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TXT 3 – Bresciani

As Experimentações do mundo moderno no século XIX alteraram as relações do


trabalho, do tempo, da rotina, da paisagem, do habitat e acarretaram percepções
contraditórias da cidade. Máquinas, multidões e cidade tornam-se símbolos percussores
do progresso e, ao mesmo tempo, representam a artificialidade, a impessoalidade,
anonimato, desenraizamento (perda de identidade social) e destruição das referências
físicas (o tempo passa a ser relacionado com as tarefas cíclicas e rotineiras do trabalho,
não mais acompanha o ritmo da natureza).
Essa uma mudança na percepção do tempo - tempo irregular da natureza e do calendário
religioso para o tempo da máquina e do processo de produção fabril e de calendários
comerciais. A industrialização substitui o ciclo natural dos dias e estações pelo relógio,
símbolo de controle e regulador - da longa jornada de trabalho, do horário de saída e
entrada dos operários -, da escola – papel disciplinador – e do trem – pontualidade.

Sair da introdução e começar aqui

Tem a MULTIDÃO como tema de estudo

Nenhuma questão se apresenta mais carregada de compromisso para os literatos


do século XIX do que a multidão. Num momento cm que o hábito de leitura se
espalhava por todas as classes sociais, esse público em formação fazia uma exigência:
encontrar sua imagem nos romances que lia. Entre outros, Victor Hugo, Baudelaire,
Zola e Eugene Sue, na França, e Charles Dickens e Edgar Alan Poe, na Inglaterra,
preencheram essa expectativa oferecendo à sociedade o espetáculo de sua própria vida,
se colocaram o desafio de desvendar o enigma da cidade.

Trazer a representação do mundo real para dentro de seus romances era o grande
desafio dos escritores no século XIX. Victor Hugo, Baudelaire, Zola, Dickens, e Edgar
Alan Poe, saíram a campo para observar o homem em seu habitat.

Desta forma, a literatura possibilita eternizar a caracterização do espaço físico,


das relações sociais, dos hábitos, da linguagem e do modo de pensar da época. O autor,
como expectador privilegiado, realiza uma leitura do urbano, do cenário, das ruas e dos
personagens que singularizam a cidade.

Os romancistas do século XIX manifestaram afinco Interesse pelo principal


componente do novo cenário urbano: a multidão anônima - personagem de caráter
heterogêneo e constituída por distintas classes sociais. Trata-se da multidão de operários
que se acotovela em tempos fabris na ânsia de acompanhar o ritmo de produção,
multidão suburbana parisiense e londrina e multidão insurreta que compõe a massa
revolucionária. Multidão essa, paradoxal e conflituosa, símbolo da modernidade que
representa as tensões do novo contexto urbano: anonimato, impessoalidade, perda de
laços, individualidade, tédio, solidão e perdição meio a massa humana e na
efervescência que é a cidade moderna. Em um instante, indiferente ao destino dos
demais, no seguinte, demonstra solidariedade e união como forma de resistência meio a
essa cidade hostil. São os grupos formados por pobres, estudantes, operários, homens e
mulheres reivindicando suas necessidades, falando a linguagem política e dando corpo à
revolução.

Ultrapassando os limites dos ambientes privados, esses autores se colocaram na


posição de observadores das cenas de rua. E nas ruas a multidão era uma presença. O
movimento de milhares de pessoas deslocando-se por entre o emaranhado de edifícios
da grande cidade compõe uma representação estética da sociedade. As populações de
Londres e Paris encontravam-se com sua própria modernidade: admirando e temendo
algo extremamente novo.

Os poetas romanescos representam as cidades do século XIX através de


metáforas por meio da difícil tarefa de descrever os sentimentos de medo,
estranhamento, fascínio, terror e espanto emanados da experiência modernista.
Recorrem então a metáforas inspiradas em elementos da natureza, sentimentos e paixões
humanas. Retratam as ideias e discursos iluministas de progresso que exaltam o
desenvolvimento industrial e cultural ao mesmo tempo em que colocam como paradoxo
apontamentos e críticas aos efeitos destrutivos do acelerado avanço da tecnologia, e
suas implicações nas novas formas de sociabilidade.

Bresciani explora textos literatos, investigadores sociais, médicos e


administradores, e constata: o espanto e a geral preocupação com a pobreza que
multidão nas ruas revelava de maneira evidente. O resultado é uma descrição do
tumultuado e nervoso universo que compunha as cidades de Londres e Paris. Capitais de
duas grandes nações do velho mundo, mas que pela pena do romancista, nos traz um
agudo olhar sobre até onde sonhos podem ser desfeitos, despertados para a dura
realidade das ruas.

A RUA E SEUS PERSONAGENS


Londres e Paris no século XIX foram marcadas por um acontecimento recém
gerado que se configurava na multidão. Esse novo fenômeno passou a fazer parte do
cotidiano das grandes cidades, onde a identidade individual passou a ser substituída por
uma noção de identidade coletiva, onde o habitante passa a fazer parte de um grande
aglomerado urbano.

