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Boa noite de Natal galera!

Trouxemos pra vocês a carta (traduzida pela equipe) que o Dane Reynolds, considerado
um dos surfistas mais inovadores da atualidade, publicou em seu site; uma espécie de
desabafo às críticas que ele vêm recebendo por ter saído dos Top 32 da ASP. Como
vocês poderão ver, o cara é muito fluído com a palavras e acho que deu a chance das
pessoas entenderem seus motivos. Confesso que curto muito o surf dele e apreciei toda
a entrevista.

Talvez num próximo espaço traremos uma problematização de toda essa questão do surf
como esporte profissional e da perda do ‘feeling’ que o surf traz, a conexão com o mar e
os momentos não só de surf em si, mas todo o ritual pré e pós-surf, talvez estes os
aspectos mais importantes dessa maravilha criada pelos polinésios.

Aí vai:

“Eu venho sendo pressionado por várias pessoas e/ou sites para que escreva algo,
uma espécie de declaração oficial a respeito de minha saída do World Tour. Meu
desmonte. Meu surto. ‘Uma oportunidade de reconciliar-se com seus fãs’. É isso
que eles me dizem. As pessoas querem saber o que está rolando. Querem manter-se
atualizadas. Eu posso entender isso. Eu gosto de saber o que está acontecendo. Eu
gosto de estar atualizado.

Uma coisa a se lembrar é que eu tenho um coração e eu tenho ossos e eu tenho


músculos e pele e olhos e dentes. Eu tenho emoções. Algumas vezes eu ajo
conforme minhas emoções. Algumas eu penso e tomo decisões concientes. Eu
costumo agir assim. Na verdade, eu geralmente penso demais. Meio neurótico. Eu
cometo erros, e eu lido com eles. Eu tenho medos e eu tenho ansiedade e eu tenho
inseguranças e eu tenho vícios aos quais, vez ou outra, eu cedo. Situações sociais
potencializam todas essas qualidades.

Eu provavelmente poderia usar de disciplina, e muitas coisas me decepcionam,


mas geralmente sou feliz, e eu me sinto bem fazendo outras pessoas felizes.
Algumas vezes tudo o que é necessário é um sorriso. Algumas vezes é preciso bem
mais do que isso.

Tento ser honesto. Especialmente comigo mesmo. Sei que sou sortudo. Estou
sentado aqui e eu meu sangue pulsa e eu posso respirar e eu escuto os pássaros lá
fora e o barulho da rodovia e o sol está prestes a se pôr e é sexta-feira. Isso é
riqueza. Eu também sei que sou afortunado em muitos outros aspectos. Três
marcas me apóiam e possibilitam-me surfar todos os dias e viajar e comer e ter
uma casa na qual viver. Em retorno, eu represento suas companhias de maneira
positiva. Eu sinto que faço um trabalho decente. Mas isso está claramente sujeito à
debate.

Surfar é a paixão de minha vida. Eu sempre penso no quanto somos sortudos por
haver um oceano, e ele não ser tão quente nem tão turbulento e não ser feito de um
ácido que queima nosso pele. E quanta sorte de a terra terminar no mar justo da
maneira certa, que quando ondas de energia, de milhas distantes, se aproximam,
elas gentilmente se erguem e quebram na perfeita velocidade para que possamos
mexer nossos pequenos braços e igualar-nos com sua velocidade, nos pendurando
em sua crista, sem peso, por só um segundo, antes de descer deslizando por sua
face. Livres para andar em qualquer direção que vocês quiserem. E não há só uma
delas. Há toneladas delas. Elas continuam vindo. Diferentes tamanhos, formas e
velocidades. Todo dia elas são diferentes. Alegria sem fim.

Há, é claro, uma série de coisas que servem de obstáculos para sentir essa alegria:
crowds, impostores no twitter, locais irritantes, surf bloggers aborrecedores,
fotógrafos excessivamente detalhistas, Chris Mauro e campeonatos da Rip Curl,
apenas para mencionar alguns. Isso foi uma espécie de piada, mas não realmente,
além do mais, surfar não é apenas se divertir. É também um esporte. Uma
indústria. E nós não devemos misturar negócios com prazer.

Ao aceitar patrocínios eu assumo certa responsabilidade. Alguns pensam que


responsabilidade é competir. Botar uma lycra e destruir meu oponente, apesar do
critério débil e unidimensional e de um campo de jogo inconsistente, que faz com
que o resultado final raramente seja dado apenas pela performance em si. Talvez
essa seja a graça da coisa. Eu não sei. Eu gosto disso. Mas eu acredito nisso? O
suficiente pra dedicar a melhor parte da minha vida? Ou isso é irrelevante porque
competir é minha responsabilidade?

Eu não tive que responder essa questão porque a cirurgia no joelho, em janeiro,
respondeu-a para mim. No tempo em que me recuperava, eu já havia partido. Três
botões largados ao vento. Curtição acima da responsabilidade. Suicídio de
carreira! Destruindo meu potencial. Desperdiçando meu talento. Eu escutei o
falatório.

Na realidade eu estava sendo construtivo de uma maneira diferente, viajando para


uma variedade de locais e quebrando barreiras pessoais numa tentativa de
aprender, crescer, e me desenvolver. Não é tão imediato quanto um webcast de
campeonato, e deus me perdoe, é prazeroso, mas no fim é igualmente importante e
eu venho negligenciando isso por muito tempo, porque eu estava num local de
conforto, onde apenas resultados de campeonato já eram satisfatórios.

