Você está na página 1de 3

OS IMPACTOS DA CURA GAY NO BRASIL

Em primeiro lugar quero cumprimentar a todas as pessoas


presentes, professoras, professores, alunas e alunos, e às minhas
colegas e a Rogers, que dividem comigo essa mesa debatedora.
Quero dizer que é uma felicidade muito grande discutir essa
temática, que acompanha as minhas pesquisas doutorais e meu
desenvolvimento como professor e como LGBT negro, um corpo
presente que representa a outros tantos que não podem estar aqui
nesse momento, não puderam acessar à Universidade e não podem
contar com a política pública para sobrevivência.
Começo a falar no que consiste o projeto Cura Gay, também
conhecido pelos nomes Terapia da Reorientação Sexual, Terapia de
Conversão ou Terapia Reparativa, que é um conjunto de técnicas que
tem o objetivo de extinguir a homossexualidade de um indivíduo. Tal
conjunto de técnicas inclui métodos psicanalíticos, cognitivos e
comportamentais. Além disso, são utilizados tratamentos de ordem
clínica e religiosa.

A então deputada Joice Hasselmann (PSL/SP), em seu canal na


plataforma YouTube Joice Hasselmann TV, publicou em 31 de
Outubro de 2017 um vídeo com o título Judith Butler, a Bruxa da
Ideologia de Gênero e a Palestra no Brasil. Nesse vídeo, de
aproximadamente 20 minutos, a deputada intitula a pesquisadora
como uma feminista radical que implantou a ideologia de gênero no
mundo. As palavras da deputada são “(sic) é uma bobagem, é uma
baboseira absoluta essa ideologia de gênero. É só alguém muito
maluco pra olhar um menino que nasce com um órgão sexual
masculino e dizer que ele não é menino e uma menina que nasce
com um órgão sexual feminino pra dizer que ela não é menina, que
ele é qualquer coisa que vai aprender a ser menino ou menina
quando crescer. Então, é biológico, a pessoa nasce menino ou
menina, a sexualidade dele, ele vai decidir se é homo, se é hétero, se
não é nada, é problema dele quando for adulto. Então, já começa por
aí a palhaçada[...] É uma canalhice que acontece com foco claro pra
atacar a nossa infância. É baixaria gente! [...] E a Judith Butler é a
mãe dessa porcariada toda, que inclusive tentaram enfiar na nossa
Base Nacional Curricular, que tentam enfiar na educação aqui no
Brasil de qualquer jeito” [...] Tem toda uma política por trás disso, da
defesa das minorias, é tudo conversa fiada”. Ainda no vídeo, a
deputada diz que o Brasil é um país conservador e que eles, no caso
os teóricos das relações de gênero e diversidade sexual, querem
induzir as crianças à uma sexualidade muito precoce, induzindo a
experimentar todo tipo de (sic) coisa. Assim ela diz que a teórica
Judith Butler propõe que toda criança vivencie todo tipo de
experiência sexual, porque a ideia é colocar na escola, ou seja, a
criança, na opinião da deputada, vive essas experiências de (sic)
perversão e sacanagem para que escolha qual gênero quer e qual
sexualidade quer, pensamento de esquerda, segundo ela. No retorno
da pesquisadora aos Estados Unidos, Judith Butler é atacada por um
grupo pequeno de pessoas, duas mulheres a agridem enquanto um
homem filma. O fato ocorre no Aeroporto Internacional de
Guarulhos. Uma senhora utiliza as palavras: idiota, assassina,
medíocre, assassina de crianças, corruptora de menores,
transgressora, tudo contra a ideologia de gênero. Vamos, portanto,
entender o que se significa a ideologia de gênero. Jorge Scala, que
pode ser considerado o grande teórico da ideologia de gênero,
menciona em seu livro, Ideologia de Gênero: neototalitarismo e a
morte da família, que essa ideologia pressupõe que não haja um
homem natural ou uma mulher natural, o ser humano nasce
sexualmente neutro, a sociedade constrói os papeis masculinos e
femininos. Segundo ele, “gêneros” são papéis socialmente
construídos. Como não existe uma masculinidade e feminilidade
naturais, cada um pode “desconstruir” o papel que lhe foi imposto
por convenção social. Surge assim a liberdade de “casar-se” com
uma pessoa do mesmo sexo e a exigência de o Estado reconhecer
essa forma de “família”. O padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, também
advogado, condenado pelo Supremo Tribunal de Justiça a pagar R$
60 mil por impedir um aborto autorizado pela justiça de Goiás (a
criança nasceria com uma síndrome rara e não sobreviveria nem ao
menos um dia, fato que ocorreu), diz, em uma matéria publicada no
site da Agência Católica de Informações (ACI – site independente)
sobre o livro de Scala em outubro de 2011, (sic) “Se não existe uma
vocação da mulher à maternidade, pode-se falar no direito a
“interromper a gravidez”, colocado entre os “direitos sexuais e
reprodutivos”. Homossexualismo, transexualismo, travestismo,
adoção de crianças por duplas homossexuais, prostituição, pedofilia
e aborto são algumas das tristes consequências dessa ideologia”.

Aqui abordo as diferenças entre sexo, gênero e sexualidade.

Richard Miskolci define pânico moral como “aqueles que emergem a


partir do medo social com relação às mudanças, especialmente as
percebidas como repentinas e, talvez por isso mesmo, ameaçadoras”.
É um sentimento de medo, por vezes exagerado, espalhado em um
grande número de pessoas de que algum mal ameaça o bem-estar da
sociedade. De acordo com Stanley Cohen, autor de um estudo
sociológico sobre a cultura e mídia juvenil chamado Folk Devils and
Moral Panics (“demônios folclóricos e pânicos morais”), de 1972,um
pânico moral ocorre quando “... [uma] condição, episódio, pessoa ou
grupo de pessoas surge e acaba sendo definido como uma ameaça
aos valores e interesses sociais”. Aqueles que começam o pânico
quando temem uma ameaça aos valores sociais ou culturais
predominantes são conhecidos pelos pesquisadores como
“empreendedores morais”, enquanto as pessoas que supostamente
ameaçam a ordem social têm sido descritas como “demônios
folclóricos”.