante do que é
classificado como masculino. Onde deveria haver o
representante feminino, encontramos uma falta de
significantes.
A mãe, enquanto mulher, não pode fornecer
nenhum significante que seja consistente o suficiente para
servir de respaldo para uma identificação feminina,
diferentemente do pai, que pode encarnar o papel de
representante fálico para as identificações sexuais do filho.
Desta relação entre mãe e filha, ambas castradas, resultará o
futuro da mulher, dependendo de como essa questão for
vivenciada por ela na relação com sua mãe. Lacan
(1957/1999) ensina, em seu seminário sobre as formações do
inconsciente, que, quando nasce uma criança, a mesma se
encontra numa condição de alienação, pois está totalmente
dependente do desejo de um outro, no caso, a mãe. Seja do pai
ou da mãe, ou de ambos, antes mesmo de nascer, a criança foi
causa de desejo de um outro. Independente do que motivou os
pais, os motivos continuam a agir sobre a criança
posteriormente ao seu nascimento. E ainda após o nascimento,
a criança continua dependendo, para sua sobrevivência, do
desejo desse Outro e de que ele realize uma função que ela
mesma não dá conta, ou seja, de satisfação das suas próprias
necessidades.81 A alienação, portanto, se refere aos primeiros
81
.FINK, 1998
- 157 -

momentos do bebê, onde este se encontra completamente à


mercê dos cuidados maternos e dependente de todas suas
significações e desejos. Essa condição da criança de ser
totalmente dependente de uma outra pessoa para satisfazer
suas próprias necessidades, Freud nomeou como desamparo.
O desamparo faz com que esse outro seja um ser de
importância fundamental na vida da criança. Na obra
freudiana a questão do desamparo é uma referência constante.
O estado de desamparo, em correlação com a total
dependência do bebê humano com relação à mãe, implica a
onipotência desta. Influencia assim, de forma decisiva, a
estruturação do psiquismo, destinado a constituir-se
inteiramente na relação com outrem. 82É a mãe quem dá
sentido às primeiras experiências inscritas na criança, porque
para esta, tais experiências não fazem sentido algum. É o que
Freud (1895/1996) denomina de “mútua compreensão” entre
mãe e criança, que implica numa satisfação da criança pela
mãe sem que esta precise ser solicitada. Mas para que a
criança se prepare para posicionar-se no mundo ela precisa de
um novo funcionamento psíquico mais adequado à realidade,
sendo, além de satisfeita, também alimentada.83
Ao falar sobre o conceito de Outro em Lacan,
Zalcberg afirma que: “O sujeito não existe sozinho: é sempre
referido a um Outro. Na referência a um Outro é que o sujeito
terá de constituir-se, no movimento inicial de alienação-
separação.” (Zalcberg, 2003, p.59) Neste sentido, a mãe reúne
muitos aspectos que fazem com que represente o Outro para a
criança, fazendo parte do mais íntimo dela. A mãe é elevada à
categoria de Outro porque pode atender às necessidades tanto

82
Laplanche e Pontalis
83
Zalcberg, 2003
- 158 -

biológicas quanto amorosas da criança, pois o que impera é


seu poder e suas respostas constituem leis, suas demandas são
mandamentos, seus desejos são desígnios. Para barrar este
poder absoluto que o Outro materno encarna, é necessária a
intervenção de um terceiro elemento nesta relação: a Lei do
Pai, para “frear o poder absoluto do Outro materno, tão íntimo
e tão próximo.” (Zalcberg, 2003, p.60) Diante desta
onipotência materna, a função do pai deve se fazer presente
como mediadora desta relação para evitar que a criança
permaneça imersa e alienada nesse mundo materno. Portanto,
para se tornar sujeito, a criança precisa, com a ajuda da
metáfora paterna, realizar esta separação, constituindo-se o
processo de subjetividade.
Lacan enfatiza a idéia da primazia do significante,
enquanto Freud enfatiza a questão do desamparo e da
compreensão mútua. Para Lacan, portanto, antes da
interferência do pai, o desejo da mãe era vivido pela criança
como um enigma. O pai exercerá sua função simbólica ao
trazer significado para o significante desse desejo. Ele
libertará a criança da alienação absoluta ao desejo da mãe. A
intervenção simbólica do pai instaura a lei da proibição do
incesto e impede que a criança continue submissa ao desejo da
mãe. Além disso, apresenta o falo, nomeando-o como objeto
desejado pela mãe, fazendo com que seja decifrado para a
criança tal enigma, libertando-a de sua condição alienante de
continuar sendo, ilusoriamente, o objeto de desejo desse Outro
materno. A criança então deixa de ser o falo da mãe, perdendo
essa identificação anterior. 84
Zalcberg (2003) aponta que, quando a
compreensão mútua deixa de existir e a criança precisa pedir o
que deseja, endereçando sua demanda a um outro, ela se
84
Lacan, 1957/199
- 159 -

confronta com a perda, necessária para que haja algo a que


desejar. O espaço para o desejo é aberto a partir de uma
demanda não satisfeita. A separação entre mãe e criança deve
acontecer num segundo momento para que a criança saia dessa
posição de total submissão ao mundo materno.
Essa articulação entre alienação e separação
apresenta peculiaridades no caso da mulher que por sua
ligação diferenciada com sua mãe, continua alienada ao desejo
dela muito facilmente, o que faz com que haja tanto a
dificuldade em separar-se e estabelecer seu próprio desejo
quanto em construir uma feminilidade independente do
modelo de mulher que a mãe encarna. Freud (1933/1996)
afirma que a fase inicial do desenvolvimento libidinal em
ambos os sexos é equivalente. As sensações prazerosas obtidas
pelos meninos com seu pequeno pênis equivalem às sensações
das meninas obtidas pelo clitóris. Mais tarde, o clitóris
transfere sua sensibilidade e importância para a vagina,
abrindo caminho à feminilidade.
Quanto ao primeiro objeto de amor, tanto para o
menino quanto para a menina, é a mãe que o incorpora. No
entanto, os meninos mantêm esse primeiro objeto ao longo da
formação do complexo de Édipo, assim como seu pênis como
zona erógena. Já no desenvolvimento das meninas, elas
precisam tanto mudar de zona erógena – do clitóris para a
vagina, quanto de objeto – da mãe para voltar-se ao pai.
Como já visto, o papel do pai, a princípio, era
considerado na teoria freudiana com certa exclusividade no
desenvolvimento da sexualidade feminina. Porém Freud, em
seus últimos textos a respeito deste assunto (1933 e 1934),
desloca esse papel primordial do pai, para dar ênfase à relação
da menina com sua mãe: Ele afirma ser impossível
compreender uma mulher, a não ser analisando-se sua relação
- 160 -

com a mãe, valorizando a fase de sua vinculação exclusiva a


ela.
Freud (1933/1996) ainda nos explica que a fantasia
de ter sido seduzida pelo pai é expressão típica do complexo
de Édipo nas mulheres. Podemos encontrar tal fantasia na pré-
história edipiana da menina com sua mãe, em que esta última
figura como sedutora, de vez que, ao realizar atividades
referentes à higiene, de fato, estimulou e despertou sensações
prazerosas nos genitais das meninas.
A essa poderosa vinculação à mãe, interpõem-se
alguns motivos que levam a menina a uma desvinculação,
revelando hostilidades justificadas por alguns motivos, já
detalhados no capítulo anterior, que se referem à natureza da
sexualidade infantil e seu caráter ilimitado de exigências de
amor, e da impossibilidade de realizar seus desejos sexuais. 85
No entanto, esses motivos também se apresentam
nos meninos, mas não são capazes de afastá-lo de sua mãe e
criar a hostilidade que aparece nas meninas. Ainda em seu
texto sobre Feminilidade (1933/1996), Freud afirma que a mãe
é responsabilizada pela menina por sua falta de pênis, por
colocá-la em desvantagem. A menina, ao se deparar com os
genitais de outro sexo, sente-se injustiçada e é tomada pela
inveja do pênis. Existe, portanto, um fator específico que
diferencia a relação da mãe com a menina: o complexo de
castração. O fato de a menina aceitar que é castrada, ou seja,
que lhe falta um pênis, não significa que ela o fará de forma
tranquila e sem uma busca, por um determinado tempo, de
possuir algo semelhante.
Freud (1933/1996) aponta três efeitos do
complexo de castração na mulher. O primeiro seria uma
inibição sexual, onde a menina, insatisfeita com seu clitóris,
85
Freud, 1933/1996
- 161 -

abandona toda sua atividade fálica e boa parte de sua


sexualidade masculina. O segundo seria um complexo de
masculinidade, onde a menina se apegaria à idéia de que ainda
possuirá um pênis, podendo, em alguns casos, até levá-la a
uma homossexualidade. O terceiro efeito se apresentaria como
o processo de desenvolvimento que levaria à feminilidade, ou
seja, a menina tomar o pai como objeto de amor e então entrar
na situação edipiana.
Freud nos deu importante contribuição a respeito
da construção da feminilidade e da ligação das mulheres com
suas mães nesse processo. Outras contribuições a esse respeito
também nos foram dada por Lacan, conforme aqui
desenvolvemos. A diferença anatômica não determina a
posição do sujeito feminino ou masculino, mas será a forma
como o sujeito se submete ao falo, significante do desejo, que
o posicionará como homem ou mulher. O menino, por
acreditar ter o falo, tem medo de perdê-lo. A menina, uma vez
que se reconhece como castrada, percebe que nada tem a
perder. (Freud, 1923/1996) Disto decorrem as diferenciações
no processo de tornar-se mulher.
O surgimento do desejo na vida da mulher e a
separação de seu próprio desejo do de sua mãe é dificultado se
a mulher continua insistindo na demanda de amor à mãe, na
esperança de dar consistência a seu ser. Zalcberg (2003)
ensina que paradoxalmente, a mulher que não suporta bem a
falta (a motivar a sua insistência na demanda) terá de
desenvolver formas de preservar o lugar da falta em sua vida;
sem falta ela não pode ter acesso ao desejo próprio. A mulher
tem, então, de buscar o vazio como condição de desejar, no
esforço de preservar uma distância entre desejo e demanda, no
estabelecimento de novas formas de relação, basicamente com
o Outro.
- 162 -

A falta, que não existia no período da alienação,


terá de ser confrontada pela criança ao ser introduzida a
metáfora paterna, que instaura a separação entre ela e sua mãe
e que é constituidora da subjetividade da criança. No entanto,
a criança tem dificuldade, primeiramente, de aceitar a falta
deste Outro, antes considerado completo. E mais uma vez, a
mulher, mais do que o homem, terá uma dificuldade maior em
aceitar que o Outro materno, completo e satisfeito, não existe
como tal. Isto não é bem aceito por ela, pois acaba com sua
esperança de que alguém lhe complemente.86
A mãe, não podendo suportar a falta na filha,
principalmente por ser uma falta que também lhe é própria,
pode tentar atendê-la no nível da demanda, evitando que
apareça essa falta. Ao mesmo tempo a menina, ao satisfazer a
mãe nesse mesmo nível, fica presa a uma busca de sempre ser
o objeto de amor do outro. A gratificação resultante deste
processo dificulta ainda mais a separação da menina de sua
mãe para tornar-se mulher e mãe, ela mesma. E diante dessa
condição de satisfação a toda demanda, Zalcberg (2003)
aponta que não há espaço para a demanda insatisfeita, isto é,
para a falta, impossibilitando o desejo. Daí o surgimento da
angústia na criança como a falta da falta.
O pai tem uma função fundamental ao evidenciar
para a criança que falta à mãe algo e que ela, criança, não pode
preencher. Esse reconhecimento é essencial para que o
complexo de castração tenha seu efeito estruturante,
confrontando o sujeito à falta inerente à própria linguagem,
que faz com que o inconsciente seja incapaz de dizer tudo,
apresentando-se como saber em falta. Neste sentido, o pai tem
uma função simbolizadora que é a de impor um limite ao
poder da mãe sobre a criança. (Lacan, 1957/1999) Essa
86
Zalcberg, 2003
- 163 -

intervenção paterna deve ser possibilitada na configuração


familiar. E isso vai depender da aceitação da mãe de que é
faltosa, reservando a palavra ao pai da criança. Nesse sentido,
é preciso que a criança encontre o pai na palavra da mãe.
Disso dependerá sua estruturação como sujeito.
Quando a menina se vê marcada pela castração e
tendo de abandonar sua identificação fálica, deixando de ser o
objeto de desejo da mãe, ela deixa de ter um lugar, restando-
lhe a nostalgia em relação à mãe, pois o corte simbólico
introduzido pelo pai não se dá de forma plena, algo que é
específico da sexualidade feminina. O pai é capaz de fornecer
uma identificação viril que permite uma estruturação enquanto
sujeito, mas não uma identificação feminina, o que busca a
menina. Assim, a metáfora paterna deixa um resto na mulher
que fica fora do processo de simbolização, pois não há um
significante especificamente feminino que a represente.
(Zalcberg, 2003) e assim a mulher se encontra
simultaneamente dentro e fora do registro simbólico. Em parte
marcada pela castração, em parte não, ou seja, uma parte é
atingível pelas palavras e outra não, está além destas. Algo
não entra no discurso.
Freud, em seu texto sobre o narcisismo
(1914/1996) aponta dois tipos de escolha objetais disponíveis
a qualquer sujeito, podendo dar preferência a um ou a outro: o
tipo anaclítico e o tipo narcisista. Ele aponta que o primeiro,
também denominado de ligação, é mais encontrado nos
homens, onde é demonstrada uma acentuada supervalorização
sexual que se desloca do narcisismo original da criança para o
objeto sexual, semelhante ao estado de uma pessoa apaixonada
que transfere a libido de seu ego para o objeto amoroso. O
segundo tipo de escolha objetal, o tipo narcisista, é mais
comumente encontrado nas mulheres. Este tipo revela um
- 164 -

enamoramento das mulheres por si mesmas, principalmente as


mais belas, em tamanha intensidade que pode ser comparada
ao amor do homem por elas. Portanto, a necessidade delas se
apresenta mais na direção de serem amadas.
A renúncia ao narcisismo pode exercer sua
influência ao permitir àqueles que dele abdicaram, serem
capturados pelo fascínio dessas mulheres narcísicas. O grande
encanto das mulheres narcisistas tem, contudo, o seu reverso;
grande parte da insatisfação daquele que ama, de suas dúvidas
quanto ao amor da mulher, de suas queixas quanto à natureza
enigmática da mulher, tem suas raízes nessa incongruência
entre os tipos de escolha de objeto.87 Não se trata aqui de
definir que todas as mulheres amam em conformidade com o
tipo narcísico e todos os homens de acordo com o tipo
anaclítico. Freud (1914/1996) fez essa observação apontando
que estes dois tipos estão abertos a todos os sujeitos, mas que
a escolha objetal do tipo narcisista se associa mais ao tipo
feminino e a escolha objetal anaclítica, ao masculino. No
entanto, pode se verificar grande número de mulheres que
amam de acordo com o tipo masculino e homens que amam de
acordo com o tipo feminino.
Portanto, a questão anatômica não é um aspecto
determinante em relação à posição do sujeito em relação ao
sexo. Freud (1923/1996) aponta isso ao afirmar que o sexo
resultaria de um processo de subjetivação, não sendo, pois,
algo natural, já definido pela própria anatomia. Samico (2011,
p. 81) ressalta que o sujeito já nasce sendo referido por uma
teia significante sustentada pela constelação familiar e será,
mesmo antes de nascer, representado por um dos significantes:

87
FREUD, 1914/1996, p. 96
- 165 -

menino ou menina. A escolha sexual, portanto, é uma escolha


aconselhada.
Tanto a mulher quanto o homem, em algum
momento se preocupam com a questão de sua feminilidade ou
virilidade. Esse processo de subjetivação que distingue uma
posição masculina ou feminina tem uma lógica sexual
específica para cada uma, que se constrói ao longo do
desenvolvimento como resultado da infância de cada sujeito
que, ao longo de seu caminho chega a uma realização de uma
identificação sexual. (Zalcberg, 2007) É sobre isso que
tratamos a seguir.
Lacan formula o conceito de falta-a-ser que
remete à questão da diferença entre os sexos e ao mesmo
tempo indica uma semelhança. A falta-a-ser aponta para a
questão a que todo sujeito está submetido, uma vez que não
tem acesso à parte inicial de sua história, já que era a mãe
quem falava por ele, não se encontrando o seu próprio começo
nele próprio, mas no Outro. Esta separação de uma parte de si
mesmo é que faz com que o sujeito sofra essa falta-a-ser. A
diferença entre os sexos está, pois, em que essa falta
caracteriza a subjetivação masculina, pois a feminina ainda é
marcada por outra falta, além da falta a qual está submetido
todo sujeito. 88
O homem precisa lidar apenas com uma falta,
diferenciando o seu modo de estruturação subjetiva em relação
à mulher quanto às resoluções buscadas para essa falta única
estrutural. A vivência do sexo da forma masculina passa pela
subjetivação de seu órgão viril sob o modo de um “tenho”.
Inicialmente é para a mãe que “se tem” ou “não se tem”, pois
é em função disso que a criança estrutura sua existência.

88
Zalcberg, 2007
- 166 -

Assim, o fato de “ter” seria no sentido de completar àquilo que


falta à mãe, numa própria identificação fálica. Essa
identificação como condição inicial de existência marca a
criança no sentido de que ela se aliena no Outro na busca de
satisfação das exigências de amor, cobrindo a falta da mãe (ou
sua castração) com seu eu narcísico. Nesse sentido, essa
condição proporciona a experiência mais próxima de
satisfação e completude possível. Essa busca por tentar
encobrir a falta da mãe espera de volta uma resposta (da mãe)
de amor. A satisfação a toda demanda apresentada pela
criança é da ordem do impossível. Assim, daquilo que sobra,
do resto, é que se produz o próprio desejo (da criança).
O homem se identifica enquanto tal pela via do
gozo, este, um gozo fálico e finito. E, além disso, um gozo
único. Esse modo de amar do homem é um modo perverso,
fetichista, não que ele seja estruturalmente um perverso, mas o
é na forma de amar. Zalcberg (2007, p.107) coloca que “o
perverso, principalmente o fetichista, exige a presença de um
objeto para que ele possa renegar a castração (da mulher) cuja
existência, no entanto, no fundo, reconhece. A falta na mulher
é-lhe intolerável e, por isso, procura dotá-la de um fetiche que
encobriria sua falta, embora o próprio encobrimento denuncie
a falta subjacente cuja existência ele não pode ignorar de todo.
A mulher enquanto sujeito deixa de existir para o
homem, ela passa a ser criada enquanto objeto em sua
fantasia. Ela é tomada como objeto no sentido de fazê-lo
recuperar seu gozo perdido. Seria um detalhe, alguma coisa na
mulher a que ele transformaria em fetiche para que ela então
se transforme em objeto e ele seja capaz de amá-la. Em sua
forma fetichista de amar o homem impõe à mulher que ela seja
um objeto que não fale:
- 167 -

Para Lacan, basta ao homem o gozo. Quando o


homem ama é porque se coloca em posição de castrado, isto é,
em posição feminina. Para que haja amor, portanto, é preciso
haver a condição de castração; e reafirmamos que a divisão
entre masculino e feminino se dá a partir da subjetivação que
cada sexo produz em relação a uma lógica sexual. A
subjetivação da menina parte da vivência em relação ao seu
sexo como um “não tenho”. O falo, sendo um símbolo de
desejo, também funciona como significante na busca pelo
tornar-se mulher. No entanto, ela não se submete totalmente a
essa lógica fálica. É, pois, uma submissão não-toda. O fato de
que o falo é um representante masculino no inconsciente, não
existindo nada que represente o feminino, significa que só há
um sexo, a saber, o masculino. Nesse sentido, a mulher seria o
“Outro sexo”, que na verdade não existe. Zalcberg (2007), ao
ressaltar essa afirmação de Lacan, enfatiza que ele quis se
referir ao fato de que não existe uma essência feminina, um
conceito único que diga o que é ser mulher. Por isso, para
Lacan, a mulher, enquanto tal, “não existe”.
A partir dessa formulação Lacan aponta que as
mulheres buscam o acesso a esse “outro sexo” – do qual nada
pode ser dito – mas só podem fazê-lo através da mediação de
um homem, tornando-as mais cativas em relação ao amor. Isso
faz delas, mulheres, as responsáveis pelos encontros possíveis
entre os sexos. Enquanto o homem é marcado pela falta-a-ser
como sujeito, a mulher é duplamente marcada, pois além dessa
falta-a-ser, também lhe falta um significante específico de seu
sexo. Essa falta de um significante próprio faz com que a
mulher nunca tenha uma consistência firme de sua própria
imagem, fazendo-a buscar pela via do amor essa consistência
que lhe falta. A menina, assim como o menino, com Zalcberg
(2007) ressalta, inicialmente se identifica com o falo na busca
- 168 -

de satisfazer a mãe naquilo que lhe falta, esperando obter dela


uma resposta de amor. No entanto, a menina, mais do que o
menino, tem dificuldades de se separar do Outro materno, ou o
Outro do Amor. Ela continua demandando amor na tentativa
de cobrir sua falta.
O que a menina teme é perder o amor, porque o
usa para recobrir sua falta-a-ser. Zalcberg (2007) ressalta que
a ameaça de castração não a atinge a menina, já que ela se
reconhece castrada, mas o que a aflige, necessariamente a seu
ser, é que perder o amor significa perder-se, perder o próprio
ser. No deslizamento simbólico proposto por Freud
(1933/1996) que passa do desejo de um pênis ao desejo de um
bebê, a mulher tenta obter sua compensação para a falta fálica
na parceria com um homem. Freud enfatizava que a saída
feminina seria pela via fálica. Segundo Antunes (2006/2007)
na reivindicação do falo, observa-se a substituição da mãe
pelo pai e do pai pelo parceiro sexual. Daí a mulher se
posiciona como objeto-causa de desejo de um homem, nessa
inserção na lógica fálica. Lacan vai mais além desse
pressuposto freudiano ao propor que as conquistas fálicas da
mulher moderna – dinheiro, influência, profissão – não trazem
a identificação necessária a seu ser.
Quando a mulher concorda em obter o falo através
da mediação de um parceiro, ela busca ser amada por ele, isto
é, ser o objeto de seu amor, o que é essência para sua condição
feminina. Para se falar de feminilidade, portanto, é necessário
sempre que a mulher se reporte a uma parceria com um
homem. Além disso, uma vez que é o amor na parceria com
um homem que traz uma consistência à sua existência, uma
vez que o perca, significa que não perderá apenas o homem,
mas a si mesma. Zalcberg (2007) afirma que, ao recorrer a
uma aparência, a um semblante, a mulher o faz para
- 169 -

conquistar o homem, capturar seu desejo, mas sempre na


busca por uma resposta para sua condição feminina. Miller
(2003) ressalta que somente a partir de um homem é que a
mulher fundaria a sua identidade.
A posição feminina diante do homem é no sentido
de esconder a própria falta. A mulher recorre ao semblante na
tentativa de parecer não ter falta. Essa dissimulação da própria
falta, Lacan denomina de mascarada, termo que se refere ao
conjunto de recursos utilizados pela mulher para mascarar a
falta de uma identidade especificamente feminina. Isto porque,
a mulher, feita de amor e de aparência, precisa de um
verdadeiro arsenal para sustentar a ausência do significante
que lhe diria quem é como mulher. A mascarada é, a um só
tempo, máscara e véu do que não se tem. A mascarada pode
representar esse engodo, mas através dele a mulher vai lidar
com sua falta, presente em todo sujeito feminino. Ao mesmo
tempo solução, a mascarada pode se apresentar como um
problema, pois, se ela tenta esconder a sua falta é porque
pretensamente quer “ter”, o que leva a mulher para o campo
da significação fálica, distanciando seu caminho em direção à
feminilidade.
A mulher, na parceria com um homem, ao buscar
uma definição de sua identidade feminina, pode adotar
diferentes posições na sua relação com o parceiro. Lacan
aponta para três fórmulas básicas de parceria que a mulher
utiliza visando cobrir sua falta-a-ser: Ela pode ser-lhe o falo,
ser-lhe o objeto-causa de desejo e ser-lhe o sintoma onde fixa
seu gozo. Essas várias maneiras se entrelaçam e se sobrepõem
na relação com o parceiro. Ser o falo significa que a mulher
apresenta-se como “não tendo” e assim identifica-se com sua
própria falta passando a “ser o que não tem”, ou seja, o falo.
Essa posição permite a ela, na parceria com um homem, ter
- 170 -

um complemento para sua “inexistência” enquanto mulher.


Nessa dependência de um homem a lhe proporcionar uma
identidade feminina, será sempre para o Outro que a mulher
pode ser o falo, nunca para si mesmo. Nesse sentido a mulher
precisa recorrer ao semblante, que é um artifício utilizado por
ela para ser, é um engodo, na tentativa de cativar o desejo do
homem. Zalcberg (2007, p. 73) ainda ressalta: “Para tanto, a
mulher se reveste de um brilho fálico para tornar-se esse
objeto precioso que seduz o desejo do homem.”
E aponta que a posição da mulher como “ser o
falo” implica na posição do homem como castrado, para que
ela possa ser aquilo que lhe complementa. É a partir da
posição de falta do homem que ela pode ser objeto de seu
desejo e assim encontrar uma consistência para seu ser. Neste
sentido, o homem é o sujeito do desejo e a mulher seu objeto
complementar. Eis aí a segunda fórmula proposta por Lacan: a
mulher como objeto-causa de desejo do homem. A terceira
fórmula que Lacan propõe para a mulher na parceria com um
homem, ser-lhe o sintoma, significa que, uma vez que ela seja
apenas um objeto na fantasia do homem, diante desse modo
pervertido de amar do homem – amar somente uma parte da
mulher, ela se torna a base do sintoma dele. Aqui, Zalcberg
(2007, p.73) parece encontrar uma resposta em Lacan para a
questão que Freud buscou responder ao longo de sua obra: “O
que quer uma mulher?” “Uma definição possível do que quer
uma mulher poderia ser: ela quer que sua própria existência
seja metáfora do desejo do Outro”.
Essa posição ocupada pela mulher de ser desejada,
enquanto o homem ocupa a posição de desejante, é na busca
por aquilo que lhe é tão importante: ser amada. É o amor que
lhe trará a definição para seu ser. É preciso, portanto, que o
homem a faça objeto de seu desejo e, além disso, que seja o
- 171 -

único objeto, para lhe dar certeza de que é a mais amada.


Zalcberg (2007, p.77) ainda afirma que a mulher se apresenta
como a que não tem para, “na experiência do amor”, oferecer
sua falta ao parceiro. A mulher oferece sua falta ao homem
para complementá-lo porque a ele também algo falta. Ela vai
dar o que ela não tem, e por este ato mesmo, vai ao encontro
de seu desejo.
As constantes queixas mais comumente
apresentadas pelas mulheres, como ressalta Zalcberg (2007),
traduzem uma confissão da parte delas como uma fraqueza de
ser, como algo que as faça parecerem frágeis e, portanto, mais
femininas. Este semblante de fragilidade, ao qual recorre a
mulher, exerce seu efeito no inconsciente masculino. Assim, o
homem não se sente ameaçado em sua suposta crença de “ter”.
É preciso que a mulher transpareça sua falta para lhe provar
que é feminina. E a mulher, na tentativa de complementar o
desejo do Outro, se submete a ele, ao seu desejo, ao seu amor.
É a mulher que é capaz de se entregar de corpo e alma no
amor. Nisso há um benefício narcísico, que é ser amada e
desejada. Mas, no entanto, ela precisa abdicar de seu próprio
gozo em detrimento do dele. Assim, ela abdica de grande parte
de sua feminilidade.
Muitas mulheres renunciam às próprias ambições
pessoais em favor de um homem, em favor do amor, buscando
constituir o todo com o parceiro, já que ela mesma é não-toda.
Mas, como Zalcberg (2007) mesma aponta, há nessa renúncia
uma satisfação narcísica, onde ela se realiza através do
parceiro, sendo a mulher dele. Além do falo a intermediar a
relação entre homem e mulher, há também a fantasia. É
através dela que haverá um possível encontro entre os sexos,
já que não há relação direta e complementar entre os seres
humanos. A fantasia, como obra da imaginação, na
- 172 -

perspectiva freudiana, pressupõe um desejo. Lacan atribui a


ela outra função que se refere à constituição de seus objetos.
Esse novo conceito introduzido por Lacan se
relaciona ao outro sentido de falta que ele se refere em nova
fase de seu ensino, da qual tratamos anteriormente ao
desenvolvermos a subjetivação masculina. Zalcberg (2007)
afirma que se trata da perda sofrida em nível de gozo, que
além da falta como sujeito, homens e mulheres estariam
submetidos. Essa perda é imposta pela introdução do sujeito
na linguagem, uma vez que, anteriormente, ele estaria alienado
ao Outro materno e entregue ao gozo ilimitado, sem lei. A
intervenção paterna vem, neste sentido, operar a castração,
impor uma Lei que estabeleça a proibição desse gozo
desenfreado. Só através dessa intervenção que introduz uma
falta no sujeito é que a ele é possibilitado o desejo.
A articulação entre fantasia e gozo se dá no
sentido de que é através da parceria entre homem e mulher que
na fantasia esse gozo perdido apresenta-se como possibilidade
de ser recuperado. A possibilidade de recuperação do gozo
está relacionada com o conceito de “objeto a”, que faz parte
do real, aquele resto que não foi possível ser simbolizado. Ele
tem a função de preencher o vazio causado pelo gozo perdido
e com esse valor de gozo “a mais”, também denominado
“mais-de-gozar”. 89
O homem faz da mulher “objeto a” em sua
fantasia, mas a mulher precisa buscar outra forma de
compensar o gozo perdido. Zalcberg (2007) afirma que a
mulher precisa que o homem encarne o significante do desejo,
ou seja, o falo. Desse modo ele oferece a ela sua castração,
condição capaz de fazer com que a mulher encontre um
suplemento para seu ser. Oferecendo sua castração, os homens
89
Zalcberg, 2007
- 173 -

se mostram capazes de amar uma mulher. E é por essa via do


amor que elas podem encontrar uma identificação feminina.
Enquanto o homem se identifica como tal ao
possuir um gozo fálico, limitado, pois goza mesmo do próprio
corpo, a identificação da mulher não se faz pela via do gozo,
pois este se apresenta para ela como ilimitado e infinito
porque não localizável. Além disso, a mulher apresenta dois
gozos, a saber: o gozo fálico e um gozo mais além do falo, que
Lacan denomina de gozo suplementar, só pertencente à
mulher. Sobre esse gozo nada pode ser dito. Esse indizível
Zalcberg (2007) diz que se relaciona com a ideia de Freud do
“continente negro” que representa a sexualidade feminina.
Desse gozo só a mulher compartilha, não podendo se fazer
inteira a um homem, pois esse gozo a afasta dele, pelo menos
uma parte dela.
Neste sentido Zalcberg (2007, p.126) aponta: “As
mulheres não têm um lado em que se ausentam como sujeito e
não têm como parceiro a solidão de seu gozo que, por uma
sempre possível falta de limite, as ameaça de devastação?”.
É o próprio homem quem divide a mulher em seu
gozo, ao tomá-la como objeto causa de seu desejo e gozar
dela. Mas do gozo suplementar da mulher ele não participa.
Além disso, quando ele permite a ela o acesso a esse gozo
suplementar, o homem impõe um limite a ele, para que não
haja excesso e ela não se perca nesse ilimitado, condenada à
devastação.
O gozo ilimitado ameaç7a as mulheres ao real, o
que as leva a renunciarem a ele se convertendo ao amor.
Assim, o amor tem para a mulher, além da função de
apaziguar sua falta de um significante feminino, a de não as
deixarem ser acometidas pelo real, pela via do gozo ilimitado,
sendo, pois, protegidas de enlouquecerem. Zalcberg (2007)
- 174 -

aponta que Lacan, em determinado ponto de seus estudos,


chega a afirmar que as mulheres “são loucas”, mas não são
todas loucas ou não loucas de todo. Isso ele relacionou à
forma erotomaníaca de amar da mulher. Essa relação entre a
loucura da mulher e a sua forma erotomaníaca de amor tem a
ver com a psicose que tem na erotomania uma de suas
expressões.
Como afirma Sartori (2006/2007) a erotomania se
define como o delírio de ser amado. Ainda em seu artigo ela
aponta que “Querer ser amada, demandar amor, querer provas
e, principalmente, falas de amor é uma característica feminina,
uma maneira estritamente feminina de se colocar na relação
com seu parceiro sexual”.
A noção de erotomania, sendo expressão da
psicose, foi estendida para a normalidade na forma típica de
amor das mulheres, por Jacques-Alain Miller, como uma
maneira tipicamente feminina da mulher se relacionar com seu
objeto. Como nos coloca Ligeiro e Barros (2011) essa forma
erotomaníaca da mulher se baseia questão que sempre insiste
na mulher “ele me ama?” tendendo sempre a buscar provas
que comprovem o amor destinado a ela.
Também a palavra tem sua função no amor de
forma diferenciada para os sexos. No caso do homem ele
impõe à mulher, objeto a, que seja um objeto inerte, que não
fale. Já no caso da mulher ela necessita que o Outro fale, ela
precisa ouvir palavras de amor. A parceria amorosa para ela
não pode acontecer no silêncio. Esse é o sofrimento da mulher
erotomaníaca, a exigir do seu parceiro a palavra, a palavra de
amor, que toque sua fantasia permitindo o acesso ao gozo e ao
desejo, uma vez que para gozar uma mulher precisa amar e é
através do amor que o gozo será encaminhado em direção a se
transformar em desejo. Zalcberg (2007, p.161) aponta que se
- 175 -

o homem (heterossexual) fala é porque a mulher, em função


de sua forma erotomaníaca de amar o faz falar. Aliás, para o
homem é melhor falar, porque, se ele não fala vai ser ela que
vai falar, e para reclamar que ele não fala.
Os homens às vezes se queixam diante dessa
exigência imposta pela mulher ou por elas mesmas falarem
demais, já que a forma fetichista masculina de amor exige da
parceira o silêncio. Mas essa imposição das mulheres é uma
convocação a eles a saírem da limitação de sua fantasia
silenciosa, resgatando-os da incapacidade de amar, porque
enquanto o homem se encontra através do objeto que a mulher
representa para ele, ela o faz através do gozo da palavra, que
funciona como suplência de gozo. Ela espera do homem,
portanto, não apenas que ele lhe dê o gozo fálico, mas que
também lhe conceda sua palavra. Neste sentido, Zalcberg
(2007) ressalta que a própria palavra se torna parceira de gozo
da mulher.
A forma erotomaníaca de amar da mulher pode
nos dar a entender que como resultado ela terá o amor,
enquanto o homem, em sua condição fetichista terá o gozo. No
entanto, o gozo está tão entrelaçado com o amor que são
indissociáveis. Assim, de acordo com Zalcberg (2007), pode-
se falar de um entrelaçamento não só entre palavra e amor,
nem só entre palavra e gozo, mas também entre gozo e amor
na mulher. Portanto, a mulher, na busca por uma identificação
feminina, é atravessada pelo desejo, gozo e palavras de amor
de um homem a constituir sua subjetividade. E é por isso que
elas estão sempre tão voltadas para o amor. Segundo
Zalcberg, a mulher quer que o homem a ame e lhe diga algo
sobre o insondável de seu ser feminino. Só que com isso, ela
institui o impossível do amor na medida em que o homem só
- 176 -

pode amar uma mulher enquanto ela ocupa o lugar de objeto


em sua fantasia, nunca como mulher enquanto tal.
A orientação sexual, como Freud (1923/1996) propõe,
não se dá de acordo com a anatomia, mas passa antes, por um
processo de subjetivação que determinará como o sujeito
atuará na parceria amorosa. A teoria freudiana reconhece que
o amor tem um valor fálico na medida em que há equivalência
entre a angústia de castração própria ao homem e a angústia
referente ao medo de perder o amor, que é própria da mulher.
Lacan, no entanto, afirma que há mais do que um valor fálico
na questão do amor para a mulher, pois ela, ao perder o amor,
perde a si mesma enquanto mulher, visto que é o amor que lhe
traz uma identificação feminina.90
Maia e Caldas (2011) destacam que “O motor do
amor é a busca vã e incessante do ser humano por uma parte
sua, levando-o a identificar no outro essa parte supostamente
amputada.” No entanto, aquele traço de satisfação
experimentado por todo sujeito enquanto alienado ao Outro,
essa suposta satisfação de plenitude, não poderá ser
encontrada enquanto tal. Resta, nesse processo, o já
mencionado objeto a, localizado no vazio da perda gerada
quando o sujeito sofre a intervenção da metáfora paterna e é
inscrito na linguagem.
Homens e mulheres, como ainda ressaltam Maia e
Caldas (2011), procuram na realidade objetos que possuam
traços que possam substituir o objeto que foi perdido, na
esperança de encontrar o traço deixado pela vivência de perda
originária, que lhe complementaria enquanto sujeito e na
expectativa de alcançar a plenitude de gozo. No entanto, essa
busca pelo objeto idêntico é vã, e o que encontram como
condição do amor, é o insubstituível. Nas palavras de
90
Zalcberg, 2007
- 177 -