A multidão, sua presença nas ruas de Londres e Paris do século XIX, foi
considerada pelos contemporâneos como um acontecimento inquietante. Milhares de
pessoas deslocando-se para o desempenho do ato cotidiano da vida nas grandes cidades
compõem um espetáculo que, na época incitou ao fascínio e ao terror. Gestos
automáticos modelam o desfile de homens e mulheres e conferiam a paisagem urbana
uma imagem associada às ideias de caos, de turbilhão, de ondas, metáforas inspiradas
nas forças incontroláveis da natureza.

Permanecer incógnito, dissolvido no movimento ondulante


desse viver coletivo; ter suspensa a identidade individual,
substituída pela condição de habitante de um grande aglomerado
urbano; ser parte de uma potência indiscernível e temida; perder,
enfim, parcela dos atributos humanos e assemelhar-se a
espectros: tais foram as marcas assinaladas aos componentes da
multidão por literatos e analistas sociais do século passado.

Por exemplo, Walter Benjamin que fez da multidão na literatura do século XIX
um tema de estudo, confere ao olhar uma importância decisiva para quem vive nas
grandes cidades. O estar submetido a longos trajetos pelas ruas, a pé ou dentro de meios
de transporte coletivos, impõe aos olhos a atividade de observar coisas e pessoas; a vida
cotidiana assume a dimensão de um permanente espetáculo.

Walter Benjamin fez da multidão seu objeto de estudo na literatura do século


XIX, e diz que estar exposto a esse fenômeno faz a vida cotidiana tomar a dimensão de
um permanente espetáculo, pois em cada canto havia a possibilidade de se observar algo
novo, sempre havia uma incerteza quanto a que poderia ser encontrado. Essas cidades
também se caracterizavam pelas distintas características da ocupação do espaço urbano.
Durante o dia, as ruas eram tomadas pelo exercito de operários, já à noite esses se
recolhiam em seu leito para o descanso enquanto as ruas eram tomadas por vagabundos,
criminosos e prostitutas. Durante a noite os soldados do trabalho repousam, enquanto os
“demônios” despertam para preencher o espaço urbano.

Para Baudelaire, o acaso é um determinante fundamental dos encontros nas


grandes cidades. A incerteza quanto ao que se vai encontrar nas ruas é compensada pelo
encontro certo com o fluxo caótico da multidão. Ele não pretende decifra-la em seus
mistérios e seus perigos, aceita-a como caos, assinalando os aspectos alarmantes e
ameaçadores da vida urbana.

Para Janin, a noite de Paris é assustadora, “o terror é grande, terrível, imenso”.


Frequentada por população que usa o linguajar das prisões para se entreter com seus
temas favoritos – assassinatos, roubos, execuções. Janin – Um hiver a Paris).

Em Victor Hugo, as metáforas da selva virgem compõem a figuração estética do


perigo velado e eminente. Nas ruas de Paris, o assalto dos ladroes se assemelha ao
ataque de índios; o ruído da cidade lembra o irritante e ininterrupto zunir de uma
colmeia de abelhas.

As imagens como as do oceano, de floresta, de formigueiro, do inferno, de


doença, foram recursos necessários à literatura, para dar conta de um tema novo.
Identificando elementos comuns do viver em multidão com o estar à mercê das vagas
irregulares do oceano ou dos habitantes selvagens da floresta, ou ainda com o estar
sujeito às presumidas condições de estadia no inferno, os autores do século XIX foram
compondo uma representação estética do universo das cidades. O espetáculo das ruas
tornou-se visível nos textos.

De acordo com Bresciani, viver numa cidade grande implicava o reconhecer de


múltiplos sinais. Os meninos ladrões que acolhem Oliver Twist quando de sua chegada
a Londres sabem escolher na multidão suas possíveis vítimas e só se lançam ao ataque
quando avaliam bem o momento. Alias, os personagens de Dickens são sempre bons
observadores do que acontece nas ruas.

Assim, em meio à multidão londrina, era possível encontrar distintas classes,


como por exemplo, nobres, mercadores, advogados, lojistas, agiotas, batedores de
carteira, jogadores profissionais, prostitutas, vendedores de empadas, exibidores de
macacos, entre outros indivíduos, deixando claro o caráter heterogêneo das multidões,
onde se pode encontrar todo tipo de cidadão. Os autores do século XIX compuseram
uma representação estética do universo das cidades, identificando elementos comuns do
viver em multidão com o estar à mercê de habitantes selvagens ou ainda como estar
sujeito a condições de estadia no inferno.

Como falei anteriormente, na primeira metade do século, as atividades urbanas haviam


perdido qualquer vínculo com o tempo da natureza. Agora era o tempo dividido em 24
horas. Segundo Thompson, a introjeção dessa noção específica de tempo foi
indispensável para a constituição da sociedade industrial. Essa noção arrancou o homem
da lógica da natureza, ou seja, dos dias de duração variada de acordo com as tarefas a
cumprir no decorrer das estações do ano, e o coloca ao tempo útil do patrão, o único
concebido como capaz de gerar abundância e riqueza, e mais importante ainda, o único
capaz de constituir a sociedade disciplinada de ponta a ponta, uma sociedade obediente
perante um continuo e irreversível fluxo ligado a repetição diária dos mesmos afazeres e
mesmos percursos.

