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Rev dispositivo

Um Bras Crescimento Desenvolvimento


conector Hum. 2010; 20(1): 116-128
- Relato de experiência PESQUISA
Rev Bras Crescimento Desenvolvimento Hum. ORIGINAL
2010; 20(1): 116-128
ORIGINAL RESEARCH

UM DISPOSITIVO CONECTOR - RELATO DA EXPERIÊNCIA DO


PAI-PJ/TJMG, UMA POLÍTICA DE ATENÇÃO INTEGRAL AO
LOUCO INFRATOR, EM BELO HORIZONTE

A CONNECTING DEVICE - REPORT OF EXPERIENCE OF


PAI-PJ/TJMG, A POLICY FOR THE FULL ATTENTION TO THE
INSANE LAWBREAKER IN BELO HORIZONTE
1
Fernanda Otoni de Barros-Brisset

Fernanda Otoni de Barros-Brisset. Um dispositivo conector - Relato da experiência


do PAI-PJ/TJMG, uma política de atenção integral ao louco infrator, em Belo
Horizonte. Rev Bras Crescimento Desenvolv Hum. 2010; 20(1): 116-128

Resumo:
O presente artigo buscou demonstrar que as soluções de sociabilidade só podem ser
alcançadas quando o portador de sofrimento mental conta com a secretaria de um programa
complexo e multifacetado, que não se constrói a poucas mãos, nem em pouco tempo. É
preciso estar atento às soluções de sujeito e suas conexões às contribuições dos mais diversos
segmentos, na promoção da ampliação dos laços de sociabilidade dos loucos infratores nos
interstícios e nas vias principais de suas relações de convivência. O Programa PAI-PJ,
como um dispositivo conector, demonstra essa possibilidade.

Palavras-chave: segurança; competência clínica; política social.

Abstract:
This study attempts to show that solutions of sociability can only be achieved when the
patient with mental disorders counts with the secretary of a complex and multifaceted
program which is not built by a few hands, or in a short time. We must be aware of the
solutions of the subject and its connections to the contributions of the various segment of
the society, in promoting the expansion of ties of sociability of the insane offenders in the
interstices and on the main roads of their relations of coexistence. The Program PAI-PJ, as
a connecting device, demonstrates this possibility.

Key words: security; clinical competence; public policy.

Recorte da monografia vencedora do eixo diretrizes para o sistema penitenciário, no concurso promovido por ocasião da I
CONSEG. Sua publicação integral pode ser lida em: BRISSET-BARROS, F.O. Por uma política de atenção integral ao louco
infrator. Belo Horizonte: Del Rey. 2009. (no prelo).
1 Psicanalista (EBP/AMP). Doutora em Ciências Humanas: Sociologia e Política (UFMG) Coordenadora Clinica do Programa
de Atenção Integral ao Paciente Judiciário (PAI-PJ-TJMG). Professora do Departamento de Psicologia e Direito da PUC-Minas
Correspondência para: fernanda.otoni@terra.com.br

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1 - A INVENÇÃO DE UMA EXPERIÊNCIA Otoni de Barros, para que expusesse os resul-


INOVADORA tados de sua pesquisa, realizada durante aque-
le mesmo ano. Essa pesquisa reuniu o levanta-
No apagar das luzes do século XX, em mento da situação jurídica, clínica e social de
novembro de 1999, iniciou-se uma mobilização 15 processos criminais envolvendo loucos in-
política, social e intersetorial no sentido de tor- fratores, na comarca de Belo Horizonte. A pes-
nar pública a violação dos direitos humanos quisadora propôs que esses casos fossem acom-
aplicada institucionalmente aos loucos infra- panhados, em caráter experimental, por uma
tores. Ao mesmo tempo, buscavam-se alterna- equipe multidisciplinar, que ficaria responsá-
tivas e referências para enfrentar a complexi- vel pelo acompanhamento de um projeto indi-
dade em questão, propostas inovadoras para o vidualizado, construído em parceria com diver-
redesenho da política de atenção ao louco in- sas instituições envolvidas, como instituições
frator. de saúde mental da rede pública, Ministério
A responsabilidade desse pontapé inici- Público e autoridade judicial. A novidade é que
al coube à Campanha do Conselho Federal de esse projeto era desenhado de acordo com os
Psicologia (CFP), que levantou a bandeira: princípios da reforma psiquiátrica e dos direi-
“Manicômio Judiciário... o pior do pior...”. Seu tos humanos, orientados pela singularidade de
lançamento aconteceu na abertura do IV En- cada caso, e a principio nasceu apoiada pela
contro Nacional da Luta Antimanicomial, em lei estadual 11.802/1995, lei que inaugurou os
Maceió. O presidente da comissão de Direitos pilares normativos para o redesenho da assis-
Humanos do CFP, Marcus Vinícius de Olivei- tência em saúde mental em Minas Gerais.
ra, ao abrir os trabalhos da mesa, apresentou
um relatório detalhado das inúmeras violações 1.1- O contexto da pesquisa que antecedeu a
de direitos dos loucos infratores, no Estado proposição de um projeto.
Brasileiro, descortinando o cenário político que No primeiro semestre de 1999, primei-
a campanha teria que enfrentar. ra fase da pesquisa, realizamos o estudo de 15
Em seguida, o Professor Virgílio Mattos processos, para identificar os principais pro-
apresentou as conclusões do seu livro recém- blemas em torno do tratamento jurisdicional
lançado, “Trem de Doido”, em que discorre aplicado ao louco infrator. Na segunda fase, a
sobre a realidade jurídica e institucional dos pesquisa se dedicou a desenhar um projeto de
loucos infratores, lançando pertinentes refle- acompanhamento dos casos na rede pública de
xões sobre essa complexa questão. Orientado saúde, buscando construir uma mediação en-
pelas pesquisas da sua dissertação de mestrado, tre o tratamento e o processo jurídico.b
dedicada ao estudo das medidas de segurança Os primeiros dados recolhidos revelaram
no Brasil, pôde visitar os acervos do Manicô- a violação dos direitos dos indivíduos encar-
mio Judiciário Jorge Vaz e a própria institui- cerados no manicômio judiciário, além do fato
ção e, a partir do que registrou, fez um relato que o único manicômio judiciário mineiro, o
contundente de sua indignação.a Manicômio Judiciário Jorge Vaz, àquela épo-
Logo em seguida, a palavra foi passada ca, havia fechado suas portas para a entrada de
à psicanalista e psicóloga judicial, Fernanda novos pacientes judiciários. Este fato não dei-

