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educação

revista portuguesa de

Formação de Mediadores Sociais na Europa: Um


projeto piloto
Ana Maria Costa e Silvai & Sílvia Cunhaii
Universidade do Minho, Portugal

Um dos desafios da sociedade atual é enfrentar com determinação


e qualidade as consequências das múltiplas fragilidades sociais,
económicas e políticas que se vivem a nível mundial. Os diversos
países e organizações estão, assim, comprometidos com uma resposta
urgente e adequada à fragilidade da paz social, concretamente através de
estratégias de prevenção e resolução pacífica de conflitos. A mediação
social é uma das estratégias fundamentais para promover a paz, a justiça
e a coesão social. No sentido de responder às recomendações inscritas
em documentos oficiais europeus sobre a importância dos mediadores
sociais na construção de comunidades pacíficas, foi implementado um
projeto financiado pela Comunidade Europeia e executado entre 2013 e
2016, com a participação de cinco países europeus. O principal objetivo
do projeto foi conceber e experimentar um dispositivo de formação de
mediadores sociais, inspirado na tradição dos Companheiros do Tour
de França através de uma metodologia de ação-investigação-formação
colaborativa. A metodologia adotada revelou-se adequada à formação
continuada e profissionalização de mediadores sociais e à constituição
de uma rede de cooperação entre instituições e profissionais diversos.
Os resultados alcançados evidenciam a pertinência do dispositivo na
concretização dos objetivos definidos e na construção de um espaço
europeu da mediação para a inclusão social.

Palavras-chave: Mediação social; Mediadores; Formação; Investigação-ação


colaborativa

Introdução problemas atuais das sociedades democráticas


europeias (National Forum of Urban Affairs
Sem dúvida, nas sociedades incertas e de risco Professionals, 2000). De acordo com os 42
em que vivemos, a mediação tem muito a seu peritos europeus presentes, a mediação social
favor. (Caride, 2016, p. 15) apresenta-se como um novo método de
intervenção social, que promove a convivência
Em setembro de 2000, no âmbito do programa entre as pessoas, reforçando laços sociais e
Oisin, realizou-se um seminário Europeu a prevenção da violência. Na conclusão dos
em Créteil, França, no qual foi discutido o trabalhos desenvolvidos no âmbito deste
desafio da mediação social para enfrentar os seminário e numa tentativa de responder

Revista Portuguesa de Educação, 32(1), pp. 173-189. doi: 10.21814/rpe.13736


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aos acontecimentos dos quais a sociedade europeu de Mediação para a Inclusão Social
global tem sido alvo, geradores de disputas, (MIS), através da criação de uma rede de
violência e desconfiança mútua, foi deixada organizações profissionais e de formação,
a recomendação de que os estados da União como suporte para a sua implementação.
Europeia (UE) deveriam promover práticas Para esse efeito, participaram neste projeto
de mediação social, desenvolver e apostar cinco países, nomeadamente França, Bélgica,
na formação, em pesquisas, em experiências Espanha, Itália e Portugal.
inovadoras e avaliações em conformidade A MIS é um modo de intervenção social
com os pressupostos anteriormente inovador e importante para responder
avançados (National Forum of Urban Affairs aos novos desafios de coesão social das
Professionals, 2000). A mesma recomendação sociedades contemporâneas. É considerada
foi deixada em outros seminários, como, uma metodologia de intervenção inovadora e
por exemplo, no ocorrido em Bruxelas, em adequada em diferentes contextos: em bairros,
2005 (Groupe de Travail d’Euromédiation, escolas, espaços e transportes públicos,
2006). Neste seminário foi reafirmada a associações sociais, com evidências expressas
necessidade de se desenvolver uma política enquanto potenciadora da convivência,
de mediação europeia. Contudo, é percetível da regulação da vida coletiva, do acesso a
que as atividades e dinâmicas relativas à direitos e da inclusão social (Bonafé-Schmitt,
mediação social continuam sem ganhar o 2009; Divay, 2010; Neves, 2010; Silva et al.,
reconhecimento e visibilidade esperados, 2010). Para Divay (2010), “a mediação social
encontrando-se em fase de expansão. É é de novo considerada como um modo de
também importante desenvolver intercâmbios regulação social eficaz, distinto da ação dos
estruturados entre mediadores, organizações trabalhadores sociais e das forças de ordem”
profissionais e instituições de formação a nível (p. 139). Bonafé-Schmitt (2009) sublinha a
europeu. importância da mediação, não apenas como
As reflexões produzidas no âmbito dos matéria intrínseca à resolução de conflitos
seminários europeus antes referidos e os mas enquanto regulação social (p. 19). Neves
desafios colocados à sociedade atual estiveram (2010) considera que a mediação social “é a voz
na origem da conceção de um projeto dos atores sociais (e não a dos interventores)
europeu focado na formação em mediação que dá início aos processos de transformação”
para a inclusão social através da mobilidade (p. 40). No processo da mediação, são
europeia. Este projeto agregou um conjunto de trabalhadas competências basilares que
parceiros europeus vinculados a organizações promovem a convivência e facilitam, através
de mediação social e a instituições de ensino da criação de pontes, o viver em sociedade.
superior. O projeto centrou-se na formação de Neste sentido, a mediação social expressa-
Mediadores/as para a Inclusão Social, através se numa diversidade de práticas e cenários
da mobilidade europeia. Foi financiado pela que precisam ser conhecidos e partilhados,
Comunidade Europeia (Projeto Arlekin, potenciando a (trans)formação e formalização
referência: 539947-LLP1-2013-1-FR- dos saberes experienciais e a profissionalização
GRUNDTVIG-GMP) e teve a duração de dos mediadores, bem como a visibilidade e o
três anos (de outubro de 2013 a setembro de reconhecimento da mediação social. O projeto
2016). O projeto Arlekin tinha a finalidade de promoveu a implementação deste processo
contribuir para a construção de um espaço através de uma metodologia de investigação-

