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Resenha do texto "Um Discurso Sobre as Ciências" de Boaventura de Sousa


Santos

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João Coimbra
Secretaria de Estado da Educação, Governo do Rio de Janeiro
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Formação Pedagógica
1o. Período
Ciências da Natureza e Tecnologia
Profa. Elen Cabral
Resenha do texto Um Discurso Sobre as Ciências
de Boaventura de Sousa Santos

João Quadros Coimbra


Nesse texto, ciência é entendida como um conjunto de conhecimentos que servem explicar e
para orientar como podemos usufruir nossas vidas, como habitamos, como trabalhamos, que riqueza
produzimos, o que consumimos, que animais e relações sociais humanas preservamos, tudo isso
para vivermos melhor. Para Santos (Santos, 1988) Na concepção atual a ciência moderna
naturalizou a explicação do real, a ponto de não podermos conceber a realidade senão nos termos
por ela propostos.
Para Cristina Emília Pereira (Pereira, 2008/2009) Um Discurso sobre as Ciências de
Boaventura de Sousa Santos, demonstrou a situação de confronto em que se encontravam as
ciências da natureza e as sociais. As ciências da natureza exerciam um papel de dominação sobre as
outras. Para ela Santos demonstrou o enfraquecimento da posição autoritária das ciências da
natureza sobre os outros saberes.
No seu Discurso, Santos cita como a posição isolada, e pouco receptiva a críticas das
ciências da natureza tem criado perigos cada vez mais verossímeis de catástrofes ecológicas ou de
guerra nuclear. Perigos que a mídia não cobre como deveria. Preferem falar dos perigos da
segurança em termos militar e policial. É o perigo imposto pela propaganda de criminalização da
pobreza, que nos faz confundir pobre com bandido. Para essa mídia pobreza é uma questão de
polícia. Nessa linha encontra-se a também classificação como terroristas e inimigos da democracia
dos povos que lutam pela liberdade de atuação política nos seus países, como as FARC da
Colômbia, os africanos do Sudão, árabes do Barein e principalmente os palestinos da Faixa de
Gaza. Em 2012, numa entrevista a Fernando Arellano Ortiz do site Cronicón, Santos fala que a
legalidade expressa pela repressão e criminalização dos movimentos sociais é pouco apropriada,
porque aumenta a desigualdade social, inventa ameaças de luta social em que a segurança em
termos de segurança militar e policial tem uma força tão grande que se criam formas de estados de
emergência não declarados em muitos países. Para Santos o que acontece é que com o
neoliberalismo

as transnacionais aprenderam a lição segundo a qual é possível pressionar os


governos, influenciar congressos legislativos para produzir leis a seu favor, e por
isso elas mesmas produziram uma legislação que é tão legal como a outra: a que
protege as classes populares, entretanto, agora é uma legalidade que permite com
que façam coisas que antes não podiam fazer.(Santos, 1988)
A Crise do Paradigma Dominante que Santos aponta no seu Discurso sobre as Ciências, é
fácil de verificar pelas condições sub humanas de vida em que vivem grande parte da população do
mundo. A lógica das soluções científicas adotadas não tem conseguido resolver o problema da justa
distribuição da riqueza e do atendimento dos mais necessitados.
Santos explica a crise do paradigma dominante por conclusões teóricas que os próprios
cientistas chegaram e por condições sociais existentes. Avisa que as condições sociais foram
tratadas no seu trabalho intitulado Da Sociologia da Ciência à Política Científica de 1978 (Santos,
1978). Santos entretanto não deixa de notar que industrialização da ciência acarretou o
compromisso com os centros do poder econômico, social e político, os quais passaram a ter um
papel decisivo na definição das soluções científicas prioritárias. Indica as catástrofes de Hiroshima e
Nagasaki como manifestações de uma modo de produção de ciência. Cita a si mesmo em Santos,
1978, quando diz que a ciência e a tecnologia tem demonstrado que os interesses militares e
econômicos são convergentes.
Santos acaba de falar da crise do paradigma dominante com a esperança no ambiente
intelectual numeroso e instável, mas também criativo e fascinante, que vai se despedir de conceitos
ancestrais que não nos convencem mais, uma despedida em busca de uma vida melhor, mais
otimista e de racionalidade mais plural, onde finalmente o conhecimento volte a ser uma aventura
encantada, preparando-nos para o novo paradigma.
Para Santos o novo paradigma científico não pode ser apenas científico tem que ser também
social, de uma vida decente. Esse novo paradigma é formado por um conjunto de teses.
A primeira tese é a de que todo conhecimento científico-natural é científico-social. Essa tese
é para provar que a humanidade está unida por um ideal humanista. É o humanismo que vai nos
orientar na superação da distinção entre conhecimento natural e social que vai ser construído além
do paradigma dominante.
Santos, ao provar a segunda tese de que todo conhecimento é local e total, procura afastar-se
ainda mais do paradigma dominante quando esclarece que no novo paradigma os conhecimentos
progridem ao encontro uns dos outros. Mesmo sendo local ele emigra para outros lugares
cognitivos, de modo a poderem ser utilizados fora do seu contexto de origem. Santos explica no
novo paradigma vai vigorar a ecologia dos saberes “o diálogo horizontal entre conhecimentos
diversos, incluindo o científico, como também o camponês, o artístico, o indígena, o popular e
outros tantos que são descartados pela quadrícula acadêmica tradicional” (Santos, 2012)
Na terceira tese, a de que todo conhecimento é auto conhecimento, Santos aconselha que
todo conhecimento afere-se menos pelo que ele controla ou faz funcionar no mundo exterior do que
pela satisfação pessoal que dá a quem a ele acede e o partilha.

