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PROTAGONISMO E PARTICIPAÇÃO

EM SÃO BERNARDO DO CAMPO


OLHARES PELO CALEIDOSCÓPIO
Nilza Aparecida de Oliveira - Víctor Huerta Arroyo - Sérgio Vital e Silva
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Esta publicação contou com a inestimável contribuição da direção e dos Agentes de


Participação Cidadã (APCs) do Departamento de Planejamento Participativo (DPP)
REALIZAÇÃO: MUNICÍPIO DE SÃO BERNARDO DO CAMPO da Secretaria de Orçamento e Planejamento Participativo (SOPP):
Copyright 2015 © Município de São Bernardo do Campo
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Renata Aparecida Chaves João Batista da Silva Lima
Protagonismo e participação em São Bernardo do Campo. Olhares pelo caleidoscópio. Clara Judith Piñon Rodriguez Nabeshima João Juvino Barros Neto
Alfredo Silva Araújo Jonas Ruiz de Oliveira
Antenor Veríssimo da Silva José de Arimateia Teixeira
Município de São Bernardo do Campo
Antônio Bezerra da Silva José Leopoldino de Melo
Edição em português Antônio Vicente de Sousa José Manoel Fernandes
ISBN: 978-85-60452-04-0 Carlos de Souza Coelho José Maria de Oliveira
Cinthia da Silva Santos Luiz Carlos A. de Oliveira
352.34 S2416 – Município de São Bernardo do Campo – Protagonismo e participação em Claudecir dos Santos Lemos Marise Figueiredo Sampaio
São Bernardo do Campo. Olhares pelo caleidoscópio. Débora Vilma Micheline da Silva Gomes
Dulcinéia Bueno Misael Dantas da Silva
320 p.; 23x30 cm
Edvaldo Sousa Santos Orizilda Marques Ferreira
Elenilson de Melo Silva Roberto Leonardi
1ª Edição – Todos os direitos desta edição reservados. Francirleide Alves Queiroz Robson de Lima Gomes
Francisco de Sousa Carvalho Ronaldo de Araújo Couto
Esta publicação contou com o patrocínio da Sociedade Educacional das Américas. S.A., Francisco Diógenes Ferreira Gomes Sérgio Lhopes
de acordo com edital de chamamento número 01/2015, publicado no jornal Notícias do Gilmo Acioli de Oliveira Valéria Ducca Cintra
Givaldo Dantas Bispo Vanuza Farias Lacerda
Município, de São Bernardo do Campo, em 24 de abril de 2015.
Gustavo Silva Santos Zulmira Marques Ormedilla

Assistência ao Projeto Fotográfico e Apoio Administrativo


Maria Cristiane de Oliveira Rocha
José Felipe Guatura
PARA FACILITAR A LEITURA USAMOS O USO GENÉRICO DO MASCULINO. Selma Pereira Lima
ESTA EDIÇÃO NÃO PODE SER COMERCIALIZADA. Simone Viana Santos
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Realização:
MUNICÍPIO DE SÃO BERNARDO DO CAMPO

LUIZ MARINHO
Prefeito

FRANK AGUIAR
Vice-prefeito

Secretaria responsável pelo projeto do livro:


Secretaria de Orçamento e Planejamento Participativo

Secretária NILZA Aparecida DE OLIVEIRA

Secretário adjunto SÉRGIO VITAL E SILVA

Coordenador do projeto VÍCTOR HUERTA ARROYO

Equipe de Governo:

Secretário de Administração e Modernização Administrativa JOSÉ AUGUSTO GUARNIERI PEREIRA

Secretário de Assuntos Jurídicos e Cidadania MARCOS MOREIRA DE CARVALHO

Secretário de Chefia de Gabinete MARCOS DUARTE

Secretário de Comunicação FÁBIO CASSETTARI

Secretário de Governo JOSÉ ALBINO DE MELO

Secretário de Cultura OSVALDO DE OLIVEIRA NETO

Secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo HITOSHI HYODO

Secretária de Desenvolvimento Social e Cidadania MÁRCIA BARRAL

Secretário de Educação Paulo Dias Neves


Secretário de Esportes e Lazer JOSÉ ALEXANDRE PENA DEVESA

Secretário de Finanças PAULO JOSÉ DE ALMEIDA

Secretário de Gestão Ambiental JOÃO RICARDO GUIMARÃES

Secretária de Habitação TÁSSIA DE MENEZES REGINO

Secretário de Planejamento Urbano e Ação Regional / Obras ALFREDO LUIZ BUSO

Secretário de Relações Internacionais TUNICO VIEIRA

Secretária de Saúde ODETE GIALDI

Secretário de Segurança Urbana CÍCERO RIBEIRO SILVA

Secretário de Serviços Urbanos TARCÍSIO SECOLI

Secretário de Transportes e Vias Públicas OSCAR JOSÉ GAMEIRO SILVEIRA CAMPOS

Coordenador de Ações para a Juventude AUGUSTO MIOLARO

Coordenador de Área da Agência Rudge Ramos RAMIRO MEVES

Diretor Superintendente do Instituto de Previdência - SBCPrev Jefferson José da Conceiçăo

Presidente da Fundaçăo Criança Maurício Soares de Almeida

Procuradora Geral do Município ADRIANA SANTOS BUENO ZULAR

Subprefeito de Riacho Grande WAGNER LINO


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“Para estudar o passado de um povo, de uma


instituição, de uma classe, não basta aceitar
ao pé da letra tudo quanto nos deixou
a simples tradição escrita. É preciso fazer
falar a multidão imensa dos figurantes
mudos que enchem o panorama da história
e são muitas vezes mais interessantes e
mais importantes do que os outros, os que
apenas escrevem a história”
Sérgio Buarque de Holanda
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Sumário
159 As Pessoas
14 Qual é o tamanho do seu amor por São Bernardo? 160 Marlene nos contou: Uma criança na porta
17 As veredas e os caminhantes 163 Encontro de multidões. O perfil do cidadão
21 Olhares pelo caleidoscópio 168 Acreditar para inovar. A desconfiança
25 Como ler este livro 176 O que pensar? Diga-me! A influência
182 O ser sociológico. As decisões emocionais
29 A vida 186 Estranhamentos e autocrítica. A dissonância cognitiva
31 Antônio nos contou: A sucuri 189 Luís nos contou: O espírito dos ventos
34 A vida como obra de arte
37 Como se constrói uma ideia
193 As Tensões
43 Um ponto de apoio para movimentar o mundo 195 Ana nos contou: As primeiras letras
47 Quando faltam as palavras 196 O futuro e suas projeções. Curto e longo prazo
51 O espírito de uma época 200 O universo na casca de noz. A parte e o todo
58 Flávia nos contou: De olhos bem abertos 206 A sociedade dos indivíduos. Individual e coletivo
212 Desconstruindo um preconceito. Técnico e leigo
60 A cidade 219 Responsabilidade e omissão. Direitos e deveres
63 Joanice nos Contou: De carona 224 Valores em negociação. Concessão e restrição
64 Um território de fronteira 230 Contrariando uma verdade. O problema
71 Encontros e desencontros 237 Roberto nos contou: Dias sem noites
74 Trabalho, luta e oportunidades
78 Travessias, progresso e urbanização
238 As inércias
82 A cidade das pessoas 241 Guiomar nos contou: Quem tem amor tem tudo
90 Pedro nos contou: São Bernardo não para 242 Um girassol sem sol
247 Um ciclo que se repete
95 O projeto 251 Cristalizadas e resilientes
97 Manoelzinho nos contou: Correndo atrás do caminhão 254 O risco da domesticação
99 Participação, um conceito inacabado 260 A liberdade como caminho natural
105 O protagonista como construção 264 Domingas nos contou: Costurando para todos
110 Diversidade, fragmentação e unicidade
114 Enfoque e provocações
266 Os recursos
119 Nosso reflexo no espelho 268 Manoel nos contou: Tem açúcar que não adoça
125 Maria nos contou: O super-herói da vila 271 A viagem de Ulisses. O canto das sereias e o recurso
275 Percursos incompletos. A cidade reconectada
128 O Conceito 278 Reforma e política para refundar o Brasil. A participação como recurso anticíclico
131 Dulcineia nos contou: Um diário para não ser lido 282 A cidade que é da nossa conta. O orçamento participativo
133 Como aprisionar um conceito. Deslocamentos e paralisias 290 Plurianualidade, uma forma de projetar o futuro. Plano Plurianual Participativo
136 As muitas formas de dizer. A polissemia 296 Conceição nos contou: A cura dentro da gente
142 Valores do dia a dia. A cotidianidade
148 A beleza das coisas inacabadas. A contínua construção
299 o caminho
157 João Batista nos contou: Força e mente 303 Para onde vamos?
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Qual é o tamanho do seu amor por São Bernardo?


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A fadiga da viagem, de tantos anos de esforço e sacrifício, não é capaz de


apagar as lembranças das façanhas realizadas. A épica em São Bernardo do
Campo cabe tanto na atualidade como nos tempos dos heróis da antiguida-
de. Não foi menor a luta do nosso povo nem as adversidades às quais foi
submetido. É por isso que as vitórias que trazemos para contar não são
poucas nem pequenas, mas absolutamente justas e motivo de um orgulho que
é preciso recuperar para enfrentar o futuro com a pretensão de querer
que seja melhor a cada dia.

Da mesma forma como coexistem diferentes quereres pela cidade, há também


distintas formas de pensar, cada uma delas referente a um tipo de visão
construída da realidade. Em cada forma de ver as coisas estão incluídas
circunstâncias, emoções, conhecimento, memória e sensibilidades. É, des-
de as alturas dessas atalaias, que contemplamos e interpretamos a vida.
Por conta dessa visão imperfeita, rica em distrações, ninguém tem total

Qual é o tamanho do seu amor por São Bernardo? domínio da verdade, apenas fragmentos incompletos. Apenas visões comple-
mentares, sem verdades absolutas.

Não deveria ser uma resposta difícil nem provocar constrangimentos. Amar Trazer à luz o conhecimento de uma sociedade, fazendo emergir seus diversos
uma cidade não pode ser uma obrigação, mas, do mesmo modo como ocorre saberes não é tarefa fácil. Séculos de sombras empobreceram e submeteram
com outros tipos de amores, um movimento natural e espontâneo do cora- as visões de protagonismo insurgente sob o manto opressor da verdade
ção. É uma reação individual, na esfera íntima, sobre a qual não incidem única. O protagonista teve de renunciar ao seu direito de contar a his-
serventias. tória, para aceitar sua história da forma como era contada pelos outros.

Contudo, aceitar uma relação afetiva com o território nos permite encon- Assim, este livro que nasceu da participação para falar sobre participação
trar lugares de profundos significados, construídos com a mesma maté- espera contribuir na restituição do papel do protagonista na história
ria-prima que alimenta a vida. A cidade é muito mais do que um espaço construída e no devir de novas histórias, que, ancoradas no futuro, ainda
utilitário. É o lugar da nossa história. Vê-la somente como um lugar im- esperam ser contadas.
pessoal, agressivo e alheio, maculado pela violência e o desassossego é
justamente não enxergar a parte do problema que nos cabe. Esse frequente Portanto, é com imensa satisfação que apresento a vocês essa prova do nosso

sintoma que transfere responsabilidades e se omite de compromissos não amor por São Bernardo do Campo, pela cidade e suas pessoas, pela sua

chega a ser um desamor, mas um tipo de cegueira contagiante e agressiva visão plural e diversa, pelo seu cuidado em fazer dela o melhor lugar

que nos torna indiferentes. de se viver.

A cidade que temos não é a cidade que encontramos. Ninguém parte do zero. Custou, mas veio a justa reparação. Nosso trabalho não foi em vão.

A herança recebida por sucessivas gerações continua a ser transformada


Amigas e amigos, o futuro é agora.
pela força do trabalho e da determinação dos filhos dessa terra. Não há,
portanto, lugar para a indiferença. Há uma responsabilidade coletiva
Boa leitura,
que precisaremos abraçar. Um legado que demandará de nós perseverança e
energia: valores conhecidos que nos trouxeram até aqui, exatamente até Luiz Marinho
o lugar que hoje ocupamos. Prefeito
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As veredas
e os caminhantes
Dizem que o primeiro passo nunca é o primeiro, sempre há um prece-
dente, um momento anterior. A construção de uma visão compartilhada
de futuro em São Bernardo do Campo não é exceção. A própria história
de formação e consolidação do município tem sido um exemplo de su-
cessivos e entrelaçados esforços com olhares de futuro. Esse olhar a
longo prazo, insuflado pelos ventos do crescimento econômico, elevou
a altura dos nossos edifícios e cortou a terra com modernas rodovias,
trouxe dinamismo e riqueza. Mas essa etapa desenvolvimentista, por
ter sido descompassada, fragmentada e desigual, não foi capaz de
vencer as mazelas trazidas pela exclusão. Um alerta moral dessa ini-
quidade impedia celebrar os avanços de uma cidade que esbanjava saúde
e prosperidade, mas dessangrava pelas vielas das suas periferias.
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A tarefa de esboçar e implementar um plano de desenvolvimento a longo pra-


zo para uma cidade não é tarefa fácil. Fazer dele um plano agregador e
participativo, em que estejam priorizadas as diferentes visões comuns ou
antagônicas, é um desafio. Uma das iniciativas inspiradas em unir futuro e
participação foi o projeto “São Bernardo do Campo 2021”, que, sob a ótica
da “cidade desejada”, elaborou propostas e desenhou caminhos de convergên-
cia com outras inciativas que vinham surgindo na cidade desde 2009. Nessa
linha, o processo do Plano Plurianual Participativo (PPA), de espectro
sociedade que é chamada a participar. Desconstruir a figura do participante
mais amplo, conseguiu edificar a partir dele uma plataforma de diálogo com
racional não significava descompromissar o governo, mas responsabilizá-lo
a população, que, articulada com os processos de Orçamento Participativo
muito mais por ações que chamamos anticíclicas. Ou seja, aquelas capazes
(OP) e acompanhada por iniciativas como o Plano Diretor Urbano, entre ou-
de vencer as fortes inércias que fazem de nossos hábitos, individuais ou
tras, deu coerência ao processo de planejamento na cidade e consistência
institucionais, estruturas fortes difíceis de corrigir.
à lógica do ciclo orçamentário a curto, médio e longo prazo.
Os resultados obtidos e apresentados neste livro surgem como ferramentas
As motivações do projeto São Bernardo do Campo 2021, entretanto, não ficaram
auxiliares para interpretar a complexa trama comportamental dentro da
restritas à esfera do PPA, mas enveredaram para visibilizar os saberes da
qual tomamos decisões. Os novos parâmetros de ordem revelados nos levaram
população partindo do conceito de “protagonista” como fio condutor de uma
a revisar quem somos e quais os recursos necessários para disciplinar o
nova abordagem a ser desenvolvida.
nosso comportamento em face da construção de uma cidadania ativa capaz de

Em 2012 publicamos o primeiro livro que conjuga planejamento e memória his- exercer seu poder para além do voto.

tórica na cidade: São Bernardo do Campo, 200 anos depois. A história da


Dentre os resultados mais importantes podemos destacar o sentido polissê-
cidade contada pelos seus protagonistas. Este livro buscou enriquecer o
mico, cotidiano e inacabado do conceito de participação, assim como a
fato histórico com a liberdade narrativa dos participantes. Uma aventura
manifestação de tensões profundas e enraizadas que atentam contra qualquer
crítica que não se esgotou na revisão do passado, mas sinalizou diretrizes
esforço de visão compartilhada e construção coletiva de futuro.
e inquietações sobre o futuro.
Essas verificações e a ideia de naufrágio social nos ajudaram também a
Em 2014 a proposta foi revisitar os saberes da população a partir de um pro-
destruir uma série de axiomas e a trabalhar honestamente desde uma
jeto denominado “Protagonistas da participação em São Bernardo do Campo”.
perspectiva de reformulação total de nossas antigas verdades.
Dessa vez, o objeto trabalhado foi a “participação cidadã” e o entendimen-
to que a população constrói a partir dela, desde seus espaços cotidianos Resulta insuficiente a promoção de espaços de diálogo e o investimento robusto
de atuação. Essa iniciativa foi importante porque trouxe insumos para des- em metodologias de partilha de poder, sem considerar as tensões que se
mistificar os valores da cidade desejada e avançar na construção da cidade encontram presentes tanto no participante como no agente público, suas
possível. Ainda sem perder o horizonte do futuro idealizado, entender a estruturas fortes, suas inércias e tudo aquilo que quando não é visibili-
matéria-prima disponível no tecido social foi um passo fundamental para zado tende a domesticar iniciativas tão poderosas como a participação ou
reconhecer quais são as veredas e quais os caminhantes. mesmo a democracia.

A percepção tradicional de participação cristalizou entendimentos que fa- Este projeto, em suma, é apenas o começo de uma relação reformulada que
ziam dela um fato natural à espera de uma oportunidade; as construções incorpora aspectos da economia comportamental e avança na construção da
coletivas como uma feliz consequência desses espaços; as decisões e es- cidade que queremos ver, com a sociedade que queremos ser. Dois conceitos
colhas naturalmente pautadas pela racionalidade; entre outros fatores inacabados cujo sucesso dependerá das possibilidades de transcender tanto
que desconsideravam valores emocionais, conflitos e tensões presentes na em nível pessoal como coletivo.
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Olhares pelo
caleidoscópio
As pessoas já não olham para o céu querendo identificar as estrelas.
As lunetas da nossa infância que apontavam para o alto deixaram de
causar assombro e foram substituídas de forma abrupta, ficaram na
gaveta ou se quebraram sem reposição. Não eram mais necessárias.
Talvez porque o firmamento azul que nos cobria durante o dia ficou
mais cinza e seus contornos mais difusos.
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Na lembrança do tempo dos descobrimentos todos nós fomos levados a transitar


pela incerteza do desconhecido por conhecer. A cidade, a família, os ami-
gos, os vizinhos, as pessoas à nossa volta. Infindável tarefa de tradução
nesse momento de abertura pelo que passamos no longo caminho de formação
da nossa identidade.

Os anos se passaram e o manto escuro e estrelado daquelas noites do passado


perdeu seu brilho e seu contraste. Menos encantador, deixou de inspirar
ilusão. A noite ficou clara, as estrelas se apagaram e, sem elas como
referência, os brinquedos que as olhavam perderam seu sentido. Os jura-
mentos e até as promessas de amor ficaram anacrônicas, descontinuadas,
quase sem lugar para seguir existindo.

Nesses tempos de encantamento, os sonhos das crianças poucas vezes aban-


donavam a aspiração de conquistar as alturas e voar, de caminhar por
sobre as copas das árvores e roçar com a palma da mão delicada o seu
ponto mais alto. O céu almejado, patrimônio de super-heróis, era si-
nônimo do incomensurável, do sem limite, do infinito, de tudo aquilo
que cabe no sonho, que vai além do imaginável e do possível. Aquele
era o mundo por descobrir, e a nossa luneta a eficaz ferramenta de
aproximação.

Mas a vida e suas urgências ficaram mais práticas, suas necessidades mais
prementes. A nossa forma de viver e a própria forma de sonhar, conse-
quentemente, perderam poesia. Nos desenhos infantis, o sol voltou a
ser amarelo, o mar azul, a terra ocre. Nesse tempo da razão não cabia
mais a fantasia de árvores sorridentes ou de falantes seres dançando na
floresta. Todo curso dʼágua devia voltar a obedecer um trajeto definido,
perdendo a liberdade de decidir diariamente o melhor caminho para seu
caudal.
Olhar pelo caleidoscópio é recuperar a nossa capacidade de assombro, brin-
Assim, deixamos as roupas que serviam no passado, mas que não servem mais,
car novamente com as formas que nosso mundo nos oferece, reconhecer sua
e crescemos. A nossa mirada renunciou ao mundo das estrelas para que
diversidade, imaginar e projetar figuras e realidades além da realidade.
os nossos olhos, apequenados, pudessem capturar o mundo real. A nossa
Significa apostar no que não existe e acreditar que tudo pode chegar a ser
linguagem se adaptou para tratar com outros, que, como nós, abandonaram
possível. Significa voltar a elevar a mirada, enxergar o infinito e trazer
suas lunetas, reais ou imaginárias, para seguir em frente. Perdemos o céu
as estrelas para dentro de nós.
pela necessidade de lidar com a terra e suas demandas. Perdemos, talvez,
a capacidade de olhar mais longe e entender que algumas respostas não Pode ser que a figura do caleidoscópio seja uma pequena metáfora em prol de
estão à simples vista, mas escondidas por trás das nuvens da imaginação ressignificações muito maiores. Nesse momento, ela é apenas um convite
mais fértil e da criatividade. para arriscar.
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Como ler este livro


As páginas aqui apresentadas sugerem ao leitor uma narrativa pouco
convencional. Talvez seja oportuno dizer que este tampouco é um
livro convencional. Preferimos chamá-lo de um não livro, porquanto
ele precisa ser entendido como muito mais que um conjunto de pági-
nas de papel encadernadas que organizam uma obra meritória. O livro
convencional se debate entre a atenção e a indiferença do leitor,
pois depende dele para ganhar vida e transmitir sua mensagem. O não
livro é a construção de uma história alinhavada por milhares de fios
de memórias vivas que não dependem de papel para subsistir.
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A ideia de termos nas mãos um não livro significa a oportunidade de entregar-se,


não apenas a uma narrativa linear composta por uma apresentação tradicio-
nal, pelo desenvolvimento de um tema pertinente, pela evolução escalonada
de um raciocínio em que sínteses, teses e antíteses se articulam por entre
seus parágrafos. Não apenas. E não poderia ser de outro modo. Este não li-
vro é muito mais do que uma sequência lógica e racional de um processo que
se encerra na última página com um epílogo provocador. O que temos aqui é
uma janela para mirar. O que veremos, contudo, será apenas o reflexo de nós
mesmos. Portanto, longe de qualquer imposição de narrativa convencional,
queremos convidá-lo a experimentar uma nova possibilidade de leitura.

Trata-se de um trabalho meticuloso que precisa de repetidas investidas para que


possa provocar em você o mesmo assombro que provocou ao longo do período em
que foi concebido; com frequentes idas e vindas, com insistentes reformula-
ções, com distintos enfoques e profundas aprendizagens. O percurso contará
com nove paradas ou estações, cada uma com um apelo de complementariedade com
as outras, mas independente também. Os textos e as fotografias, e a própria
ideia, são advindas dos resultados de uma pesquisa sobre participação e com-
portamento. Todavia, uma ideia em tinta, impressa no papel, continua sendo
uma ideia. Como consequência, este documento, longe de estar finalizado, é um
caminho cheio de alcances e possibilidades.

Ou seja, este não livro é um momento de inquietação que queremos provocar


e, para tanto, poderá também ser aberto em qualquer página e visitado a
qualquer hora com a intencionalidade que o momento e seu estado de âni-
mo julgarem oportuno. Seja para uma leitura cuidadosa e refletida, seja
para percorrer a profundidade das suas frases, seja para transitar entre
as imagens que retratam o mundo lá fora e o universo dentro de nós. Ou
para simplesmente manusear o testemunho material de um legado construído
por centenas de histórias imateriais e intangíveis. Este não livro nos
convida a frequentá-lo repetidas vezes, a revisitá-lo na expectativa de
novos descobrimentos, de fazê-lo próximo.

Encontramo-nos diante de um projeto aberto, arejado e filosófico, profun-


damente sintonizado com um mundo em constante mutação. Portanto, não
caberia fazer dele um produto estático, desconectado da própria natureza
do tema que hoje demanda de nós esse momento de reflexão.
Seja bem-vindo a este universo que hoje abrimos para você. Puxe as cortinas.
Se quiser ler este não livro corretamente, abra-o ao acaso, ande para trás
e para frente, trace seu próprio mapa. Divirta-se. Abra a janela. Estamos todos do lado de fora esperando por você.
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A vida
“Eu sou o que sou, porque eu vivo da minha maneira...
Você procurando respostas, olhando pro espaço
E eu tão ocupado vivendo
Eu não me pergunto, eu faço!”
No fundo do quintal da escola, Raul Seixas
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O meu avô contava que as casas dos índios não tinham portas viradas para
o rio. Os índios sabiam do perigo que corriam e faziam as suas casas pro-
tegidas com as portas em direção à montanha. Assim evitavam ser vistos
e hipnotizados pela sucuri. Essa história era contada e recontada tantas
vezes que parecia estranho ouvi-la sempre com a mesma atenção, como
se fosse a primeira vez. Afinal de contas, a terrível sucuri havia sido uma
vez humana. Vítima de uma desgraça passou a infernizar a vida dos ainda
vivos. Mas também passou a enriquecer o imaginário popular, povoando
de criaturas fantásticas a minha infância no vale do Jequitinhonha. A nossa
casinha na cidade de São Pedro também tinha uma porta nos fundos, mas
distante do rio. Ainda garoto, não entendia sua função. Realidade e fan-
tasia se misturavam por entre as montanhas da região mais rural e pobre
das Minas Gerais.

Antônio nos contou: A sucuri

Quarenta e dois anos depois, já em São Bernardo, depois de tantos


anos no chão da fábrica, de tantas greves, de tanto lutar, de tanto enfren-
tar o preconceito e chorar calado, hoje recordo a minha infância, emocio-
nado. Já pintei alguns quadros buscando preservar essas histórias. Quem
sabe um dia possa desenhar uma porta de frente para o rio para que os
índios, assim como eu, possam ser capazes de enfrentar a realidade e do-
miná-la. Na minha vida fui forçado a olhar nos olhos de muitas sucuris, mas
foi aqui em São Bernardo onde aprendi a entrar e sair sempre pela porta
da frente.

ANTÔNIO DE AMARAL SANTOS


(São Pedro de Jequitinhonha - MG, 1953)
Morador do bairro Assunção
33
35

A vida como obra de arte


Perguntado sobre que tipo de ética poderíamos cons-
truir como sociedade, o pensador Michel Foucault 1

Reconhecer na cidade a existência de um acervo de peças ra-

respondeu que teríamos de criar a nós mesmos como ras, valiosas e desconhecidas era iniciar a busca por um
tesouro que esteve sempre à vista, mas curiosamente per-

obra de arte. O fato de que cada pessoa poderia se maneceu ignorado até tempos recentes.

A obra de arte do ser humano é sua própria constituição como

tornar uma obra-prima constituía uma provocação sujeito. É o resultado de seu valor de identidade, de sua
coragem para deslocar-se, de não permanecer o mesmo, de

audaciosa, considerando que tendemos a relacionar pensar o que não pensara antes. Tecnicamente era a ruptura
da ideia de que a identidade individual nos é dada para

a beleza artística aos objetos e não aos indivíduos abraçar a convicção de que precisamos criar a nós mesmos
num percurso de inúmeras travessias e intercâmbios.

ou à vida. Talvez por isso não deveríamos perseguir Essa obra inacabada que é o ser humano busca ser retratada
nas seguintes páginas a partir da beleza das suas realiza-

apenas o belo e o grandioso, mas a vida, em suas im- 1_ Michel Foucault (Poitiers, França, 15 de
ções e dos conflitos advindos das suas próprias contradi-
ções. E, nesse jogo de luzes e sombras, emerge a sociedade

perfeições, e que toda e qualquer história vale por outubro de 1926 – Paris, França, 25 de junho
de 1984) foi filósofo, historiador, sociólogo,
filólogo e crítico literário. Suas teorias abor-
que temos, desnuda de preconceitos ou visões românticas.
Surge um retrato realístico da nossa própria imagem no
dam as relações de poder na sociedade, o espelho. Surge, em definitivo, a matéria-prima de qualquer
si e, portanto, merece ser contada. conhecimento e o controle por meio de ins-
tituições sociais. obra de arte possível.
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Como se constrói uma ideia


Dizia o poeta Mário Quintana que não basta viver a vida,
uma vida precisa ser sonhada. E, entre os diversos
sonhos possíveis de serem sonhados, aquele da cidade
desejada tem sido um dos mais recorrentes.
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Alimentada de visões diversas, inclusive antagônicas, modela-


ram-se mundo afora teorias e práticas capazes de apontar os
caminhos para chegarmos lá. Aquele Eldorado2 conceitual, no
entanto, tem se mostrado um percurso acidentado que, como a
linha do horizonte, se afasta à medida em que nos aproximamos
dele. O horizonte, como diria Eduardo Galeano3, estará sempre
distante, portanto precisa ser visto, não como um destino ao
qual chegar, mas como um poderoso pretexto que nos obriga a
caminhar. De certa maneira, os desafios desses tempos implicam
mais valor para não abandonar as lutas de resistência do que
para o desfrute de vitórias definitivas e conclusivas. E, nesse
contexto, pequenas vitórias precisam ser celebradas. A viagem,
longa e enfadonha, demandará desses momentos de pausa para re-
compor o ânimo, encher os pulmões de ar, olhar adiante e seguir
andando.

Os planos da cidade desejada exigem imaginação e atitude, colo-


cam-nos num momento anterior ao desfrute da cidade almejada,
marcam um ponto de início para não esquecer onde estamos e
desafiam-nos ao exercício de aproximar o futuro ao presente, de
materializar objetivos, de transformar a realidade. Contudo,
não existe cidade desejada sem sociedade desejada. Não há ci-
dade sem pessoas, como não existe sonho sem desejo.

A cidade das pessoas é uma ideia e o seu desenvolvimento o campo


no qual se circunscrevem todos os nossos esforços. Essa ideia
esteve alimentada por um propósito que esboça um caminho por
onde andar e que termina onde se fitam os olhos: a nossa linha
do horizonte.

Entretanto, essa ideia e aquele propósito demandavam um objeto a


partir do qual delimitar as margens da nossa reflexão. A cidade 2_ Eldorado é uma antiga lenda indígena da
das pessoas é também um espaço diverso e infinito de contrastes, época da colonização das Américas e atraiu
muitos aventureiros. A lenda fala de uma ci-
em que é fácil naufragar quando faltam referências. Surge, as- dade feita de ouro maciço.

sim, a participação como tema maior, capaz de servir de guia e


3_ Eduardo Germán Maria Hughes Galeano
condutora nessa viagem de reconhecimento. Como vemos, às vezes (Montevidéu, Uruguai, 3 de setembro de
1940 – Montevidéu, 13 de abril de 2015)
somente uma ideia não é suficiente para iniciar a travessia, mas foi jornalista e escritor, considerado um dos
mais destacados autores da literatura lati-
é basicamente dela que virão todos os próximos passos para al-
no-americana. Seus trabalhos combinam
cançar os portos da nossa história. ficção, jornalismo, análise política e história.
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Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.


− Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? − Pergunta Kublai Kan.
− A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra − responde
Marco Polo − , mas pela curva do arco que estas formam.
Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:
− Por que falas das pedras? Só o arco me interessa.
Marco Polo responde: − Sem pedras o arco não existe.
As cidades invisíveis, Ítalo Calvino
43

Um ponto de apoio
para movimentar o mundo

A física é uma ciência que estuda a natureza e seus


fenômenos. Embora a cidade das pessoas não tenha
lugar fora desse mundo natural, a obra do ser
humano fica excluída dessa definição. Esta visão
tradicional das coisas naturais delimita uma fron-
teira que começa com o surgimento da criatividade
de um ser inteligente, capaz de exercer soberania e
protagonismo sobre seu entorno. Tudo aquilo que
tenha sido alterado substancialmente na matriz
original da natureza passa a ser artificial.
45

Podemos dizer que a cidade das pessoas é o resultado da própria


natureza estabelecida sobre um mundo de matéria artificial, um
mundo construído à base de ideias. Mas uma ideia não se basta
como lampejo criativo, precisará de ferramentas que possam
compensar as limitações da própria constituição do protago-
nista. Nesse sentido, a história da civilização tem sido o
resultado dessa sucessiva ascensão e queda de ideias e instru-
mentos. O Homo faber4 da ciência, conhecedor da arte da mani-
pulação de ferramentas, ergue sublimes construções, mas perece
diariamente nos campos de batalha mais sangrentos, nas ágoras
da cidade artificial ou na cotidiana discordância do mundo à sua
volta. Ideias e ferramentas têm sido responsáveis pelas nossas
maiores conquistas, mas têm ocasionado também profundas feridas
e cicatrizes terríveis no rosto visível da nossa humanidade.

Nesse ponto, talvez seja oportuno resgatar da tradição uma frase


do matemático Arquimedes5, que à sombra dos templos da velha
Siracusa teve por bem refletir sobre esses temas há milhares de
anos. O seu valor descansa não na fidelidade das suas palavras,
que podem não ter sido essas, mas no espírito provocador que
conseguiu sobreviver ao tempo. Disse ele: “Dê-me um ponto de
apoio e moverei o mundo”. A partir desse momento, não está-
vamos apenas diante da força de uma ideia, ou da eficiência
de uma ferramenta para lograr as transformações desejadas.
Estávamos, definitivamente, sendo demandados de um tipo de
condição externa a nós, que estava além da ação individual e
da nossa capacidade de transformar aquilo que surge natural.
A ideia de movimentar o mundo é somente uma parte do desafio,
a alavanca usada como ferramenta para esse propósito é apenas
uma tecnologia. Assim, a informação mais valiosa, e a mais
difícil de obter, será o lugar exato onde fazer ideia e fer-
ramenta coincidirem, e ter sucesso. Esse lugar hipotético é
conhecido como ponto de Arquimedes5. Não é um lugar geográfico,
ou matéria de estudo da física convencional. Não é natureza, 4_ Homo faber é uma locução latina que
mas construção artificial. É construção humana, e como tal é um significa “o homem que fabrica”. O escritor
latino Appius Claudius Caecus (340 a.C – 273
fator complexo de difícil leitura. É conjuntura. É condição. a.C) a usou pela primeira vez para referir-se à
capacidade dos seres humanos de controlar
É tempo. É probabilidade. É tudo aquilo que está nas mãos do A cidade das pessoas, portanto, deverá firmar suas ideias, traba-
seu destino.
outro, no campo da negociação, da política, da incerteza. É um lhar seus instrumentos e desenvolver as condições para o sonho
5_ Arquimedes de Siracusa (Siracusa, Itália,
território em extramuros. É o lugar de encontro emocional onde 287 a.C. — Siracusa, 212 a.C.) foi matemáti- acontecer. Resta dizer que se a sina das nossas mãos é a cons-
co, físico, engenheiro, inventor e astrônomo.
um coletivo pode fazer germinar, ou acaso defenestrar, aquele trução artificial de um mundo que se afasta da natureza, que a
É considerado como um dos principais cien-
sonho de cidade desejada. tistas da Antiguidade Clássica. nossa redenção seja o dever de superá-la em beleza.
47

Quando faltam as palavras


Inefável é tudo aquilo que não pode ser expresso
em palavras. E não é raro esbarrar em situações em
que à falta delas restem brilho e justiça àquilo que
gostaríamos de dizer. Machado de Assis escreveria
6

entre a desesperança de quem viveu e dependeu dos


seus favores que “a melhor definição de amor não
vale o beijo de moça namorada”. Essa limitação que
as palavras têm para dizer, de conter completamen-
te um significado, pode ter colaborado para que o
mundo preserve, à margem do que é dito, um valor
íntimo de percepção intrasferível. Um valor que nas-
ce e morre dentro de nós.
49

Parece que usamos apenas de aproximações e generalizações para


nos comunicar e, sendo isso suficiente, dialogamos e interagi-
mos com desenfado e naturalidade até a hora em que caímos na
insatisfação de precisar nomear aquilo que parece não ter como
ser dito. Trata-se de uma emoção ou conceito complexo que de
tão largo ultrapassa o valor da palavra e o tamanho da nossa
capacidade de expressá-la. Esse bem perdura em nosso interior,
mas falece corrompido apenas nos abandona. Oxida-se ao conta-
to exterior. Se empequenece. Perde luz. Agostinho de Hipona7
disse que essa característica é comum nas coisas e nos seres
imanentes, cujo patrimônio começa e termina na sua própria
realidade e, encerrada nela, esgota seu ser e seu fazer. Mas
se a imanência é uma característica inata, a transcendência é
precisamente a capacidade inversa de vencer as restrições da
experiência individual e trazer para fora a ideia, o ser e o
fazer. Mesmo que se tenha de usar as limitações da linguagem,
daqueles códigos e sinais com os quais aprendemos a dizer as
coisas. 6_ Joaquim Maria Machado de Assis (Rio
de Janeiro-RJ, 21 de junho de 1839 – Rio
de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um
O valor da transcendência é inefável, mas pode ser algo que se dos mais representativos escritores da língua
portuguesa.
aproxime do ganho de quebrar o casulo e transbordar. E, nesse
mundo onde faltam as palavras, precisaremos inventar novas, 7_ Agostinho de Hipona, conhecido univer-
salmente como Santo Agostinho (13 de no-
qualquer uma que possa nos levar até a outra margem, até aque- vembro de 354, Tagaste, Numídia, Argélia –
28 de agosto de 430, Hipona, Argélia) foi um
le outro lado onde mora tudo aquilo que fica para além de nós
dos mais importantes e influentes teólogos e
mesmos. filósofos dos primeiros anos do cristianismo.
51

O espírito de uma época


Olhar para uma cidade em retrospectiva significa
enfrentar o antigo paradoxo do viageiro que retor-
na à sua terra e percebe que, embora tudo tenha
mudado, tudo continua igual. É evidente que cidades,
assim como pessoas, enfrentam o tempo e a ele se
submetem, mudam, transformam-se, dobram-se aos
anos. Contudo, há sinais que permanecem como va-
lores inalienáveis, que ainda nos retratam e pelos
quais conseguimos ser identificados pelos outros.
Falamos de características que não são as que
eram, mas que distam daquilo que poderão chegar
a ser no futuro.
53

O caráter de um lugar é composto por uma sobreposição de diversas


camadas de identidade, algumas com maior protagonismo do que
outras, seja por valores que permanecem no imaginário das pes-
soas e definem hierarquias, seja por injustiças sociais herdadas
de outros tempos, mas ainda ativas.

