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A Bíblia

e Direitos

Moradia | Mulheres | Crianças |Trabalhadores |Democracia


Terra | Respeito | Comunicação | Direitos Humanos | Cidadania
Vida em Abundância | Justiça | Paz | Saúde | Proteção
Segurança | Informação | Tolerância | Igualdade

Revista de Estudos Temáticos da Frente de


Evangélicos pelo Estado de Direito
Apresentação
Esta é uma revista para ser usada do jeito que você quiser. Pode ser em
pequenos grupos, em reuniões de mulheres, em grupo de jovens, em grupo
de estudantes, em reuniões de líderes. Esta é uma revista de estudos bí-
blicos, que aborda assuntos que mostram o quanto a fé em Cristo pode ser
comprometida com uma sociedade mais justa, que garante direitos, igualdade
e justiça para todos.
A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito reconhece a Bíblia como regra
de fé e prática. Através da leitura bíblica, o que podemos aprender sobre viver
em um mundo diverso? O que a Bíblia ensina sobre respeitar outras religiões?
O que fazer diante da violência que afeta os jovens do país? Como proteger as
crianças? O que as igrejas podem ajudar na preservação ambiental? Quando um
posto de saúde não funciona o que pode ser feito? É direito lutar para ter mora-
dia e para o uso da terra? O que é violência contra a mulher?
As respostas para estas perguntas, e para muitas outras, estão apontadas na
leitura bíblica. Essa revista é uma ferramenta para que possamos olhar para a
Bíblia e para a realidade que fazemos parte, para que possamos refletir e agir
como povo de Deus no Brasil.
Como servos do Altíssimo é preciso contribuir para o estabelecimento dos dire-
itos e da dignidade humana. Os evangélicos somam mais de 42 milhões de pes-
soas no Brasil. É preciso obedecer a Cristo e ser sal e luz no meio da realidade.
O texto diz: “Vós sois sal”. Não há como deixar de ser sal. Não há alternativa, é
necessário ser o sal, que dê o sabor, que não seja insípido. É ser contundente
não para o próprio enriquecimento ou crescimento, mas para promover a trans-
formação do Brasil em um lugar de justiça, paz e equidade. Também é uma or-
dem ser luz. Jesus disse: “Vós sois luz”. O crente em Jesus não consegue se es-
conder, sendo luz. Por isto, ele é percebido sempre. Os evangélicos neste país
serão sempre vistos. Que sejam vistos e reconhecidos como os que promovem
a justiça, o que é reto e bom.
Jesus de Nazaré disse que veio para que haja vida e vida em abundância. È es-
sencial perceber que Jesus estabeleceu relações com as mais diversas pessoas
e sustentou o direito de cada pessoa ou grupo. Conversou com as mulheres
reconhecendo o valor que elas tinham. Respeitou a religiosidade dos que tin-
ham e expressavam crenças diferentes. Deu valor ao trabalho digno das pes-
soas. Buscou a justiça estabelecendo novas relações entre quem tinha poder e
quem não tinha. Manteve um relacionamento totalmente democrático com seus
discípulos. Em todo o tempo Jesus trouxe outra dinâmica de vida onde os direit-
os das pessoas eram considerados fundamentais para a vida.
SUMÁRIO

06 O que a Bíblia fala sobre Direitos


12 O que a Bíblia fala sobre Democracia
20 O que a Bíblia fala sobre a Violência
26 O que a Bíblia fala sobre o Direito a Saúde para Todos
34 O que a Bíblia fala sobre o Direito a terra e moradia
40 O que a Bíblia fala sobre a Dignidade da Mulher
46 O que a Bíblia fala sobre a Criação
54 O que a Bíblia fala sobre Imigrantes e Refugiados
60 O que a Bíblia fala sobre as Crianças
68 O que a Bíblia fala sobre Trabalho Digno
74 O que a Bíblia fala sobre o Diálogo com outras Religiões
80 A Bíblia e a Liberdade de Expressão
O que a Bíblia fala
sobre Direitos
“Ele defendeu a causa do pobre e do necessitado, e, assim,
tudo corria bem. Não é isso que significa conhecer-me?
Declara o Senhor.”
Jeremias 22.16
O que são direitos
humanos?

Muito se fala de direitos humanos nos últimos anos no Brasil, não é


mesmo? Mas para falar de direitos humanos é preciso que tenhamos
em mente o que significa “direito”. A palavra “direito” vem do latim “rec-
tus”, que exprime “aquilo que é correto”. Direito é tudo o que é justo e
expressa retidão.
No caso dos direitos humanos, é tudo aquilo que garante o princípio
da integridade e do respeito em relação aos seres humanos. Pontua-
mos aqui a contribuição da fé judaico-cristã para a noção de direitos
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humanos, que compreende que toda humanidade carrega a imagem e


semelhança do Deus Criador. Portanto, quando um ser humano é viola-
do em sua dignidade, é o próprio Deus que é desconsiderado. Enfim, os
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direitos humanos são universais e visam a defender a cidadania plena


de todas as pessoas.

Mas por que ter direitos humanos?

A razão de se ter direitos humanos é simples: preservar toda a raça hu-


mana, já que nenhum de nós está livre de sofrer algum tipo de discrim-
inação, exclusão, violência e desrespeito contra a nossa dignidade.
É incontestável que ainda hoje um grande número de pessoas no Brasil,
por exemplo, não goza de direitos básicos. Apenas em nosso país, mais
de seis milhões de pessoas não tem um teto para morar. O racismo in-
stitucionalizado mata milhares de jovens negros todos os anos. Quase
metade de nossa população não tem acesso ao saneamento básico.
Povos indígenas e comunidades quilombolas são frequentemente alvo
da violência por parte de grandes latifundiários. Mulheres são vítimas
de múltiplas violências. Enfim, são apenas alguns dados que dem-
ostram que a defesa desses direitos é necessária na construção de um
país melhor.
Direitos humanos
na História

É possível perceber o
desenvolvimento da noção comprometeram-se a se
de direitos humanos em vários empenhar na promoção dos
momentos da história, em 30 artigos inscritos nesse
diferentes povos e através de importante documento. Em
vários documentos. Por exemplo, decorrência disso, vários destes
a ideia dos direitos humanos direitos são agora parte das leis
estaria já exposta no Cilindro de constitucionais da maioria das
Ciro, o Grande. Ciro, o primeiro nações democráticas.
rei da antiga Pérsia, através
Entretanto, não basta apenas
de seus decretos, emancipou
ter esses documentos, é
escravos, garantiu a liberdade

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importante não ficarmos de
religiosa e estabeleceu a
braços cruzados. Um exemplo
igualdade racial. Podemos
disso foi o envolvimento de
citar vários outros documentos
muitos metodistas, quakers,
precursores que contribuíram
para o desenvolvimento batistas, congregacionais
dosdireitos humanos, como e presbiterianos ingleses
a Carta Magna inglesa (1215), (chamados não conformistas
a Declaração dos Direitos do ou dissenters) na abolição da

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Homem e do Cidadão francesa escravidão moderna e em defesa
(1789) e a Carta dos Direitos dos de direitos trabalhistas, assim
Estados Unidos (1791). como a liderança do Pr. Martin
Luther King Junior contra a
Depois do fim da Segunda segregação racial nos Estados
Guerra Mundial, que vitimou Unidos da América. Para que
milhões de pessoas, a esses direitos não ficassem
Organização das Nações somente no papel, foi importante
Unidas foi criada e elaborou o papel de ativistas para que tais
a Declaração Universal dos direitos fossem transformados
Direitos Humanos, em 1948. em políticas concretas. Promover
Desde então, os Estados a luta por direitos é um processo
Membros das Nações Unidas permanente de ampliação da
consciência de todos em nossas
comunidades e de mobilização
para que os direitos se realizem
de forma concreta.
Mas por que evangélicos devem ser
defensores de direitos humanos?

Em primeiro lugar, a Bíblia retrata o próprio Deus como um ativista de


direitos humanos, pois o Senhor defende aqueles que estão em situação
de vulnerabilidade social. O salmista afirma:

“Que faz justiça aos oprimidos e dá pão aos que têm fome.
O SENHOR liberta os encarcerados. O SENHOR abre os olhos aos
cegos, o SENHOR levanta os abatidos, o SENHOR ama os justos.
O SENHOR guarda o peregrino, ampara o órfão e a viúva,
porém transtorna o caminho dos ímpios.”
(Salmo 146.7-9)
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Em segundo lugar, o projeto libertador de Javé inclui a defesa de


direitos de seu povo contra a opressão no Egito. O êxodo nos mostra a
compaixão de Deus e o seu desejo de justiça e liberdade. A compaixão
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e a justiça são, com frequência, encontradas juntas nas ações e nos


mandamentos de Deus:

“Disse o Senhor: De fato tenho visto a opressão sobre o meu


povo no Egito, e também tenho escutado o seu clamor,
por causa dos seus feitores, e sei quanto eles estão sofrendo.
Por isso desci para livrá-lo das mãos dos egípcios e tirá-los daqui
para uma terra boa e vasta, onde manam leite e mel.”
(Êxodo 3.7,8)
Em terceiro lugar, na constituição das leis do Jubileu dadas por Deus para
o seu povo (Levítico 25.8-34), foram estabelecidos direitos que promov-
iam igualdade. Tais direitos prescritos buscavam evitar o acúmulo de ter-
ras e promover a redistribuição dos meios de produção a cada período
de tempo, bem como medidas econômicas que impediam a propagação
da indigência entre o povo de Deus e também entre os estrangeiros.
Em quarto lugar, porque defender os direitos da pessoa humana, espe-
cialmente dos injustiçados, testemunha que conhecemos o próprio Deus:
“Julgou a causa do aflito e do necessitado; por isso, tudo lhe ia
bem. Porventura, não é isso conhecer-me? — diz o SENHOR”.
(Jeremias 22.16).
Em quinto lugar, a defesa da justiça e da equidade é frequentemente in-
dicada como sendo o tipo de culto que Deus espera. Isaías aponta, por
exemplo, que o jejum que Deus aprecia é aquele que defende os mar-
ginalizados (Isaías 58.4-9). E ainda que o culto que agrada ao Senhor é
aprender a fazer o bem, buscar a justiça e lutar contra as opressões que
prejudicam os mais vulneráveis (Isaías 1.17).
Em último lugar, Jesus não apenas convivia com os mais pobres e opri-
midos, mas também se colocava ao lado deles. Enquanto a tradição fari-
saica dizia: “Afasta-te dos pobres, dos pecadores, porque são malditos”,
Cristo fez o contrário. Quando ele apresentou seu chamado, asseverou
que fora ungido por Deus para apregoar o ano do Jubileu:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para

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evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos
cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os
oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor”.
(Lucas 4.18,19)
Ao falar do “ano aceitável do Senhor” Jesus afirma não apenas que os
pobres são bem-vindos em seu Reino, mas também que parte de sua
missão era tomar partido em favor dos que sofrem qualquer tipo de

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opressão (inclusive social). Quem estivesse escutando Jesus naquele
tempo concluiria que isto representava criar uma sociedade justa, assim
como libertar as pessoas espiritualmente. Lutar pelo direitos dos pobres
e dos necessitados não é uma opção, mas faz parte da missão cristã de
“buscar o Reino de Deus e Sua JUSTIÇA”.

Como você compreende os Direitos Humanos?


PARA PENSAR

Por que necessitamos dos Direitos Humanos?


Por que os evangélicos devem ser defensores
dos Direitos Humanos?
Qual a relação de Jesus Cristo com os Direitos Humanos?
Como a Igreja pode se envolver com os Direitos Humanos?
O que a Bíblia fala
sobre democracia
“Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por
ela ao SENHOR; porque na sua paz vós tereis paz.”

Jeremias 29.7
Falar de cidadania é pensar na vida na cidade tendo a paz como maior
objetivo. A paz deve ser o padrão para que haja a cidadania e a de-
mocracia. Assuntos como a paz religiosa, social, econômica e civil são
bases para a vida cidadã. Para que haja a democracia algumas coisas
são muito importantes tais como: A possibilidade do protesto, a admis-
são da incompetência de quem detém o poder, a partilha do poder, a
eleição e as politicas públicas. Tanto a questão de cidadania quanto de
democracia são assuntos que podem ser ressaltados a partir da Bíblia
que é nossa base para a vida cristã no mundo.

CIDADANIA

Conforme leitura do livro do profeta Jeremias 29, o povo de Judá tinha


sido desterrado para a Babilônia e o Senhor, através do profeta, diz ao
povo para procurar a paz da cidade para que se possa viver em paz.
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Procurar exige envolvimento: começa com a oração pela cidade e conti-


nua com o envolvimento na administração da cidade, que é o que cham-
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amos de cidadania.

Que tipo de paz a cidade precisa ter para


que todos possam viver em paz?
Paz religiosa
Que todos possam viver de acordo com o que creem, e para expres-
sar o que quiserem não pode haver na cidade o que os líderes reli-
giosos de Jerusalém fizeram com os discípulos, impedindo-os de pre-
gar a mensagem do Senhor Jesus e castigando-os por causa disso,
como diz Atos 5.17- 41. O que não queremos para nós, não queremos
para ninguém.

Paz social
Que todos tenham condições dignas de vida, como disse Jesus
em Mateus 25.31-45:

Tive fome - Todos têm de ter acesso à alimentação saudável, o que se


chama de segurança alimentar e nutricional. É direito de todos.
Tive sede — Todos têm de ter acesso a água potável, gratuita-
mente, e para isso tem de haver tratamento de esgoto, saneamen-
to básico e preservação dos mananciais.

Era forasteiro — Todos precisam ser respeitados em seus direitos


humanos, isto é, ninguém pode ser excluído ou sofrer racismo ou
qualquer tipo de preconceito, porque temos de acolher e proteger
a todos.

Estava nu — Todo mundo tem de ter garantidas as condições de


livrar-se das fragilidades naturais que possam lhe impedir de viver
plenamente. Quem está nu está desprovido das condições de viv-
er por não ter acesso ao emprego com salário que garanta poder
de compra, não ter acesso a transporte para se locomover ao tra-
balho e ao lazer, não ter acesso à educação que lhe permita apri-
morar-se para participar melhor da vida e da sociedade, não ter
acesso à moradia que abrigue com dignidade a si e à sua família;
isto também contempla os portadores de necessidades especiais.