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ação-formação colaborativa. Aubervilliers e Saint-Denis (European Forum


No seminário em Créteil (2000), a mediação for Urban Security, 2012), a Europa está
social foi definida como um processo de submetida a desequilíbrios e desigualdades
criação e reconstrução de relações sociais e que espoletam nos cidadãos europeus um
resolução de conflitos da vida quotidiana, em estado de inquietação e fragilizam os laços
que um terceiro, imparcial e neutro, através sociais e a confiança no futuro, que, por sua
de intercâmbios entre pessoas ou instituições, vez, ameaça a coesão social, deixando emergir
ajuda a melhorar essas relações (National Forum o egoísmo e o individualismo. Neste manifesto
of Urban Affairs Professionals, 2000, p. 128). está expresso que, apesar dos progressos
Foi também considerado que outras práticas consideráveis ao longo dos últimos 65 anos,
têm sido desenvolvidas e denominadas por a Europa não provoca ainda o sentimento de
mediação social, as quais, embora adotem os pertença aos seus cidadãos, o que fomenta um
mesmos objetivos e contem com a intervenção bloqueio no que respeita ao coletivismo entre
de um terceiro, este não tem necessariamente os seus membros.
de cumprir as condições de imparcialidade Desde o início do século que a mediação
ou neutralidade (National Forum of Urban social tem vindo a expandir-se em múltiplos
Affairs Professionals, 2000). No entanto, contextos, confirmando a sua relevância face
considerou-se que, futuramente, estas práticas aos desafios da sociedade contemporânea. De
e declarações devem ser incluídas numa acordo com o National Forum of Urban Affairs
reflexão global acerca da mediação social, de Professionals (2000), a mediação social surge
modo a contribuir-se para a afirmação de um em resposta a problemas muito concretos
marco teórico mais sustentado e consistente. da vida diária que, embora possam variar de
um país para outro, são compartilhados pela
1 . A m e d i a ç ã o s o c i a l n a E u r o pa : maioria dos países europeus. Neste Fórum foi
e s ta d o da a rt e e p e r s p e t i va s fa c e expressa a necessidade e vontade de conhecer
ao fu turo
as iniciativas levadas a cabo nos diferentes
Com os múltiplos acontecimentos na países membros da UE, no sentido de potenciar
sociedade contemporânea, questões sociais de intercâmbios que fomentassem melhores
grande relevância são levantadas. Falamos de práticas, partindo da seguinte questão: “as
assuntos relativos aos fluxos migratórios, aos experiências podem ser transpostas de um
refugiados, ao terrorismo, à prática crescente canto da Europa para outro?” (National Forum
de violência, o acentuar das desigualdades, of Urban Affairs Professionals, 2000, p. 31, trad.
confrontos políticos, deslocação de pessoas nossa). Concluiu-se que a “prática da mediação
fragilizadas em busca de abrigo e paz, entre social no interior do quadro da Europa deve
outros, que potenciam heterogeneidades e ser incentivada e desenvolvida” (National
disputas. O contributo da mediação social para Forum of Urban Affairs Professionals, 2000,
responder a estas situações é fundamental, p. 80, trad. nossa), recomendando-se a aposta
pois promove o diálogo e a escuta, favorece na formação com vista ao desenvolvimento e
a aproximação e a construção da confiança consolidação da mediação, um dos objetivos
mútua com as pessoas e nas comunidades do projeto que aqui apresentamos.
onde atua. A Carta de Referência de Mediação Social1
Tal como é referido no Manifesto de refere que, durante anos, várias iniciativas foram

