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1. Bock em seu texto “A Psicologia Social”, contrapõe sua visão da área àquela de A.

Rodrigues, representante no Brasil da psicologia social de inspiração americana


conservadora, focada no encontro social ou em sua perspectiva. Explique os limites das
categorias de análise usadas por Rodrigues para explicar tal encontro social tais como
atitude, percepção e comunicação sociais e a proposta de Bock de introduzir categorias
como consciência, identidade e atividade sociais mais comprometidas com uma visão
histórica e transformadora da realidade. (Opcional, vale 3 pontos).
Os conceitos criados por Rodrigues são pautados no que pode ser observado e descrito, além
de serem bastante influenciados pelo contexto em que o autor estava inserido, portanto seus
conceitos são limitados ao estudo do comportamento humano e de como alterá-lo. Os
conceitos de Rodrigues seguem a mesma linha dos princípios básicos de Farr (1995;1996
apud BERNARDES, 1998): “seus princípios básicos nas explicações dos fenômenos sociais
são: tratá-los como fenômenos naturais através de métodos experimentais, sendo que seus
modelos explicativos nos remetem sempre, em última instância, a explicações centradas no
indivíduo.” Essa é uma visão da psicologia social vista de uma perspectiva positivista,
conservadora, de cunho experimental. E Rodrigues cria seus conceitos embasado nessa visão
e com objetivo de produzir métodos psicológicos para ajustamento social, visto que o
contexto ao qual ele está inserido é o de pós Segunda Guerra Mundial, em que os EUA se
viram na necessidade de aumentarem sua produtividade econômica e recuperarem a nação.
Entretanto, diferente de uma máquina cujas ações podem ser completamente previsíveis e
controladas, o homem e seu psiquismo são altamente complexos e impossíveis de serem
resumidos a somente o que pode ser observado, pois o que se processa na mente, de forma
interna ao sujeito, é um objeto de estudo extremamente mais vasto. Além disso, Rodrigues
parece ignorar quase completamente a questão da subjetividade do sujeito, e esse é um dos
pontos mais importantes que Bock passa a abranger ao trazer suas novas conceituações, pois
relação social não são somente percepções, conversas ou atitudes que os seres humanos tem
para com os outros, mas como esse conjunto de coisas influenciam na construção de seus
ideais, valores e crenças de si mesmo, de outros e de toda uma sociedade, podendo promover
transformações nessa. Já Bock traz conceitos bem mais abrangentes e complexos, que
permitem analisar a relação do sujeito com os outros e com o meio em que ele vive de forma
fluida e não dicotômica, tendo o intuito de construir uma Psicologia crítica e transformadora.
Portanto, Bock baseia-se em uma visão muito mais Histórico-Cultural da psicologia e constrói
uma visão de homem muito menos preto no branco do que a de Rodrigues, incluindo no
estudo da psicologia social as emoções, sentimentos e até o saber do inconsciente do sujeito,
concepções inimagináveis para Rodrigues, pois são impossíveis de quantificar ou observar.
Bock não ignora os conceitos de Rodrigues, apenas incorpora às suas conceituações, suas
próprias, e assim as duas visões se complementam, pois Bock sabe que as interações,
percepções e mudanças sociais são importantes para entendimento do ser humano, mas que
para além disso, os atravessamentos que ocorrem com essas ações são imprescindíveis de
serem considerados, como de que forma o sujeito se sente pertencente, se apropria desse meio
ao qual ele interage e que ideias e compreensões ele tem a partir desse mundo objetivo.

2. Em sua reflexão Bock (2003) alerta para a forma como a psicologia no Brasil se
identificou historicamente com os interesses da elite nacional. Para a estudiosa as
principais correntes do pensamento psicológico (humanismo, psicanálise e
behaviorismo) contribuem para uma formação descontextualizada e a-histórica do ser
social. Demonstre como o trabalho da psicologia social pode se contrapor a uma leitura
despolitizada, universalista e normalizadora do sujeito psicológico. (Opcional, vale 3
pontos).

O trabalho da psicologia social se contrapõe ao que foi mencionado a partir do momento em


