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FERREIRA, Marieta de Moraes. Política e poder no Estado do Rio de Janeiro na República Velha. Revista do Rio de Janeiro, Niterói, v.

1,
n. 1, p. 115 - 120, set./ dez., 1985.

Política e poder no Estado do Rio


de Janeiro na República Velha
MARIETA DE MORAES FERREIRA' o objetivo do presente artigo é analisar a atuação
das diversas frações da classe dominante fluminense
no período compreendido entre 1889 e 1930,
visando o controle do - ou a participação no -
poder estadual, bem Como suas propostas políticas
e econômicas de reorganização do Estado, e o
conteúdo das relações desses grupos com as demais
unidades da federação e com o poder central. "A
implantação da República federativa no Brasil
coincidiu, no Estado do Rio, com sérias dificuldades
econômicas e financeiras que, em fins da década de
1890, chegaram a uma situação-limite, muito
embora esse quadro de crise tenha sido entremeado
por breves conjunturas de recuperação". A
elaboração do artigo tem por base o conjunto de
trabalhos produzidos pela equipe do Programa de
Pesquisa de História do Estado do Rio de Janeiro,
do CPDOC/FGV. A equipe do programa é
composta pelos pesquisadores Mônica Komis,
Paulo Brandi, Renato Lemos, Sérgio Lamarão,
Silvia Pantoja, Vera Teixeira da Silva.

• Doutoranda em História na UFF.


Coordenadora do Programa de Pesquisa de Histbria do
Estado do Rio de Janeiro, do CPDOC/FGV.

