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UNIP – Universidade Paulista


Instituto de Ciências Humanas
Curso de Psicologia

Ariane Camargo Semensato                      RA C70ECC-3


Gediene Cyprestes da Silva                       RA C647EB-2
Karina Guimarães Rodrigues                     RA C7017G-6
Pâmela Benite Miciato       RA T42279-5

INFLUÊNCIA DA MÍDIA NA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE FEMININA

Campinas/SP
2019
1

UNIP – Universidade Paulista


Instituto de Ciências Humanas
Curso de Psicologia

Ariane Camargo Semensato                      RA C70ECC-3


Gediene Cyprestes da Silva                       RA C647EB-2
Karina Guimarães Rodrigues                     RA C7017G-6
Pâmela Benite Miciato       RA T42279-5
                   

INFLUÊNCIA DA MÍDIA NA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE FEMININA

Trabalho de Conclusão de Curso,


apresentado à disciplina “Projeto de
Pesquisa em Psicologia”, do 10º
semestre, do curso de Psicologia, da
Universidade Paulista – UNIP, sob a
orientação da profª Drª Simone M.
Sanches.

Campinas/SP
2019
2

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO TEÓRICA............................................................................................3
1.1 DEFINIÇÃO DE SUBJETIVIDADE.......................................................................3
1.2 CONCEPÇÃO DA AUTOESTIMA E DIMENSÕES DA SUBJETIVIDADE...........4
1.3 COMO A IDENTIDADE INFLUENCIA A NOSSA VIVÊNCIA SOCIAL.................5
1.4 INFLUÊNCIAS PSICOSSOCIAIS NA CONSTITUIÇÃO DA SUBJETIVIDADE. . .5
1.5 COMO A SELF É CONSTRUÍDA E AFETADA PELO CAMPO FENOMENAL....6
1.6 A ORIGEM DO SENTIMENTO DE INFERIORIDADE..........................................7
1.7 O PAPEL DAS MÍDIAS NA CONSTRUÇÃO DE ESTEREÓTIPOS E SEUS
RESPECTIVOS DESDOBRAMENTOS...........................................................................8
2 OBJETIVOS............................................................................................................... 11
2.1 GERAL............................................................................................................... 11
2.2 ESPECÍFICOS....................................................................................................11
3 HIPÓTESES............................................................................................................... 12
4 JUSTIFICATIVA........................................................................................................ 13
5 MÉTODO................................................................................................................... 14
5.1 PROCEDIMENTOS............................................................................................14
6. RESULTADOS E DISCUSSÃO....................................................................................21
6.1 COMPREENSÕES E CONSTRUÇÕES HISTÓRICA ACERCA DO CORPO E DA
SUBJETIVIDADE.......................................................................................................... 22
6.2 COMO É CONSTRUÍDA E QUAL É O PAPEL DA SUBJETIVIDADE NA
AUTOIMAGEM FEMININA............................................................................................23
6.3 A INFLUÊNCIA DAS MÍDIAS NA CULTURA CONTEMPORÂNEA..................25
6.4 O PAPEL DA MÍDIA NA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE......................26
6.5 O CORPO E SUAS REPRESENTAÇÕES..........................................................27
6.6 IMPLICAÇÕES SOCIAIS E PESSOAIS ORIUNDAS DOS PROCESSOS IMPOSTOS
PELA GLOBALIZAÇÃO...............................................................................................27
6.7 A CULTURA DO NARCISISMO E SEUS DESDOBRAMENTOS.......................29
6.8 ESTIGMAS RELACIONADOS AO CORPO.......................................................30
REFERÊNCIAS................................................................................................................. 33
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1 INTRODUÇÃO TEÓRICA

O presente trabalho tem como objetivo abordar como os canais de


comunicação podem influenciar e afetar a construção da subjetividade das mulheres
nos dias atuais, dentre outros meio, através da divulgação e criação de padrões
estéticos divergentes dos comuns à maioria da sociedade. Para isso, realizamos um
estudo bibliográfico acerca de como esses conteúdos são criados e divulgados,
assim como da veracidade desses conteúdos e de como causam um efeito negativo,
em especial, à população feminina.
O padrão de beleza determinado pela mídia é um dos assuntos mais
polêmicos e formador de discussões, o que se vê nos dias atuais são pessoas
insatisfeitas com sua imagem e atrativos físicos. Deste modo, as mulheres acabam
absorvendo muitas informações adquiridas de todos os lados: revistas, jornais,
televisão, redes sociais entre outras, que mostram um padrão de corpo a ser
copiado e desejado. (MATTANA, 2014). Precisa colocar na bibliografia

1.1 DEFINIÇÃO DE SUBJETIVIDADE

Antes de nos aprofundarmos nas influências midiáticas sobre a subjetividade


feminina, é preciso discorrer um pouco sobre como é formado esse importante
aspecto da personalidade humana.
A subjetividade é essencialmente produzida e modelada no campo do social.
Ela é a manifestação do comportamento, do desejo, das atitudes, linguagem e
percepção de mundo dos indivíduos. (GUATTARI, F.; ROLNIK, 2010 e GUATTARI,
F. 1992, p. 19).
A subjetividade é integrada também pelos processos e estados
característicos ao sujeito em cada um de seus momentos de ação social. (REY,
apud Molon, 2014, p. 615).
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1.2 CONCEPÇÃO DA AUTOESTIMA E DIMENSÕES DA


SUBJETIVIDADE

O conceito autoestima foi assimilado antigamente por movimentos sociais,


autores e grupos de autoajuda e, por fim, pela mídia. “O conceito deixou de ser
parte, meramente, do jargão dos psicólogos, convertendo-se em ferramenta real
para mudar a vida de alguém” (WARD, 1996, p. 13-14). Ward reafirma então, como
a autoestima tem grande peso sobre a vida das pessoas nos dias de hoje.
Já o autor Papalia (2013) conceitua que “A autoestima é a parte auto
avaliativa do autoconceito, o julgamento que a criança faz sobre seu valor geral. A
autoestima baseia-se na crescente capacidade cognitiva da criança de descrever e
definir a si própria”. Não obstante, Frada (2015), entende que a autoestima é um
conjunto de atitudes para consigo mesmo, não sendo um estado cristalizado, mas
dinâmico, que vai se construindo e mudando com as vivências.
Alcántara (2000 apud FRADA, 2015), questionou se a autoestima seria inata,
e a resposta foi não, autoestima é adquirida como um resultado da história de vida
de cada um. Trata-se de uma aceitação de como se é verdadeiramente com seus
defeitos e qualidades, deve-se desenvolvê-la de forma realista e positiva, buscando
lidar com as dificuldades ou defeitos, não considerando as falhas como um fim em si
mesmas, mas deve-se reforçar as qualidades e ultrapassá-las.
Para aprofundar este conceito, Dalgalarrondo (2008) fala sobre a formação da
consciência do eu, que é formada a partir da diferenciação entre o eu e o não eu.
No início da vida, o bebê vive uma completa simbiose com sua mãe e com o
mundo exterior, esta diferenciação vai sendo construída ao longo do primeiro ano de
vida, onde o bebê começa a ter contato com a realidade e então vai construindo as
dimensões de subjetividade, objetividade e imagem corporal, sendo, esta última, a
consciência e representação do próprio corpo construídas sob influências de
padrões culturais e representações externas ao longo do tempo.
A autoestima tem então, a função de estruturar o processo de formação
pessoal e social da criança, contribuindo para a aquisição da autoconfiança que irá
fornecer recursos para que esse sujeito enfrente as dificuldades que surgirão
durante a vida. (FRADA, 2015)

1.3 COMO A IDENTIDADE INFLUENCIA A NOSSA VIVÊNCIA SOCIAL


5

Segundo Erik Erikson (1985 apud DALGALARRONDO, 2008), é a identidade


psicossocial que permite que o indivíduo se insira no meio social de forma coerente
e se oriente em relação às outras pessoas de forma harmoniosa, ela é a base da
autoestima, formada pelos mecanismos de introjeção e identificação, conscientes e
inconscientes às figuras parentais, assim como aos amigos e todas as pessoas com
as quais a criança convive ao longo de seu desenvolvimento. A identidade
psicossocial é dinâmica e advém dos julgamentos da pessoa consigo mesma e dos
julgamentos dos outros sobre ela, que podem ser expressos por meio do
reconhecimento social e legitimação.

1.4 INFLUÊNCIAS PSICOSSOCIAIS NA CONSTITUIÇÃO DA


SUBJETIVIDADE

Outro aspecto importante a ser considerado, se refere à identidade


psicossocial dos sujeitos afetados pela mídia. As informações encontradas neste
estudo relacionam-se aos fatores de risco e proteção ao indivíduo, que é exposto
durante toda sua vida, a situações diversas, que afetam de maneira direta ou
indireta a solidez e saúde de sua autoestima, tais como: ambiente familiar, amigos,
escola, faculdade, trabalho, religião etc.
Antes de darmos ênfase às questões femininas relacionadas à subjetividade,
gostaríamos de apresentar algumas reflexões sobre o assunto apresentado acima,
porém, tratando um pouco das influências, mas também de possíveis soluções.
Conforme pesquisa realizada por Amparo et al., (2008) existem fatores
sociais e pessoais a adolescentes e jovens, que podem desencadear situações de
risco social e pessoal, dentre eles, problemas como autoestima.
Em uma das pesquisas realizadas, foram apresentadas situações de risco
referente ao ambiente familiar, no qual foram abordadas questões como: se o
indivíduo sente-se seguro com a família, se fica a vontade em casa, se considera o
ambiente familiar “pesado”, se encontra apoio quando necessita, se há respeito
entre as pessoas e, dentre outras, se recebe atenção quando fala.
Nesse contexto, a perspectiva familiar dos participantes foi explorada a partir
de questões que visavam saber o tipo de ambiente que eles têm em casa, um
cenário de muita importância para o assunto abordado.
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Além do núcleo familiar, outro grupo importante é a rede de amigos. O


questionário apresenta um conjunto de itens capazes de mapear o conforto e
segurança dos participantes em relação aos amigos.
No que se refere aos fatores pessoais, como eixo fundamental de proteção,
pode-se destacar elementos que compõem essas estratégias como: a
espiritualidade e religiosidade, a autoestima, a auto eficácia e o bem-estar. Destaca-
se nesse contexto, o modo como esses jovens investem na sua espiritualidade e
como esta espiritualidade contribui para sua autoestima e, portanto, para sua
resiliência. Esses elementos, identificados como fatores de proteção, se
caracterizam como um suporte pessoal para o jovem diante da exposição aos
fatores de risco (AMPARO et al.,2008)
Segundo Amparo et al., (2008), estes aspectos representam certa
estabilidade, respeito, apoio e suporte nos núcleos familiares ou na família mais
ampla, além do grupo de amigos, o que fortifica as possibilidades de elaboração e
efetivação de boas estratégias de adaptação saudável aos eventos estressores,
ajudando consequentemente no fortalecimento da autoestima.

1.5 COMO A SELF É CONSTRUÍDA E AFETADA PELO CAMPO


FENOMENAL

Fadiman e Frager, (1986) citam alguns conceitos da teoria de Carls Rogers,


como campo de experiência, self, congruência e incongruência, que partem do
pressuposto que os indivíduos se definem a partir de suas próprias experiências, no
entanto, o autoconceito construído é passível de modificação.
O campo de experiência ou campo fenomenal, é um mundo singular e
pessoal, que pode ou não equivaler à realidade. Nele estão todas as experiências,
passadas e presentes, podendo ser acessíveis à consciência, desde que o indivíduo
volte sua atenção para ele. (FADIMAN; FRAGER, 1986)
O autor ainda aponta que o self ou autoconceito, é definido por Roger como
contínuo processo de reconhecimento, é a imagem que o indivíduo tem de si
próprio, baseado em suas experiências. Localizado no campo de experiência, o self
é mutável e instável, podendo parecer estável nos momentos em que é posto em
foco, como figura e fundo, sumariamente é uma gestalt organizada, no qual o
significado vivido pode ser sensivelmente modificado à medida em que as
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circunstâncias são alteradas. (FADIMAN; FRAGER, 1986)


O self ideal se constitui pelas características que o indivíduo gostaria de ter,
por isso é fluído, mutável e instável como o self e pode sofrer alterações
constantemente. A maneira como a pessoa lida com o seu self e com o self ideal é
importante indicador para a avaliação de sua saúde mental. Assim sendo, quanto
mais distante da realidade estiver o self ideal, mais desconforto e insatisfação a
pessoa sentirá, sendo ele assim um empecilho ao crescimento pessoal. (FADIMAN;
FRAGER, 1986).
O mesmo autor destaca os conceitos de congruência e incongruência de
Rogers, que estão relacionadas, ao grau de fidedignidade entre o que a pessoa
expressa, o que acontece em seu campo de experiência e a tomada de consciência.
Quanto mais próxima da realidade é o seu autoconceito, e você se comunica
de forma correspondente, maior será o seu grau de congruência. (FADIMAN;
FRAGER, 1986)