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Estava enfermo e me visitastes — É preciso garantir a assistência
médica, hospitalar e medicamentosa para todos. Todos têm de ser
socorridos, atendidos e tratados com igual cuidado, isto é, provi-
denciar um sistema único e universal de saúde.

Estive preso e fostes ver-me — Prisões têm de ser lugares de


recuperação do ser humano. O crime tem de ser combatido, em

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primeiro lugar, pela criação de ambiente que privilegie a justiça, o
cuidado, a educação e a segurança socioeconômica, que, portan-
to, dificulte o estabelecimento da atividade criminosa. A justiça tem
de ser ágil e gratuita, não pode haver impunidade, mas o sistema
tem de ser de educação não de vingança.

Paz econômica
Em 1 Coríntios 9.9,10 está escrito que o boi que debulha o trigo não
pode ter a boca atada, assim era determinado pela lei mosaica. O
trabalhador tem de ser o primeiro a desfrutar do resultado de seu
trabalho, isto é, o trabalhador tem de receber um salário justo, que
lhe permita acesso aos bens necessários, e tem de participar do
lucro da empresa.

Em Isaías 5.8, ninguém pode acumular casa e terra até ser o único
morador do lugar, por isso o direito à propriedade tem de ser con-
tido, não pode ser exercido em prejuízo ao direito à moradia, e não
pode ser praticado em prejuízo à produção de alimentos, que são,
geralmente, cultivados em pequenas propriedades, pelo pequeno ag-
ricultor e pela agricultura familiar.

Na Carta aos Efésios 4.28 o trabalho deve ter fim social: acudir o ne-
cessitado. O trabalho tem de ser estruturado de maneira que promova
um sistema de seguridade social para todos, para que os velhos e as
crianças possam, em paz, usar as praças e nelas brincar (Zacarias 8.4-
5). Isso significa seguridade social para os idosos e rede de proteção
social para as crianças.

Paz civil
Em Lucas, o profeta João disse aos soldados que a ninguém deve-
riam maltratar (3.14), ou seja, o cidadão não pode ser tratado como
inimigo do Estado, ou agredido injustamente, como Jesus protestou
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ao soldado que servia a Anás e que o esbofeteou (João 18.22,23). O


cidadão tem de ser respeitado em seus direitos, como Paulo os exigiu,
conforme Atos 22.25-29 e em Atos 16.35-40.
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Democracia
Procurar pela paz na cidade é interceder e praticar a cidadania.
Isso começa por fortalecer ou procurar implantar a democracia.
Um governo onde, por vontade de Deus, a autoridade é o povo
e só em nome do povo o governo possa ser exercido. Essa demo-
cracia tem de ter como vocação o estabelecimento do princípio
do direito. Isso, também, é missão da Igreja.

Um exemplo da aplicação do princípio do direito, tão caro à democra-


cia, está no livro de Atos dos Apóstolos (6.1-6). O número de discípulos
tinha crescido muito, e as viúvas helênicas estavam sendo esquecidas.
Os apóstolos foram chamados para resolver o problema e, disto, resul-
tou a eleição dos diáconos, sendo resolvido democraticamente.

O protesto
As viúvas helênicas estavam sendo esquecidas, e protestaram.
A democracia começa no protesto do povo, uma vez que é o governo
do povo, para o povo, a partir do povo.
Por que as mulheres puderam protestar, numa época em que sequer
eram ouvidas na sociedade? Porque a igreja primitiva tinha o direito
como princípio de ação: se o irmão tinha necessidade, a comunidade
tinha um dever (Atos 2.45). Os apóstolos pararam diante do direito. O
direito tem de ser garantido ou protestado.

A admissão da incompetência
Os apóstolos reconheceram que não davam conta de cuidar das me-
sas, da oração e da ministração da palavra. E que, portanto, eram in-
competentes para fazer tudo o que tinham de realizar como líderes da
igreja. Admitiram que precisavam de ajuda.

A democracia se sustenta na verdade de que não há ninguém que,


sozinho, dê conta de liderar uma sociedade complexa. Jetro, por ex-
emplo, fez o mesmo com Moisés, fazendo-o ver a sua incompetência
e a necessidade que tinha de ajuda. Administrar a sociedade é um

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trabalho coletivo.

A eleição
Os apóstolos reconheceram que os prejudicados deveriam ter o seu
problema resolvido pela participação no governo da Igreja, o que faria
por meio de diáconos, que eles livremente elegeriam.

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Os apóstolos reconheceram que a vontade de Deus passaria pela
liberdade do povo de eleger os seus representantes, para garantir a
igualdade social.

O padrão
Os apóstolos apresentaram um padrão para os que poderiam ser
eleitos: gente que pudesse, de fato, representar o povo em sua ne-
cessidade de igualdade social. Pela plenitude do Espírito Santo, eles
deveriam ser movidos pelo espírito público, sem ter outro foco que
não o alcance da paz social numa sociedade que estava correndo o
risco de se dividir. Essa paz social só poderia ser, portanto, estabeleci-
da pela distribuição igualitária dos bens. Esse deveria ser o comprom-
isso dos representantes, fruto da ideia consagrada, por todos, de que
sem que o direito seja satisfeito, nenhuma sociedade pode alcançar
a paz social.
A partilha do poder
Os apóstolos reconheceram o resultado das eleições, e, orando, im-
puseram-lhes as mãos, partilhando o poder. Daquele dia em diante
teriam de repartir as decisões com os diáconos, que seriam os por-
ta-vozes do povo, apresentando a necessidade do povo para que o
direito lhe fosse garantido.

Para além do controle de Deus, os apóstolos, também, estariam sob


controle social. E Deus, que no Antigo Testamento, por meio da Lei
e dos juízes estabelecidos por conselho de Jetro, tirou de Moisés o
poder absoluto, no Novo Testamento, por meio do estabelecimento
do princípio do direito, pelo protagonismo do povo, pelo estabeleci-
mento da lógica da eleição e pela consequente escolha dos diáconos,
tirou dos apóstolos o poder absoluto, e os fez devedores ao povo.

Este é o cerne da democracia: o estado é devedor ao povo, e a função


do governo é fazer o estado cumprir esse papel, para que o produto
de todos seja distribuído a todos.
Políticas públicas
A partir da escolha dos diáconos métodos certamente foram imple-
mentados para que ninguém fosse esquecido. A estes métodos de
distribuir os recursos com o fim de promover a igualdade, chamamos
de políticas públicas. É por meio delas que se realiza o direito.

Estas políticas são estabelecidas como resultado de leis que estabele-


cem os direitos a partir do princípio da igualdade, que é estabelecido
por Deus, a Trindade, que declara que todos são iguais perante Ele.
Se todos são iguais perante Deus, todos têm de ter acesso a tudo que
Deus é e a tudo o que Deus doa. A isso chamamos de Justiça! A Bíblia
nos mostra que a democracia foi iniciada na igreja.. Toda cidadania se
baseia no Direito. Direito á vida com dignidade.

A Bíblia e Direitos
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Como você pode se envolver com a paz na cidade?
Seguindo o ensino de Jesus em Mateus 25. 31- 45, qual
deve ser sua ação para que as pessoas tenham melhores
condições de vida?
Quais foram as características da igreja primitiva que nos
PARA PENSAR

ensinam sobre democracia?


Qual a missão da igreja na democracia? O que você pode
fazer para contribuir com essa missão?
O que a igreja pode fazer para manter a democracia na
cidade?
O que a Bíblia fala
sobre violência
“Disse o Senhor: o que você fez? Escute!
Da terra o sangue de teu irmão está clamando.”
Genesis 4.10
Estamos vivendo há muitos anos uma situação de violência que parece
ter os jovens negros como seu alvo principal. Chamamos de “genocídio
da juventude negra” por vermos tantas mortes de jovens neste país, so-
bretudo, das favelas e periferias das grandes cidades. Obviamente, as
características destes jovens sempre têm a ver com aspectos físicos. São
jovens pretos e pardos (segundo a classificação do IBGE) quem sofrem
mais a violência, seja porque experimentam a violência em suas comu-
nidades ou, e principalmente, quando são executados por policiais ou
ex-policiais, além dos chamados milicianos. Não importa a situação, nem
de onde vêm os tiros, as torturas e mortes, sempre são os negros aqueles
que mais aumentam as estatísticas de jovens mortos a cada ano no Brasil.

O último Mapa da Violência 2016 escrito por Julio Jacobo Waiselfsz res-
saltou que, enquanto jovens brancos mortos por arma de fogo teria di-
minuído 14,6%, o percentual de negros aumentou consideravelmente:
18,2%. Em alguns estados, como Alagoas, chega à taxa de 75 jovens pre-
tos por 100 homicídios. Outro documento, o Atlas da Violência 2017, do
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IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), mostra que o assassina-


to de jovens masculinos entre 15 e 29 anos é de 47,9%. Jáo mesmo Atlas
em 2018 continua a evidenciar a violência contra jovens negros. Pois, a
análise do documento mostra que em uma década de 2006-2016 a taxa
A Bíblia e Direitos

de homicídios de negros cresceu 23,1%, enquanto no mesmo período,


diminui consideravelmente os homicídios de jovens brancos, 6,8%.

Segundo o balanço do IPEA, a chance de jovens negros serem assassi-


nados aos 21 anos por arma letal, sobretudo por ações policiais, é 147%
maior que a de jovens de outras etnias. Estes números dão a noção de
que ser jovem negro no Brasil tem sido, desde a escravidão, um grande
risco. Viver como jovem negro no Brasil é resistir a cada momento, é ter
a possibilidade de ser alvo da ira, do despreparo, da violência constante,
que tem como base o racismo que reina nas estruturas desta nação.

Sou responsável pelo meu irmão?


A Bíblia tem diversos textos que podem ajudar a nos manter alertas con-
tra a violência e o genocídio da juventude negra brasileira. Já no livro de
Gênesis temos um texto fortíssimo que dá aos crentes razões para dis-
cordarem de quem pratica a violência. Também nos ajuda a ver que não
se pode direcionar a violência, mortes e execuções contra uma parcela
específica da sociedade, como tem acontecido no Brasil.

Disse Caim a Abel, seu irmão: Vamos ao campo. Estando eles no campo,
sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou. Disse
o SENHOR a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei;
acaso, sou eu tutor de meu irmão? E disse Deus: Que fizeste? A voz do
sangue de teu irmão clama da terra a mim. (Genesis 4.8-10)

O texto é uma citação do primeiro homicídio da história humana. Aqui es-


tamos trabalhando a primeira parte do incidente. Caim conduz seu irmão
ao campo e ali, de maneira traiçoeira e covarde, mata-o. No desenrolar do
texto bíblico, vemos um diálogo revelador entre Caim e Deus.

Deus inquiriu Caim sobre a localização de seu irmão. Deus deseja saber:
“Onde está Abel?”. Como pode ser isto? Um Deus que é onisciente, ou
seja, que sabe de todas as coisas, como não poderia saber onde ele es-
tava ou o que tinha acontecido com Abel? Obviamente, Deus não tinha
perdido nenhum dos seus poderes ou deixado alguma de suas carac-
terísticas naturais. O que o texto sugere é que Deus deseja fazer com
que Caim perceba que o que ele tinha feito era tão catastrófico que havia
causado estranheza no próprio Deus. Sim, porque matar um irmão causa
repúdio a todo o universo e atinge a Deus. Caim, por sua vez, demonstra

A Bíblia e Direitos
total indiferença em relação ao seu irmão.

O que mais salta aos olhos neste texto é a reação de Deus e sua reve-
lação surpreendente. Deus pede que Caim escute com atenção, pois o
sangue de Abel estava clamando da terra. Isso deveria nos deixar estu-
pefatos: o sangue dos oprimidos clama diante de Deus!

Quando penso nesse texto e nessa expressão em particular, “A voz do

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sangue de teu irmão clama da terra a mim”, pensamos no que a socie-
dade não pode esquecer os quase 400 anos de escravidão no Brasil.
Imagine a quantidade de sangue derramado nesta nação. Sangue de ne-
gros e negras que foram escravizados, castigados e violentados, tudo
isso para suprir uma economia perversa que favorecia os poderosos da
época. Quanto sangue derramado nas fazendas, nas grandes cidades,
para manutenção de um status quo que tinha escravos e escravas como
motores? Quantas mulheres violentadas para satisfazer homens violen-
tos, incapazes da conquista feminina? Quantas crianças, que sem esper-
ança, foram amordaçadas em suas fantasias e sonhos, agredidas e sepa-
radas de seus pais?

O que podemos intuir do texto bíblico é que Deus está ouvindo o clamor
do sangue que foi derramado nesta nação durante séculos. Deus ouve
hoje o grito do sangue dos jovens pretos, entre 16 e 29 anos, seja nas
favelas ou no asfalto, que estão na mira constante de um fuzil por te-
rem nascido com a pele mais escura. Ou de jovens que tem entrado na
vida do crime por não terem estrutura social, familiar e educacional capaz
de evitar que cometam crimes, sendo assim vítimas da violência tanto
do narcotráfico quando do estado, através de ações policiais, muitas
vezes truculentas.

Podemos aprender neste texto que o Senhor Deus nos responsabiliza a


todos nós e a igreja em relação ao genocídio que acomete a juventude
negra no Brasil. Deus diz a todos nós hoje: “Escutem”. Sim, como disse
para Caim, diz às sociedades, governos, políticos, religiosos, pessoas
sem religião, homens e mulheres nos dias de hoje: ‘Escutem o clamor
do sangue dos oprimidos, dos escravizados, dos vendidos como coisa...
Escutem o clamor daqueles que morreram no passado por causa da mal-
dade dos homens que detinham o poder. Sim, vocês são os responsáveis.
Não adianta serem indiferentes dizendo: Não sabemos onde eles estão’.

Cabe aos evangélicos, os que professam a fé no Jesus Cristo de Nazaré,


reverem suas posturas. A igreja não pode ficar omissa diante da barbárie
que tem se alastrado em todas as cidades do Brasil. Os jovens negros,
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sobretudo, saem nas ruas com receio de serem interpelados por autori-
dades que deveriam protegê-los. Os que moram em comunidades mais
empobrecidas e marginalizadas dizem que sair de suas casas é um ato
A Bíblia e Direitos

de risco, já que não podem ter certeza absoluta se voltarão. Não porque
sabem que algo ruim vai acontecer, mas porque se sentem como alvos
preferenciais da violência e da maldade.