Rio ck ]oneiro 1 115

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o objetivo deste artigo é analisar a dinâmica das dia à capitania do Rio de Janeiro. Seu principal
transformações ocorridas no Estado do Rio no pe­ centro urbano era a cidade do Rio de Janeiro, que,
ríodo compreendido entre 1889 e 1930, tendo co­ a partir de 1763, passou a sediar a administração
mo principal eixo de análise a luta empreendida portuguesa no Brasil.
pelas frações da classe dominante visando o con­ Com a promulgação do Ato Adicional em 1834,
trole do poder no Estado, bem como suas articula­ a cidade do Rio de Janeiro passou a constituir o
ções com a política nacional. Município Neutro da Corte, desvinculando-se da
Dentro dessa perspectiva, nossa proposta é não província do Rio de Janeiro. Se, por um lado, a
SÓ contribuir para um maior conhecimento da pro­ província deixava de abrigar a maior cidade, o
blemática específica do Rio de Janeiro, como tam­ principal porto e o centro político do Império, por
bém fornecer subsídios para um melhor entendi­ outro lado conquistava sua autonomia político­
mento da implantação e funcionamento do federa­ administrativa. Essa autonomia, contudo, não foi
lismo na República Velha. suficiente para libertar a província do peso da cida­
O tratamento dado à análise da problemática do de do Rio de Janeiro na sua vida política e econô­
federalismo tem sido insuficiente e parcial, �ma mica. A extrema centralização imperial acentuava
vez que são poucos os estudos monográficos ou a relação de dependência da prov'Íncia para com a
regionais que esclarecem os intrincados aspectos capital, o que resultava no carreamento para a
das relações entre a União e os Estados. Corte de vultosos recursos econômicos e tributá�
A partir da década de 1970, foram publicados rios, além de permitir constante ingerência da Co­
inúmeros trabalhos no campo da história regional, roa nos negócios fluminenses.
que forneceram contribuições importantes a essa A proclamação da República em 1889, ao pro­
temática. Esses estudos se concentraram, em sua mover a descentralização político-administrativa
maioria, em Estados que desempenharam um papel no país, gerou expectativas de uma efetiva autono­
de primeiro plano na condução do processo de in­ mia no agora Estado do Rio de Janeiro. A implan­
dustrialização brasileira ou na definição da política tação da República federativa no Brasil coincidiu,
nacional como é ° caso de São Paulo e Rio Grande no Estado do Rio, com sérias dificuldades econô­
do Sul, analisados por Joseph Love, e de Minas micas e financeiras que, em fins da década de
Gerais, por John Wirth - ou naqueles que exerce­ 1890, chegaram a uma situação-limite, muito em­
ram alguma liderança em amplas regiões do país, hora esse quadro de crise tenha sido entremeado
como Pernambuco no nordeste, objeto de investi­ por breves conjunturas de recuperação. Além des­
gação de Robert Levine 1. ses problemas de ordem econômica, o exercício,
O comportamento dos Estados que se situaram pelos fluminenses, da autonomia que o federalismo
à margem do eixo do poder vigente na República oferecia, foi dificultado, mais uma vez, pela proxi­
Velha, contudo, ainda é bem pouco conhecido. midade da capital federal, a ponto de se tornar voz
Desempenhando um papel2 de menor relevância corrente que a política estadual era decidida na
na definição das linhas gerais do funcionamento da
Rua do Ouvidor.
política nacional, a problemática interna dos de­ O início da construção de Brasília no final da
mais Estados é ignorada ou interpretada a partir de década de 1950 deu origem a toda uma discussão
inferências oriundas dos modelos construídos para no sentido de reintegrar ao Estado a cidade do Rio
análise dos Estados dominantes, o que impede a de Janeiro, quando esta deixasse de sediar o Distri­
recuperação da dinâmica própria daqueles Estados. to Federal. Contudo, a inauguração da nova capital
Embora as grandes decisões sejam tomadas nos em 1960 não teve como conseqüência imediata a
núcleos econômica e politicamente dominantes, é fusão, tendo a cidade do Rio de Janeiro se trans­
importante detectar em que medida as propostas formado no Estado da Guanabara.
ditadas pelos interesses da política nacional foram Na década de 1970, o debate sobre a fusão foi
absorvidas ou tornaram-se objeto de resistência ou reativado. Aqueles que defendiam a medida centra­
contestação. vam sua argumentação no esvaziamento econô­
mico da Guanabara, que poderia ser superado atra­
vés da criação de um novo pólo econômico via
o Municfpio Neutro da Corte fusão com o Estado do Rio. Finalmente, em 1975,
procedeu-se à fusão das duas unidades da federa­
O Estado do Rio, a despeito de sua trajetória sUl ção.
generis em termos político-administrativos, não Até o momento, as expectativas de formação de
tem sido alvo de um interesse maior por parte dos um novo pólo econômico dinâmico no novo Esta­
estudiosos. Durante grande parte do período colo­ do do Rio não se concretizaram. Atualmente, di­
nial, o território do atual Estado do Rio correspon- versos veículos de informações - imprensa, relató-