a MATTOS, V. Trem de Doido – O Direito Penal e a Psiquiatria de mãos dadas. Belo Horizonte: UNA Editoria. 1999.
b Artigos de alunos que colaboraram com a pesquisa podem ser lidos em: BARROS, F.O. (Org). Contando Causo. Belo Horizon-
te: Del Rey, 2000.

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xará alternativa aos juízes criminais que não de cada sujeito em particular, considerando os
fosse encaminhar os pacientes judiciários, os princípios da luta antimanicomial; por outro
loucos infratores, para serem internados nos lado, esperava-se que essa alternativa também
hospitais da rede pública de saúde. Essa solu- permitisse à autoridade judicial executar a san-
ção é prevista em lei, como informa o artigo ção penal individualizada referente aos loucos
96 do código penal, que diz que a internação infratores.
deve ocorrer em hospital de custódia e trata- A pesquisa identificava que era preciso
mento ou, na falta deste, em outro estabeleci- inventar um dispositivo conector entre a justi-
mento adequado. A Justiça mineira, seguindo ça e a saúde, capaz de integrar, na condução de
a orientação normativa, passou a encaminhar cada caso, as lógicas heterogêneas, discursi-
aos hospitais psiquiátricos da FHEMIG (Fun- vas e práticas, atuantes na interface do trata-
dação Hospitalar do Estado de Minas Gerais) mento do louco infrator. Esse dispositivo
ofícios exigindo a internação, por tempo conector teria por compromisso a mediação
indeterminado, dos pacientes sub-judice. entre o tratamento em saúde mental e o pro-
Vanessa Figueiredo Costa publicou pes- cesso jurídico, zelando para que a solução
quisa em que relata que o ano de 1999 se des- interinstitucional estivesse de acordo com a
tacou na história do Instituto Raul Soares (IRS), singularidade clínica, jurídica e social de cada
hospital psiquiátrico da rede FHEMIG, pois foi caso. A orientação dessa mediação seguia pis-
registrado, apenas naquele ano, um aumento tas que o paciente judiciário entregava nos es-
de 300% nas internações de uma categoria es- paços institucionais que passara a frequentar,
pecial de pacientes - os pacientes judiciários: na justiça ou na rede de saúde.
“os que cometeram ato homicida e cuja inter-
nação ocorreu através de ordem judicial.”1 1.2 - A metodologia de atenção integral: Um
Essa situação foi responsável pelo acompanhamento atento às soluções do su-
tensionamento entre os hospitais psiquiátricos jeito no tratamento de seu sofrimento e às
e os juízes criminais, pois a determinação ju- suas pequenas invenções de sociabilidade
dicial de internação desses indivíduos, por tem- Tínhamos por hábito produzir, semanal-
po indeterminado, contrariava a vontade polí- mente, uma espécie de roda de conversa, um
tica dos gestores em saúde mental, que estavam, encontro entre os diversos atores presentes na
àquela época, cuidando do processo de rede de atenção aos casos em andamento, para
desospitalização dos portadores de sofrimento recolhermos as pistas de sujeito deixadas pe-
mental, de acordo com o projeto de saúde men- los pacientes judiciários que acompanháva-
tal do município. mos. Dessa conversa entre os vários agentes,
O diagnóstico desse conflito entre saú- seguimos desenhando, desfazendo e
de e justiça foi uma das constatações iniciais reinventando o mapa em movimento dos
da primeira fase da pesquisa e apontou para a acompanhamentos.
necessidade de se construir uma solução me- Os redesenhos produzidos junto aos vá-
diadora. Em julho de 1999, constituímos uma rios atores dos acompanhamentos, durante as
comissão no IRS. Essa comissão era composta rodas de conversa, eram apresentados a opera-
por técnicos da saúde, da justiça e do Ministé- dores do direito, buscando verificar a validade
rio Público, dentre outros interessados no tema. jurídica daqueles novos arranjos. Caso pareces-
Seu objetivo era estudar os casos encaminha- sem sustentáveis, encaminhávamos relatório à
dos por determinação judicial, para que eles autoridade judicial responsável pelo caso. Essa
recebessem um acompanhamento clínico e so- prática de cunhagem de um projeto viável ofe-
cial que estivesse orientado pela singularidade recia certo mapa que nos indicava por onde pas-

