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20/03/2020 Sobre Logos - Diários de Kairos - Medium

Sobre Logos
Uma re exão sobre o conceito grego e Cristão de Logos como ‘Consciência’, a gênese da
Autossu ciência de Emerson

Bibi Goulart
Oct 17, 2019 · 20 min read

Disse Deus: “Haja luz”, e houve luz.

Acho extremamente curioso que, na Bíblia, a Luz tenha sido criada por Deus com uma
fala ao invés de uma ação manual, como ligando um interruptor de luz. A linguagem
parece ter uma enorme importância para Deus ao longo das escrituras, e
principalmente no momento da Criação. Logo no início de Gênesis, Ele concebeu à

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Adão o poder de nomear todas as coisas. Muito se é falado sobre o pecado de praticar
falsidades, ou mentiras.

Não me parece que esta importância dada à linguagem tenha sido à toa. Sob a
perspectiva biológica, somos os únicos seres vivos que comunicam-se de forma
complexa. Sob a perspectiva filosófica, vale lembrar Ludwig Wittgenstein por sua
reflexão sobre como a linguagem limita a maneira pela qual vemos o mundo. Com o
desenvolvimento da linguagem, nosso mundo transcendeu as barreiras do aqui e do
agora para o lá, o ontem e o amanhã, do concreto para o abstrato.

Iniciando uma linha de raciocínio bem apologética, podemos afirmar que a Linguagem
é de fato a primeira Revelação Divina. Nada do que consideramos como produtos da
humanidade poderiam ter sido feitos sem o uso da Linguagem — uma maneira de
transmitir informações sobre fatos objetivos, subjetivos, concretos e abstratos do
mundo ao nosso redor.

Neste ponto de vista, a Queda do Homem foi a invenção da mentira — a corrupção da


linguagem com o propósito de enganar. A serpente induz Eva a comer o fruto da Árvore
do Conhecimento do Bem e do Mal com uma mentira, de que ela não iria morrer ao
cometer tal ato. A vergonha de Adão e Eva ao perceberem que estão nus logo após a
ingestão do fruto, é resultado direto da mentira — a percepção de que fizeram algo de
errado. A mentira dá as caras logo depois, ao Caim fingir que não sabe do paradeiro de
seu irmão.

Se a Queda foi a invenção da mentira, o Pecado Original é a nossa falha em arcar com
as responsabilidades das consequências da mentira. A primeira coisa que Adão diz à
Deus após Seu questionamento sobre o porquê da ingestão do fruto da Árvore foi
culpar Eva, que culpou a serpente. Mas talvez a mais importante lição do Pecado
Original é a de Caim.

Caim enfurece-se contra Abel não por inveja, mas porque o fato de seu irmão ter
agradado a Deus ressalta suas próprias incapacidades ou falhas individuais; das quais
ele prefere não encarar. Ao fugir de uma verdade inconveniente, prefere aniquilar o
fator externo que a trouxe à tona: seu irmão. Se no primeiro caso tivemos uma mentira
provocada por um agente externo — a serpente -, neste aqui a mentira cai inteiramente
sobre a consciência de Caim, que pratica auto-enganação.

Nesta linha de raciocínio, é por isso que Satã é considerado como o Enganador. A
palavra “mentira” vem do latim mentiri, derivado do termo mentis
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(mente/pensamento) através de uma mudança semântica de “inventar” para


“conjurar”. Assim, Tentação é a divergência entre verdade e a linguagem, é a mudança
de ser inventivo para conjurar fantasias, distanciando-se da realidade como ela é. Cada
desenvolvimento tecnológico que permitiu nós humanos a se comunicarem de uma
maneira mais fácil, também fez com que a mentira se tornasse mais fácil — algo
extremamente fácil de perceber nos tempos atuais de fake news.