A graça de Deus alcança a todos


O texto mostra também que Caim, o assassino, continua a manter diálogo
com Deus. Em nenhum momento ele confessa o seu delito, mas o Senhor
já sabia que, inclusive, ele jamais o faria. Deus lança sobre ele o juízo,
dizendo que a terra que ele manchou com o sangue de seu irmão já não
mais o atenderia como antes. Além disso, ele viveria fugitivo. Talvez sem-
pre procurando um lugar onde a terra o respondesse. Mas ele não tinha
ideia de que havia ferido toda a terra com sua violência opressora. Quan-
do alguém mata os jovens pretos deste país ele fere toda a terra. Destrói
toda uma geração. Age com hostilidade para com Deus. Foi assim com
Caim. Ele agiu de maneira autônoma e foi hostil a Deus. Os assassinos
dos jovens pretos do Brasil agem com autonomia e são completamente
hostis. Deus lança sobre eles o juízo.

Mas, o mesmo Deus que lança o seu juízo é um Deus gracioso. Caim
demonstrou remorso, não arrependimento. Estava pensando em si mes-
mo ao dizer: “É tamanho o meu castigo, que já não posso suportá-lo. Eis
que hoje me lanças da face da terra, e da tua presença hei de escond-
er-me; serei fugitivo e errante pela terra; quem comigo se encontrar me
matará”. Era a constatação a que chegava. Pela compreensão de sua épo-
ca tinha certeza de que isso era mesmo justo. Mas ao mesmo tempo per-
cebe-se um pedido de ajuda. Mesmo que estivesse pensando somente
em si mesmo. Então, o Deus que é cheio de misericórdia, resolve marcar
aquele homem como alguém que mereceria morrer, mas por causa do
Seu amor, viveria para ser lembrado como alguém que fora atingido pela
graça e misericórdia do Senhor de toda a história.

A igreja precisa ter a consciência da necessidade de demonstrar graça


e misericórdia mesmo para com aqueles que estão errantes pelo mun-
do por terem sido opressores e malditos. À igreja cabe ser um lugar de
gente que pergunta constantemente aos que matam a juventude negra:
“onde está o teu irmão?” Sim, devemos perguntar às autoridades, buscar
diligentemente que a justiça seja cumprida no Brasil. Mas à igreja cabe
também a função de manifestar misericórdia aos que praticam tais atroci-
dades. Após pagarem por todos os atos cometidos, a igreja pode mostrar
o mesmo que o Senhor demonstrou àquele primeiro homicida: amor.

Como a igreja pode ser um instrumento para


diminuir a violência na cidade?
Como a igreja pode se envolver na desconstrução do dogma
social maldito de que os jovens negros, simplesmente por
serem negros, são, de antemão, culpados ou bandidos?
Como a igreja pode conscientizar a sociedade
sobre o racismo institucional?
PARA PENSAR

Como a igreja pode ler a Bíblia para que isso seja parte da
luta constante contra todo tipo de violência e falta
de liberdade?
O que a igreja pode fazer para ajuda a cidade
no combate a violência?
26 A Bíblia e Direitos
O que a Bíblia fala
sobre o direito a

A Bíblia e Direitos
saúde para todos
"Os sãos não precisam de médicos, e sim os doente."

27
Marcos 2.17
Muitas vezes ouvimos entre evangélicos a pergunta: “O que o evangel-
ho tem a ver com isso?” tem a ver, pois saúde abordada amplamente na
Bíblia, nos seus mais diferentes aspectos. E isso precisa ser relacionado
com o Evangelho que seguimos.

O reconhecimento da Saúde como um direito das pessoas, e não um


privilégio de quem possa pagar para ser assistido é algo muito recente
na história humana. Por isso necessita do apoio de outras reflexões,
como alguns temas abordados nesta revista. Eles nos ajudam a com-
preender as lutas e vitórias ocorridas ao longo dos tempos, para que
haja, além do reconhecimento, o cumprimento efetivo deste direito em
cada sociedade, inclusive no Brasil.
De qual saúde como direito
estamos falando?
Quando os noticiários falam sobre este assunto, principalmente quando
28

envolvem epidemias que oferecem riscos em escala mundial, como a


do Ebola, as disseminações do vírus do HIV/Aids, da Zika, de evidente
interesse da saúde global, costumam lembrar a opinião da Organização
A Bíblia e Direitos

Mundial de Saúde (OMS). Desde 1946 a OMS construiu um entendimen-


to sobre o que é saúde, que até hoje serve como referência para todos
os países membros da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual
o Brasil faz parte.

Estar com saúde é uma condição que vai muito além da ausência de
alguma enfermidade, porque significa, também, ter acesso e usufruir
um estado de bem-estar físico, mental e social completo. Se estamos
desnutridos, muito desgastados pela falta de descanso, exauridos pelas
longas horas no transporte até o trabalho, desempregados ou tensos
pelos riscos e ameaças constantes à nossa segurança física e da nossa
família, por exemplo, está faltando saúde, no seu sentido mais completo.

O que a Bíblia diz a respeito


do tema Saúde?
Os que creem sabem a diferença que faz ter fé (confiança inabalável)
no Deus Fiel, Protetor e Provedor (Genesis 22.13,14) e, diante de tais
circunstâncias, vivenciar a força desta fé viva e amorosa, amparando
as suas práticas (Tiago 2.15-26; Romanos 2.6). O relacionamento de-
terminante da fé com as obras praticadas movimenta a ajuda solidária
como prova do temor (amor reverente, voluntariamente obediente) ao
Senhor e extensivo ao nosso próximo (Jeremias 32.38-40).

Desde socorrer na rua a levar ao hospital, chamar a ambulância, ajudar


a comprar o remédio, apoiar alguém a lutar na justiça para obter a vaga
no CTI, cuidar dos filhos enquanto a vizinha está na Enfermaria, acom-
panhar até a Emergência mais próxima, visitar na Unidade Psiquiátrica,
levar para vacinar contra a gripe ou na consulta do pré-natal, podemos
citar exemplos que demonstram as nossas iniciativas individuais ou co-
letivas, dentre milhares de outras formas de praticar a justiça de Deus, a
sua Vontade, a sua Palavra.

Estes exemplos demonstram, ainda, como o papel do Estado faz par-


te das obras humanamente construídas, evidenciam as providências
humanas e divinas, e nos permitem glorificar a Deus pelas conquistas
destes acessos e usufrutos como direitos básicos da pessoa humana, a
quem Ele ama de forma incomparável.
A analogia que Jesus fez para repreender o farisaísmo preconceituoso
dos mestres da lei, em Marcos 2.17 — “Os sãos não precisam de médico,
e sim os doentes.” —, quando estava almoçando com “pecadores” (co-
bradores de impostos, mentirosos, enganadores, pessoas de má repu-
tação), nos ajuda a compreender profundamente o conceito ampliado
de saúde. Incluindo a saúde espiritual, pela evidente falta de amor da
postura legalista, assim como a sua universalidade – ao incluir todos os
doentes.

O objetivo deste conceito é que o ser humano possa ter acesso ao


melhor estado de saúde que seja possível atingir em uma dada socie-
dade, sem distinção de raça, gênero, religião, credo político, condição
econômica ou social. O grande desafio é como atingir socialmente este
completo estado de bem-estar, com tantas formas da iniquidade social,
na contramão da justiça de Deus, pressionando a saúde mental e física
das pessoas.

Os textos bíblicos de Romanos 3.21-30 e Romanos 14.1-13 nos ensinam,


respectivamente, sobre a universalidade do pecado, mas também da
Graça de Deus. Explicam, claramente, a quem pertencem todas as pes-
soas e quem é o Único Juiz.
A saúde é para todos, sem
acepção alguma
É importante conjugar todos os esforços da sociedade para a redução
das desigualdades sociais, visando a melhoria das condições de trans-
porte, educação, trabalho, lazer, segurança, serviços de saúde, comuni-
cação, preservação das liberdades democráticas, dentre outros, inclu-
indo a participação consciente das pessoas, para a produção da saúde
que necessitamos.

Os movimentos sociais que atuam em prol da dignidade humana defen-


dem a saúde como um direito de todos, ou seja, o efetivo funcionamen-
to dos sistemas universais e públicos de saúde, porque eles são fruto
da construção de uma sociedade democrática, por meio de políticas
públicas, com o objetivo de desenvolver o bem-estar social. Igrejas, gru-
pos e diversos movimentos, incluindo os evangélicos, participam das

A Bíblia e Direitos
reivindicações e implantações destas políticas como parceiras ou mobi-
lizadoras da redução das desigualdades em saúde.

A Constituição Federal de 1988, chamada de Constituição Cidadã, con-


quistada após o fim do ditadura militar (1964-1985), assumiu em nome
da nação a preocupação e o dever de preservar a vida de todos os
brasileiros. Foram incorporados em seu texto diversos direitos sociais
básicos, mas a saúde e a educação (artigos 196 a 200; 205, respecti-

31
vamente) conseguiram ser descritos também como deveres do Estado
brasileiro, do nível municipal ao federal, em todo o país.

Os deputados constituintes que lutavam para representar as ideias de


mudança social e da saúde, um movimento de muitos segmentos da
sociedade construído desde os anos 1970, defenderam o Sistema Úni-
co de Saúde (SUS). Buscavam deixar claro tanto a diferença como as
consequências individuais e coletivas entre duas propostas: a) saúde
como um direito social ou b) saúde como uma mercadoria (oferecida
pelo mercado prestador de serviços, como outros bens que se possa
vender e comprar).

Depois de muita discussão e negociação prevaleceram a importância


do fortalecimento do setor público e a condição de que o setor priva-
do de saúde atuaria como “setor complementar ao setor público” na
produção dos deveres do Estado, controlado pelas normas do Direito
Público.
Todos os brasileiros passaram a ter o direito de usar todos os serviços
públicos de saúde, e não só os que possuíssem a carteira de trabalho
assinada. Este sistema público universal é único, dentre os países com
mais de 200 milhões de habitantes no mundo.

Por incrível que pareça, todo mundo usa o SUS, de um jeito ou de out-
ro. Se considerarmos os transplantes, as vacinas, as transfusões de
sangue, os testes para diagnóstico de diversas doenças, as grandes
emergências, pesquisas biomédicas, vigilância sanitária (de serviços
e bens - medicamentos, restaurantes, feiras, hospitais, academias, es-
cola), ambiental (contaminantes químicos, dos desastres, qualidade da
água), epidemiológica (epidemias, notificação das doenças, relação
com as iniquidades sociais), e saúde do trabalhador (proteção e recu-
peração, diminuição dos acidentes); ensino e produção do conhecimen-
to especializado em saúde pública, educação em saúde, dentre outros
serviços. E todos ajudam a sustentá-lo pelos mais diversos impostos.

A rede do SUS é complexa, mas apesar das dificuldades, promove aten-


dimento multiprofissional (para além do médico) nos diversos níveis as-
sistenciais. Construiu e executa o exitoso programa de vigilância, pre-
venção e controle das infecções sexualmente transmissíveis, do HIV/
Aids e hepatites virais.

Ao contrário do que as insistentes notícias proclamam sobre os custos


da rede, o SUS gastou em 2014 para atender os 75% da população que
não possuem planos ou seguros privados apenas 46% do gasto total
em com as despesas de saúde do orçamento público. Enquanto o setor
privado, para atender a 25% da população, gastou 54% do gasto total
em saúde no país.

Apesar dos imensos problemas de acesso e de funcionamento, é pos-


sível fazer a defesa do SUS e apostar na reformulação do modelo pú-
blico, acreditar na luta pela saúde como um direito de e evitar que o
sistema de serviço público e gratuito seja extinto. Como filhos de Deus,
cujo amor por nós não poupou Seu próprio Filho (João 3.16); cujo trono
tem a justiça e o direito como bases e o amor e a fidelidade precedem a

A Bíblia e Direitos
sua passagem (Salmo 89.14); que ama o direito e odeia a iniquidade (He-
breus 1.8,9); cuja maior marca de identidade de seus discípulos, apon-
tada por Jesus, seria o amor que tivéssemos uns pelos outros (João
13.35), podemos perceber que a saúde como um direito de todos tem
no Evangelho um grande fundamento, e pode ter nos evangélicos sin-
ceros grandes aliados para a sua construção e efetivação, na defesa da
vida humana com dignidade.

33
Há postos de saúde no seu bairro?
Quando que a saúde se tornou direito de todos sem
distinção? O que você acha disso?
PARA PENSAR

Como a igreja pode se envolver com nesse tema e ajudar


na luta por melhores serviços de saúde?
Qual a relação entre o Evangelho e a saúde para todos?
Como você pode participar para melhorar a
saúde de sua cidade?
34 A Bíblia e Direitos
O que a Bíblia fala
sobre o direito a

A Bíblia e Direitos
Terra e Moradia
"Também a terra não se venderá em perpetuidade,

35
porque a terra é minha; pois vós sois para mim
estrangeiros e peregrinos."

Levítico 25.23
A conquista da
terra no Brasil

O Brasil é um país de latifundiários e exploradores. Aliás, desde o início


foi assim. Nosso país não nasceu como nação, mas como um negócio
de latifúndio. Os portugueses chegaram ao Brasil em suas caravelas
e invadiram a terra para explorar nossas riquezas. Exploraram o ouro,
a madeira e outras riquezas. O Brasil nasceu em meio à exploração,
violência e usurpação da terra. Uma expedição de conquista para ben-
eficiar o primeiro latifundiário, o rei de Portugal. Com a histórica invasão
de 1500, a terra e todas as suas riquezas naturais passaram a pertencer
à coroa portuguesa. Assim nasce o Brasil.

A história do Brasil teve sua continuidade marcada por conflitos e ex-


ploração da terra. As posses sempre foram motivadas pela ganância,
36

domínio e lucro. Assim foi no Pará, na extração da madeira e mineração


do ouro; na Amazônia, por seus rios e florestas, ricos em diversidade;
no nordeste, sul e sudeste, por suas terras férteis na implantação de
A Bíblia e Direitos

sistemas agropecuários. Os latifundiários tomaram a terra e a demarcar-


am em grandes hectares em detrimento de milhões de pessoas pobres,
que na história de um Brasil rico em terras, vivem sem um palmo de
chão para morar e trabalhar.

