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Comportamento de cultivares de milho quanto ao rendimento e


susceptibilidade a pragas e doenças na província do Huambo (Angola)

Article  in  Revista de Ciencias Agrarias · December 2010

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3 authors, including:

Imaculada da Conceição Henriques Matias Ana Monteiro


Faculdade de Ciências Agrárias, Huambo, Angola University of Lisbon
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COMPORTAMENTO DE CULTIVARES DE MILHO QUANTO AO
RENDIMENTO E SUSCEPTIBILIDADE A PRAGAS E DOENÇAS
NA PROVÍNCIA DO HUAMBO (ANGOLA)

BEHAVIOUR OF MAIZE VARIETIES CONCERNING THE PRODUCTION


AND PESTS AND DISEADES SUSCEPTIBILITY
IN HUAMBO COUNTRY (ANGOLA)

Imaculada da Conceição Henriques1, Ilídio Moreira2, Ana Monteiro3

RESUMO produziram, em média, entre 3 a 4 t ha-1. As


cultivares locais não mostraram uma varia-
Os objectivos deste trabalho consistiram ção tão acentuada no rendimento entre as
em avaliar o comportamento de cultiva- duas épocas. Em geral, os valores médios do
res regionais de milho – ‘Branco redon- rendimento da ’Branco redondo’ e ‘SAM3’
do’ e ‘SAM3’ – e importadas – ‘ZM423’, foram de 2 t ha-1, com excepção desta última
‘ZM521’, ‘ZM523’, ‘ZM611’, ‘ZM621’ – na Chianga, que atingiu as 4 t ha-1 em sequei-
quanto à sua sensibilidade a brocas do colmo ro. A supremacia da ‘SAM3’ na época chu-
e da espiga e à virose MSV (Maize Streak vosa na Chianga deve-se certamente ao facto
Virus). Os ensaios realizaram-se em três lo- de ter sido aí seleccionada.
cais do Planalto Central de Angola na época
seca e na das chuvas. Nas duas épocas e nos Palavras-chave: Brocas, período vegetati-
três locais, não se registaram infecções pelo vo, produção, vírus MSV, Zea mays L.
vírus MSV nas cultivares regionais; todavia,
nas importadas houve incidência da doença
embora com baixa severidade. Em relação ABSTRACT
às brocas, não se observaram diferenças sig-
nificativas entre as cultivares e a severidade The main objectives of this work were the
foi baixa. A produção das cultivares impor- evaluation of the behaviour of different tra-
tadas foi superior na época seca, com um ditional maize varieties – ‘Branco redondo’
rendimento entre as 7 e 8 t ha-1. Em sequeiro and ‘SAM3’ – and imported ones – ‘ZM423’,
(época das chuvas) as cultivares importadas ‘ZM521’, ‘ZM523’, ‘ZM611’, ‘ZM621’ – to
their tolerance to the stem and earn borars
and to the virus MSV (Maize Streak Virus),
in three locations of the central highlands of
1
World Vision Internactional, Rua 105, Bairro
Kapango, Huambo, Angola. Angola and in two cropping seasons (rainy
E-mail: imaculadahenriques@portugalmail.pt and dry season). Maize yields were also eva-
2
Instituto Superior de Agronomia da Universidade luated. In the two growing seasons and in the
Técnica de Lisboa e Centro de Botânica Aplicada three locations, the traditional varieties did
à Agricultura, Tapada da Ajuda 1349-017 Lisboa, not show any infection by the virus MSV.
Portugal. E-mail: ilidiomor@sapo.pt
3
Instituto Superior de Agronomia da Universidade
The imported varieties show disease symp-
Técnica de Lisboa e Centro de Botânica Aplicada toms but at a low incidence level. The seve-
à Agricultura, Tapada da Ajuda 1349-017 Lisboa, rity of the maize stem and earn borars were
Portugal. E-mail: anamonteiro@isa.utl.pt low and no significant differences were ob-
served between the tested varieties. The yiel-
Recepção/Reception: 2008.10.07 ds of the imported varieties varied between 7
Aceitação/Acception: 2010.04.12 and 8 t ha-1 in the dry season (irrigation) but
COMPORTAMENTO DE CULTIVARES DE MILHO QUANTO AO RENDIMENTO E
SUSCEPTIBILIDADE A PRAGAS E DOENÇAS NA PROVÍNCIA DO HUAMBO ( ANGOLA) 245