Zalcberg, todo um circuito de trocas amorosas se torna


possível quando os traços que causam o desejo são
encontrados num parceiro – traços que devem ser justamente
recobertos pelo imaginário do amor. É preciso, pois, que o
objeto (objeto a) esteja ao mesmo tempo situado na demanda,
no desejo, na pulsão e recoberto pelos objetos amorosos.
Neste sentido Lacan afirma que “não há relação sexual”, pois
não existe objeto de amor predeterminado para cada sujeito
enquanto homem ou mulher. (Maia, 2011) Zalcberg também
aponta que o fato de não haver a pulsão genital completa
explica porque os sexos não se complementam, já que nada há
que designe o parceiro sexual para cada um. Seria função do
objeto recuperar o gozo perdido, o que só é possível através da
inclusão de um parceiro amoroso. Assim, os sexos de forma
diferenciada, buscam no Outro um determinado objeto. Para o
homem o objeto buscado tem a forma de um fetiche, e para a
mulher, a forma de erotomania.
Freud (1925/1996) aponta que o destino de uma
mulher depende da relação pré-edipiana com sua mãe, que tem
um grande peso no processo de separação entre mãe e filha. E
mesmo sendo a mãe o primeiro objeto de amor tanto para a
menina como para o menino, é a menina que encontra maiores
dificuldades em separar-se de sua mãe, pois a ameaça de
castração só funciona para ele, ela já se reconhece como
castrada. Mas a partir daí, a menina começa a se afastar da
mãe apresentando várias queixas em relação a ela, sendo a
principal delas, em torno da qual se desenvolve a questão
feminina, a inveja do pênis, que é vista como falta de amor
pelo fato de sua mãe não ter lhe dado um órgão assim tão
importante e tê-la feito tão desprovida. (Zalcberg, 2007)
Freud apontou que é a mãe quem introduz a
criança à vida sexual. E, ao mesmo tempo, a criança é para a
- 178 -

mãe, em sua própria fantasia, um objeto de gozo, como um


substituto sexual completo, e por isso a criança está à mercê
de um gozo materno ilimitado, pela sua condição inicial de
total desamparo, como já desenvolvemos ao falarmos sobre o
processo de alienação. Essa condição de ser o objeto sexual da
mãe e de estar em total desamparo deixa marcas profundas no
processo de subjetivação da criança. Além disso, a mulher está
ainda mais do que o homem implicada nesta relação, uma vez
que, enquanto mulher sempre se confrontará com esse excesso
de gozo da mãe.
Neste sentido, Zalcberg (2007) ressalta ser necessário
que haja um limite nesta relação entre mãe e filha, o que
deverá ser feito pela intervenção paterna, que tanto atuará
mostrando à criança a impossibilidade de continuar sendo o
objeto de desejo da mãe, já que o que a mãe deseja é o falo,
quanto incidirá sobre o gozo desenfreado da mãe, impondo um
limite sobre ele. Isso evitará que a criança continue a ser o
objeto de desejo da mãe, sendo nela projetados todos seus
anseios e fantasias, o que condenaria a criança a um destino na
alienação.
O pai, ao libertar a criança de sua alienação à mãe
e ao mesmo tempo satisfazer a esta, ele é amado. O amor é
introduzido assim, na vida da criança, pelo pai. Mas Freud
ressalta que é o amor ilimitado da mãe e suas palavras de
amor, que fazem a criança ocupar um lugar de amor para o
Outro que pode tornar a criança capaz de amar, ou seja, para
amar é preciso, antes, ter sido amado.
O pai possibilita à filha, ao retirá-la de sua
alienação e operar a separação de sua mãe, que ela se torne um
sujeito, mas não dá a ela uma identificação feminina,
identificação esta que fará com que ela volte para sua mãe na
tentativa de encontrá-la. De acordo com Zalcberg (2007), esta
- 179 -

busca na mãe por uma definição enquanto mulher aumenta o


poder da mãe sobre ela, dificultando ainda mais a separação.
Uma vez que a menina não consegue se separar de sua mãe
para construir seu próprio destino, Freud (1931/1996) aponta
que dessa dificuldade resultará a possibilidade de catástrofe na
relação mãe-filha. Já Lacan nomeia como devastação esta
relação entre uma mulher e sua mãe, onde mulheres ficam
submetidas ao desejo e gozo da mãe no qual a intervenção
paterna não consegue ser total. Lacan ainda ressalta que esta
devastação em relação à mãe será posteriormente apresentada
em relação ao parceiro amoroso da mulher. Portanto,
catástrofe e devastação são termos empregados para designar
aquilo que resta na subjetividade feminina da relação entre
mãe e filha em relação aos vínculos fortemente estabelecidos e
à busca por identificação por parte da menina.91 Essa
permanência na ligação original da filha com a mãe, ou seja, a
catástrofe, como apontada por Freud, dificultará ou até mesmo
impedirá que a mulher se volte a um homem. Neste sentido,
como ressalta Campanário (2010), a catástrofe ou devastação
encontrada na dificuldade de separação entre mãe e filha,
muitas vezes será repetida com o parceiro amoroso.
Desta relação dependerá se a mulher poderá ou
não se prestar à comédia dos sexos com um homem. Como já
explicado anteriormente, a mulher precisa aceitar-se na
posição de objeto-causa de desejo de um homem para que
possa assumir sua feminilidade. Se não for capaz disso, será
condenada a viver devastada, reduzida a apenas objeto do qual
o outro poderá gozar, o que a aproxima da relação vivenciada
com sua mãe quando era totalmente entregue aos desejos do
Outro materno.

91
Campanário, 2010
- 180 -

Quanto menos se realizar a separação entre mãe e


criança, mais o futuro desta como mulher será marcado por
uma possibilidade de sempre o Outro submetê-la aos seus
próprios desejos. A feminilidade, neste sentido, só será
possível à medida que aquilo que resta da separação da
menina de sua mãe na sua ligação pré-edípica não a impeça de
buscar uma consistência própria e realizar o seu processo de
subjetivação. A dificuldade em separar-se da mãe dificulta à
filha o acesso à feminilidade e à relação com um homem.
Conforme indicado por Zalcberg (2003) é possível que ela não
faça a distinção entre o gozo experimentado com a mãe
daquele obtido na relação com um homem. Toda filha, como
mulher, deve ter acesso a prazeres sexuais diferentes dos que a
prendem à sua mãe.
Zalcberg(2003) pondera que a similaridade de
corpos pode fazer com que haja um domínio da mãe sobre o
corpo da filha, visto como igual ao seu. Nesse ponto a
intervenção paterna não alcança. É algo específico a ser
tratado entre mãe e filha. Essa similaridade favorece a
aproximação (e a reaproximação) entre elas e também
proporciona a ilusão de que, além de compartilhar de um
corpo similar, também compartilham do mesmo gozo. No
entanto, no que tange ao gozo suplementar, este é único para
cada mulher.
A resolução da devastação passa pela
possibilidade de separação entre o corpo da menina do de sua
mãe. Uma vez tendo ocupado o lugar de “objeto a” para sua
mãe, a criança só poderá se separar dela, e se ver como
diferente, na medida em que puder ser vista por esse Outro
materno, pois somente como objeto ela não tem existência. É
preciso que a mãe dê essa consistência a ela, reconhecendo-a
não apenas como um objeto que lhe pertence, mas como outro
- 181 -

ser, separado dela. E Zalcberg (2003) conclui que dessa perda


resulta que mãe e filha terão acesso a seu próprio corpo e a seu
gozo, envoltos em uma pele própria a cada uma.

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- 184 -

VII - A medicalização da família e da escola


pela ótica do Biopoder

Rafael de Souza Nunes

Analisar o espaço escolar sozinho, ignorando o âmbito familiar


é perigoso, pois torna a sua clientela, as crianças, a-históricas ou
descontextualizadas. Família e escola são duas instituições
disciplinares que se engendram na trama do Biopoder.

Michel Foucault buscou desvendar as redes de poder


referenciadas em saberes que objetivam se consolidar como
fontes de verdades e tomam como objeto a sociedade
contemporânea e as técnicas de poder nela existentes, entre as
quais a medicalização da vida. Tais verdades servem como
ditames de normas de controle social a fim de produzir modos
de existência, impossibilitando a produção de alteridades.
Aqui trataremos do Biopoder e as suas relações com este
complexo meio de enclausuramento do sujeito
contemporâneo.
Uma das principais características da sociedade
que emergiu no final do século XVII e início do XVIII, era a
de disciplinar corpos e vontades através das instituições
existentes na sociedade. Temos família, escola, fábrica, asilo
ou prisão como instrumentos disciplinadores em uma
configuração social que Foucault (2009) denominou
“Sociedade Disciplinar”. Deleuze (1992) comenta sobre esta
sociedade dizendo que o indivíduo não cessa de passar de um
espaço fechado para outro, cada um com suas leis: primeiro a
família, depois a escola (“você não está mais na sua família”),
- 185 -

depois a caserna (“você não está mais na escola”) depois a


fábrica, de vez em quando o hospital, e eventualmente a
prisão, que é o meio de confinamento por excelência.
Com a emergência do capitalismo, esta sociedade
serviu para produzir corpos aptos ao trabalho dentro das
fábricas. Tais corpos tinham suas forças focalizadas
unicamente para a produção. Cada instituição teria como
objetivo preparar o indivíduo para a próxima, na linha de
sucessão. A família, instituição disciplinar por excelência,
teria como objetivo formar o caráter de suas crianças para que
quando chegassem à escola, instituição seguinte, se
comportassem docilmente e se capacitassem para entrar na
fábrica onde suas forças seriam sutilmente exauridas, para o
capital e depois - que apresentassem esgotamento - para a
prisão ou asilo até a sua morte.92
Ao analisar as práticas disciplinares presentes no
espaço escolar, o autor, nos aponta que a incidência das
disciplinas exercidas a nível “individual” (através do
ordenamento dos corpos no espaço, da vigilância constante,
mesmo que virtual e pela incidência de práticas corretivas
sobre o corpo do educando) tinha como objetivo não só
normatizar os comportamentos, corrigindo as insubordinações
do cotidiano através de ortopedias corretivas, mas também, e
principalmente, a observação dos possíveis desvios e
insubordinações, visando adequações e ajustes de suas
engrenagens conforme a necessidade.
Complementando esse aparato disciplinador,
temos uma forma especial de controle: o exame. Ele, através
das relações entre poder-saber, expõe o corpo expressando a
sua individualidade, classificando-o e estabelecendo verdades.
A prática do exame foi extremamente útil à prática disciplinar
92
Foucault, 2009
- 186 -

ao possibilitar a criação de conhecimento sobre o objeto alvo,


neste caso o sujeito. A Psicologia93 engendra-se nesta
mecânica do exame extraindo informações sobre o homem e
criando teorias e conceitos acerca de suas vontades, afetos e
comportamentos.94
Como foi discutido anteriormente, a disciplina, na
Sociedade Disciplinar, impôs uma pedagogia para o corpo.
Mas para um controle total sobre a vida, era necessária uma
tecnologia de poder que incidisse também sobre a população e
que será o próximo item a ser analisado.
A segunda tecnologia de poder surge na metade do
século XVIII, como uma amplificação das disciplinas, uma
nova forma de poder sobre a vida. Não excluindo a primeira,
ela tomou conta dos processos biológicos. O controle da
natalidade, mortalidade, promoção de saúde e o aumento da
expectativa de vida são uma das táticas adotadas por esta nova
técnica. Temos a vida do ser humano atuando em conjunto
com as políticas sociais de controle da massa (Foucault, 1999).
Segundo Pelbart (2003), quando o biológico incide sobre o
político, o poder já não se exerce sobre os sujeitos de direito,
cujo limite é a morte, mas sobre seres vivos, de cuja vida ele
deve encarregar-se. Se a irrupção da vida na história, por meio
das epidemias e fome, pode ser chamada de biohistória, agora
se trata de biopolítica – a vida e seus mecanismos entram nos
cálculos explícitos do poder e saber, enquanto estes se tornam
agentes de transformação da vida.
Antes, nos cabia controlar a vida do homem,
simplesmente ditando regras acerca de modos de agir e pensar,
mas agora, temos em jogo o homem da vida. O próprio

93
As práticas da Psicologia como instrumento do exame serão discutidas em outro
momento.
94
Foucault, 2009
- 187 -

homem se coloca como objeto de estudo em relação a seus


comportamentos e afetos tendo como objetivo a sua melhor
vivência no mundo. Temos então, na Sociedade Disciplinar,
ao mesmo tempo, a produção da vida, um Biopoder da espécie
humana.
Segundo Deleuze (1992), o próprio Foucault sabia
da brevidade deste sistema. No mundo pós-guerra, as
discussões sobre o papel da mulher na sociedade, as críticas ao
capitalismo bem como a inserção de novas tecnologias
midiáticas no cotidiano95, acentuaram de forma irremediável
a crise dos espaços disciplinares. Para além do discurso da
crise eterna, motor perpétuo das modificações internas das
instituições disciplinares96, o que antes se configurava como
seguro e sólido (por conseguinte eterno e imutável) vê ruir
seus alicerces e muros, marcando a passagem para outra forma
de gestão social denominado pelo autor como “Sociedade de
Controle”, que teve seu início, aproximadamente, no final da
II Guerra Mundial. A Europa e o resto do mundo se
reestruturavam de batalhas que colocaram em xeque o real
propósito das instituições disciplinares que era o de produzir
corpos dóceis. Seus muros foram destruídos e seus núcleos
artificializados: a fábrica virou família e a escola virou
empresa. O Capitalismo vivia uma crise intensa onde
precisava se reestruturar, pois não existiam produção e
mercado, tanto internamente como externamente. Para se
produzir capital, precisava-se de mais corpos, mais massas
para as fábricas capitalísticas. É desta necessidade que se tem
a intensificação do Biopoder. Através da biopolítica a

95
Ver: GUATARI, Félix. As três ecologias. 2ed. Campinas, SP: Papirus, 1990.
96
Conforme análise de Deleuze no prefácio do livro “A Polícia das Famílias” de
Jacques Donzelot. Ver: DONZELOT, J. A polícia das famílias. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Graal, 1986.
- 188 -

população mundial aumentou, as ofertas de trabalho ficaram


menores, e tivemos a explosão demográfica quer atualmente
podemos observar.
Hardt (2000) vê o sujeito desta atual configuração
de sociedade jogado em um vazio. Antes as instituições lhe
forneciam subjetividades prontas, moldadas. A produção de
subjetividade na Sociedade Disciplinar era única e
exclusivamente fruto das instituições. Já a céu aberto, não
identificamos a sua produção, somos alvo de várias outras
produções e todas ao mesmo tempo, de forma intensa.
Guattari (1986) diz que há uma reciclagem de
subjetividades, sempre ditada a modos de ser e estar no
mundo: ser mãe, ser pai, ser filho, ser professor, ser aluno.
Mas em um uma sociedade onde se é tudo ao mesmo tempo, e
de forma intensa (artificial), a angústia torna-se a mais fiel
companheira do homem contemporâneo. Por outro lado, as
ciências oferecem receitas para atenuar este sofrimento através
de terapêuticas (psicoterapias e psicofármacos) que fazem
parte do engendramento biopolítico da sociedade.
A Psicologia enquanto ciência e profissão no
Brasil nasce do interior da Educação. Ela é oriunda de práticas
de laboratórios acoplados às escolas normais e da grade
curricular do curso em que ela é uma das disciplinas. Pouco
depois foram criados cursos para psicólogos que utilizaram
esses laboratórios das escolas normais para a sua formação.
Antes, o uso de seus saberes circulava de diversas formas, mas
a figura do psicólogo como profissional não era visível dentro
da sociedade brasileira. (Souza e Cunha, 2010).
Um exemplo dos saberes psicológicos subsidiando
práticas biopolíticas se dá nas teorias raciais presentes nas
instituições culturais e científicas nos séculos XIX e XX.
Patto (2005) cita o Conde de Gobineau, popular na época,
- 189 -

autor de um dos mais importantes livros sobre a desigualdade


entre as raças. Ele frequentou a corte de Dom Pedro II, um
homem da sciencia. As teorias raciais difundidas pelo Conde
ajudaram a reconfigurar o modelo político e econômico da
sociedade brasileira. A escravidão estava chegando ao fim e
muitos negros, índios e mestiços passaram a, de fato, fazer
parte do corpo social e a desigualdade entre as raças,
comprovada cientificamente, fortalecia a hierarquia social
onde o branco sempre seria soberano na sociedade.
Com a pouca oferta de trabalho livre, os antigos
escravos se concentraram nas cidades levando, segundo a
ciência, a uma criminalização da população que vivia na
marginalidade, ou seja, sem trabalho formal (considerado
fundamental para o exercício da cidadania). A repressão à
classe popular crescia conforme movimentos sociais tendiam a
explodir contra a hierarquia vigente, baseados novamente nas
teorias científicas que propagavam o racismo (Patto, 2005).
É nesta mesma época que os médicos começaram
a atuar como agentes do biopoder. Segundo a autora, médicos
ligados às áreas de neurologia e psiquiatria, criaram projetos
que visavam à higienização da sociedade brasileira e
claramente a população pobre era objetivada como um perigo
para o sistema social/econômico devido a suas tendências à
delinquência.
Um exemplo é apresentado por Patto (1996)
acerca do movimento de higiene mental na década de 20.
Concomitante aos estudos eugênicos, o médico psicanalista
Artur Ramos, membro da Liga Brasileira de Higiene
Mental97, buscou nas teorias psicanalíticas de Jung o conceito

97
Sobre a Liga Brasileira de Higiene Mental, Jurandir Freire Costa, em seu
trabalho de pós-graduação do ano de 1974, narrou a história da Psiquiatria no
- 190 -

de “inconsciente coletivo” e o transformou em “inconsciente


primitivo” para classificar a mentalidade do brasileiro.
De acordo com esse viés ideológico, a sociedade
brasileira, então, apresentava um inconsciente primitivo que
justificava o não desenvolvimento de um país colonizado. Os
negros, índios e mestiços cultivavam em suas comunidades
hábitos que, diferente dos homens brancos, contribuíam para o
não desenvolvimento biológico e intelectual do indivíduo. Os
teóricos antecessores creditaram esta deficiência à
hereditariedade, que logo após, o médico-psicanalista
finalmente creditou à Psicanálise a possibilidade de curar o
inconsciente brasileiro, considerando-o mais primitivo do que
os povos colonizados.98
Ele também lançou mão do termo “criança
problema”, que apresentava desvios de personalidade
aprendidos no meio familiar, deixando de lado o de “criança
anormal” que manifestava morbidades hereditárias, ou seja,
genéticas e determinantes. Esta nova terminologia foi fruto de
seus estudos sobre o meio familiar que era determinante para a
personalidade do indivíduo, influenciava no rendimento
escolar e era indicador de futuras delinquências (Patto, 1996).
No meio educacional, Ramos foi um pioneiro na
crítica às grandes demandas de testes e na utilização de
psicopatias para classificar crianças. Reiterou a importância do
meio e as relações de afeto entre pais-filhos como
fundamentais para a elaboração do diagnóstico. Os professores
também eram alvos de sua concepção de higiene mental, pois,
segundo o médico-psicanalista, suas relações com os alunos,
caso fossem inadequadas, eram frutos de suas relações de

Brasil dando um enfoque particular na criação e atuação da Liga. Suas atuações


serão discutidas adiante.
98
Patto, 1996.
- 191 -

afeto com os integrantes de seu meio familiar na infância


(Patto, 1996).
É importante afirmar que mesmo com as
limitações da época, ele introduziu o meio nas
problematizações sobre o fracasso escolar das classes
populares que, mesmo apresentando preconceitos raciais,
rompeu com o paradigma hereditário que biologizava a
condição da sociedade brasileira (Patto, 1996).
Nos Estados Unidos, na década de 70, surgiu a
teoria da carência cultural, amplamente difundida no Brasil,
que passaria a justificar o fracasso escolar através da cultura
marginalizada da qual a criança era oriunda. Mais
especificamente, em sua primeira versão, a teoria afirmava
que a pobreza existente no ambiente das classes baixas era a
causa do fracasso escolar das crianças (Patto, 1996). Vale
ressaltar que na época, a riqueza de uma nação estava atrelada
a inteligência do seu povo, daí a solução tomada no Brasil,
para o desenvolvimento da nação, foi a de oferecer às classes
populares o acesso à escolarização e o uso da tecnologia nas
atividades pedagógicas.
Segundo Poppovic (apud Patto, 1996), que se
colocou à frente das idéias da carência cultural criticando a
concepção de que o fato de uma criança ser de uma classe
popular, não justifica afirmar que a sua cultura é empobrecida
ou deficiente, um estado eterno, mas sim que ela está vivendo
um processo dentro deste meio que apresenta características
próprias. Afirma que as pessoas oriundas das camadas sociais
apresentam características próprias, ricas em aparatos sociais.
E se contradiz quando afirma que os padrões educacionais
aplicados à classe popular não eram adequados devido às
características apresentadas pelo grupo social (Patto, 1996).
- 192 -

Assim a Psicologia como instrumento do Biopoder


agiu de forma a oferecer, mesmo antes de se consolidar como
ciência no Brasil, seus saberes e práticas para o
desenvolvimento de teorias acerca do fracasso escolar dentro
do sistema educacional nacional.
Analisar o espaço escolar sozinho, ignorando o
âmbito familiar é perigoso, pois torna a sua clientela, as
crianças, a-históricas ou descontextualizadas. Família e escola
são duas instituições disciplinares que se engendram na trama
do Biopoder.
Segundo Foucault (1999) os padrões de controle
social são estabelecidos através das leis e das normas. A lei
por si só é punitiva e age excluindo qualquer um que
ultrapasse os seus limites. A norma foi desenvolvida na
Sociedade Disciplinar através da produção de saberes acerca o
homem. Segundo Costa (2004) estes saberes partem de
dispositivos que são os conjuntos de práticas discursivas e não
discursivas que agem à margem da lei contra ou a favor delas,
mas de qualquer modo empregando uma tecnologia de
sujeição própria. Temos a Psicologia como um exemplo de
dispositivo que normatiza afetos e comportamentos
produzindo saberes sobre o homem moderno.
Poderemos observar as formas nas quais o Estado,
através de dispositivos de promoção saúde, passa a gerenciar a
vida através do núcleo familiar que é reinventado para atender
a demanda capitalística da sociedade da época. A lei e a
norma, então, agem em conjunto, pois enquanto uma pune a
outra passa a evitar a transgressão da lei criando toda uma
tecnologia de controle social que produz modos de
subjetivações que podem ser observados.
Segundo Deleuze (2001), prefaciando o trabalho
de Donzelot, o social nos séculos XVIII e XIX tem por
- 193 -

referência uma parte especial em que são produzidas diversas


verdades acerca dos problemas das populações, como a
pobreza, higiene, drogas, delinquência, saúde mental entre
outras. Vemos surgir em um dado momento, uma nova
configuração para a sociedade. E segundo o autor, a família é
utilizada como objeto-alvo para esta mutação. Suas
configurações, sua relação com o social são modificadas.
Temos, então, início do discurso sobre a crise da
família que, segundo o autor, é a justificativa para que se tenha
um olhar de controle constante sobre os modelos e práticas
familiares. Segundo Deleuze, a família pode tornar-se um
motor de evolução por si só, mas o será necessariamente
através de uma acoplagem com outros vetores, da mesma
forma que os outros vetores entram em relações de acoplagem
ou de cruzamento para agirem sobre ela.
É através desta acoplagem com outros vetores,
como por exemplo, a Psicologia, Psiquiatria, Psicanálise que a
família torna-se medicalizada ou como aquilo que Donzelot
veio chamar de “Polícia das Famílias”. Este autor nos fala que
a partir do século XVIII, surgiram diversas literaturas acerca
do cuidado para a infância. Vários médicos escreveram obras
sobre educação corporal, medicina doméstica e políticas
públicas infantis, vindo a problematizar três métodos
educacionais da época: a prática dos hospícios de menores
abandonados, a da criação dos filhos pelas chamadas “amas de
leite” e da educação das crianças ricas, considerada artificial.
Estes métodos justificariam o empobrecimento das nações.
A mortalidade infantil era alta. Era esperado que
estas crianças fossem mais tarde utilizadas para servir às
forças armadas, já que tiveram um custo para o Estado, como
a Marinha ou, então, trabalhos nos quais o fato do indivíduo
ter uma família, complicasse a sua relação com a prática, visto
- 194 -

que, as crianças deixadas aos cuidados do Estado eram órfãs e


consequentemente sem famílias. Então, como não existiam
pais, esposas ou filhos para se apegar o uso de suas atividades
era extremamente valioso para o Estado. (Donzelot, 2001).
A dificuldade do setor de administração sobre as
políticas de assistência à infância foi apontada, segundo os
médicos, como o principal motivo da alta taxa de mortalidade
infantil. As ditas “amas de leite” eram importantes para a luta
contra o problema. A população rica desfrutava do conforto
de possuir suas “amas” oriundas das comunidades próximas
ao centro urbano, mas o problema seria o fato de ganharem
pouco por isso e se colocando na posição de ter várias crianças
para alimentar e cuidar (Donzelot, 2001).
Logo em seguida os médicos afirmaram que além
de alimentar as crianças da classe rica, as “amas” também
passavam para as crianças algumas taras já existentes no seu
comportamento. Segundo alguns autores da época, o leite
fornecido para as crianças era azedo e ardido. Podemos
afirmar que esta foi uma das primeiras relações estabelecidas
entre família e medicina. Buchan (apud Donzelot, 2001, p. 17)
descreve em seu livro “Médicine domestique” o mal que as
“amas” poderiam fazer para as crianças: “Espantamo-nos em
ver os filhos de pais honestos e virtuosos manifestarem, desde
os primeiros anos de vida, um fundo de baixeza e maldade.
Não há dúvida que essas crianças tiram todos os seus vícios de
suas nutrizes. Eles teriam sido honestos se suas mães os
tivessem amamentando”.
Nesta época, já podemos ver os serviços das
ciências da saúde e as ciências humanas a serviço do Estado99

99
A medicina a serviço do Estado pode ser vista brevemente na conferência
realizada por Foucault na Universidade do Estado do Rio de Janeiro que levou o
nome de “O nascimento da Medicina Social”, quando o autor aponta como um dos
- 195 -

e algumas ideias que remetem ao preconceito de classes onde


os pobres são culpabilizados pelo empobrecimento da nação.
Segundo Donzelot (2001), cuidar das crianças
significaria dar um fim para os problemas trazidos da classe
popular para a classe rica. É então que a medicina se instala
dentro da família, fazendo surgir à figura do Médico de
Família, dotado de um saber que ofereceu à classe burguesa
subsídios para acabar com a influência negativa dos criados
para com suas crianças e, ao mesmo tempo, vemos surgir
políticas de saúde que são direcionadas à maior reprodução,
com o menor custo possível, das classes populares, com um
objetivo: aumentar o número de trabalhadores.
A medicina não tinha nenhum interesse nas
crianças e nas mulheres até o século XVIII. O corpo feminino
servia somente para a reprodução e a assistência médica
prestada era de cunho não científico, ou seja, existia todo um
saber popular que supria as necessidades das mulheres, até nos
partos, que eram feito pelas ditas “comadres”. As ciências da
saúde voltam o seu olhar para mulheres e crianças quando
passam a se preocupar com a amamentação e higiene das
mesmas (Donzelot,2001).
Foi então que os médicos se aliaram às mães em
prol da saúde infantil. Esta aliança tornou o saber médico mais
hegemônico, negando completamente o das “comadres” e

motivos para a unificação da Alemanha, a necessidade do fortalecimento da nação


através da produção de mão de obra qualificada para o trabalho nas fábricas através
da Medicina de Estado. Também podemos encontrar na obra de George Rosen que
leva o título de “Da polícia médica à Medicina Social: ensaios sobre a história da
assistência médica alemã”, em especial no capítulo V, “O cameralismo e o conceito
de polícia médica”, que retrata especificamente o desenvolvimento da assistência
médica em nível do Biopoder. Ver: ROSEN, G. Da polícia médica à medicina
social: ensaios sobre a história da assistência médica. Rio de Janeiro: Edições
Graal, 1979.
- 196 -

elevou o papel social da mulher burguesa tirando o papel do


pai no que diz respeito à educação e higiene dos filhos.
Peuchet diz o seguinte: “Se os motivos do poder que os pais
conservavam sobre os filhos durante a idade de fraqueza e de
ignorância, residem essencialmente na obrigação que lhes é
imposta de velar pela felicidade e pela conservação desses
lugares frágeis, não se poderia colocar em dúvida que a
extensão desse poder cresce com o aumento dos deveres que
se tem a cumprir em relação a eles. A mulher, a quem a
condição de mãe, nutriz, protetora, prescreve um direito mais
produtivo à obediência. A melhor razão de afirmar que a mãe
tem um direito mais verdadeiro do que o pai à submissão do
filho é que ela tem mais necessidade desse direito!”
É aí que, em termos de exercício de poder, ao
homem é delegada a tarefa do trabalho para prover a casa e,
para as mulheres o de cuidar da família; e com a valorização
da mulher como mãe e educadora médica, tem-se o início das
correntes feministas do século XIX (Donzelot, 2001).
Por muito tempo a medicina se manteve distante
da sexualidade. O interesse só tem início no século XVIII, e
mesmo assim, ele foi voltado para o ato sexual em si, não na
sexualidade como aparelho de controle do Estado100. Na
sexualidade da família, ela incide especialmente no que diz
respeito a amamentação, que segundo os médicos da época, a
vida mundana corrompia as mulheres e não as fazia alimentar
100
A discussão sobre a sexualidade como aparelho de controle do Estado é feita por
Foucault (1999 e 2010) no último capítulo de “História da Sexualidade I: A
Vontade de saber” que leva o título de “Direito de morte e poder sobre a vida” e
também na aula de 17 de março de 1976 encontrada na obra “Em defesa da
sociedade”. O autor diz que a sexualidade foi valorizada pela medicina devido a sua
dupla incidência no corpo e na população; e, quando controlada, por exemplo,
quando o indivíduo contrai uma doença venérea, ele se torna perigoso, para si e
para a população. A saúde pessoal sofre sanções e existe o perigo da disseminação
sem controle da doença.
- 197 -

seus filhos e, na masturbação masculina, que era condenada e


trazia males para o homem (Donzelot, 2001).
É então que os médicos começam a escrever obras
que viriam a transformar a sexualidade em aparelho de
controle do Estado, acabando com a influência moral, ainda
existente, da Igreja em relação ao sexo; parafraseando
Donzelot: “Após ter começado por reger os corpos, a medicina
aspira para melhor consegui-lo, a legislar também sobre as
uniões”.
Os médicos da época afirmavam que as famílias
seguiam uma dupla moral, que significava o ato de proclamar
um comportamento e praticar coisas totalmente diferentes. Por
exemplo, na educação sexual dos meninos e das meninas, os
primeiros eram encorajados a iniciar a vida sexual ainda
quando pré-adolescentes e as segundas eram preservadas até o
dia do casamento. Qual o resultado? Bebês que eram deixados
aos cuidados das suas respectivas mães, filhos destes pré-
adolescentes, que na maioria das vezes eram prostitutas. Estas
relações também aumentavam o risco de transmissão de
doenças venéreas (Donzelot, 2001)
A chegada de Dom João no território nacional,
expulso por Napoleão Bonaparte de seu território europeu,
trouxe para a cidade do Rio de Janeiro, capital da colônia, a
necessidade de urbanização do espaço público. Os aristocratas
portugueses tinham hábitos de consumo, lazer, moradia e
higiene que a cidade não fornecia. Também eram necessárias
construções de infraestruturas para o modelo capitalista, em
especial o inglês, dentro do território nacional. Uma das
soluções encontradas para dar início às mudanças do cenário
carioca foi a modificação do comportamento familiar.101
101
Costa, 2004.
- 198 -

