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AULA
A importância do trabalho de
orientação acadêmica
Meta da aula
Apresentar a importância e as diversas atitudes
que cercam o trabalho de orientação acadêmica, a
partir de entrevistas realizadas com profissionais de
educação a distância.
objetivos

Ao final desta aula você deverá ser capaz de:


• reconhecer que o trabalho de orientação
acadêmica, para ser relevante, deve basear-se na
construção de uma interação entre orientador e
orientando, que extrapola os meros
aspectos técnicos;
• analisar e refletir sobre a monografia como
conseqüência de um processo de produção de
conhecimento.
PPP 6 | A importância do trabalho de orientação acadêmica

INTRODUÇÃO Um dos aspectos mais característicos da orientação em metodologia


de pesquisa é, através da comunicação, identificar os motivos que fazem
estudantes construírem projetos de uma determinada maneira, e orientadores
de proporem estratégias de investigação ou de reformulação a partir daí. Ter
claro os motivos dessas “escolhas”, ter argumentos claros, é uma atitude que
requer maturidade e autonomia intelectual que se constrói lentamente. Mais
do que manter os acertos e eliminar os erros, alunos e orientadores têm de
saber os motivos destes procedimentos.
A utilização de entrevistas com orientadores que trabalham com educação a
distância foi um recurso utilizado a fim de estimular o aluno a ter uma atitude
de escuta – fundamental na pesquisa – e de uma certa forma acompanhar
os comentários analíticos da aula a partir de depoimentos que certamente
ouvirão de seus próprios orientadores. De alguma forma é satisfatório para
um professor, para um orientador, fazer “com” o orientando ou “como”
o orientando. Não se faz uma monografia pelo aluno, mas pode-se obter
realização por meio da ação dos outros.
Esta aula foi pensada, portanto, como uma espécie de bastidor em que o
aluno poderá ver explicitamente como se constrói uma reflexão que, neste
caso, é sobre o próprio trabalho de orientação. Provavelmente um orientador,
diante do orientando, fará orientação sobre o material e muitos dos aspectos
comentados aqui estarão implícitos.
É possível constatar a dinâmica do trabalho intelectual a partir das representações
sociais dos entrevistados ao definirem o trabalho de orientação como um fazer
e refazer constantes. É possível ainda, ver como o roteiro de questões utilizadas
nessas entrevistas, sendo flexível, permitiu captar aspectos mais “leves” do
trabalho de orientação, do que se as perguntas fossem inflexíveis e não
variassem um pouco a partir dos depoimentos dos próprios interlocutores.
Portanto, ouvir o que têm a dizer diversos orientadores que lidam com
educação a distância parece-me ser uma atitude coerente quando esperamos
que o aluno tenha esta mesma postura quando estiver redigindo seu próprio
objeto e questões de pesquisa.
Antes dos comentários sobre as entrevistas feitas com orientadores,
é importante explicitar os objetivos gerais desta disciplina, intitulada Projeto
Político-Pedagógico 6.

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A disciplina tem o objetivo de ser uma espécie de roteiro de questões para o estudante

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durante o período de orientação monográfica. A prioridade é fazer com que o aluno
perceba a orientação monográfica como uma continuidade do aprendizado, tanto no que
se refere à pesquisa e ao projeto político-pedagógico. As diretrizes éticas e atitudes que
cercam o processo educativo são indissociadas da produção e socialização do conhecimento
e da luta por uma sociedade realmente justa.

Um dos recursos utilizados nestas aulas foi a explicitação do próprio modo de


produzir o roteiro de questões que a compõem, por se tratar de um material
de metodologia de pesquisa e produção de trabalhos finais de curso. Foram
utilizados depoimentos dos próprios alunos da Unirio em avaliações, e entrevistas
com dois orientadores de monografia da instituição, além de entrevistas com
três profissionais de educação a distância da Fundação Oswaldo Cruz a quem
agradeço publicamente, embora seus nomes não sejam mencionados.
Durante as aulas utilizarei vários fragmentos do texto “A escola dos meus
sonhos” de Ruben Alves. O primeiro fragmento nos ajuda a refletir sobre o
que é orientação e perceber que se trata de uma atitude de vida, que pode
aparecer na escola desde seus momentos mais iniciais e que não é exclusividade
ou monopólio dos professores:

Ao nosso lado havia uma mesinha em que três meninas trabalhavam.