in the rainy season their average yield decre- ao novo modelo socializante constituído por
ased (3 to 4 t ha-1). The yield of the tradi- um sector estatal agrário forte e dominante
tional varieties was similar in both growing (Complexos Agrários e Agro-industriais,
seasons, in general lower than the imported Agrupamentos de Unidades de Produção),
ones. The average yield in ’Branco redondo’ pelas Cooperativas Agrícolas e Associações
and ‘SAM3’ varieties was 2 t ha-1. ‘SAM3’ de Camponeses. A produção mercantil con-
variety production in Chianga was an excep- trolada pelo Estado não evoluiu substan-
tion; where the yield was 4 t ha-1 in the rainy cialmente em anos posteriores. Neto (2008)
season. Probably this can be explained by the lembra a instabilidade a seguir ao processo
fact that ‘SAM3’ was obtained in this region. eleitoral de 1992, o conflito armado até ao
ano de 2002 e a ausência generalizada de
Key-words: Borers, maize streak virus, pro- empresários agrícolas com conhecimentos
duction, vegetative period. Zea mays L. e capitais para o investimento, justificativas
para a reduzida produção de bens alimenta-
res, referente às quantidades da produção de
INTRODUÇÃO milho, nos anos agrícolas de 93/4 a 2002/3,
embora com alguma tendência de crescimen-
Em Angola, a cultura do milho (Zea mays to nos últimos anos. Aquele autor anota esta-
L.) foi sempre notável, embora com produti- tísticas indicadoras do aumento da produção
vidades muito baixas, sem que por isso tenha da ordem dos 200 milhares de toneladas para
deixado de ter sido um país exportador. De mais de 600 milhares de 1993/4 até 2002/3,
acordo com Sardinha & Carriço (1975), no substancialmente ultrapassadas nos anos re-
período colonial a área cultivada com milho centes como se pode apreciar adiante, mas
alcançava os 1 459 300 hectares com produ- ainda notoriamente insuficientes para satisfa-
ções unitárias inferiores a meia tonelada por zer o consumo. A escassez destas produções
hectare (466 kg ha-1). é melhor compreendida quando se observam
As zonas tradicionais da cultura foram as quantidades de milho usadas pela popu-
demarcadas por Diniz (1991), e podem ser lação na sua alimentação. Efectivamente,
consultadas num Atlas preparado pelo Mi- aquele último valor era sensivelmente o do
nistério da Educação (1982). As zonas fa- início da década de 70, mas em que a popula-
voráveis à produção do milho, que inclui o ção de então era cerca de um terço da actual,
Planalto Central, foram estudadas por Mar- de acordo com as estatísticas indicadas por
celino (1973) e Diniz (1991), com algumas Neto (2008).
divergências entre eles, segundo Henriques Embora a mandioca pareça ter um maior
(2008). A possibilidade de regadio permite peso no consumo de produtos alimentares
o alargamento substancial das zonagens pro- em Angola, não restam dúvidas sobre a im-
postas por aqueles autores. Marcelino (1973) portância do milho em grão. A deficiência da
afirmou que em praticamente nenhum ponto produção nacional de milho é bem patente e,
de Angola haveria impedimento térmico para consequentemente, a enorme dependência
a cultura do milho desde que as necessida- de Angola, ainda recentemente (1999-2003),
des hídricas e nutricionais fossem as exigidas das doações do milho em grão e da importa-
para a cultura. ção da farinha de milho. De acordo com Neto
Após a independência, como refere Neto (2008), neste período, a produção nacional
(2008), “começou a diminuição acentuada ficou-se por cerca de 1/5 do consumo.
e vertiginosa da produção de bens alimen- A situação da baixa produtividade unitária
tares. Esta diminuição foi influenciada pela que se verificava na época colonial não se
guerra civil e pelas graves deficiências na terá modificado substancialmente e as áreas
transformação da estrutura agrária capitalista semeadas têm sido ainda bastante inferio-
colonial (sectores empresarial e tradicional) res. Por exemplo, de acordo com indicações
246 REVISTA DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

do MINADER (2005), para o ano agrícola culturais, designadamente fertilização e dis-


