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Buscando pensar o texto “Duas Casas” de Ludmila de Lima Brandão, tratando de destacar a

realidade na qual foi pensada sua tese de Doutorado, há uma relação que parece conveniente trazer

nesse inicio, baseada em observações extraídas do Filme “A Guerra do fogo” relacionadas à

produção de um espaço e de um ser.

O morar em cavernas não reduzia esse espaço a apenas proteger das intempéries da

natureza. “Abrigar” relaciona uma ocupação que perpassa a presença física, suas necessidades e o

fazer de uma cultura. As pinturas rupestres talvez trouxessem aspectos de um “fazer espaço” que ao

mesmo tempo em que figuravam uma característica dessa ocupação também fazia do espaço um

ser nas produções de sua existência.

Desde a antiguidade, nas primeiras vestimentas e rituais onde se utilizavam máscaras

confeccionadas e tingidas de formas, observa-se aspectos de um construir do homem pela sua

inventividade que condiciona, pelo coletivo, a utilização dos objetos a uma prática de valores, de

ocupação, de arte e de produção do seu mundo.

O Artigo “As duas casas” nos remete a refletir duas realidades distintas que se entrelaçam

num movimento de territorialização, de acordo com suas necessidades e demandas de um mundo

em constante transformação. Diante da revolução urbana e dentro de contextos históricos de uma

determinada época todos os detalhes são incorporados a uma nova paisagem que nos transporta no

tempo e espaço para as entrelinhas de um habitar. Os espaços são interpretados através do que o

compõe e numa versão a valores do cotidiano e realidades vividas numa constante mutação e

transmutação do olhar arquitetônico.

Cada casa é um símbolo. A casa é vista como um objeto material que serve para

representar uma realidade complexa, representa e encerra a significação de tendências


inconscientes. Sua forma e sua natureza evocam e representam um determinado contexto, algo

abstrato, mas a todo o tempo presente.

A natureza das relações presentes como o elemento e conjunto que envolvem uma

paisagem, organiza também uma aspiração em conjunto e abstraem uma realidade que vai se

constituindo as concepções dominantes e complexos estado de anunciação de cada território e há

processo que assemelha os espaços e os objetos às pessoas. O texto faz uma narrativa que

reterritorializa o modo de descrição de um território, de uma casa e colaca-nos interlaçados ao que

compõe os espaços, como que algo da vida passasse de nós para aqueles lugares.

O texto parece relacionar a ocupação física da casa com a ocupação humana, e que produz

uma singularidade diante da relação de tempo e espaço que se mostram num viver coletivo de uma

casa na zona rural e outra na zona urbana. Os espaços da casa vão se transfigurando na relação

entre pessoas, coisas e numa produção cotidiana de significações. É como um local de acolhida da

potencia inventiva da vida que se estrutura e passa a estruturar o espaço físico com as suas

relações espaciais e existenciais. Voltamos ao texto de Aiôn e Cronos, o ritmo de vida pode parecer

algo certo, previsível como no relato dos afazeres domésticos e rurais, o que nos remeteria a pensar

o tempo como Cronos, definido e estruturado. Porém, o trabalho escrito trata das casas, os afazeres

dela, a utilização dos espaços, os sentidos que são convividos ali como uma experiência possível de

perceber o tempo como Aiôn que traz a força das sensações. Como pode se definir como estruturas

duras esse espaço que faz fluir uma imaterialidade humana que o vem caracterizando? As

conversas no Alpendre, as histórias e mesmo a rotina diária que vão sendo contadas remetem a um

convívio com as garantias dessa casa/espaço na continuidade dessa existência num ritmo coletivo.

As duas casas vão se fazendo de forma a serem distintos convites de permanência, estar e

passagem, permissões de ocupação e experimentação como na passagem em que inicia a casa

“urbana” onde o relato faz parecer à narrativa de uma ação de criança experimentando inventar um
novo espaço, refazendo as estruturas concretas da casa com movimento do corpo e dos olhos. As

pessoas ora vão sendo os moldes desse habitar e ora expressam os valores de um coletivo, isso

vem refletido desde a sua estrutura concreta até na composição dos espaços, suas acolhidas e seus

fechamentos. Vai se mapeando os afectos das coisas da casa, dos objetos, das estruturas e do que

se expande de ocupação pelos sentidos (os cheiros, os sussurros, as presenças).

E dessa capacidade há um sentido outro a se pensar o termo “ocupação” que não é de

comum em planos arquitetônico técnicos.

A descrição da autora vem trazendo na linguagem utilizada as sensações do

posicionamento dos objetos na casa e refletindo aí uma ocupação interativa com os moradores.

Essa capacidade de habitar-se dentro das paredes mixa as formas concretas da casa, as cores e os

aromas com a presença de pessoas. A narrativa se entrelaça com os devires objetos, colocando-os

na ação, e como habitantes do espaço carrega as significações dos moradores. Mesmo não

escapando de uma análise comparatória, não são das casas que vai se dissertando, mas sim do

“fazer casa” das pessoas, que ora estão morando numa zona rural e depois mudam para uma zona

urbana, dos objetos, e dos espaços. São de arquiteturas de existência coletiva, que trazem/fazem

na/da construção de uma casa o espaço de suas expressões, e retiram da condição de obra

concluída para uma obra que pulsa constantemente e possuem a capacidade de migrarem e se

fazerem de outras formas.

São percorridos os espaços da casa pelos sentidos, afectos e matérias. Significando através

dos afectos esses espaços. Diante do que as funções dos cômodos da casa vem singularizando

cada morar torna percebida a transfiguração de devires dos espaços e dos objetos.