1.6 A ORIGEM DO SENTIMENTO DE INFERIORIDADE

Segundo, Schultz D.P. & Schultz S.E. (2007), Alfred Adler, fundador da teoria
da personalidade e psicologia individual, se opôs à Freud no conceito de
inferioridade. Enquanto Freud alegava que a origem da inferioridade das mulheres
estava na inveja do pênis, Alfred justificava a inferioridade como resultante de
fatores sociais, como o estereótipo de mulher perfeita e sensual.
Diante disso Schultz D.P. & Schultz S.E. (2007) referem que na concepção de
Adler, o sentimento de inferioridade é inato, normal, e é despertado pelo sentimento
de impotência e incapacidade que os bebês nascem, sendo totalmente dependentes
de seu cuidador para sobreviver. Este sentimento, por sua vez, é reafirmado durante
a infância e na vida adulta, por meio das limitações sociais que lhe são impostas.
Na visão de Adler, existe uma força inata, que impulsiona o ser humano a
superar este sentimento de inferioridade, buscando a superioridade, que em sua
essência, significa a busca pela perfeição, e realização de si mesmo. Esta sucessão
de restrição e impulsão, acompanha o indivíduo por toda a vida e o faz buscar
grandes realizações. (SCHULTZ D.P.; SCHULTZ S.E., 2007).
Segundo o mesmo autor, o sentimento de inferioridade é relevante para a
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sociedade e indivíduos, pois incita a busca pelo aperfeiçoamento e progresso, no


entanto, quando este sentimento não é significado de maneira adequada, produzirá
respostas de rejeição, que podem gerar comportamentos compensatórios anormais,
o que, por conseguinte, pode levar o indivíduo a desenvolver o complexo de
inferioridade, causando sentimentos de incapacidade e insuficiência diante dos
obstáculos da vida. (SCHULTZ D.P.; SCHULTZ S.E., 2007).
Avançando pela busca incessante do indivíduo pela autorrealização, Rogers
também considera que, “A maior força motivadora da personalidade é o impulso
para a realização do self” (ROGER, 1961, apud SCHULTZ D.P.; SCHULTZ S.E.,
2007, p. 416), contudo, ela pode ser incentivada ou reprimida pelas aprendizagens e
experiências na infância, que se forem conduzidas de forma positiva, na relação
mãe e filho, fornecerão os recursos necessários para construção de uma
personalidade saudável.

1.7 O PAPEL DAS MÍDIAS NA CONSTRUÇÃO DE ESTEREÓTIPOS E


SEUS RESPECTIVOS DESDOBRAMENTOS

Em uma sociedade que supervaloriza a aparência física, é importante refletir


sobre como a mídia vem se desenvolvendo na formação do individualismo. Neste
caso, fica aberta uma argumentação básica sobre o que se produz na mídia
referente às imagens apresentadas e como elas são responsáveis por reforçar os
padrões de beleza aos quais nos vemos impostos.
Perante essas circunstâncias, é importante refletirmos sobre os impactos que
a venda de padrões estereotipados causa à autoimagem e a autopercepção
feminina. (PAULA, 2017) Inobstante ao senso perceptivo que, com facilidade
observa os fatos narrados até aqui, há uma série de pesquisas e depoimentos
publicados que relatam a influência de modelos midiáticos na busca de um corpo
idealizado e, nesse sentido, somos levados à compreensão de que a mídia pode
influenciar muito na conceituação e busca da tão almejada beleza. (PAULA, 2017)
As mídias e redes sociais difundem massivamente a necessidade de busca
pela perfeição. Mesmo com o conhecimento de que o perfeito é um objeto fictício e,
portanto, inalcançável, como poderiam se negar à essa busca, uma vez que a forma
como um indivíduo se enxerga, é, em geral, diretamente afetada pela forma como
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este acredita que a sociedade avalia o seu corpo? (RICCIARDELLI; CLOW, 2009, p.
105- 134 apud AVELAR; VEIGA 2013, p. 339)
Mas, vale lembrar, as mídias são apenas o cômpito das muitas pressões
vivenciadas pela mulher, no que tange aos estereótipos que ela, em geral, se vê
impelida a atender.
Mudanças estruturais, como o aumento do número de
pessoas do sexo feminino trabalhando, competição e
discriminação no local de trabalho, estimulam as mulheres a
ficarem mais vaidosas e com maior medo de envelhecer,
levando-as ao consumo de produtos e serviços para
aumentar sua competitividade no mercado de trabalho e nas
relações sociais.(EDMONDS, 2002, p. 189-261 apud
AVELAR; VEIGA 2013, p.339)

Ou seja, Avelar e Veiga nos permitem perceber o quão diversas e intensas


são as batalhas travadas pela mulher ao longo dos anos. Não lhes bastou conquistar
um lugar no mercado de trabalho, agora lhe é necessário reafirmar sua capacidade
de permanecer e se superar em competência e comprometimento, mas sem nunca
deixar de ser cobrada por, além de cuidados com a “saúde” (hoje melhor
compreendido como mais um estereótipo), uma estética impecável.
A vida profissional, então, é apenas uma de muitas áreas que impulsionam
grande parte das mulheres a viverem condicionadas a uma busca incessante e
incansável por estereótipos de beleza inalcançáveis, mas ao mesmo tempo
vendidos em frascos e pílulas, a todo momento, pelos canais de comunicação que
as circundam (AVELAR; VEIGA, 2013). Ou seja, ratificando a dicotomia corpo e
mente, veem a luz dos palcos midiáticos sendo exaustivamente colocada sobre a
aparência, ofuscando assim a glória de seus conteúdos. (SCHUBERT, 2009)
Com isso, podemos compreender que, frente a esse bombardeio de
informações que adquirimos por meio das mídias, está sendo construída em nós,
mulheres, uma série de novas subjetividades, que afetam diretamente a
estruturação de nossa individualidade e, dessa forma, a particularidade do indivíduo
assume uma configuração decididamente controlada, em que o olhar do outro no
campo social e da mídia passa a ocupar uma posição de estratégia, nas quais,
dessa forma, o indivíduo vive permanentemente em um registro de busca, onde o
que lhe importa é o engrandecimento da própria imagem. Portanto, a imagem
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externa passou a ser a forma de reconhecer a si própria no mundo em que se vive.


(PAULA, 2017)
Ainda nesse mesmo sentido, defende-se que os indivíduos constroem sua
identidade pessoal através da comparação entre eles e outros, desde que tenham
características que sejam valorizados. Cada um quer ter as qualidades do outro, a
identidade se perde, se transforma e a sociedade passa a valorizar aquilo que se é
identificado. Uma dificuldade nessa construção de subjetividades é o não
questionamento sobre a forma como ela vem sendo feita e das consequências que
podem gerar para à sociedade. Pois, por meio de tais práticas, a mídia transforma
esses indivíduos em uma espécie de prisioneiros, reconstruindo-os e modelando-os.
(PAULA, 2017)
Este trabalho funda-se então, sobre a busca pela compreensão de como a
mídia e as informações divulgadas nos meios de comunicação afetam a
subjetividade de mulheres pelo mundo todo, que tentam, de alguma forma, alcançar
os padrões estabelecidos pelos mesmos e com isso se frustram. Além disso,
procuraremos analisar qual o papel do profissional de psicologia no suporte aos
problemas causados pelos danos a autoestima.

2 OBJETIVOS
2.1 GERAL

Investigar como as mídias sociais em todos os âmbitos, influenciam na


construção da subjetividade e autoimagem da mulher.
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2.2 ESPECÍFICOS

Temos como objetivos específicos identificar:

● Compreensões e construções históricas acerca do corpo e da subjetividade

● Como é construída e qual é o papel da subjetividade na autoimagem


feminina;

● A influência das mídias na cultura contemporânea

● O Papel da Mídia na construção da subjetividade

● O corpo e suas representações;

● Implicações sociais e pessoais oriundas dos processos impostos pela


globalização;

● A cultura do narcisismo e seus desdobramentos;

● Estigmas relacionados ao corpo


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3 HIPÓTESES

O corpo está situado em uma dimensão que ultrapassa o fisiológico, por meio
de sensações físicas, emoções, pensamentos, sentimentos, crenças e história, e,
portanto, expressa a comunicação do indivíduo com o universo que o cerca, por
isso, questões físicas muitas vezes alteram o estado emocional e comportamental
de muitas pessoas. (SOUZA, 2016)
Atualmente as relações com o corpo são amplamente influenciadas por
diversos fatores socioculturais. Estes fatores conduzem homens e mulheres a
apresentarem um conjunto de preocupações e insatisfações com a imagem corporal,
induzindo-os a fazer o necessário para atingir um padrão exposto. (DAMASCENO,
2006)
A mulher principalmente vive em uma contínua busca por esse padrão, que
desejado na maioria das vezes é informado pela mídia. Muitas vezes, essa busca é
justificada como critério para alcançar a verdadeira felicidade. Distante de formalizar
a relação mídia e beleza procurou-se apontar, como a mídia pode distanciar as
nossas próprias identidades e "propagandear" a veneração ao corpo.
A frente dessas influências, fica claro que muitas perdem a eficácia de refletir,
criticar ou questionar as informações adquiridas, pois passam a padronizar aquele
tipo de beleza (PAULA, 2017)
E como a mulher perde a consciência, de questionar ou criticar, diante do
bombardeio de informações, é normal que se sintam feias quando comparadas a
modelos ou profissionais da mídia, que tem seus corpos retocados e corrigidos por
programas de edições de imagens.
Essa distorção da informação recebida pode ser averiguada pelos transtornos
corporais, alimentares e psicológicos. Como também serem claramente percebidos
pelos discursos apresentados por pessoas que apresentam essa distorção (PAULA,
2017)
Diante dessas ponderações, fica muito perceptível que a mídia tem grande
responsabilidade pela alta divulgação de informações que constroem a idealização a
beleza. Se a estética e imagem pessoal objetiva acima de tudo o bem-estar e a
saúde do indivíduo, será que isso não se aplicaria também ao gostar de si antes de
qualquer "padrão de beleza" coagido? (PAULA, 2017)
13

4 JUSTIFICATIVA

Esta pesquisa se mostra relevante ao passo que trata do exercício de uma


influência, em geral negativa, que as mídias exercem sobre a mulher durante a
construção de sua subjetividade, trazendo consequências psíquicas, físicas e
emocionais de maneira geral, mas principalmente relacionadas ao seu corpo.
A questão das mídias, em linhas gerais, não é muito pesquisada, por isso
este estudo possui grande relevância acadêmica.
A influência da mídia sobre a sociedade é intensa, pois impõe seus padrões
de beleza a ambos os sexos, no entanto, as ações sobre o sexo feminino tende a
ser a mais onerosa e por isso é o foco desta pesquisa, que tem a pretensão de
contribuir, com conhecimentos pertinentes a esse tema, com profissionais das áreas
de Sociologia, Psicologia, Saúde, Educação, Publicidade e Propaganda.
Diante a necessidade e dificuldade de uma de nossas pesquisadoras de dar
atenção à autoestima de mulheres adictas, durante seu estágio de psicopatologia,
este tema foi trazido para este grupo de pesquisa, que aprofundou-se em
questionamentos referentes às escolhas que nós mulheres fazemos mediante a
necessidade de consolidação de nossa autoestima e, dependendo do estado dessa
autoestima, aos caminhos escolhidos para isso, que nem sempre são os mais
adequadas.
Com isso, mas diante a abrangência de enquadres desse tema, esta pesquisa
poderá subsidiar o trabalho com mulheres não só em conxteos de adicção, como
também em seus diversos campos de atuação e representação social.
14

5 MÉTODO

Para o desenvolvimento dessa pesquisa, foi utilizado o método qualitativo,


que se utiliza de técnicas, também qualitativas, de coleta de dados. Tendo em vista
o método escolhido, este projeto não tem por objetivo enumerar ou medir eventos,
mas sim obter dados descritivos que imprimam sentido aos fenômenos pesquisados,
(NEVES 1996, p.01).
Joseph Henri, 1851 (apud KRZYZANOWSKY; TARUHN, 1998, p.193)
afirmava que para toda possibilidade de interesse, já em sua época, haveria alguma
obra bibliográfica que o discorresse, porém, esses registros só seriam
verdadeiramente úteis, caso houvesse certa rigidez na sistemática de seu
armazenamento e no meio de exposição de seus conteúdos. Portanto, utilizaremos
a pesquisa bibliográfica, baseadas nessas diretrizes, a fim de somarmos dados e
perspectivas de diversos autores para a compreensão adequada do fenômeno
escolhido para esse estudo.

5.1 PROCEDIMENTOS

Os artigos científicos pesquisados sobre a temática, foram acessados nos


bancos de dados Pepsic, Teses Usp, Lilacs e Scielo com diferentes combinações de
palavras-chaves. Inicialmente o grupo optou pela combinação de palavras Mídia +
Subjetividade + Mulher, porém este grupo de palavras apesar de muito rico, nos
trouxe pouco conteúdo para execução do trabalho. Desta forma optamos por seguir
com mais uma combinação de palavras, (Mídia + Subjetividade + Psicologia) de
forma que ambas se somassem, agregando ainda mais resultado para o nosso
estudo.