As atividades humanas não mais seguem os ritmos e ciclos naturais tornando o


tempo linear e abstrato controlado pelas novas tecnologias (vela, iluminação a gás e
energia elétrica). Desta forma, o homem se coloca como “vencedor da natureza”,
perdendo vínculos indenitários e de orientações conforme os ciclos naturais,
estabelecendo assim, uma nova condição de vivência no mundo moderno.

A multidão frenética de dia era composta de figuras das mais diversas. Os


trabalhadores dos escritórios que contavam os passos à espera do horário do trabalho, os
carregadores que corriam desajeitados, as lavadeiras com suas trouxas de roupa, os
carteiros de porta em porta. Todos disciplinados pelo novo senhor das cidades, aquele
que dita o ritmo das atividades, que faz com que o agora seja o oposto do depois: o
tempo. A noção do que seja o tempo útil arrancava o homem da acomodação na
natureza, e o jogava na engrenagem puída que teimava em levar a sociedade para frente,
como uma bem ensaiada peça de Dickens.

Na repetição diária dos mesmos percursos em direção às mesmas tarefas em


momentos previsíveis, a sociedade do trabalho se instituiu e elaborou sua própria
imagem. A multidão Londrina e seu movimento em função desse novo tempo, foi
anotada por Edgar Alan Poe no livro/conto de 1840 (O homem das multidões).
Colocando-se na posição de observador casual fascinado pela intensa movimentação de
uma das ruas centrais de Londres, o autor revela:
“ao escurecer, a multidão de momento a momento aumentava e,
ao tempo em que as luzes foram acesas, duas densas e contínuas
marés de povo passavam apressadas [...]. Vi revendedores
judeus com olhos de gavião; atrevidos mendigos de rua,
profissionais; fracos e lívidos inválidos andando de viés e
cambaleando por entre a multidão, fitando a todos
suplicantemente; mocinhas humildes, de volta de um trabalho
longo e tardio, para um lar sem alegria; prostitutas de todas as
espécies; ébrios inumeráveis e indescritíveis; além desses,
vendedores de empadas, tocadores de realejo, exibidores de
macacos, vendedores de modinha, os que vendiam com os que
cantavam, artífices esfarrapados e operários exaustos de toda a
casta e todos cheios de uma vivacidade desordenada e
barulhenta que atormentava os ouvidos e levava aos olhos uma
sensação dolorosa”. 21

A DESCIDA AOS INFERNOS

Este título relata a situação da capital inglesa (Londres) na metade do século


XIX, com a industrialização ocorrente na cidade. Onde com o alto índice de
industrialização a cidade atraiu milhares de imigrantes, sendo ingleses de outras partes
da Inglaterra e estrangeiros (como Irlandeses, por exemplo), sendo que com uma
população tão grande e crescente de operários, Londres passou a ser vista com outros
olhos. Pois com o aumento maciço da população em pouco tempo os problemas de
infra-estrutura e empregos passaram a fazer parte do cenário local da cidade. Londres
que era considerada pelos ingleses um exemplo de cidade civilizada, passou a ser
comparada com o inferno, pela alta população obtida e rodeada de fumaça em
ocorrência das indústrias presentes em volta da cidade.

De acordo com Bresciani, na Londres de metade do século, com dois milhões e meio de
habitantes, projetavam-se claramente a promiscuidade, a diversidade, a agressão, os
vários perigos presentes na vida urbana. Os observadores contemporâneos são unânimes
ao afirmar que o assustador contraste entre a riqueza material e a degradação do homem
fazia Londres uma singularidade absoluta.

De acordo com Bresciani, na Londres de metade do século, com dois milhões e meio de
habitantes, projetavam-se claramente a promiscuidade, a diversidade, a agressão, os
vários perigos presentes na vida urbana. Os observadores contemporâneos são unânimes
ao afirmar que o assustador contraste entre a riqueza material e a degradação do homem
fazia Londres uma singularidade absoluta.

Engels, em viagem pela Inglaterra na década de 1840, afirmou não conhecer


nada mais imponente do que o espetáculo proporcionado pela subida do Tâmisa em
direção a Ponte de Londres:

O amontoado das casas, os estaleiros navais de ambos os lados,


os inumeráveis navios alinhados ao longo das duas margens,
estreitamente unidos uns aos outros, e que, no meio do rio,
deixam apenas um estreito canal onde centenas de barcos a
vapor se cruzam a toda velocidade, tudo isto é tão grandioso, tão
enorme, que se fica atônito e estupefato com a grandeza da
Inglaterra, mesmo antes de se pisar em solo inglês (A condição
da classe trabalhadora na Inglaterra). 23