Uma delas consultava um dicionário. Ajoelhei-me ao seu lado, para
que nossos olhos estivessem no mesmo nível, e perguntei: 'Tu estás
a consultar o dicionário?' 'Sim`, ela me respondeu. 'Procuras uma
palavra que não conheces?' 'Não, conheço a palavra.' Eu não entendi
e perguntei de novo: 'Mas se conheces a palavra por que a procuras
no dicionário?' Aí ela me deu uma resposta que me produziu outro
susto. 'É que estou a produzir um texto para os miúdos e usei uma
palavra que creio, eles não conhecem. Estou, assim, a preparar um
pequeno dicionário que colocarei ao pé da página do meu texto para
que entendam o que escrevi, posto que ainda não podem consultar
o dicionário por não haverem ainda aprendido a ordem alfabética.'
Fiquei assombrado. Aquela menina tinha clara consciência dos
limites dos conhecimentos dos ´miúdos`. Ela escrevia pensando
neles. Naquela idade, já era uma educadora (ALVES:2003,3).

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ATIVIDADE

1. A partir do fragmento do texto de Rubem Alves, analise os aspectos que


permeiam a relação docente-discente.

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RESPOSTA COMENTADA
Se você percebeu que o ajoelhar “para que os olhos estivessem
no mesmo nível” é uma alusão à crítica da hierarquia escolar; se
você percebeu que o dicionário da história podem ser os livros que
lerá nas bibliotecas enquanto escreve sua monografia, você está
fortalecendo sua percepção e sua sensibilidade sobre o que está
em jogo numa relação de aprendizado, de orientação.

(Caderno produzido por jovens em situação de risco social


no bairro popular Alto Independência em Petrópolis (RJ)
atendidos pelo Centro Educacional Comunidade São Jorge).

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FUNÇÕES FORMAIS DE UM ORIENTADOR

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AULA
Há, pelo menos, duas maneiras de tratar a questão da produção
de monografias quando não dispomos dos projetos de pesquisa, dos
materiais propriamente ditos, e nem estamos interagindo com os
orientandos. Uma delas é engrossar a lista dos manuais técnicos de
como escrever uma monografia – número de páginas, tamanho de letras,
diagramação etc. – e a outra, é analisar a produção de conhecimento
e sinalizar para os perigos institucionais que cercam tal processo,
principalmente no caso da cultura brasileira em que predominam as
relações pessoais e autoritárias. Optei pela segunda possibilidade,
consciente dos limites que o formato destas aulas impõe.
Há um pressuposto que devemos descartar, tanto quando
tratamos de orientação de trabalhos acadêmicos, como quando
discutimos projetos político-pedagógicos – o pressuposto de que os
agentes institucionais e os demais envolvidos no mundo escolar têm
interesse em cumprir as diretrizes programáticas anunciadas pelas
instituições. Isto não significa dizer que belas propostas institucionais
nunca serão cumpridas por seus agentes. Apenas não podemos acreditar
ingenuamente que orientadores institucionais gostam obrigatoriamente
de orientar monografias e que alunos gostam de escrevê-las, ou que
tais produções contribuirão para um conhecimento transformador.
Não podemos igualmente descrer preconceituosamente e ter como
resultado uma atitude pessimista e imobilizadora. O cumprimento de
belos ideais – por vezes contidos nos programas acadêmicos – depende
de uma determinada configuração histórica, do poder de ação e de luta
dos grupos envolvidos. Instituições de educação são espaços de lutas
políticas, ideológicas, de classe, raciais, culturais. É preciso cuidado com
o poder das ideologias antidemocráticas, pois estão camufladas, como diz
o ditado popular “lobo em pele de cordeiro”. Cúpulas de importantes
instituições de educação não assumem as ideologias, pelo contrário, as
dissimulam utilizando belas citações de Paulo Freire e outros autores
consagrados tardiamente no Brasil. Tais colocações podem parecer um
tanto quanto antipáticas, mas são constatadas há muito nas discussões
metodológicas conforme demonstra Eco (1977) no trecho abaixo:

Pode acontecer que o candidato faça a tese sobre um tema imposto


pelo professor. Tais coisas devem ser evitadas.

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Não estamos nos referindo, evidentemente, aos casos em que o


candidato busca o conselho do mestre. Aludimos antes ou àqueles
em que a culpa é do professor (...) ou àqueles em que a culpa cabe ao
candidato, privado de interesse e disposto a fazer mal qualquer coisa
para se ver livre dela o mais depressa possível (ECO:1977,6).