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rios técnicos - apontam o Rio de Janeiro como as lideranças políticas mais expressivas do Estado,
um estado problemático, carente de dinamismo em particular do Partido Republicano Fluminen­
econômico, estagnado e comportando em seu terri­ se3, atuando mais como um representante direto
tório uma das áreas mais atrasadas do país - o do poder central no Rio de Janeiro.
norte fluminense. Excluídos das negociações para a organização
Acreditamos que a análise da história política da nova máquina política, segmentos significativos
fluminense poderá vir a contribuir para a com­ da PRF, liderados pelos republicanos históricos Sil­
preensão das origens dos problemas que caracteri­ va Jardim e José Tomás de Porciúncula, passaram
zam atualménte o Estado. em pouco tempo à oposição, combatendo tenaz­
mente o governo Portela. Escudado no Executivo
Federal, que lhe concedia amplo apoio, Portela
A açxio das frações das classes dominantes procurou construir uma base política própria, bus­
cando, para tal, lançar mão de uma série de meca­
,A província do Rio de Janeiro foi, graças à pujança nismos que neutralizassem seus adversários, i.e., se­
da cafeicultura escravista do vale do Paraíba, o tores oposicionistas do PRF e ex-monarquistas. Es­
principal pólo econômico do país durante quase sas duas facções, impossibilitadas de participar da
meio século do período imperial. No plano polí­ nova estrutura de poder, iniciaram um movimento
tico, constituiu, indiscutivelmente, a base de poder de aproximação que culminou na criação do Parti·
do regime monárquico. Na década de 1880, po­ do Autonomista Fluminense (PAF), depois que
rém, a província entrou em declínio econômico ambas foram derrotadas nas eleições para Consti­
provocado por sérios problemas na produção ca­ tuinte estadual. As lideranças de maior peso do
feeira, tendo assistido à proclamação e à instalação novo partido eram Porciúncula e o ex-monarquista
da República em meio a grave crise política, que se conservador conselheiro Paulino Soares de Souza.
refletiu em considerável perda de influência no Durante essa primeira fase, os conflitos tiveram
conjunto da federação recém-criada. como eixo a luta pelo controle político, sendo
Ao contrário de Minas Gerais, São Paulo e Rio adiadas as discussões em torno de questões econô­
Grande do Sul, onde as elites dominantes vieram a micas. Isso pode-ser explicado, pelo menos parcial­
se organizar em torno de partidos politicamente mente, pelo fatQ. de que a crise da cafeicultura
coesos, o Ebtado do Rio teve sua trajetória marca­ fluminense, em curSO desde o começo dos anos 80,
da por intensos conflitos no interior da classe diri­ teve seus efeitos minimizados no final da década
gente, que repercutiram na ausência de agremia­ pela elevação dos preços do café e, no início dos
ções partidárias melhor estruturadas. anos 90, pela reversão dos impostos de exportação
Partindo desse quadro geraL nossa proposta é da União para os Estados 4. Essa conjuntura favorá­
analisar a ação das frações da classe dominante vi­ vel permitiu, sem dúvida, um adiamento da discus­
sando o controle do - ou participação no - poder, são sobre os caminhos a serem seguidos para com­
bem como suas propostas políticas e econômicas bater a crise estrutural da lavoura cafeeira flumi­
para reorganizar o Estado, tendo como pano de nense.
fundo a nova conjuntura trazida pela República. A brusca alteração no quadro político nacional
Nossas preocupações voltam-se igualmente para a - representada pelo afastamento do marechal Deo­
análise do conteúdo das relações desses grupos, do doro da Fonseca da presidência do país em novem­
governo fluminense, com as demais unidades da bro de 1891 e sua substituição pelo vice-presi­
federação, pretendendo com isso detectar a capaci­ dente, marechal Floriano Peixoto - teve profunda
dade de manobra dos mesmos na defesa de seus repercussão no Rio de Janeiro, como de resto nos
interesses. demais Estados da federação. A queda de Deodoro
A reconstituição da trajetória dos grupos domi· significou uma completa inversão na correlação de
nantes fluminenses nos permitiu dividir a história forças existentes na política fluminense. Portela e
política do Estado na República Velha em quatro seu grupo foram alijados do governo, galgando o
períodos básicos. poder uma coalizão de republicanos históricos e
Inicialmente, temos a fase de estruturação do ex-monarquistas, sob a liderança de Porciúncula.
regime republicano (1889-1891), marcada por uma
grande instabilidade política. Com a proclamação
da República, o governo do Estado foi entregue, A conciliação
por indicação do patriarca republicano Quintino
Bocaiúva, a Francisco Portela. Embora membro do Essa nova fase da política fluminense, inaugurada
grupo dos republicanos históricos do Estado, Em 18925, teve como traço básico a conciliação.
Portela carecia de articulações mais estreitas com Unidos internamente, os setores dominantes no Es-