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A palavra grega para verdade é aletheia (ἀλήθεια) cuja etimologia significa “não
escondido/esquecido/coberto”. Esta definição de verdade via negativa assume então
que para termos qualquer verdade devemos primeiramente achá-la/lembrá-la/des-
cobrir-la. Eis aqui a parte mais difícil da existência humana. O esforço para abrir as
portas e gavetas trancadas de nossa mente e tirar o mofo de verdades há muito tempo
esquecidas, verdades extremamente inconvenientes, é grande demais para nós, porque
isso exige lidar com as consequências de tal revelação. Seja pela difícil tarefa de dizer à
pessoa ao lado que algo nela me incomoda, seja pela dolorosa tarefa de aceitar que há
um defeito previamente desconhecido em mim, ou que cometi um erro de julgamento,
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minha tendência (falando de forma pessoal, utilizando ‘eu’ como sujeito) sempre é a de
evitar a dor e a responsabilidade de curto prazo da revelação. O custo de adaptação
sempre é grande demais para o ser humano. Por vezes, como Caim, sou tentado a
atacar o motivo do des-cobrimento do véu da mentira ao invés de aceitar o objeto des-
coberto. Por outras, como J. Alfred Prufrock, sou tentado a simplesmente ignorar o
elefante na sala cuja Revelação apontou a sua existência: Não é isso que eu quis dizer;
Não é nada disso que eu quis dizer.

Toda mentira é, no fundo, uma auto-mentira, uma auto-enganação. O mentiroso mente


porque acredita que irá safar-se do ato da mentira — o que por si só já é uma mentira. A
dor de curto prazo de enfrentar a verdade cria a ilusão de que evitá-la através da auto-
mentira é um caminho menos doloroso — porque somos incapazes de contabilizar os
juros compostos de mentir no longo prazo, porque somos incapazes de prever o futuro.

A dificuldade em aceitar a verdade nua e crua provém do desconhecimento da


natureza temporal. Temos dificuldade em aceitar que nossa vida está sempre mudando
porque queremos acreditar que ela não deve mudar. Nossa inércia contra adaptação é
gigantesca. Evoluímos condicionados a poupar energia e portanto hesitaremos quando
nosso ambiente exigir qualquer tipo de mudança por nossa parte. Acreditamos que
algumas coisas são imutáveis, que alguns eventos, quando concluídos, não devem ser
revisitados, que a vida é feita de etapas e que deveria ter um cenário final. O fato
porém, é que a natureza não é estática, tampouco discreta.

A natureza é ergódica — tudo o que pode acontecer, vai acontecer ao longo do tempo.
Mentir é, no longo prazo, o caminho mais difícil, pois a cada novo instante, a cada novo
influxo de informações teremos que ajustar nossa mentira para mantê-la viva. A
mentira tem perna curta — ela precisa de ajuda para mover-se ao longo do tempo. A
mentira mantém-se viva consumindo nossa própria energia. A Verdade é viva e eterna,
e assim provoca em nós uma intensa submissão. No ensaio “Autossuficiência” (Self-
Reliance), Emerson diz:

Veneramos a honra porque ela não é efêmera. Ela sempre será uma virtude antiga. A
veneramos hoje porque ela não é de hoje. Nós a amamos e a prestamos homenagens
não porque é uma armadilha para o nosso amor e homenagem, mas sim porque ela
depende apenas de si mesma, deriva de si mesma e assim, é de uma antiga e imaculada
linhagem, mesmo que seja manifestada em um jovem.

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Podemos, em um primeiro momento, não reconhecer quando a Verdade contradiz


nossas ações. O ato de auto-enganação é por muitas vezes verdadeiramente ingênuo.
Mas sempre há um gosto amargo na boca quando estamos seguindo passos não
iluminados pela Verdade. Toda ação que praticamos que não segue a força da intuição
ou a solidez de nossa bússola moral é uma ação feita de má-vontade, é uma ação pela
metade, uma contra-adição pois não nos acrescenta nada. Ela sempre deixa traços
incômodos em nossa mente, um eco incessante de uma voz distante que clama por sua
correção. Sou obrigado a engolir o amargor criado em minha boca toda vez que pratico
atos deste tipo, provocando uma náusea imobilizadora em minha cabeça logo depois.
Apenas quando cedo à náusea e reverto a consequência de tal contradição é que vejo
minha musa sorrindo para mim novamente.