Séculos se passaram e os latifundiários ainda detêm a posse da terra.


Segundo uma pesquisa realizada pelo CNPq/USP, “Atlas da terra no Bra-
sil”, 175,9 milhões de hectares eram improdutivos no Brasil em 2015. Um
dado preocupante e que gera em nós indignação, já que uma minoria
detém o domínio da terra em detrimento de milhões de pessoas sem
teto e sem terra. O jornalista Igor Felipe faz uma relevante observação:

“130 mil proprietários de terras concentram 318


milhões de hectares. Em 2003, eram 112 mil
proprietários com 215 milhões de hectares.
Mais de 100 milhões de hectares passaram para o
controle de latifundiários, que possuem em média
mais de 2.400 hectares. Ou seja, existem mais
latifúndios no Brasil. E estão mais improdutivos."1
1
Fonte: https://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/plenos-poderes/katia-abreu-mais-
de-100-milhoes-de-hectares-passaram-para-o-controle-de-latifundiarios-desde-2003/
Direito a terra e
moradia na Bíblia
O que a Bíblia tem a nos dizer sobre a ex-
ploração latifundiária, o direito a terra e à
moradia? Muita coisa. Para Deus, o latifúndio
causa injustiça e não tem legitimidade. “Tam-
bém a terra não se venderá em perpetuidade,
porque a terra é minha; pois vós sois para mim
estrangeiros e peregrinos.” (Levítico 25.23).
Explorar nosso irmão que tem sua base de
subsistência na terra é contra a justiça de Deus
(Levítico 25.15-17). Ocupar a terra é um direito
dado por Deus (Deuteronômio 2.31). Aos po-
bres é garantido o direito a terra e à moradia
(Levítico 25.24-28).

A terra não é um meio de dominação e ex-


ploração, onde os que compram indevida-
mente passam a oprimir os que não a tem. A
terra não foi emprestada por Deus à humani-
dade para servir como um meio de dominação
e poder, nem pode ser usada como instrumen-
to de produção agrícola para o enriquecimento
de uma minoria. A proposta bíblica para os que
se assentam na terra é para a partilha comu-
nitária e igualitária, sem que gere pobreza e
vantagens sobre o outro. A terra é de todos, o
que é semeado e cultivado pertence a todos,
sem pressupostos pautados no capitalismo e
sem as intenções maléficas do sistema ruralis-
ta de mercado.
A partilha da terra como
bem para todos
Partilhar é o contrário de acumular. Aliás, não se
pode tomar para si o que não nos pertence, pois
Deus é o único dono da terra. (Levítico 25.23).
Deus diz que a terra e tudo o que nela é cultiva-
do deve ser partilhado. Por isso o latifúndio é
um sistema contrário aos preceitos bíblicos, pois sua intenção é acumular.
Deus é contra o latifúndio porque este é um dos fatores mais graves para
o aumento da pobreza. Quem não tem terra não planta, não colhe, não
tem moradia. Quem não tem terra é pobre. Por esta razão o evangelho
de Jesus de Nazaré é partilha, é comunidade, amor e libertação. Ajuntar
tesouros no céu nada mais é que partilhar, na liberdade de não desejar
acumular aqui. Este pronunciamento de Jesus no Sermão do Monte é
forte e desafiador:

“Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça
e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai
para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem
corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque,
onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”
(Mateus 6.19-21)

AJUNTAR TESOUROS NO CÉU É PARTILHAR EM COMUNIDADE.

O direito à moradia é de todos


Todo ser humano tem direito à moradia. Este direito básico tem sido
violado de maneira tão intensa, que o resultado se dá pelo aumento
expressivo de milhões de sem teto espalhados pelo Brasil. Essa infor-
mação da pesquisadora Marcela Reis nos dá uma clareza quanto à situ-
ação dos sem teto em nosso país:

“De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e


Estatística (IBGE) de 2012, existem cerca de 1,8 milhão de moradores/
as de rua em todo o território brasileiro, o que representa cerca de
0,6% a 1% da população. Em quatro anos, o número de pessoas
nessa situação aumentou 10%. Já na cidade de São Paulo, segundo o
censo do IBGE de 2015, quase 16 mil pessoas estão em situação de
rua, sendo que oito mil, atualmente, estão acolhidos/as. A pesquisa
na capital paulista mostra que 82% da população de rua é composta
por homens, sendo 36% entre 31 e 49 anos.”2

2
Fonte: https://observatoriosc.wordpress.com/2016/03/24/numero-de-pessoas-em-situa-
cao-de-rua-so-cresce-no-brasil/
QUE A NOSSA VOZ SEJA UM BRADO DE JUSTIÇA E LIBERTAÇÃO,
QUE NOSSOS PÉS POSSAM CAMINHAR AO LADO
DOS SEM TERRA E SEM TETO.

Como povo de Deus qual tem sido a nossa postura em


relação aos que não tem terra?
O que a Bíblia ensina sobre aqueles que acumulam terras?
Em sua opinião qual é a realidade da terra no Brasil?
Como a igreja deve se envolver para ajudar na partilha
da terra e moradia?
Como a igreja deve se posicionar contra os senhores do
negócio imobiliário nos centros urbanos?
O que você acha dos políticos ruralistas que exploram
e detém o poder nas áreas indígenas e quilombolas?
O que a igreja deve fazer contra este problema?
Como povo de Deus qual tem sido a nossa postura
em relação aos que não tem terra?
O que a Bíblia ensina sobre aqueles que acumulam terras?
Em sua opinião qual é a realidade da terra no Brasil?
Como a igreja deve se envolver para ajudar na partilha
PARA PENSAR

da terra e moradia?
Como a igreja deve se posicionar contra os senhores do
negócio imobiliário nos centros urbanos?
O que você acha dos políticos ruralistas que exploram e
detém o poder nas áreas indígenas e quilombolas?
O que a igreja deve fazer contra este problema?
O que a Bíblia fala
sobre a dignidade
da mulher
"Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos:
Eu vi o Senhor. E contou o que ele lhe dissera."

João 2.18
Um olhar sobre a condição
da mulher no Brasil

Em boa parte das famílias brasileiras são as mulheres, as mães, que têm
a responsabilidade pelo sustento dos filhos e da casa. De acordo com a
pesquisa Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, feita pelo Insti-
tuto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o número de lares chefia-
dos por mulheres saltou de 23% para 40% entre 1995 e 2015. São elas,
também, que além de trabalhar, possuem a tarefa de cuidar, de educar,
de garantir que tudo funcione bem na casa. É curioso perceber isso: ao
mesmo tempo em que as mulheres são obrigadas a governar em suas
casas e famílias não vemos a maioria das mulheres liderando empresas,
igrejas ou processos políticos.

Para piorar a situação, as mulheres ganham menos que os homens. Uma


42

projeção feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)


aponta que mulheres recebem, em média, 74,5% do rendimento dos
A Bíblia e Direitos

homens pelo mesmo trabalho (Pnad 2014). Se a mulher for negra, ganha
cerca de 15% a menos que uma mulher branca. A mulher negra ganha 60%
do rendimento de um homem branco. E a situação pode se agravar ainda
mais: mulheres são mortas por seus maridos, companheiros ou namora-
dos. São mortes denominadas de feminicídios, em que o motivo principal
é a condição de ser mulher, em que quase sempre a outra pessoa, o
criminoso, determina que a vítima seja considerada sua propriedade ou
que não tem o direito de fazer suas próprias escolhas. São crimes de ódio
motivado pela condição de gênero. Somente em 2017 foram registrados
946 feminicídios no Brasil, dos 4.476 homicídios de mulheres.

Até para dar à luz algumas mulheres sofrem. É a chamada violência ob-
stétrica. São médicos, enfermeiros e profissionais de saúde que fazem
piadas jocosas quando as mulheres estão em trabalho de parto, exigindo
que não gritem, ou não manifestem desconforto. São mulheres que não
são respeitadas na manifestação de suas dores, sendo expostas em um
momento que deveria ser de tranquilidade, para fortalecer o vínculo com
a criança que nasce. Embora muitas mulheres não estejam familiarizadas
com o assunto, muitas já foram vítimas desse tipo de agressão, que pode
ser física ou verbal, tanto durante o parto quanto no pré-natal. São xin-
gamentos, recusa de atendimento, realização de intervenção e proced-
imentos médicos não necessários, deixam mulheres falar, mulheres
como exame de toque a todo in- que foram abandonadas por seus
stante, episiotomias ou cesáreas maridos, mulheres que criam os
desnecessárias. filhos sem a referência masculina,
mulheres que não podem admin-
Outra violência que produz mar-
istrar o próprio salário, mulheres
cas profundas nas mulheres é a
que não tem com quem deixar os
violência sexual. É a apropriação
filhos para trabalhar, mulheres que
do corpo da mulher. Apesar da
são demitidas após a licença ma-
vergonha que as mulheres sentem
ternidade, mulheres que apanham,
em admitir que foram abusadas, os
mulheres que escutam — todo o
números indicam que isso é mui-
tempo — que não possuem valor.
to mais comum que imaginamos.
Dados divulgados pelo Fórum de Jesus e a dignidade
Segurança Pública, em outubro de das mulheres
2017, registram 135 casos de estu-
pro por dia. A violência sexual é a Por isso é importante a gente ler a

A Bíblia e Direitos
relação sexual sem consentimen- história da mulher de Samaria, que
to, é o homem dentro do trans- está em João 4.1-34. O texto bíbli-
porte público que encosta seu cor- co nos conta como foi o encontro
po contra o da mulher, causando de Jesus com uma mulher, de Sa-
constrangimento. É a exposição maria, que estava buscando água
pública do órgão masculino. E tem no poço ao meio dia. Numa hora
aqueles que dizem que as mul- em que não se ia ao poço buscar

43
heres merecem sofrer violência, água, por causa do sol escaldante.
ou que provocam os homens com É nessa hora improvável que ela
o uso de roupas curtas ou justas, encontra Jesus, que estava com
ou que não deveriam estar na rua sede. Os discípulos tinham ido
em alguns horários. Pois a situação
comprar comida. Jesus está no
não é bem assim: a maior parte
poço e pede que a mulher lhe dê
das mulheres, mesmo quando cri-
agua para beber. Era uma mulher
anças, que sofrem violência sexu-
samaritana, e os samaritanos não
al, foi atacada dentro de casa, e o
falavam com os judeus. Além dis-
agressor é conhecido, isso quando
so, um homem não devia falar com
não é o próprio pai, tio ou avô da
uma mulher, muito menos com
vítima. Muitas casas não são lug-
ares seguros. uma mulher samaritana, naquele
caso. Um judeu não podia se ali-
Há muitas outras situações sobre a mentar ou beber em utensílios de
mulher que poderíamos acrescen- um samaritano. Se acontecesse
tar nessa lista: homens que não isso, o judeu ficaria quarenta dias
em condição de impureza ritual, impossibilitado de participar do culto
a Deus.

Jesus não se importou com nada disso. Não se importou com as regras.
Ele falou com a mulher, pediu água e disse que beberia na vasilha que ela
usava. Jesus conversou sobre as coisas de Deus com a mulher — o que
também era proibido. As mulheres, naquele tempo e naquele contexto
não tinham o direito de receber nenhuma informação sobre Deus, sobre
a Palavra de Deus ou a vinda do Messias. Conversas sobre Deus eram
assunto de homem.

Jesus quebra as regras. Jesus mostra que a mulher pode ter acesso di-
reto à vontade de Deus. Jesus conversa com a mulher sobre as coisas
espirituais. Jesus coloca aquela mulher em um lugar que ela não tinha
sido colocada. Ele a respeita, respeita o que ela faz, respeita o que ela
diz. Jesus sabe que a condição daquela mulher era difícil, e ele não se
importa. Ao conversar, ao beber água, ao falar de Deus, Jesus leva digni-
44

dade àquela mulher.

É dessa dignidade que as mulheres precisam, é essa dignidade que faz


falta — às mulheres que estão morrendo pelas mãos de seus compan-
A Bíblia e Direitos

heiros. Às mulheres que têm a mão de obra valendo menos que a dos
homens. Àquelas que são maltratadas na hora do parto. Às que são que
agredidas e espancadas e ás que têm suas opiniões consideradas de
menor valor.

Seguir a Cristo é reconhecer a condição da mulher e tomar atitudes que


modifiquem essa condição. As mulheres precisam ter suas vozes ouvi-
das. Além da conversa na beira do poço, em que Jesus leva dignidade à
mulher, ao ressuscitar — depois de três dias da sua morte — Cristo trans-
forma as mulheres em portadoras da esperança, incumbindo que Maria
Madalena, Joana, Maria mãe de Tiago e Salomé, anunciem que Ele vive
(Mateus 28.1-10, Marcos 16.1-10, Lucas 24.1-10, João 20.1, 16-18). É impor-
tante lembrar aqui que as mulheres não eram ouvidas naquele tempo,
mas coube a elas anunciar a mensagem principal do Evangelho: a res-
sureição. Anunciar que a morte foi vencida. Anunciar que há esperança,
e que esperança é vida!

Em Lucas 10 se encontra a história de Marta, que hospedou Jesus e


os discípulos em sua casa. E ela tinha uma irmã, chamada Maria. Marta
cuidou de tudo, arrumou a casa, cozinhou, fez o que era necessário para
receber aquelas pessoas em casa. Maria, por sua vez, sentou aos pés
de Jesus para ouvir seus ensinamentos.

Sentar aos pés de um mestre era uma atitude permitida somente para os
homens. Somente homens podiam se sentar aos pés de outros homens
para aprender. Marta fica incomodada — ela aprendeu que as mulheres
deviam fazer o que ela estava fazendo. Cuidar de tudo para que os hos-
pedes fossem bem tratados. Marta fica envergonhada e espera que Je-
sus coloque Maria no devido lugar que uma mulher tinha que ocupar.

Jesus não age como Marta esperava. Jesus aceita Maria sentada aos
seus pés. Jesus aceita uma mulher como discípula, mais uma vez sub-
vertendo a ordem milenar de que havia lugares que as mulheres não de-
veriam ocupar. Jesus ensina para Marta que lugar de mulher é o lugar
que ela quiser estar. E Jesus segue ensinando para todos nós a mesma
coisa, ainda hoje: mulheres não podem ser silenciadas, mulheres escol-
hem o lugar que desejam estar e ficar, mulheres são portadoras de vida e

A Bíblia e Direitos
de esperança.