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sar com a singularidade clínica e social do paci- anteriores e a buscar novas saídas. Podíamos,
ente judiciário, dentro do mundo jurídico. por aquela brecha aberta, arriscar-nos a cons-
Aprendemos que o texto jurídico é um conjunto truir uma prática inédita em cada caso, a partir
de normas e que poderíamos localizar uma pos- do saber do sujeito, acompanhando as respos-
sibilidade de encontrar, entre elas, um lugar para tas que ele mesmo entregava em diversos mo-
a causa de cada sujeito em particular. mentos do seu acompanhamento.
Buscávamos construir uma orientação Logo de início, confirmamos que não se
para os acompanhamentos e não tínhamos ne- avança no acompanhamento desses casos, sem
nhuma prática anterior que nos indicasse uma um espaço de convivência orientado. Para sus-
receita. Sabíamos, através de nossos estudos tentar uma prática orientada pelo saber do su-
sobre a clínica da psicose, de orientação jeito sobre a resposta que trata seu sofrimento,
lacaniana, que o crime de homicídio cometido não poderíamos isolar o paciente judiciário,
na psicose, de modo geral, é conceitualmente precisávamos nos colocar ali, ao seu lado, se-
uma passagem ao ato que tenta solucionar um cretariando-o, recolhendo as pistas de sua so-
sofrimento insuportável psiquicamente: trata- lução singular de tratamento e sociabilidade.
se de uma resposta para a angústia, quando o Presumíamos que havia um sujeito en-
sujeito se desconecta do mundo. tre o paciente e o judiciário, entre o louco e o
Contudo, nós nos perguntávamos: como infrator. Seguir suas pistas nos levaria a algum
tratar esse sofrimento de modo que em cada lugar. Apostávamos que o singular de cada su-
sujeito pudesse surgir uma nova resposta, como jeito não poderia ser reduzido à semântica dos
construir alguns recursos que dispensassem o vocábulos, paciente judiciário – louco infra-
ato homicida e a violência como únicas res- tor, tão carregados dos sentidos construídos
postas e produzissem algum modo de conexão, historicamente. Aos poucos fomos levados a
de laço social razoável? A saída tradicional era considerar que aquele sujeito indefinível po-
presumir ali um sujeito intrinsecamente peri- deria ser portador de um potencial de respos-
goso e segregá-lo aos porões da loucura por tas inéditas, impensáveis e razoáveis.
tempo indeterminado. Na prática histórica, A experiência que inventávamos presumia
constatamos que, na maior parte das vezes, que a solução se apresentaria no espaço da con-
aquilo significava a ‘impossível’ prisão perpé- vivência e não no silêncio do isolamento consen-
tua do código penal brasileiro. tido pela presunção da periculosidade. A lógica
“Eu tinha pra mim que o isolamento des- era outra. Precisaríamos recolher da convivência
ses casos era um dos grandes responsáveis por o que ali poderia se apresentar como uma pista
reduzir as possibilidades de inventar respostas sobre o que provocava o embaraço, o que des-
singulares, institucionais e políticas, em con- pertava sua angústia, que artifícios e soluções
dições de produzir novos instrumentos para poderiam produzir saídas para a angústia ... Eram
tratar a perturbação mental insuportável e as respostas de sujeito que serviam de guia quan-
conectar o sujeito, portador de sofrimento men- to a uma possível via de construção de um laço
tal, à rede social com a qual precisou romper social razoável, no tempo em que era acompa-
por não encontrar nela nenhum modo de sos- nhado por muitos, no cumprimento de sua san-
segar seu sofrimento. De alguma forma, apos- ção penal, a medida de segurança.
tava que, para além da solução do isolamento, Através da atenção dispensada ao per-
haveria outras formas mais vivas de contornar curso singular daqueles indivíduos, tivemos
esse traumatismo.”2 a compreensão de que é fundamental atri-
Estávamos autorizados, a partir da crise buir consequência às suas respostas. Come-
que ali se instalava, a dispensar as soluções çávamos a perceber, ainda que de modo

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muito inicial, que o ato-crime tinha conse- A periculosidade foi perdendo sua cor,
quências sobre cada um daqueles acompa- apagando-se sem nos assustar, à medida que
nhados pela pesquisa. Responder pelo seu foi ganhando cor uma responsabilidade inédi-
crime diante do Juiz; demonstrar para sua ta, diferente, impensável. Em cada um daque-
cidade e sua família que tinha respondido les casos, foi aparecendo aos poucos, com a
“direito” pelo crime que cometeu, de acordo extensão do tempo de convivência entre nós,
com a lei; estas eram respostas que começa- um sujeito novo, vivo, capaz de, ao seu modo
vam a se apresentar com certa regularidade e na sua medida, surpreender com suas respos-
nas falas e nos comportamentos daquelas tas de sociabilidade.
pessoas. Parecia, enfim, cada um do seu Fomos verificando que a simples ofer-
modo, que estavam verdadeiramente envol- ta de uma rede de acompanhamento para onde
vidos num trabalho muito particular de cons- pudesse endereçar seu sofrimento e onde pu-
truir algum sentido para o sem sentido de seu desse entregar as pistas de sua solução modi-
ato, ensejando encontrar um apoio para o que ficava o que até então tínhamos aprendido nas
emergiu estranho de si mesmo, inscrevendo teorias macabras sobre os loucos infratores.
essa esquisitice no mundo, e isso significa- Estávamos entusiasmados pelo encontro com
va consentir com a medida penal que se ins- uma nova possibilidade de trabalho, ali para
creve no social, inscrita no código penal, onde a nossa ignorância tinha nos conduzido.
dirigida a todos que cometem crimes. Os pacientes judiciários, os loucos infratores,
Parecia ser muito importante no trata- foram aos poucos organizando um modo de
mento de cada um arrumar um modo de alo- tratar sua perturbação e se apresentando como
jar, na sua relação com os outros, uma res- sujeitos que respondem pelos seus atos na me-
posta em relação ao ato que praticaram, uma dida de sua singularidade, capazes de outras
resposta reconhecida como socialmente vá- respostas do que aquelas imaginadas pela pre-
lida, principalmente. Um deles, o F.J., disse sunção de sua periculosidade.
assim: “Estou no hospital agora, tratando da Não recuar diante do que a experiência
minha doença, mas quando vou pagar pelo ensinava: uma orientação ética!
que fiz? Tenho que pagar pelo crime que co- Apostávamos na construção responsá-
meti para que todos na minha cidade me re- vel de uma prática intersetorial, feita por
cebam de volta. Só depois de cumprir a mi- muitos, que pudesse sustentar, na trama de
nha pena, poderei voltar para a sociedade.” seu tecido, o que esses sujeitos e tantos ou-
F.J. escrevia nuns papeizinhos pequenos re- tros, na busca de uma solução que fizesse
latos do seu crime, da sua esquisitice; dizia cessar um sofrimento insuportável, poderiam
que escrevia para não esquecer quando fos- nos ensinar sobre o modo de tratamento ju-
se falar com o Juiz. rídico, clínico e social que desse suporte e
Pareceu-nos, logo de início, que inscre- ampliasse os seus recursos para encontrar no
ver na ordem do mundo a resposta fora da lei, mundo um lugar onde sua diferença tivesse
ao responder pelo seu ato esquisito, podia ser cabimento.
um caminho para encontrar um jeito de ser re-
cebido nessa ordem social de um jeito razoá- 2 - Programa de Atenção Integral ao Pacien-
vel. Encontrar-se com o dispositivo jurídico, te Judiciário Portador de Sofrimento
submeter-se aos seus procedimentos, foi se re- Mental Infrator do Tribunal de Justiça de
velando como um dos recursos humanizantes Minas Gerais – PAI-PJ
essenciais para restaurar o laço social que se No dia dois de março de 2000, a
rompeu com o crime. Corregedoria do Tribunal de Justiça de Minas

