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Análise do poema Soneto científico a fingir de Ana Luísa Amaral

1- Explicar o conceito de “arte poética” subjacente ao poema:


O conceito de arte poética consiste no produto artístico e no espaço de reflexão
do poeta sobre o próprio poema. Neste sentido, ao longo desta composição, o “eu”
enunciador revela-se preocupado e atento com o conteúdo do seu poema e não com a
sua forma (“Só não vejo vantagens pela rima/ E se é soneto coxo, não faz mal/ E se não
tem tercetos, paciência:”)
Assim, ao contrário dos poetas clássicos, o sujeito enunciador trabalha a sua
imaginação de forma a escrever um poema significante e instrutor daí que o título
deste ensaio lírico seja “Soneto científico a fingir”.

2- Identificar três marcas de coloquialidade presentes no poema:


As marcas de coloquialidade subjacentes a grande parte das obras estudadas
relacionam-se com os critérios que os seus autores utilizam para lhes atribuir um
maior dinamismo, musicalidade e proximidade aos leitores. Desta forma, e neste
poema o sujeito enunciador recorre a interrogação retórica (“Que me interessa que
seja por soneto/ em vez de verso ou linha devastada? / O soneto é antigo?”, vv.5-7) e à
exclamação (“Isso é ciência!”, v.20).
Por outro lado, utiliza uma linguagem popular, frequentemente, usada em
situações informais, quando falamos de uma maneira mais rápida, espontânea e
descontraída “paciência”, v.18.
Concluindo, explora o recurso expressivo ironia no verso parentético “([esta
rimou, mas foi só por acaso])” como forma de demostrar a sua aversão ao clássico.
3- Explicar o título do poema, relacionando-o com o conteúdo das
estrofes que o compõem:
O sujeito enunciador estabelece o diálogo da tradição com exploração do tema do
amor e ciência, acabando por criar a sua própria arte, que não segue regras estreitas.
Neste sentido, o "Soneto científico a fingir" apresenta marcas da herança clássica no
título, referindo o soneto, mas, após a sua leitura, percebe-se a alternância entre o
clássico e o moderno. Nomeadamente, a ausência do uso de rimas e a utilização de
dois quartetos e dois tercetos. O “eu” enunciador cria uma espécie de enlace entre a
escrita clássica, que não usa, e o que demonstra ser verdadeiramente importante na
escrita, nomeadamente, os sentimentos que expressa, enquanto mulher.
Neste sentido, apesar de enunciar todas as regras que deve seguir um soneto,
limita-se a escrever expressando-se sem regras concretas.

4- Identificar dois recursos expressivos e comentar o seu efeito


estético:
São vários os recursos expressivos aos quais, ao longo deste poema, o sujeito
poético recorre. Por um lado, verificamos a utilização da ironia no verso parentético,
introduzido na terceira estrofe, que consiste no desabafo do “eu”, no registo informal
(marca de coloquialidade) e que realça a construção tradicional de um soneto. Por
outro lado, usa a anáfora no décimo sétimos e décimo oitavo verso com o intuito de
reforçar a ideia de que se o soneto não respeitar o número de estrofes clássico, ou
mesmo a rima, não tem problema, uma vez que a importância é o conteúdo e não a
forma.
Concluindo, aplica a interrogação retórica como forma de apelar a reflexão dos
leitores sobre relevância da matéria sobre a qual escreve em detrimento da estrutura
do poema.