Essa essência particular de um período não é uma fotografia do


momento, mas um fotograma na longa trama de um filme, que para
ser entendido precisa ser lido em contexto. Esse valor, que
não pode ser interpretado sem conhecer o antes nem imaginar o
depois, é o que definimos como o espírito dos tempos: o valor
de uma época.

Para explicar o pensamento de um povo é preciso se situar no momen-


to histórico particular daquela sociedade. Assim o entenderia
Johann Herder8, que, no século 18, delimitaria com uma palavra
o perímetro dentro do qual designar o acúmulo alcançado por uma
civilização ao longo de sua história: o Zeitgeist.

Trata-se de observar o momento atual com discernimento crítico e


refletir sobre tudo que foi feito, por aquilo que construímos,
pelo resultado que as nossas ideias tiveram no desenvolvimento
intelectual e cultural do mundo à nossa volta, mas observado com
as lentes de uma moral e sentido estético que vê do único ponto
possível de observação: o momento presente.

Uma cidade como a nossa, ou como todas, possui características


que são maiores do que a soma das suas partes em separado,
e algumas leituras demandam do observador distanciamento e
perspectiva para entendê-las na complexidade das suas partes
componentes, mas também na sua totalidade e valor unitário.
Tarefa difícil e desafiadora, dadas as densas brumas de uma
época marcada por deslocamentos de sentido, imprecisões de
entendimento e orfandades. Essa sensação de não pertenci- 8_ Johann Gottfried von Herder (Mohrun-
gen, Prússia Oriental, 25 de agosto de 1744
mento pode construir a falsa impressão de que vivemos em um − Weimar, Alemanha, 18 de dezembro de
1803) foi filósofo e escritor, conhecido tam-
não lugar, em um não tempo, encerrados num corpo social sem
bém por recopilar, da tradição oral, literatu-
memória e sem espírito. ras e canções populares da Idade Média.
55
57
59

Duas pessoas nasceram naquele dia. A minha menina e eu. Ela nasceu
magrinha, cega total, com lábio leporino, frágil, quase desenganada. Eu,
desde esse dia, sou outra. A minha vida mudou completamente. Mas não
mudou somente pela responsabilidade de cuidar daquela criaturinha que
Deus colocou no meu ventre. Mudou porque naquela hora entendi que
não sabia nada da vida. A cega era eu. Todos os dias observo a superação
da minha filhinha e vejo que ainda preciso muito para me igualar à força
e determinação que ela tem para superar os obstáculos do dia a dia. Pre-
conceito? Ela abraça todo mundo. Beija todo mundo. Brinca. Quer ser
chamada pelo nome: Lívia. Não gosta de ser tratada como um ser estra-
nho. − Por que as pessoas pensam que não posso ser uma criança feliz? −
pergunta ela. A minha menina cumprimenta todo mundo sempre sorrindo.
− Que saudade da sua voz, tia! − Que saudade da sua voz, tio! −Que voz
bonita! − Que bonita que você é, tia. Sua voz é linda!

Flávia nos contou: De olhos bem abertos

Que vontade de ser feliz, contagiante. Quanto tenho aprendido com


ela. Que dádiva divina Deus colocou no meu lar. Se engana quem pensa
que ela não é perfeita. Quem é nessa vida? Suas perguntas me fazem
refletir constantemente: − Como é o sol mãe? Como é uma nuvem? E as
cores mãe, como são? Desde aquele dia na maternidade quando a enfer-
meira me disse que a minha filhinha não era uma criança perfeita, não paro
de agradecer pela oportunidade de ter me transformado numa pessoa
melhor, num ser humano mais sensível e otimista. Como vejo o mundo
hoje? Do jeito dela. Vejo o mundo com os olhos da minha filha.

FLÁVIA DIAS MOURA Amaral


(São Bernardo do Campo - SP, 1976)
Moradora do bairro Batistini
61

A cidade
“Naquele império, a arte da cartografia alcançou tal
perfeição que o mapa de uma única Província ocupava
uma cidade inteira, e o mapa do Império uma Província
inteira. Com o tempo, estes mapas desmedidos não
bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram
um Mapa do Império que tinha o tamanho do Império
e coincidia com ele ponto por ponto”
Do rigor da ciência, Jorge Luis Borges
63

Uma cidade imaginária... Isso era São Bernardo para mim.


Não recordo muita coisa do meu pai. Era um rosto num pequeno qua-
dro na sala. Era uma carta breve e dinheiro todos os meses. Depois de tan-
tos anos em São Paulo, a esperança do reencontro era cada vez mais dis-
tante. As pessoas falavam coisas sobre ele. Não gostava de ouvir. Crianças
precisam sonhar com liberdade. Eu sonhava tão fortemente que todos os
dias papai chegava em casa.
Em Vitória da Conquista as crianças crescem rápido. É um tipo de apu-
ro que poucos conhecem da Bahia. Há uma urgência por crescer. Talvez
seja uma necessidade ou uma defesa que criamos por conta de uma infân-
cia tão breve.

Joanice nos Contou: De carona

Depois da morte da minha mãe o mundo desmoronou. Sem opções,


decidi viajar até São Bernardo. Na beira da estrada, sozinha, com 14 anos,
pensava na cidade imaginária. Os caminhões passavam levantando poeira
e eu pensava no meu pai. Pensava que não havia caminho cumprido capaz
de impedir os meus sonhos de menina. A felicidade morava longe. E eu ia
de carona.
Hoje estou aqui. Trinta anos depois. Não encontrei o que vim buscar,
mas encontrei novos motivos para ser feliz e acreditar. Sou mãe. Adotei
uma criança carente. Ela entra no guarda-roupa e se esconde. Eu a procu-
ro. Ela ri. Eu rio junto. Dessa vez ela pode sonhar com o futuro. Não temos
muito dinheiro, mas temos esperança. Nossa pequena família feliz está
aqui, na nossa querida cidade real.

JOANICE ALVES DE OLIVEIRA


(Vitória da Conquista - BA, 1966)
Moradora do bairro Assunção
65

Um território de fronteira
O que um dia foi apenas um caminho hoje é um lugar
de destino. Visto como o ponto culminante de quem
vence a serra subindo o mar, ou como antessala à
barreira natural amuralhada que preserva o litoral,
São Bernardo do Campo redefine-se como um lugar
de fronteira.
67

Uma terra onde se encontram duas formas de viver: a cidade e o seu


meio natural exuberante. Esse encontro não tem sido pacífico,
mas tensional. E não podia ser diferente, pois uma fronteira é
justamente um espaço de resistência que demanda tempo e tra-
balho para delimitar seus contornos e consolidar a paz. Esses
dois territórios parecem estar amalgamados por uma bela junta
de águas represadas que refletem o céu e correm serenas por entre
as entranhas verdes da Mata Atlântica.

Mas essa cidade e os influxos que recebe não são recentes. A vila
antiga, uma das primeiras afastada do litoral no Brasil, teve
vida efêmera. Nasceu em 1553 como Vila de Santo André da Borda
do Campo, para findar logo após em 1560. Aquela vila, fundada
pelo português João Ramalho, não deixou ruínas, mas um registro
emocional profundo. Surgiu como uma pausa estendida no caminho
dos tropeiros e adormeceu sonhando com o embrião de uma inci-
piente ideia que veríamos acontecer séculos mais tarde.

Com a história retomada, a origem e o nome da cidade nos levam até


os beneditinos que, assentados na região, batizaram em 1717 uma
de suas fazendas com o nome do santo interceptor. Ao redor des-
se enclave religioso surgiria um povoado e com ele um recomeço
auspicioso. Essa trajetória ganharia em 1812 o seu primeiro re-
conhecimento político-administrativo. Era a criação da fregue-
sia de São Bernardo. E posteriormente, em 1889, o seu primeiro
título como município. Mas essa história foi rica em incidentes
e acidentada e prolífera em desmembramentos e adesões. Em 1938
São Bernardo perderia seu status conquistado e permaneceria
rebaixada até 1945 quando, graças à organização e mobilização
dos seus moradores, ressurgiria definitivamente como município,
dessa vez mais forte e provida de sobrenome, assim nascia São
Bernardo do Campo.
69

“Cultura é gente, diversa, plural,


multifacetada, que na identidade
de cada um forma o caldo
coletivo que alimenta a história”
Sérgio Mamberti
71

Encontros e desencontros
No tempo da escravidão, no Brasil, é possível que
os indígenas tenham ensinado aos negros os se-
gredos da floresta, as propriedades mágicas das
plantas, suas qualidades alimentícias e curativas.
Dessa mestiçagem é provável que tenha surgido um
tipo de fraternidade inspirada na luta contra um
inimigo comum. A figura do opressor parece ter
provocado, como saldo, o aparecimento de um tipo
de identidade difícil de antecipar entre povos de
costumes e tradições tão diversas, mas compreen-
sível, dadas as condições impostas pela conquista.
73

Esse Brasil incipiente e as bases de formação da identidade bra-


sileira foram amplamente retratadas no século 20 em livros
como Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre9; Raízes do
Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda10; e Formação do Brasil
contemporâneo, de Caio Prado Jr.11 Das interpretações clássicas
podemos resgatar o caráter miscigenado que nos caracteriza
e que torna inútil uma classificação das pessoas apenas pelo
aspecto físico. O Brasil mestiço é um lugar de encontros e
desencontros. Há fatores herdados. Há perdas. Há surgimentos.
A própria língua portuguesa recebeu nesta terra valores e so-
noridades desconhecidos e improváveis na península.

Somos, portanto, um produto social particular. Somos, sem chegar


a ser totalmente, o retrato fiel de colonizadores portugueses,
de indígenas nativos e de negros africanos. Incorporamos, de
norte a sul do Brasil, diferentes bagagens culturais, relati-
vas aos povos imigrantes que chegaram em grandes quantidades
durante décadas da Europa, da Ásia e da América espanhola.
Somos, com singularidades, um povo em construção que viu pas-
sar na sua história transições infindáveis de gerações, sem,
contudo, alterar as velhas estruturas sociais de opressão que
sobreviveram.

Não obstante, a constituição nacional vai além das origens e li-


nhagens dos muitos povos encontrados. Ela é cinzelada pelas
pedras da terra em que pisamos. Somos o resultado do agreste
9_ Gilberto Freyre (Recife-PE, 15 de março
nordestino, do cerrado, das serras e restingas, dos pampas,
de 1900 − Recife, 18 de julho de 1987) foi
do litoral e da floresta. Somos tudo aquilo que esta terra foi sociólogo, antropólogo, poeta e escritor. Sua
obra busca uma interpretação do Brasil sob
capaz de nos dar e principalmente de nos negar. ângulos da sociologia, antropologia e histó-
ria.
E, naquele lugar entre caminhos, na ondulante geografia sobre a
10_ Sérgio Buarque de Holanda (São Paulo
qual surgiria a Vila de São Bernardo, resta à imaginação re- -SP, 11 de julho de 1902 — São Paulo, 24 de
abril de 1982) foi historiador, crítico literário
criar aquele primeiro encontro. O leão português dos Ramalhos e jornalista. É considerado um dos maiores
se uniria com a nação dos Guaianazes e em colaboração, portu- intelectuais brasileiros do século 20, reco-
nhecido pela sua leitura da estrutura social
gueses e indígenas, lutariam bravamente contra povos hostis e e política do Brasil, a partir das suas raízes
históricas.
perigos da própria natureza. Dessa vez, as bases da identidade
que uniriam povos de concepções tão desiguais estiveram mar- 11_ Caio Prado Jr. (São Paulo-SP, 11 de feve-
reiro de 1907 — São Paulo, 23 de novembro
cadas pela conquista, defesa e preservação de um território. de 1990) foi historiador, geógrafo, escritor,
político e editor. Na sua obra se identifica
Justamente aquele território sobre o qual é difícil se omitir
a busca pelas raízes da sociedade colonial
quando queremos contar uma história, ou construir um futuro. brasileira.
75

Assim como Manoel, milhares de meninos, homens e mulheres deixaram


o lugar de nascimento rumo ao desconhecido destino das oportu-
nidades.

Desde as primeiras plantações de batata às olarias. Desde a te-


celagem às marcenarias e aos móveis. Das carvoarias à química,
à metalurgia e à indústria do automóvel. Força criativa que
alumbrou as primeiras cooperativas e sindicatos que organizaram
as atividades e os direitos dos trabalhadores, assim como a sua
luta nesses tempos de crescimento e industrialização. Foram
diversos os motivos pelos quais filhos e filhas desse país justi-
ficaram a sua vinda, deixaram as suas famílias e começaram uma
vida nova nessa cidade em formação.

E os caminhos serpenteantes de terra se uniram aos caminhos tem-


pestuosos do mar, e de todas as direções o encontro entre os
muitos povos prosperou ampliando o mapa original e colocando em
destaque a força da região. O ABC paulista era mais do que um
lugar entre Santos e São Paulo, era uma terra de desejos onde
expectativas eram forjadas e materializadas à base de trabalho,
suor e saudade.

Trabalho, luta e oportunidades Daquela terra prometida construída por sucessivas migrações foi
surgindo uma identidade com cara de trabalhador, retratada pela
sua luta e seu poder transformador. E desse universo em forma-

Quando Manoelzinho, ainda menino, saiu da sua cidade ção, o céu do ABC se iluminou com novos resplendores e matizes.
Os pés das chaminés sacudiram gigantes suas fuligens e viram,

e subiu no ônibus rumo a São Bernardo, o mundo do alto, a vida florescer em diversidade. Pelas suas estradas,
sem portas nem barreiras, a vila viu chegar artistas, poetas e

parecia se expandir vertiginoso em todas as direções. estudantes. Aprendemos a produzir conhecimento, a universalizar
o saber, a levantar o olhar e argumentar. As primeiras letras
do alfabeto que nos deram identidade ficaram pequenas diante da
A sua pequena cidade no interior da Bahia era até utopia. Eram caminhos impensados no passado. Ganhamos asas e um
novo coração, orgulhoso e soberano.

então o centro do universo e o epicentro de todas O chão que era dos outros passou a ser nosso, pois a história e a

as constelações que de noite se assomavam nessa vida construída repousam no chão da terra onde se pisa, dentro
dos lindeiros que demarcam o horizonte da nossa vista. Cada lu-
gar é, à sua maneira, o mundo. E o lugar onde estamos é a parte
parte do Brasil. desse mundo que nos foi dada para cuidar.
77
79

Das suas considerações sobre industrialização e urbanização ob-


servamos o cuidado reflexivo sobre a espantosa dimensão e magni-
tude das populações rurais compelidas a transladar-se. Nenhuma
cidade brasileira, dizia ele, estava preparada para receber
os êxodos rurais produzidos em consequência dos processos de
industrialização da metade do século passado. As cidades, na
sua maioria concebidas sob traçados e configurações coloniais,
foram transbordadas para além das suas capacidades. O resultado
esperado foi o declínio das condições de vida nas cidades, a mi-
serabilização da população urbana e as enormes pressões sociais
resultantes das tensões por trabalho e moradia.

A urbanização caótica representava, portanto, não apenas uma con-


sequência do magnetismo e forte atratividade da cidade por sobre
a vida no campo, mas a degradação do mundo rural e a decomposi-
ção de um modelo de exploração de recursos, imaginários coleti-
vos, e relações sociais constituídas até então.

Os fluxos migratórios que o Brasil experimentou eram, em muitos

Travessias, progresso casos, um caminho de mão única, incontornável, de abandono e


renúncia. Esse êxodo de dimensões quase bíblicas, assemelhava-se
às primeiras viagens do descobrimento rumo às terras míticas

e urbanização de Pindorama. Não havia guerreiros tupis-guaranis à procura do


mar, nem bandeirantes aventureiros em busca de ouro e fortuna.
Dessa vez, os passos foram dados por pessoas comuns, filhos de um

O sociólogo Antonio Candido ao se referir a Darcy


12 Brasil interior, desconectado e marginal, dispostos a enfrentar
os sacrifícios da dura travessia, resistir e arriscar num cená-
rio desconhecido de possibilidades e incertezas.
Ribeiro , um dos maiores intelectuais brasileiros,
13

A vida nas cidades desse Brasil da modernidade desenvolvia-se ver-

declara que admirava nele não apenas a elegância tiginosamente. O progresso trocou a ordem pela marginalidade.
As populações imigrantes, expostas ao abandono, enfrentavam

e qualidade do seu trabalho, mas sua capacidade de descaso, precariedade e violência. A cidade oficial fingia dis-
tração e, desinteressada, negava a evidência do seu próprio
crescimento. Para defender-se da exclusão, mas principalmente da
viver muitas vidas numa só. É precisamente Darcy, saudade, a periferia saberia preservar zelosa a sua musicalida-
de, o verso, a prosa e os temperos da terra deixada para trás.

uma das peças ineludíveis para o entendimento so- 12_ Antonio Candido de Mello e Souza (Rio
de Janeiro-RJ, 24 de julho de 1918) é soció-
logo, literato e professor universitário.
Assim como Darcy Ribeiro13, muitos viram a sua essência transbor-

bre a formação e o sentido do Brasil, sobre o povo 13_ Darcy Ribeiro (Montes Claros-MG, 26 de
outubro de 1922 − Brasília, DF, 17 de feve-
dar. Uma cidade demandante exigia viver muitas vidas numa só.
Ninguém permaneceria igual. Ninguém voltaria a ser como era.
reiro de 1997) foi antropólogo, escritor e po-
Todos, de uma maneira ou de outra, sabiam que dessa viagem não
brasileiro e o país dentro de nós. lítico, conhecido pelo seu trabalho com foco
nos povos indígenas e na educação no país. havia forma de conservar-se imune.
81
83

A cidade das pessoas


Foi com paixão e desgosto que o economista Celso
Furtado diria, ainda no fim da última década do sé-
14

culo passado que “em nenhum momento da nossa


história foi tão grande a distância entre o que so-
mos e o que esperamos ser”. Expressava assim, numa
epígrafe, um sentimento de frustração quanto à si-
tuação da nação em matéria de desorganização da
sociedade e destruição das suas forças produtivas.
85

Nessa perspectiva, qualquer aproximação ao universo da cidade


seria incompleta sem reconhecer os efeitos dos ciclos econô-
micos na vida das pessoas. Principalmente aqueles relativos
aos problemas causados pelo próprio subdesenvolvimento, mas
também àqueles provocados pela busca desenfreada da construção
de um projeto incompleto de nação, trilhado apenas pela via da
industrialização.

Dizem que raramente uma geração percebe quando a corrente da


história muda de rumo. Nos tempos da transição econômica, por
exemplo, não foram menores as vozes e interesses que chegaram
a defender a vocação agrária do Brasil. Seria, pois, a própria
defesa pelo caminho da industrialização a incumbida de incor-
porar nos seus pressupostos a responsabilidade pela superação
das profundas iniquidades na geração e distribuição da riqueza
entre os brasileiros. Esse apelo para corrigir as fraturas
sociais serviu de justificativa ideológica para fazer os inte-
resses de uma burguesia industrial parecer falar em nome dos
interesses de toda uma nação.

Para tanto, a primeira etapa nessa construção de autonomia era


minimizar os fortes laços de dependência e subordinação com
os países centrais, produtores de manufaturas de alto valor
agregado. Uma relação de troca desigual que condenava as nações
agroexportadoras a perpetuar o atraso e a prolongar o ciclo vi-
cioso da pobreza. Houve avanços, mas, apesar deles, o desenrolar
dessa conturbada história que transitou entre pontos altos e
severas crises parecia ainda procurar as condições de bem-es-
tar e equidade pregoadas, naquela época, ao som dos motores do
desenvolvimento.

Olhando em perspectiva, resulta evidente que a memória de São


Bernardo do Campo e sua identidade, por sobre qualquer outro
período, beberam da fonte da história da industrialização do
suburbanizada e desumanizada presenciou o nascimento, no seu
Brasil. São parte dela. E, produto dos seus sucessivos ciclos
seio, de movimentos engajados na promoção e defesa da justi-
de formação e consolidação como cidade, é incontestável que o
ça social, no direito à cidade, no novo sindicalismo, entre
tempo da industrialização a fez adquirir os seus atuais mati-
outros.
zes urbanos, sociais e a configuração espacial que herdamos nos
dias de hoje. A cidade das indústrias transformou-se na cidade das pessoas,
14_ Celso Monteiro Furtado (Pombal-PB, 26
de julho de 1920 — Rio de Janeiro-RJ, 20 pois é delas o patrimônio da aprendizagem para dialogar e
Mas desse modelo de cidade não surgiram somente chaminés, mas ex- de novembro de 2004) foi um economista
reconhecido pelas suas ideias sobre desen- construir novas plataformas de negociação. É das pessoas, por-
pressões robustas de ação coletiva possíveis de ocorrer apenas
volvimento, subdesenvolvimento e o papel tanto, o protagonismo e o ponto de partida para qualquer novo
numa cidade formada por pessoas. A chamada cidade industrial do Estado.
projeto alternativo de nação.
87
89
91

Pedro nos contou: São Bernardo não para

Sim, de fato consigo responder à sua pergunta... Há semelhanças enor-


mes entre uma família como a minha e uma cidade como São Bernardo
do Campo. Também há diferenças. Agora mesmo penso numa diferença.
Posso dizer? Acontece que quando cheguei aqui, há muitos anos, a cidade
ainda era muito rural. Era um lugar escuro, de caminhos de terra e bar-
racos dispersos que subiam pela rua. Eu era jovem e forte. Queria ver a
minha família feliz e sabia que deveria trabalhar infatigavelmente. Sobrava
juventude e energia. A cidade me recebia, mas estava tudo ainda por fazer.
Assim era eu e assim era São Bernardo. Hoje tudo mudou. Depois de mais
de cinquenta anos, não acompanho mais o ritmo dessa cidade. A cada dia
ela está mais bonita, mais desenvolvida. São Bernardo está ficando maior.
Cada vez com mais pessoas. Cada vez melhor. Ela me surpreende. Eu, pelo
contrário, sinto que as minhas forças vão embora. Daquele garoto do pas-
sado só restou o coração. A força e a beleza passaram. Tudo passa. Ficou
talvez meu gosto pelos passarinhos, minhas caminhadas diárias. Ficou meu
amor pela cidade. Ficou minha vontade de querer morar aqui. Hoje sou eu
quem observa a cidade trabalhar. A cidade não para. Parece que ficou mais
jovem e disposta... daquele mesmo jeitinho como eu me sentia quando
cheguei pela primeira vez aqui. Naquela época de juventude e também
agora, parece que tudo é possível.

PEDRO DA COSTA PINHEIRO


(Tietê - SP, 1936)
Morador do bairro Taboão
93
95

O projeto
“E aprofundando o raciocínio obscuro
Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo à noite os homens do Futuro”
As cismas do destino, Augusto dos Anjos
97

O monstro de ferro entrou na vila buzinando alto. Novinho, refletia no metal


o assombro das pessoas que ia deixando para trás. Seu Aristides, homem
de posses, fez viagem demorada até Colatina, nas margens do rio Doce.
Depois de algumas semanas fechando negócios decidira voltar em gran-
de estilo. Orgulhoso, do alto da sua máquina nova, o bom empreendedor
apareceu no horizonte fazendo a curva, triunfante, embicando o nariz pela
avenida principal.
Morávamos num município pequenino e pobre, na divisa entre a Bahia e
o Espírito Santo. Sem grandes surpresas a vida transcorria monótona, com
muito trabalho, muitas necessidades e pouco divertimento. Mas aquele dia
foi especial. Cumprimentando a todos, o bom Aristides acenava para es-
querda e depois para a direita. Sorria feliz. Para os que lá estavam foi o
maior acontecimento. Nem eu, com 8 anos, nem nenhuma das outras crian-
ças maravilhadas havíamos visto jamais um caminhão gigante desses tão
pertinho. As mulheres assomavam às janelas, os homens abriam as portas
curiosos, os idosos sentados à sombra dos beirais acompanhavam o movi-
mento com a cabeça. Enquanto isso, meninos e meninas corriam, como eu,
detrás do monstro de metal. Tão novinho. Tão brilhante. Foi um dos melho-
res dias da minha vida.

Manoelzinho nos contou: Correndo atrás do caminhão

Depois de algumas voltas, o caminhão encostou na praça da Matriz de


Nossa Senhora. Não recordo se era cedo ou muito tarde, a memória às ve-
zes falha, mas não esqueço que aquele dia o Aristides, de tão bom que era,
deixou todo mundo subir e brincar de caminhoneiro.
−Mas, me diga seu Aristides, me conte. −Me diga de onde veio este ca-
minhão tão lindo. −Perguntei agitado. −Veio de um lugar onde as vistas se
cansam de tanta fábrica que tem. −Respondeu.
−Veio da terra de São Bernardo do Campo.
Naquela noite não consegui dormir direito. Deitadinho no chão, em noi-
te quente, imaginava com os olhos abertos um paraíso de pessoas fabri-
cando caminhões, todos grandes e equipados, prontinhos para atravessar
o Brasil em caravana. Soube, naquela hora, o que eu queria ser no futuro,
e onde. Soube também, com um aperto no peito, que para isso, precisaria
seguir correndo atrás de muitos outros caminhões, na dura estrada da vida.
MANOELZINHO MOREIRA
(Itiruçu - BA, 1953)
Morador do bairro Baeta Neves
99

Participação,
um conceito inacabado
Dizia Tomás de Aquino , citando Aristóteles ,
15 16

que um pequeno erro no começo torna-se


muito maior ao final. Qualquer tropeço
no início de uma argumentação produz
desentendimentos que tendem a aumentar
de tamanho e levam, nos corolários, a
interpretações distantes da ideia original.
101

Assim sendo, antes de buscar o conforto que propiciam os con-


ceitos fechados, mas que podem resultar incompletos e levar
à confusão, resulta prudente contextualizar e resgatar os
primeiros usos dados à participação. Para tanto, propomos
visitar o pensamento platônico e a distinção que se sugere
entre o mundo real e o mundo ideal. Nesse contexto, cabia
à participação a intermediação entre essas duas dimensões.
Ou seja, conectava o mundo concreto e material com o mundo
das ideias. O que Platão 17 afirmava era que existe uma relação
intrínseca, por exemplo, entre a ideia de justiça e as ações
justas; entre as pessoas belas e a ideia de beleza. Desse
modo, tudo o que vemos ou fazemos só ocorre porque participa
de uma ideia maior. Dizer que algo participa significa, por-
tanto, reconhecer o movimento de uma parte em direção a um
todo, e que aquela parte é apenas uma entre outras muitas
la fórmula participativa pautada pela desobediência civil
diferentes que compartilham da essência de um valor agrega-
precisasse de novas roupagens, abandonando procedimentos
dor e transcendente.
indesejados, diante dos novos espaços democráticos insti-

Contudo, essa visão original ganharia com o tempo uma acepção tucionalizados.

mais porosa contestando as tradições autoritárias. Aquelas


Surgiria, assim, a tarefa inacabada de ressignificação sobre o
que ao manter as suas populações excluídas, à margem da
que deveria ser a participação em tempos de democracia. Um
política e das decisões mais importantes da vida pública,
dos caminhos escolhidos foi delimitar seus usos às relações
circunscreveram o entendimento da participação dentro das
entre Estado e cidadania, concentrando sua ação na represen-
esferas relacionadas à resistência do povo, da organização
tatividade, no controle social, nas questões públicas e nas
popular, da mobilização social e de toda ação de reivin-
decisões da vida política, visibilizando, mas ao mesmo tempo
dicação de direitos diante de um agente opressor. Sendo
disciplinando, o dissenso e os enfrentamentos pelo uso da
assim, a participação entendida como a base da ação cole-
negociação e do diálogo.
tiva das primeiras resistências pode ter dado sustento às
mais importantes insurgências indígenas e negras, passando Outro caminho, menos explorado, demandaria capturar a diver-
pelos movimentos messiânicos e religiosos, pelas revoltas sidade da vida cotidiana e a riqueza dos múltiplos saberes
separatistas, pelos gritos de independência, pelas lutas das suas partes integrantes, numa guinada de percepções que
abolicionistas, pelas greves operárias ou pelas inumeráveis retomasse a relação entre o real e o ideal. Incorporando
revoltas urbanas e populares que marcaram a ascensão e queda 15_ Tomás de Aquino (Roccasecca, Itália, dessa vez as limitações do possível.
1224/1225 — Abadia de Fossanuova, Itália,
de impérios e ditaduras. 7 de março de 1274) foi frade, teólogo e fi-
lósofo. Foi canonizado pelo papa João XII,
Entender o significado da participação nos dias de hoje foi uma
O desenrolar da história democrática brasileira deve ser en- em 1323. tarefa que nos coube provocar, mas foi o protagonista, de-
tendida como uma longa jornada de avanços e retrocessos, 16_ Aristóteles (Estagira, Macedônia, atual- finitivamente, o encarregado de traduzir e interpretar. Por
mente, Grécia, 384 a.C. — Atenas, 322 a.C.)
que alcança um dos seus ápices com o fim da ditadura. O Bra- fim, era evidente que para entender o nosso papel na complexa
foi filósofo. É visto como um dos fundadores
sil redemocratizado provocaria na sociedade um sentimento da filosofia ocidental juntamente com Platão dinâmica dos tempos atuais precisávamos completar aquela
e Sócrates.
de recuperação da liberdade e uma crescente expectativa definição que deixamos inacabada, talvez por excesso de ju-
17_ Platão (Atenas, Grécia, 428/427 a.C. —
no rompimento de antigas subordinações e injustiças, ori- ventude, talvez porque estivéssemos distraídos celebrando a
Atenas, 348/347 a.C.) foi filósofo e matemá-
gem das primeiras insurgências. Era de esperar que aque- tico do período clássico da Grécia Antiga. democracia.
103
105

O protagonista como construção


Segundo o historiador José Honório Rodrigues, foi um
18

cearense de Maranguape, dom Capistrano de Abreu , 19

quem inaugurou a história nacional visibilizando com


ineditismo o sentimento do primeiro brasileiro:
o mameluco e a vida sertaneja. Suas crônicas desnatu-
ralizavam as verdades eternizadas por uma tradição
conservadora cuja gravitação ficava em torno da vida
no litoral e da estreita relação com a metrópole em
Portugal. Nas suas anotações, o mestre José Honório
afirmou que pela primeira vez o Brasil viu explorar
aspectos cotidianos e familiares do povo comum.
107

Essa preocupação em construir uma história brasileira, que não de-


rivasse dos estrangeirismos, exigia um deslocamento do olhar do
historiador, praticado pela primeira vez por Capistrano de Abreu.
Tal inversão do olhar provocou também o deslocamento do tipo de
narrativa que se afastou da diacronia dos acontecimentos políti-
co-administrativos e passou a privilegiar o tempo sincrônico da
vida social e cultural. Essa aproximação dos personagens cotidia-
nos, contudo, não seria suficiente para superar a imagem deformada
do protagonista retratada pela historiografia tradicional.

Visões contrastantes sobre as características desse brasileiro


comum entreveravam opiniões descompromissadas com a realida-
de. Por um lado a barbárie. Por outro, a docilidade de um povo
submisso e obediente. Essas generalizações dicotômicas não são
recentes, mas herdadas de outros tempos. A ideia das bondades
ingênuas, comuns entre os nativos das terras conquistadas, foi
amplamente explorada pela literatura iluminista do século 18.