Banco de Dados: Pepsic

Palavras-chaves Nº de Bibliografia encontradas

Autoestima 139

autoestima + psicologia 32

autoestima + mulher 5
15

autoestima + psicologia + mulher 2

autoestima + mídia 0

autoestima + mídia + psicologia 0

autoestima + mulher + redes sociais 0

autoestima + psicologia + feminina 1

estereótipo + psicologia 3

estereótipo + psicologia + autoestima 0

estereótipo + psicologia + mulher 0

autoestima + psicologia + estereótipo 0

autoestima + influência 10

autoestima + influencia + mídia 0

autoestima + influência + mulher 0

autoestima + influência + beleza 0

mulher + influência + beleza 0

autoestima + influência + psicologia 4

Banco de Dados: Teses USP

Palavras-chaves Nº de Bibliografia encontradas

Autoestima 96

autoestima + psicologia 5

autoestima + mulher 25

autoestima + psicologia + mulher 0


16

autoestima + mídia 4

autoestima + mídia + psicologia 0

autoestima + mulher + redes sociais 0

autoestima + psicologia + feminina 0

estereótipo + psicologia 14

estereótipo + psicologia + autoestima 0

estereótipo + psicologia + mulher 3

autoestima + psicologia + estereótipo 2

autoestima + influência 0

autoestima + influência + mídia 1

autoestima + influência + mulher 0

autoestima + influência + beleza 0

mulher + influência + beleza 0

autoestima + influência + psicologia 2

Banco de Dados: Lilacs

Palavras-chaves Nº de Bibliografia encontradas

Autoestima 278

autoestima + psicologia 2

autoestima + mulher 1

autoestima + psicologia + mulher 76

autoestima + mídia 18
17

autoestima + mídia + psicologia 5

autoestima + mulher + redes sociais 2

autoestima + psicologia + feminina 20

estereótipo + psicologia 104

estereótipo + psicologia + autoestima 7

estereótipo + psicologia + mulher 6

autoestima + psicologia + estereótipo 7

autoestima + influência 173

autoestima + influência + mídia 3

autoestima + influência + mulher 13

autoestima + influência + beleza 2

mulher + influência + beleza 3

autoestima + influência + psicologia 50

Banco de Dados: SCIELO

Palavras-chaves Nº de Bibliografia encontradas

Autoestima 29

autoestima + psicologia 5

autoestima + mulher 6

autoestima + psicologia + mulher 6

autoestima + mídia 7

autoestima + mídia + psicologia 0


18

autoestima + mulher + redes sociais 1

autoestima + psicologia + feminina 4

estereótipo + psicologia 0

estereótipo + psicologia + autoestima 0

estereótipo + psicologia + mulher 0

autoestima + psicologia + estereótipo 0

autoestima + influência 22

autoestima + influência + mídia 1

autoestima + influência + mulher 3

autoestima + influência + beleza 1

mulher + influência + beleza 2

autoestima + influência + psicologia 3

Diante da quantidade de referências bibliográficas encontradas e a


quantidade de referências utilizadas, culminaram em nosso material de análise 09
artigos, os quais serão apresentados na tabela abaixo.
19

BANCO
DE
ARTIGO/TES
DADOS
ES
CARNEIRO, Cristiana. Produz-se um corpo-imagem: perfeição que
vocifera contra nós?, Tempo Psicanalítico, Rio de Janeiro, v. 37, n. 1,
p.153-165, jul. 2005. Semestral. Disponível em:
<http://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/lil-477522>.
LILACS Acesso em: 11 nov. 2018.
CAMPANA, Angela Nogueira Neves Betanho; FERREIRA, Lucilene;
TAVARES, Maria da Consolação Gomes Cunha Fernandes.
Associações e diferenças entre homens e mulheres na aceitação de
cirurgia plástica estética no Brasil. Revista Brasileira de Cirurgia
Plástica, São Paulo, v. 27, n. 1, p.108-114, jan./mar. 2012. Trimestral.
Disponível em:
LILACS <http://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/lil-626539>. Acesso
em: 11 nov. 2018.
ZUBARAN, Maria Angélica. Pedagogias da Imprensa Negra: entre
fragmentos biográficos e fotogravuras. Educar em Revista, Curitiba, v.
60,
SCIELO n. 5, abr./jun. 2016. Trimestral. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0104-
40602016000200215&lang=pt>. Acesso em: 10 nov. 2018.
ROZIN, Leandro; ZAGONEL, Ivete Palmira Sanson. Fatores de risco
para dependência de álcool em adolescentes. Acta Paulista de
Enfermagem, São Paulo, v. 25, n. 2, fev. 2012. Bimestral. Disponível
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6. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Acaso fosse o corpo apenas um mediador imparcial do indivíduo com o seu


coletivo, esta discussão e estudos não teriam nenhum sentido. Porém ao longo
desta pesquisa compreendemos que falar de corpo em nosso contexto histórico-
cultural é falar sobre um constructo realizado por uma imensidão de agentes, que
consideram outra imensidão de fatores, que em número só são superados pela
quantidade de possíveis desdobramentos da construção desses estereótipos.
21

Este constructo ao qual denominamos beleza, tem transfixado-se ao longo da


história e por meio dela através de inúmeros padrões e idealizações quiméricas que
conduzem a um caminho umbrático e as mídias e grandes personalidades da
história ocupam um papel preponderante na consolidação desse sistema cíclico de
falta - frustração - desejo - busca e fracasso/falta, provocado por eles mas útil, em
especial, pelo grandes coronéis da indústria.
Sendo a mulher o sujeito social que mais se vê idealizado quando se refere a
corpo e imagem física, ao investigar como as mídias influenciam potencialmente na
construção da subjetividade e autoimagem, logo chegamos na mulher e alcançamos
conclusões contundentes de que não apenas, mas exponencialmente ela é
meticulosamente explorado por comerciantes da indústria da beleza através do
poder exercido pelas mídias e seus agente na cultura contemporânea.
E, tendo em vista o papel fundamental da subjetividade e na construção
identitária de qualquer indivíduo, ao influenciar a forma como as mulheres se vêem,
as mídias contemporâneas e as representações corporais criadas por elas
produzem implicações sociais avassaladoras vistas, dentre outras formas, em
transtornos que vão desde o narcisismo à anorexia e cujos desdobramentos e
consequências são claramente vistos no adoecimento massivo de nossa sociedade.
Apresentaremos nos tópicos a seguir os resultados aos quais chegamos após
a conclusão do levantamento de dados, sua análise e discussão acerca de nossos
objetivos de pesquisa.

6.1 COMPREENSÕES E CONSTRUÇÕES HISTÓRICA ACERCA DO


CORPO E DA SUBJETIVIDADE
Conforme, Vasconcelos (2004) na Europa do século XVI a beleza feminina
ideal é de um corpo mais roliço, de ancas largas e seios grandes, diferente ao ideal
feminino da época medieval, caracterizado por um corpo estrito de ancas e de seios
pequenos. No século XVI, a beleza feminina deveria condizer com um modelo que
era imposto, na maioria das vezes, pelos homens, que impunham assim de maneira
implícita os seus critérios de beleza.
Nos séculos XVI e XVII, a gordura, enquanto alimento e enquanto constituinte
do corpo, era até então percebida como algo saudável, uma característica atribuída
22

aos ricos, enquanto a magreza, ao contrário, era um sinal de falta de saúde, de


pouca beleza e principalmente sinal de pobreza.
Já no século XVIII, ocorre uma mudança na percepção da gordura, seja nos
ingredientes e preparações ou como componente do corpo. O que se registra é uma
mudança na estética feminina, um gosto pré-romântico pela graça e pela
simplicidade, traduzida principalmente por uma figura esguia e lânguida, que
simbolizava uma delicadeza de sentimentos e uma sensibilidade expressa pela sua
fisionomia.
No início do século XX, o estatuto do corpo continuava a depender do meio
social. Os trabalhadores valorizavam a força física, a vigor e a resistência, em
contraposição, a burguesia mantinha uma atitude mais estética, portanto, a
aparência física tinha uma representação social importante, porém, não se mostrava
o corpo.
No período entre guerra, dá-se início à exposição do corpo. Este período
representa para a burguesia uma época de liberação do corpo onde é travada outra
relação entre o físico e as roupas. Não há mais lugar para roupas que escondam os
corpos, a mudança é ainda mais visível em relação ao vestuário feminino. Saem às
cintas e corpetes, entram em cena as calcinhas e sutiãs. As roupas se encurtam, as
pernas são valorizadas pelas meias.
Em nenhuma outra época, o corpo magro adquiriu um sentido de corpo ideal
e esteve tão em evidência como nos dias atuais: esse corpo, nu ou vestido, exposto
em diversas revistas femininas e masculinas, está definitivamente na moda: é capa
de revistas, matérias de jornais, manchetes publicitárias, e se transformou em um
sonho de consumo para milhares de pessoas, nem que, para isso, elas tenham que
passar por intervenções cirúrgicas (plásticas), dietas de todos os tipos (do sangue,
da melancia etc) ou exercícios físicos dos mais variados.

6.2 COMO É CONSTRUÍDA E QUAL É O PAPEL DA SUBJETIVIDADE


NA AUTOIMAGEM FEMININA

Alguns teóricos, que trabalham com a base psicanalítica, compreendem que a


subjetividade feminina segue a lógica fálica, ou seja, se baseia na busca por aquilo
que lhe falta. Nessa perspectiva a falta, inicialmente anatômica, percebida pela
23

mulher em relação ao sexo oposto, daria início a um caráter de feminilidade


traduzida como um "haver-se com a falta".
Birman (1991, p.8 apud VASCONCELOS, 2004) promove uma importante
discussão acerca do “Real”. Ele elabora a ideia de que o real existe como uma
espécie de mediador daquilo que compreendemos ser de ordem simbólica, nos
ajudando a elaborar os sentidos e significados desses símbolos para que então
possamos utilizá-los e decodificá-los dentro de espaços comuns. Sendo assim, o
que é real e concreto, segundo ele, só existe devido à existência do que é subjetivo.
A busca edaz da mulher por atingir padrões do que lhe imputam ser belo, seria
então, seria uma tentativa de mediação de sua necessidade subjetiva a partir
daquilo que no universo comum lhe demonstram estima real. Ou seja, a beleza
dentro do universo feminina seria uma espécie de objeto de compensação para
aquilo que lhe falta. No entanto, em um universo de constante mudanças, onde a
beleza se relativiza ao conjunto de seus conceitos e culturas de cada época e
sociedade, compreendemos que esse objeto se torna cada vez mais abstrato e,
portanto, infactível.
A dra. Suely Rolnik, filósofa, cientista social e psicóloga, Professora Titular da
PUC-SP e fundadora do Núcleo de Estudos da Subjetividade, fala um pouco sobre
como a velocidade dessas mudanças de cenários são então capazes de provocar
uma intensa sensação de inadequação e descompasso, o que faz da subjetividade
algo diretamente relacionado à identidade.
Essa ausência então, do que agora estamos chamando de identidade,
mobilizaria a mulher em direção a uma travessia avassaladora em busca tanto de
autorreconhecimento quanto do reconhecimento do outro, que, quando fracassada,
levaria esse indivíduo ao caos interno. E é importante destacar que, mediante a
instabilidade inerente desse fator em nossa sociedade, se o sujeito busca por uma
afirmação de sai identidade baseado nesse fator, o caos passaria de um estado para
uma condição, se não recorrente, fixa. Mas como não correr esse risco de se
deparar com nessa condição e se transformar em um elemento em série, se a outra
única alternativa parece ser a da marginalização, a da não aceitação do outro e não
pertencimento a algo?
Sendo assim, o que eu sou, como sou e me vejo, trata-se de uma construção
subjetiva, feita por mim, mas totalmente enveredada pelas minhas relações. E é
considerando e até manipulando esse fato que a indústria publicitária cria suas
24

peças (mulheres são responsáveis por 80% das decisões de compra), usurpando
ainda mais o sujeito de sua autonomia quanto à construção de sua própria
subjetividade.

6.3 A INFLUÊNCIA DAS MÍDIAS NA CULTURA CONTEMPORÂNEA

Em épocas passadas no surgimento da mídia, o principal papel que se


destacou foi o da disseminação de conteúdo, ela facilitou que os conteúdos fossem
expostos em maior número, que atingisse maior número de pessoas. De acordo com
Santoro a comunicação social vai muito além da comunicação em massa, ela gera
transformações, armazenamento e difusão de conteúdos simbólicos (Santoro, 1986,
p. 417), Ou seja, Ao mesmo que atingia positivamente, atingiu negativamente, por
exemplo com o idealismo com relação ao corpo, aparência. Criou-se uma figura
ideal.
Conforme Christiane Moura cita no trecho abaixo, existe um sentimento de
falta, oriundo do passado fálico, e esse sentimento de falta foi aproveitado pela
Mídia, como fonte de sucesso.

“A noção de castração fálica, em Freud, leva a


pensar que as mulheres convivem mais
presentemente com a sensação de que “algo
falta”. Ainda que a falta seja uma condição
humana, são as mulheres, a exemplo das
antigas histéricas que são chamadas a
denunciá-la, na medida em que recai sobre elas
o silenciamento da condição feminina.”
Nascimento, 2014

As pessoas na intenção de suprir essa falta, de receber o olhar e atenção do


outro, se tornaram objetivas em atingir as características que eram impostas pela
mídia, surgindo assim o desejo de comprar, de ter aquela roupa, ter aquele sapato,
emagrecer, comprar aquele remédio que diz se fazer milagre.