Na época de ouro das navegações, as metrópoles


forneciam o capital político e cultural para as colônias, ou
seja, o governo local ficava paralisado sempre a mercê dos
interesses privados. Com a chegada do príncipe ao território
nacional mudou-se o modo de fazer política na colônia
brasileira, já que aqui se tornara o centro do coroa lusitana. A
sociedade brasileira passou, então, a adotar os modos de vida
europeus.102
A nova administração colonial utilizou-se da lei, a
punição e o aparelho político-judicial como instrumentos de
controle social. Costa (2004) ilustra duas formas em que
utilizam desta tríade, a lei das aposentadorias e a abolição das
rótulas103.
A lei das aposentadorias permitia que os membros
da administração municipal requisitassem qualquer residência
para o seu uso. Antes, isso não acontecia frequentemente, mas
com a chegada do Rei, muitas casas foram tomadas através da
utilização da lei. As famílias lesadas eram as mais ricas, que
eram obrigadas a deixarem suas casas contra sua vontade.
Segundo Costa (2004, p. 54): “só havia um caminho a seguir,
curvar-se à vontade do príncipe”.
Sobre a abolição das rótulas, temos uma mudança
na arquitetura da cidade, visto que as mesmas são de origem
árabe, os administradores portugueses rapidamente as
consideraram uma barbárie estética devido a sua possibilidade
de oferecer o ver sem ser visto. Esta medida só foi tomada

102
Costa, 2004
103
As rótulas são uma herança da arquitetura árabe que se popularizou na Península
Ibérica. Elas são painéis formados por treliças de madeira para vedar vãos de
janelas, muitas vezes convertendo-se em verdadeiras gaiolas, fechadas de madeira
por todos os lados, cujo objetivo confesso era aprisionar ou proteger as mulheres da
casa. Além de permitirem a passagem de ar fresco, também possibilitavam que as
pobres mulheres encarceradas observassem a rua sem serem observadas.
- 199 -

para a classe rica, já a pobre não sofreu sanções. Claramente


isto seria um problema para a segurança pública dificultando a
segurança da corte e do príncipe, que só circulava pelos
arredores das classes ricas.104
O autor identificou estas duas medidas como as
primeiras que incidiram sobre a família dentro do território
nacional. Mesmo assim o estado não conseguira de fato
incorporar a família em suas políticas. Conforme os abusos
exercidos, especialmente os do período de instalação da corte
portuguesa, as famílias se voltavam contra o governo local.
Temos a Independência e a Abolição como formas de uma má
relação entre Governo e família.105
Foi através da Abolição da Escravatura que o
Estado nacional passou a estatizar os indivíduos. A lei, por si
só, não produzia corpos dóceis para serem utilizados pelo
Estado. Com o aumento da população urbana, fazia-se
necessária uma intervenção mais pontual na vida privada dos
indivíduos, como a higiene pessoal, sexualidade, emoções,
afetos.
É aí que a família deixa de ser inimiga e passa a
ser aliada do Estado. Segundo o autor, “neste momento as
técnicas disciplinares saem do ostracismo colonial e começam
a ocupar o primeiro plano da cena político urbana. O sucesso
da higiene indica essa revisão estratégica no trabalho de fissão
e reestruturação do núcleo familiar”.
Temos, então, a ascensão da higiene médica dentro
do Estado nacional. Em 1829, temos a fundação da Sociedade
de Medicina e Cirurgia do Estado do Rio de Janeiro que

104
Costa, 2004
105
Costa, 2004
- 200 -

contribuiu para a criação de políticas públicas para a


higienização da sociedade.106
A medicina entrou na política de transformação do
meio familiar para suprir a necessidade que faltava à lei
quando se tratava da vida privada. No caso, usa a figura da
mãe como agente auxiliar para a proteção dos direitos das
crianças e adolescentes visando o crescimento da nação. A
seguir, temos uma fala de Meireles que demonstra o papel da
mãe na sociedade brasileira: “Lembrai-vos que nosso futuro,
costumes, paixões, gostos, prazeres, e até nossa felicidade
dependem e vós; corrigi este abuso, e os homens torna-se-ão
verdadeiros filhos maridos e pais; isto feito uma reforma geral
sucederá na sociedade, a natureza reconquistará seus direitos”.
A mãe, nas sociedades europeia e brasileira, pode
ser considerada como importante agente do dispositivo da
sexualidade na época que se manteve o controle social dentro
do núcleo familiar. Enquanto a lei pune as famílias que não se
adequavam ao estabelecido, as normas evitavam os desvios.
Este Biopoder que incide na família tem o objetivo de
produzir a vida, produzir indivíduos aptos para o trabalho
dentro das fábricas.
A Revolução Industrial, no século XVIII, alterou a
relação que o homem mantinha com o seu trabalho colocando-
o em jornadas de trabalhos de 14 a 16 horas por dia, incluindo
mulheres e crianças. Já no século XIX era evidente a enorme
dicotomia social entre ricos e pobres onde a burguesia, através
das revoluções do início do século, consolidou o seu poder em
toda a Europa107.

106
Costa, 2007
107
Nesta mesma época, segundo Aranha (2006), temos os movimentos dos
trabalhadores que inspiraram as lutas das classes operárias contra a burguesia
baseadas nas ideias de Proudhon, ou Bakunin ou de Marx e Engels.
- 201 -

Com a urbanização das cidades devido à


industrialização e à consequente migração dos camponeses
para os campos industriais urbanos, houve um grande
crescimento da população em um curto espaço de tempo. Em
especial, podemos citar a necessidade da necessidade de
governo da vida da população devido a sua grande
aglomeração e os possíveis transtornos que elas poderiam
causar caso alguma revolução fosse iniciada (Aranha, 2006).
Como vimos, o Estado usou a família como
ferramenta de controle social tornando-a medicalizada. É
possível observar que a figura do médico doméstico tornou-se
presente como um agente que vigiava e punia as ações
desviantes. Segundo Foucault (2009), a escola é a segunda
instituição na qual o sujeito é inserido para aprender as regras
de comportamento social com o objetivo de docilizá-lo.
Se olharmos o fracasso escolar como uma máquina
de controle social através da produção de subjetividade
existente na sociedade capitalística, podemos observar toda
trama do Biopoder dentro do espaço escolar. O fracasso marca
a vida da criança, determina limites, individualiza, diferencia e
classifica.
A combinação saúde-educação auferia aos saberes
médicos o poder de ditar normas sobre como devem aqueles
que ensinam proceder para garantir um desenvolvimento
saudável das crianças. Verdades foram e são produzidas para
garantir o sucesso na formação de cidadãos úteis aos sistemas
político-econômicos. Muitas delas, ao serem desveladas em
suas incorreções científicas, são reformuladas tempos depois e
voltam acrescidas do poder tomado por empréstimo a outros
saberes, muitas vezes ainda em fase de elaboração de suas
teses definitivas. Seja qual for sua forma de apresentação ou o
saber científico que representa tais teorias-verdades depositam
- 202 -

na criança – em sua constituição biológica, ou em sua família


desestruturada, ou em seu meio pobre material e culturalmente
– a culpa por sua má escolarização.
A pedagogia tradicional, que antecedeu o
movimento escolanovista, era basicamente magistrocentrista,
ou seja, o agente responsável pela a aprendizagem era o
professor. Com o final da I Guerra Mundial, o sistema
educacional foi posto em xeque... Afinal, que tipo de cidadãos
estavam sendo formados dentro de uma instituição que não
conseguiram evitar uma guerra?
É na Europa em que pedagogos como Feltre,
Basedow e Pestalozzi criaram uma nova técnica de educação,
em que torna a criança agente ativo no processo de ensino-
aprendizagem tendo como objetivo a sua formação global.
Esse projeto exige métodos ativos, com mais ênfase nos
processos do conhecimento que propriamente o produto. Para
tanto as atividades, são centradas nos alunos, e a criação de
laboratórios, oficinas, hortas ou até imprensa, conforme a
linha a ser seguida, deve ter em vista a estimulação da
iniciativa.
E também apresentam novos valores, tentando
superar o viés intelectualista da escola tradicional por meio de
jogos, exercícios físicos, e táticas de desenvolvimento da
motricidade e da percepção, a fim de aperfeiçoar as mais
diversas habilidades. Voltam-se também para a compreensão
da natureza psicológica da criança, o que orienta a busca de
métodos para estimular o interesse sem cercear a
espontaneidade.
No Brasil, o movimento escolanovista chegou em
meados da década de 20, no século XX, e ao mesmo tempo,
- 203 -

criava-se a Liga Brasileira de Higiene Mental108 que tinha


como objetivo a higienização do povo brasileiro, deficiente
intelectualmente, devido à miscigenação das raças. Um dos
instrumentos escolhidos pelos psiquiatras da Liga para sua
cruzada higienista foi o espaço escolar. As escolas se
transformaram em centros de promoção de saúde mental.
Neste cenário, é importante a ação da Psicologia, que forneceu
os testes psicológicos com base psicométrica para medir
quantitativamente o QI das crianças brasileiras (Patto, 1996).
A Psicologia, segundo Patto (1996), no século
XVIII não se importava com as diferenças, utilizando do
próprio indivíduo somente o corpo como campo de estudos
sobre a relação entre as sensações e os processos mentais. Já
no século XIX, surgiu a preocupação em explicar as
diferenças para justificar a nova ordem sócio-econômica
fundamentada no pensamento liberal e no modo capitalista de
produção. Foi precisamente através do viés diferencial que o
pensamento escolanovista brasileiro deu uma guinada em suas
finalidades educacionais.
Segundo Patto, à medida que a Psicologia se
constitui como ciência experimental e diferencial, o
movimento escolanovista passou do objetivo inicial de
construir uma pedagogia afinada com as potencialidades da
espécie à ênfase na importância de afiná-la com as

108
A Liga Brasileira de Higiene Mental trouxe para os terrenos brasileiros as
práticas eugênicas criadas pelo inglês Francis Galton (1822-1911) e pela
psiquiatria alemã que engatinhava a caminho das ideias nazistas. Em
1926, a Liga adentrou nos espaços das famílias, escolas, fábricas, ou seja,
sociedade como um todo, com o objetivo de higienizar, ou seja,
normatizar/educar corretamente para a formação de um povo capaz de
levar o Brasil ao seleto clube dos países desenvolvidos. A eugenia em si é
uma normatização que cria um ser humano modelo que serve para nortear
a classificação de quem é apto e quem é inapto.
- 204 -

potencialidades dos educandos, concebidos como indivíduos


que diferem de si quanto à capacidade para aprender.
A Psicologia começou a se apresentar como
classificatória, dentro do espaço escolar, como importante
recurso científico para objetivar as diferenças entre cada
aluno, em especial as diferenças entre aqueles oriundos das
classes ricas e os das camadas pobres. A autora diz que
pedagogia e psicologia se complementavam para uma redução
psicológica dos problemas educacionais quando o fracasso
escolar era justificado através de testes psicológicos e de
políticas de saúde mental que adentravam dentro dos muros da
escola (Patto, 1996).
O quadro atual da educação pública brasileira é
preocupante: professores angustiados, pais preocupados sem
saber o que fazer com seus filhos, crianças fora de controle,
brigas, agressões e xingamentos. Vemos que proliferam nos
consultórios “psi” 109 encaminhamentos feitos pela escola ou
mesmo solicitados pelos pais, tomando a clínica como o
último recurso ou a esperança para a resolução dos problemas.
Aturdidos com a velocidade do contemporâneo,
torna-se premente, portanto, dar solução imediata aos
problemas. Os discursos de alteridade, presentes nas falas de
alunos, pais, professores, mesmo nas políticas públicas
educacionais convocam os sujeitos a por em análise os modos
de subjetivação nos quais estamos inseridos. Vendo-se
impotentes e incapazes de articular outras respostas, a via
medicamentosa surge como a mais eficaz das soluções. Aos
pais e professores Rivotril, às crianças Ritalina. Ambos
funcionam com o mesmo objetivo: o controle, porém, sob
perspectivas diferentes. A primeira atenua a angústia do se

109
Clínicos gerais, psiquiatras, neurologistas, psicólogos, psicopedagogos, dentre
outros.
- 205 -

viver em sociedade e a segunda a domesticação dos


desassossegos da alteridade que emergem no cotidiano da
escola (Moysés, 2001).
O modelo atual de escola, no Brasil, nasceu na
Constituição Federal (Brasil, 1998). Para a Educação foi
determinado que o Estado deveria oferecer um ensino público
gratuito, valorizar o profissional de ensino, distribuir verbas
públicas para a Educação pré-escolar e desenvolver um plano
nacional de educação. Este plano mais tarde veio a se
consolidar na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(Brasil, 1996)
Antes de ser aprovada em 1996, a LDB, cujo
projeto inicial continha 172 artigos, sofreu duras críticas. No
artigo 36 §1º, por exemplo, é dito que as disciplinas Filosofia
e Sociologia são importantes para o exercício da cidadania e
mesmo assim são ditas como optativas dentro do currículo.
Para uma Instituição Social, como a Escola, que tem como um
de seus objetivos a formação de cidadãos.
A ambiguidade entre as disciplinas de Filosofia e
Sociologia, fortalece a prática de disciplinarização do alunado,
ou seja, a produção de sujeitos ocultos no meio social.
Na busca de produzir corpos aptos a operar as
máquinas do capitalismo industrial, a gestão disciplinar da
sociedade produz uma maquinaria complexa que visa produzir
corpos docilizados cujas forças serão canalizadas para um
“bem” maior, o trabalho. Tal como numa linha de montagem,
os indivíduos transitam em diferentes instituições, cada uma
com seus limites regras, normas e objetivos bem definidos. A
família, instituição disciplinar por excelência, teria por
objetivo formar o caráter dos futuros trabalhadores,
preparando-os para a dimensão disciplinar seguinte, a escola.
- 206 -

Ao analisar a maquinaria disciplinar presente no


espaço escolar, o autor nos aponta que a incidência das
práticas disciplinares exercidas em nível “individual” - através
do ordenamento dos corpos no espaço, da vigilância constante,
mesmo que virtual, e pela incidência de práticas corretivas
sobre o corpo do educando - tinham como objetivo não só
normatizar os comportamentos, corrigindo as insubordinações
do cotidiano através de ortopedias corretivas, mas também, e
principalmente, a observação dos possíveis desvios e
insubordinações visando adequações e ajustes de suas
engrenagens conforme a necessidade.
As informações recolhidas, uma vez analisadas
pelos diferentes especialistas que por ali transitavam, eram
reinseridas no espaço escolar, permitindo o aprimoramento
constante de suas práticas com o objetivo de torná-las cada
vez mais eficazes110. Gilles Deleuze (1992), no entanto,
afirmou que o próprio Foucault sabia da brevidade deste
sistema. No mundo pós-guerra, as discussões sobre o papel da
mulher na sociedade, as críticas ao capitalismo bem como a
inserção de novas tecnologias midiáticas no cotidiano111,
acentuaram de forma irremediável a crise dos espaços
disciplinares. Para além do discurso da crise eterna, motor
perpétuo das modificações internas das instituições
disciplinares, o que antes se configurava como seguro e sólido
(por conseguinte eterno e imutável) vê ruir seus alicerces e
muros, marcando a passagem para outra forma de gestão
social denominado pelo autor como “Sociedade de Controle”.

110
A análise descrita diz respeitos as técnicas de Exame que Foucault (2009) discutiu como
fundamental para a prática disciplinar.
111
Ver: GUATARRI, Félix. As três ecologias. Campinas, São Paulo: Papirus, 1992.
- 207 -

Com a queda dos muros das instituições, também


temos uma crise na relação entre o que é dentro e o que é fora
das mesmas.
O território definido que as instituições
disciplinares produziram durante os séculos XVII e XVIII, de
forma real ou imaginária, foi substituído por territórios
artificiais que por sua vez, segundo o autor, são intensos e ao
mesmo tempo híbridos. É nesta sociedade, onde o sujeito vive
no extremo e de forma irregular, que se faz necessário
anestesiar as angústias proporcionadas pelo controle contínuo
de suas vidas. Antes, o espaço disciplinar (conhecido) lhe
concedia uma segurança que era determinada através da sua
relação com o fora (desconhecido) e depois o que sempre foi
conhecido deixou de existir, misturando-se com o fora, fora e
dentro coexistem dentro do espaço e tempo fazendo uma
constante e ininterrupta crise de identidade112 113
O depois acontece no final da grande guerra. Os
muros das instituições disciplinares são derrubados devido aos
questionamentos sobre os seus reais objetivos e
funcionamento. Mesmo assim não tivemos uma diminuição de
produção de identidades, pelo contrário, tivemos sim uma
intensificação dessas subjetivações como combustível para a
produção de uma subjetividade capitalística.114
Segundo Deleuze (1992), dentro dessa
configuração social, encontramos na contemporaneidade, uma
escola disciplinar dentro de uma Sociedade de Controle. Como
dito anteriormente, seus muros caíram e a produção de
subjetivações (identidades) agora é a céu aberto. O professor

112
Entendemos a identidade como um corpo docilizado, segundo a ideia de
Foucault (2009) sobre as disciplinas.
113
Deleuze, 1992
114
Deleuze, 1992
- 208 -

não se identifica com a sua função, os pais não se acham bons


pais e as crianças são hiperativas, disléxicas, desafiadoras,
diferentes e... patologizadas? Resta então tentar domesticar as
alteridades através das práticas e discursos Psi.
As infâncias roubadas através destas práticas são
contrárias à vida enquanto processo constante de criação
(Canguilhem, 1990). Segundo Guattari (1986) as crianças se
infantilizam quando sucumbem na produção de subjetividade.
E também afirma que os adultos é que são infantis, pois, já
estão na engrenagem desta produção em larga escala. Quando
aceitamos essa resistência da criança, estamos fazendo com
que ela se torne ativa em suas construções como sujeito dentro
de uma sociedade aturdida e domesticada. Agindo assim,
deixamos cada criança produzir a sua própria infância. Mas
isto não acontece no espaço escolar, pois lançamos mão de
saberes extraescolares e consequentemente fármacos para
resolver o “problema” (Machado, 1994).
Assim temos, o que Moysés e Collares (1996)
chamaram de “tirocínio diagnóstico”. Esta arte de diagnosticar
através do olhar é visível no cotidiano escolar, aumentando
cada vez mais o volume de encaminhamentos para
especialistas da área da saúde e produzindo crianças aturdidas,
crianças completamente docilizadas.

REFERÊNCIAS

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São Paulo: Editora Moderna, 2006.
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Brasil. Brasília, 1998.
______. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei número
9394, 20 de dezembro de 1996.
- 209 -

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Universitária, 1990.
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Janeiro: Garamond, 2007.
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2004.
DELEUZE, G; GUATTARI, F. O anti édipo. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
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DELEUZE, G. Conversações. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992
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1999.
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______. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2007.
______. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Petrópolis:
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GUATTARI, F. Micropolíticas: Cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes,
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HARDT, Michael. A Sociedade Mundial de Controle. In: Gilles Deleuze:
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São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.
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Iluminuras, 2003.
SOUZA, M. P. R; CUNHA, B. B. B. Projetos de lei e políticas públicas: o
que a Psicologia tem a propor para a Educação ? In: CRP-SP e Grupo
Interinstitucional Queixa Escolar (org.). Medicalização de crianças e
adolescentes: conflitos silenciados pela redução de questões sociais e
doenças de indivíduos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.
- 210 -

VIII - O paciente oncológico e a realidade


da morte: um estudo psicológico
Juliana Gatti

Existem vários fatores vinculados ao câncer, gerando uma série


de crises que se iniciam com o momento do diagnóstico,
trazendo à tona todas as representações sociais da doença, além
do desgaste emocional gerado pelo tratamento. Tais
representações estão ligadas a questões anteriores da pessoa
com a doença, além de aspectos sociais, religiosos, de idade,
sexo, entre outras variações psicológicas

Câncer é o nome dado a um conjunto de mais de cem


doenças que tem em comum o crescimento desordenado e
maligno de células que invadem tecidos e órgãos, podendo
espalhar-se como metástase para outras regiões do corpo. Tais
células dividem-se rapidamente e tendem à agressão e ao
descontrole, determinando a formação de tumores (acúmulo
de células cancerosas) ou neoplasias malignas. Estudos
mostram que o câncer pode ser desenvolvido mediante fatores
interrelacionados, internos e externos ao organismo. Os fatores
externos referem-se ao estilo de vida e hábitos, não deixando
de considerar os fatores psicológicos. Já os fatores internos
são geneticamente determinados, sendo vinculados a defesas
que o organismo é capaz de realizar contra agressões externas.
Os fatores externos são os principais motivos do
desenvolvimento do câncer em 80% a 90% dos casos. Pode-se
dizer que casos exclusivamente derivados de fatores
hereditários são raros, mesmo sendo de suma importância para
a oncogênese.115
Na década de 20, devido a estudos médicos sobre o

115
(Inca, 2011b).
- 211 -

câncer, começou-se a observar o aumento do número de casos


no Brasil, passando a ser considerado um problema de saúde
pública, e com isso surgiram novos interesses em ampliar os
conhecimentos sobre o assunto. Por conta de estudos sobre as
epidemias que estavam no auge nessa década, começou-se a
suspeitar que o câncer também fosse uma doença contagiosa,
intensificando o interesse por medidas preventivas. Anos mais
tarde foi descartada a possibilidade do câncer ser
contagioso.116
O médico Mario Kroeff, conhecido por sua
incessante batalha contra o câncer, foi o pioneiro nos estudos
sobre o aparelho de eletrocoagulação, trazendo para o Brasil o
primeiro exemplar em 1927. Após anos de estudos sobre o
câncer conseguiu-se em 1938 o apoio do então presidente
Getúlio Vargas para dar início ao Centro de Cancerologia, que
em 1941 passou a se chamar Serviço Nacional de Câncer
(SNC), criado com o intuito de promover o projeto anticâncer,
que tinha como princípio a orientação e o controle da
campanha de câncer no Brasil.117
Inicialmente o tratamento era realizado através de
cirurgias, onde se tirava o tumor, órgãos e tecidos lesionados.
Como o tratamento não acontecia de forma eficaz, estudiosos
como biólogos, físicos e químicos começaram a auxiliar a
medicina para encontrar uma nova forma de tratamento. Nesta
época teve origem a máquina de raios-X, dando avanço ao
diagnóstico de câncer e posteriormente ao tratamento por
radioterapia (Rocha, 2010). Segundo este autor, no Brasil mais
especificamente no Estado de Minas Gerais, foi inaugurado
um Instituto que visava pesquisar sobre o câncer, tendo como
princípio o surgimento do raios-X e elementos radioativos

116
Rocha, 2010
117
Inca, 2011a
- 212 -

como tratamento. Contudo foram desenvolvidos também


métodos de ações preventivas, considerando que havia
dificuldades de tratamento e cura.
Desde meados da década de 80 ocorreu uma
tentativa de prevenção do câncer que vem sendo realizada de
forma contínua e de caráter nacional. Podem-se citar algumas
medidas preventivas do câncer, tendo como foco principal a
informação, o controle ao tabagismo e a educação em
cancerologia nos cursos de graduação em ciências da saúde,
tendo mantido essas técnicas até os dias de hoje. Ainda na
década de 80 o Inca passou a ter apoio do Centro de
Transplante de Medula Óssea e do Pró-Onco, juntamente com
o Hospital de Oncologia, parceria que deu origem ao Serviço
de Suporte Terapêutico Oncológico.118
Na década de 90 foi desenvolvido o “Viva Mulher”,
programa nacional de controle do câncer de colo de útero e de
mama, tendo como enfoque três setores: primário, secundário
e terciário. O setor primário tem como meta as possibilidades
de controle das doenças sexualmente transmissíveis, sendo
este um risco para o surgimento do câncer de colo de útero.
No secundário o enfoque é para a realização de exames
periódicos, citopatológico (papanicolau), autoexame das
mamas, exames clínicos e mamografia. Já a nível terciário, a
proposta é formar uma rede nacional integrada, na tentativa de
estabelecer uma maior acessibilidade ao sistema.119 Já no
final da década de 90 foi inaugurado o Centro de Suporte
Terapêutico Oncológico com o intuito de estabelecer cuidados
paliativos ((Inca, 2011). Ainda na década de 90, criou-se o
Conselho de Bioética com o foco de refletir temas morais e

118
Inca, 2011
119
Bicalho; Aleixo, 2002
- 213 -

filosóficos, auxiliando assim na orientação e no atendimento a


pacientes que usufruem das práticas terapêuticas e que
recebem cuidados paliativos.
No ano de 2000 o Inca, juntamente com o
Ministério da Saúde, lançou o “Projeto Expande” na tentativa
de diminuir as desigualdades regionais, oferecendo assistência
oncológica em todo território brasileiro e criando Centros de
Alta Complexidade em Oncologia (Cacon I) que são Hospitais
Gerais, da rede do SUS, que oferecem serviços de diagnóstico,
cirurgias, quimioterapia, radioterapia além de cuidados
paliativos.
O sistema imunológico tem como função proteger o
organismo de algo que lhe é estranho ou nocivo. Para Andrade
e Silva, o câncer se inicia com uma célula que possui uma
carga genética errônea, e que passa a se reproduzir dando
origem a outras células que possuem carga genética
igualmente errada, originando um tumor. O sistema
imunológico seria responsável pela destruição dessas células,
entretanto o estresse tem a capacidade de diminuir a reação do
sistema imunológico. Por estresse entende-se uma experiência
traumática, podendo ocorrer em vários âmbitos, como
alteração de hábitos e mudanças na autoimagem e um estado
de tensão que causa ruptura no equilíbrio interno do
organismo. É por isso que às vezes, em momentos de desafios,
nosso coração bate rápido demais, o estômago não consegue
digerir adequadamente e ocorre a insônia. Mas quando o
estresse incide, esse equilíbrio ou homeostase é quebrado e
não há mais entrosamento entre os vários órgãos do corpo.
Cada um trabalha em um compasso diferente, devido ao fato
de que alguns órgãos precisam trabalhar mais e outros menos
para lidarem com o problema. Isto é o que se chama de
estresse inicial. Como, por natureza, temos o impulso de
- 214 -

sempre buscar o equilíbrio, automaticamente é feito um


esforço especial para se restabelecer a homeostase interior. Tal
esforço é uma resposta adaptativa do ser humano e às vezes
exige um considerável desgaste e utilização de reservas de
energia física e mental.120 Ainda na visão de Andrade e Silva
(2010), o estresse que modifica a desenvoltura do sistema
imunológico leva o indivíduo ao desequilíbrio emocional que
pode acarretar um aumento na produção dessas células
geneticamente modificadas, sendo que a morbidade e a
mortalidade pelo câncer ainda estão em níveis elevados,
mesmo com todos os avanços no diagnóstico e
desenvolvimento de tratamentos mais eficientes.
Cada vez mais estudos são realizados no intuito de
investigar as relações entre os fatores psicológicos, a
incidência do câncer, a evolução e a remissão da doença.
Essas relações estão sendo consideradas no desenvolvimento
integral da doença e existem investigações que abordam a
relação da dinâmica psicológica com a etiologia do câncer.
Andrade e Silva apontam que o corpo pode refletir
o conflito do psiquismo, ou seja, o adoecimento pode ter uma
característica punitiva ou de proteção referente a traumas
psíquicos. O adoecimento do corpo só acontece quando há
uma sobrecarga afetiva e dor mental, que passam do limite da
capacidade que as defesas psíquicas tem habitualmente. Em
todo o decorrer da história da medicina, há de se observar
reflexões referentes às doenças. Na época que havia pouco
conhecimento e desenvolvimento da medicina os atributos
para as doenças eram tidos como punição divina, espíritos do
mal, praga, tendo então como medidas de tratamento
exorcismos, invocação de deuses, levando a crer que a cura
não passava de um milagre. Cultura que muitas vezes é
120
Lipp, 2000
- 215 -

observada nos dias de hoje, mesmo com todo o


desenvolvimento tecnológico e medicinal. 121
Sustentando essa idéia, Silva refere-se à história
do câncer como cheia de medos e vergonhas, onde os
pensamentos são recuados a receios ancestrais, confirmando
assim os temores que resistem aos avanços tecnológicos.
Segundo Rocha, uma análise foi feita sobre os cartazes que
tinham o intuito de divulgar o câncer, chamando a atenção da
população sobre o risco e o combate. Observou-se que os
primeiros cartazes usavam a imagem de um caranguejo como
símbolo, representando uma doença que poderia “pegar”
qualquer indivíduo com seus vários braços. A idéia inicial era
divulgar uma doença terrível, mas que podia ter melhores
resultados quando identificado em sua fase inicial. Em forma
de “combate” ao caranguejo, foram utilizados materiais
próprios de guerra, como espadas e punhais, caracterizando a
guerra da pessoa com diagnóstico de câncer em busca de
saúde.
No final da década de 60, as campanhas
começaram a mostrar um novo ângulo do câncer. Com o
avanço da tecnologia as menções de pavor e morte foram
diminuindo aos poucos nos anúncios, passando a alertar a
população sem apavorá-la. Na década de 90, com as
discussões sobre qualidade de vida em alta, as campanhas de
prevenção ao câncer passaram a dar ênfase à idéia de
valorização da vida. As campanhas passaram então a valorizar
a necessidade de manter práticas saudáveis, tais como exames
anuais, controle do tabagismo e alimentação saudável. Mesmo
na atualidade, quando o paciente recebe esse diagnóstico, ele
pode remeter-se ao símbolo de morte, já que o câncer traz uma

121
Barbosa; Francisco, 2007.
- 216 -

idéia de doença temida, de aspectos ameaçadores, como a


crença de dores insuportáveis, sofrimento, desfiguração e
ameaça de aniquilação, crenças que não cessam com a
extirpação do tumor, restando ainda os fantasmas da metástase
e da recorrência (Silva, 2009). Segundo Viet e Carvalho,
quando o diagnóstico de câncer era estabelecido havia uma
associação com idéia de morte sem chances de cura, com isso
o diagnóstico só era contado aos familiares. Esta prática foi
adotada até poucos anos, e só a família decidia se o paciente
saberia ou não de sua enfermidade, deixando-o muitas vezes
sem saber o que de fato acontecia, sem participar das decisões
que envolviam as condutas médicas. Com os avanços
tecnológicos os médicos passaram a perceber que em alguns
casos, principalmente aqueles descobertos na fase inicial, não
havia a certeza de morte iminente, marcando a possibilidade
de cura. Com isso a comunicação do diagnóstico passou a ser
feita ao paciente, sendo considerada uma conduta de respeito
em relação a este. 122
Não há necessidade de ter dúvidas em relação a
contar ou não para o paciente sobre a sua patologia e a
gravidade dela. Segundo Kovács (apud Kubler-Ross, 2010) a
questão é como fazê-lo. Observou-se a necessidade de
comunicar o diagnóstico e concomitantemente acolher e dar
esperança ao paciente e seus familiares, informando-os sobre
os procedimentos e garantindo a presença do médico, deste
modo o paciente se sente integrado aos acontecimentos, sem
se sentir só ou rejeitado.
Pode-se observar que o valor que o câncer tem
culturalmente poderá influenciar no modo de vida do sujeito
após a obtenção do diagnóstico. O medo que é enfrentado não