18_ José Honório Rodrigues (Rio de Janei-


O conceito de “bom selvagem” de Rousseau20 é uma mostra desse imagi- ro-RJ, 20 de setembro de 1913 — Rio de
nário que exaltava as virtudes da vida em estado natural, enquan- Janeiro, 6 de abril de 1987) foi um dos mais
importantes historiadores brasileiros do sé-
to renegava a degeneração produzida pelos avanços da civilização. culo 20. Foi membro da Academia Brasileira
de Letras.
Em contraponto, pensadores como Thomas Hobbes21, entre outros, su-
blinhavam que a essência do ser humano, tendente à degradação e à 19_ João Capistrano Honório de Abreu (Ma-
ranguape-CE, 23 de outubro de 1853 — Rio
miséria, é má por natureza, carregada de perversidade e avareza. de Janeiro-RJ, 13 de agosto de 1927) foi um
dos primeiros grandes historiadores do Bra-
sil. Sua obra é caracterizada por uma rigoro-
Talvez uma reflexão mais próxima dessa polaridade venha da obra de Desconstruir o papel de herói e desmistificar o de vilão expurga do
sa investigação das fontes e uma visão crítica
Sérgio Buarque de Holanda22, que ao definir o brasileiro como um dos fatos históricos. morador da nossa cidade os velhos clichês usados para contar a
ser cordial o retrata com as características positivas que co- 20_ Jean-Jacques Rousseau (Genebra, Suí- história. O indivíduo intermediário, o figurante, o coadjuvante,
ça, 28 de junho de 1712 — Ermenonville,
mumente atribuímos à palavra. Contudo, o sentido etimológico de o de caráter inexpressivo foram sistematicamente afastados das
França, 2 de julho de 1778) foi um importan-
cordialidade descreve um atributo que, vinculado ao coração e à te filósofo, político, escritor e autodidata. É luzes do cenário da vida. Viram seus nomes retirados dos créditos
considerado um dos principais filósofos do
emoção, se circunscreve às paixões e se distancia da racionalida- iluminismo e um precursor do romantismo. da dramatização urbana por causa da temperatura morna dos seus
de. Assim, o que o autor de Raízes do Brasil teria querido dizer atos. Talvez porque a individualidade do anônimo não se sustenta
21_ Thomas Hobbes (Malmesbury, Inglater-
é que haveria, concomitantemente à visão tradicional, uma cor- ra, 5 de abril de 1588 — Hardwick Hall, Ingla- para além dos lugares-comuns aos quais nos conduz o imaginário
terra, 4 de dezembro de 1679) foi um filósofo
dialidade mais constrangedora, desajustada e violenta, distante cujos postulados sobre a natureza humana,
quando falamos de excluídos.
daquela acolhida calorosa que, equivocadamente presumimos, seja o governo e a sociedade influenciaram de
maneira importante o desenvolvimento da O protagonismo, como até agora fora conhecido, demandava fulgor e an-
a cédula da identidade nacional. filosofia política ocidental.
tagonismo. A luta entre o dia e a noite e a vitória dos heróis são
22_ Sérgio Buarque de Holanda (São Paulo
Não deveria, porém, esse tema demandar maior inquietação, já que heranças distantes dos romances de cavalaria, todos eles incumbidos
-SP, 11 de julho de 1902 — São Paulo, 24 de
independentemente dos bons ou maus saberes populares, da índole abril de 1982) foi historiador, crítico literário da tarefa de construir um final feliz para os atores principais. Um
e jornalista. É considerado um dos maiores
ou moral do cidadão comum, o resgate da voz do protagonista e o intelectuais brasileiros do século 20, reco- final desigual cujas melhores linhas foram escritas para poucos. Mais
nhecido pela sua leitura da estrutura social
direito de contar a sua história são menos um apelo emocionado uma injustiça que o nosso passo pela história precisará corrigir e
e política do Brasil, a partir das suas raízes
e romântico e mais uma questão ineludível de justiça social. históricas. reverter, sem romanticismos e com uma dose aguda de realidade.
109
111

A peça, de meados do século passado, pode ter surgido como uma pro-
vocação, mas tende a ser vista na atualidade como uma expressão
da condição pós-moderna, pelo nosso gosto pelo relato mínimo
ou, como diria Jean-François Lyotard24, como a luta pelo fim dos
discursos absolutos. Referimo-nos a formas de pensamento que
rejeitam verdades universais e defendem o reconhecimento de vi-
sões diversas, da valorização das particularidades, do respeito
à individualidade e das diferenças. Essa leitura que exalta os
pequenos relatos e produz também não relatos, e inclusive si-
lêncios, é a mesma que observa a história como uma grande soma
de pedaços fragmentados. Cada um tem o seu, e deles advêm toda
legitimidade quando, transcendendo a eles mesmos, acrescentam
pluralidade às narrativas construídas.

Esse resgate da diversidade promove uma resistência à homogenei-


dade cultural, ao submetimento e à dependência, num repovoar de
imaginários e luzes que nos aproximam novamente da figura do ca-
leidoscópio. A ideia da luneta multicolorida destaca, dessa vez,
a participação de todos na complexa tarefa da construção de um
cenário para ver e fazer. Contudo, o espírito da pós-modernidade

Diversidade, parece ter perdido vigência e capitulado para uma nova tendên-
cia que nos leva rumo à padronização das nossas opiniões. Diria

fragmentação e unicidade
Ignácio Ramonet25 que voltamos a gravitar em torno do discurso
único que surge como a pretensão de transformar em universal o
pensamento ideológico de uma minoria.

Definimos um ideário de beleza pautado em modelos irreais que car-

Uma das obras mais reconhecidas do 23_ John Milton Cage Jr. (Los Angeles, EUA,
5 de setembro de 1912 — Nova York, EUA,
12 de agosto de 1992) foi compositor e teó-
regam preconceitos e provocam frustrações. Alguém disse que
aquilo era belo, e acreditamos. Definimos o sucesso com valores

compositor norte-americano John Cage


rico musical, pioneiro no uso de instrumentos
23
não convencionais e da vanguarda artística metálicos e distanciamos o ser do ter, condenando gerações a uma
do pós-guerra.
busca vazia por tesouros efêmeros. Alguém disse que aquele era

dura quatro minutos e 33 segundos, tem 24_ Jean-François Lyotard (Versalhes, França,
10 de agosto de 1924 — Paris, França, 21
de abril de 1998) foi filósofo e um dos mais
o caminho, e nele nos extraviamos.

importantes pensadores da discussão sobre Evocando García Márquez26, a sociedade parece viver nos tempos do

três movimentos e se executa sem tocar pós-modernidade.

25_ Ignácio Ramonet Míguez (Redondela,


cólera e, afastados das margens da praia, a nossa embarcação
flutua anestesiada ao devaneio das ondas, sem porto, apenas com

uma só nota. A composição, que pode


Espanha, 5 de maio de 1943) é jornalista e
sociólogo pesquisador de temas como glo- uma bandeira amarela amarrada ao mastro, marcando a quarentena.
balização, comunicação e geopolítica.

O movimento de resistência que nos toca provocar presume que há


ser interpretada por um instrumento 26_ Gabriel José de la Concordia García
Márquez (Aracataca, Colômbia, 6 de março
de 1927 — Cidade do México, México, 17
transformações que precisarão de liderança e valentia. Tão ur-

de abril de 2014) foi jornalista, ganhador do gentes e imperativas que para ocorrer haveremos de entender que

ou uma orquestra, é puro silêncio. Prêmio Nobel de Literatura, em 1982. Autor,


entre outros, do romance Amor nos tempos
do cólera.
serão pessoas pequenas, em lugares pequenos, fazendo pequenas
coisas, aquelas que transformarão o mundo.
113
115

O poeta, pródigo em formar alianças entre palavras contradi-


tórias, falava do movimento parado das árvores, do sossego
inquieto das fontes, das distantes proximidades do mar. Essa
fecundidade contraditória encontraria elevado destaque na vi-
são dele mesmo: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente.
Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente”.

Jorge Luis Borges28 foi além nos contrassensos anteriores ao des-


crever, nos seus escritos, aquele império improvável em que a
arte da cartografia alcançara tamanha perfeição que foi capaz
de produzir o mapa de uma região e fazê-lo coincidir exatamente
com ela mesma, ponto a ponto. Esse mapa gigantesco e desmedido,
assim como outros incomensuráveis construídos por aquele impé-
rio irreal, é fantasia. A licença poética do escritor esteve
menos na intenção de retratar uma realidade e mais em alertar
que nenhuma realidade pode ser efetivamente retratada.

Assim, qualquer esforço de interpretar uma sociedade diversa

Enfoque e provocações e complexa como a nossa ou arrisca no desafio de falecer nas


suas ambiguidades ou recorta sua perspectiva e a fraciona
para entendê-la dissecada. Nenhuma representação da realidade
é a realidade. Precisaremos interpretar, traduzir e reduzir.

Oximoro é uma licença poética que Trabalhar apenas com aproximações, cada vez maiores, mas im-
perfeitas enfim.

permite unir palavras ou orações Protagonistas da participação teve a motivação de buscar na so-
ciedade de São Bernardo do Campo as pistas necessárias para
aparentemente inconciliáveis. À falta entender os padrões de comportamento, hábitos e condutas que
fazem do cidadão dessa cidade um protagonista singular. Nessa

de palavras mais fiéis, o oximoro linha, foi necessário ampliar a nossa perspectiva inicial de
descobrir apenas o significado, uso e práticas da participação

recorre ao paradoxo ou à ambiguidade. na cidade. Precisávamos gerar os meios adequados para dialogar
sobre temas que dizem respeito à forma como esse protagonista

Fernando Pessoa escreveu certa vez:


27 27_ Fernando António Nogueira Pessoa.
(Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 —
Lisboa, 30 de novembro de 1935) foi poeta,
se desenvolve e relaciona, interage, interpreta, define cri-
térios e atua no seu meio. Naturalmente, sempre sob o enten-
filósofo e escritor. Um dos maiores da língua

“Estou dormindo desperto em sonhos


dimento que são as ambiguidades e os recortes metodológicos
portuguesa.
fatores limitantes para poder ler e prever São Bernardo na sua
28_ Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Ace-
totalidade. No entanto, ainda convencidos na força de alguns
que são loucura”.
vedo (Buenos Aires, Argentina, 24 de agosto
de 1899 — Genebra, Suíça, 14 de junho de
oximoros, resolvemos apostar que na visão de quem sabe ver, o
1986) foi escritor, poeta e ensaísta. Um dos
mais destacados em língua espanhola. futuro, já é presente.
117
119

Nosso reflexo no espelho


Jacobina é um dos cavalheiros ficcionais a partir
do qual Machado de Assis nos apresenta uma das
29

partes mais obscuras da nossa identidade. Para esta


personagem cada criatura humana traz duas almas
consigo. Uma que olha de dentro para fora. Outra
que olha de fora para dentro. A alma exterior,
afirma ele, é uma extensão de nós mesmos e assume
diferentes aspectos conforme nossos apegos.
121

Pode ser um objeto. Pode ser a flâmula da pátria. Pode ser o metá-
lico dinheiro. Pode ser qualquer bem material e imaterial que
nos governe. É nela, e por ela, que vivemos e somos capazes de
perder a vida. Daí que seja chamada de outra alma. Daí que ela
possa conduzir nossas ações e produzir cegueira. Daí que ela
possa mascarar o nosso reflexo no espelho. Assim sendo, essa
outra alma, vinda de fora, altera a nossa percepção porquanto
vemos através dela, e ao tamanho da trama do seu tecido limi-
taremos o nosso entendimento da realidade.

Para o filósofo francês Gaston Bachelard30 há certos tipos de ele-


mentos que impedem ou dificultam novas aprendizagens. A ideia de
obstáculo epistemológico, trabalhada por ele, intenta explicar
a resistência que os seres humanos oferecem diante de novas
realidades sobre as quais não possuem referência ou experiência
anterior. Ou, mesmo havendo, o entendimento não surge natural-
mente, é dificultoso ou irreconhecível. Em planejamento, o con-
ceito de cegueira situacional aborda exatamente essa condição
que nos impede de ver o que está por perto, ou muito além. Vemos
o que podemos ver ou, nas palavras de Jacobina, somente aquilo
que queremos ver.

Os milhares de dados e informações que aprendemos ao longo da


vida são a prova da nossa solidez intelectual e os tijolos de
uma sólida fortaleza que nos protege e preserva interiormente.
São também, em contrapartida, barreira de intimidação para um
mundo que habita em extramuros. Se todo conhecimento projeta
sombra, as paredes da nossa fortaleza escurecerão regiões ao
seu redor sobre as quais apenas somos capazes de reconhecer
existência.

Esse projeto intentará nos colocar diante do espelho. E nessa 29_ Joaquim Maria Machado de Assis (Rio
de Janeiro-RJ, 21 de junho de 1839 — Rio
situação desconfortável poderemos ser vencidos pela ilusão, ou de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um
dos mais representativos escritores da língua
conseguir talvez ver o nosso rosto tal qual ele é: com suas
portuguesa.
luzes e sombras. Será a partir dessas últimas, reconhecendo os
30_ Gaston Bachelard (Bar-sur-Aube, França,
problemas e aceitando o que negamos, que conseguiremos ilumi- 27 de junho de 1884 — Paris, França, 16 de
outubro de 1962) foi poeta, físico e filósofo,
nar as trevas do nosso entendimento, ampliar o nosso conheci-
interessado principalmente na história da
mento e seguir avançando. ciência moderna e contemporânea.
123

“A única constante é a mudança”


Heráclito de Éfeso
125

Quem são afinal os super-heróis? Não são acaso aqueles que a gente vê pela
televisão lutando contra o mal? Eu sei quem são. Aparecem nos gibis e nos
filmes do cinema. São aqueles que voam pelo céu, muito alto. Aqueles que
correm como raio, muito rápido. São os que têm visão para ver o que ninguém
consegue ver e braços para dobrar e destruir o indestrutível. Eu sei quem são.
Mas sabe de uma coisa? Deveríamos mudar essa ideia. Não têm eles acaso
superpoderes? Então, qual é o mérito? Super-heróis somos nós. São aqueles
que não têm maior força do que a necessidade. São todos aqueles que não
têm o direito de desistir. São todos os que diariamente enfrentam seus de-
mônios nas esquinas escuras, nos becos, na marginalidade. São todos os que
têm medo, muito medo, mas não recuam. São todos os trabalhadores que
dormem cansados, desfalecidos e abrem os olhos na madrugada para encarar
mais um dia, forçados a sorrir mesmo com a alma estilhaçada. Somos todos
super-heróis anônimos, desconhecidos, maltratados muitas vezes pela nossa
aparência, pelas nossas roupas, pela cor da nossa pele, pela nossa forma de
falar, pelas marcas que a vida deixou na gente. Pela feiura dos nossos rostos.
Somos nós. Todos nós. Era meu pai, minha mãe, escravos de fazenda que
nunca conheceram pagamento. Foram eles, e assim como eles tantos outros
que viveram e morreram analfabetos, pobres e esquecidos, olhando as costas
e colhendo as sobras de uma terra tão rica e generosa como o Brasil. Sou eu.
É você. Super-heróis somos todos, filhos e filhas dessa São Bernardo, que de-
sejamos uma vida melhor, e para isso lutamos, e lutamos.

Maria nos contou: O super_herói da vila

MARIA GONÇALVES DE LIMA


(Lima Duarte - MG, 1946)
Moradora do bairro Vila São Pedro
127
129

O Conceito
“Admirava as palavras da gente da cidade,
tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia
que elas eram inúteis e talvez perigosas”
Vidas secas, Graciliano Ramos
131

Dois milagres! Eu vi meu frei Damião fazer dois milagres! Era um homem san-
to, como meu Padim Ciço. Lá no interior de Pernambuco, em São Bento do
Una, vi uma nuvem gigante surgir no horizonte e correr ligeiro naquele céu
limpo e azul do Nordeste. A nuvem, diferente de qualquer outra, ficou enor-
me até cobrir com sua sombra locais e peregrinos, naquela missa campal no
meio do agreste. Ficamos todos ao abrigo daquele guarda-sol divino, derra-
mando lágrimas, sem palavras, ouvindo o nosso frei falar de amor. Para além
de nós, a terra continuava seca e quente, o mato pegando fogo, as pedras
em brasa. Foi um milagre.

Dulcineia nos contou: Um diário para não ser lido

Reencontraria meu frei Damião, no bairro Assunção, aqui em São Bernardo,


anos depois. Tenho uma foto daquela época, ele sentado cobrindo as pernas
com uma mantinha de pano bem simples, quase sem cor. −Meu frei Damião
dos milagres! O santinho que fez um menino doente voltar a andar, bem na
minha frente. Já pensei tanto nele, e ainda penso. Será que o frei teria aceitado
fazer um milagre para mim? Se ele mandava nas nuvens e fazia a doença correr
longe, será que ele podia trazer paz ao meu coração? Eu sei que sim. Só que
encontrar o caminho da cura, a minha cura, foi um esforço demorado e solitá-
rio. Eu mesma tive de forçar sorrisos e acreditar que é possível ser feliz nesta
vida. Eu, que nasci como um bichinho no mato, tive de ser escondida pela mi-
nha avó parteira. O jagunço rude e violento que era meu pai ameaçara a minha
mãe exigindo a chegada de um menino. Vi as primeiras luzes numa casinha de
taipa e palha, mas não fiquei lá. A minha chegada não trouxe alegrias, mas de-
sespero. Para minha proteção, me esconderam por seis anos. Depois da morte
da minha avó, sem lugar aonde ir, me levaram para onde havia nascido, perto
da mãe. Ainda me lembro do dia em que, brincando com minha irmãzinha, um
casal da cidade assomou à janela da casa e perguntou aos meus pais se aceita-
vam entregar a menina bonita que brincava no mato para eles criarem. A res-
posta foi rápida. A bonita não, mas a feia, essa podiam levar. Foi assim que dei-
xei esse lugar pela segunda vez. Quem ouve o meu relato pode duvidar, mas
foi nesse momento, vendida, que começaria o meu maior sofrimento. Poucos
anos depois seria forçada a fugir para sobreviver. Decidi escapar e conhecer o
mundo. Correr atrás da felicidade negada. Sair em busca de milagres. Escrevi
um livro contando essa história: Meu pequeno mundo. Já me pediram para ler,
mas eu não mostro pra ninguém. É um livro que não deve ser lido, apenas foi
bom para mim, que escrevi. Escrevi pensando que a gente pode mudar o final
DULCINÉIA DA SILVA
de uma história. Escrevi sonhando num terceiro milagre. Escrevi porque ainda
(Lagoa dos Gatos - PE, 1956)
Moradora do bairro Dos Casa tenho tempo e ainda tenho fé de ser feliz aqui em São Bernardo.
133

Como aprisionar um conceito.


Deslocamentos e paralisias
Ao longo da sua obra, Emmanuel Lévinas reflete
31

sobre a estrutura solitária da razão, composta


pelo livre movimento de um eu que, saindo de si
em direção ao exterior, procura subsídios para
interpretar a realidade, para depois utilizar o
caminho de volta e instalar-se à margem do
caminho que trilhou, guardando na bagagem
o aprendido. Um impulso que começa em nós,
mas necessita de contrapartes com as quais
interagir.
135

Precisará de um mundo povoado de pessoas, distintas entre si,


conflitantes, instigantes, educadoras e reais. Essa busca no
exterior à procura de respostas, ou de novas perguntas, vai
edificando um território individual em que conceitos falsos e
verdadeiros, e valores sagrados e profanos, redefinem constante-
mente as fronteiras elásticas da nossa identidade.

Nessa viagem de iniciação, saímos todos de nosso castelo íntimo


e limitado para conhecer o mundo e a realidade dos outros. Avança-
mos levados pela necessidade de ampliar a cada passo as fronteiras
que obstruem o nosso entendimento. A urgência de saber e conhecer
é o combustível primordial nessa aventura. Uma característica
própria do ser humano que faz de nós seres racionais, capazes de
aprender, refletir e, com isso, capazes de acreditar e desacredi-
tar, de opinar e mudar de opinião. Só não muda quem fica ancorado
no passado, preso às primeiras aprendizagens e às barreiras auto
infligidas e limitantes das verdades dogmáticas.

De tal modo, lentamente ou com rapidez, vamos empurrando a fron-


teira da razão, que nos permite avaliar e aceitar as diferenças,
revisar motivos, identificar e reconhecer opiniões e posturas
conflitantes, reconstruir discursos e valores. Uma fronteira que
pode ser ampliada na medida em que avançamos nessa abertura,
mas que pode diminuir até as demarcações iniciais caso sejamos
constrangidos pelo mundo à nossa volta e demandados a abandonar
a rigidez dos nossos pensamentos antigos, vistos como indeseja-
dos e anacrônicos. Diria Clarice Lispector32 que até cortar os
próprios defeitos pode ser perigoso, pois nunca se sabe qual é
absolutas, únicas e originais, apenas em interpretações, em in-
o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Mesmo obrigados,
31_ Emmanuel Lévinas (Kaunas, Lituânia, 30
versões de sentido, ressignificações e deslocamentos de discurso.
recuaremos somente até os limites possíveis, até a linha ins- de novembro de 1906 — Paris, França, 25
de dezembro de 1995) foi filósofo, influen- O que temos é uma soma de versões, variações, modulações, leitu-
transponível do desfiladeiro. Uma linha que dificilmente aceita- te pela sua contribuição na reconstrução do
pensamento ético. ras, perspectivas e enfoques que não são independentes. O senti-
mos atravessar por medo de deixar de ser quem somos.
do, como diria Gilles Deleuze33, mora no enunciado, no texto, na
32_ Clarice Lispector (Chechelnyk, Ucrânia,
Em São Bernardo do Campo a mudança é vista como um valor positivo, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janei- palavra, mas é algo que depende do interlocutor, do leitor e do
ro-RJ, 9 de dezembro de 1977) foi escritora
como uma característica de evolução e desenvolvimento. Pessoas e jornalista, naturalizada brasileira, autora de
intérprete para ganhar significação a partir dos seus sentidos.
mudam, cidades mudam, conceitos mudam. Mudar é bom, mas dentro romances, contos e ensaios com profundo Portanto, da mesma forma que uma prática pode ser encapsulada
apelo psicológico desenvolvidos em cenas
de limites apropriados. Mas quem define esses limites? Sem res- cotidianas. por um conceito, um conceito se debate entre os limites das in-
postas, uma aproximação é trazida pela hermenêutica moderna. terpretações que se tenham dele e das novas significações que
33_ Gilles Deleuze (Paris, França, 18 de ja-
Ou seja, pela arte da interpretação, da tradução e da explica- neiro de 1925 — Paris, 4 de novembro de surjam das liberdades interpretativas, da disputa política ou
1995) foi filósofo, considerado um dos mais
ção, necessárias todas diante das complicações a que nos expõe importantes e influentes do século 20. Des- apenas da mobilidade das linhas de fronteira que nos posicio-
de 1960 até sua morte, escreveu numerosas
a linguagem. Contudo, essa abertura de subjetividades reforça nam sempre em relação aos outros, num ponto, mais conservador
obras sobre história, filosofia, política, litera-
que na atualidade não se pode mais falar em termos de verdades tura, cinema e pintura. ou progressista, da sociedade da qual formamos parte.
137

As muitas formas de dizer. Essas diferentes formas de pensar e refletir sobre um mesmo tema

A polissemia
além de enriquecê-lo o transformam em objeto compartilhado.
Cada pessoa constrói as suas próprias impressões, a partir
de aprendizagens e referenciais comuns que delimitam a ideia
genericamente, mas que ganha sentido apenas pela observação e
reflexão individual. Cada definição responderá, portanto, a uma
percepção, a uma experiência ou a um valor definido pelo grupo,
O que é, o que é?, perguntaria Gonzaguinha 34
passível de mudanças, exposto a transformações e à valoração
exercida pelos anos. Mas nem todo conhecimento é assim. O conhe-

ao se defrontar diante dos versos com os cimento matemático é diferente de qualquer outro conhecimento.
Teoremas e postulados significam hoje o mesmo que no passado e o

quais pretendia definir a vida. “Ela é a batida mesmo que significarão no futuro. A soma dos quadrados dos cate-
tos tenderá a permanecer imutável, geração a geração. Não ocorre

de um coração. Ela é uma doce ilusão. Ela é assim com o significado da vida. Não é assim com os diversos
sentidos que a história produziu com respeito à liberdade,
à democracia, à justiça, ou à participação, entre outros. Nesses
maravilha ou é sofrimento? Ela é alegria ou casos, a riqueza de entendimentos, a amplitude semântica, em
suma, nos leva para outra dimensão da realidade, para um lugar

lamento. Que mais poderia ser?” onde moram os sentidos múltiplos, ou como aqui chamamos: a po-
lissemia. A participação tem essa capacidade. A capacidade de
ser muitas ao mesmo tempo.
139

Em São Bernardo do Campo participar é estar unidos, é contribuir,


é interagir, é opinar. São mais de cinquenta percepções correla-
tas ao sentimento de agregar conteúdo. É um sentimento gregário
que remete ao fazer coletivo e que inspira talvez uma das poucas
afirmações sacramentais sobre esse tema: não há participação sem
grupo. Podemos ainda aceitar as aproximações que as palavras si-
nônimas trazem como auxílio de entendimento, mas que podem também
extraviar-nos, já que unificam num único conceito práticas de índo-
le diversa, que equivocadamente entendemos como expressões oriun-
das de uma mesma natureza. No caso da participação como política
pública, cabe o esforço de identificar suas diferenças e visualizá
-las. Nem todo processo que se diz participativo é concretamente
transformador e emancipatório. Aqui valem mais as diferenças do
que as semelhanças. Somente assim será possível identificar o erro
quando chamamos algo pelo nome equivocado. Talvez por isso, longe
de entender concretamente o que é participação, resulta bastante
útil compreender primeiro o que não é. Foram os antigos os pri-
meiros que provocaram essa busca por oposição (per negationem).

Para saber o caminho que leva ao paraíso, diziam eles, teremos


também de conhecer o caminho que conduz ao inferno. Mais re-
centemente Giovanni Sartori35 agregaria calor a essa discussão
pois, embora possamos identificar as características da democra-
cia e a não democracia, o mundo não é constituído somente de
opostos, mas de estados intermediários e misturados. Em relação
à participação, o termo pode ser definido pelo seu contrário sem
que esse oposto seja uma contradição. Sendo assim, não estamos
diante de uma situação de existência ou de carência. Não é uma
questão de definição ou indefinição, mas um estado de intensidade.

Assim sendo, precisamos abandonar qualquer esforço em busca de


uma definição correta e finalizada em torno da participação e
abraçar o reconhecimento do seu valor como obra-prima inaca-
bada, em constante construção. Estamos diante de um conceito
que inevitavelmente escapa dos axiomas matemáticos marcados por
34_ Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior,
fórmulas perfeitas e verdades incontestáveis. Estamos diante de Gonzaguinha (Rio de Janeiro-RJ, 22 de
setembro de 1945 — Renascença-PR, 29
um mundo de percepções complementares e incompletas, e algumas
de abril de 1991), foi cantor e compositor,
equivocadas, que demandam visibilidade para iluminar o caminho. filho do compositor e cantor popular Luiz
Gonzaga.
Talvez por causa disso, assim como Gonzaguinha, precisaremos
35_ Giovanni Sartori (Florença, Itália, 13 de
destacar a pureza da resposta das crianças. Afinal, é a vida, é
maio de 1924) é um cientista social, especia-
bonita e é bonita. lista no estudo comparativo da política.
141

Entre,
leia,
e
escute.
143

Valores do dia a dia.


A cotidianidade Por que se suicidam as folhas amarelas? Insistiria o poeta sem
outra aspiração do que provocar a reflexão e deslocar-nos desse

Pablo Neruda chegou a se perguntar certa


36 lugar-comum, no qual o mundo parece funcionar com obviedade,
para outro, em que impera o desconforto de não saber. Essa ilu-

vez: “Se todos os rios são doces, de onde o mar são de ordenamento, de cada coisa no seu lugar, pode ser uma
mostra desse impulso que nos leva a querer saber e classificar
absolutamente tudo. Talvez seja medo do vazio, do desconhecido
tira o sal?” Curioso diante da dúvida, produziu ou da dúvida. Mas que tedioso seria termos sempre uma resposta
e conhecer o funcionamento de cada engrenagem que gira ao nos-

sucessivos textos em que tratava de transformar so redor. Acreditar que sabemos tudo deixa pouco espaço para a
criatividade, limita a imaginação e torna-nos desencantadora-

o corriqueiro em maravilhamento. mente previsíveis.

O mundo da cotidianidade é, como constataria Neruda, um inesgotável


espaço de descobrimentos comumente obscurecidos pelas brumas
da rotina e sua tendência em provocar falsas certezas. Agnes
Heller37, de uma perspectiva sociológica, acrescentaria que essa
dimensão habitual é o espaço do comum, do familiar e conhecido.
O cotidiano é um acúmulo de atividades em que as pessoas par-
ticulares reproduzem a si mesmas como seres individuais e onde
se criam as condições da reprodução social, da comunicação e da
troca. O cotidiano é o mundo da vida. Sem vida cotidiana, por-
tanto, não há sociedade.

É na cotidianidade que homens e mulheres exteriorizam paixões


e sentimentos, desenvolvem habilidades, ampliam capacidades,
constroem ideologias, crenças e gostos, e entre desencantos e
fruições vivem a vida, se organizam e participam. Nesse sentido,
36_ Pablo Neruda, pseudônimo de Ricardo
Elécer Neftali Reyes Basoalto (Parral, Chile, precedem as instâncias de diálogo que incentivam o envolvimento
12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23
da sociedade na elaboração, na implementação e no acompanhamento
de setembro de 1973) foi poeta, considera-
do um dos mais influentes do século 20. das políticas públicas. Os espaços da cotidianidade apresentam-

37_ Agnes Heller (Budapeste, Hungria, 12 se como estágios anteriores do fazer participativo, antes mesmo
de maio de 1929) é filósofa e exponente
de qualquer prática governamental que as discipline em prol de
marxista do estudo da estética e da ontolo-
gia do ser social. uma visão coletiva e compartilhada de futuro.
145

Em São Bernardo do Campo, a participação começa no núcleo familiar,


a partir da definição e atribuição de responsabilidades, compe-
tências e objetivos sobre o que deverá ser feito, como, quando
e sob que condições. A família, portanto, é a peça fundamental
da qual se estruturam as bases do planejamento, da negociação,
e da participação. Valores que precisarão ainda transcender Revisitar esses espaços informais, com olhos curiosos de observa-
para o coletivo da sociedade, com os benefícios e dificuldades dor, significa voltar a interrogar à natureza, sair do óbvio e
causados por essa diferença de escala. A participação, como das percepções cristalizadas, e avançar em direção a uma mudança
embrião e condição básica dos espaços cotidianos, ganhou, com social lograda desde os pequenos espaços nos quais transcor-
o desenvolvimento de políticas de participação cidadã, formas re a vida. A participação está nas coisas simples, e na sua
mais sofisticadas para avançar nessa transição. Um avanço que, simplicidade foi capaz de provocar profundas transformações e
contudo, resultaria incompleto sem a efervescência e o dinamis- aproximar-nos dessa visão idealizada que alguma vez tivemos de
mo da prática anônima e transformadora da ação cotidiana. nós mesmos.
147
149

A beleza das coisas inacabadas.


A contínua construção
Rubem Alves escreveu um magnífico livro de provoca-
38

ções, observações e pensamentos cujo título encerra


uma verdade incompleta. Ostra feliz não faz pérola
é um claro exemplo de que podemos concordar pela
metade, e tudo bem. Isso é ótimo. O pensamento do pro-
fessor Alves é lúcido e a analogia preciosa. Concor-
damos que o ser humano também precisa de estímulos
externos para provocar manifestações de beleza. Essa
é uma verificação que podemos constatar na nossa vida
diária. Muitas vezes diante do sofrimento, ou somente
por causa dele, somos obrigados à mudança e à ação
transformadora e criativa.
151

Sem ação, não há transformação. Sem estímulo pode não existir


ação. Mas será que a ostra gosta da pérola com a qual convi-
ve? Para ela aquele pedaço de material esférico e duro não
tem nenhum valor a não ser o da própria tranquilidade diante
do agente agressor. Seria como valorar em demasia as nossas
calosidades, cicatrizações ou mesmo os queloides que a nossa
pele produz como proteção ou reação. Mas uma pergunta surge
espontânea nessa reflexão: Precisamos mesmo da aflição, da dor,
do sofrimento para produzir beleza?

É com a intransigência de um dogma ou com a violência de um códi-


go reto e inflexível de conduta que os nossos filhos poderão se
transformar em pessoas de bem? Precisamos acaso, e até quando,
ser provocados pelo sofrimento e pelo desgosto para manifestar
despretensioso amor? É possível trocar o grão de areia, agres-
sivo e estranho, por elementos melhores capazes de provocar
felicidade? Pode ser que uma ostra feliz não faça pérolas, mas
uma pessoa feliz deveria.

Foi Jacques Lacan39 quem traria a noção de falta constitutiva,


introduzindo a ideia de que todas as identidades se constituem
sempre de forma incompleta, seja em função da sua própria ar-
ticulação de sentidos, seja a partir de sua relação com outras
identidades, ou, ainda, por sua negação, a partir de uma iden-
tidade que nega sua própria constituição. Esse componente nos
apresenta como indivíduos ainda no caminho de “chegar a ser”.
Demandantes de fatores externos capazes de gerar as condições
que farão a pérola surgir. Mas que, ainda assim, não verão na
pérola o seu produto final, somente um estágio avançado, porém
inacabado, de um processo que se esgota com a vida.

O conceito de participação, conforme fora resgatado pela voz dos


protagonistas, na sua diversidade e amplitude semântica, apre-
senta-nos essa gestação incompleta, própria de ideias que estão A participação vista como valor sobre o qual existem tantas inter-
em constante formação. Conceitos que ocasionalmente são vítimas 38_ Rubem Azevedo Alves (Boa Esperança
pretações e leituras é certamente um conceito ainda em formação.
da letargia e do silêncio de quem não se preocupa mais com elas, -MG, 15 de setembro de 1933 — Campi- Ainda propenso a sair de si, a transgredir os seus limites, a
nas-SP, 19 de julho de 2014) foi psicanalista,
até o momento em que, assim como a própria sociedade, precisa educador, teólogo e escritor. É considerado transbordar e inundar as margens corretamente desenhadas pela
um dos maiores pedagogos e intelectuais
acordar, trocar de roupa e ressignificar suas valorações confor- tradição. E, nesse reinterpretar, acaso seremos capazes de fazer
das ciências sociais no Brasil.
me o tempo e as condições dadas. É o caso de entendimentos como que a participação, ou a democracia no Brasil, cresça e ganhe
39_ Jacques-Marie Émile Lacan (Paris, Fran-
a liberdade, a justiça, a beleza, entre outras aqui descritas ça, 13 de abril de 1901 — Paris, 9 de setem- maioridade, evitando as pedras na pérola de Rubem Alves, ou o
bro de 1981) foi médico psiquiatra e psicana-
como polissêmicas, porquanto é dessa indefinição ou amplitude de constrangimento de chegar a construir a paz social e o desenvol-
lista, conhecido pela sua contribuição teórica
significações que emerge sua própria incompletude. à psicanálise. vimento apenas pela via do sofrimento e da consternação?
153

“Se a gente cresce


com os golpes duros da vida,
também podemos crescer com os
toques suaves na alma”
Cora Coralina
155
157

Ele utiliza a minha mente. Eu utilizo a força dele. Essa é a melhor parceria que
podemos ter. Ele é meu gurizão. Eu sou apenas um pai orgulhoso.
A história começou há quase vinte anos. Naquela época eu ainda cami-
nhava, minhas pernas eram fortes. Entrava e saia de casa agitado, corria
rápido. Subia as escadas quase voando como levado pelo vento. Veja só que
coisa. Eu perdi a capacidade de caminhar, mas ainda continuo voando. A mi-
nha mente ganhou musculatura, talvez a necessária para impulsionar o meu
espírito e vencer a depressão. Reconstruir minha autoestima foi um desafio,
me reintegrar à sociedade e participar, uma vitória celebrada. A vida é uma
sequência de perdas e ganhos. Eu perdi muito, mas, graças a Deus, tenho
sido grandemente recompensado pelo amor da minha família, pelo carinho
dos amigos, pelo calor e solidariedade dos desconhecidos na rua. Pessoas
anônimas como aquelas que eu ajudava quando era forte. Ou como aquelas
que eu terminara de auxiliar naquele dia quando cheguei em casa e vi um
pequeno berço na sala. Entre cobertas dormia um bebê de 1 ano e 6 meses,
magrinho, desvalido. Logo fiquei sabendo do desespero da mãe, sobrinha
minha. Soube que eu precisava tomar uma atitude e participar da solução.
− Eu crio esse menino! − Disse nessa hora, sabendo das consequências, e
pedindo a Deus que sustentasse a minha decisão. − Eu crio! − Voltei a falar
para que a minha voz eliminasse todo temor de quem ainda duvidasse.