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Gerais implantou o projeto-piloto, para dar con- ao saber da sua liberação, disse-nos: “Mas eu
tinuidade ao acompanhamento dos 15 casos da sou de altíssima periculosidade! Se o juiz está
pesquisa e de quaisquer outros em que o réu ou de acordo com minha liberação, esta deve de
condenado fosse portador de sofrimento men- ser uma liberdade vigiada, uma liberação con-
tal, com processos tramitando nas varas crimi- dicional, para que o Juiz me acompanhe e pos-
nais da comarca de Belo Horizonte. O projeto sa chegar junto em caso de perigo.” E assim
nasceu com a denominação inicial de “Projeto foi feito.d
de Acompanhamento Interdisciplinar ao Pacien- O que L.V. nos indicava é que o retorno
te Judiciário” (PAI-PJ), e sua função era reali- ao convívio social não é desprovido de angús-
zar a mediação entre o tratamento e o processo tia, haja vista a situação dramática dos egressos
jurídico, até o tempo da inserção social das pes- de todo sistema penitenciário. O sentido do de-
soas. Dito de outro modo, atuávamos junto aos salojamento, o sentir-se isolado, excluído, fora
Juízes Criminais estabelecendo a conexão com do lugar, um estranho no ninho na volta para
a rede pública de saúde, antes e depois da sen- casa são alguns dos inúmeros relatos de egres-
tença, desde o início do processo criminal até a sos do sistema. O que L.V. fez foi nos ensinar,
sua extinção, em todas as suas fases. mais do que avisar, que a saída não era sem di-
Os casos foram chegando pouco a pou- ficuldade, solicitando nossa secretaria no senti-
co, à medida que corria, de boca em boca, que do de ampliar os recursos à sua disposição, caso
o projeto piloto estava intermediando a tensão o embaraço de seu sofrimento resolvesse per-
existente junto às instituições de saúde e que turbar o percurso de sua medida.
realizava uma função mediadora, com algum Cada vez mais, aprendíamos com a ex-
êxito, no encaminhamento e no acompanha- periência da loucura, aprendíamos a conside-
mento dos casos junto às instituições de trata- rar sua palavra, seus avisos, suas respostas, ain-
mento em saúde mental de pacientes judiciári- da que pudessem parecer um tanto quanto
os. Começavam a aparecer as primeiras desprovidos de razão. De fato, o que os sujei-
indicações para acompanhamento na rede tos nos ensinavam é que a vida nem sempre é
ambulatorial. razoável ou se dirige precisa através de estra-
O fantasma da periculosidade voltava a tégias racionais. Fernando Pessoa disse: “na-
rondar as equipes interinstitucionais. E se esti- vegar é preciso, viver não é preciso”; portanto,
véssemos enganados? Afinal, por que devería- estávamos decididos, pelos resultados alcan-
mos acreditar nas respostas da loucura? Esta- çados no acompanhamento dos casos, a nos
ríamos todos delirando, ousando acreditar que orientar pela bússola que cada paciente trazia
o paciente judiciário pudesse demonstrar a sua em seu bolso.
responsabilidade em condições de relativa Em dezembro de 2001, o Tribunal de
liberdade?c Justiça de Minas Gerais, por iniciativa pionei-
Mais uma vez, a orientação nos veio das ra do Desembargador Gudesteu Biber Sampaio,
pistas de sujeito. Um paciente judiciário, L.V., Presidente do Tribunal de Justiça de Minas

c Dizem, no campo da saúde mental, que, para ser realmente um delírio, é necessário que seja de um sozinho. Quando o delírio
for compartilhado por mais de um, transforma-se em obra.
d A partir da solução apresentada por L.V., buscamos encontrar os subsídios para a regulação da sua saída. Verificamos que, no
antigo código de processo penal, a orientação normativa prevista no título V, que trata da execução das medidas de segurança,
em seu artigo n° 767, determinava que caberia ao Juiz fixar as normas que deverão ser observadas durante a liberdade vigiada,
podendo inclusive entregar ao indivíduo sujeito a ela uma caderneta, da qual constarão suas obrigações durante o tempo de
cumprimento da medida. (LEGISLAÇÃO BRASILEIRA, 1999:129).