122
Viet; Carvalho, 2008.
- 217 -

tem relação somente com a morte, mas com o modo como se


vai morrer. A partir do momento em que a pessoa tem seu
diagnóstico de câncer confirmado, ela passa a ter diante de si a
tarefa de reorganizar amplamente sua vida e começa a se
integrar em contextos sociais que não lhe são habituais, tendo
outros interlocutores que não são os de seu cotidiano e
estabelecendo uma relação com uma doença que tem uma
história, uma simbologia, um significado social todo especial.
Simbologia e significado vinculados à nossa enfermidade e à
nossa impotência diante da morte.
A cultura emergiu influências em vários âmbitos
da vida, sendo uma delas a relação do indivíduo com a doença,
causando então diferentes implicações com a saúde e
assistência médica. Considera-se que o indivíduo é um ser
biopsicossocial, tendo então influências não só culturais, mas
também sociais, econômicas, psicológicas, entre outras
(Barbosa; Francisco, apud Atkinson, 2007). Devido a essas
diferentes influências é necessário ver o indivíduo como um
ser único, considerando que as definições de saúde e doença
serão diferentes dependendo do grupo, classe social e
familiar.123
Algumas doenças, como o câncer, que são
estigmatizadas, podem ter um efeito paralisador no indivíduo,
que pode acabar se afastando dos papéis sociais, negando a se
relacionar com outras pessoas, renunciando seus projetos e
não mais aceitando o tratamento por não acreditar em sua
cura. Barbosa e Francisco (2007) apontam que vários autores
acreditam na possibilidade de uma ligação entre a cultura e a
subjetividade de pacientes oncológicos, no qual a cultura e os
estigmas trazidos pela sociedade interferem na construção da
subjetividade. Toda a crença que paira sobre o câncer desde
123
Barbosa; Francisco, apud Oliveira; Helman, 2007
- 218 -

décadas passadas, ainda marca seus estigmas com toda sua


simbologia negativa. Com isso, as representações do sujeito,
que são criadas a partir da cultura que influencia a construção
da subjetividade, podem determinar o modo como serão suas
ações frente à doença. Então, as representações sustentadas
pelo sujeito sobre a doença no decorrer de sua vida são
relevantes à construção de sua subjetividade. O modo como o
sujeito irá encarar a doença e o tratamento pode ser
modificado a partir de novas representações que o indivíduo
possa construir.
Em alguns momentos da história, o câncer
simbolizava emoções que não podiam ser expostas, deixando
assim subentendido que o paciente não teria capacidade de
lidar com sua vida emocional. (Viet Carvalho apud Sontag,
2008). Outra forma de estigmatizar o câncer é utilizá-lo como
metáfora para comportamentos e situações que caracterizam
destruição e desintegração. Kovács (apud Sontag, 2010, p.
197) aponta algumas metáforas que caracterizam o câncer,
como: “desgaste, corrupção, traição, invisibilidade, além de
ser chamado de “gravidez demoníaca” por conta de seu
crescimento desordenado.” Algumas vezes considera-se que o
tratamento pode ser mais difícil e doloroso que a doença em
si. Existem também metáforas relacionadas à quimioterapia
que é a “guerra química” e para a radioterapia “guerra de
mísseis”.
Com o decorrer dos anos viu-se a necessidade
de acompanhamento psicológico para todos esses pacientes,
nos mais variados graus de evolução da doença, com o
psicólogo trabalhando questões ligadas à cura, cronicidade,
sentimentos relacionados ao adoecimento e retorno ao
cotidiano. Aqui, entretanto, nos voltamos apenas aos pacientes
em fase terminal, que estão fora de possibilidade terapêutica,
- 219 -

usufruindo assim de cuidados paliativos. Mesmo que nada se


possa fazer pela cura, ainda há o que ser feito pelo sujeito,
como por exemplo, minimizar sua dor, seja ela física ou
psíquica.
Assim, da mesma forma que ocorre com pacientes
portadores de doença crônica de forma geral, a pessoa com
diagnóstico de câncer também pode passar por três fases
distintas na sua vivência do adoecimento. A primeira fase é
considerada aguda - momento em que e percebe algo de
errado e então se busca um diagnóstico. Nesta fase pairam
incertezas e há uma descarga de emoção, com o paciente e
seus familiares tendendo à união para se ajudarem
mutuamente, assimilando o diagnóstico e enfrentando dúvidas
quanto ao futuro, buscando lidar com a dor e com possíveis
incapacidades. Começam a fazer parte do cotidiano, o
ambiente hospitalar, os procedimentos terapêuticos da doença,
uma nova vida social e as relações com os profissionais
envolvidos no seu caso. Nesta fase é importante a elaboração
de um significado para a doença que possa auxiliar nesse
momento considerado muitas vezes uma catástrofe.124
A segunda etapa se inicia quando o diagnóstico
é concluído e seguem os encaminhamentos terapêuticos, essa
fase é considerada crônica. Neste momento o paciente pode
queixar-se pela perda da saúde, e é gerada uma tensão a cada
nova decisão em relação às possibilidades terapêuticas, dando
início a uma reorganização dos papéis familiares. Nesta fase
surgem os efeitos colaterais do tratamento que desencadeiam
mudanças na aparência, no convívio social e na alimentação
do paciente. A família passa a sofrer impactos emocionais,

124
Silva, 2009
- 220 -

financeiros e sociais. A busca nesta fase é a tentativa de viver


uma vida normal, apesar de tudo.125
A terceira fase pode ocorrer de duas formas,
terminalidade ou resolução, sendo uma ligada à morte e outra
quando o doente obtém cura, até o momento de ser
considerado fora de perigo, respectivamente. Em caso de ser
um paciente fora de possibilidades terapêuticas, onde a morte
está presente, o mecanismo é ajudar a lidar com a separação e
o luto, enfrentando a tristeza de dizer o adeus. Neste processo
os familiares e o doente tem a possibilidade de expressar e
vivenciar, ao longo da doença, a dor e as emoções na tentativa
de suportar o impacto da situação. Kovács aponta a
necessidade de identificar o que o paciente sabe sobre a sua
patologia, para estabelecer o direcionamento do trabalho,
auxiliando no reconhecimento da sua real situação na tentativa
de uma possível aceitação. Neste momento alguns medos
inconscientes acabam vindo à tona como os medos de
abandono, rejeição e culpa.
O cotidiano para a pessoa que recebe o
diagnóstico de câncer muda completamente, passando a ser
em função da doença. O diagnóstico pode desencadear uma
crise vital na pessoa doente e uma crise na sua vida familiar.
Neste momento são exigidas diversas mudanças como a busca
de estratégia para enfrentar a doença, a mudança de papéis,
atitudes diversificadas. Para todas as mudanças decorrentes da
doença é necessário um período de adaptação.
Os pacientes de câncer passam por uma série de
mudanças e dificuldades desde o momento da descoberta do
diagnóstico. Siqueira, Barbosa e Boemer (2007) destacam, em
sua pesquisa, dificuldades mais recorrentes para os pacientes
oncológicos; mudança nos hábitos de vida; deixar de fazer
125
Opus cit. Silva, 2009
- 221 -

coisas que lhe proporcionam prazer; restrições de uma vida


social, tendo como a casa e o hospital como ambientes
permitidos. Outra dificuldade frequente é em relação à
imagem corporal, muitos pacientes tem dificuldade de lidar
com a mudança corporal que o tratamento e cirurgias acabam
proporcionando. O tratamentos de um câncer não é algo fácil
de encarar, sendo muitas vezes longo e podendo trazer várias
alterações no paciente como, por exemplo, a queda de cabelo,
cansaço, enjoos, muitas vezes interferindo na autoimagem
Decorrente dessas mudanças corporais, a pesquisa mostra que
alguns pacientes acabam sofrendo algum tipo de preconceito
originário de uma falta de conhecimento da população em
relação à doença, gerando assim sofrimentos psíquicos e
sociais nos pacientes oncológicos.
Por conta de todo o estigma que envolve o
câncer, o diagnóstico pode afetar significativamente a
autopercepção, comportamento e relações sociais. Na maioria
das vezes a pessoa passa a ser tratada de forma diferente pela
sociedade. Sentimentos de insuficiência e inferioridade podem
acabar surgindo. Existem vários fatores que ficam vinculados
ao câncer gerando assim uma série de crises que se iniciam
com o momento do diagnóstico trazendo à tona todas as
representações sociais da doença, além do desgaste emocional
gerado durante o tratamento. Entretanto essas representações
estão ligadas às questões anteriores da pessoa com a doença,
além de questões como sociais, religiosas, idade, sexo entre
outras variações psicológicas.126
Após a descoberta do diagnostico de câncer, o
paciente e a família começam a passar por limitações e
privações. O paciente se depara com uma nova rotina e
126
Siqueira; Barbosa; Boemer, 2007
- 222 -

situações inesperadas passam a ocorrer com frequência; como


exames e medicações. Não só o paciente, como também os
familiares, passam a desempenhar um novo papel perante a
sociedade e o paciente oncológico pode ser submetido a várias
internações, onde ele fica num espaço desconhecido, o qual
tem suas próprias regras e rotinas que são diferentes de sua
casa, deixa-se de ter um contato tão próximo com os seus
familiares para ter contato com pessoas desconhecidas que vão
cuidar dele. O indivíduo que está a mercê desses fatores pode
sofrer o processo de despersonalização, com sentimentos de
desconfiança, algo depressivo, melancólico, chegando a ficar
hostil algumas vezes com a equipe médica. O fato de a equipe
médica se referir ao paciente como em estado terminal, traz
consigo o conceito de que não há mais nada a ser feito pelo
sujeito, entretanto essa idéia é errada. A pessoa ainda necessita
de auxílio físico e psíquico. Enquanto o sujeito tiver vida,
existe um ser desejante com metas e esperanças. O tratamento
psicológico irá utilizar esse desejo como foco de trabalho,
possibilitando uma nova perspectiva, uma revisão de vida ou
até mesmo um estreitamento de laços sociais. Segundo Silva,
o indivíduo anteriormente ao diagnóstico tende a projetar sua
vida pensando no futuro, como se sua vida fosse infinita, mas
a partir do diagnóstico a situação muda, a morte passa a ser
“vista” ou tida como algo certo em pouco tempo,
independente do diagnóstico ser favorável ou não. A
perspectiva de continuidade no tempo entra em crise levando
com ela o sujeito. Com o diagnóstico de uma doença como o
câncer, a morte passa a “cercar” o paciente, mostrando que
não há controle sobre o corpo e a vida. Essa possibilidade de
morte o faz temer que os projetos e o acompanhamento do
crescimento dos filhos e netos possa não ter continuidade,
Kovács acredita que o paciente terminal não tem um temor só
- 223 -

sobre a morte, referindo-se a sofrimentos secundários que vão


de acordo com a sua personalidade e história de vida.
Esslinger (2008) aponta um fator relevante
nesse processo que pode dar origem à complicação do luto: a
má comunicação entre família e paciente. É preciso que o
tempo da família ao lado do paciente, seja de qualidade, atenta
aos cuidados físicos e emocionais do adoentado. É importante
que a família se proponha a ouvir o paciente, mesmo que este
queira falar sobre a morte. O pacto de silêncio, iniciativa
derivada de uma tentativa de proteção, só cria tensão e
afastamento. Kübler-Ross fala da necessidade da comunicação
clara entre paciente e familiares, e de uma “despedida” antes
da morte que diminui sentimentos adversos, como a culpa. O
médico e a equipe de saúde ao observar fantasias referentes ao
processo de adoecimento/morte devem esclarecê-las,
auxiliando na comunicação entre paciente e família.
Segundo Araujo, foi realizado um estudo na
Europa com pacientes com diagnóstico de câncer sem
possibilidades de cura, revelando que a maioria gostaria de
saber todos os tipos de tratamento, os efeitos colaterais de
cada um, os sintomas que podem surgir decorrente da doença
e do tratamento, procurando estar ciente de tudo que está
acontecendo com seu corpo. Entretanto, existem aqueles que
não querem saber sobre sua condição, tendo que ser respeitado
o desejo. É importante considerar outras formas de
comunicação quando o paciente se encontra fisicamente
debilitado. A comunicação não verbal pode se tornar
prevalente nesse momento. O toque, o gesto de atenção e
carinho, o simples ato de escutar, confortar, estar presente, são
formas que o psicólogo e a equipe médica podem usar para
fazer a diferença de forma simples e eficaz dando suporte ao
possível sofrimento psíquico, mostrando que tem alguém que
- 224 -

está ao lado dele, olhando e cuidando.127 Pereira e Dias


afirmam que os familiares após verem seu ente querido
sofrendo intensamente, passam a pensar na aceitação da
morte, como algo que dará fim ao sofrimento, a dor e a
tristeza.
O luto, não está relacionado somente com a morte
do corpo e sim com perdas de outras ordens. Pode-se
considerar que desde a infância podem ser vivenciadas perdas
e mortes, mesmo simbólicas, desde a infância até à finitude. A
sociedade ensina que não se deve perder; não se pode perder a
hora e o controle das coisas. Não é bem aceito perder uma
competição, e o luto é caracterizado por perdas relevantes, não
ocorrendo da mesma forma, pois os vínculos, as significações
são diferentes para cada pessoa e perda. O luto é uma reação
esperada após uma perda simbólica ou real, decorrente da
quebra de um vinculo significativo. Segundo Araujo (2009),
fazem parte do processo de luto do paciente terminal alguns
anseios, pensamentos e sentimentos perante esses momentos
finais da vida. Existe uma relevante preocupação com os
familiares, medo de um momento desconhecido e com tantos
estigmas sobre a morte, anseios de estar sozinho no ato de
morrer. Todas essas questões são passíveis de sofrimento
psíquico no paciente, com isso é importante que os familiares
e a equipe, dêem espaço de escuta para todas essas questões.
Existe também momentos de reflexão sobre o que ocorreu na
vida desse individuo e isso pode gerar angústia, se o paciente
tiver algum assunto que ele defina como inacabado ou algum
conflito mal resolvido.
Araujo (2009) revela que quando o paciente
tem a certeza da morte, pode passar a dar mais valor às
relações humanas. A empatia e compaixão podem ser
127
Araujo, 2009
- 225 -

esperadas pelos pacientes que estão vivenciando a


terminalidade e o luto. A fé e a esperança são mantidas nos
momentos mais críticos, devido aos relacionamentos humanos
que se mantém em todo o processo de luto e morte. Quando a
morte passa a ser compreendida, inicia-se também a
consciência das perdas que vão acontecendo no decorrer dos
dias. É possível que algumas pessoas com diagnóstico de
câncer em fase terminal, quando se deparam com a morte
iminente, percebem a própria finitude, com isso o medo da
morte pode ser diminuído. 128
Lindemann é o primeiro autor a utilizar o termo
de luto antecipatório como um processo em casos de
indivíduos em estagio avançado de uma doença, como o
câncer, sendo considerado um paciente terminal. Essa
expressão passou a ser usada também para caracterizar
emocionalmente os momentos, que a pessoa adoentada passa
com sua família antes da morte. O modo como esse processo
de morte se dá, emocionalmente poderá modificar o modo
como os familiares irão reagir ao pós-morte, ou seja, a
qualidade das relações dos momentos com o paciente irá
interferir no modo como vão encarar a real morte. Lindemann
começou a estudar o luto antecipatório a partir da observação
da reação das mulheres de homens que estavam indo para a
guerra, ocorria então o processo de luto antecipatório diante da
incerteza da volta desse marido para casa, podendo ocorrer
então uma reação adaptativa. Com isso houve um estímulo
para a investigação dos efeitos nessa relação de adaptação dos
familiares frente à morte de um ente querido.
Esslinger aponta que o luto antecipatório é um
processo que ocorre antes, durante e pós-morte. Relaciona o
processo de luto antecipatório com a descoberta de um
128
Pereira, 2007
- 226 -

diagnóstico de uma doença grave, ou seja, antes mesmo dos


momentos que antecedem a morte. Esse processo de luto
antecipatório refere-se a todas as perdas sendo estas reais ou
imaginarias. Assim como o paciente, os familiares e todo o
seu sistema também acabam passando por esse processo.
Algumas vezes os pacientes terminais necessitam ficar
internados por conta dos processos de tratamento ou devido
aos cuidados paliativos, levando assim ao afastamento do
paciente com sua família, podendo gerar algo traumático para
ambas as partes, podendo dificultar assim o processo de luto.
A vivência do luto antecipatório se dá decorrente a união de
sentimentos como a dor de ter um diagnóstico de uma doença
em estado avançado, dor da possível perda de um membro da
família. O familiar que passa a desempenhar o papel de
cuidador do indivíduo adoentado passa a ter uma relação mais
estreita e íntima com o paciente, surgindo a possibilidade de
uma nova significação do relacionamento. Contudo, a
evolução da doença com a possibilidade de morte iminente,
mostra a realidade de perda. Esse momento que era de
proximidade passa a ser de uma possível aceitação de perda.
Carvalho concorda que o processo de luto não
acontece só com o momento da morte, podendo ter início com
o diagnóstico, nomeando de luto antecipatório que é referente
aos sentimentos de perdas de todos que estão passando por
esse momento, não só o paciente, como também familiares e
amigos mais próximos. As dores do luto podem se misturar
com as dores físicas, interagindo no processo de sofrimento.
Ainda para Carvalho, existe no paciente o desejo de não
sofrimento, na tentativa de ter o controle sobre o corpo, além
de querer ser recordado por todos como uma pessoa de antes
do adoecimento.
- 227 -

Segundo Pereira e Dias, o paciente que está em


fase terminal pode sentir dores, o corpo começa a ficar frágil,
sendo este o momento que a família percebe que há
instabilidade física. Uma das características do luto
antecipatório é quando há o luto de um indivíduo que agora
possui sintomas do câncer e não mais daquele ser saudável.
Algumas vezes os familiares podem se deparar com a
representação de “morte em vida” que é quando o paciente
está impossibilitado de fazer uma escolha e um familiar passa
a ter que desempenhar esse papel. Os pacientes que se
encontram extremamente debilitados pela doença, perdem a
capacidade de escolher, e isto dá origem a uma perda
ambígua; estando o paciente vivo, mas psicologicamente e
socialmente faltoso, sendo esta mais uma característica do
processo de luto antecipatório.129
É valido mencionar que todos que tem algum
tipo de relação com quem está passando por esse momento
pode ter a oportunidade de se deparar com sua própria
finitude, avaliar o propósito da vida e ter a oportunidade de
uma transformação. Dificilmente alguém consegue passar
ileso por essa experiência. Quando o psicólogo percebe que a
família já esta passando pelo processo da elaboração do luto
antecipatório, é necessário que incentive que eles se despeçam
do paciente que está no processo de morte. Antes desse
momento é importante que o psicólogo oriente a família a se
comunicar, a agradecer, a pedir perdão se for o caso àquele
que está adoentado. Há uma importante diferença, segundo
Lisbôa (2003), entre a despedida quando o paciente está no
processo de morte e a despedida nos rituais de luto após a
morte, que é a presença do indivíduo que também é
beneficiado com a despedida.
129
Genezini apud Boss, 2009.
- 228 -

A teoria dos cuidados paliativos traz à tona o


conceito de re-humanização do morrer. Há uma tentativa de
acabar com a idéia de que a morte é um inimigo que precisa
ser negado e afastado a todo instante, passando a mostrar que
é algo natural da vida. Os adoecimentos, por conseqüência,
passam a ter como princípio a qualidade de vida e bem-estar
da pessoa que está com o diagnóstico de uma doença sem
cura. Considerando todos esses aspectos dos cuidados
paliativos, a Organização Mundial de Saúde de 1986 aponta
como filosofia subjacente aos cuidados paliativos o viver até o
momento em que a morte chegar, e não simplesmente existir,
não apressar nem adiar a morte, apontando para a vida e para o
controle da dor. A morte digna é um conceito subjetivo que a
medicina paliativa contribuiu com o seu surgimento, levando
em consideração que o centro das preocupações deixa de ser a
cura da doença, passando a ser o alivio de sintomas, podendo
ser eles físicos, emocionais, sociais e morais decorrentes de
uma doença. Pode-se dizer que esse processo é para dar mais
vida aos dias que lhe restam do que dar mais vida sem
qualidade. Se referir ao paciente como “fora de possibilidades
terapêuticas” não significa que não haja o que ser feito pelo
paciente, mas que não há mais possibilidade de cura. 130
A medicina paliativa traz consigo alguns conceitos
que devem ser refletidos como, por exemplo: o que se pode
entender como qualidade de vida e morte digna; o lugar da
família e do paciente no processo de morte, facilitando a
discussão sobre os medos e anseios, para que todos saibam
tudo o que se passa em relação à doença e tratamento,
auxiliando na comunicação clara e ampla entre o paciente e
seus familiares; cabe ao médico entrar em contato com os
familiares para que haja uma discussão sobre o que informar
130
Esslinger, 2008
- 229 -

para o pacientes, como informar e quando. Esslinger aponta


que essas reflexões que a medicina paliativa levanta, devem
ser incorporadas nas atitudes dos profissionais de saúde, uma
vez que estão somente voltados para a cura. Essa mudança faz
com que a medicina perceba seus limites e mude o foco de
curar para cuidar, para que não haja mais frases como “se a
cura não pode ser encontrada, quem necessita ser cuidado?”
Segundo Clark e Seymour, existem alguns princípios básicos
nos cuidados paliativos. Sendo eles: cuidado total, que se
refere um cuidado multidimensional do sofrimento; equipe de
trabalho, que se adota o método interdisciplinar; confiança,
que está ligada a relação entre a pessoa que está sendo cuidada
e o cuidador.
Pacientes com doenças sem possibilidades
terapêuticas experimentam varias perdas ao longo do
tratamento, além de estarem expostos aos efeitos colaterais
que podem gerar desconforto e frustrações que, dependendo
do momento, podem afetar o humor, a funcionalidade e a
capacidade do paciente em lidar adequadamente com a
situação. Embora a dor seja subjetiva, ela não é abstrata e a
maior fonte para ser avaliada é o próprio paciente com base no
seu processo, no qual a dor que está sendo sentida tem uma
necessidade se ser reconhecida, compreendida e respeitada.
Para Kovács, é preciso saber qual o sentido e como o paciente
define e significa a sua dor, além de saber o quanto de espaço
ela ocupa na vida desse sujeito, esses elementos tem como
referencia a cultura, a história de vida e as experiências
vividas anteriormente. A dor, às vezes considerada mais
terrível para a humanidade do que a própria morte é capaz de
destruir a qualidade de vida, corroer a vontade de viver e até
mesmo levar a pessoa ao suicídio por meio de formas mais
trágicas ou pela morte assistida, como temos visto acontecer.
- 230 -

Seus efeitos físicos afetam o sono e o apetite, resultando em


fadiga e redução de nutrientes disponíveis no organismo, e
dificultando o processo de convalescença de pacientes já
enfraquecidos e idosos. A experiência excruciante da dor pode
fazer a diferença entre a vida e a morte.131
É necessária uma reflexão sobre os costumes que
foram percebidos a partir do século XX diante da morte e do
processo de luto. A morte passou a ser considerada motivo de
vergonha, vista como o fracasso da humanidade. Com isso
ocorre uma introjeção da manifestação do luto, uma vez que
essa passa a ser condenada pela sociedade, não podendo então
expressar qualquer sentimento referente à dor e à tristeza,
sendo considerada uma fraqueza. Diante disso existe a idéia de
que quem está passando por esse processo de luto deve ter o
controle de seus sentimentos. Isso é um reflexo do modelo
capitalista em que se vive hoje, que tende a visar à produção,
ignorando os sinais de morte que o rodeia. 132
Existem várias maneiras de negar os sentimentos
que a morte gera com o intuito de não sofrer, entre elas ver a
perda como fatalidade, ocultar os sentimentos, eliminar a dor e
apontar o crescimento possível diante dela. Toda e qualquer
manifestação de sentimento é relevante para que o processo de
luto seja normal. Com o passar dos meses, as expressões de
sentimentos diante da perda e do luto acabam se modificando.
Hoje em dia as mortes ocorrem, na maioria das vezes, em
hospitais, fazendo com que os familiares já estejam mais
afastados desse paciente, tornando mais difícil a convivência
com a doença e dificultando o processo de luto antecipatório.
Na maioria das vezes, a família não passa pelo processo de
morte junto ao paciente e consequentemente não vê a morte

131
ESSLINGER, apud GUIMARÃES, 2008, p.46
132
KOVÁCS, apud ARIÈS, 2010
- 231 -

efetivamente. O hospital passa a ser considerado um local


conveniente para esconder o medo e todos os sentimentos
ligados a doença. Segundo Esslinger (2008) a morte ocorrendo
no hospital, com o paciente envolto em máquinas e
procedimentos, denota que se leva em conta a doença e não o
doente. Nesse momento a família é muitas vezes vista como
uma presença incômoda pela equipe de saúde, devido às suas
indagações e atitudes, comportamentos que se referem à
negação. Por outro lado, a equipe centraliza-se nos aparatos
tecnológicos que cada vez mais se vinculam ao adoecimento e
ao processo de morte. É que os pacientes em estágio avançado
de uma doença trazem incômodo aos indivíduos saudáveis,
inclusive aos profissionais da saúde. Esse incômodo tem
origem nos comportamentos de revolta, de dor ou exigências,
ou até pelo simples fato de “dar as costas para a vida”.133 As
pessoas agem como se não fossem morrer, fazem planos para
o futuro e planejam criações e filhos, como se estas ações
fossem perpetuar o ser.
É que as pessoas em geral não conseguem
acreditar em sua própria morte. E, de fato, não é possível viver
sobre a constante presença da morte, com isso surgem facetas
culturais e psicológicas para ocultar a presença da morte.
Lançamos mão de mecanismos de defesas como a negação,
repressão, intelectualização e deslocamento, para nos proteger
do medo da morte, mas ao mesmo tempo em que há defesa,
podem ocorrer restrições. Existem momentos em que as
pessoas ficam acuadas parecendo não viver mais, podendo
equivaler à morte. E segundo Kovács refere-se então que a
pessoa está morta, mas esqueceu de morrer, efetivamente,
surgindo o conceito de vida em morte.

133
KOVÁCS, 2010
- 232 -

Borges et al (2006) revelam que estudos apontam


um plano de apoio psicológico embasados teoricamente nos
princípios de cuidados paliativos, qualidade de vida e controle
da dor. A autora ainda cita que os estudos já realizados
mostram que é necessária uma investigação aprofundada
referente aos fatores psicossociais que são freqüentes nos
pacientes oncológicos encontrados clinicamente fora de
possibilidades terapêuticas. Com o intuito de humanização no
hospital, adaptando toda a equipe de saúde para oferecer apoio
e suporte ao paciente e sua família, promovendo também os
seus direitos, que ainda exerça seus desejos, caracterizando
uma morte digna.
Os pacientes oncológicos referem-se ao câncer
como uma possibilidade de encarar a finitude, dando origem a
sentimentos de angustia e medos que vão aparecendo no
decorrer do tratamento. O medo é o sentimento mais comum e
prevalente, que engloba todos os seres humanos a essa
resposta psicológica diante da possibilidade de morte. 134
O medo é um sentimento ligado a uma causa
específica. Já a ansiedade é relacionada a um sentimento
difuso sem uma causa especifica. O medo e a ansiedade se
confundem no momento que se referem à morte. A ansiedade
pode ser vista como um estado no qual a pessoa precede uma
preocupação especifica como a morte. Existem estudos que
relatam que pessoas com alto nível de ansiedade têm mais
medo da morte, pode-se então fazer a relação que o medo da
morte evoca ansiedade. O medo da morte sempre se faz
presente, trazendo inevitavelmente o sofrimento. Ao pensar na
morte, o indivíduo pensa no que foi e está sendo feita de sua
vida, com isso percebeu-se a necessidade do paciente ser
ouvido e acolhido, para assim dar assistência no momento de
134
BORGES et al, 2006
- 233 -

enfrentamento do medo da morte causada pela doença e


terminalidade. 135
Parkes menciona alguns medos observados que
podem ser decorrentes de inseguranças e incertezas, na medida
em que ocorre o processo de morte: medo da dependência, a
possibilidade da perda de autonomia até mesmo para fazer
atividades íntimas; medo do que vai acontecer com a família
na pós-morte; medo de não conseguir conquistas e metas
traçadas; medo de dor, mutilação e dos limites que são
impostos pela doença; medo da morte, relacionada com o
medo de abandono, separação, esquecimento. Segundo
Kovács, cada indivíduo tem mais medo de um aspecto da
morte, consequentemente considera-se a morte sob duas
concepções: a morte do outro, que está relacionado ao medo
do abandono, a noção de ausência e separação; e a própria
morte, relacionada à própria finitude, dando margem à fantasia
de como e quando será o seu fim. Pensando sobre o medo da
própria morte, Kovács reflete sobre os seguintes aspectos:
medo de morrer, que está ligado ao medo do sofrimento e
indignidade pessoal; medo do que vem após a morte, surge o
medo do julgamento, do castigo divino e da rejeição; medo da
extinção existe a ameaça do desconhecido, medo do não ser e
o medo da própria extinção. O medo de morrer está
relacionado com um fato que pode ser comum, em alguns
momentos do processo de adoecimento, no qual os familiares
acabam se afastando, deixando assim, o paciente em uma
situação de desamparo e solidão. A hospitalização e a
despersonalização, decorrente desta, fazem com que o sujeito
perca sua autonomia e poder, gerando assim um processo
angustiante.

135
Opus cit
- 234 -

Ainda segundo Kovács a morte pode ser vista


como o fim, como a perda da consciência, um desmaio. O
medo da morte pode se relacionar ao medo de solidão, o fim
do convívio com quem se ama e medo da possibilidade de um
julgamento divino pelos atos terrenos, medo do que pode
acontecer com quem ficou e medo de não dar continuidade aos
planos. Enfim, são vários os medos, sendo então necessário o
conhecimento desses medos e anseios por parte de quem está
passando pelo processo de morte.
Para Callanan e Kelley, o paciente pode querer
entrar em comunicação, na tentativa de contar o que ele está
vivenciando, ou pedidos referentes a desejos que o paciente
apresenta para uma morte tranquila, podendo caracterizar o
processo de luto antecipatório. Essas comunicações nem
sempre são feitas de forma clara e objetiva, o paciente pode se
apresentar debilitado fisicamente, com isso o cuidador deve
tentar encontrar uma maneira de entendê-lo. O não
entendimento pode acabar gerando um sentimento de solidão
no paciente, podendo gerar uma dificuldade na elaboração do
luto, ou seja, causando sofrimento ao paciente. A partir do
momento que há um entendimento há também um grande
alívio para o paciente.
Callanan e Kelley referem-se a algumas atitudes
que podem ser tomadas na tentativa de auxiliar o paciente a
reconhecer, entender e reagir à noção da morte próxima:
prestar atenção em tudo, solicitações de informações
importantes, aceitar e valorizar o que o paciente tenta
comunicar, procurar saber da história de vida do paciente para
que a comunicação fique mais viável e ter a noção de que às
vezes não é necessário dizer nada.
Segundo Blaso a medicina deve colocar o paciente
como o centro do seu próprio processo de morte, abrindo mão
- 235 -

do conceito de despersonalização da medicina que é referente


a uma atitude tecnicista que dá origem a dois fatores. O
primeiro é um processo tecnológico que para levar ao paciente
técnicas avançadas é necessário que o estudo seja dividido por
especialidades. O segundo é decorrente do medico estar
vinculado a um atendimento institucional, com uma equipe, no
qual o médico deixa de estar em contato constante com o
paciente, ou seja, deixa-se a prática da medicina de família na
qual o médico tem um contato direto e muitas vezes sendo
considerado parte desta família.
Finalizando, como nos lembra Hesslinger (2008),
humanizar a morte na tentativa de resgatar o conceito de algo
natural na vida, é levar em conta que o paciente está inserido
em um sistema familiar, e é dar atenção às suas necessidades
biológicas, sem jamais se esquecer de que por trás daquela
doença existe um sujeito.

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- 238 -

IX - Transtormos psicossomáticos no
diabetes: O papel do psicólogo

Karina Conrado de Souza Pinto

A presença ou não de transtornos psicossomáticos no diabetes,


depende muito dos recursos internos e da personalidade de cada
indivíduo, de como soube sobre a doença, sua opinião sobre a
patologia, como se vê a portando, e o modo como amigos e
familiares reagem frente a essa nova realidade. Como o diabetes
pode causar mudança no comportamento, a autoestima ou o
equilíbrio das emoções podem ser afetados pela presença da
doença, que causa surpresa ao portador.

Transtornos psicossomáticos ou psicofisiológicos


podem ser reflexos de uma ruptura na homeostasia corporal,
resultando em disfunções de órgãos ou do sistema orgânico
por responder em excesso à sobrecarga emocional. A
ansiedade normal quando se manifesta com frequência ou
intensidade excessiva, pode transformar-se em ansiedade
patológica, e a presença de um forte estado ansioso não só
pode constituir a base dos transtornos da ansiedade e do
humor como também pode estar associada a uma ampla série
de transtornos orgânicos, entre eles o diabetes.136
Estudos mais recentes apontam para a presença de
10 a 12 milhões de pessoas com diabetes no Brasil, dos quais
50% desconhecem que tem a doença. Dados atuais prevêem
que no ano de 2030 os diabéticos serão 435 milhões. Tendo
em vista as repercussões psicológicas que esta doença crônica
traz, aqui apresentamos reflexões sobre aspectos emocionais
vivenciados pelos indivíduos diabéticos e sobre a atuação do

136
Ballone, 2007
- 239 -

psicólogo junto a esses pacientes, enquanto membro da equipe


de saúde.137
Com o avanço da ciência e das pesquisas observa-
se, cada vez mais, o quanto as tensões do cotidiano
contribuem para o surgimento e desenvolvimento de doenças
físicas, agudas e crônicas e, em contrapartida, o quanto os
distúrbios emocionais podem desencadear uma doença física
ou alguma alteração no organismo.
Para Burd (2010), o diabetes melito refere-se não
apenas a uma doença, mas a um grupo de distúrbios
metabólicos comuns que compartilham o fenótipo da
hiperglicemia. Existem vários tipos distintos de diabetes
melito causados por uma interação complexa de fatores
genéticos e ambientais, e é uma das principais síndromes de
evolução crônica que acometem o homem moderno em
qualquer idade, condição social e localização geográfica.
Durante sua evolução podem aparecer complicações agudas e
crônicas quando o controle metabólico não é satisfatório.
O diabetes melito é classificado como tendo sua
base no processo patogênico que resulta em hiperglicemia em
oposição aos critérios precedentes, como a idade por ocasião
do início ou o tipo de terapia. As duas principais categorias do
diabetes – designadas como tipo 1 e tipo 2 -, são precedidas
por uma fase de homeostasia anormal da glicose à medida que
o processo patogênico progride. O diabetes tipo 1 representa o
resultado de uma insuficiência completa ou quase total de
insulina, e o diabetes tipo 2 é um grupo heterogêneo de
distúrbios caracterizados por graus variáveis de resistência à
insulina, menor secreção de insulina e maior produção de
glicose. Apesar de manifestar-se mais comumente antes dos
30 anos, no diabetes melito tipo 1 um processo autoimune
137
Sociedade Brasileira de Diabetes (2001)
- 240 -

destrutivo das células beta pode instalar-se em qualquer idade.