1 Retirado de https://www.cofrimi.com/images/PDF/Charte.Med.Soc.pdf

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desenvolvidas sob o termo genérico ‘mediação’. mediação é uma reunião na qual as pessoas,
Estas iniciativas pretendiam promover um através do diálogo, (com)partilham opiniões,
modo de intervenção nas relações sociais expressões ou estados, para esclarecer um
baseadas no diálogo, tendendo a estabelecerem- relacionamento, para entender uma situação,
se como um modo de regulação social, para promover a pacificação ou uma solução
incentivando a promoção de laços sociais para para um conflito, apoiadas numa estrutura
melhorar as relações entre instituições, grupos ética, garantida por um terceiro qualificado –
sociais e/ou indivíduos. Esta disseminação de o mediador.
experiências que envolve a intervenção de um De acordo com um dos vários documentos
terceiro assume a designação de ‘mediação europeus, La médiation, les médiations
social’. Ainda conforme o assinalado nessa (Groupe de Travail d’Euromediation, 2006),
Carta, estas práticas criam dinâmicas locais a finalidade da mediação social é “garantir a
reais que estimulam uma maior igualdade de ligação social entre a população, associações
oportunidades na sociedade, promovendo e comunidade” (p. 9, trad. nossa) e os seus
uma maior proximidade do público com as objetivos passam por “resolver conflitos e/
instituições2. ou melhorar as relações entre as pessoas e/
O National Forum of Urban Affairs ou instituições; assegurar a ligação entre os
Professionals (2000), comparando a mediação diferentes atores; observar as necessidades
tradicional com a mediação social, evidencia e dificuldades específicas das comunidades;
que a primeira intervém quando as tensões propor e estabelecer recomendações ao poder
atingiram o nível expresso de conflito, enquanto local” (p. 10, trad. nossa). Percebemos que a
a segunda intervém prioritariamente numa mediação social é aqui entendida de modo
fase antecedente; ou seja, é fundamentalmente mais amplo, evidenciando-se o propósito
um procedimento para prevenir dissidências relativo à prevenção e resolução de conflitos e
e conflitos. Para além disso, a mediação estabelecimento de pontes que promovam os
social promove a capacitação individual, laços sociais (Zabatel, 2007). Ainda de acordo
preparando os intervenientes para assumirem com o documento europeu antes referido,
a responsabilidade para a manutenção da paz quando falamos em conflitos expressos,
social e prevenção da criminalidade. Deste estes podem revelar ser a melhor ou a pior
modo, a mediação social inscreve-se em valores das coisas. Tudo dependerá da forma como
sociais, visando a promoção de uma melhor sejam abordados. A pior, quando o conflito
qualidade de vida, de direitos, da igualdade, é minimizado ou ignorado, uma vez que esta
do empowerment do indivíduo, potenciando postura irá, mais cedo ou mais tarde, provocar
uma convivência saudável e harmoniosa (Silva revoltas e conflitos cíclicos, deteriorando
& Cunha, 2015). os laços sociais e promovendo atitudes
Neste seguimento, e de acordo com o exposto individualistas e reativas. A melhor, quando o
no documento do Forum Français pour la conflito é bem gerido e os envolvidos encontram
Sécurité Urbaine (Pradet & Moreau, 2010), uma solução que permita ultrapassar o conflito,
a mediação não é, na sua prática, limitada a aprendendo com o mesmo (Groupe de Travail
questões relativas ao conflito, atuando também d’Euromediation, 2006).
para (re)criar ou reparar o tecido social. Consideramos que a mediação é uma
Assim, neste documento é reconhecido que a proposta inovadora e eficiente no âmbito

2 Retirado de https://www.cofrimi.com/images/PDF/Charte.Med.Soc.pdf

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da atuação social, importante na sociedade (CPA) que se foi desenvolvendo ao longo das
contemporânea, que, influenciada por diversos várias fases da sua implementação. De acordo
fatores, está em expressa metamorfose. Assim, com Wenger (2001), as CPA privilegiam a
os modos de ação e desenvolvimento social aprendizagem situada e colaborativa, cujo
devem acompanhar esta evolução, prevenindo potencial é cada vez mais reconhecido no
e atuando com mais assertividade e de acordo contexto da aprendizagem ao longo da
com os valores aos quais globalmente se apela vida e do desenvolvimento profissional e
para a construção de sociedades sustentáveis, organizacional. Podemos também definir as
pacíficas e justas (Centro de Informação comunidades de aprendizagem como
Regional das Nações Unidas para a Europa
Ocidental, 2016). espaços abertos de questionamento e reflexão
Assumindo a importância da mediação na sobre temáticas específicas, que albergam
sociedade contemporânea e a necessidade de e celebram a diversidade de perspetivas
um conhecimento alargado das suas diversas disciplinares e o cruzamento de saberes práticos
expressões, o projeto ao qual nos referimos e académicos. Imaginam-se como espaços de
teve como principais objetivos desenvolver a co-aprendizagem a partir de uma identificação
profissionalização dos mediadores sociais de inicial das experiências e dos saberes dos que as
forma concertada a nível europeu e fomentar integram e de busca ativa de respostas para as
a visibilidade da mediação social. Para tal, perguntas que qualquer um possa formular no
uma das principais atividades do projeto seu seio. (Silva, Piedade, Morgado, & Ribeiro,
consistiu na conceção e experimentação de um 2016, p. 21)
dispositivo de formação em Mediação para a
Inclusão Social através da mobilidade europeia, No âmbito deste projeto, a CPA constituiu-
que apresentamos nos pontos seguintes, bem se inicialmente com os parceiros do
como os principais resultados alcançados. projeto em torno dos objetivos do mesmo,
sendo progressivamente alargada a outros
2. Metod olo gia mediadores e organizações de mediação,
consubstanciando “uma comunidade
O projeto Arlekin – Formação em Mediação dialogante e participativa, transnacional,
para a Inclusão Social através da mobilidade interdisciplinar e pluri-institucional que foi
europeia – inscreveu-se numa perspetiva de progredindo na comunicação, participação
aprendizagem ao longo da vida, privilegiando e colaboração, revendo e consolidando a
a investigação-ação-formação colaborativa finalidade e objetivos do Projeto” (Silva et al.,
em que as dimensões experiencial, reflexiva 2017, p. 73).
e autoformativa foram consideradas como O dispositivo de formação inspirou-se na
especialmente relevantes (Silva, Carvalho, tradição dos Companheiros do Tour de France3,
Moisan, & Fortecöef, 2017). uma modalidade de formação que promove
A conceção e experimentação do dispositivo a aprendizagem do ofício pelos aprendizes,
de formação em Mediação para a Inclusão junto de mestres, em diferentes cidades.
Social (MIS) através da mobilidade europeia No caso do Tour da Europa dos Mediadores
assentou na construção progressiva de uma Sociais, os Mediadores-Companheiros (MC)
Comunidade de Prática e de Aprendizagem foram acolhidos por Mestres de Aprendizagem
3 Consultar Fédération Compagnonnique, Le Tour de France des Compagnons, em http://compagnonsdutourdefrance.org/pages/
le-tour-de-france
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(MA), também mediadores, em instituições de seguintes objetivos específicos: i) Refletir sobre