Para que possa ter sucesso no surf de competição, você tem que refinar seu surf
para que caiba em um pequeno e bonito pacote, presenteável em um período de 30
minutos, nas mais diversas condições. Você tem que matar as variáveis. Reparar as
arestas. Ficar em cima de sua prancha. Conhecer seu equipamento. Seleção de
ondas. Tentar repetir, infinamente, movimentos que dêem mais pontuação.

Há, obviamente, exceções. O aéreo reverse slob do Kelly Slater, com rotação
completa, em Nova York. Aquilo não foi uma manobra repetida e foi épica. Na
areia depois da bateria: ‘então Kelly Slater, como foi aquele aéreo reverse slob?’ –
‘oh, é assim que aquilo é chamado?’. Também John John Florence e Gabriel
Medina. Talvez seja apenas questão de tempo para que eles refinem suas atuações,
mas até agora estou realmente impressionado com seu sucesso competitivo, apesar
de um surf rústico, não polido. Rústico é bom.

Surfar com John John esse ano no Japão foi revelador. Foi como se em cada onda
ele estivesse explorando um novo território. Eu quero explorar novos territórios!
Eu quero descontração! No final da trip eu já me sentia aperfeiçoado e
rejuvenescido e então, CRUCH! Quebrei minhas costelas na véspera de um novo
swell de tufão. Quase me afoguei. Outro mês fora da água. Tem que pagar para
poder jogar. Ainda mais quando você está tentando se manter no nível do John
John em ondas pesadas assim.

E então, aqui estou. 26 anos. Oficialmente fora do Tour. Talento disperdiçado.


Potencial jogado fora. Recusa de responsabilidade. ‘Tudo o que ele quer é sentar
em casa e brincar com Crayons e surfar com pranchas fodidas e estranhas.’ Mas
espere! Mas espere! Isso não é verdade! Não escute Chris Mauro. Ele é um
dinossauro. Não entende a situação. Este pode ser meu fim como competidor do
WCT, mas é também um novo começo.

Eu me sinto como uma bola de baseball. A pele foi cuidadosamente descascada e


tem um fio, eu vou puxá-lo e vou terminar como um monte de linha no chão. Mas
então, talvez eu serei tricotado em algo mais útil, como uma malha. Ou talvez algo
bonito, como uma obra-prima bordada à mão, um veado e dois antílopes bebendo
água gelada de um córrego.

Mas nunca se sabe. Espero atingir algum tipo de equilíbrio. Sim, eu gosto de surfar
com pranchas estranhas, mas eu também gosto de mandar aéreos e ser agressivo
em um cutback. E competir é legal se você consegue se manter inspirado, mas
rankings e troféus significam pouco para mim. Eu quero aprender, eu quero fazer
coisas, coisas com propósito, ser produtivo. Viajar. Novas experiências. Novas
sensações. E o mais importante, explorar os limites do surf de performance. Eu
ainda irei competir. Mas isso não irá me consumir.

Achar este equilíbrio será um desafio. Mas é só um degrau em um infinito de


outros degraus. Uma escadaria sem fim. Esse é um grande passo. Muito grande
para ser apenas pulado. Eu preciso escalar. Tipo, com uma corda e equipamentos
de proteção e o caralho. E eu posso chegar lá e ficar chateado e achar que o passo
anterior era melhor, mas esse é apenas o mistério da vida e estou feliz por
experência-lo. E estou em débito infinito com aqueles que fazem disso algo
possível.

Primeiramente, fãs que se identificaram com meu surf por uma razão ou outra,
porque na base de tudo, vocês são a única razão pela qual é possível eu ter os
patrocínios que me possibilitam viajar e comer e pagar as contas e continuar
surfando. Segundo, meus patrocinadores: Channel Islands que acreditou em mim
desde os 13 anos de idade e continua a produzir pranchas que me permitem chegar
ao meu potencial máximo e também pranchas que nada têm a ver com
performance, mas que fazem você se tocar quanta felicidade pode tirar de uma
simples linha de surf. Eu agradeço à Quicksilver, por seu inabalável suporte,
renovando meu contrato em um ano de incertezas e trabalhando comigo em
produtos e campanhas honestas. Também agradeço a Vans por me selecionar.
Cada um do time é um dos meus surfistas e/ou pessoas favoritos e sou honrado de
fazer parte disso.

Existem, é claro, centenas de pessoas para serem agradecidas aqui, mas estas são
as que me vêm à cabeça esta noite: minha namorada Courtney, por me dar
inspiração, por me dar perpectiva, por me dar amor e por me dar desafios; Blair,
por manter a bagunça que é minha vida em ordem; meus pais, por seus pontos de
vista conflitantes - eu não acho que teria me dado muito bem em uma casa de
família comum; meu pai, particularmente, por dedicar incontáveis fins de semana
a me levar para cima e para baixo da costa para competir - aquilo foi um grande
sacrifício; e também minha mãe por pregar criatividade, coragem e por manter
tudo que fosse frescura longe; meu irmão Brek, por administrar muitas situações
com humildade desde bem novo; meus avós, por serem provavelmente meus
maiores fãs na terra; especialmente Bonnie e Papa Chuck, que vêm a todos os
campeonatos de surf na costa Oeste. Eles aparecem às 7 da manhã para pegar uma
vaga boa, mesmo se eu só surfo às 3 da tarde; e também meu avô Bob, por me dar
suas câmeras Super 8 quando eu tinha 18 anos e instigando um hobby para a vida
toda.”

Fonte: www.marinelayerproductions.com