Você está na página 1de 11

Introdução

A Psicanálise estruturou-se através dos trabalhos e


esforços árduos da figura de Sigmund Freud, mas as
contribuições de outros pesquisadores da área foram imensas
para tornar a Psicanálise uma ciência com teoria e prática cada
vez mais aplicáveis, além do desenvolvimento de novos
conceitos e métodos de intervenções clínicas.

Donald Winnicott foi um desses pesquisadores e


colaboradores da prática psicanalítica, médico britânico e
interessado na psicanálise, dedicou-se aos estudos da teoria
de Freud, e logo após desenvolveu seus próprios trabalhos,
estruturando uma nova escola analítica.

Dentre as principais contribuições de Winnicott está à


importância aplicada à relação da dupla mãe-bebê no
desenvolvimento de uma personalidade e das interações sociais e
patogenias que o sujeito desenvolverá futuramente, o conceito de
holding aplicado na teoria winnicottiana é um dos principais para
estruturação dessa relação.

A pretensão deste presente artigo é explicitar de modo


sucinto a teoria deste grande pesquisador da Psicanálise, Donald
Winnicott, enfatizando a explicação do conceito de holding na
formação da personalidade dos sujeitos. Serão abordados
brevemente os aspectos constituintes da personalidade na teoria
geral desse teórico, enfatizando determinados conceitos, e
posteriormente uma análise maior no conceito de holding na
relação da figura materna com a criança, e por fim, buscaremos
correlacionar o processo de holding com a prática dos
psicanalistas no setting terapêutico, baseados na clínica
winnicottiana.
Breves Definições dos Aspectos Constituintes da
Personalidade na Teoria de Donald Winnicott

A obra de Winnicott é marcada pelo estudo de estágios


primitivos na constituição do desenvolvimento humano,
principalmente ao que se diz a parte emocional, com suas
experiências como psicanalista e médico pediatra, deu enfoque
no desenvolvimento da criança.

De acordo com ZIMERMAN (1999) o desenvolvimento


dentro dos padrões de normalidade, para Winnicott, seria
composto de três etapas: 1) a personalização, ou seja, a formação
da noção de um esquema corporal para o bebê; 2) a fase de
adaptação da realidade externa, onde o bebê nota-se ainda como
dependente da figura da mãe e entende o mundo real e objetivo e
por último a fase 3) onde ocorrem as descargas de agressividade
ou crueldade primitiva.

Nessas três fases citadas na obra Desenvolvimento


emocional primitivo, em 1945, o teórico demonstra o
desenvolvimento infantil, mas também conjuntamente abrange as
primeiras noções na sua teoria sobre a constituição da
personalidade adulta. Mas não só o papel da criança em
desenvolvimento foi observado pela análise winnicottiana, mas a
relação da dupla mãe e bebê (mãe-bebê), e como essa relação da
criança “desamparada” com o seu apoio materno busca a
constituição de uma personalidade.

Outro ponto importante a ser abordado é a questão das


relações objetais desenvolvidas com a dupla mãe-bebê,
Winnicott constrói o termo objeto transacional para os primeiros
objetos (reais) que o bebê manipula e deposita atenção e
afetuosidade, um exemplo seria uma chupeta, um brinquedo e
etc.
O valor dessa primeira relação objetal está no fato de
auxiliar na criação dos sentimentos de confiança e criatividade
da criança, nesse momento a figura materna deverá agir como
facilitadora desse processo.

Segundo LESCOVAR apud WINNICOTT (2001, p.46),

O início das relações objetais é complexo. Não pode ocorrer se o meio não
propiciar a apresentação de um objeto, feito de um modo que seja o bebê
quem crie o objeto. O padrão é o seguinte: o bebê desenvolve a expectativa
vaga que se origina em uma necessidade não-formulada. A mãe, em se
adaptando, apresenta um objeto ou um manejo corporal que satisfaz as
necessidades do bebê, de modo que o bebê começa a se sentir confiante em
ser capaz de criar objetos e criar o mundo real. A mãe proporciona ao bebê
um breve período em que a onipotência é um fato da experiência.
Somente em 1960 é que Winnicott investe no estudo
aprofundado das relações entre pais e filhos, principalmente a
questão do bebê e sua mãe, buscando uma definição das funções
da mãe (assim como o pai e o ambiente) para a determinação da
personalidade. Conceitos como preocupação materna primária,
ego auxiliar, e as funções essenciais da “mãe suficientemente
boa” serão indissociáveis para qualquer pesquisador que busque
entender a teoria e prática winnicottiana.