A mentira — seja ela auto-mentira ou não — revela-se em nosso corpo através da


exaustão que cria-se quando somos obrigados a carregá-la e a protegê-la de toda e
qualquer ameaça que possa des-cobrir-la e torná-la em verdade. Mas de onde se origina
esta exaustão, este clamor em minha mente de que algo está errado ao manter a
mentira coberta por muito tempo, que me faz reconhecer após uma longa tortura de
que sempre será melhor enfrentar a dor da Revelação do que continuar alimentando o
monstro satânico às custas de minha própria sanidade? Qual a gênesis da amargura
criada em minha boca toda vez que não sigo a voz que ecoa nas câmaras de minha
mente, da náusea em meu estômago que me força a baixar minha cabeça e reconhecer
meu erro, como um cão que pede perdão ao seu dono por estraçalhar o seu sapato? Em
“A Alma Universal” (The Over Soul), Emerson diz:

A filosofia de seis mil anos ainda não desbravou as câmaras mais obscuras da alma
humana. Em seus experimentos sempre permaneceu um resíduo de mistério do qual
ela não conseguiu resolver. O homem é um riacho cuja nascente permanece escondida.
Nosso ser flui por nós sem sabermos de onde. A mais exata calculadora não consegue
saber se algo incalculável surgirá no próximo instante. Sou forçado à todo instante a
reconhecer, para os eventos ao meu redor, uma origem mais elevada do que a vontade
que chamo de minha.

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É necessário fazer uma distinção a partir de agora entre verdade e Verdade. Verdade,
como a Suprema Aletheia, é a intersecção entre todas as verdades, é a única coisa que
de fato não está escondida, a Certeza Suprema, o elefante na sala impossível de
ignorar: Existência. Sendo assim, a Suprema Aletheia é Tudo O Que É, Tudo O Que Foi e
Tudo O Que Será, é YHWH por definição.

Mas a existência só pode ser refletida a partir de uma ferramenta única no ser humano,
aquilo que nos distingue de todos os outros seres biológicos, nossa Consciência. A
consciência da própria existência é o que garante nossa própria existência, tal qual
Descartes em Cogito Ergo Sum (Penso, Logo Existo). É a minha Consciência, reflexo
direto da Existência, da Suprema Aletheia, percebendo as relações entre Causa e
Efeito, que origina o amargor da mentira, que pronuncia a Voz da Verdade que ecoa em
minha mente a cada passo em falso que tomo.

Não pode haver Existência Humana sem Consciência, e não pode haver Consciência
sem Existência como um todo. Linguagem é a maneira pela qual a Consciência se
materializa na Existência, é o meio pelo qual Cogito Ergo Sum vem a existir.

Consciência Absoluta é o Logos; do grego λόγος que significa “aquilo que é


dito/pensado” (e portanto aquilo que é manifestado pela Linguagem) derivado de
λέγω que significa “Eu digo/Eu ordeno/Eu uno”.

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Logos é a Razão da Existência, a Sabedoria Divina. É por isso que Cristo foi identificado
como Logos no Novo Testamento no grego Koiné. Na Igreja Ortodoxa, a Sabedoria
Sagrada é entendida como o Logos Divino, que encarnou na figura humana de Jesus,
tornando-se o divino Cristo. Na Igreja Latina contudo, a tradução de Logos limitou-se à
Palavra ou Verbo.