2004/5 estimou-se a área plantada de milho ponibilidade de cultivares produtivas e resis-
de 1 094 milhares de hectares. Todavia, é no- tentes a pragas e doenças.
tório o esforço de aumento da produção dos Em Angola, há tradição de melhoramento
últimos anos. ANGOP (2010) refere que “os de milho. Távora (1951), um dos primeiros
agricultores empresariais e familiares ango- melhoradores, estabeleceu as linhas de rumo
lanos, estimados em dois milhões e 500 mil, a seguir e relatou os trabalhos desenvolvidos
produziram na campanha agrícola 2006/2007 na década de 40 e os seus resultados. Alertava
cerca de um milhão e 37 mil toneladas de mi- para os riscos de introdução de milhos muito
lho, contra as 800 mil toneladas do produto produtivos poderem dar produções iguais ou
colhidas na safra de 2005/2006”. inferiores às das cultivares regionais melho-
Quanto à produtividade da cultura do mi- radas, quase sempre muito rústicas, se não
lho, Nuñgulu et al. (2006) constata a sua pre- se precavessem os níveis de fertilidade do
dominância no Planalto Central e, baseando- solo. No dizer do autor “As terras planálticas
-se em relatórios oficiais (IIA-DBMP, 2003), já de si de média fertilidade, estragadas pela
assume que o rendimento médio obtido pelos agricultura nómada, erosão e queimadas, en-
camponeses – responsáveis por 90 a 95% da contram-se ainda empobrecidas pela falta de
produção – e pelos agricultores varia entre fertilizações orgânicas. De modo algum estas
250 a 700 kg ha-1 e de 1 500 a 2 500 kg ha-1, terras estão preparadas para receber semente
respectivamente. mais produtiva e como tal muito exigente”.
De acordo com relatório da FAO (2006) e Em 1963, Marcelino divulgava os resulta-
do MINADER (2005), a produtividade uni- dos de ensaios conduzidos no Planalto Cen-
tária na Província do Huambo foi estimada tral, para comparação de cultivares de poli-
em 0,7 t ha-1. Para o ano 2007/8, o relatório nização livre, cultivares melhoradas e mi-
do Ministério da Agricultura (2006) indica- lhos híbridos duplos (cruzamentos manuais
va a produção de milho, nesta província, de efectuados no Centro de Estudos), em que se
0,98 t ha-1. afigurou compensadora a cultura de milhos
Em regadio, como no Vale do Cavaco, híbridos e eficaz a selecção de linhas auto-
como é compreensível, obtêm-se melhores fecundadas, para a obtenção de híbridos du-
produções se efectuadas as adequadas prá- plos com um grau de resistência satisfatório
ticas agrícolas. Melo-e-Abreu et al. (2006) ao Setosphaeria turcica (Luttr.) K.J. Leonard
anotaram para esta região, durante o Projec- & Suggs. Já em 1951, Távora salientara a im-
to NovoMilho, apreciável subida da produ- portância desta doença na Zona Planáltica e
tividade unitária do milho-grão, tendo sido anotara que a cultivar ‘Branco redondo’ era
quantificada em 6,3 t ha-1 nos campos dos de todas, de entre a colecção, a que manifes-
camponeses e em 8,4 t ha-1 nos dos agriculto- tava maior resistência.
res. A variedade híbrida ‘SNK2682’ alcançou Em relatório do Banco de Angola (1974),
a média de 6,6 t ha-1 e a variedade de polini- relativamente ao milho no ano agrícola
zação livre ‘ZM521’ de 6,0 t ha-1. A cultivar 1973/4, escreveu-se que sob a égide do Ins-
regional ‘Mondombe’ produziu em média tituto de Investigação Agronómica, foi pro-
4,6 t ha-1, tendo também alcançado mais do duzido o primeiro milho híbrido de Angola
que 4 t ha-1 a cultivar regional ‘Canjala’ e a e que propiciava entre 5 a 6 t ha-1, enquanto
de polinização livre ‘Matuba’. com o milho normal se obtinham apenas cer-
Embora a enorme dependência das doa- ca de 3 t ha-1.
ções de milho, atrás referida, tenha ficado ac- No Instituto de Investigação Agrária de
tualmente ultrapassada, é evidente a impor- Angola (IIAA), na Chianga, sob orientação
tância do aumento não só da área semeada daquele investigador, manteve-se um valioso
mas sobretudo do aumento da produtividade Banco de Germoplasma Vegetal, com colec-
unitária, que passa pela melhoria das práticas ções de sementes de várias culturas, incluin-
COMPORTAMENTO DE CULTIVARES DE MILHO QUANTO AO RENDIMENTO E
SUSCEPTIBILIDADE A PRAGAS E DOENÇAS NA PROVÍNCIA DO HUAMBO ( ANGOLA) 247