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tado ganharam uma margem de manobra mais am­ cos e reorientassem a política econômica do Esta­
pla para exercer a autonomia propiciada pela orga­ do. Contudo, a implementação dessas medidas sig­
nização federativa do país, na medida em que a nificava, inegavelmente, desagradar certos setores e
. tadual estava diretamente vinculada à
autonomia e.s ferir interesses, exigindo, portanto, uma sustenta­
unidade oligárquica internas. ção política da qual � administração Alberto Tor­
Tendo como preocupação básica a manutenção res não dispunha.
da estabilidade no Estado, a questão da transferên­ As discussões realizadas durante o período vi­
cia da capital, levantada já na administração Porte­ sando a solução da crise - tais como as referentes
la, voltou à tona. A localização de Niterói, mnito à diversificação da agricultura, tornando a econo­
próxima à cidade do Rio de Janeiro, permitia - mia menos dependente do café, a criação do im­
como já foi dito - a direta influência da capital posto territorial, articulada com a diminuição pro­
federal na vida fluminense. Ainda que houvesse um gressiva do imposto da exportação, visando enali­ k
consenso em relação à transferência da capital, o zar as terras improdutivas - caíram no vazio .
local suscitava debates acirrados. A eclosão da Re­
volta da Armada, em setembro de 1893, apressou
esse processo de transferência, uma vez que Niterói Uma nova base de poder
foi por diversas vezes bombardeada pelos revolto­
sos. Petrópolis, cidade que contava com a mais mo­ Para se enfrentar a crise era necessário o fortaleci­
derna infra-estru tura urbana do Estado e era a base mento do Executivo, que não SÓ implementaria as
política do presidente Porciúncula, foi a escolhida diretrizes destinadas à reorganização .econômica do
para sediar a capital7. Estado, como também se voltaria para O saneamen­
Esse quadro de tranqüilidade e apaziguamento to das finanças, ampliando a receita � quer através
políticos começou a sofrer alterações a partir de de novos impostos e taxações, quer através da
1896, ano em que a frágil economia fluminense transferência, para a administração estadual, de re­
apresentou os primeiros sinais de uma verdadeira cursos arrecadados pelos municípios - e reduzindo
debacle. O responsável por isso, como não podia OS gastos públicos, através da compressão dos salá­
deixar de ser, foi O declínio acentuado dos preços rios do funcionalismo e da extinção de órgãos go­
do café no mercado internacional, que atingia não vernamentais. A solução da crise passava igual­
apenas os produtores, como também a administra­ mente por um rearranjo político, pela construção
ção estadual, na medida em que sua principal fonte de uma nova base do poder) uma vez que os grupos
de renda era, exatamente, o imposto de exporta­ em confronto naquela conjuntura não dispunham
ção sohre aquele produto. de força suficiente para arcar com o ônus de tais
Na esfera política, a disputa pelo controle do medidas.
estratégico município de Campos acabou transcen­ O início do processo de redefinição política se
dendo os limites da política local, constituindo um delineou de forma mais clara com a sucessão de
dos elementos detonadores da cisão, em 1898, das Alberto Torres, no ano de 1900. Contrariando a
forças situacionistas estaduais� em particular do tendência dominante no seio do PRRJ, que era a
PRF, e colocando um ponto final na estahilidade de apoiar a candidatura do chefe político de Petró­
política do Estado do Rio. A crise partidária resul­ polis, Hermogêneo Silva, o deputado federal Nilo
tou no surgimento de duas correntes: uma, ligada a Peçanha articulou, com o aval do governo federal,
Porciúncula, controlava a maioria do Legislativo o nome de Quintino Bocaiúva para a presidência
estadual e manteve a sigla PRF; a outra" sob a do Estado, alegando ser ele um candidato de con­
liderança do presidente do Estado, Alberto Torres, senso, capaz de angariar a adesão do conjunto das
adotou a denominação de Partido Republicano do correntes políticas fluminenses 9.
Rio de Janeiro (PRRJ) e, embora minoritária na Nilo Peçanha, que até então não se destacara
Assembléia, controlava a maior parte das munici­ como figura de proa na política fluminense, am­
palidades fluminenses. pliou seu raio de ação, graças ao apoio do presiden­
Articulavam-se assim, nesse momento, dois pro· te da República, Campos Sales. Bem sucedido no
cesSos de crise - em nível econômico e em nível lançamento de Quintino, Nilo foi o grande benefi­
político - que conduziram o Estado, na virada do ciário dessa conjuntura de crise. Enfeixando em
século, a uma situação de completo caos econômi­ suas mãos uma ampla gama de atribuições, con­
co-administrativo, conjugada a um verdadeiro im­ quanto não ocu passe nenhum cargo no governo
passe no plano político. Quintino, Nilo foi, sem dúvida, o principal ideali­
A saída para a crise implicava, do ponto de vista zador e mentor das iniciativas tomadas naquela
econômico·financeiro, a adoção de medidas efeti­ gestão 10.
vas que solucionassem a questão dos gastos públi- Embora do ponto de vista econômico pouco