O otimismo durou pouco e logo constatou “os efeitos devastadores da


aglomeração urbana”. Percorrendo as ruas principais da metrópole, Engels se viu
constrangido a abrir passagem através da multidão e das intermináveis filas de
carruagens e carroças, constrangimento esse que aumentou quando ele chegou nos
bairros ruins e concluiu que os londrinos se viam obrigados a sacrificar a melhor parcela
de sua qualidade de homens na tarefa de atingir todos os milagres da civilização. Ao
contrário de Poe, afirma Bresciani, Engels não se sente atraído pela multidão das ruas
londrinas, que, para ele, “tem em si qualquer coisa de repugnante que revolta a natureza
humana. 24

Fica assustado e indignado por ver


“centenas de milhares de pessoas se comprimindo e se
acotovelando, parecendo nada ter em comum, obedecendo
somente a um acordo tácito de manter sua direita, de modo a
permitir o cruzamento contínuo e sem obstáculo de ambas as
filas da multidão. A indiferença brutal e o isolamento insensível
de cada um voltado para os seus interesses, impedem até um
olhar de relance para o outro [...]. E mesmo sabendo que este
isolamento do indivíduo, este egoísmo tacanho, são em toda
parte o princípio fundamental da sociedade atual, em parte
alguma eles se manifestam com uma independência e segurança
tão totais como aqui, precisamente na multidão da grande
cidade. A desagregação da humanidade em mônadas, onde cada
um possui um princípio e uma finalidade de vida particulares,
esta atomização do mundo, foi aqui levada ao extremo. Resulta
disso que a guerra social, a guerra de todos contra todos, aqui
está abertamente declarada”. 24 (ENGELS, 2010, p.69

Engels ainda relata a péssima situação dos bairros de operários na década de


1840, visão compartilhada pelo literato Arthur Morrison em 1880, na obra Tales of
mean street. De acordo com Morrison
Um lugar chocante, um diabólico emaranhado de cortiços que
abrigam coisas humanas arrepiantes, onde homens e mulheres
imundos vivem de dois tostões de aguardente, onde colarinhos e
camisas limpas são decências desconhecidas, onde todo cidadão
carrega no próprio corpo as marcas da violência e onde jamais
alguém penteia seus cabelos” 26

Tais bairros pobres, como o East End relatado por Morisson, eram comparados a
regiões não conhecidas do mundo, como terras incógnitas, e seus habitantes selvagens e
desconhecidos. Como em 1880 relatou o biólogo T. H. Huxley, quando afirmou que o
selvagem polinésio “na sua mais primitiva condição, não possui nem a metade da
selvageria e da irrecuperabilidade do habitante dos cortiços de East End”. 26

Nas décadas finais do século, a opinião corrente acentua a deterioração


substancial das condições de vida nos bairros pobres de Londres e a “Teoria da
degeneração urbana ganha adeptos entre empresários, cientistas e administradores.
Como sentencia em 1890 o médico J. P. Freeman (The effects of town life in the general
health)

O filho do homem da cidade cresce muito magro, é quase uma


paródia de si mesmo, precocemente excitável e doentio na
infância, neurótico, melancólico, pálido e mirrado quando
adulto, e isso no caso de atingir esse estágio da vida.

De acordo com BResciani, essa constatação confirmava a “Ideia Sanitária”


desenvolvida por Chadwick e inspirou poetas, moralistas, artistas, filantropos e
administradores na década de 1840 e 1850. As implicações econômicas da degradação
física e moral dos trabalhadores urbanos são constantemente lembradas por sanitaristas
que consideravam os custos das medidas preventivas (melhores condições de moradia,
sistema de distribuição de água e sistema de esgotos) menores do que os custos da
doença (interrupção do trabalho e perda do salário).
O preconceito em relação ao trabalhador em Londres, está amplamente
difundido entre os empregadores na segunda metade do século XIX. Os empresários da
região norte do país chegavam a explicitar serem indesejáveis os trabalhadores da
Metrópole, “onde as constituições físicas estão quebradas e os homens enfraquecidos
por dissipações e excessos de todos os tipos”. Um cervejeiro da cidade afirma “nós nuca
empregamos um homem londrino. Se um trabalhador adoece e precisa deixar seu
emprego junto a nós, preenchemos seu lugar com alguém do campo”. 31

Havia uma escassez de tudo que sugira conforto, higiene e decência. Nas décadas de
1880 e 1890 os cortiços imundos e fúnebres são tidos pelos londrinos de outras partes
da cidade, como um mundo à parte, e são comparados a mundos selvagens,
inexploráveis pelos cientistas. Acreditava-se que tal ritmo de vida resultaria numa
geração de homens física e mentalmente doentios, o que promoveria implicações
econômicas, certamente uma recaída na qualidade da mão-de-obra, gastos maiores na
solução de problemas como epidemias e a possibilidade de levantes contestatórios.

Em “tempos difíceis” Dickens descreve uma cidade – Coketown – onde o


império do tempo útil não deixa espaço algum aos devaneios, onde as pessoas não
vinculadas à produção estão, sempre ou de passagem, como figuras marginais, como
Searly, o dono do circo, e sua troupe, ou são expulsas, como Blackpool, o operário
despedido por indisciplina.

