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Bendito Uiliamo Macajo

Edgar Carlos

Fama Hilário Mesa

Higino Jonas

Josseline Cristiano

Likaho e Suas Implicações na Relação Conjugal do Povo Nyungwe

2ºAno Pôs-Laboral

7º Grupo

Universidade Púngué

Tete

2019
Bendito Uiliamo Macajo

Edgar Carlos

Fama Hilário Mesa

Higino Jonas

Josseline Cristiano

Likaho e Suas Implicações na Relação Conjugal do Povo Nyungwe

2ºAno Pôs-Laboral

7º Grupo

Trabalho a ser apresentado na cadeira


de Antropologia Cultural, no curso de
Licenciatura em Gestão Ambiental e
Desenvolvimento Comunitário, no
Departamento de Terra e Ambiente.

Dr. Ezequiel Lampião

Universidade Púngué

Tete

2019
Índice

1. Introdução ........................................................................................................................................... 4
2.Objectivos ............................................................................................................................................ 5
3. Likaho e Suas Implicações na Relação Conjugal do Povo Nyungwe..................................................... 6
3.1. A concepção da doença e o papel dos médicos tradicionais: uma análise do corpo enquanto sistema
simbólico e sua relação com a cultura ...................................................................................................... 8
3.2. O likankho ...................................................................................................................................... 11
3.3. Classificação do likankho ............................................................................................................... 12
3.3.1. Likankho de Navalha ................................................................................................................... 12
3.3.2. Likankho de Embondeiro ............................................................................................................. 12
3.3.3. Likankho de Capim...................................................................................................................... 13
3.3.4. Likankho de Melância .................................................................................................................. 13
3.3.5. Likankho de Peixe ....................................................................................................................... 13
3.3.6. Likankho de Tartaruga ................................................................................................................. 13
4. Conclusão.......................................................................................................................................... 15
5. Referência Bibliográfica .................................................................................................................... 16
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1. Introdução

Durante o período colonial muitas práticas culturais dos povos africanos foram combatidas em
nome da civilização. No entanto, os saberes locais fazem parte da cultura e a cultura é algo vivo
e atuante que o povo carrega dentro de si. Mudou o regime colonial, mas seus rastos e suas
políticas ficaram de alguma forma imperando nos novos governos locais nos períodos da
independência e pós- independência. Mas o povo que antes sofrera com a situação colonial e
depois com as guerras civis, nunca deixou de viver a sua cultura da forma como foi herdada dos
seus antepassados em matéria de saberes, relacionamento e regras de conduta. (MAIA, 2011)

Falar das noções de saúde “reprodutiva” dentro do universo Nyungwe não é apenas falar da vida
como o oposto da morte ou de saúde como ausência de doença, pois implica em uma
compreensão muito mais ampla que tem base na cultura, a qual por sua vez estabelece normas
sobre os cuidados que devem ser observados para proteger a vida, desde o início até à morte. É
também falar sobre a memória, a história e a cultura oral do povo nyungwe; é falar sobre os
mitos e os tabus; é falar sobre a educação e o papel dos mais velhos como enciclopédias vivas e
detentoras do saber; é falar dos ancestrais e seu papel vital na comunidade e acima de tudo é falar
de elementos que estão interconectados como uma teia de aranha na qual não se pode tratar de
um sem mexer nos outros. No presente trabalho iremos abordar assunto relacionado com o
Likaho e suas implicações na relação conjugal do povo Nhungwe e esperamos que com estas
pequenas definições leve o leitor/a entender um pouco melhor sobre o assunto em questão.
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2.Objectivos

2.1. Geral

 Analisar o likaho e suas implicações na ralação conjugal.

2.2. Específicos

 Descrever os impactos do likaho sobre o povo Nyungwe.


 Compreender as Causas do Likaho na relação conjugal do povo Nyungwe.