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Gerais e o Desembargador Murilo José Perei- sejam acompanhados pelo programa. Chegam,
ra, Corregedor-Geral de Justiça do Estado de também, encaminhados por familiares, estabe-
Minas Gerais, a experiência-piloto foi trans- lecimentos prisionais, instituições de tratamen-
formada em um programa - Programa de Aten- to em saúde mental e outros parceiros. A pessoa
ção Integral ao Paciente Judiciário – PAI-PJ, encaminhada responde como réu a um processo
através da portaria conjunta nº 25/2001 do Tri- criminal, mesmo se ainda não houver o incidente
bunal de Justiça de Minas Gerais. de sanidade mental instaurado no processo, rea-
O programa firmou-se através de uma liza-se uma avaliação jurídica, clínica e social
parceria permanente com o Projeto de Saúde do caso, e solicita-se ao juiz criminal autoriza-
Mental do Município de Belo Horizonte, o ção para o acompanhamento do caso. Sendo
Ministério Publico, o Centro Universitário autorizado, este é encaminhado à rede pública
Newton Paiva e os diversos recursos institu- de saúde mental, se ainda não estiver em trata-
cionais, dentre outros disponíveis na cidade. A mento. Junto com a rede, construir-se-á o pro-
experiência da loucura ensinava sobre a jeto terapêutico e social para o paciente, o qual
pluralidade razoável de soluções de sociabili- será constantemente revisto e reconstruído, de
dade. Estas se alinhavavam entre os diversos acordo com as indicações do próprio sujeito. O
atores institucionais, que funcionavam como acompanhamento ocorre durante o processo cri-
uma secretaria permanente na atenção ao lou- minal e continua depois da sentença, que pode
co infrator. ser uma pena ou medida de segurança, segui-
Para realizar a tarefa da secretaria, numa mos acompanhando o sujeito até a finalização
rede intersetorial, lançamos mão da metodolo- da execução penal.
gia de atenção integral, através das rodas de A equipe interdisciplinar do programa é
conversa, recolhendo com essa ferramenta os composta de psicólogos judiciais, assistentes
indicadores para movimentar o acompanha- sociais judiciais, assistentes jurídicos e estagi-
mento atento e cotidiano do caso. O programa ários em psicologia. Os estagiários atuam como
funciona como um dispositivo conector, agre- acompanhantes. Este acompanhamento favo-
gando em torno do acompanhamento do paci- rece as possibilidades de circulação pela cida-
ente judiciário as ações da autoridade judicial, de, ampliando os laços sociais como forma de
do Ministério Público, da rede de saúde men- tratar o sofrimento.
tal e social de cada caso. Os assistentes sociais judiciais realizam
o estudo do caso e apresentam ao paciente ju-
2.1 - Cotidiano do funcionamento: diciário os recursos que visam à garantia dos
O Programa, em resumo, tem por fun- direitos fundamentais e sociais, sempre na
ção a oferta do acompanhamento integral ao medida em que o caso indique.
paciente judiciário portador de sofrimento Os psicólogos judiciais realizam o acom-
mental em todas as fases do processo crimi- panhamento sistemático dos pacientes, buscan-
nal. Ocorre de modo intersetorial, através da do escutar e acolher o que para cada um funci-
parceria do Judiciário com o Executivo e com ona como modo de tratar o sofrimento,
a comunidade, de forma geral, promovendo o encaminhando-os aos pontos da rede da cida-
acesso à rede pública de saúde e à rede de as- de de Belo Horizonte indicados para favorecer
sistência social, de acordo com as políticas a ampliação dos recursos de tratamento, aos
públicas vigentes, na atenção integral ao por- quais o sujeito poderá recorrer nos momentos
tador de sofrimento mental. de crise ou embaraço.
Os casos são encaminhados por meio de Os assistentes jurídicos estudam os au-
ofício dos juízes criminais, determinando que tos, acompanham os andamentos processuais,

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informam ao paciente judiciário sobre sua si- como lugar para os loucos infratores. A res-
tuação processual, acompanhando-os durante posta encontrada pela crise substituiu a práti-
as audiências e formatam os ofícios que são ca reacionária do manicômio pela inclusão
encaminhados ao juiz com base nos pareceres dessa população nas políticas públicas de aten-
interdisciplinares da equipe e da rede constitu- ção à saúde mental, sem desprezar a importân-
ída em cada caso. cia do tratamento jurídico na solução de cada
O PAI-PJ através desta equipe caso. Essa política inovadora enfim se integra
interdisciplinar – psicólogos, assistentes sociais aos princípios constitucionais e fundamentais
judiciais e assistentes jurídicos – além de se- dos direitos humanos, às diretrizes da reforma
cretariar cada caso na sua relação com a vida psiquiátrica indicadas na lei 10.216/2001 e es-
na cidade, funciona como um serviço auxiliar sencialmente resgata a humanidade do porta-
do Juiz, subsidiando a decisão judicial e dor de sofrimento mental infrator, conforme
conectando aos autos os relatórios cujo mate- orientou Lacan para que nossa prática
rial foi tecido no trabalho com os diversos par- “corresponda a esperança que palpita em todo
ceiros fora do sistema jurídico: trabalhadores ser condenado de se integrar num sentido vivi-
da saúde mental, de organizações e entidades do.”3,4,5
sociais, familiares, dentre outros. Deste modo, criaram-se as condições ne-
Dessa forma, a autoridade judicial, inte- cessárias para que o paciente judiciário receba
grando a sua ação ao conjunto de todas as ou- seu tratamento em saúde mental e tenha um
tras necessárias ao funcionamento da execução acompanhamento de sua sanção penal de modo
penal, realiza efetivamente sua função individualizado, particular, na medida de sua
jurisdicional de acompanhamento da sanção possibilidade, capacidade e responsabilidade.
penal aplicada, promovendo os meios para que Apresentamos como fundamental a aber-
o paciente judiciário possa acessar os recursos tura para um trabalho intersetorial, mul-
necessários – sociais, de tratamento ou mesmo tidisciplinar, em condições de dispensar o véu
jurídicos, na invenção de uma laço social que da periculosidade que encobriu, por mais de
lhe convenha e que seja razoável, durante o tem- um século, as possibilidades inéditas do sujei-
po em que responde pelo seu ato fora da lei. to, louco infrator, que desde sempre deveria
ter sido considerado como um sujeito de direi-
2.2 - Inovações no acompanhamento do lou- tos. De algum modo, estamos esclarecidos de
co infrator a partir desta experiência que o caminho passa pela necessidade de trans-
O que realmente se tornou inovador foi mitir e assegurar a cada um que é considerado
a possibilidade inédita de colocar no centro paciente judiciário de que pode ser dispensa-
dessa rede de atenção e cuidados o sujeito, do de se esconder sob as vestes da periculosi-
acompanhando sua trajetória e secretariando- dade, de que pode ser chamado a se apresentar
o de perto como mais um recurso do qual ele do seu jeito e responder publicamente pela san-
pode se servir e ao qual pode se conectar para ção penal que lhe foi aplicada, fazendo uso dos
se desembolar dos embaraços que a sua singu- espaços de convivência abertos da cidade, atra-
lar diferença pode lhe apresentar nas suas re- vés dos múltiplos meios para ampliar seus re-
lações de convivência. cursos de sociabilidade.
A proposição do projeto pretendeu tra- Não estamos entre aqueles que acredi-
tar a crise instalada entre a justiça e a saúde tam que a questão do louco infrator é um pro-
mental; contudo, a novidade que se revelou blema exclusivo da saúde publica, que a exe-
desse tratamento da crise foi a possibilidade cução da sanção penal deve passar por fora do
inédita de dispensar o manicômio judiciário campo de competência do direito penal, sendo