“apropriado pela mídia e cultura do consumo, podem


constituí-la como um simulacro do feminino, através do
25

consumo de adereços, próteses e infinitos produtos que


a equipara aos grandes modelos de mulheres, mas que
não lhe garante nem a singularidade nem a resposta do
que ela, mulher, realmente é ou quer.” Nascimento,
2014

6.4 O PAPEL DA MÍDIA NA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE

Os meios de comunicação têm o poder de criar esquemas dominantes, criar


padrões dominantes, e com isso acabou criando uma insatisfação geral com relação
a autoimagem, e seres avessos as diferenças. De acordo com Andrade e Bosi, o
que é perpetuado pela Midia, gera essa insatisfação cronica.

Andrade e Bosi (2003), por exemplo, estudam a


influência da mídia no comportamento alimentar
feminino. Para os autores, "o ideal de corpo perfeito
preconizado pela nossa sociedade e veiculado pela
mídia leva as mulheres, sobretudo na faixa
adolescente, a uma insatisfação crônica com seus
corpos"

Seres avessos a diferenças causam sociedade mais preconceituosas e


irracionais. Ou seja, a mídia tem o poder até hoje de fazer as pessoas criarem
concepções sobre si mesmos e sobre outros grupos. Como mostra o trecho abaico:

Sendo assim, através da análise de notícias publicadas


na mídia é possível perceber as “categorias de
pensamento” que expressam uma dada realidade, pois
uma simples narrativa, conforme demonstrou Bourdieu
(1997) “implica sempre uma construção social da
realidade capaz de exercer efeitos sociais de
mobilização (ou de desmobilização)” (Bourdieu, 1997,
p.28)
26

6.5 O CORPO E SUAS REPRESENTAÇÕES

Ao longo de toda a história e em todas as culturas, o corpo sempre se tratou


de um objeto refletor da subjetividade nas relações humanas, no entanto, nas
culturas ocidentais, ele se destacou como o bem mais precioso, atribuindo-se a ele
ou até sobrepondo-o ao valor dado à própria alma, até então, reconhecida como
sendo o centro das emoções e a base do caráter de um indivíduo. Portanto,
envergonhar-se do próprio corpo seria o equivalente ao envergonhar-se de si.
No entanto, como temos visto, o modo como pensamos vemos e nos
relacionamos com o corpo trata-se de um constructo cultural e social e nisso ele
acaba por atribuir a si uma série de funções e significações a partir de cada item que
o compõe, assim como do conjunto dessas características (cor, textura, densidade,
volume, etc.) enquadrando-o assim, bem como ao indivíduo que nele habita em um
respectivo status, que é organizado dentro de um universo simbólico consolidado
por mídias e atores sociais. Entretanto existe, em geral, um abismo vilipendioso
entre o corpo que nos foi dado e aquele que nos é cobrado, em geral, delineado pelo
“ideal cultural de magreza”.
Hoje, no ocidente, controlar o corpo, de maneira que este corresponda aos
padrões atuais, além de ser uma questão de boas maneiras, promulga a felicidade e
o sucesso (bem como os seus opostos) de um sujeito. Legitimar esses padrões é
ignorar absolutamente o fato dos múltiplos biotipos tidos por cada um, contudo,
sendo o corpo o lugar de afirmação da identidade social do indivíduo e havendo nele
a necessidade intrínseca ao ser humano de desejar ser parte aceita de um grupo,
vive-se da maneira mais extrema e insalubre possível a máxima de Pompeia: “Não
basta ser, é preciso parecer ser!”.

6.6 IMPLICAÇÕES SOCIAIS E PESSOAIS ORIUNDAS DOS


PROCESSOS IMPOSTOS PELA GLOBALIZAÇÃO

Segundo Nascimento (2014), a mídia pós-moderna apresenta o modelo de


corpo perfeito a ser desejado e copiado, pautados pela tríade beleza-magreza-
27

jovialidade, sendo este o mais recorrente nos anúncios publicitários, e que são
cotidianamente apresentados à mulher.
À vista disso, fica evidente que a cultura narcísica foi imputada pela mídia,
promovendo estereótipos previamente determinados.
A miríade de imagens da mulher perfeita exibida na mídia em geral, tornou
um possível inalcançável, justamente por haver inúmeros recursos disponíveis, mas,
nenhuma chance real de atingir o resultado desejado, uma vez que este corpo não
existe, a não ser no imaginário social. (NASCIMENTO, 2014).
É perceptível como a indústria da mídia aposta nos cosméticos e exibição de
mulheres com um padrão de beleza preconcebido, viabilizando o mercantilismo das
empresas que atuam nestes setores e desejam potencializar suas fontes de renda.
Vasconcelos (2004), aborda a beleza dentro de um contexto simbólico, como
um meio de ação social, ainda que de forma instável, pois quando os meios formais
são difíceis para as mulheres se expressarem, é então construída culturalmente e
socialmente, a beleza feminina, dado que, a mulher ao ser vista, pode então se
comunicar.
É notória a forma da mulher se estabelecer no mundo, conquistando o seu
lugar na sociedade, sobre os alicerces voláteis de padrão de beleza estabelecidos
pela mídia. Lamentavelmente, o seu espaço social não é constituído mediante o seu
valor pessoal, suas características singulares ou simplesmente por ser humana.
A busca pela beleza e pelo corpo perfeito, se tornou uma obsessão, como se
através dele fosse possível encontrar o equilíbrio, a felicidade, o sucesso nas
relações profissionais e amorosas, impondo um tipo ideal de corpo, ignorando
aquelas que não se enquadram e acabam na periferia da sociedade.
(VASCONCELOS, 2004)
Esta ambição pelo corpo perfeito, revela a inquietação que todo o ser humano
tem dentro de si, tanto homens, quanto mulheres, almejam a felicidade e sucesso
em todos os aspectos da vida. No entanto, a mídia subverte, se aproveita da
vulnerabilidade humana, para manipular as massas, com um corpo utópico e uma
felicidade ilusória, infundindo estigmas àqueles que não fazem parte do sistema.
Ocasionando assim, os sentimentos de baixa auto-estima, decorrentes à
constante insatisfação com a forma corporal, como se os outros valores pessoais
não existissem ou fossem secundários, pois só conseguem se sentir socialmente
aceitos se estiverem fisicamente dentro dos padrões desejados pela sociedade.
28

(VASCONCELOS, 2004).
Deste modo, a negação e insatisfação com o próprio corpo traduz um mal-
estar interiorizado de “uma ruptura entre si e o que se exige de si”, revelando
insatisfação permanente, uma tradução da opressão social, oriundas de processos
impostos pela globalização, somada a uma perda de valores culturais essenciais
para a construção de subjetividades, gerando um mundo de incertezas e de riscos
produzidos, o qual se desdobra na perda da liberdade e da identidade humana.

6.7 A CULTURA DO NARCISISMO E SEUS DESDOBRAMENTOS

Segundo Lash (Apud 1983, Nascimento, 2012), houve uma alteração


nas culturas capitalistas, as quais se transformaram na “cultura do narcisismo” com
uma preocupação aumentada com a realização pessoal, que foram acontecendo à
medida que os âmbitos coletivos foram declinando, e se manifestando de modo a
conservar a psique do indivíduo.
As alterações na relação entre o sujeito e o corpo, modificaram as
instâncias privadas e coletivas, concebendo pessoas que buscam o interesse
pessoal e renunciam às relações sociais.
Para Vasconcelos (2004), essa construção da subjetividade, que é permeada
pela cultura do narcisismo, onde o “eu” moderno é voltado cada vez mais a si e é
avesso a diferenças, revela a busca pela perfeição por meio do corpo, o qual se
transformou numa medida de desempenho.
Sendo assim, o corpo exerce a função de promover o indivíduo, podendo ser
comparado aos indicadores de desempenho utilizados em empresas, que funcionam
como ferramentas para medir a performance individual.
Essa ideologia individualista, cujo os valores dominantes são o consumismo,
a competição, um “corpo mercadoria”, , aquele que pode trazer algum retorno e
ainda deve expressar saúde, se tornou uma utopia. (VASCONCELOS, 2004).
Esse sistema de valores, esbarra na realidade, criando um conflito interno, as
instâncias coletivas vão declinando, e o caráter narcísico da sociedade se manifesta
como uma forma de sobrevivência psíquica do sujeito.
29

6.8 ESTIGMAS RELACIONADOS AO CORPO

Conforme Vasconcelos (2004), atualmente, encontra-se no sujeito que


apresenta um corpo denominado de gordo a questão do mal-estar subjetivo. Está
associado a um imaginário social próprio que ao ser divulgado pela mídia impressa,
faz entrever um corpo impregnado de preconceitos, discriminações e estigmas, por
representar, na sociedade contemporânea, tanto um caráter pejorativo de uma
falência moral quanto um corpo com falta de saúde. O gordo ao violar a norma social
vigente, torna-se um paradigma estético negativo. Em contrapartida, o corpo magro
é tido como saudável, é valorizado e desejado, acabando por se transformar em um
símbolo da própria felicidade; fundamental para o sujeito ser aceito socialmente.
O gordo, mais do que apresentar um peso socialmente inadequado, passa a
carregar um caráter pejorativo, como salientaram os médicos, denota descuido,
preguiça, desleixo, falta de disciplina e também denota pobreza.
Vale enfatizar também que se criou uma espécie de superstição em torno da
gordura, se você é gordo nunca se casará, nunca terá um emprego, nunca terá uma
vida sexual satisfatória. Frequentemente os gordos adoecem não por causa da
gordura, mas sim pelo stress, pela opressão a que são submetidos.
Partindo dessa concepção, o gordo passa a ter um corpo visivelmente sem
comedimento, sem saúde, um corpo estigmatizado pelo desvio, o desvio pelo
excesso. É um corpo que viola a norma, a lei vigente na vida social, que passa a
existir, sempre em um estado desviante, frente a uma norma social, corporal e
psíquica. O indivíduo que passa a ter “uns quilinhos a mais”, apresenta um atributo
que o torna diferente de outros, sendo considerada uma pessoa com uma
característica que o marca negativamente, passa a ser uma pessoa que carrega um
“estigma”, que o define como: estranho e diferente dos outros que se encontram
numa categoria em que pudesse ser incluído, sendo, até, de uma espécie menos
desejável. Assim, deixamos de considerá-lo criatura comum e total, reduzindo-o a
uma pessoa estragada e diminuída. (VASCONCELOS, 2004
30
31
32

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ZORZAN, Fernanda; CHAGAS, Arnaldo. Espelho, espelho meu, existe alguém


mais bela do que eu? Uma reflexão sobre o valor do corpo na atualidade e a
construção da subjetividade feminina. Santa Cruz do Sul, jul. 2011. Disponível
em < http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_nlinks&ref=2908897&pid=S1413 389X201700010001600047&lng=pt.
acesso em 19 ago. 2019.
36

AMPARO, Denise Matos et al. Adolescentes e jovens em situação de risco


psicossocial: redes de apoio social fatores pessoais de proteção. Brasília,
2008.

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2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008

FRADA, C. M.S.; FELDMAN, R. D.; Descrição de um percurso na construção da


autoestima de uma criança. 2015. 58 f. Relatório de Estágio (Mestrado em
Educação Escolar) - Paula Frassinetti Educação com Rumo, Porto, 2015

PAPALIA, D. E.; FELDMAN, R. D.; Desenvolvimento humano. 12. Porto Alegre:


Artmed, 2013.

Esses autores estão na introdução, mas não estão na referência


(MATTANA, 2014)
GUATTARI, F.; ROLNIK, 2010 e GUATTARI, F. 1992, p. 19).
(REY, apud Molon, 2014, p. 615).
(WARD, 1996, p. 13-14)
(RICCIARDELLI; CLOW, 2009, p. 105- 134 apud AVELAR; VEIGA 2013, p.
339)
(SCHUBERT, 2009)

APÊNDICE 1

CATEGORIZAÇÃO

Compreensões e construções históricas acerca do corpo

NASCIMENTO, Christiane Moura; PROCHNO, Caio César Souza Camargo;


SILVA, Luiz Carlos Avelino da. O corpo da mulher contemporânea em revista.
Fractal, Rev. Psicol., Rio de Janeiro , v. 24, n. 2, p. 385-404, ago. 2012.
Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-
02922012000200012&lng=pt&nrm=iso>. acesso em 17 ago. 2019.
37

Na década de 20 do século XX houve um forte crescimento das indústrias de


cosméticos, voltado principalmente à aparência das mulheres. Aumentaram os
cuidados com o corpo, intensificaram-se as práticas relacionadas à higiene, e a
beleza se tornou um fundamento subjetivo, definido pelos seguintes padrões: cinema
de Hollywood, revistas, moda e publicidade. 40 anos mais tarde, na década de 60,
as mulheres conquistaram efetivamente alguma igualdade de direitos, tais como: o
direito ao voto, a inserção no mercado de trabalho (espaço na esfera social), e os
direitos em relação ao corpo e à sexualidade. Desse modo, podemos pensar que
houve uma transformação do corpo da mulher em diversas instâncias sociais.

Assim como os romances e folhetins, a telenovela, a radionovela e a fotonovela


foram produzidas essencialmente para o público feminino, com a seguinte fórmula
"lágrimas, mulheres e empresas que vendem sabão" (MIRA, 2003, p. 26). Desse
modo, as mídias mencionadas tornaram-se parte da constituição da história e da
subjetividade da mulher ocidental e persistem até hoje, no que diz respeito ao
romantismo e à ficção presentes nelas, nas revistas femininas e na televisão. O
elemento publicidade já se fazia presente nesses meios de comunicação.