um outro país europeu. Com estes observaram a própria biografia profissional; ii) Identificar a
práticas e partilharam aprendizagens nos seus experiência e os conhecimentos profissionais;
contextos de trabalho. Esta (auto)formação- iii) Conhecer práticas de mediação para a
aprendizagem “mondialogante” (Faria- inclusão social noutros países; iv) Analisar as
Fortecöef, Moisan, & Gonzalez-Monteagudo, práticas de mediação observadas; v) Conceber
2014) concretizou-se numa trajetória – uma um documento para transmitir a experiência e
viagem pela Europa (experiencial e reflexiva) aprendizagens da formação (Silva et al., 2017,
–, através do conhecimento e partilha de p. 78).
experiências biográficas e profissionais entre
os mediadores dos vários países envolvidos. 2 . 2 Pa rt i c i pa n t e s

2 . 1 O b j e t i vo s Foram cinco os países envolvidos no


projeto: Bélgica, Espanha, França, Itália
O projeto europeu Arlekin teve como e Portugal. Cada um destes países estava
objetivo geral o desenvolvimento da Mediação representado por uma instituição de ensino
Social, favorecendo a sua visibilidade e a superior (é o caso de Espanha, França
profissionalização dos mediadores sociais de e Portugal) ou por uma instituição de
forma integrada e sustentada a nível europeu. intervenção no âmbito da Mediação Social
Com base na metodologia (Bélgica e Itália). Para a implementação do
anteriormente referida, o dispositivo de dispositivo de formação, cada país estabeleceu
formação-aprendizagem privilegiou os parcerias com instituições com atuação no

Ta b e l a 1
Distribuição da Mobilidade dos Mediadores Sociais no Tour da Europa 2016

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Formação de Mediadores Sociais 179

âmbito da mediação para a inclusão social, de formação contemplou um conjunto de


as quais enviaram e acolheram mediadores condições pedagógicas que permitiram a sua
companheiros de outro país, num total de 12 materialização e experimentação. Assumindo
instituições. a metodologia de investigação-ação-formação
No Tour da Europa experimental dos colaborativa, a formulação dos objetivos,
Mediadores Sociais (2016), participaram 12 procedimentos e materiais pedagógicos
MC e 12 MA, conforme a Tabela 1. contou com a participação dos diferentes
Participaram mediadores e mediadoras com intervenientes, nomeadamente a equipa
idades compreendidas entre os 27 e os 64 coordenadora do projeto (investigadores e
anos, com formações diversas que variavam professores), a equipa pedagógica do Tour da
entre o ensino secundário especializado e a Europa dos Mediadores (alguns elementos
licenciatura em diversas áreas do conhecimento da equipa coordenadora do projeto e um
(Comunicação Social, Psicologia, Direito, mediador experiente) e os/as MC e MA. Neste
Serviço Social, Antropologia e Literatura). contexto, foi assumida a coconstrução do
Todos os participantes tinham experiência no conjunto de suportes de formação e de ação,
âmbito da mediação para a inclusão social e valorizando a diversidade de olhares dos
a maioria tinha formação especializada em intervenientes, suas idiossincrasias e saberes,
mediação. articulando os saberes teóricos e os saberes
experienciais que os diversos intervenientes
2 . 2 P r o c e d i m e n t o s e m at e r i a i s aportaram antes, durante e após a mobilidade
(Silva et al., 2017, p. 77).
A conceção e implementação do dispositivo Para facilitar o processo de aprendizagem

Ta b e l a 2
Objetivos e Instrumentos Pedagógicos do Tour da Europa

Fonte: Adaptado de Silva et al., 2017, p. 79

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mútua e experimentar este modelo os aprendizes se socializam nas normas, ritos e


de formação foram elaborados vários valores que constituem referências específicas
instrumentos de apoio para os/as MC e MA e importantes a partilhar e aprender. No caso
(cf. Tabela 2). Estes instrumentos pedagógicos do dispositivo de formação dos mediadores
foram concebidos com a intenção de facilitar: sociais, este recurso foi adaptado aos meios
i) a comunicação entre os intervenientes atuais de comunicação, tendo sido concebida
e o conhecimento mútuo; ii) a reflexão e uma ‘Casa Virtual’ que oferecia um espaço
reconhecimento das aprendizagens; iii) a de intercâmbios entre todos os mediadores e
observação e conhecimento dos contextos e a equipa pedagógica, constituída por alguns
das práticas; iv) o registo, análise, reflexão e elementos da equipa coordenadora do projeto
partilha das aprendizagens. e por um mediador experiente designado
Os instrumentos acima identificados foram de rouleur. Este mediador profissional, que
concebidos com a intenção de potenciar o conhecia bem os problemas concretos da sua
processo de investigação-ação-formação prática numa organização, era também um
colaborativa, contemplando situações pedagogo que assumia o papel de ‘irmão mais
de análise e partilha de experiências velho’ ou ‘rouleur’ (designação do dispositivo
profissionais em processos de mediação, bem do Tour de França): ficava atento e à escuta
como o contacto com diferentes contextos dos MC e MA com vista a compreender as
para a identificação e observação de casos suas dificuldades (logísticas, organizacionais
ou situações de mediação, níveis e formas de e sobretudo pedagógicas) e aconselhava
intervenção, balizados por critérios de ética como lhes fazer face. Presente nos diferentes
e deontologia profissional. Simultaneamente, seminários presenciais, estava igualmente
este processo (auto)reflexivo proporcionou disponível para os contactos individuais antes,
níveis de formação colaborativa entre os durante e após o estágio: no Skype, telefone,
mediadores (MA e MC) através de momentos WhatsApp e Cayenne Virtual.
de análise, registo e avaliação de estratégias, A formação dos Mediadores Sociais através
técnicas e formas de acompanhamento de da mobilidade europeia concretizou-se num
diferentes processos de mediação, estimulando processo com vários tempos de formação
um diálogo entre a prática e a teoria e a colaborativa (Silva et al., 2017) e distribuídos
construção de novos saberes profissionais em quatro momentos fundamentais:
(Silva et al., 2017, p. 79). • Seminário de formação de dois dias
Os instrumentos pedagógicos foram (Paris, França, janeiro de 2016) com
disponibilizados a todos os participantes na todos os MC e MA e com a equipa
mobilidade no sítio web do projeto, num espaço pedagógica do dispositivo de formação,
especialmente concebido para o intercâmbio com o objetivo de se conhecerem
entre todos os MC e MA, o qual se designou mutuamente, partilharem as suas
de Cayenne Virtual. Este espaço constituiu motivações e expectativas e conhecerem
um recurso importante no Tour da Europa a metodologia do Tour da Europa dos
dos Mediadores, tal como a Cayenne – casa de Mediadores Sociais;
acolhimento e encontro dos Companheiros do • Estágio de 12 dias através da imersão
Tour de França em diferentes cidades por onde dos MC em organizações e contextos
passavam para aprenderem os ofícios. É um de Mediação para a Inclusão Social nos
lugar de rituais próprios de cada ofício, onde vários países participantes (cf. Tabela 1),