Estima-se que entre 5 a 10% dos indivíduos que desenvolvem
diabetes melito após os 30 anos de idade terão o tipo 1. Já o
tipo 2 se instala tipicamente em uma idade mais avançada,
mas está sendo hoje diagnosticado com maior frequência em
crianças e adultos jovens, particularmente em adolescentes
obesos.
Para que a pessoa com diabetes possa ter uma vida
normal e reduzir ao máximo o risco de desenvolver uma
complicação, a Sociedade Brasileira de Diabetes argumenta
que é necessário ter a doença sob controle, o que significa
manter as glicemias dentro dos níveis fisiológicos, mas para
manter o diabetes – seja do tipo I, II ou gestacional -
controlado é preciso fazer dieta, atividade física e o uso
terapêutico adequado da insulina, quando for indicada para o
tratamento.
Novas estratégias de tratamento e avanços
expressivos na escolha de critérios para o diagnóstico têm
contemplado médicos e pacientes com um horizonte
promissor. Os dados estatísticos apontam a doença como um
problema de saúde pública e revelam o crescimento no
número de casos no Brasil e no mundo. O saber renovado e
cumulativo sobre o tema tem gerado inestimável ajuda aos que
se dedicam ao tratamento do paciente diabético.
Segundo Bertram, o diabetes é resultante,
principalmente, de um fator hereditário. No entanto, se a
intensidade do diabetes é predominantemente condicionada
por fatores hereditários, o decurso da doença é influenciado
pelas condições ambientais e nem todo portador está
fatalmente destinado a tornar-se diabético mais cedo ou mais
tarde. Sendo assim, podemos dizer que nem todas as pessoas
serão prejudicadas por sua genética, pois podem ter uma pré-
- 241 -

disposição a tal doença, porém dependerá de outros fatores


para que tal patologia venha a se desenvolver. A maneira
como a pessoa lida com essa realidade, sua maturidade, suas
experiências e o estresse que enfrenta em seu dia a dia, entre
outros, são alguns dos fatores que podem desencadear e fazer
evoluir a doença no indivíduo portador.
O mundo moderno está, cada vez mais, sugando as
capacidades dos seres humanos; estamos, continuamente
trabalhando mais, pensando na recompensa e deixando a saúde
de lado, sempre com a ilusão de que o que acontece com o
outro jamais acontecerá conosco. Para se obter uma boa
qualidade de vida é imprescindível a realização de hábitos
saudáveis e assistência médica.
Desde a antiguidade compreende-se que os
processos emocionais e sociais não devem ser excluídos na
compreensão e no diagnóstico, desde a instalação, ao
desenvolvimento e à terapêutica das doenças. A prevenção
efetiva significa mais atenção à saúde, um ótimo sistema de
qualidade, mais rápido e com maior eficácia. Isto ocorre, ou
deveria ocorrer, com o objetivo de prevenir a redução ou o
retardamento da chegada da doença - esta seria a prevenção
primária. Já a prevenção secundária seria tratar as
complicações agudas ou crônicas da doença, no caso, o
diabetes. De acordo com estas prevenções fica claro que a
primária é a mais esperada se for bem efetivada. É importante
ressaltar, que estes hábitos saudáveis devem estar relacionados
com os aspectos emocionais do indivíduo, também porque
ambos andam juntos - corpo e mente -, e precisam da boa
saúde para um bom funcionamento. E nada melhor do que
reorganizar a vida mantendo hábitos saudáveis.
A Sociedade Brasileira de Diabetes ao longo do
tempo tem orientado os profissionais do Brasil e do mundo,
- 242 -

difundindo informações a respeito de descobertas úteis ao


controle dos níveis glicêmicos. A longevidade e a
prosperidade são conquistas certas para aqueles que seguem o
tratamento correto do diabetes.
Do ponto de vista psicológico, não basta apenas o
indivíduo ter consciência de sua doença e de suas
consequências, porque a doença física atinge rapidamente o
âmbito emocional, constituído por fatores internos profundos
que podem impedir um melhor controle da doença se esta não
for internamente aceita. O indivíduo deve trazer para si
mesmo a responsabilidade sobre seus sentimentos e não
deixar, como de costume, unicamente para o mundo, o
destino, os outros, o controle dos seus sentimentos e emoções.
Assim estará aliviando seu sofrimento ao lidar com o mundo e
também consigo mesmo.
É o indivíduo quem dá significado à realidade e
neste processo de significação altera a qualidade e a
quantidade dos dados objetivos dessa realidade. O indivíduo
atribui à realidade significados pessoais e individuais de
acordo com suas experiências, herança biológica, experiências
de vida internalizadas e seu estado mental atual. Vivemos de
acordo com o modo com que nos relacionamos com a
realidade e com o mundo e nossa situação existencial física ou
psíquica, aqui e agora, dependem da nossa relação com o
mundo e da qualidade com que reagimos à realidade.
Para a psicologia, o valor dado aos objetos pelo
indivíduo é único e exclusivo dele, é subjetivo, podendo ter
caráter inconsciente, consciente e biopsicológico, já que sua
valorização provém de pulsões, vocações, traços de
personalidade, complexos, conflitos, características afetivas
dos próprios indivíduos. Por exemplo, algumas pessoas podem
se sentir irritadas ao sentir cheiro de cigarro, enquanto para
- 243 -

outras o cheiro nem é perceptível; acontece que para umas o


cigarro adquire um valor maior e, para outras, o valor talvez
esteja focalizado em outra coisa, como o álcool. Então, essa
significância atribuída ao cigarro, o que o torna mais irritante
ou não, é subjetiva e própria de cada indivíduo, e quem
valoriza mais, tende a sofrer muito mais. É o que acontece, na
maioria das vezes, com relação às doenças. Devido a fatores
como a cultura e as crenças, convivemos com a idéia de que
adoecer é ruim para a pessoa, sem conhecer sobre o avanço do
seu tratamento. Para que ocorram mudanças e estes valores se
alterem é preciso revalorizá-los. Quando o indivíduo se vê
doente, seu controle emocional pode ser eficiente se ele
conseguir, antes, (re) valorizar o objeto de sua doença,
(re)valorizar sua autoestima e, por consequência, experimentar
a sensação de cura.
Pascal dizia que a realidade é continuamente
transformada pelo conhecimento do objeto; e a realidade é
transformada também pela (re)valorização do objetivo. Então,
pode-se dizer que se o indivíduo aprofundar seus
conhecimentos sobre sua doença sua realidade será outra, terá
uma nova visão sobre sua doença, e se o valor depositado
nessa doença for mudando, saberá enfrentá-la como se deve e
os resultados positivos serão gratificantes.
As relações do sujeito com o objeto, da pessoa
com o mundo e com ela mesma, é a maneira mais clara de
refletir sobre os efeitos emocionais da vida sobre a pessoa. O
adoecimento de algumas pessoas ocorre devido a maneira
desarmoniosa que ela tem ao se relacionar com o mundo,
enquanto outras pessoas com as mesmas experiências e
inseridas no mesmo mundo, se adaptam mais facilmente à
doença e sofrem menos.
- 244 -

A adesão ao programa de tratamento do diabetes


com medicamentos, dietas, exercícios físicos e equilíbrio
emocional está diretamente ligada ao modo como o indivíduo
atribui valores a esse objeto, ou seja, como lida com esta
doença e os seus significados. Reavaliar o objeto,
denominado aqui como tudo aquilo que a vida oferecerá ao
seu organismo, é uma necessidade indispensável para viver
melhor. Só nos magoamos com aquilo que tem algum valor
para nós, e só sofremos com algo que atribuímos muito valor,
da mesma maneira que para com aquilo que tememos e
evitamos. Então, (re)valorizar o objeto (a realidade) irá
melhorar a adaptação do sujeito ao mundo em que vive. Se
compreender suas reflexões, será possível corrigir a sua
maneira de se relacionar com o mundo.
Podemos destacar como objeto tudo aquilo que
não é sujeito, ou melhor, tudo à nossa volta é objeto e nós
somos o sujeito; portanto, os objetos em si não possuem valor
e só passam a tê-lo a partir do sujeito que os valoriza - esta é
uma função exclusiva do sujeito. E este valor atribuído é
diferente para cada sujeito. Então, com relação ao adoecer, é o
sujeito quem designa os valores que a doença lhe traz e suas
consequências, se gosta, se odeia, se vai ser bom ou ruim, e
estes valores vão ser atribuídos de acordo com suas crenças,
religião, família, interesses, bagagem cultural. A maneira
como a pessoa recebe o diagnóstico também é muito
importante, pois sempre teve uma vida sem regras, normal,
sem restrições e, em geral, tem do diabetes uma visão
totalmente errônea e leiga. Segundo Pinkus (1988), o modo
como o indivíduo enfrenta o diagnóstico da doença depende
de três fatores:
- 245 -

- o modo como soube da doença: se percebeu sozinho, se


outro lhe mostrou, se adiou ter conhecimento do diagnóstico
ou se preferiu saber logo.
- as experiências pessoais anteriores que teve em relação à
doença, por exemplo, com amigos ou pessoas da família que
tiveram ou têm a doença.
- o modo como a família e os amigos reagiram frente ao
diagnóstico.
Conforme Burd, o diabetes melito é causado por
fatores genéticos e ambientais, ou seja, o indivíduo ao nascer
já traz consigo a possibilidade de ficar diabético e traumas
emocionais podem fazer com que a doença chegue mais cedo.
Então, a relação entre os estados emocionais e o diabetes não é
de causa e efeito, não existe diabetes emocional; o que
acontece é o indivíduo predisposto com herança genética e que
vive em ambientes estressantes, por exemplo, se descobrir
diabético; assim, o estresse não é o fator causador da doença,
mas o portador da predisposição para o diabetes pode fazê-lo
evoluir mais rápido, vivendo sob o estresse mais intenso.
Muitos diabéticos se descobrem com diabetes depois de
variações emocionais devido ao aumento da taxa glicêmica e,
então, fazem essa relação de causa-efeito. Por outro lado,
indivíduos já diabéticos, durante episódios emocionais, podem
ter o controle do diabetes alterado, porque o organismo do
indivíduo sob estresse libera hormônios que aumentam a
glicose e daí faz com que, muitas vezes, ele reaja a essa
alteração comendo ou bebendo mais ou se exercitando menos.
Os aspectos psicológicos afetam nosso corpo
diretamente, através de diversos fatores, como nossas reações
ao meio, nossas formas subjetivas de vivenciar as emoções e
nossas predisposições. Para Silva, a doença psicossomática
surge em decorrência do modo como o indivíduo vivencia as
- 246 -

emoções. As emoções (medo, ira, amor) são situações novas


frente às quais o organismo se desequilibra e se prepara para
descarregá-las através dos músculos voluntários do corpo.
Porém, muitas vezes, as emoções não são descarregadas,
expressas, talvez pela imposição da sociedade para reprimi-
las. Quando as emoções não são expressas através de nossos
músculos para ação voluntária, ela descarrega-se em nossos
músculos para ação involuntária, como do estômago, intestino,
coração e vasos sangüíneos, podendo desencadear a doença
psicossomática. Não se quer dizer que todas as doenças são
causadas unicamente por aspectos emocionais; mas muitas
doenças decorrem de vários fatores (pluricausalidade), causas
internas e externas e inclui o emocional nesta pluricausalidade.
Tanto Debray como Anjos afirmam que o diabetes mellitus é
uma doença multifatorial, ou seja, pode ser decorrente de
vários fatores. De acordo com Halliday, o fator etiológico
proeminente em muitas doenças é o fator psicológico.
Alexander argumenta que: “Cada doença é psicossomática,
uma vez que fatores emocionais influenciam todos os
processos do corpo, através das vias nervosas humorais e que
fenômenos somáticos e psicológicos ocorrem no mesmo
organismo e são apenas dois aspectos do processo.”
Sobre a classificação de doenças como
psicossomáticas, Mello Filho (2002, p.19) afirma que
compartilhamos da concepção de que toda doença humana é
psicossomática, já que incide num ser sempre provido de soma
e psique, inseparáveis, anatômica e funcionalmente. E, neste
mesmo sentido, a divisão de doenças em orgânicas e mentais é
acima de tudo um problema de classificação de formas
clínicas, já que todas as doenças orgânicas sofrem,
inevitavelmente, influência da mente de quem as apresenta e
as doenças mentais são traduzidas, em sua intimidade última,
- 247 -

por processos bioquímicos que, de resto, acompanham todos


os momentos do viver. Em última instância, os processos
biológicos, mentais ou físicos, são simultâneos,
exteriorizando-se predominantemente numa área ou noutra,
conforme sua natureza ou o ângulo sob o qual estão sendo
observados.
Para Silva, a doença psicossomática é qualquer
alteração somática (física) decorrente de sofrimentos
psíquicos, diferentemente da somatopsíquica que é qualquer
alteração psíquica decorrente do sofrimento físico; por
exemplo, os efeitos psíquicos sofridos pelo indivíduo que
possui uma enfermidade crônica ou uma debilidade física.
Sendo assim, o diabetes melito pode ser considerado tanto
uma doença psicossomática quanto somatopsíquica. Portanto,
é preciso ter o corpo saudável para que a mente esteja
impecável também ou vice-versa, como no ditado, “mente sã
em corpo são”. Ambos caminham juntos e se um deles é
comprometido, atingirá aquele que está saudável. Como
exemplo, destaca-se a fala de uma participante de um grupo
terapêutico de diabéticos, citado por Graça e col. (2000): “[...]
se não controlar a emoção, não controla a doença.”
Segundo definição de Mello Filho (2002) “A
doença psicossomática é qualquer doença do corpo, isto é,
física, que se inicia ou se potencializa pela ação de fatores
psicossociais no seu desencadeamento, evolução e
agravamento. O diabetes mellitus é uma doença
psicossomática porque ela se inicia frequentemente numa fase
de estresse emocional e sofre a influência de fatores ou de
distúrbios somáticos na sua evolução. Como doença orgânica,
influencia o psiquismo daqueles que a apresentam”.
Além de o diabetes poder ser considerado uma
doença psicossomática, durante o seu tratamento e sua
- 248 -

prevenção outros transtornos psicossomáticos podem surgir


devido ao fato de o indivíduo não se relacionar bem com a
doença, não aderir adequadamente ao programa de tratamento
e por não ter equilíbrio emocional e sofrer tensões emocionais.
Pode gerar sentimentos negativos o fato de o indivíduo estar
doente e ter que se tornar escravo da medicação, mudar seu
estilo de vida, sua alimentação, passar a ter uma vida regrada,
saber que a doença pode gerar outras e, por conseqüência,
agravar o diabetes e aumentar o uso de medicações, além de
ter sua vida ameaçada por uma doença que, se descuidada,
leva a morte. Ao se deparar com algo tão diferente e invasivo,
o indivíduo demonstra sentimentos de menos valia,
inferioridade, medo, raiva, ansiedade, revolta, negação da
doença e até depressão. Além disso, problemas econômicos
também podem gerar estes sentimentos, pois alguns
indivíduos acometidos se tornam incapazes de continuar
trabalhando, ou por complicações crônicas ou porque ficam
com alguma limitação no seu desempenho laboral e de
produtividade, e têm aumentada a demanda por medicamentos
e produtos próprios para o consumo do diabético.138
Para Joode, o paciente diabético apresenta
sentimento de inferioridade e inadequação em decorrência dos
distúrbios no desenvolvimento físico, como baixa estatura e
desenvolvimento sexual retardado. E afirma que os diabéticos
podem apresentar ansiedade a respeito da saúde, medo da
morte e idéias de suicídio. Também Silva (1994) acredita que
o adoecer produz um forte agravo na auto-estima do
indivíduo.

138
Burd, 2010
- 249 -

Menninger e Daniels constataram a presença da


depressão e da ansiedade na maioria dos diabéticos. Grünspun
afirma que há um agravamento dos distúrbios das glândulas
endócrinas quando o indivíduo sofre alterações emocionais,
principalmente depressão. Ele acredita tanto no caráter
emocional do diabetes que chega a afirmar a existência de
casos de diabetes que foram controlados sem medicamento,
apenas com tratamento para depressão. Para Silva, os
pacientes diabéticos têm sentimentos de inferioridade devido
aos cuidados constantes exigidos para controlar a doença.
Ajuriaguerra também concorda que o controle do diabetes é
muito intenso e chega a classificar o indivíduo diabético como
escravo de seu tratamento. Debray concorda com Ajuriaguerra
quando define o diabetes como uma doença irreversível que
exige um tratamento médico severo e contínuo.
Assim, a presença ou não de transtornos
psicossomáticos no diabetes depende muito dos recursos
internos e da personalidade de cada indivíduo, de como soube
sobre sua doença, sua opinião sobre a patologia, como se vê a
portando, e como amigos e familiares reagem frente a essa
nova realidade. Como o diabetes pode causar mudança no
comportamento, a autoestima ou o equilíbrio das emoções
podem ser afetados pela presença da doença, que causa
surpresa ao portador.
Nenhum indivíduo quer adoecer, não quer mudar
sua vida de uma hora para outra, seu modo de viver, está
sempre lutando para que nenhum mau lhe aconteça ou
acometa sua saúde. Os recursos disponíveis para buscar um
apoio no momento em que enfrenta problemas de risco à
saúde são importantes, porque o desempenho da pessoa está
relacionado a eles. E há fatores que modificam a percepção do
indivíduo em relação à situação e ao risco vivenciado, como o
- 250 -

seu nível de informação, percepção do risco, envolvimento


emocional, habilidades cognitivas, maturação e dimensões do
desenvolvimento.
Como ressaltam Jeammet, Reynaud e Consoli,
considerar o órgão doente é necessário, mas não suficiente.
Devem-se levar em conta os parâmetros ligados à
personalidade do doente inserido no ambiente. Assim, o
diabetes melito é uma doença crônica que interfere sobre todos
os aspectos da vida e, portanto, requer acompanhamento por
uma equipe de saúde multidisciplinar para que, assim, o
portador tenha além do tratamento para o controle da doença,
uma melhor qualidade de vida.
Por estes e outros aspectos, se faz necessário cada
vez mais para prevenção e tratamento do diabetes, incluir o
profissional de psicologia na equipe de saúde, pois é de suma
importância o seu trabalho para uma boa qualidade de vida do
paciente, assim que diagnosticado, visto que problemas de
ajustamento podem aparecer logo após o seu diagnóstico e
estes precisam ser resolvidos; caso contrário, problemas
metabólicos (mesmo fracos), falta de aderência ao regime e
dificuldades psicossociais podem surgir.
O tratamento e o controle do diabetes melito
são os principais objetivos a serem alcançados e se apresentam
como uma forma de cura. A doença é crônica, mas tem
tratamento e controle; então, cabe aos profissionais de saúde
pertencentes à equipe multidisciplinar ajudar o paciente e sua
família através de uma boa relação e aceitação de sua doença.
Quando a equipe multidisciplinar pode se fazer presente, os
resultados do tratamento são altamente eficazes, porém, de
acordo com a realidade de hoje, sabemos que isto não é
possível para muitos, o que dificulta e, muitas vezes, complica
o tratamento. Porém, a perseverança, a mudança de hábitos e a
- 251 -

aceitação do indivíduo como doente, somam pontos positivos


no controle do diabetes.
A psicologia pode contribuir bastante com a equipe de
saúde em se tratando de pessoas portadoras de diabetes, pois
no decorrer do tratamento, deve ser reconhecido o papel das
emoções e Davies considera que o psicólogo é um agente de
importantes informações que levarão o paciente a lidar melhor
com sua doença. Com isso, ele poderá evitar ou diminuir
sofrimentos e os elevados custos para a monitoração das
complicações decorrentes do mau controle glicêmico.
Os portadores da diabetes enfrentam as mesmas
mudanças e dificuldades da doença, porém o diabetes e os
diabéticos são totalmente diferentes entre si. Cada um enfrenta
essa nova realidade de acordo com seus recursos internos, seja
se tornando escravo da doença ou aceitando conviver com a
ela, estando disposto a seguir com seu tratamento e mudando
hábitos de vida. Até que se chegue a esta última opção, o
caminho é bem árduo e longo. Quando o indivíduo diabético
não consegue alcançar este estágio psíquico sozinho, faz-se
necessário que tenha um acompanhamento psicológico para
que possa elaborar os aspectos emocionais da doença e
diminuir o seu sofrimento psíquico.
Segundo Ferraz, o atendimento multiprofissional
em diabetes melito requer a abordagem psicológica, uma vez
que a integridade biopsicossocial do paciente é condição
decisiva para favorecer os cuidados com a doença, de modo a
assegurar uma melhor qualidade de vida e bem-estar
psicológico. Também Peduzzi considera que o trabalho em
equipe multiprofissional consiste em uma modalidade de
trabalho coletivo que se configura na relação recíproca entre
as múltiplas intervenções técnicas e a interação dos agentes de
diferentes áreas profissionais. Por meio da comunicação, ou
- 252 -

seja, da mediação simbólica da linguagem, dá-se a articulação


das ações multiprofissionais e a cooperação.
O enfoque multiprofissional na assistência à saúde,
de acordo com Scaranci, tem sido objeto de estudo, na
atualidade, particularmente para o paciente com diabetes. A
integridade biopsicossocial desse paciente é condição decisiva
para favorecer os cuidados com a doença, resultando, assim,
em melhor qualidade de vida para ele. Este apoio psicológico
deve ser dado não apenas ao portador da doença, como
também para sua família para que juntos consigam enfrentar
essa nova realidade de vida.
Levando em conta as diferenças individuais dos
portadores de diabetes melito, é necessário que o psicólogo
fique atento a algumas questões como: a reação do indivíduo
frente a sua doença, o que representa a doença para ele, com
que sentimentos se depara em relação à doença e com que
grau de otimismo lida com a convalescença. Por outro lado,
deve observar com cuidado a adesão ao tratamento, pois é
mais provável o paciente aderir ao tratamento se souber, ainda
que minimamente, o que está sendo feito e se tiver alguma
noção básica sobre os objetivos do médico e do tratamento em
relação às suas perspectivas. E também deve estar atento ao
diagnóstico diferencial das somatizações. Para tanto, médico e
psicólogo devem trabalhar juntos, pois o sucesso do
tratamento depende desse trabalho em conjunto.
Por meio da atenção às emoções e aos afetos do
paciente será possível diferenciar o diagnóstico entre um
quadro orgânico por excelência, um quadro orgânico agravado
pelas emoções e um quadro eminentemente psíquico com
sintomatologia orgânica, embora os sintomas de todos possam
ser os mesmos. Estes aspectos devem ser considerados em
qualquer especialidade médica devido ao fato de que as
- 253 -

reações emocionais e psíquicas do indivíduo é uma realidade


do dia-a-dia de cada profissional da saúde, sendo o médico
sensível e conhecedor do problema ou não.
Na visão de Dejours, se um sintoma é tratado
apenas no plano somático, isto é, somente medicalizado, ele
pode cessar temporariamente, sem se desenvolver em direção
ao possível sentido a que daria início se para tal fosse potente.
Mas, quando esse sintoma é escutado, ou seja, quando há um
acompanhamento psicológico, temos bons resultados com
relação ao tratamento da doença. Cabe ressaltar que o objetivo
da intervenção psicológica é oferecer um espaço de escuta
para auxiliar o paciente a lidar com as questões emocionais
suscitadas pelo diabetes, e a intervenção psicológica consiste,
em uma etapa preliminar, na realização de entrevistas com
focos na investigação sobre a vulnerabilidade psicossocial, a
percepção de causas associadas à doença, as crenças em saúde,
a adesão a práticas populares de cura e as estratégias de
enfrentamento adotadas pelo paciente. Também devem ser
investigadas as fontes de suporte psicossocial, ou seja, o apoio
familiar e comunitário e o acesso a serviço de saúde,
verificando também de que maneira e com que efetividade o
paciente utiliza sua rede social.
Ferraz indica intervenções adicionais ou
alternativas, como a aplicação de instrumentos padronizados,
com o objetivo de mensurar algumas variáveis psicológicas
que indiquem psicomorbidade como ansiedade, depressão,
estresse e qualidade de vida relacionada à saúde, visto que o
diabético pode vir a desenvolver estas psicomorbidades devido
ao fato de se descobrir diabético e, ao longo do seu tratamento,
devido a sua mudança de vida e hábitos e diante da
perspectiva de poder vir a desenvolver uma série de outras
doenças decorrentes do próprio diabetes. A intervenção pode,
- 254 -

ainda, incluir a elaboração de um questionário com o objetivo


de conhecer as expectativas da pessoa. De acordo com o autor,
estes instrumentos devem ser aplicados em dois momentos: no
início e ao término do tratamento. Ainda podem ser aplicados
questionários com a finalidade de levantar o conhecimento e a
satisfação do paciente.
Embora seja uma das coisas mais simples, a
conversa e a escuta são de grande valia para o paciente.
Mesmo que alguns médicos considerem a questão emocional
como secundária, a possibilidade de uma sintomatologia
psíquica deve receber a mesma atenção que qualquer hipótese
de diagnóstico e exames laboratoriais. No caso do diabetes,
muitas vezes a taxa glicêmica pode se elevar em consequência
de um episódio de estresse ou de ansiedade na realização de
vários exames ou, até mesmo, do silêncio do médico ao
examiná-lo. Assim, é de primordial importância a
sensibilidade dos profissionais de saúde com relação aos
aspectos emocionais dos pacientes, pois a indiferença, a
explicação insuficiente e a falta de atenção, acabam
despertando angústia, além de levantar dúvidas, insegurança e
insatisfação, tanto do paciente como da sua família, podendo
prolongar o seu sofrimento.
Além disso, a adesão ao tratamento pelo diabético
também depende, entre outros aspectos, da relação que
consegue estabelecer com os profissionais que estão
envolvidos em seu tratamento. É, então, neste momento que o
papel do psicólogo se faz importante tanto para o paciente
quanto para sua família.
É importante ressaltar que o acompanhamento
psicológico de indivíduos portadores de diabetes poderá
proporcionar uma elaboração dos aspectos emocionais da
doença e contribuir para a diminuição do seu sofrimento, tanto
- 255 -

físico quanto psíquico, visto que se estabelece uma relação


expressa entre a esfera emocional e o diabetes. Portanto, o
psicólogo deve observar, ouvir as palavras e os silêncios,
ajudá-lo a superar os seus conflitos diante dessa nova condição
de sua vida - a de ser portador de diabetes.
É preciso que o próprio diabético e seus familiares
ou quem viva ao seu redor tenham a consciência de que ele é
doente por ter diabetes, mas se estiver seguindo o tratamento
corretamente poderá levar uma vida normal - ser diabético não
o desclassifica como ser humano. Com os avanços da
medicina e da ciência, hoje, o diabetes não impede ninguém
de ter uma vida saudável e tranquila, bastando apenas se
adequar ao programa de tratamento e ao seu novo estilo de
vida. Inclusive muitos indivíduos passam a ter bons hábitos
devido ao diabetes, praticando exercícios, se alimentando
adequadamente e dormindo bem, ou seja, passam a adotar um
estilo de vida que inclui hábitos importantes para se ter uma
vida saudável, contribuindo para o retardamento do
aparecimento de várias doenças.
O acompanhamento psicológico pode se realizar
individualmente ou em grupo, ambos possuem o mesmo
objetivo de elaborar e aceitar a doença para que o indivíduo
possa desenvolver estratégias que o levem a uma boa
qualidade de vida. Graça esclarece que uma das maneiras de
ajudar as pessoas diabéticas é através do trabalho terapêutico
em grupo, ou seja, integrar o diabético num grupo de iguais. O
objetivo da formação de grupos é a melhora e não a cura,
mesmo porque é preciso pesar a realidade de que o diabetes
melito é uma doença crônica e incurável, por enquanto. Falar
sobre a doença possibilita trabalhar as fantasias que são
elaboradas em torno dela, além de poder proporcionar a
oportunidade de trocar e compartilhar sentimentos e dúvidas
- 256 -

entre iguais e, assim, ajudar o diabético a conviver melhor


com ela. Assim, a preocupação básica do serviço de psicologia
é buscar o aprioramento da qualidade de vida dos pacientes,
sendo da competência do psicólogo possibilitar ao paciente
interagir com objetos internos e externos, atuando como um
facilitador das dificuldades e das necessidades psicológicas e
emocionais do paciente.
No trabalho psicológico em grupo, os indivíduos
diabéticos contribuem uns com os outros, não se sentem mais
sozinhos ou únicos portadores da doença e têm oportunidade
de construir defesas mais concretas e eficientes com relação a
situação de doença.
Já o trabalho terapêutico individual, pode ser feito
tanto com o diabético quanto juntamente com o seu parceiro
ou familiar; assim, eles também elaboram juntos a perda do
indivíduo perfeito idealizado, o luto pela perda da saúde e
aceitam a doença. Além disso, o apoio psicológico é
importante também para os familiares, porque a patologia
poderá requerer deles muitos cuidados e a prestação de
assistência ao portador de diabetes, que deve ir além da ajuda
para controlar os sintomas e da adaptação das mudanças
sociais e psicológicas. Ou seja, o apoio psicológico também se
faz importante para preparar o diabético e sua família para o
convívio com uma doença crônica e, além disso, cientificá-los
de que o descumprimento do tratamento pode gerar sérias
consequências e complicações.
O diabético necessita de compreensão e de que seu
familiar ou cuidador leve em conta a complexidade, a
multiplicidade e a diversidade de sua doença. Por outro lado, é
preciso ter e dar liberdade ao indivíduo diabético para que
possa fazer opções de autocontrole, que são importantes para
efetivar as necessárias mudanças em seu comportamento; estas
- 257 -

não podem ser impostas e só acontecerão com o passar do


tempo e a partir da compreensão da sua necessidade. Sendo
assim, o direito e a responsabilidade de seu tratamento são
atribuídos exclusivamente ao diabético, valorizando-se o seu
papel na tomada de decisões e encorajando-o a assumir a
responsabilidade de seu próprio controle; somente assim as
mudanças poderão ser efetivadas.
Também importante é a compreensão de que a
orientação para a necessária mudança pessoal no estilo de vida
do diabético é papel de todos os profissionais envolvidos em
seu tratamento. Mais precisamente o psicólogo, terá a missão
de apontar o quanto essa mudança será importante para manter
o seu controle e o seu tratamento, devendo esclarecer também
para a família do indivíduo esta e outras questões. A família
deve considerar e aceitar pequenos progressos, dando
incentivo aos comportamentos de autocuidado feitos com
sucesso, não apenas focando no que foi feito incorretamente
ou deixado de lado, estimulando e ajudando nas adaptações
desejadas do diabético com o seu novo estilo de vida. Os
profissionais de saúde devem também orientar o diabético e
seus familiares quanto às medidas mais urgentes que deverão
ser colocadas em prática.
Outra medida que pode auxiliar no tratamento da
diabetes melito é o plano de educação. Como Oliveira,
Monteiro e Araújo ressaltam, a educação é um instrumento
imprescindível para o bom êxito do tratamento de toda afecção
crônica-degenerativa como o diabetes. Através da educação o
conhecimento do paciente é ampliado, podendo facilitar a
concordância com o tratamento proposto. Ela fortalece a
adesão ao tratamento, com fomento indiscutível na melhora da
qualidade de vida. A educação em diabetes objetiva, no final,
- 258 -

que o paciente utilize o conhecimento apreendido em seu


próprio benefício no tratamento diário.
Mello Filho (1983) nos diz que a abordagem
educativa deverá acontecer de forma integrada entre os
profissionais de saúde, abordando também os fatores
emocionais e sua influência na adesão ao tratamento, pois o
enfoque apenas nos processos cognitivos não é suficiente para
atingir a totalidade dos problemas vivenciados pelo paciente.
O plano de educação como auxilio para o tratamento de
diabetes deve ser elaborado da maneira que todos os
profissionais estejam engajados. Para diminuir a ansiedade do
diabético, por exemplo, a equipe de saúde precisará lançar
mãos de seus conhecimentos para que consiga esclarecer ao
paciente as dúvidas que ele tenha com relação a sua doença,
sobre suas causas, seu tratamento e suas consequências.
Para Blaise Pascal (1984), “o aumento do
conhecimento é como uma esfera dilatando-se no espaço:
quanto maior a nossa compreensão, maior o nosso contato
com o desconhecido.” Ou seja, quanto maior for a
compreensão do diabético sobre sua doença e sobre seus
cuidados, maior será seu interesse em querer saber mais,
aprofundar seus conhecimentos sobre sua doença e tudo o
mais que estiver relacionado com ela.
A assistência à saúde tem sido enfocada, cada vez
mais, como uma atividade multiprofissional, e Scarinci
destaca que, no caso específico do diabetes melito, a
abordagem psicológica se faz necessária porque a integridade
biopsicossocial do paciente é condição decisiva para favorecer
os cuidados com a doença, resultando em melhor qualidade de
vida para ele.
- 259 -

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- 262 -

X - O Portador da Doença de Alzheimer e


seu Cuidador Familiar: Impactos e
Consequências

Marianna Pereira de Souza Ferreira

A descoberta da Doença de Alzheimer em um membro da


família é quase sempre um fato inesperado, logo tornar-se um
cuidador também é considerado um fato impensável, até que
essa necessidade se imponha. Porém após a aceitação do
diagnóstico e da instalação da doença, a família toma ciência da
necessidade de um cuidador que assuma as responsabilidades
advindas com a patologia.