João Batista nos contou: Força e mente

E veja só os caminhos que Deus utiliza para falar com a gente. O meu
menino cresceu mostrando dificuldades de aprendizagem e limitações men-
tais. Só aos 20 anos aprendeu a ler e a escrever, com enormes dificuldades.
Ainda assim, foi ele o primeiro em concluir a escola, e o primeiro a pendurar
um diploma na parede. Veja só que coisa. Meu menino lutou muito para con-
seguir, e eu participei dessa aventura, porque, como sempre digo, ele utiliza
a minha mente, e eu utilizo a força dele. É assim que funciona. Não somos
dois deficientes. Somos dois grandes amigos que a vida juntou. Ele é meu
gurizão. Eu sou apenas um pai orgulhoso.

JOÃO BATISTA DE OLIVEIRA


(Belo Horizonte - MG, 1964)
Morador do Jardim Serro Azul - Alvarenga
159

As Pessoas
“O senhor... mire e veja: o mais importante
e bonito do mundo é isto, que as pessoas
não estão sempre iguais, ainda não foram
terminadas – mas que elas vão sempre
mudando. Afinam ou desafinam”
Grande sertão veredas, João Guimarães Rosa
161

Uma menina bonita. Uma gordinha com carinha de fome. De olhar suave,
mas atormentado pela precisão. Assim era ela quando chegou pedinte à mi-
nha porta, aqui no Assunção, há muito tempo. Ela, uma criança com 11 anos
incompletos. Eu, uma professora jovem vinda do interior com um marido e
dois filhos pequenos. Frente a frente: duas mulheres, duas migrantes. Não sei
dizer se hoje faria o mesmo. Os tempos são outros, os medos são maiores.
Tudo mudou. Aquela São Bernardo tinha pouca gente. Eram pessoas como
eu, vindas de outros lugares, alguns muito distantes. Naquele dia, naquela
cidade que também era nova para mim, ouvi a pequena garota repetir insis-
tentemente da rua: − Posso ajudar a senhora? − Posso ajudar a senhora em
alguma coisa? — Por favor. Posso ajudar?
Quanta dor no coração de uma mãe ao ver uma criança sofrendo nas in-
certezas da rua. Exposta à violência. Exposta ao engano. Que mãe não sofre
ao pensar que pode ser seu filho ou sua filha aquela que, como essa menina
na minha porta, devia ganhar a vida diariamente de maneira tão difícil. Que
vida terrível a nossa se não podemos ser capazes de olhar com carinho para
rostinhos como esses, acostumados desde tão cedo às lágrimas e às privações.

Marlene nos contou: Uma criança na porta

São Bernardo foi uma escola para mim e um lugar onde duas famílias, a mi-
nha e a daquela pequena garota, coincidiram para compartilhar uma história.
Aquela garotinha cuidou dos meus filhos e mesmo tão menina assumia com
responsabilidade suas tarefas e obrigações. Mas era uma menina e, como tal,
também tinha sonhos. Quem sabe viajar. Quem sabe conhecer pessoas novas.
Andar por entre castelos de príncipes e princesas. Quem sabe correr até cair.
Rir até o limite das suas forças. Ou talvez simplesmente brincar sem o apuro de
voltar a ser adulta naquele mesmo dia.
Essa menina que entrou na minha casa ficou conosco alguns anos. Depois
foi embora, mas nunca perdemos o contato. Eu, aposentada, não penso em
sair jamais dessa cidade que me recebeu com tanto carinho e que, depois de
tantos anos, ainda observo com curiosidade, emoção e amor. Ela, a pequena
garotinha desta minha história, já é adulta. Cresceu trabalhando e com esforço
construiu uma família. O tempo passou, mas deixou algumas coisas. Dos so-
nhos daquela criança gordinha, que dançava com as vassouras e que fechava
os olhos pensando em fadas e castelos, foi preservado o compromisso de fazer
que sua filha tenha a vida que ela não pôde ter.
− Uma viagem para Disney? É isso mesmo? − Perguntei. − Sim. − Respon- MARLENE BERGAMINI VENDRAMINI
(Jaú - SP, 1945)
deu ela. É um presente para minha filha e para aquele pedacinho de mim.
Moradora do bairro Assunção
163

encontro de multidões.
O perfil do cidadão
A ciência da etologia nos ensina que para todo ser vivo
existe um período crítico para adquirir conhecimento
e aprender certos tipos de conduta. Esse fenômeno
chama-se em psicologia estampagem, e poderíamos de-
fini-lo como um processo de aprendizagem que ocorre
nos seres vivos jovens durante um período curto e
específico de tempo, geralmente durante os seus pri-
meiros estágios de desenvolvimento. Desse fenômeno
resulta uma forma padronizada de ver, enfrentar e se
relacionar com o meio. Diferentemente dos tipos de
aprendizagens convencionais, em que o esquecimento
é frequente, aquilo que aprendemos por estampagem
não esquecemos jamais.
165

Em animais esse momento de absorção de conhecimento irreversível re-


sulta invariavelmente positivo. É um dom instintivo que predispõe,
por exemplo, pequenos filhotes a seguir o primeiro ser em movimento,
normalmente a mãe, formando uma ligação duradoura e incondicional.

As respostas estampadas respondem a estímulos aos quais o ser humano tam-


bém está exposto, desde a sua concepção até depois do nascimento. Essas
características individuais que percebemos como inatas foram cunhadas
e estão invariavelmente presentes na nossa história familiar e contri-
buem, sem ser determinísticas, na formação da nossa identidade.

A visão do ser humano visto como um organismo que responde a estímulos


provenientes do meio exterior tem sido matéria de diversos estudos.
A própria aprendizagem é considerada uma forma de condicionamento que
envolve diferentes variáveis, dentre elas o ambiente. E, nesse senti-
do, as condições presentes no meio físico se somarão àquelas resul-
tantes da nossa experiência de aprendizagem para estimular ou limitar
o desenvolvimento de certas características do nosso comportamento.

Assim sendo, os perfis individuais e coletivos presentes no tecido


social são, em boa medida, condicionados pelo próprio sistema de
estruturas físicas do território. Somos, em essência, um pouco de
nós e um pouco a cidade que nos recebe.

Em São Bernardo do Campo a identidade mais representativa, dentre as mui-


tas identidades que nos conformam, inscreve-se no legado trabalhista,
na força do trabalhador e no trabalho como eixo de transformação.
Outras percepções surgem no imaginário de quem evoca uma cidade como
a nossa: a indústria automobilística e as correlatas, a ação sindical
e seu legado, a representatividade regional, a participação. Dessa
maneira, valores coletivos estão permeados pelos padrões constituti-
vos da própria cidade, sua trajetória e herança histórica. Nada mais
justo e próximo da realidade do que afirmar que somos São Bernardo.

Contudo, a nossa identidade, como diria Luigi Pirandello40, está também


no âmbito da percepção das outras pessoas. Somos um, na medida em
que distinguimos a nossa individualidade e assumimos um papel. Somos 40_ Luigi Pirandello (Agrigento, Itália, 28 de
junho de 1867 — Roma, Itália, 10 de dezem-
nenhum, na medida em que amadurecemos e deixamos para trás as velhas bro de 1936) foi dramaturgo, poeta e roman-
cista, ganhador do Prêmio Nobel de Litera-
roupagens carregadas de preconceitos. Somos cem mil, na medida em que
tura em 1934.
reconhecemos que são os outros os que nos definem como seres humanos,
41_ Walt Whitman (Huntington, Nova York,
compartilham a estrada e dão suporte à nossa viagem. Somos imensos e EUA 31 de maio de 1819 – Camden, New
contraditórios. Somos poliedros. Como diria Walt Whitman41, carrega- Jersey, EUA 26 de março de 1892) foi jorna-
lista e um dos maiores poetas da revolução
mos multidões dentro de nós. americana.
Eu sou
167

trezentos,
sou
trezentos e cinquenta,
Mas um
afinal eu toparei
dia
comigo... Remate de males, Mário de Andrade
169

Acreditar para inovar.


A desconfiança
Mário Quintana não se casou nem teve filhos. Solitá-
42

rio, viveu grande parte da sua vida em hotéis. “Desconfio


até de mim. Como não desconfiar?”, Diria certa vez en-
quanto rabiscava ideias no papel, palavras soltas e
poesia: “Eu agora – que desfecho! Já não penso mais
em ti... mas será que nunca deixo de lembrar que te
esqueci?”. O poeta da rua dos cataventos escreveria
desconfiado da sua própria capacidade de escrever:
“Desconfie de quem lhe bajular dizendo que escreve
bem. O crime perfeito não deixa vestígios”.
171

Falar em desconfiança na nossa sociedade é sempre uma provocação.


Tratamos dela, inclusive, como um valor associado à própria pre-
servação. Desconfiar, dizem alguns, é andar com cautela, de mãos
dadas com a temperança, alinhados com o bom senso, precavidos,
criteriosos e observantes. O certo é que desconfiamos do outro,
do estranho e do desconhecido, às vezes do próximo, do familiar.

Desconfiar é pré-julgar negativamente. Ver o mundo invadido ape-


nas por transgressões e abusos. É viver a vida com suspicácia.
É construir guetos. É fechar janelas e trancar portas. É uma
venda nos olhos que descolore o colorido, ofusca o luminoso e
apaga a vida. Desconfiamos até de nós mesmos, das nossas capaci-
dades e alcances. A desconfiança, como característica observada
no povo bernardense, talvez não seja um valor exclusivo, mas
mostra-se notadamente desagregador, pequeno e limitante quando
a predisposição deixa de ser construtiva e inspira-se apenas no
hermetismo claustrofóbico do preconceito.

Confiar é acreditar. É dar valor a uma hipótese. É validar a força


da palavra. É sustentar a conduta futura de outro indivíduo, de
um grupo ou instituição. É ter segurança e esperança em ações
que estão além de nós. É uma aposta a curto, médio e longo prazo.
É, entre tantas outras aproximações, o espírito das construções
coletivas, da inovação e do desenvolvimento. Sem confiança não há
sociedade que resista aos embates do desespero instituído pela
incerteza do porvir ou pela fragmentação da nossa própria for-
mação como nação. Sem confiança não há paz. Não há participação.

O cientista político Robert Putman43 afirma, motivado pelo tema,


que quanto maior a capacidade de os cidadãos confiarem uns nos
outros, maior será o número das ações associativas resultan-
42_ Mário de Miranda Quintana (Alegrete
tes, maior a porcentagem de interações, mais resistente a trama -RS, 30 de julho de 1906 — Porto Alegre-RS, de Veneza e o desfecho trágico do seu Otelo44, desconfiado e es-
do tecido social e mais robusto e dinâmico será o sistema de 5 de maio de 1994) foi poeta, tradutor e jor- tilhaçado pela perturbação emocional. Perturbação que a litera-
nalista.
sustentação que estrutura a nossa democracia. Desse modo, o tura trouxe em forma de ciúmes, mas que em essência é a própria
43_ Robert David Putnam (Rochester, EUA,
próprio sentido da vida em sociedade sustenta-se pelas relações 9 de janeiro de 1941) é sociólogo e cientista
desconfiança nos valores e na fidelidade do outro. O mesmo licor
de confiança construídas entre as pessoas e entre elas e suas político, professor da Universidade Harvard. que Machado de Assis45 daria de beber a Bentinho por causa da
instituições. Cabe a todos trabalhar pela sua subsistência. 44_ Otelo, o Mouro de Veneza, é uma obra Capitu, e que cotidianamente vemos servido à nossa mesa.
de William Shakespeare escrita por volta do
É tarefa de todos investir no seu fortalecimento no tempo.
ano 1603. É uma tragédia que apresenta o
Portanto, confiar implica a possibilidade de ficar desapontado, per-
descontrole do protagonista, Otelo, atribuí-
Naturalmente, todo crédito de confiança precisará ser correspondi- do à desconfiança e à inconfidência. der a fé e abandonar. Cabe, contudo, mensurar e avaliar, mas
do. Em outras palavras, há um elemento de risco envolvido que 45_ Dom Casmurro é um romance escrito jamais deixar esfriar uma das maiores ferramentas sociais que
opera com a decepção, a frustração e o arrependimento. O risco por Machado de Assis em 1899. Gira em tor-
conspira a nosso favor: a confiança que temos uns nos outros, de
no das reminiscências de Bento, narrador da
é real, o irreal é cairmos na armadilha shakespeariana do mouro história, seu caso com Capitu e seu ciúme. criar laços e inovar.
173
175
177

O que pensar? Diga-me!


A influência
Na Idade Média, segundo conta o historiador Marc
Bloch , as pessoas atribuíam aos soberanos o pro-
46

digioso dom da cura. Tanto na França antiga como


na Inglaterra, os reis taumaturgos, assim chamados,
eram capazes de surpreendentes manifestações de
caráter sobrenatural. O poder real e a fé subordi-
nada do povo, combinados, eram capazes da revela-
ção do milagre. Com somente um toque o camponês
e o soldado recuperavam a saúde progressivamente.
Era um fenômeno de sugestão e de agradecimento
diante da presença de uma autoridade inacessível.
179

Desde os tempos da taumaturgia medieval até os modernos taumatur-


gos, espíritas e carismáticos, que operam maravilhas pela bênção
e pela cura, a insistente terceirização dos favores celestiais
ganhou espaços mais cotidianos e profanos. De certo, a influên-
cia de outras pessoas ou de grupos sobre a nossa saúde física e
mental, assim como no nosso padrão decisório e comportamental,
tem sido matéria de estudo e debate, principalmente pela cons-
tatação de que somos menos donos de nós do que pensávamos.

Solomon Asch47 demonstraria, na metade do século passado, a nossa


inclinação para concordar de forma conformista com grupos ma-
joritários, pressupondo uma profunda influência do coletivo na
tomada de decisões individuais. Na mesma linha, Muzafer Sherif48
confirmaria a partir de seus estudos que o sujeito individual
se encontra naturalmente disposto a modificar suas percepções
da realidade quando exposto à opinião de outras pessoas que
concordam entre si, ao ponto de sustentar e defender essa nova
opinião em outros lugares, mesmo depois de separado da influência
e proximidade do grupo. 46_ Marc Léopold Benjamim Bloch (Lyon,
França, 6 de julho de 1886 — Saint-Didier-
de-Formans, França, 16 de junho de 1944)
Os estudos são prolíficos e diversificados, marcando tendências
foi historiador, considerado um dos maiores
e logrando convergências quando da nossa predisposição à in- medievalistas de todos os tempos. Foi mor-
to pelos nazistas durante a Segunda Guerra
fluência externa, desde os clássicos sobre obediência à autori- Mundial.
dade de Stanley Milgram49 até o polêmico experimento de Philip
47_ Solomon Asch (Varsóvia, Polônia, 14 de
Zimbardo50 acerca do comportamento de guardas e prisioneiros setembro de 1907 — Haverford, EUA, 20 de
fevereiro de 1996) foi psicólogo, internacio-
numa prisão artificialmente criada. São todos fenômenos tipica-
nalmente reconhecido pelos seus estudos
mente psicossociais, uma vez que consistem na modificação de um pioneiros sobre a psicologia social.

comportamento e postura individual por causa das pressões da 48_ Muzafer Sherif (Esmirna, Turquia, 29 de
julho de 1906 — Fairbanks, EUA, 16 de ou-
vida social. Assim, crenças, regras morais, maneiras de agir e
tubro de 1988) foi teórico social, considerado
de pensar não podem ser vistas apenas como obras de indivíduos um dos fundadores da psicologia social e um
dos principais pesquisadores sobre proces-
isolados, mas como emanações de manifestações que os ultrapas- sos grupais.
sam e os determinam.
49_ Stanley Milgram (Nova York, EUA, 15
de agosto de 1933 — Nova York, 20 de
Declarações sobre o poder da influência foram registradas ao longo dezembro de 1984) foi psicólogo, influen-
te pelas suas pesquisas sobre obediência e
da pesquisa dos protagonistas em São Bernardo do Campo. Resul- autoridade.
cas iminentes e objetivas do nosso comportamento. A interação
ta curioso que, analogamente ao reconhecimento da condição de social ocorrerá, portanto, a partir dessa dicotomia. E assim
50_ Philip George Zimbardo (Nova York, EUA,
seres influenciáveis, tenhamos também reconhecido, e de maneira 23 de março de 1933) é psicólogo e pesqui- como foi no começo, com os velhos taumaturgos, e ao longo da
sador da área do comportamento humano. É
aparentemente paradoxal, a nossa mais profunda desconfiança no história da humanidade, com as mentes convincentes e os grupos
professor da Universidade de Stanford desde
outro, no alheio, naquilo que surge para além das fronteiras 1968, onde ficou conhecido pelo polêmico persuasivos, continuaremos caminhando olhando para os outros,
experimento de aprisionamento de voluntá-
da nossa vida íntima. Contudo, tanto a desconfiança que nos rios, cujos resultados inesperados foram tão confiando e desconfiando. Continuaremos andando pela vida à
dramáticos que precisaram ser interrompi-
isola como a nossa propensão em acreditar e agir conforme a procura de milagres, quem sabe até descobrir que o verdadeiro
dos. Ganhou o Prêmio Nobel de Psicologia
moda e as influências dos outros são em essência característi- em 2003. milagre é a vida.
181

“Há mudança no Brasil.


Ela não corre, mas anda.
Não corre, mas ocorre.”
Betinho
183

O ser sociológico.
As decisões emocionais
Antes de John Nash , a teoria dos jogos, que estuda
51

as decisões que tomam indivíduos que interagem e


competem entre si, era incipiente. A disciplina che-
gava até a teoria de “soma zero”: situação na qual
indivíduos buscam o mesmo objetivo, e todo ganho
de um implica a perda do outro. Esta análise não
refletia totalmente a realidade. Para situações dife-
rentes à soma zero ou para jogos cooperativos, não
havia uma solução.
185

Nos anos 50 do século passado, Nash adicionou um novo componente


à teoria clássica: a predição – indivíduos tomam suas decisões
considerando que outras pessoas buscam também seu próprio be-
nefício, conceito denominado atualmente como “equilíbrio de
Nash”. Não basta querer o melhor resultado individual, é neces-
sário incorporar na equação o melhor resultado do grupo para que
os benefícios sejam maximizados. Parecia que a agressividade da
ação individual, refém da lei da selva vigente na floresta do
capital e profetizada pelas ideias de Adam Smith52, enveredava
rumo à domesticação, mais próxima da racionalidade estratégica
e da cooperação.

Anos mais tarde, em 2002, Daniel Kahneman53 ganharia o Prêmio Nobel


de Economia pela identificação das fragilidades que afetam a
nossa racionalidade na tomada de decisões. À contracorrente do
ser racional, que adota objetivos adequados e empreende ações
refletidas e condizentes com as informações disponíveis, as evi-
dências levantam dúvidas sobre a nossa objetividade e apontam
um caminho emocional que explica melhor a forma como pensamos, 51_ John Nash (Bluefield, EUA, 13 de junho
atuamos e decidimos. de 1928 — Nova Jérsei, EUA, 23 de maio de
2015) foi matemático, especialista na teoria
dos jogos. Recebeu o Prêmio Nobel de Eco-
A nossa capacidade estratégica racional deixa de lado caracterís- nomia em 1994. Teve sua vida retratada no
filme Uma mente brilhante.
ticas cognitivas e emocionais presentes no nosso comportamento:
a complexidade dos conceitos com os quais nos enfrentamos, a 52_ Adam Smith (Kirkcaldy, Escócia, 5 de ju-
nho de 1723 — Edimburgo, Escócia, 17 de
distância entre experiência e memória, as distorções de entendi- julho de 1790) foi economista e filósofo e
um dos maiores representantes da economia
mento que nos induzem frequentemente ao erro e ao engano, entre
clássica. Em 1776 publicou o livro A riqueza
outras. A ficção do Homo economicus, de comportamento coerente e das nações sendo considerado o primeiro es-
tudo completo e sistêmico sobre economia.
racionalidade esperada, perdia fôlego. Construído pela economia
53_ Daniel Kahneman (Tel Aviv, Israel, 5 de
para avaliar comportamentos de consumo e produção, o ser econô-
março de 1934) é um psicólogo cuja pes-
mico nada mais é do que um pedaço do ser humano, incompleto na quisa explora as ciências cognitivas e com-
portamentais. Sua principal contribuição à
sua complexidade e limitado nas suas potencialidades de ação. ciência econômica foi desenvolvida junto de
Amos Tversky e aborda a forma como os in-
Enquanto mais próximo da esfera cotidiana, menos racionais serão as divíduos tomam decisões em ambientes de
incerteza. Recebeu o Prêmio Nobel de Eco-
nossas decisões, mais emocionais e mais imediatas. Antes mesmo nomia em 2002. cegueiras e malograr entendimentos. Os caminhos da emoção e sua
de demoradas avaliações, a experiência guardada na memória nos 54_ Blaise Pascal (Clermont-Ferrand, Fran-
influência na nossa vida diária não se limitam, contudo, à toma-
levará a tomar decisões rápidas, intuitivas e emocionais. Serão ça, 19 de junho de 1623 — Paris, França, 19 da de decisões. Já no século 17, o físico e matemático Blaise
de agosto de 1662) foi matemático, físico,
escolhas sem muita reflexão. Serão escolhas práticas, cujos re- filósofo e escritor, cujos aportes na ciência Pascal54 andaria na berlinda ao desafiar o pensamento do filósofo
incluíram estudos sobre as teorias da proba-
sultados conhecidos relaxam e liberam a nossa mente para cuidar René Descartes55, subestimando sua obstinação de chegar a Deus
bilidade e da hidrostática.
de outras coisas. pela razão. “A Deus, só pela emoção!”, exclamaria convencido.
55_ René Descartes (La Haye em Touraine,
França, 31 de março de 1596 — Estocolmo,
As tensões entre o domínio da razão e da emoção são uma constatação Suécia, 11 de fevereiro de 1650) foi filósofo, Bastaria ouvir a voz dos protagonistas para confirmar que a razão
físico e matemático. É considerado o funda-
na nossa cidade. A busca pela racionalidade esbarra nos ímpetos tem seus limites e, assim como Pascal, afirmar que aqui em São
dor da filosofia moderna e pai da matemáti-
do coração, uma escala que longe da amorosidade pode produzir ca moderna. Bernardo “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.
187

Estranhamentos e autocrítica.
A dissonância cognitiva
Garcin, um escritor que queria ser herói, mas foi co-
varde, acabou condenado e fuzilado por deserção.
Cumprindo pena eterna no inferno, questionava-se O inferno, como descrito na peça de Sartre, é um espaço exterior
povoado por seres anônimos e impessoais corrompidos pelo mundo.
sobre o enxofre, o fogo e a ausência do maléfico: “En- Vistos com distanciamento, desconfiança e medo apenas porque são
inominados. Apenas porque neles conseguimos perpetuar as dife-
tão, é isso o inferno? Ah, que piada. Para que o fogo? renças, edificar o calvário e crucificar nas suas carnes os males
de uma sociedade que habita e paira do lado de fora das nossas

O inferno são os outros.” Com esta última frase o filó- casas, nunca nela, nunca em nós.

sofo Jean-Paul Sartre descreveria a nossa falta de


56 Nessa linha, Fernando Pessoa57 diria, em aparente contradição, que
jamais conheceu quem tivesse levado porrada. Todos seus conhe-

alteridade com relação ao próximo à nossa deficiên- cidos eram campeões em tudo. “E eu, tantas vezes reles, tantas
vezes porco, tantas vezes vil. Eu, tantas vezes irrespondivel-
mente parasita. Indesculpavelmente sujo.” O Poema em linha reta
cia em reconhecer nos outros os valores e emoções de Pessoa aborda mais um exemplo de dissonância, em que os jo-
gos de aparências ocupam lugares e tempos corrompidos, gerando
que nos movimentam. aquele distanciamento entre o que pensamos e falamos, entre o
que falamos e fazemos, entre o que vemos e acreditamos ter vis-
to. Um tipo de desassociação com o mundo que exclui e segrega,
delimita e reforça as nossas diferenças.

56_ Jean-Paul Charles Aymard Sartre (Paris, Em São Bernardo do Campo identificamos essa tensão presente tanto
França, 21 de junho de 1905 — Paris, 15 de
abril de 1980) foi filósofo, escritor, novelista, nos temas de alteridade como na complexa relação que temos com
dramaturgo e crítico literário, exponente do
existencialismo e do marxismo humanista.
o preconceito: “As pessoas se preocupam umas com as outras?
Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em A cidade é preconceituosa?” Foram essas algumas das provocações
1964, galardão que ele recusou por enten-
der que as relações entre os seres humanos com as quais acometemos durante o intensivo ciclo de entrevis-
não deveriam tolerar a intermediação das
tas realizado ao longo do projeto. Os outros são, os outros
instituições.
pensam, os outros fazem; quase sempre errado. São os outros os
57_ Fernando António Nogueira Pessoa.
(Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — corruptos. São os outros os corruptores. Vivem do lado de fora
Lisboa, 30 de novembro de 1935) foi poeta,
os infratores, os preconceituosos, os violentos. Do outro lado
filósofo e escritor. Um dos maiores da língua
portuguesa. do muro está o inferno, o inferno são os outros.
189

Luís nos contou: O espírito dos ventos


Que pode deter o rio que corre para o mar ou as andorinhas que voam
para o sol? Os versos de Domenico Modugno ressoavam na cabine do ca-
minhão do meu pai. A musicalidade, aquela que cura as feridas da alma e
eleva o espírito do ser humano, transitou comigo pelas vias recém-asfalta-
das pelo DER. O meu pai, funcionário e motorista de caminhão cantarolava
melodias de outros tempos, de outras latitudes. O idioma nunca foi uma
barreira, mas um feliz encontro da multiculturalidade. Desde a distante
Calábria até as novas vias que surgiam naquela São Bernardo do Campo
do passado, a minha família viajou pelo universo sem fronteiras da música.
Depois viriam Ary Barroso, Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Pixinguinha e
tantos outros. Uma riqueza que aprendi pelo estímulo e sensibilidade do
meu pai e tenho compartilhado como legado com meus filhos. Parece que
foi ontem que da janela da minha casinha de madeira no assentamento
operário do DER, onde nasci, olhava para a via Anchieta como um sím-
bolo de modernidade. Parece que foi ontem quando, aos 13 anos, enviei
acordes pelas ondas da recentemente criada Rádio Independência. Era a
linguagem do acordeão e do piano falando mais alto. Era a linguagem uni-
versal da música nessa terra de grandes artistas. Nesta terra de tantos he-
róis desconhecidos. Vieram também Dominguinhos e Luiz Gonzaga. Veio
o mestre Sivuca. Só que ele não foi totalmente embora. Dos anos simples
do DER até os tempos atuais tive uma vida de desafios e conquistas: mi-
nha amada Alice, meus filhos queridos, os amigos de todas as horas e ele.
Sim, guardo comigo o acordeão do mestre Sivuca. O espírito dos ventos
descansa aqui em São Bernardo.

LUÍS CARLOS TOSCANO


(São Bernardo do Campo - SP, 1943)
Morador do bairro Assunção
191
193

As Tensões
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades”
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Luís Vaz de Camões
195

Depois de certa idade a gente começa a repensar muitas coisas sobre a vida.
Caminhar pela rua se transforma numa aventura perigosa, coisa de jovens.
Às vezes é difícil entender os jovens, mas eu também já fui. Difícil deve ser
entender o velho. Para quem ainda não foi, não tem como explicar. Naque-
les anos, com a vida pela frente e o tempo em abundância, parece que nada
se perdia. Parece que tudo podia ser recuperado, inclusive o próprio tempo.
Perder faz parte da vida, mas algumas perdas nem o tempo pode trazer de
volta. Meu veio, por exemplo. Foi por ele que estou aqui. Ele me deixou com
uma saudade profunda. Um vazio difícil de preencher. Alguma coisa sem nome
que me faz ser jovem na memória, voltar no tempo e refazer o caminho desde
o começo da nossa história. Os anos da mocidade e da inocência no interior
de Minas. O tempo dos olhares proibidos, das festas e da missa. As lembran-
ças correm rápido e me levam até o portal da minha casa. Tento segurar a
memória, mas vejo que até isso a gente perde com a idade. Ainda assim, me
recordo do meu primeiro encontro, do aperto de mãos, do olhar desconfiado.
Me lembro de mim, assim como era, um fruto do interior, uma menina que não
poderia entender a mulher que hoje eu sou. Idosa, como me chamam, de 84
anos, analfabeta, mãe e avó, viúva finalmente. Sou mais. Tenho sonhos, são
poucos, mas são. Sonho que daqui a cinco anos poderei aprender a ler e a
escrever. Cinco anos, porque agora é tudo mais difícil, vocês hão de entender.
Na minha idade não só a memória falha, falham as mãos, falha a força, falha a
motivação, às vezes falha a paciência de quem ensina. Eu mesma já falhei tanto,
que às vezes perco a conta de quantas vezes desisti e de quantas recomecei.
Mas daqui a cinco anos, se Deus quiser, poderei recontar a minha história. Já
passei muita vergonha por não saber escrever o nome. Agora que já aprendi,
quero ler livros e escrever cartas. Sabe por quê? Eu conto para vocês: depois
de casada, aprendi como é difícil começar uma família. Sem dinheiro, tivemos
de buscar alternativas. A melhor, e mais difícil, foi aceitar a distância nas nossas
vidas. Meu marido viajou em busca de trabalho. O destino o levou até São Ber-
nardo do Campo. Distante de mim, meu veio escrevia cartas longas, falando da
cidade, das pessoas, do trabalho como pedreiro, de um projeto para construir
o paço municipal, da família, da separação. Em Guaxupé, as cartas demoravam
a chegar. Eu, que não sabia ler, pedia ajuda envergonhada. Eu, que não sabia
escrever, nunca pude responder. Essa foi a minha primeira correspondência de
juventude, uma comunicação incompleta que pretendo corrigir nessa etapa da
vida. Quero aprender a ler. Quero aprender a escrever. E quando eu for embo-
ra, nessa última viagem, levarei comigo as cartas de resposta, entre o coração
silencioso e as minhas mãos alinhadas, a tinta no papel indicará a remetente.
ANA REZENDE PAIÃO
Meu veio vai ficar feliz. E eu terei cumprido um desejo. Por isso quero estudar.
(Guaxupé - MG, 1931)
Moradora do bairro Silvina Por isso quero aprender. Eu vou conseguir. Daqui a cinco anos, se Deus quiser.

Ana nos contou: As primeiras letras


197

O futuro e suas projeções.


Curto e longo prazo
Em Perto do coração selvagem, romance de Clarice
Lispector , a pequena protagonista não quer saber de
58

futuros e questiona o motivo pelo qual as crianças


aprendem a renunciar ao mundo dos prazeres no
presente para buscar um futuro promissor no amanhã.
A vida para a menina Joana perdeu linearidade e não
se constrói mais pela sucessão do passado, presente
e futuro. O encadeamento da história não se justifica.
Os fatos não se dirigem a um fim. A vida surge a partir
de devires. Cada instante é único e eterno nele mesmo.
A felicidade não pode esperar.
199

Para o sociólogo Gilles Deleuze59 o devir é sempre processo, nem começo


nem fim. Não tem entradas nem saídas. É uma dimensão intermediária
que acaba com as identidades e com a nossa percepção de tempo.
É o caminho de tornar-se, de chegar a ser. Resume a nossa dimensão
inacabada, que, assim como o conceito de participação e como os
bons planejamentos, está sempre pronta, mas sempre se fazendo.

Ser feliz é para se conseguir o quê? Questionaria a personagem de Lis-


pector. O que vem depois? Num mundo de devires imaginar um plano de
cidade onde a felicidade nos espera no futuro torna-se um equívoco
recorrente. Entender o futuro como tudo aquilo que poderá acontecer
depois, mas que exige sacrifício e doação hoje, aprofunda as ten-
sões entre o pensamento de curto e longo prazo, debilita as nossas
resistências e o espírito de uma sociedade que precisa renascer
sempre, questionar o que aprendeu, duvidar das suas próprias per-
cepções, abrindo as portas do circuito de infinitas possibilidades
e metamorfoses sem-fim, que é a vida no tempo presente.

No longo prazo estaremos todos mortos, reza um dos epitáfios mais famo-
sos do economista John M. Keynes60 quanto à sua cautela sobre o fu-
turo. Dizia ele que, dependendo da conjuntura, às vezes é recomen-
dado olhar apenas até onde a vista alcança. Um pouco mais incisiva
é a frase popular “o futuro a Deus pertence”, resposta comum entre
as pessoas da nossa cidade quando questionadas sobre sua inclinação
em fazer planos com horizontes distantes. Sem dúvida, percepções 58_ Clarice Lispector (Chechelnyk, Ucrânia,
10 de dezembro de 1920 — Rio de Janei-
alinhadas com essa visão de curto prazo, positivas enquanto assumem
ro-RJ, 9 de dezembro de 1977) foi escritora
um compromisso na ação concreta e imediata, e às vezes emergencial, e jornalista, naturalizada brasileira, autora de
romances, contos e ensaios com profundo
mas corrompidas pela displicência de quem protela e esquece. apelo psicológico desenvolvidos em cenas
cotidianas.
A síndrome do carpe diem, de viver e curtir o momento presente, sem um devir, será também uma aposta naquilo que ainda não é, na sua
preocupações posteriores, encerra uma grande perversidade: abrir 59_ Gilles Deleuze (Paris, França, 18 de ja- capacidade de ser melhor do que já foi, sem retrocessos.
neiro de 1925 — Paris, 4 de novembro de
mão do benefício de olhar para o passado como um tempo superado, 1995) foi filósofo, considerado um dos mais
importantes e influentes do século 20. Des- Esse exercício de ver-se de novos modos, dizer-se de maneiras dife-
inferior em qualidade ao tempo vivido e por viver.
de 1960 até sua morte, escreveu numerosas rentes, estranhar a imagem que o espelho reflete de nós mesmos, é
obras sobre história, filosofia, política, litera-
Desse modo, um futuro sobre o qual não exercemos direção pode ser tura, cinema e pintura. ensaiar novas formas de subjetividade que exigem do cidadão tanto
visto tanto como uma postura irresponsável de descompromisso diante 60_ John Maynard Keynes (Cambridge, In-
um compromisso a curto prazo como um olhar diferenciado a longo
do destino ou como um enfoque realista diante do caráter duvido- glaterra, 5 de junho de 1883 — Tilton, East prazo, sem exclusões. Como diria Michel Foucault61, o nosso objetivo
Sussex, Inglaterra, 21 de abril de 1946) foi
so e improvável que gira em torno dele: a incerteza. De qualquer economista, considerado um dos mais in- talvez não seja descobrir quem somos, mas recusar o que somos. Essa
fluentes do século 20. Suas ideias tiveram
maneira, é certo que o futuro nunca chega, o que chega é o presen- renúncia às identidades cristalizadas é uma aposta no reconheci-
forte repercussão nas teorias e políticas eco-
te. Assim sendo, não se faz planejamento para ser feliz depois, nômicas modernas. mento dos devires e uma aposta no futuro, não na sua concepção
nem participação apenas para chegar a ser cidadão. A participação 61_ Michel Foucault (Poitiers, França, 15 de clássica de tempo encapsulado no porvir, mas na sua manifestação
outubro de 1926 — Paris, França, 25 de ju-
precisa ser concreta primeiramente no curto prazo para que depois presente, de que todo tempo futuro é uma ação no presente, que só
nho de 1984) foi filósofo, historiador, sociólo-
possa ir além. Mas da mesma forma que demanda efetividade, por ser go, filólogo e crítico literário. ganha sentido no momento atual. O futuro é hoje, e a nós pertence.
201

O universo na casca de noz.