Segunda a escritora da época Beatriz Potter, sem lugar nas cidades industrias, os
rejeitados da civilização dirigem-se quase obrigatoriamente para Londres, onde a
riqueza e as inúmeras instituições de caridade atuam como atrativo. Londres vai se
tornando o símbolo das más consequências da vida urbana e da industrialização. Nela
podem se acomodar os preguiçosos, os mendigos, os turbulentos e os esbanjadores de
dinheiro. A alternativa do emprego casual ou de formas menos honestas de
sobrevivência , fazem da cidade de Londres o símbolo do resíduo social, aqueles
homens que se encontram fora da sociedade.

Sobre os resíduos, em 1885, uma comissão da prefeitura de Londres (Mansion


House), assim os define: “Esta classe é um peso morto sobre o mercado de trabalho, ela
interfere nos interesses dos trabalhadores de mérito e de boa vontade, sobre os quais
ainda exerce uma influência de efeitos profundos e degradantes”.
Mas essa situação a que Londres passou a sofrer vale-se da crise que as
indústrias mais tradicionais da cidade, passaram na metade do século XIX, aonde
milhares de imigrantes que vieram em busca de empregos e melhores condições de vida,
se depararam com um desemprego assustador, é há mercê de serem super explorados
quando assim conseguiam emprego sendo sujeitados a condições deploráveis de
emprego.

Nessa onda de desemprego, Londres começou a sofrer com as revoltas dessa


população de desempregados, que em algumas partes da cidade começaram a ocorrer
saques e depredações de casas e comércios. A paisagem de Londres mudou
assustadoramente nesse período, alem das casas mal planejadas e sujas, a figura da
população também mudou onde o jovem londrino passou a ter um aspecto de “Doente,
Pálido, e Magro”, em recorrência da falta de emprego e melhores condições de vida da
população operaria. Dessa forma a população, sendo a maioria os desempregados,
começou a planejar rebeliões em busca de emprego e melhor condição de trabalho, não
querendo viver de caridade da população mais rica da cidade, que podia ser identificada
na frase usada por um grupo de manifestantes Não a caridade sim ao trabalho, com isso
a tensão tomou conta da cidade no final da década de 1880. Nesse momento, “o lugar
mais bonito da Europa se transformou num sórdido acampamento de vagabundos e
desempregados”.

A COLMÉIA POPULAR

Toda a agitação anotada pelos contemporâneos se compõe com milhares de


homens e mulheres no trânsito cotidiano de suas casas para seus empregos, resultado
evidente do declínio do sistema doméstico de produção. O que produz a identidade
social do trabalhador, o que mais espanta é estar esse homem coberto com sinais da
miséria, considerados até então atributos de velhos e doentes, dos incapacitados em
geral.

Fourier trabalha as consequências da vida em cidade na Inglaterra. Ele designa a


degradação que conduz ao crime como “a desgraça dos proletários”. “Em Londres
existem 117 mil pobres conhecidos a cargo das paróquias; 115 mil pobres abandonados,
mendigos, gatunos e vagabundos, dentre os quais destacam-se: 3 mil receptadores, 3 mil
judeus distribuidores de moeda falsa que também incitam os empregados a roubar seus
patrões e os filhos a roubar seus pais; ou seja, 232 mil pobres na cidade que é o grande
centro da indústria”. “A França caminha para esta miséria: Paris tem 86 mil pobres
conhecidos e talvez outro tanto de desconhecidos. Os trabalhadores franceses são tao
miseráveis que nas províncias onde a indústria é maior, os homens nas suas cabanas de
terra não possuem nem mesmo um leito” (L. Chevalier, Classes laborieuses et classes
dangereuses, 232). 51

Ainda como selvagem, o proletário da indústria se encontra sujeito ao


nomadismo desde a infância, quando se une aos bandos de crianças que vagabundeiam
pelas ruas, até a idade adulta, quando passa então a compor “a população flutuante das
grandes cidades, essa massa de homens que a indústria atrai e mantém em torno dela, a
qual não ocupa constantemente, mas mantem como reserva às suas ordens”.

Isolados da nação, postos fora da comunidade social e política, isolados com


suas necessidades e misérias, eles se movimentam para sair dessa solidão pavorosa e,
como bárbaros aos quais são comparados, pode ser que cogitem até de uma invasão”
(Chevalier, 594-595) 59.

No final do século, persiste a imagem negativa desse novo mundo industrial,


acusado de ser a causa de uma doença social nova, o pauperismo, estado crônico de
privação das coisas essências à vida. – alimentos, água entre outros). Dessa nova
doença, inicia-se uma nova questão, quanto custa por dia, à vida?

