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JANELAS

UM A C O LE TÂNE A DE IDE I AS E OP INIÕES

Joelmir P inho
JOELMIR PINHO

JANELAS
UM A COLE TÂNE A DE IDEIAS E OPINIÕES

2019

IBIK AR IRI
©EPUCA 2019, para a presente edição.
©IbiKariri 2019, para a presente edição.
©Joelmir Pinho 2019

Coordenação editorial: Comitê Gestor da Escola de


Políticas Públicas e Cidadania Ativa - EPUCA

Revisão ortográfica e gramatical: Graça Oliveira

Diagramação: Joelmir Pinho

Foto da capa: Joelmir Pinho

Pinho, Joelmir, 1969-

Janelas: uma coletânea de ideias e opiniões / Joel-


mir Pinho. - Crato :
EPUCA/IbiKariri, 2019.
250 p. ; 21cm x 21cm.

Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa –


EPUCA/Selo editorial IbiKariri
Crato | Cariri | Ceará
ascom.epuca@gmail.com
www.portalepuca.org
SUMÁRIO Quem tem medo da participação? 34

Primeiras palavras 7 Carta para Paulo 36

Prefácio 8 Orações para Bobby 39

A busca da receita mágica 10 O medo não me paralisará 47

Grande sertão, veredas: conexões inevitáveis Sandices autoritárias do [des]governo Temer 50


e outras reflexões 11
Sobre eleições, democracia e desobediência
Jesus e os moradores de rua de Pinheiros 13 civil 54

Breve história da aventura humana na Terra 15 Fora Temer é necessário. Mas, não basta 57

Brasil latifúndio: quanto cabras ainda irão A democracia para além do lugar comum 61
morrer? 19
Carta aberta ao Senado brasileiro [ou sobre
Uma nova ruralidade para uma nova juven- escolhas, história e memória] 64
tude 21
Reflexões sobre empatia, luto e outras ques-
Amanhã precisa ser maior 24 tões humanas 68

Vamos precisar de todo mundo 27 Um falso herói para um falso problema cen-
tral 74
Um dia só é muito pouco 30

Não! Não foi acidente 77


Onde fica o Estado laico? 32
Da Era das revoluções à Era das devoluções 80 O acesso à informação como elemento de po-
der político 111
O limite entre liberdade de expressão e vio-
lência 84 Não há educação sem reflexão 114

PMDB se assume como patife ao chantagear Conjugando o verbo esperança 117


povo brasileiro 86
Antes que lhe aprisionem a alma, desobe-
O Brasil resumido à Lava Jato 90 deça! 119

Crônica de uma geração que se acovardou 93 Onde sobra ódio, falta sensatez 122

A vaquejada e o antropocentrismo nosso de Quando a omissão é sinônimo de cumplici-


cada dia 95 dade 124

O acesso à informação como direito 98 2018 poderia ser eleito o ano nacional da ba-
derna 126
O acesso à informação como ponte para o di-
reito 101 Para muito além das ilusões 128

O acesso à informação como instrumento de Sobre educação, coerência e cuidado 131


controle social 104
Celebração para Casaldáliga 135
Defesa da redução da maioridade penal é
A censura como “pedra de toque” dos tiranos 138
atestado de cegueira coletiva 107

Menos glamour e mais inclusão 142


O Juquinha precisa saber 144 A barbárie anunciada e suas origens recentes 195

A páscoa para além de coelhos e ovos de cho- Aos meus 200


colate 147
Prelúdio de ano novo 203
Em defesa do SUS e da vida 151
Jesus e a nossa hipocrisia natalina 209
Não pode haver razão na guerra 156
Pela mãe terra, pela vida e pelos que virão 211
Ceará 2050: para quem? 159
Novas tragédias de um velho trágico modelo 215
A eugenia como manto invisível do precon-
Entre a maldade, o cinismo e o vexame 220
ceito no século XXI 165

Se é pra cantar, cantemos! 227


Agrotóxicos: um negócio sujo e nada pop 169

{Des]governo Bolsonaro: um remaking paste-


Vencer o medo. Reaprender a amar 173
lão de 1964 232
Sobre domingo e o porvir 178
Nenhum direito a menos. Nenhuma flor a
Carta aberta à juventude 184 menos 242

Sobre fé e política 189 Sobre o autor 249


PRIMEIRAS P ALAVRAS ainda, na coragem de muitos e muitas de se oporem
a toda forma de injustiça, preconceito e desamor.
Algumas ideias e alguns projetos nascem sem preci-
sar de grandes esforços, num parto espontâneo, Levei tempo, até [re]aprender que nada é mais sa-

tendo como doulas a sabedoria dos nossos ances- grado que o dom da vida e que pertenço a uma
trais, a determinação de viver das gentes simples grande teia cósmica, vital à minha evolução espiri-

dos sertões e a utopia de um novo mundo. Foi assim tual e à minha própria sobrevivência nesse planeta.

com o Janelas, uma coletânea de ideias e opiniões Esse foi, certamente, meu maior e mais valioso
publicadas em meu blog ao longo de quase uma dé- aprendizado até aqui.
cada e agora reunidas neste e-book. De modo especial, deixo registrada minha gratidão
O que sou - e o que está reunido neste livro digital - pela generosa apresentação da amiga Fernanda Or- 7
é resultado dos muitos encontros que a vida me somarzo; pela leitura cuidadosa e atenta de Graça
proporcionou até aqui, das muitas janelas que se Oliveira; pela parceria e cumplicidade de Socorro
abriram para que eu pudesse, através delas, mirar o Souza, Vinícius Pinho e Walesvick Pinho ao longo de
mundo e as coisas do mundo. Mesmo quando a pai- mais de duas décadas de vida compartilhada.

sagem era árida e os corpos humanos e não huma- Por fim, ressalto minha alegria por estar inaugu-
nos que a compunham revelavam sofrimento e dor, rando, a convite do seu comitê gestor, mais um pro-
ainda assim foi possível encontrar beleza, seja na ce- jeto da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa
lebração da vida que renasce a cada dia, na capaci- - EPUCA: o selo editorial IbiKariri. Em tupi-guarani
dade de partilha dos mais pobres, no milagre que ibi quer dizer terra. E a esta terra Kariri, que tão
fazia do pouco pão a ceia de muitos, na renovação amorosamente me acolheu como filho, minha reve-
cotidiana da fé que nos faz seguir caminhando, ou rência e meu mais profundo respeito.
PREFÁCIO Ao mesmo tempo em que critica duramente o des-
monte de direitos e das conquistas democráticas
Disse um dia o poeta que a vida é a arte do encon-
que o país vem assistindo mais intensamente desde
tro, embora haja tanto desencontro pela vida. E, em
a crise política que culminou na deposição da presi-
meio a chegadas e partidas, Joelmir é passarinho de
denta Dilma Rousseff, Joelmir exala doçura e espe-
voo livre e sereno, cujos cantos de compaixão, amor
rança quando conclama a juventude a não aceitar
e fraternidade embalam nosso sonhar por um
que seu futuro seja negociado a partir dos interes-
mundo mais justo e igualitário. Embora as asas o
ses escusos do capital, quando convoca o leitor a lu-
conduzam para voos cada vez mais altos, Joelmir
tar pela democracia [ou pelo que ainda nos resta
teima em construir ninhos de afeto e fazer morada
dela], quando nos chama a vencer o medo como 8
no coração daqueles que são contemplados com a
forma de resgate do amor.
melodia de empatia que impulsiona sua existência.
Seu compromisso para com a causa humana trans-
Este livro é um convite ao voo. É um chamado para
borda as palavras e emociona. Mas, se não bastasse
que tiremos os pés do chão por alguns instantes
a intensa preocupação em despertar o pensamento
para alcançar a atmosfera de sabedoria que o autor,
crítico e empático do leitor em torno das tragédias
de forma tremendamente generosa, partilha com o
e dramas vivenciados pela humanidade, Joelmir
leitor. De Jesus a Casaldáliga, passando por Paulo
avança e alcança todo o restante dos seres que divi-
Freire e pela urgência de uma educação libertadora,
dem conosco a experiência terrena.
chegando na defesa do SUS e na proteção à vida hu-
mana e não-humana, Joelmir proporciona, para O convite, portanto, além de proporcionar um voo

além da simples leitura, uma verdadeira enxurrada panorâmico sobre os mais urgentes e relevantes te-

de sentimentos àqueles que mergulham em seus mas da atualidade, revela-se como proposta de re-
textos. flexão acerca de uma nova ética, uma nova
perspectiva capaz de romper com paradigmas arbi-
trários e egoísticos e expandir o horizonte moral do
indivíduo, a fim de que todos os seres sejam nele
incluídos.

Receber o convite de apresentar esta obra, mais que


uma honra, é, para mim, sinal de que a vida tem sido
muito generosa comigo. O encontro com Joelmir é
um lindo e raro presente. Do Cariri para o mundo,
suas asas batem livres e seguras em direção à cons-
trução de uma sociedade mais livre, justa e solidá-
ria, encharcando nossos corações com a esperança 9
típica das almas boas. Fernanda Orsomarzo é Juíza de Direito do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná e membra da Associação
Cumpadre, que alegria é partilhar esse voo contigo.
Juízes para a Democracia [AJD]. É colunista da editoria
Gratidão por tudo: pelo ontem, pelo hoje e pelo de Justiça da CartaCapital e coautora dos livros “Prisi-
sempre. Da sua mão não largo. Um xêro. oneiros e Juízes: relatos do cárcere” [Giostri, 2017] e
“Sororidade em Pauta” [Letramento, 2019].
Fernanda Orsomarzo
A BUS CA DA RECEITA MÁGICA filhos por um trabalho extra ou por
algumas horas a mais no escritório,
28
Os vários diálogos formais ou informais que tenho
em troca de um valor a mais no or- FEV2011
tido com pais e mães nos últimos anos giram, quase
çamento que irá permitir suprir al-
sempre, em torno da dificuldade de encontrar a re-
guma “necessidade” não tão básica da família, seja
ceita mágica para criar filhos, especialmente filhos
uma TV de plasma, um carro pro filho que acabou
adolescentes, em meio ao turbilhão de conflitos e à
de passar no vestibular ou qualquer outro desejo
velocidade com que quase tudo acontece no Século
imediato e quase “irrenunciável” de ter.
XXI.
O resultado são relações adoecidas pela carência
Nesse contexto, se por um
[quando não a ausência total]
lado vivemos a era da aber-
Sobra o ter e falta o ser. Ser mais amigo, de afeto, carinho, atenção e 10
tura para o diálogo, sem a mais ouvinte, mais autoridade [sem au-
partilha de sonhos, ao invés de
carga do medo que durante toritarismo], mais conselheiro. Enfim,
mais pais e filhos, ligados por laços de desejos materiais; estes últi-
muito tempo marcou as rela-
afetividade, já que os laços do ter são mos apresentados quase sem-
ções pais e filhos, por outro quase sempre frágeis e ao invés de apro-
ximar e unir, distanciam e separam. pre na forma de cobrança pelos
resta cada vez menos tempo
filhos e atendidos quase sem-
para o exercício desse diá-
pre na forma de bônus ou “remissão de pecado” pe-
logo.
los pais.
Empurrados por padrões de consumo cada vez mais
Sobra o ter e falta o ser. Ser mais amigo, mais ou-
caros e distantes da realidade da maioria das famí-
vinte, mais autoridade [sem autoritarismo], mais
lias, boa parte dos pais e mães acabam trocando o
conselheiro. Enfim, mais pais e filhos, ligados por la-
tempo que seria destinado à convivência com os
ços de afetividade, já que os laços do ter são quase
sempre frágeis e ao invés de aproximar e GRAND E S ERTÃO, V EREDAS:
unir, distanciam e separam. Afinal, já se 12 CONEXÕES INEVIT ÁVEIS E
OUTRAS REFLEXÕES
tornaram “comuns” notícias de acidentes,
DEZ2011
muitas vezes fatais, envolvendo adoles- Há tempos vinha tentando arranjar tempo

centes e seus carros, depois de uma ba- para reler Grande Sertão: Veredas, obra

lada. Na maioria dos casos a dor dos pais pela perca, memorável do imortal Guimarães Rosa. A oportuni-

vem acompanhada de um enorme sentimento de dade veio agora, como atividade da disciplina

culpa, já que o carro envolvido no fatídico acidente de Metodologia Científica, durante o primeiro se-

foi aquele que o filho ganhou de presente [dos pró- mestre do curso de Administração Pública da Uni-

prios pais] meses antes, como prêmio de bom com- versidade Federal do Ceará [Campus Cariri].

portamento ou como compensação pela pouca Embora não seja muito afeito à ideia de ler por obri-
atenção dada durante o ano. gação, o que quase sempre nos rouba o tesão e o 11

Embora não veja mal algum em darmos um pre- encantamento, foi gratificante o reencontro com a

sente a quem se gosta, creio que, como pais, preci- obra roseana, profundamente marcada por confli-

samos dar menos presentes e estar mais presentes. tos e incertezas. Talvez porque sejamos também,

Sei que para alguns, essa escolha pode ser difícil, em maior ou menor intensidade, esse retalho de ex-

mas urge que a façamos, pelo bem de nossos filhos periências, de dúvidas e interrogações sobre nossas

e de nossas próprias almas. próprias existências neste planeta-mãe Terra.

Riobaldo, o narrador perturbado por um passado


não muito distante, vai tecendo as teias que nos
convidam a tomar parte na trama. Assim, em vários
momentos me vi conduzido a assumir o papel do
interlocutor oculto a quem o fazendeiro e ex-ja- resistente a todas as intempéries que a aridez da-
gunço narra suas aventuras e seus conflitos. No pa- quelas terras impunha a nós e a todos que por ali
pel de leitor, por vezes me senti impulsionado a per- teimavam em viver, longe de quase tudo que pu-
guntar, a querer saber mais detalhes sobre este ou desse representar conforto ou modernidade.
aquele fato narrado por Riobaldo e até a querer sa-
Contudo, assim como na narrativa roseana, tam-
ber mais sobre o inexplorado e aparentemente in-
bém entre nós havia beleza. Lá e cá, estavam pre-
fértil terreno de seus sentimentos.
sentes sentimentos de gratidão, afeição, fidelidade
E o que dizer do conflito interior de Riobaldo em re- e, sobretudo, cuidado. A dimensão de cuidado pre-
lação a seu amor por Diadorim, a quem julgava ser sente no Grande Sertão de lá, através da relação de
também homem, descobrindo só em sua morte [de Riobaldo e Diadorim, se assemelha ao cuidado de
Diadorim] tratar-se de uma mulher? Talvez esteja aí meu pai Jacó pelos seus no Grande Sertão daqui, em 12
revelada toda a sensibilidade e sutileza de Guima- aparente contraste com suas rudezas.
rães Rosa ao falar do nobre e mágico sentimento do
Homens de poucas palavras, Riobaldo e Jacó com-
amor, que na trama serve de pano de fundo para
preendiam – cada um a seu modo e por razões so-
revelar um outro Riobaldo, dado a cuidados e gestos
bre as quais não cabe aqui conjecturas – que saber
que contrastam com o homem acostumado com a
cuidar é, sobretudo, proteger sem protecionismo. É
dureza da vida e a indiferença do outro.
respeitar as escolhas do outro, mesmo não concor-
Ao mesmo tempo, a ambientação da narrativa – o dando com elas e, ainda assim, manter-se de pronto
Sertão das Gerais – me remete ao Sertão Central ce- para apoiar, para socorrer, para acudir na hora pre-
arense, onde nasci e onde assisti, ao longo da minha cisa.
primeira década de vida, a lida diária de meu pai
como vaqueiro e como aguerrido sertanejo,
Em que pese a linguagem regionalista, repleta de di- JESUS E OS MORADORES 24
aletos e expressões estranhas à maioria dos leito- DE RU A D E P INHEIROS
DEZ2011
res, Grande Sertão: Veredas é o desnudar de um
A fé recebe, o amor dá. [Ninguém pode
universo, ao mesmo tempo, real e mágico; encan-
receber] se não tiver fé. Ninguém é ca-
tado e encantador, como é próprio de Guimarães paz de dar sem amor. Por esta razão, para que realmente
Rosa. possamos receber, cremos, e para que possamos amar,
damos, pois se alguém dá sem amor não recebe benefício
pelo que deu.

[Evangelho de Felipe, 45]

Em outubro desse ano, a troca do endereço de um 13


albergue que abriga moradores de rua, instalado no
bairro de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo,
causou muita polêmica. Bastou a Prefeitura anun-
ciar que iria instalar o albergue em um imóvel
maior, na mesma rua, para que alguns moradores e
comerciantes locais, num evidente ato de intolerân-
cia social, reagissem à ideia com argumentos reche-
ados de preconceito.

A reação à proposta da Prefeitura veio por meio de


um documento com mil e duzentas assinaturas,
através do qual os signatários esclarecem que “a re-
gião é habitada por uma população antiga com
muitos idosos, famílias com crianças e jovens, insti- a ponto de ameaçarem a segurança do lugar com
tuições de ensino e comércio local” e que, com a seus vorazes cachorros.
presença tão próxima dos moradores de rua, “o co-
Possivelmente, alguns dos autores do abaixo-assi-
mércio possivelmente não vai sobreviver, uma vez
nado, num lampejo de cristandade ou numa tenta-
que a população local será acuada em suas residên-
tiva de remissão dos pecados, distribuam um ou
cias e os visitantes de outros bairros vão nos trocar
dois pratos de comida com alguns dos seus vizi-
por outros centros comerciais mais tranquilos e se-
nhos da rua para que, também eles, possam deli-
guros”.
ciar-se com o banquete em homenagem ao menino
Ainda estarrecido com a notícia, pouco divulgada Jesus. Claro que será preferível que os beneficiários
pela grande imprensa, fico do “gesto caridoso”, se rega- 14

imaginando quantos, dos O mais assustador é constatar que episó- lem com sua ceia de Natal a
dios como o de Pinheiros têm se tornado,
1.200 moradores e comerci- a cada dia, mais comuns numa sociedade uma dada distância do portão
antes de Pinheiros que subs- profundamente marcada pelo precon- da casa do doador. Tudo para
ceito, pela indiferença, pelo desamor e
creveram o vergonhoso docu- evitar constrangimento para
pela negação da vida. Enfim, numa socie-
mento, estarão reunidos na dade cada dia mais distante do mundo ambos.
noite deste sábado [24], com sonhado por Jesus.
Feito isto, estará tudo resol-
suas famílias, em fartas ceias
vido. Se havia algum problema
de Natal, para celebrar o nascimento de um menino
de consciência do autor do generoso ato, pelo fato
que, segundo a crença cristã, veio ao mundo “na
de ter colocado a sua assinatura naquele papel, a
rua”, numa simples manjedoura, em condições não
doação de um ou dois pratos de comida, naquela
muito diferentes daquelas em que vivem os mes-
noite tão especial, acabara de redimi-lo de toda e
mos moradores que lhes causam tanto desconforto,
qualquer culpa.
05
O mais assustador é constatar que episó- BREV E H ISTÓRIA DA AV EN-
MAR2012
dios como o de Pinheiros têm se tornado, TURA HUM ANA NA TERRA
a cada dia, mais comuns numa sociedade
No início da presença humana na Terra, carregáva-
profundamente marcada pelo preconceito, pela in-
mos uma mochila que continha um conjunto de va-
diferença, pelo desamor e pela negação da vida. En-
lores originais entre os quais se incluíam a solidarie-
fim, numa sociedade cada dia mais distante do
dade, a cooperação, o cuidado e o sentimento de
mundo sonhado por Jesus.
pertença à mãe Terra. Durante muito tempo fica-
Mas, como nos afirma Felipe em seu Evangelho, nin- mos assim, integrados à grande teia da Vida e, nas
guém é capaz de dar sem amor. E quem ama não palavras de Jairo Façanha1, encaixados nos proces-
rejeita, não exclui, não nega o outro, por mais dife- 15
sos naturais do planeta.
rente que o outro nos seja. Quem ama acolhe em
Até que começamos a enxergar, no topo de uma
qualquer tempo e lugar, sem precisar que uma tra-
grande montanha, um letreiro luminoso com a má-
dição, seja o Natal ou qualquer outra data, venha
gica palavra progresso. Animados pelo deslumbre
tocar-lhe o coração.
provocado por essa nova visão de mundo, iniciamos
E sem querer roubar a esperança de salvação uma caminhada montanha acima buscando chegar,
dos cristãos natalinos de plantão, volto a Felipe para o mais rápido possível, ao seu topo. A pressa foi
lembrar que se alguém dá sem amor não recebe be- tanta que esquecemos a mochila aberta e à medida
nefício pelo que deu. de nos aproximávamos do objetivo final, alguns va-
lores caiam da mochila e se perdiam pelo caminho,

1
Jairo Façanha é engenheiro agrônomo e autor do livro ecológica profunda na inspiração de uma consciência
Terra: a vida nas mãos das ilusões: uma perspectiva ética, cuidadosa e responsável.
sem que sequer percebêssemos. Outros foram deli- marcantes e servem de âncora ao atual jeito de vi-
beradamente abandonados por representarem um ver da humanidade. São elas: o antropocentrismo2,
peso ou um empecilho na nova caminhada. a predominância do masculino e da razão e a dessa-
cralização da Terra e da vida.
Ao mesmo tempo, à medida que
avançávamos e encurtávamos Essa aventura foi e continua A ideia de que a espécie humana é o
sendo marcada por escolhas e
caminhos para chegar mais rá- renúncias profundamente ca- centro da vida no universo nos condu-
pido ao topo, íamos apanhando ras ao planeta e toda forma ziu à nossa separação da grande teia da
de vida nele existente, princi-
o que encontrávamos pela vida, uma vez que, para afirmar a con-
palmente a humana.
frente e colocando na mochila, dição de ser superior precisávamos nos
agora já quase vazia dos valores colocar numa posição central e acima
16
originais. Desta forma, o cuidado dá lugar ao des- das demais formas de vida existentes no planeta.
cuido, a cooperação dá lugar à competição, o aco- Para tanto, começamos a tencionar o fio que nos
lhimento é substituído pelo abandono… E por aí se- unia à grande teia da vida, até seu rompimento.
guimos. Com isso, nos tornamos seres apartados, desconec-
tados. Não é à toa que hoje nos referimos à natu-
Essa aventura foi e continua sendo marcada por es-
reza como algo separado de nós. Falamos, com fre-
colhas e renúncias profundamente caras ao planeta
quência, da necessidade de salvarmos “o nosso
e toda forma de vida nele existente, principalmente
a humana. Três escolhas em particular foram

2
Segundo o Dicionário eletrônico Houaiss da língua por- ou núcleo em torno do qual estão situadas espacialmente
tuguesa 3.0, antropocentrismo significa “forma de pensa- todas as coisas [cosmologia aristotélica e cristã medie-
mento comum a certos sistemas filosóficos e crenças reli- val], seja como uma finalidade última, um télos que atrai
giosas que atribui ao ser humano uma posição de centra- para si todo o movimento da realidade [teleologia hege-
lidade em relação a todo o universo, seja como um eixo liana]”.
planeta”, como se a Terra nos pertencesse, e não femininos. Mas como dispor da Terra e da vida para
nós pertencêssemos a ela. atender às conveniências do progresso humano, se
estas permanecessem sendo encaradas
Na origem, todas as dualida-
Chegamos ao seu topo, dei- como sagradas? Ninguém, em sã consci-
des, inclusive o masculino e o
xando para trás um rastro de ência, violentaria algo que lhe fosse sa-
feminino, estavam em har- destruição e de violência que in-
clui a negação do outro e a grado.
monia e complementarie-
perca do vínculo com nossa an-
dade. Contudo, a energia fe- Assim, os defensores do novo modelo
cestralidade.
minina passou a ser encarada passaram a concentrar seus esforços na
17
como empecilho à chegada dessacralização da Terra e da vida, de
da humanidade ao topo da montanha. O cuidado, a forma a liberar a humanidade de qualquer culpa ou
proteção, a visão do todo e o sentimento de per- responsabilidade pelas constantes agressões à na-
tença presentes no feminino não eram compatíveis tureza, pela exploração do homem pelo homem e
com o sonho de progresso que passou a alimentar a por todo o ciclo de violência daí decorrentes. Rom-
ambição humana. O resultado foi um violento pro- pida a sacralidade, agora nada mais poderia dificul-
cesso de negação do feminino e da emoção e a afir- tar ou impedir a nossa escalada da montanha.
mação do masculino e da razão como bases para
E de fato, a montanha foi conquistada. Chegamos
construção do novo modelo de sociedade. Vincu-
ao seu topo, deixando para trás um rastro de des-
lado a isso, a competição passou a ser uma das mo-
truição e de violência que inclui a negação do outro
las propulsoras do progresso humano.
e a perca do vínculo com nossa ancestralidade.
A ideia de que a Terra e a vida eram sagradas faziam
Do alto da montanha passamos a nutrir um modo
parte da base de crenças das sociedades matriar-
de vida pautado numa espiritualidade representada
cais. Eram, portando, valores essencialmente
pela ideia de um Deus masculino, distante, inacessí- dos alunos e das próprias comunidades onde as ins-
vel e castigador, bem ao gosto da razão masculina. tituições de ensino [da educação infantil à universi-
dade] estão inseridas. Sem cuidado e encanta-
O grande desafio que se coloca para toda a hu- mento, nosso modelo educacional está limitado a
manidade nos dias atuais é fazermos o caminho reproduzir, geração após geração, a mesma base de
de volta rumo à ressignificação de nossas rela-
ções e à reconexão com a grande teia da vida e valores e crenças que tem sustentado o atual e já
a nossa ancestralidade. apodrecido modelo de sociedade.

Nesse cenário, o grande desafio que se coloca para


Ao mesmo tempo, nossas relações conosco mes-
toda a humanidade nos dias atuais é fazermos o ca-
mos, com os outros e com o planeta tornaram-se
minho de volta rumo à ressignificação de nossas re-
profundamente adoecidas, marcadas pelo aban-
lações e à reconexão com a grande teia da vida e a
dono, pelo descuido e pela competição que, nas pa- 18
3 nossa ancestralidade. Além disso, será fundamental
lavras de Humberto Maturana , “não é nem pode
compreendermos que as partes da dualidade não
ser sadia, porque se constitui na negação do outro”.
são opostas, mas complementares. Mas principal-
Colocando a educação como uma das bases de sus-
mente, é preciso voltar a compreender a Terra e a
tentação do atual modelo de sociedade, construí-
vida como bens sagrados. Fora disso, muito pouco
mos um jeito de ensinar unilateral que tem como
nos resta de esperança e de possibilidades reais de
principais características a reprodução de conteú-
sobrevivência à grande crise planetária que se anun-
dos pré-definidos, a inibição da criatividade, o auto-
cia a passos largos.
ritarismo e a ausência de vínculos com a realidade

3
O biólogo e escritor chileno Humberto Maturana é co- de Formação Matriztica, onde segundo o seu próprio di-
fundador, codiretor, investigador e docente do Instituto zer: – Criamos um laboratório humano.
BRAS IL LATIFÚND IO:
02 QUANTOS CABRAS Além da impunidade dos crimes cometidos con-
tra trabalhadores e trabalhadoras rurais no Bra-
AIND A IRÃO MORRER?
ABR2012 sil, contribui para nutrir esse processo histórico
Há exatos 50 anos morria, ví- de violência no campo a ausência de uma política
tima de uma emboscada na es- efetiva de reforma agrária.

trada que o levaria de volta ao convívio com sua fa-


o trabalhador rural Sem Terra, Antônio Tiningo, foi
mília, o trabalhador rural João Pedro Teixeira, fun-
assassinado em uma emboscada quando se dirigia
dador da Liga Camponesa de Sapé [PB]. João Pedro
para o acampamento da fazenda Açucena, no muni-
deixou viúva Elizabete Teixeira, a quem coube a mis-
cípio de Jataúba, agreste de Pernambuco4.
são de criar os 11 filhos do casal e ainda sustentar a
luta iniciada pelo marido. Além da impunidade dos crimes cometidos contra
trabalhadores e trabalhadoras rurais no Brasil, con-
O mesmo poder do latifúndio que pôs fim à vida de
tribui para nutrir esse processo histórico de violên-
João Pedro no início da década de 1960 continua a
cia no campo a ausência de uma política efetiva de 19
fazer vítimas em pleno Século XXI, através dos mes-
reforma agrária.
mos métodos do século passado. Segundo noticiou
o sitio do Movimento Nacional dos Trabalhadores Segundo dados da pesquisa Estrutura Fundiária e

Rurais Sem Terra [MST], no dia 23 de março último Propriedade Agrícola no Brasil: grandes regiões e

4 fazendas na região – expulsou ilegalmente as famílias,


Tiningo era um dos coordenadores do acampamento da
sem nenhuma ordem judicial ou presença policial. As fa-
fazenda Ramada, ocupada há mais de três anos. No final
mílias reocuparam a área em fevereiro desse ano e, desde
de 2011, mesmo ocupada pelos Sem Terra, a fazenda foi
então, o proprietário tem ameaçado retirar as famílias à
comprada por um empresário do ramo de confecção e es-
força, intimidando pessoalmente algumas lideranças da
peculação imobiliária, conhecido por Brecha Maia. Logo
região, dentre elas, Antonio Tiningo.
que comprou a área, o fazendeiro – que possui outras
unidades da Federação [de 1970 a 2008]5, publicada brasileira, presente desde o surgimento da econo-
pelo próprio Ministério do Desenvolvimento Agrá- mia colonial, cujas bases eram o latifúndio monocul-
rio [MDA], ainda prevalece na estrutura fundiária tor e o trabalho escravo, permanece até hoje.
brasileira a alta desigualdade na distribuição da
O fato é que as acanhadas políticas de reforma agrá-
posse da terra, caracterizada pela enorme propor-
ria no Brasil não foram suficientes
ção da área total agrícola ocu-
para alterar a perversa e excludente
pada pelos estabelecimentos As acanhadas políticas de re-
forma agrária no Brasil não fo- estrutura fundiária brasileira, o que,
com área maior ou igual a 100 20
ram suficientes para alterar a aliás, não representa nenhuma sur-
hectares. Eles representam ape- perversa e excludente estrutura
presa. Afinal, o que esperar de um
fundiária brasileira, o que, aliás,
nas 9,6% do total de estabeleci-
não representa nenhuma sur- Estado serviçal do grande capital e
mentos agrícolas no país e ocu- presa. dos interesses corporativos de uma
pam 78,6% da área total dedi-
elite patrimonialista, presa à sua he-
cada à atividade, ao passo que aqueles com área in-
rança colonial que, em pleno Século XXI ainda con-
ferior a 10 hectares constituem mais de 50% dos es-
vive com o trabalho escravo e com extensões de ter-
tabelecimentos e ocupam apenas 2,4% da área total
ras que mais parecem Sesmarias, como se isso fosse
[IBGE, 2009].
algo natural?
Para os autores da pesquisa, os dados não deixam
A minha convivência com os trabalhadores rurais
dúvida de que a enorme desigualdade fundiária,
sem terra do Brasil, durante os três anos em que mi-
uma das marcas da evolução histórica da economia
litei no MST, levou-me a conhecer de perto e sentir

5
Hofmann, Rodolfo e Ney, Marlon Gomes. Estrutura fun- Gomes Ney. – Brasília : Ministério do Desenvolvimento
diária e propriedade agrícola no Brasil, grandes regiões e Agrário, 2010. 108p.
unidades da federação / Rodolfo Hofmann e Marlon
na própria pele a força repressora da elite 05 UMA NOV A RU RALID ADE
agrária brasileira e seu mais fiel escudeiro PARA UMA NOVA JUVENTUD E
AGO2012
– o aparelho repressor estatal. Que há uma nova ruralidade em gestação
no campo brasileiro, isso já sabemos. Esse
Por tudo isso, registro aqui minha homenagem a
processo, que teve início ainda na década de 1980,
João Pedro Teixeira6 e meu mais profundo respeito
tem como uma de suas principais caraterísticas a
a todos os homens e mulheres que lutam pela de-
existência de famílias pluriativas, que distribuem
mocratização do acesso à terra para nela viver e
seus membros para novas atividades econômicas,
plantar, como direito sagrado e inalienável do ser
não agrícolas, dentro ou fora de seus estabeleci-
humano. Foi com eles que aprendi que “o problema
mentos.
do Nordeste não é a seca, mas a cerca”, conforme
registrou com carvão, no oitão de uma casa no inte- Contudo, segundo nos alerta Brancolina Ferreira7,
21
rior do Maranhão, um agricultor que acabara de ser ao contrário do que possa parecer à primeira vista,
alfabetizado com base na proposta de alfabetização “as características estruturais dominantes dos tem-
de adultos deixada por Paulo Freire. pos coloniais ainda persistem na realidade rural de
hoje”.

Assim, a pluriatividade presente nessa nova rurali-


dade – ou novo rural, como preferem alguns – está

6
A história de João Pedro Teixeira deu origem ao Galileia [PE]. O filme/documentário tem narração de Fer-
filme Cabra Marcado para Morrer [1984], dirigido por reira Gullar, Tite Lemos e Eduardo Coutinho.
Eduardo Coutinho, tendo no elenco a própria viúva de 7
Pesquisadora Associada do Departamento de Sociologia
João Pedro, Elisabeth Teixeira, além de seus filhos, do
da UnB e Coordenadora de Desenvolvimento Rural do Ins-
camponês João Virgínio da Silva e dos habitantes de
tituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – IPEA.
também associada à ausência de acesso à terra em quanto ao acesso à escola e ao trabalho. Some-se a
qualidade e quantidade suficientes para garantir a isso a atração do jovem pelo meio urbano ou pelo
reprodução do modelo de cultivo familiar. estilo de vida urbano, apontado em várias outras
pesquisas, embora essa questão não possa ser tra-
Para além dos aspectos produtivos ou de geração de
tada assim, de forma simplória.
renda, os avanços tecnológicos, as mudanças no pa-
drão de consumo e outros aspectos característicos Sobre esses jovens pesa o aparente antagonismo
da sociedade contemporânea, estão presentes no entre a casa e a rua, servindo-se aqui da analogia
campo e têm integrado a agenda de preocupações, proposta por DaMatta8. Se de um lado sofrem com
reflexões e diálogos entre es- o preconceito do mundo exte-
tudiosos e pesquisadores da À juventude, de quem muitas vezes se rior/urbano [a rua], que associa o
disse desinteressada ou descompro-
temática e, sobretudo, entre mundo rural ao atraso, por outro
metida com o seu lugar e a quem, his-
a própria juventude rural or- toricamente, foi negado o direito de enfrentam, com frequência, a des-
ganizada em vários movimen- tomar parte na construção do pre- legitimação de seus pais e adultos
sente e do futuro do meio rural, cabe
tos. papel preponderante nessa nova con- em geral de suas comunidades [a
formação social que envolve, mais do casa], que os consideram muito
O fato é que diversos estudos 22
que aspectos puramente econômicos,
urbanos.
apontam para a tendência da uma boa dose de reconhecimento da
saída de jovens do campo identidade cultural e sua pluralidade. Esse cenário exige novos arranjos
rumo às cidades. Nessas pes- institucionais e novas metodolo-
quisas há certo consenso quanto às dificuldades en- gias que possam contribuir para reparar as distor-
frentadas pelos jovens no campo, principalmente ções históricas que teimam em negar o inalienável

8
Roberto DaMatta é autor do livro A casa & A rua: es-
paço, cidadania, mulher e morte no Brasil.
direito de inúmeras comunidades rurais espalhadas consequente ressignificação das relações de cada
por todo o Brasil à cidadania plena, o que inclui a ator social consigo mesmo, com os outros e com o
preservação e fortalecimento de suas raízes, suas planeta. E é claro que, para o desafio ser completo,
tradições, sua identidade e sua história. não pode faltar uma pitada caprichada de disposi-
ção para a participação política e o envolvimento
Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer e poten-
nos processos de tomada de decisão sobre questões
cializar os aspectos endógenos de cada território, le-
públicas de seu interesse.
vando-se em conta todo o leque de possibilidades
que se apresentam para o seu desenvolvimento ver- Em ano de eleições municipais, é bom ficarmos
dadeiramente sustentável, inclusive quanto a uma atentos à forma como os vários pretensos represen-
nova economia, de base justa e solidária. tantes da juventude enxergam essas e outras ques-
tões, embora, particularmente, não tenha muita es-
À juventude, de quem muitas vezes se disse desin- 23
perança que a nossa sequestrada democracia en-
teressada ou descomprometida com o seu lugar e a
contre saída em jogos de cartas marcadas como
quem, historicamente, foi negado o direito de to-
quase sempre o são as eleições dentro do atual mo-
mar parte na construção do presente e do futuro do
delo.
meio rural, cabe papel preponderante nessa nova
conformação social que envolve, mais do que aspec-
tos puramente econômicos, uma boa dose de reco-
nhecimento da identidade cultural e sua plurali-
dade.

A essa mesma juventude cabe, de modo especial, o


urgente repensar do modelo de educação e a
AMANH Ã PRECIS A S ER MAIOR No entanto, algo mudou signifi-
cativamente desde a década de
23
Iniciei minha militância nos movimentos estudantil
1980: como tem acontecido em JUN2013
e comunitário ainda na década de 1980, com 14
todo o mundo, hoje quem as-
anos de idade, num momento em que os brasileiros
sume o papel de protagonista nos processos de mo-
iam às ruas lutar por eleições diretas e a redemocra-
bilização e de animação das várias manifestações
tização do país.
que vêm tomando conta das ruas de cidades brasi- 24
Depois vieram a luta por reforma agrária, as lutas do
leiras são os próprios jovens, sem a tutela de parti-
movimento estudantil, as mobilizações nacionais
dos ou organizações sociais históricas.
pelo direito à moradia e tantas outras bandeiras ge-
Esse é um fato que não pode ser ignorado por quem
rais, além das mobilizações específicas como o
deseja entender melhor o fenômeno social que es-
“Fora Collor”.
tamos observando no Brasil de
Em todos esses momentos ficou É preciso aprofundar o diálogo so- 2013, protagonizado por uma ju-
evidente, além da costumeira re- bre a necessidade de construção
de um novo projeto de país, que ventude de quem se dizia alienada
ação violenta do aparato de se-
tenha sua centralidade na vida e e desinteressada pelo presente e o
gurança estatal, o papel mobiliza- não na economia.
futuro desse país.
dor central dos partidos políticos
Estariam os jovens brasileiros que-
e dos movimentos sociais de cunho popular.
rendo dizer aos partidos políticos que, para usar
Embora com algumas mudanças nos métodos, a
uma expressão da moda, eles não nos representam?
ação repressora do Estado continua presente nos
Estarão as organizações do chamado terceiro setor,
dias atuais e ganhou expressão durante as mobiliza-
ocupadas demais com seus próprios projetos ou
ções que tomaram conta do Brasil nos últimos dias.
dependentes demais do Estado, a ponto de não te- questões pontuais importantes como a rejeição da
rem percebido que, cedo ou tarde, a insatisfação da PEC 37, a denúncia de superfaturamento nas obras
sociedade [e não estamos falando só da juventude] da Copa ou o combate à corrupção.
com a corrupção e o mau uso do dinheiro público
É preciso aprofundar o diálogo sobre a necessidade
acabaria vindo à tona?
de construção de um novo projeto de país, que te-
O fato é que as manifestações que estão tomando nha sua centralidade na vida e não na economia.
conta das ruas do Brasil nos últimos dias registram
Pensar nesse sentido é rejeitar megaprojetos com
um novo jeito de escrever a história desse país.
Belo Monte, apenas para citar um exemplo. É cons- 25
Como já ficou evidente, a população que está indo
truir, aqui e agora, uma nova escola, menos preocu-
às ruas não quer apenas rejeitar os R$ 0,20 de au-
pada com os conteúdos e o espírito competitivo e
mento no preço das passagens no transporte cole-
mais comprometida com a formação humana, o
tivo.
acolhimento e o reconhecimento do outro e do lu-
A cada novo vídeo postado nas redes sociais, a cada gar onde ela está inserida. Já não basta lutar por
nova palavra de ordem e a cada novo chamamento mais educação. É preciso saber que educação que-
às ruas se revelam novas causas, a maioria ligada ao remos.
combate à corrupção e ao mau uso do dinheiro pú-
Se queremos afirmar a vida como bem maior, não
blico.
podemos restringir a luta por saúde à construção de
Embora os movimentos que ocuparam as ruas do mais hospitais ou à colocação de mais médicos à dis-
Brasil ao longo dos últimos dias já possam ser consi- posição da população. É preciso inverter a lógica do
derados vitoriosos, é fundamental que nos mante- modelo de saúde, de modo a evitar que as pessoas
nhamos mobilizados, não apenas em torno de adoeçam. Afinal, como nos ensina a sabedoria
popular, é melhor prevenir que remediar. O nome Recorrendo às palavras do escritor português José
disso é cuidado. Saramago, não podemos continuar convivendo com
“uma democracia sequestrada, condicionada, am-
Não há como assegurar a centralidade na vida rele-
putada”, onde “o poder do cidadão,
gando a Cultura a um papel se-
o poder de cada um de nós, limita-
cundário no campo das políti- Para que as vozes de milhões de
homens e mulheres, que corajosa- se, na esfera política, a tirar um go-
cas públicas. É urgente que go-
mente foram às ruas do Brasil ao verno de que não se gosta e a pôr
vernos e sociedade reconhe-
longo dos últimos dias, não sejam 26
outro de que talvez venha a se gos-
çam a cultura como modo de esquecidas na próxima Copa, é
preciso que nos mantenhamos tar”.
vida e elemento fundamental
mobilizados e que amanhã seja
de identidade de uma comuni- maior, não apenas em quanti-
dade. E mais: é preciso demo- dade, mas, sobretudo, em quali-
dade.
cratizar o acesso aos bens e ser-
viços culturais e integrar todas
as políticas públicas a partir dos elementos identitá-
rios de cada território.

Enfim, para que as vozes de milhões de homens e


mulheres, que corajosamente foram às ruas do Bra-
sil ao longo dos últimos dias, não sejam esquecidas
na próxima Copa, é preciso que nos mantenhamos
mobilizados e que amanhã seja maior, não apenas
em quantidade, mas, sobretudo, em qualidade.
VAMOS PRECISAR D E TODO MUNDO A cidade do Crato, no Cariri cea-

Desde a tarde de hoje, a cidade de Brasília é palco 19 rense, foi sede de um desses

da I Conferência Nacional de Alternativas para uma eventos, que por aqui teve cará- 27
NOV2013
Nova Educação, a CONANE. O evento prosseguirá ter regional e foi realizado sob a

até a próxima quinta-feira [21] e, dentre outras coi- responsabilidade da Escola de

sas, apresentará dezoito experiências significativas Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA].

que apontam novos rumos concretos para a Educa- Independentemente da quantidade de pessoas que
ção brasileira. cada encontro conseguiu reunir, a iniciativa já pode

Durante a solenidade de abertura da CONANE, na ser considerada uma grande conquista. Afinal,

tarde de 19 de novembro, foi entregue ao Ministro como nos ensina o poeta, um mais um é sempre

da Educação e à sociedade brasileira o docu- mais que dois.

mento Mudar a Escola, Melhorar a Educação: Ver milhares de pessoas, Brasil afora, mobilizadas
Transformar um País, elaborado de forma colabora- por uma causa tão importante e urgente é, no mí-
tiva por diversos estudiosos da educação e entida- nimo, animador. São gentes de lugares os mais di-
des de todo o Brasil e subscrito por milhares de pes- versos, que não cansam de mirar um novo horizonte
soas e centenas de organizações de todo o território e caminhar – ora mais rápido, ora mais lentamente
nacional. – em sua direção, pela via do fazer acontecer.

Simultaneamente à solenidade de Brasília, foram


realizadas atividades em pelo menos outras qua-
renta cidades brasileiras, com a entrega do mesmo
documento a autoridades locais [prefeitos, secretá-
rios municipais de educação, parlamentares, etc.].
Mas, é bom e justo que se diga: não Janeiro, em 29 de janeiro deste
estamos inventando a roda. Muitos Com Paulo aprendemos que “não ano em que publicamos o III Ma-
é possível refazer este país, demo-
nos antecederam com suas utopias, cratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo nifesto pela Educação.
hoje também nossas, e principal- sério, com adolescentes brin-
Lauro nos lembra que “o ser hu-
cando de matar gente, ofendendo
mente, com suas práxis. Entre estes
a vida, destruindo o sonho, invia- mano exige finalidade em tudo
está o educador pernambucano bilizando o amor. Se a educação que faz. Não agimos sem obje-
Paulo Freire, que tem inspirado nos- sozinha não transformar a socie-
dade, sem ela tampouco a socie- tivo claro e reconhecido como
sos quereres e fazeres, a ponto de dade muda”. válido. Se o que ensinamos não
realizarmos anualmente, no Cariri
parece ter utilidade para os ado-
cearense, uma Semana Freiriana, já em sua terceira
lescentes, eles fogem de nós, julgando-nos num
edição.
mundo irreal que eles não encontram lá fora”.
Com Paulo aprendemos que “não é possível refazer
Referindo-se ao mundo acadêmico, ele era categó-
este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sé-
rico ao afirmar que “no dia em que a nossa universi- 28
rio, com adolescentes brincando de matar gente,
dade deixar de tratar dos problemas genéricos e se
ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabili-
libertar da tentação de imitar outros grandes cen-
zando o amor. Se a educação sozinha não transfor-
tros com longas tradições científicas e grandes re-
mar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade
cursos à sua disposição, no dia em que a nossa uni-
muda”.
versidade, humilde e modestamente, puser nas me-
Mas há outro inspirador, este bem menos conhe- sas dos laboratórios os nossos problemas, terá se-
cido da maioria de nós. Refiro-me a Lauro de Oli- lado afinal, a sua aliança com o povo”.
veira Lima, cearense de Limoeiro do Norte, nascido
em 12 de abril de 1921. Lauro nos deixou no Rio de
Voltemos ao III Manifesto pela Educação … porque é uma porta abrindo-se em mais saídas. […]
Belo porque tem de novo a surpresa e a alegria”.
Se ainda não sabemos ao certo para onde tudo isso
que estamos vivendo irá nos levar, já temos claro Por último, desejo que os desdobramentos das so-
aonde chegamos até aqui: movimentos e momen- lenidades realizadas na tarde deste 19 de novembro
tos como estes que estamos experienciando juntos, de 2013, sejam férteis de cumplicidades e fortale-
confirmam nossa certeza de que vale teimar e ousar çam-nos mutuamente na certeza de que é possível
e reforçam nossa crença de que o generoso Uni- fazer acontecer outra humanidade, cujo compro-
verso conspira favoravelmente quando não desisti- misso primeiro seja com a vida plena.
mos de nossos sonhos e persistimos na jornada sem
abandonarmos o cuidado e a amorosidade.
29
Nesse momento tão especial em que nos encontra-
mos, de “início” de um longo ciclo de transforma-
ções que se anunciam, desejo que nossos corações
e nossas mentes estejam prenhes da utopia que nos
anima a caminhar, mesmo diante das adversidades.

Recorrendo ao formidável João Cabral de Melo


Neto, em seu Morte e Vida Severina, ao narrar o
nascimento de uma criança, atrevo-me a dizer que
o que estamos a fazer, com a tecetura desse Mani-
festo e todos os seus desdobramentos, “[…] é tão
belo como um sim numa sala negativa. […] Belo
UM DIA SÓ É MU ITO POU CO mulheres, com idades entre 13 e 08
25 anos, na maioria imigrantes
Há mais de uma versão para a origem do Dia Inter- MAR2014
italianas e judias.9
nacional da Mulher, mas todas remetem ao 8 de
março de 1857, quando um grupo de mulheres tece- Em 1910, na Segunda Conferência Internacional das
lãs de Nova York realizaram uma marcha por melho- Mulheres Socialistas, na Dinamarca, a alemã Clara

res condições de trabalho, diminuição da carga ho- Zetkin propôs que a data fosse usada para comemo-

rária e igualdade de direitos. Na época, a jornada de rar as greves americanas e homenagear mulheres
trabalho feminino chegava a 16 horas diárias, com de todo o mundo. A greve das trabalhadoras de Pe-
salários até 60% menores que os dos homens. trogrado [atual São Petersburgo], na Rússia, em 23
de fevereiro de 1917 [8 de março no calendário oci-
Uma das versões do desfecho da marcha é a de que 30
dental], também foi um marco da data. Hoje, ela é
as manifestantes teriam sido trancadas na fábrica
símbolo da luta pelos direitos da mulher, e foi ofici-
pelos patrões, que atearam fogo no local, matando
alizada pela Unesco em 1977, portanto, 120 anos
cerca de 130 mulheres. O fim mais aceito, porém, é
após a marcha das mulheres de Nova Iorque.
o da interrupção da passeata pela polícia, que dis-
persou a multidão com violência. A versão do incên- Sem negar a importância histórica de todos os epi-
dio é, provavelmente, uma confusão com a tragédia sódios que motivaram a oficialização do 8 março

da fábrica Triangle Shirtwaist Company, em 25 de como Dia Internacional da Mulher, pela UNESCO,

março de 1911. O fogo matou mais de 150 sempre me causou desconforto o fato de ter-
mos um dia da mulher, especialmente pelo caráter

9 http://planetasustenta-
Fonte dos dados históricos | vel.abril.com.br/ e http://www.sof.org.br/
mercantilista com que a data é assim poderemos reconhecer,
lembrada pela maioria das pessoas Proponho que o decreto da UNESCO pela ação, a sacralidade da vida.
seja revogado e que passemos a ho-
atualmente. menagear as mulheres todos os Aí entra em cena, para além da
dias, em reconhecimento às doses
Assim como em outras datas [Na- questão de gênero, a dimensão
diárias de cuidado, afeto, carinho e
tal, Dia das Crianças, das Mães, dos dedicação que as mesmas nos ofe- do feminino, muito mais pre-
Pais, dos Namorados, etc.], o co- recem, não por submissão ou obri- sente na maioria das mulheres,
gação, mas por compreenderem
mércio se prepara com antecedên- que só assim poderemos reconhe- embora possa estar também
cia para faturar alto, aumentando cer, pela ação, a sacralidade da nos homens e tenha sido repri-
vida.
de forma astronômica seus lucros, mida e ocultada em algumas 31
ajudado pelos muitos apelos das mulheres, em decorrência do
campanhas publicitárias que nos incentivam a reco- violento processo de imposição da energia do mas-
nhecer a importância das mulheres de nossas vidas, culino como uma das pilastras de sustentação do
“enchendo-as” de presentes, mesmo que continue- atual modelo de sociedade.
mos ausentes de suas vidas ou presentes pelo cami-
Entretanto, se ainda assim quisermos manter uma
nho da violência e da negação.
data simbólica para homenagear as mulheres, que
Por isso mesmo, proponho que o decreto da o façamos a partir do estímulo a ações e atitudes,
UNESCO seja revogado e que passemos a homena- individuais e coletivas, que contribuam para cele-
gear as mulheres todos os dias, em reconhecimento brar a vida, da qual a mulher é geradora.
às doses diárias de cuidado, afeto, carinho e dedica-
Nas solenidades realizadas por instituições públicas
ção que as mesmas nos oferecem, não por submis-
e privadas para celebrar a data, podemos aproveitar
são ou obrigação, mas por compreenderem que só
para reconhecer e valorizar a contribuição de
mulheres que, com sua sabedoria e seu ONDE FICA O ESTADO LAICO?
trabalho, semeiam a esperança de dias 06 Em seu artigo 19 a Constituição Federal de
melhores. São, na maioria, mulheres
JUN2014 1988 veda à União, aos Estados, ao Distrito
anônimas, herdeiras de uma ancestrali-
Federal e aos Municípios “estabelecer cultos
dade ancorada em valores que afirmam
religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-
a centralidade na vida e no espírito de comunidade
lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus
e partilha. Por isso mesmo, essenciais a uma socie-
representantes, relações de dependência ou ali-
dade adoecida pelo egoísmo, a competição e dessa-
ança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de
cralização da terra e da vida.
interesse público”.
Há muito o que recuperar de uma dívida histórica
Com um investimento de R$ 1,2 milhão, será inau-
que não é apenas com as mulheres, mas com nossa 32
gurado no próximo dia 21, na cidade do Crato, no
própria humanidade. Por tudo isso, não tenho dú-
Cariri cearense, um monumento de 35 metros de al-
vida de que um dia só é muito pouco!
tura em homenagem a Nossa Senhora de Fátima,
santa de devoção dos católicos em várias partes do
mundo.

O projeto de iniciativa do Deputado Estadual Ely


Aguiar [PSDC] foi financiado com recursos públicos
do Governo do Estado do Ceará, em parceria com a
Prefeitura do Crato, contrariando frontalmente o
princípio constitucional da laicidade do Estado bra-
sileiro.
A obra iniciada em 2009 foi interrompida por em- religião dos ateus e agnósticos, então ... Cruz, credo.
bargo do Ministério Público Estadual [MPE] que Nem pensar.
usou como justificativa para o
E o que dizer da afronta dos sím-
recurso impetrado, exatamente As religiões de matriz africanas ou
bolos religiosos católicos como o
a laicidade do Estado brasileiro. afro-brasileiras, as casas espíritas,
mesmo cristãs, e todas aquelas de crucifixo e as imagens de santos
Contudo, o Tribunal de Justiça fé não cristã, a exemplo do bu- que adornam os tribunais de jus-
do Ceará acabou autorizando a dismo, ao contrário, são ignoradas
tiça e fóruns de diversas comar-
pelo Estado e algumas vezes até
construção, que foi retomada
perseguidas por governos mais con- cas, as casas legislativas e as sedes
em seguida. servadores. dos órgãos do executivo Brasil
O caso da Santa do Crato é ape- afora?
nas mais um no largo currículo de confusão de inte-
Voltando ao Crato, o fato é que R$ 1,2 milhão do di-
resses e desrespeito à Constituição, envolvendo a 33
nheiro público, que poderia estar sendo usado para
relação Estado e religiões, notadamente aquelas de
atender a interesses bem mais coletivos e amplos,
base cristã católica e protestante.
financiou uma obra cujo interesse ou identificação
As religiões de matriz africanas ou afro-brasileiras, está restrita àqueles que professam a fé católica [e
as casas espíritas, mesmo cristãs, e todas aquelas de talvez nem todos], a exemplo do deputado autor da
fé não cristã, a exemplo do budismo, ao contrário, propositura e dos próprios representantes do exe-
são ignoradas pelo Estado e algumas vezes até per- cutivo estadual e municipal.
seguidas por governos mais conservadores, vio-
Aliás, cabe ao final desse artigo uma pergunta. Por-
lando frontalmente o direito ao livre exercício das
que a santa escolhida para ser homenageada com o
liberdades de crença e de culto, preconizado na
monumento milionário foi Nossa Senhora de
Carta Magna de 1988. Respeito ao direito de não ter
Fátima, se a padroeira dos católicos do Crato é
Nossa Senhora da Penha?
24 QUEM TEM MEDO DA PAR-
TICIPAÇÃO?
JUN2014
Haveria aí algum interesse ou devoção pessoal A reação de alguns grupos ao Decreto
em jogo, a exemplo do que faziam os coronéis 8243/2014, que institui a Política Na-
que costumavam mandar erguer capelas pelo ser- cional de Participação Social [PNPS] é, no mínimo,
tão em homenagem ao santo [ou santa] de devoção reveladora de uma guerra de interesses que muitos
de suas esposas ou deles próprios? julgavam démodé, ultrapassada ou vencida. Ledo

Voltamos à velha questão da confusão entre o pú- engano.

blico e o privado, objeto de análise de outro ar- Entre os que declararam guerra ao Decreto estão
tigo escrito por mim e publicado no meu blog, há al- parlamentares, juristas e profissionais de imprensa,
guns meses, com o título de Da Casa Grande ao Pa- que em comum carregam, em suas línguas e letras
lácio. afiadas, o discurso do medo. Medo do fortaleci-
mento dos espaços e instâncias de diálogo e delibe-
ração que dão voz a segmentos da sociedade brasi-
leira para quem a participação sempre esteve res-
trita, nas palavras do escritor português José Sara- 34
mago, “a tirar um governo de que não se gosta e a
pôr outro de que talvez venha a se gostar”.

Por trás dos argumentos legalistas trazidos pelos


opositores das possibilidades de ampliação da nossa
tão fragilizada democracia, há uma clara intenção
de manutenção da concentração do poder de opi- através das chamadas reformas de base do então
nião e decisão nas mãos de poucos, através de um presidente João Goulart, além de outros interesses,
modelo de democracia representativa há muito fra- que motivou o golpe civil-militar de 1964.
gilizada pela crise ética e moral que se abateu sobre
Portanto, se o que estamos vendo nesse cenário
as nossas instituições, especialmente o parlamento
possui alguma associação com golpe, esta não se dá
brasileiro. Nesse cenário, o Decreto 8243 é só o
em relação ao decreto que institui a PNPS, mas ao
35
bode expiatório dos bombardeios, mas o que está
medo da democracia, esse fantasma que sempre as-
em jogo é algo bem maior.
sustou as elites conservadoras e atrasadas do Brasil.
E não nos enganemos: a turma do medo não está
É claro que um decreto presidencial, per si, não é ga-
pra brincadeira. A comparação do Sistema Nacional
rantia de fortalecimento da nossa democracia. Mas
de Participação Social do governo federal a um
ele pode ser a porta de entrada para novas e impor-
golpe, feita pelo jornalista Fernão Lara Mesquita,
tantes conquistas da sociedade brasileira. Portanto,
em artigo publicado recentemente na Folha de São
defende-lo é, antes de tudo, defender o nosso inali-
Paulo, chega a ser insana, para não dizer ridícula.
enável direito de participar da vida desse país e das
Mas Mesquita não fala por si só. Ele é porta-voz de decisões que nos afetam, sejam elas tomadas em
interesses de grupos e corporações, uma vez que é Brasília ou no menor e mais distante município do
membro do Conselho de Administração de O Estado Cariri cearense.
de S. Paulo e faz parte da família fundadora do Esta-
dão, pois é neto de Júlio de Mesquita.

Voltando ao medo, é bom lembrar que foi exata-


mente o medo do fortalecimento da democracia,
18 C A R T A P A R A P A U L O 10 a União das Entidades Comunitárias de Maran-
guape [UNECOM].
Meu caro Paulo,
SET2014
Contudo, ouvi-lo falar por mais de uma hora e per-
Meu nome é Antonio e nos encon-
ceber o misto de indignação com as injustiças soci-
tramos uma única vez, no início da
ais e amor ao mundo e às pessoas que tomavam
década de 1990, durante um evento do Movimento
conta de ti, enquanto teu discurso ganhava força e
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra [MST] no Insti-
contagiava uma plateia inebriada, foi uma experiên-
tuto Cajamar, em São Paulo. Aquele breve encontro
cia incomparável. E aí vai um registro importante:
me marcaria profundamente e me revelaria uma
ao contrário de muitos, minha relação, desde então
surpreendente dimensão de humanidade que, ao
e até hoje, é mais com a boniteza da tua alma do
longo dos meus atuais 45 anos de vida, encontrei
que com a própria proposta pedagógica trazida por
em pouquíssimas pessoas.
ti, embora esta também tenha uma importância sin-
Eu já havia sido apresentado a uma parte de tua
gular e me sirva de bússola em meus fazeres como 36
obra e ao próprio “método” de alfabetização desen-
educador.
volvido por ti, anos antes, quando tive o privilégio
Essa primeira impressão acerca da tua humanidade
de coordenar um Programa de Alfabetização de
me seria confirmada ao longo dos contatos posteri-
Adultos realizado em Maranguape [CE], através de
ores com teus escritos, com os registros audiovisu-
uma parceria entre a extinta Fundação Educar e
ais de tuas falas e num recente diálogo, recheado de

10
Homenagem ao educador Paulo Freire [1921 – 1997], do Crato. Paulo Freire nasceu em 19 de setembro de 1921
apresentada durante a oitava edição do projeto Ponto- e a oitava edição do PontoDoc exibiu o documentário 40
Doc, da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa Horas na Memória, produzido pela equipe da Universi-
[EPUCA], realizada a noite de 17 de setembro, na cidade dade Federal Rural do Semiárido [UFERSA].
emoção, com tua menina Fatima, Aliás, desde muito cedo minha
com quem estive/estivemos por al- Aquele modelo de escola, apartada relação com a escola foi cer-
do lugar onde está instalada, inibi-
gumas horas em setembro de 2011, dora de criatividades e geradora de cada de estranhamentos. Por
quando da I Semana Freiriana do heteronomias, não me encantava e exemplo: o aguçado gosto pela
não me animava a aprender; nem
Cariri, projeto realizado pela Escola leitura, que hoje tenho, deveu-
me permitia ensinar [partilhar sabe-
de Políticas Públicas e Cidadania res e vivências]. se não à escola, como era de se
Ativa [EPUCA] e do qual tive o pra- imaginar. Pelo contrário, um
zer de estar coordenador em suas três edições dos meus primeiros contatos com o livro me veio
[2011, 2012 e 2013]. como castigo, como punição por minha inquietude, 37
classificada como mal comportamento.
Poucos anos antes daquele nosso encontro no Caja-
mar, uma decisão havia sido tomada por mim e me Foi um analfabeto que me despertou o gosto pela
afetaria por toda a vida. No final de 1988, fal- leitura. Explico: no caminho entre a escola e a casa
tando longos três meses para concluir o 2º grau de meus pais, na pequena comunidade de Cajazei-
[hoje ensino médio], eu optei por trocar a escola ras, no Sertão Central do Ceará, estava a casa de
pela militância no Movimento Sem Terra, onde per- meu avô paterno, por quem sempre nutri um pro-
maneci por três anos experienciando um outro jeito fundo afeto. Voltando da escola [à época grupo es-
de aprender e de ensinar. As razões da escolha es- colar] era comum encontra-lo sentado à sombra do
tavam claras: aquele modelo de escola, apartada do alpendre de casa, “pastorando” a mamona que co-
lugar onde está instalada, inibidora de criatividades locara para secar ao sol. Este me recebia sempre
e geradora de heteronomias, não me encantava e com um afetuoso abraço, acompanhado do pedido
não me animava a aprender; nem me permitia ensi- para contasse para ele uma história do meu “livro
nar [partilhar saberes e vivências]. da escola”.
Assim, sentado em seu colo, esquecia a fome e o humanidade, capaz de acolher e gerar encanta-
cansaço – trazidos pelo sol forte e pela distância mento mesmo à distância e apesar dela.
percorrida a pé – e me dedicava a ler pra ele as his-
A ti meu fraterno abraço. Que tua coerência, teu
tórias de Pedro Malazarte: o reformador do mundo,
compromisso com a vida e tua coragem de se opor
dentre outras. Impossível não aprender a gostar de
a toda forma de injustiça continuem a nutrir o
algo que me dava tanto prazer e vinha acompa-
meu/nosso caminhar rumo a um outro mundo: ne-
nhado de tanto afeto e reconhecimento.
cessário, possível e urgente.
Tudo isso dialoga à cerca baixa com tua inquietação,
Lux, pax et bonum.
tua crítica contundente à “educação bancária” e teu
ANTONIO Joelmir Pinho
compromisso político-ideológico e pedagógico com 38
os oprimidos. Contigo aprendi, dentre outras coisas,
que “quando a educação não é libertadora, o sonho
do oprimido é ser opressor”.