2.3. Metodologia

Neste paragrafo, apresenta-se a metodologia usada ao longo do estudo incluindo os instrumento


de recolha e colecta de dados que contribuíram para a efetivação e realização deste trabalho
frisar que constituiu no método de enciclopédia livre e das matérias que abordam o tema e causa
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3. Likaho e Suas Implicações na Relação Conjugal do Povo Nyungwe

Falar das noções de saúde “reprodutiva” dentro do universo Nyungwe não é apenas falar da vida
como o oposto da morte ou de saúde como ausência de doença, pois implica em uma
compreensão muito mais ampla que tem base na cultura, a qual por sua vez estabelece normas
sobre os cuidados que devem ser observados para proteger a vida, desde o início até à morte. É
também falar sobre a memória, a história e a cultura oral do povo Nyungwe; é falar sobre os
mitos e os tabus; é falar sobre a educação e o papel dos mais velhos como enciclopédias vivas e
detentoras do saber; é falar dos ancestrais e seu papel vital na comunidade e acima de tudo é falar
de elementos que estão interconectados como uma teia de aranha na qual não se pode tratar de
um sem mexer nos outros. Trata-se de uma lógica de saberes que foge à lógica cartesiana de
conhecimentos. (MAIA, 2011)

É difícil falar da saúde sem tocar em outras dimensões que determinam a vida e a convivência no
cotidiano Nyungwe. Por isso, todos os elementos, isto é, a memória, a oralidade, os mitos, tabus
e educação estão interligados, se relacionam entre si e todos contribuem para a formação do
sujeito Nyungwe, separá-los seria como que causar um desequilíbrio natural dentro do sistema de
crenças deste povo. Neste sistema, as etapas de vida devem ser respeitadas. (MAIA, 2011)

Sinopse geográfica e histórica

A província de Tete situa-se na região centro-oeste de Moçambique. É a única província


moçambicana cercada por três países como o Malawi, a Zâmbia, e o Zimbabwe. Essas fronteiras
conferem à província um lugar importante na geopolítica e na economia de toda a região da
África Austral desde a época pré-colonial. (MAIA, 2011)

O lugar de destaque não é só de hoje. A atual região de Tete fazia parte do antigo Império de
Monomotapa.1 A prova disso hoje é o uso de nomes com o mesmo significado tais como:

Mambo = rei; Mutume = mensageiro; Mukuru = o ancião; o mais velho. Tanto em Tete, como no
Zimbabwe, esses nomes significam a mesma coisa.2 No séc. XVI, no território de Tete
realizaram-se os primeiros contactos comerciais dos portugueses com os nativos africanos, como
referiremos mais adiante. (MAIA, 2011)
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A etnia Nyungwe encontra-se nas margens do rio Zambeze, isto é, de Cahora-Bassa ao Lupata,
correspondendo à zona planáltica da região. O povo Nyungwe ocupa a cidade de Tete, os
distritos de Moatize, Changara e Cahora-Bassa. De acordo com dados estatísticos de 2006, a
província de Tete possui pouco mais de um milhão e meio de habitantes dos quais 27,9% são
falantes do cinyungwe, enquanto o cinyanja é falado por 48,4% e o cisena, 11,77%. Os Senas e
Nyungwes são dois grupos com a mesma origem e mesmas características etno-culturais. Terão
sido um mesmo grupo numa primeira fase, tendo começado a divergir por circunstâncias
diversas. Os Senas estão na parte inferior do rio Zambeze até à foz.

O cinyungwe faz parte das línguas de origem banto. Apresenta-se com algumas variações
dependendo da localização geográfica e dos limites com outras regiões do país e de fronteiras
com países vizinhos. Não podemos falar do povo Nyungwe, sem falar da importância que o rio
Zambeze tem exercido para esse povo banto ao longo da história. (MAIA, 2011)

Antropologia

Para situar o nosso objeto de estudo numa perspectiva, é necessário compreender o que é a
disciplina da antropologia propriamente dita, da qual a antropologia médica vem a ser um
desdobramento novo. Antropologia, que vem do grego e significa o estudo do homem, é definida
como a mais científica das ciências humanas e a mais humana das ciências. (HELMAN, 1994)

Seu objetivo é o estudo holístico da humanidade, suas origens, desenvolvimento, organizações


sociais e políticas, religiões, línguas, artes e artefatos.