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o Juiz apenas um burocrata que recebe e anexa os setores que trabalham com o paciente judi-
ao processo as comunicações encaminhadas ciário. Ainda que cada serviço tenha uma es-
pelos serviços de saúde, onde o paciente judi- pecificidade que o individualiza por meio de
ciário faz o tratamento. A nossa experiência um funcionamento regulado por normas e
ensina que o fato de alcançar o direito de ter paradigmas diversos, é preciso trabalhar para
acesso ao tratamento de saúde que correspon- caminharmos separados, mas numa mesma di-
de à singularidade clínica e social do cidadão reção.
não o dispensa do dever de responder pelo seu A direção de todos deve ter apenas uma
crime, comparecendo às audiências, atraves- orientação: o laço do sujeito com a sociedade,
sando os rituais dos dispositivos jurídicos, de tal modo que sua convivência no espaço
subjetivando sua posição na relação com a lei público seja razoável. A Justiça, o Ministério
que organiza o social no qual habita. Público, a rede de saúde mental, os familiares
A possibilidade de responder pelo cri- e, principal e fundamentalmente, o sujeito,
me cometido é uma condição humanizante, um paciente judiciário, sossegam quando essa so-
exercício de cidadania que aponta para a res- lução se mostra possível. Essa é a orientação
ponsabilidade e para a capacidade do sujeito que indica a todos os atores desse sistema uma
de se reconhecer como parte de um registro direção.
normativo que serve para todos. Responder A ação do PAI-PJ visa a alcançar, no
pelo seu crime é um modo de inclusão, pois constrangimento do encontro entre os diver-
insere o sujeito dentro do ‘guarda-chuva’ da sos atores e instituições, a efetividade na ga-
lei, que abriga a todos sob o seu manto. Muitas rantia dos direitos, na redução da violência e
discussões devem e podem ser feitas para mu- na acessibilidade ao projeto de saúde singula-
dar algumas das descabidas orientações rizado. Ao final podemos, através desse coleti-
normativas, como a soberania da pena de pri- vo de ações coadunadas pela mesma finalida-
vação da liberdade como a rainha das respos- de, promover uma execução penal em constante
tas punitivas do Estado Brasileiro - uma con- movimento, sempre atualizada na aplicação do
dição totalmente desumana e ineficaz no melhor acompanhamento, visando a garantir
sentido da inserção social. seu fim último: um laço social satisfatório para
A presunção da periculosidade é outro o sujeito e razoável para a sociedade de forma
absurdo que deveria desaparecer dos textos geral.
normativos, assim como a indeterminação do Dessa forma, fomos alcançando o
tempo da medida de segurança e a própria ló- impensável, tornando possível que o portador
gica das medidas de segurança. Contudo, ja- de sofrimento mental cumpra sua sanção pe-
mais as modificações da lei podem caminhar nal fora do manicômio judiciário. Através de
no sentido de tratar o louco como uma exce- um trabalho dinâmico, feito por muitos. Per-
ção, um caso apenas para a saúde devido à sua cebemos que, quando se segrega o louco infra-
condição menos humana, à sua patologia. Nos- tor no manicômio judiciário, cada um dos ope-
sa experiência não nos dirige nessa direção. radores do sistema penal, penitenciário e de
O PAI-PJ, enquanto um dispositivo saúde mental que circulam o louco infrator fica
conector, busca orquestrar as múltiplas ações também isolado, tendo que responder por de-
intersetoriais e, para tanto, tenta encontrar, nas cisões extraídas da letra fria da lei e de relató-
orientações normativas ou nas suas lacunas, rios monótonos enviados, na melhor das hipó-
uma forma de integralizar as lógicas discursi- teses, quando a lei determina. O sujeito está
vas e funcionais centrífugas, através da amar- escondido, isolado, ninguém sabe do que ele é
ração dos consensos percebidos entre os vári- capaz, foram cortadas as pontes que poderiam