A Mãe Suficientemente Boa

Uma dos aspectos mais trabalhados em Winnicott são as


funções exercidas pela mãe no desenvolvimento da
personalidade do bebê, essas funções podem ser resumidas como
a qualidade de uma mãe ser “suficientemente boa”.

A “mãe suficientemente boa” de Winnicott, não condiz


com um modelo materno de padrões utópicos e onde se agrupa
todas as características que retratam o Bem, mas uma mãe que
exerce na sua relação com o filho (a) qualidades essenciais de
apoio, proteção e aceitação.
De acordo com LOBO apud PHILLIPS (2008) se na
França houve um retorno a teoria freudiana, com Lacan, na
escola psicanalítica britânica houve um retorno a mãe e a todo
contorno de significados importantes a maternagem, através de
Winnicott.
São três as características que devem estar presente na figura
materna para classifica - lá como “suficientemente boa” de
acordo com Winnicott, sendo elas conceituadas
como Holding, Handling, e a apresentação dos objetos.

Segundo MONTEIRO apud WINNICOTT, (1975);


VALLER, (1990); COUTINHO, (1997), “[...] nos primeiros
meses da vida do bebê, a “mãe suficientemente boa” tem três
funções, assim sintetizadas por
Winnicott: holding (sustentação), handling (manejo) e a
apresentação dos objetos”.

Especificando esses termos, temos o holding como à


“sustentação” praticada pela mãe ao bebê, um conjunto de
comportamentos que visam apoiar a criança, como a
amamentação, firmeza, o carinho e entre outras ações de
satisfação a dupla. O handling faz referência à manipulação do
bebê pelas mãos cuidadosas da mãe, e contato físico da dupla,
que construirá as noções corporais ainda frágeis do bebê; e por
último temos a apresentação dos objetos como à qualidade da
mãe demonstrar-se como passível de ser substituída, e apresentar
novos modos da criança agir no ambiente, por conta do seu
próprio esforço e criatividade.

Dentre essas três qualidades da “mãe suficientemente boa”


este artigo enfocará no conceito do holding na construção da
personalidade do sujeito.

Holding: O Suporte Materno


O termo holding é de origem inglesa, e provém do verbo
inglês To hold que significa para MARQUES (2008) segurar,
manter, ter capacidade para conter, agüentar, resistir entre outros
sentidos sinônimos. O holding é umas das funções da “mãe
suficientemente boa” que auxilia na edificação de uma
personalidade no filho, e que é importante para todas as relações
que o sujeito exercerá com outras pessoas e com o meio,
futuramente.

Quando nascemos somos frágeis e desprotegidos, é


necessário que em um primeiro momento ou uma fase da vida
possamos contar com um organismo que sirva de apoio a
sobrevivência, esse corpo-auxiliar é o corpo da figura materna,
que não só fornece o aparato físico (nutrição, asseio,
aquecimento), mas também fornece a experiência simbólica dos
sentimentos de amor, proteção, e os cuidados que uma mãe
dispensa normalmente a um filho.

A mãe oferece a função de conter as identificações


projetadas pela criança, acolhendo os medos, as ansiedades, as
angústias e transformando isso em afeto e em sensação de
desintoxicação.

De acordo com ZIMERMAN apud WINNICOTT (1999)


“o primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe, seu
olhar, sorriso, expressões faciais, etc.” Essa mãe que se apresenta
como espelho ao filho no processo de holding, não deverá jamais
ser entendida como uma mãe-espelho que é passiva e fria, mas
deve ser concebida como uma mãe que empresta as “funções
egóicas” (perceber, ter um juízo crítico, pensar e etc.) à criança,
sem perder seu papel ativo, transformador e sadio de levar em
frente à questão da formação da personalidade independente e
adulta do filho.

O olhar será umas das ações importantes do processo


de holding, mesmo porque o bebê mantém ainda a relação “mãe
que se faz espelho”, o olhar cuidadoso e que dispende cuidados a
criança ficará marcado no ego infantil como um símbolo de
importância e confiança no outro. Informa-nos, POLITY apud
WINNICOTT (1988) “quando olho sou visto, logo existo. Agora
tenho condições de olhar e ver. Agora olho criativamente, e o
que eu apercebo eu também percebo." Este olhar afetuoso e
cheio de significados trará a criança quando adulto a
possibilidade de observar o mundo de forma mais integrada e
criativa, e firmará a capacidade de buscar novos interesses,
mesmo porque sabe que o “olho materno” observa e cuida, mas
não sufoca as possiblidades de experimentação do novo.