Assim, ao dirigir-me a ti, por ocasião do teu aniver-


sário de nascimento, quero agradecer por todo o
aprendizado que tens me proporcionado ao longo
desses anos. Entre esses muitos aprendizados se in-
clui a descoberta de que uma amizade não precisa,
necessariamente, do encontro físico, presencial,
para se fortalecer e se consolidar. Mas, fundamen-
talmente, ela necessita de um encontro de utopias,
de desejos compartilhados e uma forte dose de
ORAÇÕES PARA BOBBY Bobby é o drama da história de Bobby Griffith e da

04 Um olhar sobre a temática LGBT


forma como sua família, em especial sua mãe [Mary
Griffith], lida com as questões inerentes à homosse-
a partir de uma história real que
FEV2015
xualidade.
virou filme
Jovem, criado junto a uma família tradicional cristã
O FILME
nos EUA, Bobby sonha em ser escritor. Seu sonho é
Prayers for Bobby [Orações para Bobby, em portu-
impossibilitado por sua morte prematura, aos 20
guês] é um daqueles filmes que tem o mágico poder
anos, quando decide se lançar de uma ponte e um
de causar desconforto de forma amorosa e emocio-
caminhão o atropela.
nar, independentemente de sua identificação pes- 39
Uma jornada sentimental apoiada
soal com a temática. O filme
numa história real, que se destaca
estadunidense é protagoni-
pelo cuidado na abordagem da
zado pela indicada ao Oscar,
temática, com diálogos que mar-
Sigourney Weaver, que por
cam profundamente, e ganha
este filme obteve diversas in-
força com um elenco que apre-
dicações e premiações, entre
senta especial capacidade de in-
elas o Emmy e o Globo de
teração.
Ouro.
EM NOME DE DEUS
Produzido para a televisão, ba-
seado no livro homônimo de Não sou eu, é a bíblia. Assim Mary

Leroy F. Aarons e dirigido por Griffith tenta justificar sua decla-


Russell Mulcahy, Orações para rada recusa em aceitar o fato de
ter um filho gay. Cristã fervorosa, para ela a homos- Nos últimos anos o preconceito contra pessoas
sexualidade é um pecado de tal gravidade que LGBTI11 e o debate acerca dos seus direitos torna-
quem a “escolhe” está condenado ao inferno e será ram-se bastante conhecidos dos brasileiros, especi-
punido com a morte. almente em virtude dos embates ocorridos no Con-
gresso Nacional, com reverberações de dentro pra
A falta de informação sobre a questão fica evidente
fora e de fora pra dentro, tendo de um lado parla-
não só em relação a Mary, mas em relação a toda a
mentares identificados ou comprometidos com a
família e à própria psicóloga a quem a mãe recorre
defesa dos direitos dessa comunidade, a exemplo
para ajudar na “cura” de Bobby.
do deputado federal Jean Wyllys [PSOL], e do outro,
Sem um conhecimento mais alargado da questão e 40
representantes da bancada evangélica fundamenta-
com um olhar único sobre ela por parte da família e
lista, a exemplo do deputado Marco Feliciano [PSC].
de todos que o cercam, Bobby vai entrando num
A postura assumida pelos parlamentares alinhados
processo acelerado de isolamento, ficando cada vez
com a bancada evangélica quando o assunto é di-
mais difícil sustentar a pressão psicológica e a carga
versidade sexual, vem recheado de manifestações
de culpa que lhe recai sobre os ombros. Nesse cená-
de preconceito e manipulação de interpretações da
rio, o desfecho da história vai se tornando cada vez
bíblia de acordo com suas conveniências. Mas é
mais previsível.

11 O termo atual oficialmente usado para a diversidade no


LGBTI [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Inter-
Brasil é LGBT [lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transe-
sexuais] é a sigla mais utilizada por Organismos interna-
xuais e transgêneros]. A alteração do termo GLBT em fa-
cionais e entidades governamentais como ONU, Mercosul
vor de LGBT foi aprovada na 1ª Conferência Nacional
e Europa. A sigla foi criada para um padrão internacional
GLBT realizada em Brasília no período de 5 e 8 de junho
para identificar pessoas desta comunidade. Entidades
de 2008.
como a Anistia Internacional usam a sigla LGBTI em pro-
cessos e pesquisas.
bom que se diga: essa tem sido uma prática comum templos da igreja que dirige, na televisão e nas re-
das religiões ao longo da história da humanidade. des sociais na internet, extrapola o “limite” da de-
fesa de opinião ou crença e chega à incitação crimi-
Numa demonstração clara de força política, a Frente
nosa da intolerância e da violência contra membros
Parlamentar Evangélica12, na pessoa do seu presi-
da comunidade LGBT.
dente à época, o deputado João Campos [PSDB], en-
trou com um pedido de inclusão na legislação brasi- Líder da igreja Assembleia de Deus Vitoria em
leira de um dispositivo que impeça que igrejas se- Cristo, o pastor Silas Malafaia está frequentemente
jam obrigadas a celebrar cerimônias de casamento envolvido em discussões que envolvem grupos de
entre homossexuais. defesa dos direitos da comunidade LGBT. Principal-
41
mente por sua forte oposição ao casamento gay, o
A iniciativa, embora sem qualquer fundamento, é
assunto é frequentemente debatido pelo pastor nas
uma resposta direta a duas decisões judiciais toma-
redes sociais.
das em 2011. Em maio daquele ano, o Supremo Tri-
bunal Federal [STF] aprovou a união homoafetiva Um levantamento feito pelo site Buzz Feed afirma
estável e, em outubro, o Supremo Tribunal da Jus- que Malafaia publica um tuite sobre gays a cada dois
tiça [STJ] aprovou o primeiro casamento homoafe- sobre Deus. Segundo o site, entre março de 2014 e
tivo, abrindo precedentes para que a prática seja 3 de setembro de 2014, foram 275 menções a Jesus
adotada em todo o país. [incluindo “Cristo”], 154 a Deus e 87 a gays [inclu-
indo “gay”], feitas pelo pastor na rede social. Tais
Fora da arena do Congresso Nacional, o discurso de
números mostram que, praticamente, a cada dois
líderes religiosos como o pastor Silas Malafaia, nos

12
Associação civil de natureza não-governamental, cons-
tituída no âmbito do congresso nacional, integrada por
deputados federais e senadores da República.
[1,77] tuites de Malafaia sobre Deus, há um sobre afirma que, na sua opinião, “ter fé cega é tão peri-
gays. goso quanto não ter fé”.

Ainda segundo o Buzz Feed, se a busca por Jesus AS MÚLTIPLAS FACES DA VIOLÊNCIA
Cristo excluir o termo “Vitória em Cristo”, nome do
Antes do sucesso na TV, a história de Bobby já era
programa de TV do pastor exibido na RedeTV! e na
emblemática para quem estuda a homossexuali-
Band, o número de menções a Jesus cai para 59, nú-
dade. Para os especialistas, as famílias precisam
mero inferior aos tuites de Malafaia que citam gays.
compreender melhor o assunto,
A matéria ressalta ainda o
prevenindo tragédias. Famílias
fato de o programa “Vitória Para os especialistas, as famílias preci-
sam compreender melhor o assunto, pre- de todos os credos e classes so-
em Cristo” ser divulgado
42
venindo tragédias. Famílias de todos os ciais ainda encurralam seus fi-
quase diariamente pelo pas- credos e classes sociais ainda encurralam
lhos gays para quadros de de-
seus filhos gays para quadros de depres-
tor no Twitter.
são, revolta e desesperança. pressão, revolta e desespe-
Mas há também entre os re- rança.
ligiosos aqueles que têm outra visão da questão, a
Estudos alertam que a taxa de suicídios é explosiva
exemplo do reverendo Whitsell, da Igreja da Comu-
entre jovens homossexuais, principalmente entre
nidade Metropolitana, responsável pelo despertar
efeminados, usuários de álcool e drogas, que não
de Mary para um novo olhar após a morte do filho.
resistem a tanta pressão e angústia. No livro “A Ex-
Um dos diálogos mais contundentes do filme se dá
periência Homossexual”13, a psicoterapeuta Marina
entre Mary Griffith e o reverendo, quanto este
Castañeda informa que, nos EUA, um em cada três

13
CASTAÑEDA, Marina. A Experiência Homossexual – Ex- Famílias e seus Terapeutas. 1 ed. São Paulo: Girafa, 2007.
plicações e Conselhos para os Homossexuais, suas 327 p.
homossexuais tentou se sui- foram as mais reportadas, com
cidar pelo menos uma vez. 42,0% das violações ocorreram em casa – 42,5% do total, seguidas de dis-
da vítima [21,1%], do suspeito [7,5%], de
ambos ou de terceiros. O segundo local criminação, com 22,3% e violên-
O livro traz explicações e
de maior ocorrência de violações são as cias físicas, com 15,9% do total
conselhos para gays, suas fa-
ruas, com 30,8% do total.
de violações denunciadas. Res-
mílias e terapeutas. A autora
salte-se também o significativo
relata que a construção da
número de negligências [466 violações] e violências
identidade gay dura, em média, 15 anos, ou seja, é
sexuais [com 337].
um longo período de incerteza que tem um custo
afetivo muito elevado. Outro recorte interessante refere-se ao local em
que as violações de direitos humanos de caráter ho-
“Os anos que muitos homossexuais passam se per-
mofóbico ocorreram. Pesquisas nacionais [por
guntando e explorando sua sexualidade poderiam 43
exemplo, VENTURI & BOKANY, 2011; CARRARA, SI-
explicar seu isolamento e sua imaturidade em cer-
MÕES & Facchini, etc] e internacionais apontam que
tos campos. Em inúmeros casos passaram boa parte
violências homofóbicas acontecem tanto em espa-
de sua juventude em conflitos internos ou em rela-
ços públicos [como ruas, estradas, escolas, institui-
ções problemáticas, engajados na difícil tarefa de
ções públicas, hospitais e restaurantes] quanto em
compreender a sua identidade sexual”, escreve Cas-
espaços privados, o que se repete entre as violações
tañeda.
reportadas ao poder público durante o ano de 2011.
Segundo dados do Relatório sobre Violência Homo-
42,0% das violações ocorreram em casa – da vítima
fóbica no Brasil: o ano de 2011, da Secretaria de Di-
[21,1%], do suspeito [7,5%], de ambos ou de tercei-
reitos Humanos da Presidência da República, publi-
ros. O segundo local de maior ocorrência de viola-
cado em julho de 2012, as violências psicológicas
ções são as ruas, com 30,8% do total. A homofobia
estrutural da sociedade brasileira se verifica em angústia que, não vendo mais sentido algum em
casa e na rua, no público e no privado, vitimando permanecer de modo impessoal acreditando em
diariamente a população LGBT. um discurso condenador, abre para Mary o ser-pos-
sível questionar sua fé, questionar a si e o mundo e,
Além destes dois polos principais, 5,5% das viola-
dessa forma, fazer a si mesma de forma autêntica e
ções reportadas acontecera, em instituições gover-
humanizada.
namentais: escolas e universidades foram local de
3,9% das violações, enquanto instituições de saúde, Ao se permitir alguns diálogos com o reverendo
como hospitais e as unidades básicas do SUS, foram Whitsell e ir a algumas reuniões do P-FLAG [sigla em
palco de 0,9% das ocorrências, e instituições de se- inglês que significa “Associação dos Pais e Amigos
gurança pública [delegacias, cadeias e presídios] dos Gays e Lésbicas], Mary percebe que há mais em
respondem por 0,7% das violações, aponta o Rela- sua fé do que fora lhe contado e decide se tornar 44
tório. uma ativista dos direitos dos homossexuais, inclu-
sive fazendo um discurso na televisão em rede naci-
Na categoria “outros” está incluída uma variada
onal defendendo os homossexuais. Questionando a
gama de locais, desde instituições religiosos [com
si a partir da angústia que lhe acometeu, Mary con-
0,2% do total de violações], passando por bares e
seguiu superar seus preconceitos, seus medos, sua
boates, praias, rios, lagoas, terrenos baldios, cons-
ignorância e produzir sentidos para vivenciar sua fé,
truções abandonadas, banheiros públicos, postos,
sua religião e sua família de forma mais humani-
albergues, motéis e pousadas, entre outros.
zada.
DA P-FLAG AO MÃES PELA IGUALDADE
Em 2012, um parlamentar brasileiro disse à im-
A experiência de ter um filho homossexual e a dor
prensa que preferia um filho morto a um filho gay,
da perda desse filho inauguraram em Mary a
apelando aos “valores familiares” dos brasileiros.
Em resposta, a All Out14 reuniu incríveis mães de fi- Semana Freiriana do Cariri, um projeto da Escola de
lhas e filhos LGBT, para compartilhar suas histórias Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA], organização da
e lembrar ao país que o amor também é um valor sociedade civil sediada na cidade do Crato, no Cariri
de família. cearense.

As Mães pela Igualdade lançaram uma grande ex- O PAPEL DA 7ª ARTE


posição de fotografias que passou por Rio de Ja-
Além do Orações para Bobby, vários outros filmes e
neiro, São Paulo e outras cidades brasileiras. Elas
diversos documentários trazem a temática LGBT
também levaram a campanha ao Congresso Nacio-
para cena e têm contribuído para ampliar o diálogo
nal, em Brasília, onde participaram de um painel so-
sobre a questão, cada a um a seu modo e sem seguir
bre direitos humanos. As Mães já foram foco de di-
um padrão de abordagem ou de discurso, o que
versas matérias positivas na imprensa e estão con-
pode ser considerado bastante positivo. 45
tribuindo para uma discussão mais positiva sobre a
Entre os documentários nacionais destaca-se Eu
questão LGBT no Brasil.
Preciso lhe dizer. A obra, que se propõe a descobrir
Em setembro de 2013, Maria Cláudia Canto Cabral,
as origens do preconceito e a encontrar uma forma
umas das integrantes do Mães Pela Igualdade, par-
de lidar com a intolerância na família e na socie-
ticipou de uma roda de conversa sobre Educação,
dade, foi idealizada pelo psicólogo Ricardo de Paula
Família e Diversidade dentro da agenda da 3ª

14
A All Out é uma combinação dos esforços de duas insti- de uma parceria que perdura, é a primeira organização a
tuições – a Purpose Action, uma organização sem fins lu- se beneficiar da c, um grande projeto tecnológico de có-
crativos focada em sensibilizar as pessoas e mudar a po- digo aberto financiado pela Purpose que está proporcio-
lítica, e a Purpose Foundation, uma organização benefi- nando ferramentas e melhores práticas de ativismo para
cente focada em educação e mudança de cultura. A All organizações sociais no mundo todo.
Out foi lançada com apoio inicial da Purpose e, por meio
e contou com a execução do cineasta brasiliense Festival de Filmes: melhor filme, melhor ficção, me-
Douro Moura. lhor roteiro, melhor direção, melhor ator, melhor
edição e melhor maquiagem. A produção tem ro-
Ainda na linha dos documentários, O Segredo dos
teiro e direção de Leandro Corinto.
Lírios fala sobre o amor incondicional de 3 mães:
Christiane, Estela e Vera. Realizado em Novo Ham- Todos os documentários e filmes aqui referidos in-
burgo/São Leopoldo [RS], o filme traz o amor de tegram o acervo do projeto PontoDoc, uma inicia-
mães por suas filhas lésbicas em três casos de supe- tiva da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa
ração das expectativas conservadoras da sociedade. [EPUCA] que tem por objeto levar a escolas, univer-
sidades, comunidades urbanas e rurais e outros es-
Em Eu não quero voltar sozinho, Leonardo é um
paços coletivos do Cariri cearense, mediante de-
adolescente cego que, como qualquer adolescente,
manda espontânea ou induzida, a exibição de docu-
está em busca de seu lugar. Desejando ser mais in- 46
mentários nacionais e estrangeiros que contribuam
dependente, precisa lidar com suas limitações e a
para instigar o diálogo e a reflexão crítica sobre
superproteção de sua mãe. Para decepção de sua
questões do dia a dia e sobre aspectos da história
inseparável melhor amiga, Giovana, ele planeja li-
da humanidade.
bertar-se de seu cotidiano fazendo uma viagem de
intercâmbio. Porém a chegada de Gabriel, um novo
aluno na escola, desperta sentimentos até então
desconhecidos em Leonardo, fazendo-o redescobrir
sua maneira de ver o mundo.

Outro olhar especial sobre a temática é trazido pelo


curta A visita, vencedor de 7 prêmios no 72h Rio
O MEDO NÃO ME PARALIS ARÁ!
18 ocupando a agenda política e midiática
ABR2016 dos últimos meses, limitando os diálo-
A minha sensatez não me permite negar os
gos a um ou outro caminho.
importantes avanços, ainda que pontuais,
que tivemos no Brasil nas últimas décadas no campo Na verdade, esse é um texto motivado pelo medo.
das políticas sociais. Eles estão presentes na agricul- Para ser mais claro: pela desconfortável sensação

tura familiar, nas universidades, nos programas de de medo que me acompanha desde que acordei

distribuição de renda e em outras iniciativas do go- nesta segunda-feira, 18 de abril de 2016, após uma
verno federal, espalhadas por vários lugares desse vergonhosa sessão da Câmara dos Deputados que
país. decidiu pelo acolhimento da admissibilidade do pe-
dido de impeachment da presidente Dilma Rous-
Contudo, não carrego em mim a ilusão de que tenho
seff. E não me refiro ao resultado da votação ape- 47
o governo dos meus sonhos. Longe disso. Não con-
nas, o que já seria vergonhoso pela ausência de base
seguimos avançar em questões cruciais como a re-
constitucional para tal. Mas, sobretudo, falo da falta
forma agrária, a reforma política e a tributação das
de coerência e da pobreza de espírito democrático
grandes fortunas, por exemplo. Estamos ainda bem
e republicano que pautaram a referida sessão.
distantes de honrar o título de patrono da educação
brasileira dado a Paulo Freire em 2012 e mais dis- Sim, nesse momento tenho medo. Medo da insani-

tantes ainda de honrar o slogan de Pátria Educa- dade de Jair Bolsonaro que – como se já não bastas-

dora assumido pelo atual governo. sem todas as suas truculências anteriores – na ses-
são de ontem dedicou seu voto “a favor do impe-
Portanto, esse não é um texto contra ou a favor do
achment”, ao coronel Carlos Alberto Brilhante Us-
governo. Nem uma análise acerca da dicotomia en-
tra, torturador da então militante da resistência à
tre o “fora Dilma” e o “não vai ter golpe” que vem
ditadura instaurada no Brasil com o golpe civil-mili- justificam todos os meios. E a isso também precisa-
tar de 1964, Dilma Vana Rousseff. mos temer.

Sim, tenho medo do cinismo e da frieza de Eduardo Me causa medo o fundamentalismo religioso da
Cunha que, mesmo sabendo da fragilidade jurídica chamada “bancada da bíblia”, formada por parla-
do processo de impedimento que lhe fora apresen- mentares evangélicos e católicos conservadores
tado e da sua total falta de condições morais para que, movidos por uma fé cega e intolerante, espa-
conduzir a discussão e votação do referido processo lham ódio e preconceito e colocam seus mandatos
– e, sequer, manter-se no cargo de presidente da a serviço da negação dos direitos humanos e da pró-
Câmara dos Deputados -, valeu-se de todas as ma- pria vida. A confusão entre Estado e religião foi re-
nobras possíveis para chegar ao resultado da vota- corrente nos discursos raivosos proferidos por ho-
ção de ontem. O prêmio imediato de Cunha? A sua mens e mulheres, em tom doutrinatório e com cita-
48
blindagem no Conselho de Ética da Câmara dos De- ções desconexas e distorcidas de passagens bíblicas.
putados, onde deverá ser julgado [sabe-se lá Tanto ódio em nome de Deus me causa medo, sim!
quando] por ter mentido na Comissão Parlamentar Mas vale um registro importante: a postura dos de-
de Inquérito [CPI] da Petrobrás. E não é só: Cunha é putados e deputadas da “bancada da bíblia” não re-
réu na Lava Jato, possui milhões não declarados em presenta, necessariamente, a opinião de todos os
contas na Suíça e seus gastos em viagens internaci- parlamentes ligados a alguma religião e nem
onais podem ser comparados aos de um sultão. mesmo a opinião de seus próprios eleitores.

Ouvi várias vezes de minha avó e de minha mãe a E como não temer a sede de poder e a ética corrom-
sábia assertiva de que “o cesteiro que faz um cesto pida de Temer e seus aliados? As intenções conspi-
faz um cento; assim tenha cipó e tempo”. Pois bem. ratórias de Temer já estavam claras no documento
Cunha já deu provas de que para ele os fins “Uma ponte para o futuro”, apresentado ao país
pelo PMDB no final de outubro de 2015, portanto possa ser de alguma utilidade numa guerra imi-
um ano depois das eleições de Dilma e Temer para nente de terror e ódio.
um segundo mandato. De viés exclusivamente eco-
O fato é que, pouco importa que a conta seja paga
nômico, o referido documento aponta que “recriar
pelos mais pobres. Desde que os interesses dos
um ambiente econômico estimulante para o setor
grandes grupos econômicos e das elites nacionais
privado deve ser a orientação de uma política cor-
sejam preservados, está tudo bem. O recado é claro
reta de crescimento”. Na verdade, o documento do
e direto: “é necessário em primeiro lugar acabar
PMDB, que deveria se chamar “Uma ponte para o
com as vinculações constitucionais estabelecidas,
passado”, é um claro sinal de aliança ampla com o
como no caso dos gastos com saúde e com educa-
mercado e as forças conservadoras e neoliberais. 49
ção”, anuncia o documento do PMDB.
O que esperar de um eventual governo de coalizão
Há sim, muito que temer. Contudo, mais forte que
que teria PMDB, PSDB e DEM na linha de frente,
tudo isso é minha disposição para mirar um novo
acompanhados de personagens como os que hoje
horizonte e caminhar, no passo possível, na direção
formam a bancada BBB [bala, boi e bíblia] no Con-
do mesmo. Mas esse é um caminho a ser feito
gresso Nacional? A resposta está posta, de forma
acompanhado por muitos para que, assim, irmana-
parcial, no já mencionado documento de salvação
dos, possamos vencer o medo. Afinal, parafrase-
nacional que, evidentemente, não diz tudo. Afinal,
ando Mia Couto, o maior medo deles é o de que o
como manda a regra do jogo da política nacional,
medo acabe.
nem tudo pode ser dito à sociedade. Nem todas as
Ainda na incerteza do porvir, de uma coisa tenho
intenções e acordos podem ser revelados. Deixe-
certeza: o medo não me paralisará!
mos “vazar” apenas aquilo que nos interessa e nos
SANDICES AUTO RIT ÁRIAS
DO [DES ]GOVERNO T EM ER
01 Primeiro foi a exoneração do diretor-presi-
dente da Empresa Brasil de Comunicações

JUL2016 [EBC], Ricardo Melo, contrariando o dis-


Segundo o Dicionário Online de Portu-
posto na lei de criação da empresa, que es-
guês, sandice [s.f.] significa “Caracterís-
tabelece que o diretor-presidente tem mandato de
tica, condição, particularidade de quem se com-
quatro anos e só pode ser destituído por vontade
porta ou se comunica através de tolices, de modo
dele próprio ou se receber votos de desconfiança do
tolo ou simplório. Característica, ação ou discurso
conselho curador da empresa. Para substituir Ri-
que denota tolice, ignorância ou ausência de inteli-
cardo Melo Temer nomeou o jornalista Laerte Ri-
gência; tolice, idiotice, parvoíce. Discurso, compor-
moli, que coordenou a campanha eleitoral de Aécio 50
tamento, ação que demonstra ausência de lógica;
Neves [PSDB] e é pessoa próxima ao presidente
loucura”.
afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha
Pois, em bom português, é disso mesmo que estou [PMDB]. Melo reassumiu a presidência da EBC, por
tratando nesse artigo. Os longos primeiros 50 dias força de liminar concedida pelo ministro do Su-
do [des]governo interino de Michel Temer foram premo Tribunal Federal [STF] Dias Toffoli, em 2 de
marcados por uma sucessão de atos tolos, despro- junho último.
vidos de qualquer sinal de inteligência e, em alguns
Depois veio a tentativa de impedir a veiculação, na
casos, beirando a insanidade. Vou aqui me deter
mesma EBC, de entrevista concedida pela presi-
apenas àqueles que, além de trazerem em si as mar-
dente Dilma Rousseff ao jornalista Luiz Nassif, cujo
cas da sandice, guardam fortes resquícios de um au-
contrato com a EBC foi suspenso por ato de Laerte
toritarismo que, ingenuamente, jugávamos supe-
Rimoli. O programa Brasilianas, apresentado por
rado.
Nassif na EBC foi retirado do ar por decisão de
Rimoli. Com isso, a participação de Nassif na entre- o ressarcimento dos gastos com as viagens, con-
vista a Dilma, realizada após a volta de Melo ao forme artigo 76 da Lei n° 9.504/97.
cargo de diretor-presidente da EBC, foi como cola-
A decisão da juíza Daniela Cristina busca reparar
borador eventual da empresa.
mais uma sandice pratica pelo [des]governo Temer.
A situação foi agravada com uma série de atos de O que chama a atenção nesse conjunto de episódios
cerceamento de direitos, próprios do cargo, à presi- de restrições de direitos, amplamente divulgados
dente Dilma Rousseff, a exemplo da restrição do uso pela imprensa internacional e por uma parcela res-
de aviões da Forma Aérea Brasileira [FAB] ao trecho trita da imprensa nacional, é o fato de que o presi-
Brasília – Porto Alegre, onde moram familiares da dente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo
presidente afastada. Cunha, aliado de “front de batalha” e colega de par-
tido de Temer, não sofreu qualquer restrição de di-
Em decisão publicada no dia 23 de junho, a juíza Da-
51
reitos ou benefícios.
niela Cristina de Oliveira Pertile, da 6ª Vara Federal
de Porto Alegre, acolheu ação de Dilma arguindo a Cunha, mesmo afastado do cargo de presidente da
ilegalidade de um parecer da Casa Civil que a proi- Câmara dos Deputados, continua tendo direito a sa-
bia, entre outras coisas, do uso de aeronaves da FAB lário integral de R$ 33,7 mil, transporte aéreo e ter-
fora do trecho Porto Alegre – Brasília. A magistrada restre sem restrição, equipe a serviço do gabinete
concordou com o direito ao deslocamento de Dilma parlamentar com até 25 funcionários, uso da resi-
a Porto Alegre e aos locais que ela considerar neces- dência oficial, assistência à saúde e segurança pes-
sários à sua defesa no processo de impeachment, soal. Achou muito? Além de tudo isso, Cunha conti-
destacando a necessidade de segurança pessoal, o nua recebendo subsídio integral de R$ 35,7 mil para
que impossibilitaria o uso de aviões comerciais. No gastar com alimentação, aluguel de veículo e
entanto, determinou que a presidente afastada faça
escritório, divulgação do mandato, entre outras secretário de Segurança Pública de São Paulo Mo-
despesas. rais ordenou a entrada da Polícia Militar, sem man-
dado judicial, no Centro Paula Souza, na região cen-
Embora se trate de decisões distintas, tomadas por
tral de São Paulo. A escola estava ocupada por estu-
poderes independentes [?], não é difícil concluir que
dantes que protestavam contra problemas no for-
nos dois casos há fortes motivações políticas, fi-
necimento de merenda escolar e a ação policial foi
cando também evidente o abuso de poder por parte
marcada pelo uso da violência contra os estudantes.
do governo interino.
Mas a “ficha corrida” de Alexandre, para usar um
Outro caso de sandice autoritária que merece regis-
jargão do qual ele próprio deve gostar bastante, é
tro são as declarações do Ministro da Justiça e Cida-
bem mais complicada. Em 2015, reportagem do “Es-
dania, Alexandre de Morais [PSDB], ex-secretário de
tado de S. Paulo” afirmou que Alexandre constava
Segurança Pública de São Paulo, cuja gestão ficou
no Tribunal de Justiça de São Paulo como advogado
fortemente marcada pela repressão aos movimen- 52
em pelo menos 123 processos da área civil da Trans-
tos sociais e às manifestações de rua protagoniza-
cooper. A cooperativa é uma das cinco empresas e
das por estudantes e outros segmentos populares.
associações que está presente em uma investigação
Em entrevista concedida a vários meios de comuni-
que trilha movimentações de lavagem de dinheiro e
cação, após participar da cerimônia de posse do mi-
corrupção engendradas pela organização criminosa
nistro Gilmar Mendes como presidente do Tribunal
Primeiro Comando da Capital [PCC].
Superior Eleitoral [TSE], no início de maio último,
No fim de 2014, pouco antes de assumir a Secretaria
Alexandre de Morais anunciou que reprimirá movi-
de Segurança Pública de São Paulo, o homem convi-
mentos sociais que “deixarem o livre direito de se
dado por Temer para assumir o Ministério da Justiça
manifestar para queimar pneus”. Quando
e Cidadania defendeu Eduardo Cunha em uma ação
sobre uso de documento falso em que conseguiu a Segundo apurou a agência EBC, os parágrafos inse-
absolvição do peemedebista. Como se vê, Alexan- ridos no artigo da Wikipedia foram retirados de um
dre de Morais é um dos homens do presidente cujo texto publicado no site do Instituto Liberal com o tí-
histórico não o credencia para o cargo de ministro, tulo “Paulo Freire e o assassinato do conheci-
especialmente da Justiça e Cidadania. mento”.

Para encerrar o artigo, vamos à mais nova parvoíce Na tarde desta sexta-feira [1] a página da Wikipedia
reacionária do [des]governo Temer, que certa- já havia sido reeditada, com a retirada do texto pu-
mente não será a última. A partir de rede do go- blicado a partir de um dos computadores da rede do
verno federal, o artigo que traz a biografia do edu- governo federal, que pode ter a autoria em qual-
cador Paulo Freire na Wikipedia foi alterado na quer pessoa com acesso a um desses computado-
tarde de terça-feira [28/6] com informações que res, podendo a mesma estar ou não ligada ao go-
atribuem a ele a origem da “doutrinação marxista” verno Temer. Por isso é tão importante investigar a
nas escolas e universidades, segundo noticiou o por- autoria do ato, antes de qualquer julgamento pré- 53
tal EBC. vio. Caso você tenha curiosidade de conhecer os ab-
surdos postados na referida página, acesse o conte-
O Serpro, empresa de tecnologia da informação do
údo que agora está guardado no histórico da Wiki-
governo federal, disse em nota que “a alteração re-
pedia clicando aqui. As principais alterações estão
alizada não partiu das instalações do Serpro, mas,
no tópico Pedagogia da Libertação.
sim, de um órgão público, cujo acesso à internet é
administrado pela empresa. Entretanto, o Serpro De tudo isso fica uma certeza: se o governo Dilma
não está autorizado, por questões contratuais, a di- ficou a dever aos sonhos de muitos brasileiros, o go-
vulgar informações de acesso de seus clientes à verno Temer se anuncia [e já está sendo] o governo
rede”. dos nossos piores pesadelos desde o fim do regime
30
ditatorial instaurado com o golpe civil-mili- SOBRE ELEIÇÕES, DEMO CRA-
JUL2016
tar de 1964. Aliás, os governos golpistas CIA E DESOBEDIÊNCIA CIVIL
sempre trazem na bagagem muitos pesa-
O mês de julho ainda nem terminou e o festival de
delos, exatamente porque, nascidos de rupturas de-
promessas, troca de acusações e apresentação de
mocráticas carecem de legitimidade e só encontra-
salvadores e salvadoras da pátria [ou melhor, dos
rão sustentação [ainda que passageira] no autorita-
municípios] já se anuncia. Nas redes sociais, por
rismo que, no caso brasileiro atual vem acompa-
exemplo, encontramos perfis para quase todos os
nhado de uma forte dose de sandices.
gostos.
Com a palavra o Senado da República, de quem, de
Até o próximo dia 5 todos os partidos políticos de-
modo geral, não espero muita coisa, a não ser um
verão realizar suas convenções para deliberar sobre
mínimo de inteligência e bom senso.
coligações e escolher candidatos a prefeito, a vice- 54
prefeito e a vereador. A partir do dia 16 de agosto
será permitida a propaganda eleitoral e os partidos
ou as coligações podem fazer funcionar, das 8 às 22
horas, alto-falantes ou amplificadores de som, nas
suas sedes ou em veículos. Logo em seguida estarão
liberados os tradicionais comícios, que poderão se
estender até meia noite ou até duas da manhã
quando se tratar de comício de encerramento de
campanha.
A tudo isso chamam de democracia. Uma democra- problemas que afetam a própria democracia, no seu
cia que nos impõe o voto obrigatório, mesmo que sentido mais amplo.
nenhuma das propostas que sejam apresentadas
Mesmo com as mudanças anunciadas na legislação
[se forem] dialoguem com nossas ideias. Nesse caso
eleitoral para 2016 [Lei 13.165/2015], fruto dos ve-
nos aconselharão, de pronto, a escolher o menos
xames que afloraram com os velhos e novos escân-
ruim. Afinal, o que não podemos é deixar de exercer
dalos de corrupção no Brasil e sua estreita relação
nossa “cidadania”. Esse é o
com o financiamento privado de
discurso presente, inclusive,
Votar apenas por votar, mesmo di- campanhas, por exemplo, muito
na propaganda oficial do Tri- ante da possiblidade de mudar os pouco mudará na prática. Embora
bunal Superior Eleitoral [TSE]. atores e a cena sem, contudo, mudar
esteja proibida a doação para cam-
o cenário e o roteiro, parece-me
E se no final tudo der errado e
mais um jogo de ilusões. Será apenas panha por pessoa jurídica, o financi-
os eleitos se revelarem o a legitimação de um espetáculo que 55
amento privado permanece através
oposto do que prometiam não nos representa, de uma demo-
de pessoas físicas. Assim, nada im-
cracia que não nos serve, não nos al-
ser, fato muito comum na his-
cança. pede que representantes de gran-
tória política do Brasil, a culpa
des corporações ou grupos finan-
será sempre do eleitor, que
ciem este ou aquele candidato e continuem man-
não soube votar.
tendo seus interesses privados representados na es-
O que não nos dizem é que a democracia eleitoral fera pública, mesmo que isso signifique o sacrifício
que temos já nasceu sequestrada e não pode ser to- dos direitos individuais e coletivos e do bem co-
mada como caminho para solucionar a crise de re- mum, como tem sido a regra.
presentatividade, nos seus vários níveis, e os graves
A propósito disso, pela nova legislação o limite de
gastos nas campanhas eleitorais dos candidatos a
prefeito em 2016 será de 70% dos gastos declara- propaganda eleitoral no rádio e na TV, à medida que
dos, na respectiva circunscrição, na eleição para o o vincula ao tamanho de cada bancada na Câmara
mesmo cargo em 2012, nos casos em que houve do Deputados.
apenas primeiro turno. Se considerarmos que nas
Se as novas regras do jogo são apenas uma roupa
últimas eleições tivemos, mesmo em municípios
mal costurada e cheia de remendos para um velho
menores, campanhas milionárias, mais uma vez te-
e corrompido modelo de democracia moldado aos
remos o poder econômico definindo o resultado das
interesses de poucos, está na hora de, num exercí-
eleições em boa parte do país.
cio pleno e soberano de cidadania, fazermos nossas
Outra questão se refere ao tempo de propaganda próprias regras.
em rádio e TV. De acordo com a Lei 13.165/2015, do
Afinal, votar apenas por votar, mesmo diante da
total do tempo de propaganda, 90% serão distribuí-
possiblidade de mudar os atores e a cena sem, con-
dos proporcionalmente ao número de representan- 56
tudo, mudar o cenário e o roteiro, parece-me mais
tes que os partidos tenham na Câmara Federal. No
um jogo de ilusões. Será apenas a legitimação de um
caso de haver aliança entre legendas nas eleições
espetáculo que não nos representa, de uma demo-
majoritárias será considerada a soma dos deputa-
cracia que não nos serve, não nos alcança. Nas pa-
dos federais filiados aos seis maiores partidos da co-
lavras de Henri Thoreau, em sua obra Desobediên-
ligação.
cia Civil [1849], “Nem mesmo o ato de votar pelo
Como pode ser visto, a regra continua privilegiando que é certo implica fazer algo pelo que é certo. É
quem mais tem, seja pela influência junto a pessoas apenas uma forma de expressar publicamente o
com maior poder econômico, à medida que man- meu anêmico desejo de que o certo venha a preva-
tém o financiamento privado de campanha, seja lecer”.
pela distribuição totalmente desigual do tempo de
Assim, se o que está posto não nos serve,
neguemos a ordem imposta e façamos va-
29 FORA TEM ER É NECESS ÁRIO,
MAS NÃO BASTA
ler o nosso direito à desobediência civil OUT2016 Aos poucos, vão surgindo as reações po-
negando, pelo não voto a não democracia pulares aos recorrentes e sequenciais
que nos impuseram como se democracia o fosse. atentados contra a nossa já frágil democracia e os
Não se trata de negar esta ou aquela candidatura, direitos sociais e políticos que conquistamos ao
mesmo porque não podemos considerar todas longo da história recente do Brasil. Esses atentados,
iguais – posto que de fato não o são, mas de negar praticados pelo [des]governo Temer, o Congresso
um jogo de cartas marcadas onde tudo que acon- Nacional e o Judiciário, peças de uma mesma engre-
tece de novo ou diferente está dentro dos limites nagem, têm como objetivo maior garantir que o Es-
impostos e das concessões admitidas pelas elites tado contemporâneo não se afaste de seu verda-
nacionais e locais, representadas por um Estado au- deiro papel: servir prontamente e com a máxima
57
toritário para muitos e serviçal de poucos. eficiência aos interesses das elites políticas e econô-
micas locais e globais.
Que Thoreau, Gandhi, Luther King, Antônio Conse-
lheiro e tantos homens e mulheres que tiveram a As ocupações de escolas em todo o Brasil, a convo-
coragem de desobedecer nos inspirem e nos impul- cação de greve geral para o início de novembro, a
sionem a construir outra cidadania. É isto ou o con- realização de vários debates públicos sobre iniciati-
tentamento com a velha democracia eleitoral se- vas como a PEC 241 [agora no Senado como PEC 55],
questrada que nos vem sendo oferecida há séculos a MP da reforma do Ensino Médio, o projeto Escola
e cujos resultados são cada vez mais desastrosos. Sem Partido e outras insanidades postas em marcha
pelo atual governo e seus aliados, sinalizam a dispo-
sição de parcela expressiva da população de se opor
ao projeto de desmonte do país. Demorou, dirão al- ou conveniência momentânea e, portanto, sem
guns, e eu até concordo. Porém, como nos ensina a qualquer história e com pouca representatividade.
sabedoria popular, ancorada em uma antiga má- Mas é forçoso reconhecer que, surfando na onda do
xima herdada do latim [utilius tarde quam nun- discurso fácil, esses movimentos têm demostrado
quam], antes tarde do que nunca. uma considerável capacidade de persuasão que não
pode ser ignorada, embora seus métodos sejam
Contudo, é fundamental que tenhamos a compre-
bastante questionáveis e suas ideias representem o
ensão que todas essas medidas impopulares e anti-
que há de mais atrasado e nocivo ao povo brasileiro.
democráticas, assim como o próprio governo Te-
mer, fazem parte de um jogo muito maior de reto- O Movimento Brasil Livre [MBL], por exemplo, tem
mada do controle do Estado pelas elites nacionais e entre as propostas aprovadas no seu primeiro Con-
seus aliados externos, após o rompimento com o gresso Nacional, realizado em novembro 2015, a 58
projeto de conciliação que governou o Brasil nos úl- “apresentação do Projeto de Lei ‘Escola sem Par-
timos 13 anos e que, embora ainda fortemente tido’ em legislativos estaduais e municipais”, a “mi-
comprometido com os interesses do capital, incli- litarização das escolas em áreas de risco, ou seja, em
nou-se à proteção social e à promoção e garantia de locais onde a iniciativa privada não tenha a possibi-
direitos, o que levou à insatisfação de seus aliados lidade de atuar” e a “gestão privada de escolas pú-
de outrora, hoje inimigos. blicas através de Organizações Sociais e Parcerias
Público-Privadas”.
É ainda necessário lembrar que as propostas capita-
neadas pelo atual governo, com a chancela do que Também integram o leque de propostas do MBL: o
há de mais reacionário no Legislativo e no Judiciário, fim do SUS, a abertura de mercado hospitalar a em-
encontram eco em parcela da população organizada presas estrangeiras, a privatização ou transforma-
em movimentos paridos a fórceps por oportunismo ção em Parcerias Público-Privadas dos serviços de
saneamento básico dos municípios e o fim da fun- sobre um projeto de nação que considere a urgência
ção social da propriedade. Uma plataforma bem ao do compromisso ético com a centralidade da vida, a
gosto do atual governo e do ca- inversão da lógica atual de um Es-
pital, de quem o MBL é assumi- “Fora Temer” é necessário como ele- tado mínimo para muitos e gene-
damente defensor e capacho. mento simbólico de resistência a roso e farto para poucos e a im-
tudo o que esse [des]governo repre-
senta. Mas o que não falta à elite portância do reconhecimento e
Nos últimos dias o MBL tem se
brasileira são nomes que se prestem respeito à nossa diversidade cul-
destacado pela incitação do
ao papel de representantes de seus
tural, territorial e política, dentre
ódio e o uso da violência como interesses mais gananciosos e injus-
tos. outras questões.
caminhos para se contrapor às
59
ocupações de escolas por estu- Claro que o “Fora Temer” é neces-
dantes, em várias partes do Brasil. É esse mesmo sário como elemento simbólico de resistência a
Movimento que tem trânsito livre e audiências fre- tudo o que esse [des]governo representa. Mas o
quentes com o primeiro escalão do atual governo que não falta à elite brasileira são nomes que se
federal e com o próprio Temer. Em sua coluna no prestem ao papel de representantes de seus inte-
jornal Folha de São Paulo, publicada no dia 24 de se- resses mais gananciosos e injustos. Se não for Te-
tembro de 2016, a jornalista Mônica Bergamo anun- mer, será Rodrigo Maia [presidente da Câmara dos
ciou: “Temer chama MBL para pensar como tornar Deputados], Renan Calheiros [presidente do Se-
reformas mais palatáveis”. nado] ou Cármem Lúcia [presidente do Supremo Tri-
bunal Federal], nomes atuais da ordem sucessória
Portanto, para além da resistência às insanidades,
constitucional, todos comprometidos, em maior ou
truculência e ilegitimidade do Governo Temer e da
menor grau, com o mesmo projeto de Brasil para
defesa imediata de direitos fundamentais ameaça-
poucos.
dos, será primordial iniciarmos um amplo diálogo
Assim, tão importante quanto impedir a aprovação Que o diálogo possa guiar nossa jornada de constru-
da PEC 55 no Senado, barrar qualquer avanço da in- ção coletiva de muitos outros Brasis, justos, frater-
sana ideia de “Escola sem Partido” e a MP da re- nos e solidários, tendo-se, ao mesmo tempo, a cla-
forma do Ensino Médio, por exemplo, é aproveitar- reza de que o direito à vida, em seu sentido mais
mos os encontros que a luta e a resistência coletiva amplo, não se negocia.
nos proporcionam para refletirmos e construirmos
Portanto, sempre que, assim como agora, os se-
as bases teóricas e práticas de outas formas de po-
questradores da vida ameaçarem nossa liberdade,
der no Brasil.
nossos direitos e nossa dignidade, não haverá outra
A respeito disso, em sua “Pedagogia do Oprimido”, saída se não a resistência individual e coletiva, ape-
Paulo Freire nos convida a refletir sobre a relação sar dos perigos e ainda que o preço nos seja caro.
60
existente entre poder e diálogo, tanto pelo caráter
Recorro, por fim, a Bertolt Brecht para pedir-lhes:
antidialógico das relações de dominação, portanto
“Diante dos acontecimentos de cada dia, numa
de poder autoritário, quanto pela perspectiva liber-
época em que corre o sangue, em que o arbitrário
tária do diálogo, que conduz a outras formas de po-
tem força de lei, em que a humanidade se desuma-
der e não pode ser confundido com comunicação li-
niza, não digam nunca: isso é natural; a fim de que
near e unilateral. Para Freire “não se é antidialógico
nada passe por imutável”.
ou dialógico no ‘ar’, no mundo. Não se é antidialó-
gico primeiro e opressor depois, mas simultanea-
mente. […]. Instaurada a situação opressora, antidi-
alógica em si, o antidiálogo se torna imprescindível
para mantê-la”.
A DEMO CRACIA P ARA ALÉM DO
LUGAR COMUM
15 me incomodei com aquela ideia de de-
mocracia que a escola me apresentara.
NOV2016
Quando criança aprendi, na escola, que de- Talvez porque tenha crescido vendo as

mocracia é uma palavra de origem grega e gentes simples do meu lugar sendo

que esta significa a forma de governo que é exer- obrigadas, a cada eleição, a votar nos candidatos in-

cida pelo povo. Também aprendi que o Brasil é um dicados pelos donos das terras em que plantavam.

país democrático, especialmente porque podemos A imposição me incomodava tanto quanto a aceita-

eleger livremente nossos representantes, sendo a ção de tal condição. Meu espírito irrequieto e deso-

exceção os períodos de interrupção da chamada bediente não conseguia aceitar a naturalização que

“ordem democrática”, a exemplo das mais de duas se tentava dar àquela situação. Sempre desconfiei

décadas de ditadura instaurado com o golpe civil- dessa democracia limitada, nas palavras de Sara- 61

militar de 1º de abril de 1964. mago, “a tirar um governo de que não se gosta e a


pôr outro de que talvez venha a gostar” quando, na
Nasci em janeiro de 1969 e vivi meus primeiros
prática, nem isso acontecia.
quinze anos ainda sob o regime autoritário insta-
lado em 1964, dez dos quais divididos entre uma co- Os primeiros quatro anos vivendo numa cidade

munidade rural quase iso- maior, metropolitana, em

lada e uma pequena cidade Como então falar em democracia? Como vi- contato com outras pessoas e
ver e reivindicar a democracia como valor
do interior do Ceará, sem outras percepções de mundo,
coletivo, se em mim sobrevive a herança au-
muito contato com o que toritária, a intolerância e a negação do ou- viriam a confirmar essa minha
tro como necessidades primeiras de afirma- inquietação. Cedo me desco-
acontecia no resto do Brasil
ção e imposição da minha verdade?
e do mundo. Mas sempre bri engajado nos movimentos
sociais locais: primeiro o
movimento comunitário e depois o estudantil. Mais a empresa, a associação, o partido político, a igreja
tarde a luta pela terra, através do Movimento Naci- e até a família.
onal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Nesse
Como então falar em democracia? Como viver e rei-
percurso vou compreendendo que democracia não
vindicar a democracia como valor coletivo, se em
é a mera ausência de autoritarismo, embora seja
mim sobrevive a herança autoritária, a intolerância
próprio de regimes autoritários o cerceamento de
e a negação do outro como necessidades primeiras
liberdades e a ameaça à democracia.
de afirmação e imposição da minha verdade?
Começo a descobrir, pela militância diária, que de-
É preciso, portanto, desenvolvermos ou retomar-
mocracia não se aprende nos livros e não se ensina
mos em nós valores perdidos ao longo da história da
em escola ou universidade, a menos que ela seja vi-
humanidade que, à medida se perdiam ou eram re-
vida nesses espaços. Aprendi cedo que democracia 62
jeitados, nos afastavam da democracia, no sentido
se faz no dia a dia, nas relações com os outros e com
que aqui está sendo colocado. Entre esses valores
o mundo. Também não tardou para descobrir que
estão o cuidado [substituído pelo abandono], a co-
nossas instituições são, por excelência, espaços
operação [que deu lugar à competição], a empatia,
pouco democráticos e por vezes até antidemocráti-
o reconhecimento do outro e o sentimento de per-
cos. Herdamos do colonialismo e dos mais de vinte
tença, apenas para citar alguns. Mas, para que a de-
anos de ditadura uma enorme resistência ao diá-
mocracia se faça presente, é preciso, sobretudo, as-
logo, condição fundamental à democracia, e uma
sumirmos um compromisso ético com a centrali-
forte cultura de imposição de ideias e visões de
dade da vida.
mundo. Vivemos uma eterna disputa de poder que
Ademais, é urgente negarmos, pela afirmação de
se agiganta nos espaços institucionais, seja a escola,
outro jeito de ser e estar neste planeta, o atual
modelo de desenvolvimento, que espolia a mãe com a solidariedade, o respeito à diversidade, a par-
Terra, ameaça todas as formas de vida e a continui- tilha justa e fraterna e tantos outros valores gerado-
dade da espécie humana no planeta e segue, a ga- res da vida.
lope, numa lógica perversa e excludente de geração
Antes de ser uma ideia romântica de democracia,
e distribuição da riqueza.
esse deverá ser um referencial pelo qual teremos
No seu livro “A riqueza de poucos beneficia a todos. que lutar. E não nos iludamos: será necessária muita
Falso!”15, o escritor e sociólogo polonês Zygmunt luta, porque essa nova perspectiva de democracia
Bauman lembra que “a principal vítima da desigual- não nos será dada de mão beijada, já que esse é um
dade que se aprofunda será a democracia, já que os dos poucos caminhos, na atualidade, capaz de colo- 63
meios de sobrevivência e de vida digna, cada vez car em xeque o sistema econômico sobrejacente e
mais escassos, procurados e inacessíveis, se tornam sua podre base de poder, dominação e exclusão.
objeto de uma rivalidade brutal e talvez de guerra
entre os privilegiados e os necessitados deixados
sem ajuda”.

Portanto, já passa da hora de tirarmos a tão procla-


mada democracia do medíocre lugar em que ela foi
coloca na sociedade contemporânea e passarmos a
compreendê-la e vive-la a partir do diálogo estreito

15
La ricchezza di pochi avvantaggia tutti. Falso!. Ed.
Laterza, 112 páginas.
19 de qualquer regalia ou benefício adi-
CARTA ABERTA AO SENADO BRA-
NOV2016 cional, a exemplo de verba indeniza-
SILEIRO [OU SOBRE ESCO LHAS,
HISTÓRIA E MEMÓRIA] tória18, auxílio moradia19, cota pos-
tal, cota telefônica, passagens aéreas, combustível,
Senhoras e senhores senadores da
cota de serviços gráficos e recebimento de publica-
República Federativa do Brasil,
ções a que todos os senadores e senadoras têm di-
Sou profissional autônomo, casado, pai de dois fi- reito. 64
lhos e, atualmente, vivo com uma renda média
Como boa parte dos brasileiros, tenho acompa-
mensal inferior a 10% do subsídio de R$ 33.763,00
nhado atentamente, à medida que o tempo me per-
[R$ 22.654,94 líquidos]16 recebido, mensalmente,
mite, os debates ocorridos nos últimos dias na Câ-
por cada um/a dos senhores/as, na condição de se-
mara dos Deputados e no Senado, especialmente
nadores e senadoras da República.
em relação à PEC 241, agora 55/2016, sempre com
Afora meu rendimento mensal, que equivale a o cuidado de ouvir o maior número possível de opi-
17
pouco mais de 3 salários mínimos , não disponho niões e tirar minhas próprias conclusões.

18
16 Recursos para uso em gastos nos estados, com aluguel,
Fonte: Portal da Transparência do Senado Federal.
gasolina, alimentação. O parlamentar tem que apresen-
Além dos 12 salários por ano e do 13º, cada senador re-
tar nota fiscal com os gastos e, se não usar toda a verba
cebe o mesmo valor no início e no final de cada sessão
num determinado mês, acumula para o seguinte. Pas-
legislativa, ou seja, 14º e 15º salários.
sado um semestre, ele não tem mais direito de usar o acu-
17
A grande maioria dos trabalhadores e trabalhadoras mulado.
brasileiros vive com um salário mínimo mensal. Segundo 19
Têm direito os senadores que não moram em aparta-
dados do IBGE, a renda per capita média do brasileiro em
mentos funcionais. O parlamentar tem que comprovar o
2015 chegou a R$ 1.113, variando entre os R$ 2.252 do
gasto, apresentando notas de hotéis ou de imóveis que
Distrito Federal – o maior valor em todo o país – e os R$
tenha alugado em Brasília.
509 do Maranhão, o de menor peso.
Da mesma forma que busco me manter informado anos, a conta cara e injusta que será imposta ao
das discussões e decisões do parlamento brasileiro povo brasileiro, caso a PEC 55 seja aprovada pelo
que afetam ou podem afetar nossas vidas como ci- Senado.
dadãos, contrariando fala
Mas, isso é totalmente desnecessário.
recente do presidente que o A conta é simples: gastamos Cada uma das senhoras e cada um dos
Senado escolheu para go- cerca de R$ 2,7 bilhões/ano com
senhores senadores, contrários ou favo-
o Senado e quase R$ 3,4 bilhões
vernar o Brasil, através de
com a Câmara dos Deputados. ráveis ao texto de emenda constitucional
um processo bastante ques-
encaminhado ao Senado, sabe que o ver-
tionável do ponto de vista
dadeiro objeto do processo em curso é colocar o Es- 65
jurídico e político, li e reli a Proposta de Emenda
tado brasileiro cada vez mais a serviço do capital es-
Constitucional 55/2016. Não foi difícil identificar os
peculativo, do mercado e dos interesses de poucos,
seus malefícios para a minha vida e de minha família
ainda que isso signifique sacrificar centenas de mi-
e para a expressiva maioria do povo brasileiro.
lhares de brasileiros e brasileiras que, novamente,
Ao mesmo tempo, tem sido vergonhoso ver o es- receberão o ônus da crise de um modelo cada vez
forço dos defensores da PEC 55 para disfarçar os re- mais insustentável. Sejamos honestos, senhoras e
ais objetivos da proposta que representa um escan- senhores: de longe, a preocupação principal do
carado atentado à Constituição de 1988, especial- atual governo e daqueles cujos interesses ele repre-
mente no que se refere a direitos básicos como sa- senta, inclusive no Senado, é o ajuste das contas pú-
úde e educação. Eu poderia aqui fazer uma análise, blicas.
para além da lógica do “economês” que tem pau-
Mas vamos fingir, só por um instante, que exista
tado os discursos dos defensores da PEC, trazendo
uma preocupação real com esse ajuste. Porque en-
para cena o olhar de quem vai pagar, por longos 20
tão não fazermos o “dever de casa” e pensarmos na
redução de gastos com o parlamento, apenas para atual. Ou seja, que saiamos dos atuais R$ 2,7 bi-
dar o “bom exemplo”, tão valorizado pela sabedoria lhões/ano, para R$ 810 milhões/ano, o que repre-
de minha avó? senta uma economia de quase R$ 1,9 bilhão/ano. Se
aplicarmos essa diferença de valores aos 20 anos da
Segundo levantamento da ONG Transparência Bra-
PEC 55, teremos uma economia de R$ 38 bilhões no
sil, cada senador custa mais de R$ 33 milhões por
período. Agora imaginemos esse mesmo raciocínio
ano aos cofres públicos, enquanto na Câmara dos
aplicado à Câmara dos Deputados.
deputados esse custo é de 6,6 milhões para cada um
dos 513 deputados federais. Os dados estão dispo- Mas, se cortar na própria carne não for suficiente,
níveis no site do Departamento Intersindical de As- podemos então transferir o restante da conta para
sessoria Parlamentar [DIAP]. quem efetivamente pode pagar. Comecemos com o
imposto sobre as grandes fortunas, previsto no ar-
A conta é simples: gastamos cerca de R$ 2,7 bi-
66
tigo 153 da Constituição Federal de 1988. O tema
lhões/ano com o Senado e quase R$ 3,4 bilhões com
voltou à pauta com o sucesso do livro “O Capital no
a Câmara dos Deputados. Uma conta muito cara,
Século XXI” [2013], do economista francês Thomas
que se torna aviltante quando tomamos por base a
Piketty, para quem não discutir impostos sobre ri-
quantidade e, sobretudo, a qualidade da produção
queza é loucura. Segundo Amir Khair, mestre em Fi-
legislativa das duas casas, a atuação individual da
nanças Públicas, “a taxação de patrimônios no Brasil
maioria dos parlamentares na Câmara e no Senado
poderia render aproximadamente 100 bilhões de
e os interesses, nada populares, que essa atuação
reais por ano se aplicada, em uma simulação hipo-
da maioria representa.
tética, sobre valores superiores a um milhão de re-
Proponho-lhes então uma iniciativa direta: a redu-
ais”. A avaliação foi feita por Khair em entrevista
ção do custo do Senado Federal para 30% do custo
para a revista Carta Capital, publicada no dia 3 de
março de 2015. Particularmente, considero a esti- certamente não passará despercebida aos olhos do
mativa de Amir Khair até acanhada. Se quisermos, presente, no Brasil e no mundo, e escreverá seus no-
podemos ir um pouco mais além, colocando na or- mes na história. Caberá a cada um e a cada uma de
dem do dia a discussão sobre a cobrança de impos- vocês escolher como querem ser lembrados e lem-
tos sobre o capital especulativo, um dos principais bradas.
parasitas do modelo econômico defendido pelos
Caberá a mim e a tantos outros brasileiros e brasi-
mesmos defensores da PEC 55.
leiras, cuidar para que a história não seja esquecida
O fato é que os caminhos são muitos e todos eles se e para que a memória da decisão que marcará vinte
vinculam à uma questão central: a serviço de quem anos ou mais de nossas vidas fique registrada e nos
ou de que interesses estará cada uma das senhoras ajude a tomar outras decisões, quem sabe em um 67
e senhores senadores quando da votação, em ple- futuro bem próximo.
nário, da PEC 55? Porque, sabemos todos, no final
Crato [CE], 19 de novembro de 2016.
das contas, é disto que se trata. O que está em ques-
tão é algo muito maior do que um simples ajuste das Joelmir Pinho
contas públicas. Trata-se, em uma frase, de reafir- [brasileiro]
mar, na lógica sobrejacente e de forma pragmática,
que o Estado precisa continuar sendo um instru-
mento a serviço das elites nacionais e suas conexões
internacionais.

Contudo, é importante lembrar: a decisão que será


tomada por vocês em breve e que afetará a vida de
centenas de milhares de pessoas em todo o país,
13
REFLEXÕES SOBRE EMP ATIA, LUTO E morte é um dia que vale a pena
DEZ2016
OUTRAS QUESTÕES HUM ANAS viver”20 nos traz que “Não mor-
remos somente no dia de nossa
Alguém disse, certa vez, que a gente morre como a
morte. Morremos a cada dia que vivemos, conscien-
gente vive. Considerando que a afirmação faz algum
tes ou não de estarmos vivos. Mas
sentido e, tomando por base as es-
A morte, esse destino inevitável e morremos mais depressa a cada
colhas de vida que temos feito, in-
irremediável, não é a oposição à dia que vivemos privados dessa
dividual e coletivamente, em vá- vida. A maior “oposição” à vida é,
consciência”. O fato é que, ao aco-
rios campos da nossa breve exis- de fato, a vida não vivida [ou a
vida mal vivida]. lhemos como verdadeira ou acei-
tência nesse planeta, é fácil con-
tável a ideia de que morremos
cluir que morremos muito mal.
como vivemos, nos colocamos em contato com a ur-
Nos tornamos, claramente, uma “humanidade”
gência de um compromisso ético com a vida. Ou
adoecida, profundamente marcado pela exclusão, o 68
melhor: com a urgência de um compromisso ético
abandono, a intolerância, a negação do outro e da
com a centralidade da vida.
própria vida. Como nos alerta o Papa Francisco, em
entrevista para a TV2000 [italiana], “não se esque- Por outro lado, é importante compreendemos que

çam de que a maior doença, hoje, é a cardioescle- a morte, esse destino inevitável e irremediável, não

rose, e que é preciso uma revolução da ternura”. é a oposição à vida. A maior “oposição” à vida é, de
fato, a vida não vivida [ou a vida mal vivida]. Da
A médica geriatra, praticante de cuidados paliati-
mesma forma, é fundamental percebermos que o
vos, Ana Cláudia Quintana Arantes, em seu livro “A

20
A morte é um dia que vale a pena viver. Ana Cláudia
Quintana Arantes. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Casa da Pala-
vra, 2016.
processo de morte por causa natural nos coloca em dificuldade de aceitarem que precisam de cuidados
contato com três questões cruciais: o cuidado, o ar- de “terceiros” [e de aceitarem ser cuidadas], seja
rependimento e o perdão. Essas questões dialo- pela culpa de não terem cuidado adequadamente
gam, à carca baixa, com o conceito de luto antecipa- de suas relações ou de si mesmas. Em “Saber Cui-
tório e nos convidam a refletir sobre nossas esco- dar: ética do humano”21, Leonardo Boff, ao tratar
lhas e renúncias, nos presenteando com a possibili- das várias dimensões do cuidado, nos fala da impor-
dade da retomada de laços, afetos e essencialida- tância do cuidado com nosso corpo na saúde e na
des. doença.