Nessa perspectiva, Antropologia médica como sendo aquela que trata de como as pessoas, nas
diferentes culturas e grupos sociais, explicam as causas das doenças, os tipos de tratamento em
que acreditam e a quem recorrem quando ficam doentes. É de suma importância entender essa
definição, pois aqui se encontra o cerne do objeto da pesquisa. (HELMAN, 1994)

Portanto, embora a Antropologia médica seja um ramo da Antropologia social e cultural, ela
possui também raízes profundas na Medicina e em outras ciências naturais, por ocupar-se de uma
ampla gama de fenômenos biológicos, especialmente no que se refere à saúde e à doença.
(HELMAN, 1994)
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3.1. A concepção da doença e o papel dos médicos tradicionais: uma análise do corpo
enquanto sistema simbólico e sua relação com a cultura

Dentro da antropologia cultural do povo nyungwe, se existe um dos assuntos mais polêmicos que
pode gerar comunhão e solidariedade, brigas, mal-entendidos, perseguições, divisões entre
membros de família, mesmo na comunidade cristã, etc, é a doença e sua interpretação, no mais,
se ela culminar numa morte. A doença é um fato real, mas dependendo do tipo de doença, nem
sempre vai ser concebida como natural. (HELMAN, 1994)

Entre os nyungwe, não é possível falar do corpo sem falar da cultura, ou seja, o corpo humano
tem uma relação profunda com a sociedade humana, porque ele se encontra inserido dentro de
uma realidade onde se relaciona com outros corpos e outras realidades culturais. Assim, uma
análise aprofundada do corpo enquanto lugar epifánico da doença e da saúde, pode nos ajudar a
combater preconceitos e discriminações, a partir da consciência da diversidade cultural relativa a
corpo, doença, tratamento, saúde, explicitando as relações de poder. (HELMAN, 1994)

3.1.1. Causas da Doença

As doenças africanas têm cabimento dentro do mundo e ponto de vista africano. Acreditase que a
doença é algo fora do normal que se instala no corpo e que por isso se faz sentir. É preciso
localizar a origem do problema (física ou espiritual), tratar e restabelecer a normalidade.

Por exemplo, os Azande atribuem quase todas as doenças, de qualquer natureza, à bruxaria ou à
feitiçaria. Essas são as forças que devem ser derrotadas para se curar uma enfermidade séria. Isso
não significa que eles desprezem inteiramente as causas secundárias, mesmo admitindo-as,
associam-nas à bruxaria e à magia, afirma Evans-Pritchard. O mal pode ter origem pela falta de
cumprimento das regras sociais, pela falta de um enterro digno de alguém, pelo contágio com
objetos impuros ou pela ação dos espíritos maus. O mal pode vir também como consequência da
inveja, do mau-olhado, da coisa feita ou do feitiço. (HELMAN, 1994)

Entre os nyungwe existe a crença de que os mortos não estão mortos e esquecidos. Eles
continuam fazendo parte da família e de forma diferente. A ligação é para ajudar os vivos a viver
os aspetos tradicionais (religião, ética e moral) de modo a garantirem a graça de viver em outra
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vida em companhia dos espíritos dos ancestrais. Quando esses espíritos do além dão conta de que
os humanos estão se esquecendo do essencial, mandam-lhes alguma doença. O doente procura
curar a sua enfermidade buscando o médico tradicional. O médico tradicional diz a causa da
doença, em geral, aponta para a desobediência e falta de fidelidade à tradição. Portanto, o
espírito nesse sentido não tem a intenção de prejudicar, de matar, mas de ajudar a pessoa a
guardar os preceitos estabelecidos culturalmente. (HELMAN, 1994)

Portanto, a doença africana nos nyungwe, ou como alguns autores denominam de doenças
culturais não é uma doença que acontece acidentalmente, acredita-se que é causada por outras
pessoas vivas, ou pelos ancestrais ou pelos maus espíritos de defuntos que não pertencem à
ordem dos antepassados bons. Para Evans-Pritchard, “toda doença é diagnosticada,
prognosticada e associada a uma causa, mas cada doença tem seu tratamento específico, em
alguns casos derivado de experiências anteriores, em outros demonstrando a presença de um
elemento lógico-experimental”. As doenças são identificadas pelos sintomas principais na
pessoa. (HELMAN, 1994)

Já Martinez (2007), aponta para três causas da doença, que se identificam com o nosso trabalho
etnográfico:

a) doenças causadas pela maldade de um terceiro.

b) doenças causadas pelo amor possessivo de um terceiro.

c) doenças causadas pelo castigo de um espírito. Por exemplo: Likhankho.