Assim, inicia-se um novo desenho da subjetividade feminina na mídia, que valoriza a


independência financeira e a estética corporal. Percebemos nesse momento um
estado de paradoxo, pois se por um lado a luta feminista foi no sentido de liberar o
corpo feminino, num chamamento ao pleno exercício da sexualidade e da ocupação
da mulher em diversos setores da esfera pública; por outro, o chamamento da mídia
já se impunha no sentido de delimitar as ações e práticas femininas, principalmente
no que concerne aos cuidados corporais.

Dessa forma, entendemos que a mídia mostra a figura exposta da mulher, a qual, no
fim das contas é construída pela própria cultura. Entretanto, o seu sustentáculo não
pode ser outro a não ser o sistema capitalista, que sob a égide da sociedade de
consumo, transforma o ato de consumir num verdadeiro espetáculo, veiculado
principalmente pela publicidade.
Apesar de já engendradas as técnicas de aperfeiçoamento corporal, considera-se
que até a primeira metade do século XX a manipulação e o embelezamento do
próprio corpo eram práticas moralmente condenáveis, principalmente pela fé
católica, já que o poder de transformação caberia somente a Deus.

Através dessa “nova liberdade”, ao longo do século XX, a beleza tornou-se um


produto vendido em vários segmentos de mercado, e assim, uma mercadoria mais
acessível. Houve uma democratização de beleza, ou uma artificialização do corpo
natural. Nesse sentido a beleza do corpo se torna um signo cultural.

O corpo parece ter se tornado o locus dos ideais da beleza. Além disso, ela trata a
beleza como o grande produto de consumo oferecido às mulheres pós-modernas.
Esse investimento se torna uma prática de “controle do próprio corpo”, ou um
“investimento em autoestima” ou ainda um “agenciamento de si”. Podemos pensar
que o investimento e o controle da aparência são um produto do século XX. A partir
disso pergunta-se: de que outra forma a mulher controla o próprio corpo?

VASCONCELOS, Naumi A. de; SUDO, Iana; SUDO, Nara. Um peso na alma: o


38

corpo gordo e a mídia. Rev. Mal-Estar e Subj., Fortaleza , v. 4, n. 1, p. 65-93,


mar. 2004 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S1518-61482004000100004&lng=pt&nrm=iso>. acesso
em 17 ago. 2019.

Em nenhuma outra época, o corpo magro adquiriu um sentido de corpo ideal e


esteve tão em evidência como nos dias atuais: esse corpo, nu ou vestido, exposto
em diversas revistas femininas e masculinas, está definitivamente na moda: é capa
de revistas, matérias de jornais, manchetes publicitárias, e se transformou em um
sonho de consumo para milhares de pessoas, nem que, para isso, elas tenham que
passar por intervenções cirúrgicas (plásticas), dietas de todos os tipos (do sangue,
da melancia etc) ou exercícios físicos dos mais variados.

A beleza física deve agora (período do renascimento) ser exteriorizada, não


simbolizando mais um trunfo perigoso, mas antes um atributo necessário como
preditor de um caráter moral e social. Passou a ser fundamental ter como atributo a
beleza, que passa a ser uma obrigação, pois a fealdade era agora um indicador claro
de uma inferioridade social.

A construção dos sentidos e significados atribuídos ao corpo, na sociedade


contemporânea, não se assemelha aos mesmos sentidos que apresentavam em
épocas passadas.

Pensar em corpo na atualidade nos remete à estética corporal, estética aqui utilizada
como um termo repleto de percepções específicas, oriundas de informações que
possuem, no corpo e no rosto humanos, objetos privilegiados deste tipo de
percepção. (Nahoum-Grappe, 1991).

Os cânones da beleza feminina e o ideal de mulher sofreram transformações, desde


o final da idade média até o termo da idade moderna. “De esbelta a roliça e de
natural a pintada, a silhueta e o rosto femininos foram correspondendo às diferentes
condições de dieta, de estatuto e de riqueza, dando origem a novos padrões de
aparência e gosto, a novos ideais de beleza e de erotismo” (Grieco, 1991, p.81).

No período do renascimento, ao contrário da Idade Média, a beleza feminina ganha


um novo valor. Agora esta é reconhecida como um reflexo, “um sinal exterior e
visível de uma bondade interior e invisível”.

O corpo representava um espelho do íntimo de cada pessoa e que deveria ficar à


mostra para todos. “A beleza seguia um determinado modelo, e as mulheres
entregavam-se a grandes cuidados e despesas, para que a sua aparência se
adequasse aos padrões, que se mantiveram praticamente inalterados nos primeiros
tempos da idade moderna” (Grieco, 1991, p.85).

No século XVI (...) Livros sobre cosméticos e beleza feminina indicavam que as
receitas por eles divulgadas eram, principalmente, para exercerem duas funções: a
de corrigir defeitos e a de melhorar a natureza, principalmente do cabelo, rosto,
pescoço, seios e mãos – as partes que não eram cobertas pelo vestuário.

Na Europa do século XVI, a relação do indivíduo com o corpo era caracterizada por
39

um certo puritanismo e vergonha, em relação a sua aparência e sexualidade, ao


mesmo tempo em que há um “culto da beleza” e uma redescoberta do nu,
influenciado pelo renascimento italiano, há uma preferência pela perfeição física e
espiritual. Neste período, o ideal de beleza física feminina é de um corpo mais roliço,
de ancas largas e seios grandes, opondo-se ao ideal feminino da época medieval,
caracterizado por um corpo estrito de ancas e de seios pequenos No século XVI, a
beleza feminina deveria, portanto, condizer com um modelo que era imposto, na
maioria das vezes, pelos homens, que impunham assim de maneira implícita os seus
critérios de beleza, e que continuou a impor nos séculos seguintes (Grieco, 1991).

Século XVIII, quando ocorre, então, uma mudança do padrão de estética física,
concomitante a uma mudança nos hábitos alimentares (Grieco, 1991). Nos séculos
XVI e XVII, a culinária européia é marcada por uso nas preparações de manteiga, da
nata e dos doces. A gordura, enquanto alimento e enquanto constituinte do corpo,
era até então percebida como algo saudável, uma característica atribuída aos ricos,
enquanto a magreza, ao contrário, era um sinal de falta de saúde, de pouca beleza e
principalmente sinal de pobreza.

Não admira que as mulheres das classes superiores procurassem distinguir-se das
suas irmãs menos afortunadas, cultivando grandes superfícies de carne leitosa, em
contraste com as figuras morenas, pálidas e magras daquelas mulheres cujas vidas
difíceis não só as tornavam feias, aos olhos dos seus contemporâneos, mas também
prematuramente envelhecidas (Grieco, 1991, p.82).

Porém, no século XVIII, o que ocorre é uma mudança na percepção da gordura, seja
nos ingredientes e preparações ou como componente do corpo. O que se registra é
uma mudança na estética feminina, um gosto pré-romântico pela graça e pela
simplicidade, traduzida principalmente por uma figura esguia e lânguida, que
simbolizava uma delicadeza de sentimentos e uma sensibilidade expressos pela sua
fisionomia que, deste modo, ditaram o tom para o padrão de beleza feminina no
início do século XIX e ao conceito romântico de feminilidade (Grieco, 1991).

No século XIX, há uma redefinição do campo político, a sociedade civil se apresenta


com uma consistência particular, há agora uma distinção entre público e privado, há
uma tentativa em estabelecer uma equivalência entre as esferas e os sexos.

No início do século XX, o estatuto do corpo continuava a depender do meio social.


Os trabalhadores valorizavam a força física, o vigor e a resistência, em
contraposição, a burguesia mantinha uma atitude mais estética, portanto, a
aparência física tinha uma representação social importante, porém, não se mostrava
o corpo. No entreguerra (1918 – 1938), dá-se início à exposição do corpo. Este
período representa para a burguesia uma época de liberação do corpo onde é
travada uma outra relação entre o físico e as roupas. Não há mais lugar para roupas
que escondam os corpos, a mudança é ainda mais visível em relação ao vestuário
feminino. Saem as cintas e corpetes, entram em cena as calcinhas e sutiãs. As
roupas se encurtam, as pernas são valorizadas pelas meias.

O uso de tecido mais macio possibilitava entrever de maneira discreta as linhas do


corpo. Agora a aparência física passa a depender mais do corpo, sendo, portanto,
40

necessário cuidar dele. As revistas femininas na década de trinta, como a Marie


Claire, passam a alertar as mulheres para tais cuidados, elas agora devem se
preocupar claramente em serem sedutoras, uma nova seção é então criada: a da
ginástica diária.

A dietética começa então a despontar como um elemento chave para se obter ou


manter a forma desejada. Muitos alimentos são então abolidos dos cardápios, pois
são apontados como causadores de males à saúde e à forma física. Ao açúcar ficam
atribuídos a obesidade, o diabetes, a hipertensão, doenças cardiovasculares, cáries.
Em contraposição, as carnes grelhadas, saladas, legumes, frutas frescas e laticínios
são recomendados. Os meios de comunicação desempenham aqui importante papel
como “intimidador à magreza”. Os produtos dietéticos passam a desempenhar papel
principal nesse esforço para a manutenção de um corpo esguio, sem barriga. Era
necessário estar atendo aos sinais do corpo. Para o homem ter barriga, há muito já
não era mais sinal de respeitabilidade, e sim uma mostra visível de desleixo, era
uma ameaça, e ser obeso era um pavor (Vincent, 1987).

“Ter barriga já não é sinal de respeitabilidade, para o homem, e sim mostra de


desleixo (...)” (Prost, 1987, p.97). Portanto, será o fator comercial, mais do que o
higienista, o maior responsável pela divulgação de novos hábitos do corpo. E será na
metade da década de 60 que hábitos como dietética, asseio e a cultura física irão se
generalizar, agora é necessário manter a beleza e juventude, outro marco do século
XX, sendo deste modo que a cosmética terá também lugar de destaque,
principalmente por ter ao seu lado aparentemente o rigor científico e o feitiço da
propaganda. A velhice deixa de ser uma virtude, a norma social dita a aparência
jovem , há uma comunhão entre personalidade e corpo, ser o que é se confunde
com o permanecer jovem (Prost, 1987).

Assim, a magreza se torna em um ideal feminino moderno. Passa a ser


representada e glorificada como um sinal externo de sucesso. As mulheres em todo
o mundo ocidental passam a ter uma obsessão por uma imagem corporal esbelta
(Higonnet, 1991). O corpo, enfatiza a autora, é agora estereotipado e estampado
diariamente nas revistas, a beleza é um valor inerente ao feminino; magro, branco e
de classe média: “como podem os corpos gordos, de cor, pobres, ser representados
sem se cair em estereótipos negativos e sem jogar com os preconceitos do leitor”
(Higonnet, 1991, p.419).

A sociedade contemporânea está amplamente marcada pela globalização e a sua


lógica de mercado. De acordo com Giddens (1991), a globalização é um movimento
que acaba por transformar os espaços locais, e que, ao alterar a vida cotidiana dos
indivíduos, acaba por gerar uma alteração na existência do sujeito.

Como é construída e qual é o papel da subjetividade na autoimagem feminina

NASCIMENTO, Christiane Moura; SILVA, Luiz Carlos Avelino da. Sujeito


mulher: a imagem da beleza. Rev. Subj., Fortaleza , v. 14, n. 2, p. 343-357, ago.
41

2014 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?


script=sci_arttext&pid=S2359-07692014000200016&lng=pt&nrm=iso>. acesso
em 09 set. 2019.

Assim, compreendemos que a subjetividade feminina, referenciada pela lógica fálica,


está inscrita na condição de “buscar o que lhe falta”, e que a beleza é compreendida
como um atributo fálico compensatório à castração feminina, usado para
proporcionar à mulher a possibilidade de manter-se na condição de “ser olhada pelo
outro”.

Desse modo, a mulher estaria sempre em condição de buscar o que lhe falta.
Podemos pensar, a partir disso, que a feminilidade, trata-se, na verdade, de haver-se
com a falta.

A menina se dá conta de que o pai fálico não se deixaria seduzir por “um ser
incompleto”, e que por isso a mãe o engana com os truques da feminilidade:
“penteado, enfeites, batom, tecidos, perfume”. Nesse sentido, podemos pensar que a
menina aprende a disfarçar e esconder sua falta ou incompletude através dos
processos de embelezamento corporal.

A partir da sedução, pelas artimanhas da beleza, a menina (ou a mulher) busca mais
do que uma compensação fálica, busca o olhar desejante do outro

Esses mesmos autores ainda afirmam que as comunicações em massa não levam
em conta a diversidade cultural, e por isso as construções subjetivas acontecem sob
as rédeas do mercado e do consumo. Isso nos faz pensar que a originalidade em se
tornar sujeito cede lugar a uma construção padronizada.

Isso nos faz pensar que ser e estar no mundo, ou melhor, ser sujeito não se trata de
um ato criativo, nem produtivo, mas sim um ato de consumo. Nesse sentido, a
liberdade individual, que se transformou em um dos sustentáculos da pós-
modernidade é desmontada, em parte, quando pensamos nessas formas de
subjetivação pré-formatadas. Revela-se assim que a liberdade de subjetivar-se à sua
maneira, nas malhas da mídia e do consumo, não passa de uma ilusão, vendida,
sobretudo, pela publicidade.