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transmitir sua potencialidade de novas respos- Saúde Mental do Ministério da Saúde, em sua
tas. Ele é mantido no isolamento, por tempo exposição ao final do I Seminário de
indeterminado, porque não se tem acesso à sua Reorientação dos Hospitais de Custodia e Tra-
singularidade. tamento, falou sobre a “Reforma Psiquiátrica
Aquela invenção de uma solução com- e o atendimento ao paciente infrator: o feito e
partilhada para a crise entre justiça e saúde, o por fazer”.
em 1999, informou-nos que a responsabilida- “Algumas experiências apresentadas e
de de cada um, num trabalho feito por muitos, debatidas no seminário – como a do PAI-PJ,
permitiu que o louco infrator finalmente pu- do Tribunal de Justiça de Minas Gerais – vêm
desse mostrar aos muitos dessa rede do que ele demonstrando que é possível o atendimento do
era capaz. Estourou a bolha da presunção da paciente mental infrator fora do Hospital de
periculosidade que o enjaulava e caiu no mun- Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP),
do. Movimentou a rede, saiu do isolamento, em serviço de atenção diária ou ambulatórios.
da invisibilidade e do silêncio e exigiu de Este deve ser um objetivo a se perseguir, no
juízes, de promotores, de trabalhadores da saú- rumo da superação e substituição progressiva
de, da justiça, do Ministério Público, dos fa- destes estabelecimentos.”6
miliares e da sociedade que déssemos nossa Esse foi o caso de Goiás, amplamente
resposta diante da inevitabilidade da convivên- discutido naquele seminário, pois havia uma
cia com ele. pressão política para a construção de um ma-
Nos dias 1 e 2 de julho de 2002, um co- nicômio judiciário no terreno onde se locali-
letivo formado por representantes do poder zava o lixão da cidade. Na tentativa de cons-
judiciário, da saúde, do Ministério Público e truir coletivamente uma alternativa para a
de movimentos sociais reuniu-se para construir questão do louco infrator em Goiás, o Minis-
o Primeiro Seminário Nacional cujo tema foi tério da Justiça e o Ministério da Saúde, numa
“A atenção ao louco infrator: uma questão de ação intersetorial, convidaram a coordenação
Justiça.” Esse seminário foi responsável por do PAI-PJ do Tribunal de Justiça de Minas
reunir inúmeros atores de Belo Horizonte, es- Gerais para assumir a direção do censo clíni-
tabelecendo parcerias e ações conjuntas na co, jurídico e social referente à situação dos
construção de uma política responsável e rela- portadores de sofrimento mental do Estado de
tiva ao compromisso de sustentar, na rede aber- Goiás, bem como o processo necessário à im-
ta da cidade, o tratamento jurisdicional, clíni- plantação de um programa de atenção integral
co e social do louco infrator. Ao final do ao louco infrator, de acordo com as circuns-
evento, foi aclamada por unanimidade a “Car- tâncias do local, inspirado nas diretrizes e nos
ta de Minas: A cidadania do louco infrator é princípios em funcionamento da experiência
um compromisso de toda sociedade”. pioneira de Belo Horizonte, conforme publi-
Desde então, Belo Horizonte se tornou cado na portaria n° 36 do Diário Oficial da
a primeira cidade de Minas Gerais, do Brasil União, em 1º de julho de 2003.
(e também destaque no cenário internacional) Esse trabalho conjunto, interministe-
a tratar os loucos infratores na rede aberta da rial e interestadual, culminou na apresenta-
cidade, conjugando responsabilidade e inser- ção pública do projeto de implantação de pro-
ção social, através de uma parceria com os di- grama semelhante em Goiás, o PAILI, em
versos atores e instituições que cruzam esse julho de 2004. Contudo, devido ao jogo po-
campo. lítico de forças atuantes naquele momento,
Nesse mesmo mes, Pedro Gabriel Del- esse projeto somente foi efetivado em 26 de
gado, Coordenador do Programa Nacional de outubro de 2006. As possibilidades, dificul-

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dades e os entraves encontrados no trabalho maio deste mesmo ano, o programa foi apre-
de implantação de um programa de atenção sentado na Grécia - Atenas, no Fórum Social
ao louco infrator naquele estado, confirma- Europeu. O Programa retornou à discussão in-
ram a importância da prescrição do relatório ternacional, ao apresentar sua experiência jun-
final de reorientação dos hospitais de custó- tamente com as experiências da Suíça, da Itá-
dia e tratamento psiquiátrico, quando afirma lia e da França, num colóquio, sobre o tema
que o encaminhamento dessa população para “Dangerosités a dechiffrer: pour quels
a rede pública de saúde exige de todos os traitements?”, realizado em Paris, em novem-
atores envolvidos “o desafio do fortalecimen- bro de 2008.
to da rede de atenção extra-hospitalar e a A repercussão do programa PAI-PJ pa-
capacitação dos profissionais da saúde e da rece ser tributária das novas referências leva-
justiça para o redirecionamento da assistên- das ao espaço coletivo das discussões sobre o
cia ao louco infrator.6 tema do louco infrator. Contudo, estamos ci-
A experiência do PAI-PJ ensina que as entes de que não existe uma receita de bolo.
soluções relativas ao tratamento do louco in- Cada cidade deverá tomar para si o dever de
frator não se encontram na forma autônoma se apropriar dessas referências para integrá-
nem podem ser postas em prática a poucas las e ajustá-las ao contexto e aos recursos lo-
mãos; exigem o comprometimento coletivo dos cais dispostos naquele território. A reforma
diversos atores que atravessam seu campo de necessária e desejável deve acontecer no mu-
intervenção. É assim que tem sido possível, nos nicípio do portador de sofrimento mental, pois
dez anos de funcionamento do PAI-PJ, manter lá estão os elementos que dão suporte à sua
como prioridade absoluta que o tratamento dos rede de sociabilidade. Enfim, a experiência
loucos infratores seja realizado na rede SUS, transmitida no encontro com os portadores de
segundo os princípios orientadores de atenção sofrimento mental que cometeram algum cri-
psicossocial ao portador de sofrimento men- me não nos permite recuar diante da necessi-
tal, desenhados pelo Ministério da Saúde. dade imperativa de reunir os diversos atores
Apesar dos constrangimentos relativos e construir diretrizes nacionais para a cons-
ao jogo de forças em ação nas arenas de dis- trução de uma política de atenção integral ao
cussão, próprios da natureza heterogênea dos paciente judiciário, portador de sofrimento
discursos atuantes, para alcançar esse fim é mental infrator. A nossa luta cotidiana é na
preciso sustentar, como horizonte, a luta deci- direção de criar os meios necessários para tor-
dida através de uma trajetória muito particu- nar razoável a cidadania do louco infrator,
lar, nem sempre iluminada, mas que considera entre nós.
a complexidade que amarra as singularidades
normativa, jurídica, social e clínica relativas a
cada caso. 3 - Alguns dados do Programa
O PAI-PJ também foi apresentado na (junho/2009)
França, em novembro de 2005, num evento que
reuniu diversas instituições, profissionais e O Programa de Atenção Integral ao Pa-
pesquisadores para uma reflexão que levou o ciente Judiciário – PAI-PJ, em dez anos de fun-
nome do evento: “Une reflexion internationale cionamento, já acompanhou 1058 processos
sur la question de la responsabilité.” Em feve- criminais, numa parceria contínua entre a jus-
reiro de 2006, o programa PAI-PJ foi tema de tiça, o Ministério Público, a rede pública de
conferência apresentada na Ecole d´Hautes atenção em saúde mental e os dispositivos so-
Etudes Sciences Sociales – Paris, e ainda em ciais da rede aberta da cidade. Foram acolhi-

