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IVAN CARLOS RUFINO BATISTA

CARÊNCIA DE AMOR: ENFERMIDADE DO SÉCULO XXI

SOROCABA, SÃO PAULO, JANEIRO DE 2004


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CARÊNCIA DE AMOR: ENFERMIDADE DO SÉCULO XXI Por Ivan Carlos Rufino Batista

“Carência de amor – apesar de tudo o que se fala na mídia a respeito do amor, esta é a
enfermidade de nosso tempo. As canções e os romances baratos que falam do amor são apenas
expressões desta neurose de nossa sociedade”, fala Schwarz (1998; p. 15). Os inúmeros casos
de divórcio, suicídio, solidão e doenças psíquicas são apenas alguns dos resultados da grande
carência de amor que grassa no mundo. E a presença de rixas, fofocas, insensibilidade, críticas
cáusticas, indiferenças pessoais, inflexibilidade, panelinhas de interesses, falta de confiança
mútua, e tantas outras enfermidades, por sua vez, evidenciam a carência de amor na praxis de
vida de muitas das igrejas contemporâneas. E não seria a presença desta calamitosa realidade
uma das responsáveis em haver quem queira Cristo, mas rejeite a igreja em suas formas? Com
certeza sim! E a nossa visão distorcida do que seja a Igreja e o seu ministério contribui muito
para isso. Não existe nada mais terrível para uma igreja local do que não reconhecer que seu
ambiente sombrio, hostil, pesado, carente de graça, verdade, solidariedade, gentileza e sinceridade
nas relações humanas seja o que mais emperre o seu crescimento sadio e verdadeiro.
Não podemos nos alienar da verdade de que nossas igrejas contam com pessoas solitárias,
feridas e decepcionadas em sua realidade. Decepcionadas com Deus, com a vida, e com a própria
igreja em seus dogmas e estruturas. Decepcionadas consigo mesmas e sem nenhum valor próprio,
ainda que sejam imago Dei. Pessoas que ignoram que poderiam experimentar, em Cristo, o resgate
da sua dignidade perdida em função de seu pecado de rebelião contra Deus. E no tocante a isso,
cabe uma pergunta: Onde estão as igrejas cristãs, como comunidades do amor de Deus que são,
a fim de proclamarem isso e assim saciar, com o Evangelho de Cristo, os sedentos e famintos
pelo amor verdadeiro? Elas não podem continuar se escondendo atrás de seu ritualismo litúrgico
inócuo e alienador, como infelizmente vem fazendo há séculos.
Do que as igrejas precisam para crescer como Deus espera? Será que de mais programas?
Alguns sinceramente crêem que sim. Mas entendo que deveríamos atentar com seriedade para
a sugestão de Christian Schwarz quanto a isso: “Ao lixo com todos os programas de crescimento
da igreja se estes programas não contribuírem para tornar a igreja um lugar onde [alguém] possa
encontrar consolação, apoio e cura!” (1998; p. 15). Relacionamentos centrados no amor e marcados
por ele é uma marca distintiva da igreja que cresce verdadeira e sadiamente. Mas ao que parece
olvidamos essa salutar e imprescindível verdade.
Em Sua oração sacerdotal Jesus disse: “Pai justo, o mundo não te conheceu; eu, porém,
te conheci, e também estes compreenderam que tu me enviaste. Eu lhes fiz conhecer o teu nome
e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja”.1
Neste texto fica claro que o propósito de Deus é que todos que crerem em Cristo experimentem
do amor com que o Pai tem amado o Filho antes mesmo de que houvesse o mundo. Assim sendo,
evidenciar o amor de Deus que supre a carência de afetividade que adoece o homem pós-moderno
foi, é, e será uma missão precípua dos cristãos frente ao mundo. E mais ainda, se o maior valor
da vida é amar a Deus e ao próximo (Mateus 22:37-40 e 1 Coríntios 13), não deveríamos estruturar
nossas vidas e igrejas de modo a permitir as pessoas a perceberem em nossas vidas a plenitude
do revolucionário amor de Deus? Se a resposta for sim, ouso perguntar: Nossas vidas e igrejas
estão estruturadas de forma que o amor de Deus seja desenvolvido, para que os que nos cercam
e com quem nos relacionamos o percebam? Ou será que nossa obsessão pela ortodoxia, como
fim em si mesmo, e não como meio pra o crescimento da fé pessoal em Deus, tem feito nossa
ortopraxia ser inócua, sem um real poder de transformação? Não será porque nos falta uma vida
de veraz praxis do amor de Deus, que corrobora o nosso discipulado cristão ao mundo, como
se depreende de João 13:35, que a nossa evangelização tem se caracterizado mais pela persuasão
retórica do que pela atração de uma vida inundada na graça, verdade e amor revolucionário do
Deus Vivo? Obviamente sim! Mas há quem ainda tape o Sol com a peneira nesse caso.