do milho, que veio a perder-se, no início dos lamistis Hampson, Chilo partellus Swinhoe)
anos 90, devido à guerra civil. Posteriormen- e da espiga (Mussidia nigrivenella Ragonot).
te, foram desenvolvidas acções para a recu- Estes autores passam em revista os métodos
peração dos recursos genéticos, no Banco de de prevenção e controlo e relatam ensaios
Germoplasma de Luanda. Rocha (2006), com para combate com plantas-isco (Pennisetum
base em informações verbais de Elisabeth purpureum Schumach.) e plantas repelentes
Matos e de Pedro Moçambique, informa que, [Desmodium uncinatum (Jacq.) DC., Melinis
em 2005, existiam neste Banco 823 acessões minutiflora P. Beauv.]. As brocas do colmo
conservadas de milho das quais haviam sido Busseola fusca e Sesamia spp. também fo-
caracterizadas 135. Citando Rocha (2006), ram consideradas como as principais pragas
“deve-se ter em conta que as produções lo- do milho por ERA (1974). A controversa uti-
cais não são, em geral, de alta produtividade, lização de plantas transgénicas resistentes às
mas foram seleccionadas para fazerem face brocas, não permitidas até agora em Angola,
ao clima local e às suas variações a curto, tem merecido numerosos trabalhos, indi-
médio e longo prazo, e a grande quantida- cando-se, a título de exemplo, o de Moreira
de de diversidade genética que apresentam, (2004) que procurou reunir menções sobre as
confere‑lhes uma maior resistência a epide- suas vantagens e utilização em países africa-
mias de pragas e doenças”. Neves-Martins nos mas também os seus riscos.
(2006), numa exaustiva revisão dos métodos Entende-se, pois, a importância das cul-
de conservação genética de germoplasma, tivares de milho melhoradas localmente.
menciona a advertência de Matos (2003) de Felizmente que não estão perdidas as culti-
haver que atentar nas espécies introduzidas vares melhoradas durante longo período no
em Angola com 400 anos de evolução adap- Instituto de Investigação Agrária de Angola,
tativa, em que se inclui o milho. sob orientação do Eng.º Marcelino, como
Várias prospecções às principais pragas e a ‘Branco redondo’ e a ‘SAM3’, de grande
doenças do milho foram efectuadas em An- aceitação pelos camponeses e agricultores.
gola, de que se destacam os trabalhos, res- Em face da debilidade económica destes
pectivamente, de Ferrão & Cardoso (1972) e agentes, com dificuldades para a aquisição
de Serafim & Serafim (1968). de produtos fitofarmacêuticos, a resistência
Pelo seu interesse prático, salienta-se o aos inimigos da cultura, particularmente às
manual preparado por Melo-e-Abreu (2000) brocas e viroses, é também um aspecto pri-
sobre as doenças do milho. No regadio de mordial a ter em conta no melhoramento,
Vale de Cavaco foi notória a incidência do como sempre o foi na actividade do IIAA.
vírus do raiado fino, tendo as cultivares ‘Ma- E, actualmente, continuam-se trabalhos de
tuba’, ‘SNK2682’ e ‘ZM521’ apresentado melhoramento de milho no IIA-Instituto de
uma maior resistência ao vírus do que outras Investigação Agrária, no Huambo, com o que
ensaiadas. A percentagem de plantas afec- se espera melhorar substancialmente a obten-
tadas foi inferior nas sementeiras da época ção de boas sementes pelos agricultores.
seca, de temperaturas e humidade baixas, Perante o exposto, interessava comparar o
relativamente às efectuadas na estação das comportamento de cultivares regionais com o
chuvas (Melo-e-Abreu et al., 2006). A in- de cultivares melhoradas importadas, eventu-
cidência das viroses é também considerada almente mais produtivas, objectivo principal
muito importante no Planalto Central de An- do trabalho agora apresentado, tendo em aten-
gola (Henriques 2008). ção a sua produção e, muito particularmente, a
Quanto às pragas, de acordo com Nuñgulu sua susceptibilidade a pragas e doenças. Nes-
et al. (2006), os inimigos da cultura do milho se sentido, desenvolveram-se estudos com
mais importantes, a par das infestações das duas cultivares regionais – ‘Branco redondo’
plantas-parasita (Striga Lour.), são as brocas e ‘SAM3’ – e cinco cultivares importadas –
do colmo (Busseola fusca Fuller, Sesamia ca- ‘ZM423’, ‘ZM521’, ‘ZM523’, ‘ZM611’,
248 REVISTA DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