Voltando ao diálogo com Ana Cláudia Quintana Boff nos lembra que nas ciências contemporâneas
Arantes, no mesmo livro já citado nesse artigo ela fala-se de corporeidade para expressar o ser hu- 69
nos lembra que “o processo de luto se inicia com a mano como um todo vivo e orgânico. Segundo ele,
morte de alguém que tem grande importância na “Essa compreensão deixa para trás o dualismo
nossa vida”. Contudo, “nem sempre o vínculo im- corpo-alma e inaugura uma visão mais globalizante.
portante é feito só de amor, e quanto mais estiver Entre matéria e espírito está a vida que é a interação
contaminado de sentimentos complexos, da matéria que se complexifica, se interioriza e se
como medo, ódio, mágoa ou culpa, mais difícil será auto-organiza. Corpo é sempre animado. ‘Cuidar do
enfrentar o processo de luto”, destaca Ana Cláudia. corpo de alguém’, dizia um mestre do espírito, ‘é
prestar atenção ao sopro que o anima’”.
Em muitos casos, o orgulho tem sido o grande ini-
migo da entrega ao cuidado por parte de pessoas Sobre o perdão, vale dizer que este não repara o
em processo adiantado de morte, seja pela erro. A essência do perdão está em liberar o outro

21
Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela Terra.
Leonardo Boff. – 10. Ed. – Petrópolis: Ed. Vozes: 2014.
e/ou a nós mesmos da culpa. Para Jean-Yves Leloup, coragem, mas tem sido transformador para os do-
“O perdão é não aprisionar o outro nas consequên- entes e para as famílias no processo de luto anteci-
cias negativas de seus atos. É não nos aprisionarmos patório. Com toda a certeza é a carta mais impor-
ou aprisionarmos o outro no carma. O perdão é a tante que você vai escrever na vida”, afirma VJ.
própria condição para que nossa vida continue a ser
Por outro lado, a ideia da morte como última etapa
vivível. Se não perdoarmos uns aos outros, a vida vai
de um ciclo, mesmo quando ancorada na possibli-
se tornar impossível de ser vivida”22. E ele acres-
dade de vida após a morte ou qualquer outra com-
centa: – O perdão, quando bem compreendido, é
preensão espiritual ou teológica, ainda é um tabu
um instrumento de cura. Frequentemente ficamos
para a maioria de nós ocidentais fora das culturas 70
doentes porque não perdoamos e o rancor e a có-
dos povos e comunidades tradicionais das Améri-
lera nos corroem o fígado e os rins.
cas.
Por fim, o arrependimento é o sentimento mais re-
Talvez por isso lidemos ainda tão mal com a morte
portado por quem está perto da morte. A conclusão
de pessoas queridas ou próximas. Nesses casos,
é da médica geriatra VJ Periyakoil, diretora de Cui-
quase sempre, especialmente durante os processos
dados Paliativos da Universidade de Stanford, na
de luto, tratamos a morte como vilã, como aquela
Califórnia. Periyakoil é idealizadora de um projeto
que nos roubou um ente querido. Isso tem relação
que inspira os pacientes a um amoroso acerto de
direta com a ideia de que perdemos alguém
contas final: escrever uma carta de reconheci-
com/para a morte, como se as pessoas nos perten-
mento, amor, perdão e despedida. Para ela, “Rever
cessem.
a vida é enfrentar emoções intensas. Exige muita

22
O Corpo e Seus Símbolos – uma antropologia essencial.
Jean-Yves Leloup – 20. Ed. – Petrópolis: Ed. Vozes: 2012.
É claro que há aí uma perda [da convivência física, lembranças, todas as memórias sadias que podería-
do cotidiano, do encontro diário], mas é fundamen- mos guardar da pessoa por quem estamos enluta-
tal compreendemos que não há perda no mesmo dos. A poeta sergipana Cristina Vilar, nos ensina que
modo que se perde objetos ou coisas. Pessoas não “a saudade é um passatempo, que chega sem
são coisas, não nos pertencem e, tempo e nos avessa feito furação”.
portanto, não podem ser perdi- O escritor português José Sara- Esse furacão que toma conta de
das. Não no sentido comumente mago dizia que “É necessário sair nós após a morte de uma pessoa
da ilha para ver a ilha. Não nos
dado à palavra. As perdas trazidas querida, certamente irá nos acom-
vemos, se não saímos de nós”.
com a morte estão relacionadas panhar ainda por algum tempo. O
às possiblidades de convivência, que é perfeitamente compreensí- 71
partilhas e afetos. Daí a importância de não adiar- vel.
mos o abraço, a gratidão, a conversa olho no olho, a
Em dezembro de 2010 meu pai, Jacó, faleceu depois
verdade dita de forma amorosa. Daí o valor da con-
de algum tempo convivendo, com muita lucidez e
templação das “bonitezas” do mundo e das pessoas,
serenidade, com um câncer de próstata. Seis anos
da vida sem pressa, do compromisso ético com a
depois de sua morte a saudade ainda me visita vez
centralidade da vida.
ou outra e eu a acolho de forma amorosa e consci-
Contudo, encarar a morte por essa perspectiva não ente. Afinal, como não sentir saudade de um ho-
elimina a necessidade e a importância do ritual do mem que, como poucos, soube ser exemplo de pa-
luto. O que precisamos evitar é que o luto se trans- ciência, fé, honradez e compreensão, dentre tantas
forme numa caixa de ressonância de nosso apego outras virtudes? Como não lembrar com saudade e
ou de egocentrismo, quase sempre inconsciente, fa- carinho do jeito pacífico, calmo, sereno e por vezes
zendo com que nossa dor anule todas as boas contemplativo, de meu pai, sentado na calçada de
casa ou na pracinha do bairro de periferia, onde mo- de modo particular e especial, para processos de
rava, como se estivesse a querer entender as loucu- luto.
ras do mundo urbano, cada vez mais distante das
Sair da ilha e de nós mesmos, nesse caso, pode sig-
coisas do Deus em que ele acreditada e do próprio
nificar ajudar a salvar outras vidas através da doa-
equilíbrio primordial?
ção de órgãos e tecidos, por exemplo. Afinal, como
Equilíbrio que, aliás, ele conservava como referên- nos alerta uma campanha da Associação Brasileira
cia, talvez por nunca ter deixado que a cidade para de Transplante de Órgão – ABTO, talvez exista um
onde veio, forçado pela necessidade de oferecer paraíso. Mas só para a sua alma.
melhores condições de vida aos filhos, rompesse o
O historiador britânico Eric Hobsbawm é autor da
elo que lhe mantinha conectado ao mundo rural e à 72
trilogia “A Era das Revoluções [1789 – 1848]”, “A Era
Mãe Natureza e, portanto, mais próximo do seu Cri-
do Capital [1848 – 1875]” e “A Era dos Impérios
ador.
[1875 – 1914]”. Tenho escrito e falado nos últimos
O detalhe é que escolhi viver meu luto guardando dois anos, pelo menos, sobre a urgência da “Era das
as melhores lembranças que ele me deixou e, de Devoluções”, através da qual possamos nos com-
modo especial, dois importantes legados: a paciên- prometer, pela reflexão e ação diárias, com a devo-
cia e a contemplação. Para tanto, precisei fazer o lução de tudo que o atual modelo de [des]envolvi-
exercício diário de sair de mim mesmo, da minha mento roubou da mãe Terra, de toda a natureza e
dor, e mirar o horizonte, hora mais distante, hora de nós mesmos.
mais próximo. O escritor português José Saramago
Para tanto, sobretudo em tempos tão sombrios, é
dizia que “É necessário sair da ilha para ver a ilha.
urgente construirmos redes de esperança e solida-
Não nos vemos, se não saímos de nós”. E isso vale,
riedade. Esse caminho de reencontro com nossa
essência, pela devolução, inclusive da sacralidade
da terra e da vida, seguramente nos permitirá viver
melhor e, por conseguinte, também morrer melhor.

Mas, fundamentalmente, poderá nos conduzir à


compreensão da morte como parte do mágico e
complexo ciclo da vida, e do luto como ritual de re-
flexão, contemplação e reafirmação da vida, que
não se encerra com a morte, mas nela se renova e 73
se refaz. E a vida seguirá sempre, com seus mistérios
e encantamentos. E nós seguiremos, até o fim de
cada ciclo individual, com muito mais perguntas e
dúvidas, mas, eticamente melhores. E assim, certa-
mente, a morte será um dia que valerá ainda mais a
pena viver.
UM FALSO HERÓI PARA UM foi encontrado no seu endereço em Curitiba,

FALSO PROBLEMA CENTRAL


22 já que estava no Paraguai, onde também ti-

DEZ2016 nha uma casa.


Não é de hoje que os excessos pratica-
dos por Sérgio Fernando Moro no “Moro não sabia. Por isso mandou a PF oficiar

exercício da magistratura são objeto de questiona- a todas as companhias aéreas e a Infraero para ficar

mento. E não me refiro apenas aos questionamen- informado sobre os voos com origem em Ciudad del

tos públicos ou publicizados recentemente, como é Este, no Paraguai, ou Foz do Iguaçu, para Curitiba a

o caso das denúncias divulgadas fim de que se encontrasse o in-

pelo site Justificando no último Excessos e abuso de autoridade e vestigado. Também mandou fa- 74
poder são muito próprios das pes- zer o mesmo com os voos de
dia 19, em que “juristas denun-
soas que elegem a arrogância, a
ciam abusos de Moro e criticam presunção e a defesa da meritocra- Porto Alegre para Curitiba, já

sua atuação como juiz”. cia como caminhos para a autoafir- que os advogados do investi-
mação e manutenção do status gado, Andrei Zenkner Schmidt e
Ao longo de sua carreira, Moro foi quo, do cargo ou “posição social”
que ocupam. Cezar Roberto Bittencourt, po-
alvo de procedimentos adminis-
deriam estar neles”, escreveu
trativos no Supremo Tribunal Fe-
Pedro Canário em artigo publicado no dia 5 de maio
deral e no Conselho Nacional de Justiça por conta
de 2015 no site da revista Consultor Jurídico.
de sua conduta, considerada parcial e incompatível
com o Código de Ética da Magistratura. Entre as re- Aliás, excessos e abuso de autoridade e poder são

clamações apresentadas contra Sérgio Moro há o muito próprios das pessoas que elegem a arrogân-

caso famoso em que o mesmo decretou, em 2007, cia, a presunção e a defesa da meritocracia como

a prisão preventiva de um dos investigados, que não caminhos para a autoafirmação e manutenção do
status quo, do cargo ou “posição social” que
ocupam. Não é, portanto, uma exclusividade do juiz porque alguém resolveu “furar a fila” do caixa do
Sérgio Moro e pode estar mais perto de nós do que banco ou do supermercado. A propósito, recordo-
imaginamos. me de um ensinamento sábio de minha avó, repe-
tido até hoje por minha mãe, segundo o qual, “o
Contudo, é importante lembrar que criticar os ex-
cesteiro que faz um cesto faz um cento; assim tenha
cessos de Sérgio Moro e dos demais agentes públi-
cipó e tempo”. Portanto, a corrupção, como cultura
cos encarregados da operação Lava Jato não signi-
ou valor, pode começar numa fila de supermercado,
fica concordar com as práticas de corrupção que 75
por exemplo.
marcaram e marcam a história do nosso país, nota-
damente a história recente, embora o problema Da mesma forma, ser contra a corrupção, inclusive
seja bem antigo. Muito menos, significa defender no contexto da Lava Jato, e defender a punição de
aqueles que elegem a corrupção, em suas variadas todos os envolvidos após a devida apuração dos fa-
formas e expressão, como caminho para “crescer na tos, não significa aceitarmos os excessos praticados
vida”. por qualquer autoridade ou agente público, o que
inclui a inobservância de preceitos legais e a coloca-
Certa vez, vi uma interessante analogia da palavra
ção da vaidade e dos interesses pessoais e/ou cor-
corrupto, que assim a explicava: cor = coração +
porativos acima da lei e das instituições, mesmo
rupto = rompido/partido. Portanto, o corrupto tem
quando elas próprias [as instituições] padecem dos
o coração partido, tornando-se assim insensível à vi-
efeitos nefastos da crise ética que nos afeta, de
olação do direito e ao sofrimento alheio daí decor-
forma ainda mais acentuada, nos tempos atuais.
rente, não importando se o direito violado e o sofri-
Mais uma vez é preciso ter cuidado com a tendência
mento causado são de uma criança que não terá o
à dicotomia, à dualidade, como se tudo se resu-
que comer na escola ou de uma pessoa que teve de
misse à ideia do “ou isto, ou aquilo”.
esperar mais alguns minutos para ser atendida,
nesse país a cultura do cuidado, a democracia plena,
Definitivamente, não precisamos de mais um a cidadania ativa e o respeito à coisa pública? Sere-
“herói nacional” escolhido pelas elites – e pro-
fundamente comprometido com seus interesses mos capazes, por esse caminho, de suplantar o ve-
– para posar de justiceiro seletivo e implacável. lho jeitinho brasileiro, tão fortemente entranhado
em muitos de nós?
Antes de designar a venda ilegal de favores por re-
presentantes do poder público, corrupção é deteri- Não me arisco a apresentar respostas, nem creio

oração, decomposição física, apodrecimento. “Cor- que elas se façam necessárias de pronto. Mas, cer-

rupto” vem do latim corruptus, particípio de “cor- tamente, não será pela incitação do ódio pautado 76

romper”: é o corrompido, o podre, o que se deixou na negação do outro e na cultura do “ou isto, ou

estragar. [dicionarioetimologico.com.br] aquilo”, que iremos fazer as mudanças de que tanto


precisamos, como nação, como povo e como indiví-
Sim! Toda forma de corrupção precisa ser comba-
duos.
tida. Mas, definitivamente, não precisamos de mais
um “herói nacional” escolhido pelas elites – e pro-
fundamente comprometido com seus interesses –
para posar de justiceiro seletivo e implacável.

Como podemos ver, nem a corrupção é nosso único


ou maior problema nacional, nem Sérgio Moro é o
herói que irá nos salvar da suposta grande crise. A
Lava Jato passará. Moro passará. E o que ficará disso
tudo? A forma com as coisas estão se dando contri-
buirão, em alguma medida, para [re]construirmos
NÃO! NÃO FO I ACID ENT E
09 que são o retrato da violação de direitos

JAN2017 das pessoas privadas de liberdade”.


O assassinato, com requintes de barbárie,
de 56 pessoas no Complexo Prisional Aní- De acordo com dados do referido levanta-

sio Jobim, em Manaus, não pode, em hipótese al- mento, em 2014 o Brasil ocupava o quarto lugar, em
guma, ser classificado e tratado como acidente, ou dados absolutos, no ranking de países com maior

seja, como acontecimento casual ou inesperado, população prisional do mundo. Tínhamos, naquele

contingência ou acaso. O que aconteceu em Ma- ano, mais de 622 mil pessoas privadas de liberdade
naus e, quatro dias depois, em Roraima, onde 33 de- em estabelecimentos penais. Ao mesmo tempo, en-
tentos da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo quanto na maioria dos países a taxa de encarcera-
também foram assassinados, escancara, não pela mento tem diminuído ao longo dos últimos anos, a
primeira vez, as mazelas de um sistema prisional do Brasil tem crescido a uma média de 7% ao ano,
perverso, desumano e ineficiente. aproximadamente. Entre as mulheres essa média é
ainda maior: 10,7% ao ano.
Como afirmam os autores do Levantamento Nacio-
77
nal de Informações Penitenciárias [INFOPEN]23, de O mesmo documento aponta que 55,07% da popu-

dezembro de 2014, “nosso sistema punitivo, forjado lação privada de liberdade no Brasil tem até 29 anos
sob o signo das matrizes do patrimonialismo, da es- de idade, 61,67% da população presa é negra e ape-

cravidão e da exclusão, consagrou um padrão orga- nas 9,5% da nossa população carcerária concluiu o

nizacional e estrutural de estabelecimentos penais ensino médio. É esse o perfil da população privada
de liberdade no Brasil: jovens, negros e com baixo

23
Relatório descritivo e analítico produzido através do de Segurança Pública e o Fórum Brasileiro de Segurança
Termo de Parceria nº 817052/2015, firmado entre o De- Pública.
partamento Penitenciário Nacional, a Secretaria Nacional
nível de escolaridade. Chama ainda a 3 mil presos, quando sua ca-
atenção o fato de que 40,1% da po- A grande maioria dos jovens, negros pacidade é para apenas 600.
e analfabetos ou de baixa escolari-
pulação carcerária brasileira são de dade que povoam nosso sistema pri- Contudo, nem mesmo todas
presos provisórios, que aguardam sional, é fruto de um perverso mo-
essas estatísticas são capazes
delo de Estado e de sociedade que
atrás das grades, muitas vezes por
prefere ignorar e varrer para de- de revelar a crueza do nosso
longos anos, uma decisão judicial de- baixo do tapete – ou melhor, para sistema prisional. É preciso
finitiva para os seus casos. trás das grades – o resultado de seus
piores crimes: a ganância, a indife- conhecer por dentro, entrar
Ao mesmo tempo, o relatório da Co- rença, o preconceito e a inferioriza- no inferno, ver o que revela,
ção da vida, só para citar alguns.
missão Parlamentar de Inquérito da por exemplo, o documentário
Câmara dos Deputados, batizada de “O grito das prisões”, produ-
CPI do Sistema Carcerário, publicado em 2009, zido a partir do trabalho da CPI do Sistema Carcerá-
78
afirma que “a superlotação é talvez a mãe de todos rio.
os demais problemas do sistema carcerário”. De
Essa realidade é agravada com a omissão do Estado,
acordo com esse relatório, “celas superlotadas oca-
ao não cumprir com a responsabilidade de manter
sionam insalubridade, doenças, motins, rebeliões,
intactos todo os direitos do preso que não foram
mortes, degradação da pessoa humana”. A CPI en-
restritos ou eliminados pela pena, conforme preco-
controu “homens amontoados como lixo humano
niza o artigo 3°da Lei de Execução Penal [Lei
em celas cheias, se revezando para dormir, ou dor-
7.210/84]. Isso inclui, de modo especial, o direito à
mindo em cima do vaso sanitário”, destaca o docu-
vida. A propósito, o artigo 5º da Constituição Fede-
mento. Nosso deficit de vagas é de quase 50% e em
ral, em seu inciso XVLII, proíbe a aplicação de penas
algumas unidades chegamos ao absurdo de termos
cruéis. Não é isso que se vê nas unidades prisionais
do Brasil, todos os dias, onde, além da indignidade
perverso não apenas para os homens e mulheres
“O cárcere esconde dramas e histórias de vida que se encontram privados de liberdade. Seus efei-
que vão além, muito além daquelas paredes mo-
fadas e malcheirosas, daqueles corpos amarela- tos maléficos são muito maiores e duradouros do
dos e abatidos. […] existem pais, mães, esposas que aparentam.
e filhos que, apesar de não estarem fisicamente
presos, encontram-se em intenso sofrimento psí- A grande maioria dos jovens, negros e analfabetos
quico”. ou de baixa escolaridade que povoam nosso sistema
prisional, é fruto de um perverso modelo de Estado
das condições físicas dessas unidades e da falta de
e de sociedade que prefere ignorar e varrer para de-
assistência básica à população carcerária, imperam
baixo do tapete – ou melhor, para trás das grades –
a corrupção e a prática de tortura, inclusive por 79
o resultado de seus piores crimes: a ganância, a in-
agentes do Estado.
diferença, o preconceito e a inferiorização da vida,
Ademais, como escreveu por esses dias, em seu per- só para citar alguns.
fil numa rede social na internet, a juíza de direito
O fato é que reproduzimos, na rotina dos presídios
Fernanda Orsomarzo, do Tribunal de Justiça do Es-
e cadeias do Brasil, de forma agigantada, o mesmo
tado do Paraná e membra da Associação Juízes para
adoecimento que tem tomado conta de parcela ex-
a Democracia, “o cárcere esconde dramas e histó-
pressiva de nossa sociedade que, instigada por abu-
rias de vida que vão além, muito além daquelas pa-
tres-vampiros que se beneficiam da barbárie e da
redes mofadas e malcheirosas, daqueles corpos
carnificina cada vez mais presentes dentro e fora
amarelados e abatidos. […] existem pais, mães, es-
dos presídios, prefere acreditar que “bandido bom,
posas e filhos que, apesar de não estarem fisica-
é bandido morto” e em tantas outras ideias asque-
mente presos, encontram-se em intenso sofrimento
rosas disseminadas em discursos de ódio, esque-
psíquico”. Portanto, o nosso sistema prisional é
cendo-se que a grande maioria dos jovens, negros e
analfabetos ou de baixa escolaridade que po- DA ERA DAS REVO LUÇÕ ES À
voam nosso sistema prisional são fruto de um 29 ERA DAS DEVO LUÇÕ ES
perverso modelo de Estado e de sociedade
JAN2017
Desde a origem do planeta Terra, há
que prefere ignorar e varrer para debaixo do
cerca de 4,5 bilhões de anos, as forças
tapete – ou melhor, para trás das grades – o
geológicas têm determinado nosso
resultado de seus piores crimes: a ganância, a indi-
processo evolutivo. A presença da espécie humana
ferença, o preconceito e a inferiorização da vida, só
no planeta tem apenas 200 mil anos, algo muito
para citar alguns.
novo, se considerarmos que o florescimento da vida
Volto a Fernanda Orsomarzo para lembrar que “di- na nossa casa comum iniciou, de forma lenta e gra-
ariamente pessoas são entulhadas como lixo, mui- dual, há cerca de 3 bilhões de anos.
80
tas delas sem decreto condenatório definitivo, a fim
Contudo, nesse curto espaço de tempo, mesmo
de que seja saciada a sede de vingança de uma soci-
sendo uma única espécie entre os 10 a 14 milhões
edade doente” e para enfatizar que “ser a favor da
de espécies atuais no planeta [segundo estimativas
vida não admite meio-termo”.
recentes], nossas escolhas e renúncias têm sido res-
ponsáveis pelo comprometimento da vida na Terra.
Como nos lembra Paulo Artaxo, através de artigo in-
titulado “Uma nova era geológica em nosso planeta:
o Antropoceno?”, publicado na edição nº 103 da Re-
vista USP [2014], a dominação da espécie humana
está influenciando algumas componentes críticas
do funcionamento básico do sistema terrestre, en-
tre elas, o clima e a composição da atmosfera.
Ao longo dos séculos mais recentes da nossa pre- formadores de recifes, 25% de mamíferos, 13% de
sença na Terra fomos forjando um modo de vida aves e 30% de coníferas podem desaparecer nas
que busca, por todos os meios, afirmar a superiori- próximas décadas. Esse é um dos muitos resultados
dade da espécie humana sobre as outras formas de evidentes das nossas escolhas e renúncias.
vida no planeta. A ilusão da supremacia humana le-
O amigo Jairo Façanha, em obra inédita a mim con-
vou ao rompimento do fio que nos unia à grande
fiada, nos ensina que “a existência distanciada do
teia da vida, nos afastando do seu curso natural e
fluxo natural da vida, longe de nós mesmos, faz a
nos induzindo à dessacralização e coisificação da
vida parecer um eterno problema à espera de solu-
mãe Terra e toda a sua biodiversidade. A própria
ção, um esforço diário, uma tragédia, um fardo a ser
vida humana foi transformada em propriedade,
levado”.
mercadoria e objeto de desejo. Escolhemos o aban-
O antropocentrismo, essa amarga ilusão de que so- 81
dono e a competição e rejeitamos, violentamente,
mos uma espécie superior escolhida por Deus para
o cuidado, a solidariedade e ou-
dominar sobre toda as outras formas de
tros valores centrados na vida.
“A existência distanciada do vida na Terra, nos fez saqueadores e usur-
Em 2012, a Lista Vermelha de fluxo natural da vida, longe
padores da vida planetária, ao mesmo
de nós mesmos, faz a vida
Espécies Ameaçadas, produzida
parecer um eterno problema tempo que nos liberou de qualquer culpa
pela União Internacional pela à espera de solução, um es- por escolhas e renúncias que, ao longo
Conservação da Natureza forço diário, uma tragédia,
um fardo a ser levado”. dos anos, têm comprometido seriamente
[IUCN, em inglês], somava mais
a diversidade genética do planeta e, por
de 19 mil espécies sob risco de
conseguinte, a capacidade da vida se adaptar a mu-
desaparecer. Segundo a IUCN, mesmo com progra-
danças abióticas como temperatura, salinidade, ra-
mas de conservação, 41% de anfíbios, 33% de corais
diação e outros fatores.
Consolida-se nesse percurso o que alguns pesquisa- Por outro lado, e como parte da conturbada aven-
dores passaram a chamar de Antropoceno. O termo tura humana na Terra, toda a nossa história, ao
ganhou difusão nos anos 2000, especialmente atra- longo dos últimos séculos, tem sido marcada por re-
vés do trabalho de Paul Crutzen, prêmio Nobel de voluções, a exemplo da Industrial e da Francesa,
Química [1995], que escreveu uma série de publica- além de várias outras de menor vulto histórico.
ções discutindo o que seria essa nova era geológica
Contudo, todas estavam ancoradas na mesma pers-
da Terra.
pectiva antropocêntrica e no mesmo ponto de par-
Mas não paramos por aí. Ao nos apartamos da tida: responder a uma crise do modelo econômico
grande teia da vida e ao elegermos o imperativo da sobrejacente ou aos interesses políticos de uma
razão e a superioridade do masculino como pilastras nova classe social emergente. Em todas elas o forte
de sustentação do paradigma predominante na atu- espírito colonizador, expansionista e dominador im-
alidade, nos tornamos sequestradores de nós mes- perava. Em nenhuma delas a centralidade de seus
mos. Passamos a adotar a lógica da separação e da objetivos esteva na vida, mas, em aspectos como
redução também entre nós, humanos. Somos clas- modo de produção, economia e poder político.
82
sificados segundo a condição econômica, o grupo
Mesmo a Revolução Russa de 1917, de inspiração
social, o gênero, a raça ou a etnia e outros atributos
socialista, em que pese o fato de ter conseguido
convencionados socialmente. E assim seguimos, re-
romper com o domínio de três séculos da dinastia
jeitando o diferente e acreditando que, pela dife-
Romanov, não foi capaz ou não teve alcance para
rença, nos fazemos melhores ou piores, superiores
romper com a perspectiva de desenvolvimento cen-
ou inferiores a outros seres humanos. Nos tempos
trado na economia.
atuais, o topo da pirâmide deve ser ocupado por
quem é branco, rico, homem e heterossexual.
Guy Debord, em seu livro O planeta enfermo [2004], mesmo no Brasil. Elas funcionam como um bálsamo
escreve que a palavra de ordem “revolução ou a nos sinalizar que outro mundo é possível.
morte” já não é a expressão lírica da consciência re-
Além disso, urge que temas como decrescimento e
belde, mas a última palavra do pensamento cientí-
consumo consciente e responsável, só para citar al-
fico do nosso século. O que Debord chama de revo-
guns, passem a integrar a agenda de diálogos e fa-
lução, eu prefiro chamar de devolução.
zeres de universidades, organizações da sociedade
Somos todxs convidadxs a assumir um compromisso civil, governos, grupos e comunidades em todo o
83
ético com uma perspectiva integradora e biocên- mundo.
trica de desenvolvimento e a iniciarmos uma longa
Se insistirmos na lógica que nos move na Era do An-
jornada de devolução, no que ainda for possível, do
tropoceno, a vida na Terra estará cada vez mais
que roubamos da mãe Terra, de seus sistemas vivos
ameaçada. E por estarmos apartados da grande teia
e de nossa própria humanidade, a começar pela sa-
da vida pela visão antropocêntrica de mundo, somos
cralidade da Terra e da vida, o que passa, necessari-
o elo mais frágil e, portanto, aquele em maior risco.
amente, pelo reencontro com nossa ancestralidade.
Trata-se, mais uma vez, de escolhas e renúncias in-
Um caminho que muito me agrada é o que vem
dividuais e coletivas. O caminho é longo e os resul-
sendo proposto pela Escola de Políticas Públicas e
tados demorarão a chegar. Ademais, se outro
Cidadania Ativa [EPUCA], de construção coletiva de
mundo é possível, ele é também necessário e ur-
Comunidades Cuidadoras. A EPUCA é uma organiza-
gente. Por isso mesmo, a urgência do começar.
ção da sociedade civil, sem fins econômicos, sediada
no Cariri cearense. Várias outras iniciativas que dia-
logam com essa perspectiva já estão espalhadas por
várias partes do planeta e muitas delas estão aqui
O LIMITE ENTRE LIBERDAD E 18 como o estupro e o homicídio praticado em

DE EXPRESS ÃO E V IOLÊNCIA atividade típica de grupo de extermínio,


FEV2017
por exemplo.24
Segundo a enciclopédia livre Wikipédia,
“Liberdade de expressão é o direito de qualquer in- O direito de liberdade de expressão preco-

divíduo manifestar, livremente, opiniões, ideias e nizado na Constituição Federal de 1988, em seu ar-

pensamentos pessoais sem medo de retaliação ou tigo 5º, inciso VI, é fundamental para o processo de

censura por parte do governo ou de outros mem- redemocratização de um país que se sonha livre e

bros da sociedade. É um conceito fundamental nas democrático, após mais de duas décadas de cercea-

democracias modernas nas quais a censura não tem mento de liberdades e forte repressão a qualquer

respaldo moral”. pensamento contrário aos “donos do poder”.

Não raro, tenho visto postagens nas redes sociais e Contudo, valer-se dessa prerrogativa constitucional
84
falas em eventos presenciais em que, valendo-se da para os fins indicados anteriormente é, no mínimo,

ideia de liberdade de expressão e de uma visão demonstração clara de irresponsabilidade, covardia

equivocada de democracia, indivíduos se sentem no e má fé, e não pode ser confundido com o exercício

direito de promover ofensas verbais a pessoas e/ou do direito à liberdade de pensamento e expressão

grupos sociais, disseminar discursos de ódio e into- consagrado no texto da carta magna de 1988.

lerância, expressar preconceitos diversos e até fazer A liberdade de expressão não é um direito absoluto
apologia à pratica de tortura e a crimes hediondos e seu limite está, por exemplo, na ameaça ou

24
Embora estejamos tratando nesse artigo apenas da humanos, confirmando o antropocentrismo como ponto
perspectiva humana, vale lembrar que a violência prati- de partida para uma visão de mundo fortemente mar-
cada por pessoas ou grupos que se consideram superiores cada pela arrogância da nossa espécie e sua apartação
e intocáveis, tem vitimado também animais não da grande teia da vida.
violação do direito constitucionalmente consagrado sendo encaradas como marcas de um “estágio avan-
a outrem. çado” de democracia e de ampla liberdade de ex-
pressão.
A liberdade de expressão não é um direito absoluto
e seu limite está, por exemplo, na ameaça ou viola- O fato é que, o discurso de ódio, as manifestações
ção do direito constitucionalmente consagrado a claras de preconceito e as ofensas pessoais larga-
outrem, o que pode se dar, por exemplo, quando al- mente disseminadas, sobretudo nas redes sociais na
guém se vale do seu direito à liberdade de expres- internet, não podem continuar sendo encaradas
são para inferiorizar e discriminar pessoas ou gru- como marcas de um “estágio avançado” de demo-
pos por questões étnicas, de gê- cracia e de ampla liberdade de expres-
nero, de religião etc. Nesses ca- As manifestações claras de pre- são. Pelo contrário, na sua maioria
conceito e as ofensas pessoais
sos, se faz necessária a devida li- largamente disseminadas, so- elas podem facilmente ser tipificadas
bretudo nas redes sociais na in-
85
mitação e punição, caminho como crime e devem assim ser enca-
ternet, não podem continuar
ainda pouco utilizado pela maio- radas, a exemplo do crime de racismo,
sendo encaradas como marcas
ria de nós, seja por desconheci- de um “estágio avançado” de previsto no artigo 5º, XLII, da CF 88
mento do direito, seja por des- democracia e de ampla liber- como inafiançável e imprescritível, su-
dade de expressão.
crença na capacidade de res- jeitando quem o pratica à pena de re-
posta do Estado, em muitos ca- clusão.
sos ele mesmo, através de seus agentes, o violador
Assim, sem embarcarmos no discurso de ódio tão
do direito.
desejado pelos intolerantes e sectários de plantão,
As manifestações claras de preconceito e as ofensas já passa da hora de começarmos a estabelecer os li-
pessoais largamente disseminadas, sobretudo nas mites éticos e reais entre liberdade de expressão e
redes sociais na internet, não podem continuar violência. Nesse contexto, penso que no caso das
redes sociais, os administradores de grupos e comu- PMDB SE ASSUME COMO
04
nidades, especialmente quando se tratar de espa- PATIFE AO CH ANTAGEAR MAR2017

ços de instituições públicas [estatais e não estatais] POVO BRASILEIRO


devem posicionar-se e assumir as medidas adminis-
A ofensiva do PMDB, partido de Michel Temer, em
trativas e legais cabíveis à coibição de discursos que
defesa de sua principal bandeira atualmente, a re-
incitem a violência e disseminem o preconceito, em
forma da Previdência, revela uma das piores faces
suas múltiplas formas. Essa não será tarefa difícil,
da política praticada pelo partido do governo e seus
posto que o discurso de ódio tem sido feito de
aliados. Vale tudo para servir aos interesses das eli-
forma escancarada e seus defensores dispensam
tes econômicas nacionais e do capital internacio-
qualquer dissimulação.
nal. Até chantagear, de forma repugnante, o povo
Como afirmou o escritor português José Saramago, brasileiro.
“o grande mal que pode acontecer às democracias
Dentre tantas outras mentiras postadas pelo PMDB
— e penso que todas elas sofrem em maior ou me- 86
em sua página oficial no facebook, está a imagem
nor grau dessa doença — é viverem da aparên-
reproduzida neste artigo, através da qual o tétrico
cia”. Estamos vivendo, sem qualquer parcimônia,
partido de Temer afirma que “se a reforma da Pre-
uma das nossas piores aparências: a de que, em
vidência não sair, tchau Bolsa Família, adeus Fies,
nome da liberdade de expressão e sem qualquer
sem novas estradas, acabam os programas sociais”.
compromisso ético com a coletividade e com a de-
A imagem tem uma cidade em ruínas ao fundo e um
mocracia, tudo posso. Inclusive revelar-me, publica-
tom tão sinistro quanto os próprios representantes
mente, parvo e fascista.
principais do PMDB e do atual governo, cuja compo-
sição agrega ainda indicados do PSDB e do DEM,
além de outros partidos sem maior de Alagoas, ambos com 20 anos de
expressão na cena política nacional, O projeto, que vem sendo de- idade em 2016. Por estarem en-
fendido na base do vale tudo
de quem os votos foram necessários pelo governo e seus aliados, ig- trando agora no mercado de tra-
para a consolidação do golpe jurí- nora diferenças regionais e de balho, ambos já sofreriam os efei-
gênero, por exemplo, ao definir
dico-parlamentar de 2016. tos da reforma da Previdência e,
a idade mínima de 65 anos
para aposentadoria do brasi- de acordo com estimativas, a jo-
O projeto, que vem sendo defendido
leiro no sistema público. vem catarinense deve viver 14
na base do vale tudo pelo governo e
anos a mais que o jovem alagoano.
seus aliados, ignora diferenças regio-
nais e de gênero, por exemplo, ao definir a idade mí- De acordo com a publicação do The Intercept Bra-
nima de 65 anos para aposentadoria do brasileiro sil, “dados do IBGE apontam que um jovem alago-
87
no sistema público. Essa idade é colocada como ano que tem 20 anos em 2016 viverá aproximada-
ponto central da proposta, segundo o próprio Hen- mente 69 anos. O estado tem o menor Índice de De-
rique Meirelles, ministro da Fazenda do [des]go- senvolvimento Humano [IDH] do país. É uma vida
verno Temer. inteira de trabalho para desfrutar de quatro anos de
descanso”.
Contudo, segundo o IBGE, em 19 municípios brasi-
leiros a expectativa de vida é de exatamente 65 Diante desse breve cenário, duas perguntas preci-
anos, enquanto em outros 63 essa expectativa é de sam ser feitas, antes de quaisquer outras: [i] a quem
66 anos. O site The Intercept Brasil, em matéria as- interessa a Reforma da Previdência, sobretudo nos
sinada por Helena Borges e Vinícius Pereira, propõe moldes em que ela está sendo proposta pelo atual
uma comparação interessante para facilitar a com- [des]governo? [ii] por que o PMDB, o atual [des]go-
preensão do problema. Ele toma por base dois jo- verno e seus asseclas estão tão interessados nessa
vens: uma mulher de Santa Catarina e um homem reforma?
Por outro lado, um estudo elaborado por iniciativa e organizações que se opõem à iniciativa do go-
da Associação Nacional dos Auditores-Fiscais da Re- verno, tem razão de ser. Aprovar a reforma, tal e
ceita Federal do Brasil [ANFIP] e do Departamento qual proposta ou com mudanças negociadas com o
Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômi- parlamento que não afetem os pontos centrais de-
cos [DIEESE], que contou com a colaboração de es- fendidos pelo governo, significa garantir ganhos
pecialistas em proteção social e em mercado de tra- ainda mais exorbitantes para os planos de previdên-
balho, coloca em xeque o discurso do governo e cia privada que, nos primeiros dez meses de 2016
questiona várias premissas apresentadas pelos de- acumularam aportes de R$ 86,91 bilhões, apresen-
fensores da reforma, inclusive a de que há déficit na tando uma evolução de 18,29% frente ao mesmo
Previdência. A publicação do documento irritou o período de 2015, segundo noticiou o site da Federa-
governo e colocou em polvorosa os defensores do ção Nacional de Previdência Privada e Vida [Fena-
projeto de reforma em curso, dando início a mais Previ]. A captação líquida apresentou um saldo po-
uma azáfama do [des]governo Temer, desta vez ca- sitivo de R$ 42,93 bilhões, representando cresci-
pitaneada pelo PMDB que começa a temer [leia- mento de 21,20%, em comparação aos R$ 35,42 bi-
se: preocupar-se com, para evitar trocadilhos] o lhões registrados de janeiro a outubro de 2015, de
88
golpe do golpe. acordo com a mesma fonte.

O fato é que fica cada vez mais evidente que o Não por acaso, Marcelo Abi-Ramia Caetano – o ho-
grande objetivo da reforma previdenciária apresen- mem por trás da reforma da Previdência, indicado
tada por Temer é empurrar o trabalhador brasileiro para o cargo pelo próprio Meirelles – somente em
para os braços da previdência privada. A reação dos 2016 teve cera de 30 reuniões com representantes
defensores da reforma aos competentes argumen- de bancos e empresas de fundos privados como JP
tos que vêm sendo apresentados pelos especialistas Morgan, Santander, Itaú e XP Investimentos. As
centrais sindicais de trabalhadores não têm tido a tiveram a dignidade e a altivez de ocupar as ruas
mesma “sorte”. quando nossa democracia estava ameaçada. E
agora? Até quando esperaremos?
Então, em meio a tanta mentira e desfaçatez, seria
bom que o PMDB, ao invés de nos chantagear de Parafraseando Martin Luther King, encerro afir-
maneira sórdida, assumisse claramente seus com- mando: o que mais me preocupa não é a ofensiva
promissos com os interesses do capital nacional e de um governo ilegítimo, autoritário e elitista e de
internacional e com as elites que o levaram ao po- partidos políticos indignos e desprezíveis como o
der pelo caminho curto do golpe que tão duramente PMDB que, diga-se de passagem, não está só. O que
feriu nossa frágil democracia. mais me preocupa, nesse contexto, é o silêncio per-
missivo dos oprimidos e violentados.
É disso que estamos falando. A bola da vez é a pre-
vidência, mas a encomenda inclui a saúde, a educa-
ção, a reforma trabalhista e por aí seguirão. Afinal,
está tudo tão fácil! Nosso povo, de tradição pacífica 89
e ordeira, parece não se importar que continuem a
surrupiar-lhe direitos e roubar-lhe a dignidade.

Conseguirão Temer e os que o cercam avançar com


seu projeto de maldades? Depois de Alexandre de
Moraes no Supremo Tribunal Federal, algo que me
parecia pouco provável dado o histórico de Moraes
e a envergadura do cargo, passei a não duvidar mais
de nada. Em tempos não muito distantes brasileiros
O BRASIL RESUM IDO À LAVA JATO Mas, essa não é primeira vez na
nossa história em que a tese do
15
Enquanto as atenções dos brasileiros se voltam para
“pão e circo” é coloca a serviço ABR2017
as longas listas de delações premidas [sic] da Lava
dos interesses das elites nacio-
Jato, apresentadas com estardalhaços pela mídia, a
nais para desviar a atenção da população. No auge
partir da seleção prévia de nomes, de forma a pou-
do regime ditatorial instalado com o golpe civil-mi-
par os aliados de cada meio de comunicação, de
litar de 1964, os brasileiros foram “presentados”
acordo a conveniência de cada um, o Palácio do Pla-
com a propaganda ufanista da seleção brasileira du-
nalto e o Congresso Nacional avançam, de forma vo-
rante os jogos da Copa de 1970, no México. A con-
raz, na retirada de direitos e conquistas históricas
quista do tricampeonato mundial pela seleção bra-
do nosso povo, concretizando, a passos largos, um
sileira foi largamente celebrada pela imprensa naci-
dos maiores retrocessos da história desse país no
onal por vários dias, com o assunto sendo explorado
campo dos direitos e da cidadania.
à exaustão.
Nem o fato de vários nomes do atual [des]governo
Os jogos da seleção comandada por Zagalo, após o 90
integrarem essas listas inibe as ofensivas do Palácio
afastamento do comunista João Saldanha por inter-
e seus aliados. Somente na “lista de Fachin” estão
venção direta de Médici, foram os primeiros a ser
oito ministros de Temer, além de dois ex-ministros.
transmitidos pela TV – ao vivo, por satélite e em co-
Figuras chaves do atual processo de desmonte dos
res – embora a maioria dos brasileiros ainda não ti-
direitos históricos da classe trabalhadora brasileira,
vesse acesso a essa tecnologia. Ávido por oferecer
como Eliseu Padilha [Casa Civil], Moreira Franco [Se-
diversão ao povo, o governo militar mandou até or-
cretaria-Geral da Presidência], e Aloysio Nunes [Re-
ganizar transmissões em locais públicos. O futebol
lações Exteriores] estão entre os delatados.
foi usado como atração para desviar a atenção da
violência, do cerceamento de liberdades e da crise revista CartaCapital, foi publicada uma reportagem
em que o Brasil se afundava logo no início do regime assinada pelo jornalista Leandro Fortes, intitu-
autoritário. lada “O empresário Gilmar Mendes”, que revelava a
ligação societária entre o então presidente do Su-
Quase 50 anos depois, a bola da vez para desviar o
premo Tribunal Federal e o Instituto Brasiliense de
foco da perversa agenda de retrocessos e espolia-
Direito Público [IDP]. Segundo a reportagem, o IDP,
ções aos mais pobres, que vem sendo posta em prá-
à época da matéria, havia fechado 2,4 milhões em
tica no Brasil dos nossos dias, é a Lava Jato. Além de
contratos sem licitação com órgãos federais, tribu-
servir para desviar a atenção de outros sérios pro-
nais e entidades da magistratura, volume de di-
blemas nacionais, a operação de “combate à cor-
nheiro que havia sido sensivelmente turbinado de-
rupção” ainda tem servido como trampolim para a
pois da ida de Mendes para o STF, por indicação do
projeção pessoal de figuras sem qualquer moral
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
para atuar nesse campo, a exemplo do parcial juiz
Sérgio Moro e do perseguidor mi- Por essa reportagem, a revista e o 91

nistro Gilmar Mendes, um dos ali- jornalista foram condenados a inde-


Enquanto as elites nacionais nos
ados do atual governo no Su- nizar em R$ 90 mil o IDP. A decisão
oferecem panem et circenses
premo Tribunal Federal. travestidos de bandeiras de mo- foi tomada no dia 1º de dezembro
ralidade levantadas por figuras de 2015, em julgamento unânime
Sobre Moro, recomendo a leitura
desprovidas de qualquer espí-
da 4ª Turma do Superior Tribunal de
do artigo “Um falso herói para um rito republicano e interesse pelo
bem comum, os soldados da ve- Justiça [STJ].
falso problema central“, postado
lha política tomam de assalto
no meu blog em dezembro de nossos direitos, nossas conquis- As vítimas do aguçado instinto per-
2016. Quanto a Mendes, na edi- tas históricas e nosso patrimô- seguidor de Gilmar Mendes e de seu
nio.
ção de 8 de outubro de 2008 da vasto poder de influência incluem a
apresentadora Mônica Iozzi, condenada a pagar R$ estou disposto a engrossar as fileiras de discursos
30 mil ao ministro, como forma de indenização por moralistas e oportunistas, que têm como único pro-
um post em sua conta no Instagram, e o jornalista pósito desviar nossa atenção de questões tão ou
Luís Nassif, contra quem Mendes já iniciou quatro mais sérias quanto às que vêm sendo apresentadas
ações. nas denúncias premiadas da Lava Jato, cujo fim
pode estar diretamente associado ao fechamento
Enquanto as elites nacionais nos oferecem, através
do próprio ciclo de implantação das medidas em
de seus vendidos meios de comunicação e outros
curso pelo atual [des]governo, que já começa a lidar
agentes, panem et circenses travestidos de bandei-
com a possibilidade do “golpe do golpe”, não pela
ras de moralidade levantadas por figuras desprovi-
antipatia e impopularidade das medidas por ele
das de qualquer espírito republicano e interesse 92
adotadas, mas pela própria incompetência para ad-
pelo bem comum, os soldados da velha política,
ministrar suas crises internas e com seus aliados de
com a proteção de parcela expressiva do Judiciário,
ocasião.
tomam de assalto nossos direitos, nossas conquis-
tas históricas e nosso patrimônio, para entrega-los,
de mão beijada, à ganância insaciável dos represen-
tantes do capital nacional e internacional.

O fim da Lava Jato pode estar diretamente associ-


ado ao fechamento do próprio ciclo de implantação
das medidas em curso pelo atual [des]governo.

Pessoalmente, embora considere importante e ne-


cessário o combate à toda forma de corrupção, não
CRÔNICA DE UMA GERAÇÃO Os dias têm sido muito difíceis para os mais

QUE SE ACOVARDOU 11 pobres, especialmente porque os investi-


mentos do governo em políticas públicas de
Estamos no final dezembro de 2036. Te- MAI2017
saúde, educação e assistência social, por
nho 60 anos de idade, mas ainda preciso
exemplo, estão congelados há cerca de 20
trabalhar para prover minhas necessidades e de mi-
anos. Mais uma decisão do governo e do parla-
nha família, já que, pelas regras aprovadas há quase
mento do Brasil da época. Um dos piores de toda a
vinte anos pelo Congresso Nacional brasileiro, ainda
nossa história. Hoje percebemos, tardiamente, o
não tenho direito à aposentadoria. 93
grau de perversidade de suas iniciativas. Os planos
O dia sequer amanheceu, mas preciso acordar de saúde privada tornaram-se um negócio espeta-
muito cedo para preparar a marmita e seguir para cular, assim como o ensino privado. Já a assistência
uma jornada de doze horas de trabalho diário. Tem social, essa praticamente desapareceu e aumentou
sido assim para mim e para a grande maioria das assustadoramente o número de pessoas em condi-
pessoas do meu país desde que entrou em vigor, em ções de extrema pobreza e na invisibilidade social,
2017, o regime de terceirização de mão de obra. econômica e política.
Quando comecei a trabalhar, em meados da década Nossa sociedade está dividida entre alguns poucos
de 1990, tínhamos direito a carteira assinada, férias muito ricos e uma grande leva de desempregados
remuneradas, 13º salário, hora extra no caso de jor- ou trabalhadores submetidos a relações de trabalho
nada de trabalho diária superior a oito horas e vá- precarizadas. Há até quem tenha, no meio rural,
rios outros direitos trabalhistas que atualmente de- que trabalhar em troca de comida e casa. É comum
sapareceram. a constatação da existência de trabalho análogo ao
trabalho escravo. A classe média praticamente
desapareceu e o número de suicídios em decorrên- Desde que tudo isso começou, há quase vinte anos,
cia da crise econômica cresceu expressivamente, es- tem crescido assustadoramente a intolerância entre
pecialmente entre aqueles que tiveram frustradas as pessoas e as mais variadas formas de precon-
suas expectativas de ascensão econômica e social. ceito. Elegemos a lei de talião, a mesma que deu ori-
gem ao Código de Hamurabi [olho por olho, dente
Meus netos pararam de estudar ao concluírem o en-
por dente] como norma de conduta de uma socie-
sino médio, que atualmente está voltado apenas
dade profundamente descrente nas instituições e
para a formação de mão de obra para o mercado. O
centrada na propriedade, na posse de bens materi-
ingresso na universidade está restrito aos que po- 94
ais e na cultura do consumo sem limites, ainda que
dem pagar, ao contrário do que acontecia até algu-
em detrimento da vida.
mas décadas passadas, quando o acesso à universi-
dade era gratuito e havia até regime de cotas para Hoje percebo como a omissão da minha geração
garantir o direito à educação para segmentos sociais frente aos abusos de um governo ilegítimo e sub-
historicamente excluídos. misso aos interesses vorazes do capital contribuiu
para o caos que se instalou em nosso país. Nossa in-
Vários povos e comunidades tradicionais foram dizi-
capacidade de oposição a um projeto de desmonte
mados ou violentamente forçados a aceitar as im-
de direitos e conquistas sociais históricas deu fôlego
posições dos invasores de suas terras, grandes gri-
para que toda forma de violência e negação da vida
leiros nacionais e até estrangeiros, que agem em
crescesse e se espalhasse entre nós.
conluio com governos e com o judiciário. As leis que
protegiam esses povos e comunidades foram revo- O escritor brasileiro Eduardo Alves da Costa, em seu
gadas ou simplesmente são desrespeitadas, já que poema “No caminho com Maiakovski” nos alertava:
o poder econômico está ainda mais infiltrado no Es- “[…] Na primeira noite eles se aproximam e roubam
tado, desde o plano nacional até os governos locais. uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na
segunda noite, já não se escondem; pisam as flo- 19 A VAQU EJADA E O
res, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até ANTROPO CENTRISMO
JUN2017
que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em NOSSO DE CADA DIA
nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso
Já escrevi aqui sobre o antropocentrismo como uma
medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não po-
das pilastras de sustentação do nosso adoecido
demos dizer nada. […]”.
modo de vida. Essa insana ideia de que a espécie hu-
É mesmo uma pena que não tenhamos escutado a mana é o centro de tudo, a serviço de quem todas
voz do poeta. Talvez porque naqueles idos de 2017 as outras formas de vida devem estar, apartou-nos
estivéssemos mais preocupados com superficialida- da grande teia da vida, tornando-nos o elo partido e
des ou com o próprio umbigo, do que com presente dando origem à chamada “ecologia rasa”, expressão
e o futuro do nosso país. 95
cunhada pelo filósofo norueguês Arne Naess, no iní-
Deixamos para nossos filhos e netos o preço de cio da década de 1970, em contraponto à “ecologia
uma geração que se acovardou. Agora me resta a profunda”.
única esperança de que esse tenha sido só um terrí- Nas palavras de CAPRA25, a ecologia rasa “vê os se-
vel pesadelo. res humanos como situados acima ou fora da natu-
reza, como a fonte de todos os valores, e atribui
apenas um valor instrumental, ou de ‘uso’, à natu-
reza”. Por outro lado, a ecologia profunda não se-
para seres humanos — ou qualquer outra coisa —

25
CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida: uma nova concepção
científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996.
do meio ambiente natural. Ela vê o mundo “como no dia 6 de junho, sob a presidência do senador Eu-
uma rede de fenômenos que estão fundamental- nício Oliveira [PMDB/CE], que em seu discurso assu-
mente interconectados e são interdependentes”, miu a defesa da PEC, de autoria do senador Otto
reconhecendo o valor intrínseco de todos os seres Alencar [PSD/BA], valendo-se, em diversos momen-
vivos e concebendo os seres huma- tos, do argumento da importância
nos apenas como um fio particular “Diversão que explora o sofri- econômica da vaquejada, tentando
mento de seres que não têm
na teia da vida, ressalta CAPRA. amenizar o fato de que seus ganhos
condições de defesa não é diver-
são. É sadismo. Esporte em que decorrem dos maus tratos e do so-
Ao promulgar a PEC 304/2017,
um dos envolvidos não optou frimento de outros seres vivos.
mais conhecida como “PEC da Va- por competir não é esporte. É
quejada” [agora Emenda Constitu- covardia”. O texto da nova Emenda Constitu-
cional 96], o Congresso Nacional cional afirma que “não se conside-
torna constitucional práticas que provocam o sofri- ram cruéis as práticas desportivas que utilizem ani-
96
mento dos animais usados nas festas do gênero e mais”, desde que sob a chancela de manifestação
reafirma a lógica sobrejacente que coloca a diversão cultural. Além disso, a EC 96 atribui à vaquejada
humana acima da vida de outros seres. Para Fer- o status de “bem de natureza imaterial integrante
nanda Orsomarzo, Juíza de Direito no Paraná, “Di- do patrimônio cultural brasileiro”. Ou seja: o sofri-
versão que explora o sofrimento de seres que não mento de animais com o fim de servir à diversão hu-
têm condições de defesa não é diversão. É sadismo. mana e ao lucro dos que se beneficiam com esse
Esporte em que um dos envolvidos não optou por rentável negócio, passa a ser reconhecido, constitu-
competir não é esporte. É covardia”. cionalmente, como parte da nossa cultura. Uma cul-
tura de afirmação do antropocentrismo como uma
A promulgação da “PEC da Vaquejada” aconteceu
das pilastras de sustentação de um modo de vida
em sessão solene do Congresso Nacional realizada
empobrecido e adoecido pela nega- presentes entre os vaqueiros e tão
ção da vida, humana e não humana. É fato que o praticante do es- escassa entre os praticantes do es-
porte “vaquejada”, equivoca-
damente chamado de va- porte reconhecido pela Emenda
Além disso, como nordestino e filho
queiro, distanciou-se significa- Constitucional 96.
de vaqueiro, considero um desres-
tivamente da figura sábia e
peito atribuir aos praticantes da va- mítica do vaqueiro nordestino, Mais uma vez a arrogância antropo-
quejada [esporte] a denominação não apenas pelo espaço de cêntrica nos afasta da percepção
atuação e pelas atividades co-
de vaqueiro. Cresci vendo meu pai ecológica entendida, nas palavras de
tidianas, mas também – e so-
dedicar sua atividade de vaqueiro bretudo – pela relação de res- CAPRA, “como o modo de consciên-
ao cuidado dos animais não huma- peito à vida e o cuidado com cia no qual o indivíduo tem uma sen-
os animais.
nos, valendo-se da “pega” apenas sação de pertinência, de conexidade,
quando havia necessidade de recu- com o cosmos como um todo”. Mais 97

perar uma rês desgarrada ou para curar uma “bi- uma vez o Congresso Nacional brasileiro, pelo voto
cheira” [ferida] através da aplicação de algum remé- da maioria de seus integrantes, se coloca, de forma
dio, quase sempre natural. Nunca por diversão ou míope e oportunista, a serviço da negação da vida.
capricho.

Portanto, é fato que o praticante do esporte “va-


quejada”, equivocadamente chamado de vaqueiro,
distanciou-se significativamente da figura sábia e
mítica do vaqueiro nordestino, não apenas pelo es-
paço de atuação e pelas atividades cotidianas, mas
também – e sobretudo – pela relação de respeito à
vida e o cuidado com os animais, tão fortemente
31 O ACESSO À INFORMA- Povos e no artigo 10 da Convenção Europeia sobre

JUL2017 ÇÃO COMO D IREITO Direitos Humanos.

O acesso à informação como di- Embora a garantia da transparência e do acesso à

reito do cidadão e dever dos governos deve orientar informação não seja um tema novo no Brasil, es-

a existência de qualquer Estado Democrático de Di- tando presente na própria Constituição de 1988 e

reito. Nesse sentido, o acesso à informação pública em outros diplomas legais, o advento da Lei de

deve ser a regra e o sigilo a exceção. Acesso à Informação [Lei 12.527/2011], em vigor
desde 16 de maio de 2012, consolidou, ao menos no
Além de se tratar de direito individual de qualquer
âmbito normativo, a aludida garantia, uma vez que
cidadão, o acesso à informação é um direito difuso,
veio regulamentar o direito constitucional de acesso
o que significa dizer que tem uma dimensão cole-
dos cidadãos às informações públicas no país. A fi-
tiva, uma vez que o acesso amplo a informações pú- 98
gura a seguir apresenta o histórico recente de nor-
blicas resulta em benefícios para a comunidade de
mativos que ampliam o direito de acesso à informa-
modo geral. Nessa direção, diversos instrumentos
ção no Brasil.
internacionais de direitos humanos reconhecem e
consagram o acesso à informação como direito fun-
damental. Ele está presente, por exemplo, no artigo
19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos,
no artigo 19 do Pacto Internacional sobre Direitos
Civis e Políticos, no artigo 13 da Convenção Intera-
mericana sobre Direitos Humanos, no artigo 9 da
Fonte: Manual da Lei de Acesso à Informação para Estados e
Carta Africana sobre os Direitos Humanos e dos
Municípios [CGU, 2013]
Nessa breve linha do tempo é possível identificar- e empresas estatais de todas as esferas [União, Es-
mos importantes passos na direção da ampliação do tados, Distrito Federal e Municípios].
direito de acesso à informação e da transparência
Na direção da transparência das contas públicas, o
pública, a começar pelo que dispõe o inciso XXXIII
LRF instituiu os instrumentos de transparência da
do artigo 5º do texto constitucional de 1988, se-
gestão fiscal, previstos no seu artigo 48, determi-
gundo o qual:
nando que fosse dada ampla divulgação à sociedade
Todos têm direito a receber dos órgãos públicos in- das informações ali referidas.
formações de seu interesse particular, ou de inte-
Com a Lei Complementar 131/09 foram acrescidos
resse coletivo ou geral, que serão prestadas no
novos dispositivos à Lei de Responsabilidade Fiscal,
prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalva-
que trouxe como inovação a determinação da dis-
das aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segu-
ponibilização, em tempo real, de informações por-
rança da sociedade e do Estado. [BRASIL, 1988, Art.
menorizadas sobre a execução orçamentária e fi-
5º]
nanceira da União, dos estados, do Distrito Federal 99
Embora não trate especificamente do tema, a Lei de e dos municípios, através dos “portais da transpa-
Responsabilidade Fiscal – LRF [Lei Complementar rência” que passaram a ser obrigatórios para todos
101/2000], em vigor desde 5 de maio de 2000, re- os entes da federação.
gulamenta o artigo 163 da Constituição Federal e es-
Como visto na figura acima, em 2007 o Decreto
tabelece as normas que orientam as finanças públi-
6.170, com as alterações trazidas pelo Decreto
cas no país, sujeitando às suas regras os Poderes
6.428/2008, estabeleceu as regras para “convênios,
Executivo, Legislativo e Judiciário, além dos Tribu-
contratos de repasse e termos de cooperação cele-
nais de Contas, o Ministério Público e os órgãos da
brados pelos órgãos e entidades da administração
administração direta, fundos, autarquias, fundações
pública federal com órgãos ou entidades públicas Dialogando à cerca baixa com o que preconiza a Lei
ou privadas sem fins lucrativos” [BRASIL. 2007, De- de Acesso à Informação o Ministério da Saúde co-
creto Nº 6.170, Art. 1°] para a execução de progra- loca à disposição do cidadão, de forma on-line, um
mas, projetos e atividades de interesse recíproco conjunto de informações sobre a aplicação dos re-
que envolvam a transferência de recursos oriundos cursos do Sistema Único de Saúde [SUS]. Essas infor-
do Orçamento Fiscal e da Seguridade Social da mações estão agrupadas no portal Saúde com Mais
União. Transparência, lançado em 30 de novembro de
2011.
Nesse cenário, como dito anteriormente, a Lei
12.527/2011 veio consolidar esse arcabouço jurí- Um importante dispositivo previsto no texto da Lei
dico-normativo que versa sobre o acesso à informa- de Acesso à Informação refere-se ao que se conven-
ção pública como direito do cidadão. No caso espe- cionou chamar de princípio da “transparência
cífico da saúde, o Ministério da Saúde considera ativa”, que trata da iniciativa do órgão público de
que: dar divulgação a informações de interesse geral ou 100

coletivo, ainda que estas não tenham sido expressa-


O acesso a documentos, arquivos, dados estatísticos
mente solicitadas. Assim dispõe, em seu artigo 8º, o
e epidemiológicos, informações sobre saúde e orien-
diploma legal em tela:
tação de doenças, ações e políticas é peça funda-
mental para a melhoria da gestão e para o fortale- Art. 8° – É dever dos órgãos e entidades públicas
cimento do controle social e da gestão participativa promover, independentemente de requerimen-
no SUS. Além disso, auxilia as tomadas de decisão tos, a divulgação em local de fácil acesso, no âmbito
por parte dos gestores. [BRASIL. CGU, 2011, p. 5] de suas competências, de informações de interesse
coletivo ou geral por eles produzidas ou custodia-
das. [BRASIL. CGU, 2015, p. 18, grifo nosso].
Como vimos até aqui, o acesso à informação pelos 10 O ACESSO À INFOR-
cidadãos e suas organizações, longe de ser uma con- MAÇÃO COMO PONTE
AGO2017
cessão generosa ou uma dádiva do gestor público, é PARA O D IREITO
um direito assegurado por um amplo arcabouço le-
O dia a dia tem nos ensinado que quanto mais infor-
gal e preconizado em vários tratados internacionais
mações tivermos sobre determinado assunto, mais
que reconhecem o papel preponderante dos pro-
condições teremos de opinar sobre o mesmo, fazer
cessos de democratização do acesso à informação
escolhas e tomar decisões. Isso vale para a escolha
para a consolidação do Estado Democrático de Di-
de um produto no supermercado, para definir um
reito e para a fortalecimento das democracias locais
roteiro de férias, para optar entre comprar um imó-
e nacionais.
vel ou investir em ações na bolsa de valores, dentre
Nos próximos artigos trataremos do acesso à infor- muitas outras possibilidades. Seguindo esse mesmo 101
mação como ponte para o direito, do acesso à infor- raciocínio, os autores da publicação ‘Acesso à infor-
mação como instrumento de controle social e do mação e controle social das políticas públicas’26 nos
acesso à informação como elemento de poder polí- lembram que “além de permitir a realização de es-
tico. colhas mais qualificadas, o acesso à informação é
central, ainda na perspectiva individual, para a con-
N.A: A postagem inaugurou uma série de quatro artigos sobre
secução de um conjunto de direitos. Em outras pa-
Políticas Públicas e Acesso à Informação, publicados no blog en-
tre 31 de julho e 7 de outubro de 2017, a partir da adaptação lavras, o acesso à informação é um direito que an-
de trechos do meu TCC de Administração Pública pela UFCA. tecede outros”.