3.1.2. Doenças causadas pela Maldade de um Terceiro

A infertilidade é por vezes interpretada como sendo causada por alguém mal intencionado que
não quer que a mulher “prenda” o marido, o que em última instancia implica a anulação de um
casamento, do reforço dos laços familiares e comunitários. Para a resolução deste problema há
que recorrer a todos os meios, incluindo o recurso a biomedicina.Um dos médicos tradicionais,
na entrevista com Meneses, afirma:

Quando uma mulher não concebe, nós tratamos e quando passa um mês, aconselhamos a ir ao
hospital para fazer o controle. Depois volta e fazemos um tratamento para “segurar” a gravidez,
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o bebe na barriga da mãe. Tudo é importante, o hospital, os nossos remédios. Ai não há


problemas. (MAIA, 2011)

3.1.3. Doenças Causadas pelo Amor Possessivo de um Terceiro

Aqui a questão está ligada, muitas vezes, a relações amorosas dentro ou fora do casamento,
conforme as falas da Isabel e da Laurinda: às vezes acontece também com um homem, isto é,
quando este prática a infidelidade, vai para manter relações com uma e na hora “H” não apanha
tesão, o pênis fica totalmente murcho. É a mulher dele que amarra o “Ntceu” na perna dela.
Quando o homem conquista a outra e vão juntos na cama, o pênis fica murcho e nada acontece.
Esta é uma das formas de como as mulheres provam a fidelidade de seus esposos, porém isto é
feito sem o homem saber. Assim também o homem para provar a fidelidade de sua esposa usa
também o likhankho. (MAIA, 2011)

Quando esse tipo de gente vem buscar a biomedicina, no hospital o médico diz à pessoa para
estar concentrada durante o ato sexual. Muitas vezes quando é um médico branco e não entende
nada da tradição do povo ele faz essa recomendação. Mas quando são os nossos, aconselham
sempre o homem a ir conversar e entender-se com a esposa dele. Quando ele fala que a coisa
funciona quando ele está com ela em casa e quando lá fora com as outras não funciona, aí é que
se sabe mesmo que, a solução é com aquela de casa. Então volta e se entende lá com ela

3.1.4. Doenças Causadas pelo Castigo ou Transgressão

Entre as doenças causadas pelo castigo ou transgressão de uma norma social estabelecida,
encontramos, por exemplo, o ciwindo e o Likhankho. Na formulação laplantiniana, essas seriam
as doenças que surgem como consequência da ruptura de equilíbrio entre o homem e o seu meio
social, e elas são suscetíveis de receber, segundo as épocas e sociedades, diferentes formulações.
(MAIA, 2011)
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3.2. O likankho

O likankho é uma doença ligada diretamente ao casamento. Não se pode falar dele fora do
casamento. O que é então o likankho? É uma doença espiritual que é colocada na mulher casada,
geralmente é pelo seu marido para provar a sua fidelidade. É uma forma de segurança que o
homem se oferece para controlar a sua esposa, se é que ela tem um amante ou não. Se porventura
ela tiver um amante o marido saberá logo, pelo efeito do likankho. A mulher pode também fazer
o mesmo ao marido dela, sem ele saber com o Ncheu, isto é, na hora em que o marido for fazer
sexo com outra mulher, ele vai ficar sem excitação e murcho. (MAIA, 2011)

Segundo Montero (1985), quando a doença é espiritual, o médico da medicina científica torna-se
incapaz de diagnosticá-la, já que sua tecnologia se torna impotente para apreendê-la em sua
materialidade, e de qualificar o doente dentro da esfera de sua competência.