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Formação de Mediadores Sociais 181

com o acompanhamento dos MA (janeiro Aprendizagem do Tour da Europa’. Após


de 2016). Para facilitar o trabalho de a apresentação dos trabalhos, seguiu-se
organização e planificação das atividades um dia de jornadas de difusão – Jornadas
a realizar foram concebidos e facultados Europeias de Mediação para a Inclusão
vários instrumentos pedagógicos de Social (Silva et al., 2017, p. 77).
observação, reflexão e registo, os quais
facilitaram a organização do diário de O Chef d’Oeuvre é uma designação
bordo dos/as MC e MA (cf. Tabela 2); recuperada do Tour de França dos
• Seminário de um dia, imediatamente após Companheiros; corresponde à ‘Obra-Prima’
o estágio, para partilha das experiências que os Companheiros deveriam elaborar e
e avaliação do estágio com todos/as os/ apresentar documentando a sua ‘arte no ofício’,
as MC e MA e a equipa pedagógica, para assim obter o título de Companheiro.
seguido de outro dia de jornadas de Tal como para os Companheiros do Tour de
difusão – Congresso Internacional de França, é através da sua ‘obra’ que os/as MC
Mediação Social (Braga, Portugal, 26 testemunham a sua ‘capacidade de fazer’
e 27 de janeiro de 2016). Durante o e a aquisição do saber-fazer e dos saberes
seminário de avaliação, os/as MC e MA adquiridos. O ‘Chef d’Oeuvre’ dos Mediadores
fizeram um primeiro balanço individual Companheiros corresponde ao Caderno de
e coletivo do estágio e apresentaram um Viagem (cf. Tabela 2) onde cada um/a regista
primeiro esboço do Chef d’Oeuvre, para as suas observações, entrevistas, discussões,
o qual tiveram o apoio e supervisão descobertas, surpresas e impressões. Cada
da equipa coordenadora. No segundo um/a realiza esse trabalho com a paleta de
dia apresentaram publicamente, no recursos que desejar: desenhos, fotos, vídeos,
Congresso Internacional, uma síntese das montagens, texto, etc., concebendo-o num
aprendizagens realizadas durante o Tour suporte virtual.
da Europa (cf. Moisan, Silva, Fortecöef, Os diplomas de MC e MA foram atribuídos
& Buelens, 2016); no dia seguinte à apresentação pública, durante
• O quarto tempo de formação previsto as Jornadas Europeias de Mediação para a
neste dispositivo foi o da apresentação Inclusão Social que decorreram no mesmo
pública e defesa dos trabalhos finais – Chef local.
d’Oeuvre (Lunéville, França, setembro de Para além destes quatro tempos específicos
2016). A defesa foi realizada perante um de formação, o dispositivo contemplou o
júri europeu, composto por académicos acompanhamento continuado dos mediadores,
e mediadores/as profissionais, em conforme as modalidades do dispositivo dos
sessão pública e participada pelos MC Companheiros do Tour de França5.
e MA4. Também os/as MA redigiram
um Relatório sobre o acompanhamento
realizado, que foi avaliado pelo júri para
que obtivessem o título de ‘Mestre de

4 Algumas imagens podem ser observadas em https://www.cree-a.eu/tour-deurope/ - 1ER TOUR D’EUROPE 2016, in https://
www.cree-a.eu/
5
Consultar http://compagnonsdutourdefrance.org/pages/le-tour-de-france

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182 Silva, A. M. C. & Cunha, S.