45
Como seguidores e seguidoras de Cristo, o
que fazer para que as mulheres não morram?
Por que as mulheres ganham menos e são as principais
responsáveis pelo sustento de suas famílias?
PARA PENSAR

Como denunciar a violência sexual e obstétrica?


O que determina o lugar que uma mulher pode ocupar?
Como ensinar aos meninos que eles devem respeitar as
mulheres, assim como Jesus respeitou, não sendo donos
ou superiores, mas iguais?
O que a Bíblia fala
sobre a Criação
"Sabemos que toda a natureza geme até agora,
como em dores de parto."
Romanos 8.22
Um amigo, que é pastor, costumava me enviar diversas mensagens de
cientistas céticos em relação às mudanças climáticas com o intuito de me
convencer de que não passavam de alucinação de gente preocupada
demais. Não demorou muito até que um grande periódico de circulação
nacional trouxesse uma reportagem segundo a qual um dos cientistas
mencionados por meu amigo havia finalmente se rendido às evidências
e passara a considerar as mudanças climáticas como um problema grave
que deve ser enfrentado por toda a humanidade, sob o risco de se com-
prometer o presente e o futuro das novas gerações.

Minha perplexidade não se devia unicamente ao fato de uma pessoa


como o meu amigo reduzir a tragédia ambiental que estamos vivenciando
a uma disputa ideológica ou a coisa de gente folgada e desocupada, mas
ao fato de um pastor ignorar que a comunidade dos crentes em Jesus
tem de responder a um mandato que nos foi outorgado pelo Criador de
cuidar do mundo que é dele.
48

Esperar de braços cruzados que tragédias coloquem fim à vida no plane-


ta decorre de uma leitura estreita e rasa das Escrituras. Essa leitura deve-
se em parte à associação feita por muitos de nós entre o termo mordomia
A Bíblia e Direitos

e a ordem dada por Deus à Adão e Eva para “encher, sujeitar e dominar
a terra”, encontrada em Gênesis 1.27-28. A interpretação errônea deste
mandamento tem como consequências toda a sorte de abusos contra
a natureza e contra os seres humanos, culminando no afastamento de
Deus, que é o Criador e Redentor de toda a Criação.

Esse egoísmo pouco inteligente ignorou o fato de que a conta chega para
todos e todas. As conquistas ao longo da história com suas explorações
predatórias e a pilhagem dos recursos naturais em nome do “progresso”
têm propiciado o acúmulo de riquezas por parte de poucos em detrimen-
to da grande maioria. Essa compreensão utilitarista segundo a qual a na-
tureza só existe para que dela se possa tirar o que precisamos, produzir
e descartar contraria a percepção do próprio Deus que, ao contemplar
cada aspecto de sua Criação, concluiu que era muito bom (Genesis 1.31).
O Jubileu bíblico
A ideia de cuidar da Criação é encontrada nos relatos bíblicos do Antigo
Testamento quando o próprio Deus sanciona leis com o intuito de corrigir
as distorções e disfunções geradas pela cobiça, vaidade e pela opressão
de uns sobre os outros. Ao estabelecer um Ano Sabático a cada sete
anos Deus não permitia que o povo sequer semeasse a terra, e só lhes
permitia comer os frutos que fossem produzi-
dos livremente.

O capítulo 25 do livro de Levítico traz ainda o


registro histórico da proclamação feita por Deus
de uma legislação que declarava santo o quin-
quagésimo ano, conhecido como Ano do Jubi-
leu. Neste período se proclamava a libertação
para todos os moradores do país, as dívidas
eram perdoadas e a terra devia ficar sem cul-
tura e os frutos poderiam ser colhidos somente
pelos pobres. As terras hipotecadas ficariam
livres da hipoteca sem ônus algum. Todas es-
sas práticas reprimiam a cobiça e a opressão de
modo a contribuir para o reestabelecimento do
equilíbrio ambiental, econômico e social (Levíti-
co 25.8-11, 39-46).

Essa moratória (25.11) para com a terra era


fundamental para que ela recuperasse toda
a sua capacidade de produzir em termos
sustentáveis, evitando que a mesma se esgo-
tasse e deixasse de cumprir sua função. Com a
“anistia geral” (25.10) concedida durante o Jubi-
leu, todas as dívidas eram canceladas, as terras
restituídas aos antigos donos e todos tinham a
possibilidade de recuperar a liberdade.

O direito ao resgate, presente no Jubileu, con-


trariava a opressão, a escravidão, o acúmulo por
parte de poucos e a ganância reinante já que é
o próprio Deus quem diz: “Também a terra não
se venderá em perpetuidade, porque a terra é
minha; pois vós sois para mim estrangeiros e
peregrinos” (25.23). A ideia central é que a ter-
ra pertence originalmente a Deus e foi confiada
por Ele aos homens. Por esta razão ninguém
pode pleitear sua posse exclusiva e definitiva.
Esta visão está presente também nos livros dos profetas frente à
opressão e ao saque do invasor. O profeta proclama “eis que eu crio
novos céus e nova terra” (Isaías 65.17). Na retórica de Isaías as péssimas
condições desaparecerão com a criação de lugares prazerosos, de paz,
gozo, sossego, harmonia, prosperidade e saúde.
Efeito dominó
O dano que temos causado à Criação impressiona qualquer observador
situado em qualquer ponto do planeta. Como somos parte de um ecos-
sistema harmônico, basta que causemos dano a um único elemento da
natureza para desencadear um efeito dominó de consequências impre-
visíveis e irreversíveis.

É o caso do desmatamento de nossas florestas, que interfere no


equilíbrio natural e traz impactos para a atmosfera, biosfera, litosfera e
hidrosfera. Uma imagem assustadora e muito recorrente para os mora-
dores dos grandes centros urbanos é a fúria das águas dos córregos
50

canalizados durante as chuvas torrenciais advindas das estações chu-


vosas. Rios e córregos outrora cristalinos e navegáveis foram transfor-
mados em esgotos e tiveram suas nascentes e matas ciliares destruídas.
A Bíblia e Direitos

Um grande desafio para a humanidade nos dias atuais é dar uma des-
tinação correta aos 30 bilhões de toneladas de resíduos gerados em
todo mundo. A sobrevivência para muitos povos tradicionais, como o
caso de comunidades Quilombolas no Norte de Minas Gerais tornou-se
difícil com o empobrecimento da biodiversidade decorrente da queima
do carvão, do império da monocultura e do agronegócio em todo o ter-
ritório nacional.

Os biomas brasileiros estão seriamente ameaçados. É o caso da Mata


Atlântica, que somente entre 2015 e 2016 teve uma perda equiva-
lente a 29 mil campos de Futebol. O cerrado, por sua vez, poderá até
2050 sofrer a maior extinção de plantas do mundo desde o ano 1500.3
Nesses tempos turbulentos, em que testemunhamos o grave desmonte
dos direitos conquistados a duras penas, é necessário prestar atenção
nas investidas de setores retrógrados, que acobertados por discussões
que visam tirar o país da crise, se aproveitam para submeter leis que
representam um retrocesso na legislação ambiental.

3
Fonte: O alerta foi feito por um grupo de pesquisadores brasileiros na edição de
23/03/2017 da revista Nature Ecology and Evolution.
Egoísmo e consumismo:
duas faces de uma mesma moeda
Nosso estilo de vida consumista reflete nosso egoísmo, irresponsabili-
dade e descaso para com os recursos que são finitos. Além disto, a so-
ciedade de consumo cria produtos descartáveis que são consumidos no
“modo automático”. Novos designs, novos modelos com vida útil limitada
são parte da estratégia do mercado para a criação de novas demandas e
para o incentivo ao consumismo desmedido.

Tudo isto contradiz o estilo frugal e despojado vivido por Jesus, que sen-
do Deus, despojou-se de toda a sua majestade e habitou entre nós e nos
mandou contemplar a natureza como forma de confrontar nossa ansie-
dade e incredulidade (Mateus 6.28-30). Esta mensagem tão simples e
poderosa encontra pouco eco no meio evangélico nos dias hoje. Ao invés
de tomarmos o exemplo do nosso Mestre, nos empenhamos em prosper-
ar para consumir e acumular cada vez mais.

Paradoxalmente, os apelos do consumo consciente, contrários a


indiferença em nossas igrejas, encontram eco na sociedade em geral.
Pois, consumo consciente é uma das bandeiras defendidas por alguns
setores de produção e serviços, que entenderam que a humanidade já
consome 30% mais recursos naturais do que a capacidade de renovação
da Terra e que todo consumo causa impacto positivo ou negativo na
economia, nas relações sociais e na natureza.
Esperança e redenção
Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores
de parto. (Romanos 8.22). Somos um todo harmônico, integrado. Nosso
corpo físico volta ao pó e integra a terra. A natureza sofre e nós sofre-
mos com ela. Nossa compreensão limitada da Redenção não raro nos
leva a ignorar que em Cristo se deu a reconciliação de todas as coisas:
homem com Deus, o homem consigo mesmo, com o próximo e com a
natureza. Por onde começar?

1 Não nos conformarmos com este mundo, mas transformá-lo pela


renovação da nossa mente, como nos exorta Paulo na Carta aos
Romanos (12.2), requer de nós uma postura que vai na contramão
daquilo que é idolatrado pela sociedade do consumo. Para isso, é
preciso adotar um estilo de vida simples, lutar contra os apelos fá-
ceis do consumismo. Cada cristão individual e coletivamente muito
pode em seus exemplos e pequenas atitudes cotidianas para aju-
52

dar a transformar este mundo. Nossa vivência diária deve ser um


testemunho eloquente na medida em que compartilhamos nossos
recursos, exercemos nossa solidariedade e levantamos nossa voz
A Bíblia e Direitos

contra o mal estabelecido em suas muitas formas.

2 Voltarmos para a Palavra de Deus. A Igreja pode muito quando


compreende e transmite o ensino correto das Escrituras. As cri-
anças em suas escolas já aprendem muito sobre os cuidados com
o ambiente, mas as igrejas não têm uma educação sistemática so-
bre o cuidado com a Criação. Tampouco nossa educação teológi-
ca valoriza a Teologia da Criação e as questões decorrentes dela
como sustentabilidade, economia do suficiente etc.

3 Adotar pequenas atitudes dentro e fora da comunidade. Muitos


dos espaços disponíveis nas igrejas foram impermeabilizados
para estacionamentos de carros quando podiam ser usados para
jardins, hortas e plantação de árvores. Felizmente existem igrejas
que fazem o plantio de árvores em praças e proximidades. Há tam-
bém comunidades eclesiásticas que ajudam na organização de
pequenas feiras de agricultores orgânicos e familiares. Outras têm
coletores para descartes de produtos nocivos ao solo como bate-
rias e pilhas. Essas iniciativas ainda são raras, mas são pequenas
sementes com grande potencial de gerar frutos.
4 Amar a cidade. Uma maior incidência da Igreja pela paz, sustentab-
ilidade e dignidade requer uma reinterpretação do nosso conceito
de missão. Como as cidades se transformaram em lugares em que
a beleza não é cultivada e a violência é perpetuada, a ocupação do
espaço público não é incentivada pelas igrejas.

Estas, por sua vez, se transformaram em abrigos subterrâneos para se


protegerem das cidades e dos demais cidadãos, contrariando o evangel-
ho que prenuncia a reconciliação e a inclusão daqueles que antes eram
excluídos pelo sistema.

O conceito de vida abundante presente em todo evangelho requer de


nós uma compreensão da interdependência entre campo e cidade,
saúde e alimentação, lazer e estilo de vida, inclusão e tolerância, habi-
tação e trabalho, valorização da nossa biodiversidade e cuidado da
Criação. Cristãos cometem um grande pecado contra o Criador e contra
toda a Criação quando se omitem, se descuidam e são indiferentes ao

A Bíblia e Direitos
descalabro ambiental e ecológico em curso. Cumprimos nossa missão na
medida em que exercemos nossa voz profética e atuamos para transfor-
mar toda a Criação, aguardando com esperança a redenção em Cristo de
todas as coisas criadas.

Qual o perigo para a ação da igreja quando existem 53


interpretações bíblicas erradas sobre a Criação?
Qual a relação do jubileu com a nossa
responsabilidade hoje sobre a Criação?
PARA PENSAR

Como você pode contribuir para a manutenção


do meio ambiente?
Como o egoísmo e consumismo influenciam na Criação?
Como podemos nos envolver com a Criança a
partir de nossa cidade?
O que a Bíblia fala
sobre Imigrantes
e Refugiados
"Não oprima o estrangeiro. Vocês sabem o que é ser
estrangeiro, pois foram estrangeiros no Egito."
Êxodo 23.9
56

Nos últimos tempos assistimos a noticiários sobre migração de povos em


busca de condições melhores de vida devido a crises humanitárias. A
migração sempre existiu na história da humanidade. Antes das grandes
A Bíblia e Direitos

civilizações, as comunidades tribais migravam de um lugar para o outro


subsistindo através da caça, da pesca e de outras formas de extrativ-
ismo. Com a apropriação de técnicas e implantação da agropecuária,
a humanidade começou a ocupar a terra de forma sedentária, aban-
donando a vida nômade. Os territórios ocupados tiveram como conse-
quência a formação das nações e estabelecimento das fronteiras.

No contexto bíblico do Antigo Testamento (AT), o pai da fé Abraão é


um exemplo de vida nômade e migratória. Deus o convoca a sair do
meio de seu clã, situado na região da Babilônia, e se dirigir com sua
família a outra terra “que te mostrarei” (Genesis 12.1), estabelecendo-se
na Palestina.