Dessa perspectiva, a tradução de João 1:1 como “No princípio havia o Verbo, e o Verbo
estava com Deus, e o Verbo era Deus.” não transmite o sentido original de quem o
escreveu. Mas se traduzirmos λόγος como “Consciência”, João 1:1 passa a ter uma
diferente conotação:

No princípio havia Consciência, e a Consciência


estava com Deus, e a Consciência era Deus.
O mesmo vale para 1 João 1:1, que incorpora de forma mais profunda a reflexão de
Cogito Ergo Sum:

O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que


vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e
as nossas mãos apalparam — isto proclamamos a
respeito da Consciência da vida.
Se pensarmos no Primeiro Homem, como o primeiro Homo sapiens a ter Consciência de
si-mesmo, esta interpretação de João 1:1 possui um significado valiosíssimo, pois
simboliza o nascimento, de forma simultânea, da História Humana, da Consciência
humana, da percepção da Existência e por consequência da conexão contemplativa
entre Criador e Criação. Se houve um momento em que Deus estava com os homens,
foi no surgimento da Consciência, o momento em que Deus criou o Homem à sua
semelhança. Tal Homem, com uma fresca, inédita e inabalável Consciência de si
mesmo, possuía naquele instante uma mente clara, autossuficiente e ausente de auto-
mentira que somos incapazes de imaginar. Tal nível de Divindade porém, foi destruída
com a Queda, provocando a fragmentação de sua mente. É por isso que Cristo é
considerado como o Segundo Adão, pois Ele, assim como Adão antes da Queda, era
Consciência pura.

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Considerando a Existência como YHWH, como Tudo O Que É, Tudo O Que Foi e Tudo O
Que Será, como o Deus Pai, a Consciência é a Existência na forma Humana, o Deus
Filho. Cristo é a personificação da Consciência Divina, e de forma mais prática, é o
resultado de como alguém com Total Consciência agiria.

. . .

Em The Way to the Union, o teólogo Vladimir Lossky escreve:

Gnosis, ou auto-consciência, cresce na medida pela qual a natureza se transforma,


aprofundando-se em uma cada vez mais intrínseca união com a graça divina. Naquele
que é perfeito, não existe mais espaço para o ‘inconsciente’, para o instintivo ou para o
involuntário; tudo é iluminado pela luz divina, apropriado para a pessoa humana que
adquiriu seu caráter adequado pelo presente do Espírito Santo.

Total Consciência é a alma no Reino dos Céus, é a alma com Apathea, como definido
por Evagrius Ponticus:

O Reino dos Céus é Apathea da alma junto com o Verdadeiro Conhecimento dos seres.
O Reino de Deus é o Conhecimento da Santíssima Trindade exacerbando a
constituição da alma e superando qualquer corruptibilidade.

O conceito de Apathea tem seu nome do grego ἀπάθεια, que pode ser traduzido como
“sem sofrimento” ou “sem paixões”. Embora a palavra “apatia” provenha de ἀπάθεια,
estes dois conceitos não podem estar mais distantes. Apathea é mais bem traduzido
pela palavra equanimidade do que apatia, já que esta última possui uma conotação
negativa de indiferença.

Evagrius define Apathea como estado da alma “no Reino dos Céus, com o Verdadeiro
Conhecimento dos seres”. É aqui que devemos lembrar da palavra grega para verdade:
aletheia, como “aquilo que não está escondido”. Apathea, ou o Verdadeiro
Conhecimento dos seres, é o estado da alma para qual nada está coberto pelo véu da
mentira, que enxerga a realidade como ela é, com conhecimento de todas as coisas.
Aquele que possui Apathea não é afetado por qualquer pensamento que pode se
originar a partir da incerteza, como ansiedade ou medo, ou a partir de uma falsa
percepção da realidade (interna ou externa), como inveja, orgulho ou ódio.

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Enxergando a realidade como ela é, a alma com Apathea é incapaz de praticar auto-
engano, pois estaria então distorcendo a realidade. Eis que a figura de Cristo é o
símbolo do detentor da pura Apathea, incapaz até de mentir para si mesmo, em
contraste a Satã, o Grande Enganador.