A Doença de Alzheimer (DA) é uma patologia


neurológica degenerativa e progressiva cujos sintomas são
caracterizados como “afecção neurodegenerativa progressiva e
irreversível de aparecimento insidioso que acarreta perda da
memória e diversos distúrbios cognitivos.” 139
De acordo com a Classificação dos Transtornos
Mentais e Comportamentos da CID-10 (1993), a Doença de
Alzheimer é uma síndrome demencial crônica e progressiva
decorrente de uma doença cerebral. Nos casos de demência há
uma disfunção das funções corticais superiores, nas quais
podemos mencionar a memória, pensamento, orientação,
compreensão, cálculo, capacidade de aprendizagem e
julgamento. Não ocorre alteração do nível da consciência
associado com o comprometimento destas funções cognitivas,
comumente há deterioração de outros fatores relevantes como,
dificuldade no controle emocional, comportamento social e até
mesmo na motivação para atividades.

139
Smith
- 263 -

Para Canineu (2002), a DA é conhecida por


acometer indivíduos que possuem mais de 60 anos de idade,
neste caso este tipo de ocorrência é chamada de demência
senil. Porém, apesar da menor frequência, há registros na
literatura mundial de ocorrência da doença em torno dos 40
anos de idade, o que a caracteriza como demência pré-senil. A
forma senil apresenta um curso mais lento e crônico e a forma
pré-senil, apresenta a evolução mais “agressiva” (rápida), o
que acarreta um comprometimento mais rápido e mais intenso
das funções cognitivas e comportamentais.
Cayton, Warner e Graham (2000) consideram que
a demência pré-senil é a fase de instalação da doença enquanto
a senil, já é a evolução e progressão da DA. Segundo os
mesmos autores, a DA pode apresentar diferentes sintomas de
acordo com diferentes estágios, nos quais o indivíduo se
encontra. Frequentemente o primeiro estágio da doença é
confundido como um processo natural do envelhecimento,
isso ocorre, pelo fato de a instalação da doença ser gradual,
dificultando a identificação da mesma logo no início. O
segundo estágio é caracterizado pela evidencia das
dificuldades com as tarefas diárias que ocorrem devido à
progressão da doença. E o terceiro estágio é considerado o de
dependência total, devido à grave deterioração da memória e a
evidência do aspecto físico da doença.
Encontramos em Canineu (2002), uma forma de
classificação do desenvolvimento da Doença de Alzheimer,
que se subdivide em diferentes estágios, sendo eles: leve,
moderado e grave. O estágio leve caracteriza-se por
“confusões e perda da memória, desorientação espacial,
dificuldade progressiva no cotidiano diário, mudanças na
personalidade e na capacidade de julgamento”. (Canineu,
2002) Já no estágio moderado há “dificuldades nos atos de
- 264 -

vida diária (especialmente no banhar-se, vestir-se, alimentar-


se), ansiedade, delírios e alucinações, agitação noturna,
alterações do sono, dificuldade de reconhecimento de amigos
e familiares”. E por último, o estágio grave em que ocorre a
“diminuição acentuada do vocabulário, diminuição do apetite
e do peso, descontrole urinário e fecal, dependência
progressiva do cuidador”.
Segundo os autores, Kapczinski, Quevedo e
Izquierdo (2004), os primeiros sintomas cognitivos a surgirem
são deterioração da memória, seguida de perda de interesse e
apatia. Com a evolução gradual da função da memória déficits
de outras funções cognitivas vão surgindo, entre as quais
podemos destacar julgamento, raciocínio abstrato, cálculo e
habilidades visoespaciais. Esses mesmos autores apontam
ainda que com o desenvolvimento dos estágios da doença,
pode surgir afasia, que é caracterizada por ocasionar
dificuldade para nomear objetos ou para encontrar a palavra
adequada para expressar o pensamento do momento. A afasia
é considerada progressiva e pode levar, principalmente nos
casos em que a doença teve início precoce, à incapacidade
total de sequência que dá sentido a fala.
A doença de Alzheimer é caracterizada por um
diagnóstico clínico e patológico combinado, e
Neuropsicológico e o mesmo somente pode ser determinado
de forma definitiva quando o paciente em questão se encaixa
nos critérios clínicos ou apresenta alterações histológicas da
doença na biópsia cerebral ou necropsia. (Kapczinski,
Quevedo e Izquierdo, 2004). Assim como afirma as autoras
Oliveira et al (2005), existem três possibilidades para que se
obtenha um possível diagnóstico da doença de Alzheimer, as
quais se classificam da seguinte forma:
- 265 -

a) Doença de Alzheimer Possível: O diagnóstico da doença de


Alzheimer possível baseia-se na observação de sintomas
clínicos e na deterioração de duas ou mais funções cognitivas
(por exemplo, memória, linguagem ou pensamento) quando
existe uma segunda doença que não seja considerada como
causa de demência, mas que torna o diagnóstico da doença de
Alzheimer menos certo.
b) Doença de Alzheimer Provável: O diagnóstico é
classificado de provável com base nos mesmos critérios
utilizados no diagnóstico da doença de Alzheimer possível,
mas na ausência de uma segunda doença.
c) Doença de Alzheimer Definitiva: A identificação de placas
e emaranhados característicos, no cérebro, é a única forma de
confirmar, com certeza, o diagnóstico da doença de
Alzheimer. Por este motivo, o terceiro diagnóstico,
determinante da doença de Alzheimer, só pode ser efetuando
através de biópsia no cérebro ou depois por autópsia.
Segundo os conceitos do DSM-IV (2002), a
dificuldade para que se obtenha a comprovação patológica
direta da confirmação da Doença de Alzheimer, se dá pelo fato
que o diagnóstico só poderá ser concluído depois de realizar o
descarte de outras etiologias de demência.
De acordo com os critérios do CID-10 (1993),
existem diretrizes diagnósticas da Doença de Alzheimer que
são essenciais para a realização de um diagnóstico definitivo,
são elas:
a) Presença de uma demência que aponte características tipo
demência de Alzheimer.
b) Início insidioso com deteriorização lenta. Embora seja
difícil diagnosticar a doença no início, devido à mesma
possuir características que se assemelhem ao envelhecimento
normal, a percepção das outras pessoas podem ocorrer
- 266 -

repentinamente devido aos déficits que vão surgindo


gradualmente.
c) Não possuir evidência clínica ou hipóteses a partir de
investigações que suspeitem que o estado mental seja
resultado de outra doença sistêmica ou cerebral que possa
originar uma demência. Dentre as quais podemos citar
hipotireoidismo, hipercalcemia, deficiência da vitamina B12,
deficiência de niacina (vitamina B3), neurosífilis, hidrocefalia
de pressão normal ou hematoma subdural.
d) Não apresentar início súbito ou sinais neurológicos de lesão
focal, tais como hemiparesia (paralisia parcial de um lado do
corpo), perda sensorial, defeitos no campo visual e de
coordenação, ocorrendo precocemente na doença, embora
podendo vir aparecer mais tarde.
A partir do recebimento do diagnóstico, embora o
Alzheimer seja uma doença progressiva e nunca estacionária,
se faz necessária a adoção de medidas que retardem sua
evolução e prolonguem a qualidade de vida do paciente.
Quanto mais cedo estas medidas forem adotadas, melhor será
o prognóstico.
Segundo Menezes (2011), uma parcela do
tratamento da Doença de Alzheimer envolve a prescrição de
medicamentos. A autora destaca que o tratamento
farmacológico da Doença de Alzheimer sofreu importantes
modificações no final da década de 80, neste período foram
feitos os primeiros ensaios clínicos aleatórios com inibidores
da colinesterase (IChE). A autora ainda afirma que partir da
inibição da atividade desta enzima, os pesquisadores
perceberam um aumento na concentração da acetilcolina, um
dos principais neurotransmissores associados à fisiopatogenia
da DA e relacionado como indispensável para o bom
funcionamento das sinapses cerebrais relacionadas à memória.
- 267 -

O surgimento da doença de Alzheimer


desencadeia uma redução significativa deste neurotransmissor
em áreas específicas do cérebro, como o núcleo basal de
Meynert, descrito como o principal produtor de acetilcolina
para o córtex cerebral. (Menezes, 2011) Drogas colinérgicas
podem diminuir a evolução da doença e atuar, mesmo que
temporariamente, na preservação de funções cognitivas pouco
ou não comprometidas. Os três principais medicamentos com
agentes colinérgicos que atuam na inibição da
acetilcolinesterase, ou seja, responsáveis pelo aumento da
concentração de acetilcolina no cérebro, disponíveis no Brasil
e em diversos países são: Donepezil, Rivastigmina e
Galantamina.
Menezes (2011) destaca que ao lado do tratamento
farmacológico, se fazem necessárias intervenções não-
farmacológicas, de imprescindível importância no manejo
clínico do tratamento de portadores de DA. A autora ressalta a
importância de haver uma atenção especial para com a
orientação dos familiares, e que estas medidas devem ocorrer
através de um trabalho conjunto com o objetivo de minimizar
as dependências do paciente e preservar a sua qualidade de
vida. Menezes (2011) enfatiza a importância de uma equipe
multidisciplinar nos serviços de saúde prestados a estes
doentes, e relaciona alguns das principais formas de
intervenções não-farmacológicas, sendo elas: reabilitação
cognitiva (objetivo desta terapia é a estimulação cognitiva,
com a finalidade da manutenção das funções cognitivas),
musicoterapia (utilização de música para fins terapêuticos),
arteterapia (utilização de recursos artísticos em contextos
terapêuticos), PET-terapia (utilização do contato com animais
para fins terapêuticos) e intervenções psicossociais com
familiares e cuidadores.
- 268 -

A senescência é um tipo de envelhecimento


natural, que possibilita ao idoso dar continuidade a sua vida
com alguma autonomia, aprendendo a conviver com as
limitações que o envelhecimento lhe impõe, podendo ser ativo
em sua atividade diária até chegar às fases tardias da vida. Já a
senilidade, é caracterizada pela incapacidade progressiva que
o indivíduo passa a apresentar para exercer atividades e
manter uma vida ativa, a senilidade acomete uma grande parte
dos idosos e incluindo os portadores da Doença de Alzheimer.
Doenças psiquiátricas acometem a maioria dos
pacientes portadores da Doença de Alzheimer. A depressão é
descrita como a principal comorbidade e, além disso, se
configura como um importante problema mundial de saúde
pública. Quando se refere à DA, a depressão é responsável por
ocasionar uma série de consequências negativas tanto para os
pacientes quanto aos seus cuidadores. (Stoppe e Scalco, 2006).
Sendo que estes autores ressaltam a existência de certa
dificuldade na realização do diagnóstico dos quadros
depressivos em portadores de DA, e ainda para o fato de que
uma quantidade significativa de pacientes que poderiam se
beneficiar do tratamento permanecem sem o diagnóstico.
De acordo com Ritchie et al. (1998 apud Stoppe e
Scalco, 2006), a associação entre Doença de Alzheimer e
depressão leva a uma significativa piora das funções
cognitivas e comportamentais do paciente com DA, piorando
sua qualidade de vida e desempenho, e ainda contribuindo
para o aumento do estresse no cuidador. Vale ressaltar que
essas alterações são potencialmente reversíveis quando se
realiza o diagnóstico e o tratamento adequado para a
depressão.
- 269 -

Como apontam Scalco e Neto (2006), além da


depressão outra comorbidade frequente em paciente
portadores de DA são os Transtornos de Ansiedade.
Para estes autores a ansiedade é uma experiência
natural, presente em todo o ser humano, favorável para a
sobrevivência e potencializador de um melhor desempenho
associado a um sentimento de antecipação de perigo. Estes
autores ainda ressaltam que a ansiedade pode se tornar
patológica, a partir do momento em que suas manifestações se
tornem desproporcionais em intensidade, duração,
interferência ou frequência, que geralmente podem estar
associadas a alterações somáticas.
Os mesmos autores (Scalco e Neto, 2006) afirmam
que os Transtornos de Ansiedade ocorrem com mais
frequência em idosos quando comparados com os adultos
jovens. Relatam ainda que embora seja desconhecida a exata
prevalência de Transtornos de Ansiedade em portadores de
Doença de Alzheimer, pesquisas demonstram altos índices de
sintomatologia ansiosa nesses pacientes. Cummings et al.
(1998) relataram uma incidência de 60% de sintomas ansiosos
em pacientes com a demência de Alzheimer (DA). Mas Finkel
e Burns (2006) observam que avaliar a ansiedade em pacientes
com déficits cognitivos, se torna uma tarefa bastante
complexa, devido à frequente dificuldade que apresentam em
manifestar suas insatisfações e desconfortos.
Quanto à etiologia dos transtornos ansiosos
associados à Doença de Alzheimer, Scalco e Neto (2006)
afirmam que sua origem é obscura, e provavelmente, tais
transtornos apresentam-se de forma diferente de acordo com a
evolução dos estágios específicos da doença. Estes mesmo
autores acreditam que os sintomas ansiosos em pacientes que
se encontram no estágio leve da doença de Alzheimer são
- 270 -

decorrentes do permanente estresse que o paciente está


exposto por acompanhar a evolução do próprio declínio
cognitivo. Skoog (1993) alerta que contribui para a hipótese
etiológica descrita, o fato de estudos demonstrarem uma maior
taxa de ansiedade em portadores no estágio leve da doença,
quando comparado aos portadores da doença em estágios
moderado e grave. A outra hipótese etiológica refere à
ansiedade apresentada como fator secundário a um quadro de
depressão.
Algumas hipóteses são defendidas para explicar a
menor incidência de transtornos de ansiedade em portadores
de demência que se encontram nos estágios moderado e grave.
Uma dessas hipóteses é que com o avançar do declínio
cognitivo, o paciente se torna incapaz de analisar e dar
respostas sobre o próprio estado psíquico.
Para a realização do tratamento Scalco e Neto
(2006) apontam que se devem analisar as condições de saúde e
ambientais que possam estar favorecendo o surgimento dos
transtornos de ansiedade. Ressaltam ainda que a investigação
médica e a análise de causas que podem ser responsáveis pelo
desencadeamento dos sintomas, por si só, podem levar ao
desaparecimento dos mesmos. Em outra passagem, os mesmos
autores nos mostram que intervenções ambientais e
psicoeducativas podem também resolver os sintomas, sem que
para isso seja necessária uma intervenção farmacológica,
porém isso não se aplica a todos os casos, logo, em alguns
casos essa intervenção se faz necessária.
Como podemos perceber tais comorbidades
são comuns no processo normal de envelhecimento e podem
ser mais frequentes nos portadores de DA, fazendo com que
fique ainda mais complexa a tarefa de cuidar desses pacientes.
Além disso, abordaremos a seguir, as principais perdas
- 271 -

cognitivas que acometem os pacientes portadores de


Alzheimer com a evolução progressiva da doença
Segundo Laks, Marinho e Engelhardt (2006), a
Doença de Alzheimer marca seu início pelo comprometimento
cognitivo progressivo, o qual pode considerar diversas
características, como a significativa redução da capacidade de
registrar e armazenar informações, o nítido esquecimento de
acontecimentos e situações em curto prazo e que
posteriormente evolui para a deterioração da memória dos
fatos e informações a médio e em longo prazo. Os mesmos
autores ainda enfatizam que o desenvolvimento da Doença de
Alzheimer faz com que existam os declínios da capacidade de
atenção e concentração o que resulta no comprometimento da
realização de atividades mais complexas a partir do momento
em que as atividades funcionais também iniciam uma
deterioração progressiva.
Ainda segundo esses autores, a Doença de
Alzheimer leva a um comprometimento progressivo da
execução das atividades da vida diária (AVD) de todas as
espécies, tanto as instrumentais como as clássicas, seguindo
uma deterioração das mais complexas para as mais simples.
Desta forma, os portadores da Doença de Alzheimer iniciam a
perda da capacidade de exercer as atividades instrumentais,
como, manuseio adequado de dinheiro, dirigir, cozinhar entre
outras, e em seguida, passam a não terem habilidades para
exercer atividades clássicas, como comer, vestir-se, banhar-se,
manter hábitos higiênicos, como escovar os dentes e até
mesmo controlar os esfíncteres.
Para Abreu, Forlenza e Barros (2005), a demência
assim como a Doença de Alzheimer no período de sua lenta
evolução traz consigo o comprometimento da autonomia dos
pacientes, fato que se torna indispensável à presença de uma
- 272 -

pessoa cuidadora, que tem como função preservar a saúde e


atender as necessidades básicas da vida diária deste paciente.
Segundo os mesmos autores, na medida em que a doença
evolui, o paciente passa a apresentar mais dificuldades no
desempenho de tarefas simples, antes realizadas com
facilidade, como vestir-se, alimentar-se, fazer uso de utensílios
domésticos entre outros. A partir da evolução da doença e da
instalação do estágio mais avançado, o paciente perde a
capacidade de funcionamento independente, o quadro pode
ainda se agravar a partir do desenvolvimento de sintomas
psicóticos que geram alterações comportamentais, podendo
causar desgaste e sobrecarga para o cuidador. Os autores
Abreu, Forlenza e Barros (2005), ainda concluem que
geralmente os óbitos de pacientes com Alzheimer ocorrem
aproximadamente 15 anos após o início da doença, que na
maioria dos casos se dá por complicações de comorbidades
clínicas ou quadro infeccioso já que estes pacientes se tornam
mais fragilizados por possuírem uma doença crônica.
Guterman (2002), afirma que a Doença de
Alzheimer geralmente apresenta suas primeiras características
através da dificuldade de memorização, podendo se manifestar
pela dificuldade de guardar os últimos acontecimentos,
fazendo com que o sujeito repita várias vezes atitudes e falas,
sendo comum ocorrer na execução das atividades diárias. Este
autor exemplifica esta afirmação através do determinado
acontecimento, quando uma pessoa esquece onde colocou as
chaves, pode se tratar de um esquecimento natural, porém
quando a pessoa de esquece qual a função da chave, isto sim
significa um sério problema de memorização, identificando
uma anormalidade, podendo ser uma característica da Doença
de Alzheimer.
- 273 -

Com a progressão da doença, o paciente se


encontra em um determinado momento, com certa dificuldade
de decisão, como saber qual roupa vestir, como realizar
determinadas atividades incluindo uma sequencia de tarefas
simples. O paciente também pode apresentar dificuldade em
receber dois comandos simultâneos, sendo preciso que lhe
diga uma coisa de cada vez e preferencialmente sem o uso do
modo imperativo.
Para Guterman (2002), pacientes portadores de
Alzheimer perdem as habilidades progressivamente, devido a
real perda de conexões de seus conhecimentos, desta forma, o
paciente perde a capacidade de escrita, leitura e até mesmo da
fala, esta doença leva a total dificuldade de ação. O mesmo
autor ainda afirma que em casos mais avançados é necessário
realizar trabalhos relacionados à deglutição, pois a dificuldade
de deglutir alimentos impede a adequada alimentação o que
pode ocasionar um quadro de desnutrição profunda, podendo
levar a morte. E, por último, salienta para o cuidado com a
ingestão do alimento para que evite os engasgos, pois caso
contrário o alimento pode se direcionar ao pulmão em vez de
ir para o estômago, impossibilitando uma digestão normal.
De acordo com os critérios do National Institute of
Neurological Disorders and Stroke (NINDS), o
desenvolvimento dos sintomas da Doença de Alzheimer
gradualmente geram alterações de comportamentos e
personalidade, incluindo declínio em habilidades cognitivas
como execução da fala, capacidade de tomar decisões e
dificuldade em reconhecer pessoas próximas, como amigos e
familiares. A Doença de Alzheimer é responsável por
proporcionar graves perdas das funções mentais. Tais perdas
estão relacionadas à repartição que ocorrem através do grave
acometimento das ligações entre determinados neurônios do
- 274 -

cérebro e a sua ocasional morte. Assim, conforme já discutido,


é possível considerar a Doença de Alzheimer como uma
demência que possui como características problemas
comportamentais e cognitivos.
No caso de demência como o tipo Alzheimer, cuja
maioria dos seus portadores apresenta ambos os tipos de
comprometimento da memória (anterógrada e retrógrada), os
pacientes podem se deparar impossibilitados para aprender
novos conteúdos e/ou se esquecer de fatos ou coisas que
anteriormente já sabiam. No decorrer do curso da doença,
conforme já citado, os pacientes podem perder objetos
importantes, como carteiras ou chaves, esquecer alimentos
cozinhando no fogão e se perder em ambientes que não lhe são
familiares. Em estágios considerados avançados da doença, há
o comprometimento maior da memória, sendo possível que o
sujeito se esqueça da sua profissão, escolaridade, datas
comemorativas, como o próprio aniversário, membros
pertencentes a sua família e, em alguns casos, até o seu
próprio nome. (DSM-IV, 2002)
Na fase inicial e intermediária da Doença de
Alzheimer, a perda da memória pode gerar um forte
desconforto para o paciente, porém já na fase final os
portadores não são capazes de perceber-se doentes, por falha
da autocrítica. Esta doença, não se trata apenas de uma
simples falha de memória, mas se refere a uma doença
progressiva que evolui para a incapacidade de realizar
atividades de trabalho e até mesmo de convívio social, devido
à dificuldade de reconhecer nomes, pessoas e objetos o que
impede a realização de tarefas que são consideradas simples,
como higiene pessoal. Não é recomendado que ocorram
mudanças de domicílios, pois pode tornar os sintomas mais
agudos. Pacientes com Doença de Alzheimer geralmente
- 275 -

realizam a mesma pergunta diversas vezes, o que deixa visível


a dificuldade de fixar novos conteúdos. Palavras são
frequentemente esquecidas e muitas das frases podem
permanecer sem finalização.
A partir dos critérios do DSM-IV (2002), a
Doença de Alzheimer possui o início insidioso se
caracterizando por déficits precoces na memória recente e
seguido do desenvolvimento de afasia, apraxia e agnosia com
o passar dos anos. Muitos dos portadores dessa doença
apresentam alteração de personalidade, sinais de irritabilidade
e outras características que surgem nos primeiros estágios da
doença e ficam mais evidentes nos estágios intermediários.
Nos estágios finais, os indivíduos desenvolvem dificuldades
motoras e de linguagem, o que propicia que estes sujeitos
fiquem confinados ao seu leito.
O comprometimento das funções da linguagem
pode se manifestar por afasia, que se caracteriza por
dificuldade na evocação de nomes de pessoas e objetos. O
indivíduo que possui afasia apresenta um discurso vazio e com
excessivo uso de termos indefinidos como, “coisa” e “aquilo”.
Outra característica da doença que os indivíduos podem
apresentar é a apraxia, que seria a incapacidade na execução
de atividades motoras, apesar de não haver nenhum
comprometimento nas funções sensoriais e na capacidade
motora, o indivíduo apresenta dificuldade em exercer atos
motores conhecidos como, pentear os cabelos, cozinhar,
vestir-se, entre outros. E também há o desenvolvimento da
agnosia, que seria a incapacidade de reconhecer objetos,
apesar de a função visual permanecer intacta, neste caso o
portador da doença perde a capacidade de reconhecer objetos
comuns como cadeira, lápis, entre outros. (DSM-IV, 2002)
- 276 -

Devido a todas estas perdas que o portador de


Alzheimer sofre com a evolução da doença é de fundamental
importância a existência de um cuidador que possa atender aos
cuidados necessários que este paciente irá exigir durante o
percurso da doença, sendo, geralmente, um familiar que
assume inicialmente esta função.
Falcão e Bucher-Maluschke (2009) apontam
para o fato de que em uma família com um paciente portador
da Doença de Alzheimer, as possibilidades e os conflitos,
originários da reestruturação dos papéis assumidos por cada
membro, bem como a superação destes, dependerá dentre
outros aspectos, de uma maior ou menor flexibilidade de cada
família. Isso se deve ao entendimento de que as ações e
comportamentos de cada integrante desse sistema influenciam
e são influenciados pelos demais membros, visto que “numa
ótica sistêmica, a família pode ser considerada um sistema
aberto, devido ao movimento de seus membros dentro e fora
da interação de uns com os outros e com os sistemas
extrafamiliares, num fluxo constante de informação, energia e
material.”
Ainda com base numa ótica sistêmica, “outro
aspecto relevante na determinação da saúde do sistema
familiar é a coesão. Este termo é geralmente definido como
vínculo emocional ou ligação afetiva entre os membros da
família.” Segundo Penna (2004) em famílias coesas os
membros apresentam maior envolvimento e sintonia entre si,
devido a esse fato, são capazes de proporcionar maior apoio
mútuo, tolerar melhor emoções negativas, bem como,
compartilhar sentimentos de dor. O autor destaca que essas
famílias prestam melhor apoio ao parente enfermo do que
famílias com baixa coesão familiar.
- 277 -

Falcão e Bucher-Maluschke (2009) apontam que a


coesão pode ser afetada por eventos específicos ocorridos na
família, tais como o desencadeamento da Doença de
Alzheimer. Para Silveira (2003) há diversas formas dos
familiares lidarem com a DA: alguns se distanciam para evitar
compromissos desagradáveis, situações conflituosas,
redefinição de papéis estabelecidos ou por se depararem com o
próprio medo de desenvolver a demência. O autor ainda
afirma que as relações existentes entre os membros e as
experiências familiares anteriores ao acometimento da doença
irão influenciar diretamente, não só no cuidado que será
exercido, mas também como potencializador ou minimizador
de conflitos.
Como aponta Boss (1998), outro fato resultante da
evolução da Doença de Alzheimer que pode influenciar
negativamente a dinâmica familiar é a perda da identidade ou
“perda ambígua”, em que o familiar adoecido se encontra
fisicamente presente, porém, psicologicamente ausente. O
autor afirma ainda que este fenômeno pode ser responsável
pelo desencadeamento de muitos conflitos, que acabam por
resultar em estresse para todos os membros da família.
O modo como cada família reage frente a um
conflito, difere de família para família, e está diretamente
ligado às condições do ambiente familiar:
Segundo Stierlin (1979), é de suma importância
avaliar forças centrífugas e centrípetas que atuam em um
ambiente familiar que possui um membro portador de
Alzheimer. O autor descreve que a força centrífuga conduz o
indivíduo a se afastar ou até mesmo a sair do núcleo familiar,
enquanto a centrípeta, faz com que o sujeito se aproxime cada
vez mais do núcleo familiar. Sobre esta questão, Falcão e
Bucher-Maluschke (2009) afirmam que um ambiente familiar
- 278 -

com um portador de Doença de Alzheimer está propício à


atuação de forças centrífugas, devido à pressão e os conflitos
decorrentes dessa convivência. Segundo os autores, devido a
esse fato, muitos indivíduos abandonam suas casas para não
terem que lidar com as responsabilidades e demandas que
acompanham o cuidado e o convívio com um portador de
Doença de Alzheimer.
Segundo Falcão e Bucher-Maluschke (2009) os
conflitos gerados no ambiente intrafamiliar de um portador de
Doença de Alzheimer são responsáveis por comprometer e
abalar a homeostase familiar. Este conceito, segundo eles, diz
respeito à família se comportar, frequentemente, como uma
unidade, agindo sempre em busca do restabelecimento de um
equilíbrio em suas relações. Apontam ainda que as famílias
buscam se reorganizar diante dos desafios que a doença
acarreta, e para que isso ocorra se faz necessário, além de
reavaliações e adaptações diárias, algumas mudanças nas
regras de funcionamento da família. Afirmam ainda ser
frequente o convívio intergeracional em famílias com
pacientes portadores de Alzheimer, ou seja, três ou mais
gerações residindo e convivendo em um mesmo núcleo
familiar. Para a resolução dos conflitos resultantes destas
relações intergeracionais, os autores apontam como fatores
positivos a divisão de tarefas entre os familiares, bem como, o
conhecimento das características da doença por todos os
membros da família, pois quanto maior o esclarecimento
acerca das necessidades e dificuldades que a doença acarreta
ao membro adoecido, mais fácil será a comunicação e o
enfrentamento das mudanças advindas com a demência.
Eisdorfer, Czaja e Lowenstein (2003) apontam que
devido às mudanças trazidas à dinâmica familiar, pelo
acometimento da Doença de Alzheimer a um membro da
- 279 -

família, em muitos casos se faz necessário, a realização de


uma terapia familiar. Neste modelo de intervenção sistêmica,
os autores destacam como pontos fundamentais a definição
dos cuidadores primários e o encorajamento dos membros a
negociarem entre si as novas responsabilidades a serem
assumidas. Destacam também que durante todo esse processo
deve ser enfatizado que o recurso para o enfrentamento desses
desafios será encontrado no próprio sistema familiar.
A família experiencia a diária mudança sofrida
pelo ente querido, sendo frequentes as perdas físicas,
cognitivas e mentais, incluindo as relacionadas ao vínculo
familiar anterior, assim como uma inversão nos papéis no caso
deste doente ser o pai ou a mãe, visto que o (a) filho (a) deixa
de ser aquele membro que necessita de cuidados para exercer
o papel de cuidador dos pais. Dessa forma, estes familiares
além de se verem obrigados a se submeter a essa transição de
papéis, passam a adquirir diversas outras responsabilidades,
como a função de acomodar as perdas atuais e antecipar as
futuras. (Nascimento, 2011)
O mesmo autor acima aponta que os familiares
frente a um membro portador de Doença de Alzheimer, de
acordo com suas próprias características, costumam a assumir
três posicionamentos indesejáveis. O primeiro é a
superproteção, que pode ser identificado como uma tendência
a monopolização do cuidado, onde os familiares crêem que
sejam os únicos capazes de exercê-lo. Este posicionamento é
frequentemente desencadeado pelo sentimento de culpa que
carregam e pela crença de que podem evitar que algo pior
aconteça ao paciente enquanto se mantém perto deles, gerando
assim, como afirma a autora citada, heróis e heroínas
estressados. O segundo é a evasão da realidade, este acontece
quando os familiares tendem a negar a existência doença, no
- 280 -

intuito de que tudo volte a ser como era antes do recebimento


do diagnóstico. O terceiro posicionamento se apresenta através
de expectativas excessivas em relação ao desempenho do
paciente, o que acaba por suscitar frustração não só no
paciente, que muitas vezes não corresponde às expectativas,
mas também, nos familiares que ficam desapontados ao se
darem conta das limitações do paciente impostas pela doença.
Para Nascimento (2011), quando a família e o
paciente estão diante da confirmação do diagnóstico, este
momento se caracteriza como sendo um dos mais difíceis, pois
é comum que os familiares e o paciente queiram saber das
possibilidades do uso de medicamentos, o possível tratamento
e até mesmo sobre a cura da doença. Esta autora afirma ainda
que, geralmente, diante do processo de adoecimento, os
pacientes e familiares se utilizam de recursos para o
enfrentamento da doença e dos lutos vivenciados nesse
processo. Para ela esse processo se divide em cinco fases,
sendo elas: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.
Cabe ressaltar que nem todos vivenciam estas mesmas fases,
que quando ocorrem não se dão necessariamente de forma
linear e progressiva.
A primeira fase, a de negação, se caracteriza pela
não aceitação da realidade da doença e do diagnóstico,
podendo causar maior sofrimento e desgaste, tanto físico
quanto psicológico. O motivo dessa atitude é o desejo da
existência de um erro diagnóstico, o que frequentemente, pode
levar muitas vezes à busca de opiniões de diferentes médicos,
na fantasia de um retorno ao passado, antes do acometimento
da doença. A segunda fase é a raiva, sendo frequente o
sentimento de revolta - tanto do paciente quanto da família -
- 281 -

direcionado à equipe médica que disponibilizou o diagnóstico,


ou a outras pessoas, na busca de encontrar um culpado.140
A terceira seria a fase da barganha, na qual os
pacientes e familiares buscam realizar negociações com os
médicos e a equipe de saúde, em uma tentativa de alteração do
diagnóstico. Depois de esgotadas as tentativas de não encarar
o diagnóstico e a doença, tem início um período de tristeza,
onde as pessoas (doentes e familiares) estão diante do
diagnóstico e prognóstico da Doença de Alzheimer, se
caracterizando pelo primeiro contato com o luto, pela perda da
vida saudável e pela impossibilidade de continuar sendo ou de
retorno a pessoa que era antes do acometimento da doença.141
Diante das consequências trazidas pela doença, os
familiares e pacientes podem encarar outro momento, a quarta
fase, a da depressão, a qual é considerada uma etapa muito
complicada, onde na maioria dos casos é imprescindível um
suporte emocional. (Nascimento, 2011) A autora afirma ainda
que diante da intensificação das perdas sofridas pelos
pacientes, como o comprometimento da função cognitiva e da
memória, o que possibilita o não reconhecimento de seus
familiares, a família passa a lidar com outro luto, mesmo que
durante a vida do paciente, seria o luto pela “morte social” do
doente.
A última fase é a de aceitação, que no caso dos
pacientes portadores de Alzheimer, esta última somente é
vivenciada pela família, já que nessa etapa, em muitos casos,
os pacientes estão com um acentuado declínio e
comprometimento das funções cognitivas. Nesta fase, ocorre a
aceitação da doença e dos cuidados impostos pela mesma, os
familiares passam a perceber a doença de forma consciente,