26
Acesso à informação e controle social das políticas pú-
blicas; coordenado por Guilherme Canela e Solano Nasci-
mento. Brasília, DF : ANDI ; Artigo 19, 2009. 132 p
Iniciativas como o portal da transparência do go- os dias 1º e 4 de dezembro de 2015, em Brasília
verno federal, surgido em 2004, têm ampliado sig- [DF], os participantes do I Diálogo PenseSUS – De-
nificativamente as possibilidades de acesso do cida- mocracia, comunicação, informação e direito à sa-
dão comum a informações sobre aplicação de recur- úde: Mobilização para a 15ª Conferência Nacional
sos públicos, incluindo as transferências constituci- de Saúde, defendem que “a comunicação e infor-
onais e voluntárias da União para entes públicos [Es- mação sejam reconhecidas como direitos humanos,
tados e Municípios] e para entes privados, como or- por serem estruturantes para os processos sociais e
ganizações da sociedade civil, por exemplo. para a defesa e garantia dos outros direitos, como o
direito à saúde”. O I Diálogo PenseSUS foi realizado
Contudo, a “cultura do segredo” durante muito
pelo Instituto de Comunicação e Informação Cientí- 102
tempo pautou e ainda pauta a gestão pública em vá-
fica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo
rias partes do Brasil, especialmente na esfera local,
Cruz [Icict/Fiocruz], nos dias 29 e 30 de setembro de
ancorada na crença de que a circulação de informa-
2015, e teve entre seus participantes profissionais,
ções representa riscos, o que favorece a criação de
acadêmicos/as, instituições do campo da saúde e
obstáculos. Por outro lado, quando o que orienta a
movimentos sociais. A carta lembra que:
prática dos agentes públicos é o espírito republi-
cano e a compreensão de que a informação pública Conforme o conceito ampliado de saúde, formulado
pertence à comunidade, ganha expressão a “cultura na 8ª Conferência Nacional de Saúde [1986], comu-
de acesso”, com o fluxo de informações favore- nicação e informação se relacionam com a saúde no
cendo a tomada de decisões, a boa gestão de políti- campo dos direitos humanos. Estão associadas à re-
cas públicas e a inclusão do cidadão. distribuição de recursos de poder e, portanto, à de-
mocratização do Estado. Neste sentido, é necessário
Através de uma carta dirigida aos participantes da
reconhecer a informação e comunicação como
15ª Conferência Nacional de Saúde, realizada entre
direitos fundamentais ao pleno exercício da cidada- coluna denominada “Linguagem Cidadã”, que apre-
nia e autonomização das instituições e grupos soci- senta o nome pelo qual é conhecido popularmente
ais. [FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ, 2015, p. 3]. o mesmo programa.

Uma questão primordial para que o acesso à infor- Mas, se é tão amplamente reconhecido que o
mação se converta em ponte para o direito refere- acesso à informação pode constituir-se ponte larga
se à sua acessibilidade, aqui compreendida sob dois para o acesso ao direito, porque então esse acesso
aspectos: o direito de facilidade de encontrar infor- é tantas vezes negado, obstruído ou dificultado, es-
mações públicas e o direito das pessoas com defici- pecialmente nas relações entre o Estado e os cida-
ência de acessarem a informação. dãos? É possível assegurar o almejado controle das 103
autoridades públicas e de suas decisões sem que se
Ademais, é muito importante assegurar que as in-
garanta, de forma concreta, o direito de acesso às
formações disponibilizadas aos cidadãos através
informações públicas? Essas perguntas guiarão nos-
dos portais da transparência sejam apresentadas
sas próximas reflexões, a partir da busca da simetria
em linguagem clara, de fácil compreensão por pes-
ou do encontro possível entre as reflexões teóricas
soas que não dominam as terminologias e códigos
acerca das mesmas e o que nos apresenta o mundo
específicos das áreas técnicas. Um bom exemplo
real, especialmente no campo das políticas públicas
vem sendo dado pelo Portal da Transparência do
de saúde.
Governo Federal que apresenta as informações so-
bre recursos transferidos aos outros entes da fede-
ração e para organizações da sociedade civil tra-
zendo sempre uma coluna denominada “Ação Go-
vernamental”, que apresenta o nome técnico/ofi-
cial de cada programa, e logo em seguida uma
O ACESSO À INFORM AÇÃO trata somente da questão de
10
COMO INSTRUM ENTO DE acesso à informação”. Para ele: SET2017

CONTRO LE SO CIAL O controle social diz respeito ao

O debate sobre o controle social das políticas públi- direito que o cidadão tem de participar dos destinos

cas e o acesso à informação vem ganhando força no da nação. Esse direito humano à participação se in-

Brasil ao longo das três últimas décadas, pelo me- sere em uma concepção política, que não é apenas

nos, embora sua origem seja bem anterior. Mas, afi- a da democracia representativa, mas que envolve o

nal, como podemos definir controle social? O signi- fato de que a sociedade deve participar da vida pú-

ficado de controle social é o mesmo em todo blica para além do já consolidado direito à represen-

mundo? tação. [MORONI, 2009, p.40].

Definitivamente, não! Nos países africanos, por Na estrutura do Sistema Único de Saúde a participa-

exemplo, o termo é entendido como um controle do ção e o controle social estão previstos, prioritaria-
mente, através de duas instâncias: a Conferência de 104
Estado sobre a sociedade e fortemente rejeitado
pelos atores sociais locais. No Brasil o conceito de Saúde e o Conselho de Saúde, obrigatórios para as

controle social parte da legitimação do controle da três esferas de governo: federal, estadual ou distri-

sociedade civil sobre as ações do Estado. Contudo, tal [no caso do Distrito Federal] e municipal.

conforme lembra Moroni 27, “quando falamos em Realizada a cada 4 anos com a representação dos
controle social, não nos referimos simplesmente à vários segmentos sociais, a Conferência tem como
consulta do Estado pela sociedade civil. E não se principal objetivo “avaliar a situação de saúde e

27
MORONI, José Antonio. Os cinco eixos do controle so-
cial. In: ACESSO à informação e controle social das políti-
cas públicas. Brasília: ANDI; Artigo 19, 2009. p. 40-43.
propor as diretrizes para a formulação da política de inclusive os de saúde, conforme destaca o próprio
saúde nos níveis correspondentes”, de acordo com Ministério da Saúde estes “não são órgãos respon-
a Lei 8.142/90, que dispõe sobre a participação da sáveis pela gestão ou execução de serviços e, por
comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde – isso, não têm responsabilidade direta sobre a pres-
SUS e sobre as transferências intergovernamentais tação dos serviços de saúde”28. A Lei 8.142/90 pre-
de recursos financeiros na área da saúde. coniza que:

A primeira Conferência Nacio- O Conselho de Saúde, em caráter per-


nal de Saúde no Brasil foi reali- O caráter permanente do Conse- manente e deliberativo, órgão colegi-
lho de Saúde assegura sua exis-
zada em 1941. De lá para cá já tência em qualquer circunstância, ado composto por representantes do
foram realizadas quinze edi- independente de decisão de go- governo, prestadores de serviço, pro-
verno, embora o compromisso dos
ções do evento, sendo o mais fissionais de saúde e usuários, atua na
gestores com a existência e manu-
105
recente em 2015, tendo como tenção do mesmo seja fundamen- formulação de estratégias e no con-
tema “Saúde pública de quali- tal para seu pleno funcionamento. trole da execução da política de saúde
dade para cuidar bem das pes- na instância correspondente, inclusive
soas: direito do povo brasileiro”. nos aspectos econômicos e financeiros, cujas deci-
sões serão homologadas pelo chefe do poder legal-
Quanto aos Conselhos, cabe iniciarmos com um im-
mente constituído em cada esfera do governo. [BRA-
portante esclarecimento. Embora seja comum, in-
SIL, 1990, Lei N° 8142, Art. 1°, § I]
clusive em algumas literaturas sobre o assunto, o
uso da expressão “conselho gestor” em referência O caráter permanente do Conselho de Saúde asse-
aos conselhos de políticas públicas setoriais, gura sua existência em qualquer circunstância,

28
Para entender o controle social na saúde. Brasília: Mi-
nistério da Saúde; Conselho Nacional de Saúde, 2014.
independente de decisão de governo, embora o Discussões sobre questões como legitimidade e
compromisso dos gestores com a abrangência das representa-
existência e manutenção do mesmo As competências dos Conselhos de ções de usuários nos conselhos
Saúde, elencadas na Resolução nº
seja fundamental para seu pleno fun- municipais de saúde são recor-
333, de 2003, do Conselho Nacio-
cionamento. Ao ser definido como nal de Saúde [CNS] são muitas e rentes e revelam um desafio a
instância colegiada, o Conselho de Sa- algumas delas exigem conheci- ser superado em vários muni-
mentos específicos que deman-
úde passa a ter suas decisões toma- dam processos permanentes e cípios. Outro aspecto diz res-
das, obrigatoriamente, de forma co- continuados de capacitação. peito ao investimento na capa-
letiva, ouvidos todos os segmentos citação dos conselheiros muni- 106
nele representados, enquanto o caráter delibera- cipais de saúde para o efetivo exercício de suas fun-
tivo evidencia que suas decisões obrigam os gesto- ções. Sabe-se que a carência de formação/capacita-
res da respectiva instância ao acatamento e cumpri- ção é um dos principais problemas enfrentados por
mento das mesmas, desde que estas sejam tomadas conselheiros municipais de políticas públicas setori-
dentro dos limites constitucionais e da legislação es- ais de diversas áreas, envolvendo representantes
pecífica da saúde ou correlata. Criados por lei, os dos diversos segmentos. As competências dos Con-
Conselhos Municipais de Saúde devem ter a se- selhos de Saúde, elencadas na Resolução nº 333, de
guinte composição: 50% de usuários do SUS, 25% de 2003, do Conselho Nacional de Saúde [CNS] são
representantes do governo e prestadores de servi- muitas e algumas delas exigem conhecimentos es-
ços de saúde credenciados ao SUS e 25% de profis- pecíficos que demandam processos permanentes e
sionais de saúde. continuados de capacitação.

Essas atribuições foram ampliadas pela Lei Comple-


mentar nº 141, de 13 de janeiro de 2012, que define
atribuições específicas aos Conselhos 29 DEFES A D A REDU ÇÃO DA M AIO -
de Saúde referentes ao papel exercido RIDAD E PENAL É ATESTADO D E
SET2017
pelo conselheiro no processo de fiscali- CEGU EIRA COLETIV A
zação, avaliação e controle das despe-
Vivemos tempos difíceis, no Brasil e em todo o
sas com ações e serviços públicos de saúde na
mundo. Tempos de intolerância, de abandono, de
União, Estados, Distrito Federal e Municípios.
negação da vida e de medo. Tempos de desamor.
Se as condições efetivas para o exercício de partici- São reflexos de um processo de adoecimento pau-
pação nos processos de planejamento, avaliação e latino a que estamos submetidos há séculos e com 107
controle social das políticas públicas de saúde já se o qual tendemos, tristemente, a nos acostumar.
apresentam frágeis para os conselheiros municipais
Como decorrência desse adoecimento temos expe-
da área, entre a população de forma geral elas são
rimentado o crescimento de várias formas de vio-
ainda mais precárias, uma vez que lhe faltam noções
lência, que se fortalecem com a ocupação de espa-
mínimas e elementares de direito à saúde, eviden-
ços de poder institucional por grupos ou pessoas de
ciando uma relação diretamente proporcional entre
forte perfil autoritário e crenças fundamentalistas,
acesso à informação e a efetivação do direito à sa-
que desconhecem ou rejeitam o diálogo e o respeito
úde.
à diversidade, inclusive de pensamento e ideias,
como caminhos primordiais para modos de vida
mais saudáveis.

No Brasil, esses grupos, já presentes no parlamento


e em outros espaços de poder institucional, se for-
taleceram após o golpe político-jurídico de 2016 e
suas ofensivas galopam no dorso largo do medo, a e até em algumas cátedras e catedrais, seus defen-
tentar nos impor apatia, indiferença e egoísmo. E sores estão a maquinar novas investidas que lhes
temo, sinceramente, que estejamos a permitir que garantam mais privilégios e maior acúmulo de ri-
alcancem seus piores intentos. queza e poder/influência, mesmo que para isso te-
nham que surrupiar direitos históricos das maiorias
Retrocedemos ao tempo da censura e o uso do
e fazer uma faxina geral que lhes tire do caminho
braço armado do Estado para defender interesses
toda sorte de indesejados, desde os “esfarrapados”
do velho latifúndio volta a se apresentar de forma
da Cracolândia até os povos e comunidades tradici-
escancarada, sem qualquer desfaçatez. Nos últimos
onais que, corajosamente, lutam pra se manter co-
meses temos assistido, paralisados ou indiferentes, 108
nectados à mãe-terra e nela viver em harmonia com
o crescimento da violência no campo e a censura às
todas as formas de vida.
artes, a exemplo do fechamento da exposição “Que-
ermuseu – Cartografias da diferença da arte brasi- Aliás, em tempos de adoecimento, inclusive e so-
leira”, em Porto Alegre [RS], da apreensão de um bretudo espiritual, esses representam mais ameaça
quadro do Museu de Arte Contemporânea de aos “donos do poder” do que os eventuais e desar-
Campo Grande [MS] e da proibição de uma peça de ticulados reclames de alguns poucos que fazem
teatro por um juiz em Jundiaí [SP], afora outras tan- parte das centenas de milhares já conquistados pe-
tas censuras diárias não noticiadas. São representa- las ilusões da sociedade do consumo e pela lógica
ções emblemáticas de um Estado autoritário e a ser- competitiva do ter a qualquer preço, pago muitas
viço dos gostos, do falso moralismo e do poder po- vezes de forma inconsciente e sem qualquer questi-
lítico [mais que econômico] de alguns poucos. onamento, com a negação do outro e a degradação
da nossa casa comum.
Mas, a cultura do desamor não se dá por satisfeita.
Em seus palácios, tribunais, parlatórios e escritórios
Ademais, grande parte da ofensiva das elites brasi- 201730, divulgado recentemente, dos sete países
leiras atualmente se dá, nas palavras de José Gre- menos violentos do mundo na atualidade31, seis
gori29, por mero capricho ideológico. É o caso, se- tem maioridade penal ou criminal mínima de 18
gundo Gregori, da proposta de redução da maiori- anos. Apenas Portugal, que ocupa o terceiro lugar
dade penal que volta à pauta no Congresso Nacio- no ranking, admite, em alguns casos, a idade mí-
nal. Ninguém com o mínimo de bom senso pode nima de 16 anos. Contudo, em 2012 a Comissão de
acreditar no discurso oportunista e totalmente des- Acompanhamento e Fiscalização dos Centros Edu-
provido de qualquer argumento plausível, que ad- cativos publicou um relatório em que considera “um
voga a tese do encarceramento de adolescentes de imperativo civilizacional” Portugal fazer coincidir a
16 anos como solução para os problemas de violên- maioridade penal, 16 anos, com a maioridade civil,
109
cia que nos rodeiam. 18 anos. Segundo o mesmo documento, o mapa de
centros educativos do país teria de se alterar para
Além de equivocadas, as “soluções” apresentadas
receber os jovens que não engrossariam as cadeias
pela cegueira do velho paradigma para a questão
colocam o Brasil na contramão da contemporanei-
dade. De acordo com o Global Peace Index

29 pela Unidade de Inteligência do semanário britânico The


José Gregori, ex-ministro da Justiça do governo Fer-
Economist. O estudo inclui variáveis internas, como vio-
nando Henrique Cardoso e presidente da Comissão de Di-
lência e criminalidade, e externas, como gastos militares
reitos Humanos da Universidade de São Paulo.
e guerras em que o país participa. Os indicadores de paz
30
O Global Peace Index é um indicador que mede o nível interna representam 60% do valor do Índice de Paz Global
de paz e a ausência de violência de um país ou região. e os de paz externa 40%.
Desde 2007, o Institute for Economics & Peace o produz e 31
Pela ordem: Islândia, Nova Zelândia, Portugal, Áustria,
publica, com vários especialistas de institutos de paz e
Dinamarca, República Checa e Eslovênia.
grupos de reflexão e do Centre for Peace and Conflict Stu-
diesda Universidade de Sydney, com dados processados
e que teriam “possibilidades acrescidas de não vol- crítico pouco apurado. Uma das mentiras alardea-
tar a delinquir”. das pelos defensores da redução da maioridade pe-
nal é de que o Estatuto da Criança e do
A partir dos resultados apre-
Assim, a defesa da redução da Adolescente [ECA] protege ou promove a
sentados pelo Global Peace In-
maioridade penal revela, tão
impunidade de menores que cometam
dex podemos concluir, dentre somente, nosso adoecimento
coletivo, nosso empobreci- atos infracionais. O próprio autor da PEC
outras coisas, que a paz de um
mento espiritual e nossa in- 33/2012, senador Aloysio Nunes Ferreira
país, tomando por base os in- competência para resolver os
graves problemas decorrentes [PSDB/SP], atual Ministro das Relações Ex-
dicadores internos, se correla-
de um modo de vida profunda- teriores do [des]governo Temer, argui no
ciona com seus níveis de
mente injusto e irresponsável,
texto de justificativa da proposta que “sob
renda e educação. Além disso, para poupar adjetivos.
a proteção deste mesmo estatuto [o ECA],
os países mais pacíficos têm 110
menores infratores, muitas das vezes pa-
altos níveis de transparência e baixos níveis de cor-
trocinados por maiores criminosos, praticam reite-
rupção, campos em que o Brasil não tem andado
rada e acintosamente delitos que vão desde peque-
muito bem das pernas. Contudo, é importante re-
nos furtos, até crimes como tráfico de drogas e
gistrar que o Global Peace Index sofre de alguns
mesmo homicídios, confiantes na impunidade que a
problemas, como o fato de não incluir indicadores
Constituição e o ECA lhes conferem”.
sobre violência contra mulheres e crianças, por
exemplo. O argumento é tosco e eivado de má fé, posto que
a partir dos 12 anos, qualquer adolescente é respon-
Nesse cenário de guerra ideológica patrocinado pe-
sabilizado pelo ato cometido contra a lei. Como nos
los setores mais conservadores do Estado e da soci-
lembra documento do Movimento Contra a Redu-
edade brasileira, pautada no vale tudo, a mentira se
ção da Maioridade Penal, ”essa responsabilização,
alastra e ganha adeptos desinformados e com senso
executada por meio de medidas socioeducativas O ACESSO À INFORMA-
previstas no ECA, têm o objetivo de ajudá-lo a reco- ÇÃO COMO ELEM ENTO
meçar e a prepará-lo para uma vida adulta de DE PODER PO LÍT ICO 07
acordo com o socialmente estabelecido”. É parte do
Um antigo provérbio português OUT2017
seu processo de aprendizagem que ele não volte a
nos sugere que “quem não sabe,
repetir o ato infracional, afirma o documento.
é como quem não vê”. De alguma forma, a máxima
Assim, a defesa da redução da maioridade penal re- portuguesa se aplica bem à nossa análise nesse
vela, tão somente, nosso adoecimento coletivo, ponto. Como poderá uma comunidade rural, por
nosso empobrecimento espiritual e nossa incompe- exemplo, posicionar-se politicamente na busca de
tência para resolver os graves problemas decorren- seus direitos na área da saúde sem que, sequer,
tes de um modo de vida profundamente injusto e seus integrantes tenham acesso às informações bá-
irresponsável, para poupar adjetivos. 111
sicas sobre quais os direitos dos usuários do SUS? É
As causas da violência, sabemos, são tantas e de preciso saber [aqui no sentido de ter a informa-
matizes tão diversas, que para superá-las precisare- ção] para ver a existência do direito e os caminhos
mos de um esforço coletivo infinitamente maior, a serem percorridos para acessá-lo.
cuja base esteja na compreensão da urgência do Contudo, em “A Era do Poder Compartilhado”, o ci-
cuidado como valor essencial. Só conseguiremos re-
entista de dados Ricardo Cappra [2013], afirma que
solver nossa crise contemporânea pelo amor, o que quem tem poder não é quem tem informação, e sim
pressupõe a superação de nossos medos individuais quem sabe o que fazer com ela. Ou seja: não se trata
e coletivos. Especialmente o medo de acreditarmos
apenas de ter acesso à informação, mas de compre-
em nossa própria capacidade de amar e de transmu- ender como ela poderá ser usada a favor do bem
tar.
comum, no caso da comunidade rural tomada como Esse tem sido o caminho adotado por muitos agen-
exemplo. tes públicos, detentores ou não de mandatos eleti-
vos. No dia 21 de março de 2016 o sitio do jornal “A
Nesse mesmo caso, para que a informação não se
Crítica” [AM] na internet veiculou matéria com a se-
torne privilégio de poucos e, portanto, ferramenta
guinte manchete: “Deputado troca votos por con-
de poder político destes mesmos poucos, com for-
sultas médicas em seu gabinete na ALE-AM”. Se-
tes riscos de desencadeamento ou fortalecimento
gundo a reportagem, o deputado estadual Dr. Go-
de relações de dominação internas, se faz impres-
mes [PSD] transformou o gabinete dele na Assem-
cindível que ela seja compartilhada com toda a co-
bleia Legislativa do Estado [ALE-AM] em consultório
munidade. Será essa informação democratizada,
onde fazia atendimentos médicos e pedia voto dos
ampliada e refletida com todos e por todos, que
pacientes. O parlamentar era pré-candidato à ree-
possibilitará a ampliação do poder político da comu-
leição na Câmara Municipal de Manaus [CMM]. Ele
nidade.
assumiu uma vaga na ALE-AM, em 2015, após o de- 112
Se por um lado, a democratização do acesso à infor-
putado Sidney Leite [PROS] virar secretário de Pro-
mação pode fortalecer ou ampliar o poder político
dução Rural.
de comunidades, organizações e segmentos vulne-
Em setembro de 2007 o jornal “Gazeta do Povo”
rabilizados de uma dada população, a sua detenção
[PR] publicou em seu sitio na internet matéria com
por um ou alguns poucos atores também pode re-
o título “Liberação de exames estaria virando mo-
sultar na velha forma de poder que se sustenta na
eda de política em Matinhos”, município do litoral
negação do direito, na transformação deste em mo-
paranaense, com uma população de cerca de 30 mil
eda de troca e fator de dominação política, econô-
habitantes, integrante da Mesorregião Metropoli-
mica, social cultural e cognitiva, dentre outros.
tana de Curitiba.
De acordo com a matéria jornalística, moradores do Heliodoro], com sede em Guarapuava [PR], e a Terra
município estariam sendo orientados a procurar o de Direitos – Organização de Direitos Humanos, se-
gabinete do prefeito para conseguir a liberação de diada em Curitiba [PR], ambas qualificadas como
exames laboratoriais e medicamentos pagos com pessoa jurídica de direito privado, sem fins econô-
verbas do Sistema Único de Saúde [SUS] e solicita- micos, solicitaram do Instituto Nacional de Coloni-
dos por médicos que trabalhavam no hospital muni- zação e Reforma Agrária [INCRA], através do ofício
cipal Nossa Senhora dos Navegantes. O próprio pre- 042/2014, informações acerca da morosidade para
feito da cidade, Francisco Carlim dos Santos, estaria publicação da portaria de reconhecimento do terri-
recebendo os cidadãos em seu gabinete para auto- tório da comunidade quilombola Invernada Paiol de
rizar a “liberação”. Telha.

Denúncia semelhante à do jornal “Gazeta do Povo” Para justificar a solicitação os requerentes valeram- 113
foi apresentada, de forma explícita, pelos partici- se do que dispõem a Constituição Federal de 1988,
pantes de uma das rodas de conversa que deram a Lei 12.527/2011 e o Decreto 4.887/2003, numa
origem ao trabalho de conclusão de curso no qual a demonstração clara de como o próprio acesso à in-
série de quatro artigos publicados aqui no blog se formação sobre a existência do direito pode ser im-
ancora. Ademais, relatos que apontam na direção portante para comunidades e grupos sociais histori-
da “privatização” e do controle da informação por camente marginalizados.
agentes públicos como forma de manutenção do
A iniciativa foi objeto de matéria publicada no sitio
poder, permearam as rodas de conversa na maioria
da organização Terra de Direitos na internet, com o
das comunidades visitadas.
título “INCRA atrasa mais de um ano para declarar
No dia 4 de abril de 2014, a Associação Pró Reinte- limites territoriais do quilombo Paiol de Telha” e
gração da Invernada Paiol de Telha [Associação teve ampla repercussão junto a organizações da
sociedade civil paranaense, especialmente aquelas
vinculadas às lutas das comunidades e povos tradi-
17 NÃO H Á EDUCAÇÃO
SEM REFLEX ÃO
cionais. Conforme destacou a matéria “o pedido se OUT2017
No Crato, município de cerca
ancora na Lei de Acesso à Informação, com base na
de 130 mil habitantes, locali-
prerrogativa de que ‘não poderá ser negado acesso
zado no Cariri cearense, o vereador Roberto Pereira
à informação necessária à tutela judicial ou adminis-
Anastácio [PODEMOS] apresentou no dia 16 de ou-
trativa de direitos fundamentais’, conforme o artigo
tubro o projeto de emenda à Lei Orgânica Municipal
21 da Lei”. [TERRA DE DIREITOS, 2014]
[PE LOM nº 1610001/2017] que “dispõe sobre a ve- 114
O fato é que, ao longo da história e ainda hoje, a in- dação da ideologia de gênero na rede municipal de
formação vem sendo usada como elemento de po- ensino e dá outras providências”. A iniciativa do ve-
der, seja na perspectiva do controle do Estado sobre reador está em estreita sintonia com o que vem
a sociedade e da negação do direito, seja como sendo protagonizado pelo bloco ultraconservador
ponte para processos de emancipação social e efeti- no Congresso Nacional brasileiro, formado sobre-
vação de direitos negados ou violados por agentes tudo por parlamentares da chamada bancada BBB
públicos e privados. [boi, bíblia e bala],

Nesse contexto, é fundamental considerar que a in- Tecnicamente mal elaborada, com redação confusa
formação não pode ser reduzida a uma visão instru- e uso de terminologias já em desuso – a exemplo de
mental, ou seja, a um conjunto de ferramentas de “grade curricular” – a propositura do parlamentar
transmissão de conteúdos. É preciso entende-la cratense se insere no bojo das investidas patrocina-
também como processo social de produção de sen- das pelo “movimento” Escola sem Partido que, as-
tidos, em espaços de lutas e negociações. sumidamente, defende o cerceamento da liberdade
de ensinar, propondo um receituário para as escolas
que proíbe qualquer ação reflexiva sobre a história Federal de 1988, que não pode ser negada ou con-
e a realidade. traditada pela Lei Orgânica do Município. Ademais,
seu conteúdo é recheado de autori-
Em Nota Técnica de julho de 2016, a
A proposta é uma afronta tarismo e totalmente deslocado do
Procuradoria Federal dos Direitos do
clara à “liberdade de apren- contexto atual da educação e suas
Cidadão, vinculada ao Ministério Pú- der, ensinar, pesquisar e divul-
gar o pensamento, a arte e o novas demandas.
blico Federal, afirma que a Proposi-
saber” preconizada no inciso II
ção Legislativa 867/2015, de inicia- O artigo 205 da Constituição esta-
do artigo 206 da Carta Magna
tiva do Deputado Federal Izalci Lucas de 1988 e apresentada como belece que “A educação, direito de
Ferreira [PSBB/DF], que inclui, entre um dos princípios do ensino no todos e dever do Estado e da famí-
Brasil.
as diretrizes e bases da educação na- lia, será promovida e incentivada 115
cional, o “Programa Escola sem Par- com a colaboração da sociedade,
tido”, é inconstitucional porque “está na contramão visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu
dos objetivos fundamentais da República Federativa preparo para o exercício da cidadania e sua qualifi-
do Brasil, especialmente os de ‘construir uma socie- cação para o trabalho”. Certamente os objetivos
dade livre, justa e solidária’ e de ‘promover o bem constitucionais do pleno desenvolvimento da pes-
de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, soa e seu preparo para o exercício da cidadania, que
cor, idade e quaisquer outras formas de discrimina- não por acaso antecedem ao da qualificação para o
ção”. trabalho, ficarão seriamente comprometidos se o
plenário da Câmara Municipal do Crato acolher a
Seguindo o raciocínio da Procuradora Federal Debo-
propositura do vereador Roberto Anastácio.
rah Duprat, que assina a referida nota técnica, é fá-
cil concluir que a proposição do vereador Roberto No texto do projeto de emenda à LOM o autor pro-
Pereira Anastácio fere, frontalmente, a Constituição põe que fique “terminantemente proibida na grade
curricular da Rede Municipal de Ensino do Municí- nas escolas públicas e particulares do município a
pio do Crato e na rede privada, a disciplina denomi- intolerância e as várias outras formas de violência
nada de ideologia do gênero, bem como, toda e que afetam gays, lésbicas, transexuais, travestis e
qualquer disciplina que tente orientar a sexualidade outros gêneros em nosso município.
dos alunos ou que tente extinguir o gênero mascu-
Contudo, o que não podemos nos esquecer é de que
lino e/ou feminino como gênero humano”.
a misoginia, a homofobia, a transfobia e várias ou-
A proposta é uma afronta clara à “liberdade de tras formas de ameaça à vida têm origem nas histó-
aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensa- ricas questões de gênero perpetuadas em nossa so-
mento, a arte e o saber” preconizada no inciso II do ciedade patriarcal, machista e prenhe de preconcei-
artigo 206 da Carta Magna de 1988 e apresentada tos. Negar à comunidade escolar a possibilidade de 116
como um dos princípios do ensino no Brasil. conversar e refletir criticamente sobre isso é perpe-
tuar uma cultura de intolerância e ódio que só am-
Afora a inconsistência do texto da propositura, que
plia o fosso de desigualdade e injustiça social. É, so-
apresenta expressões estapafúrdias ou mal resolvi-
bretudo, negar a possibilidade de nutrirmos a espe-
das conceitualmente como, por exemplo, “ideologia
rança em um mundo melhor. De mais amor, acolhi-
do gênero”, o que fica claro é que, para seu autor,
mento e respeito à diversidade e às singularidades
pouco importa que mulheres continuem sendo as-
que nos fazem humanos.
sassinadas ou violentadas todos os dias no municí-
pio do Crato, que apresenta um dos piores índices
de violência conta a mulher no Cariri. De acordo
com a proposta do vereador, não é papel da escola
promover o diálogo amplo e democrático sobre a
questão. Também não pode ser objeto de reflexão
CONJUGANDO O meio pessoas com a sensibilidade e a inquietação de
20 VERBO ESP ERANÇA Ana Carolina Bartolamei Ramos e Fernanda Orso-

OUT2017
marzo.
“Vivemos esperando dias me-
lhores, dias de paz, dias a mais, Pois bem. Feita a postagem, peguei-me a conjugar o

dias que não deixaremos para trás. Vivemos espe- verbo esperança: eu esperanceio, tu esperanceias,

rando o dia em que seremos melhores. Melhores no ele esperanceia, nós esperanceamos … Resolvi brin-

amor, melhores na dor, melhores car com o prefixo e o sufixo do

em tudo”.32 Mas, enquanto espero – e por verbo que acabara de inventar e eis
já ter esperado tempo de sobra
que me vem a percepção de que se
A palavra surgiu quando comentei – me sirvo da ceia que, posta à
mesa simples e generosa, me trata, na verdade, da junção de 117
uma postagem de partilha do artigo
nutre de amor, solidariedade, duas palavras já conhecidas da lín-
“Mesmo que as correntes sejam di- acolhimento, bonança e tantos
gua portuguesa: espera e ceia.
ferentes, somos todas prisioneiras”, outros ingredientes essenciais
à celebração da vida. Da vida Sim. A esperança é, de alguma
escrito por Ana Carolina Bartolamei plena e em abundância.
Ramos e Fernanda Orsomarzo, que- forma, um tempo de espera em

rida amiga, ambas juízas de Direito do Tribunal de dias melhores, em um porvir que

Justiça do Estado do Paraná e membras da Associa- não espera a hora de chegar. Mas, enquanto espero

ção Juízes para a Democracia. Lá escrevi: – Em tem- – e por já ter esperado tempo de sobra – me sirvo

pos de justiça tão injusta, reconforta-me e, de al- da ceia que, posta à mesa simples e generosa, me

gum modo, me “esperanceia”, saber que há nesse nutre de amor, solidariedade, acolhimento,

32
Dias Melhores. Jota Quest. Álbum: Dias Melhores. Com-
positor: Rogério Flausino.
bonança e tantos outros ingredientes essenciais à mesmo quando as elites hipócritas pensam e dizem
celebração da vida. Da vida plena e em abundância. que uma dose diária de ração lhes basta para ser fe-
liz.
E assim, encontro condições [físicas, psíquicas, emo-
cionais, sociais e espirituais] para Minha ceia se nutre do grito de
recusar o ódio, a intolerância, o O cardápio que escolhi para essa milhões de injustiçados por uma
ceia tem origem na ancestrali-
abandono, a indiferença e o medo dade e na sabedoria dos povos e justiça seletiva, racista e elitista,
que me oferecem em um cardápio comunidades tradicionais que re- que vê na condição social uma
conhecem a Mãe Terra como
carcomido pelas traças de um mo- confissão prévia de culpa. Bebe da
nossa casa comum e lutam, diu-
delo de sociedade que não conse- turnamente, pelo direito de a ela dignidade da comunidade LGBT
gue ver além do seu próprio um- permanecer conectados. que, todos os dias, paga o preço
bigo e seus dogmas. de não se enquadrar no modelo
118
binário e autoritário de gênero que tentam nos im-
O cardápio que escolhi para essa ceia tem origem na
por. Tem como sobremesa a luta diária dos sem
ancestralidade e na sabedoria dos povos e comuni-
teto, sem-terra, sem trabalho e sem pão, que com-
dades tradicionais que reconhecem a Mãe Terra
põem o amplo exército de excluídos da adoecida so-
como nossa casa comum e lutam, diuturnamente,
ciedade pós-moderna.
pelo direito de a ela permanecer conectados.
E é por ter apendido a conjugar o verbo esperança
Se alimenta da rebeldia da juventude pobre, negra
que me recuso a desistir dos meus sonhos. Que re-
e periférica que não se curva ao autoritarismo do
jeito qualquer senso comum ou qualquer tentativa
braço repressor do Estado segregacionista. Se nutre
de me impor a desesperança [não esperança] como
da teimosia dos invisíveis da sociedade do aban-
fato consumado.
dono, que insistem em sonhar com a cidadania,
Assim, mirando o horizonte como a utopia
que me impulsiona a seguir caminhando,
01 ANTES QU E LHE AP RIS IONEM
A ALM A, D ESOBED EÇA!
ancoro-me em Eduardo Galeano para NOV2017
No distante ano de 1849 o poeta, natura-
lembrar que “Sonhar não faz parte dos
lista e filósofo Henry David Thoreau, em
trinta direitos humanos que as Nações Unidas pro-
sua clássica obra “Desobediência Civil”, já nos con-
clamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por
vidava a refletir sobre a seguinte questão: – Existem
causa do direito de sonhar e pela água que dele
leis injustas; devemos submeter-nos a elas e cum-
jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede.
pri-las, ou devemos tentar emenda-las e obedecer a
Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que
elas até a sua reforma, ou devemos transgredi-las 119
hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés
imediatamente?
no chão”33.
O fato é que, desde Thoreau, a ideia da desobediên-
O convite que se apresenta é para que, juntxs, con-
cia civil como ferramenta política pacífica ganhou
juguemos o verbo esperança e façamos acontecer,
força e expressão ao longo da história recente da
aqui e agora, um novo tempo, apesar dos perigos.
humanidade, especialmente através dos movimen-
tos liderados por Mahatma Gandhi [1869-1948] e
Martin Luther King [1929-1968]. No campo teórico
a compreensão da desobediência civil como ato po-
lítico encontra abrigo no pensamento de Hannah

33
O direito de sonhar. Poema de Eduardo Galeano [1940- no Diário Argentino [página 42], em 29 de outubro de
2015], jornalista e escritor uruguaio. O texto foi publicado 1997, com o título “El derecho de soñar”.
Arendt, John Rawls, Michael Walzer e Etienne de La Regimento Interno da Câmara Municipal do Crato, a
Boétie, só para citar alguns. Comissão de Constituição e Justiça da casa conver-
teu a propositura do vereador Roberto Anastácio
No Brasil, vivemos um tempo em que a desobediên-
[Podemos] em projeto de lei, reduzindo assim o
cia civil se apresenta como uma urgência frente ao
quórum para aprovação da matéria, que mesmo
acelerado processo de cerceamento de liberdades
sem sustentação constitucional e regimental foi
de expressão e pensamento e da onda crescente de
aprovada em sessão realizada no dia 23 de outubro
retirada de direitos conquistados com muita luta ao
desse ano e agora aguarda sanção do prefeito José
longo de décadas.
Ailton Brasil [PP], que precisará decidir pela sanção
Algumas decisões já tomadas nos executivos, nos le-
ou veto sob forte pressão de organizações e movi-
gislativos e nos judiciários de várias partes do país,
mentos sociais contrários à proposta.
de tão absurdas ou insanas, não pedem outra rea-
Diante do cenário posto acima e dialogando de
ção que não a indiferença e a desobediência. É o 120
forma estreita com a ideia de desobediência civil, a
caso, por exemplo, da tentativa de impedir que ins-
Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa –
tituições de ensino, públicas e particulares, abor-
EPUCA, organização da sociedade civil sediada na ci-
dem a temática de gênero em suas atividades curri-
dade do Crato, está disponibilizando, através do
culares e extracurriculares. Sobre isso escrevi recen-
projeto PontoDoc, vários documentários sobre a te-
temente, ao analisar, especificamente, a proposta
mática de gênero. A proposta da Escola é que qual-
de emenda à Lei Orgânica do município do Crato, no
quer pessoa, instituição ou organização interessada
Cariri cearense, que dispõe sobre o tema.
possa organizar uma sessão livre e gratuita do pro-
Não bastasse a inconstitucionalidade da proposta,
jeto para exibição de um dos documentários dispo-
numa manobra torpe que atropela o próprio
nibilizados. Após cada sessão será realizada uma
roda de conversa entre os presentes, sobre o docu- A exposição é um convite à reflexão sobre os nossos
mentário e suas interfaces. preconceitos e a cultura da rotulação, dos estereó-
tipos, ainda muito presente entre nós. A apresenta-
Além disso, está aberta a qualquer instituição pú-
ção de Amores Perfeitos na UFCA tem um signifi-
blica, organização da sociedade civil ou coletivo que
cado todo especial, já que se trata de um ambiente
tenha interesse, a Exposição Amores Perfeitos, cu-
propício ao diálogo e à reflexão, mas é também um
jas fotos foram gentilmente cedidas à EPUCA pela
lugar onde o preconceito, vez ou outra, se revela de
autora e pelo autor.
forma preocupante.
Apresentada ao Ceará durante a quinta edição da
São iniciativas simples como essas que podem con-
Semana Freiriana do Cariri, realizada no mês de se-
tribuir para, de forma pacífica, rejeitarmos iniciati- 121
tembro desse ano, a Exposição reúne 14 fotos de
vas do Estado que, na contramão do tempo, tentam
Maria Clara Adams e René Cabrales, que retrataram
nos impor decisões autoritárias ou medidas nasci-
casais que fogem aos padrões impostos pelo senso
das de rompantes fundamentalistas que cerceiam
comum como “normais”. Além das questões de gê-
direitos, disseminam ódio e legitimam a intolerân-
nero e cor, abordagens comuns quando o objetivo é
cia.
promover a reflexão sobre temas como preconceito
e intolerância, a exposição apresenta casais com di- Assim, antes que a violação de direitos, a censura
ferenças de altura, de condição física e até de gos- escancarada ou velada e a repressão estatal em
tos. Todos têm em comum o fato de que o amor que curso nos sufoquem, parafraseando o poeta italiano
sentem um pelo outro está acima de qualquer dife- Petrarca, lhes asseguro, por fim, que desobedecer é
rença e talvez se fortaleça exatamente na capaci- preciso. Temer não é preciso.
dade de cada um acolher e respeitar essas diferen-
ças.
14
ONDE SOBRA ÓDIO, cidade e foram praticados, principalmente, por ho-
NOV2017
FALTA S ENSATEZ mens brancos e jovens.

Uma das principais marcas do nosso tempo tem sido Os dados de São Paulo são apenas uma amostra do

a dificuldade de dialogar e acolher o diferente. Essa vem acontecendo em todo o país, valendo ressaltar

dificuldade está expressa, de forma mais extrema, que cada vez mais o discurso de ódio tem sido usado

através do ódio, esse sentimento que nos apequena para fins políticos, aproveitando-se do clima de in-

e que, invariavelmente, está associado ao medo. Es- segurança que nos rodeia e dos muitos preconceitos

pecialmente o “medo de mudança, medo de deixar velados que acompanham nossa formação sociopo-

os outros viverem de uma maneira diferente da lítica e cultural, geração após geração. Não raro, dis-

sua”, conforme declarou a filósofa Judith Butler, ao cursos de ódio e intolerância encontram eco nas fa-
122
comentar as manifestações de ódio que recebeu du- las e bandeiras de partidos e agentes políticos bra-

rante sua passagem recente pelo Brasil. sileiros, desde o plano nacional até os menores mu-
nicípios desse imenso país.
Matéria publicada pelo jornal Folha de São Paulo no
último domingo [12], assinada pelo jornalista Wil- O fato é que o ódio nos paralisa e nos rouba a sen-

liam Cardoso, aponta que “um crime de ódio é re- satez, virtude sem a qual o discernimento e a pon-

gistrado a cada 12 horas na cidade de São Paulo”. A deração perdem espaço e o sábio exercício da es-

reportagem apurou dados registrados pela Polícia cuta se faz ausente. Podemos até ouvir, por “educa-

Civil paulistana entre janeiro de 2016 e agosto desse ção” ou “tolerância”. Mas ao menor sinal da pre-

ano e concluiu que os ataques de ódio contra ne- sença do ódio esbarramos na mera recepção so-

gros, gays, imigrantes ou por motivações religiosas nora, bloqueando qualquer possibilidade de entrega

ocorreram com mais frequência na região central da à escuta como processo sensorial intimamente li-
gado ao sentimento e à empatia.
A propósito, em 2009 a escritora nigeriana Chima- Por isso, qualquer tentativa de cerceamento do diá-
manda Ngozi Adichie, durante uma conversa no logo, a exemplo das várias propostas de proibição
TEDx, nos alertava para “o perigo de uma história da abordagem de alguns temas em sala de aula, é
única”. A fala de Adichie é um belo convite à refle- uma declaração de ódio e uma tentativa insana de
xão sobre a importância da empatia, essa poderosa condenar-nos a uma vida eticamente empobrecida
e ainda desafiadora capacidade de colocar-se no lu- e espiritualmente vazia.
gar do outro.
Por que, então, ainda há quem aposte no ódio como
Além disso, como nos lembrava o líder sul africano caminho? Talvez porque seja ele uma das maiores
Nelson Mandela, “Ninguém nasce odiando outro fontes do medo que nos faz reféns das mazelas da
pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por pós-modernidade, entre as quais se inclui a aliena-
123
sua religião. Para odiar, as pessoas precisam apren- ção política e o fundamentalismo, heranças muito
der, e se podem aprender a odiar, elas podem ser antigas da humanidade e cada dia mais presentes
ensinadas a amar”. entre nós. Do que têm medo, então, os pusilânimes
guardiões do ódio. O escritor moçambicano Mia
Mas, é possível exercitar a empatia e aprender a
Couto nos dá a dica: – há quem tenha medo que o
amar sem diálogo? A reposta é clara e simples: sem
medo acabe.
diálogo não há troca, não há partilha, não há apren-
dizado. O diálogo, que pressupõe a escuta, é ponte O fato é que, vencido o medo e permitida que a sen-
larga para a construção de relações alicerçadas na satez se faça presente, posso até não ter motivos
empatia e no amor. Sem ele, o ódio se impõe e a sen- para amar alguém ou suas ideias e opiniões. Mas,
satez é encarcerada nas masmorras do preconceito terei todos os motivos para não odiar. Fica o con-
e da indiferença. vite.
QUANDO A OMISSÃO É S INÔ- 02 Justiça, para análise e parecer conforme

NIMO D E CUMPLICIDAD E estabelece o rito do processo legislativo.


DEZ2017
Como deve ser do conhecimento da mai- A Comissão de Constituição e Justiça [CCJ],

oria dos leitores, no dia 16 de outubro obrigatória em todas as casas legislativas,

desse ano o vereador Roberto Anastácio [Pode- tem o papel de identificar, na fase de instrução, se

mos], do município do Crato, no Cariri cearense, o projeto de lei atende, quanto ao seu conteúdo e

apresentou projeto de emenda à Lei Orgânica Mu- quanto a sua forma, os requisitos constitucionais

nicipal através do qual propunha “a vedação da ide- para a sua tramitação. O artigo 66 do Regimento In-

ologia de gênero na rede municipal de ensino”, terno da Câmara do Crato estabelece que “compete

numa redação recheada de equívocos conceituais, à Comissão de Constituição e Justiça manifestar-se

erros técnicos grosseiros e conteúdo inconstitucio- sobre todos os assuntos entregues à sua aprecia-

nal [ver artigo anterior]. A proposta gerou a imedi- ção quanto ao seu aspecto constitucional, legal ou

ata reação de várias instituições, organizações e jurídico e quanto ao seu aspecto gramatical e ló-

segmentos sociais, a exemplo da Ordem dos Advo- gico, quando solicitado o seu parecer por imposição
124
gados do Brasil [OAB] – subsecção Crato, do Labora- regimental ou por deliberação do Plenário”.

tório de Pesquisa em História Cultural [LAPEHC] da Contudo, os vereadores integrantes da referida Co-
Universidade Regional do Cariri e de movimentos missão, ignorando a inconstitucionalidade da pro-
sociais locais. posta e o disposto no próprio Regimento Interno da

Após o recebimento da matéria pela Mesa Diretora Câmara, optaram por apresentar um projeto substi-

da Câmara Municipal do Crato, o projeto foi enca- tutivo que, além de repetir erros técnicos e concei-

minhado às devidas comissões permanentes da tuais semelhantes aos do texto original, tornava

casa, dentre elas a Comissão de Constituição e mais fácil o processo de aprovação da matéria, uma
vez que a mudança de projeto de emenda à Lei Or- [PP], que teve 15 dias úteis para decidir entre a san-
gânica para projeto de emenda ao Plano Decenal de ção ou o veto. Na primeira opção a decisão do ple-
Educação reduziu o quórum de aprovação de três nário da Câmara se converteria em lei por ato do
quintos para maioria simples. chefe do Executivo Municipal, enquanto no se-
gundo caso a matéria retornaria à Câmara, a quem
Apenas para esclarecimento do leitor, de acordo
caberia decidir pelo acatamento ou derrubada do
com o parágrafo primeiro do artigo 37 da Lei Orgâ-
veto.
nica do Crato, a proposta de emenda à Lei Orgânica
“será discutida e votada em dois turnos, conside- Ignorando a inconstitucionalidade do projeto, o que 125

rando-se aprovada se obtiver, em ambos, três quin- lhe dava motivos de sobra para lançar mão da prer-
tos dos votos dos membros da Câmara Municipal” rogativa do veto, o prefeito Zé Ailton, cedendo à
[redação dada pela Emenda n° 07, de 12 de setem- pressão de grupos de interesse dentro e fora do Le-
bro de 2001]. Assim, para aprovação da proposta gislativo Municipal, optou pela omissão e deixou
como projeto de emenda à Lei Orgânica seriam ne- correr o prazo de 15 dias sem se manifestar sobre a
cessários 12 votos e dois turnos de votação com in- matéria.
tervalo de dez dias entre uma sessão e outra.
Na ausência da sanção pelo chefe do Executivo Mu-
A manobra da CCJ deu certo e a proposta foi apro- nicipal, por força de lei o projeto retornou ao Legis-
vada no dia 23 de outubro, com apenas 9 votos, em lativo para promulgação obrigatória, o que aconte-
sessão única, bastante tumultuada e conduzida sem ceu na última terça-feira [28], por ato do vereador
a devida observância ao processo legislativo. Florisval Coriolano [PRTB], presidente da Câmara
Municipal do Crato. O que começou com um deva-
No dia 31 de outubro o autógrafo da matéria apro-
neio irresponsável de um vereador cratense agora
vada no dia 23 foi entregue ao prefeito Zé Ailton
tem nome: Lei nº 3.355/2017.
O que não podemos esquecer é que a
omissão do prefeito Zé Ailton o torna cúm-
22 2018 POD ERIA S ER ELEITO O
ANO NACIO NAL DA BADERNA
plice de uma das maiores imoralidades DEZ2017
Depois de um ano marcado por retroces-
praticadas pelo Legislativo Municipal e re-
sos políticos, retirada de direitos sociais e
vela os bastidores do poder cratense, que tende a
cerceamento de liberdades, a juventude brasileira
colocar o corporativismo, os acordos políticos, os in-
bem que poderia eleger 2018 como o ano nacional
teresses pessoais e o fundamentalismo religioso
da baderna. Uma forma política pacífica de se opor
acima do direito à “liberdade de aprender, ensinar,
às forças do atraso que nos rondam diuturnamente,
pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber”
romper a apatia que tomou conta de muitos de nós
preconizada no inciso II do artigo 206 da Carta
em 2017 e, ao mesmo tempo, celebrar os 190 anos
Magna de 1988 e apresentada como um dos princí-
de nascimento da dançarina italiana Marietta Ma-
pios do ensino no Brasil.
ria Baderna.
Resta agora às organizações da sociedade civil, aos
Nascida na Itália, em 5 de julho de 1828, Maria Ba-
movimentos sociais e aos cidadãos e cidadãs craten-
derna viveu no Rio de Janeiro no século XIX e escan-
ses recorrer da decisão que reúne insanidade, má fé
dalizou a sociedade escravagista brasileira ao apren-
e covardia, pela via judicial. Uma opção é o ingresso
der e difundir, em seus espetáculos – no Rio de Ja- 126
de Ação de Descumprimento de Preceito Funda-
neiro, em Recife e em outras cidades – as manifes-
mental [ADPF], instrumento destinado a evitar ou
tações da cultura africana perseguidas pelas autori-
reparar lesão a preceito fundamental resultante de
dades.
ato do Poder Público. Com a palavra o Ministério
Público e as organizações da sociedade civil craten- Mulher de espírito rebelde e contestador, muito à

ses. frente de seu tempo, Baderna se interessou pelos


ritmos afro-brasileiros e saiu às elites se encarregam de distorcer seu
ruas para ver o requebrar das Mais de um século e meio de- real significado valendo-se, sobre-
pois, o espírito libertário e con-
mulatas. Em pouco tempo foi testador de Marietta Maria Ba- tudo, da influência da mídia conserva-
considerada a musa do lundum, derna continua sendo inspira- dora. Com Maria Baderna e seus se-
ção para a resistência da juven-
da cachucha e da umbigada, dan- guidores não foi diferente. Em artigo
tude brasileira que se opõe ao
ças com movimentos bastante autoritarismo de Estado e ao publicado na edição 114 do jornal “A
ousados para a época. Em meio à moralismo de conveniência das Nova Democracia”, em agosto de
elites conservadoras e reacio-
polêmica de que ela estava “cor- nárias do Brasil do século XXI. 2013, Mário Lúcio de Paula, destaca
rompendo” a juventude brasi- que “os jornais das classes dominan-
leira, aqueles que defendiam seu espírito transgres- tes, que no princípio adotaram o termo ‘baderna’
sor passaram a ser chamados de baderneiros. como sinônimo de elegância, passaram a utilizá-lo 127
para designar arruaça e libertinagem”.
Ao contrário da associação dada pelas elites conser-
vadoras brasileiras, de antes e de hoje, que vincula O fato é que, mais de um século e meio depois, o
a expressão baderna a confusão, bagunça e desor- espírito libertário e contestador de Marietta Maria
dem, as manifestações protagonizadas pelos bader- Baderna continua sendo inspiração para a resistên-
neiros [seguidores e simpatizantes de Maria Ba- cia da juventude brasileira que se opõe ao autorita-
derna] eram pacíficas e tinham como principal rismo de Estado e ao moralismo de conveniência
marca o batimento ritmado de pés no chão, numa das elites conservadoras e reacionárias do Brasil do
alusão aos passos de dança da bailarina italiana século XXI.
acolhida pelo povo e rechaçada pelas elites.
Mesmo quem não conhece sua história, tem o le-
Contudo, sempre que as manifestações populares gado da “bailarina do lundum” a lhe inspirar e urge
começam a incomodar e ameaçar o status quo, as elegermos a baderna como uma das formas de
resistência e luta política em 2018, não
a partir do significado manipulado
28 PARA MU ITO ALÉM DAS ILUSÕES

Em todo mundo, temos assistido processos


dado ao termo pelos conservadores de DEZ2017
de disputas polarizadas pelo comando de go-
plantão, e sim no seu sentido e forma
vernos nacionais e locais que colocam, de um
originais.
lado, forças ultraconservadoras que assumem, de
Em tempos de tanta ameaça à vida e à liberdade, forma escancarada seus discursos de ódio, intole-
que possamos nos inspirar no mito de uma corajosa rância e ameaça à vida; e do outro, forças conside-
mulher que ousou desafiar as normas de uma soci- radas progressistas que tem em seus discursos – e
edade conservadora e escravista e cujo fantasma, até em algumas de suas práticas – a defesa de direi-
segundo Corvisieri34, ainda ronda no céu do Rio de tos humanos, uma perspectiva ecológica [ainda
Janeiro [e de outras cidades brasileiras], “com um rasa], um certo grau de compromisso com a justiça 128
sorriso ambíguo […], como se quisesse conservar social e com o chamado Welfare State [Estado de
uma margem de vaga e etérea elegância continu- Bem-Estar Social].
ando sua dança, estrela entre as estrelas”.
Contudo, nenhum dos projetos de governo em dis-
puta em todo mundo atualmente [e desde sempre]
tem a centralidade de suas propostas e ações na
vida humana e não humana, nem se compromete
com o rompimento das amarras do que o escritor
português José Saramago chamou de “democracia

34
O jornalista italiano Sílverio Corvisieri é autor do livro
Maria Baderna: a bailarina de dois mundos.
sequestrada, condicionada, ampu- essas e outras corporações valem-
tada”, que limita o poder do cidadão O fato é que os governos em se de sua capacidade de captura
todo mundo, conservadores ou
a “tirar um governo de que não progressistas, estão cada vez constante do poder político, jurí-
gosta e por outro de que talvez ve- mais reféns do capital e suas dico e midiático. Basta ver os casos
variações, especialmente, o ca-
nha a gostar”. Em todos eles o cen- da Monsanto e da Google e suas
pital especulativo, aquele que
tro de seus compromissos continua nada produz, mas se agiganta pesadas ofensivas de lobby em
sendo com a economia e, em meio a de forma assustadora. todo o mundo, só para citar dois
recuos e avanços pontuais, o mer- exemplos.
cado se fortalece cada vez mais como esse senhor
Portanto, uma das primeiras e mais importantes
todo poderoso, invisível e inquestionável, que tudo
questões que se apresenta é entendermos que 129
determina e a todos paralisa e domina, como um
quem detém o poder e determina as regras do jogo
mestre do ilusionismo a quem obedecemos cega-
nesse mundo de economia globalizada do século XXI
mente.
são as grandes corporações que, sequer dependem
O fato é que os governos em todo mundo, conser- dos governos nacionais e locais para a tomada ou
vadores ou progressistas, estão cada vez mais re- implementação de algumas decisões. Em seu mais
féns do capital e suas variações, especialmente, o recente livro [A Era do Capital Improdutivo] o eco-
capital especulativo, aquele que nada produz, mas nomista Ladislau Dowbor afirma que “o poder mun-
se agiganta de forma assustadora. São grandes ins- dial realmente existente está nas mãos de gigantes
tituições financeiras como Barclays Bank, JPMorgan que ninguém elegeu e sobre os quais há cada vez
Chase&Co e Goldman Sachs, que lucram às custas menos controle”.
de aplicações que não servem ao conjunto da soci-
Tanto Dowbor quanto Saramago denunciam esse
edade. Para se manter no controle da situação,
deslocamento cada vez mais acentuado do poder
para fora do controle e, sequer, do conhecimento para um desastre psicológico, social e ecológico. Do-
dos cidadãos. Saramago nos lem- minados pela tecnologia e o con-
bra que as grandes decisões mun- Mais do que democratizar a econo- sumismo, vamos perdendo o ver-
mia e os processos de tomada de
diais são tomadas em uma outra decisões, desde a esfera local até a dadeiro significado da vida, que é
esfera e enfatiza que “nenhum global, é preciso redescobrir e/ou a paz e a felicidade”.
fortalecer modos de vida e formas
desses organismos [FMI, Banco
de ser e estar nesse planeta-mãe Por fim, a terceira questão, ainda
Mundial, OMC, etc.] é democrá- Terra, cuja referência seja o cui- 130
mais importante, nos convida a
tico”. “Portanto, como é que po- dado e a reconexão à grande teia,
afastando-se radicalmente de tudo entender que não há saída para
demos continuar a falar de demo- que nega ou ameaça a vida, em toda essa grave situação dentro
cracia se aqueles que efetiva- suas múltiplas dimensões.
dos limites desse velho modelo,
mente governam o mundo não
qualquer que seja o apelido que
são eleitos democraticamente pelo povo?”, questi-
venha a receber. Mais do que democratizar a eco-
ona o escritor português.
nomia e os processos de tomada de decisões, desde
A segunda questão tem a ver com a urgência do a esfera local até a global, é preciso redescobrir
rompimento com esse ciclo vicioso que nos aprisi- e/ou fortalecer modos de vida e formas de ser e es-
ona às ilusões do mundo pós-moderno e nos empo- tar nesse planeta-mãe Terra, cuja referência seja o
brece a cada dia, destruindo, numa velocidade as- cuidado e a reconexão à grande teia, afastando-se
sustadora, a mãe Terra [nossa casa comum] e a radicalmente de tudo que nega ou ameaça a vida,
grande teia da vida que até então tem nos susten- em suas múltiplas dimensões. Voltando a Dalai
tado, mesmo após nosso afastamento dela pela via Lama, é preciso compreender que “o amor e a com-
da arrogância antropocêntrica. Como nos alerta Da- paixão por todos os seres, é a nossa única salvação”.
lai Lama, líder do budismo tibetano, “Caminhamos
Precisamos, com urgência superar SOBRE EDUCAÇÃO, COERÊNCIA E CUIDADO
o adoecimento individual e coletivo 02 Precisamos ainda encontrar um nome para os
a que fomos submetidos e que que valorizam mais a esperança do que as ex-
FEV2018
apresenta, dentre seus sintomas, o pectativas. Precisamos de um nome para os que
que o Papa Francisco chamou de amam mais as pessoas do que os produtos, os
cardiosclerose, essa triste marca da sociedade pós- que acreditam que ninguém é desinteressante.

moderna que tem nos empurrado para o abismo do [Ivan Illich, 1971]
esquecimento de questões fundamentais como o
Tenho acompanhado, sobretudo na última década,
amor, o perdão, a empatia, o acolhimento à diversi-
várias discussões acerca da “crise” do atual modelo
dade, a solidariedade. Que tem nos impossibilitado
de educação no Brasil e em outras partes do mundo.
de sermos fonte de vida [húmus], nos afastando da
Entre as principais críticas a esse modelo se colocam
nossa própria humanidade.
o seu forte viés conteudista, a escassez de diálogo
131
Nessa direção, o patriarca cambojano Maha Ghosa- que caracteriza as relações verticalizadas presentes
nanda, um dos mais importantes trabalhadores in- na grande maioria das instituições de ensino e o
ternacionais pela paz, ensinava: – Tome conta do claro compromisso de suas matrizes curriculares
presente e o futuro será bom. Ele dizia que o pre- [em muitas escolas ainda chamadas de “grades cur-
sente é a mãe do futuro. “Tome conta da mãe e a riculares”] com a mera formação de mão de obra
mãe tomará conta do filho”. Sim! Outro mundo é para o marcado de trabalho, em detrimento da for-
possível. Mas, construí-lo desde já, a partir de cada mação cidadã e da reflexão crítica sobre a realidade
lugar onde vivemos, é tão necessário quanto ur- e os contextos políticos, sociais, culturais e econô-
gente. micos locais, nacionais e globais.
Entretanto, para além dessas questões, penso ser diário do amor, da solidariedade, da empatia, da
necessário refletir sobre duas outras. Uma delas diz contemplação, do cuidado e de vários outros valo-
respeito ao próprio conceito de educação, comu- res essenciais à educação, no seu sentido mais am-
mente confundido com ensino. Um antigo provér- plo.
bio africano nos ensina que “é preciso uma aldeia
Por outro lado, o convite que nos é apresentado
inteira para educar uma criança”. E não se trata ape-
pelo provérbio africano está relacionado à ideia de
nas de distribuir a responsabilidade pela educação
teias de aprendizagem trazida pelo filósofo, teólogo
de nossas crianças, adolescentes e jovens entre a fa-
e escritor Ivan Illich em sua clássica obra “Sociedade
mília, a comunidade e a escola. Esse tem sido o con-
sem Escolas” [Deschooling Society, 1971]. Enquanto
fuso discurso recorrente, sempre que nos depara-
as instituições de ensino – da escola à universidade
mos com os desastrosos resultados do modelo de
– nos levam a confundir ensino com aprendizagem, 132
escolarização herdado do século XIX. Convenha-
obtenção de graus com educação e diploma com
mos: o que temos feito na maioria de nossas escolas
competência, as teias de aprendizagem – que se re-
tem sido, invariavelmente, ensinar conteúdos pré-
alizam nos espaços externos à escola [ou para além
estabelecidos a partir de uma lógica reducionista e
desta] – nos ensinam o exercício diário do amor, da
alienante de aprendizagem.
solidariedade, da empatia, da contemplação, do
Enquanto as instituições de ensino – da escola à cuidado e de vários outros valores essenciais à edu-
universidade – nos levam a confundir ensino com cação, no seu sentido mais amplo. Essas questões,
aprendizagem, obtenção de graus com educação e via de regra, não encontram espaço na corrida de-
diploma com competência, as teias de aprendiza- senfreada pela obtenção de resultados quantificá-
gem – que se realizam nos espaços externos à es- veis que pauta a existência das instituições de en-
cola [ou para além desta] – nos ensinam o exercício sino no século XXI, cujas práticas e métodos
remetem, em muitos aspectos, ao velho modelo de relatórios que nunca serão lidos, acima das dimen-
“educação” do século XIX. sões política e pedagógica. Métodos de controle ex-
cessivamente burocráticos, ênfase nos resultados e
Voltando a Ivan Illich, o escritor austríaco já nos
desconsideração dos processos, prevalência de in-
alertava, em 1971, que “em qualquer lugar do
vestimento em infraestrutura e imagem institucio-
mundo o secreto currículo da escolarização inicia o
nal [em detrimento da valoriza-
cidadão no mito de que as burocra-
Só há educação onde há coerência ção do trabalho] são algumas
cias guiadas pelo conhecimento ci-
entre o discurso e a prática, res- das características do modelo
entífico são eficientes e benévo- peito à vida, reconhecimento do
gerencial adotada por institui-
las”. E ele vai além: – Em qualquer outro e seu lugar de fala, acolhi-
mento à diversidade e muita dis- ções de ensino, públicas e parti-
parte do mundo este mesmo currí-
posição [acompanhada de uma culares, no Brasil e em várias 133
culo instila no aluno o mito de que boa dose de coragem] para o diá-
logo e a escuta amorosa. partes do mundo.
maior produção vai trazer vida me-
lhor. E em qualquer parte do O mais grave é que essa visão
mundo desenvolve o hábito de um consumo contra- gerencialista, de forte viés conservador, que ali-
producente de serviços e de produção alienante, menta práticas alienadas e alienantes de “educa-
com a tolerância da dependência institucional e o ção” e serve como uma luva aos interesses do capi-
reconhecimento das hierarquias institucionais. tal e dos burocratas de plantão, encontra reprodu-
ção em alguns projetos executados por organiza-
A outra questão está relacionada à ênfase cada vez
ções da sociedade civil, mesmo quando estes se
maior do atual modelo de ensino nas questões bu-
apresentam travestidos de propostas de educação
rocráticas e gerencias, colocando o preenchimento
popular. Esse fato revela, dentre outras questões, o
de formulários, a anotação de presenças ou ausên-
quanto muitas das nossas organizações ainda estão
cias dos educandos na sala de aula e os enfadonhos
reféns de financiamentos externos e dispostas a disposição [acompanhada de uma boa dose de co-
atender às imposições de quem as financia, ainda ragem] para o diálogo e a escuta amorosa.
que isso signifique renunciar a seus princípios e
Aqui vale, para finalizar, o conselho de Carlos Casta-
crenças ou assumir a contradição entre seus discur-
ñeda, citado pelo amigo José Pacheco em seu livro
sos e suas práticas.
“Dicionário de Valores” [2012]: – Olhe em cada ca-
Só há educação onde há coerência entre o discurso minho com cuidado e atenção. Então, faça a si
e a prática, respeito à vida, reconhecimento do ou- mesmo uma pergunta: possui este caminho um co-
tro e seu lugar de fala, acolhimento à diversidade ração? Em caso afirmativo, o caminho é bom… caso
e muita disposição [acompanhada de uma boa contrário, esse caminho não possui nenhum signifi-
dose de coragem] para o diálogo e a escuta amo- cado.
rosa.