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João 17:25-26 (ARA)
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CARÊNCIA DE AMOR: ENFERMIDADE DO SÉCULO XXI Por Ivan Carlos Rufino Batista

Será hora de mudarmos a nossa estrutura de vida pessoal e comunitária caso o amor de
Deus seja mais discurso de nossa ortodoxia do que expressão viva de nossa ortopraxia. “Nisto
conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros”, disse Jesus Cristo
(João 13:35). Se é na encarnação do amor de Deus, doando-nos uns aos outros mutuamente, em
altruísmo, que o mundo reconhece o nosso discipulado, por que dificultar tanto as coisas para
isso acontecer? Por que não simplificar a prática da vida cristã criando estruturas simples que
propiciem a mobilidade do amor de Deus para que chegue aos dilacerados pelo pecado em sua
rebelião contra Deus? Afinal, não foi pela cruz, que revela a reta justiça e santo amor de Deus,
que fomos convencidos da dureza de nosso pecado? Mas hoje, a cruz, de onde jorra a justiça
divina que liberta o pecador da tirania do pecado e agracia-o com o santo amor de Deus, não se
encontra no Monte do Calvário, mas na Igreja, o corpo de Cristo. Na cruz o egoísmo humano é
destruído, o pecado vencido. Na cruz a graça se revela abundante, permitindo ao homem viver
em comunhão novamente com Deus e com o seu igual. Na comunhão de amor e amizade com
Deus e meu próximo é que me encontro real e plenamente. Nas palavras de Ed René Kivitz:
O entrelaçamento de amor entre o eu, o divino e o próximo é um sistema indissolúvel que
nos livra de nos tornarmos diabos e nos faz mais humanos. O paradoxo é que, para nos
tornarmos mais humanos, precisamos abandonar nosso egoísmo em entrega abnegada ao
próximo, de onde se depreende que amar é diminuir-se, é limitar-se, morrer pra si mesmo.
Nenhum relaciona-mento sobrevive sem a auto-imposição de limites, pois enquanto eu for
mais importante do que o relacionamento de amor, o relacionamento será usado para a satis
fação do eu, portanto não será um relacionamento de amor (2003; p. 171-172)

Respondamos em verdade: reina egoísmo ou altruísmo em nossas relações pessoais? Se


evidenciarmos prática egoísta em nossa vida cristã a cruz de Cristo não será percebida pelos
de fora, nem sentido seu poder pelos de dentro. E mais, sem a rude cruz é impossível falar-se
de Cristianismo, muito menos em Cristo, pois a cruz era o Seu alvo, e disso Ele bem sabia. Por
isso, Paulo não podia gloriar-se senão na cruz de Jesus (Gálatas 6:14). É na cruz que a igreja
tem que se gloriar, elegendo-a como troféu da vitória que Deus concede a quem Nele confia e
a Ele se rende. A cruz é a expressão máxima do amor de Deus, pois por ela o homem é amado
para poder amar e assim honrar ao Deus que o criou e o quer redimir. Todavia, não podemos
olvidar que apresentar a cruz significa abdicar da vida centralizada em nós mesmos, em nossas
preocupações e aspirações que não rendam louvor à glória e à graça de Deus, para que por ela
revelemos a reta justiça e santo amor de Deus. Enfim, só sossegarmos quando o ágape de Deus
for o combustível que mova nossa vida, pois como argumenta Paulo, nada do que fizermos se
não encontrar motivação no amor de Deus possui valor (1 Coríntios 13:1-13). Que as palavras de
Ed René Kivitz abaixo nos levem a uma reflexão sobre a arte de amar, pois são sábias.
Enquanto os gregos acreditavam que a maturidade está na indiferença, na capacidade de
não ser abalado, de não ser afetado, de não ser demovido de sua estabilidade, o cristianismo
vem dizendo que a maturidade da existência humana está justamente na capacidade de im-
portar-se, de deixar-se abalar, de deixar-se demover, de ter o coração revolto dentro de si, as
entranhas remexidas a ponto de Jesus dizer: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípu
los: se tiverdes amor uns pelos outros”. A maior característica de vocês será esta: olharão
para os outros e se importarão com eles; não estarão centrados em si mesmos, olhando para
dentro, acostumados e acomodados numa felicidade interior, pelo contrário, jamais consegui
rão ser plenamente felizes convivendo com a dor alheia, porque a dor alheia há de impactar
o seu coração. Serão escravos do sofrimento dos outros. Isso é amar (2003; p. 74).

