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Sumário

1. Capa
2. Folha de rosto
3. Sumário
4. Dedicatória
5. Mapa
6. Epígrafe
7. Prefácio

8. Livro I – VENEZA
1. 1. Zanetta
2. 2. Angela
3. 3. Bellino
4. 4. Zelmi
5. 5. Henriette
6. 6. Mimi
7. 7. Maria Eleonora
8. 8. Tonina
9. 9. I Piombi

9. Livro II – PARIS E ALÉM


1. 10. Madame D’Urfé
2. 11. Miss Wynne
3. 12. A freira de olhos negros
4. 13. Hedwig e Helena
5. 14. Marcolina
6. 15. La Charpillon
7. 16. Zaïre
8. 17. Doña Ignacia
9. 18. Nina
10. 19. A provocadora
11. 20. Francesca

10. Caderno de imagens


11. Obras de Giacomo Casanova
12. Agradecimentos
13. Notas
14. Bibliografia selecionada
15. Créditos das ilustrações
16. Sobre o autor
17. Créditos
Landmarks

1. Cover
2. Title Page
3. Body Matter
4. Epigraph
5. Table of Contents
6. Preface
7. Part
8. Part
9. Acknowledgments
10. Rear Notes
11. Bibliography
12. Copyright Page
Para Zata e Jacqueline, e à memória de minha mãe
Amor é três quartos curiosidade.
GIACOMO CASANOVA
Prefácio
Hoje em dia, Giacomo Casanova personifica o amante
latino arquetípico. Praticamente todo mundo tem um pouco de
Casanova. Mas, para seus contemporâneos do século XVIII, o
nome significava algo diferente — o veneziano aventureiro,
espião, duelista, jogador, expert na arte de escapar de situações
difíceis e autor de quase cem romances, poemas e tratados.
Jean-Jacques Rousseau, Voltaire, a imperatriz russa Catarina, a
Grande, Benjamin Franklin, Mozart e Lorenzo Da Ponte —
libretista do Don Giovanni de Mozart e uma figura
extravagante por si própria — eram todos amigos e
correspondentes. Para eles, Giacomo Casanova encarnava o
espírito da liberdade e, mais do que isso, da libertinagem — do
prazer sexual irrestrito. Pensamos na Europa do século XVIII
como a Era da Revolução ou a Era do Iluminismo, mas ela foi
também a Era de Casanova, o arrivista veneziano que
incorporou suas paixões e seus prazeres. Pensamos também
em Casanova como um grande narcisista, mas ele
desempenhou inúmeros outros papéis na sociedade conforme
procurava encontrar um lugar onde sua autoimagem exaltada,
porém frágil, pudesse se encaixar. Foi uma figura
genuinamente ultrajante que também calhou de ser um gênio
da literatura, da psicologia e da matemática; um mestre da
autoinvenção e da autopromoção; um dedicado trapaceiro das
cartas, vigarista e especialista na arte da fuga que concebeu a
loteria francesa (utilizada ainda hoje); e se tornou uma das
primeiras celebridades da Era Moderna.
Por que continuamos fascinados por esse arrivista mais de
duzentos anos após sua morte? Ele não era belo nem instruído,
tampouco tinha berço. Não possuía status ou poder. De algum
modo, esse empobrecido filho de uma atriz se transformou no
libertino mais celebrado de todos os tempos e numa figura
literária maiúscula de sua era. Foi uma vida vivida em cartas,
tanto quanto na alcova. Casanova é lendário por personificar o
arquétipo do romântico, promíscuo e sedutor, embora suas
realizações menos conhecidas, mas igualmente
impressionantes, na matemática e na literatura tenham
recebido reconhecimento tardio e apenas parcial. Ele partiu
corações de Veneza a Paris e Praga. Casanova exaltava as
mulheres até mesmo quando as explorava. Preferia fazer amor
(quanto mais romântico melhor), e não guerra, ao viver suas
fantasias sexuais e românticas. Seu desejo não conhecia
limites; trata-se de um homem que afirmou ter seduzido a
própria filha e que a teria levado para vê-lo fazer amor com a
mãe. Como esse inconsequente zé-ninguém acabou se
relacionando com as mulheres mais belas e as maiores mentes
de seu tempo? Como veio a escrever suas consumadas
memórias eróticas? Como esse filho pouco amado e rejeitado
veio a se tornar o amante mais célebre da história?
O Casanova da vida real (em um retrato feito por seu
irmão Francesco) guardava pouca semelhança com a imagem
popular do fabuloso sedutor. Ele era alto, com cerca de 1,90
metro, de tez morena, rosto anguloso, com testa ampla e um
nariz proeminente que lhe davam o aspecto de um ganso
gigante. Costumava usar peruca empoada, à moda da época,
culotes de seda justos, chapéu tricorne preto e um tabarro, ou
manto, geralmente preto, caindo pelos ombros e decorado com
babados. O mais espantoso de tudo, venezianos genuínos, e
apenas venezianos, usavam a bauta, a máscara branca rígida, o
tempo todo, ou quase isso. A nobreza, tanto homens como
mulheres, usava máscaras em público e muitas vezes dentro de
casa. Nos teatros, funcionários conferiam se as máscaras
estavam colocadas corretamente, embora os nobres pudessem
tirá-las quando a peça começava. Nobres que se reuniam com
embaixadores por motivos oficiais tinham de usar a bauta,
assim como os diplomatas.1 O traje completo era a imagem
que Veneza apresentava ao mundo e a si mesma.
Giacomo Casanova de perfil, c. 1750, por seu irmão, Francesco Giuseppe.