É importante destacar que não só a figura da mãe


estabelece o holding, mas a figura parental paterna e o ambiente
facilitador são decisivos nesse constructo.

A figura paterna provocará reações de desligamentos da


dupla mãe-bebê impedindo assim a dependência excessiva de
ambos e concretizando o conflito edípico especificado por Freud,
revisitado e caracterizado por SOUZA apud LAPLANCHE E
PONTALIS (2004, p.22),

[O Complexo de Édipo] Conjunto organizado de desejos amorosos e


hostis que a criança sente em relação aos pais. Sob a sua forma dita
positiva, o complexo apresenta-se como na história de Édipo-Rei: desejo da
morte do rival que é a personagem do mesmo sexo e desejo sexual pela
personagem do sexo oposto. Sob a sua forma negativa, apresenta-se de
modo inverso: amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento ao
progenitor do sexo oposto. Na realidade, essas duas formas encontram-se
em graus diversos na chamada forma completa do complexo de Édipo.
Segundo Freud, o apogeu do complexo de Édipo é vivido entre os três e os
cinco anos, durante a fase fálica; o seu declínio marca a entrada no período
de latência. É revivido na puberdade e é superado com maior ou menor êxito
num tipo especial de escolha de objeto. O complexo de Édipo desempenha
papel fundamental na estruturação da personalidade e na orientação do
desejo humano. Para os psicanalistas, ele é o principal eixo de referência
da psicopatologia.
Um ambiente facilitador proporciona o desenvolver de uma
personalidade sadia na criança, esse ambiente deverá ser
composto de qualidades físicas que ofereçam apoio ao sujeito e
promova a possibilidades de criar, explorar e buscar experiências
emocionais boas. Segundo ATIÉ (1999), Winnicott trás
conceitos bastante inovadores a prática psicanalítica, dando
importância à questão do ambiente como um espaço
transacional, e diferentemente de Melanie Klein, aborda o
ambiente da vida da criança como indispensável na construção
de suas escolhas futuras e personalidade, para Winnicott o
ambiente é um conjunto de qualidades físicas espaciais e as
figuras parentais atuantes, principalmente ao que se diz a figura
materna.

Embora a figura paterna e o ambiente facilitador tenha


valor, é na figura simbólica da mãe que inicialmente o bebê se
ligará, e com o relacionamento holding de uma “mãe
suficientemente boa” obterá apoio e proteção no erguimento de
um self independente.

Holding na Clínica Winnicottiana

A relação de holding se estabelece desde o período de


desenvolvimento infantil normal entre a dupla mãe-bebê, sendo
decisiva na determinação do psiquismo da criança e sua
organização frente à realidade externa. A função holding da mãe
é física e emocional ao mesmo tempo, e determinará a formação
do verdadeiro ou falso self.

De acordo com BLEICHMAR & BLEICHMAR (1992),


Winnicott definirá o verdadeiro self, que provém da relação com
a “mãe suficientemente boa”, um núcleo que se formará com os
instintos, energias pulsionais, e capacidades percepto-cognitivas
de forma organizada no bebê. Se a relação da criança com a mãe
não realizar-se como “suficientemente boa” emergirá uma
“casca” de proteção ao meio externo, que originará da relação
angustiante e não provedora da sustentação necessária ao ego
frágil infantil, esse será o falso self.

O falso self impede o aparecimento do núcleo organizado e


verdadeiro do sujeito, em certos casos gerando patologias devido
o total preenchimento do verdadeiro self pela “máscara” imposta
por essa falsa apresentação.

Na clínica psicanalítica são comuns às queixas dos


analisados pelo desconhecimento do próprio ser e por questões
que implicam na presença de sentimentos de incerteza,
dependência, angústia, falta de criatividade, falta de motivação
e sensação de vazio nas suas vidas. Esse “adoecimento” do
sujeito para Winnicott têm origem nas relações mantidas com a
realidade externa, mas que também provém de um estágio
infantil na formação da personalidade, caracterizado por falhas
no ambiente facilitador e nas figuras parentais, com destaque a
relação mãe-bebê.

O setting terapêutico, da clinica winnicottiana, deverá


favorecer o aparecimento de um estado de regressão no sujeito
analisado e o analista ter capacidade para sustentar a relação de
auxílio e apoio na terapia, desempenhando uma relação
de holding.