140
Nascimento, 2011
141
Nascimento, 2011
- 282 -

possibilitando assim um contato mais real com seu familiar


adoecido. (Nascimento, 2011)
A descoberta da Doença de Alzheimer em um dos
membros de uma família, é quase sempre um fato inesperado,
logo tornar-se um cuidador também é considerado um fato
impensável até que essa necessidade se imponha. Porém após
a aceitação do diagnóstico e da instalação da doença, a família
toma ciência das necessidades impostas pela mesma para com
o membro adoecido e a partir desse momento se faz necessário
a presença indispensável de um cuidador que assuma as
responsabilidades advindas com a doença de Alzheimer. A
seguir veremos o perfil deste cuidador, bem como, as
dificuldades e responsabilidades inerentes a esse papel.
De acordo com Coen et al (1997), entende-se por
cuidador, o indivíduo que se torna responsável por coordenar e
disponibilizar os recursos demandados pelo paciente, ou seja,
cuidar pode ser compreendido como o ato de realizar para
alguém, coisas que este se encontra impossibilitado de fazer
sozinho. Porém, como apontam Twigg e Atkin (1994), no caso
de cuidados a pacientes portadores de Doença de Alzheimer
não há uma reciprocidade afetiva, ao contrário de uma relação
mãe e filho, onde geralmente há um retorno afetivo de quem é
cuidado. O termo “cuidar”, que pertence originalmente ao
campo da ética, inclui dar valor ao indivíduo cuidado,
respeitar suas qualidades e necessidades, ajudar a protegê-lo
de perigos, e acima de tudo, ter atitudes conscientes e
comprometidas com seu bem-estar.
Como já apontado no capítulo anterior, para
Beraldo (2002), com o avanço da Doença de Alzheimer são
comuns alterações progressivas da cognição e do
temperamento, que frequentemente resultam no
comprometimento da memória, no funcionamento de
- 283 -

atividades cognitivas como atenção, imaginação, compreensão


raciocínio, afetividade, percepção e concentração. Assim,
como afirma esta mesma autora, a instalação desta doença
atinge não somente ao paciente, mas toda a sua família, sendo
responsável por causar uma mudança devastadora na estrutura
familiar. Beraldo (2002) ainda conclui que os sintomas da
doença são impostos ao paciente gerando uma dependência
progressiva e posteriormente total, o que concretiza a
necessidade de se ter presente um familiar cuidador, que na
maioria das vezes exerce esta função sem ao menos ter sido
preparado ou ter se candidatado para ela, e que comumente
passa a sofrer as consequências e restrições do papel por ele
assumido. De acordo com Haley (1997), aproximadamente
80% dos cuidadores de pacientes com síndrome demencial são
membros da família que cuidam desses indivíduos em casa.
A construção do papel de cuidador de um idoso
portador de demência, dentro de um contexto familiar,
desenvolve-se de acordo com a evolução da doença, e
conforme os membros pertencentes a esse sistema familiar
vivenciam, em maior ou menor intensidade, a implementação
dos cuidados necessários. Beraldo (2002) aponta que a escolha
do membro da família para se tornar cuidador do portador de
Alzheimer se dá através da dinâmica familiar, e da
disponibilidade e dedicação deste membro em se abster de
atividades que anteriormente eram realizadas e muitas vezes
poderiam ser consideradas importantes, mas que devido à
nova e atual condição de saúde deste familiar, estas atividades
deixam de ser priorizadas e algumas vezes chegam a ser
eliminadas da sua rotina. Devido a essas situações impostas ao
cuidador, este ato de cuidar pode ser considerado como uma
maior disponibilidade de amor em relação ao familiar
adoecido.
- 284 -

Grunfeld et al (1997) afirmam que pesquisas


demonstram que, em sua maioria, os cuidadores são do sexo
feminino e que esses familiares são, sobretudo, esposas e
filhas. Para Goldfarb e Lopes (1996) o fato de existir um
maior número de cuidadores do sexo feminino, é reflexo de
um padrão cultural, o qual enfatiza o papel de cuidador ainda
como uma função naturalmente feminina. Outro ponto
importante acerca deste fato é que pesquisas apontam que
cuidadores mulheres geralmente sentem mais o impacto
associado a este papel, provavelmente pela frequente distinção
entre as tarefas associadas ao cuidador do sexo feminino e o
do sexo masculino.
O conceito de qualidade de vida pode ser
considerado amplo, por abranger a complexidade do meio
ambiente o qual se enquadra os aspectos físicos, psicológicos,
relações sociais, nível de independência e as próprias crenças.
De acordo com Laks, Marinho e Engelhardt (2006), a
qualidade de vida pode ser definida como a forma que o
próprio indivíduo percebe sobre sua posição na vida, no
contexto social e a partir dos sistemas de valores os quais ele
está inserido, principalmente relacionado aos seus objetivos,
expectativas e ambições sobre a vida. Contudo, estes autores
afirmam que os familiares que se tornam cuidadores, passam a
apresentar uma sobrecarga física e psíquica, e na maioria das
vezes ficam propícios a ter uma má qualidade de vida,
principalmente, por estarem expostos aos impactos negativos
que são resultantes das novas obrigações por eles assumidas.
Para Inouye, Pedrazzani e Pavarini (2010), o
declínio da qualidade de vida não ocorre apenas para os
cuidadores, mas também para os portadores de Alzheimer,
pois os déficits cognitivos causados pela doença podem gerar
sentimentos de impotência, menos valia, desamparo,
- 285 -

fragilidade e falta de perspectiva para o futuro. Além disso,


estes autores ainda completam que a falta de memória por
parte do paciente faz com que dificulte as relações afetivas,
sociais e familiares, pois sem as lembranças de quem são essas
pessoas e do que as mesmas significam para este membro
adoecido, não há como restabelecer uma relação afetivo-
familiar, o que dificulta o processo de interação com o meio
social, o que também pode gerar dificuldades na adaptação
psicossocial e na perda de responsabilidades sobre as próprias
atitudes. Harper e Lund (1990) afirmam que todas estas
dificuldades apresentadas pelo portador de DA, aumentam a
sobrecarga ao cuidador devido ao despreparo e a frequente
falta de habilidade para lidar com as diversas demandas físicas
e emocionais advindas do cuidar.
Schneider et al (1999) nos mostram que apesar da
existência de aspectos positivos no ato de cuidar, há uma
conotação negativa, que se refere ao impacto global do ato de
cuidar na vida do cuidador. Hoenig e Hamilton (1996) foram
os primeiros a apresentar e dividir os aspectos objetivos e
subjetivos do impacto. Estes autores definiram como
componentes do impacto objetivo: sobrecarga financeira,
tensão do cuidador por serem negligentes em
responsabilidades com demais membros da família,
descontinuidade das tarefas domésticas, supervisão e
preocupação além da necessária e desentendimentos com os
vizinhos. Quantos aos componentes subjetivos, os autores
destacam sentimentos de vergonha, sobrecarga, ressentimento
e exclusão. Segundo Garrido e Tamai (2006) esta divisão tem
sido bastante utilizada por diversos pesquisadores para fins
didáticos.
De modo geral, os aspectos objetivos são aqueles
que se relacionam aos distúrbios sociais causados por cuidar:
- 286 -

mudanças na rotina do lar, nas relações familiares, nos


relacionamentos sociais, no lazer e nas finanças. Os subjetivos
se referem ao desconforto causado para quem está ao lado do
paciente, ou seja, alterações na saúde física e emocional do
cuidador, permeadas por sentimentos negativos, como culpa,
incerteza, ambivalência e sentimentos de perda.
Nascimento (2011) aponta que a intensidade do
impacto na vida do cuidador será influenciada, além de outras
coisas, por três fatores: o primeiro refere-se ao estágio em que
paciente se encontra frente à doença, o segundo, diz respeito
ao papel desempenhado pelo doente no contexto familiar, o
terceiro e último, e não menos importante, que abrange a
habilidade do cuidador em elaborar as perdas acarretadas pela
evolução da doença.
De acordo com Garrido e Almeida (1999) estudos
comprovam que há maiores índices de impacto em cuidadores
de pacientes com Doença de Alzheimer do que em cuidadores
de pacientes com depressão, acidente vascular cerebral (AVC)
ou idosos hígidos (sadios). Cerqueira e Oliveira (2002)
confirmam essa tese ao afirmar que cuidadores de pacientes
com DA apresentam maiores possibilidades de desenvolver
sintomas psiquiátricos e problemas de saúde, além de se
mostrarem mais propícios a conflitos familiares e problemas
no trabalho, quando comparados a indivíduos da mesma faixa
etária que não exercem este papel. Outro fato importante sobre
os cuidadores de portadores de Doença de Alzheimer é
apresentado por Grafstrom et al (1992), que afirmam que estes
cuidadores demonstram uma pior avaliação acerca da própria
saúde e frequentemente sentem-se mais estressados e têm a
vida social e afetiva mais restrita do que cuidadores de
indivíduos que possuem outro tipo de patologia ou limitação.
- 287 -

Assim como afirma Nakagawa (2002, p.137),


“cuidar de uma pessoa doente é uma arte que deve ser
aprendida, porque ninguém nasce sabendo. A educação do
cuidador para saber se cuidar, passa a ser o desafio a ser
vencido.” Como ressalta Nascimento (2011), o papel do
cuidador familiar apresenta dificuldade em diferentes âmbitos:
físico, psíquico, mental e econômico. Devido a esse fato, é
comum que, em função do paciente e dos cuidados que o
mesmo demanda, o cuidador se esqueça de si mesmo e deixe
de viver sua vida com qualidade. A seguir veremos as
consequências desta auto-anulação e a importância de se
restabelecer o autocuidado.
Como afirma Nascimento (2011), embora existam
ganhos na função de cuidador, como a possibilidade de
elaborar o luto de forma gradual, este papel não é exercido
sem sofrimento, principalmente por se tratar de um ente
querido em processo de adoecimento degenerativo e
progressivo cujo fim é a morte. Nascimento também ressalta a
existência de um consenso entre os pesquisadores que
realizam estudos sobre os cuidadores de portadores de Doença
de Alzheimer, sobre a necessidade de estas pessoas exercerem
o autocuidado. O processo de cuidado de um paciente portador
de Alzheimer se apresenta como uma tarefa cansativa,
geralmente associada a sinais e sintomas de irritabilidade,
baixa tolerância, impaciência, sentimento de angústia e
frustração.
De acordo com Garrido e Menezes (2004) diversas
pesquisas apontam uma piora na saúde física dos cuidadores,
além de um prejuízo no sistema imunológico que pode
perdurar por até quatro anos após a morte do paciente cuidado,
destacando que até 60% dos cuidadores de portadores de DA
tendem a desenvolver sintomas físicos e psicológicos.
- 288 -

Descrevem como sintomas físicos mais comuns: desordens


digestivas, propensão a infecções, doenças respiratórias e
hipertensão arterial, e como sintomas psicológicos, ansiedade,
insônia e depressão.
De acordo com Hinrichsen e Niederehe (1994), a
maioria das intervenções tem como objetivo mudar a maneira
como o cuidador lida com o familiar adoecido em casa, bem
como melhorar a qualidade de vida do mesmo. Os autores
apontam que melhores estratégias para o enfrentamento de
conflitos influenciam diretamente no controle emocional do
cuidador e por sua vez, proporcionando uma melhor
assistência para o paciente. Haley (1997) aponta que tais
intervenções visam além de amenizar a angústia do cuidador e
evitar a institucionalização do paciente, proporcionar ao
cuidador uma possibilidade de fazer planos futuros. Cruz e
Hamdan (2008) mostram que a literatura apresenta tipos
distintos de intervenção em cuidadores de idosos portadores
de Doença de Alzheimer, sendo eles: grupo de apoio,
intervenções psicoeducacionais, terapia individual e terapia
familiar que é direcionada às famílias que apresentam
conflitos ocultos ou explícitos entre seus membros, conflitos
estes que são refletidos no cuidado ao paciente portador de
DA.
A Terapia Familiar é respaldada pela Teoria da
Abordagem Sistêmica, a qual não se limita apenas em buscar a
causa do problema, mas se estende a compreender de forma
mais abrangente os principais fatores que mantém este
problema, sendo válido ressaltar que geralmente os fatores que
causam o problema não são os responsáveis por sua duração.
(Duhamel, 1995)
Diante disso, em uma terapia familiar, para que se
analise uma situação problemática de saúde, é mais proveitoso
- 289 -

analisar o “como” esta situação ocorreu do que o “por que”,


principalmente porque as hipóteses tendem a valorizar o
contexto onde a problemática de saúde evolui, podendo se
observar os diferentes sistemas e subsistemas que contribuem
para esta evolução, bem como o fator que favorece a
manutenção deste problema de saúde. (Duhamel, 1995)
Assim como aponta Duhamel, em uma terapia
familiar de Abordagem Sistêmica, o todo é maior que a soma
de suas partes, e desse modo a família é maior que a soma de
seus membros. A partir deste princípio, estes mesmos autores
nos mostram que a Abordagem Sistêmica se interessa e atua
nos diversos sistemas e subsistemas presentes em uma família,
com o intuito não só de entender melhor a dinâmica e o
funcionamento de cada um deles, bem como, o de
compreender as relações, crenças e sentimentos que permeiam
entre os membros desse sistema.
De acordo com Galera e Luis (2002), em casos
como estes, de eclosão do adoecimento de um membro, a
terapia familiar é mais recomendada do que a terapia
individual, e isto se deve ao fato de que a coleta da percepção
de cada membro acerca dos conflitos intrafamiliares,
favorecem a construção de hipóteses sistêmicas mais úteis à
família do que hipóteses baseadas sobre a visão de apenas um
único membro.
A partir das questões expostas, percebemos a
existência de um consenso entre os pesquisadores, acerca da
necessidade de que os cuidadores exerçam o autocuidado e
adotem medidas a fim de reduzir o impacto ocasionado pelo
papel de cuidador. Segundo Nascimento (2011), pesquisas
apontam que os cuidadores apresentam menor impacto e
melhor adaptação à função quando optam por alguma
estratégia de intervenção em prol do autocuidado. A autora
- 290 -

afirma ser de suma importância que o cuidador se perceba


como um ser humano, portador de limitações e fragilidades,
necessitado de atenção e cuidado para aliviar o esgotamento
físico e emocional oriundo do processo de cuidado. E que a
partir dessa percepção busque apoio, divida as
responsabilidades e possa desfrutar de melhor qualidade de
vida.

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- 293 -

XI - Cultura e Igreja:
uma análise sócio-histórica

Bruno de Souza Pereira

O poder disciplinar adestra multidões confusas, móveis, inúteis


de corpos e forças. As diferentes posições hierárquicas que a
Igreja ocupou mostram como a Igreja se alienou de si mesma,
não apenas no sentido da teoria marxista de “ópio do povo”, que
destrói e segrega, mas também uma alienação de sua essência,
ou seja, a Igreja, ao perder sua identidade [essência], entrou em
um processo de desconstrução.

A consolidação de qualquer grupo social se dá através


da cultura e por meio dela criam-se regras, verdades e
relações. O processo de formação da cultura é contínuo, tendo
ao mesmo tempo de sua gênese, o gatilho para sua
desconstrução.
Influenciado pelos estudos de Marx e Weber, Bourdieu
defende a idéia de que as camadas privilegiadas exercem
domínio e o mantém duradouro sobre as demais, através do
campo político, social e econômico. Além disso, essas
camadas privilegiadas [aqui chamadas de dominadoras]
precisam exercer algum tipo de força sobre as camadas
dominadas, mas para que não seja necessário sempre o
exercício da força, buscam transformar a dominação em
direito, através da imposição da disciplina, que Cunha (1979)
define como sendo a execução exata da ordem recebida, com a
eliminação incondicional de toda crítica pessoal, por um
agente preparado exclusivamente para a realização da ordem.
Quando os dominados passam a aceitar a disciplina imposta
pela camada dominadora, ocorre o processo de legitimação,
- 294 -

tornando o que ela sujeita em um modelo a ser seguido pelos


que a ela foram submetidos.
A teoria de Bourdieu apresenta três importantes
conceitos para a compreensão da formação social. O primeiro
conceito é o de poder da violência simbólica, que consiste na
relação de poder de força material e força simbólica, exercidos
pelos grupos dominadores que vem a impor às classes
dominadas significações legítimas. O segundo conceito é o de
violência material que é exercido através da força material,
militar ou econômica, e esta violência se manifesta através das
desigualdades sociais advindas do capitalismo, onde as
camadas subjugadas tendem a legitimar o poder às camadas
mais ricas, pois caso contrário, estarão isentas dos benefícios
pífios que lhe são oferecidos, ou seja, aceitam um salário
baixo para não morrer de fome. A terceira característica,
porém não menos importante, é a de força simbólica,
massificadora de verdades que permitem a existência da
violência simbólica.
Cunha (1979) afirma que a cultura de um grupo ou de
uma classe abrange os modos de agir, pensar, sentir e
perceber. Não sendo convencionais nem aleatórios, mas
socialmente necessários: a cultura é arbitrária. Tal
arbitrariedade pode ser compreendida pelo fato de que sua
forma [estrutura] não é um modelo fixo, um princípio
universal. Efetivamente, não existe uma natureza das coisas ou
do homem. Ela [a cultura] não é resultado do acaso, mas sim
resultado das condições sociais de produção e reprodução.
A formação social pode ser entendida como sendo um
sistema de relações de força simbólica e material entre grupos
ou classes. Existem dois tipos de força simbólica: ação
pedagógica e comunicação cultural. A ação pedagógica é a
imposição da cultura arbitrária através de um poder arbitrário
- 295 -

legitimado. A ação pedagógica tem o poder de aplicar sanções


aos grupos ou classes dominados. Podemos tomar como
exemplo a educação de crianças no interior da família,
educação escolar e o ensino religioso. Esta ação se dá através
de um sistema reforçador de princípios culturais que devem
permanecer após a ação pedagógica. Podemos observar aqui a
concepção do termo habitus, utilizado por Bourdieu. Habitus é
exatamente o produto da interiorização dos princípios da
cultura arbitrária após a cessão da ação pedagógica. A
comunicação cultural, diferente da ação pedagógica, não tem o
poder de aplicar sanções, porém é fundamental para que a
ação pedagógica ocorra. Tomemos como exemplo de
comunicação cultural as principais formas de expressão, como
a TV, as pinturas, teatro, músicas, poesias, etc.
Outro conceito muito importante na teoria de Bourdieu
é o de capital cultural, que pode ser entendido como um
sistema de valores sociais que são de certa forma, perpetuados
pela ação pedagógica da família, e a definição de ethos, que é
um sistema de disposições dos grupos ou classes subjugados
em reconhecer a ação pedagógica como legítima. Os modelos
culturais podem ser conservadores, segundo Inyders (1981),
quando se pretende fazer deles a garantia de imutabilidade do
homem e, portanto, de imutabilidade da sociedade. Esta forma
conservadora da cultura desvaloriza a contemporaneidade e
incentiva à busca por um tempo, outrora ideal. O modelo
cultural conservador tende a atribuir aos bens da cultura do
passado um valor altíssimo, patrimônio inabalável e
inalienável.
Uma compreensão adequada sobre a cultura implica
em relacioná-la aos fatores sócio-político-econômicos
presentes na sociedade ou grupo dos quais ela é produto e,
simultaneamente, instrumento para a consolidação de
- 296 -

determinados elementos e transformação de outros que dela


fazem parte. É a partir deste viés de análise sobre a cultura que
podemos ter maior clareza sobre como ela é tributária das
ações dos seres humanos e de seu desenvolvimento.
Vários teóricos da psicologia realizaram trabalhos
buscando explicar como os fatores psíquicos atuam no
desenvolvimento humano. Alguns estudos vinculam este
processo à ação do meio ambiente sobre as pessoas tanto no
que diz respeito a estímulos motivacionais como àqueles
reforçadores dos comportamentos esperados. Outros acrescem
a esta abordagem estudos sobre a maturação biológica,
principalmente a relativa ao nosso sistema nervoso. Há ainda
aqueles que apresentam uma pré-formação do ser humano que
se aperfeiçoa a partir dos contatos que estabelecemos com a
realidade. A partir das últimas décadas do século XX, vem
ganhando espaço cada vez mais consistente as teorias que
consideram que são as interações que estabelecemos com o
meio as principais responsáveis por nosso desenvolvimento.
Entre estas destacamos a epistemologia genética de Piaget e
seus estudos sobre a psicogênese da inteligência, a teoria
psicogenética de Wallon sobre o desenvolvimento integral da
criança e a psicologia sócio-histórica de Vygotsky.
De acordo com estes pensadores, nossas estruturas
biológicas são fundamentais como sedimentação para uma
série de habilidades ou capacidades que só os humanos
possuem, mas são as trocas que realizamos com o meio que
estamos inseridos que determinam seus desenvolvimentos e,
em especial, da inteligência, linguagem e pensamento. Embora
os três teóricos compreendam o homem como construtor de
sua inteligência e saberes/conhecimentos há entre eles
diferenças no que diz respeito a como se efetuam estas
construções. Para Piaget, desenvolvemos os esquemas
- 297 -

lógico-matemáticos que compõe nossa inteligência, a partir


das ações que realizamos sobre a realidade. Segundo ele,
estamos, a todo instante, diante de situações que causam
desconforto, pois desestabilizam esquemas que já estavam
assimilados. Tal instabilidade faz com que reorganizemos
estes esquemas ou criemos novos para alcançarmos a
compreensão daquilo que se apresenta e assim nos adaptamos
e aprendemos. Este processo interno Piaget denomina
equilibração.
A teoria de Henri Wallon, segundo Dourado (2011), é
essencialmente sociocultural e relativista, com forte lastro
orgânico. O desenvolvimento está integrado ao meio em que a
pessoa está inserida, abrangendo seus aspectos motores,
cognitivos e afetivos. Wallon defende que o meio social e a
cultura definem uma área, onde existem possibilidades e
limites para o desenvolvimento do organismo e afirma que a
primeira forma de interação da criança com o meio se dá
através do movimento, que no recém-nascido, ocorre de forma
involuntária, criando uma resposta muscular automática
suscitada pelas necessidades e sensações do bebê. Podemos
compreender que, mesmo as respostas automáticas de um
recém-nascido funcionam como mecanismo de comunicação,
visto que provocam uma intervenção do meio, neste caso os
pais.
Como já observamos na teoria de Piaget, durante o
estágio sensório-motor, a criança cria uma relação entre seus
movimentos e os resultados obtidos. Wallon apresenta a idéia
de que através da maturação neurológica os movimentos se
tornam mais refinados, fazendo com que a ação motora regule
o surgimento e desenvolvimento das funções mentais:
Segundo Dourado (2011), as relações provenientes das
dimensões motoras e afetivas dão acesso ao mundo adulto,
- 298 -

fazendo com que a inteligência surja a partir da afetividade.


Assim, a cognição é compreendida como parte da pessoa
completa, resultante da integração entre organismo e meio
social. Então, o acúmulo quantitativo de funções gera uma
evolução qualitativa das mesmas, através da integração entre
motricidade, afetividade e cognição. O desenvolvimento pode
então ser compreendido como parte constituinte do ser
humano, resultado da integração entre organismo e meio
social, sendo, portanto, desenvolvida pela maturação e pelo
contato com a sociedade.
A teoria sócio-histórica, ou histórico-cultural,
apresentada por Vygotsky, mostra o cerne do desenvolvimento
humano, muito além dos aspectos fisiológicos, nos
apresentando a importância do desenvolvimento social.
Indivíduo e sociedade, história e cultura, não são contrapontos,
com suas características definidas e imutáveis, mas sim
constituintes fundamentais do processo de desenvolvimento
do homem. As funções psicológicas básicas e superiores
ocorrem de acordo com sua história social e acabam se
constituindo no produto do desenvolvimento histórico-social
de sua comunidade. Portanto, as habilidades cognitivas e as
formas de estruturar o pensamento do indivíduo não são
determinadas por fatores congênitos, mas resultado das
atividades praticadas de acordo com os hábitos sociais da
cultura em que o indivíduo se desenvolve.
Através da aprendizagem, mediada pelas relações entre
sujeito e meio, surge a construção de conceitos, ampliação de
conhecimentos e organização do real. As funções mentais
superiores são formadas a partir das interações sociais,
tomando como exemplo a cultura. E o homem se relaciona
com o meio adquirindo e transmitindo conceitos, valores e
criando novas relações. Comumente fala-se da relação do
- 299 -

homem com a esfera sócio-político-econômica; porém, iremos


destacar agora uma quarta esfera: a Igreja; instituição presente
na sociedade há vários séculos, e que atua também na
formação social.
A palavra Igreja vem do grego ekklesia142, que
significa assembléia, reunião, congregação, igreja. Este termo,
empregado a partir do século V a.C, pode ser compreendido
como uma assembléia popular, pertinente aos cidadãos da
polis, cidade. A assembléia existente antes dos tempos do
NT143 pode ser observada, como fenômeno político, cercado
de regras e costumes. Nela eram tomadas decisões políticas e
judiciais muito importantes, ou seja, um julgamento era feito
ao ar livre por exemplo. Vale observar que neste período não
era utilizado o termo ekklesia para comunidades religiosas,
neste caso se utilizava o termo thiasos, que significa
assembléia cúltica para adorar um deus. E o termo ekklesia
aparece apenas duas vezes no evangelho de Mateus, sendo a
primeira no capítulo 16, versículo 18, e a segunda no capítulo
18, versículo 17, indicando que este termo era, até certo ponto,
evitado para se referir ao período das atividades de Jesus na
terra. Foi Paulo de Tarso que inseriu este conceito através de
suas cartas. Ainda segundo o DIT-NT (2000), ekklesia é
empregado apenas para definir as comunidades cristãs que
vieram a existir após a crucificação e ressurreição de Jesus.
Não se emprega no período do Jesus histórico para descrever
os discípulos que se ajuntavam ao redor dele.
Kummel (1943, apud DIT-NT, 2000) defende que,
embora Jesus tivesse pessoalmente convocado os doze
apóstolos, não fundou a ekklesia propriamente dita durante sua
vida na terra, nem mesmo através da instituição da Ceia do

142
Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (DIT-NT, 2000),
143
Novo Testamento.
- 300 -

Senhor. E segundo Hurlbut (2007), a Igreja do Novo


Testamento teve início no dia de Pentecoste144, no ano 30
d.C. Os discípulos acreditavam que Jesus era o Messias de
Israel, o Cristo145. Sua localização inicial foi na cidade de
Jerusalém, tendo em seus primeiros anos de história, as
atividades limitadas a esta cidade e arredores. Seus membros
eram judeus e não admitiam que gentios fossem considerados
como membros da Igreja. Acreditavam que o indivíduo se
tornaria judeu, para depois aceitar a Cristo.
A liderança da Igreja no período pentecostal era
administrada pelos doze apóstolos, tendo muito destaque nos
evangelhos a figura de Pedro, por suas características pessoais;
tomar iniciativa, defender a Igreja, entre outros. Podemos
tomar como exemplo o versículo 14, do capítulo 2 do livro de
Atos: “Então Pedro levantou-se com os Onze e, em alta voz,
dirigiu-se à multidão: [...]”. Apesar deste destaque, não
significa que Pedro fosse papa ou algum tipo de dirigente
nomeado por Deus. Tudo ocorria devido sua intrepidez. E a
teologia da Igreja primitiva era muito simples. Havia três
pontos principais. O primeiro se dava através da aceitação de
Jesus como Messias e prestação de lealdade, reverência e
obediência a Ele. O segundo ponto importante era referente à
ressurreição de Jesus. Não bastava ao cristão simplesmente
aceitar Cristo como senhor, mas sim crer que Ele morreu, mas
ressuscitou ao terceiro dia e hoje vive como cabeça da Igreja.
O terceiro e último ponto defendido pela Igreja neste período

144
O Pentecostes marca a descida do Espírito Santo sobre os seguidores
de Cristo, Por esta razão o dia de Pentecostes é considerado o dia do
nascimento da igreja. Este fato ocorreu 50 dias após a ressurreição e
ascensão de Jesus.
145
Segundo Hurlbut (2007), Messias e Cristo são palavras idênticas.
Messias é palavra hebraica e Cristo é palavra grega. Ambas significam “O
Ungido”, o “Príncipe do Reino Celestial”.
- 301 -

se dava na crença da volta de Jesus. Portanto, Jesus era o


Cristo, morreu e ressuscitou, e um dia voltará para buscar o
seu povo, até mesmo os que já morreram.146
Os feitos realizados pelos cristãos eram
propagados através de testemunhos. É possível observar como
a cultura influenciou diretamente na Igreja primitiva. O
zeitgeist147 propunha um grupo particular na forma de agir,
porém homogêneo na forma de pensar. Os mais ricos doavam
suas propriedades para poder ajudar os mais necessitados.148
Este estilo de vida altruísta era funcional, devido ao pequeno
número de cristãos da época. Este curto período histórico foi
fundamental para a expansão da Igreja, pois nesta época,
iniciaram-se os problemas da comunidade cristã. O critério de
distribuição de auxílio começou a ser questionado, pois os
judeus gregos149 acabavam sendo prejudicados. Os apóstolos
fizeram uma assembléia e foi decidida a criação de um grupo
que ficasse responsável pela administração. O grupo era
composto por sete pessoas (Atos 6:5), e entre elas destacamos
a figura de Estevão. Apesar do serviço administrativo que lhe
fora designado, Estevão ganhou notoriedade por suas
pregações, e a paixão com a qual proclamava a mensagem de
Jesus Cristo.
No livro de Atos é possível ver Estevão defendendo a
salvação por meio de Cristo, não somente aos judeus, mas
também aos gentios. Pode-se observar Estevão como sendo o
primeiro membro da Igreja primitiva a ter uma visão

146 (1 Tessalonicenses 4:15-17).