Portanto, independe de onde se dê a atividade dita


educativa – se dentro de uma sala de aula, sob a
sombra de uma árvore, na sede do sindicato ou da
134
associação, no barracão de lona da ocupação, na
brincadeira de roda entre as crianças no terreiro da
casa da avó ou na conversa do grupo de amigos – é
primordial compreendermos que só há educação
onde há coerência entre o discurso e a prática, res-
peito à vida, reconhecimento do outro e seu lugar
de fala, acolhimento à diversidade e muita
CELEBRAÇÃO PARA CASALDÁLIGA 11 A porta de entrada de Casaldáliga no Brasil
foi o município de São Félix do Araguaia, no
No próximo dia 16 [sexta-feira] celebra-
FEV2018
Mato Grosso, território dominado pelo lati-
remos os 90 anos de vida de Dom Pedro
fúndio e fortemente marcado por conflitos
Casaldáliga, bispo católico cuja vida pas-
agrários. Como escreveu Pedro em sua carta pasto-
toral foi marcada pelo compromisso com os pobres
ral “Uma Igreja da Amazônia em conflito com o lati-
e marginalizados da América Latina e, em especial,
fúndio e a marginalização social”, datada de 10 de
do Brasil, onde vive há 50 anos. Um antigo padre da
outubro de 1971, “Esta Prelazia de São Felix, bem
aldeia, catalão e poeta. Assim se define Pedro,
no coração do Brasil, abrange uns 150.000 km² de
como prefere ser chamado, sem o título religioso
extensão, dentro da Amazônia legal, no nordeste do
[dom] atribuído aos bispos católicos.
Mato Grosso, e com a Ilha do Bananal em Goiás.
Nascido em 16 de fevereiro de 1928, na pequena
Está encravada entre os rios Araguaia e Xingu e lhe 135
Balsareny [Província de Barcelona, Espanha] e regis-
faz como de espinha dorsal, de Sul a Norte, a Serra
trado com o nome de Pere Casaldàliga i Pla, o religi-
do Roncador”.
oso catalão chegou ao Brasil em julho 1968, mesmo
O jornalista, escritor e professor de comunicação
ano em que o governo autoritário instalado com o
audiovisual na Universidade Autônoma de Barce-
golpe civil-militar de 64 editava o Ato Institucional
lona, Francesc Escribano, lembra em seu livro “Des-
número 5 [AI 5], que agudizava o processo, já em
calço sobre a terra vermelha” que “o então missio-
curso, de cerceamento de liberdades e de persegui-
nário claretiano teve um choque brutal: de um lado,
ção e violência extrema contra opositores do regime
uma natureza incrível, de uma beleza primitiva; de
ditatorial.
outro, uma sensação de abandono total – não exis-
tia lá nem correio, nem telefone, nem energia
elétrica”. O próprio Casaldáliga conta no início do li- libertando os presos e destruindo o prédio. Naquele
vro de Escribano: – Quando cheguei aqui, a primeira lugar foi erguida uma igreja”.
coisa que vi foram os corpos de quatro crianças
Durante sua militância profética, Casaldáliga assu-
mortas, que deixaram na porta de minha casa. Qua-
miu corajosamente a crítica e a resistência concreta
tro meninos mortos, colocados em caixas de sapa-
aos mandos e desmandos dos latifundiários que im-
tos, essas foram as boas-vindas que recebi.
punham, por vários meios, seu poder em toda a Pre-
Mas, Pedro é uma daquelas raras pessoas cuja fé e lazia de São Felix do Araguaia. Da mesma forma, a
compromisso com a vida são capazes de vencer o luta pela reforma agrária e a defesa dos interesses e
medo, mesmo diante das ameaças à própria vida. dos direitos dos povos indígenas sempre estiveram
E não foram poucas. A mais grave, em 12 de outu- presentes na agenda pastoral de Pedro.
bro de 1976, ocorreu no povoado de Ribeirão Bo-
Para o teólogo Juan José Tamayo, Pedro é o missi-
nito [MT]. 136
onário, que não vai converter infiéis, mas levar a
De acordo com publicação do site oficial da Prelazia cabo uma evangelização liberadora com o evange-
de São Felix do Araguaia, ao ser informado que duas lho como boa notícia. O profeta, despertador de
mulheres estavam sendo torturadas na delegacia lo- consciências adormecidas, que denuncia as injusti-
cal, Casaldáliga dirigiu-se até lá acompanhado do ças do sistema – e por ele é ameaçado de morte –
padre jesuíta João Bosco Penido Burnier. “Após e anuncia outro mundo possível na história.
forte discussão com os policiais, o padre Burnier
E o que dizer de sua poesia, sempre a denunciar as
ameaçou denunciá-los às autoridades, sendo então
injustiças e a ganância do capital e a anunciar a boa
agredido e, em seguida, alvejado com um tiro na
nova, semeando esperança e nutrindo resistências?
nuca. Após a missa de sétimo dia, a população se-
Em “Confissão do Latifúndio”, Casaldáliga denuncia:
guiu em procissão até a porta da delegacia,
“Por onde passei, plantei a cerca farpada, plantei a forma lúcida e corajosa todas as suas escolhas, sem
queimada. Por onde passei, plantei a morte matada. arredar-se de suas convicções, inclusive teológicas,
Por onde passei, matei a tribo calada, a roça suada, estreitamente alinhadas à Teologia da Libertação.
a terra esperada… Por onde passei, tendo tudo em
Por isso, peço emprestadas as palavras de Tamayo
lei, eu plantei o nada.”
para deixar clara a importância deste 16 de feve-
Em “Credo da ecologia total” o Pedro poeta anun- reiro de 2018, data em que “Pedro Casaldáliga pas-
cia: “Cremos em Ti, compositor do Universo, arte- sará a ter 90 anos. Uma efeméride para celebrar, co-
são original da Terra, manancial vivo da Água, ga- memorar, festejar, para fazer memória subversiva
rantia dos Humanos Direitos. […] Cremos na fecun- de uma vida comprometida com a libertação dos
didade libertadora de tantos irmãos e irmãs que povos oprimidos e com as causas dos setores mais
amassaram a Terra com seu sangue mártir e nos vulneráveis que, como ele mesmo confessa, são
137
acompanham na procura da Terra sem males”. mais importantes que sua vida. Mas também para
olhar para o futuro com esperança, no meio das nu-
Não bastasse tudo isso, outro forte elemento da
vens pesadas que pairam em todo lugar”.
identidade de Pedro Casaldáliga é seu espírito soli-
dário internacional e sua consciência política latino- Que possamos, pois, seguir caminhando inspirados
americana. Sempre que se fez necessário, não hesi- e inspiradas pela coragem, pelo amor ao próximo,
tou em apoiar e fazer-se irmanado com as lutas po- pelo apurado senso de justiça e pela rebelde fideli-
pulares e as revoluções dos povos latinos, fosse a dade e insurreição evangélica de Pedro Casaldáliga.
cubana, a sandinista [Nicarágua], a zapatista [Mé- Afinal, como ele mesmo nos ensina, “a esperança é
xico], a guatemalteca ou a salvadorenha. Seu apoio justificada apenas naqueles que caminham”.
a essas lutas foi objeto de críticas e reprimendas, in-
clusive por parte do Vaticano. Pedro assumiu de
A CENSURA COMO “PEDRA DE certos telefonemas anônimos, enfim, o medo de ser

28 TOQUE” DOS TIRANOS perseguido”. Esse triste período da história de Por-


tugal vai se repetir, nas devidas proporções e dentro
FEV2018 A censura, nas suas mais variadas
dos respectivos contextos, em vários países da Amé-
formas e pelos motivos mais tor-
rica Latina a partir da primeira metade da década de
pes, acompanha a história da hu-
1960.
manidade desde tempos remotos e tem sido um dos
primeiros recursos de tiranos [do grego τύραννος, O Brasil, em particular, coleciona vários registros de

“týrannos”, líder ilegítimo] para eliminar as possí- censura em sua história mais recente e mesmo em

veis ameaças a seu poder que, de tão frágil, precisa períodos de aparente democracia, não faltou quem

se blindar contra tudo que possa colocar em dúvida se valesse da censura para impedir que ideias con-

sua ilusória legitimidade. trárias às suas fossem levadas a público, sobretudo


através da arte. Aliás, é impressionante o medo que
E como nos lembra o filósofo Manuel Gama, profes-
os tiranos têm do lúdico, da poesia, do amor e do
sor da Universidade do Minho [Portugal], referindo-
belo.
se à ditadura do Estado Novo português, coman- 138
dada por Salazar [1932-1968], “a censura transfor- Contudo, o período mais longo de censura em nossa

mou-se numa espécie de Lei do Silêncio, que incluía história recente aconteceu durante as duas décadas

não só a censura propriamente dita, do lápis azul e de ditadura que se iniciou com o golpe civil-militar

da tesoura, mas também a repressão interior, pela de 1964. Os chamados anos de chumbo tiveram

autocensura. Esta é a censura do medo: do medo da como principais marcas a censura, a perseguição

prisão, do medo da agressão, do medo de perder o política, a tortura e o desaparecimento de pessoas

emprego, do medo de fazerem mal aos familiares, tidas como inimigas do regime. Hoje, custo a acredi-

do receio de ser, frequentemente, incomodado por tar que haja, em pleno século 21, quem defenda os
atos de extrema violência praticados pelos agentes declarações que ajudem a comprometer a política
do Estado naquele período e a volta da ditadura. econômica do governo”. Vivíamos os efeitos colate-
Mas, os aplausos de alguns à intervenção no Rio de rais, com forte adesão de parte da imprensa, do AI-
Janeiro confirmam que tem quem acredite na volta 5 editado em dezembro de 1968.
dos coturnos às ruas como solução para nossos pro-
No livro Cães de Guarda – Jornalistas
blemas. Há até quem acredite que
e Censores, do AI-5 à Constituição de
o problema do Brasil são os po- Como sabemos, o affaire en-
1988 [Editora Boitempo, 2004], a
tre a chamada grande mídia e
bres, os negros, os gays, as lésbi-
os governos autoritários ou historiadora Beatriz Kushnir trata do
cas, as mulheres, os povos e comu- conservadores no Brasil nunca papel da imprensa durante o regime
nidades tradicionais … acabou. Quando muito, muda-
ram alguns amantes. autoritário iniciado em 1964. A au-
Voltando ao golpe de 64, no tora lembra que, muito longe de fa-
campo da censura um episódio daqueles tempos zer frente ao regime militar, a grande imprensa bra-
sombrios merece destaque. No dia 10 de junho de sileira acabou por se acomodar à censura imposta
1969 entrou em vigor um documento oficial envi- pela ditadura que vigorou até 1985. Como sabemos,
ado pela Polícia Federal aos órgãos de imprensa de o affaire entre a chamada grande mídia e os gover-
139
todo país contendo dezessete “recomendações”, nos autoritários ou conservadores no Brasil nunca
entre as quais se incluía a de “não divulgar notícias, acabou. Quando muito, mudaram alguns amantes.
comentários, manifestos ou declarações contra as
O [des]governo Temer, que chegou ao poder pela via
medidas governamentais, como suspensão de direi-
comum a quase todos os tiranos – a usurpação –
tos, demissão ou aposentadoria de funcionários pú-
tem se valido, com frequência, da censura para im-
blicos”. Além disso, o documento recomendava
pedir que ideias contrárias aos seus interesses sejam
“não divulgar notícias, comentários, entrevista,
discutidas ou para evitar que seus atos sejam
questionados. E mais uma vez a imprensa conserva- os veículos da Empresa, passe pelo crivo da ANA, au-
dora [para ser moderado no adjetivo] se apresenta tarquia federal vinculada ao Ministério do Meio Am-
como aliada estratégica, defendendo não só os que biente. Tomando-se por base essa orientação polí-
pagam por seu silencio ou suas mentiras, mas seus tica para a fase de promoção do evento, suspeita-se
próprios interesses e dos grupos econômicos e polí- que também a veiculação da cobertura ao Fórum
ticos a que representam. pela EBC será controlada. O nome disso é censura
prévia e reflete o medo do [des]governo Temer de
Um dos mais recentes atos de censura do atual go-
que parlamentares de oposição e representantes da
verno envolve a Empresa Brasil de Comunicação
sociedade civil ocupem os espaços do Fórum para
[EBC] e a cobertura da oitava edição do Fórum Mun-
fazer críticas, inclusive, à falta de prioridade do Pa-
dial da Água, prevista para acontecer no período de
lácio às políticas de recursos hídricos.
18 a 23 de março, em Brasília. Estima-se que cerca
de 400 instituições relacionadas à temática de re- Outro episódio, esse bem mais recente, refere-se à
cursos hídricos, de aproximadamente 70 países, e intenção declarada do ministro da Educação, Men-
140
cerca 6.700 representantes políticos de mais de 150 donça Filho [DEM/PE], de proibir a disciplina “O
países participem do evento. Golpe de 2016 e o futuro da democracia no Bra-
sil”, apresentada pelo professor Luis Felipe Miguel
Em dezembro do ano passado a EBC assinou con-
ao curso de graduação em Ciência Política da Uni-
trato, da ordem de R$ 1,8 milhão, com a Agência Na-
versidade de Brasília [UnB]. Após as reações desas-
cional das Águas [ANA], uma das patrocinadoras do
trosas de Mendonça Filho à proposta do professor
evento, para divulgação e cobertura do Fórum. Con-
Luiz Felipe, várias outras instituições de ensino sina-
tudo, segundo denúncias de repórteres da própria
lizaram adesão à ideia, entre elas as universidades
EBC, o documento exige que o conteúdo para pro-
federais da Bahia [UFBA], do Amazonas [UFAM] e do
moção do Fórum, antes de ser publicado por todos
Ceará [UFC], além da própria Universidade Estadual praticados por ele mesmo, na condição de presi-
de Campinas [Unicamp], onde Luiz Felipe fez seu dente da República, e por seus comandados.
doutorado em Ciências Sociais.
É bom ficarmos atentos para não deixarmos que, de
O filósofo e jurista francês Jean Bodin definiu tirano censura em censura, Temer e seus asseclas acabem
como “o que usa os bens dos governados como se sendo apresentados às gerações futuras com “víti-
fossem seus”. Mas o conceito de Bodin, de longe se mas do destino” ou como personagens menores na
aplica aos tiranos desta terra brasilis do século 21. trama que, certamente, ficará registrada como um
Eles já não se contentam com a usurpação de nossos dos piores capítulos de nossa história recente.
bens e querem também nossos direitos conquista-
dos com muita luta, nossa liberdade e nossa espe-
rança. São abutres à espera de nossa morte já que,
a exemplo das aves que lhes emprestam o adjetivo,
são de hábitos necrófagos.

Está na hora de pararmos de tratar Temer apenas


como um governo ilegítimo e serviçal do velho capi-
tal, um mero fantoche a serviço de interesses de ter-
141
ceiros, e encararmos o fato de que estamos diante
de um tirano. Embora saibamos que seu [des]go-
verno é parte de uma trama muito maior, num jogo
de interesse que envolve grupos muito poderosos,
não podemos esquecer que, mesmo sem legitimi-
dade, Temer é responsável por todos os atos
MENOS GLAMOUR E MAIS INCLUSÃO
09 homenageadas atende a padrões que
MAR2018 respondem às convenções sociais pré-
Enquanto os movimentos sociais e, em es-
estabelecidas como representação da
pecial, as organizações de mulheres, pauta-
“mulher de sucesso”, com alguns recortes clara-
ram a agenda do 8 de março em todo Brasil com
mente políticos e/ou sociais que reproduzem velhas
atos públicos, protestos e denúncias
práticas de privilégios e reconheci-
das múltiplas formas de violência
Mãe Preta era parteira e re- mento acentuadamente meritocrá-
contra a mulher, a acanhada agenda
zadeira e, aos 92 anos de tico. Esse padrão de escolha foi se-
das instituições públicas ficou res- idade, não lembra quantos
crianças “pegou” durante seu guido, com menor ou maior distân-
trita à prestação de alguns serviços
tempo de ofício de parteira, cias, pelas Câmaras Municipais e
pontuais, comemorações e homena-
mas sabe que o primeiro
outras instituições públicas que re-
gens. parto foi realizado quando
ela tinha 20 anos e o “derra- alizaram homenagens semelhantes.
No Ceará, a Assembleia Legislativa deiro” quando tinha 89.
Entre as homenageadas pela AL do 142
[AL] promoveu, na manhã da quarta-
Ceará não consta, por exemplo, ne-
feira [7], durante o segundo expediente da sessão
nhuma parteira, rezadeira, meizinheira ou qualquer
plenária e por iniciativa da bancada feminina da
outra representação das mulheres guardiãs de sa-
Casa, a homenagem a 19 mulheres “que se destaca-
beres ancestrais que trazem, na sua essência, o cui-
ram na luta em defesa dos direitos das mulheres”,
dado e o reconhecimento da sacralidade da vida e
segundo informou o site da Assembleia.
rejeitam, pelo fazer cotidiano, os modos de vida im-
Sem pretender aqui questionar as escolhas feitas
postos pela pós-modernidade.
pelas parlamentares cearenses responsáveis pelas
Nenhuma dona Cícera, carinhosamente chamada
indicações, o fato é que a maioria das
de “Mãe Preta” pelos moradores da comunidade de
Pereiros, na zona rural da pequena Antonina do não por opção, mas em decorrência do abandono
Norte [CE]. Mãe Preta era parteira e rezadeira e, aos irresponsável dos pais ausentes.
92 anos de idade, não lembra quantos crianças “pe-
Também não tivemos entre as homenageadas ne-
gou” durante seu tempo de ofício de parteira, mas
nhuma mulher lésbica – que tenha sido lembrada
sabe que o primeiro parto foi realizado quando ela
exatamente por sua militância nesse campo – e ne-
tinha 20 anos e o “derradeiro” quando tinha 89.
nhuma mulher trans. Estranho mesmo seria tê-las
Nenhuma dona Iraci ou dona Peinha, da comuni- nessa ou em outras listas de homenagens patroci-
dade de Chico Gomes, na zona rural do Crato [CE], nadas por instituições públicas dominadas por uma
conhecedoras de uma grande variedade de meizi- cultura elitista, machista, heteronormativa e im-
nhas e unguentos para curar quase todo tipo de do- pregnada de preconceitos e intolerâncias. Melhor
ença do dia a dia e sábias conselheiras das almas mantê-las na invisibilidade e evitar desconfortos
143
aflitas, guiadas pela fé e por sua conexão com o sa- “desnecessários”.
grado que se faz presente através da memória an-
Aliás, a propósito das mulheres trans, essa é uma
cestral.
questão que ainda carece de reflexão e diálogo den-
Não vimos lembradas entre as 19 homenageadas as tro dos próprios movimentos sociais, embora já seja
mulheres indígenas e quilombolas, as trabalhadoras possível celebrar avanços importantes e até uma
rurais e as extrativistas, as bravas mulheres da luta ampliação do sentido de sororidade, palavra origi-
pela terra e dos movimentos de resistência dos atin- nada do latim sóror, que significa irmãs. O termo
gidos e atingidas por barragens, as catadoras de ma- pode ser considerado a versão feminina da fraterni-
teriais recicláveis, as mulheres negras das periferias dade, que se originou a partir do prefixo frater [ir-
de nossas cidades, as “viúvas de maridos vivos” que mão].
se desdobram para criar sozinhas seus filhos e filhas,
O fato é que não podemos restringir a vasta temá- O JUQUINHA PRECISA SABER
tica dos direitos, lutas e conquistas das mulheres a
solenidades pontuais, realizadas quase sempre 24 Escrito pela jornalista carioca Ana
Helena Tavares, o livro “O pro-
com muita pompa e recheadas de glamour, que
MAR2018 blema é ter medo do medo: o que
estão longe de acolher a diversidade de signos, his-
o medo da ditadura tem a dizer à
tórias e lugares de falas das mulheres. Não esque-
democracia” [Editora Revan, 2016] reúne 26 entre-
çamos que a agenda institucional conservadora re-
vistas com personagens que viveram de perto o pré-
produz, em maior ou menor grau, um imaginário de
golpe ou a resistência à ditadura e “trazem rico ma-
mulher e de homem que serve apenas à lógica com-
terial para conhecimento e análise do que foi esse
petitiva, excludente e alienante que rejeita toda
período na história do Brasil”, escreveu o também 144
forma de cuidado, afeto e amor, únicas energias ca-
jornalista e ex-guerrilheiro Cid Benjamin no prefácio
pazes de ressignificar nossas adoecidas relações e
do livro.
nos permitir aprender uns com outros, sobretudo
O título do livro foi emprestado da resposta de Dom
pela escuta amorosa e pela ressacralização da Terra
Pedro Casaldáliga a uma das perguntas de Ana He-
e de toda forma de vida nela existente.
lena, durante entrevista em sua casa em 2012. “O
sr. alguma vez teve medo?”, perguntou a jornalista.
“Várias! O medo é natural ao ser humano. O pro-
blema é ter medo do medo”, respondeu o bispo do
Araguaia.

Durante seu depoimento Casaldáliga acrescenta


que a democracia é uma palavra profanada.
“Porque se tem uma democracia, entre aspas, polí- adolescentes conhecerem a verdade sobre os som-
tica. Mas não se tem democracia econômica. Não se brios tempos de autoritarismo vividos no Brasil. “Eu
tem democracia étnica. Os povos indígenas, dentro só vou morrer feliz quando ‘Juquinha’ chegar à es-
destes Estados democráticos, são coibidos. São mar- cola, abrir seu livro e estudar sobre João Cândido, o
ginalizados”. Almirante Negro. Apolônio de Carvalho, Joaquim
Câmara Ferreira”, declara Carlos Eugênio.
Uma das falas mais emblemáticas vem de Carlos Eu-
gênio Paz [o comandante Clemente], último coman- Sim. É fundamental que a história desse país e de
dante vivo da ALN [Ação Libertadora Nacional]. De toda a humanidade seja contada sem máscaras,
145
acordo com a autora do livro, Carlos Eugênio teve sem recortes e sem versão única, para que as novas
sua foto ainda jovem estampada em cartazes e jor- gerações e as futuras não se apresentem propensas
nais. “Estava marcado para morrer. Mas sobreviveu a apoiar posições autoritárias como vem fazendo
e, após exílio forçado, voltou para contar a história. parcela significativa da nossa juventude. Pesquisa
Não se incomoda em contá-la, com seus erros e recente realizada pelo DataFolha, em parceria com
acertos. Ele acha que todos precisam saber de tudo. o Fórum Brasileiro de Segurança Pública [FBSP]35,
Por isso, constantemente ele dá palestras em esco- aponta que 8,1% dos jovens brasileiros com idade
las e toca em feridas”. No livro está registrado seu entre 16 e 24 anos, tende a apoiar medidas autori-
desejo de que “o Juquinha precisa saber”, refe- tárias, acreditando ser essa a solução para os nossos
rindo-se ao direito de nossas crianças e problemas atuais36.

35 36
Medo da violência e o apoio ao autoritarismo no Brasil: O Datafolha aplicou 2.087 entrevistas, em uma amos-
índice de propensão ao apoio a posições autoritárias. Or- tra estatisticamente representativa da população brasi-
ganizador: Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São leira com 16 anos ou mais e em 130 municípios de pe-
Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2017. 39p. queno, médio e grande porte, entre os dias 07 e 11 de
março de 2017.
Certamente o desconhecimento montavam as choças, preparavam a
dos graves fatos que marcaram a Assim se reproduz a história comida, mantinham acesas as fo-
contada conforme o querer e
história recente do Brasil -especial- os interesses dos dominadores. gueiras contra o frio, cuidavam dos
mente durante o período ditatorial Assim se conduz à alienação e filhos e curtiam as peles de abrigo.
à ignorância gerações e mais
de mais de duas décadas, iniciado Assim era a vida entre os índios onas
gerações, pela perpetuação do
em 1964 com o golpe civil-militar medo e das mentiras que o ali- e os yaganes, na Terra do Fogo, até
que depôs o presidente João Gou- mentam. que um dia os homens mataram to-
lart – ou seu conhecimento pela via das as mulheres e puseram as más-
do caminho único, escolhido pelos que ditaram a caras que as mulheres tinham inventado para ater-
história e seu registro oficial, contribuem significati- rorizá-los. Somente as meninas recém-nascidas se
vamente para que parcela de nossa juventude, em salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam, os
pleno século XXI, defenda a volta da ditadura ou se assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos ho-
apresente simpático a discursos de ódio e intolerân- mens era seu destino. Elas acreditaram. Também
cia patrocinados por mentes doentias capazes de fa- acreditaram suas filhas e as filhas de suas filhas. 146
zer apologia à tortura e defender o genocídio.
Assim se reproduz a história contada conforme o
Lembro-me aqui de um dos textos de Eduardo Ga- querer e os interesses dos dominadores. Assim se
leano publicado no livro Mulheres [1997]. Nos conta conduz à alienação e à ignorância gerações e mais
o escritor uruguaio: gerações, pela perpetuação do medo e das mentiras
que o alimentam.
– Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na
proa das canoas e os homens na popa. As mulheres Ademais, o que temos observado ultimamente con-
caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e vol- firma a orientação ambivalente entre autoridade e
tavam quando podiam ou queriam. Os homens poder, identificada pelo psicanalista judeu alemão
01
Erich Fromm como uma das principais característi- A PÁSCOA PARA ALÉM DE COE-
ABR2018
cas vinculadas à personalidade autoritária. Segundo LHOS E OVOS DE CHOCOLATE
Fromm, o indivíduo autoritário é, a um só tempo,
A palavra Páscoa – Pessach, em he-
submisso [em relação àqueles que percebe como
braico – significa passagem. Para os judeus ela re-
mais fortes] e dominador [diante daqueles que julga
presenta a travessia pelo mar Vermelho quando o
mais fracos].
povo liderado por Moisés passou da escravidão do
Por isso, urge que recontemos nossa história, com Egito para a liberdade na Terra Prometida. Segundo
reflexão e criticidade, por muitas vozes e livres do explica o teólogo Fernando Altmeyer Júnior, da PUC
fantasma do medo. Se faz indispensável que a re- de São Paulo, para os cristãos a Páscoa tem um sen-
contemos e a contemos em cada praça, em cada en- tido mais metafísico, representando a passagem de
contro, em cada escola e em cada livro didático. Por Cristo pela morte. O teólogo refere-se à tradição de
fim, parafraseando o escritor Rubem Alves, é pri- que Jesus teria ressuscitado no terceiro dia após a
mordial que não nos contentemos com o papel de crucificação. Nos dois casos, Páscoa lembra passa-
revisores e sejamos, de agora e para sempre, gra- 147
gem, trazendo consigo a dimensão simbólica de
máticos de nossa própria história. passar da condição menos humana para a mais hu-
mana.

Essa representação nos remete à reflexão sobre a


condição humana no contexto atual e nos convida a
lutar em defesa do direito à vida digna, como forma
de construir pontes que possam servir de passagem
para dias melhores, que possam trazer luz a esses
tempos de sombra, marcados por ódio, intolerância
e desamor. Por isso, viver a Benário Prestes, Mahatma Gandhi,
Páscoa, no seu sentido mais É tempo de acolher a dor das muitas Margarida Alves, Marçal Tupã-i,
Marias que choram seus filhos, as-
amplo, é comprometer-se sassinados pela violência cotidiana Irmã Dorothy Stang, Martin Luther
com a denúncia e a oposição das faixas de Gaza daqui e de lá, ví- King, Marielle Franco e de tantos ho-
timas de guerras políticas, religiosas
a toda forma de ameaça à mens e tantas mulheres corajosas
ou sociais que têm, muitas vezes, o
vida. braço armado do Estado como exe- que nos ensinaram a importância de
cutor implacável e seletivo. seguir buscando um novo tempo,
Páscoa é também tempo de
apesar dos perigos.
honrar a memória de todos
aqueles e aquelas que, seguindo o exemplo de Je- Pascoa é tempo de solidariedade com os milhares
sus, não se calaram diante das injustiças dos ho- de crianças em todo mundo que neste dia ainda não 148
mens e deram sua própria vida na luta por um fizeram uma refeição, por mais simples que seja.
mundo menos desigual e mais fraterno. É trazer à Não porque tenham optado pelo jejum como forma
memória Roseli Nunes, símbolo da luta pela terra no de remissão de seus pecados, que sequer existem.
Brasil. Terra que não lhe foi prometida, mas negada; Mas, porque são vítimas dos graves pecados da ga-
e que por isso mesmo teve de ser conquistada, nância e da indiferença, marcas registradas de um
ainda que o preço tenha sido a própria vida. Roseli sistema que se alimenta da miséria de muitos, en-
[que inspirou o filme/documentário Terra para quanto poucos se regalam em banquetes marcados
Rose] foi assassinada no dia 31 de março de 1987, pelo luxo e o desperdício.
durante um protesto de pequenos agricultores no
É tempo de acolher a dor das muitas Marias que
norte do Rio Grande do Sul.
choram seus filhos, assassinados pela violência coti-
É lembrar de João Pedro Teixeira [de Cabra Mar- diana das faixas de Gaza daqui e de lá, vítimas de
cado para Morrer], Frei Tito de Alencar, Olga
guerras políticas, religiosas ou coletoras Xavante que integram a
sociais que têm, muitas vezes, o O convite é, pois, para que todos Rede de Sementes do Xingu.
os dias a Páscoa/Pessach se
braço armado do Estado como faça presente em nossas vidas Como nos lembra o padre Vanthuy
executor implacável e seletivo. pelo compromisso com a liber-
Neto37, falando nessa Páscoa de uma
tação individual e coletiva de
Entretanto, Páscoa é também toda forma de escravidão da pequena comunidade na floresta
tempo de anunciar a esperança, mente, do corpo e do espírito. Amazônica, entre o Brasil e a Gui-
que se nutre da fé da gente sim- ana, o amor do Cristo ressuscitado se
ples dos nossos muitos sertões. Gente forte e sábia faz presente e vivo na “teimosia dos povos indígenas
que não desiste da vida e segue fazendo do amor lutando para garantir a terra, lutando para garantir
incondicional a roça fértil onde semeiam o cuidado as suas culturas, a sua língua, o seu jeito de ser e
e a solidariedade. Esperança que encontra abrigo no dizendo: nós somos diferentes, mas somos huma-
compromisso inarredável de Pedro Casaldáliga com nos, como vocês”.
os injustiçados da América Latina. Que encontra
Páscoa é tempo de esperança que se faz presente
solo fértil na resistência dos Xavantes ao violento
na sabedoria de José “Pepe” Mujica, ex-presidente
149
processo de expansão do agronegócio na terra Ma-
e hoje senador da República Oriental do Uruguai,
rãiwatsédé [mata profunda], na região do Araguaia
uma das lideranças mais importantes do mundo
[MT]. Nesse cenário de resistência pacífica merece
atual, que escolheu viver apenas com o necessário
destaque o papel desempenhado pelas mulheres
para que as coisas não lhe roubem a liberdade. Mu-
jica nos lembra: – Inventamos uma montanha de

37
Padre Vanthuy Neto vive em Boa Vista [RR], depois de em comunidades interioranas como Arco Íris, Monte Ho-
dirigir por 4 anos o Instituto de Teologia de Ensino Supe- reb e Felix Pinto.
rior da Amazônia, em Manaus. O padre Vanthuy celebra
consumo supérfluo, e é preciso jogar fora e viver compromisso com a libertação individual e coletiva
comprando e jogando fora. E o que estamos gas- de toda forma de escravidão da mente, do corpo e
tando é tempo de vida. Porque quando eu compro do espírito. E o primeiro passo concreto pode ser re-
algo, ou você, não compramos com dinheiro, com- jeitarmos a mercantilização da Páscoa, que a trans-
pramos com o tempo de vida que tivemos de gastar formou em mais uma data comercial onde um coe-
para ter esse dinheiro. Mas com esta diferença: a lhinho nos presenteia com ovos de chocolate [sic],
única coisa que não se pode comprar é a vida. A vida de preferência de uma marca famosa [e bem cara]
se gasta. E é miserável gastar a vida para perder li- para demostrar o status de quem presenteia. Volte-
berdade. mos a “Pepe” Mujica para lembrar que “a sobrie-
dade é um luxo para poder ser livre”.
A esperança vem também da coragem da jovem pa-
quistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do Prêmio
Nobel da Paz, em 2014, especialmente por sua luta
em defesa do direito das meninas à educação no
Vale de Swat. Malala hoje é considerada um ícone
internacional de resistência e luta pelos direitos das
mulheres e pelo direito à educação. Ela tem sido ins-
piração para aquelas e aqueles que buscam por fim
à mentalidade patriarcal que patrocina as múltiplas
formas de violência cotidiana contra as mulheres
em todo o mundo. 150

O convite é, pois, para que todos os dias a Pás-


coa/Pessach se faça presente em nossas vidas pelo
consecução do mais alto nível pos-
14
EM DEFESA DO SUS E DA VIDA
ABR2018
sível de saúde é a mais importante
A Organização Mundial de Saúde [OMS], em sua
meta social mundial, cuja realiza-
carta de constituição [1946], define que
ção requer a ação de mui-
“a saúde é um estado de completo bem-
As políticas públicas de saúde no tos outros setores sociais e
estar físico, mental e social, e não con-
Brasil, em seu nascedouro e por econômicos, além do setor
siste apenas na ausência de doença ou um longo período seguinte, consti-
tuem-se como meio a serviço do saúde”.
de enfermidade”. O mesmo documento
capital, ficando suas ações limita-
afirma que “uma opinião pública escla- No Brasil a Saúde assume
das, naquele primeiro momento,
recida e uma cooperação ativa da parte ao controle de enfermidades atra- o status de política de Es-
vés da imposição estatal de medi- tado no começo do século
do público são de uma importância capi-
das de higiene, vacinação, notifi-
tal para o melhoramento da saúde dos cação de casos, isolamento de en- XX, estreitamente vincu-
povos”. fermos e eliminação de vetores. lado à economia exporta- 151
dora de café no Sudeste do
Nessa mesma direção, a Declaração de
país. Assim, o foco ainda era a melhoria das condi-
Alma-Ata, documento parido durante a Conferência
ções sanitárias, limitada ao controle de endemias e
Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde,
ao saneamento dos portos e do meio urbano do
realizada em Alma-Ata38, no período de 6 a 12 de
eixo agrário-exportador e administrativo da cultura
setembro de 1978, além de reafirmar o conceito de
do café, concentrado nos estados do Rio de Janeiro
saúde defendido pela OMS, enfatiza que a mesma
e São Paulo.
“é um direito humano fundamental, e que a

38
Antes pertencente à então União das Republicas Socia-
listas Soviéticas [URSS], Alma Alta está localizada no
atual Cazaquistão.
Nesse contexto, assegurar melhores condições sani- [PIB] nacional, o que resultou em graves consequên-
tárias significava garantia de sucesso da política go- cias para a saúde da população.
vernamental de atração da força de trabalho estran-
Contudo, com o recrudescimento do regime autori-
geira e preservação do contingente ativo de traba-
tário, vários movimentos sociais assumem papel de
lhadores, em um cenário de escassez de mão de
destaque no processo de resistência à ditadura, tra-
obra.
zendo consigo, além da luta por liberdade política e
Assim, as políticas públicas de saúde no Brasil, em pelo fim do autoritarismo, a denúncia das precárias
seu nascedouro e por um longo período seguinte, condições de vida das populações mais pobres. No
constituem-se como meio a serviço do capital, fi- bojo dessas denúncias, estava a situação caótica da
cando suas ações limitadas, naquele primeiro mo- saúde pública e dos serviços previdenciários de
mento, ao controle de enfermidades através da im- atenção médica.
posição estatal de medidas de higiene, vacinação,
Dá-se aí o início da organização do Movimento Sani- 152
notificação de casos, isolamento de enfermos e eli-
tarista, que buscava aproximar produção do conhe-
minação de vetores.
cimento e prática política, ampliando seu campo de
O período ditatorial instalado no Brasil com o golpe ação e atuando lado a lado com organizações da so-
civil-militar de 1964, que perdurou por mais de 20 ciedade civil nas lutas em defesa da redemocratiza-
anos, relegou a saúde pública a segundo plano, com ção do país. Esse processo vai fortalecer a aborda-
uma perspectiva de saúde fortemente conserva- gem médico-social que assume publicamente o ca-
dora, ficando as ações restritas a campanhas de ráter político da área da saúde.
baixa eficácia. Some-se a isso a carência de recursos,
Durante a chamada Nova República [1985-1988]
limitados a menos de 2% do Produto Interno Bruto
ocorrem amplas discussões envolvendo as
sociedades civil e política brasileiras, visando a rea- mediante políticas sociais e econômicas que visem à
lização de reformas no sistema tributário, financeiro redução do risco de doença e de outros agravos e ao
e administrativo nacionais e, sobretudo, reformas acesso universal e igualitário às ações e serviços
sociais que, no caso da saúde, foram encabeçadas para sua promoção, proteção e recuperação”. Com
pelo movimento de Reforma Sanitária. Esse pro- esse preceito constitucional e o disposto na Lei Or-
cesso resultou na criação do gânica da Saúde [Lei 8.080/90] e na le-
Sistema Único de Saúde Aproveitando-se das dificulda- gislação posterior correlata, fica defi-
[SUS]. des enfrentadas no dia a dia do nida a universalidade da cobertura do
SUS, as empresas de planos de
saúde, em conluio com os defen- SUS.
Esse ambiente de reformas
sores e adeptos do projeto uma
encontra eco também no Le- Na contramão de todo esse processo
ponte sem futuro, querem am-
gislativo, com destaque para pliar seus lucros às custas do sa- histórico, ocorreu em Brasília na última
a promulgação da Constitui- crifício dos mais pobres. terça-feira [10] o “1º Fórum Brasil –
153
ção Federal de 1988, bati- Agenda Saúde: a ousadia de propor um
zada de Constituição Cidadã, em virtude do leque de Novo Sistema de Saúde”, organizado pela Federa-
direitos sociais contidos no novo texto constitucio- ção Brasileira de Planos de Saúde [FEBRAPLAN]. A
nal que, dentre outras coisas, define o conceito de participação de representantes do Ministério da Sa-
saúde, incorporando novas dimensões. Com isso, úde, deputados federais e senadores no evento evi-
fica posto que para se ter saúde, é preciso ter acesso dencia o total descompromisso do atual governo fe-
a um conjunto de fatores como alimentação, mora- deral e de parcela expressiva do Congresso Nacional
dia, emprego, lazer, educação, dentre outros. com o fortalecimento do SUS, além do alinhamento
dos mesmos com os interesses puramente
O artigo 196 da CF 88 estabelece que “a saúde é di-
reito de todos e dever do Estado, garantido
mercantilistas dos representantes dos planos priva- Santa Catarina, Espiridião Amin, chegou ao absurdo
dos de saúde. de afirmar durante o evento que o SUS é “um pro-
jeto comunista cristão”, sendo esse o seu argu-
A proposta apresentada por Alceni Guerra, ex-mi-
mento para defender a construção do que estão
nistro da Saúde no governo Collor e ex-deputado fe-
chamando de “novo sistema nacional de saúde”.
deral pelo DEM, aponta para a transferência de re-
cursos do SUS para financiar a Atenção de Alta Com- Aproveitando-se das dificuldades enfrentadas no
plexidade nos planos privados de saúde. A meta, se- dia a dia do SUS, as empresas de planos de saúde,
gundo Guerra, é que até 2038 metade da população em conluio com os defensores e adeptos do pro-
deixe de ser atendida pelo SUS e passe a ser aten- jeto uma ponte sem futuro, querem ampliar seus lu-
dida exclusivamente de forma privada. Isso significa cros às custas do sacrifício dos mais pobres.
que em 20 anos metade dos brasileiros precisarão
Vale ressaltar que muitos dos problemas do SUS de-
pagar para ter direito a serviços de saúde. Não por 154
correm da prevalência de uma visão de saúde que
coincidência, esse é mesmo prazo de vigência da
privilegia o “modelo biomédico flexineriano39, idea-
Emenda Constitucional 95 que, de forma criminosa,
lizado e implantado nos Estados Unidos por meio da
congela os investimentos públicos em políticas soci-
ação combinada do corporativismo médico local e
ais por 20 anos.
do grande capital”, segundo destaca Eduardo Pe-
Na falta de argumentos plausíveis para defender o rillo.40
desmonte do SUS, o deputado federal pelo PP de

39
O Relatório Flexner foi um estudo financiado pela Car- continente americano e outras partes do mundo onde a
negie Foundation a pedido da American Medical Associa- influência estadunidense conseguisse chegar.
40
tion e publicado em 1910, que produziu transformações PERILLO, Eduardo Bueno da Fonseca. Importação e
no ensino e na prática da medicina nos Estados Unidos, Implantação do Modelo Médico-Hospitalar no Brasil –
passando esse modelo a ser exportado para todo o
A ofensiva da FEBRAPLAN se soma a tantas outras solução não é transformar a saúde em mercadoria e
que vêm se dando desde o golpe de 2016 e que a vida das pessoas em mera possiblidade de negó-
apontam na direção da ampliação dos tentáculos do cio, descartável sempre que a capacidade de paga-
setor privado dentro do Estado para a retirada ou mento do cliente não corresponder à ganância ou à
redução de direitos sociais. Aliás, a relação do margem de lucro prevista nas planilhas eletrônicas
[des]governo Temer com os interesses dos planos dos planos privados de saúde.
de saúde é antiga e bem achegada. O ex-ministro da
Recorro ao poeta Eduardo Alves da Costa para lem-
Saúde, Ricardo Barros, que deixou o cargo há pou-
brar que “Na primeira noite eles se aproximam e
cos dias, teve como um dos financiadores de sua úl-
roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos
tima campanha eleitoral para deputado federal um
nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam
dos principais operadores de planos de saúde.
as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Considerado por muitos estudiosos como a política Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em 155
de maior inclusão social implementada no Brasil, é nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo nosso
imperioso reconhecer que, embora os avanços do medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não po-
SUS ao longo dos anos sejam significativos, ainda demos dizer nada”41. Portanto, em defesa do SUS e
persistem problemas a serem urgentemente en- da vida, precisamos reagir antes que seja tarde.
frentados de forma corajosa e responsável para
consolidá-lo como um sistema público universal e
equânime. Mas, sem qualquer sombra de dúvidas, a

um esboço da história econômica do sistema de saúde anos a autoria do poema tem sido atribuída, erronea-
1942-1966. São Paulo. 2008. mente, hora ao poeta e dramaturgo russo Vladimir Maia-
41 kovski, hora ao poeta e dramaturgo alemão Bertolt
Trecho do poema “No caminho, com Maiakovski“, do
poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa. Ao longo dos Brecht.
23
NÃO PODE HAVER RAZÃO NA GUERRA Durante a Segunda Guerra Mun-
ABR2018
dial, cerca de 27 mil pessoas
“Se queremos alcançar neste mundo a verda-
deira paz e se temos de levar a cabo uma verda- morreram diariamente entre

deira guerra contra a guerra, teremos de come- setembro de 1939 e agosto de 1945 em consequên-
çar pelas crianças; e não será necessário lutar se cia do conflito global, segundo destaca Max Has-
permitirmos que cresçam com a sua inocência tings em seu livro “Inferno: o mundo em guerra –
natural; não teremos de transmitir resoluções in- 1939-1945”. Na Guerra do Vietnã, mais de 58 mil es-
substanciais e infrutíferas, mas iremos do amor tadunidenses e ao menos 1,1 milhão de vietnamitas
para o amor e da paz para a paz, até que final-
morreram no conflito [algumas estimativas apon-
mente todos os cantos do mundo fiquem cober-
tam para mais de 3 milhões de mortos]. O “agente
tos por essa paz e por esse amor pelo qual, cons-
laranja” – substância química jogada pelas tropas
ciente ou inconscientemente, o mundo inteiro
dos EUA no solo para destruir plantações agrícolas
clama.”
e desfolhar florestas usadas como esconderijo pelos
[Mohandas Gandhi, in ‘The Words of Gandhi’] 156
inimigos, acabou causando danos, malformação de
Enquanto guerras e conflitos armados eclodem em crianças e contaminação, com efeitos que duram
todo o mundo, analistas tentam explicar as razões até hoje.
para cada uma delas. E eu me ponho a querer en-
Segundo se sabe pela história oficial, no dia 6 de
tender como alguém pode encontrar razão ou al-
agosto de 1945 Hiroshima perdeu 90% de suas cons-
guma explicação razoável para atitudes insanas que
truções e 25% de seus habitantes em meia hora.
matam milhares de pessoas, dizimam vilas e cidades
inteiras e espalham tanto medo e dor.
Como escreveu Tereixa Cons- balanço apresentado no início de março
tenla42, em artigo publicado em É preciso ler as “Cartas desde desse ano pelo Observatório Sírio dos
el fin del mundo: por un su-
janeiro desse ano no site El País, Direitos Humanos – SOHR [sigla em in-
perviviente en Hirosima”,
“a destruição e as doenças conti- versão em espanhol para as glês], uma organização que se tornou
nuariam crescendo muito tempo cartas escritas por Toyofumi uma das fontes mais confiáveis graças à
Ogura, morador de Hiros-
depois da explosão da bomba hima, que morreu em 1996, presença de informantes no terreno.
atômica Little Boy e da rendição aos 97 anos de idade. Desse total, 106.390 mortos são civis,
do imperador Hirohito”. Os rela- incluindo 19.811 menores e 12.513 mu-
tórios oficiais do triste episódio que marcaria para lheres. A situação na Síria se agravou com os recen-
sempre a história da humanidade falam de 306.545 tes ataques patrocinados pelos EUA e seus aliados.
157
atingidos. Contudo, como nos enfatiza Constenla, Na noite de sexta-feira, 13 de abril, o presidente Do-
neles “não é possível ver o medo, a incredulidade e nald Trump lançou um ataque à Síria, em comum
a dor dos moradores de Hiroshima, protagonistas acordo com Reino Unido e França.
forçados da hecatombe”.
E o que de fato sabemos das guerras? Pelo menos
O tempo passa e a cultura da guerra continua a ma- nas instituições de ensino, públicas e particulares,
tar para saciar a sede de poder – sobretudo econô- apenas as versões oficias. Aquilo que interessa aos
mico e político – daqueles que a produzem diaria- “vencedores” de cada guerra que saibamos e que,
mente, pelas mais variadas formas e caminhos. atualmente, nos chegam em tempo recorde através
da mídia sensacionalista de plantão que, como abu-
A guerra civil na Síria, prestes a completar sete anos,
tres à espera de um cadáver, cuidam de anunciar
já tirou a vida de 511.000 pessoas, segundo um

42
Tereixa Constenla é uma jornalista espanhola que tra-
balha na seção de Cultura do diário El País.
com infográficos e todos os adereços possíveis, as que os sintomas das lesões se agravavam com os
perversas estatísticas da guerra e constroem análi- dias, sem que soubessem o alcance das feridas, que
ses mirabolantes e superficiais sobre a mesma, sem- não eram convencionais e não revelavam sinais ex-
pre seguindo a lógica e os interesses de quem as pa- ternos traumáticos. Tão pouco sabiam que existia
trocina [a guerra e a mídia]. uma enfermidade por radiação, que modificava o
grupo sanguíneo dos afetados, minava 158
Voltando a Hiroshima, é preciso
O tempo passa e a cultura da seus glóbulos vermelhos e brancos e
ler as “Cartas desde el fin del
guerra continua a matar provocava hemorragias internas.
mundo: por un superviviente en para saciar a sede de poder –
Hirosima”, versão em espanhol sobretudo econômico e polí- Em outro artigo, também publicado no
tico – daqueles que a produ-
para as cartas escritas por Toyo- El Pais, em 2012, Tereixa Constenla es-
zem diariamente, pelas mais
fumi Ogura, morador de Hiros- variadas formas e caminhos. creve que “entre o carrossel de senti-
hima, que morreu em 1996, aos 97 mentos daqueles dias Ogura experi-
anos de idade. Ele foi “um sobrevivente casual”, o mentou um bulímico desejo: informar mediante
único professor do seu departamento de História cartas a sua mulher sobre o que havia ocorrido de-
que não morreu, porque no momento em que a pois de sua morte. Durante um ano escreveu nota
bomba explodiu ele caminhava a uns quatro quilô- depois de nota. Para ela e para ele”.
metros da cidade. Contudo, sua esposa, Fumiyo, es-
“A guerra não vinga os mortos. Aumenta-os”. Nos
tava diante de uns armazéns no centro da cidade e
lembravam as palavras de ordem das manifestações
desmaiou ali mesmo, vindo a morrer duas semanas
estudantis em Berlim, em outubro de 2001. Naquele
depois.
mesmo outubro vermelho de sangue, os ataques mi-
Ogura relata o sofrimento da esposa e a angústia vi- litares dos EUA ao Afeganistão espalhavam dor e
vida por ambos ao longo dessas duas semanas, já luto para milhares de pessoas que não escolheram a
insanidade daquela guerra, mas, assim
30
CEARÁ 2050: PARA QUEM?
ABR2018
como em todas as outras, acabaram pa- Lançada no dia 2 de outubro de 2017, du-
gando seu pior preço. rante evento realizado em Fortaleza com

O escultor Kotaro Takamuro escreveu na introdução a presença de cerca de 4 mil pessoas, a Plataforma

da edição espanhola das cartas de Ogura: “qualquer Estratégica de Desenvolvimento de Longo Prazo –

político ou militar que lesse este livro perderia o de- Ceará 2050 pretende “traçar estratégias para acele-

sejo de fazer a guerra”. Pessoalmente, penso que rar o crescimento econômico estadual nas próximas

quanto mais acreditarmos na guerra [e em toda três décadas e atender, de forma mais eficiente, às

forma de violência] como caminho para a solução expectativas da sociedade pela oferta de serviços

dos nossos problemas, mais nos distanciaremos da essenciais – saúde, educação, abastecimento de

perspectiva biocêntrica de mundo e, por conse- água, segurança pública e geração de emprego e

guinte, da centelha divina que sustenta e nutre renda”, conforme texto publicado no site oficial do

nossa própria humanidade, na sua dimensão indivi- Governo do Estado do Ceará. 159

dual e coletiva, já que somos parte de um todo: a Em que pese a importância da iniciativa, será neces-
grande teia da vida, com a qual urge nos reconec- sário, antes de qualquer outro passo, refletir sobre
tarmos, antes que seja tarde. algumas questões que considero primordiais e que
vão desde aspectos conceituais como a própria
ideia de “desenvolvimento sustentável”, presente
nos primeiros discursos sobre a Plataforma, até a
carência de respostas para expectativas geradas em
processos anteriores semelhantes, a exemplo da re-
qualificação dos Planos Territoriais de
Desenvolvimento Sustentável [PTDS], realizada en- mercados financeiros, fontes de desequilíbrios”,
tre os anos de 2016 e 2017, sob a coordenação da destaca Jara.
Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Estado
O chamado Triple Bottom Line [Tripé da Sustentabi-
do Ceará, através da Coordenadoria de Desenvolvi-
lidade], criado em 1990 pelo britânico John Elking-
mento Territorial e Combate à Pobreza Rural [CO-
ton, fundador da ONG SustainAbility, que concebe o
DET].
“desenvolvimento sustentável” como aquele que
O cientista político e social equatoriano Carlos Jara, “deve ser economicamente viável, socialmente
em documento preparado para o X Fórum Internaci- justo e ambientalmente correto” é duramente criti-
onal de Desenvolvimento Territorial, realizado em cado também pelo teólogo e escritor Leonardo Boff,
2015 na cidade de Salvador [BA], refere-se ao con- para quem “A expressão desenvolvimento sustentá-
ceito de “desenvolvimento sustentável” apresen- vel representa uma armadilha do sistema impe-
tado pelo Relatório Brundtland43, como uma atra- rante: assume os termos da ecologia [sustentabili-
160
tiva ideologia neoliberal que não logrou manter o dade] para esvaziá-los. Assume o ideal da economia
equilíbrio entre a produção material e a conserva- [crescimento] mascarando a pobreza que ele
ção dos recursos naturais. “Bonito conceito, só que mesmo produz”.
a lógica da distribuição se apoiou no crescimento,
O autor do livro “Sustentabilidade: o que é e o que
que esteve e está submetido à dinâmica dos
não é” [2012], lembra que “O desenvolvimento

43
Em 1983, a médica Gro Harlem Brundtland, mestre em documento “Nosso Futuro Comum” [Our Common Fu-
saúde pública e ex-Primeira Ministra da Noruega, foi con- ture], que ficou conhecido como Relatório Brundtland.
vidada pela Secretaria Geral da Organização das Nações Neste documento o desenvolvimento sustentável é con-
Unidas para estabelecer e presidir a Comissão Mundial cebido como “O desenvolvimento que satisfaz as necessi-
sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Em 1987, dades presentes, sem comprometer a capacidade das ge-
após dezenas de reuniões da Comissão, foi apresentado o rações futuras de suprir suas próprias necessidades”.
realmente existente é linear, crescente, explora a pelo poder público, sem que, contudo, recebam a
natureza e privilegia a acumulação privada. É a eco- devida devolutiva para suas contribuições, especial-
nomia política de viés capitalista. A categoria sus- mente através de ações concretas que os animem a
tentabilidade, ao contrário, provém das ciências da seguir dedicando tempo, esforços e energias a pro-
vida e da ecologia, cuja lógica é circular e inclu- cessos coletivos de planejamento ou de pensa-
dente. Representa a tendência dos ecossistemas ao mento sobre o futuro.
equilíbrio dinâmico, à interdependência e à coope-
Uma breve leitura do documento final do Plano Ter-
ração de todos com todos”. Como se depreende:
ritorial de Desenvolvimento Sustentável do Cariri
são lógicas que se auto-negam: uma privilegia o in-
[PTDS Cariri 2017-2024], elaborado através de um
divíduo, a outra o coletivo, uma enfatiza a competi-
amplo e rico diálogo com representantes de institui-
ção, a outra a cooperação, uma a evolução do mais
ções públicas e de organizações da sociedade civil,
apto, a outra a co-evolução de todos interconecta-
além de cidadãos e cidadãs que livremente decidi-
dos., enfatiza Boff.
ram fazer parte do mesmo, nos permitirá identifi- 161
Ademais, é preciso responder a questões cruciais já car, com facilidade, valiosas contribuições que até o
sinalizadas em momentos anteriores, antes de inici- momento não foram respondidas pelas instituições
armos mais um processo de diálogos com os cearen- públicas a quem caberia a execução ou o apoio às
ses, sob pena de vermos os novos momentos de di- propostas lá apresentadas.
álogo a serem propostos na metodologia do Ceará
Dentro do eixo “Formação Cidadã e Organização So-
2050 esvaziados em virtude da descrença de atores
cial” do PTDS Cariri, por exemplo, um dos objetivos
estratégicos – especialmente da sociedade civil or-
é “promover o etnodesenvolvimento e a autonomia
ganizada – que, ao longo de anos têm contribuído
das mulheres e da juventude do campo, das cidades
com suas ideias e opiniões sempre que chamados
e da floresta, por meio do acesso à formação, à
organização social e à cidadania”. Vinculada a esse Ceará na elaboração da Plataforma, cabendo à UFC
objetivo está a estratégia de “criar mecanismos de a condução do processo, especialmente através da
reconhecimento das parteiras, benzedeiras, curan- reunião e analise de pesquisas, ações e ideias oriun-
deiras e afins, assim como das medicinas tradicio- das de vários setores da sociedade, segundo decla-
nais oriundas/praticadas pelos povos e comunida- rou o professor José de Paula Barros Neto, coorde-
des tradicionais”. Uma meta simples dessa estraté- nador do projeto na Universidade, ao jornal da UFC
gia e ainda sem encaminhamento concreto, em que [edição de fevereiro de 2018]. A mesma edição des-
pese seu significado para os povos e comunidades taca que “apesar da amplitude do projeto, há dois
tradicionais locais, é a “realização de um Encontro aspectos que, de acordo com os responsáveis, vão
anual de Saberes e Fazeres das Comunidades e Po- nortear tanto as discussões como a execução da pla-
vos Tradicionais do Cariri cearense”. taforma: aumentar a riqueza gerada no Ceará e, ao
mesmo tempo, reduzir as desigualdades”.
Aliás, vale ressaltar que a própria estratégia territo-
rial, que foi enfraquecida no atual governo federal Aqui reside um dos principais desafios: identificar
por razões claramente políticas, também deixou de que paradigma e que visão de mundo guiarão os di- 162
receber a devida atenção do governo estadual, já álogos em busca de ideias para o Ceará 2050. A cen-
durante a fase final de requalificação dos PTDS nos tralidade da nossa visão de futuro estará no cresci-
diversos territórios cearenses, mesmo tendo sido mento econômico, na perspectiva da economia
anunciada em diversos momentos a decisão política como base para as outras políticas públicas, ou con-
do atual governo estadual de contribuir para man- seguiremos enxergar a premência de um novo para-
ter viva a estratégia territorial no Ceará. digma, comprometido com a centralidade da vida, a
serviço da qual a economia deve se colocar?
Voltando ao Ceará 2050, a Universidade Federal do
Ceará [UFC] é parceira do Governo do Estado do
Para Maia Júnior, secretário de Planejamento e Ges- povos tradicionais através de saberes ancestrais e
tão do Estado, “Não podemos nos dar o luxo de de lições tiradas da luta diária pela sobrevivência
prescindir do conhecimento das universidades. E as que encontra na solidariedade, na comunhão e no
universidades não devem cultivar um conheci- cuidado a força necessária para superar as dificulda-
mento distante das necessidades mais essenciais da des decorrentes de um modelo econômico concen-
sociedade”. Esse pensamento é compartilhado por trador de renda e riqueza, de uma cultura de pre-
Henry Campos, reitor da UFC, para quem “É de conceito e exclusão e de um Estado ausente ou pre-
grande sabedoria a decisão do Governo do Estado sente apenas através do seu braço mais violento.
de traçar um plano de desenvolvimento com base
Portanto, para construirmos um Ceará que tenha al-
no conhecimento, na pesquisa, na inovação. O co-
guma chance de fazer sentido para a grande maioria
nhecimento é fundamental para a transformação
dos cearenses, será necessário pactuar princípios,
social como um todo”.
estabelecer referenciais ético-políticos e fazer esco-
163
Embora não se possa negar a importância da contri- lhas que superem a limitada visão desenvolvimen-
buição da academia nesse processo, é fundamental tista que tenta conciliar conceitos e interesses mui-
compreendermos a necessidade de acolhermos tas vezes inconciliáveis. É preciso decidir para quem
uma nova perspectiva epistemológica que, rom- queremos o Ceará 2050, antes mesmo de pensar-
pendo com a tradicional visão academicista enclau- mos o que precisa ser feito, lembrando que ao longo
surada nas frias paredes de concreto das Universi- dos próximos 30 anos há muita injustiça a ser repa-
dades e nos inférteis acordos tácitos do “eu te cito, rada. Há muita desigualdade a ser superada e muita
tu me citas”, reconheça a valiosa contribuição que distância a ser encurtada, não pelas estradas de as-
tem sido dada, ao longo dos tempos e até hoje, por falto, mas pelas vias do cuidado e do respeito à vida.
várias organizações, coletivos, comunidades e
Só há sentido em mobilizarmos esforços, energias e
recursos para pensarmos o Ceará 2050 se as propos-
tas paridas nesse processo e seus desdobramentos
estiverem a serviço dos mais pobres e dos invisibili-
zados. Se estiverem visceralmente comprometidas
com a superação das múltiplas formas de exclusão
que ainda nos assombram e roubam direitos funda-
mentais de milhares de cearenses.