‘ZM621’ ‑ no ano agrícola de 2004/5. A es- pondente à época chuvosa, entre Outubro e
colha das cultivares estudadas teve em consi- Maio, e a segunda à época seca, de Maio a
deração as preferências dos agricultores e as Setembro, com recurso a regas.
facilidades de aquisição das sementes. Cada ensaio, com uma área total de 380,8
m2 (22,4 m x 17,0 m) foi dividido em 21 par-
celas de 16 m2 (3,2 m x 5,0 m). As observa-
MATERIAL E MÉTODOS ções e registos foram realizados na área cen-
tral de cada parcela, correspondendo a uma
Os ensaios decorreram em três regiões da área útil de 8 m2.
Província do Huambo (Angola): Bailundo,
Chianga e Calenga, distanciados de cerca de
50 km. A localização dos ensaios e as caracte- Técnicas culturais
rísticas edafo-climáticas dos locais escolhidos
foram anotadas em Henriques et al. (2009). A semente das cultivares (OPV) me-
No Bailundo, na Chianga e na Calenga, os lhoradas – ‘ZM423’, ‘ZM521’, ‘ZM523’,
solos apresentam texturas areno-limosa, argi- ‘ZM611’, ‘ZM621’ – utilizadas nos en-
losa e argilo-limosa, respectivamente, e o pH saios, foi adquirida à empresa zimbabwiana
variou, nos 3 locais, entre 5,2 e 5,5. A riqueza SeedCo, produtora de semente certificada,
dos solos em fósforo, antes dos ensaios, era, e a semente de cultivares locais – ‘Branco
respectivamente, de 3, 43 e 21 mg L-1. Esta re- redondo’ e ‘SAM3’ – no mercado da Pro-
gião abrange uma área de 29,827 km2, e apre- víncia e no IIA, respectivamente. Das cul-
senta duas estações climáticas – das chuvas e tivares locais a primeira, possivelmente, é
de seca – por ano, com ventos fracos. Devido resultado de cruzamento de cultivares in-
à sua altitude, o clima é temperado-tropical, troduzidas no período colonial e a segun-
com uma temperatura média anual inferior a da, a única de coloração amarela, foi obtida
20 ºC (Diniz, 1991) e precipitação anual mé- através de trabalhos de investigação do IIA
dia de 1200 mm (Fig. 1). na década de 80.
Em cada um dos locais foram conduzidos O compasso de plantação foi de 25 cm na
ensaios em duas épocas. A primeira corres- linha e 80 cm na entrelinha. Em cada local

Figura 1 – Pluviosidade mensal, em 2004/5, registada na Estação Experimental da Chianga.


COMPORTAMENTO DE CULTIVARES DE MILHO QUANTO AO RENDIMENTO E
SUSCEPTIBILIDADE A PRAGAS E DOENÇAS NA PROVÍNCIA DO HUAMBO ( ANGOLA) 249