Por mais temor que tenhamos em nos abrir ao amor é por ele que somos humanizados e
vindicamos nosso discipulado cristão. O fundamento para isso é teológico, pois Deus é amor. Ele
é sempre a comunhão de amor entre o Pai, o Filho e Espírito Santo. Isto é, na interpenetração das
três pessoas divinas que afirmam uma a outra na mútua entrega de amor e amizade se encontra a
base da plenificação humana. E quem não se rende ao amor não é plenamente humanizado.
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CARÊNCIA DE AMOR: ENFERMIDADE DO SÉCULO XXI Por Ivan Carlos Rufino Batista

Temos de parar de valorizar as pessoas pelo que são capazes de fazer ou ter e valorizá-las
como vasos que podem ser transformados em Deus. Impera-nos também o abrirmo-nos ao amor
de Deus, pois se não o fizermos não conseguiremos amar com eficácia, pois, no caso humano,
só quem recebe amor pode dar amor. Enfim, se requer uma verdadeira revolução em nossas
vidas e não só superficial reforma. Pois se não tenho me dedicado em suprir as necessidades de
afetividade do meu cônjuge, filhos, amigos, irmãos de fé, ou até de meus inimigos, certamente
precisarei fazê-lo, senão continuarei na mesma. E se o crescimento de minha igreja depender
de minha decisão em abrir-me a receber e dar amor, ela crescerá? Por quê?
Mas se eu não estiver disposto em me abrir ao amor, primeiro para recebê-lo e depois
para doá-lo, por que insistir em cobrá-lo de minha igreja, demandando dela melhorias? Temos
cansado a muita gente com nosso discurso teologicamente correto sobre o amor, mas que não
se evidencia na pratica eclesiástica. Creio que as igrejas, o próprio Deus e o mundo têm visto
nossa habilidade em sistematizar teologicamente o amor, mas será que eles não estão ansiosos,
diria até pagando, para nos ver encarnando-o em cada movimento de nossas vidas? E se esse é
nosso caso não seria hora de pararmos de discursar o amor e vivê-lo em intensidade? Afinal Deus
nos fez participantes dele pela graça de Cristo, sendo também fruto do Espírito Santo que nos
habita (João 17:24-26 e Gálatas 5:22).
Há milhões de pessoas pelo mundo sofrendo com a carência de amor. E acredite-me,
estão bem mais próximas a nós do que possamos imaginar. Na igreja, na família, na escola, no
trabalho, na vizinhança. Enfim, no que chamamos de oikos – círculo de relacionamentos. Falta
apenas dar uma olhada com maior atenção. Ouvi-los. Aproximar-se e abraçá-los com um toque
especial e que faz a diferença (lembre-se do caso do leproso curado por Jesus, Lucas 5:12-16,
onde o toque do Mestre foi significativo). Pode ser que você não tenha o dom de misericórdia
ou ajuda. O exercício do amor, porém, não é questão carismática, de tê-lo ou não como dom,
dado somente a alguns do corpo, porque o amor é fruto do Espírito a ser desenvolvido na vida
de todo o cristão. Portanto, mire aquele irmão ou irmão necessitado de parte de seu dinheiro,
para pagar a sua conta da farmácia, água, telefone, ou luz que ele, ou ela, não consegue quitar.
Dispense o tempo de uma caminhada para estar junto ao irmão ou irmã que se sente solitário e
realmente é solitário (um viúvo ou viúva, talvez). Compre e envie flores para seu cônjuge. Leve
uma criança carente a um passeio no parque. Enfim, use a sua criatividade. Todos nós a temos
e podemos. Agora, seguindo a teologia do amor exposta por Paulo em 1 Coríntios 13, faça-o
sem esperar nada em troca, a não ser pela alegria de tê-lo feito porque é bom e nos conforma à
imagem de Cristo, honrando o Senhor com isso, pois quem ama torna-se vulnerável. E é nessa
vulnerabilidade afetiva que crescemos e amadurecemos como pessoa, e não quando nos tornamos
inabaláveis. Quem pensa ser inabalável não experimentou ainda a força do amor que tem poder
de nos desmascarar e de nos fazer dependentes, afetivos, necessitados de outrem para sermos
completos. A solidão é a maior doença do século XXI. E a sua cura plena só se consegue pela
vulnerabilidade, mas incrível potencialidade humanizadora do amor.
Sei que se assim fizermos revolucionaremos não apenas nossa própria vida, mas a vida
de nossas igrejas (algumas gélidas, quando se trata do exercício gracioso e poderoso do amor).
É difícil para alguns crerem nisso, ao que tudo indica, mas uma revolução pelo amor é o que a
igreja mais precisa nestes dias. Afinal, vivemos num mundo de órfãos, solitário, desafeiçoado.
E mediante a revolução do amor de Deus, certamente colocaríamos o mundo mais uma vez de
pernas para o ar, como fizeram os irmãos da era apostólica (Atos 17:6). Meu irmão em Cristo,
não se omita mais, porém, decida-se amar com o revolucionário amor de Deus que Jesus Cristo
te outorgou por Sua livre e maravilhosa graça e Sua soberana vontade. É libertador, creia-me,
não minto, pois assim a Palavra afirma.
SOLI DEO GLORIA!
BIBLIOGARFIA

ALMEIDA, João Ferreira de: A Bíblia Sagrada, Revista e Atualizada (ARA); São Paulo, SP;
Sociedade Bíblica do Brasil (SBB); edição de 1995.

KIVITZ, Ed René: Vivendo Com Propósitos; São Paulo, Mundo Cristão; 2003; 270p.

SCHWARZ, Christian A.: Aprendendo a Amar; tradução Fred R. Bornschein; Curitiba,


Editora
Evangélica Esperança; 1998; 135p.

FIM