Antes de partirmos para a explicitação do roteiro de perguntas


e para a análise das respostas, convém lembrar de forma bastante
simplificada, informativa e esquemática, as funções formais de um
orientador:

• Responsabilizar-se por um número limitado de alunos


– de acordo com critérios das instituições de pesquisa
como CNPq e CAPES e outras agências de financiamento
de pesquisa – após aceitar a atividade de orientação e
estar formalmente constituído para tal função.

• Orientar o aluno nos aspectos metodológicos do desenvol-


vimento do projeto de pesquisa previamente construído
e aprovado.

• Responsabilizar-se pela execução de um cronograma de


atividades montado a partir dos prazos institucionais em
que a pesquisa está sendo desenvolvida,

• Ler o material enviado pelo aluno e sugerir bibliografia


teórico-metodológica.

• Enviar comentários por escrito e – no caso de cursos


de educação a distância – interagir pela plataforma, de
preferência on-line.

• Autorizar o aluno a apresentar a monografia para a banca


examinadora apenas quando ela cumprir todos os pré-
requisitos formais e apresentar densidade de conteúdo
compatível com o nível do curso em questão.

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ROTEIRO DE PERGUNTAS E COMENTÁRIOS SOBRE AS

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RESPOSTAS

AULA
As entrevistas que serviram de base para a produção desta aula
foram realizadas com cinco profissionais que trabalham com educação a
distância e seguiram um roteiro que buscava produzir dados sobre o que
era o trabalho do orientador, a partir das reflexões e experiências destes
profissionais. As entrevistas buscaram explorar mais o compromisso
ético do orientador do que os aspectos técnicos. O conteúdo dos
depoimentos demonstrou que, de fato, este aspecto estava em sintonia
com as preocupações dos próprios interlocutores.
O trecho abaixo confirma tal posição que possibilitou com que
pudéssemos explorar o conteúdo e as atitudes de orientação propriamente
ditas:

O lado formal e ético é fundamental em qualquer profissão (...)


muita gente acaba achando que o técnico prevalece... eu não
consigo ver assim....a gente não pode formar robôs que decorem
textos, façam as suas aulas preparadas de acordo com um método,
uma técnica e depois cheguem ... e descarreguem isso em cima
das pessoas, já que nós estamos falando em pedagogia, formando
professores.

As perguntas giraram em torno da visão que se tem do


orientador – ora amado, ora odiado – de qual atividade seria mais fácil,
a de orientador ou a de orientando; das possibilidades e limites das
monografias, dissertações e teses como instrumentos de avaliação do
conhecimento; e da lembrança de um caso que envolvesse o entrevistado
como orientador ou como orientando. As perguntas foram sofrendo
ligeiras alterações à medida que o diálogo foi se construindo, o que
demonstra que a situação de interação em uma entrevista é também
produtora de conhecimento.
Destacarei algumas características atribuídas aos orientadores
e ao texto monográfico, seguidas de comentários.

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O ORIENTADOR

O orientador foi retratado, pelos entrevistados, inicialmente como


um professor distanciado tanto do aluno como do objeto, como alguém
que tem condições de olhar de uma forma mais científica, como alguém
que fornece bases para que o aluno se sinta mais seguro.
Outro depoimento apresenta o orientador como “uma espécie de
facilitador em vários níveis – há uma formalidade acadêmica mínima...
na hora da escrita, na hora do recorte do tema, da problematização.
Testar hipóteses, fazer um contraponto, questionamentos... não tem
muito segredo.
Mais um depoimento aponta na mesma direção de ser o
orientador alguém que ocupa uma posição privilegiada, específica no
arranjo da produção científica:
Eu acho que o orientador não é – ao contrário do que muitas
pessoas imaginam – uma pessoa que sabe tudo, e que vai
orientar a pessoa, mostrar a verdade, mostrar o caminho. O
orientador é – digamos assim – o interlocutor privilegiado,
é o interlocutor que o aluno vai ter pra debater, pra refletir,
é um auxiliar na produção das questões. Evidentemente
que, com maior conhecimento da bibliografia, do campo
como um todo, e com experiência de metodologia, não só
bibliográfica, teórica, mas de desenvolvimento de pesquisa
na medida em que, como professor-pesquisador, ele tem esse
acúmulo de práticas.