O historiador Michelet confirma em seu livro “La Peuple” a imagem corrente de


degradação da vida (condição humana desses operários da cidade). Esse historiador
juntamente com Engels tem um fascínio pelo progresso, mas tinham um
constrangimento em relação ao auto custo humano para se realizar tal progresso. Todo o
percurso que rebaixa a condição humana nos operários fabris, degradando-os física e
mentalmente, é construído por Michelet. Homens que se tornam máquinas porque
submetidos a elas. Tal como Dickens em Tempos Difíceis, a repetição continuada das
mesmas tarefas impostas pela máquina leva o trabalhador superexplorado por uma
jornada de trabalho muito longa a viver sob o imperativo de determinações exteriores a
ele. Afastado de qualquer atividade do pensamento, esses homens perdem exatamente
aquilo que os diferencia dos seres irracionais. No fim do percurso, encontramos homens
reduzidos a meros seres instintivos; sua parcela de humanidade se localiza nos
sentimentos e não na razão. 61
Pois, a máquina vulgarizava os produtos mais diversos e colocava o homem
como servo (além de dominar o corpo, ela cobiçava a mente). Assim, afastado de
qualquer atividade de pensamento, esses homens perdem exatamente que os
diferenciam dos seres irracionais, a razão. Com esse grande enfoque em cima da
indústria, é nesse local que Michelet busca as razões do comportamento do operário
que, no seu maior espetáculo (a multidão), diz que “essa multidão não é má em si, suas
desordens derivam em grande parte de sua situação, de sua sujeição a ordem mecânica
que para os corpos vivos é em si uma desordem, uma morte”.

No final do século a imagem do novo mundo industrial era a pior possível. O


desenvolvimento econômico tendo como aliadas as máquinas, fez do homem, simples
peça, tendo sua vida reduzida não raramente à metade. Para Michelet a submissão do
homem ao ritmo das máquinas era por si só uma desordem, um ultraje que o direcionava
à morte. Para ele havia o mistério, como o homem que cada vez trabalhava e vivia
coletivamente como em nenhuma outra época da história humana, podia ser tão
desunido em termos de afeição, bondade e união? Era a própria negação da sociedade, a
afirmação do “anti-social”.

Em “Os miseráveis”, de Victor Hugo, o mundo do trabalho, da vagabundagem e


do crime se misturam por trás das barricadas. 68

Na metade do século, após uma epidemia de cólera, vários documentos


administrativos municipais são unânimes ao considerar o crescimento desmesurado e
caótico da cidade e de sua população como causa das péssimas condições de moradia na
parte antiga de Paris. Um observador de 1849 assim descreve a cidade vista do alto de
Montmartre: “um amontoado de casas desalinhadas encimado por um céu sempre
nebuloso, mesmo nos dias mais belos. Somos tomados de um medo súbtio, hesitamos
em penetrar neste vasto dédalo onde já se acotovelam mais de um milhão de homens,
onde o ar viciado de exalações insalubres eleva-se, formando uma nuvem infecta que
basta para obscurecer o sol quase por completo. A maioria das ruas desta maravilhosa
Paris são na verdade tão somente condutos sujos e sempre úmidos de água pestilenta.
Fechadas entre duas fileiras de casas, o sol jamais desce até elas. Uma multidão pálida e
doentia transita continuamente por elas, os pés nas águas que escorrem, o nariz no ar
infecto e os olhos atingidos a cada esquina pela mais repulsiva sujeira. Nessas ruas
moram os trabalhadores mais abastados. Também existem ruelas que não permitem a
passagem de dois homens juntos, verdadeiras cloacas de imundícies e de lama onde uma
população enfraquecida respira cotidianamente a morte. São elas as ruas ainda intactas
da antiga Paris. A cólera flagelou-as bastante em sua passagem (Chevalier, 279). 76

Opiniões semelhantes empoem as más condições da cidade de Paris, considerada


por uns “uma imensa fábrica de putrefação, onde nem as plantas sobrevivem”; outros se
detem nos bairros operários “sombrios e isolados, desconhecidos atpe de nome pelos
habitantes dos bairros ricos, onde os ladroes germinam”. 76

A miséria pode promover ou despertar a consciência, e a autora Maria Stella nos


esclarece que aquilo que na Inglaterra é tido como contágio moral, na França é uma
ameaça política – o principal medo da burguesia eram as idéias comunistas.

O HOMEM POBRE E O VAGABUNDO

Os membros da classe trabalhadora não são considerados cidadãos, mas sim um


conjunto de força de trabalho em potencial ou real, disponível para os objetivos da
nação. Assim, os homens que, na sociedade inglesa dos séculos XVII, XVIII e XIX,
vivem do trabalho de seu corpo são considerados membros diferenciados e inferiores
dela; estão obrigados ao trabalho, mas se encontram apartados da política. Sua
racionalidade incompleta e sua incapacidade de obter renda superior às suas
necessidades vitais impedem-nos de estar em condições de ser contribuintes, de
sustentar o governo e de ter qualquer participação política.

Ao passo que os vagabundos transgridem a lei natural, não provendo sua própria
sobrevivência com o trabalho, estando então fora da sociedade racional. São tidos como
perigosos para a humanidade

A partir do intenso processo de industrialização que a Inglaterra sofreu diversos foram


os problemas que surgiram nas cidades industriais. A possibilidade de emprego serviu
de incentivo para população do campo e de outras regiões migrarem para as cidades
industriais que se formavam. O poder de atração exercido pelas cidades foi tão forte que
a quantidade de pessoas que lá chegaram no início desse processo e posteriormente com
o crescimento normal da população produziu-se um inchaço nas cidades, e decorrente
desse, vários problemas relacionados a qualidade vida da população urbana. A cidade
em sua dinâmica habitual não conseguia suprir as necessidades de sua população e as
indústrias não possuíam postos de trabalho suficientes para absorver toda essa mão de
obra. Diante disso crescia a miséria, e a paisagem urbana se mostrava profundamente
deteriorada pela quantidade de mendigos, pela sujeira e pelo crescimento dos bolsões de
pobreza que muitas das vezes era causador de várias doenças.