. . .

Na Bíblia, esta luta eterna entre Verdade e Mentira, entre Conhecimento e Ignorância,
culmina no Livro do Apocalipse. A palavra Apocalipse vem do grego ἀποκάλυψις, que
significa “revelação” ou “des-cobrimento”. O Fim dos Tempos portanto não trata-se de
um evento de destruição total, mas sim do instante no qual a realidade é revelada para
o indivíduo como ela é. A Segunda vinda de Cristo é a transformação do indivíduo em
Cristo, como alguém com pura Apathea, com total conhecimento das coisas, Consciente
da Realidade, incapaz de mentir até para si mesmo, ausente de uma mente nebulosa. O
resultado da batalha entre Cristo e o Anti-Cristo é enfim, a unificação da mente
previamente fragmentada do indivíduo.

Não é à toa que Evagrius aborda o Caminho para Apathea como uma constante luta
para livrar-se de pensamentos ruins, considerados como demônios para o monge:

Quanto mais a alma progride, maior os oponentes que tentam ocupá-la. Na batalha contra
eles, não acredito que sejam sempre os mesmos demônios à espreita. Neste ponto, sábios
são aqueles atentos de forma mais aguda ás suas tentações e que veem a Apathea da qual
eles possuem, sendo atingidas, um demônio após o outro.

A idéia da União da mente fragmentada do indivíduo como resultado final do Caminho


para Apathea, do processo de tornar-se como Cristo, como Logos, é curiosa, já que,
como visto anteriormente, λόγος deriva de λέγω que pode ser traduzido como “Eu
uno”. Através de uma mente unificada, suas ações refletem seus pensamentos, e seus
pensamentos refletem suas ações. Não há espaço para auto-dúvida. Assim, Emerson
escreve novamente em “Autossuficiência” (Self-Reliance):

Um acordo eventualmente será feito entre qualquer variedade de atitudes, e cada uma
delas será natural e honesta em seu momento. Sendo provenientes de uma única
vontade, as atitudes serão harmoniosas, mesmo que pareçam completamente
distintas. Essa diversidade é visível apenas a pouca distância, ou por um breve
pensamento. Uma tendência as une. A viagem do melhor navio é uma linha

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ziguezague composta por centenas de curvas. Observe a linha a uma distância


suficiente e verás que ela se endireita à uma tendência média. Sua atitude genuína se
explica sozinha e irá explicar suas outras atitudes genuínas. Sua conformidade não
explica nada. Aja individualmente e o que você já tenha feito individualmente irá se
justificar para você agora. A grandeza apela ao futuro. Se posso ser suficientemente
firme hoje para fazer o que é justo e ainda desdenhar os olhares, devo ter feito tanta
justiça antes para me defender agora. Seja como for, aja de forma justa hoje.

(…)

Que um Estóico des-cubra os recursos do ser humano e diga às pessoas que elas não
são salgueiros curvados, mas que podem e devem desapegar-se; que com o exercício da
autossuficiência, novos poderes aparecerão; que o Homem é a Palavra em forma de
Corpo, nascido para espalhar a cura às nações, que ele deveria se sentir envergonhado
pela nossa compaixão, e que no momento que ele age a partir de si mesmo, jogando as
leis, os livros, as idolatrias e os costumes pela janela, não sentimos mais pena, mas o
agradecemos e o reverenciamos — e este mestre restaurará a vida em esplendor, e fará
com que seu nome seja estimado por toda a história.