Portanto, a doença espiritual ao subtrair-se à materialidade essencial de qualquer doença, se torna


algo distinto dela, supera a ordem do puramente fisiológico e se torna indicador da presença de
forças sobrenaturais cuja natureza, origem e intenções cabem ao médium e não ao biomédico
investigar. (MAIA, 2011)

Chamamos atenção que estamos falando de assuntos que pertencem a um mundo e realidade
tipicamente africana, e não obstante, se encontra em outros povos, como diz Rodrigues que: é
possível ir bem além do já sabido, de que as medicinas e os tratamentos variam culturalmente e
tentar compreender também como e por que são quase sempre eficazes. Pode-se ser incisivo na
direção de superar a crença tácita de que as doenças, por serem “biológicas” ou “naturais”, sejam
idênticas por toda parte. É possível considerar que as doenças também são variáveis com as
culturas e ir bem fundo nesta direção. É possível ir muito mais longe na teoria e na prática em
assuntos como eficácia simbólica e aspectos mágicos ou rituais dos tratamentos, dos remédios e
do pessoal médico. (MAIA, 2011)

Assim, likankho é também concebido como remédio para guardar as mulheres; remédio que o
homem dá à sua mulher sem ela saber e que faz adoecer ou morrer quem dormir com ela, mesmo
quando já for viúva; é doença na medida em que ela ataca o parceiro ilegal que tiver relações
sexuais com a mulher que não é dele.
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Isso leva-nos a crer que o homem fabrica suas doenças, ele é também a causa delas e não é
preciso buscar outras. A doença tem a sua origem no indivíduo, é o próprio ser humano o
gerador do que lhe acontece, na visão laplantiniana. (MAIA, 2011)

3.3. Classificação do likankho

Existem vários tipos de doenças do likankho, tais como: likankho la cisu ou mbwaya (de navalha
ou de cão), la congwe (de galo), la nyakungu (de giboia), la mulambe (de embondeiro) la
nsomba (de peixe), la cule (de sapo), la mpsoma (de careca), e outros.425 Podemos conhecer os
detalhes de alguns deles:

3.3.1. Likankho de Navalha

Este é preparado na base de uma navalha ou canivete. Enquanto a mulher permanecer fiel, a
navalha permanece aberta, e na hora em que ela praticar a infidelidade dormindo com outro
homem, a navalha se fecha automaticamente. Que acontece? Acontece que na hora que o homem
acabar de fazer o sexo com a mulher, ele não consegue se desgrudar dela, ele fica colado e de
maneira nenhuma ele consegue sair, até que haja uma intervenção, onde será necessário recorrer
ao esposo dela para desfazer ou desativar o efeito da navalha. Daí a analogia com os cachorros,
que ficam grudados quando copulam. (MAIA, 2011)

3.3.2. Likankho de Embondeiro

O embondeiro é uma árvore muito frondosa e é muito comum na província de Tete. Suas folhas
servem de alimento, seus frutos de remédios e suas cascas servem de fibras usadas nas
construções. O embondeiro é uma árvore que tem muita utilidade, e ela entra na história do
likankho. Em geral, o homem trata a sua esposa com remédios feitos na base desta árvore.
Quando, porventura, um homem conquistar esta mulher e tiver relações sexuais com ela, este
voltando para a sua casa, começa a engordar inexplicavelmente como aquela árvore. Se não
recorrer a um especialista para neutralizar o efeito, este homem pode até perder a vida. (MAIA,
2011)
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3.3.3. Likankho de Capim

Como o capim é fininho, assim também o homem que tiver relações sexuais com a esposa do
outro, ele vai começar a emagrecer, pode parecer que a pessoa está com HIV, mas não é. É a
doença que ele pegou ao cometer adultério com a mulher do outro. (MAIA, 2011)

3.3.4. Likankho de Melância

Esta doença afeta os testículos do homem, isto é, feitas as relações sexuais, os testículos do
homem começam a inchar, como se fosse uma melância. É daí que surge também a analogia com
a melância. (MAIA, 2011)

3.3.5. Likankho de Peixe

Feitas as relações sexuais, na hora que o homem for tomar banho, sua vontade e desejo serão
sempre de permanecer dentro da água como peixe. Se sair da água, ele morre, assim como o
peixe não consegue sobreviver fora do seu ambiente aquático. (MAIA, 2011)

3.3.6. Likankho de Tartaruga

Feitas as relações, voltando para casa o homem sempre terá vergonha de sair e ver as pessoas,
assim como a tartaruga se esconde quando se depara com pessoas.