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tenha sido feito, redundando num agravamento Situação semelhante aconteceu na administra­
ainda maior da crise, do ponto de vista político o ção de Oliveira Botelho (1911-1914). Igualmente
governo Quintino lançou as bases para a ascensão eleito com o apoio nilista, no final da sua gestão
ao poder de um novo grupo, sob a liderança direta Oliveira Botelho acabou por romper com Nilo, em
de Nilo Peçanha. O retorno da capital de Petrópo­ razão das pressões exercidas pelo presidente da Re­
lis para Niterói e a reforma constitucional, efetua­ pública, marechal Hermes da Fonseca, e do todo­
da em 1903, forneceram os instrumentos que per­ poderoso senador gaúcho Pinheiro Machado. Assu­
mitiram ao Executivo estadual implementar as me­ mindo urna posição independente face à sucessão
didas necessárias para O combate à crise econômi­ de Hermes, Nilo viu-se pressionado pelo governo
co-financeira e neutralizar - via cooptação ou via federal, a ponto de ter suas posições no Rio de
eliminação, conforme o caso - as oposições que Janeiro seriamente comprometidas12.
viessem a se manifestar.
Arrumada formalmente a casa, Nilo ascendeu
pessoalmente ao poder, sucedendo Quintino no go­ Um eixo alternativo de poder
verno do Estado. Seu programa incluía diversas
medidas de incentivo à produção, tais como o estí­ Em relação à política nacional, o período da hege­
mulo à diversificação agrícola, implantação do im­ monia nilista pode ser caracterizado pela busca de
posto territorial, redução das taxas de exportação uma maior margem de manobra no contexto da
de café, açúcar e arroz, taxação de mercadorias política dos governadores para os grupos dominan­
importadas de outros locais que tivessem similares tes fluminenses. Não resta dúvida que em diversas
no Estado. Além disso, previa o saneamento das oportunidades Nilo Peçanha firmou acordos, arti·
finanças, através do corte no funcionalismo públi­ culou-se e mesmo submeteu-se às oligarquias dos
co, da redução salarial de determinadas categorias Estados dominantes. No entanto, o sentido geral de
de funcionários, da reforma administrativa, que ex­ sua ação era tentar construir um eixo alternativo
tinguiu numerosas repartições públicas, etc.11 de poder à dominação Minas-São Paulo. O acompa­
As reformas políticas e a bem-sucedida política nhamento da posição de Nilo e de seu grupo nas
econômico-financeira executada por Nilo entre diversas sucessões presidenciais federais atesta sua
1904 e 1906 serviram de hase de sustentação do posição divergente das orientações traçadas por Mi­
grupo nilista, que logrou assim controlar o Estado nas e São Paulo. Além disso, evidencia Suas tentati­
- embora com interrupções - até 1922. Com efei­ vas de aproximação com Bahia e Pernambuco -
to, o nilismo conseguiu manter-se corno força do­ que, corno o Rio de Janeiro, eram Estados de se­
minante no Estado do Rio durante quase duas dé­ gunda grandeza �, e em alguns momentos com o
cadas, ainda que não tenha alcançado o mesmo Rio Grande do Sul, visando obter apoio às suas
nível de coesão interna, como o registrado em Mi­ pretensões na política nacionaP3. ,
nas Gerais e São Paulo. Sua dominação foi marca­ A efetivação dessas tentativas se deu com a for­
da por conflitos detonados, muitas vezes, a partir mação da Reação Republicana (1921-1922), movi­
da intervenção do Executivo federal na política mento que lançou o nome de Nilo Peçanha em
fluminense. Em duas ocasiões, em hora com pesos oposição ao candidato oficial, Artur Bemardes, nas
diferenciados, a ação do governo federal contri­ eleições presidenciais de 1922, e que era constituí­
buiu de forma decisiva para afastar os nilistas do do pelas forças políticas dominantes nos Estados
controle político do Estado_ do Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco, além
A primeira delas ocorreu durante o governo Al­ do Rio de Janeiro. Pelas proporções que assumiu, a
fredo Backer (1907-1910), quando o presidente Reação Republicana representou a primeira grave
Afonso Pena, aproveitando-se de divergências pre­ cisão inter-oligárquica na República Velha. Pela
existentes no Estado, provocadas pelo afastamento primeira vez, grupos dominantes em Estados políti.
de Nilo do comando direto da política fluminense ca e economicamente mais fracos, contestaram
para assumir a vice-presidência da República, inter­ abertamente a hegemonia do eixo Minas-São Paulo
veio decididamente em favor de Backer. Embora no plano nacional.
eleito com o apoio das forças nilistas, Backer delas Com a derrota da Reação Republicana, as posi·
se afastara, aproximando-se, em contrapartida, das ções do nilismo foram duramente atingidas na po­
correntes marginalizadas por Nilo. Além disso, lítica fluminense. Com efeito, o novo presidente
8acker compôs também com políticos nilistas que Artur Bernardes aliou-se às oposições do Estado do
haviam se indisposto com Nilo, devido à sua polí­ Rio e preparou a derrubada de Nilo Peçanha e seus
tica administrativa marcada pela contenção dos seguidores. Subiu então ao poder a corrente oposi­
gastos públicos e por restrições ao clientelismo cionista liderada por Feliciano Soclré, após um bre­
exagerado. ve interregno no qual o Estado ficou sob interven-