3 . R e s u lta d o s da i m p l e m e n ta ç ã o as candidatos/as e consolide as aprendizagens


do d i s p o s i t i vo de formação individuais. Os instrumentos pedagógicos
de mediad ores so ciais a nível e os vários momentos de formação visam
europeu promover e facilitar a aprendizagem
continuada dos mediadores sociais através da
A implementação e a avaliação do dispositivo mobilidade europeia.
de formação em mediação social através da O modelo do dispositivo assegurou
mobilidade europeia permitiram validá-lo e um processo formativo, através de um
considerá-lo adequado para a aprendizagem acompanhamento de investigação-ação
ao longo da vida dos mediadores sociais a colaborativa, que partiu das experiências
nível europeu. Esta constatação sustenta-se já adquiridas pelos participantes e do
em vários aspetos observados: i) dinâmica seu questionamento biográfico para um
construída ao longo do processo pelos diversos reinvestimento dos saberes adquiridos em
participantes – MC, MA e equipa pedagógica; projetos futuros – individuais e coletivos.
ii) avaliação oral efetuada pelos MC e MA Os documentos produzidos – Chef d’Oeuvre
nos seminários de formação e avaliação e no dos MC e Relatórios de Acompanhamento dos
questionário online preenchido alguns dias MA – e a avaliação final do Tour da Europa
após o Tour da Europa (final de setembro dos Mediadores Sociais validam o dispositivo
de 2016); iii) resultados expressos nos e evidenciam as aprendizagens realizadas.
documentos produzidos pelos MC e MA (Chef Estas aprendizagens situam-se a diferentes
d’Oeuvre e Relatórios de Acompanhamento); níveis, nomeadamente:
iv) continuidade da partilha e intercâmbio i) autoconhecimento, enquanto pessoa e
entre os diferentes intervenientes, que vem profissional, como evidenciam os registos
sido mantida para além do período previsto dos mediadores que transcrevemos em
para a formação através da mobilidade. seguida:
- “Esta experiência permitiu-me
3.1 Formação d os Mediad ores distinguir entre a pessoa que eu sou e
a pa rt i r d o r e c o n h e c i m e n t o o papel de mediador em certos aspetos
e reformul ação d os saberes da minha prática” (MA5, Relatório de
a d q u i r i d o s e pa rt i l h a d o s Acompanhamento, 10/09/2016);
- “Permitiu-me repensar, acima de tudo,
O dispositivo de formação-ação está a importância de ser mediador – a relação
predominantemente centrado no estágio de comigo mesmo (evitando sobrecargas
imersão num contexto específico de um país emocionais)” (MA3, questionário final de
europeu envolvido no projeto. Todavia, para avaliação, 30/09/2016);
que os/as MC e MA possam aproveitar o ii) conhecimentos sobre a mediação e
máximo do estágio, precisam estar preparados. as competências do mediador, conforme se
Antes, ao longo e após o estágio devem refletir pode ler nas afirmações abaixo:
sobre a experiência e avaliá-la de modo a - “O estágio permitiu-me descobrir as
mobilizar e partilhar as aprendizagens nos diferentes formas de mediação, que abrem
seus contextos profissionais. A formação muitas portas... Esta oportunidade abriu-
pretende também construir um coletivo de me os olhos, aprendi muito e encontrei
pares – MC e MA – que sustente e apoie os/ material para fazer as coisas evoluírem…

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Formação de Mediadores Sociais 183

eu descobri e descobri-me” (MC1, Chef sintetizar diferentes conceitos. Então eu


d’Oeuvre, 10/09/2016); achei que foi uma maneira muito útil e
- “A formação permitiu-me ter uma eficaz para prosseguir o objetivo de uma
visão global do processo de mediação formalização compartilhada dos aspetos
e tomar consciência das características metodológicos da mediação social”
e competências do mediador” (MA2, (MC3, questionário final de avaliação,
questionário final de avaliação, 30/09/2016).
30/09/2016); Pode, assim, observar-se que o dispositivo
- “Estas ferramentas oferecem a de formação contribuiu para que MC e MA
oportunidade de ampliar ‘o meu olhar’ refletissem sobre si mesmos e sobre as suas
para o que significa a mediação social” práticas, as suas referências, pertenças,
(MC10, questionário final de avaliação, atribuições, identificações, e para o seu
30/09/2016); reconhecimento coletivo como membros da
- “Esta experiência permitiu-me família profissional de Mediadores.
aprofundar os meus conhecimentos Outro aspeto a sublinhar é a oportunidade
sobre uma mediação mais global, e formadora, tanto para os MC como para os
perceber que a conceção de mediação MA, como se pode observar nas citações
era muito diferente de um país para anteriores. A aprendizagem mútua e
outro. Isto permitiu-me compreender as colaborativa foi outra potencialidade do
dificuldades de um espaço comum para dispositivo de formação para a construção de
a promoção da mediação, bem como uma comunidade de prática e aprendizagem
as questões subjacentes que poderiam (cf. Brito & Beca, 2016; Campinos-Dubernet
surgir: reconhecimento, enquadramento & Rodrigues, 2016; Ghobrini & Aguirre, 2016;
difuso, diversidade de práticas e políticas” Jiménez & Ghibaudi, 2016; Russo & Rorpach,
(MC6, Chef d’Oeuvre, 10/09/2016); 2016; Saladino & Baudis, 2016).
- “É, acima de tudo, um reconhecimento
de nossas práticas, a prova é a nossa 3.2 C o n s t ru ç ã o de uma
participação; mas, ao mesmo tempo, c o m u n i da d e d e p r át i c a e de
enriquece a nossa visão desta profissão, aprendizagem
porque observamos outras práticas,
adicionamos uma experiência, outro A dinâmica construída ao longo do
olhar, outra dimensão a este trabalho... processo de mobilidade emerge nos
e isso é explicado pelo rico debate seminários presenciais de formação e
que tivemos em diferentes reuniões” através dos meios comunicacionais postos à
(MA7, questionário final de avaliação, disposição, nomeadamente a ‘Casa Virtual’
30/09/2016); (no sítio web do projeto) e o WhatsApp6.
- “Na minha opinião, isso permitiu Este último meio de comunicação, não
que tanto o indivíduo quanto o grupo estando previsto inicialmente, revelou-
capitalizassem o enriquecimento da se um recurso espontâneo, especialmente
experiência do Tour da Europa, passo a acessível a todos os participantes e ágil na
passo (Paris, Braga, Lunéville). De facto, partilha de informações, de questionamentos,
permitiu-nos parar, pensar, confrontar e de reflexões em tempo real. A utilização
6 Conferir em https://www.cree-a.eu/tour-deurope/ - ** LA CAYENNE, in https://www.cree-a.eu/