O principal ponto do Caminho é que o resultado final, a transformação em Cristo é


idêntica para todas as pessoas, independentemente de circunstâncias pontuais. Cristo é
o Homem Autossuficiente por definição, utilizando a linguagem de Emerson. Ele
acreditava que, com uma verdadeira autossuficiência, todos os indivíduos deixariam
que seu Jeová interno se pronunciasse à todo instante — e que não haveriam distinções
entre eles. É por isso que São Paulo escreveu em Gálatas 3:28:

Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem


nem mulher; pois todos são um em Cristo.
Este Caminho não está tão distante do processo de individuação relatado
profundamente por Carl Jung, o processo pelo qual o indivíduo integra as diferentes
partes de sua psique. Também não é diferente de Kierkegaard e sua idéia de que a
Pureza do Coração é desejar Uma coisa: o Bem, pelo Bem em si. Tal desejo, segundo
Kierkegaard, só será de fato Puro se o indivíduo estiver disposto a sofrer pelo próprio
Bem. Eis então, o Caminho do Cristão. Não é desejar tornar-se Cristo, mas sim é através
do desejo único do Bem que ele se tornará Cristo.

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A relação entre Existência e Consciência é a mesma relação entre YHWH e Logos, entre
Deus-Pai e Deus-Filho na Santíssima Trindade. A Linguagem é o Espírito Santo: a
maneira pela qual Consciência e Existência se interagem, a maneira pela qual Cogito
Ergo Sum vem a ser pronunciada, vem a existir, a maneira pela qual a Consciência se
materializa na Existência.

A Linguagem da Trindade, a Linguagem do Espírito Santo, não é a linguagem dos


homens, mas a Linguagem Divina, incapaz de distinguir a Pergunta da Resposta,
incapaz de diferenciar Ação de Contemplação. Não posso utilizar a linguagem terrena
para explicar, com perfeita fidelidade, a relação entre a Consciência, Linguagem Divina
e Existência — a compreensão da Trindade vai além do entendimento humano porque
somos limitados pela linguagem terrena. É dessa perspectiva que Emerson escreve em
“A Alma Universal”:

Nós vemos o mundo pedaço por pedaço, vemos o Sol, a Lua, o animal, a árvore; mas o
todo, do qual esses objetos são as suas brilhantes partes, é a alma. Somente através da
visão dessa Sabedoria que o horóscopo das eras pode ser lido, e por nos apoiarmos em
nossos melhores pensamentos, por empunharmos o espírito da profecia que é inerente
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em cada ser humano, podemos saber o que ele diz. As palavras de todo homem que
fala dessa perspectiva devem parecer inúteis para aqueles que não compartilham do
mesmo pensamento. Não ouso convencer ninguém. Minhas palavras não carregam
esse senso augusto; elas caem frias e vagas. Somente o próprio indivíduo pode
alcançar essa inspiração e verá as suas palavras carregadas pelo vento como líricas,
doces e universais. Mesmo assim desejo, com palavras profanas se não posso usar as
sagradas, indicar o céu dessa deidade e reportar minhas próprias observações da
simplicidade transcendente e da energia desta que é a Altíssima Lei.

Importante ressaltar que, nesta perspectiva, a Linguagem não é utilizada para decifrar a
Existência. A relação entre Consciência e Existência não é de conflito, não é a da
Consciência tentando controlar a Existência, mas sim de contemplação mútua, do
reconhecimento de que não pode haver Existência Humana sem Consciência, e não
pode haver Consciência sem Existência como um todo. A distorção da Linguagem
Divina através da mentira a mortaliza, o uso da Linguagem Divina para o controle da
Existência a profana.

É desta perspectiva que conseguimos compreender melhor o significado da palavra


blasfêmia. Sua etimologia vem do grego βλασφημία, que é a junção de duas palavras
proto-indo-europeias: *mel- (“enganar”) + φημί (phēmí, “Eu digo”). Blasfêmia é o uso
da Linguagem com o propósito de enganar, para o propósito da mentira.