foram conduzidos ensaios em duas épocas. O rendimento (Y kg ha-1) foi calculado uti-
A primeira correspondente a época chuvosa, lizando a seguinte equação:
sementeira a 22 de Outubro de 2004, e a se-
gunda à época seca, sementeira a 15 Maio de Y = A x (1 - D) x E
2005, com recurso a rega. Foram efectuadas
três adubações, uma de fundo (na altura da A = peso fresco das espigas (kg ha-1)
sementeira) e duas de cobertura (30 e 60 dias E= C/B, factor de correcção entre o peso
após sementeira). Utilizou-se para o efeito de 10 espigas vs peso em grão das mesmas
a dose N150-P100-K50, correspondendo a 10 espigas (valor calculado para cada repe-
417 kg ha-1 do adubo composto 12-24-12 na tição).
adubação de fundo e 70 kg ha-1 de ureia em
cada uma das adubações de cobertura. Tanto
na época chuvosa como na época seca não RESULTADOS E DISCUSSÃO
foi feito qualquer tratamento fitossanitário
contra doenças e pragas. As infestantes fo- A análise preliminar da variância dos da-
ram controladas manualmente, mantendo as dos combinados relativos à incidência e se-
parcelas sempre limpas. veridade da broca e de virose não indicou in-
teracção significativa do tratamento x época
e tratamento x local, para todas as variáveis.
Delineamento estatístico e análise Assim sendo, os resultados da observação da
de dados incidência e da severidade destes inimigos
da cultura são apresentados em conjunto de
O delineamento experimental escolhido todos os ensaios, no Quadro 1.
foi o de blocos casualizados completos com As cultivares regionais ‘Branco redondo’
3 repetições, em que cada tratamento corres- e ‘SAM3’ parecem menos atreitas à virose
ponde a uma cultivar em estudo. do que as importadas, pois nelas não se re-
Observaram-se ainda os ataques de brocas gistou qualquer incidência. As cultivares im-
e da virose MSV (“Maize Streak Virus”), portadas evidenciaram sintomas de ataque,
sendo avaliada a incidência (% de plantas embora pouco pronunciados, com valores de
atacadas em relação ao total da parcela) e se- severidade sempre inferiores a 1 e de inci-
veridade de acordo com uma escala de zero a dência inferiores a 5%. Os ataques da broca
cinco (zero = todas as plantas sãs; 5 = todas foram também baixos, com valores de seve-
as plantas atacadas). ridade média que variaram entre 0,5 e 1, não
Em cada repetição determinaram-se os se registando diferenças significativas entre
seguintes parâmetros: (a) o peso fresco total cultivares.
das espigas na área útil (8 m-2); (B) o peso Nas figuras 2 a 4 apresentam-se os ren-
fresco de 10 espigas escolhidas ao acaso por dimentos de cada cultivar de acordo com o
repetição; (C) o peso fresco em grão (ca- local e a época.
riopses) das 10 espigas colhidas ao acaso Os resultados obtidos confirmam que
por repetição e (D) o em teor de humidade com cultivares importadas as produções em
(%) do grão obtido nas 10 espigas colhidas regadio são muito apreciáveis. A cultivar
ao acaso. ‘ZM521’ mostrou, nestes ensaios no Planal-
A análise preliminar da variância dos da- to, produções bem superiores às registadas
dos combinados relativos às produções, indi- no regadio do Cavaco (Melo-e-Abreu et al.,
cou interacções significativas do tratamento 2006), evidenciando a importância dos en-
x época e do tratamento x local para todas saios de adaptação de variedades às diferen-
as variáveis. Em consequência, os dados são tes regiões agrícolas angolanas.
apresentados separadamente para época e lo- Os resultados mostram diferenças relevan-
cal de ensaio. tes no rendimento em função da época, sen-
250 REVISTA DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

Quadro 1 – Incidência e severidade* médias das brocas e de vírus MSV, nos ensaios realizados em duas
épocas e em três locais.

* Escala de 0 a 5, sendo 0 ausência de ataque e 5 todas as folhas atacadas.