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ção federal. 1. LOVE, Joseph. O regio­ Doutorado, 1984, Mimeo,
A intervenção federal, exercida por Aurelino nalismo Gaúcho. São Pau­ 9. A articulação do nome
lo; Editora Perspectiva, de Ouintino Bocaiúva pode
Leal, significou, internamente, o desalojamento do
1975 e A locomotiva, São ser considerada como um
nilismo de todas as posições de que desfrutava no Paulo na federação brasilei­ marco inicial da dominação
quadro político estadual. Externamente, abriu ca­ ra. Rio de Janeiro, Paz e do nilismo no Estado. Essa
minho para o alinhamento do novo situacionismo Terra. WI RTH, John. O fiel fase incorporou as adminis·
fluminense em nível federal, o que fora uma rela­ da balança. Minas Gerais na trações do próprio Ouinti­
federação brasileira. Rio de no (1900-1903', o 1.0 go­
ção instável durante a preeeminência do nilismo.
Janeiro, Paz e Terra, 1982. verno Nilo (1904-19061. o
Essa guinada na trajetória política fluminense LEV INE, Robert. A velha 2,0 governo Nilo
parece indicar que, ao alijar os nilistas da luta pelo usina. Pernambuco na fede­ (1915-1917', o governo de
poder, a nova ordem diminuiu o nível dos confli­ ração brasileira. Rio de Ja· Raul Moraes Veiga
neiro, Paz e Terra, 1980. (1919·1922', além das
tos internos. Essa maior coesão política do Estado
2, Recentemente foi publi­ administrações de Backer e
seria, também) resultado do mais íntimo alinha­ cado, nessa linha, o traba­ Oliveira Botelho, que fo·
mento fluminense ao governo federal. lho de Souza, Teresinha Oli­ ram iniciadas sob a influên·
Em resumo, se o período de predomínio nilista va de, Impasses do federa­ cia do nilismo, a despeito
lismo brasileiro (Sergipe e a
pode ser compreendido como wn momento em do seu rompimento poste-
Revolta de Fausto Cardo· rior,
que a liderança estadual buscava ampliar a margem
sol. Rio de Janeiro, Paz e 10, LAMARÃO, Sérgio,
de manobra frente ao poder central e aos demais Terra, 1985. "A Ascensão do nilismo no
Estados, o período de hegemonia das forças feHcia­ 3. LEMOS, Renato. A im­ Rio de Janeiro". Documen·
nistas foi marcado pelo alinhamento mais estreito plantação de ordem repu­ to de trabalho CPDOC,
blicana no Estado do Rio_ 1985. Mimeo.
com aqueles mesmos Estados, notadamente São
Documento de trabalho. 11. RUSSEL, Robert,"Nilo
Paulo. O controle da máquina do Estado por esse CPOOC, 1985, Mimeo. Peçanha and Fluminense
grupo terá custado, assim, o preço de uma restri­ 4. LIMA SOBRINHO, Bar­ Politica". Tese de Doutora·
ção do campo da autonomia fluminense. bosa, Presença de Alberto do, University of New Me·