Neste contexto de grande mudança da dinâmica na cidade essa grande quantidade


pessoas pelas ruas, tanto trabalhadores com também “vagabundos” produziu uma
grande infinidade sensações nos antigos moradores da cidade. O medo foi o primeiro
seguido da repulsa, do nojo e posteriormente a tentativa de resolver esse problema.

A questão que se coloca é a de como resolver o problema da multidão amotinada, o


crescimento dos bolsões de pobreza e na sociedade de Londres do séc.XIX que se
caracterizava pela positividade do trabalho como fazer os mendigos que consumiam
muito dos cofres públicos em programas assistenciais produzirem o suficiente para seu
sustento e algo mais que faça girar o mercado.

Os ingleses desde o séc.XVI já possuíam dispositivo que tratavam da questão dos que
não trabalhavam (os vagabundos). Naquela época os dispositivos já eram subumanos
(sanguinário nas palavras de Marx) e falavam até em castigos físicos. Ao longo do
séc.XIX a partir das analises sociais de Locke essas políticas públicas foram
legitimadas. Este filósofo partindo da premissa de que a terra e seus frutos foram dados
em comum a espécie humana e sendo estes essenciais ao desenvolvimento da vida, fica
justificada a apropriação destes meios por uns poucos. O trabalho é o meio pelo qual se
deve usar para conseguir os meios para sua existência. Locke faz inúmeras proposições
acerca dos papeis sócias que devem ser desempenhados na cidade. A classe pobre é
essencial, sendo a mesma obrigada a trabalhar, onde vagabundos e desempregados não
tem lugar nesta sociedade e isso se deve a degradação moral. Os pobres, assalariados e
desempregados por terem que se preocupar com coisas ligadas a sua subsistência
possuem um nível mental baixo não sendo possível assim lutarem junto aos ricos, salvo
em períodos de calamidade pública. Sendo assim fica justificado o uso da força para
com esses tipos, no sentido estimulá-los ao trabalho, deste modo, os trabalhadores são
livres, já os desempregados não são nem livre e nem partilham de uma comunidade
política, o que não os livra de estarem submetidos ao poder político do estado. É
recorrente em seu discurso a necessidade de obrigar os vagabundos a trabalharem sob
castigos físicos, ele chega a propor a criação de estabelecimentos de trabalhos forçados
que atingiriam até as crianças maiores de três anos.
A medida que o tempo passava o processo de industrialização se expandia e produzia
cada vez mais desigualdade, com isso mais problemas sociais, esse conjunto de
mudanças que provocaram as mais diversas transformações foi chamada de “questão
inglesa”, ela englobava uma infinidade de  aspectos relacionados aos impactos da
industrialização no modo de vida da população.

Por volta do ano de 1830 um novo contexto se ergue quando a quantia necessária para  
manter os desvalidos passa de 4 milhões de libras para 7 milhões, com isso uma seria de
mudanças acontecem no âmbito das políticas sociais. Em 1834 uma nova “lei dos
pobres” é criada. Essa nova lei mantém o auxílio aos sem trabalho, mas os obriga a
entrar nas chamadas (Workhouses), nessas casas praticava-se trabalhos forçados, comia-
se mal,era proibido fumar, devia-se ficar em silêncio, as visitas eram raras e a disciplina 
era se uma prisão. As diversas formas de punição dos desempregados eram tão
grotescas que o idealizador dessa nova lei dos pobres já havia tentado usar indigentes
em substituição do vapor em uma fábrica de seu irmão.

O que se pode perceber a partir dessas políticas é a separação entre os pobres que
trabalham e os que não trabalham marcando assim a profunda divisão do social do
trabalho características dessa sociedade.

A partir das diversas movimentações das bases dessa sociedade no sentido de que essa
grande massa de trabalhadores começa a se fazer ouvir pelo seu expressivo número,
começa a haver uma relativa organização (movimento cartista) do trabalhador em busca
de participação política. Essa movimentação ainda não foi suficiente para mudar a
imagem do homem pobre por completo, mas mostrava aos governantes que a classe
trabalhadora não podia mais ser tratada como criança.

Diante deste contexto de grande mudança de postura dos pobres e a partir disso a
mudança da visão do homem rico para com os pobres, novos tipos de relações são
produzidos no seio da sociedade inglesa. Agora a visão recorrente é de que o
desemprego não é mais uma questão temporária nem resistência ao trabalho, e sim uma
questão estrutural, uma criação da própria sociedade industrial, como um resíduo que,
produzido por ela, nela não tem lugar. (Bresciani, Maria Stella Martins. Londres e Paris
no Século XIX. Pg104.)   