do a cultivar ‘ZM521’ a que maior diferença De forma geral, a cultivar ‘Branco redon-
apresenta em todos os locais. De entre as do’ foi a que menor rendimento apresentou
cultivares importadas foi a que menor rendi- em todos os locais e durante as duas épocas,
mento demonstrou durante a época chuvosa o que pode ser devido à qualidade da semen-
e maior durante a época seca. te, pois usou-se grão de milho para consumo
Para as cultivares importadas, o rendimen- como semente.
to durante a época seca foi significativamen- Salienta-se que as produções obtidas ultra-
te superior ao da época chuvosa (P < 0,002), passam substancialmente as 3 toneladas por
no Bailundo e na Chianga. hectare, valor que o trabalho dos peritos da
Durante a época seca, a cultivar ‘ZM521’ FAO (2004) previu como alcançável pelos
foi a que maior rendimento obteve em todos campesinos com a adopção de técnicas cul-
os locais, com um máximo de 8 505 kg ha-1 turais convenientes. Lembrando que, nestes
no Bailundo. Durante a época chuvosa a cul- ensaios, não se efectuaram tratamentos fi-
tivar mais produtiva foi a ‘ZM523’ na Calen- tossanitários, é legítimo concluir que, se fo-
ga, com 4 354 kg ha-1, não apresentando dife- rem efectuadas as fertilizações adequadas e
renças significativas em relação às cultivares o devido controlo de infestantes, se podem
‘ZM611’, com 4 228 kg ha-1, e ‘ZM423’, com alcançar produções, mesmo com cultivares
4 207 kg ha-1. locais, bem superiores às médias registadas
Quanto às cultivares locais, a ‘SAM3’ para o país.
mostrou sempre produções superiores às da A duração média do período vegetativo em
‘Branco redondo’, da ordem das 2 t ha-1 na cada um dos ensaios é registada no Quadro 2,
Calenga, um pouco superiores no Bailundo e sendo bem patente a maior duração nas duas
bem maiores na Chianga, atingindo 4 310 kg cultivares locais relativamente ao das impor-
ha-1. Esta cultivar, durante a época chuvosa, tadas, de cerca de uma a duas dezenas de dias
foi a que obteve maior rendimento na Chian- na época chuvosa e, na época seca, bem mais
ga, e, mesmo na época seca, teve uma produ- expressiva, cinco a oito dezenas de dias, ou
ção pouco inferior à das importadas ‘ZM616’ melhor dito, a nítida precocidade, nesta épo-
e ‘ZM621’. ca, das cultivares importadas.
COMPORTAMENTO DE CULTIVARES DE MILHO QUANTO AO RENDIMENTO E
SUSCEPTIBILIDADE A PRAGAS E DOENÇAS NA PROVÍNCIA DO HUAMBO ( ANGOLA) 251

Quadro 2 – Duração do período vegetativo (número de dias) para cada cultivar e local, nas duas épocas em estudo.

Figura 2 – Rendimento das sete cultivares de milho durante a época das chuvas e na de seca, no Bailundo.

Figura 3 – Rendimento das sete cultivares de milho, durante a época das chuvas e na de seca, na Chianga.
252 REVISTA DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

Figura 4 – Rendimento das sete cultivares de milho, durante a época chuvosa e na de seca, na Calenga.

CONCLUSÕES constitui um incentivo ao seu melhoramento.


Em contrapartida, o ciclo vegetativo das cul-
A produção das cultivares importadas, com tivares locais, bem mais longo do que o das
destaque para a ‘ZM521’, é substancialmen- importadas, mormente na época seca, pode
te superior na época seca, em regadio, sendo ser um inconveniente a considerar.
obtida num período de desenvolvimento bas- As diferenças notáveis da produção de
tante mais curto. Aquela cultivar apresentou algumas cultivares importadas, entre as
um rendimento médio de 8 t ha-1, nos três lo- épocas, reforça a ponderação necessária na
cais e em apenas quatro meses nesta época. sua escolha em função da época e, eventual-
Em sequeiro (época das chuvas) as cultivares mente dos locais de sementeira, bem como a
importadas produziram, em média, 3 t ha-1 no vantagem do incremento de ensaios de adap-
Bailundo e na Chianga, e cerca de 4 t ha-1 na tação de cultivares.
Calenga. As cultivares locais não mostraram
uma variação tão acentuada no rendimento
entre as duas épocas de cultura, mas o ren- AGRADECIMENTOS
dimento foi baixo. Em geral, os valores mé-
dios do rendimento nas cultivares ’Branco Os autores agradecem à World Vision In-
Redondo’ e ‘SAM3’ foram de 2 t ha-1, com ternacional, em Angola, as facilidades e o
excepção desta última na Chianga, que atin- apoio logístico para a realização dos estudos.
giu as 4 t ha-1 em sequeiro.
A supremacia da cultivar ‘SAM3’, na épo-
ca chuvosa na Chianga, deve-se certamen- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
te a ter sido aí seleccionada, portanto bem
adaptada às condições edafo-climáticas do ANGOP (2010) – Ministério aumenta ca-
local. O sucesso relativo desta cultivar local pacidade de produção de milho. Agência
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