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Lei e Graça

Tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamento é dominado pela realidade


da graça de Deus. Deus demonstrou em primeiro lugar a sua graça, e
posteriormente a lei “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar
pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as
nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ). A nova aliança foi estabelecida em Cristo,
o descendente “Mas digo isto: Que tendo sido a aliança anteriormente confirmada
por Deus em Cristo, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a
invalida, de forma a abolir a promessa” ( Gl 3:17 ).

“Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por
meio de Jesus Cristo” ( Jo 1:17 )

Salvação

O apóstolo Paulo nos apresenta a ordem natural dos eventos (perdição e


salvação): “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual” (
1Co 15:46 ).

Não há como vir a existência homens espirituais, sem antes existir homens
naturais. Isto porque Adão é o homem natural, e Cristo, o último Adão, homem
espiritual ( 1Co 15:45 ).

Os homens provenientes da semente corruptível de Adão são homens naturais, e


os nascidos segundo a semente incorruptível ( 1Pe 1:23 ), que é a palavra de
Deus, são espirituais, visto que, em Cristo (último Adão), os homens espirituais
vêem a existir.

Somos informados por intermédio da Palavra de Deus que todos os homens


pecaram e foram destituídos da glória de Deus por causa da queda de Adão.
Todos os homens estão debaixo de condenação: judeus e gregos, servos e livres,
morais e amorais, religiosos e ateus, etc ( Rm 3:9 -18 ); “Pois assim como por uma
ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ).

Todos os homens entraram pela ‘porta larga’ através do nascimento de Adão, e


seguem no ‘caminho largo’ que conduz à perdição ( Mt 7:13 ). Todos são vasos de
desonra em Adão e foram preparados para a perdição ( Rm 9:21 -22). Todos os
nascidos de Adão são plantas que o Pai não plantou ( Mt 15:13 ).

Mas, Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que
todo aquele que nele crê, não pereça, antes, tenha a vida eterna ( Jo 3:16 ).
Quando Jesus disse ‘todo aquele’, engloba judeus e gregos, morais e amorais,
servos e livres, homens e mulheres, etc. Cristo (último Adão), a porta estreita dá
acesso a salvação. Nele são feitos os vasos para honra. Em Cristo as árvores de
justiças são plantadas.

Em Cristo Deus revela aos homens a sua maravilhosa graça! Todos os que estão
mortos em delitos e pecados, ou seja, na condição de filhos da ira e da
desobediência em Adão, por intermédio da fé em Cristo recebem poder para
serem feitos (de novo criados) filhos de Deus. Em Cristo o homem é novamente
gerado, recebendo de Deus um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ).

A condenação deu-se em Adão, e a salvação está em Cristo. O primeiro Adão


trouxe condenação, o último Adão redenção.

Diante de Adão (condenação) e Cristo (graça redentora), o que dizer da Lei? O


que dizer de Moisés e Cristo? Qual a relação entre Lei e Graça?

É um erro considerar que em primeiro lugar foi exposta a lei e depois a graça,
visto que a graça de Deus tem se manifestado salvadora a todos os homens, hoje,
porém, somos informados que desde os tempos eternos Cristo é Cordeiro de
Deus, morto antes da fundação do mundo “Mas com o precioso sangue de Cristo,
como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro
tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes
últimos tempos por amor de vós” ( 1Pe 1:19 -20).

A graça de Deus é antes dos tempos eternos, provisionada para suprir a


necessidade dos homens em todo o tempo. A graça de Deus veio primeiro que a
lei. Em segundo lugar, temos a condenação da humanidade que se deu em Adão, e
depois a lei.
Paulo demonstra que a condenação é anterior a lei quando disse: “Pois antes da
lei estava o pecado no mundo” ( Rm 5:13 ). A realidade da condenação é patente
desde Adão até Moisés. Da mesma forma, a realidade da redenção é facilmente
observável desde Adão até Moisés.

O que dizer de Abel? Que dizer de Enoque? Que dizer de Noé? Que dizer de Jó?
Abraão? Isaque? Jacó? José? Todos eles foram salvos pela graça por intermédio da
fé ( Hb 11:1 -22).

Primeiro temos a graça, depois a lei! “A promessa de que havia de ser herdeiro do
mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da
fé” ( Rm 4:13 ).

Tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamento é dominado pela realidade


da graça de Deus. Deus demonstrou em primeiro lugar a sua graça, e
posteriormente a lei “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar
pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as
nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ).

A nova aliança foi estabelecida em Cristo, o descendente “Mas digo isto: Que
tendo sido a aliança anteriormente confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio
quatrocentos e trinta anos depois, não a invalida, de forma a abolir a promessa” (
Gl 3:17 ).