Fora disso, é fazermos mais do mesmo e construir-


mos, sob o manto desbotado de uma acanhada de-
mocracia, novas ilusões para o enfrentamento de
falsos problemas centrais.
164
A EUGENIA COMO MANTO INVISÍVEL 09 Já a partir de 1859, quando Charles Dar-

DO PRECONCEITO NO SÉCULO XXI win [The origin of species] propôs que a


JUL2018
seleção natural fosse o processo de sobre-
Em 1883 o antropólogo e matemático in-
vivência a governar a maioria dos seres vi-
glês Francis Galton usa, pela primeira vez, a palavra
vos, Galton e vários outros pensadores passaram a
“eugenia” para designar uma “ciência do melhora-
defender o que ficou conhecido como darwinismo
mento biológico do tipo humano”. A teoria galtoni-
social.
ana buscava se apoiar em estudos estatísticos dos
fenômenos hereditários e sustentava que o tama- Dez anos depois, em seu livro Hereditary genius,

nho do corpo, cor dos olhos, força dos músculos, in- Galton – utilizando-se de biografias familiares de

teligência e até moralidade eram herdados. Galton pessoas famosas, dicionários biográficos e registros

procurava encontrar relações de antecedentes familiares de artistas

mensuráveis entre caracterís- e intelectuais de diversas áreas – de-


A eugenia delineada nos seletos
ticas físicas e o caráter e agru- fendeu a tese de que não somente os 165
grupos intelectuais frequenta-
pava as pessoas segundo ca- dos por homens brancos dos aspectos físicos, mas também o talento
EUA inspirou nacionalistas ale- e a capacidade intelectual poderiam
racterísticas gerais, o que per-
mães defensores da suprema-
mitiria, segundo sua teoria, cia racial, como Adolf Hitler, ser calculados, administrados e estimu-

controlar a reprodução da es- que se valeu de métodos de lados, por meio de casamentos criteri-
identificação, segregação, este-
pécie ao suprimir os considera- osos durante gerações consecutivas.
rilização, eutanásia e extermí-
dos tipos “ruins” e aumentar a nio em massa dos indesejáveis, Essa teoria influenciou largamente – e
para dar materialidade a seu ainda influencia – a visão de muitas “fa-
natalidade daqueles “bem-
ódio ao povo judeu, tudo sob o
nascidos”. manto da pseudociência. mílias nobres” em todo o mundo,
sendo comum o arranjo de casamentos
entre pessoas do mesmo grupo ou classe social com materialidade a seu ódio ao povo judeu, tudo sob o
o fim de manter a “linhagem pura” e a supremacia manto da pseudociência.
racial e de classe.
Embora a ampla repercussão negativa da experiên-
As propostas de Galton ficaram conhecidas como cia nazista tenha levado ao abandono do uso do
“eugenia positiva”. Contudo, como escreve Andréa termo e, sobretudo, da defesa pública da eugenia, a
Guerra44, nos EUA “elas foram modificadas, na dire- ideologia segregacionista, o racismo e o ódio daí de-
ção da chamada ‘eugenia negativa’, de eliminação correntes continuaram e continuam a acompanhar
das futuras gerações de ‘geneticamente incapazes’ a história da humanidade.
– enfermos, racialmente indesejados e economica-
Foi assim com os hereros, povo banto da África Su-
mente empobrecidos –, por meio de proibição ma-
doeste [hoje Namíbia], após se oporem à coloniza-
rital, esterilização compulsória, eutanásia passiva e,
ção alemã na primeira década do século XX. Expul-
em última análise, extermínio”.
sos para o deserto de Omaheke, os hereros foram
A eugenia delineada nos seletos grupos intelectuais condenados à morte por fome e sede após o enve-
frequentados por homens brancos dos EUA inspirou nenamento de suas fontes d’água pelo exército ale- 166
nacionalistas alemães defensores da supremacia ra- mão.
cial, como Adolf Hitler, que se valeu de métodos de
Foi assim nos atos de fuzilamento em massa levados
identificação, segregação, esterilização, eutanásia e
a cabo pela invasão japonesa à China na década de
extermínio em massa dos indesejáveis, para dar
1930. Somente no massacre de Naking, em 1937,
300 mil pessoas foram mortas. O objetivo era o

44
Do holocausto nazista à nova eugenia no século XXI. Ci-
enc. Cult. vol.58 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2006.
aniquilamento dos chineses e coreanos, considera- feriram dezenas em frente à igreja da Candelária, no
dos inferiores pelos invasores. Foi assim no Tibete, Centro do Rio de Janeiro.
invadido pela China em 1949. Nos primeiros dez
Ela também se faz presente nas políticas higienistas
anos de invasão, cerca de 6 mil mosteiros foram
colocadas em marcha recentemente na cidade de
destruídos e milhares de pessoas foram mortas.
São Paulo, pelo governo de João Doria [PSDB]. Em
Tem sido assim nos frequentes atos de genocídio e 2014, moradores da zona oeste do Rio de Janeiro
etnocídio dirigidos a povos e comunidades tradicio- foram removidos por conta das obras para os Jogos
nais em várias partes do mundo e, de modo espe- Olímpicos. No mesmo ano, ações de “limpeza pú-
cial, na América Latina. A propósito, como nos lem- blica” que incluíam a dispersão da população em si-
bra Pierre Clastres, em seu livro “Arqueologia da Vi- tuação de rua foram realizadas em Salvador e Porto
olência” – lançado no Brasil em 2004, pela editora Alegre, que se preparavam para sediar a Copa do
Cosac & Naify – “o etnocídio é a supressão das dife- Mundo.
renças culturais julgadas inferiores e más; é a apli-
Mas, a eugenia não está presente apenas na mente
cação de um projeto de redução do outro ao
de gestores públicos e outros agentes estatais. Em
mesmo”.
outubro de 2011, a troca do endereço de um alber-
A eugenia deixou suas marcas profundas no Brasil gue que abriga moradores de rua, instalado no
do século XX, também através do massacre do Ca- bairro de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo,
167
randiru [1992], que resultou na morte de 111 deten- causou muita polêmica. Bastou a Prefeitura anun-
tos do pavilhão 9 da Casa de Detenção Carandiru ciar que iria instalar o albergue em um imóvel
[SP]. Outro caso foi a chacina da Candelária [1993], maior, na mesma rua, para que alguns moradores e
quando policiais à paisana mataram oito crianças e comerciantes locais, num evidente ato de intolerân-
cia social, reagissem à ideia com argumentos
recheados de preconceito. O episódio foi analisado eugênica, como a que se faz com os animais, evoca
por mim em artigo publicado aqui no blog. O Processo kafkiano. Janaína K. acordou detida por
pessoas que não conhece, a fim de responder a pro-
Naquele mesmo ano, moradores do bairro Higienó-
cesso judicial do qual não sabe o motivo […] Ela não
polis, também em São Paulo, protestaram contra a
teve vez alguma quando se discutiu o seu próprio
construção de uma estação de metrô na região por-
direito à reprodução. Em suma, a inobservância do
que ficaram com receio de que a nova opção de
rito a transformou não em sujeito, mas em mero ob-
transporte atrairia “uma gente diferenciada”. Em
jeto processual”.
2013, os rolezinhos marcados por jovens da perife-
ria em parques e shopping centers espantaram fre- Como se vê, no Brasil do século XXI a eugenia tam-
gueses e levaram os estabelecimentos a reforçar a bém usa toga e passeia de mãos dadas com o Minis-
segurança. tério Público, zombando dos direitos dos invizibiliza-
dos da sociedade da indiferença, do abandono e da
Mais recentemente, em junho desse ano, veio à 168
intolerância. Enquanto isso, como nos alertava Cae-
tona o caso de Janaina Aparecida, 36, moradora de
tano Veloso na música Panis Et Circencis, gravada
rua, submetida a procedimento de laqueadura das
pelos Mutantes, em 1968, “as pessoas na sala de
tubas uterinas [esterilização], sem o seu consenti-
jantar, são ocupadas em nascer e morrer”.
mento, por decisão judicial proferida pelo juiz
Djalma Moreira Gomes Júnior, da comarca de Mo-
coca [SP], em acatamento a ação impetrada pelo
promotor Frederico Liserre Barruffini.

Em nota de repúdio, o Instituto de Garantias Penais


[IGP] enfatizou que “a esterilização compulsória e
AGROTÓXICOS: UM NEGÓCIO
SUJO E NADA POP
24 locais em zonas rurais no Brasil. São comunidades
rurais, comunidades indígenas, comunidades qui-
JUL2018 lombolas e escolas rurais.
Em maio de 2013, um avião pul-
verizou agrotóxicos sobre a es- Há tempos a ganância e a sede voraz da indústria

cola rural São José do Pontal, localizada em meio às de agrotóxicos por lucros a qualquer custo, estreita-

vastas plantações de milho e soja em volta de Rio mente associadas aos interesses do agronegócio,

Verde, pequena cidade do estado de Goiás. Cerca vêm fazendo vítimas no Brasil e em todo mundo. O

de 90 pessoas, a maioria delas crianças que estuda- relatório da Human Rights Watch trata de um re-

vam na escola, foram imediatamente hospitaliza- corte específico, mas há muitas outras formas de

das. envenenamento que alçam trabalhadores, consu-


midores e até comunidades inteiras.
Cinco anos depois o cenário pouco mudou. “Pes- 169
soas em zonas rurais por todo o país continuam O cineasta Sílvio Tendler, em dois documentários so-

sendo intoxicadas por agrotóxicos. Pessoas comuns, bre o assunto [“O veneno está na mesa” e “O ve-

em suas rotinas diárias, são expostas a tóxicas apli- neno está na mesa 2”], apresenta dados assustado-

cações de agrotóxicos que ocorrem com frequência res. Desde 2008 o Brasil é o maior consumidor mun-

nas proximidades de suas casas, escolas e locais de dial de agrotóxicos e cada brasileiro consome em

trabalho”. É o que revela o relatório “Você não quer média 5,2 litros de agrotóxicos por ano, revela Ten-

mais respirar veneno”, produzido pela Human dler, com base em informações da Campanha Per-

Rights Watch, uma organização da sociedade civil manente contra os Agrotóxicos e pela Vida.

com atuação em várias partes do mundo, que entre


julho de 2017 a abril de 2018, entrevistou 73 pes-
soas afetadas pela deriva de agrotóxicos em sete
Seguindo nessa direção, a nova edi- Esse lucrativo mercado é contro-
ção do Dossiê ABRASCO, publicado “O uso de Organismos Geneti- lado, em todo mundo, por gran-
camente Modificados [OGM], a
em 2015, revela que 64% dos ali- des corporações como Bayer,
expansão da agropecuária so-
mentos consumidos pelos brasilei- bre as florestas nativas, o uso Syngenta e Monsanto, esta úl-
ros estão contaminados por agrotó- massivo de agrotóxicos e os im- tima, fabricante do PCB [pira-
pactos socioambientais e climá-
xicos [Anvisa, 2013] e que entre ticos advindos do nosso sistema leno], o agente laranja usado
2007 a 2014 foram registradas produtivo têm comprometido o como herbicida na guerra do Vi-
futuro da nossa alimentação e
34.147 notificações de intoxicação etnã, e de hormônios de au-
da resiliência do planeta”.
por agrotóxico no Brasil [MS/Data- mento da produção de leite proi-
SUS]. Além disso, entre 2000 e 2012 bidos na Europa. Em setembro de
foi registrado um aumento de 288% no uso de agro- 2016 foi anunciada com estardalhaço a fusão global
170
tóxicos no país [Sindag] e o faturamento da indús- das empresas Bayer e Monsanto. O negócio esti-
tria de agrotóxicos no Brasil em 2014 foi de 12 bi- mado em cerca de 66 bilhões de dólares criou a
lhões de dólares. maior companhia integrada de pesticidas e semen-
tes do mundo. No início de junho desse ano o grupo
Regina Reinart, encarregada de projetos da Mise-
alemão dos setores farmacêutico e agroquímico Ba-
reor na América Latina, em entrevista para o site
yer anunciou que suprimirá a marca Monsanto de-
Brasil de Fato, declara que “em Mato Grosso, foi
pois de concluir a compra da empresa estaduni-
feita uma pesquisa onde a água, a terra, o ar, os ali-
dense. Uma tosca tentativa de apagar o rastro de
mentos, tudo, até o leite materno de mulheres ama-
destruição e mortes deixado pela Monsanto e sua
mentando, estão envenenados por esses agrotóxi-
filosofia empresarial com a qual a Bayer está visce-
cos”.
ralmente associada.
No livro “Agricultura Tóxica: um não humana e a compra es-
olhar sobre o modelo agrícola bra- Tão importante quanto denunciar é cancarada de parlamentares e
anunciar. Nesse sentido, vale desta-
sileiro”, publicado em outubro de car a resistência de vários servidores outros agentes públicos de
2017 pelo Greenpeace Brasil, o públicos, pesquisadores, organiza- alto escalão ou ocupantes de
ções da sociedade civil, movimentos
alerta é claro: temos um abacaxi cargos e funções públicas es-
sociais, povos e comunidades tradi-
pra descascar. “O uso de Organis- cionais a esse violento processo que tratégicas para aprovar leis e
mos Geneticamente Modificados galopa no dorso largo da ganância normas nacionais e locais que
no Brasil e em todo mundo. Essa re-
[OGM], a expansão da agropecuá- sistência imprescindível tem se dado atendam a seus interesses.
ria sobre as florestas nativas, o uso no campo das ideias e opiniões e, so-
Segundo o Dossiê ABRASCO,
bretudo, pela prática de sistemas de
massivo de agrotóxicos e os impac-
agricultura que, baseados em sabe- no Brasil a pressão política so-
tos socioambientais e climáticos res ancestrais, consideram a terra 171
bre os órgãos reguladores da
advindos do nosso sistema produ- um ser vivo e compreendem a inter-
saúde e do ambiente é osten-
dependência entre todas as formas
tivo têm comprometido o futuro da
de vida existentes no planeta. siva e se faz sentir de diferen-
nossa alimentação e da resiliência
tes formas. “Desqualificação
do planeta”, alertam os autores da obra.
das equipes técnicas, pressão das empresas junto
Para fazer valer seus interesses a indústria de agro- aos órgãos por intermédio de parlamentares, judici-
tóxicos recorre a métodos que incluem a cooptação alização constante quando de decisões contrárias
de pesquisadores de universidades e instituições de ao uso de agrotóxicos que impedem ou retardam a
pesquisa públicas em todo o mundo, a pressão e per- regulação desses produtos no país são exemplos de
seguição de pesquisadores idôneos e suas institui- diferentes formas de pressão política”, destaca o
ções de pesquisa quando revelam evidências cientí- documento.
ficas dos danos dos agrotóxicos à vida humana e
É bem verdade que no contexto atual brasileiro os turma pop do agro [sic] não pretende parar por aí.
interesses da indústria de agrotóxicos e do agrone- Nesse momento estamos sob um novo ataque dos
gócio estão garantidos com muito mais facilidade, já tentáculos da indústria de agrotóxicos e do agrone-
que a esfera política do executivo federal e a maio- gócio e seus serviçais, que querem aprovar a qual-
ria considerável do parlamento e do judiciário re- quer custo o PL6299/2002, do deputado Luiz Nishi-
zam na mesma cartilha dos grupos que controlam mori [PR-PR], da bancada ruralista. Várias institui-
esse criminoso mercado. ções públicas e organizações da sociedade civil têm
se posicionado contrárias ao PL que vem sendo cha-
Mas, a forte influência do setor na tomada de deci-
mado de “Pacote do Veneno”.
sões de agentes públicos estatais em todo mundo
não é de hoje e alcança até mesmo governos consi- O próprio Ministério Público Federal, em nota téc-
derados progressistas. Em novembro de 2012 o en- nica da 4ª Câmara de Coordenação e Revi-
tão gerente geral de toxicologia da Agência Nacional são, aponta que o PL6299/2002 inverte as priorida- 172
de Vigilância Sanitária – ANVISA, Luiz Claudio Mei- des constitucionais ao colocar o direito à saúde,
relles, foi desligado da agência após constatar, apu- ao meio ambiente e à defesa do consumidor sub-
rar e comunicar a superiores, irregularidades na missos à ordem econômica. A nota destaca,
concessão dos Informes de Avaliação Toxicológica ainda, várias outras violações ao texto constitucio-
de produtos formulados que autorizam o Ministério nal vigente.
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA a
Contudo, tão importante quanto denunciar é anun-
registrar os agrotóxicos no país.
ciar. Nesse sentido, vale destacar a resistência de
Atualmente, dos 504 agrotóxicos liberados no Bra- vários servidores públicos, pesquisadores, organiza-
sil, 30% são proibidos na União Europeia pelos riscos ções da sociedade civil, movimentos sociais, povos
que oferecem à saúde e ao meio ambiente. Mas a e comunidades tradicionais a esse violento processo
que galopa no dorso largo da ganância no Brasil e VENCER O MEDO. REAPRENDER
26
em todo mundo. Essa resistência imprescindível A AMAR AGO2018
tem se dado no campo das ideias e opiniões e, so-
“Amarrados na caverna, sem
bretudo, pela prática de sistemas de agricultura
perceber que as sombras na pedra não passam
que, baseados em saberes ancestrais, consideram a de sombras, ainda veremos todo o céu derre-
terra um ser vivo e compreendem a interdependên- tendo, pingando o ódio que subiu e que se acu-
cia entre todas as formas de vida existentes no pla- mula cada dia mais nas nuvens negras sobre os
neta. chapéus. Apenas o amor nos salvará.

Na contramão de todas as ilusões que tentam nos Urubus espalharão que estou afundado na in-

impor por vários meios, estão seu Jonas Severino sensatez. Insensato é quem não fica bem quando
vê que o outro encontrou a paz.”
[da Zona da Mata pernambucana], Ataliba Nogueira
[do Sítio Catavento, em São Paulo], seu Zé Artur e [Escadacronia | Rancore]

dona Bastinha [de Nova Olinda, no Cariri cearense], A cultura da competição, uma das principais marcas
Mario Bonilla [do movimento Agrosolidaria, da Co- da sociedade atual, tem nos conduzido a transfor-
173
lômbia] e tantos outros homens e mulheres que nos mar todos em inimigos, a quem devemos temer e
ensinam, por sua sabedoria e seu fazer diário, que contra quem devemos lutar, às vezes até a morte e
outro mundo é possível. É aí que reside minha es- nem sempre em sentido figurado. Com isso, o medo
perança e minha determinação de seguir remando – originalmente uma condição biológica, um meca-
rio acima. nismo natural de sobrevivência – foi transformado
em traço cultural de uma sociedade adoecida e nos
acompanhará aonde formos e até o fim dos nossos
dias, caso insistamos no caminho e no jeito de
caminhar escolhidos pela espécie humana para se- imediata de uma ameaça que ponha em risco suas
guirmos nossa jornada na nossa casa comum, a Mãe vidas”, escreve Bauman.
Terra.
“Os humanos, porém, conhecem algo mais além
disso: uma espécie de medo de ‘segundo grau’, um
Já não estamos reféns de um leviatã hobbesiano,
mas de vários leviatãs pós-modernos, com sua medo, por assim dizer, social e culturalmente ‘reci-
multiplicidade de matizes e formas, para todos os clado’, ou […] um ‘medo derivado’ que orienta seu
gostos. Contudo, alguns assumem papel de des-
comportamento […], quer haja ou não uma ameaça
taque e nos exigem maior atenção. São especial-
mente perturbadores e exercem um extraordiná- imediatamente presente”, destaca o escritor polo-
rio controle sobre nossas mentes e nossos espíri- nês.
tos.
Os medos que acompanham nossa jornada diária
O medo é um sentimento conhecido de toda cria- são muitos e variados. Já não estamos reféns de um
tura viva, lembra o sociólogo polonês Zygmunt Bau- leviatã hobbesiano, mas de vários leviatãs pós-mo-
man45, em seu livro Medo Líquido [2006]. “Os seres dernos, com sua multiplicidade de matizes e formas,
humanos compartilham essa experiência com os para todos os gostos. Contudo, alguns assumem pa- 174
animais. Os estudiosos do comportamento animal pel de destaque e nos exigem maior atenção. São es-
descrevem de modo altamente detalhado o rico re- pecialmente perturbadores e exercem um
pertório de reações dos animais à presença

45
Zygmunt Bauman [1925-2017] foi o grande pensador milhares de pessoas a pensar a sociedade atual através
da modernidade. Perspicaz analista de temas contempo- do conceito de liquidez. Professor emérito das universi-
râneos, deixou vasta obra – com destaque para o best- dades de Varsóvia e Leeds, tem cerca de quarenta livros
seller Amor líquido, fundamental para a compreensão publicados no Brasil, todos pela Zahar, com enorme su-
das relações afetivas hoje. Sociólogo e filósofo, soube se cesso de público. Bauman nasceu na Polônia e morreu na
comunicar diretamente com seus leitores, levando Inglaterra, onde vivia desde a década de 1970.
extraordinário controle sobre nossas mentes e nos- ensurdecidas, de que vivemos em um planeta com
sos espíritos. recursos infinitos.

Entre estes, está a ilusão da ideologia do consumo, Por outro lado e ao mesmo tempo, a excludente ló-
que tenta nos impor um modo de vida predatório e gica da sociedade competitiva se pauta pelo medo
inacessível para a maioria e instala em nós a neu- da escassez, da insuficiência. Vivemos sob o império
rose do “medo de ficar de fora”, representado em do medo de perder aquela vaga de emprego para
inglês pela sigla FoMO46. Padecemos, frequente- outra pessoa, de perder o último ingresso do show
mente, do medo de não sermos incluídos e vivemos tão esperado para alguém que chegue primeiro na
uma busca incessante por status que, nesse con- fila, de não encontrar vaga no estacionamento por-
texto e na criativa definição de Geraldo Eustáquio que alguém pode ser mais rápido ou mais ágil que
de Souza47, consiste em “comprar coisas que você eu e daí por diante. Contudo, como nos lembra o bi- 175
48
não quer, com o dinheiro que você não tem, afim de ólogo chileno Humberto Maturana , “a competição
mostrar para gente que você não gosta, uma pessoa não é, nem pode ser sadia, porque se constitui na
que você não é”. Agregue-se a isso a mentira, que negação do outro”. E eu vou um pouco além: ao ne-
ainda perdura em muitas mentes desavisadas ou gar o outro, estou negando a minha própria

46
Fear of Missing Out. O FoMO foi citado pela primeira Sociologia pela UFPR e Especialista em Gênero e Sexuali-
vez em 2000 por Dan Herman e definido anos depois por dade pela UERJ.
48
Andrew Przybylski e Patrick McGinnis como o medo de Humberto Maturana é biólogo, nascido no Chile, e co-
que outras pessoas tenham boas experiências que você criador da Teoria da Autopoiese junto com Francisco Va-
não tem. Além disso, o receio incentiva a ficar sempre co- rela. É co-fundador, co-diretor, investigador e docente do
nectado para saber de tudo e compartilhar novidades Instituto de Formação Matriztica, onde segundo o seu
com os outros. próprio dizer: – Criamos um laboratório humano.
47
Geraldo Eustáquio de Souza, atualmente Letícia Lanz, é
psicanalista, poeta, escritora e pensadora. Mestra em
humanidade, aqui afastada de qualquer perspectiva já que naquele contexto não passo de um expecta-
antropocêntrica. dor, de alguém que apenas assiste de fora.

Na contramão ou na contralógica desse modelo, a Como, então, explicar esse desejo incontrolável de
solidariedade e a empatia – mais que a cooperação extravasar nossos medos, ainda que isso signifique
– se nutrem da fertilidade generosa do amor, de excluir [leia-se: eliminar] alguém – com quem nunca
onde nascem o acolhimento, a partilha, a bonança e tive qualquer contato e em quem não identifico
a fartura. qualquer ameaça real – pelo simples fato de não
simpatizar com suas ideias, não gostar de sua cor,
Voltando a Zygmunt Bauman, em seu “Medo Lí-
me sentir desconfortável com sua orientação se- 176
quido” o autor toma por referência os reality
xual, com sua identidade de gênero ou julgá-lo infe-
shows para ilustrar um dos mais graves sintomas de
rior?
insanidade do nosso tempo. Movidos pelo medo de
ficar de fora ou de ser excluído, nos antecipamos e Porque, nos padrões atuais, a diferença tem essa
lançamos mão, de forma eufórica [quase orgástica], poderosa capacidade de revelar nossos medos mais
da oportunidade de eliminarmos algum partici- perturbadores? Miguel de Cervantes e Saavedra49,
pante do reality show, mesmo sabendo que os con- falando através do personagem Dom Quixote, em
finados não representam qualquer ameaça a mim, sua imortal obra “Don Quijote de la Mancha”
[1605], nos lembra que “um dos efeitos do medo é

49
O romancista, dramaturgo e poeta espanhol Miguel de Cervantes é considerado entre os mais importantes em
Cervantes Saavedra [1547-1616] já teve sua obra- toda a literatura. Sua influência sobre a língua caste-
prima, Dom Quixote, considerada, muitas vezes, o pri- lhana tem sido tão grande que o castelhano é frequente-
meiro romance moderno. Dom Quixote é um clássico mente chamado de La lengua de Cervantes.
da literatura ocidental e o trabalho de Miguel de
turvar os sentidos, e fazer que pareçam as coisas ou- medo, que nosso maior desafio no século XXI passou
tras do que são”. a ser reaprender a amar.

Os reality shows, essas versões líquido-modernas Portanto, para que o amor floresça e seus frutos
das antigas morality plays50, testemunham diaria- possam ser colhidos pela espécie humana e por
mente em favor da vigorosa realidade dos medos, toda biosfera, precisamos vencer a matriz cultural 177
escreve Bauman. “Como indica o nome que assu- do medo, tão fortemente arraigada em cada um de
mem [..], o que eles mostram é real; mais impor- nós e nas nossas falidas estruturas institucionais.
tante, contudo, indica também, que ‘real’ é aquilo Precisamos encerrar o ciclo vicioso de ódio, indife-
que mostram. E o que mostram é que a inevitabili- rença e intolerância, propagado à exaustão nos últi-
dade da exclusão – e a luta para não ser excluído – mos tempos, que tem nos aprisionado, durante sé-
é aquilo no qual a realidade se resume”. Triste e as- culos, a padrões vibracionais adoecidos, a compor-
sustadora constatação. tamentos que rejeitam a diferença, ignoram a diver-
sidade, negam a vida e ameaçam a continuidade da
Contudo, há algo muito importante a ser dito: dife-
espécie humana e a unidade cosmológica essencial
rente do que nos ensinaram, o contrário do amor
à regeneração da vitalidade da Terra, tão seria-
não é o ódio, mas o medo. O ódio é, tão somente,
mente comprometida pela nossa cultura de medo e
reflexo, decorrência do medo. A questão central
desamor. Pela nossa ausência de cuidado e nossa ir-
aqui é: chegamos a um nível tal de adoecimento [in-
responsável arrogância antropocêntrica.
dividual e coletivo] e de imperativo da cultura do

50
O jogo da moralidade é um gênero de entretenimento tempo, essas peças eram conhecidas como interlúdios,
teatral medieval e do início dos Tudors. Em seu próprio um termo mais amplo para dramas com ou sem moral.
SOBRE DOMINGO E O PORVIR processos decisórios que realmente impor-

Há algum tempo venho assumindo publi-


06 tam e cujas vozes têm sido ignoradas ou re-

OUT2018
primidas, quase sempre de forma violenta.
camente, na militância e na academia, a
crítica à democracia liberal burguesa, Contudo, as eleições do próximo dia 7 no
que tem no modelo representativo sua principal pi- Brasil assumem uma expressão e uma importância

lastra de sustentação e que restringe a participação que vai muito além da escolha de quem irá geren-

da sociedade à escolha de representantes que, em ciar pelos próximos quatro anos o Estado brasileiro,
sua grande maioria, representam apenas os interes- inclinando-se mais para os interesses das camadas
ses do grande capital e das elites locais e globais que populares e desfavorecidas da população ou para os
os financiam. Vivemos a ilusão de uma democracia interesses das elites, opção preferencial dos gover-
que, na perspectiva liberal, deveria nos bastar, já nos liberais em seus vários tons de cinza.
178
que a tomada de decisões não pode contemplar a O discurso de ódio e intolerância que galopa no
soberania popular, cabendo aos representan- dorso largo da ignorância e do desequilíbrio emoci-
tes, mais aptos e mais racionais, tomarem as me- onal do candidato Jair Bolsonaro – representação
lhores decisões para o país e para o povo. A eleição plena do que de pior a cadela do fascismo pode pa-
é o momento máximo da democracia liberal, em rir no contexto atual – traz consigo a ameaça escan-
que o povo legitima o exercício do poder, outor- carada à vida, à dignidade humana e à mais elemen-
gando-o aos representantes. tar democracia. Tristemente, por motivos diversos
Portanto, é claro que essa ideia nanica de democra- – para muitos dos quais talvez somente o tempo his-

cia está longe de responder às demandas da maioria tórico nos trará explicações – o discurso eugenista

da população brasileira, especialmente dos mais po- capitaneado por Bolsonaro tem encontrado eco em
bres que, historicamente, têm sido alijados dos
parcela expressiva dos brasileiros, inclusive entre os e ao estupro, até manifestações claramente homo-
mais pobres. fóbicas e machistas.

Movida pelo medo, parte da população embarcou No dia 23 de maio de 1999, durante entrevista para
facilmente no moralismo odioso e nas promessas de o programa “Câmera Aberta” [TV Bandeirantes/RJ],
proteção e redenção de um falso messias, vazio de apresentado por Jair Marchesini, o deputado fede-
conteúdo e pobre de espírito, a destilar seu veneno ral pelo Rio de Janeiro Jair Bolsonaro declarou ser a
que se espalha rapidamente feito fogo no palheiro, favor da tortura. Na mesma entrevista disse que se
nutrido pelo combustível da desesperança e da fosse presidente da República daria golpe no
mentira lançada do alto e a granel, da forma mais mesmo dia. E acrescentou: “O Brasil só vai melhorar
irresponsável e criminosa que se possa imaginar. quando nós partirmos para uma guerra civil aqui

Assim, repito, já não se trata apenas de escolher


dentro […] Fazendo o trabalho que o regime militar 179
não fez, matando uns 30 mil […]. Se vai morrer al-
quem irá governar os destinos do Brasil pelos próxi-
guns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra
mos quatro anos, dentro dos limites da democracia
morre inocente”.
liberal burguesa. A questão central passou a ser ou-
tra: como impedir que os piores pesadelos que Dezessete anos depois, durante a votação do pro-
marcaram a história recente desse país se instalem cesso de impeachment de Dilma Rousseff, em abril
novamente entre nós? de 2016, Bolsonaro volta a defender a ditadura e,
numa clara apologia à tortura, dedicou seu voto fa-
Para além do evidente total despreparo para gover-
vorável ao afastamento da presidenta “em memória
nar o país, há anos Bolsonaro coleciona declarações
do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra”, primeiro
que não são apenas polêmicas, mas recreadas de
militar torturador reconhecido como tal pela Justiça
ódio e preconceito, indo desde a apologia à tortura
brasileira.
Ao mesmo tempo, as acusações mesma não merecia. O depu-
de homofobia e machismo que Em conversa com o jornalista Gus- tado repetiu a afirmação usando
tavo Foster o presidenciável decla-
pesam sobre Bolsonaro não são rou que, como liberal e colocando-se a tribuna da Câmara dos Deputa-
gratuitas nem infundadas, como no lugar dos empresários – de quem dos e dias depois voltou ao as-
afirmou ter pena – não achava justo
alguns de seus defensores argu- sunto durante entrevista conce-
a mulher ganhar igual ao homem, já
mentam. Em 2011, o então de- que ela engravida. dida a Gustavo Foster, do jornal
putado federal pelo PP de Paulo gaúcho Zero Hora.
Maluf, em entrevista para a revista Playboy, afirmou
Perguntado sobre a declaração anterior Bolso-
que preferia um filho morto a um herdeiro gay e
naro afirmou ao Zero Hora que “ela não merece [ser
disse que ser vizinho de um casal homossexual é
estuprada] porque ela é muito ruim, porque ela é
motivo de desvalorização de imóvel. “Seria incapaz
muito feia”. E acrescentou: “Não faz meu gênero.
de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de 180
Jamais a estupraria”. Note-se que não se trata de
hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num
uma frase dita no calor de uma discussão, como de-
acidente do que apareça com um bigodudo por aí.
pois o próprio deputado tentou explicar, o que já
Para mim ele vai ter morrido mesmo”, afirmou o
não teria justificativa alguma. A declaração foi repe-
hoje candidato à presidência da República durante
tida em dois outros momentos, inclusive durante
a entrevista para a “revista masculina”.
uma entrevista, evidenciando o que Bolsonaro real-
Em episódio ocorrido no final de 2014 e ampla- mente pensa sobre o assunto.
mente repercutido, o candidato do PSL, durante
Nessa mesma conversa com o jornalista Gustavo
uma discussão com a deputada e ex-ministra dos Di-
Foster o presidenciável declarou que, como liberal e
reitos Humanos, Maria do Rosário [PT/RS], declarou
colocando-se no lugar dos empresários – de quem
em tom raivoso que não a estuprava, porque a
afirmou ter pena – não achava justo a mulher ga- apurou que um dos 14 funcionários do gabinete par-
nhar igual ao homem, já que ela engravida. lamentar de Bolsonaro, em Brasília, era Walderice
Santos da Conceição, moradora da Vila Histórica de
De desempenho parlamentar pífio, Bolsonaro preci-
Mambucaba, a 50 quilômetros de Angra dos Reis,
sou de 25 anos ininterruptos de mandato para apro-
onde o deputado tem casa de veraneio. Walderice
var seu primeiro projeto. Trata-se de uma Proposta
figurava na folha de pagamento do parlamentar,
de Emenda Constitucional [PEC] que prevê emissão
paga com dinheiro público, desde 2003. O detalhe é
de “recibos” junto ao voto nas urnas eletrônicas
que “segundo moradores da região, Wal, como é co-
[sic]. Além disso, embora alardeie aos quatro ventos
nhecida, também presta serviços particulares na
um discurso de defesa da moralidade e de combate
casa de Bolsonaro, mas tem como principal ativi- 181
à corrupção, Bolsonaro tem em seu currículo o re-
dade um comércio, chamado ‘Wal Açaí’”.
cebimento de auxílio-moradia da Câmara dos Depu-
tados, mesmo tendo imóvel em Brasília. Questio- Eu poderia seguir elencando um sem número de ab-
nado pela Folha de S. Paulo sobre o uso do dinheiro surdos ditos e praticados por Bolsonaro contra as
do benefício, ele limitou-se a responder que como mulheres, contra os povos e comunidades tradicio-
estava solteiro naquela época, “esse dinheiro de au- nais, contra a comunidade LGBTI+, contra os pobres
xílio-moradia eu usava pra comer gente”. e tantos outros grupos odiados ou rejeitados pela
eugenia bolsonariana. Mas fiquemos por aqui, para
O mesmo jornal [Folha de S. Paulo] publicou que “o
trazer à luz outras questões sobre as quais também
presidenciável e seus três filhos parlamentares mul-
se faz necessário refletir nesse momento.
tiplicaram o patrimônio na política, reunindo atual-
mente 13 imóveis em áreas valorizadas do Rio e de O colega de chapa de Bolsonaro, na condição de
Brasília, com preço de mercado de cerca de R$ 15 candidato a vice-presidente, é o general Hamilton
milhões.”. Além disso, em janeiro desse ano a Folha Mourão que, assim com seu par presidenciável,
tornou-se conhecido por suas declarações polêmi- general, teria dito nas entrelinhas o general Hamil-
cas e também prenhes de ódio e preconceito. ton Mourão ao capitão Jair Bolsonaro.

Simpatizante do torturador Carlos Brilhante Ustra, a Dias antes, Mourão protagonizara outra polêmica
quem considera um herói, em 2017 Mourão chegou ao afirmar que famílias pobres “sem pai e avô, mas
a defender, durante palestra promovida pela maço- com mãe e avó” seriam “fábrica de desajustados”
naria em Brasília, uma possível intervenção das For- que fornecem mão de obra ao narcotráfico, igno-
ças Armadas caso as instituições não resolvessem “o rando totalmente a realidade de uma enorme quan-
problema político”. tidade de famílias brasileiras e a importância do pa-
pel que as mães e as avós sempre tiveram na forma-
Em palestra na Câmara de Dirigentes Lojistas de
ção de nossas crianças e adolescentes. Após prota- 182
Uruguaiana [RS], no dia 26 de setembro último,
gonizar mais duas ou três situações vexatórias para
Mourão afirmou que o 13º salário é uma “jabuti-
a chapa, Mourão foi orientado pela cúpula da cam-
caba brasileira”, uma “mochila nas costas dos em-
panha a não participar de eventos públicos com fre-
presários”. Embora as declarações do general te-
quência.
nham gerado mal-estar na cúpula bolsonariana e
provocado a reação do próprio capitão, que tratou Como se a situação interna da chapa Bolso-
de reprimi-lo publicamente, dias depois Mourão naro/Mourão já não estivesse bastante complicada,
voltou ao assunto, repetindo a mesma opinião. A em julho desse ano o economista Paulo Guedes, um
conclusão que tiro dessa sequência de discordân- dos homens fortes de Bolsonaro [pelo menos o era
cias, além do fato de que a briga interna começou antes de se desentenderem recentemente], afir-
bem antes do previsto, é que o recado foi dado. mou que pode manter alguns integrantes da atual
Você é o candidato a presidente, mas eu sou o equipe econômica de Michel Temer num eventual
governo Bolsonaro. A informação foi publicada pelo
site da revista Exame, com base em entrevista con- com um perfil nazifascista muito mais acentuado.
cedida à Reuters no dia 12 daquele mês. Desneces- Ou podemos frear o avanço autoritário que nos
sário lembrar ao leitor – mas, ainda assim o faço – o ronda, ainda que esta opção esteja também muito
desastre que tem sido o [des]governo Temer, inclu- longe da nossa utopia democrática.
sive para a economia do país.
A política, enquanto espaço de busca do bem co-
Como toda história marcada por intrigas e disputa mum, mesmo com todas as suas limitações, tem
de poder pede uma boa teoria da conspiração, aqui duas funções básicas: nutrir nossos sonhos e nos fa-
vai a minha: caso o capitão Bolsonaro ganhe as elei- zer caminhar em direção a um futuro melhor ou nos
ções – o que, sinceramente, espero que não acon- salvar da iminência do atraso, das ameaças antide- 183
teça – o general Mourão e outros oficiais já escala- mocráticas extremas, a exemplo da cadela do fas-
dos, darão o golpe, novamente com o judiciário e cismo que hoje nos ronda a uivar alto, enquanto es-
tudo. O plano B poderá ser: o capitão ocupa a ca- puma raivosamente. Talvez só nos reste, neste mo-
deira, mas não mandará em nada, com o seguinte mento, recorrer à política em sua segunda função.
recado direto, como diríamos lá na minha pequena Que o melhor senso prevaleça e a sombra se dis-
Madalena, no sertão Central cearense: “engula o sipe antes que seja tarde.
choro e pare de estribuchar”. Qualquer que seja o
plano adotado, os tanques de guerra nas ruas farão
parte dele.

A depender do que façamos nas urnas neste do-


mingo, poderemos dar carta branca para a volta da
ditadura civil militar que tanta dor, medo e atraso
nos trouxe ao longo de mais de duas décadas, agora
CARTA ABERTA À JUVENTUDE tomei por base, dentre outros aspectos,

Segundo turno das eleições 2018 no Brasil:


12 as propostas apresentadas pelos dois
candidatos que disputam esse segundo
contribuições ao diálogo OUT2018
turno das eleições presidenciais, tendo
Há poucos dias o sociólogo espanhol Ma-
como ponto de partida seus planos de
nuel Castells51 divulgou uma carta dirigida a intelec-
governo.
tuais de todo o mundo, comprometidos com a de-
Não esperem aqui uma neutralidade que não existe
mocracia, apelando para que se posicionem em re-
em mim ou em qualquer outra pessoa que se pro-
lação ao que está acontecendo no Brasil que, em
ponha a escrever sobre o momento atual. Tenho,
suas palavras, está em perigo já que nosso país
assumidamente, uma clara posição em defesa da
“pode eleger presidente um fascista, defensor da di-
democracia e de rejeição ao fascismo e a toda forma
tadura militar, misógino, sexista, racista e xenó-
de preconceito, intolerância e ódio. Valendo-me
fobo”, enfatiza o intelectual espanhol, um dos pen-
aqui das palavras de Martin Luther King Jr, pastor
sadores mais respeitados na atualidade. 184
protestante e ativista político estadunidense,
Instigado pelo convite de Castells, dou início aqui a
afirmo que “escolhi o amor, porque o ódio é um
uma série de artigos dedicados a temas específicos
fardo muito pesado para ser carregado”. Contudo,
ou a determinados segmentos da população, na
penso que a opção pela não violência jamais poderá
modesta tentativa de trazer luz ao diálogo inadiável
ser sinônimo de passividade, omissão ou covardia.
e inevitável sobre o presente e futuro do nosso país.
Para abrir a série, escolhi me dirigir à juventude e

51
Doutor em sociologia pela Universidade de Paris, é pro- planejamento urbano e regional e pesquisador dos efei-
fessor nas áreas de sociologia, comunicação e tos da informação sobre a economia, a cultura e a socie-
dade.
Por outro lado, posso lhes assegurar que todas as exemplo da escola e da família – seja por opção,
informações aqui apresentadas serão acompanha- omissão ou ignorância – negaram a essa mesma ju-
das da citação da fonte de pesquisa e, sempre que ventude o direito de conhecer, com profundidade,
possível, do link para confirmação da mesma. Esse é a história desse país. Somos responsáveis, em maior
um critério que acompanha meu exercício de escrita ou menor grau, pelo nascimento de uma geração
185
desde sempre e nos acompanhará ainda com maior herdeira da ausência de memória e de senso crítico.
rigor ao longo dessa série de artigos que hoje se ini-
Nossos jovens pouco sabem sobre as mais de duas
cia aqui no blog. Vamos ao primeiro tema.
décadas em que o Brasil viveu sob os ditames do re-
Tenho visto, com profunda tristeza, uma parcela ex- gime autoritário iniciado com o golpe civil-militar de
pressiva de nossa juventude declarar voto em Bol- 1964. O que os livros didáticos contam está longe de
sonaro e assumir o discurso de ódio e de intolerân- revelar as atrocidades que marcaram nossa história
cia do referido candidato. Para além do clima de de- durante aquele sombrio período, que não pode ser
sesperança que tomou conta do Brasil nos últimos esquecido e jamais deverá ser revivido.
anos e atingiu em cheio a juventude e seus sonhos
“Eu fui espancada por ele ainda no pátio do DOI-
de presente e de futuro, há outro aspecto impor-
CODI52. Ele me deu um safanão com as costas da
tante a ser considerado: nossas instituições, a

52
Durante a ditadura militar, além do Serviço Nacional de concentrar as ações repressivas no comando do Exército.
Informações [SNI] e dos serviços secretos das Forças Ar- Essa estrutura foi extinta em 1970, para dar lugar ao Des-
madas [Centro de Informações do Exército – CIE, Centro tacamento de Operações de Informações [DOI] e ao Cen-
de Segurança de Informações da Aeronáutica – CISA, e tro de Operações de Defesa Interna [CODI] instalados nas
Centro de Informações da Marinha – CENIMAR], outros principais capitais do país. Conhecidos à época pela sigla
órgãos davam sustentação ao sistema repressivo, como DOI-CODI, foram os locais por onde passaram milhares
a Polícia Federal, e no âmbito estadual, as Delegacias de presos e onde ocorreu a maioria dos casos de execuções
Ordem Política e Social [DOPS]. Em julho de 1969, em São e desaparecimentos forçados de opositores ao
Paulo, a Operação Bandeirantes [Oban] surgiu para
mão, me jogando no chão, e reconhecido pela Justiça como
gritando ‘sua terrorista’. E gri- “Assim, todo jovem que ingresse no torturador na ditadura e tratado
mercado de trabalho poderá esco-
tou de uma forma a chamar to- lher entre um vínculo empregatício como herói por Jair Bolsonaro,
dos os demais agentes, tam- baseado na carteira de trabalho tra- candidato a presidência da Repú-
dicional [azul] – mantendo o ordena-
bém torturadores, a me agarra- blica, e por seu candidato a vice,
mento jurídico atual – ou uma car-
rem e me arrastarem para uma teira de trabalho verde e amarela o general Hamilton Mourão.
sala de tortura. […] Ele levar [onde o contrato individual preva-
lece sobre a CLT]”. Certamente, uma parcela expres-
186
meus filhos para uma sala,
siva da juventude brasileira não
onde eu me encontrava na ca-
compartilha das práticas de violência e ódio alarde-
deira do dragão53, nua, vomitada, urinada, e ele leva
adas por Bolsonaro, que se aproveita da desespe-
meus filhos para dentro da sala? O que é isto? Para
rança que se abateu sobre grande parte dos nossos
mim, foi a pior tortura que eu passei. Meus filhos
jovens, para tentar transformar a rebeldia, própria
tinham 5 e 4 anos. Foi a pior tortura que eu passei”.
da juventude e que tem um papel político transfor-
O depoimento é da jornalista Amelinha Teles,
mador fundamental, em instrumento de manipula-
em entrevista ao programa Viva Maria, da Rádio Na-
ção de seus interesses fascistas.
cional da Amazônia, apresentado pela também jor-
Nas 81 páginas do Plano de Governo de Bolsonaro,
nalista Mara Régia.
registrado no Tribunal Superior Eleitoral [TSE], as
O “ele” a quem Amelinha se refere é o coronel Car-
palavras juventude e juventudes não aparecem uma
los Alberto Brilhante Ustra, primeiro militar

regime. Fonte: Ministério da Justiça/Arquivo Nacional que a pessoa era colocada sentada e tinha os pulsos
[Série “Estrutura da Repressão da Ditadura Militar”]. amarrados e sofria choques em diversas com fios elétri-
53
A cadeira do dragão era um instrumento de tortura uti- cos atados em diversas partes do corpo.
lizado na ditadura militar parecido com uma cadeira em
vez sequer, revelando o total des- trabalho pela via da precariza-
compromisso do candidato com As diferenças de propostas defendi- ção das relações trabalhistas e
das pelos dois candidatos, através de
políticas públicas para esse im- seus planos de governo registrados da exploração da mão de obra
portante segmento da popula- no TSE, evidenciam a enorme distân- jovem, agravada pela provável
cia de compreensão do papel das ju-
ção. Quando pesquisadas as pala- redução das oportunidades de
ventudes na reconstrução do Brasil.
vras jovem e jovens, separada- acesso à educação, já que em
mente, estas aparecem nove vezes [soma das duas relações de trabalho desse tipo as jornadas diárias
palavras], em textos gerais – e não como proposta – são quase sempre excessivas, roubando ainda mais 187
a exemplo da parte do documento que trata da edu- o tempo que nossa juventude poderia dedicar ao es-
cação. tudo, ao lazer e à própria família.

A única proposta concreta de Jair Bolsonaro para a Apenas para termos um parâmetro de análise,
juventude é a criação de uma nova carteira de tra- no Plano de Governo de Haddad, também regis-
balho verde e amarela. “Assim, todo jovem que in- trado no TSE, as palavras juventude e juventudes
gresse no mercado de trabalho poderá escolher en- aparecem trinta e duas vezes. O documento apre-
tre um vínculo empregatício baseado na carteira de sentado pela chapa Haddad/Manuela D’Ávila pro-
trabalho tradicional [azul] – mantendo o ordena- põe, por exemplo, um Plano Nacional de Redução
mento jurídico atual – ou uma carteira de trabalho da Mortalidade da Juventude Negra e Periférica e
verde e amarela [onde o contrato individual preva- afirma que “as políticas para a promoção dos direi-
lece sobre a CLT]”, propõe o candidato em seu Plano tos das juventudes serão orientadas pela busca per-
de Governo registrado no TSE. manente da autonomia e emancipação dos jovens,
pela valorização e promoção da participação social,
Trata-se, portanto, de uma acanhada e perversa
pelo reconhecimento do jovem como sujeito de
proposta de inserção da juventude no mercado de
direitos universais, geracionais e singulares, e pelo As diferenças de propostas defendidas pelos dois
respeito à identidade e à diversidade individual e candidatos, através de seus planos de governo re-
coletiva das juventudes”. gistrados no TSE, evidenciam a enorme distância de
compreensão do papel das juventudes na recons-
Na contramão da proposta de precarização do tra-
trução do Brasil. Enquanto para Bolsonaro caberá
balho para a juventude, defendida no Plano de Go-
aos jovens o frustrante futuro de servir de mão de
verno de Bolsonaro, o documento apresentado por
obra barata para o mercado de trabalho, através de 188
Haddad propõe a criação do programa “Meu Em-
relações precarizadas pela carteira de trabalho
prego de Novo”, com foco na juventude, e afirma
verde amarela, Haddad aponta para o papel central
que “investirá na inclusão qualificada no mercado
que a juventude joga na construção de um país,
de trabalho por meio da implementação da Agenda
justo, fraterno e inclusivo, reconhecendo e valori-
Nacional do Trabalho Decente para a juventude”.
zando os potenciais das várias juventudes do
Em seu Plano de Governo Haddad destaca ainda
campo, da cidade e das florestas.
que “a Política Nacional de Juventude [PNJ] será ori-
Enquanto Bolsonaro defende, abertamente, armar
entada pelos direitos assegurados pelo Estatuto da
a população, inclusive a juventude, incentivando a
Juventude, com a construção do Plano Nacional de
violência e o ódio e gerando mais mortes, Haddad
Juventude e do Sistema Nacional de Juventude”. Po-
propõe “priorizar o Plano Nacional de Redução de
lítica se faz com a juventude, afirma o documento.
Homicídios e enfrentar a mortandade que atinge
“Por isso, serão reconstruídos os instrumentos de
principalmente nossa juventude, especialmente en-
promoção da participação da juventude na elabora-
tre pessoas negras das periferias metropolitanas”.
ção, monitoramento e execução das políticas públi-
cas, em especial as de juventude”. Assim, no próximo dia 28 a juventude brasileira de-
verá se posicionar frente a dois projetos totalmente
distintos e decidir se prefere apostar naquele que
alimenta a cultura de ódio, intolerância e precon-
SOBRE FÉ E POLÍTICA
19
Segundo turno das eleições 2018
ceito da qual ela mesma é vítima, ou se acolhe o OUT2018
no Brasil: contribuições ao diálogo
convite desafiador para o diálogo que lhe possibili-
Cresci ouvindo que fé e política não
tará participar da definição dos destinos do país ao
deveriam se misturar e que religião, política e fute-
longo do próximos quatro anos.
bol não se discutem. Contudo, e felizmente, cedo
Volto a Manuel Castells para lembrar que “a única
descobri que a política é parte constitutiva na nossa
coisa que sabemos do futuro é que este será o que
existência individual e coletiva. Ela está presente no
os jovens fizerem”. Não no futuro, mas agora, enfa-
preço do pão, na qualidade do transporte público,
tiza Castells. Porque o futuro é feito no presente.
na qualidade do ensino e nos conteúdos que nos são
ensinados desde cedo nas escolas, dentre tantas ou-
tras situações do dia a dia.

A política está presente nas nossas escolhas mais


189
simples e cotidianas e sempre que somos convida-
dos a nos posicionarmos sobre alguma questão de
interesse público ou coletivo, seja na associação de
moradores, na reunião de condomínio, na assem-
bleia do sindicato, na conversa entre amigos, no en-
contro da família e, de tempos em tempos, em pro-
cessos eleitorais em que somos chamados a
escolher representantes para os parlamentos ou serviço de interesses que apontam na contramão de
para os executivos locais, estaduais/distritais ou na- tudo que acreditamos e tomamos como ensina-
cionais. mento válido e referência de vida.

É fato que nossos posicionamentos políticos são, As eleições de 2018 no Brasil têm sido marcadas, de
inevitavelmente, influenciados por nossa fé, inde- modo especial, por situações de manipulação da fé
pendentemente da religião que escolhemos seguir alheia que se colocam, frontalmente, em oposição
e mesmo quando optamos por não nos vincularmos aos ensinamentos de Jesus Cristo, principal referên-
a qualquer credo religioso. A fé nos impõe valores, cia espiritual da maioria dos brasileiros.
guia nossas escolhas e nos aproxima ou nos distan-
Afinal, enquanto Cristo pregou o amor, o respeito à
cia de determinadas ideias e opiniões. Nossas pala-
vida, o perdão, a dignidade humana e a paz, Jair Bol-
vras, nossos atos e nossas omissões ou renúncias es-
sonaro [PSL], candidato da simpatia de alguns falsos
tão, em grande medida, vinculadas à nossa profis-
messias e mercadores da fé, tem alardeado o ódio, 190
são de fé e aos dogmas que a sustentam.
a violência, a negação de direitos humanos e a into-
Contudo, quando não tomarmos posse de nossa fé lerância. A lista de expressões de violência de Bolso-
e a terceirizamos, corremos o risco de virarmos ob- naro é longa é vão desde apologia à tortura, incita-
jeto de manipulação de interesses que a negam ou ção ao estupro e manifestações de preconceito e in-
a distorcem. Entregar o poder de reflexão e escolha tolerância, até declarações que evidenciam o pouco
sobre questões fundamentais de nossa vida pessoal valor que o candidato dá à vida, especialmente dos
ou sobre o futuro do país, por exemplo, a líderes re- mais pobres e daqueles que pensam diferente dele.
ligiosos ou a pessoas a quem respeitamos e em
No dia 23 de maio de 1999, durante entrevista para
quem acreditamos, muitas vezes cegamente, é as-
o programa “Câmera Aberta” [TV Bandeirantes/RJ],
sumirmos o risco de vermos nossa fé colocada a
apresentado por Jair Marchesini, Bolsonaro decla- Assim, votar em Bolsonaro é negar a própria fé em
rou que o erro do regime militar foi não ter matado Cristo e colocar-se em oposição aos ensinamentos
pelo menos 30 mil. Durante pronunciamento na Câ- daquele que elegeu como principal mandamento o
mara dos Deputados, no dia 20 de março de 2014, amor ao próximo. E como nos lembra João em seu 191
ao referir-se ao massacre do Carandiru54, que resul- evangelho [4,20], Jesus foi categórico ao nos alertar
tou no assassinato de 111 detentos, Bolsonaro de- que “se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar
clarou que, no seu entender, “tinham que ter mor- seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu ir-
rido mais de mil”. mão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não
vê”.
Por outro lado, em seu mais célebre discurso, o Ser-
mão da Montanha, Jesus ensinou que “bem-aven- Daí porque, o verdadeiro cristão não pode votar em
turados são os que produzem a paz [os pacificado- Bolsonaro, pelo simples fato de seu discurso de ódio
res], porque eles serão chamados filhos de Deus”. e suas práticas de preconceito e intolerância se co-
Vê-se, portanto, que o ódio e a violência nos afas- locarem no lado oposto aos ensinamentos de Cristo
tam de Deus e nos colocam em oposição direta aos e rejeitarem, de forma escancarada, o amor e o di-
ensinamentos de Cristo. reito à vida plena defendidos pelo messias nascido
na Judeia.