Revista Portuguesa de Educação, 32(1)


184 Silva, A. M. C. & Cunha, S.

espontânea e generalizada do WhatsApp por profissão, a nível mundial e europeu, há já


todos os participantes permitiu a partilha de algumas décadas; todavia, a sua formação
informações com recurso a diferentes suportes e regulamentação profissional ainda não
(fotografias, vídeos, textos…), possibilitando se encontra formalizada. Este projeto
a rentabilização do tempo e a interação em contribuiu para um conhecimento mais
tempo real. Para além disso, tem permitido amplo do exercício da profissão de mediador
a dinamização da comunidade de prática e em vários países europeus, proporcionando
aprendizagem, conforme documentam as um levantamento e uma reflexão conjunta
citações seguintes: sobre as práticas de mediação e formação de
mediadores, resultando na constituição de
- “Arlekin… sempre uma bela experiência, uma comunidade de aprendizagem que tem
intensa, sincera…” (MC9, mensagem WhatsApp, vindo a alargar-se.
19/04/2017); O reconhecimento deste projeto-piloto
- “Tornamos vivo este fórum através das ficou também refletido no relatório final
nossas experiências, da partilha das nossas ações de avaliação do mesmo, onde pode ler-se:
quotidianas e das reflexões que produzimos “a ideia de adaptar um modelo antigo de
sobre elas… é o objetivo deste grupo WhatsApp” formação às necessidades de aprendizagem
(MA12, mensagem WhatsApp, 30/01/2018). contemporâneas é fascinante. Ainda,
porque esta modalidade inclui intercâmbios
A constituição da comunidade de prática e de interculturais e intergeracionais” (EACEA,
aprendizagem, não sendo um objetivo prévio 2017).
e explícito do projeto, potenciou as dimensões Os resultados conseguidos possibilitaram
experiencial, reflexiva e autoformativa, que a validação do dispositivo e a candidatura e
se quiseram privilegiar nesta modalidade de financiamento de um novo projeto europeu
formação. Esta comunidade de prática e de Erasmus+, que se encontra em curso desde
aprendizagem iniciou-se com a mobilidade dezembro de 2016. Assim, o conhecimento e a
dos Mediadores Sociais em 2016, mantendo- comunidade de prática e aprendizagem vêm-
se e ampliando-se até à atualidade através se ampliando, com a integração de sete países
das partilhas e intercâmbios a diferentes (Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Itália,
níveis: encontros presenciais (seminários de Luxemburgo e Portugal) e 32 MC e MA.
formação, jornadas abertas à comunidade), Os resultados alcançados com a
partilhas e intercâmbios de práticas através experimentação deste dispositivo de
dos meios virtuais; reflexões e avaliações formação de mediadores confirmam a
através dos questionários de avaliação online relevância da formação contínua através
e presencialmente, as quais têm constituído da investigação-formação colaborativa em
contributos importantes para a revisão dos mobilidade europeia que responda a um
instrumentos utilizados e dos planos de perfil profissional para intervir em situações
formação dos seminários presenciais. complexas e exigentes.
No Tour da Europa pretendeu-se identificar
o que há em comum nas práticas de mediação C o n c lu s õ e s
social, respeitando as diversas formas da
A Mediação Social é uma prática ainda
sua concretização nos contextos específicos
emergente, contudo em expansão e com grande
de cada país. Os mediadores exercem a

Revista Portuguesa de Educação, 32(1)