que para ela, lidar com o sujeito é reconhecer seu papel dentro da sociedade, sua participação
nela e vice versa. Com isso, é possível afirmar que a psicologia é social quando ela percebe o
ser humano como um todo, sem reduzi-lo às suas patologias, seu desenvolvimento ou suas
especificidades. Além disso, o trabalho da psicologia social busca elucidar que a atuação do
psicólogo é também uma atuação política, e que suas ações podem colaborar ou não para a
manutenção de um sistema excludente e desigual. Sobre isso, acrescenta-se o fato de que a
psicologia no Brasil ainda é desorganizada no campo político, ou seja, não há sequer um
sindicato que se responsabilize por unir os profissionais para a busca de melhores condições
de trabalho. Isso é um dos aspectos que corroboram diretamente para que haja desinteresse
dos profissionais pelos setores dentro das políticas públicas, trazendo um déficit para essas
áreas que geram tantas outras problemáticas. Cria-se então uma separação de profissionais
que em sua maioria, optam por atuar nas clínicas e na saúde, buscando melhor retorno
financeiro, mas descompromissado com o sujeito como ser social. Com isso, o recorte feito
por Ana Bock no texto é necessário para a reflexão de como o contexto histórico da
psicologia no Brasil foi marcado pela segregação das reais problemáticas da maior parte da
população, tendo como foco um atendimento clínico, nos moldes fechados e de teor
higienista, logo, faz-se perceber que uma base extremamente elitista foi usada na construção
da psicologia no país e que há um longo caminho a ser percorrido pela psicologia social na
busca de uma atuação com o olhar menos individualizado e mais coletivo. Ainda é possível
acrescentar o caráter universalista do sujeito psicológico que a psicologia social tenta
desarticular para trazer a reflexão de que é inviável e, muitas vezes, desumano pensar no
sujeito como alguém universal em uma sociedade constituída por sujeitos desiguais em
diversos aspectos, e que isso traz um questionamento sobre muitos métodos científicos que
são constantemente usados na atuação do psicólogo (testes psicológicos, por exemplo).
Portanto, o estudo e trabalho da psicologia social ajudam a promover importantes mudanças
que devem começar na formação profissional, trazendo para os debates um pensar mais
crítico sobre a participação de todos na constituição de cada.

4. Ao discutir a atuação crescente dos psicólogos brasileiros nas políticas públicas de


saúde e assistência social, Yamamoto centra suas críticas em três aspectos: i) o uso de
técnicas e teorias descontextualizadas de nossa realidade; ii) pouco compromisso com as
pesquisas e as demandas da população pobre; iii) dificuldade de contribuir com políticas
que levem a redistribuição da riqueza e não de sua mera distribuição. Explique essas
críticas, limites e possibilidades da atuação do psicólogo na realidade das políticas
públicas (opcional, vale 4 pontos)
Yamamoto demonstra em seu texto"50 anos de profissão: responsabilidade social ou projeto
éticopolítico?” que a psicologia tem raízes elitistas e isso se reflete até os dias atuais no que se
refere a atuação do psicólogo. Um dado que o autor expõe e que ilustra bem isso, é a questão
de que a clínica é a área predominante de atuação do psicólogo, correspondendo a 53%,
atividade esta que é vista como “de luxo". Portanto, é perceptível que a psicologia, em suma,
ainda tem um viés voltado para as classes mais ricas. Dessa forma, as técnicas e teorias
estudadas e postas em prática virão predominantemente a partir dessa perspectiva, não
abarcando assim a realidade e o contexto das classes subalternas que são a maioria da
população brasileira. Yamamoto até traz a discussão de se técnicas e teorias desenvolvidas em
atuações elitizadas, em clínica, se encaixariam em atendimentos às classes mais pobres, e para
não dizer nem um sim nem um não, direi: talvez. Mas mesmo que seja eficaz em alguns
casos, isso não significa que não seja necessário investir mais em pesquisas e inovação de
práticas psicológicas para melhor atender a esse público. Além disso, as limitações do
psicólogo ainda perduram quando se fala em políticas públicas no que tange a redistribuição
de riquezas e não uma mera distribuição. Isso pode ser observado quando Yamamoto cita
Netto (1990) no texto “Política social e psicologia: uma trajetória de 25 anos”, em que ele fala
sobre a neutralização das possibilidades de emersão de projetos sociais que sejam dos
interesses das classes mais baixas, ou seja, não é interesse da elite uma redistribuição de renda
a partir de políticas públicas. Sobre isso, Yamamoto ainda discorre sobre uma elite que
apoiada em um discurso meritocrático, mantém seus interesses acima do bem comum,
gerando a perpetuação das desigualdades sociais que são frutos ainda de um processo
histórico de negação de direitos ou mesmo a inexistência deles. Com isso, percebe-se que as
limitações em todos os pontos citados demonstram uma falha estrutural na constituição da
sociedade brasileira, marcada por discriminação de raça, classe, gênero e tantas outras que
acentuam o cenário caótico que se encontra hoje as políticas públicas, ou seja, atuar nesses
setores necessita de uma visão crítica do todo sobre as partes, percebendo que quando um
governo traz politica como o “bolsa família”, ele está tentando minimizar uma problemática
que tem raízes históricas. Percebe-se então que atuar sobre as políticas públicas é também o
fazer em esfera macro, pois quando o profissional entende que ele é um ser político e que
pode contribuir para o aumento ou diminuição dos acessos e direitos das classes mais baixas,
os micros problemas passam a ter maior clareza quando articulados às decisões macros
daqueles que fazem parte, principalmente, da educação superior e que isso pesará de forma
significativa.

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