Mais tarde, o clã de Jacó também vive uma experiência migratória e se


estabelece no Egito, ao ponto do crescimento demográfico dos isra-
elitas assustar os nativos, levando os governos dos Faraós a os man-
terem escravos por mais de quatro séculos. Quando foram libertos da
escravidão, na passagem pelo deserto, o libertador e legislador Moisés
cria um bloco nas leis chamado “Código da Aliança” (Êxodo 20.22;
23.9). Trata-se de uma série de recomendações que visaram defender o
direito dos pobres e dos desamparados; organizar o sistema judiciário,
4
Fonte: https://observatoriosc.wordpress.com/2016/03/24/numero-de-pessoas-em-situacao-de-rua-so-
cresce-no-brasil/
A Bíblia e Direitos
de forma que ele não fosse manipulado em favor dos poderosos; reg-
ular o uso do campo e dos animais de tração, culminando no versículo:
“Não oprima o estrangeiro. Vocês sabem o que é ser estrangeiro, pois
foram estrangeiros no Egito.”4

No Novo Testamento (NT), os pais de Jesus precisaram se refugiar no


Egito para proteger a vida do recém-nascido do infanticídio promovido
por Herodes, retornando a Israel depois da sua morte (Mateus 2). Re-

57
fugiados geralmente são emigrantes que deixam sua terra natal para
imigrarem em outros países, a fim de sobreviverem das mazelas provo-
cadas por desastres naturais, como o terremoto no Haiti em 2010 ou as
guerras, como a da Síria, desde 2011, além de perseguições políticas e
religiosas.

É importante salientar que pessoas refugiadas só deixam seus lares,


suas famílias, sua pátria, não porque querem, mas por uma questão de
sobrevivência. Muitas delas eram prósperas em sua terra natal, com
condições socioeconômicas estruturadas, com moradia, propriedades,
renda, trabalho e boa escolarização.

Todo migrante enfrenta dificuldades de adaptação em outra região de


seu país, e elas se tornam ainda maiores no estrangeiro, com as dif-
erenças culturais e linguísticas. Contudo, os grandes desafios são con-
tra o preconceito, a xenofobia e o racismo. Numa campanha da Orga-
nização das Nações Unidas (ONU) contra a xenofobia, venezuelanos
5
Fuga da fome: como a chegada de 40 mil venezuelanos transformou Boa Vista, Por Emily Costa, Inaê
Brandão e Valéria Oliveira, G1 RR: https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/fuga-da-fome-como-a-chega-
da-de-40-mil-venezuelanos-transformou-boa-vista.ghtml
6
Curta São Paulo dos Haitianos: https://www.youtube.com/watch?v=DPTLu3pmaQM
7
Instituto ADUS: http://www.adus.org.br
usaram máscaras coloridas nas ruas de Boa Vista (RR) para interagir
com a população, e seguravam cartazes com mensagens sobre mi-
gração: “Jesus também era um migrante”; “A história da humanidade é
uma história de migrações” e “65,6 milhões de pessoas se deslocam no
mundo. Não porque querem, mas porque precisam."5 Segundo o curta
São Paulo dos Haitianos6, na cidade de São Paulo os imigrantes haitia-
nos também reclamam que, além de serem vítimas de xenofobia, são
constantemente vítimas de racismo.

Imigrantes e refugiados gozam de direitos internacionais garantidos


pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948) e outras
leis internacionais (Estatuto dos Refugiados, 1951) que garantem segu-
rança física; assistência básica em saúde, educação, trabalho, moradia
etc.; direitos civis, liberdades de livre pensamento e de ir e vir, entre out-
ros. No entanto, é muito comum ficarem alocados em campos para re-
fugiados, tendo negado seus pedidos de imigração nos países vizinhos.
No Brasil, a Constituição Federal e as Leis n. 13.445/2017 e 9.474/1997
também garantem os direitos dos imigrantes e refugiados.

Diante da crise econômica que o Brasil enfrenta, com milhões de de-


sempregados, somada às outras questões sociais e precariedade de
serviços públicos essenciais, você entende que o estado deve investir
em políticas públicas em benefício de imigrantes e refugiados?7

Não seria interessante se as igrejas evangélicas pudessem desenvolv-


er bons ministérios de apoio aos migrantes, imigrantes e refugiados,
seja oferecendo abrigo e alimentação, como também introduzindo os
imigrantes em nossa cultura, ensinando nossa língua ou ainda auxilian-
do-os na busca de emprego e moradia.

A missão da Igreja inclui cuidar e amenizar o sofrimento do forasteiro,


segundo o imperativo de Jesus de amor ao próximo (Mateus 22.37-40;
1 João 3.16-18). Na passagem do Evangelho de Lucas 10.25-37, Jesus
é indagado: E quem é o meu próximo? Jesus responde com a famosa
Parábola do Samaritano.

Em tempos de disseminação da cultura de ódio, o que também se es-


pera dos evangélicos é conscientização contra todo tipo de violência,
preconceito, xenofobia e racismo, além de consolo, amparo emocional
e espiritual para aqueles que sofrem pela dor da perda, da separação e
da distância, e com a possibilidade de nunca mais reencontrarem seus
pais, filhos, irmãos e amigos de uma vida.
8
Para saber mais: Agência da ONU para refugiados: http://www.acnur.org/portugues/; Nações
Unidas no Brasil: https://nacoesunidas.org/; Anistia Internacional: https://anistia.org.br/noticias/pes-
soas-em-movimento-para-grande-parte-da-populacao-siria-deslocada-o-regresso-para-casa-e-impos-
sivel. Obs: Último acesso nos links acima em 01/04/2018.
Atualmente, muitas igrejas estão envolvidas em suas atividades inter-

A Bíblia e Direitos
nas em prol de atender sua membresia, olhando sempre para dentro e
vivendo mais do mesmo. Baseado no Evangelho de Mateus – Porque
tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era
forasteiro, e me hospedastes (Mateus 25.35), seria possível despertar
o interesse missionário em atender a necessidade do estrangeiro em
situação de vulnerabilidade?

59
Quais são as maiores dificuldades de se envolver como
imigrantes e refugiados? Para você e para a Igreja?
Como você pode se envolver no cuidado de
imigrantes e refugiados?
Diante da crise econômica que o Brasil enfrenta, com
PARA PENSAR

milhões de desempregados, somada às outras questões


sociais e precariedade de serviços públicos essenciais,
você entende que o estado deve investir em políticas
públicas em benefício de imigrantes e refugiados?
O que Jesus ensina ao dizer que era
forasteiro e foi hospedado?
O que a Bíblia fala
sobre as Crianças
Naquela mesma hora chegaram os discipulos ao pé de Jesus, dizendo:
quem é o maior no reino dos céus? E Jesus, chamando um menino, o pôs
no meio deles, e disse: Em verdade vos digo que, se nao vors cnverterdes
e nao vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos
céus. Portanto, aquele quie se tornar humilde comoe este menino, esse
é o maior no reino dos céus. E qualquer que receber em meu nome um
menino, tal como este, a mim me recebe.
Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que creem em
mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de
azenha, e se submeergisse na profundeza do mar. Ai do mundo, por causa
dos escandalos; porque é mister que venham escandalos, masi ai daquele
homeme por quem o escandalo vem! Portanto, se a tua mão ou teu pé
te escandalizar, corta-o, re atira-o para longe de ti; melhor te é entrar
na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo as duas mãos ou dois pes, seres
lançado no fogo eterno. E, se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e
atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho,
do que, tendo dois olhos, seres ancado no fogo do inferno. Vede, nao
desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que seus anjos
nos céus sempre veem a face de meu Pai que está nos céus. Porque o
Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido. Que vos parece? Se
algum homem tiver cem ovelhas, e uma delas se desgarrar, nao irá pelos
montes, deixando as noventa e nove, em busca da que se desgarrou?
E, se porventura achá-la, em verdade vos digo que maior prazer tem
por aquela do que pelas noventa e nova que nao se perderam. Assim,
também, não é vontade de vosso Pai, que está nos cérus, que um destes
pequeninos se perca.
Mateus 18.1-14
Os discipulos chegaram na hora em que Jesus explicava que, como
filho do Rei, era isento do pagamento de impostos, mas que pagaria
para dar testemunho. Perguntaram, então, sobre quem era o maior
no reino dos céus. Jesus chamou um menino e o colocou no meio
deles. E disse: antes de querer saber quem é o mior, vocês precisam
se converter e se tornar como essa criança, caso contrário, de jeito
nenhum entraráo no reino dos céus. Quem se torna humilde como
ele é maior no reino dos ceus. E quem, por mim, cuidar de um menino
como esse, recebe a mim mesmo. Mas, quem desviar da fé, que
tem em mim, a uma criaça como essa, melhor seria ser morto por
afogamento, por ter sido preso a um peso insuportável.

O sistema caido é maldito por, inevitavelmente, desviar as crianças da


fé, mas isso nao atenua a situação da pessoa por quem esse desvio se
impõe. Aliás, qualquer sacrificio que alguem faça para nao ser causa
de tropeço para uma criança é justificável, mesmo que seja aarrancar o
proprio olho. Não tratem essas crianças como se, por serem crianças,
62

não contam. Porque os anjos que as acompanham dáo relatório


constante ao mei Pai que está nos céus. Eu vim salvá-los desse estado
perdido de injustiça.
A Bíblia e Direitos

O que vocês acham de um pastor qie abandona nos montes noventa


e nove ovelhas, para buscar uma que se perdeu? E, encontrando-a
demonstra maior alegria por ela do que pelas noventa e nove que
não se perderam? Uma loucura! Por certo. Pois se arriscará a perder
todoas para salvar uma só. Pois, meu Pai, ao me enviar, correu, por
semelhança, o risco de perder todo o universo, porque ele não quer
que nunhuma dessas crianças se perca.

Jesus Cristo comunicou que a criança simboliza o que há de melhor


na humanidade, aquilo que gostaria de ver reproduzido em todos
nós, pois disse que “se não vos converterdes e não vos tornardes
como criança, de modo algum entrareis no reino dos céus”. Jesus
disse também que se identifica com as crianças: “quem receber uma
criança, tal como está, em meu nome, a mim recebe”. Jesus afirma
que o castigo para os que desviam as crianças seria indescritível,
sendo melhor ser assassinado, conforme Mateus 18:6. Nos versículos
seguintes ele afirma que para evitar correr o risco de fazer tropeçar
uma criança, um pequenino, valeria qualquer sacrifício (versículos
7 a 9). Jesus falou que as crianças têm um tratamento especial por
parte do Pai, pois os seus anjos estão sempre na presença dEle
(versículo 10). Por isso, vale qualquer ato heróico para salva-las, tal
como o do pastor que, por causa de uma ovelha, deixa nos montes
outras noventa e nove, saindo em busca da perdida. Para nós parece
loucura, que pastor abandonaria noventa e nove ovelhas nos montes,
à deriva dos ladrões e predadores naturais, por causa de uma ovelha
que se extraviou, a menos que transformasse o seu salvamento
numa motivação sem alternativos: ou ela ou nada, de acordo com os
versículos 12 e 13. Jesus nos comunica que para resgatar as crianças
vale qualquer medida heróica, mesma a, aparentemente, louca.

Jesus adverte que o Pai não quer que nenhum só dos pequeninos se
perca, conforme o versículo 14. Imaginemos Jesus em uma de nossas
cidades, São Paulo por exemplo. Jesus poderia, a exemplo do que fez
em Cafarnaum, pegar uma das crianças que perambulam pela Praça
da Sé – um daqueles meninos que a gente quer colocar na Fundação
Casa, e colocá-lo no meio da roda formada por seus questionadores
e apresentá-lo como símbolo do que há de melhor na humanidade?

A Bíblia e Direitos
Infelizmente, não. Nossa sociedade, pela injustiça e pela discriminação
está descaracterizando as crianças transformando-as no símbolo do
que há de pior na humanidade, de maneira que, quem cruza com uma
delas, em vez de afago, oferece desprezo, ao invés de abraço ou
acolhida, oferece medo.

Não podemos perder a perspectiva de que as crianças, as abusadas


ou violentadas sexualmente, as que cometem atos infracionais, as

63
que são portadoras de Hiv/Aids, as abandonadas, as que exercem
atividades análogas a trabalho escravo, as que não sabem ler ou
escrever, as que são vítimas de violência, ainda são os tais pequeninos
de que fala Jesus. E são, justamente, porque estão nessa situação
pela ganância de uma sociedade injusta, pela desestrutura familiar
que as fazem tropeçar, sendo desviadas dos caminhos e da proposta
do Pai. O mais grave disto é como fazê-las entender Deus no meio de
suas circunstancias. Dizer às crianças que sofrem violência doméstica
que Deus é pai faz com que pensem na figura do pai que nelas
descontou toda a sua impotência: “Lá em casa a gente só recebe
pancada, eu não gosto de voltar pra casa”, conta Kelly, de 13 anos,
que faz malabarismo em sinais de trânsito, junto com seus três irmãos.
Pai é quem os espancou, aviltou, expulsou ou quem ainda os explora.
Nossas crianças não estão em condições de entender o que significa a
justiça de Deus.
Como dizer a uma criança em dessa tragédia. Ai das sociedades
situação de rua que Deus é justo, que, indiferentes, convivem
se para ela os símbolos de justiça com ela há muito tempo sem se
trazem a lembrança tortura dor interessar em priorizar a solução
e violência: “Tem policia que é de tais problemas. Melhor seria
muito mau. Batem na gente de terem sido destruídas por um
bobeira. Eu não gosto deles não, cataclismo. Para evitar o juízo
eles sempre querem que a gente de Deus não vale a pena à
desapareça”, conta Felipe, de 12 sociedade sacrificar o pérfido
anos, que vive nas ruas de Natal, modelo econômico que pratica
no Rio Grande do Norte. Como e partir para um que garanta
crianças abandonadas entendem justa distribuição de renda?
o amor de Deus? Ana, de 15 anos, Não vale a pena sacrificar a
conta que quando tinha cinco internacionalização acelerada
anos foi para um posto de saúde, da economia por um regime
no Rio de Janeiro, com sua mãe. de pleno emprego? Se uma
Andaram mais de uma hora e das nossas opções nos faz
64

sua mãe a arrastava pela mão: tropeçar, impedindo o pleno


“eu estava cansada e minha mãe desenvolvimento da infância e
parecia não se importar. Teve da adolescência, extirpemos,
A Bíblia e Direitos

uma hora que ela me colocou no lancemos fora os modelos que


colo e me senti, por um segundo, adotamos. É melhor abrirmos
cuidada. Mas, ela só me levantou mão de sermos modernos do
para me oferecer para uma que no afã de modernidade
pessoa, que estava do outro lado aprofundar o inferno daqueles
da calçada. Ele queria me dar, por quem Deus Chora, pois, o
como deu meu irmão para uma inferno deles nos engolirá.
senhora no posto de saúde”.
Ana já tem uma filha, de dois Governantes – Uma vez
anos, e amor pra ela sempre está perguntaram a um pastor se
vinculado às relações sexuais: parecia justo, a postura de um
“Comecei cedo... com dez anos candidato a prefeito que, contra
eu gostava de ficar com os seu adversário, levantava a
garotos” A realidade brasileira acusação de que a autarquia
faz as crianças se desviarem que cuidava do transporte
de Deus. A sociedade as faz público, graças a política daquele,
tropeçar. Elas estão perecendo... estava padecendo de prejuízo
financeiro. A resposta do pastor
Os números confirmam que foi que o trabalhador, o usuário
permitimos o desenvolvimento de transporte público, paga
impostos, não para que as tais autarquias
sejam lucrativas, mas para ir sentado para
o trabalho. Que motivação tem nossos
governantes? O que os anjos dos pequeninos,
que vêem constantemente a face do Pai,
falam da nossa sociedade, de nossos
governantes, de nossa elite, de nossa igreja?
O que estarão pedindo a Deus, senão justiça,
enquanto clamam por Sua misericórdia aos
pequeninos.