54
No dia 2 de outubro de 1992, o pavilhão 9 da Casa de projéteis disparados indicavam atirador[es] posicio-
Detenção Carandiru [SP] foi o cenário de um dos episó- nado[s] na soleira das celas, apontando suas armas para
dios mais sangrentos da história penitenciária mundial. os fundos ou laterais”, diz o laudo do Instituto de Crimi-
Os números oficiais falam de 111 presos mortos, embora nalística. A perícia também concluiu que 70% dos tiros fo-
ex-detentos insistam que foram mais de 200. A perícia ram dirigidos à cabeça e ao tórax, o que reforça a ideia de
concluiu que apenas 26 foram mortos fora da cela e rela- extermínio. Para escapar com vida, presos se misturaram
tos apontam que os detentos haviam se rendido e esta- aos colegas mortos. Fonte: Site da Revista Super Interes-
vam dentro das celas desarmados. “As trajetórias dos sante.
Para o pastor e teólogo Henrique Vieira, da Igreja discernimento para detectar a tempo qualquer rea-
Batista do Caminho, “a igreja não deve se submeter parecimento dessa atitude perniciosa, qualquer so-
a uma pauta partidária ou ideológica, mas, diante pro daquilo que pode manchar os corações de gera-
das injustiças ela deve sempre tomar o lado e a po- ções que não viveram aqueles tempos e podem ser
sição das vítimas, das pessoas que sofrem”. É pre- enganados por cantos de sereia”.
ciso entender que “o evangelho está acima de qual-
O presidenciável Jair Bolsonaro tem recorrido com
quer ideologia, que a igreja – como corpo, movi-
frequência a uma citação bíblica retirada do evan-
mento e instituição – não pode se submeter a um
gelho de João [8,32] para se apresentar como bas-
ou outro partido, mas, diante de falas de violência,
tião da verdade. “E conhecereis a verdade, e a ver-
que achincalham o ser humano, que naturalizam o
dade vos libertará”, alardeia o candidato, valendo-
sofrimento, que estimulam o ódio, que incentivam
se do texto bíblico do apóstolo e evangelista de
práticas de violência, a igreja precisa, sim, com
Cristo. Contudo, mais uma vez suas práticas negam
muita consciência, maturidade e à luz do evangelho,
os ensinamentos de Jesus. 192
ter posição”, destaca o pastor Henrique. E conclui,
Bolsonaro mentiu, por exemplo, ao apresentar, em
afirmando que em nome do evangelho “é preciso
entrevistas ao Jornal Nacional [TV Globo] e ao Jornal
dizer: as falas de Bolsonaro provocam ódio, são falas
das 10 [GloboNews], o exemplar de um livro que,
fascistas, contrárias ao espírito, ao testemunho, aos
segundo ele, faria parte de um suposto “kit gay” dis-
ensinamentos de Jesus”.
tribuído pelo Ministério da Educação na gestão de
Em viagem recente à Lituânia, o Papa Francisco,
Fernando Haddad [PT] no MEC. Já foi esclarecido
principal líder espiritual dos católicos, alertou con-
por vários meios que o tal “kit gay” nunca existiu
tra o revisionismo histórico e um possível avanço de
como se vê na apuração feita pela equipe do
ideologias totalitárias e pediu “o dom do
site Fato ou Fake e na matéria da GloboNews. O
próprio Tribunal Superior Eleitoral [TSE], através de Segundo a matéria do El País [Cinco ‘fake news’ que
decisão recente do ministro Carlos Horbach, reco- beneficiaram a candidatura de Bolsonaro], seis em
nheceu a mentira e determinou a remoção de ví- cada dez brasileiros têm whatsapp no seu celular.
deos publicados no facebook e youtube nos quais o São 120 milhões de pessoas a uma mensagem de
candidato do PSL aparece criticando a suposta dis- distância. “Não é possível chegar a tanta gente
tribuição, pelo Ministério da Educação a escolas pú- como Bolsonaro chegou sem uma estrutura forte,
blicas, de um livro destinado a crianças com ima- com grande financiamento por trás”, analisa Tai Na-
193
gens de cunho sexual [ler a decisão]. lon. Um filão para difundir fake news em grupos fe-
chados e gerar o caos entre os eleitores e a opinião
Espalhar mentiras através das chamadas fake news
pública, destaca a matéria assinada por Almudena
[notícias falsas] tem sido a principal arma de cam-
Barragán.
panha de Jair Bolsonaro. Segundo Tai Nalon, dire-
tora da plataforma de checagem Aos Fatos55, em Aqui, duas perguntas precisam ser feitas [1] Quais
entrevista ao El País, “vimos a desinformação contra os interesses que ligam alguns líderes religiosos a
os adversários de Bolsonaro aumentar, em geral em Bolsonaro? [2] Por que o bispo Edir Macêdo, da
torno de duas temáticas: colocar em dúvida, com te- Igreja Universal do Reino de Deus, decidiu jogar to-
orias conspiratórias, a segurança do voto eletrônico das as suas fichas na candidatura de Bolsonaro, a
no Brasil, e uma constante relação dos outros can- ponto de colocar o staff jornalístico de sua emissora
didatos com pautas das minorias, como a agenda [TV Record] a serviço do candidato do PSL, propa-
LGBT e o direito ao aborto”. gando inclusive suas mentiras já desbancadas?

55
Aos Fatos reúne um grupo de sete jornalistas, distribu- memes, panfletos, vídeos e qualquer conteúdo potenci-
ídos entre Rio e São Paulo, que verificam diariamente o almente falso.
discurso de políticos e das redes sociais. Analisam
Mais do que afinidade de ideias, o que está em jogo, O evangelho de Felipe, um dos mais importantes li-
dentre outras questões, é o interesse do líder da vros apócrifos56, nos ensina que “a Verdade é uma
IURD nas volumosas cifras de propaganda instituci- só, mas está representada pela Pluralidade. Isto é
onal do Governo Federal para sua emissora de TV e para nosso bem: para levarmos ao conhecimento do 194
outros meios de comunicação do grupo em um Um através do amor à Pluralidade”. Portanto, com
eventual governo Bolsonaro. base no ensinamento de Felipe, é dever de todo
cristão praticar o amor e acolher a diversidade, re-
O fato é que, se o discurso de ódio e as mentiras es-
jeitando toda forma de violência e de negação do
palhadas por Bolsonaro são ruins e negam a própria
outro e da própria vida.
essência dos ensinamentos de Cristo, seus efeitos
são ainda piores e já se anunciam catastróficos. Nos Além disso, em tempos de tanta disseminação de
últimos dias, vários casos de violência protagoniza- ódio, indiferença e apatia de muitos, é sempre bom
dos por eleitores de Bolsonaro foram registrados lembrar do legado de Martin Luther King Jr, pastor
em todo o país e alguns ganharam ampla repercus- protestante e ativista político estadunidense: o que
são, como o assassinato do mestre de capoeira Moa me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio
do Katendê, em Salvador [BA], e a agressão à jovem dos bons, afirmou certa vez Luther King.
de Porto Alegre [RS] que teve seu corpo marcado à
canivete com a suástica usada como símbolo na-
zista.

56 por isso, não foram incluídos no Cânone do Novo Testa-


Os “evangelhos apócrifos” são uma coletânea de tex-
tos, alguns dos quais anônimos, escritos nos primeiros sé- mento. Não existe um consenso entre todos os ramos da
culos do cristianismo, vetados no Primeiro Concílio de Ni- fé cristã sobre o que deveria ser considerado canônico e
ceia, não reconhecidos pelo cristianismo ortodoxo e que, o que deveria ser apócrifo.
22
A BARBÁRIE ANUNCIADA E SUAS que espero, sinceramente, que aconteça – al-
OUT2018
ORIGENS RECENTES guns estragos já são percebidos e outros se
anunciam inevitáveis. Me perdoem a crueza
Segundo turno das eleições 2018 no Brasil: contri-
das palavras e a aparente dose exagerada de rea-
buições ao diálogo
lismo, mas é preciso encarar de frente a gravidade
Estamos vivendo o prenúncio de uma barbárie, dos fatos.
qualquer que seja o resultado das urnas no próximo
Contudo, devo destacar que Bolsonaro é apenas um
dia 28, porque o rastilho de pólvora que conduz à
peça desse complexo quebra-cabeça que se com-
cultura de ódio e intolerância – e à sua consequên-
põe de muitas variáveis, ainda que ligadas entre si
cia mais extrema: a permissão para espancar, tortu-
apenas pelo tênue fio do medo que,
rar e matar – já está espelhado e
Levados por uma onda de ódio como escrevi em artigo publicado an-
o fogo foi ateado por uma suces-
e intolerância disfarçada de teriormente aqui no blog, se caracte-
são de falas e fatos envolvendo a indignação, iniciada anos an-
riza por ser o oposto do amor.
candidatura fascista de Jair Bol- tes, determinados grupos en-
contraram em Bolsonaro a le- Para o sociólogo Jessé Souza 57, “o que
sonaro e alguns de seus seguido-
gitimação para seus mais
res. tem de ser explicado aqui é como a
sombrios e fantasmagóricos 195
medos, especialmente o medo elite do dinheiro, que detém o capital
Portanto, mesmo que consiga- de perder privilégios. econômico e, por conta disso, manda
mos interromper seu curso, atra-
na economia, passa a mandar de modo
vés da rejeição eleitoral da referida candidatura – o
indireto também no mundo social e político pela

57
Jessé José Freire de Souza é sociólogo, escritor, brasileiro e estudos teórico/empíricos sobre desi-
professor universitário e pesquisador brasileiro. gualdade e classes sociais no Brasil contemporâneo.
Atua nas áreas de teoria social, pensamento social
construção, colonizada pelo dinheiro, da opinião Tomando o combate à corrupção como ponto de
pública”. A elite econômica precisa travestir seus in- partida – o que lhes assegurava um discurso de fácil
teresses de proprietário em suposto interesse geral aceitação – as elites do atraso, com a anuência e co-
para garantir o controle da reprodução social, man- laboração de parcela expressiva do judiciário [“com
tendo seus privilégios, destaca Jessé em seu livro “A Supremo e tudo”], escolheram fazer um recorte po-
elite do atraso: da escravidão à Lava Jato”, publi- lítico-partidário que lhes permitisse uma caça sele-
cado em 2017 pela editora Leya. tiva aos esquemas de corrupção que grassavam [e
ainda grassam] pelo país, cuidando de proteger e
Levados por uma onda de ódio e intolerância disfar-
blindar todos aqueles que estivessem, de alguma
çada de indignação, iniciada anos antes, determina-
forma, comprometidos com seus reais interesses: a
dos grupos encontraram em Bolsonaro a legitima-
retomada de privilégios, supostamente ameaçados
ção para seus mais sombrios e fantasmagóricos me-
pela ampliação de direitos e acesso a políticas públi-
dos, especialmente o medo de perder privilégios. E
cas por parte dos mais pobres.
como todo medo pede um inimigo, de forma muito
oportuna construíram a paranoia do antipetismo Contudo, uma coisa é concordarmos que toda
para servir a tal propósito. forma de corrupção deve ser rejeitada. A outra é
aceitarmos como razoável seu combate seletivo e
O que poucos conseguem enxergar é que o anti- sem a observância aos devidos ritos e processos le- 196
petismo é uma invenção das elites do atraso, em-
gais, o que representa, em última análise, uma ame-
balada para presente e entregue à uma parcela
frustrada da classe média, que resolveu passa-la aça escancarada ao Estado Democrático de Direito.
adiante, entregando o pacote a alguns segmen-
tos dos mais pobres, especialmente à juventude O que poucos conseguem enxergar é que o antipe-
desavisada da bomba armada que seu conteúdo tismo é uma invenção das elites do atraso, emba-
representa.
lada para presente e entregue à uma parcela
frustrada da classe média, que resolveu passa-la Esses avanços estão presentes na ampliação do
adiante, entregando o pacote a alguns segmentos acesso à Universidade pública e gratuita, na garan-
dos mais pobres, especialmente à juventude desa- tia de renda mínima através de programas de distri-
visada da bomba armada que seu conteúdo repre- buição de renda como o Bolsa Família e no fortale-
senta. cimento da agricultura familiar através de iniciativas
como o Programa Nacional de Fortalecimento da
Não sou filiado ao PT ou a qualquer partido político
Agricultura Familiar [PRONAF], só para citar alguns
e tenho assumido publicamente a crítica à essa de-
exemplos. Portanto, é preciso ser muito idiota para
mocracia eleitoral que nos oferecem, expressão
negar essa realidade. E antes que alguém se sinta
maior da democracia representativa liberal bur-
ofendido, esclareço: a palavra idiota deriva do
guesa, insuficiente e excludente. Também tenho mi-
grego idio, que significa aquele que só consegue
nhas críticas aos governos do PT, embora deva aqui
olhar para o próprio umbigo; que só vê a si mesmo.
esclarecer que estas nem de longe se equiparam à
crítica mesquinha, vazia de argumentos e irrespon- Como tem sido amplamente divulgado, a onda de
sável feita pelos adeptos da onda antipetista. violência protagonizada por alguns eleitores de Bol-
sonaro tem crescido assustadoramente e ganhou
Contudo, quem conhece a história recente e a reali-
proporções ainda maiores após o primeiro turno das
dade desse país e possui alguma dose de sensatez 197
eleições. Violência física, achincalhamentos e amea-
não pode negar os avanços, ainda que insuficientes,
ças, inclusive a profissionais de imprensa, têm sido
que tivemos durante pouco mais de uma década
uma constante nos últimos dias. É o caso de Patrícia
que antecedeu o golpe de 2016 que colocou Michel
Campos de Mello, autora da reportagem publicada
Temer no poder.
pela Folha de S. Paulo na última quinta-feira [18]
que denunciou possível caixa 2 na campanha presi- meses atrás, amplamente repercutido nos últimos
dencial de Jair Bolsonaro. dias, o deputado federal Eduardo Bolsonaro [PSL]
declarou que para fechar o Supremo Tribunal Fede-
“Mais uma canalha imunda, militante esquerdista.
ral [STF] “você não manda nem um jipe, manda um
Quando Bolsonaro ganhar temos que combater es-
soldado e um cabo”. Em outro vídeo, postado no
ses canalhas com ferro e fogo, se é que me enten-
youtube no último dia 20, o coronel Carlos Alves,
dem. Sem misericórdia contra esses vagabun-
que se declara intervencionista, chama a ministra
dos”. Segundo matéria publicada no dia 19 pelo
Rosa Weber, presidente do Superior Tribunal Eleito-
site Brasil de Fato e assinada por Lu Sodré, essa é
ral [TSE], de “salafrária”, “corrupta” e “incompe-
apenas uma das inúmeras mensagens que a jorna-
tente” e faz ameaças escancaradas aos membros do
lista da Folha recebeu após a
STF e do TSE caso aceitem a denúncia de
publicação da denúncia de
Longe de ser solução para os crime eleitoral contra Bolsonaro, em vir-
possível caixa 2.
graves problemas que o Brasil
tude das práticas de notícias falsas [fake
O próprio candidato Bolso- vem enfrentando nos últimos
tempos, Bolsonaro contribuiu news] e caixa 2 noticiadas recentemente.
naro e seus filhos não cessam [e continua contribuindo], de
forma direta, para chegarmos O especialista em segurança pública e an-
de destilar ódio em suas falas
a esse perverso quadro de de- tropólogo Luiz Eduardo Soares58, em en-
e já chegaram ao absurdo de
sesperança, insegurança, ins-
trevista para o canal Tutaméia, alerta que
fazer ameaças escancaradas tabilidade e medo que tende a
se agravar caso ele venha a “para além das palavras e dos gestos ex-
até a autoridades e institui-
ser eleito. plícitos do candidato que representa o fas-
ções. Em vídeo de quatro
cismo e a ultra-direita, além do que é

198
58
Cientista político e escritor, coautor do livro “Elite
da Tropa”, que foi base para o filme “Tropa de Elite”.
visível nessa candidatura, há uma dimensão intan- acordo com vizinhos, prestariam ainda serviços de
gível da maior importância, e nessa dimensão, que caseiro na propriedade do deputado. Se ainda assim
nós não percebemos imediatamente, está uma au- Bolsonaro é a opção da elite do atraso, só posso
torização para a violência”. chegar a uma conclusão: o combate a corrupção
nunca foi sua real preocupação. Não passou de um
E vai além: “Os que se conectam a esse ódio terrível,
engodo para colocar os patos amarelos [da FIESP]
que é o ódio gerado pela insegurança e pela incer-
na rua.
teza, que é uma busca imaginária de ordem, esses
se convertem em guerreiros desse exército sem pá- Por fim, é sempre bom lembrar que Bolsonaro,
tria, sem horizonte, sem utopia, sem orientação, ainda que agora o renegue, foi importante aliado de
sem norte, sem valor”, afirma Soares. Temer, tendo votado com ele em vários momentos,
a exemplo da Reforma Trabalhista e da Proposta de
Voltando ao necessário combate à corrupção – e a
Emenda Constitucional que congelou os investi-
propósito deste -, vale lembrar que receber auxílio
mentos do Governo Federal [inclusive em saúde,
moradia como deputado federal, tendo imóvel pró-
educação e assistência social] por 20 anos e chegou
prio em Brasília, como o fez Bolsonaro por vários 199
à Câmara dos Deputados com o nome de PEC 241.
anos, também é um ato de corrupção. Da mesma
Nesse sentido, Bolsonaro serviu perfeitamente aos
forma, manter na folha de pagamento de seu gabi-
propósitos da elite do atraso: retirar direitos dos
nete em Brasília, com dinheiro público, uma funcio-
mais pobres e ampliar o fosso da exclusão social que
nária fantasma é uma prática de corrupção. Se-
ainda nos caracteriza como país.
gundo apurou o jornal Folha de S. Paulo, a funcioná-
ria em questão trabalhava com uma loja de açaí em Assim, longe de ser solução para os graves proble-
um vilarejo de Angra dos Reis [RJ], onde Bolsonaro mas que o Brasil vem enfrentando nos últimos tem-
tem uma casa de veraneio. Ela e o marido, de pos, Bolsonaro contribuiu [e continua contribuindo],
de forma direta, para chegarmos a esse perverso
29 AOS MEUS
quadro de desesperança, insegurança, instabilidade OUT2018
Meu coração está apertado,
e medo que tende a se agravar caso ele venha a ser
quase sangrando. Não porque
eleito.
perdi uma eleição. Para mim, nunca se tratou de
Se o mal é irremediável, trabalhemos para que seus uma eleição, mas de um ato de resistência ao risco
efeitos sejam menos nefastos e reparáveis, ainda iminente de ver meu país mergulhado numa onda
que a médio prazo. Isso significa, necessariamente, incontrolável de ódio, intolerância e preconceito,
evitarmos que Bolsonaro seja eleito no próximo dia agora legitimada pelas urnas. Pelo voto de muitos
28. que nesse momento me leem e entre os quais se in-

Resta-nos pouco tempo e como nos alerta Luiz Edu- cluem conhecidos, amigos e até parentes próximos.

ardo Soares, “este é um momento de reflexão para Aqui, enquanto o tempo avança madrugada a den-
nós todos e de muito trabalho, porque não dá só tro, me ponho em claro pensando no futuro das
200
para contemplar e comentar”. Por todxs que doa- gentes negras desse país, de nossos povos e comu-
ram suas vidas para chegarmos até aqui, por nossos nidades tradicionais, de nossos irmãos e irmãs da
filhos e netos, por todxs que virão depois de nós, comunidade LGBTI+, todos eleitos vítimas preferen-
ocupemos as ruas e façamos de cada encontro e de ciais do novo governo e de seu exército de fanáticos.
cada diálogo uma declaração de amor à liberdade e
Me pergunto, com apreensão, o que será da juven-
à democracia, enquanto ainda há tempo.
tude negra da periferia de nossas cidades, já conde-
nada previamente à exclusão e à marginalização em
virtude de sua cor, sua condição social e seu ende-
reço. O que será da população de rua, submetida a
processos violentos de higienização pela eugenia reconhecer publicamente que me enganei e humil-
que moverá o Estado e as elites locais? O que será demente me desculpar por meu equívoco.
de meu querido e bravo povo nordestino – herdeiro
Mas, sinceramente, acho pouco provável que isso
de Canudos, do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto
aconteça, já que Bolsonaro foi eleito assumindo, em
e das Ligas Camponesas – nesse momento, expres-
alto e bom tom, seu discurso fascista, de destruição
são viva de resistência e oposição ao fascismo?
de direitos e entrega da nação ao capital internaci-
Fico me perguntando qual será o futuro da nossa onal. Portanto, quem o elegeu sabia, exatamente,
agricultura familiar, preterida no plano de governo em quem estava votando, ainda que não concor- 201
do candidato eleito, que prefere um affair com o dasse com tudo que ele pensa e diz. O que é, no mí-
agronegócio? O que será das uni- nimo, muito estranho.
versidades públicas brasileiras, em Chegará o momento em que as Assim, o cenário atual só nos coloca
breve entregues à iniciativa pri- divergências que hoje separam
muitos brasileiros e nos colo- um caminho: a tarefa inadiável de
vada e restringidas ao medíocre cam em lados opostos desapa- construção de uma ampla frente de
papel de formadoras de mão de recerão, porque teremos em
resistência popular que possa, ao
comum a luta diária pela sobre-
obra para o mercado?
vivência em tempos de escas- mesmo tempo, se opor à onda de
Por tudo que vimos e ouvimos ao sez e a resistência ao autorita- retrocessos e repressão que se
rismo de Estado que se agudi-
longo dos últimos meses, o futuro zará em breve. anuncia, e construir uma grande
não se apresenta nada promissor e rede de solidariedade, partilha e
nos encaminhamos para uma tragédia anunciada. E amor, capaz de nos proteger do medo que já come-
como eu gostaria de estar errado e de que meus çou a ser semeado.
temores não se confirmassem! Voltaria a esse
mesmo espaço, daqui há algum tempo, para
Ao mesmo tempo, é muito importante entender- Sei que essa não será uma tarefa fácil, mas, com o
mos que muitos dos eleitores de Bolsonaro não são tempo, nossos corações, que hoje sangram, estarão
fascistas e acabaram sendo levados por uma pode- cicatrizados pelo exercício diário da solidariedade,
rosa onda de mentiras e ilusões geradas pelo opor- do cuidado e da partilha, ainda que nossos corpos
tunismo que se aproveitou da desesperança que se venham a ser feridos ou machucados, como outrora
abateu sobre a maioria da população. o foram os de nossos antepassados, alguns ainda
presentes entre nós. Essa será nossa maior arma e
Contudo, chegará o momento em que todos e todas
nossa maior conquista. A revolução capaz de vencer
que ainda tiverem preservado em si alguma huma-
todo medo e todo algoz. Até lá nos mantenhamos
nidade, compreenderão a gravidade do erro que
irmanados pelo mesmo espírito de esperança, luta
hoje cometeram e a dimensão das ameaças à vida e
e amor que nos animou até aqui. 202
à liberdade a que o país estará subjugado em vir-
tude de suas escolhas. De minha parte, segurei resistindo e semeando o
amor. Essa é a única arma que aprendi a usar, além
Chegará o momento em que as divergências que
dos livros. Contem sempre comigo porque, como al-
hoje separam muitos brasileiros e nos colocam em
guém nos disse a pouco, um professor [educador]
lados opostos desaparecerão, porque teremos em
não foge à luta.
comum a luta diária pela sobrevivência em tempos
de escassez e a resistência ao autoritarismo de Es- Cariri [CE], madrugada de 29 de outubro de 2018.
tado que se agudizará em breve. Nesse momento
seremos desafiados a revelar o melhor de nossa hu-
manidade: a capacidade de acolher sem julgar e,
amorosamente, ajudar a refletir para aprendermos
uns com os outros e com nossos próprios erros.
PRELÚDIO DE ANO NOVO 18 Entre a futura equipe de Bolsonaro estará também
o general Augusto Heleno, condenado pelo Tribu-
Dentro de poucos dias Jair Bol- DEZ2018
nal de Contas da União [TCU], em 2013, “por auto-
sonaro [PSL] tomará posse
rizar convênios ilegais que custaram R$ 22 milhões
como presidente eleito do Brasil e levará consigo
ao governo – e favoreceram militares conhecidos
para o governo algumas figuras caricatas, persona-
seus”, segundo matéria publicada pelo portal Inter-
gens até pouco tempo anônimas e sem expressão
cept Brasil. Um dos nomes de maior confiança de
na vida pública brasileira, a exemplo de Sérgio
Bolsonaro, o ex-chefe do Departamento de Ciência
Moro, um juiz de primeira instância alçado ao posto
e Tecnologia do Exército será o ministro do Gabi-
de falso herói para um falso problema central, como
nete da Segurança Institucional do futuro governo.
escrevi em artigo publicado aqui no blog em dezem-
bro de 2016. Onyx Lorenzoni [DEM/RS] será o braço-direito de
Bolsonaro, ocupando o cargo de ministro-chefe da
O ex-juiz e futuro ministro da Justiça do governo Bol-
Casa Civil, responsável pela supervisão das demais 203
sonaro ganhou projeção e atraiu para si muitos ho-
pastas e pela articulação política com o Legislativo.
lofotes por sua atuação, por vezes desastrosa e
Principal articulador de Bolsonaro junto ao Con-
questionável, na operação Lava Jato. De discurso
gresso Nacional durante a campanha eleitoral, o
farto e contundente contra a corrupção, agora Moro
parlamentar gaúcho foi citado em delação premiada
precisará escolher entre a crítica aos malfeitos de
da JBS e admitiu ter recebido 100.000 reais da em-
seus futuros colegas de governo e o silêncio dos co-
presa por meio de caixa dois em 2014. A confissão
vardes e vis. Ao que tudo indica, ficará com a se-
de culpa lhe rendeu o perdão de Sérgio Moro que,
gunda opção para preservar seu novo status.
questionado por um jornalista sobre como ele se
posicionava diante do fato, respondeu: “Ele [Onyx]
já admitiu e pediu desculpas”. Uma planilha entre- possivelmente beneficiada em operações de day-
gue por delatores da JBS à Procuradoria-Geral da trade realizadas pela Dimarco DTVM S/A. O day-
República [PGR] indica que em 2012 Lorenzoni teria trade é uma modalidade de negociação utilizada
recebido outros R$ 100 mil daquela empresa, tam- em mercados financeiros [como bolsa de valores],
bém via caixa dois. Para esse valor ainda não que tem por objetivo a obtenção de lucro com a os-
houve mea culpa e, por conseguinte, também não cilação de preço, ao longo do dia, de ativos financei-
houve “indulto” de Moro. ros.

Alinhado com os interesses do grande capital nacio- O esquema consistia em alocar as operações mais
nal e internacional, o economista ultraliberal e ban- lucrativas do dia para a GPG Participações Ltda. e
queiro Paulo Guedes responderá pelo megaminis- outros atores privados, ficando as operações menos
tério da Economia do governo Bolsonaro, reunindo lucrativas ou com prejuízo para a carteira da FAPES,
funções da Fazenda, Planejamento, Indústria e Co- com possível manipulação das sequências de or-
mércio. Guedes é acusado de “ter sido beneficiado dens de compra e venda. Começo, com isso, a en-
por operações ilícitas que foram praticadas em pre- tender melhor o grande interesse pessoal de Paulo
juízo do fundo de pensão FAPES”, da Fundação de Guedes na reforma da Previdência inspirada no mo- 204
Assistência e Previdência Social do Banco Nacional delo chileno de capitalização privada, que também
de Desenvolvimento Econômico e Social [BNDES]. serve muito bem aos interesses dos grupos econô-
micos a quem Guedes está ligado.
Segundo narra a sentença proferida pelo Juiz da 5ª
Vara Federal Criminal [RJ], Tiago Pereira Macaciel, De quebra, Bolsonaro terá que lidar com o escân-
citada no Despacho nº 28753/2018 do Ministério dalo que envolve o próprio filho, Flávio Bolsonaro
Público Federal [Força-Tarefa Greenfield], a GPG [PSL], atual deputado estadual e futuro senador da
Participações Ltda., de Paulo Guedes, teria sido República pelo Rio de Janeiro. Relatório do
Conselho de Controle de Atividades Financeiras serviu de mote para a justificativa de voto de muitos
[COAF], tornado público no início desse mês, indi- “cidadãos de bem”, defensores da moral e dos bons
cou movimentações financeiras atípicas que o ex- costumes.
assessor e ex-motorista de Flávio na Assembleia Le-
Vale ressaltar que alguns dos eleitores de Bolsonaro
gislativa do Rio de Janeiro [ALERJ], Fabrício Queiroz,
foram ludibriados pela onda de fake news que mar-
fez em uma conta no banco Itaú. O ex-assessor mo-
cou as eleições desse ano, outros foram pressiona-
vimentou cerca de R$ 1,2 milhão em 12 meses, in-
dos a votar no capitão da reserva por líderes religi-
cluindo a emissão de um cheque no valor de R$ 24
osos inescrupulosos e com fortes interesses em sua
mil para a futura primeira-dama Michelle Bolso-
eleição, enquanto outros, não poucos, votaram por
naro. Desde que o caso veio a público, temos acom-
sentirem-se identificados com o autoritarismos so-
panhado uma série de desdobramentos que só
cial que Bolsonaro reflete, pouco importando a vin-
complicam ainda mais a situação do clã Bolsonaro. 205
culação do mesmo ou de sua equipe de governo
O site Poder360 publicou uma matéria que ajudará
com esquemas de corrupção.
o leitor a entender o caso.
Contudo, além dos problemas com corrupção, resu-
Como podemos ver, o discurso de moralidade e com-
midos até aqui, o futuro governo terá que lidar com
bate à corrupção alardeado por Bolsonaro durante
as trapalhadas e inabilidades de alguns integrantes
a campanha e nos primeiros dias após a eleição co-
do primeiro escalão, a exemplo de Ernesto Henri-
meça a cair por terra e em seu lugar surgem o silen-
que Fraga Araújo, que ocupará o Ministério das Re-
cio e algumas tentativas atrapalhadas de explicar o
lações Exteriores.
inexplicável. O fato é que o futuro governo ainda
Indicação do guru intelectual [sic] de Bolsonaro,
nem começou e já se encontra mergulhado no mar
Olavo de Carvalho, Araújo escreveu que no centro
de lama da corrupção que prometia combater e que
da visão de Ocidente do presidente Donald Trump humanidade – Ernesto Araújo chega a afirmar que
[EUA], “está não uma doutrina econômica e política, “Somente um Deus poderia ainda salvar o Ocidente,
mas o anseio por Deus, o Deus que age na história”. um Deus operando pela nação – inclusive e talvez
E o futuro chanceler de Bolsonaro vai além na sua principalmente a nação americana”, para concluir
alusão à suposta visão de Trump sobre o Ocidente, que “somente Trump pode ainda salvar o Oci-
afirmando que “não se trata tampouco de uma pro- dente”.
posta de expansionismo ocidental, mas de um
As sinalizações eufóricas de Araújo aos EUA e a pró-
pan-nacionalismo”. As afirmações estão grafadas no
pria simpatia declarada de Bolsonaro a Trump pro-
artigo “Trump e o Ocidente”, publicado na edição
vocaram, como era de se esperar, a reação da China,
número 6 do Cadernos de Política Exterior do
maior parceiro comercial do Brasil desde 2009 e
IPRI [2017, pp 323-357]59 e Araújo arremata, afir-
maior investidor de recursos externos no país. Ape-
mando que “o Brasil necessita refletir e definir se faz
nas para ilustrar a importância comercial dessa re-
parte desse Ocidente”. O artigo soa mesmo como
lação, em 2017 o Brasil manteve um intercâmbio co-
uma confusa declaração de amor e subserviência
mercial da ordem de 75 bilhões de dólares com os
206
aos Estados Unidos e a Donald Trump.
chineses, gerando um superávit brasileiro de 20 bi-
Valendo-se da ideia vaga, bastante nebulosa, do lhões de dólares.
que ele chama de “teopolítica” – em um suposto
Acreditando que uma de suas missões como chan-
contraponto à geopolítica, que tem pautado as rela-
celer brasileiro é libertar o Itamaraty do “marxismo
ções internacionais ao longo da história recente da
cultural” que ele afirma estar instalado por lá,

59
Cadernos de Política Exterior / Instituto de Pesquisa de
Relações Internacionais. – v. 3, n. 6 [dez. 2017]. - [Brasília]
: FUNAG, 2015.
Ernesto Araújo critica a política alinhados ideologicamente ao go-
pacifista do Brasil e propõe ali- Quando tudo se anuncia sombrio verno Bolsonaro, com enormes pre-
é que mais precisamos fazermo-
nhamento automático com os juízos para nossa agenda econô-
nos prenhes de coragem e espe-
Estados Unidos e com os atuais rança para espalhar aos quatro mica e para outras pautas que, nos
governos da Itália, Polônia e ventos a semente procriadora da últimos anos, colocaram o país nas
empatia, do afeto e do cuidado,
Hungria, todos de viés ideoló- condições essenciais à vida em co- principais mesas de diálogos glo-
gico ultraconservador. munidade e à nossa própria per- bais. Aguardemos, pois, os desdo-
manência nesse planeta-mãe
bramentos que já se anunciam pre-
Nessa mesma direção, por su- Terra.
ocupantes.
gestão de Araújo o Brasil deverá
deixar o Pacto Mundial para Migração logo após a Além das polêmicas envolvendo outros nomes re- 207
posse de Bolsonaro. Além disso, o futuro chanceler crutados por Bolsonaro, o capitão da reserva terá
propõe que o Brasil questione os BRICS – bloco for- que lidar com as frequentes intromissões dos filhos
mado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul nos assuntos do futuro governo, o que tem gerado
– defendendo a formação do que ele chama de alguns arranhões com aliados e membros da
“BRICS antiglobalista”, que deixaria de fora a China. equipe, já durante a fase de transição, a exemplo da
Não precisa ser um especialista em Relações Inter- desavença do vereador Carlos Bolsonaro [PSC/RJ]
nacionais para entender as consequências de uma com o futuro titular da Secretária-geral da Presidên-
proposta como essa. cia da República, Gustavo Bebianno. Some-se a isso
as frequentes intromissões do deputado federal
Várias outras posições do futuro Ministro das Rela-
Eduardo Bolsonaro [PSL/SP] em assuntos típicos do
ções Exteriores e do próprio presidente eleito apon-
Itamaraty, atropelando o próprio futuro chanceler,
tam na direção de relações do Brasil, no campo in-
Ernesto Araújo.
ternacional, restritas a um seleto grupo de países,
Contudo, nada disso me surpreende. Nem o envolvi- por exemplo, criminalizar os movimentos sociais,
mento em corrupção, nem os desastrosos e ataba- seja pela desobediência civil, nunca tão necessária
lhoados posicionamentos dos integrantes do futuro na história recente desse país.
governo, nem as confusões entre o público e privado
Porém, não bastará resistir. Faz-se urgente iniciar-
que têm marcado as falas dos integrantes do clã Bol-
mos a construção de outras formas de poder, anco-
sonaro e seus amigos mais chegados. Afinal, esta-
radas na solidariedade, no respeito à diversidade,
mos falando de um presidente eleito a partir do dis-
na comunhão, na partilha e no amor. Somente por
paro de muitas mentiras [fake news], discursos fun-
aí seremos capazes de vencer o medo e reaprender
damentalistas de ódio e intolerância e apenas um
a amar, como escrevi em artigo postado anterior-
“power point” panfletário registrado no Tribunal Su-
mente aqui no blog.
perior Eleitoral [TSE] como plano de governo.
Afinal, quando tudo se anuncia sombrio é que mais
Diante do cenário que se anuncia, que inclui uma
precisamos fazermo-nos prenhes de coragem e es-
forte ofensiva do futuro governo brasileiro aos di-
perança para espalhar aos quatro ventos a semente 208
reitos humanos e a direitos sociais e trabalhistas
procriadora da empatia, do afeto e do cuidado, con-
conquistados ao longo de décadas, pelo menos dois
dições essenciais à vida em comunidade e à nossa
desafios se colocam aos movimentos sociais de ca-
própria permanência nesse planeta-mãe Terra.
ráter popular, aos povos e comunidades tradicionais
e a todas as chamadas minorias.

De pronto, será necessário contrapor-se a essas


ameaças, através da mobilização e resistência per-
manentes, seja pelo enfrentamento direto à repres-
são já anunciada quando o futuro governo promete,
24
JESUS E A NOSSA HIPOCRISIA NATALINA DEZ2018
pelas ilusões de marketing inspi-
radas no “bom velhinho”.
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais
o copo e o prato por fora, mas por dentro estais Em tempos de redes sociais e aplicativos de mensa-
cheios de roubo e cobiça. […] Ai de vós, escribas gens tornou-se quase uma obrigação chegar ao
e fariseus hipócritas! Sois como sepulcros caia- maior número possível de pessoas, ainda que atra-
dos: por fora parecem belos, mas por dentro es-
vés de textos e imagens prontas baixadas da inter-
tão cheios de ossos de cadáveres e de toda po-
net, dirigidas, inclusive, a quem sequer conhecemos
dridão! Assim também vós: por fora, pareceis 209
pessoalmente. Muitas vezes a lista usada para en-
justos diante dos outros, mas por dentro estais
viar o cartão de “boas festas e feliz ano novo” é a
cheios de hipocrisia e injustiça.
mesma que durante o ano todo serviu para espalhar
[Mt 23, 25-28]
mensagens de ódio, preconceito, intolerância e fake
Todo ano é o mesmo roteiro. Os dias que antece- news.
dem a noite de Natal são marcados pela troca de
Aqui e acolá essas mensagens trazem uma referên-
mensagens recheadas de felicitações cordiais e de-
cia, an passant, ao “aniversariante”. Contudo, sem
sejos de um ano novo de paz, amor, harmonia e
qualquer alusão à sua condição de menino pobre,
todo repertório de “boas energias”. Todos os males
negro e retirante, perseguido pelo Estado e pelos po-
da humanidade são esquecidos, o espírito natalino
derosos antes mesmo de nascer.
invade até mesmo os corações mais endurecidos, as
casas e praças se enchem de luzes e outros enfeites O fato é que o período natalino cumpre a impor-

e o comércio se prepara para ampliar seus lucros tante função de desnudar a hipocrisia que tem ca-

surfando na onda da troca de presentes propagada racterizado a existência humana desde antes da Era
cristã e que vem se acentuando nos últimos tempos.
Muitos dos que agora distribuem frases de efeito re- pobres da periferia ou praticar qualquer outro gesto
cheadas de amor, durante todo o ano fizeram apo- revelador da nossa mais nobre “caridade cristã”.
logia à violência e expressaram abertamente seus
Passado esse período, tudo volta ao normal e não
preconceitos e intolerâncias, sem se importar com
há qualquer problema ou contradição se continua-
o fato de que seus gestos, palavras, atos e omissões
mos a adotar práticas que precarizam as relações de
negam os principais ensinamentos deixados pelo
trabalho nas nossas empresas ou lares. Se concor-
menino que agora dizem devotar.
damos com a criminalização dos movimentos soci-
ais que, a exemplo de Jesus, denunciam as injustiças
Longe de ser um costume social, o cristianismo do mundo e lutam por mais direitos, igualdade e
deve ser experienciado como um compromisso 210
ético permanente com a vida plena e em abun- respeito. Se voltamos a afirmar que “bandido bom
dância para todos e todas. Se não tenho em mim é bandido morto” e não enxergamos desumanidade
os ensinamentos de Cristo como bússola a guiar
e violação de direitos no atual sistema carcerário
minha jornada diária, de nada adianta parecer
justo diante dos outros durante o Natal, se por brasileiro, mesmo porque somos da crença de que
dentro estou cheio de hipocrisia e injustiça. os direitos humanos devem ser para “humanos di-
reitos”.
Num esforço concentrado de remissão de pecados
ou alívio de culpa, aproveitamos o período para dis- Passado o ciclo natalino podemos voltar a defender

tribuir um prato de comida com o morador de rua o justiçamento como saída para a violência e o

por quem passamos todos os dias a caminho do tra- medo que nos rondam, podemos reassumir a intole-

balho, doar algumas roupas usadas para aquela se- rância religiosa, a homofobia, e xenofobia e todos os

nhora que remexe nosso lixo à procura de materiais nossos preconceitos, esquecendo por completo o le-

recicláveis, entregar algumas cestas básicas a “famí- gado de amor ao próximo deixado pelo menino nas-

lias carentes”, distribuir presentes a crianças cido em Belém da Judeia.


Embora a história do Natal comece, na verdade, 15 PELA MÃE TERRA, PELA VIDA
pelo menos 7 mil anos antes do nascimento de Je- E PELOS QUE VIRÃO
JAN2019
sus, com a celebração do solstício de inverno – a
Dá-nos, Senhor, aquela paz inqui-
noite mais longa do ano no hemisfério norte, que
eta, que denuncia a paz dos cemité-
acontece no final de dezembro -, na tradição cristã rios e a paz dos lucros fartos. Dá-nos a paz que
o Natal é a celebração do nascimento do maior líder luta pela paz!
espiritual e, para mim, um dos principais líderes po-
[Trecho do poema “A Paz Inquieta” de Pedro Ca-
líticos da humanidade. saldáliga, poeta e bispo da Prelazia de São Feliz

Assim, longe de ser um costume social, o cristia- do Araguaia/MT]

nismo deve ser experienciado como um compro- Primeiro ato oficial de Jair Bolsonaro [PSL] como
misso ético permanente com a vida plena e presidente empossado, a Me-
211
em abundância para todos e todas. Se não te- dida Provisória 870 “estabe-
De acordo com a MP 870,
nho em mim os ensinamentos de Cristo como quem passa a ter o poder lece a organização básica dos
bússola a guiar minha jornada diária, de nada de “identificação, delimi- órgãos da Presidência da Re-
tação, demarcação e re-
adianta parecer justo diante dos outros du- pública e dos Ministérios” e
gistros das terras tradici-
rante o Natal, se por dentro estou cheio de hi- onalmente ocupadas por chega violando a Constituição
pocrisia e injustiça. Que me perdoem os cris- indígenas” é o Ministério
que ele jurou cumprir, amea-
da Agricultura, Pecuária e
tãos natalinos de plantão, mas aquele ou çando direitos e promovendo
Abastecimento [MAPA],
aquela que assim age, sequer deveria se decla- comandado pela agrope- desmontes.
cuarista Tereza Cristina
rar cristão.
[DEM/MS], líder da ban- A MP de Bolsonaro atribui à
cada do agronegócio na
Secretaria de Governo da Pre-
Câmara dos Deputados.
sidência, comandada pelo
general Carlos Alberto dos Santos Cruz, dentre ou- Damares Alves. De acordo com a MP 870, quem
tras competências, o papel de “supervisionar, coor- passa a ter o poder de “identificação, delimitação,
denar, monitorar e acompanhar as atividades e as demarcação e registros das terras tradicionalmente
ações dos organismos internacionais e das organiza- ocupadas por indígenas” é o Ministério da Agricul-
ções não governamentais no território nacional”, fe- tura, Pecuária e Abastecimento [MAPA], coman-
rindo frontalmente o texto constitucional de 1988 dado pela agropecuarista Tereza Cristina
que estabelece, no inciso XVIII do seu artigo 5º, que [DEM/MS], líder da bancada do agronegócio na Câ-
“a criação de associações e, na forma da lei, a de co- mara dos Deputados. O MAPA também será respon-
operativas independem de autorização, sendo ve- sável pela delimitação de terras ocupadas por Co-
dada a interferência estatal em seu funciona- munidades Remanescentes de Quilombos. A então
mento”. deputada Tereza Cristina presidiu a Frente Parla-
mentar da Agropecuária [bancada ruralista] na Câ-
Na reforma ministerial que extinguiu sete ministé-
mara do Deputados e é defensora contumaz do Pro-
rios – incluindo Esporte, Cidades, Cultura, Trabalho
jeto de Lei 6.299/2002, apelidado de “PL do ve-
e Segurança Pública – a Fundação Nacional do Índio
neno”, que teve parecer favorável da comissão es-
[FUNAI], órgão indigenista oficial do Estado brasi-
pecial presidida pela deputada ruralista. A postura
leiro, até então vinculado ao Ministério da Justiça,
fervorosa da ministra em favor da flexibilização do
passou à tutela do Ministério da Mulher, da Família
uso de agrotóxicos lhe rendeu o apelido de “musa
e dos Direitos Humanos, comandado pela advogada
do veneno”.
e pastora fundamentalista Damares Alves.
212
Contudo, competências históricas e centrais da FU-
NAI, como a demarcação de terras indígenas, não fi-
carão nem no órgão indigenista, nem na pasta de
As ações de demarcação de terras elas a de que iria barrar a demarcação
indígenas e de delimitação de ter- No Brasil a reforma agrária de terras indígenas. Em entre-
sempre foi uma agenda espi-
ras de Comunidades Remanes- nhosa, até mesmo para go- vista concedida a Vinicius Sassine, pu-
centes de Quilombos, assim como vernos considerados progres- blicada no jornal O Globo no dia 4 de
sistas. Pouco se avançou
aquelas ligadas à reforma agrária, janeiro desse ano, Nabhan Garcia in-
nessa questão ao longo de
ficarão a cargo do presidente da nossa história e as pautas formou que “será feito um levanta-
União Democrática Ruralista agrárias e fundiárias sempre mento amplo e geral de tudo que
foram cercadas por interes-
[UDR], Luiz Antônio Nabhan Gar- ses oligárquicos, conflitos no aconteceu em questões fundiárias no
cia, nomeado secretário especial campo e muita violência. Brasil, seja em reforma agrária, de-
de Assuntos Fundiários. Um dos marcação de terras indígenas e qui-
principais articuladores da equipe de Bolsonaro lombolas”, acrescentando que “se houve alguma fa-
junto ao agronegócio, Nabhan “já teve que dar es- lha e se tiver brecha que mostre para Justiça que
clarecimentos à Comissão Parlamentar Mista de In- houve um erro, tudo é possível de anular”. As ofen-
quérito [CPMI] da Terra por porte ilegal de armas, sivas do governo brasileiro à demarcação de terras 213
contrabando e organização de milícias privadas na e vários outros direitos de povos e comunidades tra-
região do Pontal do Paranapanema, em São Paulo”, dicionais vêm exatamente no momento em que a
de acordo com matéria assinada por Lilian Campelo, Organização das Nações Unidas [ONU] decide decla-
publicada no site Brasil de Fato em 26 de outubro rar 2019 o ano das línguas indígenas e agravam
do ano passado. ainda mais o ciclo histórico de violência no campo.

O fato é que Bolsonaro está agora usando a caneta No Brasil a reforma agrária sempre foi uma agenda
para concretizar uma série de declarações feitas por espinhosa, até mesmo para governos considerados
ele ao longo da campanha e já após a eleição, entre progressistas. Pouco se avançou nessa questão ao
longo de nossa história e as pautas agrárias e fundi- As primeiras medidas anunciadas pelo governo Bol-
árias sempre foram cercadas por interesses oligár- sonaro e mesmo seus discursos de campanha e an-
quicos, conflitos no campo e muita violência. De tes da posse reacenderam o pavio de pólvora dos
acordo com relatório da Comissão Pastoral da conflitos no campo, inclusive com o uso de milícias.
Terra [CPT], em 2017 foram registrados 1.431 con- Apenas no fim de semana da vitória de Bolsonaro
flitos no campo com 71 mortes. É o maior número foram registrados cinco ataques a comunidades in-
de assassinatos desde 2003, quando 73 morreram dígenas e assentamentos da reforma agrária. Nesta
por conflitos rurais. O relatório destaca ainda que “o terça-feira [15] entrou em vigor o decreto 9.685,
lado mais macabro dos assassinatos em 2017 são os que flexibiliza a posse de armas de fogo e inclui en-
214
massacres”. Segundo o documento da Pastoral da tre os beneficiários do temeroso e irresponsável ato
Terra, foram cinco massacres com 31 vítimas. Esse presidencial os ruralistas. De acordo com o decreto,
quadro deverá se acentuar com o atual governo, as- cada pessoa incluída no rol de autorizáveis poderá
sumidamente aliado do que há de mais reacionário adquirir legalmente “até quatro armas de fogo de
no meio rural brasileiro. uso permitido”, admitida a possibilidade de aquisi-
ção de armas em quantidade superior a esse limite,
Confirmando essa tendência, no dia 3 de janeiro as
“se presentes outros fatos e circunstâncias que a
superintendências regionais do Instituto Nacional
justifiquem”. Em seu brevíssimo discurso durante a
de Colonização e Reforma Agrária [INCRA] recebe-
solenidade de assinatura do decreto e dirigindo-se
ram memorandos determinando a interrupção de
à ministra Tereza Cristina [MAPA], Bolsonaro cita o
todos os processos para compra e desapropriação
número de propriedades rurais como exemplo de
de terras. De acordo com o INCRA, 250 processos
justificativa para a autorização de aquisição de mais
em andamento estão suspensos.
armas de fogo por uma pessoa.
Diante de tudo isso é fundamental denunciar a res- NOVAS TRAGÉDIAS DE UM
ponsabilidade direta do atual governo federal e VELHO TRÁGICO MODELO
seus sequazes pelo aumento da violência no 30 Os últimos dias têm sido marca-
campo, nas florestas e, com o decreto 9.685, tam-
JAN2019 dos por uma onda de manifesta-
bém nas cidades. Ao mesmo tempo, é necessário
ções de tristeza, solidariedade e
anunciar que a principal resistência aos desmandos,
indignação com as consequências do rompimento
insanidades e rompantes autoritários do atual go-
da barragem de contenção de rejeitos da mina Cór-
verno e à violência patrocinada pelas elites do
rego do Feijão, em Brumadinho/MG, de proprie-
atraso desse país deverão vir exatamente dos povos
dade da Vale S/A. A tragédia ocorre apenas três
e comunidades tradicionais e dos trabalhadores e
anos e quatro meses depois do rompimento da bar-
trabalhadoras rurais sem terra. A história tem sido
ragem do Fundão, no município também mineiro de
testemunha da capacidade de luta e da coragem
Mariana, quando milhões de metros cúbicos de re- 215
dos filhos e filhas da terra.
jeitos de minério de ferro formaram uma enxurrada
Sim! Haverá luta, haverá resistência e, sobretudo, de lama que atingiu mais de 40 cidades dos estados
haverá celebração, partilha, comunhão e solidarie- de Minas Gerais e Espírito Santo, desabrigou cente-
dade. Afetos incompreensíveis para os tiranos e idi- nas de famílias [600 de acordo com o governo fede-
otas e, por isso mesmo, as armas mais eficazes con- ral], matou 19 pessoas e causou danos irreparáveis
tra essas pobres criaturas e seus vazios e apequena- a comunidades e ao ecossistema da região, espa-
dos espíritos. Lutemos, pois! Pela mãe Terra, pela lhando destruição ao longo de 680 km, segundo re-
vida, pelos que virão! latório da empresa de consultoria Bowker Associa-
tes [EUA]. Aí também a Vale S/A esteve presente, já
que a Samarco, empresa responsável pela barragem
do Fundão, é controlada em par- como estatísticas importam, uma vez
tes iguais pela anglo-australi- A violência contra a natureza que o antropocentrismo que orienta a
e contra comunidades locais
ana BHP Billiton Brasil Ltda. e a na implantação de megapro- existência da grande maioria dos hu-
brasileira Vale S.A. jetos, ditos estruturantes e de manos tem essas “outras vidas” como
elevado impacto social e am-
inferiores e de menor valor.
“Eles botaram o rio em coma e eu biental, envolvendo grandes
quero ver quem é que vai conse- interesses econômicos, não Fundão e Córrego do Feijão não são
está restrita ao setor da mi-
guir sobreviver sem água. Se neração. casos isolados. De acordo com matéria
os Krenak aguentaram toda essa assinada por Nathalia Passarinho, da
tortura ao longo de quase 100 anos, inaugurada na BBC News Brasil em Londres, um relatório da Agên-
década de 1920, agora com o rio morto, como vai cia de Meio Ambiente das Nações Unidas, publicado
ficar?”. O questionamento é de Ailton Krenak, uma em 2018, registrou os maiores rompimentos de bar-
das mais representativas lideranças indígenas do ragens ocorridos desde 1985. “Só nos últimos 5
país, referindo-se ao episódio de Mariana, que afe- anos, ocorreram oito grandes acidentes pelo
tou duramente seu povo, habitante das margens do mundo”, escreve Nathalia, citando o relatório da
Rio Doce. ONU. No Brasil, antes do episódio da barragem do
Fundão, em 2014 assistimos ao rompimento de uma 216
Ainda nem nos recuperamos dos impactos de Mari-
barragem da Herculano Mineração, em Itabirito,
ana e agora somos arrebatados pelos efeitos da tra-
também em Minas Gerais.
gédia de Brumadinho, que já contabiliza números
muito superiores aos de 2015. Até o início da tarde “A tragédia em Brumadinho estará, certamente, no
desta quarta-feira [30] os dados oficiais já aponta- topo dos maiores desastres com rompimento de
vam 84 vítimas humanas fatais, além de um número barragem de minério do mundo. Infelizmente, é
não considerado de vidas não humanas que sequer
possível que ultrapasse Stava60, que foi a maior tra- Em relatório final sobre o Brasil, elaborado após vi-
gédia do tipo nos últimos 34 anos”, afirmou à BBC sita oficial ao país entre os dias 7 e 16 de dezembro
News Brasil o geólogo Alex Cardoso Bastos, um dos de 2015, um grupo de trabalho das Nações Unidas
autores do relatório da ONU sobre barragem de mi- sobre Empresas e Direitos Humanos aponta que
nério. “fiscalização inadequada, poluição do meio ambi-
ente e destruição de comunidades afetadas por
Cabe destacar que a violência contra a natureza e
grandes projetos são alguns dos aspectos recorren-
contra comunidades locais na implantação de me-
tes das violações dos direitos humanos perpetradas
gaprojetos, ditos estruturantes e de elevado im-
pelo setor empresarial no Brasil”. O documento des-
pacto social e ambiental, envolvendo grandes inte-
taca ainda que, em alguns casos, o financiamento
resses econômicos, não está restrita ao setor da mi-
privado de campanhas eleitorais seria responsável
neração.
por exercer uma “influência indevida” sobre proces-
Basta lembrar de Sobradinho [BA], Belo Monte [PA],
sos regulatórios do governo.
Castanhão [CE], Carajás/S11D[PA] e vários outros
Por outro lado, diante do mar de lama de destruição
projetos cujas marcas principais são a violência fí-
e da indiferença e hipocrisia de representantes do
sica e/ou simbólica contra as populações locais, a
capital e do Estado, muitas vozes se levantam para
destruição dos ecossistemas e a consequente invia-
217
denunciar e protestar, ao mesmo tempo que cor-
bilização ou fragilização da vida humana e não hu-
rentes de oração se espalham por todo o mundo e
mana nos respectivos territórios.
muitas mãos e corações se juntam para acolher,

60
Segundo o relatório da ONU, publicado no ano pas- barragem administrada pela Prealpi Mineraria varreram
sado, o evento mais trágico envolvendo barragens de mi- as cidades de Stava e Tesero, matando 267 pessoas, en-
nério nos últimos 34 anos foi em 1985, no norte da Itália. tre as quais famílias inteiras.
Na hora do almoço, 180 mil metros cúbicos de lama da
socorrer e cuidar. Os momentos de dor coletiva têm responsáveis pela tragédia [o que esperamos que
essa capacidade de mobilizar nossa solidariedade e aconteça] e da denúncia de que houve irresponsa-
bilidade, omissão e conluio entre o capital e o Es-
Quase não se discute e ninguém ousa colocar em tado na liberação das obras sem a devida observân-
xeque a velha matriz de desenvolvimento que
cia do processo legal, o que não parece ser nenhum
pauta a agenda de corporações e governos em
todo o mundo, ancorada na cultura da acumula- segredo. Afinal, não precisamos de muito esforço
ção ilimitada do capital a qualquer preço, pouco para entender a serviço de quem ou de que “inte-
importando quantas vidas humanas e não huma-
nas serão sacrificadas. resses maiores” o Estado sempre se coloca, através
de suas várias instituições, mesmo em governos
revelar nossa empatia. Toda a mobilização de ener- considerados progressistas.
gias e toda a comoção social que temos visto em re-
Estranhamente, diversos especialistas e estudiosos
lação a Brumadinho e que vimos também em rela- 218
apostam na ilusão de que o problema central está
ção a Mariana [2015] e San José [2010] 61, dentre
no fato de que determinadas normas técnicas e de-
tantos outros casos, nos trazem também um sopro
terminados padrões não foram observados e que
de esperança na humanidade.
bastaria cumprir essas normas e atender aos pa-
Contudo, especificamente em relação aos protes- drões pré-estabelecidos para que tragédia como a
tos, me chama a atenção o fato de que grande parte Brumadinho fossem evitadas, como se as próprias
deles estão voltados à cobrança da punição dos

61
Em 5 de agosto de 2010 parte da mina de San José, no foram trazidos de volta à superfície, um por um, com
Chile, desmoronou. A tragédia deixou 33 mineiros presos ajuda da chamada cápsula Fênix – um compartimento
a quase 700 metros de profundidade, com temperaturas metálico de resgate projetado pela NASA. As cenas foram
de 40ºC, elevada umidade e quase nada de comida ou vistas ao vivo por milhões de pessoas mundo afora.
água potável. Foram 69 dias vivendo no subterrâneo. Fe-
lizmente, em 13 de outubro do mesmo ano os mineiros
regras – e na sua inadequação ao momento, o seu comunidades que se coloquem em defesa da vida
descumprimento – não fossem parte do jogo de in- como bem maior e inegociável e representem qual-
teresses daqueles que, efetivamente, detêm o po- quer ameaça a seus negócios e seus pobres pode-
der. res.

Quase não se discute e ninguém ousa colocar em Como denunciam os poetas Sá e Guarabyra, na
xeque a velha matriz de desenvolvimento que pauta música-profecia Sobradinho [1977], “o homem
a agenda de corporações e governos em todo o chega, já desfaz a natureza, tira gente, põe re-
mundo, ancorada na cultura da acumulação ilimi- presa, diz que tudo vai mudar”. E tudo muda, em-
tada do capital a qualquer preço, pouco importando bora nunca da forma prometida.
quantas vidas humanas e não humanas serão sacri- 219
Esse modelo está levando a mãe Terra e toda sua
ficadas.
biodiversidade à exaustão e a humanidade ao suicí-
A questão é que o modelo sobrejacente, centrado dio coletivo. Questioná-lo, negá-lo e nos afastarmos
na economia e no lucro ilimitado, ignora os limites dele pela prática cotidiana é tarefa inadiável e so-
da própria natureza e a finitude de seus recursos. mente a partir da compreensão do significado mais
Subjuga e explora à exaustão aqueles que lhe ser- profundo da interdependência entre os componen-
vem de mão de obra barata e cada vez mais preca- tes estruturais de cada ecossistema – e destes entre
rizada, marginaliza e rejeita aos que excedem a esse si – poderemos buscar a reintegração da espécie hu-
contingente útil ou não aceitam a sujeição que lhes mana à grande teia da vida, condição essencial à
é imposta e criminaliza os que lutam por direitos e nossa própria sobrevivência e permanência no pla-
condições dignas de vida. Além disso, se encarrega neta.
de dizimar, pela violência física e simbólica e com as
bênçãos do Estado, todos os indivíduos, povos e
11
ENTRE A MALDADE, O CINISMO E O VEXAME da reforma agrária e dos direitos
FEV2019
de povos e comunidades tradici-
Decorridos pouco mais de 40 dias de [des]governo
onais.
Bolsonaro, o pacote de maldades anunciado pelo
presidente e sua equipe já beira o absurdo e vai Uma indicação do pretenso intelectual Olavo de
desde a retirada de ações destinadas à população Carvalho, tido como uma espécie de guru pelo clã

LGBT da política de Direitos Humanos, passando Bolsonaro, levou ao ministério da Educação o co-

pela flexibilização da posse de armas, a revogação lombiano Ricardo Vélez Rodriguez, para quem a
da adesão do Brasil ao Pacto Global para Migração Universidade não é para todos. “Ela representa uma
Segura, Ordenada e Regular e o monitoramento elite intelectual para a qual nem todo mundo está
do funcionamento de organizações da sociedade ci- preparado ou para a qual nem todo mundo tem dis-
vil, contrariando o próprio texto constitucional, até posição ou capacidade”, declarou Vélez Rodriguez
chegar na censura e nos ataques constantes à im- em entrevista concedida a Gabriel Castro e Maria
prensa nacional e internacional. Clara Vieira, publicada na edição 2620 da revista
Veja, que foi às bancas no último dia 6.
Some-se a isso o desmonte das políticas de reforma
agrária e de garantia de direitos de povos e comuni- Vélez defende a volta do ensino de Educação Moral
220
dades tradicionais, especialmente dos povos indíge- e Cívica [EMC], disciplina instituída pelo Decreto Lei

nas, com a entrega dessas duas áreas ao “ministério 869/68 e obrigatória no currículo escolar brasileiro

do agronegócio”, capitaneado por Tereza Cristina a partir de 1969, juntamente com a disciplina de Or-
[DEM/MS], que chamou para comandar a secretaria ganização Social e Política Brasileira [OSPB]. De

especial de Assuntos Fundiários, ninguém menos acordo com Ebenezer Takuno de Menezes e Thais

que o presidente da União Democrática Ruralista


[UDR], Luiz Antônio Nabhan Garcia, inimigo público
Helena dos Santos62, “ambas, EMC e OSPB, foram Avesso ao diálogo e à participação social, Vélez Ro-
adotadas em substituição às matérias de Filosofia e driguez chegou a solicitar da área jurídica do MEC
Sociologia e ficaram caracterizadas pela transmis- um parecer para acabar com o Conselho Nacional de
são da ideologia do regime autoritário ao exaltar o Educação. De tão absurda, a demanda não prospe-
nacionalismo e o civismo dos rou e, agora, a meta da nova equipe do
alunos e privilegiar o ensino MEC é interferir na composição do Conse-
O lutuoso pacote anticrime de
de informações factuais em Moro promete banalizar a le- lho, garantindo a presença do maior nú-
detrimento da reflexão e da talidade policial e fazer vista mero possível de religiosos e outras pes-
grossa ao extermínio de po-
análise”. A adoção das duas bres, negros, moradores de soas ligadas a suas crenças e interesses.
disciplinas se deu no contexto comunidades periféricas e mi-
Simpatizante do “Escola Sem Partido”, o
litantes de movimentos soci-
da edição do famigerado Ato
ais do campo, das cidades e ministro da Educação tem atacado com
Institucional número 5 [AI5], das florestas. frequência a liberdade de cátedra, em-
que inaugurou os chamados
bora o próprio texto constitucional de
“anos de chumbo” da ditadura instaurada no Brasil
1988 determine, em seu artigo 206, que o ensino
com o golpe civil-militar de 1964. As duas matérias
será ministrado com base no princípio da liberdade
foram retiradas do currículo escolar em 1996 pela
de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensa-
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
mento, a arte e o saber, assegurado o pluralismo de
[LDB].
ideias e de concepções pedagógicas.