A publicidade usa a subjetividade do consumidor e a lógica do seu desejo, a fim de


provocar identificações com os produtos oferecidos no mercado, vendendo sonhos,
desejos, fantasias, e atitudes. Assim, a mídia influencia o modo como o sujeito
contemporâneo se percebe e se relaciona com o mundo, ou seja, a sua
subjetividade e a sua maneira de pensar, pois, ao adquirir certos produtos, ele crê
que se apropria de uma nova forma de existir (BORIS; CESÍDIO, 2007, p. 464).

A mídia deve ser tratada enquanto uma manifestação cultural, que influencia
intencionalmente o comportamento, as atitudes e a corporeidade dos sujeitos
contemporâneos, sobretudo das mulheres. Assim, interfere na organização da
subjetividade, no modo de existir e de se tornar mulher. Desse modo, a publicidade
expõe as verdades criadas na contemporaneidade sobre o corpo feminino e sobre o
lugar cultural da mulher na sociedade de consumo.
42

Moreno (2009) fala que o foco da publicidade é mais direcionado às mulheres


porque elas são responsáveis pela maioria das decisões de consumo; 80% delas, no
Brasil, são realizadas por mulheres. A autora também fala que a propaganda, numa
sociedade de consumo diz "tenha, compre e seja feliz" e que à mulher ainda é dito
"seja bela" (MORENO, 2009, p. 185). Cria-se, assim, uma "imagem socialmente
valorizada" da mulher, que passa a ser desejada e interiorizada enquanto um padrão
ou modelo a ser copiado e reproduzido.

Entretanto, a publicidade usa a subjetividade do consumidor e a lógica do seu


desejo, que pela Psicanálise se constitui como a lógica de que "algo falta", para
alimentar o sistema capitalista. Melhor dizendo, a publicidade se vale dos sonhos e
das fantasias para que o sujeito, ao se deparar com as imagens e discursos,
identifique-se com eles e com o produto anunciado através deles, e possa se
descobrir enquanto ser faltante. Desse modo, o sujeito tem a ilusão de que a
aquisição daquele produto, e de tudo que se associa a ele (valores, posições sociais,
ideais, etc.) será também adquirido e fará parte de seu repertório no modo de ser e
estar no mundo.

A sociedade de consumo, aliada à sociedade do espetáculo criaram essa


possibilidade de subjetivação à mulher: tornar-se a bela e magra consumidora de
milhares de produtos apresentados pela publicidade na forma de espetáculo
midiático. "De fato, a subjetividade foi comprada" (BARRETO, 2009, p. 196).

Tornar-se uma mulher contemporânea requer, assim, alguns cuidados. O maior


deles, os cuidados com o corpo, que precisa consumir para se tornar digno de ser
exposto. Eis o lugar demarcado para a mulher: um espetacular mercado de bens de
consumo a lhe convidar à subjetivação.

WULFHORST, Cristina. Transitando entre folhas e bytes a expressão da mídia


impressa e da mídia digital na cultura e na produção de subjetividades. Psicol.
cienc. prof., Brasília , v. 24, n. 4, p. 78-87, dez. 2004 . Disponível em
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-
98932004000400010&lng=pt&nrm=iso>. acesso em 17 ago. 2019.

Pensar em Comunicação Social nos faz pensar na Psicologia, nos processos de


subjetivação em relação à comunicação. Como afirma Santoro (1986), o estudo da
Comunicação excede os limites de qualquer disciplina. Os conhecimentos imbricam-
se, tecem-se; não se sabe onde começa um e termina outro, sendo, portanto,
híbridos.

VASCONCELOS, Naumi A. de; SUDO, Iana; SUDO, Nara. Um peso na alma: o


corpo gordo e a mídia. Rev. Mal-Estar e Subj., Fortaleza , v. 4, n. 1, p. 65-93,
mar. 2004 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S1518-61482004000100004&lng=pt&nrm=iso>. acesso
em 17 ago. 2019.

A experiência do corpo parece pertencer ao rol das evidências banais. Nada há,
entretanto, de mais inquietante. Em sua fragilidade e transitoriedade, em seu destino
de morte, essa experiência é fonte ininterrupta de insegurança e medo, na medida
43

em que “materializa em nossa carne a natureza – uma natureza inacessível e


incontrolável” (Duvignaud, 1981, p.134).

A experiência do corpo parece pertencer ao rol das evidências banais. Nada há,
entretanto, de mais inquietante. Em sua fragilidade e transitoriedade, em seu destino
de morte, essa experiência é fonte ininterrupta de insegurança e medo, na medida
em que “materializa em nossa carne a natureza – uma natureza inacessível e
incontrolável” (Duvignaud, 1981, p.134).

Em suas metamorfoses, ao sabor de seus fantasmas e dos modelos culturais


impostos, o corpo fala de seus medos ou de seu abandono e de sua entrega a
poderes reguladores.

O real apenas se constitui como realidade pela mediação da ordem simbólica, que
lhe oferece consistência significativa, para que possa ser compartilhada por uma
comunidade social determinada, dotada da mesma tradição histórica e lingüística.
Isso implica em dizer que a realidade é uma constituição eminentemente
intersubjetiva e simbólica, não existindo pois fora dos sujeitos coletivos e históricos,
que são, ao mesmo tempo, os seus artífices, os seus suportes e os mediadores para
sua transmissão (Birman, 1991, p.8).

ARAUJO, Maria Gercileni Campos de. Subjetividade, crise e narratividade. Rev.


Mal-Estar Subj., Fortaleza , v. 2, n. 1, p. 79-91, mar. 2002 . Disponível em
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-
61482002000100007&lng=pt&nrm=iso>. acesso em 17 ago. 2019.

A Modernidade funda o princípio "identitário" para significar subjetividade. Assim


concebia-se a subjetividade organizada em referência à representação de si,
identidade consigo mesma, apontando para a essência de si, tida como
relativamente estável e referendada pelo "penso, logo existo", de Descartes. Tem-se,
no sujeito reflexivo cartesiano, o fundamento do conhecimento de tudo aquilo que é.
E o que é, é no presente, atesta a metafísica da presença.

Rolnik adverte que a velocidade das mudanças pode conduzir a sensações de


inadequação, como o sentir-se estranho ou estrangeiro consigo mesmo, justamente
porque operou-se o descompasso entre a realidade sensível e sua realidade
expressiva. Tudo parece sem sentido. Dá-se uma espécie de estranhamento. Não
mais consigo me reconhecer. Procuro a permanência em que sou mudança. Não
compreendo o que sinto, experimento, penso. Sinto-me angustiada, desalojada de
mim, sem me reconhecer um lugar no meu mundo de significados. Sofro. Quase fico
aterrorizada, pois vivo a perda de uma figura de referência minha (a de professora
competente, por exemplo) como um esvaziamento de minha própria subjetividade.
Tudo está ameaçado.

Como conseqüência, acostumamo-nos a pensar a subjetividade como identidade,


como consciência reflexiva, como igual às representações que cada um tem de si
mesmo, ou ainda, a pensar a subjetividade pelos modos como se manifesta. Noutros
termos, pelos modos como alguém realiza as atividades cotidianas: como vive, se
veste, exerce sua sexualidade, trabalha, se diverte, etc. Essas várias formas de
expressão comporiam uma espécie de perfil da subjetividade que a permitiria
44

reconhecer-se e ser reconhecida pelos outros.

A vivência do estranhamento pode mobilizar a invenção de novas formas de


existência, de maneira a ressignificar os novos universos de sensações em
engendramento. Mas, quando as pressões sobre a subjetividade tornam-se ameaças
de aniquilamento, de despedaçamento e ultrapassam o limite tolerável, dá-se o caos,
a desorganização do mundo de significados humanos, a loucura. Posso fazer
tentativas de acalmar meu desassossego através da anestesia das sensações, para
tentar continuar igual a mim mesma, tentando resgatar-me pelo princípio "identitário".
De repente, percebo que não estou só no turbilhão de mudanças em que tento
equilibrar-me surfando sobre ondas velozes que se transformam noutras e noutras,
exigindo, sempre, mais maestria para manter-me lá.

Quando falamos de ameaças à nossa subjetividade, queremos dizer ameaça a


qualquer figura de nossa referência. Nestes tempos de velozes mudanças, mudam
os universos que nos habitam. Por exemplo, transforma-se o referencial teórico-
científico que norteava nossa práxis. Este parece não mais atender às nossas
dúvidas, críticas e inquietações. É preciso, no entanto, buscar soluções para as
questões que nos permitam navegar na direção da ousadia de criar um território
singular. Parece não haver lugar para ele - o território singular - no circuito das
subjetividades seriadas, que nos são oferecidas permanentemente, no mercado
capitalista. Surge o medo da marginalização, de "ficar de fora", se quisermos manter
a independência, arriscando o novo, o diferente, rejeitando as subjetividades
seriadas. Se se vence o medo, somos tentados, como recurso último de
sobrevivência, a recorrer ao grupo das identidades reconhecidas.

A influência das mídias na cultura contemporânea

WULFHORST, Cristina. Transitando entre folhas e bytes a expressão da mídia


impressa e da mídia digital na cultura e na produção de subjetividades. Psicol.
cienc. prof., Brasília , v. 24, n. 4, p. 78-87, dez. 2004 . Disponível em
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-
98932004000400010&lng=pt&nrm=iso>. acesso em 17 ago. 2019.

Santoro entende a Comunicação Social muito além da concepção de comunicação


de massa: “Comunicação Social cobre todos os processos de geração,
transformação, armazenamento e difusão de conteúdos simbólicos” (Santoro, 1986,
p. 417), e considera que toda comunicação é, por definição, social.

NASCIMENTO, Christiane Moura; SILVA, Luiz Carlos Avelino da. Sujeito


mulher: a imagem da beleza. Rev. Subj., Fortaleza , v. 14, n. 2, p. 343-357, ago.
2014 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S2359-07692014000200016&lng=pt&nrm=iso>. acesso
em 09 set. 2019.

A noção de castração fálica, em Freud, leva a pensar que as mulheres convivem


mais presentemente com a sensação de que “algo falta”. Ainda que a falta seja uma
45

condição humana, são as mulheres, a exemplo das antigas histéricas que são
chamadas a denunciá-la, na medida em que recai sobre elas o silenciamento da
condição feminina.

Silenciamento esse que, apropriado pela mídia e cultura do consumo, podem


constituí-la como um simulacro do feminino, através do consumo de adereços,
próteses e infinitos produtos que a equiparam aos grandes modelos de mulheres,
mas que não lhe garante nem a singularidade nem a resposta do que ela, mulher,
realmente é ou quer.

A beleza é compreendida enquanto uma forma de poder às mulheres. E também


enquanto uma espécie de compensação à imperfeição, ou à condição de castrada.
Ou seja, toda tecnologia da imagem, empreendida pela mulher, acontece no sentido
de propiciar-lhe a condição de esconder a falta constituinte (condição de castração),
para permitir-lhe, a partir da sedução inerente à beleza, “buscar o que lhe falta”.

Nesse sentido, concebemos que a beleza feminina é construída pelo Outro, atribuído
enquanto mídia, no sentido de atrair o outro, já que acreditamos que a subjetividade
feminina, sobretudo através do espetáculo, acontece no sentido de atrair o olhar do
outro, ou melhor, de assegurar-se na possibilidade de ser olhada pelo outro.

O Papel da Mídia na construção da subjetividade

.ANDRADE, Angela; BOSI, Maria Lucia Magalhães. Mídia e subjetividade:


impacto no comportamento alimentar feminino. Revista de Nutrição. Campinas,
mar. 2003 . Disponível em < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415
52732003000100012&script=sci_abstract&tlng=pt >. acesso em 19 ago. 2019.

O ideal de corpo perfeito preconizado pela nossa sociedade e veiculado pela mídia
leva as mulheres, sobretudo na faixa adolescente, a uma insatisfação crônica com
seus corpos, ora se odiando por alguns quilos a mais, ora adotando dietas altamente
restritivas e exercícios físicos extenuantes como forma de compensar as calorias
ingeridas a mais, na tentativa de corresponder ao modelo cultural vigente. Dessa
forma, aumenta-se a pressão da equação: promessa de Felicidade e Beleza =
Consumo.

MOREIRA, Jacqueline de Oliveira. Mídia e Psicologia: considerações sobre a


influência da internet na subjetividade. Psicol. Am. Lat., México , n. 20, 2010 .
Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S1870-350X2010000200009&lng=pt&nrm=iso>. acesso
em 17 ago. 2019.

A Podemos afirmar que a mídia é, atualmente, um dos mais importantes


instrumentos sociais, pois seu poder produz esquemas dominantes de significação e
interpretação do mundo. A mídia define o conteúdo e a forma do pensamento e da
ação do sujeito. Alguns pesquisadores do campo das Ciências Humanas investem
no trabalho de estudar a influência da mídia na subjetividade.
46

Andrade e Bosi (2003), por exemplo, estudam a influência da mídia no


comportamento alimentar feminino. Para os autores, "o ideal de corpo perfeito
preconizado pela nossa sociedade e veiculado pela mídia leva as mulheres,
sobretudo na faixa adolescente, a uma insatisfação crônica com seus corpos"
(Andrade & Bosi, 2003). Desta forma compreendemos a referência platônica de
Bourdier (1997) em sua análise dos efeitos da mídia sobre a subjetividade como
tradução da idéia do filósofo grego para o horizonte da contemporaneidade.