Novamente sou obrigado a recorrer a Emerson:

Revelação é o descobrimento da alma. A noção popular é de que uma revelação é uma


clarividência. No antigos oráculos da alma, o entendimento procurava encontrar
respostas para perguntas terrenas, e tentava descobrir a partir de Deus por quanto
tempo os homens deveriam continuar existindo, o que suas mãos deveriam fazer e
quem os deveria acompanhar, adicionando nomes, datas e lugares. Mas nós não
devemos arrombar fechaduras. Nós devemos reprimir esta curiosidade inferior. Uma
resposta em palavras é ilusória; não é mesmo uma resposta para as perguntas que você
faz. Não exija uma descrição dos países dos quais você irá viajar. Uma descrição desse
tipo não os descreve para você, e amanhã você desembarcará e os conhecerá
habitando-os.

Os homens perguntam sobre a imortalidade da alma, sobre as atividades dos céus,


sobre o estado do pecador e assim em diante. Eles até mesmo sonham que Jesus deixou
respostas precisamente para estes interrogatórios. Nunca por um momento aquele

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espírito sublime falou no mesmo jargão. Para a verdade, justiça, amor, para os
atributos da alma, a idéia de imutabilidade está essencialmente associada. Jesus,
vivendo nestes sentimentos morais, sem se preocupar com bens terrenos, atento
apenas com a manifestação destes sentimentos, nunca separou a idéia de longevidade
da essência desses tributos, tampouco pronunciou uma sílaba sobre a longevidade da
alma. Coube a seus discípulos separar a longevidade dos elementos morais, e de
ensinar a imortalidade da alma como uma doutrina, e mantendo-a com evidências. No
momento em que a doutrina da imortalidade é ensinada de forma separada, o homem
cai. Na corrente do amor, na adoração da humildade, não há questão de longevidade.
Nenhum homem inspirado formula esta pergunta ou condescende a essas evidências.
Pois a alma é verdadeira para si mesma, e o homem sobre o qual ela é derramada
não pode abandonar o presente, que é infinito, para um futuro que seria finito.

Estas perguntas que cobiçamos perguntar sobre o futuro são uma confissão do pecado.
Deus não possui uma resposta para elas. Nenhuma resposta em palavras pode
responder uma pergunta de coisas. Não é em um arbitrário “decreto de Deus”, mas na
natureza do homem que um véu encobre os fatos de amanhã; pois a alma não nos fará
ler outro horóscopo que não seja a de causa e efeito. É através desse véu que cobre os
eventos que a alma ensinará os filhos do homem a viver hoje. O único modo de obter
uma resposta para estas perguntas terrenas é esquecer todas as curiosidades inferiores,
aceitando a maré do ser que nos faz flutuar no segredo da natureza, trabalhando e
vivendo, trabalhando e vivendo, sem perceber que a alma construiu e forjou para si
mesma uma nova condição, e que a pergunta e a resposta são Um.

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A modernidade não apenas distorceu nossa noção do que é religião, mas profanou a
Linguagem como um todo. O uso da linguagem para controle das massas e para
alienação ideológica é o Pecado Supremo. Neste ponto, a modernidade gerou Três
Irmãos gêmeos que compartilham deste mesmo mecanismo do Mal: fascismo,
comunismo e consumismo. Não há qualquer distinção entre os três sob o ponto de vista
de profanação da Linguagem e a inconscientização dos indivíduos. O grande contraste
entre o Caminho e os três filhos da modernidade é que, se no primeiro havíamos como
resultado final a afirmação da Consciência do Indivíduo em Cristo, agora temos a
desintegração do indivíduo no inconsciente primitivo e selvagem das massas.

O resultado final de qualquer um dos Três Irmãos é a eliminação da Linguagem em si, a


eliminação da maneira pela qual a Consciência vem a Existir, e por consequência, a
destruição da Existência Humana. Embora a II Guerra Mundial e a Guerra Fria já
tenham terminado no século passado, nenhum dos Três Irmãos desapareceu por
completo. O comunismo retornou não como uma ameaça bolivariana latino-americana
como muitos brasileiros gostam de pensar, mas como uma idolatria cega e ingênua no
poder do Estado — suprimindo a Linguagem Divina em favor da linguagem da Lei. O
fascismo reinventou-se em ambos os lados do espectro político — em um há a
profanação da Linguagem através de fake news, no outro pela limitação da liberdade de
expressão.