A parte e o todo
O neurologista Oliver Sacks descreve a história
62

clínica em detalhe: aquele paciente ao qual visitara


em seu apartamento confundira a sua mulher com
um chapéu: “Seus olhos dardejavam de uma coisa
para outra, captando características minúsculas,
características individuais... um brilho marcante,
uma cor, uma forma prendiam-lhe a atenção, mas
em nenhum caso conseguia captar a imagem como
um todo. Não estabelecia relações entre as partes.
Não tinha a menor noção de paisagem ou cena”.
203

Imaginar um mundo onde os elementos estruturais de linhas, li-


mites e contornos assumem destaque por sobre a composição que
representam é imaginar um mundo desenhado por Picasso63, em que
as organizações abstratas embutidas, e normalmente perdidas no
concreto, despertam e assumem protagonismo. Na literatura, o
parnasianismo faria o mesmo, investindo no preciosismo das pa-
lavras, no detalhe, na singularidade das partes e na sonoridade
das vogais. Esse olhar fragmentado da realidade, no entanto, não
tem sido a única forma de descrever a vida. No impressionismo,
por exemplo, a obra mostra-se como um todo, sem detalhes, sem
partes segregadas, com componentes que perdem a individualida-
de para dar forma a algo maior, integrado e cujo batimento nos
obriga a visibilizar o conjunto, num movimento de hierarquias
que torna o todo maior do que a soma das suas partes separadas.

Compreender as tensões presentes na nossa percepção da realidade


nos ajuda a olhar São Bernardo do Campo de outra maneira.
As calçadas da nossa rua são a cidade, assim como a totalidade
dos seus bairros e avenidas. As pessoas da nossa família são a
cidade, assim como a soma dos anônimos indivíduos que circulam
pelas suas vias e se congregam nos seus espaços. Dependerá do
foco e do alcance da nossa visão para entender que a cidade é
uma plenitude composta por peças interligadas e dependentes.
Toda cidade vista de maneira fragmentada é limitada e incomple-
ta. Toda cidade é um mundo de complexidades, e cada parte dela
62_ Oliver Wolf Sacks (Londres, Inglaterra, 9
é um universo de diversidades e riquezas. As partes estão con- de julho de 1933) é neurologista, escritor e
químico. Sacks é autor de numerosas publi-
tidas no todo, e o todo só é possível a partir das suas partes. cações, entre as quais se destacam estudos
sobre pessoas com doenças neurológicas.

“Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei


63_ Pablo Ruiz Picasso (Málaga, Espanha, 25
do espaço infinito.” As palavras de Shakespeare64, na voz do seu de outubro de 1881 — Mougins, França, 8
de abril de 1973) foi pintor e escultor, pro-
príncipe Hamlet, nos remetem a essa comunhão entre grandezas, motor do movimento cubista e um dos mais
que por um lado reconhece a importância da pequena vizinhança, destacados e influentes artistas do século 20.

mas provoca movimentos interiores que nos impulsionam a que- 64_ William Shakespeare (Stratford-upon-A-
von, Inglaterra, 23 de abril de 1564 — Stra-
brar o cascarão da reclusão e avançar, nas palavras de Stephen tford-upon-Avon, 23 de abril de 1616) foi
Hawking65, rumo à expansão do pensamento infinito, rumo ao todo, poeta, dramaturgo e ator, tido como um dos
mais influentes na história da humanidade.
em direção a uma leitura que só faz sentido quando colocadas Suas peças foram traduzidas para todas as
principais línguas modernas.
todas as peças no tabuleiro. Quando visualizadas na sua tota-
lidade. Quando a nossa imperfeita tradução, que hoje distancia 65_ Stephen William Hawking (Oxford, Ingla-
terra, 8 de janeiro de 1942) é físico teórico e
espacial e socialmente o Rudge Ramos dos Alvarengas, seja vista cosmólogo. Apesar de sofrer de uma doen-
ça degenerativa (esclerose lateral amiotrófi-
como a diversidade singular que faz uma cidade como a nossa ser
ca), situa-se como um dos mais consagrados
uma, e muitas ao mesmo tempo. cientistas da atualidade.
205
207

A sociedade dos indivíduos.


Individual e coletivo
Em 1971 uma baleia encalhou numa praia do Pacífico
sul-americano onde vivia uma pequena comunidade de
pescadores. A notícia não demandaria maior atenção
do que a normal inquietação que, já naquela época,
provocava a morte de animais marinhos nas praias do
litoral. O fato, porém, atravessou o oceano e chegou
até o conhecimento do cineasta Roberto Rossellini , 66

que se entusiasmou pelo potencial daquela história


de poucas linhas, escrita por um lacônico jornalista,
apenas com a intenção de noticiar. A melhor narrativa,
e que jamais foi contada, estava na complexa tensão
social que a chegada do animal trouxera entre os
habitantes pobres daquela localidade. A baleia de
Rossellini foi um filme jamais produzido.
209

Uma boa ideia para falar da sinuosidade do comportamento humano,


imprevisível e anguloso, presente tanto em grandes sociedades
como em pequenas. Afinal de contas, para aquele grupo, cuja sub-
sistência dependia da maré e dos pequenos caranguejos da areia,
acordar com um mamífero gigante, em agonia na praia, apresentava
um desafio maior do que a bênção recebida. Significava reestru-
turar o seu sistema de organização e a forma como as decisões
deviam ser tomadas para favorecer a todos. A baleia poderia
ser uma maneira de o grupo prosperar, pois já era unido, mas a
novidade traria discórdia, brigas e desentendimentos. Contra-
riamente ao esperado, o que fazer com a baleia tornou-se motivo
de disputa: o enfrentamento entre o indivíduo e suas ideias, e
o grupo e suas necessidades.

O sociólogo Norbert Elias67 diria que o indivíduo em si e a socie-


dade em si são mitos. Somente existe indivíduo na sociedade e
sociedade no indivíduo. Ambos são interdependentes e atuam na
teia social como uma cadeia ininterrupta de ações que associam
indivíduos e os inter-relacionam. O que caracteriza o lugar do
indivíduo em sua sociedade é a extensão da margem de decisão
que lhe é conferida pela estrutura e pela constelação histórica
em que vive e atua. O comportamento individual, assim, possui
também uma relação estreita com o comportamento da sociedade de
maneira geral. Somos em particular, grosso modo, o que a socie-
dade é no geral, para bem ou para mal.

Norberto Bobbio68 recuperaria, nas suas reflexões sobre a sociedade,


uma velha dicotomia sobre os alcances e as perspectivas da pró-
pria construção democrática, seja ela mais próxima à liberdade cidade arquitetada pela soma individual de centenas de milhares
66_ Roberto Rossellini (Roma, Itália, 8 demaio
com matizes de individualismo mais acentuados, ou à igualdade, de 1906 — Roma, 3 de junho de 1977)foi di- de partes harmonizadas apenas pela convivência territorial.
retor de cinema e um dos mais importantes-
relativa ao coletivismo e as inflexões de superação das iniquida- cineastas do neorrealismo italiano. A cidade desejada é, antes de mais nada, a sociedade desejada.
des sociais. Embora complementares, tais variáveis se apresentam É dela o privilegio da transformação. É dela a responsabilidade
67_ Norbert Elias (Breslau, Polônia, 22 de
correntemente como objetivos antagônicos, cujas antípodas são junhode 1897 — Amsterdã, Holanda, 1º pela superação das desigualdades e o direito, sempre coletivo,
deagosto de 1990) foi um sociólogo, cuja
possíveis de observar não apenas no discurso, mas na profundida- pesquisaabordou temas centrados nos pro-
da consolidação das nossas liberdades.
de e no teor das políticas a elas vinculadas no cenário da ação cessossociais, nas relações de poder, no com-
portamento,na emoção e no conhecimento- Depois das noites tormentosas que agitaram o nosso despertar de-
pública. da história.
mocrático, precisaremos ficar atentos. Pode ser que a tempestade
68_ Norberto Bobbio (Turim, Itália, 18 de ou-
Em São Bernardo do Campo, a relação entre a ação individual e a nos encontre despreparados. Pode ser que os ventos agitados e
tubrode 1909 — Turim, 9 de janeiro de 2004)
coletiva foi identificada como uma tensão, principalmente desde foi filósofo, historiador e cientista político.Foi violentos tragam desesperança e desconforto. Talvez as fortes
o responsável, em grande parte, pela arqui-
a perspectiva de construção de uma cidade capaz de fomentar e teturado sistema internacional e pela divi- marés da democracia queiram testar a nossa capacidade de viver
sãoteórica do mundo em dois blocos políti-
articular vínculos e redes de cooperação e participação sofis- em sociedade. Pode não parecer, mas é um enorme desafio acordar
cos,militares e ideológicos que subsistiu atéa
ticadas. A cidade dos indivíduos não poderia ser tão só uma queda do Muro de Berlim, em 1989. com uma baleia na praia.
211
213

Desconstruindo um preconceito.
Técnico e leigo
No mito, o terrível monstro de Creta morre pelas mãos
de Teseu. A espada do herói dessangraria o animal
tingindo de vermelho os corredores entreverados
da sua morada. A maldição, que fora um castigo dos
deuses, havia acabado. O povo finalmente estava livre.
215

O minotauro, uma criatura abominável com cabeça de touro e corpo de


homem, foi aprisionado num labirinto desde seu nascimento. Ano
após ano recebia como oferenda o sacrifício de sete rapazes e sete
moças aos quais devorava com energia e veemência. Uma história
que só acabaria com a chegada de um jovem herói que a mitologia
descreve como intrépido e valente, mas que para Jorge Luis Borges
seria apenas o redentor esperado pela criatura, capaz de dar fim a
uma vida de solidão, angústia e sofrimento. Para Borges, que faz
uma releitura do mito, o minotauro é a encarnação de um precon-
ceito que encontra seu objeto na repulsa exacerbada que fazemos
diante do desagradável, do diferente, do pouco convencional.

No labirinto de infinitos caminhos encontra-se quietude e abandono.


Na morada artificialmente criada para ele não existem portas,
tampouco entradas nem saídas, somente inúmeras possibilidades
de ficar perdido, sem alternativas, sem esperança. É um lugar
onde foi lançado e esquecido. Eventualmente alimentado com sa-
crifícios que o sustentam, mas que sobre os quais a criatura
pouco entende. A morte do abominável, exaltada pelo mito, pode
ser vista também como a redenção esperada e a libertação de um
ser penitente, cuja culpa maior foi nascer diferente.

Os juízos preconcebidos, e dentre eles os discriminatórios em par- Os ausentes ficaram sem voz para descrever o mundo. Os ausentes
ticular, transformam pessoas em monstros mitológicos, e luga- perderam, mais uma vez, o privilégio de contar a sua história.
res, culturas ou tradições em labirintos inacessíveis, de onde
Assim sendo, pensamentos hegemônicos e dominantes têm sido capazes
é improvável entrar e quase impossível sair. Os minotauros do
de produzir ausências, longos silêncios e provocar no pensamento
nosso tempo caminham pelas cidades e utilizam as mesmas calçadas
coletivo a ideia da inexistência. Nos labirintos esquecidos coe-
que os seus opressores e redentores. No entanto, o preconceito
xistem as ideias exiladas, pensamentos invisíveis, desqualificados
desfigurou seus rostos humanos e os condenou, sem julgamento, às
e descartados que sofreram a maior perversidade possível: a pró-
solitárias ruas dos labirintos impossíveis. Sólidas paredes fo-
pria negação da existência. Essa sociologia das ausências sobre a
ram levantadas pelo prejuízo, seja para proteger-nos das bestas
qual falaria Boaventura de Sousa Santos69 nos remete à necessidade
ou preservar-nos das suas ideias, evitando vê-las tão próximas
de fazer emergir os saberes leigos rejeitados e fazê-los gravi-
e influentes, capazes de arranhar nossas verdades, desconstruir
tar sob o desenho de uma nova constelação de saberes, plural e
nossa moral e tentar mudar-nos para sempre.
heterogênea, que abandone esse gosto empezinhado pelas linguagens
A gigantesca pedra que bloqueia o acesso ao labirinto tem permane- universais e resgate a diversidade e o valor dos pequenos dialetos
cido indômita durante séculos. Nesse período, incontáveis saberes locais. A tarefa é árdua, pois a tensão entre os saberes técnicos
locais e cotidianos foram lançados ao esquecimento e aprisionados e leigos é evidente, não restrita aos limites da nossa cidade,
pelo prejuízo. Outros tantos, nascidos em cativeiro, jamais conhe- mas abrangente e dominante dada a maneira como é construído e
69_ Boaventura de Sousa Santos (Quintela,
ceram a luz do mundo exterior, restrito somente aos saberes dis- Portugal, 15 de novembro de 1940) é um disseminado o conhecimento, pela forma como vemos a vida, nos re-
dos mais destacados pesquisadores portu-
ciplinados pelas regras de uma época que fala, constrói e aceita lacionamos e interagimos com os seres que habitam nos intramuros
gueses das ciências sociais e jurídicas em
verdades produzidas apenas por códigos e linguagens catalogados. nível mundial. dos labirintos lavrados pelo preconceito.
217

CANÇÃO ÓBVIA
Escolhi a sombra desta árvore para
repousar do muito que farei,
enquanto esperarei por ti.
Quem espera na pura espera
vive um tempo de espera vã.
Por isto, enquanto te espero
trabalharei os campos e
conversarei com os homens
Suarei meu corpo, que o sol queimará;
minhas mãos ficarão calejadas;
meus pés aprenderão o mistério dos caminhos;
meus ouvidos ouvirão mais,
meus olhos verão o que antes não viam,
enquanto esperarei por ti.
Não te esperarei na pura espera
porque o meu tempo de espera é um
tempo de que fazer.
Desconfiarei daqueles que virão dizer-me,:
em voz baixa e precavidos:
É perigoso agir
É perigoso falar
É perigoso andar
É perigoso esperar, na forma em que esperas,
porque esses recusam a alegria de tua chegada.
Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me,
com palavras fáceis, que já chegaste,
porque esses, ao anunciar-te ingenuamente,
antes te denunciam.
Estarei preparando a tua chegada
como o jardineiro prepara o jardim
para a rosa que se abrirá na primavera.

Paulo Freire
219

Responsabilidade e omissão.
Direitos e deveres
Mundus patet é uma expressão latina que sugere
a possibilidade de os mortos subirem à superfície
para participar da vida na terra por curtos perío-
dos, encher de vigor o mundo natural e retornar,
posteriormente, para suas moradas subterrâneas.
221

Durante esse período, celebrado com euforia nos primórdios dos tem-
pos, os costumes e a moral sofriam relaxamento e a ordem social
experimentava uma inversão tolerada. Abria-se, portanto, uma vál-
vula de escape pela qual o ser humano da antiguidade se libertava
do caráter opressivo dos deveres e obrigações da sua vida em
sociedade. O proibido e o reprimido afloravam com naturalidade,
os indivíduos embebidos pelos influxos da indisciplina consentida
subvertiam normas de conduta, cometendo excessos e derrubando
tabus ao longo dos dias e das noites daquele obscuro período no
qual o mundo parecia girar ao contrário, quase desgovernado.

Esse mundo invertido, em que os direitos de usufruir e desfrutar


prevaleciam sobre a ordem das responsabilidades e deveres, fa-
zia parte de um mundo mitológico que tentava justificar comporta-
mentos, tão variantes como a sucessão das estações ou a própria
transição entre a vida e a morte. O deleite pelo gozo do direito
é uma ordem herdada de outros tempos, na qual o conceito não
existia na sua moderna profundidade e amplitude. O direito esta-
va circunscrito à esfera da celebração pagã, ao extravasamento
das nossas emoções reprimidas e ao efêmero contentamento de um
período marcado no calendário. O esgotamento interpretativo dos
mitos, no entanto, foi insuficiente para eliminar os resquícios
assentados no imaginário que, domesticados e miscigenados pelas
nossas modernas celebrações, ainda prevalecem e se manifestam
sob diversas formas, sendo que algumas delas resistem a acabar
na quarta-feira de cinzas.
pode existir direito sem dever, como não deveria existir desfrute
Na sua evolução social, o ser humano foi capaz de edificar estruturas sem responsabilidade. A sobrevivência de um depende do fortaleci-
morais e éticas e construir um universo de deveres e obrigações mento do outro. Ineludíveis e incontestáveis em toda democracia.
que o distanciaria da vida primitiva e lhe permitiria desenvolver
De todas as histórias contadas na nossa cidade, a luta reivindica-
sociedades complexas. Somente os humanos podem fazer escolhas
tiva tem sido a flamante bandeira de uma saga que não esgotou seus
conscientes e deliberar entre alternativas de ação, calcular suas
alcances com a redemocratização. Pode ser que a incompletude do
consequências e assumir suas responsabilidades. Para Immanuel
caminho ou o cansaço pelo esforço realizado reforcem as tensões
Kant70, a gênese desse processo é a liberdade. Um poder que nos
que nos compelem, seja pela luta irregular e inabalável rumo
permite refletir, administrar e orientar nossas decisões como su- 70_ Immanuel Kant (Königsberg, Prússia,
atualmente Kaliningrado, Rússia, 22 de abril à plena consecução de direitos, seja pela alternância em direção
jeitos racionais. Um direito que exige obrigações e habilidades de 1724 — Königsberg, 12 de fevereiro de
1804) foi filósofo, reconhecido como um a uma militância comprometida com deveres poucas vezes reivin-
sobre como transitar nos sempre acidentados caminhos da conduta.
dos pensadores mais influentes da Europa
dicados. Dois caminhos inacabados que correm convergentes e nos
moderna e da filosofia universal. Seus argu-
A tensão entre os direitos que precisamos preservar, resguardar ou mentos inspiraram uma aproximação entre levam para os mesmos destinos, em construção e com poucas refe-
empirismo e racionalismo, aceitando que o
conquistar, não apenas pelo desfrute, mas também pela própria pre- nosso conhecimento começa com a expe- rências, mas responsáveis diante de uma construção democrática
riência, mas nem tudo procede dela, dando
servação da essência e qualidade da vida, se enfrenta com as re- que precisa vencer os contentamentos passageiros de um carnaval
a entender que a razão ocupa um importante
sistências perante as responsabilidades e deveres decorrentes. Não papel no desenvolvimento da ciência.   que se esgota na quaresma.
223
225

Valores em negociação.
Concessão e restrição
Em O outro pé da sereia, Mia Couto nos apresenta
71

os contrastes entre duas percepções diferentes do


sagrado: uma imagem de Nossa Senhora que afunda
num rio moçambicano marcando um lugar auspicioso;
e o mesmo rio, mágico e ancestral, onde habita uma
entidade associada à mítica sereia. No desenrolar
dessa história um padre branco, filho e neto de
portugueses, começa a ficar negro: “Mas agora era
a pele inteira que lhe escurecia, os seus cabelos se
encrespavam. Não lhe restava dúvida, estava iniciando
uma nova travessia, talvez a melhor de toda a viagem”.
227

O trânsito entre as duas margens culturais, no conto de Mia Couto,


vai além da narrativa fantástica do autor. Ela é uma licença
poética para mostrar como ocorre uma negociação, com perdas e
ganhos. A transição entre a fé da terra de origem e a fé de um
território negro, do qual o português passara a fazer parte, é um
emaranhado de conflitos que precisam ser resolvidos. Curiosamen-
te, as diversas percepções sobre um mesmo fenômeno fizeram que os
negros batizados e catequizados pela cruz portuguesa não embran-
quecessem. Os escravos não se dividiram: repartiram-se. O batis-
mo, prova de aceitação dos mistérios cristãos, foi interpretado
pelos subjugados como um mergulho nas águas mestiças do reino da
sereia. Não houve renúncia, mas sincretismo. A verdadeira viagem,
portanto, é aquela que se faz para dentro de nós. Tanto para o
padre português como para o escravo moçambicano, as tensões entre
aceitar e renegar, entre conceder e restringir marcam uma pausa
que podemos utilizar para além da ficção.

Nas palavras de Mário de Andrade72, Macunaíma, herói da nossa gente,


experimentaria igual transformação. O herói encontrou numa lapa
bem no meio do rio uma cova cheia d’água. Quando Macunaíma saiu
do banho estava branco, louro, de olhos azuis. Ninguém poderia
dizer que era ele um filho negro da tribo retinta dos Tapanhumas.
Seus dois irmãos, no entanto, entraram nas águas encantadas de
forma diferente. Um ficou vermelho e o outro negro. Os três ma-
nos erguidos diante do sol, de cores diferentes, aceitavam com
distinto ânimo a nova cor da pele, concedida ou restringida,
conforme o tamanho do desejo dos irmãos e o tamanho disponível da
magia contida nas águas.

Das metamorfoses de Couto e Andrade aos problemas das nossas cida-


des, o conflito continua sendo o ponto de partida para negociar
e resolver. Em São Bernardo do Campo os limites de concessão e
restrição, ou seja, a capacidade social de identificar até onde 71_ Mia Couto, pseudônimo de António
Emílio Leite Couto (Beira, Moçambique, 5 de
podemos ir e até onde recuar, são um termômetro da nossa saúde julho de 1955) é biólogo e escritor, um dos
Sociedades amadurecidas dialogam, lutam, reivindicam, mas também
democrática. Qualquer esforço de negociação, contudo, parece mos- mais representativos e traduzidos escritores cedem e assentem entre si. A gangorra do jogo entre vitorio-
luso-africanos falantes.
trar-se imperfeito se não se considerarem as fragilidades compor- sos e derrotados se equilibra. Abandona-se a teimosia de todo
72_ Mário Raul de Moraes de Andrade (São
tamentais que corrompem a nossa percepção tendente ao individua- sentimento legitimado pelo direito, mas incompleto, diante das
Paulo-SP, 9 de outubro de 1893 – São Paulo,
lismo limitante, às miopias de curto prazo, ao desejo desenfreado 25 de fevereiro de 1945) foi poeta, escritor, responsabilidades e deveres exigidos pela democracia. Surge um
crítico literário, musicólogo, folclorista e en-
por direitos ou às leituras fragmentadas de cidade, entre outros saísta. Andrade foi um dos pioneiros da poe- movimento renovado que nos impele a iniciar a travessia e a ne-
sia moderna brasileira e um dos mais influen-
indícios que nos levam equivocadamente a pensar que os ganhos se gociar, sabedores que o cálculo que fecha as contas não vem das
tes catalisadores da modernidade artística na
medem apenas por contas simples de somas e subtrações. cidade de São Paulo e no país. matemáticas, mas da sociologia.
229
231

Um mito é uma narrativa simbólica que procura ex-


plicar acontecimentos e interpretar a realidade,
num tempo fora do tempo, sem cronologias nem
aprisionamentos científicos. O mito tem sido, desde
sempre, uma ferramenta acessível para identificar
Contrariando uma verdade. e descrever problemas. Por vezes, ele tem assumi-
O problema do uma carga pejorativa por provocar crenças sem
fundamento objetivo e distanciamento da realidade.
233

Desde as primeiras explicações sobre a origem da vida na Terra,


a fúria da natureza, ou o surgimento, esplendor e queda das
grandes civilizações, o esforço por descrever a experiência
vivida foi ganhando sofisticação e maleabilidade. A criativi-
dade e a fantasia cederam lugar aos refinamentos da razão, cada
vez mais aguda e munida de novos ferramentais metodológicos.
A tarefa de identificar fatos, elaborar descrições e oferecer
respostas migrou para o campo das ciências, cujos avanços e
credibilidade souberam substituir o mito pela teoria. de renda, teriam naturalmente menos filhos e melhores condições
familiares. A descrição equivocada de um problema condenou mi-
Hoje não se fala mais em deuses olímpicos mandando tempestades
lhares de mulheres ao redor do mundo a passar por intervenções
nem em monstros marinhos devoradores de barcos. As criaturas
impositivas e ver seus corpos mutilados em salas improvisadas
subterrâneas causadoras de terremotos foram trocadas pela
de cirurgia.
tectônica de placas. As explicações que construímos assumem
formas cartesianas, em que o heroísmo e as influências sobre- O problema em planejamento é um dos aspectos mais controvertidos
naturais perdem espaço diante de explicações racionais, da e sensíveis do ciclo de construção das políticas públicas.
lógica e do bom senso. Identificar e classificar corretamente os problemas, descrevê
-los e superá-los com ações concretas é uma tarefa que demanda
A distância entre mito e teoria, no entanto, parece não ser tão
experiência, participação e enfoques múltiplos. Em São Bernar-
grande quando se enfrentam diante do desafio de descrever as
do do Campo, a identificação dos problemas da cidade vem sendo
características de um problema observado. Um dos exemplos
trabalhada sob a ótica do planejamento participativo, que in-
mais emblemáticos de mitos modernos na economia foi formulado
tegra olhares diversos, enfoques multidisciplinares e debate
por Thomas Malthus73, no fim do século 18. A teoria de Malthus
público. As diferentes percepções da realidade nos colocam
advertia para o crescimento da população em progressão geomé-
diante do desafio de reconhecer problemas comuns e fazê-los
trica e a comparava com o crescimento da produção de alimen-
parte da agenda pública. Qualquer esforço será insuficiente
tos em progressão aritmética. Os prognósticos apontavam para
quando o problema não for bem identificado, bem descrito, dese-
um profundo desabastecimento de alimentos no futuro, epide-
maranhado e explicado.
mias, guerras e outras catástrofes causadas pelo excesso de
população. O pessimismo alarmista das previsões, corroborado Talvez essa dificuldade tenha feito das terras míticas lugares ma-
por números e projeções matemáticas, derivou na elaboração e niqueístas, onde o bem e o mal se enfrentam com características
promoção de políticas públicas de controle da natalidade. bem definidas. O mito inaugura uma ética em que o enfrentamento
O alarme mundial afetou principalmente os membros das camadas das suas personagens é desejado, e o antagonismo entre as par-
menos favorecidas da sociedade e as populações dos países tes, mais nítido e sublinhado. Na cidade moderna, entretanto,
mais pobres. o enfrentamento não se dá entre verdades e mentiras. Pessoas
defendem verdades diferentes e percepções diferentes de uma
O mito malthusiano, como hoje é conhecido, foi uma combinação
mesma realidade. É uma complexidade que dificulta a priorização
de acertos e erros. Identificado o problema, não havia dúvidas
de problemas, mas que na sua diversidade abre novos elementos
sobre o crescimento da população e um possível desabasteci-
de fazer que a história volte a ser contada, com personagens
mento de alimentos. Em nenhum caso, contudo, identificaram-se
73_ Thomas Robert Malthus (Rookery, Ingla- renovados, com aventuras inesperadas, com o surgimento de no-
todas as variáveis envolvidas, dependentes e independentes, terra, 14 de fevereiro de 1766 — Bath, Ingla- vos heróis, imperfeitos e falíveis, porém reais.
terra, 23 de dezembro de 1834) foi clérigo e
de maneira que foi impossível prever que décadas depois as
economista, com grande influência na eco-
mulheres ascenderiam a patamares mais elevados de educação e nomia política e na demografia.
235

“Não há problema tão grande que não caiba no dia seguinte.”


Millôr Fernandes
237

Roberto nos contou: Dias sem noites

Estava sentado no sofá da minha casa. Pertinho de mim, brincando, estavam


meus filhos. Minha mulher sorria amorosa. Eu descansava depois de um
dia de trabalho. Lia o jornal. Observava a rotina familiar. Havia conseguido
conquistar meu equilíbrio. Trabalhava num bom lugar. Também estudava.
Fazia faculdade. Minha filhinha me olhava com orgulho. Me chamava de pai.
Era feliz. Na rua, do lado de fora, era escuro. Chovia. Não gosto de chuva.
Dentro de casa estava em paz. Estava seco. Tudo era limpo. Parecia tudo
tão perfeito... de repente acordava. Cheguei a ter esse sonho várias vezes.
Quem disse que aqueles que estão em situação de rua não têm sonhos?
Às cinco da manhã era forçado a me levantar. Os carros e algumas pessoas
começavam a transitar. Os guardas passavam. Eu devia sair da calçada. Meu
sonho, aquele recorrente, havia acabado. Começava a minha realidade. As
minhas escolhas haviam me levado para um lugar de pesadelos. Estava so-
zinho e devia enfrentar mais um dia. Mais um dia dentre os mais de mil que
passei na rua, lutando para não perder a fé. Por fora parecia que já havia
morrido, mas internamente ainda sonhava. Pensava no futuro. Ainda era um
ser humano. Estava vivo! Uma vez caminhei do Rudge Ramos até o Tatetos,
no Pós-Balsa. Caminhei sem expectativa de nada. Só caminhei. Na volta,
me acompanhou um pequeno cachorro. Ele ficou comigo porque dividi um
pouco de comida com ele. Quanta fidelidade! A participação? Sim, ela exis-
te. Eu sou testemunha de que pessoas também fazem coisas boas. Pessoas
também fazem milagres. Todo dia me lembro disso.

ROBERTO Teodoro DA SILVA


(Guarulhos - SP, 1970)
Morador do bairro Rudge Ramos
239

As inércias
“Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz.
Eu nunca fui livre na minha vida inteira.
Por dentro eu sempre me persegui. Eu me
tornei intolerável para mim mesma. Vivo uma
dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente
liberdade, mas estou presa dentro de mim”
Clarice Lispector
241

Guiomar nos contou: Quem tem amor tem tudo

Podemos ter tudo e não ter nada. Perdemos a juventude não só com a
idade. Há muito jovem envelhecido, gente que perdeu o frescor cedo de-
mais. Há quem sacrificou a saúde para ganhar dinheiro e hoje vive perden-
do dinheiro querendo comprar saúde. Temos tudo, mas parece que não
temos nada. Vivemos insatisfeitos, querendo sempre mais. A idade apaga
a memória, mas eu sei que nem tudo no tempo passado foi melhor. Eu me
lembro da carência, dos pés descalços e molhados, da roupa suja de barro.
Me lembro da pobreza e do abandono. Morar aqui era ter tudo e nada ao
mesmo tempo. Inferno e paraíso separados por braços de água. Essa região
esteve esquecida e cresceu pobre, mas sempre foi bonita. Com o progresso
se ganha, mas também se perde. Não dá para ser diferente. Eu respeito o
que consegui na vida e sinto que tenho tudo que preciso. Não quero mais
do que isso. Moro aqui há mais de cinquenta anos e tive doze filhos. Onze
ficaram adultos, cresceram na vida, se educaram, tiveram filhos, e seus filhos
tiveram filhos, e eu bisnetos. Uma bênção. E pensar que tudo começou com
um barraco sem telhas e sem portas. Começou com um amor à beira da
represa, no meio desse verde e desse azul tão bonitos. Casei e fui viver da
pesca e da sede dos pescadores. Tive um botequinho, depois um bar. Cortei
e vendi lenha. Vi a terra se renovar, as árvores crescerem. Vi essa represa
secar e depois encher de novo. Vi a luz e o asfalto chegarem, pescadores
irem embora, pessoas prosperarem. Vi cinquenta anos de nada acontecer e
nos últimos anos tudo mudar. Como reclamar? Não quero ser infeliz porque
falta algo. Estou satisfeita porque tenho o que Deus me deu. Vivo agrade-
cida porque recebi da família, e dessa cidade, a alegria que preciso para
sorrir e ser feliz.

GUIOMAR PEREIRA DAS DORES


(Camanducaia - MG, 1934)
Moradora do bairro Capivari, região do Pós-Balsa
243

Um girassol sem sol


Contam as velhas histórias que Telêmaco, filho do
herói Odisseu e da rainha Penélope, cresceu cercado
de riqueza, na opulência de um reino sem rei. O jovem
príncipe, personagem do poema épico de Homero , sen-
74

tia a presença do pai apenas pelas histórias fantásticas


que contavam dele: homem valente, extraviado em mil
batalhas, fortes tempestades, redemoinhos e naufrá-
gios. A sina do rei, que deixara sua rainha e seu filho
ainda bebê, era virar herói. A sina do filho, ameaçado
de morte por usurpadores, foi uma adolescência sem
referências, incompleta e solitária.
245

A telemaquia é um termo que se aplica aos primeiros relatos da


Odisseia, que narram o sofrimento e angústia de um filho des-
garrado quando, acossado pelas circunstâncias, rompe com seu
inconformismo e decide sair em busca do pai, defender a mãe
e recuperar a lealdade de um povo fragmentado. Esse estado
de carência, experimentado nos primeiros estágios pelo jovem
príncipe, se manifesta pela falta de objetivos, a cisma com os
valores tradicionais, as mudanças intempestivas de comporta-
mento, entre outros sintomas convergentes com o sentimento de
estar à deriva, numa vida que perdera seu sentido.

A anomia foi um conceito utilizado por Émile Durkheim75 para mos-


trar que algo na sociedade não funciona bem, que há desarmonia
e convulsão num espaço social marcado por ausências, conflitos e
desobrigações. Esse estado de frustração social é a cartogra-
fia dos tempos modernos. São os nortes que não marcam direção.
São os modelos que parecem não oferecer respostas. É a crise
emocional diante da vertigem de um sistema imperfeito sobre o
qual vale a pena reclamar, mas nunca abandonar. Diria Betinho76,
provocador, mas esperançoso, que se a democracia não serve para
todos não serve para nada. Não basta chorar o pai ausente, pre-
cisamos ocupar o seu lugar.