Que atos heróicos – como deixar as noventa


nove ovelhas – devemos nós, a sociedade,
fazer para escapar da ira de Deus? Tornar a
criança, e seu bem-estar, prioridade máxima
de qualquer administração. Isso significa
participar genuinamente de seu resgate
urbanizando favelas, com investimentos
significativos na área de saúde e educação,
de um novo modelo agrícola, de uma nova
forma de ocupação do solo (como um país
de terras férteis convive com o espectro da
fome? Como uma nação com tanto espaço
para ocupar tornou-se eminentemente
urbana?), de pleno emprego, salários dignos
e, acima de tudo, um resgate imediato das
crianças que se encontram em profundo
estado de carência e de abandono pela
criação de condições mínimas de dignidade,
ainda que isso signifique aumento da
presença do estado. Melhor isso do que cair
nas mãos do Deus Vivo, como escrito em
Habacuque 10. 31.

Igreja – Certamente teremos que


compreender que diante da injustiça não há
inocentes. Todos são culpados pelos pecados
da sociedade: os que os cometeram e os que
se omitiram. O nosso problema não é com o
Diabo, mas como o Deus justo que se levanta
contra toda a perversidade, como ditos em
Salmo 94 e Romanos 1.18. Só a intercessão da Igreja pode deter a mão
de Deus, conforme Ezequiel 22.30. Portanto, a intercessão tem de
ser conseqüente, como visto em Tiago 2.14-17, de modo que a Igreja
deve constituir-se em canal de libertação espiritual e sócio-econômica
destas crianças.

E, mais, a Igreja tem de assumir o papel de profeta, tem de denunciar


o pecado estrutural e não apenas o individual, tem de exigir
arrependimento por parte dos poderosos. Não basta amarrar o diabo,
tem de haver arrependimento, senão a coisa fica pior ainda, segundo
Mateus 12.45. Não basta amarrar o diabo enquanto as crianças são
assassinadas nas esquinas.

Lembremo-nos da palavra do Senhor Jesus Cristo: "Assim, pois,


não é da vontade de vosso Pai Celeste que pereça um só destes
pequeninos". Lamentavelmente levá-los a perecer, em todos os
sentidos, tem se tornado a prática corrente em nossa sociedade.
Nossa sociedade está sob risco iminente.
O que você entende com a ideia de se converter A Bíblia e Direitos
67
tonando-se como uma criança?
Como podemos fazer uma crinaça tropeçar em sua fé?
Quais sao as crianças que jessus chama de:
PARA PENSAR

”meus pequeninos”?
Diante dessas preposições de Jesus, como podemos
analisar a situação da criança na realidade brasileira?
O que a igreja pode fazer para ajudar as
crianças das cidades?
68 A Bíblia e Direitos
O que a Bíblia
fala sobre o
Trabalho Digno

A Bíblia e Direitos
"Vosso ouro e vossa prata, todos estão oxidados. E a ferrugem
deles testemunhará contra vós e, assim como o fogo, vos
devorará a carne. Tendes acumulado bens demais nestes últimos

69
tempos. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os
vossos campos e que vós, desonestamente, deixastes de pagar
está clamando por justiça; e tais clamores chegaram aos ouvidos
do Senhor dos Exércitos. Tendes vivido regaladamente sobre a
terra, satisfazendo todos os vossos desejos, e tendes comido até
vos fartardes, como em dias de festa"
Tiago 5.3-5
70
A Bíblia e Direitos

A Bíblia é um livro para o povo. Não deve ser lida com a intenção de
descobrir enigmas, nem para receber respostas de Deus para nossos
problemas financeiros, nem para conhecer o tamanho da “nossa
benção”, nem tão pouco para ser um manual doutrinário-legalista
pautado em dogmas, códigos e ritos. A Bíblia deve ser lida a partir da
vida, da realidade das pessoas, de seu contexto histórico e das histórias
de nossos dias. A Bíblia é a revelação de Deus para humanidade, que
revela o Deus Javé, o Deus libertador de amor e justiça. Nossa leitura da
Bíblia deve ser comunitária.
Em sua carta direcionada às comunidades cristãs de sua época, Tiago,
chamado de “O Santo” por ter uma liderança com traços sociais na
comunidade de Jerusalém, denuncia a exploração do trabalho escravo.
Com pagamento de salário injusto aos trabalhadores, na busca de mão
de obra barata, os senhores do campo e comerciantes acumularam
para si riquezas. Associado a esta exploração de trabalho escravo, o
estado em conluio com o sinédrio também cobrava dos trabalhadores
taxas abusivas de impostos que chegavam a 50% sobre os ganhos e
bens das famílias pobres. O contexto no qual Tiago escreve sua carta é
de uma profunda desigualdade social onde os mais pobres sofriam sob
opressão dos poderes dominantes instalados nos sistemas religioso,
político e econômico centrados no templo de Jerusalém.

A denúncia profética de Tiago não se dava por um acaso. Havia um


sério motivo. Os celeiros dos patrões opressores estavam cheios e
seus campos verdes e fartos, seus rebanhos eram de perder de vista,
os comerciantes aumentavam seus bens embutindo grandes lucros
nas mercadorias, enquanto isso faltava comida na mesa do trabalhador
pobre, terra para plantar, casa para morar. Um dia sem salário para um
trabalhador era extremamente grave, pois não tinham outro meio de
sustento. Os trabalhadores erem em sua maioria camponeses. Havia
um contexto de desigualdade. A profecia apontava para uma lógica de
exploração de mercado e do trabalho escravo. Uma riqueza que gerava
pobreza favorecendo mais e mais os senhores do agronegócio daquela
época. Um modelo econômico-opressor não muito diferente de nossos
dias onde na América Latina, por exemplo, a concentração de renda
está nas mãos de uma minoria de empresários ricos, em detrimento de
milhões de explorados, empobrecidos e miseráveis.

Tiago não usa o termo capitalismo-neoliberal em sua carta, pois nem


se usava tal termo naquela época. Mas em seu tempo como podemos
perceber de forma clara em sua carta, isso já acontecia na prática. A ação
exploratória e opressora dos patrões junto aos trabalhadores como a
concentração de renda nas mãos de uma minoria de ricos, caracterizava
o desejo de acumulo de bens. Esse acúmulo de riquezas não se dava
pelo esforço e inteligência dos patrões ou por herança como alguns
pensam, nem por bênção divina concedida por meio de sacrifícios, nem
por sorte, mas pela exploração contínua da mão de obra escrava dos
pequenos camponeses oprimidos.

As palavras de ânimo de Tiago aos trabalhadores nesta passagem são


de libertação. Os trabalhadores em sua condição de explorados clamam
ao Senhor dos Exércitos. O Deus dos oprimidos, Deus de amor e justiça.
Esse clamor em meio ao sofrimento chega aos ouvidos de Javé. Ele
ouve! A profecia foi direcionada aos ricos opressores. Parafraseando:
"Parem de exploração! Deus ouviu o clamor dos seus trabalhadores”!
A palavra profética da carta de Tiago tem como objetivo animar os
trabalhadores em suas lutas por condições dignas de trabalho e salário
justo. Não deveriam esmorecer, mas levantar-se e lutar. Deus exige
justiça e um ato de dignidade aos trabalhadores. “Pois o trabalhador é
digno do seu salário” (Lucas 10.7).

Já está em vigor a retirada dos direitos dos trabalhadores conquistados


por mais de 80 anos. Um retrocesso! A Consolidação das Leis de Trabalho
– CLT foi apunhalada com um duro golpe. Os senhores do agronegócio,
das indústrias, das multinacionais vibram por saber que poderão
acumular mais e mais com as novas regras da reforma trabalhista. Dentre
elas está o fim dos acordos coletivos; do salário mínimo; da jornada
de 8 horas de trabalho que se estende até 12 horas; a escravização
do trabalhador rural; da proteção das mulheres gravidas em lugares
insalubres e da proteção do trabalhador em caso de processos judiciais
pelos quais eles vão ter que pagar. Os trabalhadores e trabalhadoras
pobres serão os mais afetados. Sofrerão a pena de ter que viver com
um salário abaixo do mínimo. Com a nova reforma, caminha-se de
maneira drástica para um profundo aumento da exploração de mão de
obra barata, retorno do trabalho escravo, aumento da fome e pobreza e
perda de direitos trabalhistas conquistados nos últimos anos.

Vivemos em um contexto e época diferentes do tempo de Tiago. Contudo


podemos perceber que a desigualdade gerada por meio da exploração
e opressão aos trabalhadores é bastante semelhante. É a mesma
lógica capitalista, que exalta o dinheiro em detrimento da exploração
e sofrimento das pessoas. Que nesses dias de aflição e dor, o Deus da
Justiça possa ouvir o clamor dos nossos trabalhadores e trabalhadoras,
que eles possam se levantar contra os desmontes dos seus direitos e
lutar. Não devem desanimar, ao contrário, continuar confiando no Deus
libertador que cuida de todos nós.

A Bíblia e Direitos
73
Qual a relação da carta de Tiago com a realidade
brasileira em relação ao trabalho?
O que você acha da reforma trabalhista? Como ela afetou
aos trabalhadores do Brasil?
A exploração do trabalhador traz consequências ao país?
PARA PENSAR

O que você acha disto?


Como a igreja pode contribuir para diminuir a dignidade
no trabalho?
Quais as ações que você pode realizar na cidade para
diminuição da exploração no trabalho?
74 A Bíblia e Direitos
O que a Bíblia
fala sobre o
Diálogo com

A Bíblia e Direitos
outras Religiões

75
"Respondeu Jesus: ame o Senhor, o seu Deus de todo o coração,
de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o
primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele:
Ame a seu próximo como a si mesmo."
Mateus 22.37-39
O diálogo com pessoas
de outras religiões

Os evangelhos narram várias histórias de Jesus se encontrando com


pessoas de religiões diferentes da sua. A história da mulher samarita-
na (João 4.1-15) e a história da mulher siro-fenícia são dois exemplos
da abertura que Jesus tinha para dialogar com pessoas de outras
religiões. A atitude de Jesus foi sempre de aproximação, sem precon-
ceito, e de disposição para estabelecer a conversa.

De igual modo, o apóstolo Paulo, num gesto de abertura, se dirige aos


moradores de Atenas que possuíam uma religiosidade complexa e
ampla (Atos 17.22-28). Não busca impor a sua religião, mas apresenta-a
entendendo que ela é uma entre outras. O que o apóstolo Paulo faz não
é apenas exercício de retórica, é um exercício de compreensão e de
76

respeito profundo pela religiosidade diversa e plural das moradoras e


dos moradores daquela cidade.
A Bíblia e Direitos

Estas duas referências tão fundamentais para a fé cristã, devem nos


animar a buscar sempre o diálogo com pessoas que são diferentes de
nós e que professam outro tipo de crença.

A prática do povo evangélico tem sido marcada, no decorrer da história,


pela noção de missão em termos de evangelização. Queremos ser fiéis
ao mandado de Jesus que diz: “vão e façam com que todos os povos
se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês”
(Mateus 28.19-20a). Este convite de Jesus à proclamação do evangelho
não vem desassociado de princípios fundamentais. Quais são estes
princípios fundamentais?

a Agir a partir do amor de Deus


Pessoas que professam a fé cristã creem que Deus é amor. É sobre
esse núcleo central que toda ação, prática, atitude, e testemunho
cristão precisam estar alicerçados. Cristãos e cristãs são chamadas a
viver a sua fé a partir do amor, por causa do amor, imbuídos do amor
por si mesmos e pelo próximo. O próximo é uma pessoa diferente. Não
pensa como nós, não vive como nós, não tem os mesmos gostos nem
a mesma compreensão a respeito dos mais variados temas da vida. A
diferença que caracteriza a outra pessoa tira-nos, muitas vezes, da nossa
zona de conforto e nos força a perceber que aquilo que entendemos
como verdade ou como correto, não é uma unanimidade. É a essas
pessoas que somos chamados a amar. E se não conseguimos fazê-lo,
não podemos dizer que conhecemos a Deus, porque Deus é amor (I
João 4:8). Dentre os mandamentos dados por Jesus, os dois maiores
são: “amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si
mesmo” (Mateus 22: 37-40). Isto significa que estes dois mandamentos
são a referência preponderante para o testemunho do evangelho e o
modo de agir e de viver das pessoas que acreditam em Jesus Cristo e
o seguem.

b Imitar Jesus Cristo

A Bíblia e Direitos
Uma pessoa que professe a sua fé em Jesus Cristo precisa perguntar-
se: o que Jesus falou? Como Jesus agiu? É na prática de Jesus que os
servos e as servas de Cristo devem moldar a sua própria prática. E a
prática de Jesus está pautada pela misericórdia, pela compaixão, pela
justiça e pela noção de sociedade igualitária. As pessoas que buscam
viver de acordo com Jesus precisam imitar o bem, não o mal, pois “Quem
faz o bem é de Deus. Quem faz o mal, não viu a Deus” (III João 11).