E verdade que, durante a República Velha, a Torres (sua vida e pens� xico, maio de 1974, p, 101
menta), Rio de Janeiro, a 107
prática do federalismo e do regionalismo pressupôs
Civilização Brasileira, 1968. 12. KORNIS, Mônica AI­
um dado grau de independência entre os Estados. p. 220 meida."Os limites à domi·
Para o Estado do Rio, contudo, essa autonomia 5, O per(odo de hegemonia nação nilista", Documento
sempre foi obstada pela sua fraqueza econômica, de José Tomaz de PorciÚ'l1- de trabalho, CPDOC, 1985.
cuia em termos administra· Mimeo,
pelo fracionamento político dos seus grupos diri­
tivos englobou seu próprio 13, F E R REIRA, Marieta
gentes e pela proximidade com o Distrito Federal, governo (1892·1894), o go· de Moraes. liA Reação Re­
que estabelecia relações muito intensas entre os verno de Maur (cio ,Abreu publicana e seus reflexos
rumos da política nacional e estadual. (1895-1897', e o inIcio da na pol(tica fluminense",

Na década de 1920, 3S margenB da autonomia administração de Alberto Documento de trabalho -


Torres. CPDOC, 1985, Mimeo,
estadual serão ainda mais cerceadas, agora em de­
6, LEMOS, Renato. Op. cito 14 . PANG, Eul-Soo, Coro­
corrência do início do processo de centralização 7. LIMA SOBRINHO, Bar· nelismo e Oligarquias -
registrado em nível nacional e que acabaria por bosa, Op, cit., p. 120 1889-1943: a Bahia na Pri·
levar à crise a "política dos governadores"1 4. No 8. SANTOS, Ana Maria meira República brasileira,
dos, "Agriculture Reform Rio de Janeiro, Civilização
Estado do Rio, as primeiras investidas centraliza­
and the of Oecadende in Brasileira,1979. p. 166.
doras não provocaram maior resistência, visto ser
State of Rio de Janeiro, 167.
esse um período em que a autonomia já deixara de 1870·1910". Austin, Uni­
ser uma bandeira de luta para os seus políticos. versity of Texas, Tese de

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