A aliança da graça foi confirmada quatrocentos e trinta anos antes da lei a


Abraão, para que a graça de Deus chegasse gratuitamente aos gentios e judeus
“Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que
pela fé nós recebamos a promessa do Espírito” ( Gl 3:14 ).

Conforme o exposto acima, a declaração de Packer é infundada:

“Na economia de Deus, a lei foi exposta em primeiro lugar e a graça


posteriormente. O Antigo Testamento é dominado pela grande realidade da
lei de Deus, tal como o Novo Testamento é dominado pela graça de Deus.
Porém, como relacionar a graça com a lei, visto que a lei veio antes da
graça?” Vocábulos de Deus, J. I. Packer, Editora Fiel.

Após destacar a ordem correta dos eventos já é possível analisar o legalismo e o


antinomianismo.
O conceito de legalismo de nossos dias não condiz com as práticas dos
judaizantes, fariseus e escribas à época de Cristo. Como exemplo, os dicionários
de hoje definem ‘fariseu’ como sendo um indivíduo hipócrita, porém, à época de
Cristo, fariseu era alguém com um estilo de vida com base na religiosidade
judaica “Sabendo de mim desde o princípio (se o quiserem testificar), que,
conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu” ( At 26:5 ).

Muitos dos fariseus à época de Jesus eram hipócritas, porém farisaísmo não era
sinônimo de hipocrisia. De igual modo, o conceito de legalismo hoje diz de alguém
que toma a lei e a usa de modo que ‘mereça’ a salvação.

No entanto, verifica-se nas escrituras que os fariseus e escribas confiavam na


carne, ou seja, que eram salvos por serem descendentes de Abraão “E não
presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo
que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Individualmente, cada judeu, fariseu e escriba confiavam que eram filhos de Deus
por serem descendentes de Abraão ( Rm 9:6 -8; Jo 8:39 e 41). Agora, como povo,
os judeus tinham a lei como forma da ciência e da verdade ( Rm 2:17 -20), e, por
causa dela consideravam que eram melhores que os outros povos ( Rm 3:9 ).

Podemos classificar os judeus como sendo tradicionalistas, formalistas, e em


alguns aspectos, legalistas, pois a tradição e a forma eram provenientes da lei.

Não encontramos no Novo Testamento alguém que tenha declarado ser salvo por
cumprir os quesitos da lei ( Mt 19:20 ), porém, por serem descendente de Abraão,
muitos afirmaram a João Batista e a Jesus que não precisavam de
arrependimento.

O Jovem rico, apesar de guardar a lei desde tenra idade, ainda queria algo para
fazer que lhe desse o direito a salvação. Percebe-se que ele não confiava na carne,
talvez por não ser um descendente de Abraão.

Os judaizantes, por sua vez, não eram estritamente legalistas. Eles professavam
serem cristãos, mas queriam continuar guardando alguns aspectos da lei:
circuncisão, dias, festas, etc. Eles estavam mais para o antinomianismo do que
para o legalismo, por quererem transtornar o evangelho de Cristo.

Por esta causa Paulo advertiu aos gálatas judaizantes que queriam transtornar o
evangelho “O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem
transtornar o evangelho de Cristo” ( Gl 1:7 ).

A palavra ‘antinomiano’ serve para definir a pessoa que em nossos dias se diz
alcançada pela graça, e nela se apóia para continuar vivendo uma vida
desregrada (libertino).

Porém, a libertinagem que Judas e os apóstolos combatiam era aquela que


buscava transtornar o evangelho. Perceba que a preocupação dos apóstolos era
com o evangelho de cristo, visto que dissimuladamente alguns queriam
transtornar a fé do evangelho. Eles buscavam negar a Cristo como único Senhor.

A liberalidade dos ‘libertinos’ à época de Paulo, e que hoje são nomeados


‘antinomianismo’, era quanto a distorção da verdade do evangelho, uma vez que
procuravam introduzir encobertamente heresias destruidoras, negando a Cristo
como Senhor ( 2Pe 2:1 ; Jd 1:4 ; Fl 1:27 -30 ; 1Jo 2:21 -22).

“E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como


entre vós haverá também falsos doutores, que
introduzirão encobertamente heresias de perdição, e
negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si
mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas
dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da
verdade” ( 2Pe 2:1 -2 );

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam


escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que
convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a
Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (
Jd 1:4 );

“Somente deveis portar-vos dignamente conforme o


evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer
esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num
mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo
ânimo pela fé do evangelho. E em nada vos espanteis
dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício
de perdição, mas para vós de salvação, e isto de Deus.
Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não
somente crer nele, como também padecer por ele,
Tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e
agora ouvis estar em mim” ( Fl 1:27 -30).
Inferir dos textos que dissolução ou libertinagem refere-se a uma conduta torpe e
devassa, é admitir que o evangelho apóia-se na obras proveniente de
cumprimento de regras.