147 Tradução livre para “o espírito do tempo”.
148 (Atos 2:44-47)
149
Os judeus gregos (helenistas), segundo Hurlbut (2007), eram o ramo da
raça judaica mais numerosa, mais rica, mais culta e mais liberal. Daí pode-
se entender o questionamento referente a distribuição de auxílio, visto que
eles auxiliavam mais que eram auxiliados.
- 302 -

missionária. Este fato fez com que alguns judeus opositores


matassem Estevão, tornando-se o primeiro mártir cristão.
Também no livro de Atos podemos observar, pela primeira
vez, a figura de Paulo, que até então se chamava Saulo.
Hurlbut (2007) declara que Saulo se tornou chefe
da perseguição contra os discípulos de Cristo, prendendo e
açoitando homens e mulheres. Neste período a Igreja em
Jerusalém se dissolveu, havendo assim uma dispersão.
Durante esta fase, Filipe, um dos doze apóstolos e membro da
equipe administrativa da qual Estevão também fazia parte,
fugiu para Samaria, cidade odiada e desprezada pelos judeus
por causa de sua miscigenação. Enquanto esteve refugiado
nesta cidade, Filipe começou a pregar e estabeleceu a primeira
igreja fora dos círculos judaicos. Filipe ainda esteve nas
cidades de Gaza, Jope e Cesaréia.
O capítulo 9 do livro de Atos narra a conversão de
Saulo e as dificuldades vividas, como por exemplo, o cerco
feito pelos judeus de Damasco que tinham a intenção de matá-
lo; sendo que durante um curto período posterior ao que narra
as situações vividas por Paulo150 logo após sua conversão, na
cidade de Antioquia surgiu uma igreja que era frequentada
tanto por judeus quanto por gentios, desfrutando dos mesmos
privilégios. Quando esta informação chegou a Jerusalém, a
igreja local enviou um representante para observar esta relação
heterogênea. O enviado para este trabalho foi Barnabé, que ao
conhecer o trabalho realizado naquela cidade, decidiu
permanecer com aquele povo. Barnabé já tendo conhecimento
da conversão de Paulo e mostrado sua confiança nele, foi até a
cidade de Tarso para buscá-lo, e juntos iniciaram um trabalho

150
Saulo e Paulo são nomes empregados a mesma pessoa. Naquela
época era comum um sujeito utilizar um nome entre os israelitas e outro
entre os gentios.
- 303 -

de evangelização nas proximidades de Antioquia, cujo se


elevou de tal forma, que pela primeira vez os seguidores de
Cristo foram chamados de cristãos.
A partir do ano 64, uma parte de Roma foi incendiada
e, acredita-se que o mandatário tenha sido o imperador Nero.
Hurlbut (2007) declara que “embora a acusação ainda seja
discutível, a opinião pública responsabilizou Nero pelo
crime”. A fim de escapar da responsabilidade, Nero apontou
os cristãos como culpados do incêndio de Roma e moveu
contra eles terrível perseguição. Milhares de cristãos foram
torturados e mortos, entre os quais o apóstolo Pedro, que foi
crucificado no ano 67, e bem assim o apóstolo Paulo, que foi
decapitado no ano 68.151
Por volta do ano 90, iniciou-se a segunda perseguição
imperial aos cristãos, desta vez pelas mãos do imperador
Domiciano, porém, como a perseguição efetuada por Nero, foi
uma perseguição local, não atingindo todo o império. Foi neste
período que o apóstolo João, o último ainda vivo, que morava
na cidade de Éfeso, foi preso e exilado na ilha de Patmos.
Nesta ilha, acredita-se, que João recebeu a revelação para
escrever o livro de Apocalipse. É possível que João tenha
morrido em Éfeso, por volta do ano 100.
Os principais fatos relacionados à Igreja durante os
séculos II e III são referentes às perseguições aos cristãos.
Neste ponto iremos observar algumas das principais causas
das perseguições e os fatos ocorridos durante o governo dos
imperadores deste período. O caráter de adoração exclusiva a
Deus por parte dos cristãos ia contra ao paganismo que
ganhava força. Durante esta época, foi oferecido aos cristãos
um espaço para por uma estátua de Cristo no Panteão, edifício

151
As datas citadas são aproximadas, pois os apóstolos mencionados
podem ter sido martirizados um ou dois anos antes.
- 304 -

de Roma, onde eram colocados todos os deuses importantes. A


oferta foi recusada, pois os cristãos não admitiam a
possibilidade de que Cristo fosse conhecido como sendo
apenas um entre diversos deuses. Este leque de deuses
movimentava o mercado, havendo também grandes festivais
nas cidades, dos quais os cristãos nunca participavam, e
acabaram sendo considerados pela população, como
insociáveis e ateus. Outra causa importante de ser mencionada
era a prestação de adoração ao imperador. Nos principais
pontos da cidade havia uma estátua do imperador, onde as
pessoas poderiam oferecer incenso, como se oferecia aos
deuses. Este ato era uma forma de demonstrar lealdade ao
imperador. Mais uma vez os cristãos se opuseram e foram
acusados de conspiradores.
Com a queda de Jerusalém, no ano 70, não havia nada
que pudesse proteger os cristãos de uma perseguição. Devido
a este fato, os cristãos passaram a se reunir secretamente em
cavernas ou catacumbas subterrâneas. Estas reuniões eram
feitas antes do nascer do sol, ou à noite. Eram acusados de
serem niveladores da sociedade, portanto anarquistas, sendo
considerados inimigos do Estado. Além das acusações de
conspiração, o fator econômico também incentivou a
perseguição imperial, pois como o cristianismo abdicava do
paganismo, e o número de cristãos estava aumentando, isto
acabou afetando o sistema capitalista, onde escultores,
negociadores de imagens, arquitetos de templos, por exemplo,
tiveram seus lucros reduzidos consideravelmente.
Alguns imperadores se destacaram neste período, entre
eles Marco Aurélio (161-180), que reinava buscando a ética e
a antiga simplicidade da vida romana. Como considerava os
cristãos como sendo inovadores, iniciou perseguição contra
eles. Outros imperadores faziam perseguições esporádicas
- 305 -

como Septímio Severo (193-211), que chegou a ser


considerado como anticristo pelos cristãos da época, Décio
(249-251), que declarou cidadania romana a todos que não
fossem escravos, Valeriano (253-260), Diocleciano (284-305)
e seus sucessores Galério e Constâncio (pai de Constantino)
(305-311). Diocleciano, através de editos, ordenou a queima
da Bíblia, além dos templos cristãos construídos no reinado de
Valeriano. Exigia a renúncia da fé em Cristo, caso contrário,
ficariam sem respaldo legislativo.
Constantino, enquanto co-imperador expediu, no ano
313, o Edito de Tolerância, oficializando o cristianismo e
legalizando suas formas de adoração. A perseguição cessou
enquanto durou o império romano. Durante todo este período
de perseguições o NT enquanto cânon começou a tomar
forma. Não existe um registro exato do reconhecimento do NT
como vemos hoje, mas sabe-se que este fato não se deu antes
do ano 300. Outro ponto muito importante desta época de
perseguições é o caráter mental da fé. A forma da crença
sobrepunha à vida espiritual da pessoa, vivia-se uma fé de
intelecto.
Com a subida de Constantino ao poder, o
cristianismo passou das arenas dos gladiadores, aos assentos
mais honrosos do governo romano. A conversão de
Constantino está muito mais ligada à política que a fé. A idéia
de que o batismo “limpava de todos os pecados”, fez com que
Constantino adiasse o seu até os últimos dias de sua vida.
Novos templos cristãos começaram a surgir, e podemos ver
pela primeira vez, a construção das basílicas152. Durante o
governo de Constantino, foi fundada Constantinopla, no ano
330, nova capital do império romano. A crucificação foi

152
Basílica era um salão da corte romana, dividido por colunas, tendo na
extremidade uma plataforma semicircular com assentos para os clérigos.
- 306 -

abolida e a cruz tomada como símbolo do exército. A visão


sagrada da vida fez com que o infanticídio parasse por todo
império romano, os escravos passaram a ter alguns direitos e a
luta de gladiadores nas arenas cessou. Apesar de todos estes
benefícios, a subida de um cristão ao poder e a universalização
desta doutrina formada no período imperial, trouxe malefícios
à proposta da Igreja cristã primitiva.
A Igreja política tornou antigas práticas antes
repudiadas pelo cristianismo, aceitas através da substituição.
Podemos tomar como exemplo os antigos ídolos, adorados
pelos antepassados na época em que viviam no deserto após a
saída do Egito. A partir do ano 405, surgiram as primeiras
imagens nos templos cristãos. Estas imagens se referiam aos
que eram considerados santos e mártires. Maria veio a
substituir à adoração as deusas Vênus e Diana. A ceia se
tornou um ato de sacrifício, ao invés de ato memorial à morte
de Cristo. O pregador se tornou sacerdote da Igreja. Tornou-se
claro que o foco não era mais proclamar Jesus enquanto
Messias, mas sim formar um império sólido e unido, onde os
que outrora eram perseguidos e humilhados, agora no poder,
criam uma massa religiosa homogênea, repassando uma forma
que seria “agradável a Deus”, sem ferir nos costumes e nas
práticas religiosas populares. A união entre Igreja e Estado fez
com que a humildade e a santidade da Igreja primitiva fossem
trocadas pela ambição, orgulho e prepotência de seus
membros.
O império romano atingiu uma vasta fronteira, fazendo
com que ficasse desprotegido e praticamente impossível de ser
controlado por apenas um imperador. Constantino, além da
mudança da capital para Constantinopla, que era
estrategicamente protegida por sua localização, continuou o
processo de divisão do império antes inicializado por
- 307 -

Diocleciano. O império foi dividido então em Oriental e


Ocidental, tendo o Oriental, a língua grega e o Ocidental a
língua latina. A fé intelectual se tornou a essência do
cristianismo e as questões doutrinárias entraram em pauta,
causando separações dentro da própria Igreja. Debates sobre a
trindade e a natureza de Cristo eram feitos de forma acalorada,
porém o ponto que merece destaque é referente à doutrina do
pecado e da salvação. Neste momento encontramos a figura de
Agostinho, que defendia que Adão representava a raça
humana, e através de seu pecado, todos os seres humanos são
culpados. O homem não poderia aceitar a salvação por
vontade própria, mas sim Deus decidia quem seria salvo ou
não. A teologia de Agostinho se tornou regra da Igreja, até o
início do século XVII na Holanda, quando surgiu o
Arminianismo.
A Igreja se tornou tão semelhante ao Estado que
buscou um líder, alguém que viesse a se tornar cabeça dos
bispos que lideravam as igrejas locais. Criou-se então o título
de patriarca (pai), tendo sua tradução latina para papa. Iniciou-
se uma disputa entre Roma e Constantinopla para definir quem
seria o papa, ou seja, o chefe da Igreja. Roma se dizia no
direito, pois possuía dois apóstolos como fundadores da Igreja:
Pedro e Paulo. Neste período, por questões políticas, foi
utilizado como justificativa o texto encontrado no livro de
Mateus, onde diz: “E eu lhe digo que você é Pedro, e sobre
esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não
poderão vencê-la.” (NVI). Roma argumentava que Pedro
havia sido o primeiro papa, indicado pelo próprio Cristo, e
Paulo, cidadão romano, um dos principais líderes do
cristianismo, eram razões incontestáveis para o poder papal
permanecer na mão de seus sucessores romanos.
- 308 -

Outro ponto que favorecia a escolha de Roma era


a influência do Estado. O poder da Igreja em Constantinopla
se submetia ao Estado, o que não acontecia em Roma, tendo a
Igreja como poder máximo. No ano 337, o império ocidental
começou a ser invadido, e no ano 476, totalmente tomado. O
império oriental durou até o ano 1453. Apesar das invasões, o
cristianismo conquistou grande parte dos invasores, fazendo
com que o império fosse tomado, mas a Igreja permanecia
com seu prestígio imperial. O governo caiu, mas a Igreja
sobreviveu.
A idade média durou quase mil anos, e neste período
destacamos a consistência da Igreja Romana ocidental.
Enquanto o governo político oscilava, a Igreja mantinha sua
consistência, e se organizava para voltar ao poder. Nesta época
podemos observar o surgimento das fraudes pias153. No
período de 1073 a 1216, a casta papal atingiu seu ápice no
governo, exercendo poder não só na Igreja, mas também sobre
as nações européias. Este status foi adquirido no governo do
papa Gregório VII, mais conhecido como Hildebrando, que
reformou o clero destacando a importância da moralidade,
exigindo o celibato por parte do corpo sacerdotal e a
independência da Igreja. Hildebrando, segundo Hurlbut
(2007), conseguiu impor a supremacia da Igreja sobre o
Estado, onde a tentativa de deposição de cargo, feita pelo

153
Na Idade Média, os documentos considerados eruditos não eram
questionados. Estes documentos fraudulentos visavam restaurar o
prestígio e devolver o poder a Roma. Destacam-se a “Doação de
Constantino” e “Decretais Pseudo-Isidorianas”. O primeiro declarava que
Constantino havia dado ao bispo de Roma, Silvestre I, autoridade máxima
sobre as províncias romanas, tendo poder até mesmo sobre os
imperadores. O segundo, e mais notável, alegava ser um compêndio de
decisões dos bispos romanos, desde o período apostólico. Declarava que o
papa de Roma era líder absoluto da Igreja Universal, não podendo ter seus
assuntos julgados por tribunais seculares nem prestar contas ao Estado.
- 309 -

imperador Henrique IV, não teve força perante a excomunhão


aplicada a ele pelo papa. Gregório VII acreditava que o
governo secular poderia reger a sociedade, desde que este
governo estivesse submisso à cobertura espiritual, neste caso,
a Igreja.
No ano de 1054, aconteceu a separação formal entre a
Igreja latina e a grega. Após anos de desavença, cada Igreja
excomungou a outra, e desde então não reconheceram mais o
poder eclesiástico de seu “desafeto”. Com a separação das
Igrejas, e o crescimento exponencial do islamismo, entraremos
agora no período das cruzadas. As peregrinações à terra santa
eram comuns, porém as pessoas deveriam passar pelos
territórios governados pelos mulçumanos, neste caso a
Palestina. Com o passar do tempo, o governo mulçumano
começou a reprimir os peregrinos, roubando e matando-os.
Perdendo força e sendo ameaçado pelos mulçumanos, o
império do Oriente solicitou ao papa Urbano II enviasse
guerreiros da Europa para socorrê-lo. Apareceu assim a
oportunidade da Igreja “libertar” o povo das forças
mulçumanas. Iniciaram-se assim as cruzadas. Tendo a cruz em
seu peito, milhares de guerreiros de toda a Europa marcharam
por um caminho sem volta. Financiados pela Igreja, os
exércitos foram guiados por reis e príncipes, alcançando
algumas vitórias e acumulando derrotas. As conquistas eram
de curto prazo, pois não havia estratégia para manter a posse
dos territórios conquistados. Outro fator que influenciou no
fracasso das cruzadas era a divergência e busca de interesses
pessoais por parte dos líderes. Com o exército desunido,
tornaram-se presa fácil para os mulçumanos.
Apesar de ser considerado um período sombrio, a
Idade Média trouxe alguns benefícios, como por exemplo, o
surgimento das grandes universidades européias, além do
- 310 -

desenvolvimento da arquitetura e da arte, geralmente servindo


aos desejos da Igreja. Alguns pensadores e estudiosos se
destacaram na Idade Média, entre eles podemos destacar
Anselmo, Abelardo, Bernardo de Claraval e Tomás de
Aquino. A queda de Constantinopla no ano de 1453 se deu
através das sucessivas invasões turcas, fazendo assim com que
o islamismo entrasse na cidade. Constantinopla se tornou
capital do império turco, e esta situação perdurou até o ano de
1920.
O período da reforma durou aproximadamente
duzentos anos sendo iniciado na Alemanha, tendo como
objetivo a fundação de igrejas nacionais, ou seja, igrejas
independentes de Roma, não lhe devendo obediência,
fidelidade, nem prestação de contas. Um dos principais fatores
que influenciaram a Reforma foi o período da Renascença.
Este momento vivido pela Europa causou um despertar na
forma de pensar, onde as pessoas se interessavam pela
literatura, pela arte e pela ciência, de forma afastada à religião.
Podemos observar como a cultura mais uma vez se apresenta
de forma crucial. Ao mesmo tempo em que impulsiona o
surgimento de novos saberes, a cultura adapta-se às novas
realidades, num processo de desconstrução, surgindo em uma
nova forma, que impulsionará novos conhecimentos.
O segundo fator que auxiliou a Reforma foi a invenção
da imprensa por Gutenberg. Os livros que anteriormente eram
copiados à mão, agora podiam ser reproduzidos de forma
exponencial em um menor espaço de tempo. O primeiro livro
impresso da história foi justamente a Bíblia, mostrando já o
interesse da época. Segundo Hurlbut (2007), com a Bíblia
impressa e traduzida em todos os idiomas da Europa, as
pessoas, aos poucos, foram percebendo que a Igreja papal
estava muito distante do ideal do Novo Testamento. O terceiro
- 311 -

fator que merece destaque foi o espírito nacionalista. Este


movimento popular defendia a idéia de que nenhuma
autoridade estrangeira exercesse poder sobre a igreja local.
A Alemanha ganhou muito destaque neste período,
onde podemos observar a figura de Lutero, que era monge e
professor da universidade de Wittenberg. O papa que reinava
na época, Leão X, no intuito de terminar a basílica de São
Pedro, em Roma, iniciou a venda de bulas154 com assinatura
papal, de forma que o possuidor deste material teria seus
pecados perdoados, sem necessidade de confissão e absolvição
por parte da igreja. Este benefício se estendia aos amigos e
familiares, até mesmo aos que já haviam morrido. Hurlbut
(2007), afirma que Tetzel, enviado do papa como vendedor
das tais bulas declarava a seguinte frase: “Tão depressa o
vosso dinheiro caia no cofre, a alma de vossos amigos subirá
do purgatório para o céu”.
No dia 31 de outubro de 1517, data que ficou marcada
como início da grande Reforma, Lutero pregou suas 95 teses
na porta da catedral de Wittenberg, as quais criticavam a
venda de indulgências e a autoridade papal e do sacerdócio.
Em 1529, os Estados alemães estavam divididos entre
católicos e “luteranos”. A Dieta155 decidiu reconciliar as
partes divergentes, porém tendo a maior parte da liderança
católica, ficou decidido que os ensinos de Lutero estavam
proibidos nos Estados católicos, porém estes eram autorizados
nos Estados luteranos. Os líderes luteranos protestaram contra
esta lei, e a partir de então, ficaram conhecidos como
protestantes, e as doutrinas luteranas como religião
protestante.

154
Um decreto validado com selo oficial era chamado de bula.
155
Conselho supremo do governo alemão.
- 312 -

Destacamos também João Calvino, considerado como


maior teólogo do cristianismo depois de Agostinho. Calvino
nasceu na França e aderiu aos princípios da Reforma em 1528.
Em 1536, publicou As institutas da religião cristã, que se
tornou base da doutrina das igrejas protestantes, com exceção
da igreja luterana. Hurlbut (2007) afirma que, junto com a
teologia luterana, a teologia calvinista inspirou os movimentos
liberais dos tempos modernos, tanto aos movimentos
referentes ao Estado quanto aos da Igreja, contribuindo
também para o avanço da democracia em todo o mundo.
A religião reformada possuía cinco princípios. O
primeiro se destinava a uma religião bíblica, ou seja, os
ensinamentos bíblicos eram autoridade máxima. Outro
princípio era o racionalismo. A adoração, tendo como base o
os princípios da Bíblia, deveria ser compreendida por todos,
não violando a natureza racional do homem. O terceiro
princípio se referia à adoração pessoal. Todos poderiam se
direcionar a Deus através de suas orações particulares.
Agradecer e pedir perdão a Deus não necessitava da
intervenção de um sacerdote ou padroeiro. Como quarto
princípio, podemos destacar a espiritualidade, onde a busca
por uma vida de comunhão com Deus através de uma
adoração sincera, sem a exigência de cerimoniais e
formalidades. Esta forma ritualística foi experimentada por
muitos séculos, apesar de podermos encontrar homens na
Igreja, como Bernardo de Claraval e Francisco de Assis, que
dispunham deste pensamento íntimo de adoração. O quinto e
último princípio, como já citado anteriormente, era o
nacionalismo. O protestantismo defendia a independência na
forma de adoração. Cada Igreja deveria se estruturar de acordo
com sua realidade, observando os costumes sócio-culturais de
sua região.
- 313 -

Com a expansão do protestantismo, a Igreja católica


criou o movimento de contrarreforma, que visava uma reforma
dentro da própria Igreja católica, buscando por fim aos
motivos que impulsionaram à Reforma. Destaca-se neste
movimento a ordem dos jesuítas, que tiveram grande impacto
no período de colonização do Brasil. Entre os nomes da
contra-reforma tomamos como referência Inácio de Loyola e
Francisco Xavier, peças fundamentais da ordem jesuíta.
A divergência entre os Estados da Reforma e os
católicos da Alemanha, iniciou em 1618 a Guerra dos Trinta
Anos, que envolveu quase todos os países europeus. Questões
políticas e religiosas estavam envolvidas nesta guerra, fazendo
com que Estados que professavam a mesma fé apoiassem
partidos contrários. A guerra terminou em 1648, com a
assinatura do Tratado de Paz de Westfália, que definiu os
limites dos Estados católicos e protestantes.
O final do século XVII e decorrer do século XVIII
foram marcados pelos ideais do iluminismo. Tendo a França
como “fonte” de idéias, emergindo inúmeros pensadores, o
iluminismo veio contra os preceitos da Igreja e do Estado,
defendendo uma reforma na sociedade através da razão, onde
o homem se torna senhor de seu destino. É importante destacar
este momento, pois apesar de destronar a teologia na época, o
iluminismo com a busca pela razão, pelas formas de pensar,
contribuiu de forma significativa na forma de pensar de
diversas denominações cristãs, fazendo com que novos
estudos a respeito da Bíblia fossem feitos, com o intuito de
rebater as críticas surgidas na época a respeito da veracidade
do conteúdo bíblico.
A Igreja do século XX esteve cercada por problemas
de cunho social e doutrinário. As duas grandes Guerras
Mundiais influenciaram diretamente na forma de pensar e nas
- 314 -

ações tomadas pela Igreja. Durante a Primeira Guerra, o ato de


recrutar combatentes era visto como uma atitude nobre, digna
de pessoas santas. Morrer em um campo de batalha era sinal
de que a vida celestial estava garantida. Na Segunda Guerra, a
Igreja agiu de forma diferente, buscando abster de qualquer
convocação que incitasse o ódio, aliando-se aos que eram
contra a luta armada e se colocou a orar pelos que estavam em
campo de batalha, até mesmo pelos adversários de seus
respectivos países. Após os conflitos, colaborou na
reconstrução dos países.
Outro problema que cercou a Igreja neste período foi à
separação racial, muito forte na África do Sul (apartheid) e nos
Estados Unidos com as pessoas de etnia negra. Com a
migração dos negros para o norte dos Estados Unidos, o
problema veio a se tornar nacional. A Igreja agiu como
colaboradora das questões sociais e como consciência viva da
nação, segundo Hurlbut (2007). A justiça social e econômica
se tornou mais uma frente de trabalho para a Igreja. Com a
constatação da falha do sistema de comunismo, fez-se
necessária a prática e atitudes individuais dos cristãos
enquanto cidadãos frente a estas questões.
Como consequência da situação econômica e das
guerras mundiais, nota-se o crescimento do liberalismo
teológico. Este liberalismo se apoiava na teoria da evolução e
na crítica bíblica, focando um cristianismo humanista, tendo
como padrão a ética do homem. A revolução constante, que
segue há mais de dois séculos, exige também a constante
mudança da Igreja, precisando adaptar-se às novas realidades
sem alterar seus princípios. Talvez este seja o grande desafio
encontrado no século XXI, frente o crescimento exponencial
- 315 -

de adeptos à Teologia da Prosperidade156. E podemos


observar como promessa central da doutrina da prosperidade o
“direito” de todo cristão desfrutar saúde e riqueza. Conforme
Hagin, a vontade de Deus é que o cristão sempre esteja bem e
doença não é algo de Deus. Contudo, textos como I Timóteo,
capítulo 5, versículo 23 e Filipenses, capítulo 2, versículos 25
a 27, por exemplo, falam diretamente, e com naturalidade,
sobre doenças: “Nesse meio tempo, pensei que devia mandar
Epafrodito de volta a vocês. Vocês os enviaram para que me
ajudasse em minha necessidade, e nós dois temos sido
verdadeiros irmãos, trabalhando e lutando lado a lado. Agora
eu o estou enviando de volta para casa, pois ele tem tido
saudades de todos vocês e está aflito porque vocês souberam
que ele estava doente. De fato, ficou doente e quase morreu.
Deus, porém, teve misericórdia dele, e de mim também, não
permitindo que eu tivesse tristeza sobre tristeza.157
A justificativa da teologia da prosperidade se atrela a
dois tipos de resposta. A primeira resposta seria de que o
Novo Testamento quando cita doença é para destacar a cura. A
segunda resposta é que, se existe um cristão enfermo, é porque
lhe falta fé. Através de uma fé sem medidas, ser curado de um
câncer é tão simples quanto ter seus pecados perdoados por
Cristo. Pieratt (1993) aponta outras razões apresentadas pela
teologia da prosperidade para explicar a situação de um cristão
doente. Além da falta de fé, se encaixariam neste grupo: a falta
de conhecimento dos direitos à saúde do cristão, a não

156
A Teologia da Prosperidade, também conhecida como “Confissão
Positiva”, é um movimento recente. Sua doutrina, configurada já na década
de 70, começou a ser construída através de estudos e experiências,
iniciados nos Estados Unidos, entre a década de 30 e 40, tendo como
precursores Kenneth Hagin e Essek William Kenyon.
157
(Filipenses 2:25-27) NBV.
- 316 -

solicitação de ajuda, os pecados não confessados, e a não


expulsão de Satanás mediante a confissão positiva. A culpa
por contrair e não eliminar doenças, portanto, estaria sempre
na pessoa ou no diabo.
A prosperidade material também se encaixa na mesma
idéia da prosperidade da saúde, ou seja, a pobreza não poderia
vir de Deus. Hagin, em seu livro Autoridade do Crente158,
declara que, se Jesus vivesse no século XX, certamente
andaria em um Cadillac [carro moderno da época].
Esta idéia nos permite levantar um questionamento. Se
as necessidades e a pobreza não são algo divino, como
explicar o nascimento de Jesus em uma estrebaria? Além do
atrelamento do sucesso financeiro ao relacionamento com
Deus, outro ponto importante nesta temática diz respeito ao
aumento das ofertas à Igreja. A teologia da prosperidade
afirma que a regra espiritual das finanças é que quanto mais a
pessoa doar, mais ela terá. Não é muito difícil ver pessoas
deixando de pagar suas contas e vendendo objetos de sua casa,
buscando um aumento da bonança financeira divina. Sem
dúvida, através da globalização, houve uma imensa difusão
cultural em quase todos os lugares do planeta. Podemos
compreender melhor esta expansão de informações e novas
verdades através do desenvolvimento dos mecanismos de
comunicação. Retomando a proposta de comunicação cultural
defendida por Bourdieu, podemos refletir como a TV, a
música, as pinturas e demais formas de expressão cultural,
influenciam a Igreja Cristã do século XXI. Para tais formas de
comunicação, vemos a mídia utilizar o termo gospel. Mas
afinal de contas, o que significa este termo? A expressão
gospel pode ser traduzida pela palavra “Evangelho”, ou seja,
“boas novas”.
158
Graça Editorial. Sem data de publicação.
- 317 -

Para compreendermos melhor a criação e definição de


“mercado gospel”, é necessário analisar um fator importante
que impulsiona o surgimento e manutenção deste mercado: a
emancipação do cristão do “mundo”. Existe uma tendência de
tentar adaptar situações bíblicas aos dias atuais, talvez pela
necessidade que o cristão encontra de querer experimentar
sensações advindas da comunhão divina. Não é difícil
encontrarmos pessoas dizendo que estão passando pelo “vale”,
que não vão se contaminar com os “manjares do rei”, que se
sentem como “Jó”, campanhas de “40 dias” em busca de
determinado objetivo, entre outras situações. A Bíblia possui
uma mensagem tão forte que desperta uma forte crítica dos
que se opõem à veracidade de seu conteúdo, da mesma forma
que cria um sentimento de apropriação aos que crêem em seus
textos.
Com a proposta de abdicação das coisas que são do
“mundo”, criou-se uma demanda muito grande: como atender
as questões sócio-político-econômicas de um grupo [de
evangélicos especificamente] que vem crescendo
exponencialmente? Atrelado às manifestações culturais o
mercado gospel ganha um espaço considerável e passa ser
incentivado pela esfera sócio-político-econômica, tornando-se
uma força que qualquer camada dominadora gostaria de ter.
Esta esfera incentiva a manutenção deste grupo, criando um
verdadeiro gueto religioso, mostrando uma autossuficiência
para existir, onde todas as suas necessidades podem ser
atendidas. Daí, vemos surgir grifes evangélicas, livros
evangélicos, Bíblias específicas para homens e mulheres,
programas de TV evangélicos, teatro evangélico, escolas
evangélicas e música evangélica.
Chega a ser incoerente, um povo que tem em seu
próprio livro de fé e prática [a Bíblia], uma mensagem de
- 318 -

humildade e comunhão, representada pela abdicação de toda


glória celestial da parte de Cristo para que todos conhecessem
o amor de Deus para com os homens, se reservar a levar uma
vida distante das coisas do “mundo”, em uma realidade
forjada pelo capitalismo, esperando a morte [ou o apocalipse],
para ir viver no céu.
A busca por prosperidade sempre seduziu o ser
humano. O forte merchandising religioso, que por meio do
mercado gospel e da teologia da prosperidade, vende a idéia
de uma vida feliz, rica e sem sofrimento, faz com que o
indivíduo se enquadre a um novo grupo, subjugado a
determinadas regras; um sujeito disciplinado e alienado. Aqui
discutiremos a fé, não no viés da sua natureza e função
eminentemente espirituais, mas sim na perspectiva da sua
utilização enquanto dispositivo de controle, e para tal, nos
guiaremos em Foucault (2004), segundo o qual, um corpo
dócil é aquele que pode ser submetido, utilizado, transformado
e aperfeiçoado; um corpo que pode ser analisado e
manipulado, um corpo útil. A produção deste corpo dócil se dá
através do controle, e para que esta ação seja eficaz faz-se
necessária a análise de três fatores fundamentais: escala do
controle, objeto do controle e a modalidade do controle.
Por escala do controle, podemos compreender como
sendo um exercício constante da coerção, que tem como
finalidade manter o nível do poder sobre este corpo, criando
assim um poder infinito. O objeto do controle visa uma
organização interna no indivíduo, trazendo eficácia a seus
movimentos. A modalidade do controle é a ação constante,
que tem seu foco voltado aos processos de atividade do que
sobre os resultados. Podemos observar aí o desenvolvimento
da disciplina.
- 319 -

Para Foucault (2004), a disciplina se tornou


dominação. Uma relação entre obediência e utilidade. O corpo
humano é esquadrinhado, desarticulado e recomposto pelo
poder. Podemos afirmar então que a disciplina fabrica corpos
dóceis. E podemos observar a utilização da Igreja (espaço
físico), como espaço para execução da disciplina, além do
modelo panóptico, onde o homem é vigiado pela onipresença
e onisciência de Deus (cerca simbólica). A disciplina organiza
um espaço analítico, atuando de tal forma que não permite
espaços para dúvidas; abraça os decididos a se submeter a esta
disciplina, e afasta os opositores.
Destacamos também que a disciplina possui uma
regra de localização funcional, ou seja, possui um lugar
determinado que, além de vigiar, rompe as comunicações
consideradas perigosas e cria um espaço útil. Por último,
Foucault afirma ainda que, na disciplina, os elementos são
intercambiáveis, pois cada indivíduo se define pelo lugar que
ocupa e pela distância que o separa dos outros.
Segundo Foucault (2004), o poder disciplinar adestra
as multidões confusas, móveis, inúteis de corpos e forças. As
diferentes posições hierárquicas que a Igreja ocupou permitem
que possamos absorver uma grande gama de informações,
além de mostrar como a Igreja se alienou de si mesma, não
apenas no senso comum da teoria marxista de “ópio do povo”,
que destrói e segrega, mas também uma alienação de sua
essência, ou seja, a Igreja, ao perder sua identidade [essência],
entrou em um processo de desconstrução e reconstrução de
seu papel, deixando de ser espaço de comunhão, e se tornando
uma espécie de canal, um espaço mediador entre Deus e o fiel;
espaço este que vem se modificando novamente, onde este
poder de mediação já não se encontra mais na Igreja, mas sim
nas mãos dos padres, pastores, bispos e afins.
- 320 -

Se a fé é algo indiscutível, ou inatingível, como exercer


algum tipo de influência sobre ela? Talvez a resposta esteja
nos mecanismos de comunicação cultural e na legitimação de
algum detentor da fé; seja a Igreja, alguma religião, ou líder
religioso. O foco não é ter domínio sobre a fé, mas fazer
acreditar que se tem. Neste quesito, a teologia da prosperidade
vem demonstrando muita habilidade; exerce tanta força, que
chega a impulsionar as demais denominações cristãs (batistas,
presbiterianos, etc.) a agirem de forma semelhante para não
perderem espaço. Cria-se uma verdadeira competição; uma
imensa bola de neve. Observemos os programas de TV. Os
programas que apresentam o formato da teologia da
prosperidade pedem doações exorbitantes, geralmente
afirmando alguma “retribuição divina” (Aqui, encaixa-se
perfeitamente a expressão “Deus lhe dê em dobro”). Com a
quantidade de adeptos aumentando, a audiência da emissora
aumenta e o horário torna-se mais caro, fazendo com que a
manutenção deste horário torne-se mais difícil. Com este
horário mais valorizado, o programa de TV do líder religioso
que não é adepto à teologia da prosperidade [chamemos neste
trabalho, para facilitar na identificação, de tradicionais],
encontra-se em uma dificuldade; a de como obter recursos
para manter-se no ar. A solução encontrada pelo líder
tradicional é a de criar espaços comerciais; vender livros,
Bíblias, viagens, lançar no mercado músicos e cantores que
possam ajudar em seu ministério.
A música (como as artes em geral), sem dúvida
alguma, é uma verdadeira vitrine da realidade da sociedade;
tem a capacidade de refletir e perpetuar o pensamento da
época. Grande parte das músicas criadas entre a década de 80
e 90 possui um contexto mais relacional à figura de Deus. Os
textos bíblicos são mesclados a situações do cotidiano,
- 321 -

aparecendo pela primeira vez questões sócio-políticas.


Destacamos os nomes de João Alexandre, Adhemar de
Campos e Sérgio Lopes. As músicas do novo milênio, onde
cantores são atrelados a uma determinada gravadora, seguem a
realidade da época: produzir é preciso e vender é fundamental.
Escolhe-se uma música tema para o álbum e a explora através
das rádios, programas de TV e pelo mecanismo de transmissão
cultural mais barato e eficiente nesta situação, que é a Igreja.
Cria-se a idéia de que a Igreja deve estar “atualizada” em
relação ao que acontece no cenário gospel. Músicas que estão
em evidência criam a possibilidade de que mais pessoas
conheçam as letras e venham a participar do culto na hora do
louvor. Boa parte das pessoas que vão às Igrejas está
fragilizada. E observando pelo viés psicológico, é simples
compreender como igrejas com músicas, campanhas, e
promessas de prosperidade obtêm uma adesão maior, frente as
que exaltam o nome de Deus e falam de um relacionamento
espiritual com Deus.
O homem é um ser social, influenciando e sendo
influenciado pelo meio em que vive. Através das construções
e desconstruções de conceitos, a sociedade vai criando sua
própria identidade e cultura. Compreender a dinâmica cultural
de determinado grupo requer observação constante, pois é um
mecanismo que se movimenta e se recicla a todo instante.
Através dos postulados de Bourdieu e Vygotsky, grandes
pensadores mostram que a construção do sujeito se dá através
das interações com o meio. Tais interações são feitas através
do uso de regras e instrumentos. Dentre estes, o pensamento e
a linguagem, ferramentas imprescindíveis à formação social.
O homem está sempre identificando e atribuindo significado
às informações transmitidas pelo meio, ou seja, pela cultura
que existe em seu ambiente relacional.
- 322 -

Sabendo da submissão do sujeito à esfera sócio-


politico-econômica, pudemos constatar também a influência
de uma quarta camada de poder no processo de formação do
indivíduo: a Igreja. Utilizando como objeto de observação a
Igreja cristã, partindo de sua origem bíblica, compreendemos
seu processo de institucionalização e relação com o Estado ao
longo dos séculos, até chegarmos ao século XXI. Pudemos
também observar os primórdios da Igreja cristã; sua
perseguição; proteção pelo Estado; exercício do poder sobre o
mesmo; e através de alianças políticas e guerras, a perda de
seu prestígio. Ao fazer uma comparação entre a Igreja
primitiva e a deste novo milênio, encontramos várias
mudanças, inclusive ideológicas, que nos fazem pensar sobre
o papel da Igreja nos dias atuais. A Igreja sempre esteve, e
ainda está atuando junto à esfera sócio-político-econômica;
manipulando através daquilo que não se pode ver: a fé Através
da disciplina, criam-se corpos dóceis; corpos dominados.
Atualmente é o Deus “gênio da lâmpada” que impera;
divulgado por líderes que pregam o que o povo gostaria de
ouvir, e não o que a palavra do Deus que supostamente se
prega, ou seja, a Bíblia, diz. Fazer acreditar que é possível que
Deus faça aquilo que a pessoa deseja que Ele faça, não
importando se Ele quer ou não, é a grande jogada desta época.
Que moral esta geração tem para falar do povo no Egito que
adorava o bezerro de ouro, se nos dias atuais a situação se
encontra semelhante? O “bezerro de ouro” desta geração, sem
dúvida alguma é a prosperidade, os líderes que se definem
como “representantes” de Deus na terra, é o “meu” bem estar;
o “meu” conforto; a “minha” felicidade. Uma verdadeira
adulteração da oração do “Pai Nosso”: que seja feita a NOSSA
vontade, assim na terra como no céu.
- 323 -

REFERÊNCIAS

BÍBLIA NOVA VERSÃO INTERNACIONAL.


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