...É um interlocutor para que o aluno tenha um debate


permanente nesse momento da produção da monografia,
para que não seja uma tarefa isolada, alienada.

Embora cada entrevistado tenha uma formação acadêmica


específica, todos vêem o trabalho de orientação como uma busca de
compreensão do ponto de vista da perspectiva do outro:
Orientador é aquele que acolhe uma questão, e isso já
representa muito. A partir daí tem um primeiro encontro
que vai das questões que o aluno traz e das perguntas que
o orientador mantém da sua própria prática, trajetória
acadêmica ou não.

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O orientador é representado como alguém envolvido em um

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encontro de questões a partir de “um interesse comum partilhado”.

AULA
Tal aproximação exigiria uma “aproximação entre pessoas que exige
bastante cuidado e estímulo.” E continua:
Basicamente o papel do orientador é conseguir generosamente
acompanhar o aluno nas suas próprias questões. O orientador
que consegue isso, acompanhar esse movimento do aluno,
tem algum papel também de estimular esta trajetória, de
abrir caminhos e não direcionar muito. Porque eu acho que
aí há um processo de criação, de pesquisa mais autêntico
se ele consegue acompanhar o aluno criando um percurso
de trabalho. E a partir daí há um trabalho possível que
seja verdadeiramente autêntico, criativo e que resulte num
projeto, num produto, em algo que tenha algum sentido para
os dois e possivelmente para outros grupos envolvidos.

O orientador foi representado como um facilitador, um


interlocutor privilegiado, um acolhedor de questões. O distanciamento
crítico faz lembrar a perspectiva antropológica de estranhamento do que
é familiar e a familiarização com o que é distante, exótico. Estranhar
o familiar significa ter uma visão crítica dos fatos e representações
que, de tão introjetados, já nos parecem naturais e não produções da
história, da cultura. Tornar o exótico familiar é diminuir as distâncias
do etnocentrismo, é buscar possibilidades de diálogo entre diferentes
culturas.
Apesar da caracterização positiva que cercou o primeiro
depoimento, o entrevistado fez distinções entre diversos tipos de
orientadores. E ainda considerou que um grupo de orientadores seria
preferível a um único orientador, ainda mais por conta da precariedade
da orientação institucional mesmo em instituições de graduação.
Algumas dificuldades e características do trabalho de orientação
foram se somando ao longo dos depoimentos, conforme observamos a
seguir:

1. o grau de domínio da linguagem científica dos orien-


tandos seria uma variável significativa no trabalho destes
orientadores;

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2. a distância entre o senso comum e a abordagem


científica;

3. o tempo necessário ao aprendizado:


Quando você pega um orientando que não tem uma
formação acadêmica mais sólida, você acaba fazendo um
esforço maior... é um aprendizado lento você aprender as
filigranas da pesquisa acadêmica, da pesquisa científica. A
gente tem idéias que vêm do senso comum – idéias esparsas
– acha que tem a verdade com a gente e vai colocar a
nossa opinião ali, mas há uma forma específica, aceitável
cientificamente de colocar a sua opinião. Porque na verdade
você não vai colocar a sua opinião, você vai discutir com
a comunidade científica a sua opinião. E como fazer isso
num texto acadêmico? Aí vem o orientador para tentar lhe
incluir nesta discussão. Facilitar para que a sua opinião [do
aluno] se transforme num tema científico, entre na ordem
da cientificidade.

O tempo necessário para transformar opiniões em discussões


válidas no campo acadêmico sem tirar a liberdade do orientando:
Não querer que o trabalho do aluno não seja uma repetição
de suas próprias questões... muitas vezes exige tolerância
para este tempo da aprendizagem, esses atravessamentos
que são precisos [necessários].

A MONOGRAFIA

A monografia, propriamente dita, retrataria o trabalho do


orientando e do orientador? Até que ponto é um instrumento confiável
de avaliação em tempos em que você encontra bancos de monografias
para venda na própria internet? Será que o velho dizer “o caderno é o
retrato do aluno” é válido para os trabalhos de graduação?
As primeiras respostas foram otimistas como comprova o
depoimento a seguir:
A monografia é uma síntese do conhecimento do aluno no
final do curso... O curso a distância é muito novo, nós não
temos muito claro os resultados aqui no Brasil.