Nas últimas décadas a democracia brasileira mostrou nas urnas que


é uma das grandes experiências de construção social contem-
porânea. Não significa ainda a consolidação de uma democracia
plena, mas os primeiros estágios de um processo de transição
rumo à maioridade. O sentimento é de incompletude, e é natu-
74_ Homero (séc. VIII a.C.) é o nome ao qual
ral que os desafios ainda por vencer provoquem esgotamento e
tradicionalmente é atribuída a autoria das
desânimo. principais épicas gregas, a Ilíada e a Odis-
seia. Existem discrepâncias se a referência ao
autor recai sobre um indivíduo histórico ou
São sensíveis, contudo, os sinais do aperfeiçoado da pletora de sobre um grupo de poetas clássicos.
liberdades, do reconhecimento de direitos, da justiça social,
75_ David Émile Durkheim (Épinal, França,
das políticas em favor dos historicamente excluídos da vida 15 de abril de 1858 — Paris, França,15 de
novembro de 1917) foi sociólogo, psicólogo
cívica. Esse Brasil desigual sentiu que a democracia e a parti- social e filósofo. É considerado, conjunta-
cipação são alternativas potentes para abandonar o luto do pai mente com Karl Marx e Max Weber, o prin- de quem pensa diferente, garantir suas liberdades e chamá-lo a
cipal teórico das ciências sociais modernas e
ausente, sair da cegueira paralisante do problema e contribuir pai da sociologia. ocupar os espaços institucionalizados de participação são as
na construção da solução. melhores mostras de que a cidade avança, disposta a reescrever
76_ Herbert José de Sousa, conhecido como
Betinho (Bocaiuva-MG, 3 de novembro de a sua história.
Em São Bernardo o inconformismo pôde ocupar os espaços que a demo- 1935 — Rio de Janeiro-RJ, 9 de agosto de
1997) foi sociólogo e ativista dos direitos hu-
cracia reservou para ele. Dissenso público e descontentamento manos. Concebeu e dedicou-se ao projeto Embora o sol possa esconder ocasionalmente seus fulgores, os gi-
“Ação e Cidadania Contra a Fome, a Miséria
são expressões naturais do nosso arranjo social, possíveis de rassóis da vila continuarão esperando o tempo melhorar para
e pela Vida”, movimento a favor dos pobres
emergir apenas em sistemas democráticos. Defender o direito e excluídos. girar novamente, em busca dos seus favores.
247

Um ciclo que se repete


Octavio Paz costumava dizer que toda revolução é
77

uma profanação e ao mesmo tempo uma consagração.


Uma profanação porque derruba as velhas imagens
dos seus pedestais. Uma consagração porque coloca
no altar o que até então era considerado profano. Es-
ses movimentos de aderências e rupturas foram de-
finidos por Friedrich Nietzsche como instâncias as
78

quais estamos presos, porque se alternam constan-


temente nos nossos processos históricos, fazendo
deles eventos não lineares, mas cíclicos.
249

Os antigos gregos ensinavam que todo conhecimento é um recordar, e a


vida uma repetição em que apenas é possível reconhecer. Repetição
e lembrança, diriam eles, fazem parte de uma única verdade.
Essa natureza que se recria periodicamente não pode permanecer a
mesma ao longo da história, precisa mudar para sobreviver.

Giuseppe de Lampedusa79 esboçaria uma solução ao engodo do eterno re-


torno. Diria ele, em referência ao povo siciliano e sua capacidade
de adaptabilidade diante dos distintos governantes da ilha, que
para que as coisas continuem iguais é preciso que tudo mude. Essa
frase simboliza o paradoxo de mudar para evitar a mudança, um con-
ceito contraditório que a ciência política assume como verdadeiro.

Identificar padrões que se repetem e ciclos recorrentes operados


por inércias pressupõe a existência de uma estrutura funcional
cuja base nos recebe e sob a qual transcorre a vida. Essa estru-
tura confortável nos modela, condiciona e limita conforme seu
tamanho e elasticidade. É uma estrutura que comporta as nossas
posturas e comportamentos ou, em todo caso, insufla em nós as
condutas que nos cabem apenas reproduzir. Carl Jung80 diria, a
respeito: “Nascemos originais, morremos cópias”. 77_ Octavio Paz Lozano (Cidade do México,
México, 31 de março de 1914 — Cidade
do México, 19 de abril de 1998) foi poeta,
Reconhecer o nosso grau de dependência do sistema será o segundo escritor e diplomata, ganhador do Prêmio
Nobel de Literatura em 1990. É considerado
passo, necessário na medida em que apenas a identificação da um dos mais importantes poetas da língua
existência da estrutura não basta para alcançar a liberdade. espanhola.

O caminho a percorrer precisará de outros elementos capazes de 78_ Friedrich Wilhelm Nietzsche (Röcken,
Prússia, 15 de outubro de 1844 — Weimar,
quebrar as subordinações e as cegueiras que por tanto tempo obs-
Alemanha, 25 de agosto de 1900) foi filóso-
cureceram a nossa percepção. As nossas pupilas, assim como nós, fo, poeta e compositor, considerado um dos tico é transferido para retratar as estruturas psicológicas e emo-
pensadores mais influentes do século 19. As
se acostumam facilmente à escuridão. Em transições graduais, os ideias-chave de Nietzsche incluíam a vonta- cionais que governam, impulsionam ou corrompem processos coletivos
de de poder, o perspectivismo, a inversão de
habitantes de um mundo de luz podem aprender a viver nas trevas, e sociais, como a consecução da sempre inacabada cidade desejada.
valores, a morte de Deus, o além-homem e
sem sequer perceber o que perderam. o eterno retorno.
Em São Bernardo do Campo essa análise da situação, pautada em valo-
79_ Giuseppe Tomasi di Lampedusa (Pa-
As distintas métricas com as quais se mede a história podem disfarçar lermo, Itália, 23 de dezembro de 1896 — res e comportamentos, ventilou uma série de conflitos, retratados
ciclos ou evidenciá-los. Em planejamento, por exemplo, um recur- Roma, Itália, 23 de julho de 1957) foi es- no capítulo anterior. As estruturas e as inércias estudadas
critor italiano, autor de uma única novela il
so utilizado para contextualizar os eventos num tempo específico gattopardo em que descreve a decadência foram chamadas de tensões. Todas elas limitantes. Todas elas
da aristocracia siciliana durante o movimen-
é o diagnóstico da situação. Nele, a fotografia do momento não é to que buscou entre 1815 e 1870 unificar o
condicionantes. Todas elas desagregadoras da visão de cidade
somente a leitura de uma realidade, desconectada de um antes e de país, que era uma coleção de pequenos Es- que queremos construir que, inconscientemente, é sabotada pelos
tados submetidos a potências estrangeiras.
um depois. Ela é uma parte dentro de um conjunto: é um fotograma. conflitos advindos da nossa dificuldade de conciliar: o curto com
80_ Carl Gustav Jung (Kesswil, Suiça, 26 de
o longo prazo; a parte e o todo; o individual e o coletivo; o
julho de 1875 — Küsnacht, Suiça, 6 de ju-
Os diagnósticos buscam entender situações e, eventualmente, identi-
nho de 1961) foi psiquiatra e psicoterapeuta, técnico e o leigo; os direitos e os deveres; a concessão e a res-
ficar estruturas e inércias, num processo que na maioria das vezes fundador da psicologia analítica. Sua abor-
dagem teórica e clínica enfatizou a conexão trição na negociação; e a identificação e a descrição dos proble-
tem a ver com projetos físicos, serviços e atividades que demandam funcional entre a psique e as manifestações
mas. Podem não ser todos, mas a partir deles é possível profanar
culturais, os arquétipos e a existência do in-
cronogramas e ações no tempo. Poucas vezes, contudo, esse diagnós-
consciente coletivo. os nossos velhos altares da verdade, abrir os olhos e avançar.
251

Cristalizadas e resilientes
No início do século 16 um poeta italiano imaginou que um
paladino descobriria na Lua tudo o que se perde na Terra.
O cavalheiro Astolfo, acompanhado nessa viagem pelo
nobre São João, observa com assombro ao seu redor,
lagos, rios, campos, belas cidades e castelos, montanhas
e selvas; mas todas eles distintos dos conhecidos na
Terra. E, num vale profundo, localizado entre montanhas
altíssimas, um tesouro imenso composto por tudo o
que foi extraviado: oportunidades desperdiçadas, votos
quebrados, orações não atendidas. Todos eles jaziam
nesse lugar para sempre. Também estavam as lágrimas
e os suspiros dos amantes, os projetos vencidos e os
anelos não saciados.
253

A visão de Ludovico Ariosto81, o poeta ao qual nos referimos, nos


remete a que as ideias e intenções nunca desaparecem, apenas
mudam de lugar. Nos alerta que os objetos duram até o dia em
que precisam quebrar e, assim, transportar sua contraparte para
outra realidade. E que as pessoas, suspiros divinos de Deus,
nunca morrem, apenas se refrescam em outra região do Universo.

Essa visão medieval de que as coisas e os seres transformam-se e


adaptam-se sucessivamente ou extraviam-se, sem, contudo, des-
truir-se, chega até nossos dias com roupagens semânticas mais
elaboradas. A resiliência, como utilizada na atualidade, impri-
me ao seu possuidor a capacidade de adaptação e flexibilidade ao
meio ao qual se encontra exposta. A metamorfose, às vezes reque-
rida, é um aspecto evolutivo sobre o qual os seres orgânicos, e
também as instituições criadas por eles, apresentam disposição
para subsistir, para continuar, para evoluir.

Hábitos, costumes, estruturas de comportamento, sistemas de organiza-


ção, entre outros, possuem características adquiridas que buscarão
manter em operação os ciclos que as geraram, suas dinâmicas de
funcionamento e processos regidos pela inércia. Diria Lavoisier
que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Walter Cannon chamou essa condição dos seres vivos de regular seu
ambiente interno e externo a partir de ajustes no seu mecanismo
individual como homeostase. Ou seja, em prol da sobrevivência
todo sistema é capaz de aceitar mudanças, apenas as necessárias,
para garantir a preservação das suas funções. Esse princípio
provocará também retomar as antigas condições de equilíbrio,
se possível, ou incluir as mudanças requeridas como uma nova
condição ou paradigma.

Assim, apresentamos um novo conceito vindo das nossas observações


na pesquisa; trata-se do conceito de estrutura forte. Ou seja, 81_ Ludovico Ariosto (Reggio Emilia, Itália,
8 de setembro de 1474 — Ferrara, Itália, 6
aquela que está presente tanto em nível pessoal como institucional de julho de 1533) foi poeta da Idade Média, Tudo indica que a velha concepção de estruturas rígidas está per-
famoso pela sua narrativa épica, romances e
a partir de hábitos e costumes. Essas “formas de fazer” produzem poesia heroica, em que se destaca o poema
dendo força. A rigidez é mais propensa à ruptura. A resistência
rotinas e ciclos cuja inércia é difícil de quebrar, principalmente Orlando Furioso, escrito em 1516. consiste precisamente na capacidade de ser flexível e mudar. Como
porque para isso, diante dos primeiros indícios de perturbação, 82_ Antoine Laurent de Lavoisier (Paris, Fran- visto, esse atributo pode ser positivo quando queremos preser-
ça, 26 de agosto de 1743 — Paris, 8 de maio
todo ser orgânico (incluindo as instituições criadas por eles) var a vida e o funcionamento de um sistema ou estrutura, mas
de 1794) é considerado o pai da química
buscará recuperar seu estado anterior de tranquilidade e equilí- moderna. negativo quando, querendo mudar, enfrentamos as resistências
brio. Assim, todo agente externo que ingressa em um sistema expõe- 83_ Walter Bradford Cannon (Prairie du advindas de velhos e cristalizados valores dispostos a efetuar
se a três possibilidades: vence e transforma; perde e é eliminado; Chien, EUA, 19 de outubro de 1871 — Lin-
pequenas concessões sem efetuar as requeridas e necessárias
coln, EUA, 19 de outubro de 1945) foi fisiolo-
ou fica domesticado e utilizado à conveniência do hospedeiro. gista e médico. transformações que obriga o progresso e demanda a história.
255

O risco da domesticação
Adélia Prado dizia que desde a sua infância vinha vindo,
84

como se seu destino fosse o exato destino de uma


estrela: “Não quero faca nem queijo. Quero a fome”.
Escreveu em versos contundentes convencida de que
a vontade e o desejo são o estopim inicial, o ponto de
partida, o combustível impulsor da ação realizadora.
Sem vontade de comer, para que o queijo? Para que a faca?
Sem fome, não quero nada.
257

A vontade de comer, no entanto, também acaba. O que vem depois de


um desejo saciado? O que vem depois de um desejo não realizado,
mas compensado? O risco de ir modelando expectativas e delas ir
abandonando no caminho suas características iniciais até trans-
formá-las em coisa diferente no final pode ser chamado de pro-
cesso de domesticação. Vale para as pequenas ideias. Vale para
as grandes. Vale para a democracia. Vale para a participação.

Domesticar é uma operação que consiste em adaptar o comportamento


de um ser vivo, e torná-lo sociável aos interesses e utili-
dades do instrutor ou de um sistema. Para o sociólogo Pierre
Bourdieu85, qualquer desejo exótico tenderá a ser domesticado
dentro de sistemas tradicionais. Domesticar o exótico é uma
defesa que utilizamos diante de pensamentos ou modos de vida
desconhecidos, mal conhecidos, ou arriscados, que podem não
apenas corromper velhas verdades, mas as estruturas tradicio-
nais, que dão forma e sustentam os modelos imperantes.

Estruturas resilientes, adaptáveis, flexíveis, homeostáticas podem,


dessa forma, apenas aparentar mudanças, sem, contudo, efetiva-
mente aceitar transformações. Nesse caso, a flexibilidade pode
não ser entendida como uma virtude, mas como uma estratégia de
defesa ou como uma forma de perpetuar antigos privilégios.

Toda mudança enfrentará oposições, na medida em que altera uma


ordem estabelecida, conhecida e aceita. O amanhecer democrático
no Brasil não podia ser apenas um despertar sem resistências,
mas um longo processo de desemaranhamento das profundas rela-
ções construídas desde a conquista portuguesa. Estruturas às
quais renunciamos, mas que não abandonamos totalmente. São,
portanto, resquícios de uma independência inacabada, constante-
mente sabotada pelo esquecimento das suas primeiras aspirações. 84_ Adélia Luzia Prado de Freitas (Divinópo-
lis-MG, 13 de dezembro de 1935) é poetisa,
professora, filósofa e contista. Seus textos
Os motivos dos filhos não são os motivos dos pais. Contudo, tanto retratam aspectos lúdicos e a narrativa coti-
os que iniciaram os processos como aqueles que o continuam com- diana como condições próprias da natureza
literária.
partilham de um único movimento chamado democracia. Um desejo
85_ Pierre Félix Bourdieu (Denguin, França,
antigo, que carrega motivos e aspirações de outros tempos e que
1 de agosto de 1930 — Paris, França, 23 de
encontra nos dias atuais mecanismos potentes para desembaraçar janeiro de 2002) foi sociólogo e um dos mais
destacados representantes da sociologia
as linhas que impediram um avanço mais rápido. A participação contemporânea. A sua abordagem sobre a
sociedade resgatou conceitos-chave sobre a
como desejo não é apenas a faca ou o queijo. A participação é
cotidianidade: hábitos, campos sociais, capi-
o desejo de comer. tal simbólico e instituições.
259

“Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata.


Quem tenta ajudar um broto a sair da semente o destrói.
Há certas coisas que não podem ser ajudadas.
Tem que acontecer de dentro para fora”
Rubem Alves
261

A liberdade como caminho natural


ainda era presidente quando confidenciou que falava
com as plantas. - Não digo que tenha um diálogo, mas
me esforço em interpretá-las. José “Pepe” Mujica 86

passou quase quinze anos preso e torturado pelo


regime da ditadura militar. Resistente às mortificações
físicas e psicológicas que buscavam retirar-lhe a
condição humana, o revolucionário afirmaria, anos
depois, que percebia nos processos de reconciliação
do povo uruguaio relações incompatíveis entre a
verdade e a justiça.
263

Da mesma forma como uma criança nega a falta diante da mãe para
evitar a dura punição, nos anos da retomada democrática muitos
optaram por silenciar seus depoimentos, transtrocá-los, ou mu-
tilar a verdade por medo de sofrer direta ou indiretamente reta-
liações. Pareceria, portanto, que a paz revelava sua importância
sobre a justiça, quando surge o entendimento que para olhar o fu-
turo precisamos conhecer o passado sem omissões, mesmo que para
isso sejamos forçados a engolir os motivos da nossa indignação.

Assim como fora feito por Mandela87, torturado e preso por mais de
27 anos pelo regime do apartheid sul-africano, a melhor opção
parece ser sempre aquela que se aproxima do conhecimento da
verdade. Não é possível provocar uma guerra em nome da justiça,
muito menos em nome da paz. Conhecer a verdade não serve apenas
aos envolvidos, mas é material pedagógico e exemplo para as fu-
turas gerações. Um caminho que evita que sejamos reféns da nossa
própria história, fazendo que o ciclo se quebre e suas fases
mais tristes jamais se repitam.

A movimentação em torno da diminuição da maioridade penal no Bra-


sil, por exemplo, expressa um descontentamento cujo ápice de
indignação parece estar nos levando à busca da justiça apenas
pela punição. A dicotomia entre verdade e justiça, mais uma vez,
se expressa de forma diferente, mas ainda em oposição. Ou apli-
camos a justiça para punir meramente ou assumimos o compromisso
de buscá-la para corrigir e recuperar o indivíduo. São coisas
diferentes e seus efeitos práticos também.

A rigorosa reciprocidade do crime e da pena: a retaliação surge


como uma amostra significativa dos ciclos viciosos que carregamos
e reproduzimos incessantemente a partir do nosso comportamen-
to. A liberdade, em boa medida, implica inclusive questionar a
penosa lei de talião, do olho por olho, dente por dente. Talvez 86_ José Mujica Cordano (Montevidéu, 20
de maio de 1935) é um político uruguaio, ex
uma das mais antigas leis que ainda vigoram na humanidade e que, -revolucionário e ex-Presidente da República
Oriental do Uruguai entre 2010 e 2015.
sem saber, pautam a nossa forma de pensar, de falar, de agir.
tificamos esse ciclo insistentemente repetitivo com que parece se
É esse, entre muitos temas, o que acende o piloto automático 87_ Nelson Rolihlahla Mandela (Mvezo,
África do Sul, 18 de julho de 1918 — Joha- alimentar a história. Nele vivem as inércias nutridas pelo medo
que nos governa, provocando opiniões e julgamentos, legítimos nesburgo, África do Sul, 5 de dezembro de
2013) foi um líder rebelde e Presidente da de ser livres. Porque as correntes e as amarras com as quais
enquanto vindos de uma experiência, válidos enquanto resultado
África do Sul entre 1994 e 1999. Ganhou o
aprendemos a conviver parecem às vezes mais confortáveis do que
de uma opinião, mas incompletos na medida em que seu efeito Prêmio Nobel da Paz em 1993.
as enormes responsabilidades que surgem com a liberdade. Ser
resulta pouco transformador a longo prazo. 88_ Antônio Machado Ruiz (Sevilha, Espa-
nha, 26 de julho de 1875 — Colllioure, Fran- livres demanda um custo. Pensar diferente, fazer diferente, uma
ça, 22 de fevereiro de 1939) foi um poeta.
Assim, emergem as estruturas fortes como indícios de um caminho carga: a pesada carga de transformar o mundo. Como diria Antônio
Revelou-se como um dos maiores represen-
conhecido que nos levará sempre aos mesmos lugares. Nele iden- tantes da sabedoria popular espanhola. Machado88: “Caminhante não há caminho. Se faz o caminho ao andar”.
265

Se eu não contar essa história, essa história me conta. A dor, a angústia, a


felicidade, tudo embaralhado. Não dá para começar pelo princípio. Sempre
tem algo que vem antes. Começaremos então pela metade, assim é melhor.
Primeiro de fevereiro de 1974. Nascimento do meu filho na cidade de
São Paulo. Pertinho, a poucos quarteirões, o edifício Joelma em chamas.
Todos queriam ajudar. Eu mesma queria sair e fazer alguma coisa, socorrer
alguém, se pudesse. As pessoas me assistiram no hospital preocupadas.
Outras, na rua, acudiam os sobreviventes da tragédia. Isso também é par-
ticipação, creio. Desconhecidos unidos por uma causa. Foi um dia de senti-
mentos misturados. Como ficar inteiramente feliz? Como ficar inteiramente
triste? Naquele dia veio ao mundo meu primeiro menino. Anos depois teria
mais três meninas, mas essa é outra história que não tenho como contar
desde o princípio. Sempre há uma parte antes disso. Eu, por exemplo, sem-
pre fui de ajudar dentro de casa. Isso lá na Bahia. Depois de casada, não
seria diferente. Só que as coisas eram difíceis. Tudo muito atrapalhado.
Já estava com quatro crianças para criar quando meu marido me proibiu de
costurar para cliente homem. Como fazer então? Não dava para escolher
freguesia. Falava para ele que precisávamos do dinheiro. Talvez se ele be-
besse menos. Talvez se ele cuidasse mais da gente. Talvez se ele voltasse a
ser como era. Mas as coisas não são como a gente quer. Ele decidiu ir em-
bora e nunca mais voltou. Eu decidi costurar para todos, e aqui estou.
Em São Bernardo construí a minha vida, minha casa, eduquei meus meninos,
me reconciliei com o amor e sou feliz. Não tenho muita sabedoria, mas te-
nho boa memória. E se eu não contar essa história, essa história me conta.

Domingas nos contou: Costurando para todos

DOMINGAS MARIA DA SILVA


(Piatã - BA, 1957)
Moradora do Parque Hawai – Alvarenga
267

Os recursos
“É o velho jogo do martelo e da bigorna: entre os
dois, o ser humano, como o ferro, é forjado num todo
indestrutível, num indivíduo. Isso, de forma simples,
é o que entendo por processo de individuação”
Carl Gustav Jung
269

Aprendi muita coisa nessa vida. Aprendi que a conversa de algumas pessoas
é bem pouquinha, mas pode ser rica em sabedoria; muita coisa não significa
grande coisa. Aprendi que é importante escutar o que os outros dizem, prin-
cipalmente quando queremos agradar e fazer as coisas bem. Aprendi que
gente boa e gente ruim há em todo lugar e em qualquer época. Aprendi de
tudo um pouco, menos a ler e a escrever. Sou de um tempo em que os meni-
nos vinham ao mundo para pegar na enxada. Vim de um lugar onde brincar
era mergulhar no rio e ser feliz era sempre se sujar. Sou de uma família onde
podíamos rir alto, mas precisávamos chorar baixinho. De uma terra em que
o dia começava e terminava com o sol, e olhar para o céu não era apenas
bonito, era necessário.

Manoel nos contou: Tem açúcar que não adoça

Meu pai era cortador de cana. Homem forte e bom. Não conheceu a do-
ença até passados os 40. Um dia passou mal na plantação, mas não falou nada
com medo de perder a jornada. Enrolou enquanto pôde, mas, não aguen-
tando as dores, arrumou as roupas, fez promessa pra santa e saiu apressado
para uma cidade distante se tratar. Tava demorando tanto que duas semanas
depois meu tio foi procurar por ele. Coisa boa não seria, e não foi. Ninguém
me disse de que morreu meu pai. Teria sido a cana que o matou, talvez o des-
gosto da pobreza, de nada ter. Talvez já tivesse vivido tempo demais achando
que alguma coisa mudaria. O homem forte e bom estava morto. Depois da
confirmação, os meninos que restaram e a mãe sobrevivente não interessa-
vam aos donos da fazenda. Fomos todos mandados embora dessa terra.
Já não gostavam de mim mesmo. E era porque uma vez me pegaram chu-
pando cana. Dá para imaginar o susto? Coração jovem é diferente, fosse o
de hoje, falhava na hora. Tudo era muito injusto. Montanhas de macaxeira
no chão e o povo morto de fome: plantava, cuidava, colhia, mas não podia
comer. E em casa faltava tudo. Vida dura, difícil de contar. Por isso vim para
São Bernardo. Eu tinha um sonho impossível de sonhar para um menino do
interior de Pernambuco. Chegando aqui, vi que o desejo era possível. Apren-
di coisas novas. Aprendi a escrever meu nome. Foi emocionante ver as letras
agarradinhas desenhar Manoel Guilhermino no papel. Não passei disso, infe-
lizmente. Mas meu sonho foi além. Conheci pessoas de todo canto, sonhando
parecido, dispostas a recomeçar. Cheguei jovem, com Iraci, minha veia. Tive
muitas dúvidas, mas estávamos juntos. Na vida e na morte, disse ela. Com
você, na vida e na morte, digo eu também. Dessa promessa nasceram nossos
filhos. Aqui em São Bernardo cresceu e prosperou nossa família. Não posso
MANOEL GUILHERMINO DA SILVA
pedir mais. Sou grato por morar aqui. (Bezerros - PE, 1940)
Morador do bairro Ferrazópolis
271

A viagem de Ulisses.
O canto das sereias e o recurso

As sereias do mundo mitológico eram seres conheci-


dos pela sua sensualidade e beleza. Eram capazes de
emitir cantos hipnóticos e assim atrair a atenção dos
tripulantes dos navios para colidirem nos rochedos e
afundar. Essa distração, produzida pelo encantamen-
to, conduzia, aos menos experientes, a um naufrágio
não desejado, mas emocionalmente consentido.
273

O cenário trágico do naufrágio não dá lugar a justificativas.


Seria inútil revisar se as demoradas horas de trabalho elaboran-
do mapas foram suficientes. Se o estudo das rotas de navegação ou
a identificação dos ventos e correntes marinhas foram as corre-
tas. A viagem interrompida pela fatalidade das sereias não tem a
ver com cronogramas, mas com a displicência de um planejamento
que desconsiderava a natureza dos marinheiros, seus ímpetos e
fraquezas. A tragédia anunciada foi fruto do desconhecimento da
natureza humana, das desatenções da mente e dos impulsos e for-
ças que influenciam decisões e governam nossas ações.

Dentre as histórias fantásticas da antiguidade, o mito de Ulisses89


é um dos mais representativos. O ensinamento mais importante
distingue, nos fatores comportamentais, variáveis capazes de
alterar os resultados planejados. Munidos de estetoscópios,
cientes do diagnóstico individual do nosso temperamento, será
mais efetivo o esforço de vencer os obstáculos autoimpostos e
seus efeitos indesejados.

Ulisses conseguiu passar pelos rochedos das sereias e salvar-se,


porque colocou cera nos ouvidos dos seus marinheiros e, na hipó-
tese de ele sabotar a viagem, pediu para ser amarrado ao mastro
do navio. Sabedor das suas limitações, não confiou nas suas for-
ças para garantir o projeto. O herói utilizou-se de um recurso
para não ser atingido pelo magnético canto das distrações.
Só assim conseguiu prosseguir seu caminho, escapar da tentação,
da morte e vencer o desafio.
precisões. Nessa altura, as placas do caminho parecem rever-
Em São Bernardo do Campo, percebemos que, embora necessários, defi- berar as mesmas perguntas. Que ações coletivas são capazes de
nir objetivos e trajetos, seguidos pelo rigor de um planejamen- enfrentar eficazmente as tensões que distraem nossa atenção?
to, são apenas alguns dos componentes para assegurar o sucesso Como reforçar o leme para superar as correntes, os rochedos e
da viagem. O nosso desenvolvimento como sociedade solicita o uso as sereias? Como conduzir a embarcação social bernardense até
de recursos que nos levem a superar as tensões que constringem um porto seguro, considerando a diversidade da sua tripulação,
o nosso comportamento. Entendemos, nesse sentido, a ferramenta seus interesses e imaginários? Como apaziguar a ansiedade da-
“participação cidadã” como um dos melhores recursos anticícli- queles que urgem chegar, de ver a terra no horizonte? Como acal-
cos, potentes e legítimos, de reversão de tendências de frag- mar os corações de quem, depois de muito navegar, ainda precisa
mentação e dissidência social. A participação, como recurso de esperar, sem cair no equívoco de abandonar princípios, inventar
Ulisses, nos abre a possibilidade de fortalecer a democracia atalhos ou invocar forças vencidas e superadas do passado?
e consolidar os avanços alcançados, sem abandonar os motivos
89_ Ulisses ou Odisseu foi um dos heróis A sereia de Ulisses é a mãe-d’água dos pescadores amazônicos.
herdados por aqueles que ousaram fazer-se ao mar. lendários da mitologia grega que aparece
como protagonista na Ilíada e na Odisseia, A Iara do folclore brasileiro, encantadora e mortal, migrou para
ambas obras atribuídas a Homero. A viagem
No entanto, a ação participativa, dotada de complexidade e subje- a cidade. Que sua analogia nos ajude a jamais sobrestimar o
de retorno para seu reino, depois da guerra
tividade, dada a própria amplitude semântica do verbo, exigirá de Troia, demoraria mais de vinte anos. poder da nossa embarcação subestimando o poder das distrações.
275

Percursos Incompletos.
A cidade reconectada

Um antigo provérbio africano reza que é tarefa de


uma aldeia educar uma criança. Embora o desenvol-
vimento integral de um indivíduo seja um processo
que acontece ao longo de toda a vida, o ambiente
familiar é o pano de fundo de todos os processos de
socialização e aprendizagens construídos. Na terra
dos Carijós, uma casa era uma aldeia: uma aldeia
dentro da aldeia. Esse núcleo familiar, de jurisdição
mais íntima e embrionária, devia inculcar valores e
imprimir, como legado, a carga genética da tradição.
É tarefa de uma aldeia educar uma criança. De uma
aldeia, e de todas as aldeias que cabem dentro de si.
277

O fato de ter uma aldeia dentro de outra é uma analogia dos suces-
sivos níveis de socialização do indivíduo, um caminhar natural
que nos separa das primeiras identidades e nos apresenta o co-
letivo como um grupo maior e diverso. Assim, a pequena aldeia
recebe a inserção de novos integrantes que se acrescentam ao
sistema, tanto em forças como em fragilidades. A aldeia fica
maior, e algumas vezes incomensurável, em escala e complexi-
dade.

Esse novo conceito de envolvimento social e convergência de inte-


resses sobre um território foi desenvolvido por Marshall McLuhan
a partir do conceito de aldeia global. Essa ideia está aportada
na evolução tecnológica e na capacidade de permitir, em qualquer
circunstância, a comunicação direta e sem barreiras dentro de
um território cada vez mais integrado. Nessa globalidade agre-
gadora, qualquer pequeno boato pode adquirir destaque mundial;
qualquer pequeno anonimato pode sucumbir e alcançar alturas
impensáveis de protagonismo e fama.

Embora os sistemas de comunicação e a tecnologia tragam a percepção


de um mundo interligado, Milton Santos91 replicaria o conceito
de aldeia global por considerá-la uma ilusão construída sob
as bases de um mundo sem fronteiras. Para Santos, as relações
globais são reservadas a um número pequeno de agentes privi-
legiados, numa relação em que se destacam elevados níveis de
em que a aldeia está chamada a enfrentar as tensões de uma cida-
exclusão e evidentes fraturas sociais. De certo, um modelo de
de que precisa reconhecer no mapa os problemas dos seus enclaves
construção de um único modo de vivência já seria suficiente para
de pobreza e o tamanho e a situação da sua periferia.
retornar à lógica dos Carijós de uma aldeia dentro da aldeia,
ou de muitas aldeias dentro de uma. De maneira que as diversi- Uma cidade construída apenas por fluxos, conexões, mediações,
dades se respeitem, interajam e construam caminhos de trocas, dobras e redes é uma cidade que reforça as ausências e as
sem subordinações. invisibilidades. A São Bernardo desejada não pode ser apenas
o trajeto entre a nossa casa e o trabalho, entre a escola e
Em São Bernardo do Campo, a nossa aldeia é uma vila, constituída
o shopping, ou entre o lazer e a fé religiosa. A cidade das
pelo encontro e desencontro de grupos e indivíduos e pelo perfil
90_ Herbert Marshall McLuhan (Edmonton, pessoas é uma aldeia de relações e aprendizados. Será, por-
urbano desenhado no território, em sucessivas ondas migrató- Canadá, 21 de julho de 1911 — Toronto,
tanto, um território maior do que a soma dos seus pontos in-
Canadá, 31 de dezembro de 1980) foi edu-
rias. A cidade como unidade é um traçado interligado, de fluxos cador, intelectual, filósofo e teórico da co- terconectados. Maior do que uma terra rasgada por vias que a
e comunicação, que nos remete novamente ao conceito de McLuhan: municação. Ficou conhecido pela sua contri-
buição no entendimento das transformações apresentam incompleta, constrita ao tamanho do marco da janela
uma vila interconectada por meios de comunicação e tecnologia, sociais provocadas pela revolução tecnológi-
do automóvel.
ca do computador e das telecomunicações.
mas na visão de Santos ainda fraturada e segregada na herança
histórica da desigualdade. As preocupações do nosso geógrafo 91_ Milton Almeida dos Santos (Brotas de Se é tarefa da aldeia educar a criança, será tarefa de todas as
Macaúbas-BA, 3 de maio de 1926 — São
universal não são apenas pertinentes para as relações entre o Paulo-SP, 24 de junho de 2001) foi geógrafo, aldeias da nossa vila formar a grande aldeia educadora que po-
local e o global, mas também entre o legal e o ilegal, na medida destacado pelos seus estudos sobre territó- deremos chegar a ser.
rio, relações espaciais, urbanização e subde-
senvolvimento.
279

O ser humano é naturalmente curioso e criativo, desafortunadamente,


no acidentado caminho do aprender, desaprendemos. José Saramago93
dizia que crianças e adultos devem ler livros que estejam acima
da sua compreensão. O desafio é imperativo para a aprendizagem e
o crescimento. Crescer implica espiar o desconhecido por entre as
fendas do conhecido. É abandonar o desconforto de um continente
que não nos comporta mais. É, portanto, uma renúncia ao antigo,
aos lugares-comuns, às palavras usadas e encardidas. É aceitar que
o próprio crescimento pode não ser necessariamente prazeroso, mas
enfadonho, trabalhoso e sofrido.

Reticentes à dor, ou a qualquer incomodidade trazida pelo abandono


do ser anterior ao que éramos, haveremos de enfrentar resistên-
cias. Resistências criadas pela nossa insegurança ou pelo crivo
equivocado de quem vê de fora e analisa. Para o doutor Epaminon-
das, o diagnóstico clínico do jovem Paulo foi poesia. De certo,
havia na avaliação do profissional o entendimento de que o menino
entendia a vida como um lugar de irrealidades, sobre a qual não
havia evidência física. Seria melhor para todos, para o menino e
para mãe, dona Coló, permanecer na esfera regulada e conhecida da
normalidade. A partir dessa perspectiva, parece não haver lugar
para espiar a vida com novos olhos. Não há espaço para a imagina-

Reforma e política para refundar o Brasil. ção, que se apresenta desafiadora. A curiosidade desde muito cedo
pode agonizar nas mãos de quem perdeu a capacidade de ver pelos
A participação como recurso anticíclico caleidoscópios coloridos da nossa infância ou pelas lentes das
lunetas que nos aproximam do céu.