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dos, nesse espaço mediador, 755 cidadãos, Nesses casos, a equipe do PAI-PJ tem acom-
constituindo em cada caso a invenção necessá- panhado o tratamento do paciente, que aconte-
ria, através desses dispositivos conectores, pro- ce, de modo geral, junto ao CAPS (Centro de
duzindo o tratamento necessário ao sofrimento Atenção Psicossocial) do município onde a
mental, buscando sua inserção na sociedade até penitenciária está localizada. Hoje, encontram-
cessar suas relações com a justiça. Deste total, se nessa situação 63 pessoas: 48 sentenciadas
489 casos já foram desligados e 266 casos en- com pena (10 cumprem pena restritiva de di-
contram-se em acompanhamento. reitos e 38 pena privativa de liberdade), 8 em
Atualmente, 228 encontram-se em liber- livramento condicional e 7 casos com proces-
dade realizando tratamento nos dispositivos sos já encerrados aguardando formalização.
substitutivos ao manicômio e residem junto aos Além dos 266 casos em efetivo acompanha-
familiares ou em residências terapêuticas do mento, outros 23 casos estão sendo avaliados
município. Estes sujeitos, de modo geral, fazem quanto à possibilidade de acompanhamento
o seu tratamento na rede aberta da cidade e apre- pelo programa.
sentam-se regularmente à justiça para demons- Pesquisando a situação dos casos en-
trar sua responsabilidade na cidade. 18 pacien- cerrados, registramos uma reincidência em
tes, desses 228, estão recebendo atenção 24 torno de 2%, relativa a crimes de menor gra-
horas, nos serviços substitutivos em saúde men- vidade e contra o patrimônio, e, em dez anos
tal do município, devido ao momento de grande de trabalho, não temos registro de reincidên-
instabilidade e perturbação no seu quadro clíni- cia de crime hediondo, que ensejasse o retor-
co, sendo acolhidos naquelas instituições que no do fantasma da periculosidade que, via de
oferecem hospitalidade dia e noite para dar tra- regra, assombra o cuidado e a convivência
tamento ao sofrimento da crise. Esse é um dado com estas pessoas.
que sofre variações constantemente, pois o pa- Para encerramento dos casos, como
ciente pode sair e retornar ao serviço de aten- prerrogativa legal, é solicitado o exame de ces-
ção 24 horas à saúde mental, de acordo com as sação de periculosidade, podendo assim o su-
contingências clínicas, caso a caso. jeito cessar a “dívida” com a justiça. Os lau-
Dos 126 casos sentenciados com medida dos dos peritos psiquiatras designados pela
de segurança e acompanhados pelo programa, autoridade Judicial para realização do exame
apenas 25 possuem medida de segurança de in- de cessação de periculosidade, de maneira ge-
ternação, 87 cumprem medida de segurança ral, têm confirmado a ampliação dos recursos
ambulatorial e 14 casos já se encontram em libe- de tratamento do indivíduo e as suas diversas
ração condicional da medida de segurança. respostas de laço social. Antes do acompanha-
Acompanhamos, ainda, 77 casos que não mento pelo PAI-PJ, os casos cumpriam medi-
receberam sentença, mas que já se encontram da de segurança no modo “prisão perpétua”,
inseridos na rede de saúde mental. perdendo seus laços sociais definitivamente.
Apesar de as pessoas em cumprimento A média de tempo de internação no Manicô-
de pena não corresponderem aos casos desig- mio Judiciário Jorge Vaz, em Barbacena, tem
nados na portaria n° 25/2001, que cria o PAI- sido de 20 anos. Hoje, com a oferta deste
PJ, alguns juizes têm solicitado atenção da acompanhamento feito por muitos, a média
nossa equipe para assegurar a esses indivíduos de tempo entre a entrada do paciente judiciá-
o seu direito ao tratamento, quando, por algu- rio no programa e a sua saída do sistema jurí-
ma contingência durante o cumprimento de sua dico, tem sido de 5 anos, com a cessação de
pena restritiva de liberdade, entraram em cri- periculosidade confirmada pelos peritos, con-
se, apresentando grande sofrimento mental. siderando a demonstração pública da sua res-

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posta razoável de laço social. saúde, acessando, sempre que necessário, os


Todos os casos são acompanhados pelo diversos recursos indicados como uma solu-
programa em conexão com a rede pública de ção de sociabilidade.

REFERÊNCIAS

1. Costa. V. A. A história dos pacientes 4. Lacan, J. Escritos. Rio de Janeiro : Jorge


judiciários no InstitutoRaul Soares. Belo Zahar Editor. 1998
Horizonte, UNP, 2000. 5. Lacan, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro :
2. Barros, F.O. Relato da experiência da JZE.
pesquisa com os pacientes judiciários. 6. Ministério da Saúde/Ministério da Justiça.
Belo Horizonte: Mimeo, 1999. Seminário Nacional para Reorientação dos
3. Lacan, J. Da psicose paranóica em suas Hospitais de Custódia e Tratamento
relações com a personalidade (1932). Rio Psiquiátrico : Relatório Final. Brasília:.
de Janeiro: Forense-Universitaria, 1987. setembro de 2002.

Recebido em 22 de agosto de 2009.


Modificado em 02 de janeiro de 2010.
Aceito em 30 de janeiro de 2010.

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