Assim, a afirmação "somos marionetes da divindade" anuncia a mídia como


detentora do poder de manipular as cordas que sustentam os
sujeitos/marionetes.marionetes da divindade" anuncia a mídia como detentora do
poder de manipular as cordas que sustentam os sujeitos/marionetes.

NASCIMENTO, Christiane Moura; SILVA, Luiz Carlos Avelino da. Sujeito


mulher: a imagem da beleza. Rev. Subj., Fortaleza , v. 14, n. 2, p. 343-357, ago.
2014 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S2359-07692014000200016&lng=pt&nrm=iso>. acessos
em 09 set. 2019.

“O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre


pessoas, mediada pelas imagens” (Debord, 1997, p.14). O autor afirma que a
sociedade do espetáculo emerge quando as relações sociais entre as pessoas
começam a acontecer principalmente por intermédio de imagens.

Desse modo, a mídia se tornou uma instância que ocupa a vida cotidiana dos
sujeitos pós-modernos e está englobada na “indústria cultural”, que representa o que
é denominado como “cultura de massa”

O homem pós- moderno se reconhece e compreende sua existência e seu desejo


não através de suas próprias vivências, mas através das imagens que assiste. A
vida começa a acontecer através das imagens. A comunicação em massa, ou os
mecanismos mass-media são uma forte expressão dessa nova cultura que se
constitui diante do sujeito.

Com aparência estética e utilizando recursos de diversão e entretenimento a mídia


atua na nossa constituição subjetiva. Além disso, ela se tornou um veículo de
promoção dos laços sociais. Isso quer dizer que além da formação de subjetividade,
a mídia constitui o sujeito em relação ao outro.

Ela denuncia que a contínua produção cultural de imagens, pela via do espetáculo,
antecipa o sujeito e realiza, por ele, todo o trabalho de relação com o real. Assim, o
sujeito está “perdido de suas referências simbólicas”. Desse modo, em face do
“desamparo subjetivo”, só resta ao sujeito se valer das representações fornecidas
pela indústria da imagem (Kehl, 2003, p.2).

Bucci (2000), que afirma que o sujeito pós-moderno não está em possibilidade de
escolha, pelas vias da mídia, pois a mesma não oferece escolhas. Na verdade, para
esse autor, a mídia, materializada enquanto televisão oferece a seguinte opção: “é
isso ou nada; é isso ou nada somos” (Bucci, 2000, p.124).
47

O sujeito pós-moderno consome as subjetividades produzidas em série no sentido


de criar uma possibilidade de pertencimento social.

Kehl (2000) afirma que no século XX, em várias sociedades industriais e de forma
planetária, a televisão produziu e redefiniu novos modos de sociabilidade, causando
efeitos sobre a subjetividade. Na verdade, a autora menciona que a televisão é uma
instância imaginária, que suspende ou não permite a criação do pensamento.

Assim, tratamos à publicidade enquanto uma das instâncias que mais impulsiona o
sujeito a se criar enquanto ilha de edição, principalmente porque a partir dela o
sujeito tem condições de eleger seus produtos de consumo, e pode criar uma versão
aparentemente singular de si. Além disso, a publicidade devolve-lhe, através de
imagens, a possibilidade de se ver no pertencimento à cultura na qual está inserido.

Entretanto, como bem menciona Araújo (2006), a publicidade estrutura modelos a


serem reproduzidos pelos consumidores, à medida que adquirem os produtos
anunciados. Isso quer dizer que o consumo de produtos está atrelado à
subjetividade. Ou melhor, o consumo e o espetáculo criam a ilusão de singularidade
a partir do ato de consumo.

Pelas vias da publicidade, parece-nos que a mesma se empenha na criação de


imagens que nos fazem crer que a prática mais importante da vida pós-moderna diz
respeito ao ato de consumir.

Assim, a publicidade se exibe como um convite à formação de uma subjetividade


construída na aquisição e na compra. Como menciona Albuquerque (2004, p.100)
“Eu sou aquilo que tenho”. Ou melhor, “eu sou aquilo que consumo”.

Tornar-se humano pós-moderno tornou-se também um ato de consumo. Diante


dessa realidade proposta pela mídia, há a criação de um sujeito desvitalizado de
símbolos, marcado pela falta de pensamento e pela vida em ato, investido em sua
própria imagem.

Nesse sentido, se o sujeito transforma-se em imagem, ou melhor, se sua faceta


subjetiva mais importante se torna a imagem de si, não soa estranho que ele
ambicione reconhecimento social e visibilidade através da apreciação do outro
acerca de sua imagem. De qualquer modo, colocado o sujeito do espetáculo, ele se
faz existir quando se torna visto. “Sou visto, logo existo”. Se não sou visto, não
existo?

Há uma necessidade por parte das mulheres de imitar, ou de se apropriar dos


padrões corporais de beleza socialmente valorizados, e divulgados pelas grandes
mídias.
Assim, a beleza tornou-se um projeto individual e o fracasso paira sobre a mulher
não investida em beleza. Nesse sentido, ser bela se torna a maior expressão de
singularidade da mulher.

A imagem corporal mostrada cotidianamente à mulher corresponde a uma


48

impossibilidade de alcance na realidade. Desse modo, a imagem se transforma em


potência, e a realidade vivida no corpo se torna uma frustração.

VASCONCELOS, Naumi A. de; SUDO, Iana; SUDO, Nara. Um peso na alma: o


corpo gordo e a mídia. Rev. Mal-Estar e Subj.,Fortaleza ,v. 4, n. 1, p. 65-93,
mar.2004 .Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S1518-61482004000100004&lng=pt&nrm=iso>. acesso
em 17ago.2019.

O ideal de beleza surge como uma receita de bolo:A altura tem de ficar entre 1, 75 e
1,80 metro: os quadris, de 88 a 90 centímetros (os melhores são os de Naomi
Campbell). A personalidade deve ser forte como a de Cindy Crawford (...). Para o
busto, o ideal é ter as medidas entre 85 e 90 centímetros, com um formato parecido
com o de Stephanie Seymour; Karen Mulder é paradigma de cintura – entre 60 e 65
centímetros. As pernas têm de ser longilíneas, de 1,10 metro, como as de Nadja
Auermann (...) Ah, o traseiro! Precisa ser rígido e firme como os de Naomi Campbell
(Liliana Gomes, Caça-talentos da agência Elite).1

Conforme apontou Guattari (1990), houve um esfacelamento de subjetividades


ancoradas pelas formas de produção da vida moderna, pelas rápidas
transformações técnico-científicas e pelos avanços dos meios de comunicação, os
quais engendram, no cotidiano, formas cada vez mais expropriadas de si, através do
ritmo frenético imposto pelo modo imperialista do capitalismo mundializado.
Observa-se o abandono progressivo de uma economia voltada para a produção de
bens de consumo e serviços, em favor da produção de imagens, símbolos e
sintaxes, por intermédio, especialmente, do controle que exerce sobre a publicidade
e as sondagens, alienando, massificando e normalizando o modelo global.

Ao se trabalhar com a imprensa escrita, temos, portanto, a oportunidade de trabalhar


com uma prática discursiva de grande importância não apenas pela circulação de
idéias, argumentos, interpretações e posicionamentos, mas principalmente pela
ampliação dos conteúdos disponíveis às pessoas em seus cotidianos, contribuindo
tanto para a familiarização de alguns sentidos quanto para a construção de outros
(Nascimento, 2002, p.42).

Sendo assim, através da análise de notícias publicadas na mídia é possível perceber


as “categorias de pensamento” que expressam uma dada realidade, pois uma
simples narrativa, conforme demonstrou Bourdieu (1997) “implica sempre uma
construção social da realidade capaz de exercer efeitos sociais de mobilização (ou
de desmobilização)” (Bourdieu, 1997, p.28)

Bourdieu (1997), em sua análise sobre a televisão, salientou a existência de uma


“censura invisível” que é imposta pelos meios de comunicação e que expressam,
primeiramente, uma censura econômica permeada pela lógica da concorrência, do
furo, da procura pelo extraordinário, o que acaba por fazer com que os jornalistas
estejam sempre lendo-se e vendo-se constantemente, onde se faz necessário saber
primeiro o que outros disseram, para então saber o que dizer, seria o chamado “jogo
do espelho”

A mídia tem, portanto, um papel fundamental na construção e divulgação de uma


49

realidade homogênea, visto que tem um poder de evocação, de fazer existir


representações e idéias sobre um determinado grupo (Bourdieu, 1997).

O corpo de suas representações

NASCIMENTO, Christiane Moura; PROCHNO, Caio César Souza Camargo;


SILVA, Luiz Carlos Avelino da. O corpo da mulher contemporânea em revista.
Fractal, Rev. Psicol., Rio de Janeiro , v. 24, n. 2, p. 385-404, ago. 2012 .
Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-
02922012000200012&lng=pt&nrm=iso>. acesso em 17 ago. 2019.

Em qualquer tempo, espaço e cultura, o homem relaciona-se com o mundo a partir e


através de seu corpo, o que nos leva a concebê-lo, tal qual Le Breton (2006), como
uma construção social e cultural a partir da qual se refletem as tramas e os sentidos
da própria sociedade. Assim, o corpo se torna um refletor da própria cultura.

Nas sociedades ocidentais, o corpo emergiu como o bem mais precioso do homem.
Baudrillard (2010, p.168) afirma que após uma era milenar de puritanismo, na
atualidade, o corpo foi redescoberto sob o signo da Lugar, por excelência, da junção
da natureza e cultura, o corpo nos escapa a duplo título: um corpo que nos é dado,
sem que sejamos consultados e um corpo que nos é exigido pela instância social
das épocas e das culturas. libertação física e sexual, mas assume a função moral e
ideológica que outrora a alma exerceu em outras sociedades.

VASCONCELOS, Naumi A. de; SUDO, Iana; SUDO, Nara. Um peso na alma: o


corpo gordo e a mídia. Rev. Mal-Estar e Subj., Fortaleza , v. 4, n. 1, p. 65-93,
mar. 2004 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S1518-61482004000100004&lng=pt&nrm=iso>. acesso
em 17 ago. 2019.

Lugar, por excelência, da junção da natureza e cultura, o corpo nos escapa a duplo
título: um corpo que nos é dado, sem que sejamos consultados e um corpo que nos
é exigido pela instância social das épocas e das culturas.

A construção do sujeito e de sua identidade é uma construção discursiva e, portanto,


ideológica, onde várias agências, entre elas a mídia, e atores sociais trabalham para
perpetuar esta ordem, “os discursos sociais constroem, refletem e, ao mesmo tempo,
servem de suporte para os valores culturais dominantes em um tempo e grupo social
determinados” (Rocha-Coutinho, 1995, p.51)

O corpo pode, deste modo, desempenhar diferentes funções, variando de acordo


com a cultura. O corpo, como salientou Sarti (2001), é então “feito”, “produzido” em
cultura e em sociedade, definindo-se de acordo com as regras do mundo social em
que está inserido. Conforme destacou Boltanski, o corpo é: como um objeto cuja
posse marca o lugar do indivíduo na hierarquia das classes, pela sua cor (descorada
ou bronzeada), textura (flácida e mole ou firme e musculosa), pelo volume (gordo ou
magro, rechonchudo ou esbelto), pela amplidão, forma ou velocidade de seus
50

deslocamentos no espaço (desajeitado ou gracioso) é um sinal de status – talvez o


mais íntimo e daí o mais importante – cujo resultado simbólico é tão maior, pois,
como tal, nunca é dissociado da pessoa que o habita (Boltanski, 1979/1984, p.183).

Entender o corpo gordo é primeiramente entender a sua construção social,


construção esta que, muitas vezes, nos escapa, surgindo então como algo
naturalmente dado. A noção de corpo enquanto linguagem, culturalmente adquirida,
inserido num universo simbólico, pode muitas vezes nos esquivar. Marcel Mauss, em
seu clássico estudo sobre As técnicas corporais (1921/1974), demonstrou a
presença do social nas menores e mais básicas das ações corporais como, por
exemplo, o andar; as forças sociais estariam, deste modo, presentes no corpo físico.

Pensar a questão do corpo gordo na contemporaneidade é principalmente pensar


como este é apreendido pela cultura ocidental. Cultura entendida como um sistema
de comunicação, onde a simbolização seria por onde a vida social de processaria.
“Toda a vida em sociedade baseia-se na possibilidade de simbolização e na
existência de códigos culturais” (Velho, 1987, p.105). Situar, deste modo, a noção de
cultura, nos permite apreender, a “produção simbólica” e os “sistemas de símbolos”
presentes nas representações e no papel destinado ao gordo na sociedade
ocidental, relativizando o papel do biológico.

Na cultura da Idade Média, por exemplo, corpo e alma não eram dissociados. O
corpo não tinha sentido, se pensado de maneira individual, ele existia dentro de um
corpo social; era um corpo expansivo, um corpo aberto aos seus sentidos e os
alheios. (Rodrigues, 2001).