CLASSES POBRES, CLASSES PERIGOSAS


Na França do século XIX, principalmente em Paris, existe o temor
das jornadas revolucionárias, jornadas estas formadas pela população pobre, mas não a
pobreza indigente. Eram pessoas querendo fazer valer suas exigências através do
controle das instituições políticas.

            A partir de 1830 começam as primeiras manifestações, revoltas, isoladas, mas


sempre reprimidas, porem sempre renascentes. O sentimento revolucionário surgia
principalmente nos bairros operários. Esse sentimento de revolta se familiarizava com a
Revolução de 1789, considerada como a fundação da sociedade francesa. Em meio a
esses anos revolucionários, se definiu a imagem de retorno ao estado natureza, um
estado primitivo onde tudo era possível, pois tudo antes construído pelo estado se
encontrava arrasado(estrutura política e a hierarquia de privilegio de seus habitantes).
Esse movimento não se tratava apenas de uma revolta, mas sim de uma revolução, que
tinha como objetivo a liberdade do povo, que antes eram considerados os pobres e
oprimidos.

Se a fábrica punha o pão na mesa do trabalhador, as leis dos pobres tentavam com todas
as suas variantes, resolver a questão social dos deserdados, mão de obra não utilizável.
Em Paris não era tanto a questão econômica, mas a política que fazia com que as massas
fossem mais de perto monitoradas. Victor Hugo percebia algo no ar, um clima suspenso
e suspeito, uma ameaça num século onde a doença política e a doença social se
confundiam. O século XIX representou para os franceses mais do que a confirmação de
ilusões nascidas naquele 14 de julho, mas a busca, ainda revolucionária, de uma
sociedade igualitária, perfeita e utópica.

            Robespierre já dizia que não sabia se iria se instaurar uma monarquia ou uma
republica, mas ele só sabia da questão social, que tinha o objetivo de alcançar a
liberdade. A miséria que prevalecia nas ruas, com o povo, fez de certa maneira mudar os
ideais da revolução, não tinham mais como objetivo a liberdade, mas sim a abundancia
(tentativa de conter a pobreza e a miséria). Na teoria política de Rousseau já tinha
transformado a compaixão num dever político plenamente racional, e esse dever foi
transformado numa “solidariedade fundada na comunhão de interesses com os
oprimidos e explorados”. Deixa a idéia de confronto de opiniões e passa a existir a idéia
de consentimento ou vontade geral. Isso acaba inserindo a “multidão” nas decisões do
poder. Na França então surge à política da felicidade ou da abundância geral, inserindo
toda a população de modo no mínimo mais igualitário.
            Forma-se na frança o que se chamou de revolução permanente, é uma forma de
dizer que o povo conseguiu seus ideais como esta descrito no texto: “... o fim da força, o
trabalho para o homem, a instrução para a criança, a doçura social para a mulher, a
liberdade, a igualdade, a fraternidade, o pão para todos, o paraíso na terra". A revolução
era tão temida que vasculhava minuciosamente o terreno onde se imagina que
germinava o “inimigo”. Um imenso exercito saia à rua a procura de pelo menos um
pequeno sinal das chamadas classes perigosas. A questão social se encontrou
momentaneamente sua forma política, a republica formada pela livre associação de
comunas federais. A multidão toma as praças e proclamam o direito dos citadinos à sua
cidade (Comuna de Paris).

            Foi a primeira grande mobilização da classe desfavorecida em prol da igualdade


e felicidade geral, pode-se dizer que a revolução francesa é o inicio das revoluções com
objetivo de igualdade entre as pessoas.

A questão social invadiu a política. A teoria política de Rousseau transformou a


compaixão num dever político, a política passa a ser um compromisso com o povo e os
revolucionários fazem um uso conveniente disso. Prevalece a idéia de vontade geral na
política. Robespierre, na revolução francesa, põe em prática os elementos introduzidos
na teoria por Rousseau e a multidão é atirada no centro da cena política, onde não se
confrontavam tanto as formas políticas de governo capazes de garantir a liberdade,
como se discutia a política da felicidade e da abundância. A imagem agora é de uma
multidão revolucionária e o palco propício para sua ação é a Paris do século XIX. A
vida cotidiana do povo é examinada minuciosamente. Todos são observados desde seu
lar, seus passos nas ruas, até seu trabalho. São tidos como classes perigosas. O pobre
passa a ser objeto de estudo científico. Equipes de técnicos se incumbiram de estudar e
formular soluções para devassar toda vida do povo pobre, para demolir uma revolução.
A efervescência revolucionária permaneceu em Paris, ainda que se houvesse aplicado a
política de disciplinarização da vida do pobre. Com a Comuna de Paris a multidão dos
pobres alcança a praça pública e proclama os seus direitos.

Caracterizar uma época tomando como exemplos, duas das maiores metrópoles
européias do século XIX pode parecer temerário, mas o argumento cai por terra, quando
sem preconceitos e de forma imparcial a autora em suas páginas nos mostra que a
dinâmica das sociedades sejam elas britânica ou francesa, leva os homens a construir o
seu tempo, nas cortes, nos palácios ou mesmo nos piores estágios da pobreza.