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O interesse pelo conhecimento é a base do ensino

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universitário, seja ele a distância, seja ele presencial. Eu

AULA
acho que a monografia é muito importante. Talvez seja uma
espécie de happy end, um final feliz que poderia se imaginar
de um curso. Por quê? A monografia será uma fonte de
avaliação do curso (...) a distância.

O primeiro depoimento vinculou a questão da monografia à


questão mais ampla do ensino superior presencial ou a distância. Isto
me fez lembrar o que ouvi durante uma reunião com tutores (professores
de educação a distância). Ouvi que a educação a distância não poderia
ser vista como uma solução para todos os problemas da educação
presencial. A afirmação pode ser em parte coerente se pensarmos que
ela depende, muitas vezes, dos mesmos interesses e agentes institucionais,
ocorrendo por vezes nas próprias dependências das instituições de ensino
convencional. A educação a distância não opera milagres.
Embora não seja prudente fazer da educação a distância uma
solução para todos os conhecidos e graves problemas da educação,
certamente ela cria possibilidades de interação entre aluno e professor
que poderiam superar a inércia institucional no campo tradicional da
educação. A postura do aluno tem de ser mais ativa ao enviar dúvidas
para os tutores e, também, pelo fato de esse contato ser feito muitas vezes
por escrito. Isto sem contar nas possibilidades oferecidas pelos recursos
da multimídia. Se estas possibilidades serão utilizadas, ou estas atitudes
tomadas, se de fato a postura cotidiana dos alunos dos cursos a distância
estará mais sintonizada com as exigências da pesquisa acadêmica é uma
questão a ser investigada.
Resta ainda dizer que o ensino a distância pode reavivar os
estímulos que a educação pode ter para educadores, por exemplo, pela
necessária simplicidade, clareza e objetividade da linguagem, e pela
atitude ativa do professor com o aluno. As novidades têm a capacidade
de fazer com que repensemos a respeito do sentido de nossas práticas.
Por isso, a educação a distância pode, sim, representar um desafio para
a superação de boa parte dos problemas da educação.
De volta estritamente aos depoimentos gravados nas entrevistas,
um dos orientadores articulou a dimensão privada e pública a partir da
monografia. Embora as mudanças aparentes de temáticas façam parte

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PPP 6 | A importância do trabalho de orientação acadêmica

de uma busca que é bastante marcante de trajetórias individuais, o seu


produto tem um valor e um uso públicos. O conhecimento científico
não é obra do talento e da genealidade individuais, é o resultado de uma
produção coletiva e de uso coletivo.
A importância da monografia para o aprendizado, para a
trajetória de vida e profissional das pessoas – como foi levantado na
Aula 1 – é mencionada por uma entrevistada:
A monografia tem um sentido público, um caráter de produção
pública, direcionada ao leitor, às pessoas interessadas. Por
mais que a gente mude de campo aparentemente, as nossas
questões têm um universo muito próprio.
Então eu acho que o orientador que tiver essa visão de saber
problematizar, de levantar, de questionar, de fazer a pessoa
continuar pensando, continuar produzindo(...) mais do que
ensinar o aluno a fazer aquela monografia, a desdobrar
uma monografia, está passando culturalmente uma forma
de produzir conhecimento. No futuro, esse aluno poderá ser
uma pessoa a reproduzir isso com outros alunos, com outros
colegas de trabalho, com pessoas que ele vier a ajudar. Muitas
pessoas que trabalham em instituições ajudam muito a outros
[companheiros] a fazerem pesquisas por terem absorvido
essa conduta, essa forma de pensar.

Para finalizar a seleção dos principais depoimentos em torno do


papel do orientador e da importância da monografia, deixo o registro
do que de mais marcante ficou para um dos interlocutores do diálogo
que procurei socializar nesta aula:
O fundamental é a liberdade que eu sempre tive com os meus
orientadores. Se o orientador não fizer isso, acaba não saindo
um trabalho de qualidade.

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ATIVIDADE FINAL

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AULA
Recapitule sua trajetória no curso e selecione algumas situações em que foi
orientado pelos tutores.

COMENTÁRIO
É importante que perceba uma continuidade metodológica entre o
trabalho de acompanhamento que teve até o momento e o que ora
está vivenciando.

INFORMAÇÃO SOBRE A PRÓXIMA AULA

Na próxima aula tomaremos um fragmento dos bastidores de um trabalho


acadêmico buscando discutir sobre a científica do conhecimento.

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