A sociedade contemporânea, impõe aos indivíduos, o que Morgan e Azevedo (1998)


chamaram de uma “pressão cultural para emagrecer”, gerando um pavor doentio de
engordar. O controle do corpo se transformou em uma questão de boas maneiras,
visto que este é agora entendido como o símbolo da própria felicidade, sendo
principalmente um resultado, um cartaz de como o sujeito é internamente (Buckner,
2002).

Esta insatisfação com a imagem corporal é influenciada pelo “ideal cultural de


magreza” e que tem, como conseqüência, uma adesão por parte, principalmente das
mulheres, em dietas, cada vez mais cedo. Instaurou-se uma verdadeira insatisfação
com o corpo.

A busca tão presente nas sociedades ocidentais por uma imagem exterior ideal fez
surgir a noção de que o corpo agora é “maleável”, negando “a particularidade do
corpo de cada um”. (Morgan e Azevedo, 1998, p. 88).

Como salientaram Guareschi e Jovchelovitch (1994), nas sociedades complexas a


comunicação é cada vez mais mediada pelos “canais de comunicação de massa”,
onde as representações e símbolos são a substância “sobre as quais ações são
definidas e o poder é – ou não – exercido” (Guareschi & Jovchelovitch 1994, p.20).

O corpo é um objeto privilegiado de se entenderem as conexões presentes entre a


ordem social e biológica, expressando as relações existentes entre o indivíduo e a
51

sociedade.

A maneira como o indivíduo lida, sente e percebe o seu corpo reflete uma realidade
coletiva, conseqüentemente, o corpo, antes de tudo, passa a existir e ter um sentido
dentro de um contexto social, que o constrói, sendo-lhe atribuídas representações,
constituídas de sentidos, imagens e significados dentro de um universo simbólico,
tornando-se um fato cultural.

“O corpo se tornou o lugar da identidade pessoal. Sentir vergonha do próprio corpo


seria sentir vergonha de si mesmo (..) Mas do que as identidades sociais, mais caras
ou personagens adotadas, o corpo é a própria realidade da pessoa. Portanto, já não
existe mais vida privada que não suponha o corpo” (PROST, 1987, p. 105).

Implicações sociais e pessoais oriundas dos processos impostos pela


globalização

NASCIMENTO, Christiane Moura; SILVA, Luiz Carlos Avelino da. Sujeito


mulher: a imagem da beleza. Rev. Subj., Fortaleza , v. 14, n. 2, p. 343-357, ago.
2014 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S2359-07692014000200016&lng=pt&nrm=iso>. acesso
em 09 set. 2019.

Desse modo, a tríade beleza-magreza-jovialidade, na pós-modernidade, tornou-se


uma obsessão feminina, e um estilo de vida. Parece que apenas o corpo feminino
que passa pelo crivo da tríade pode ser mostrado – pelo menos é o corpo feminino
mais recorrente na mídia em geral, e principalmente em anúncios publicitários
Assim a mídia pós-moderna apresenta cotidianamente à mulher e a quem mais
assistir milhares de imagens com o modelo de corpo perfeito a ser desejado e
copiado. A imagem da mulher na publicidade e na mídia em geral torna-se um
“possível inalcançável”, justamente por haver inúmeros recursos disponíveis para
esse alcance. Entretanto, nenhuma chance real de alcance, já que esse corpo não
existe a não ser imaginariamente, na fantasia e no fetiche social.

VASCONCELOS, Naumi A. de; SUDO, Iana; SUDO, Nara. Um peso na alma: o


corpo gordo e a mídia. Rev. Mal-Estar e Subj., Fortaleza , v. 4, n. 1, p. 65-93,
mar. 2004 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S1518-61482004000100004&lng=pt&nrm=iso>. acesso
em 17 ago. 2019.

“É uma máscara táctica, afivelada pelas mulheres em si próprias, de uma forma


quase deliberada e trabalhada: quantas horas de maquiagem, quanto tempo de
trabalho consagrados à produção dessa máscara frágil, sempre provisória, que o
tempo destrói irremediavelmente” (Nahoum-Grappe, 1991, p.133). Deste modo, é
que a beleza passa a ser dentro do contexto simbólico, um meio, ainda que precário,
de “ação social”, quando os meios formais sejam os jurídicos, culturais, econômicos
e políticos se tornam difíceis para as mulheres. É então construída, culturalmente,
tecnológica e socialmente, a beleza feminina, pois quando a mulher é olhada, ela
52

pode, finalmente, falar.

A obsessão em se alcançar um corpo magro, como se através dele fosse possível


encontrar o equilíbrio, a felicidade, ou ao menos, externamente teríamos a imagem
de uma pessoa feliz, traz à tona também a questão de uma imposição de um tipo
ideal de corpo que, na maioria das vezes, é inatingível e que relega à periferia da
sociedade as pessoas que não partem nesta busca e acabam sendo tidas como
desviantes.

Sentimentos de baixa auto-estima correm paralelos à constante insatisfação com a


forma corporal, ou seja, a auto-estima depende da eficiência de seus métodos para
alcançar o corpo desejado. Tudo funciona como se os outros valores pessoais não
existissem ou fossem secundários, pois só conseguem se sentir socialmente aceitos
se estiverem fisicamente dentro dos padrões desejados pela sociedade (Azevedo &
Abuchaim, 1998, p.35).

Deste modo, a negação e insatisfação com o próprio corpo traduz um mal-estar


interiorizado de “uma ruptura entre si e o que se exige de si”, revelando insatisfações
permanentes, uma tradução da opressão social que surge mesmo quando apenas o
indivíduo e o espelho estão em cena (Goffman, 1963/1988). Tal sentimento é posto
em relevo nesta passagem da matéria, publicada pela Folha de São Paulo: “Os
amigos e familiares dizem que ela e ́ stá ótima’, mas isso não a convence. - Sempre
acho que preciso perder um pouquinho aqui, um pouquinho ali (...)” (Maria Helena
que mede 1m65 e pesa 55 kg).7

De acordo com Andrade e Bosi (2003), estamos vivenciando uma “fragmentação


simbólica” oriunda de processos impostos pela globalização, somada a uma perda
de valores culturais essenciais para a construção de subjetividades.

A importação de modelos globais, em todas as dimensões da vida humana, pulveriza


a dimensão simbólica, de forma violenta, transformando os modos de produção, de
hábitos, de valores, e outros, promovendo um desenraizamento cultural, gerando um
mundo de incertezas e de riscos produzidos, o qual se desdobra na perda da
liberdade e da identidade humana (Andrade & Bossi, 2003, p.1).

A cultura do narcisismo e seus desdobramentos

NASCIMENTO, Christiane Moura; PROCHNO, Caio César Souza Camargo;


SILVA, Luiz Carlos Avelino da. O corpo da mulher contemporânea em revista.
Fractal, Rev. Psicol., Rio de Janeiro , v. 24, n. 2, p. 385-404, ago. 2012 .
Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-
02922012000200012&lng=pt&nrm=iso>. acesso em 17 ago. 2019.

Ao pensarmos na relação entre o sujeito e o corpo na contemporaneidade não


podemos deixar de mencionar que para Lash (1983) as culturas capitalistas
assumiram-se na forma da "cultura do narcisismo", que se refere a uma
53

preocupação exacerbada com as formas de realização individual privada, em que os


projetos individuais pululam e se destacam nas sociedades de massa do capitalismo
industrial. Entretanto, Lash (1983, p. 24) acredita que essa forma do sujeito
contemporâneo se manifestar: voltado a si e desinvestido das relações sociais
aconteceu à medida que declinaram as instâncias coletivas. Desse modo, esse autor
considera que o narcisismo se manifesta como uma forma de sobrevivência psíquica
do sujeito.

VASCONCELOS, Naumi A. de; SUDO, Iana; SUDO, Nara. Um peso na alma: o


corpo gordo e a mídia. Rev. Mal-Estar e Subj.,Fortaleza ,v. 4, n. 1, p. 65-93,
mar.2004 .Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S1518-61482004000100004&lng=pt&nrm=iso>. acessos
em 17 ago.2019.

O corpo é uma “medida de desempenho do indivíduo” e, mais do que isso, passa a


revelar a busca pela perfeição, em uma sociedade pautada pelo narcisismo.

Essa construção da subjetividade tornou-se, deste modo, na sociedade


contemporânea, individualizada com o predomínio de uma ideologia individualista,
fundamentada pela cultura do narcisismo, onde o indivíduo passa a ser o seu valor
supremo, com um projeto do “eu” moderno voltado, cada vez mais, para dentro e
para cuidar de si, passando a ser um indivíduo avesso a diferenças. O imaginário
social da sociedade está permeado pela “cultura do narcisismo” “onde o desejo de
onipotência é investido na busca do sucesso individual. Esse sistema de valores
esbarra na realidade e cria uma situação de conflito para o Eu, cuja preocupação
maior passa a ser a sobrevivência psíquica” (Nasciutti & Nobrega, 1995, p.42).

Na cultura da atualidade marcada por valores dominantes como competição,


consumismo, o corpo é um corpo pautado no individualismo, “contido pela
musculatura”, é um “corpo mercadoria”, um “corpo-aparência”, um “corpo-
ferramenta”, um “corpo-consumidor”, um corpo com função de promoção social, que
pode trazer um retorno, um corpo que deve expressar saúde, saúde que se torna
século XXI, como escreveu Sfez (1996), uma utopia, um projeto de caráter universal
denominado de a “Grande Saúde”.

"A idéia de que ao se alcançar a magreza e estar em boa forma física a pessoa
obterá sucesso na profissão, nos relacionamentos sociais e amorosos surge nas
matérias publicadas pela mídia, reiterado pelos discursos legitimadores de
especialistas das mais diversas áreas:
Jornal do Brasil - Em que muda a sexualidade de uma pessoa depois que ela
emagrece?”. Dr. Alberto Serfaty - É fantástico. As pessoas se descobrem, se
expõem mais, transam mais. A gordura funciona como uma armadura em que a
pessoa se esconde. Se dentro da armadura não acontece nada de ruim, também
não acontece nada de bom. A vida existe para se viver, e a pior coisa é não
acontecer nada“. (Dr. Alberto Serfaty, médico e nutrólogo).
54

Estigmas Relacionados ao Corpo

VASCONCELOS, Naumi A. de; SUDO, Iana; SUDO, Nara. Um peso na alma: o


corpo gordo e a mídia. Rev. Mal-Estar e Subj., Fortaleza , v. 4, n. 1, p. 65-93,
mar. 2004 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S1518-61482004000100004&lng=pt&nrm=iso>. acessos
em 17 ago. 2019.

Atualmente, encontra-se no sujeito que apresenta um corpo denominado de gordo a


questão do mal-estar subjetivo. Esse corpo está associado a um imaginário social
próprio que ao ser divulgado pela mídia impressa, faz entrever um corpo impregnado
de preconceitos, discriminações e estigmas, por representar, na sociedade
contemporânea, tanto um caráter pejorativo de uma falência moral quanto um corpo
com falta de saúde. O gordo ao violar a norma social vigente, torna-se um paradigma
estético negativo. Em contrapartida, o corpo magro é tido como saudável, é
valorizado e desejado, acabando por se transformar em um símbolo da própria
felicidade; fundamental para o sujeito ser aceito socialmente.

Criou-se uma espécie de superstição em torno da gordura. Se você é gordo nunca


se casará, nunca terá um emprego, nunca terá uma vida sexual satisfatória.
Frequentemente os gordos adoecem não por causa da gordura, mas sim pelo stress,
pela opressão a que são submetidos.
O gordo, mais do que apresentar um peso socialmente inadequado, passa a
carregar um caráter pejorativo, como salientaram os médicos, denota descuido,
preguiça, desleixo, falta de disciplina. Também denota pobreza

Partindo dessa concepção, o gordo passa a ter um corpo visivelmente sem


comedimento, sem saúde, um corpo estigmatizado pelo desvio, o desvio pelo
excesso. É um corpo que viola a norma, a lei vigente na vida social, que passa a
existir, sempre em um estado desviante, frente a uma norma social, corporal e
psíquica (Chauvenett, 1991). O indivíduo que passa a ter “uns quilinhos a mais”,
apresenta um atributo que o torna diferente de outros, sendo considerado uma
pessoa com uma característica que o marca negativamente, passa a ser uma
pessoa que carrega um “estigma”, conceito desenvolvido por Goffman (1963/1988)
que o define como: (...) um atributo que o torna (o estranho) diferente dos outros que
se encontram numa categoria em que pudesse ser incluído, sendo, até, de uma
espécie menos desejável – num caso extremo, uma pessoa completamente má,
perigosa ou fraca. Assim, deixamos de considerá-lo criatura comum e total,
reduzindo-o a uma pessoa estragada e diminuída. Tal característica é um estigma,
especialmente quando o seu efeito de descrédito é muito grande – algumas vezes
ele também é considerado um defeito, uma fraqueza, uma desvantagem (...)
(Goffman, 1963/1988, p.12).

A noção de “desvio” elaborada por Becker (1966) reside no fato de que as regras
sobre o comportamento desviante são ditadas pela sociedade, por grupos sociais
que estabelecem regras, julgamentos e sanções a partir de suas posições e cuja
infração constitui um desvio, e as pessoas que transgridem tais regras são marcadas
como outsiders.