O menino Paulo, personagem de Drummond de Andrade , 92


Assim como na história de Drummond, a nossa aproximação com a po-
lítica costuma ser tensionada pelas cordas da desconfiança e da

era mesmo um caso de poesia. Sua vida era povoada por insatisfação. É vista como um terreno de irrealidades da qual uma
importante maioria evita fazer parte, deslinda-se ou esquiva-se.

dragões cuspindo fogo, pedaços de lua feita de queijo, Para quem olha de fora, o primeiro diagnóstico é excludente e,
muitas vezes, equivocado. A política, contrariamente ao sentimen-
to manifesto na pesquisa, é um compromisso que todos assumimos
ou um tapete de borboletas dispostas a atravessar a 92_ Carlos Drummond de Andrade (Itabira
-MG, 31 de outubro de 1902 — Rio de Ja-
neiro-RJ, 17 de agosto de 1987) foi poeta,
ao fazer parte da vida na cidade. A política, assim como a par-
ticipação, é um construir de relacionamentos sociais, pautados

chácara de Siá Elpídia a caminho do sétimo céu. Doutor


contista e cronista, considerado um dos mais
influentes do século 20.
pela diversidade de acepções, pela cotidianidade e pela contínua
93_ José de Sousa Saramago (Azinhaga, construção da ação inacabada.

Epaminondas sentenciou: “Não há nada a fazer, Dona Portugal, 16 de novembro de 1922 — Tías,
Lanzarote, Espanha, 18 de junho de 2010)
foi escritor, jornalista, poeta e dramaturgo. A vida política, portanto, nessa primeira dimensão conceitual, não
Saramago foi o primeiro escritor de língua
está restrita apenas às ciências de governo de um Estado ou nação,
Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia”. portuguesa ganhador, em 1988, do Prêmio
Nobel de Literatura. nem ao complexo sistema de representatividade democrática, coli-
281

gações ou engenharias de poder. Assim sendo, é possível fazer po-


lítica na família, no bairro, no trabalho, na escola. Participar,
opinar, influir, trabalhar em prol da convivência humana é fazer
política. A política é a arte do possível. Diria Cesare Pavese94
que toda a vida é política.

Um segundo diagnóstico é a percepção da política como sistema es-


truturado por regras e normas que a definem como um espaço privi-
legiado a partir do qual é possível exercer autoridade sobre os
desafios impostos pela realidade. A política assume um componente
de governança e ação pública a partir da qual é possível reverter
cenários sociais e econômicos, impulsionar as diversas diretri-
zes que as cidades demandam para seu desenvolvimento, assim como
ofertar paz, prosperidade e qualidade de vida para as pessoas.
O sistema político será o catalizador dos esforços convergentes
da sociedade e seus representantes no caminho sempre complexo de
uma construção de acordos e lineamentos compartilhados.

Contudo, esse sistema de relações e estruturas pode também sofrer


acomodações e tensões internas, capazes de resistir às mudanças
ou domesticar ações naturais de reforma. No Brasil, a expres-
são reforma política remete para as alterações propostas para o
melhoramento do sistema político e eleitoral. Reformas que são
discutidas na sociedade e no Congresso Nacional a partir de amplo
debate. Entretanto, a premissa de que toda estrutura tenta recu-
perar seu estado anterior de equilíbrio representa efetivamente
um entrave para reformas estruturais. Um desafio que delega aos
próprios agentes de um sistema a responsabilidade pela adoção de
mudanças responsáveis por alterar a estrutura de sustentação da
qual fazem parte.

Um terceiro diagnóstico é reconhecer nas palavras de Saramago ma-


terial suficiente para assumir leituras e ações que, a princípio,
parecem estar acima da nossa compreensão. É urgente qualificar
a nossa reflexão e entendimento sobre a política que nos cabe a
todos, participar nos espaços institucionalizados no sistema de-
mocrático e investir para que possam exercer seu papel emancipató-
rio. A participação cidadã, como recurso anticíclico e como eficaz
ferramenta de reforma política, precisa ser posta em evidência, 94_ Cesare Pavese (Santo Stefano Belbo, Itá-
lia, 9 de setembro de 1908 — Torino, Itália,
ganhar destaque, conteúdo e naturalidade da vida em sociedade. 27 de agosto de 1950) foi um dos mais im-
portantes escritores italianos do século 20. A
É importante para São Bernardo, é imprescindível para o Brasil,
narrativa de Pavese aborda temas da vida co-
que a política passe a ser urgentemente um caso de poesia. tidiana e os conflitos da contemporaneidade.
283

A cidade que é da nossa conta.


O orçamento participativo
Para Paulo Freire , não existe educação neutra, toda
95

neutralidade é uma opção escondida. Seguindo essa


ideia, a neutralidade é uma escolha que aparenta des-
viar-se do confronto, mas que escolhe implicitamente
um lado. Toda neutralidade é, portanto, uma aposta
conformista que faz, por omissão, a roda continuar
girando conforme suas inércias. Essa neutralidade é
uma simulação, que se expressa na indiferença quan-
do desviamos o olhar para não ver, quando silencia-
mos uma opinião ou retraímos uma ação por temor ou
displicência. Pode não parecer tão evidente, mas ser
omisso é abandonar uma causa.
285

Cada vez que assumimos que os problemas da cidade são apenas do go-
verno, não estamos transferindo poder, mas abrindo mão dele.
É da nossa conta as contas que a cidade faz, uma responsabilida-
de da qual não podemos ser esquivos. A participação não é apenas
um direito conquistado, mas um dever que precisa ser insisten-
temente reivindicado. Todavia, a legitimação e o alargamento
dos processos de participação cidadã, vistos com desconfiança
por alguns grupos que os alinham com modelos de cooptação, são
fundamentais para qualificar a leitura política de uma sociedade
que precisa consolidar sua consciência democrática e seu com-
prometimento para além do voto.

No caminhar democrático brasileiro é possível destacar iniciativas


ao longo das últimas décadas, ações que sacudiram a apatia da
neutralidade e o descompromisso. O Brasil pode estar orgulhoso
de ser um dos países que mais têm contribuído para superar a
neutralidade da população no entendimento e na deliberação das
contas públicas. O Orçamento Participativo95 (OP) talvez tenha
sido a experiência mais bem avaliada e mais replicada dentre as
políticas brasileiras de democratização da gestão local. Muito
já foi escrito sobre seus impactos, seus limites e oportunidades.

Certamente, a euforia dos primeiros anos e as altas expectativas


dos participantes foram reconfigurando um cenário de participação
95_ Paulo Reglus Neves Freire (Recife-PE, 19
no qual o OP se consolidava como o carro-chefe da revolução da de setembro de 1921 — São Paulo-SP, 2 de
maio de 1997) foi educador, pedagogista e
democracia participativa. Nessas quase três décadas, a experiên-
filósofo. Freire é considerado um dos pensa-
cia ganhou legitimidade e evidenciou também uma severa crise de dores mais notáveis da pedagogia mundial
pela sua prática didática na educação popu-
maioridade. O principal desgaste pode ter ocorrido por assumir lar, voltada tanto para a escolarização como
para a formação da consciência política.
isolada a responsabilidade de imprimir soluções que ultrapassa-
vam suas capacidades. Reconhecer os limites do OP, e seu tamanho 96_ Orçamento Participativo (OP) é um me- mesmo tempo, constatação importante que reforça que as diversas
canismo da democracia participativa que
dentro do ciclo orçamentário, foi uma lição aprendida que des- permite aos cidadãos influenciar e decidir acepções da palavra participação não estão restritas ao mundo
mistificou entendimentos, diminuiu distorções e fez dessa potente sobre os orçamentos públicos, por meio da semântica, mas também à sua prática.
de processos de participação cidadã. A ini-
ferramenta uma parte fundamental, mas não a única, comprometida ciativa costuma contar com a realização de
plenárias abertas e periódicas e etapas de Diria Guimarães Rosa97 que o sapo não pula por boniteza, mas por pre-
com o planejamento participativo das cidades brasileiras. negociação direta com o governo. A imple-
mentação do OP surgiu com a promulgação
cisão. A participação, nesse sentido, tem se mostrado fotogênica
O OP, como esfera de influência e decisão, principalmente dos inves- da Constituição de 1988, quando foi estimu- e altamente atrativa no Brasil. O suficiente para que ela surja
lada a criação de mecanismos de participa-
timentos públicos, foi adquirindo matizes e perfis diferenciados ção cidadã na definição de políticas públicas. também de maneira oportunista, trabalhada de forma distraída e
nas distintas cidades onde foi implementado. Tratava-se, não desinteressada, mas defendida categoricamente quando um governo
97_ João Guimarães Rosa (Cordisburgo-MG,
apenas de distinções sobre suas características de organização 27 de junho de 1908 — Rio de Janeiro-RJ, trata de afirmar que é democrático. A participação, afinal de con-
19 de novembro de 1967) foi um dos mais
e funcionamento, mas também dos seus alcances, desdobramentos importantes escritores brasileiros. A sua obra tas, pode sofrer domesticação na medida em que atenta contra uma
destaca-se pelas inovações de linguagem,
e articulação com outros espaços de planejamento. O OP diversi- estrutura forte, que resista a ver suas rotinas sendo alteradas,
marcada pela influência de falares populares
ficava-se, deixando de ser um para transformar-se em muitos ao e regionais. mas não renuncia ao bônus de proclamá-la como parte sua.
287

Distinções precisam ser feitas. Nem toda participação é igual,


como nem todas as experiências participativas são efetivamente
restauradoras de confiança, emancipadoras do letargo político e
transformadoras pelo seu potencial de quebrar velhas serventias
instauradas. Nessa direção, podemos afirmar que o Orçamento Par-
ticipativo em São Bernardo do Campo, examinado em profundidade
sob um enfoque de recurso anticíclico, consegue trabalhar no
desemaranhar das tensões identificadas pela nossa pesquisa.
A complementaridade com outros planejamentos setoriais de hori-
zontes mais largos e sua íntima relação com o Plano Plurianual
Participativo (PPA) faz dele uma ferramenta para trabalhar as
tensões entre curto, médio e longo prazo na cidade.

A caravana das prioridades, por outro lado, cumpre a finalidade de


ampliar a percepção do conselheiro para além da sua visão de
bairro, ou para além dos fluxos do seu deslocamento dentro da ci-
dade. Iniciativa como essa é um recurso potente contra as miopias
que fragmentam o território e nos impedem de ver a cidade como um
todo. A dinâmica de apresentação de demandas e a deliberação nas
plenárias, por outra parte, têm como base um caráter pedagógico
que enfrenta a questão da identificação dos problemas da cidade,
uma tensão que exige cuidado e atenção permanentes.

Finalmente, a formação do Conselho Municipal de Orçamento98 (CMO)


qualifica os estágios de diálogo e gera sinergias contra os
98_ Conselho Municipal de Orçamento conflitos decorrentes do individualismo e das tensões entre
(CMO) de São Bernardo do Campo é um
órgão fiscalizador, propositivo e deliberati- os saberes técnico e leigo. Essa dinâmica propicia novos en-
vo, criado em 2009 e vinculado à Secretaria
tendimentos e coloca em valor não apenas novos enfoques, mas
de Orçamento e Planejamento Participativo
(SOPP). O CMO é um órgão paritário, com- novas formas de exercitar a concessão e a restrição durante as
posto por 80 conselheiros, entre titulares e
suplentes, sendo 40 representantes eleitos etapas de negociação. Da mesma forma, a eleição de represen-
nas Plenárias Regionais do OP e 40 integran- tantes regionais99 para o acompanhamento e fiscalização de obras
tes do governo. O papel do conselheiro é
definir quais obras serão incluídas na peça e serviços propicia o envolvimento dos moradores e os empodera
orçamentária, considerando, entre outras va-
riáveis, as diretrizes do PPA. para a causa da cidade.

99_ Representantes regionais, são pessoas Definitivamente, um processo como o OP em São Bernardo do Campo
da comunidade eleitas nas Plenárias Regio-
nais do OP com a finalidade de compor as é mais do que um meio para conseguir melhores planos é, ainda,
comissões regionais de acompanhamento e
fiscalização das obras e serviços. Seu papel
uma iniciativa que provoca a renúncia de toda neutralidade e
se articula com o dos conselheiros do CMO apatia por parte da sociedade envolvida, constituindo-se também
e com os agentes de participação cidadã
(APC): facilitadores regionais de fundamen- como um fim nela mesma, com resultados e impactos que estão além
tal importância para o diálogo e governança
dos encontrados nos seus planos resultantes.
na cidade.
289
291

Plurianualidade, uma forma de projetar o futuro.


Plano Plurianual Participativo
Um galo sozinho não tece uma manhã. Para o poeta João
Cabral de Mello Neto , um galo precisará de outro
100

galo, que apanhe o grito e o lance para outros galos,


para que, com muitos outros galos, possam cruzar os
fios de sol de seus gritos de galo para que, somente
assim, uma manhã possa ser tecida. Essa manhã, tri-
cotada como um grande toldo pela soma de todos os
gritos de todos os galos, será aquela que nos rece-
berá ao despertar: uma manhã em que caibamos todos,
sem exceção.
293

A cidade das pessoas é um tecido social construído por muitas mais preocupada com a previsão no planejamento de objetivos, a
mãos, todos os dias, consciente ou inconscientemente: no ponto estimativa de metas, a projeção de atividades, e a definição de
de ônibus, na praça, na rua, no trabalho, na escola. A cidade indicadores. Desse esforço, surgiria o Plano Plurianual Par-
das pessoas é uma construção coletiva que tece cotidianamente o ticipativo102 (PPA), previsto pela Constituição Federal de 1998
grande firmamento que nos cobre. Nela, o entrelaçamento dos fios como um marco importante dentro da estrutura de planejamento
de todas as nossas histórias e desejos pessoais configura, no céu orçamentário no Brasil.
da vila, uma história e um sonho mais completo e maior do que a
No entanto, essa ferramenta de pensar o médio e longo prazo na
soma de seus desejos separados.
gestão pública foi burocratizando o encantamento do sonho de-
É uma pessoa, que precisará de outra pessoa, que apanhe o desejo sejado. Os planos produzidos mostravam-se desarticulados, dis-
e o lance para outras pessoas, que, com muitas outras pessoas, sonantes, sem reflexos no gerenciamento das ações dos governos,
possam cruzar os fios de seus desejos individuais para que, so- sem poesia, sem participação. O paradigma da gestão por resul-
mente assim, uma sociedade de construções coletivas possa ser tados, custaria em reconhecer, dentro da sua estrutura, o poder
tecida. Essa visão de democracia, construída por muitas mãos, do envolvimento cidadão nas matrizes e cálculos cartesianos de
é o sonho possível de ser sonhado. Um sonho bonito que demanda custo-benefício. O PPA, como entendido até então, limitava-se a
intencionalidades, condições propícias e tecelões. uma peça cujos alcances se esgotavam na formalidade e preguiça
que despertava a sua elaboração.
A intencionalidade de um governo disposto a adaptar o funciona-
mento da máquina pública para receber, incorporar e promover Melhor sorte tiveram iniciativas como os Planos Diretores Urbanos
interna e externamente os pressupostos da participação cidadã. ou as Agendas de Desenvolvimento Local, entre outras, que,
As condições propícias para que grandes transformações sejam pensando também em horizontes maiores, e considerando a hete-
sonhos realizáveis e onde a equidade e a justiça social se rogênea produção apresentada, investiram em refletir sobre um
abracem coincidentes na visão de um tempo de mudança. Os tece- futuro cada vez mais desacreditado e tensionado pela incerteza,
lões, como matéria-prima de uma cidade feita por pessoas, que mas que intermitentemente incorporaram impressões da sociedade
exige delas responsabilidade, comprometimento e coerência entre organizada.
discurso e prática, nas múltiplas interações construídas sob a
Os novos planos de cidade apontavam cada vez mais longe: dez,
nossa abóbada social. 100_ João Cabral de Mello Neto (Recife-PE,
9 de janeiro de 1920 — Rio de Janeiro-RJ, 9 vinte, cinquenta anos. As datas, cabalísticas na sua maioria,
de outubro de 1999) foi poeta e diplomata,
Para Chico Buarque , o homem sério, o faroleiro, a namorada, a
101
cuja obra percorreu desde o surrealismo até nos catapultavam ao futuro das disputas mundiais de construções
a poesia popular. Foi membro da Academia
moça triste e o homem fraco são exemplos de individualidade que cenográficas, na apetecível estreia na rede de cidades globais
Brasileira de Letras.
o toldo social acoberta. Cada indivíduo vivendo sua vida, envol- à qual chegávamos regularmente atrasados. Os planos de cida-
101_ Francisco Buarque de Hollanda, Chico
vido na sua história, distraído, com a atenção nos seus empenhos Buarque (Rio de Janeiro-RJ, 19 de junho de de desejada, em oposição às cidades tendenciais, sem planos,
e desejos individuais: contar dinheiro, contar vantagem, contar 1944) é músico, dramaturgo e escritor. Co- esqueciam de prospectar os cenários da cidade possível, menos
nhecido como um dos maiores representan-
estrelas. A banda, que o Chico fez passar, é uma metáfora sobre tes da música popular brasileira (MPB). glamorosa e comercialmente inferior no comércio de sonhos im-
pessoas que param, veem, ouvem e participam, motivadas por inte- prováveis aos quais fomos submetidos durante décadas.
102_ Plano Plurianual (PPA) é um instru-
resses que se encontram e convergem num encantamento coletivo. mento previsto no art. 165 da Constituição
Federal destinado a organizar e viabilizar a Resgatar o sonho emocionado da construção de uma São Bernardo do
ação pública. Por meio dele, os governos
Com os ventos felizes da redemocratização do Brasil, as formas apresentam uma visão de futuro, declaram Campo, a médio e longo prazo, foi prescindir de fórmulas des-
e organizam sua atuação a partir de diretri-
utilizadas para falar de grandes sonhos, de futuro e diretrizes gastadas e comercializadas em manuais de velhas consultorias.
zes, objetivos e metas para um período de
a longo prazo, embora previssem a participação das pessoas, fo- quatro anos. O PPA é um instrumento que Voltar os olhos para uma ferramenta de gestão do Estado brasi-
consegue mediar o projeto de governo e os
ram adaptadas ao linguajar de uma reforma do Estado com foco na orçamentos anuais previstos pelo Sistema de leiro, pensada como organizador da ação pública, foi reconhecer
eficiência, eficácia e efetividade. A administração pública bu- Planejamento e Orçamento, do qual fazem
seu potencial, reformular seus alcances e explorar nele a par-
parte também a Lei de Diretrizes Orçamentá-
rocrática guinava para o horizonte da gerência por resultados, rias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA). ticipação social que esteve adormecida.
295

O PPA fez possível a distinção dos imaginários sobre curto e longo


prazo, entre ação e diretriz, entre obra emergencial e estrutu-
rante. O futuro ganhou musculatura e legitimidade, passou a ser
calculado como um corpo de quatro anos, ou como múltiplos dele,
em ciclos de um, dois, ou três PPAs; uma maneira mais acertada e
realista de assumir um compromisso de longo prazo com a cidade.
Sem dúvida, o PPA participativo recuperou em São Bernardo do
Campo o papel que jamais deveria ter perdido dentro do ciclo
orçamentário, uma aposta inovadora que transformou suas siglas
num convite sobre o qual paramos, vemos, ouvimos e interferimos.
Desde 2009, não estamos mais à toa na vida, nem vemos o futuro
passar. Dessa vez, o futuro é nosso, e acontece agora.
297

Cidreira, camomila, alecrim, arruda, pimenteira, espada-de-são-jorge.


Deus colocou os remédios do corpo e da alma para crescer na terra.
Eu quero ajudar, por isso eu benzo. Benzer significa abençoar. Benzer para
afastar mau-olhado, quebrante e zoio ruim. Eu benzo aqui no verde, porque
o verde tem energia. A natureza é a força da vida. O mundo espiritual dan-
ça entre as árvores, nada nos rios, movimenta os ventos, forma as chuvas.
Deus ama a natureza. Por isso precisamos cuidar do verde, das matas, da
floresta. Eu aprendi tudo isso sozinha. Na minha casa não se podia falar
dessas coisas. Lia escondida. Lia sem ninguém me ver, com temor de ser
castigada. Mas não tinha jeito. Era isso mesmo que precisava aprender.
E não foi por vontade minha não. Sempre fui de pouquinha fé, mas isso a
gente vai corrigindo. Depois conserta e acerta o caminho. O costume em
casa era rezar todos juntos para agradecer e pedir proteção. Aos sábados
era o terço, oração mais demorada. No fim do dia os adultos contavam
histórias, todo mundo em silêncio, e as crianças quietas, sentadas no chão.
Depois era correr para a cama. Sendo menina, eu dormia com minha avó.
Tudo era apertadinho, mas a gente se entendia. Uma noite ouvi baixinho al-
guém me dizer que a minha casa ficaria cheia no domingo. Fiquei assustada.
Não tinha ninguém. − Que história torta é essa, menina! Vê se toma juízo! −
Minha mãe nem podia ouvir o que eu contava. Logo tinha que sair correndo
para não apanhar. A família achava que eu era louca. Como alguém que reza
tanto fica ouvindo vozes pelos cantos, só podia ser loucura. Nessa semana
ouvi de novo que quem dormia comigo não acordaria no domingo. Veja se
não é coisa para ficar perturbada. Nesse sábado, depois do terço e da prosa
demorada, apagamos as velas e guardamos as lamparinas para dormir.
O domingo começou cedo, às 2 da manhã. Nem preciso dizer o que passou.
Depois desse dia guardo enorme respeito pelo mundo espiritual. Procurei
aprender mais, andar direito, ajudar as pessoas. Nasci em Minas, mas digo
sempre que sou daqui, de São Bernardo. Cheguei encantada pelas plantas,
pelo verde da natureza, pela magia da terra. As vozes de antigamente não
me atormentam mais. Aprendi que o medo é paralisia, a vida caminha pra
frente e eu não posso ficar pra atrás. Deus me quis aqui e aqui fiz a minha
vida, nesse mato profundo carregado de mistérios.

Conceição nos contou: A cura dentro da gente CONCEIÇÃO APARECIDA DA SILVA


(Ponte Nova - MG, 1935)
Moradora do bairro Santa Cruz na região do Pós-Balsa
299

o caminho
“Eu quero ser o matador das cinco estrelas
Eu quero ser o Bruce Lee do Maranhão
A Patativa do Norte, eu quero a sorte
Eu quero a sorte de um chofer de caminhão
Pra me danar por essa estrada, mundo afora, ir embora
Sem sair do meu lugar”
Lisbela, Dominguinhos
301

Tupy or not tupy, that is the question


Manifesto Antropófago do Movimento Moderno Brasileiro
303

Para onde vamos?


Os escravos que saíram dos portos de Benim, na África, rumo ao mundo novo,
eram levados antes do embarque para a árvore do esquecimento. Atravessar o
Atlântico, exigia esfacelamento violento do corpo e da mente. Exigia apagar
a memória e domesticá-la para o que viria. Antes de iniciar a travessia,
homens e mulheres deviam dar voltas em torno dessa árvore para que esque-
cessem suas origens. Depois eram arrancados do colo da terra e lançados ao
mar rumo ao Brasil. Sabiam os mercadores de escravos que a memória, com
suas raízes e identidades, é arma poderosa de resistência. Sem lembranças e
sem apegos, a mente dos negros africanos foi a primeira a ser escravizada.
305

Embarcações enlutadas pelo comércio do mar trariam até o Brasil Por conseguinte, São Bernarddo Campo é um caleidoscópio de todas as
milhões de africanos que em grande parte, e em rebeldia, de- imagens do Brasil e um retrato da humanidade, na diversidade dos
cidiram não esquecer. Nem uma árvore, nem florestas inteiras seus povos imigrantes, que vislumbraram um futuro auspicioso,
teriam magia suficiente para arrancar do imaginário e do peito empreenderam viagem e recomeçaram a vida ao nosso lado. Fomos
aquele pedaço de amor nascido na terra dos ancestrais. Não todos devorados. Fomos todos devoradores. O resultado está na
houve esquecimento, mas sincretismo. Oxóssi vestiu as roupas rua, servido à mesa, num banquete de mestiçagem antropofágica
de São Sebastião, Ogum transformou-se em São Jorge, Iemanjá em que fez dessa cidade, e sua gente, matéria-prima das grandes
Nossa Senhora dos Navegantes confundiram-se fraternalmente sob realizações da cidadania no Brasil. Foi assim desde os movimen-
os olhares do recém-chegado. tos de resistência e contestação à ditadura. É assim nas mais
recentes experiências de aprofundamento democrático trazidos
O mundo novo aprenderia que enquanto os conquistadores faziam a
pelos processos de participação cidadã.
guerra a cultura encontrava caminhos inesperados para recriar
o amor e subsistir. A mestiça terra brasileira superaria o Não seria possível reconhecer onde estamos sem olhar para atrás e
desgaste da conquista, mas carregaria o desassossego de viver refletir sobre as origens de formação da nossa sociedade. Para
entre o fascínio da civilização ocidental e o desconforto de projetar o futuro é necessário identificar onde estamos. Se não
aceitá-la como referência de cultura. Os esforços de recupe- sabemos onde estamos, nenhum mapa servirá. Não obstante, para
rar a produção local e colocá-la em valor produziram, em ou- entender o presente precisamos resgatar o passado e utilizá-lo,
tras latitudes, perigosos hermetismos, miopias e chauvinismos não como modelo, mas como combustível diante dos seus ensina-
nacionalistas de cuja matriz nenhuma civilização pôde sair mentos. Será a partir dos aprendizados do caminho percorrido
imune. que poderemos olhar confiantes para os confins da terra. Diria
Fernando Pessoa104 que desde a nossa aldeia enxergamos quanto da
Seriam Oswald de Andrade 103
e o movimento moderno brasileiro os
terra se pode ver no universo. Por isso a nossa aldeia é tão
responsáveis por recuperar essa discussão e oferecer a antro-
grande como outra qualquer. Porque somos do tamanho do que vemos
pofagia como alternativa ao dilema. Os novos antropófagos não
e não do tamanho da nossa altura. Porque podemos ter nada ou
se intimidavam com a beleza da cultura do outro, não queriam
quase nada, ser pouco ou querer pouco. À parte disso, temos em
imitá-la nem a recriminavam negando suas virtudes. Não havia
nós todos os sonhos do mundo.
aculturação nem preconceito. No entanto, aproveitavam dela o
que de melhor tinha para degluti-la inteiramente, daí o caráter Essa visão em perspectiva é uma construção que adquiriu, desde
metafórico do devorador antropófago que alimenta o corpo e nu- 2009, seus tons mais coloridos. O protagonismo na política é um
tre o espírito com a riqueza cultural da humanidade. legado aprofundado pela participação em São Bernardo do Campo,
uma conquista que não tolera recuos nem esquecimentos. Investi-
Será importante voltar os olhos para São Bernardo do Campo e ob-
mos na superação de velhas neutralidades e omissões para tomar
servar que sua memória não é apenas um legado de construção
partido e assumir, como nosso, o destino da cidade. O direito
territorial, mas um acúmulo das histórias produzidas pelos 103_ José Oswald de Sousa Andrade (São
Paulo-SP, 11 de janeiro de 1890 — São Pau-
ao voto e à representatividade, conquistas históricas da nossa
seus habitantes. Desse modo, a vila se alimenta tanto das lo, 22 de outubro de 1954) foi escritor, en- jornada democrática, não seriam suficientes para o tamanho do
experiências recentes dos aqui nascidos como das histórias saísta e dramaturgo. Foi um dos promotores
da Semana de Arte Moderna que ocorreu querer. A participação cidadã surge assim como uma das artérias
e imaginários construídos em outras localidades, por aqueles em São Paulo em 1922, evento que marcou
mais vigorosas que, saindo do coração da democracia, passou a
o início do modernismo no Brasil e tornou-se
que chegaram antes e depois. Alimenta-se das memórias fortes
referência cultural do século 20. encher de energia e vida todas as camadas do nosso tecido social.
que resistiram à magia das árvores do esquecimento, ao redor
104_ Fernando António Nogueira Pessoa
das quais dançamos antes da partida. Depois viria a travessia. (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — As tensões foram identificadas e entendemos que há recursos dis-
Lisboa, 30 de novembro de 1935) foi poeta,
Depois, a miscigenação de saberes. Depois, o trabalho na terra poníveis capazes de vencer as velhas estruturas que limitam e
filósofo e escritor português. Um dos maio-
de adoção, até fazê-la nossa. res da língua portuguesa. constringem nosso crescimento. Descobrimos, nesse caminhar, que
307

a participação tem muitos nomes e muitos caminhos podem ser


percorridos sem abandoná-la. Daí o risco de nem sempre chegar
ao destino desejado e ficar perdido nas indefinições e incertezas
de um conceito que pode ser raso ou libertador, conforme seja
cultivado.

A amplitude semântica da palavra pode esconder intencionalidades


camufladas pelo discurso dos que se aproveitam dela em bene-
fício próprio. Em São Bernardo do Campo aprendemos que para A luta continua.
trabalhar a participação não é suficiente observar apenas sua
incorporação dentro das práticas de um governo. A participação
não é um problema de existência ou de ausência, mas uma régua
de intensidades, sobre a qual cabem medições. É inevitável a
O sonho não acabou.
comparação com os outros. É reparador reconhecer que chegamos
longe graças a ela.

Aprendemos também que a participação é cotidiana, ocorre na fa-


O horizonte foi recuperado.
mília, nos espaços religiosos, nas associações, com os amigos,
no aconchego íntimo onde nascem as melhores coisas. Aprendemos,
contudo, que, apesar de ser uma prática de natureza humana,
desenvolvida nos pequenos espaços da vida social, é necessário
Até aqui, tudo valeu a pena.
que possa transcender às arenas onde a política é debatida.
Será a partir dos espaços institucionalizados que assumirá seus
maiores e mais potentes atributos para transformar a realidade
e consolidar a democracia.

Clarice Lispector105 diria que liberdade é pouco, o que ela quer


ainda não tem nome. A participação, como a liberdade, é um con-
ceito em mutação que não obedece a delimitações nem falece nas
fronteiras infligidas pelos rigores de uma definição. O desejo,
portanto, pode ser pequeno em relação ao que a vida prática nos
oferece. Talvez o que queiramos esteja além da participação.
Talvez o nosso sonho ainda não tenha nome. Todavia, aprendemos
que participar é um processo de escolhas, inacabado e em con-
tínua construção. Ao não estar pronto, há espaço para crescer,
para inovar e acreditar que o sonho, muitas vezes sonhado, pode
ser realizado. Esse é o caminho.

Para onde vamos? Podemos arriscar e dizer que vamos ao encontro de


105_ Clarice Lispector (Chechelnyk, Ucrâni-
nós mesmos. Ao encontro do destino que foi forjado pelo suor de ca, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janei-
ro-RJ, 9 de dezembro de 1977) foi escritora
milhares de famílias bernardenses que apostaram em fazer dessa e jornalista naturalizada brasileira, autora de
romances, contos e ensaios com profundo
terra um lugar de oportunidades e uma cidade cada vez melhor
apelo psicológico desenvolvido em cenas
de se viver. cotidianas.
309

Qual é o tamanho do seu amor por São Bernardo?

É do tamanho da saudade e do contentamento. É do tamanho de um amor correspondido.