Segue-se que a ideia construída entorno do legalismo e do antinomianismo não


condiz com a abordagem bíblica. Tais conceitos surgiram ao longo da história
cristão por causa dos inúmeros conceitos acerca da lei e da graça de Deus.
Embora considerem o legalismo e o antinomanismo como pólos opostos opostos
de um mesmo erro, erram também por supor que há alguma relação entre a lei e
a graça.

Por isso, preciso discordar de J. I. Packer uma vez que a graça não estabelece a
lei. Tal posicionamento surge da ideia de que a salvação de Deus é ética e moral.

“Visto que o espírito do homem é o centro de seu ser ético, e uma vez que a
salvação é, principalmente, transação ética, segue-se que o homem precisa
ser espiritualmente despertado e iluminado a fim de poder receber e
apreender as coisas pertencentes a Cristo e aceitá-lo pela fé” – Keyser
(Citação de E. H. Bancroft, Teologia Elementar, EBR, 2001, pág 227).

A Bíblia apresenta Adão e Cristo como personagens principais. Este trouxe


salvação a todos os homens e aquele condenação. O erro começa quando se
interpreta a Bíblia através de Moisés e Cristo, a lei e a graça.

A correta relação encontra-se no versículo seguinte: “Pois assim como por uma só
ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por
um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida”
( Rm 5:18 ).

Adão ofensa juízo condenação


último Adão justiça graça vida
Onde fica a Lei? Onde encaixar Moisés?

Moisés era profeta e falou de Jesus “E, na verdade, Moisés foi fiel em toda a sua
casa, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar” ( Hb
3:5 ). Enquanto Moisés foi fiel na construção do santuário de Deus conforme o
modelo visto nos céus ( Hb 5:8 ), Cristo, como Filho, criou todas as coisas e
constituiu homens como templos para habitação de Deus “Essa casa somos nós…”
( Hb 3:6 ).

De igual modo, a lei era sombra de Cristo, dando testemunho daquele que havia
de se manifestar “PORQUE tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem
exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem
cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam” ( Hb 10:1 ; Cl 2:16 -17; Hb
8:5 ).

Ela serviu de ‘aio’, indicando a Cristo “De maneira que a lei nos serviu de aio,
para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados” ( Gl 3:24 ). Ao
introduzir a nova aliança, a velha foi extinta “Dizendo Nova aliança, envelheceu a
primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar” ( Hb
8:13 ).

Em Cristo foi estabelecida a lei da liberdade, onde as relações humanas não se


pautam por regras e leis, pois as leis são para os roubadores “Porque toda a lei se
cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” ( Gl
5:14 ; 1Tm 1:9 ).

Longe de quem professa a Cristo viver em devassidão e entregue aos desejos


mundanos e profanos “Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da
malícia, mas como servos de Deus” ( 1Pe 2:16 ).

Como a lei cumpre-se no amor, segue-se que a liberdade também é normatizada


“Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os
fracos” ( 1Co 8:9 ). Qualquer tipo de regra ou normatização legal imposta aos
servos de Cristo leva a servidão “ESTAI, pois, firmes na liberdade com que Cristo
nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão” ( Gl 5:1 );
“Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo
algum, senão estas coisas necessárias:” ( At 15:28 ).
A base do serviço do Cristão é bem sólida e superior a lei. Paulo é bem claro: servi
uns aos outros, não através da lei ou norma, mas com base no amor “Porque vós,
irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar
ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor” ( Gl 5:13 ).

A obra para qual Tiago exorta, é a obra perfeita da fé: a perseverança! ( Tg 1:4 ).
A fé sem a perseverança é morta, pois não terminou a sua obra “Aquele, porém,
que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo
ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu
feito” ( Tg 1:25 ); “Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela
lei da liberdade” ( Tg 2:12 ).

Quem atenta para o evangelho, a lei perfeita da liberdade é bem-aventura, pois


nem Paulo escapou de ser taxado de carnal “Rogo-vos, pois, que, quando estiver
presente, não me veja obrigado a usar com confiança da ousadia que espero ter
com alguns, que nos julgam, como se andássemos segundo a carne” ( 2Co 10:2 ).

Aqueles que apregoam de boa mente que é preciso ao homem guiar-se através de
leis morais farão uso de tais normas para criar fardos. Outros utilizarão estas
normas para fazer dos cristãos presas suas ( Cl 2:8 ).

Que regras deve o homem seguir, que não perecerão pelo uso? Não toques, não
proves, não manuseies? “…por que vos sujeitais ainda a ordenanças…?” ( Cl 2:20
). A lei da liberdade não é perfeita, precisando fazer-se acompanhar da lei? ( Gl
5:14 ).