Formação de Mediadores Sociais 185

relevância nas sociedades contemporâneas. que os/as MC e MA mostraram verdadeiro


O seu desenvolvimento, reconhecimento e interesse em descobrir reciprocamente as
profissionalização passa pela identificação da práticas de mediação social e os seus contextos
diversidade de práticas, pelo seu conhecimento em diferentes países europeus. Este facto
e partilha mútua. sustenta que a homogeneização desta atividade
Neste sentido, a metodologia e modalidade da profissional nova e a sua evolução enquanto
formação, através da imersão em contextos de profissão são construídas de baixo para cima:
prática, permitiu: i) conhecer novos contextos através da explicitação das práticas e dos
e outras práticas de mediação na Europa; ii) saberes tácitos que aquelas desenvolvem para
estabelecer interfaces entre os intervenientes de os mutualizar, conforme foi possível observar
várias culturas e países; iii) criar sinergias entre pela expressividade e reflexividade nas partilhas
os olhares e as vozes dos vários intervenientes que foram realizadas entre os Mediadores do
no projeto, fomentando o sentimento de Tour da Europa. É também possível afirmar a
pertença a uma comunidade (Silva et al., 2017, dimensão europeia como o espaço adequado
p. 81). Os diferentes momentos de formação- para a visibilização da mediação social, da
ação-investigação colaborativa constituíram diversidade de práticas, a sua externalização e
contextos de aprender juntos, permitindo reconhecimento, hipóteses que continuarão a
ressignificar as práticas de mediação e a ser validadas no projeto atualmente em curso –
identidade profissional dos mediadores. Projeto CreE.A: Création d’un Espace Européen
Os resultados alcançados com a de la Médiation Sociale (ref.: 580448-EPP-1-
implementação do dispositivo de formação 2016-1-FR-EPPKA3-IPI-SOC-IN).
de mediadores sociais através da mobilidade A comunidade em rede, iniciada com este
europeia permitem reconhecer a importância projeto, tem ampliado as colaborações a nível
da formação contínua dos mediadores nesta europeu, entre universidades, cidades e diversas
modalidade de mobilidade. Esta experiência redes de organismos sociais internacionais de
valida a diversidade de contextos em que mediação, de modo a potenciar intercâmbios
os mediadores atuam para prevenir, gerir e estruturados entre os mediadores, quer ao nível
resolver de forma cooperativa os conflitos a das instituições, quer das universidades, com
nível social, seja nas escolas, nas comunidades o objetivo de partilharem e confrontarem as
ou bairros, nos hospitais, nos estabelecimentos práticas e as representações sobre as atividades
prisionais, nos transportes ou nos serviços de mediação social e construírem o espaço
públicos. europeu da mediação.
Esta experiência-piloto evidenciou também Porém, a formação dos mediadores não
o que já outros estudos revelaram (Bonafé- se esgota nesta modalidade de formação
Schmitt, 2017; Silva, 2015; Silva et al., 2010), contínua, pelo que continua a ser importante
nomeadamente que o saber dos mediadores é a investigação e reflexão sobre a formação
fundamentalmente um saber da experiência, inicial e especializada dos mediadores, tanto
uma experiência não-dita, não formalizada, em Portugal como a nível internacional.
um saber incorporado porque adquirido
através da experiência. Agradecimentos e apoios
Este projeto permitiu validar um dispositivo
de formação em mediação e uma metodologia Agradecemos aos/às participantes neste
de investigação-ação colaborativa e reconhecer projeto: mediadores e mediadoras, equipa

Revista Portuguesa de Educação, 32(1)


186 Silva, A. M. C. & Cunha, S.

pedagógica e equipa coordenadora. pedagogía social: Viejas realidades, nuevos


Apoio: EACEA – Programme pour retos para la intervención social. In R.
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188 Silva, A. M. C. & Cunha, S.

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Editorial. on the importance of social mediators in
the construction of peaceful communities, a
project financed by the European Community
was implemented between 2013 and 2016, with
the participation of five European countries.
The main objective of the project was to design
and experiment a training system for social
mediators, inspired by the tradition of the
Companions of the Tour de France through
a collaborative action-research-training
methodology. The methodology adopted was
adequate for the continuous training and
professionalization of social mediators and for
the creation of a cooperation network between
different institutions and professionals. The
results show the appropriateness of the device
in the achievement of the defined objectives
and in the construction of a European area of
mediation for social inclusion.

Keywords: Social mediation; Mediators;


Training; Collaborative action research

Revista Portuguesa de Educação, 32(1)


Formação de Mediadores Sociais 189

F o r m at i o n de M é d i at e u r s formation continue et la professionnalisation


S o c i au x da n s l ’ E u r o p e : u n p r o j e t des médiateurs sociaux et pour la création
pilote d’un réseau de coopération entre différentes
institutions et professionnels. Les résultats
Résumé montrent la pertinence du dispositif dans
L’un des défis de la société actuelle est la réalisation des objectifs définis et dans la
de faire face avec détermination et qualité construction d’un espace européen de médiation
aux conséquences des multiples fragilités pour l’inclusion sociale.
sociales, économiques et politiques vécues
dans le monde entier. Les différents pays et Mots-clés : Médiation sociale ; Médiateurs ;
organisations se sont ainsi engagés à apporter Formation ; Recherche-action collaborative
une réponse urgente et adéquate à la fragilité
de la paix sociale, notamment par des stratégies
de prévention et de règlement pacifique des
conflits. La médiation sociale est l’une des
stratégies clés pour promouvoir la paix, la
justice et la cohésion sociale. Afin de répondre
aux recommandations contenues dans les
documents européens officiels sur l’importance
des médiateurs sociaux dans la construction de
communautés pacifiques, un projet financé par
la Communauté Européenne a été mis en œuvre
entre 2013 et 2016, avec la participation de cinq
pays européens. L’objectif principal du projet
était de concevoir et expérimenter un système
de formation pour les médiateurs sociaux,
inspiré par la tradition des Compagnons du
Tour de France à travers une méthodologie
collaborative d’action-recherche-formation. La
méthodologie adoptée était adéquate pour la

i
Departamento de Estudos Curriculares e Tecnologia Educativa, Instituto de Educação & Centro de Estudos de Comunicação
e Sociedade (CECS), Universidade do Minho, Portugal. ORCID: 0000-0001-8598-7243
ii
Instituto de Educação & Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), Universidade do Minho, Portugal.
ORCID: 0000-0001-9337-3129

Toda a correspondência relativa a este artigo deve ser enviada para:


Ana Maria Costa e Silva
Instituto de Educação, Universidade do Minho
Campus de Gualtar
4710-057 Braga, Portugal Recebido em 7 de janeiro de 2018
Email: anasilva@ie.uminho.pt Revista Portuguesa de Educação, 32(1)
Aceite para publicação em 17 de abril de 2019

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