77
O ódio com o qual alguns grupos evangélicos têm se dirigido aos
praticantes de outras religiões, ou a pessoas que pensam diferentemente
deles, não encontra base em Jesus. Todos que seguem a Jesus são
chamados a rejeitar toda forma de ódio e agressividade contra quem
professa outra fé e tem outras visões e compreensões acerca da vida e
das relações humanas.

c Manter seu testemunho vinculado


às virtudes cristãs
As pessoas que professam a fé em Cristo são chamadas a se
comportar com integridade, caridade, humildade e a superar todo tipo de
arrogância, condescendência e atitudes de menosprezo (Gálatas 5.22).
O sentimento de superioridade com relação a pessoas que têm uma fé
diferente, não é baseado no evangelho. A arrogância, que vê o outro
como inferior, tampouco possui raízes cristãs. Deste modo, é preciso
retomar a conexão com os “frutos do Espírito” para saber como agir no
mundo de pluralismo religioso, no qual vivemos.

O diálogo com pessoas de outras


religiões como base da cidadania

O Artigo II da Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização


das Nações Unidas, promulgada em 1948, diz: “Todo ser humano tem
capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta
Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo,
idioma, religião, opinião politica ou de outra natureza, origem nacional
ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”.
78

Na Constituição Federal de 1988, no Artigo 5º parágrafo VI está escrito:


“é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado
A Bíblia e Direitos

o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a


proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

Estes artigos, portanto, estabelecem o princípio da liberdade religiosa.


A liberdade religiosa não é liberdade assegurada para uma religião
só, mas para todas. O Brasil é um país com uma diversidade religiosa
enorme. É preciso que todas as pessoas, pertencentes a todas as
religiões, respeitem as religiões existentes. Este respeito é um dever
que protege a liberdade religiosa de cada um e assegura o exercício da
cidadania.

O princípio da liberdade religiosa está, portanto, baseado no respeito


às religiões, seus seguidores e seguidoras, seus espaços de culto, seus
símbolos, suas vestimentas, seus livros, sua oralidade, e tudo aquilo que
caracteriza uma determinada religião. Nenhum destes elementos pode
se tornar alvo de menosprezo, zombaria ou destruição.

A rejeição a uma religião diferente da nossa ocorre quando não a


conhecemos. Por isso, é importante que nos aproximemos e busquemos
ter maiores informações sobre as práticas religiosas de outras tradições.
Deste modo, criamos a possibilidade de diálogo, e aquele sentimento de
“inimizade” que, muitas vezes caracteriza a distância entre as diferentes
tradições, cai por terra.

O Movimento Inter-religioso do Rio de Janeiro, que existe desde 1992,


e o Comitê de Combate à Intolerância Religiosa, são dois exemplos
de esforços de aproximação e diálogo na cidade e estado do Rio de
Janeiro. Mas é preciso ampliarmos esta rede de diálogo. É fundamental
que, em cada bairro, pessoas cristãs evangélicas sejam capazes de
se encontrar com adeptos de outras religiões e, em respeito e amor,
exercitar a sua fé e a sua cidadania.

A Bíblia e Direitos
79
Qual a postura de Jesus com as pessoas
de outras religiões?
O amor deve ser a base do dialogo com pessoas
de outras religiões. Por quê?
O texto fala de imitar a Cristo. Como podemos imitar
PARA PENSAR

a Cristo através do dialogo com outras religiões?


Como podemos evangelizar mantendo dialogo com
pessoas de outras religiões?
Como a igreja pode lutar pela liberdade
religiosa na cidade?
80 A Bíblia e Direitos
O que a Bíblia
fala sobre Direito
à Informação

A Bíblia e Direitos
81
"Não se esqueçam de fazer o bem e de repartir com os outros o
que vocês têm, pois de tais sacrifícios Deus se agrada."
Hebreus 13.16
Está na Declaração Universal de Direitos Humanos, da Organização
das Nações Unidas, escrita em 1948: “Todo ser humano tem direito à
liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem
interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações
e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.
Muito antes disso, quando vivia o profeta Habacuque – possivelmente
oito séculos antes de Cristo, Deus orientou (Habacuque 2.2-3) que ele
escrevesse a visão em tabuas para que todos pudessem ler facilmente,
sendo um sinal do que iria acontecer. Deus queria que todos tivessem
acesso à informação, todos deveriam saber que o sucesso das pessoas
ruins é apenas temporário. As nações violentas seriam arruinadas e
aqueles que lucravam com a injustiça e o crime não iriam escapar do
castigo (Habacuque 2.4-5). Os idolatras não iriam receber respostas nem
proteção, porque somente Deus tem todo o poder.

Direito Individual e Informação Pública


82

A informação como um direito individual está relacionada ao direito


de liberdade de expressão e autonomia, com livre troca de ideias,
auxiliando a tomada de decisões.
A Bíblia e Direitos

O direito de acesso à informação pública está relacionada a vida


coletiva, sendo fundamental no desenvolvimento da cidadania,
garantindo a participação política e os processos democráticos.

O que diz a verdade manifesta a justiça, mas a


testemunha falsa, a fraude.
(Provérbios 12.17)
Informação Pública:
Lei de Acesso à Informação
No Brasil, o direito à informação está previsto na Constituição Federal de
1988. Uma conquista para fomentar uma cultura de transparência que
não tínhamos. Durante o golpe militar (1964-1985), por exemplo, a lógica
era manter todas as ações do governo em sigilo. Usavam o argumento
da segurança nacional para não repassar informações que interferiam na
vida dos milhares de brasileiros.

À medida que todos têm acesso as informações – editais, licitações,


custo de obras, salários dos cargos públicos, despesas governamentais,
investimentos – que dizem respeito a vida comum, essas informações
passam a ser um bem público, permitindo uma maior participação
social e fiscalização dos gastos públicos. A transparência do trabalho,
das ações, das políticas públicas e a criação de uma relação de troca
entre o poder público e os cidadãos é uma das chaves para a ativação
da cidadania. A fim de fortalecer essa ideia foi criada em 2012, a Lei de
Acesso à Informação para garantir que a informação pública tenha, de
fato, um espaço para ser disponibilizada e esteja acessível a qualquer
pessoa, fazendo com que os órgãos públicos facilitem o acesso a
esses dados. Foi criado um mecanismo online que pode ser usado por
qualquer cidadão. Se você quer ter acesso a uma informação que deve
ser pública e, por algum motivo você não a encontra, pode acessar o site
da Lei de Acesso à Informação e fazer um pedido ao governo para que a
informação seja disponibilizada. A lei determina que o governo responda
seu pedido em 20 dias. Para solicitar as informações é necessário entrar
neste endereço. http://www.acessoainformacao.gov.br/

A Bíblia e Direitos
Liberdade de Imprensa
A Imprensa é um conjunto de veículos que trabalham com atividade
jornalística. Emissoras de rádio, de televisão, jornais e revistas formam
esse conjunto, que trabalham diretamente com a informação, transmitindo
notícias, contextualizando dados, promovendo debates e discussões
sobre temas que impactam a vida comunitária.

83
Dessa forma, a imprensa é essencial para a democracia por conta
da relevância do trabalho jornalístico e da responsabilidade em levar
informações para o maior número de pessoas, de forma compreensível.
Aqui está o motivo para a liberdade de imprensa e o direito à informação
caminharem juntos, o Código de Ética dos jornalistas prevê que “o
acesso à informação pública é um direito inerente à condição de vida em
sociedade, que não pode ser impedido por nenhum tipo de interesse,
a divulgação da informação, precisa e correta, é dever dos meios de
divulgação pública, independente da natureza de sua propriedade”.

A imprensa deve ser a guardiã do direito à informação, e deve ser


cobrada para cumprir esse papel, por isso é importante a sociedade
pensar como impedir a formação de monopólios de comunicação, que
é um mesmo grupo controlando diretamente mais de cinco emissoras –
o que compromete a isenção da informação, bem como que vetar que
políticos sejam donos de rádios e televisão.
Liberdade de Expressão e Internet
Ainda que a imprensa tenha um papel de destaque na democracia, a
relação das pessoas com a imprensa mudou, já que quase todo mundo tem
acesso as mais diversas informações na palma da mão, com os celulares,
e não depende de canais que transmitem notícias. Ao mesmo tempo em
que isso é bom, em que as informações circulam mais rapidamente há um
problema com a qualidade da informação.

Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um


com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros.
(Efésios 4.25)
É verdade o que você recebe
no Facebook ou no WhatsApp?
Bilhões de informações são publicadas o tempo todo nas redes sociais,
84

portais, sites e outros canis de comunicação. Muitas dessas informações


têm fontes desconhecidas e não possuem credibilidade, foram escritas
sem checar os dados, sem consultar as pessoas envolvidas.
A Bíblia e Direitos

Mesmo assim, as pessoas repassam essas informações em suas mídias


sociais, disseminando – sem perceber – uma série de notícias falsas,
as chamadas fake news. Não são apenas boatos espalhados sem
nenhuma pretensão, as notícias falsas são escritas e publicadas por
grupos e pessoas, inclusive líderes evangélicos e portais de conteúdo
gospel, interessadas em enganar, a fim de obter ganhos financeiros ou
políticos, muitas vezes com manchetes sensacionalistas, exageradas ou
evidentemente inverídicas para chamar a atenção.

Para que a comunicação da tua fé seja eficaz no


conhecimento de todo o bem que em vós há por Cristo Jesus.
(Filemon 1.6)
Acreditar e Repassar
De modo geral, as pessoas não são treinadas a desconfiar das informações
que recebem e não as checam em fontes confiáveis, que as confirmarão
ou negarão. Além disso, há um fenômeno chamado pós-verdade – que
é as pessoas acreditarem numa informação porque elas querem ou
gostariam muito que ela fosse verdadeira, por conta de suas crenças
pessoais. Mesmo que seja incorreta ou totalmente falsa essa informação,
ainda haverá pessoas que a passarão adiante, pois gostariam que ela
fosse verdadeira, por confirmar a sua visão de mundo. Aqui é importante
lembrar mais uma vez no Cristo que seguimos. Nossa responsabilidade
como cristãos, é a de checar, confirmar, avaliar tudo que recebemos,
retendo o que o verdadeiro (Caros irmãos, absolutamente tudo o que for
verdadeiro, tudo o que for honesto, tudo o que for justo, tudo o que for
puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo
de excelente ou digno de louvor, nisso pensai. Tudo o que aprendestes,
recebestes, ouvistes e vistes em mim, isso praticai; e o Deus de paz estará
convosco – Filipenses 4.8,9). Além de ser coerente com a fé, é a prática
do direito à informação.

As informações certas transformam o mundo. São essenciais para a


tomada de decisões. A Bíblia é o nosso exemplo, é um livro repleto de
informações relevantes e significativas para orientar os que vivem a fé. É
um livro cheio de boas notícias, de boas novas, e que revela o valor da
informação e da comunicação para promover a transformação de pessoas

A Bíblia e Direitos
e lugares. Jesus Cristo, ao vencer a morte, pede que Maria Madalena
anuncie a ressureição (João 20.18). Anunciar a ressureição, informar o
povo que Jesus ressuscitou, é o ponto de partida para a transformação
que a vitória de Cristo sobre a morte oferece. Informar sempre é distribuir
esperança entre os homens.

85
No Brasil, as emissoras de rádios e TV são concessões públicas
- é como se o governo "emprestasse" para as empresas um
espaço para transmissão, que é um bem público. Sendo assim,
você acha que a população pode reclamar do conteúdo?
Qual a relação do direito a informação e a Bíblia?
PARA PENSAR

Qual o valor da lei de acesso à informação


para sua vida particular?
Sendo servos de Deus como devemos nos
comportar nas mídias sociais?
Como você acha que a igreja pode usar a
comunicação para transformar a cidade?
Produção de
Conteúdo
86 A Bíblia e Direitos
O que a Bíblia fala
sobre democracia
O que a Bíblia fala
sobre Crianças
Ariovaldo Ramos é formado em Teologia e Filosofia, idealizador e coor-
denador da Frente de Evangélicos Pelo Estado de Direito.
Pastor Comunidade Cristã Reformada, São Paulo – SP.

O que a Bíblia fala


sobre Direitos
Caio Marçal é cearense, mas mora atualmente em Belo Horizonte/MG.
É teólogo, pedagogo e mestrando em Sociologia pela Universidade
Federal de Minas Gerais. Trabalha com o movimento sem teto, participa

A Bíblia e Direitos
da Rede Fale.

O que a Bíblia fala sobre


Imigrantes e Refugiados
Fabio Ferreira Ramos é formado em Teologia e em Pedagogia, com
especialização em Direitos Humanos. Pastor na Igreja Evangélica Catedral
da Paz e na Igreja Simples e Orgânica nos lares.

87
O que a Bíblia fala sobre
Diálogo com Outras Religiões
Lusmarina Campos Garcia é pastora da Igreja Evangélica de Confissão
Luterana no Brasil, doutoranda em direito pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro, e membro do Conselho Estadual de Defesa e Promoção
da Liberdade Religiosa do Estado do Rio de Janeiro.

O que a Bíblia fala sobre o


Direito a Terra e a Moradia
Marcos Aurélio dos Santos é formado em Teologia, Coordenador do
Espaço Comunitário Pé no Chão, colunista do Centro Ecumênico de
Estudos Bíblicos (CEBI), membro da Igreja de Cristo, Natal, RN.
O que a Bíblia fala
sobre violência
Marco Davi de Oliveira é formado em Teologia, licenciado em História
e mestre em Ciências da Religião. Coordenador do Movimento Negro
Evangélico do Brasil e idealizador e facilitador do Discipulado Justiça e
Reconciliação. É pastor da Nossa Igreja Brasileira no Rio de Janeiro – RJ.

O que a Bíblia fala sobre o


Direito a Saúde para Todos
Milta Neide Freire Barron Torrez é enfermeira, mestre e doutora em
educação. Atua na formação de trabalhadores e docentes em saúde.
Professora da EBD no Projeto Água da Vida no Caramujo, Niterói-RJ.

O que a Bíblia fala sobre a


88

Dignidade da Mulher
O que a Bíblia fala sobre
A Bíblia e Direitos

Direito à Informação
Nilza Valeria Zacarias é jornalista, idealizadora e coordenadora da Frente
de Evangélicos Pelo Estado de Direito, membro da Nossa Igreja Brasileira,
Rio de Janeiro, RJ.

O que a Bíblia fala


sobre a Criação
Serguem Jessui Machado da Silva é diretor da Tearfund no Brasil,
presbítero da Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte - MG.
89 A Bíblia e Direitos

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