221

62
MENEZES, Ebenezer Takuno de; SANTOS, Thais Helena Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: <http://www.edu-
dos. Verbete EMC [Educação Moral e Cívica]. Dicionário cabrasil.com.br/emc-educacao-moral-e-civica/>. Acesso
Interativo da Educação Brasileira – Educabrasil. São em: 11 de fev. 2019.
Enquanto isso, uma nota técnica do Ministério da exemplo, a nota aponta a eletroconvulsoterapia
Saúde, assinada por Quirino Cordeiro Júnior, coor- [ECT], indicando ainda que o Ministério da Saúde
denador geral de Saúde Mental, Álcool e Outras passe a financiar a compra de equipamento para o
Drogas do Ministério da Saúde, dá aval ao uso de tratamento de pacientes que apresentem “determi-
eletrochoques e reforça a possibilidade da interna- nados transtornos mentais graves e refratários a ou-
ção de crianças em hospitais psiquiátricos como ca- tras abordagens terapêuticas”. A nota técnica assi-
minho para tratamento de pacientes com transtor- nada por Quirino ressalta ainda “que não há qual-
nos mentais. Quirino, que está no cargo desde feve- quer impedimento legal para a internação de paci-
reiro de 2017, é forte aliado da “Frente Parlamentar entes menores de idade em Enfermarias Psiquiátri-
Mista em Defesa da Nova Política Nacional de Saúde cas de Hospitais Gerais ou de Hospitais Psiquiátri-
Mental e da Assistência Hospitalar Psiquiátrica”, cos”. Após ampla repercussão negativa da nota, o
composta por parlamentares ligados a empresas de ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que
saúde e “comunidades terapêuticas”. Por sua assu- disse não ter tomado conhecimento prévio da
mida defesa da volta ao velho sistema manicomial e mesma [sic], afirmou que o texto preparado pela
ataque aos avanços conquistados nos últimos anos equipe está em discussão e poderá ter alguns tópi-
nesse campo, a iniciativa parlamentar ficou conhe- cos alterados.
cida como Frente Parlamentar Pró-Manicômios.
No embalo dos absurdos que têm pautado o
Segundo a nota técnica do Ministério da Saúde, [des]governo do capitão, o ex-juiz Sérgio Moro,
“quando se trata de oferta de tratamento efetivo agora ministro da Justiça e Segurança Pública, até
aos pacientes com transtornos mentais, há que se então no medíocre papel de capacho das elites polí-
buscar oferecer no SUS a disponibilização do melhor ticas e econômicas do liberalismo tupiniquim, torna-
aparato terapêutico para a população”. Como se protagonista de um dos piores episódios da série

222
de maldades e ameaças à vida empreendidas pelos direito. Contudo, o parágrafo único do mesmo ar-
fascistoides bolsonarianos sem que, contudo, isso tigo indica que “o agente, em qualquer das hipóte-
lhe retire da condição de capacho. ses deste artigo, responderá pelo excesso doloso ou
culposo”. O texto apresentado pelo minis-
O lutuoso pacote anticrime de
Chovem escândalos envol- tro Sérgio Moro prevê que “o juiz poderá
Moro promete banalizar a leta-
vendo o atual governo e o reduzir a pena até a metade ou deixar de
lidade policial e fazer vista clã Bolsonaro, vinculando
o “mito” a determinados aplicá-la se o excesso decorrer de escusável
grossa ao extermínio de pobres,
grupos e afastando-o cada medo, surpresa ou violenta emoção”.
negros, moradores de comuni-
vez mais do falso papel de
dades periféricas e militantes de outsider em que ele se co- O mesmo diploma legal referido anterior-
movimentos sociais do campo, locou durante a campa- mente, em seu artigo 25, diz que “entende-
nha.
das cidades e das florestas. O se em legítima defesa quem, usando mode-
projeto, que vem camuflado de radamente dos meios necessários, repele
um discurso anticorrupção, tem clara conotação po- injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou
lítica de eliminação dos indesejáveis e inimigos ide- de outrem”. Moro pretende estabelecer que se con-
ológicos do atual governo e das elites do atraso que, sidera em legítima defesa “o agente policial ou de
cega e imbecilmente, ainda celebram a barbárie em segurança pública que, em conflito armado ou em
curso no Brasil. risco iminente de conflito armado, previne injusta e
iminente agressão a direito seu ou de outrem”.
O artigo 23 do nosso Código Penal, ao tratar da ex-
clusão de ilicitude, estabelece que não há crime A proposta, que dá margem a uma infinidade de in-
quando o agente pratica o fato em estado de neces- terpretações, face à sua subjetividade, vem sendo
sidade, em legítima defesa e em estrito cumpri- criticada por especialistas, especialmente pela pos-
mento de dever legal ou no exercício regular de sibilidade de ampliação dos casos de letalidade
223
policial e de impunidade dos excessos praticados por ao menos o triplo, incluindo massacres feitos por
agentes policiais ou de segurança pública. grupos organizados paraestatais, destaca Boulos,
que é também escritor e professor.
Bolsonaro tem declarada simpatia pelos métodos
de Rodrigo Duterte, eleito presidente das Filipinas Enquanto isso, aqui no Brasil chovem escândalos
em 2016. Em novembro de 2018 o filipino defendeu envolvendo o atual governo e o clã Bolsonaro, vin-
a criação de “um grupo civil armado para fazer culando o “mito” a determinados grupos e afas-
frente ao Novo Exército Popular, um grupo comu- tando-o cada vez mais do falso papel de outsider em
nista rebelde criado no final da década de 1960 e que ele se colocou durante a campanha.
ativo até os dias atuais”, escreveu Gabriel Bonis,
Não bastasse o fato de que boa parte da equipe de
em reportagem publicada pelo site da BBC News
governo de Bolsonaro está envolvida em denúncias
Brasil. Duterte afirmou que a milícia que ele pre-
de corrupção e outros malfeitos, o próprio filho do
tende criar vai se chamar “Esquadrão da Morte de
presidente, o senador Flávio Bolsonaro {PSL/RJ], é
Duterte” e “terá poderes para matar suspeitos de
pivô de uma novela infindável de sórdidas tramas.
serem revolucionários, dependentes químicos e até
O que pareceu ser “apenas” mais um esquema de
pessoas que vaguem sem propósito pelas ruas”, re-
desvio de dinheiro público através da nomeação de
lata a matéria da BBC.
assessores que não trabalham e repassam o salário
Segundo denunciou o ativista político Guilherme para o parlamentar em troca de uma comissão, che-
Boulos, em artigo publicado no site CartaCapi- gou a crimes de lavagem de dinheiro e desaguou na
tal neste domingo [10], “nas Filipinas, desde que revelação de conexões muito mais pesadas e peri-
Duterte iniciou sua cruzada, os dados oficiais conta- gosas que apontam, inclusive, para a relação es-
bilizam cerca de 5 mil assassinatos desta forma”. Or- treita com milicianos.
224
ganizações como a Humans Right Watch apontam
Reportagem do jornal El País, assinada por Gil Alessi integrantes de grupos criminosos no relatório final
e publicada no dia 22 de janeiro desse ano, constrói da Comissão Parlamentar de Inquérito [CPI] das Mi-
o elo entre Flávio Bolsonaro e a milícia investigada lícias”, instalada pela ALERJ entre os anos de 2007 e
pelas mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes, 2008.
em 14 de março de 2018. Além de empregar paren-
Aliás, a simpatia dos Bolsonaro por milicianos e gru-
tes de Adriano Magalhães da Nóbrega [o Gordinho],
pos de extermínio é antiga e em 2003 o
ex-capitão do Bope e uma das
próprio Jair Bolsonaro, então deputado
lideranças do Escritório do Sobre a participação de Bolso-
federal, defendeu publicamente, no
naro em Davos, Robert Shiller,
Crime, em seu gabinete na
prêmio Nobel de Economia plenário da Câmara dos Deputados, a
Assembleia Legislativa do Rio [2013] e professor na Universi-
atuação dos grupos de extermínio [ou-
de Janeiro [ALERJ], o ex-depu- dade de Yale, afirmou que “o
Brasil é um grande país. Merece vir áudio do pronunciamento].
tado estadual e agora sena- alguém melhor”. “Ele me dá
Diante dessa enxurrada de escândalos,
dor Flávio Bolsonaro [PSL/RJ] medo”, enfatizou “Bob” Shiller
em sua breve e direta avaliação. a resposta da família Bolsonaro tem
chegou a homenagear, com
sido um cinismo quase tão grave e as-
“menção de louvor e congra-
sustador quanto as próprias denúncias. Nenhum es-
tulações”, a Adriano e Ronald Paulo Alves Pereira
clarecimento plausível, nenhuma preocupação com
[Tartaruga], hoje major e à época capitão da PM ca-
a repercussão dos fatos e total desrespeito à opi-
rioca.
nião pública. Parece mesmo que os Bolsonaro deci-
Segundo noticiou o site Metrópoles no dia 25 de ja-
diram incorporar o nome da operação desencade-
neiro último, “quatro dos 13 investigados na Opera- 225
ada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro e pas-
ção Os Intocáveis, que levou à cadeia supostos mili-
saram a se julgar, eles próprios, intocáveis.
cianos no Rio de Janeiro, tinham sido citados como
Não bastasse tudo isso, ainda tivemos de lidar com agendada através da organização do Fórum. O ve-
o vexame de Davos. A participação da comitiva bra- xame foi maior porque nem mesmo a equipe de or-
sileira na reunião Anual do Fórum Econômico Mun- ganização foi comunicada com antecedência da de-
dial, ocorrida entre os dias 22 e 25 de janeiro desse sistência e uma sala com quatro lugares reservados
ano, em Davos, na Suíça, foi vergonhosa. Em um dis- para autoridades brasileiras chegou a ser prepa-
curso de seis minutos e meio, quando dispunha de rada. Placas com os nomes de Bolsonaro e dos mi-
até quarenta e cinco para seu pronunciamento, Bol- nistros Sérgio Moro [Justiça e Segurança], Ernesto
sonaro sai de lugar nenhum, para chegar em parte Araújo [Relações Exteriores] e Paulo Guedes [Eco-
alguma. Acompanhei de forma atenta e quase incré- nomia] foram postas sobre mesa, para serem retira-
dulo o patético discurso e ao final do mesmo só me das dezessete minutos após o horário marcado para
restou a sensação de um vexame insuperável, além o início da entrevista sem que esta acontecesse.
da certeza da exposição de um país inteiro ao ridí- Contudo, ninguém da organização do Fórum sabia
culo. explicar o motivo da ausência da delegação brasi-
leira, já que nada lhes tinha sido explicado até
Sobre a participação de Bolsonaro em Davos, Ro-
aquele momento.
bert Shiller, prêmio Nobel de Economia [2013] e
professor na Universidade de Yale, afirmou que “o A propósito, no plano internacional as inspirações
Brasil é um grande país. Merece alguém melhor”. de Bolsonaro são as piores possíveis e incluem
“Ele me dá medo”, enfatizou “Bob” Shiller em sua Vicktor Órban [Hungria] e Matteo Salvini [Itália], ex-
breve e direta avaliação. pressões da xenofobia na Europa, Benjamin Ne-
tanyahu e sua covarde guerra contra o povo pales-
Para completar, Bolsonaro e sua equipe cometeram
tino no Oriente Médio, Donald Trump e seu desu-
o disparate de não comparecer a uma entrevista co- 226
mano e emblemático gesto de separação de
letiva com a imprensa internacional, previamente
crianças imigrantes de seus pais nos EUA,
01
SE É PRA CANTAR, CANTEMOS!
além de Rodrigo Duterte, o exterminador fi- MAR2019
No final de fevereiro desse ano, o minis-
lipino.
tro da Educação, Ricardo Vélez Rodrí-
Como podemos ver, o atual governo brasileiro tran- guez, dirigiu às escolas de todo o país uma curtís-
sita com facilidade entre a maldade, o cinismo e o sima carta que é encerrada com o slogan da campa-
vexame. E o mais grave é que, enquanto nos pega- nha presidencial de Jair Bolsonaro [PSL]. No e-mail
mos paralisados pelo perfil mafioso do clã Bolso- de encaminhamento da carta o ministro pede ainda
naro e por um sem-número de episódios grotescos que, após a leitura da mesma, “professores, alunos
e damarescos protagonizados por personagens fol- e demais funcionários da escola fiquem perfilados
clorizados desse [des]governo, figuras como Paulo diante da bandeira do Brasil, se houver na unidade
Guedes, Sérgio Moro e Tereza Cristina, agem na sur- de ensino, e que seja executado o Hino Nacional”.
dina, como abutres e à sombra do ridículo, para fa- Para completar, o e-mail do MEC sugere que “um
zer avançar seus planos de retirada de direitos, vio- representante da escola filme [com aparelho celu-
lência contra os mais pobres e marginalizados e en- lar] trechos curtos da leitura da carta e da execução 227
trega do país aos interesses do grande capital. A do hino”. Em seguida a escola deverá enviar o vídeo
hora é, pois, de discernimento e ação, antes que para o MEC e a Secretaria Especial de Comunicação
seja tarde. Social da Presidência da República.

A polêmica gerada em torno da carta levou o minis-


tro a refazê-la, retirando o trecho em que cita o slo-
gan de campanha do presidente eleito. Todo o res-
tante da carta e as orientações constantes no e-mail
de encaminhamento foram mantidas.
Ao falar sobre o assunto em audiência pública no compromisso” do parlamento para “salvar o Brasil
Senado, Vélez Rodríguez declarou que “cantar o economicamente”.
hino nacional não é constrangimento, é amor à pá-
Mas, afinal, que patriotismo é esse, representado
tria”. O que o ministro não foi capaz de reconhecer
pelo atual [des]governo e seus asseclas, que pre-
é que obrigar crianças e adolescentes a cantarem o
tende colocar na conta dos mais pobres o suposto
hino nacional, perfilados militarmente e ainda
déficit da Previdência, obrigando trabalhadores e
sendo filmados é, no mínimo, constrangedor e os
trabalhadoras a, dentre outros sacrifícios, contribu-
afastará, em definitivo, de qualquer amor à pátria.
írem por muito mais tempo, conforme destaca a
Afinal, como amar algo que nos é imposto, que nos
professora de direito previdenciário, Júlia Lenze
chega de forma autoritária e constrangedora?
Silva?
O próprio presidente Bolso-
Para agravar ainda mais a situação, pegando
naro recorreu ao apelo pa- Que patriotismo é esse, que carona no texto da PEC 6/2019, a equipe
triótico para pedir o apoio de faz dos brasileiros os maio-
res consumidores de agro- econômica do [des]governo Bolsonaro está 228
deputados e senadores à re-
tóxicos do mundo na atuali- propondo substituir o atual regime de previ-
forma da Previdência apre- dade, de acordo com dados
dência social e solidário, pelo regime de ca-
sentada por ele ao Congresso da Fundação Fiocruz e da
Organização Mundial de pitalização que, como explica Maria Lucia
Nacional no último dia 20. Em Saúde? Fattorelli, coordenadora da Auditoria Ci-
reunião fechada na presidên-
dadã da Dívida, se aprovado significará o fim
cia da Câmara dos Deputados, da qual participaram
da Previdência nos moldes atuais. Em outras pala-
ministros e parlamentares, Bolsonaro declarou con-
vras, representará o fim da segurança preconizada
tar “com a competência, o patriotismo e o
no texto constitucional de 1988 que trata da Seguri-
dade Social, além da entrega do futuro dos
“segurados” no novo regime às oscilações de humor De acordo com reportagem de Nadine Nascimento,
e tempestades do mercado financeiro. publicada pelo Brasil de Fato neste 1º de março, to-
dos os ingredientes dos novos produtos já eram co-
Aliás, entender o que é o regime de capitaliza-
mercializados no Brasil. “A novidade é que eles pas-
ção proposto pelo banqueiro-ministro Paulo Gue-
sam a ser autorizados para uso em novas culturas,
des é fundamental para evitar que caiamos nessa
para fabricação por novas empresas ou para serem
perversa armadilha inspirada no modelo chinelo do
associados em combinações com outros quími-
ditador Augusto Pinochet. Por aqui, Bolsonaro tem
cos. Com isso, o Brasil chega a 2.152 produtos ela-
sinalizado a possibilidade de negociar com o Con-
borados com agrotóxicos em circulação”, destaca a
gresso Nacional, inclusive pela via do “toma lá, dá
reportagem. Uma publicação no Diário Oficial da
cá”, alguns pontos da PEC 6/2019. Mas, não se fala
União de 11 de fevereiro desse ano registra a libe-
na galinha dos ovos de ouro de Guedes: a entrega
229
ração de 19 novos usos para produtos já autoriza-
da “previdência” para seus amigos banqueiros.
dos. Desse total, 12 foram classificados como extre-
Que patriotismo é esse, que faz dos brasileiros os
mamente tóxicos e produtos ainda autorizados por
maiores consumidores de agrotóxicos do mundo na
aqui, como o imazetapir e o hexazinona, estão proi-
atualidade, de acordo com dados da Fundação Fio-
bidos pela União Europeia desde o início dos anos
cruz e da Organização Mundial de Saúde? Somente
2000.
nos dois primeiros meses de [des]governo Bolsonaro
Como nos alerta Larissa Mies Bombardi, geógrafa,
foram autorizados pelo Ministério da Agricultura,
professora da USP e autora do Atlas Geográfico do
Pecuária e Abastecimento [MAPA], sob o comando
Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a
de Tereza Cristina [DEM/MS], 86 novos produtos
União Europeia, “o uso de agrotóxicos, nas dimen-
elaborados com agrotóxicos, o que significa 1,6 por
sões em que tem se dado, tem gerado um
dia.
indiscutível impacto sobre a saúde da população atualizado anualmente, o Brasil caiu 13 colocações
como um todo, mas, sobretudo de camponeses e no referido índice em 2018, quando comparado aos
trabalhadores rurais”. Para além da saúde e da vida dados de 2017.
humana, os agrotóxicos podem
Criado em 2006, com a sanção da Lei
comprometer ecossistemas in- Não é patriota quem tenta im-
Orgânica de Segurança Alimentar e
por a crianças e adolescentes
teiros e ameaçar a sustentabili-
uma falsa ideia de patriotismo, Nutricional [Lei 11.346/2006], o
dade da vida no planeta, le- representado por um modelo CONSEA vinha dando uma valiosa
vando inclusive à extinção de al- autoritário de ensino. Quem
contribuição à construção de políti-
tenta ressuscitar um período
gumas espécies como as abe-
sombrio de nossa história, mar- cas de segurança alimentar e nutrici-
lhas. cado pela obediência cega e pela
onal no Brasil e sua extinção cria uma
repressão a qualquer pensa-
Também não é patriótico, em mento crítico, autônomo e inde- insegurança jurídica para a manuten-
um país onde a fome ainda é pendente. ção de importantes iniciativas como
uma realidade diária para mi- o Programa de Aquisição de Alimen-
lhões de pessoas, inclusive crianças e idosos, extin- tos [PAA] e o Programa Nacional de Alimentação Es-
230
guir o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e colar [PNAE], além de ameaçar a continuidade do
Nutricional [CONSEA], como o fez Bolsonaro, atra- próprio Sistema Nacional de Segurança Alimentar e
vés da Medida Provisória 870, editada em janeiro. Nutricional [SISAN], do qual o Conselho era peça
Segundo a Ação Agrária Alemã, uma das organiza- fundamental.
ções responsáveis pelo Índice Global da Fome63,

63
O estudo anual calcula o índice de fome com base nos enfraquecimento e emagrecimento], atraso no cresci-
dados consolidados mais atuais relativos a quatro indica- mento e mortalidade infantil.
dores: subnutrição, caquexia infantil [grau de extremo
Que patriotismo é esse que fecha os olhos para o uma falsa ideia de patriotismo, representado por
massacre de povos e comunidades tradicionais e um modelo autoritário de ensino. Quem tenta res-
permite a expropriação de suas terras para servir, suscitar um período sombrio de nossa história, mar-
sobretudo, aos interesses das mineradoras e do cado pela obediência cega e pela repressão a qual-
agronegócio? Que pretende oficializar o massacre quer pensamento crítico, autônomo e indepen-
de jovens das periferias pelo braço armado do Es- dente.
tado, sem que seus agentes sejam punidos pelos ex-
Portanto, antes que nos roubem o verdadeiro espí-
cessos? Que aplaude a prática de milícias que con-
rito patriótico, que nos permite entender que a pá-
trolam a vida de comunidades inteiras e eliminam,
tria não pode ser maior que seus filhos e filhas, con-
à bala, quem se coloca em seu caminho?
vido-os à insurgência e à desobediência civil. Se é
Que patriotismo é esse, que ensina crianças e ado- pra cantar, cantemos! Cantemos através da poesia,
lescentes a odiar, a ser intolerante, a negar o outro através da dança, através da batida dos tambores,
e a se considerar superior ou inferior, conforme sua através da música que pulsa em nós e fala sobre
cor, sua cultura, sua classe social ou qualquer outra nós. Sem ufanismo, declaremos nosso amor à pá-
condição que o faça diferente? tria. À pátria mãe, que acolhe, que respeita, que
protege, que cuida da Terra e de seus filhos e filhas.
Definitivamente, não pode ser tomado como exem-
E o mais importante: lutemos pela pátria livre da ti-
plo de patriota quem se coloca a serviço dos inte-
rania, da indiferença, da fome, da ganância, do pre-
resses do capital e secundariza a vida. Não é patri-
conceito, do medo, da mentira e do abandono para,
ota quem rouba ou nega direitos fundamentais, es-
finalmente, podermos celebrar a liberdade e a ale- 231
pecialmente dos mais pobres, dos excluídos e dos
gria de uma terra sem males.
invisibilizados da sociedade do consumo. Não é pa-
triota quem tenta impor a crianças e adolescentes
31 prometeu oficialmente a Trump o uso co-
[DES]GOVERNO BOLSONARO: UM
MAR2019 mercial do centro de lançamento espacial
REMAKING PASTELÃO DE 1964
de Alcântara, no Maranhão, por parte dos
Andrés Manuel López Obrador, presi-
EUA, numa demonstração clara de subserviência e
dente do México, cobrou recentemente que o go-
ameaça escancarada à soberania nacional.
verno da Espanha e o Vaticano se desculpem junto
aos povos indígenas de seu país pelos crimes come- De volta ao Brasil, o presidente orienta o Ministério

tidos durante a conquista e a colonização pelos es- da Defesa a fazer homenagens ao golpe civil militar

panhóis que, segundo Obrador, se deram pela im- ocorrido em 1º de abril de 1964, que depôs o então

posição da espada e da cruz. López Obrador foi além presidente João Goulart e levou o país a longos 21

e reconheceu que também o Estado mexicano pre- anos de regime autoritário, marcados por cercea-

cisará pedir perdão, já que no México independente mento de liberdades, perseguição a opositores, pri-

foram praticadas violências contra povos originá- sões, torturas e mortes. Para a jornalista Eliane

rios, como os yaquis no norte do país e os maias no Brum, Bolsonaro manda festejar o crime e “ao de- 232
sul, além da perseguição a imigrantes chineses du- terminar a comemoração do golpe militar de 1964,

rante a revolução mexicana. o antipresidente busca manter o ódio ativo e barrar


qualquer possibilidade de justiça”.
Enquanto isso, Bolsonaro vai aos Estados Unidos e,
seguindo o caminho oposto ao tomado pelo presi- A lista de atrocidades cometidas pelo regime auto-

dente mexicano, faz uma série de concessões a Do- ritário iniciado com o golpe de 64 é longa e diversa,

nald Trump que incluem isentar cidadãos estaduni- como revela a série de 12 volumes publicada em

denses da necessidade de vistos para viajar ao Brasil 1985 pelo Conselho Mundial de Igrejas e a Arquidi-

como turistas, sem que contrapartida semelhante ocese de São Paulo, resultante da pesquisa “Brasil:

seja dada aos brasileiros. Além disso, Bolsonaro nunca mais”, iniciada em março de 1979. O trabalho
sigiloso durou cinco anos e analisou 850 mil páginas desencadeava em todo o país uma onda de prisões
de processos do Superior Tribunal Militar, levando à sem mandato que atingiria 50 mil pessoas em pou-
mais significativa pesquisa sobre os porões da re- cas semanas”, de acordo com registro do museu vir-
pressão política ocorrida durante a ditadura militar. tual Memorial da Democracia.
As 6.891 páginas da série foram resumidas no livro
Presa no dia 29 de dezembro de 1972, em São
homônimo, publicado naquele mesmo ano, e desde
Paulo, Criméia Almeida, que estava no sexto mês de
2013 o Ministério Público Federal, em parceria com
gestação e ainda assim foi submetida a tortura no
várias outras instituições públicas e organizações da
DOI-Codi64, declara que o filho tinha soluços na bar-
sociedade civil, mantém o portal BNM Digital, que
riga. “Meu filho tem soluços até hoje, com 37 anos.
amplia o acesso ao acervo do “Brasil: Nunca Mais”.
Qualquer tensão ela se manifesta com soluços”, re-
Como a história já confirmou diversas vezes, todo lata Criméia, cujo filho veio à luz no sombrio Pelotão
golpista e usurpador tem pressa, porque sabe que de Investigações Criminais, em Brasília, sob a ame-
seu “reinado” ilegítimo pode durar pouco. Assim, já aça de adoção por algum militar, caso a criança nas-
“em dia 1º de abril de 1964, dois estudantes que de- cesse homem, branco e saudável. O relato de Cri- 233
fendiam a legalidade do governo deposto foram as- méia integra uma série de depoimentos que foram
sassinados no Recife; na mesma cidade, o ex-depu- ao ar no final de alguns capítulos da teleno-
tado e líder comunista Gregório Bezerra foi amar- vela Amor e Revolução [SBT, 2011], de Tiago San-
rado pelo pescoço e espancado em praça pública tigo, com direção de Reynaldo Boury.
por militares do Exército, enquanto se

64
O Departamento de Operações de Informação do Cen- passaram mais de 6.700 presos, dos quais pelo menos 50
tro de Operações de Defesa Interna ficou conhecido foram assassinados sob custódia entre 1969 e 1975, se-
como a central de tortura e assassinato dos adversários gundo o pesquisador Pedro Estevam da Rocha Pomar.
do regime. Apenas pelo DOI-Codi do 2º Exército [SP]
Em maio de 2013 o programa Ca- da BR-163 [Cuiabá-Santarém]. To-
minhos da Reportagem [TV Bra- Quase não se discute a partici- das essas obras encontraram forte
pação de empresários no golpe
sil] apresentou a reportagem Di- civil militar de 1964 e durante os resistência dos povos indígenas, já
tadura: uma história em revisão. mais de 20 anos de ditadura. que afetavam diretamente suas vi-
Contudo, figuras como Henning
Como destaca o texto de apre- das e entregavam parte expressiva
Albert Boilesen e Theobaldo de
sentação no site da TV Brasil, Nigris tiveram papel central na de suas terras às grandes empresas
dentre outros elementos impor- articulação e no financiamento de capital nacional e, sobretudo, in-
do golpe.
tantes, “o programa traz novos ternacional.
fatos que surgiram nas investiga-
De acordo com o site Memórias da Ditadura, “docu-
ções de casos emblemáticos, como o do ex-reitor
mentos e relatos colhidos durante as investigações
da UnB, Anísio Teixeira, e do ex-deputado Rubens
recentes da Comissão Nacional da Verdade apon-
Paiva”.
tam mortos em conflitos e em remoções forçadas,
A repressão não poupou nem mesmo os povos indí- crises de abastecimento, epidemias inoculadas pro-
genas, que passaram a ser vistos pelos militares e positalmente”. No sul da Bahia, o massacre dos Pa-
empresários no poder como empecilho à nova onda taxós para a tomada de suas terras envolveu o pró-
de desenvolvimento e grandes obras que se espa- prio diretor do Serviço de Proteção ao Índio [SPI] e
lharam pelo país, a exemplo das hidrelétricas de se deu, dentre outros métodos, pela inoculação de
Itaipu e de Tucuruí, no Rio Tocantins. Além disso, o varíola nos indígenas, como registrou o procurador
Plano de Integração Nacional [PIN], instituído pelo da república Jader de Figueiredo Correia em docu-
presidente Emílio Garrastazu Médici, em 1970, pre- mento de mais de 5 mil páginas que ficou conhecido 234

via a construção da Transamazônica, da BR-174 como Relatório Figueiredo.


[Manaus-Boa Vista], da BR-210 [Perimetral Norte] e
Entre 1967 e 1968, o procurador percorreu o país, governadores, delegados e até ministros”. Impossí-
presidindo uma Comissão de Inquérito que tinha vel não conectar esse relato com os dias atuais.
por objetivo apurar denúncias de crimes cometidos
Outra história pouco conhecida do período é reve-
contra a população indígena. Segundo o pesquisa-
lada no documentário Soldados do Araguaia [2017],
dor José Ribamar Bessa Freire, “o Relatório Figuei-
dirigido por Belisário Franca. O filme dá voz aos en-
redo denuncia desde castigos físicos, porrada, tor-
tão jovens camponeses, recrutados como reservis-
tura no tronco, […], mutilação, pessoas aleijadas e
tas pelo exército brasileiro no início da década de
mortas em decorrência dos espancamentos, pri-
1970, que falam das torturas e de toda sorte de
sões, cárcere privado, chicotadas, sem contar o sis-
maus tratos a que foram submetidos homens e mu-
tema de trabalho escravo ao qual eles foram sub-
lheres engajados na resistência armada à ditadura
metidos”. As declarações de Bessa Freire foram da-
no Araguaia. Mas, falam também e sobretudo, das
das em entrevista à Revista IHU on-line, publicada
memórias e traumas que lhes acompanham até
em setembro de 2015.
hoje já que, eles próprios, foram submetidos a tor-
O pesquisador afirma ainda que “a repercussão turas, maus tratos e humilhações. O documentário
do Relatório Figueiredo foi grande porque não se foi pauta do programa Conversa com Bial[Globo],
tratava de um caso patológico, de pessoas que eram que contou com a presença do próprio Belisário e
psicopatas e que atacavam os índios, mas de pes- de Raimundo Pereira de Melo, presidente da Asso-
soas normais, que tinham família, que frequenta- ciação dos Ex-combatentes da Guerrilha do Ara-
235
vam a Igreja, tinham conta no banco e faziam cari- guaia e um dos personagens do documentário. Os
nho em seus filhos e, de repente, essas pessoas es- depoimentos registrados por Belisário e a própria
tavam envolvidas: eram grileiros, comerciantes, po- fala de Raimundo Pereira durante a entrevista
líticos, desembargadores, juízes, deputados,
exibida no dia 15 de maio de 2018 são, ao mesmo Já Theobaldo de Nigris presidiu a Fiesp de 1967 a
tempo, comoventes e estarrecedores. 1980 e “nesse período, conseguiu pôr em contato
inúmeros empresários que financiavam a repressão
A Fiesp que se mobilizou para derrubar João em coletas feitas na entidade, durante reuniões
Goulart em 1964 é a mesma que financiou os promovidas por Bueno Vidigal [Banco Mercantil de
patos amarelos que foram às ruas em meados
da década atual, por ocasião das manifesta- São Paulo], João Batista Leopoldo Figueiredo [Itaú e
ções que culminaram como o impeachment de Scania] e Paulo Ayres Filho [Pinheiros Produtos Far-
Dilma Rousseff.
macêuticos]”, segundo informações do site Memó-
rias da Ditadura.
Também, quase não se discute a participação de
empresários no golpe civil militar de 1964 e durante Apenas para registro, a Fiesp que se mobilizou para
os mais de 20 anos de ditadura. Contudo, figuras derrubar João Goulart em 1964 é a mesma que fi-
como Henning Albert Boilesen e Theobaldo de Ni- nanciou os patos amarelos que foram às ruas em
gris tiveram papel central na articulação e no finan- meados da década atual, por ocasião das manifes-
ciamento do golpe. De origem dinamarquesa, Boile- tações que culminaram como o impeachment de
sen presidia o Grupo Ultragás na década de 1960 e Dilma Rousseff.
236
exercia forte influência junto à Federação das Indús- Outro personagem civil central nessa trama foi o en-
trias do Estado de São Paulo [Fiesp], chegando a fi- genheiro Quirino Grassi, um colaborar intelectual
nanciar ações de repressão aos opositores do re-
frequente da Escola Superior de Guerra [ESG] e
gime, como a Operação Bandeirante [Oban], que membro de uma família empresarial do ramo de
mais tarde serviria de inspiração para a criação do carrocerias de bondes e ônibus. Durante conferên-
malfadado DOI-Codi. cia pronunciada na ESG em 30 de julho de 1973,
Quirino fala sobre uma estratégia de mobilização
nacional, cuja execução seria “encargo dos órgãos governos militares. Já em 1967 é indicado para o
territoriais do Ministérios Militares [Distritos Na- cargo de presidente da Caixa Econômica Federal.
vais, Zonas Aéreas e Regiões Militares]”, desencade-
Maluf foi prefeito nomeado pela ditadura para a ca-
ada “em íntima ligação com os órgãos de classe em-
pital paulista e candidato a presidente do Brasil na
presariais da agricultura, do comércio e da indús-
eleição indireta de 1985 que resultou na escolha de
tria”. A participação do empresariado no golpe de
Tancredo Neves, pelo Colégio Eleitoral, para presi-
1964 e nas benesses da ditadura é escancarada no
dente do país. Tancredo morreu antes de assumir e
livro “1964 – A Conquista do Estado: ação política,
José Sarney, eleito como seu vice-presidente, se tor-
poder e golpe de classe”, do historiador e cientista
nou o primeiro presidente da chamada “Nova Repú-
político uruguaio René Armand Dreifuss.
blica”. Sarney esteve durante todo o período da di-
Além disso, dois personagens civis intimamente li- tadura na base de apoio aos governos militares, ali-
gados aos militares protagonizaram escândalos de ando-se à oposição somente no apagar das luzes do
corrupção durante os governos Geisel e Figueiredo. regime autoritário.
O “caso Lutfalla” envolveu o empréstimo de di-
Nosso segundo personagem é Delfin Neto, à época
nheiro público para uma empresa em situação de
poderoso ministro do Planejamento do governo
237
falência, de propriedade do sogro de Paulo Maluf,
João Figueiredo e protagonista do escândalo que fi-
conhecido político paulista com influência no meio
cou conhecido como “caso Delfin”. De acordo com
militar. Engenheiro civil e empresário, Maluf assu-
o Memórias da Ditadura, “a Delfin operava uma ca-
miu como vice-presidente da Associação Comercial
derneta de poupança e atuava no crédito imobiliá-
de São Paulo um dia antes da deposição de João
rio, tipo de investimento popular ligado ao mercado
Goulart. Escancaravam-se, assim, as portas para sua
imobiliário e às políticas oficiais de habitação”. Ine-
aproximação com o mundo da política e com os
vitavelmente, a Delfin mantinha relações
financeiras com o Banco Nacio- publicado em 2014. Pedro Campos e
nal de Habitação [BNH], vincu- Uma das principais contribui- Raimundo Pereira, ex-editor do jor-
ções para entender a corrupção
lado ao Ministério do Interior, durante a ditadura civil militar nal Movimento, falaram sobre o as-
ocupado por Mário Andreazza. iniciada em 1964 foi dada pelo sunto em conversa com a codiretora
historiador Pedro Campos, au-
Segundo o Memórias da Dita- da agência de jornalismo investiga-
tor de “Estranhas catedrais: as
dura, “as relações entre a Delfin empreiteiras brasileiras e a di- tivo Pública, Marina Amaral. A entre-
e o BNH envolveram uma nego- tadura civil-militar, 1964-1988”, vista foi publicada no início de abril
publicado em 2014.
ciata com terrenos superfatura- de 2017 e vale ser conferida.
dos, no qual o banco quitava
Além disso, em reportagem publicada pela Pública,
uma dívida da empresa, determinando um preço
em março de 2017, os jornalistas Iuri Barcelos e Ciro
cerca de seis vezes superior ao do mercado para os
Barros revelam o papel do setor de segurança pri-
terrenos entregues”. Os recursos repassados pelo
vada nas ações de repressão aos que se opunham
Banco estatal para a Delfin somaram cerca de 200
ao regime autoritário, criando um ramo de negócio
milhões de dólares e mesmo diante da oposição de
próspero para membros das Forças Armadas e, em
diretores do BNH e funcionários de carreira do ór-
especial, do aparato repressivo da ditadura. “De
gão, as operações foram realizadas por “ordem su- 238
acordo com documentos analisados pela reporta-
perior”.
gem da Pública, as empresas de segurança constitu-
Uma das principais contribuições para entender a ídas por esses agentes durante a ditadura se envol-
corrupção durante a ditadura civil militar iniciada veram também em casos de tortura, assassinatos,
em 1964 foi dada pelo historiador Pedro Campos, desaparecimento, cárcere privado e outras viola-
autor de “Estranhas catedrais: as empreiteiras bra- ções de direitos humanos”, destaca a reportagem,
sileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988”, que deve ser lida por quem tiver interesse em
conhecer como o esquema de repressão e enrique- Voltando a 64 e seus desdobramentos, vale lembrar
cimento ilícito de militares e amigos do regime, ini- que esse sombrio período de nossa história recente
ciado com o golpe de 64, foi “dos porões às agências não trouxe só a violência e o medo, próprios de re-
de segurança privada”. gimes autoritários. Sob o comando dos governos
militares o Brasil conheceu as ilusões do chamado
Nos dias atuais, a ditadura bolsonariana recorre a
“milagre econômico”, que teria ocorrido entre 1969
mentiras para espalhar o terror e denegrir a imagem
e 1973. Contudo, devemos considerar que entre
de seus adversários políticos e fantasmas ideológi-
1945 e 1980 o Brasil cresceu, em média, 7% ao ano,
cos que sequer existem, cerceia as liberdades de
uma das maiores taxas de crescimento no período
profissionais de imprensa que sejam críticos a seu
em todo o mundo, tendo como ponto alto os anos
[des]governo, além de pautar sua agenda pela dis-
associados ao suposto milagre.
seminação do ódio, do preconceito
e da intolerância, atacando as cha- Como nos lembra o economista e
De acordo com a Auditoria Ci-
madas minorias políticas e amea- professor Odilon Guedes, o su-
dadã da Dívida, a dívida externa
çando os direitos dos povos indíge- brasileira saltou de US$ 3,294 bi- cesso econômico desse período
nas e de outras comunidades tradi- lhões em 1964, para US$ 105,171 se baseou na infraestrutura oci-
bilhões em 1985, o que significa
cionais. Some-se a isso a crescente um crescimento de 32 vezes du- osa herdada dos anos JK [1956-
onda de eugenia social, agravada rante os governos militares. 1961], no cenário internacional 239
pela aproximação do clã Bolsonaro favorável e, sobretudo, no con-
com milicianos, o que remete à associação com as trole da inflação pela via do arrocho salarial. Para
práticas adotadas pelo regime ditatorial iniciado em Guedes, o essencial do legado econômico da dita-
64 em relação setor de segurança privada. dura foi a dívida contraída no exterior, que se
somou ao aumento da concentração de renda e das a evolução da distribuição da renda e da terra no
desigualdades sociais. Brasil em períodos que incluem os 21 anos de dita-
dura são eloquentes [e] revelam que a ditadura pro-
De acordo com a Auditoria Cidadã da Dívida, a dí-
piciou as condições político-econômi-
vida externa brasileira saltou
cas para a concentração da renda e da
de US$ 3,294 bilhões em Paulo Guedes é, no atual governo,
o nome mais próximo dos interes- terra, aprofundando também a desi-
1964, para US$ 105,171 bi-
ses da Fiesp e dos caciques do li- gualdade entre os ganhos do capital e
lhões em 1985, o que significa beralismo que, de tanto se preo-
os do trabalho”.
um crescimento de 32 vezes cuparem com a difamação da
imagem de seu principal adversá-
durante os governos milita- Voltando aos dias atuais, chegou ao
rio eleitoral, esqueceram de pre-
res. Marcos Arruda, socioeco- parar e projetar um candidato Congresso Nacional há alguns dias
nomista e educador do Insti- próprio que servisse aos seus inte- uma proposta de reforma da Previ-
resses.
tuto Políticas Alternativas dência que tem inspiração no modelo
para o Cone Sul [Pacs], des- de capitalização adotado pelo ditador
taca que nesse período “os governantes e os gran- chileno Augusto Pinochet na década de 1980. Paulo
des empresários tomaram uma massa de emprésti- Guedes, ministro da Economia do [des]governo Bol-
mos externos que elevou a dívida a níveis impagá- sonaro e capitão da reforma apresentada ao Con-
veis, não só pelo montante a pagar, mas pelo tipo gresso, é simpatizante dos Chicago Boys, discípulos
de juros e outras condicionalidades que agrilhoa- do economista neoliberal Milton Friedman e res-
vam esta dívida”. ponsáveis pela concepção do modelo de previdên-
cia chileno. Mais que isso: Guedes é fundador do
240
Quem se beneficiou do endividamento público du-
BTG Pactual, um dos fundos de pensão com atuação
rante a ditadura? Ao buscar responder a essa per-
no modelo de previdência privada adotado pelo
gunta, Arruda destaca também que “os dados sobre
Chile e que tem levado ao aumento dos registros de disposto a ir para garantir os interesses dos grupos
suicídios entre idosos naquele país. econômicos aos quais está vinculado. Negocia-se
quase tudo, menos a proposta de capitalização, o
Durante audiência na Comissão de Assuntos Econô-
que significará, em outras palavras, a transformação
micos do Senado, no último dia 27, Paulo Guedes
do direito à previdência como política pública inte-
afirmou que se a reforma da Previdência enviada ao
grante do tripé da Seguridade Social, em negócio lu-
Congresso Nacional não fosse aprovada ele deixaria
crativo para banqueiros e afins, ainda que às custas
o cargo. A chantagem não adiantou muito e nin-
dos mais pobres.
guém veio a público pedir para que ele ficasse. Nem
mesmo seus colegas de governo ou seus amigos Paulo Guedes é, no atual governo, o nome mais pró-
banqueiros embarcaram na sua viagem. Ao contrá- ximo dos interesses da Fiesp e dos caciques do libe-
rio, surgiram várias manifestações nas redes sociais ralismo que, de tanto se preocuparem com a difa-
com a hashtag “já vai tarde”. Dois dias antes, em mação da imagem de seu principal adversário elei-
evento promovido pela Frente Nacional de Prefeitos toral, esqueceram de preparar e projetar um candi-
[FNP], Guedes, se comportando como um calhorda, dato próprio que servisse aos seus interesses. Com
havia declarado que a interrupção do pagamento de Alckmin [PSDB] e Amoedo [Novo] sem qualquer ex- 241
salários de servidores será a “primeira coisa a acon- pressão eleitoral na corrida presidencial de 2018,
tecer” caso a reforma não seja concretizada. sobrou para Bolsonaro surfar na onda da cultura an-
tipetista construída pelos caciques do liberalismo
A própria estratégia de apresentar ao Congresso Na-
político e econômico e seus amigos da mídia liberal
cional uma proposta que mais parece uma espécie
burguesa.
de Frankenstein da Previdência a ser remontado de
acordo com as exigências dos potenciais aliados po- Bastou a Bolsonaro acrescentar muitas pitadas de
líticos, demonstra claramente até onde Guedes está seu poderoso veneno, produzido à base de ódio,
09
intolerância e preconceito, fazendo eclodir a miso- MAI2019 NENHUM DIREITO A MENOS.
ginia e vários outros tumores da empobrecida so- NENHUMA FLOR A MENOS.
ciedade da pós-modernidade. O resultado está aí,
“Não é Eduardo e Mônica. É Brumadinho e Ma-
escancarado em nossas caras e espalhando dor,
riana, na lama. Indecência por grana. Aonde
medo e vergonha. quem pensa apanha. Foda-se o capitão e o ge-

Logo no início da obra “O 18 Brumário de Luís Bona- neral [foda-se!]. O amor é o mais alto grau da

parte”, o autor Karl Marx, retomando uma afirma- inteligência humana”.

ção de Hegel sobre a reencenação de fatos e perso- [Deus e o diabo na terra do sol | Djonga]

nagens da história mundial, afirma que ele [Hegel] O império do ódio, da insanidade e da irresponsabi-
se esqueceu de acrescentar que a história se repete, lidade se instalou de vez no Palácio da Alvorada e
“a primeira vez como tragédia, a segunda como nos Ministérios do [des]governo Bolsonaro e amea-
farsa”. E eu me arriscaria a dizer que, no nosso caso, çam o presente e o futuro de uma nação inteira, in-
ela está sendo reencenada sob a incompetente e clusive de parcela expressiva das elites e das classes
desastrosa direção do ridículo. 242
médias que, em passado bem recente, criaram as
condições subjetivas e objetivas para a eleição do
capitão das fake news. Já não se trata de declara-
ções desastrosas e irresponsáveis do presidente da
República, de seus assessores mais próximos e de
seus filhos intrometidos e boçais, com o propósito
maior de tirar o foco de questões mais sérias como
a PEC da Reforma da Previdência, por exemplo.
No dia 29 de abril, durante patrocinada pela elite agrária brasileira
a abertura da Agrishow, em Dados da Comissão Pastoral da de quem o capitão se declara um par.
Terra [CPT] apontam que nos últi-
Ribeirão Preto [SP], o presi- mos 33 anos foram registrados 49 Enquanto o presidente da República in-
dente Jair Bolsonaro [PSL] massacres que vitimaram 230
cita a violência, representantes do Mi-
pessoas em dez estados brasilei-
prometeu enviar ao Con-
ros. Em março desse ano, só no nistério Público silenciam e membros da
gresso Nacional um projeto município de Baião [PA] foram re- Suprema Corte insistem na frágil tese de
de lei garantindo salvo-con- gistrados dois massacres, com
seis vítimas fatais. que “as instituições estão funcionando
duto a fazendeiros que ati-
normalmente”, ainda que Fabrício Quei-
rarem em trabalhadores
roz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro [PSL/RJ], não
que ocuparem suas terras. Pela promessa do capi-
tenha aparecido para depor no caso de movimenta-
tão, os atos de violência praticados por um “cidadão
ção atípica de R$ 1,2 milhão na sua conta. Ou que,
de bem” ao defender a sua propriedade rural pode-
decorridos mais de 400 dias, não de saiba quem
rão entrar nas excludentes de ilicitude previstas na
mandou matar Marielle Franco e os porquês. Ou
legislação atual. O que significa, em outras palavras, 243
ainda, que nada tenha sido esclarecido sobre a pro-
autorização para matar, acompanhada da certeza
ximidade da família Bolsonaro com milicianos, em
da impunidade.
que pese a vasta quantidade de evidências dessa
Por seu discurso no evento de Ribeirão Preto, Bol- proximidade e a gravidade disso.
sonaro ignora ou despreza o fato de que a violência
Voltando à questão agrária, dados da Comissão Pas-
no campo é um problema antigo no nosso país e de-
toral da Terra [CPT] apontam que nos últimos 33
corre, sobretudo, da injusta estrutura fundiária e da
anos foram registrados 49 massacres que vitimaram
ausência de uma política efetiva de reforma agrária.
230 pessoas em dez estados brasileiros. Em março
Some-se a isso a onda de massacres no campo,
desse ano, só no município de Baião [PA] foram
registrados dois massacres, com seis vítimas fatais. continuou em 2016, com 61 mortes”, destaca o do-
O Pará é o estado com maior número de conflitos cumento da pastoral católica. Historicamente, a vi-
acumulados nas três últimas décadas e, também, olência no campo vem acompanhada da impuni-
aquele onde a violência contra assentamentos de dade dos executores e mandantes, a exemplo do as-
reforma agraria, acampamentos de trabalhadores sassinato de 21 trabalhadores rurais sem-terra pela
sem-terra, comunidades indígenas, quilombolas e Polícia Militar do Pará, ocorrido em 27 de abril de
outros povos tradicionais se faz mais frequente. 1996. O episódio ficou conhecido como Massacre
de Eldorado dos Carajás e em abril último comple-
Além disso, de acordo com dados do docu-
tou-se 23 anos de impunidade.
mento Conflitos no Campo – Brasil 2017, publicado
pela CPT, naquele ano foi registrado o maior nú- Realizado anualmente no mês de abril, em Brasília,
mero de mortes em conflitos no campo da década, o Acampamento Terra Livre [ATL] reúne, há 15 anos,
resultando em 71 pessoas lideranças e representantes dos povos
assassinadas. “O último ano Durante pronunciamento na Câ- indígenas do Brasil para chamar a aten-
com números tão expressi- mara dos Deputados, em abril ção do Estado e da sociedade para seus
1998, o então deputado federal
244
vos havia sido 2003, quando modos de vida, seu compromisso com
Jair Bolsonaro, referindo-se ao
foram computadas 73 mor- modo como a cavalaria brasileira o presente e o futuro do planeta e suas
tes. O crescimento dos as- lidou com os indígenas, declarou pautas e bandeiras de luta que, neste
que esta fora “muito incompe-
sassinatos acompanha uma ano, incluíram o combate à Medida
tente”, acrescentando que “com-
tendência que iniciou em petente, sim, foi a cavalaria Provisória 870, assinada por Bolsonaro
2015, quando as mortes sal- norte-americana, que dizimou logo nos primeiros dias de governo e
seus índios no passado e hoje em
taram de 36 em 2014, para dia não tem esse problema em que, dentre outros efeitos, gerou o es-
50 pessoas assassinadas e seu país”. vaziamento das funções e poderes da
FUNAI, principal órgão de interlocução dos indíge- desse modelo de civilização referendado pelo atual
nas em governos anteriores. governo que coloca o lucro acima da vida”. O docu-
mento lembra ainda que “somos a resistência viva,
O 15º ATL aconteceu entre os dias 24 e 26 de abril e
e nos últimos 519 anos nunca nos acovardamos di-
foi recebido pela Força Nacional de Segurança. Atra-
ante dos homens armados que queriam nos dizer
vés da Portaria 441/2019, o ministro da Justiça e Se-
qual era o nosso lugar, agora não será diferente”.
gurança Pública, Sérgio Moro, atendendo manifes-
tação do ministro chefe do Gabinete de Segurança A destilação de ódio contra os povos indígenas não
Institucional da Presidência da República, general é algo novo no repertório de Bolsonaro. Du-
Augusto Heleno, autorizou o uso da Força Nacional rante pronunciamento na Câmara dos Deputados, 245
pelo período de 33 dias, a contar de 17 de abril de em abril 1998, o então deputado federal, referindo-
2019. Em nota pública, a Procuradoria Federal dos se ao modo como a cavalaria brasileira lidou com os
Direitos do Cidadão [PFDC/MPF] declarou que “é indígenas, declarou que esta fora “muito incompe-
manifestamente inconstitucional e ilegal o emprego tente”, acrescentando que “competente, sim, foi a
da Força Nacional de Segurança Pública em ativi- cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios
dade de segurança preventiva, ostensiva ou investi- no passado e hoje em dia não tem esse problema
gativa, originariamente de responsabilidade de um em seu país”.
Estado ou do Distrito Federal, por mera solicitação
Já empossado como presidente da República, Bolso-
de um Ministro de Estado, salvo, eventualmente,
naro continuou patrocinando uma série de ataques
em situações de intervenção federal”.
verbais e atos concretos que ameaçam os direitos
Também por meio de uma nota, a Articulação dos dos povos e comunidades tradicionais do Brasil, es-
Povos Indígenas do Brasil [APIB] lembra que “a his- pecialmente os povos indígenas. As declarações do
tória da nossa existência, é a história da tragédia presidente da República chegam aos ouvidos de
latifundiários, grileiros, mineradoras e outros grupo madeireiros ilegais e garimpeiros, conduzindo uma
econômicos interessados nas terras indígenas como onda de invasões de territórios tradicionais. [..] A
um passaporte à violência. impunidade que isso implica está provocando uma
explosão de invasões de terras indígenas”, enfatiza
Em documento publicado recentemente [Cumplici-
o documento da APIB.
dade na Destruição], a Articulação dos Povos Indí-
genas do Brasil denuncia “como os consumidores e Se abril foi o mês de ataques aos povos indígenas,
financiadores do Norte permitem o ataque do go- maio foi eleito o mês de ataques à educação pelo
verno Bolsonaro à Amazônia brasileira”. Desde [des]governo Bolsonaro. Em audiência na Comissão
março desse ano, pelo menos 14 casos de invasões de Educação, Cultura Esporte do Senado, no último
ilegais de territórios indígenas foram documentados dia 7, Abraham Weintraub65, que substituiu Vélez
em todo o Brasil, principalmente na Rodriguez no cargo de ministro
Amazônia, representando um au- da Educação, logo no início de sua
Assim, afirmo com a mais lúcida
mento de 150% desde que Bolso- das consciências, que a neutrali- fala, afirmou que “a criança co-
naro assumiu a presidência. “O in- dade, além de ser uma amarga meça a interagir aos três anos de
ilusão, é a forma mais imbecil e
solente conflito de interesse de Bol- idade”, revelando sua ignorância
covarde de submissão. E volto a 246
sonaro com o setor do agronegócio Freire para lembrar que “lavar sobre assuntos ligados à educa-
envia sinais perigosos para facções as mãos em face da opressão é ção. Se tivesse lido Jean Piaget
reforçar o poder do opressor, é
criminosas, como grileiros, optar por ele”. [1896-1980], por exemplo, o

65
Abraham Weintraub é formado em ciências econômi- Universidade Federal de São Paulo [Unifesp]. Na inicia-
cas pela Universidade de São Paulo [1994]. Embora tenha tiva privada, trabalhou no Banco Votorantim por 18 anos,
sido apresentado como “doutor” pelo presidente Jair Bol- onde foi economista-chefe e diretor, e foi sócio na Quest
sonaro, ele é mestre em administração na área de finan- Investimentos.
ças pela Fundação Getúlio Vargas [FGV] e professor da
ministro saberia que o desenvolvimento cognitivo e despreparado que resolveu brincar de ser presi-
das crianças ocorre em quatro fases, com a primeira dente. Ações muito concretas começam a afetar se-
delas [a sensório-motor] se dando até os 2 anos de riamente a vida de milhões de pessoas, especial-
idade. Hoje, sabemos que somos um ser apren- mente as mais pobres e vulnerabilizadas.
dente a partir mesmo do momento em que nos co-
Já passa da hora de encararmos de frente o fato de
locamos em contato com o mundo.
que estamos vivendo um Estado de exceção, num
Em uma apresentação medíocre, que resumiu a [des]governo dividido entre a obediência aos inte-
educação a gráficos e números pouco confiáveis ou resses do mercado, o fundamentalismo religioso, as
questionáveis, Weintraub concentrou grande parte orientações de um pseudointelectual lunático, a
de suas energias na desconstrução da imagem da presença de amigos de milicianos e a vaidade sem
universidade pública para, depois, no debate com limites e criminosa de um ex-juiz arrogante, dentre
os senadores, fazer a defesa dos cortes no orça- outras influências nefastas.
mento da Educação, que ele apresenta sob o dis-
Definitivamente, não há mais o que esperar. Para-
farce de bloqueio. Além disso, o ministro somou-se 247
fraseando Eduardo Alves da Costa, em seu imortal
Paulo Guedes [Economia] no jogo imoral de chanta-
poema “No caminho com Maiakovski”, lembro aqui
gens escancaradas ao Congresso Nacional e à socie-
que eles já roubaram muitas flores dos nossos jar-
dade, visando vincular uma possível liberação dos
dins, já pisaram e cuspiram em nossos mais elemen-
recursos da Educação à aprovação da proposta de
tares direitos e estão chacinando a esmo nossos ir-
desmonte da Previdência, deliberada ou equivoca-
mãos e nossas irmãs das periferias, das florestas e
damente chamado de reforma por muitos de dentro
do campo. E se nada dissermos e fizermos, logo o
e de fora do governo. O fato é que, já não se trata
mais frágil deles, sozinho e conhecendo nosso
de palavras jogadas ao vento por um irresponsável
medo, nos arrancará a voz da garganta. Não há
como continuarmos fingindo que não é conosco e contra toda e qualquer forma de opressão e exce-
seguirmos neutros, como se nada estivesse aconte- ção de direitos.
cendo.
Fico, por fim, com o sopro de esperança que me é
Como nos questiona Paulo Freire, o intelectual bra- trazido por Gilmara, estudante do curso de Adminis-
sileiro mais odiado e temido pela asnice que se ins- tração Pública da UFCA, ao me afirmar que tudo isso
talou no atual [des]governo, ‘que é mesmo a minha irá passar. Que a luz chegará mais uma vez. E Gil-
neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas mara encerra sua afetuosa mensagem com um
hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo afago que é, na verdade, um alento: “Vai ser difícil,
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de acusar a injustiça?” Assim, afirmo com a mais lú- mas, vai passar, professor”. Sim, também creio pia-
cida das consciências, que a neutralidade, além de mente que vai passar. Mas, para isso, precisaremos
ser uma amarga ilusão, é a forma mais imbecil e co- lutar irmanados para vencermos a tirania, a insani-
varde de submissão. E volto a Freire para lembrar dade e a imbecilidade que hoje nos governam. Pre-
que “lavar as mãos em face da opressão é reforçar cisaremos ser capazes de construir redes de afeto e
o poder do opressor, é optar por ele”. solidariedade que nos possibilitem romper os gri-
lhões que nos aprisionam e nos impulsionem rumo
Definitivamente, minha história e meu compro-
à uma perspectiva ética libertária, radicalmente
misso ético com a vida e com minha gente me exi-
comprometida com o amor e com a vida. Com toda
gem uma tomada de posição que passa, necessaria-
forma de amor e com a inteireza da biodiversidade
mente, pela rejeição de toda e qualquer forma de
planetária e cósmica. Sim, vai passar, porque, como
submissão. Por todos e todas que me antecederam
nos lembra o poeta, “o amor é o mais alto grau da
e pelas gerações futuras, reafirmo minha crença de
inteligência humana”.
que a hora é de desobediência civil e de insurgência
SOBRE O AUTOR Graduado em Administração Pública e Gestão Social pela Univer-
sidade Federal do Cariri [UFCA] blogueiro, autodidata, curioso e
Com origem nos movimentos populares, de onde herdou o
eterno aprendiz, nos últimos anos Joelmir Pinho tem se dedicado
gosto pela participação e pela construção coletiva, Joelmir Pinho
ao estudo de temas relacionados a educação sistêmica, políticas
trabalhou como técnico do Programa de Apoio à Autogestão das
públicas e gestão social, sendo, com frequência, convidado para
Organizações de Agricultores do Perímetro Irrigado Senador Nilo
produzir textos, conduzir cursos e oficinas e proferir palestras
Coelho [Petrolina/PE] e do Programa Nacional de Capacitação
dentro dessas áreas.
Técnica [convênio INCRA/BNB/PNUD]. Dirigiu o Instituto de Estu-
dos, Pesquisa, Projetos e Assessoria Municipal da Prefeitura de Integrou a equipe do Núcleo de Extensão em Desenvolvimento
Maranguape e coordenou o Plano Diretor de Desenvolvimento Territorial [NEDET] da Universidade Federal do Cariri [Convênio
Urbano do mesmo município. MDA/CNPq/UFCA], na função de Assessor Territorial de Gestão
Social [ATGS]. É um dos fundadores da Escola de Políticas Públi-
Foi consultor do processo de elaboração dos Planos Diretores de
cas e Cidadania Ativa [EPUCA] e presta serviços de assessoria e 249
Desenvolvimento Urbano dos municípios de Viçosa do Ceará e
consultoria independente nas áreas de seu estudo.
Ubajara, na Serra da Ibiapaba [CE] e integrou a equipe responsá-
vel pela elaboração do Projeto de Regularização Fundiária, Urba- Desde 2011 coordena a Semana Freiriana do Cariri, evento naci-

nística e Edilícia do Município de Fortaleza [CE]. onal de iniciativa EPUCA, que em 2019 terá sua sexta edição. En-
tre 2015 e 2017 atuou como consultor do Instituto Interameri-
Coordenou a elaboração do Plano de Governo de Maranguape
cano de Cooperação para a Agricultura [IICA], através do Projeto
[Gestão 2001/2004] e em junho de 2000 participou do “Seminá-
Inclusão na Agricultura e nos Territórios Rurais, junto a comuni-
rio Internacional del Proyecto de Monitoreo del Ciudades Inter-
dades rurais do Cariri cearense. Atualmente é professor substi-
medias em América Latina y el Caribe”, realizado na cidade de
tuto do curso de Administração Pública e Gestão Social da Uni-
Cuenca, no Ecuador. De novembro de 2011 a outubro de 2012
versidade Federal do Cariri [UFCA].
gerenciou o Núcleo de Gestão Metropolitana da Secretaria de
Planejamento e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de
Blog | joelmirpinho.wordpress.com/
Juazeiro do Norte [CE].
E-mail | joelmirpinho@gmail.com
E SC OL A D E P OL ÍT IC A S P Ú B L IC A S
E C ID AN I A AT IV A – EP U C A

COMIT Ê GESTO R [JUL/1 6 – JUL/19]

ANA CRISTINA DE MORA IS GONÇALVES

DIRETORA GERAL

MARIA DO S OCORRO DA SILVA DE S OUZA

DIRETORA ADMINISTRAT IVA

ANA LEONOR PIANCÓ DE BRITO

DIRETORA FINANCEIRA