O consumismo é o único dos irmãos que possui seus métodos de eliminação da


Linguagem despercebidos pela maioria das pessoas porque seus métodos não tentam
distorcer ou limitar a Linguagem, mas sim substituí-la. A tentativa de substituição da
Linguagem passa despercebida porque nos é oferecida uma alternativa satisfatória no
curto prazo: a imagem. O gosto amargo em minha boca provocado pela auto-mentira, a
ansiedade em minha mente que me paralisa por completo quando dominado pela auto-
engano é facilmente dissipado através do novo iPhone, através de vídeos irrelevantes
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no YouTube, que me distraem de minha incapacidade de lidar com meus problemas até
que o sono me relaxe por completo. A imagem não é uma vacina, é um analgésico, que
varre minha dor momentânea para os porões empoeirados de minha mente até que
eles acumulem tanto mofo e baratas que serei obrigado a limpá-los de uma vez só,
quando menos espero.

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O preconceito secular à religião institucionalizada, não é sem razão. A Igreja cometeu


atos selvagens e desumanos ao longo de sua história, mas dispensar religião pelos erros
cometidos pela Igreja é uma falácia do espantalho. Emerson compreende bem que a
Religião perde seu propósito através da institucionalização e da modernidade:

O ser humano civilizado construiu a carruagem, mas já não usa mais os seus pés. Se
apoia em muletas, porque não pode apoiar-se em músculos. Possui um bonito relógio
Genovês, mas não consegue calcular a hora pelo sol. Possui um almanaque náutico de
Greenwich, e por isso está seguro de ter a informação ao seu alcance, mas não pode
reconhecer uma única estrela quando sai às ruas. Ele não observa o solstício; sabe
pouco do equinócio; e o brilhante calendário anual carece de um indicador em sua
mente. Suas agendas enfraquecem sua memória; suas bibliotecas sobrecarregam sua
inteligência; o escritório de seguros aumenta o número de acidentes; e poderíamos
perguntar se as máquinas não o restringem; se não perdemos alguma energia pela
sofisticação, por um Cristianismo impregnado em formas e instituições, pelo pouco
vigor da virtude selvagem. Como cada Estóico foi um Estóico; na Cristandade,
onde está o Cristão?

De acordo com Cícero, a palavra Religião possui sua etimologia derivada de re-λέγω,
sendo portanto o ato de re-ordenar/re-unir. Religião é a contemplação coletiva da
Existência, com o Logos, através da Linguagem. É a maneira pela qual a União é feita,
mas principalmente é a maneira pela qual a União é mantida. Apathea não se mantém
sozinha — o esforço para nos mantermos auto-conscientes é colossal, porque sob a luz
de Logos muito do que vemos no dia-a-dia terá de ser renunciado. A manutenção da
Apathea exige uma Vontade Divina, que deverá ser relembrada de forma constante.
Assim, concluo este ensaio da mesma maneira que Emerson concluiu Autossuficiência,
recordando que é fácil confundir auto-estima com Apathea e que de fato, não existe um
fim para o Caminho:

https://medium.com/diarios-de-kairos/sobre-logos-f3f243693bbf 15/16
20/03/2020 Sobre Logos - Diários de Kairos - Medium

Uma vitória política, um aumento de rendimentos, uma recuperação de uma doença,


um retorno de um amigo ausente, ou se algum outro evento favorável eleva teu
espírito e pensas que bons tempos estão a caminho. Não acredite nisso. Nada pode te
trazer paz além de você mesmo. Nada pode te trazer paz além do triunfo dos
princípios.

. . .

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