Para BLEICHMAR & BLEICHMAR (1992), o analista


winnicottiano desempenhará uma função da figura materna na
sua relação com o analisado, está função será a relação
de holding, na qual o analista se faz presente, não julga as
atitudes moralmente e serve de sustentáculo as angústias e
dúvidas do analisado. Assim como a “mãe suficientemente boa”
o analista acolherá o ego frágil do outro, permitindo que as
funções egóicas do analisado se integrem.

Toda a técnica para estabelecer o holding entre o analista e


o analisando será para favorecer que no setting terapêutico
apareça o fenômeno da regressão (no analisado). O fenômeno da
regressão do analisado consiste em oferecer através de um
ambiente facilitador (o setting) e uma figura que estabeleça as
relações de suporte (o analista) condições para reelaborar o
desenvolvimento, e possivelmente experimentar o contato
terapeutizante de uma relação com um Outro “suficientemente
bom”.
Na regressão o analisado experimentará novamente a fase de
dependência absoluta aos cuidados de outrem, segundo NETO
apud WINNICOTT (2008, p.83),

A regressão à dependência absoluta se refere à fase em que a criança


depende absolutamente dos cuidados maternos, mas não tem condições de
reconhecê-los como procedentes do exterior. A isso ele denomina de “dupla
dependência”, pelo fato de o bebê depender dos cuidados maternos, que no
início devem ser quase perfeitos, e desconhecer a origem deles. Mais tarde,
quando o self (si-mesmo) estiver mais desenvolvido e o ego mais fortalecido,
teremos a fase de dependência relativa, rumo à independência. Então os
cuidados maternos serão gradativa e sensivelmente retirados, de acordo
com a tolerância do bebê.
Tendo chegado ao estado de regressão (caracterizado pela
dependência) o analisado poderá finalmente agora ter reação ao
ambiente e cuidados falhos, daquele que deveria ser
“suficientemente bom” e por certos motivos não foi total ou
parcialmente.

O analista baseado na relação de holding favorecerá o


analisado reviver os estados de desenvolvimento primitivo,
buscando a criação de um referencial de confiança que incite a
independência e fortalecimento do ego do sujeito. Do mesmo
jeito que agiria a “mãe suficientemente boa” sustentando o seu
filho, o analista sobreviverá aos ataques de ódio do seu analisado
e com estabilidade emocional aceitará as falhas que lhe forem
apontadas; somente assim o falso self é enfraquecido e reaparece
o sujeito integrado.

Considerações finais
Através de um breve apanhado teórico buscou-se nesse
trabalho o entendimento das questões básicas na teoria
psicanalítica desenvolvida por Donald Winnicott, principalmente
focando nas funções da “mãe suficientemente boa”,
especialmente a função de holding.

Como demonstrado ao longo desse artigo, a conceituação


de holding é caracterizada por um conjunto de ações integradas e
indissociáveis realizadas pela figura materna no cuidado ao seu
filho, essa função ou qualidade na relação mãe-bebê atua na
constituição física e emocional da criança.

Dentre os vários importantes fatores na formação da


personalidade estudados por D. Winnicott, o holding tem papel
fundamental na integração das partes que formam o self do
sujeito, desde o período de desenvolvimento infantil até a idade
adulta.

A falta do suporte da mãe para com o filho no seu


desenvolvimento emocional primitivo resultará em profundas
marcas na personalidade, afetando a motivação, a criatividade, a
sensação de segurança e confiança na realidade externa. A
ausência da “mãe suficientemente boa” e de um ambiente
facilitador possibilitará a criação por parte do sujeito de um
falso self, que tem função de proteger o sujeito da realidade
externa causadora de angústias e desconfiança.

Winnicott desenvolve em sua prática analítica técnicas


capazes de enfraquecer o núcleo geralmente prejudicial do
falso self, e reaparecer as características verdadeiras do sujeito.
No setting terapêutico winnicottiano o analista buscará oferecer
o holding ao analisado e com isso favorecer a regressão deste,
com a regressão o analisado finalmente poderá reclamar e até
mesmo odiar a figura e o ambiente falho que impende o seu
crescimento.
O conceito de holding e as técnicas clínicas de Winnicott
permitiram entender melhor a relação entre mãe e filho na
infância e como esse relacionamento e determinante na
elaboração de uma personalidade sadia e integrada da criança.
Aquele que utiliza dos conceitos e técnicas winnicottianas
mergulha em um “imenso mar” de vislumbre da relação singela e
peculiar entre a dupla mãe-bebê, e entende o verdadeiro
significado de ser um Outro “suficientemente bom” na clínica e
na vida.

Você também pode gostar