311

PROTAGONISMO E PARTICIPAÇÃO AA Vida


VIDA AS INÉRCIAS
ÉÉaAcondição
CONDIÇÃOprimeira.
PRIMEIRA. As Inércias
EM SÃO BERNARDO DO CAMPO Surge
Surge oo instinto
instintocriador
criadoreeaatransformação
transformaçãoda SÃO oO obstáculo
São OBSTÁCULO invisível.
INVISÍVEL.
da natureza. Surgem os
natureza. Surgem os processos processos
históricos Osnossos
Os nossosolhos
olhosseseacostumaram
acostumaramààluz luzeeààescuridão.
escuridão.As
OLHARES PELO CALEIDOSCÓPIO marcados pelo espírito dos tempos. É odos
históricos marcados pelo espírito período As nossas
nossas mentes
mentes se se adaptaram
adaptaram atéaté encontrar
encontrar conforto.
conforto. As
tempos. É o período das primeiras Asestruturas
estruturasque
querecebemos
recebemoscomocomoherança
herançapassaram
passarama
das primeiras transições, dos primeiros passos.
Este livro é uma travessia. Cada texto foi construído transições, dos primeiros passos. Abrimos a fazer
fazer parte
parte de nós
de nós mesmos.
mesmos. O que
O que pensar?
pensar? O queO que
fazer?
Abrimos os olhos e vemos o indivíduo ganhar
buscando dialogar com os resultados da pesquisa sobre os olhos e vemos o indivíduo ganhar O quefazer? O que
sentir? As sentir? As respostas
respostas foram
foram dadas. dadas. A da
A segurança
cidadania.
cidadania. Surge
Surge o sentido de de
o sentido coletivo. A vida
coletivo.
protagonismo e participação em São Bernardo do Campo. É segurançatrouxe
estrutura da estrutura
amparo,trouxe amparo, mas
mas constringiu constringiu
a liberdade de
A vida encontra
encontra novos caminhos
novos caminhos para
para subsistir.
a liberdade de pensar diferente. As sólidas máquinase
o corolário de um projeto que pensa a cidade e a sociedade pensar diferente. As sólidas máquinas que dirigimos
subsistir. Assentamentos
são formados.são formados.
As
AS Pessoas
Assentamentos A cidade foi criada. que dirigimos e nos dirigem não foram feitas de aço,
que queremos. Cada capítulo é uma estação de reflexão
sobre comportamentos, valores, ética e democracia.
A cidade
As mãos do foicriador
criada.estão
As mãos
comdo criador
terra. estãodo
As mãos PESSOAS nos dirigem não foram feitas de aço, mas tricotadas
mas tricotadas pacientemente pela força invisível
com terra.
criador estãoAscom
mãos do criador
graxa. Surge oestão com
ser humano depacientemente pela força
hábitos e costumes. Foraminvisível de hábitos
construídas sem quee
A participação foi o objeto do trabalho, o sujeito foi o graxa.como
Surgeobra
o ser
dehumano como obra São Aa MATÉRIA-PRIMA.
SÃO matéria-prima. costumes. Foram construídas sem que percebamos.
arte inacabada. percebêssemos. Foram construídas pela repetição de
protagonista, foram as pessoas, suas tensões, seus desafios, de arte inacabada. Pessoas são caminhantes nas veredas Foram construídas pela repetiçãodedesucessões.
um ciclo interminá-
Pessoas sãonutridas
caminhantes um ciclo interminável
suas atitudes e a formidável capacidade, presente em cada da vila, com anas veredas
cultura da vila,
da terra, vel de sucessões.
um de nós, de sonhar grande, de mudar o mundo, de fazer marcadas pelos golpes da vida. Sobrapelos
nutridas com a cultura da terra, marcadas
dessa cidade o melhor lugar de se viver. desejo.
golpes Sobra
da vida. aspiração.
Sobra desejo.Sobra
Sobravontade
aspiração.
de fazer. de
Sobra vontade Precisaremos superar as
fazer. Precisaremos superar
asdesconfianças,
desconfianças,ficar
ficaratentos
atentosaos
aosriscos
riscosda
influência.
influência.
direção
É o momento
É o momento de observar
de observar a
da
a direção OO Caminho
CAMINHO
das nossasdas nossas decisões,
decisões, apaziguarapaziguar as
as oscilações
oscilações do nosso temperamento. Está ÉÉ oO desejo.
DESEJO.
do nosso temperamento. Está na hora de
na horaaderealidade
aproximar aproximar a realidade
e evitar e evitar
distorções sobre AsAsprovocações
provocações foram
foram lançadas.
lançadas. O espelho
O espelho foi
foi colocado.
distorções sobre a sua interpretação colocado. Podemos ver ou podemos desviar a mirada.
a sua interpretação. O inferno não são os Podemos ver ou podemos desviar a mirada. A solução
O inferno não são os outros. A solução está nas nossas mãos. Estamos juntos
outros. está nas nossas mãos. Estamos juntos construindo uma
construindo uma nova cidade. Estamos edificando a
O PROJETO nova cidade. Estamos edificando a cidade das pessoas.
cidade das pessoas. Estamos reconhecendo que a luta
OÉProjeto
A PROVOCAÇÃO.
Estamos
continua, que
no
reconhecendo
estamos no
caminho, que vale
quecaminho,
a
a luta continua,
pena a
que que
teimosia
teimosia das velhas utopias, do fazer compartilhado,
utopias,promissor.
do fazer compartilhado,
valeestamos
das
a pena a
velhas
do futuro promissor.
É a provocação. do futuro Somos caminhantes dispostos
O espelho está diante de nós. Não atemoriza, a construir a sociedade que devemosaser,
Somos caminhantes dispostos a construir sociedade
com a
O espelho está diante de nós. que devemos ser,que
matéria-prima comsomos,
a matéria-prima
para terque somos, que
a cidade para
mas alerta. A participação surge como ferramen-
Não atemoriza, mas alerta. A participação queremos.
ter a cidadePrecisamos
que queremos.recuperar o velho
Precisamos sonho
recuperar o
ta de como
surge transformação
ferramenta e aprofundamento
de transformaçãodas e
conquistas alcançadas. A democracia demanda muitas vezes sonhado da cidade desejada.
velho sonho muitas vezes sonhado da cidade desejada.
aprofundamento das conquistas alcançadas.
A democracia
envolvimento, demanda
não estáenvolvimento, não está
finalizada. O sujeito é AS Tensões
As TENSÕES Esse
Esseééoocaminho.
caminho.
finalizada.
empoderado, O sujeito é empoderado,
a dívida foi atendida, mas a dívida
a luta
foicontinua.
atendida,O mas a luta
silêncio foicontinua.
quebrado,Oosilêncio foi
microfone SÃO
São Oo DESAFIO.
desafio.
quebrado,
está aberto. o microfone
As ausências está aberto.
não são maisAs ausências
toleradas.
O encontro
O encontro dos foi
dos povos povos foi plural,
plural, o sonhoo sonho foi
foi compartilha-
O não são mais otoleradas.
coadjuvante, invisível,Oo excluído,
coadjuvante,podem
do. Acompartilhado.
cidade aprendeu A cidade aprendeu
a caminhar. a caminhar.
O desenvolvimento
narrar suas jornadas. A linha donarrar
o invisível, o excluído podem suasfoi
horizonte Otrouxe
desenvolvimento trouxe conhecimento. O saber trouxe
jornadas. A linha do horizonte conhecimento. O saber trouxe maioridade. A luz
voltoufoia ser
recuperada
maioridade. A luzdestrezas.
iluminou Anossas destrezas.
revelouA claridade
recuperada. A história escrita.
A história voltou a ser escrita. iluminou nossas claridade sombras,
revelou sombras,
delimitou fronteiras,delimitou fronteiras,
deficiências, deficiências,
dificuldades. Planejar
dificuldades. Planejar a cidade que queremos
a cidade que queremos demanda valentia. Exige demanda
pensar
valentia. Exige pensar a longo prazo. Demanda superar
a longo prazo. Demanda superar visões fragmentadas e
visões fragmentadas e individualistas. Cobra de nós ouvir
A CIDADE individualistas.
e reconhecer aCobrabelezadee importância
nós ouvir e reconhecer a beleza
da diversidade de Os
OS Recursos
RECURSOS
A Cidade e importância da diversidade de saberes.
saberes. Exige reivindicar deveres e responsabilidades.Exige
São
SÃO as
AS ferramentas.
OO Conceito
CONCEITO reivindicar
Exige deveres
negociar, e responsabilidades.
identificar Exigeprioridades.
problemas e definir negociar, FERRAMENTAS.
É O PANO DE FUNDO. identificarAsproblemas A viagem democrática já foi iniciada. Estamos
É o pano de fundo. tensões estão presentes, estão aí. tensões
e definir prioridades. As
A viagem democrática já foi iniciada. Estamos no mar
A terra é conquistada e o território demarcado. A estão presentes, estão aí.
É o tempo daÉação.
o tempo da ação. no mar rumo a nosso porto seguro. O labirinto
A terra é conquistada e o território demarcado. ÉÉ aA participação.
PARTICIPAÇÃO. rumo a nosso porto seguro. O élabirinto de inúmeras
geografia original é alterada até formar um berço. A de inúmeras possibilidades a tormenta. São as
A geografia original é alterada até formar um berço.
terra é gentil, a semente prospera. Diversos povos Recuperamos
Recuperamos a intimidade
a intimidade de de
umum conceito
conceito quequesurge distrações. É o desânimo
possibilidades e a impaciência
é a tormenta. de querer
São as distrações. Éo
A terra é gentil, a semente prospera. Diversos povos
surge
no no aconchego
aconchego da cotidianidade.
da cotidianidade. A famíliaA quebra
família a chegar mais
desanimo cedo. A participação
e a impaciência de quereré chegar
a bússola.
mais
chegam
chegam para
para construir
construir a vida.
a vida. Novas
Novas peles
peles e sotaques
e sotaques
quebra
ganhaaacasca, ganhaoabairro,
rua, forma o bairro, É o Arecurso
cedo. que vence
participação as inércias
é a bússola. e nos leva
É o recurso quepara
vence
marcam
marcam encontros
encontros e desencontros.
e desencontros. O trabalho
O trabalho é aé a casca, rua, forma constrói o perfil da
constrói o perfil da cidade. A participação falaé além daenossa
as inércias individualidade.
nos leva A participação
para além da nossa individuali-
linguagem
linguagem comum
comum do do sonho
sonho compartilhado.
compartilhado. A cidade
A cidade cidade. A participação fala línguas diversas,
línguas diversas, é polissêmica. Os significados é a ferramenta
dade. anticíclica
A participação de aprofundamento
é a ferramenta anticíclica de
de cimento
de cimento se transforma
se transforma na cidade
na cidade das pessoas.
das pessoas. Os polissêmica. Os significados são variados, se
pés das Oschaminés
pés das chaminés enverdecem,
enverdecem, os canteiros
os canteiros ganham
são variados,
expressam pelasevoz
expressam peladevoz
e pela ação e pela
cada ação A
cidadão. aprofundamento da democracia. éA ademocracia
da democracia. A democracia política daé a
de cada cidadão. A melhor definição está em cotidianidade, do encontro de diversos.
flores.ganham
A cidadeflores. A cidade
do trabalho do trabalho
e dos e dos
trabalhadores melhor definição está em construção, está sempre política da cotidianidade, do encontro de diversos. É a
Édimensão
a dimensão também inacabada de caminho
um caminho
trabalhadores aprende a produzir conhecimento, construção, está sempre pronta e sempre se também inacabada de um que
aprende a produzir conhecimento, ciência e inovação. pronta e sempre se fazendo. O conceito está aberto a
fazendo. O conceito está aberto a possibilidades. que precisa de navegantes, não de aventureiros.
ciência e inovação. São Bernardo do Campo recria precisa de navegantes, não de aventureiros. É o
São Bernardo do Campo recria a arte, ganha possibilidades. A participação
A participação é um meioé ume meio
um fim. e um fim. É É o desafio de construir uma cidade onde a política
a arte, ganha protagonismo e emoção. desafio de construir uma cidade onde a política seja
protagonismo e emoção. É transformadora
transformadora quando
quando deixa
deixa a cotidianidade
a cotidianidade da sua seja um caso de poesia.
um caso de poesia.
da sua
essência essênciacompromissos
e assume e assume compromissos na da
na arena política
arena
vida política
pública. É umda legado
vida pública. É um legado
que precisa que e
de cuidados
precisaÉ frágil
atenção. de cuidados
como ase coisas
atenção. É frágil
belas da vida.
como as coisas belas da vida.
Protagonistas
Nosso agradecimento à cidade de São Bernardo do Campo que gentilmente abraçou o projeto e enriqueceu 313
a pesquisa a partir da valiosa contribuição dos seus moradores. O nosso reconhecimento às 1.208 pessoas
entrevistadas na etapa quantitativa e aos mais de 200 protagonistas sorteados na etapa qualitativa, que aqui
registramos, por abrir as suas casas, compartilhar suas experiências e receber-nos como amigos.

REGIÃO REGIÃO
TABOÃO Baeta Neves
Pedro da Costa Pinheiro Claudia Lopes de Souza Silva Elza de Barros Gomes Hiroko Shikasho Maria Aparecida de Sousa Ana Cristina Aparecida Boos Maria Aparecida Cozer Leal Rosana Vidal Ribeiro Sinval Gentil Caetano Jenesio Viana

REGIÃO REGIÃO
Rudge Ramos N. PETRÓPOLIS / STA.TEREZINHA
Maria Sueli Pinto de Souza Michele Cristina de Jesus Silvo Rosely de Paiva Sara da Conceição Pereira Tereza Roncolato Claudiana Francisca de Oliveira Hetimochenco Queiroz Silva Sidnei Querino dos Santos Arlene de Paula Terezinha de Jesus Silva

Jose Roberto Matz Lupercio João Juliatto Maria Aparecida Molina Erica de Souza Anastácio Adão Montalte Américo Mariana Forlani Cunha Paulo Caetano Filho Ana Claudia de Paula Santos Antônio Fernando J. de Freitas Daniel Gonçalo da Silva José Wilson Barreto Pinto Fabio Silva Gomes Miguel Rocelli Gesiane de Holanda Moura

REGIÃO REGIÃO
PAULICEIA / JORDANÓPOLis Ferrazópolis
Rosalina Lopes Mantena Antonio Martino Terezinha Maria Gomes Roberto Teodoro da Silva Carmen Casanova Rocino Zuleika Feliciana R. da Silva José Enioque Saraiva Claudiane Rodrigues Dias Eliane Costa Ferreira Jucelino Batista de Lima

Maria de Fatima M. Chiorato Eduardo Torensan Nascimento Alex Vieira Mariano Antônio Luis da Silva Ana Maria Moreira Garrido Ana Maria de Jesus Rodrigues Carlos Shiguenu Hoki Manoel Guilhermino da Silva Maria Figueredo Santos Inacio Norberto de Lima Manoel Rodrigues de Melo João Bernardo de Oliveira Ildinete Barbosa Cordeiro Marenilton Messias Silva

REGIÃO REGIÃO
PLANALTO / INDEPENDÊNCIa DEMARCHI / BOTUJURU
Isaias Alves Deronice Alves de Oliveira Correia Cisley Aparecida Livero Gonçalves Maria de Fátima Rodrigues Araújo Amauri de Almeida Teixeira Osvaldo Rocha da Silva Francisco José Lopes Benedicto da Costa Elio de Carvalho Antônio da Costa Filho

Elisangela Maras Alves Clarice Lopes Ariadne Liberato Rosa de Oliveira Maria Vilani Girão Garcia Ferreira Carme Lúcia Bezerra Soares Wilson Aparecido Molonha Messias Pereira Almeida Lucimeire dos Santos Jose Machado Paulo Roberto Azevedo Doraci de Oliveira

REGIÃO REGIÃO
Anchieta / Centro Assunção
Antonia Rodrigues de Araújo Dora Márcia Novello Enos Corrêa Soares Gildeane de Fatima C. Valentim Clarinda Aparecida Pereira Ruiz Joanice Alves de Oliveira Antônio Amaral Santos Zirindisonia de Almeida Antônio dos Santos Luís Carlos Toscano

Antonio Pereira Filho Gisele Elaine Lopes de Freitas Odila Campanhão Cunha Odete Luvizotto Nilce Aparecida do Nascimento Juliana Tonelli Alves Cunha Francisco de Moura Antônio Pedro Fialho Marlene Bergamini Vendramini
315

REGIÃO REGIÃO
COOPERATIVA / ALVES DIAS BATISTINI
Ariene Teixeira de Queiroz Ronivon Oliveira Santos José de Oliveira Costa Valdemir Silva Santos Eliana Ramazzina Pires Joarez Romualdo Roger Muniz Flávia Dias Moura Amaral Antônio Barbosa Neuza Maria da Silva

REGIÃO REGIÃO
Dos Casa SILVINA
Giovani Martins Giovani Ribeiro dos Santos Joaquim João de Jesus Diogo Tadeu Chagas dos Reis Luiza Rosa da Conceição Silva Claudio Pereira Antônio Barbosa da Silva Maria das Graças Vieiras Raul Joaquim da Silva Dalva Dias dos Reis Amaral

Claudete Pereira dos Santos Claudio Cicero de Souza Francisco Lailto Galvão Maria Rivana Araújo Pereira Cesar Gomes da Costa Dulcineia Alves da Silva Josefa Amara de Oliveira Cleunice Antônio da Silva Alexsandro R. de Morais Fernandes Leite de Brito Antônio Pereira Claudio Geraldo Silva Duarte Manuel Domingos Claudomiro de Carvalho

REGIÃO REGIÃO
ALVARENGa-LAURA VILA SÃO PEDRO / MONTANHÃO
Leandro Gerscino Barros Janaina Pestana Julio Walter Rodrigues da Silva Gizelia Ferreira Melo Geralda Lemes Luiz Priscila de Lima Carvalho Ana Rezende Paião João Medeiros dos Santos Gildasio Soares dos Santos José Vilton Duarte Vieira

Francisco Alves Costa Antônio Ermírio Furtado João Batista de Oliveira Maria de Lourdes Rocha Idelvande Maria dos Santos Elisângela dos Santos Ana Yolanda de Sousa Gomes Isaias Rodrigues Amdemiro Cândido Galvão Juraci Aparecido da Lomba Luzia Sobrinha Texeira Geraldo Gomes da Silva Maria Gonçalves de Lima Edmar Ramos de Medeiros

REGIÃO REGIÃO
ALVARENGA-ORQUÍDEAS RIACHO GRANDE / AREIÃO
Giselle Ramos Gomes Francisca Melo de Andrade Maria de Lourdes N. Dos Santos Elaine Tanoue Lucia Maria Gonçalves Costa Antônio Macário Antenor Nunes de Moraes João Alves da Silva Jordelina Pereira da Silva Ivone Ivani de Sousa

Maria de Fatima Santos Lima José Dorgival Rocha Soares Rafael da Silva Lorenzo Ana Maria Gomes de Andrade Francisco Franco Pinheiro Tomaz Aquino de Souza Eudalha Pereira Cavalcante Ester Alves dos Santos Germano Marangoni Gali Antônio Temoteo Delmondes Ana dos Anjos Alves Silva Delma Doris de Melo Barbosa

REGIÃO REGIÃO
ALVARENGA-Telma Santa Cruz
Cicero Aparecido Lima Vanessa Patrícia do Nascimento Maria Araújo da Silva Jurandi Bezerra de Brito Domingas Maria da Silva Sandra Alves M. de Oliveira Aldemira da Cruz Pinto Jorge Luiz Santos Gualberto Cândido Francisco das Graças Alessandra Leal Estevam

Francisco dos Santos Chiquinho Ana Paula Borges Nascimento José Carlos Meduri Francisco de Assis Lima Rúbia Nunes Machado Sivaldo Gabriel da Silva Geralda Demarchi Oliveira Conceição Aparecida da Silva Guiomar Pereira das Dores Patrícia Pereira da Silva
CRÉDITOS – FOTOGRAFIA
PROTAGONISMO E PARTICIPAÇÃO EM SÃO BERNARDO DO CAMPO
Descrição e créditos do projeto fotográfico

Vista aérea do centro da cidade. PMSBC. Foto: Wilson Magão.


Sobrecapa Pg. 86-87 Morfologia urbana. Jardim Laura, Alvarenga. Acervo particular. Foto: Igor Pereira. Pg. 166-167 Av. Caminho do Mar. Rudge Ramos. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 238-239 Pôr do sol. Perfil da cidade. PMSBC. Foto: Raquel Toth.
Mural. Parque cidade de São Bernardo Rafael Lazzuri, Centro. PMSBC. Pg. 88 Ciclovia. Assunção. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 168-169 Pista de skate. Jardim Calux. Planalto. PMSBC. Foto: Nilson Sandre. Pg. 240 Guiomar Pereira das Dores. Pós-Balsa. Santa Cruz. PMSBC. Foto: Nilson Sandre.
Foto: Wilson Magão.
Pg. 89 Conjunto Habitacional Nova Silvina. Silvina. Foto: Carol Quintanilha. Pg. 171 Projeto De bem com a vida. Rudge Ramos. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 242-243 Pôr do sol. Irajá. Acervo particular. Foto: Igor Pereira.
Guarda Foto da democracia. Praça Samuel Sabatini. Centro. PMSBC. Foto: Dorival de Almeida.
Pg. 91 Pedro da Costa. Taboão. PMSBC. Foto: Nilson Sandre. Pg. 172 Complexo de Excelência Professor Osvaldo Terra da Silva. Vila São Pedro. Pg. 245 Parque Natural Municipal Estoril. Riacho Grande. Acervo particular. Foto:
Pg. 12-13 Vista aérea do centro da cidade. PMSBC. Foto: Wilson Magão. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Igor Pereira.
Pg. 92-93 Pedro da Costa. Taboão. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 16-17 Parque cidade de São Bernardo Rafael Lazzuri. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 173 Erika de Souza Anastácio e Nathan. Rudge Ramos. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Roda-gigante. Parque Cidade da Criança. Centro. Acervo particular. Foto: Igor Pereira.
Pg. 246-247
Pg. 94-95 Clube de bocha. Independência. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 20-21 Fotografias de Carnaval do acervo fotográfico de Marines Fonseca (Lia). Pg. 174-175 Josefa Amara de Oliveira (esq.) e vizinhas. Jardim Laura. Dos Casa. PMSBC. Pg. 249 Parque Cidade de São Bernardo Rafael Lazzuri. Centro. PMSBC. Foto:
Pg. 96 Manoelzinho Moreira. Baeta Neves. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Baeta Neves. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Foto: Nilson Sandre. Wilson Magão.
Pg. 98-99 Projeto De bem com a vida. Rudge Ramos. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 23 Mosaico av. dr. Rudge Ramos. Rudge Ramos. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 176-177 Concerto de rock. Parque da Juventude Cittá di Marostica. Centro. Acervo Pg. 250-251 Broto de flor da cerejeira. Acervo particular. Foto: Igor Pereira.
Pg. 102-103 Obras de combate às enchentes. Programa Drenar. Reservatório do Paço.
Pg. 24-25 Ana Rezende Paião. Jardim Selecta. Silvina. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Particular. Foto: Igor Pereira. Pg. 253 Grafite. Demarchi. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Centro. PMSBC. Julho, 2015. Foto: Wilson Magão.
Pg. 27 Parque Chácara Silvestre. Nova Petrópolis. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 179 Parque cidade de São Bernardo Rafael Lazzuri. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 254-255 Carrossel. Parque Cidade da Criança. Centro. Acervo particular. Foto: Igor Pereira.
Pg. 104-105 Jogo de dominó no Clube de Bocha do Taboão. Taboão. PMSBC. Foto:
Pg. 28-29 Parque cidade de São Bernardo Rafael Lazzuri. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Wilson Magão. Pg. 180-181 Ciclista. Acervo particular. Foto: Igor Pereira. Pg. 257 Vista aérea. Destaque para o estádio 1º de Maio. Centro. PMSBC. Foto:
Pg. 30 Antônio de Amaral Santos. Assunção. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 107 Jogo de futebol no E.C. Palestrinha. Dos Casa. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 182-183 Jogo de Gateball. Taboão. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Wilson Magão.

Pg. 32-33 Antônio de Amaral Santos. Assunção. PMSBC. Foto: Nilson Sandre. Pg. 108-109 Treinamento de ginástica. Complexo de Excelência Professor Osvaldo Pg. 185 Mercado Municipal. Rudge Ramos. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 258-259 Borboleta. Rudge Ramos. Foto: Wilson Magão.
Pg. 34-35 Grafite. Jardim Três Marias. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Terra da Silva. Vila São Pedro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 186 Viaduto. Rodoanel Mário Covas. Demarchi. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 260-261 Bailarina. Rodovia Caminho do Mar. Acervo particular. Foto: Igor Pereira.

Pg. 36-37 Interior de casa indígena. Aldeia Krukutu. PMSBC. Foto: Thales Stadler. Pg. 110-111 Pista de skate. Parque da Juventude Cittá Di Marostica. Centro. PMSBC. Pg. 188 Luís Toscano. Assunção. PMSBC. Nilson Sandre. Pg. 263 Stand up paddle. Represa Billings. Riacho Grande. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Foto: Wilson Magão. Luís Toscano. Assunção. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 265 Domingas Maria da Silva. Jardim Thelma. Alvarenga. PMSBC. Foto: Nilson Sandre.
Pg. 39 Encontro de corais. Coral Bicchieri D’oro. Teatro Lauro Gomes. Rudge Ramos. Pg. 190-191
PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 112 Centro de Referência do Idoso (CRI). Centro. Foto: Wilson Magão. Pg. 192-193 Detalhe urbano. Rudge Ramos. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 266-267 Plenária de Prestação de Contas 2015. Região Santa Cruz. PMSBC. Foto:
Pg. 40-41 Parque Natural Municipal Estoril. Riacho Grande. Acervo particular. Foto: Igor Pereira. Pg. 113 Oração na Mesquita Abu Bakr Assidik. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 194 Ana Rezende Paião. Parque Selecta. Silvina. PMSBC. Nilson Sandre. Wilson Magão.

Pg. 42-43 Centro de Referência da Juventude (Cajuv). Centro. Acervo particular. Pg. 114-115 Igreja Santa Filomena. Detalhe externo. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 196-197 Praça Aldemir Moreira Santos. Jardim das Orquídeas. Alvarenga. PMSBC. Pg. 269 Manoel Guilhermino da Silva. Ferrazópolis. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Foto: Igor Pereira. Pg. 116-117 Folia de reis. Igreja Matriz. Vista interior. Centro. PMSBC. Foto: Nilson Sandre. Foto: Wilson Magão. Detalhe urbano. Centro. PMSBC. Foto: Valmir Franzoi.
Pg. 270-271
Pg. 45 Atividade cultural. Parque Chácara Silvestre. Nova Petrópolis. PMSBC. Foto: Pg. 118-119 Reflexo do céu na represa Billings. Acervo particular. Foto: Igor Pereira. Pg. 199 Mercado Municipal. Rudge Ramos. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 273 Dança urbana. Parque da Juventude Cittá di Marostica. Centro. Acervo
Valmir Franzoi. Particular. Foto: Igor Pereira.
Pg. 121 Batismo na represa Billings. Riacho Grande. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 200 Passarela sobre a rodovia dos Imigrantes. Jardim das Orquídeas, Alvarenga.
Pg. 46-47 Av. Caminho do Mar. Rudge Ramos. PMSBC. Foto: Wilson Magão. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 274-275 Crianças pintadas. Conjunto Três Marias. Cooperativa. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 122-123 Grafite. Sítio Bom Jesus. Alvarenga. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 49 Panificação. Associação Leo Comissari. Jardim Silvina. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 203 Sistema de monitoramento. Represa Billings. Zanzala. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 277 Perspectiva da cidade no retrovisor de um veículo. Acervo particular. Foto:
Pg. 124 Maria Gonçalves de Lima. Vila São Pedro. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 50-51 Ana Rezende Paião. Detalhe. Jardim Selecta. Silvina. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 204-205 Ginásio Poliesportivo Adib Moysés Dib. Detalhe da cobertura. Vista interna. Igor Pereira.
Pg. 126-127 Maria Gonçalves de Lima. Vila São Pedro. PMSBC. Foto: Nilson Sandre.
Pg. 53 Capela de Nossa Senhora Aparecida. Pauliceia. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 278 Parque da Juventude Cittá Di Marostica. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 128-129 Conjunto Habitacional Nova Silvina. Silvina. Foto: Carol Quintanilha.
Pg. 54-55 Vista aérea do Parque Chácara Silvestre. Nova Petrópolis. PMSBC. Foto: Pg. 206-207 Av. Marechal Deodoro. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 281 Sessão da Câmara Municipal de São Bernardo do Campo. Acervo CMSBC.
Pg. 130 Dulcineia da Costa. Dos Casa. PMSBC. Foto: Nilson Sandre.
Wilson Magão. Pg. 209 Oficina de ceramista. Projeto Cerâmica da Fundação Criança. Santa Cruz. Foto: Oscar Jupiraci.
Pg. 132-133 Igreja Matriz. Detalhe. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 56 Igreja Matriz. Detalhe. Porta vista exterior. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. PMSBC. Foto: Raquel Toth. Pg. 282-283 Plenária de Prestação de Contas 2015. Região Batistini. PMSBC. Foto:
Pg. 135 Tecido Acrobático. Centro de Referência da Juventude (Cajuv). Centro. Wilson Magão.
Pg. 57 Igreja Matriz. Detalhe. Porta vista interior. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 210 Detalhe urbano. Carreteiro. Cooperativa. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Acervo particular. Foto: Igor Pereira.
Pg. 211 CEU Regina Rocco Casa. Vila São Pedro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 285 Parque Chácara Silvestre. Nova Petrópolis. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 59 Flávia Dias Moura. Batistini. PMSBC. Foto: Nilson Sandre. Pg. 136-137 Riacho Grande. Foto: Wilson Magão.
Pg. 212-213 Pescador. Detalhe da balsa. Riacho Grande. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 286 Relógio na rua Marechal Deodoro. Centro. Acervo particular. Foto: Igor Pereira.
Pg. 60-61 Av. Marechal Deodoro. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 139 Maria Gonçalves de Lima. Detalhe. Vila São Pedro. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 62 Joanice Alves de Oliveira. Assunção. PMSBC. Foto: Nilson Sandre. Pg. 215 Santuário de Umbanda. Silvina. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 288-289 Campo agrícola. Estrada do Rio Acima. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 140-141 Detalhe urbano. Artista de rua. Acervo particular. Foto: Igor Pereira.
Pg. 64-65 Vista aérea. Região do Pós-Balsa. Santa Cruz. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 216-217 Represa Billings. Detalhe pescador. Riacho Grande. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 290-291 CEU Celso Daniel. Conjunto Três Marias. Cooperativa. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 142 Gato na janela. Acervo particular. Foto: Igor Pereira.
Pg. 67 Parque Natural Municipal Estoril. Riacho Grande. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 218 Quebra-cabeça. Instituto Social das Irmãs de Maria de Banneux-Ismab. Pg. 294-295 Vista da cidade no Pico do Bonilha. Acervo particular. Foto: Igor Pereira.
Pg. 144 Praça São José. Baeta Neves. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 70-71 Av. Marechal Deodoro. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Jardim Las Palmas, Alvarenga. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 297 Conceição Aparecida da Silva. Pós-Balsa. PMSBC. Foto: Nilson Sandre.
Pg. 145 Feira noturna do Poli SBC. Av. São Paulo. Centro. PMSBC. Foto: Valmir Franzoi.
Pg. 221 Fotografia em destaque. Comemoração na sede do Grêmio Tabõao do acervo Pg. 298-299 Detalhe do céu. Tempestade vista do bairro Irajá. Acervo particular. Foto:
Pg. 72-73 CEU Regina Rocco Casa. Vila São Pedro. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 146-147 Av. Pereira Barreto. Centro. PMSBC. Foto: Raquel Toth. de Marines Fonseca (Lia). PMSBC. Foto: Wilson Magão. Igor Pereira.
Pg. 73 Grafite. Jardim das Orquídeas. Alvarenga. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 149: Caminho bifurcado. Planalto. Foto: Nilson Sandre. Pg. 222-223 Folia de reis. Praça da Igreja Matriz. PMSBC. Foto: Nilson Sandre. Pg. 300-301 Fantasia de Carnaval. Mocidade Alegre de São Leopoldo. Jordanópolis.
Pg. 74 Parque Cidade de São Bernardo Rafael Lazzuri. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 151 Parque Natural Municipal Estoril. Riacho Grande. Acervo particular. Foto: Igor Pereira. Pg. 224-225 Jogo de damas. Praça da Bíblia. Taboão. PMSBC. Foto: Wilson Magão. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 76 Universidade Federal do ABC (UFABC). Campus São Bernardo do Campo. Pg. 152-153 Banho na represa Billings. Riacho Grande. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 227 Treinamento de ginástica. Complexo de Excelência Professor Osvaldo Terra Pg. 302-303 Píer. Parque Natural Municipal Estoril. Riacho Grande. Acervo particular.
Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 154-155 Prainha. Riacho Grande. PMSBC. Foto: Raquel Toth. da Silva. Vila São Pedro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Foto: Igor Pereira.
Pg. 77 Trabalhadores. Fábrica Arteb. Acervo: Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.
Pg. 156 João Batista de Oliveira. Jardim Serro Azul. Alvarenga. PMSBC. Foto: Nilson Sandre. Pg. 228 Missa do dia 1º de Maio. Igreja Matriz. Centro. PMSBC. Foto: Raquel Toth. Pg. 307 Menino entrando na represa Billings. Estoril. Riacho Grande. Acervo particular.
Foto: Adonis Guerra.
Foto: Igor Pereira.
Pg. 158-159 Praça do Trabalhador Armando Ruivo. Ferrazópolis. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Pg. 229 Terço dos homens. Igreja Bom Jesus de Piraporinha. PMSBC. Foto: Wilson Magão.
Pg. 79 Vista aérea da Av. Lyons. Rudge Ramos. PMSBC. Foto: Raquel Toth. Pg. 308-309 Vista aérea noturna. Destaque Av. Marechal Deodoro e Av. Faria Lima.
Pg. 161 Marlene Bergamini Vendramini. Assunção. PMSBC. Foto: Nilson Sandre. Pg. 230-231 Casa do Norte. Detalhe interno. Dos Casa. Foto: Wilson Magão.
Pg. 80-81 Travessia da balsa. Santa Cruz. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Acervo particular. Foto: Igor Pereira.
Pg. 162-163 Túnel
no Complexo de Excelência Professor Osvaldo Terra da Silva. Vila Pg. 234-235 Cachorro no muro. Silvina. Foto: Wilson Magão.
Pg. 82-83 Av. Marechal Deodoro. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. Guarda Foto da participação. Estádio 10 de Maio. Imagem captada por drone em
São Pedro. PMSBC. Foto: Raquel Toth. Pg. 236 Roberto da Silva. Rudge Ramos. PMSBC. Foto: Nilson Sandre.
Pg. 85 Vendedor. Av. Jurubatuba. Centro. PMSBC. Foto: Wilson Magão. 30/07/2015. Operador: Daniel Rulli.
Pg. 165 Luzia Sobrinha Teixeira. Montanhão. Foto: Wilson Magão.
paz
compromisso
formar
operar
misso
cooperar
ser feliz écooperar

deixar legado
ensar o futuro
isso
star
um direito
consulta
contribuir

nstrução coletiva
questionar
construção coletiva

democracia
estar presente
construção coletiva
é

Há mudança no Brasil.
informação

convite
é informação

Ela não corre, mas anda.

unidos
Não corre, mas ocorre.

transformar
construção coletiva
viteapresentar soluções

de
participação
cidadania
informação

construção
amor
deliberação

coletiva
é um
cooperar
Se a gente cresce com os golpes duros da vida,

formular
opinarestar presente controlar
dos
solidariedade
estar

fiscalizar

direito
questionar
no grupo

O que
significa
contribuir
formular
é um direito planejar a cidade
cidadania ser pensar feliz
responsabilidadeconstrução

pensar o futuro
ser ouvido
soluç
fiscalizar
para
colaborar
fazer
planejar a cidade
o
transformar

solidariedade
paz
futuro
também podemos crescer com os toques suaves na alma.

colaborar cooperar
compromisso
parte
é uma prova de amor
Tupy or not tupy, that is the question.

formular
deixar legado
compromisso

cooperar

contribuir
opinar

Não há problema tão grande que não caiba no dia seguinte.

transformar
construção coletiva EM SÃO BERNARDO DO CAMPO
estar juntoopinar apresentar
resolver problemas

consulta

PROTAGONISMO E PARTICIPAÇÃO
planejar a cidade
cidadania

OLHARES PELO CALEIDOSCÓPIO


é um direito

Cultura é gente, diversa, plural,


multifacetada, que na identidade
de cada um forma o caldo
coletivo que alimenta a história..

construção coletiva

contri
é um dever
319

planejar

paz
opinarresolver problemas
planejar a cidade

dania
convite
Nilza Aparecida de Oliveira - Víctor Huerta Arroyo - Sérgio Vital e Silva

reito fazer parte


você?
ver acontecer responsabilidade

transformar
é informação ser feliz responsabilidade

colaborar é uma prova de amor estar solicitar


estar no grupo
presente
nejar a cidade cu
deliberação resolver problemas transformar contribuir

solidariedade
Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata. Entre,

é um deverfazer parte
Quem tenta ajudar um broto sair da semente o destrói. leia
cooperar
cidadania
Há certas coisas que não podem ser ajudas. e
solidariedade estar no grupo

democracia
Tem que acontecer de dentro para fora. escute.

responsabilidade ver acontecer opinar


construção coletiva A luta continua.

tribuir pensar o futuro


ver acontecer

construção coletiva
O sonho não acabou.

planejar a cidade Eu sou trezentos,


sou trezentos e cinquenta,
O horizonte foi recuperado.
Até aqui, tudo valeu a pena.

formular resolver problemas


formular mas um dia

é
cuidar dos outros um direito Afinal eu toparei comigo.
questionar
321
Parece que a nossa mirada renunciou ao mundo das estrelas para
que os nossos olhos, apequenados, pudessem capturar o mundo real.
A nossa linguagem se adaptou para tratar com outros, que, como nós,
abandonaram suas lunetas, reais ou imaginárias, para seguir em frente.
Perdemos o céu pela necessidade de lidar com a terra e suas demandas.
Perdemos, talvez, a capacidade de olhar mais longe e entender que
algumas respostas não estão à simples vista, mas escondidas por trás
das nuvens da imaginação mais fértil e da criatividade.

Olhar pelo caleidoscópio é recuperar a nossa capacidade de assombro,


brincar novamente com as formas que nosso mundo nos oferece,
reconhecer sua diversidade, imaginar e projetar figuras e realidades
além da realidade. Significa apostar no que não existe e acreditar que
tudo pode chegar a ser possível. Significa voltar a elevar a mirada,
enxergar o infinito e trazer as estrelas para dentro de nós.

Projeto Gráfico: Julio Dui_Mono


Revisão de textos: Margô Negro
Agosto de 2015
Este livro foi composto em M+2m, Berthold Akzidenz Grotesk e Avenir.