A criação científica no paradigma emergente assume-se como próxima a da criação


literária ou artística, porque as semelhanças destas pretende que a dimensão ativa
da transformação do real (o escultor a trabalhar a pedra) seja subordinada à
contemplação do resultado (a obra de arte). Por sua vez o discurso científico
aproximar-se-á cada vez mais do discurso da crítica literária.(Santos, 1988)
A ciência pós-moderna do novo paradigma, ao sensocomunizar-se, não despreza o
conhecimento que produz tecnologia, mas o auto conhecimento produzido deve traduzir-se em
sabedoria de vida.
Na última tese, que todo conhecimento científico visa constituir-se em senso comum,
reclama que a ciência moderna nos ensina pouco sobre a nossa maneira de estar no mundo. Faz do
cientista um ignorante especializado e do cidadão um ignorante generalizado. A ciência pós-
moderna deixa-se penetrar pelo senso comum para orientar as nossa ações e darmos sentido a
nossas vidas.
Termina o seu Discurso afirmando que nenhum de nós podia naquele momento visualizar
projetos concretos de investigação que correspondessem inteiramente ao paradigma emergente que
delineou. E que encontrava-se numa fase de transição em que duvidava suficientemente do passado
para imaginar o futuro, mas vivia demasiadamente o presente para poder realizar nele o futuro.
Segundo Santos, 2003, havia uma intenção no passado de resolver tudo com uma teoria geral
sobre o futuro, fosse o socialismo ou o comunismo, ou o que fosse. Nas palavras de Santos

Eu penso que hoje não é possível uma teoria geral que inclua toda essa diversidade.
Desculpem que fale assim, mas penso que nós neste momento não necessitamos de
uma teoria geral, senão uma teoria geral sobre a impossibilidade de uma teoria
geral. Temos que estar de acordo de que não é possível uma teoria geral, que
nenhum movimento é o dono da verdade, que não existem movimentos privilegiados
porque não há sujeitos históricos – todos somos históricos e são sujeitos todos os
que se recusem a ser objetos. (Santos, 2003)

Referência

Pereira, Cristina Emília Oliveira Lopes. Boaventura Sousa Santos – Um discurso sobre as Ciências
Reflexão crítica sobre a obra. UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA. Instituto Superior de
Ciências Sociais e Politicas. Curso de Mestrado em Sociologia das Organizações e do Trabalho.
2008/2009. Disponível em <http://pt.scribd.com/doc/19542688/Boaventura-Sousa-Santos-Um-
discurso-sobre-as-ciencias-Reflexao-sobre-a-obra > Acesso em Out, 2012.

Santos, Boaventura de Sousa. Da Sociologia da Ciência à Política Científica, in Revista Crítica de


Ciências Sociais, 1 (1978), pp 11 e ss

_____, Um Discurso sobre as Ciências. Porto, Afrontamento, 1988 (15ª edição)

_____, O neoliberalismo e o sequestro do direito. Entrevista a Fernando Arellano Ortiz, Publicada no sítio
Cronicón, 02-2012. Tradução do Cepat. Disponível em <http://www.ihu.unisinos.br/noticias/506636-o-
neoliberalismo-e-o-sequestro-do-direito-para-boaventura-de-sousa-santos-a-legalidade-caminha-
lado-a-lado-com-a-ilegalidade> Original em Espanhol disponível em
<http://www.cronicon.net/paginas/edicanter/Ediciones68/nota001.htm > Aceso em: Out, 2012

_____, Globalización y democracia. Conferência apresentada no Fórum Social Mundial Temático


Democracia, Derechos Humanos, Guerras y Narcotráfico, em Cartagena das Índias, Colômbia, 16-
20 Junho 2003. Tradução do autor.

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