Com esta exposição, a pesquisa não pretende esgotar este lado da antropologia da doença na
tradição nyungwe, mas apenas apresentar o outro lado que a biomedicina não tem resposta, isto
é, que as doenças africanas têm cabimento dentro do contexto e ponto de vista africano, neste
caso dos nyungwe. É importante para nós o esforço de aprofundar o conhecimento de como
certas doenças estão articuladas com signos de identidade social. (MAIA, 2011)

O estar doente, diz Laplantine (2007), o estar bem de saúde são noções que transbordam de
significações (econômicas, políticas, morais, religiosas, existenciais), mas toda sociedade opta
por uma certa idéia da normalidade que é necessariamente acompanhada por uma capacidade
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normativa e, para alguns, por uma normalização dos comportamentos.427 Segundo Rosny, “a
antropologia é o estudo da lógica dos comportamentos, pois ela permite apreender melhor o que
têm de original as práticas terapêuticas tradicionais em relação à medicina dos hospitais, aquém
dos fatores históricos e culturais”. (MAIA, 2011)

Portanto, o likankho é uma forma de controle social e faz parte da moral dentro do casamento,
como forma de desencorajar o adultério. Ou seja, as práticas de entendimento do binômio saúde
doença, podem ser reveladoras de princípios e crenças morais de uma sociedade.

Assim, tanto o likhankho como o Ciwindo, podem ser classificados, segundo Laplantine, como
doença-punição, isto é, uma consequência necessária daquilo que o próprio indivíduo provocou,
uma sanção como resultado de transgressão de uma ordem social estabelecida. O sujeito
experimenta a culpabilidade com relação ao que é considerado um castigo merecido. O que é
enfatizado aqui é a relação estreita entre a imputação etiológica e a pessoa do próprio doente.

Como é que acontece, onde se busca o likaho, não se sabe concretamente porque não há
divulgação, por isso, nos limitamos a descrever o efeito, que é visível. E sempre que acontece
este fenômeno do likankho ou do ciwindo, não se recorre à biomedicina, porque pode
comprometer a vida dos envolvidos, muitas vezes, do homem se for o caso de prática de
adultério (likankho). Recorre-se sempre ao especialista destas matérias, que pode ser o esposo da
mulher em causa ou o médico tradicional. (MAIA, 2011)
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4. Conclusão

Concluindo podemos salientar que o povo africano Nyungwe tem sim a sua cultura que é viva e
atuante o tempo todo, assim como tem a sua própria cosmovisão. A descolonização da mente
africana visa o resgate da auto-ctonicidade do que é próprio e típico da áfrica e reivindica
reconhecimento e respeito diante das sociedades ocidentais, que sempre ignoraram a cultura
africana. É por ser viva que apesar de toda violência, os ocidentais colonizadores não
conseguiram acabar com a cultura africana. No caso de muitas etiologias populares, as relações
humanas são consideradas como as mais básicas de todas as realidades, e como conclusão de que
os modelos explicativos refletem uma imagem subjetiva e personalizada, ou seja, doença e morte
se referem a problemas de relacionamento interpessoal, bem como a características negativas
como é o caso da inveja, raiva, mau olhado, a infertilidade aparente, o ciwindo e o likankho.
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5. Referência Bibliográfica

LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2007.

HELMAN, C. G.. Cultura, Saúde e Doença. Porto Alegre: Ed. Artes Médicas, 1994.

MAIA, A.A.. Saúde e Doença na Cultura Nyungwe: Um Olhar Antropológico-Teológico.


SP,2011

MARTIEZ F. L, IMC.. Antropologia Cultural. Guia para o Estudo. Maputo, 2007.