As mulheres da República ocultavam-se atrás da


misteriosa moretta negra, uma máscara de veludo que ficava
presa no lugar por um botão seguro entre os dentes da frente,
impedindo quem a usava de falar. (O nome derivava da
palavra moro, a cor preta, em vêneto.) Também era conhecida
como a servetta muta, ou “criada muda”, variedade, se é que
possível, ainda mais estilizada e sinistra que a bauta. Essas
fantasias não eram apenas para o Carnaval ou para os bailes.2
Com poucas exceções, os venezianos as usavam o ano todo, e
as leis venezianas tinham severas punições para quem violasse
o código de vestimenta.
Os homens com frequência achavam Casanova
desagradável e pomposo. “Achei-o um cabeça de vento”,
escreveu o biógrafo James Boswell após se conhecerem.3 “Ele
é um dândi, cheio de si, inchado de vaidade como um balão e
espalhafatoso como uma roda de moinho”, disse o dramaturgo
veneziano Pietro Chiari, um amargo rival. Mas as mulheres
eram suscetíveis a seu charme, suas atenções e sua astúcia.
Embora relutasse em admitir, Casanova não era
completamente heterossexual; sentia atração por homens
disfarçados de mulher e por mulheres disfarçadas de homem.
Tudo nele era ambíguo, ao mesmo tempo desconcertante e
fascinante.
Ele dormiu com 122 mulheres, por suas contas, e talvez
com alguns homens. Numa sociedade dedicada ao excesso e à
indulgência, muitos venezianos se vangloriavam de mais
conquistas, mas, ao contrário desses outros libertinos, ele
registrou cada mínimo detalhe de suas aventuras em vívidos e
às vezes pornográficos pormenores. Nesse Kama Sutra
veneziano, ele revelava, com precisão e meticulosidade
surpreendentes, as proezas de sua vida, deleitando-se com suas
escapadas, conquistas amorosas, reveses e indulgência carnal.
Buscando se vingar da sua falta de status no nascimento,
devotou sua existência a corrigir esse erro por meio do sexo.
Ele o usou para romper as barreiras de classe, gerando oito
filhos ilegítimos, cada um com uma mulher diferente, com
quem se recusou a se casar. Às vezes comportava-se como um
canalha; outras, como um gênio. Era o arquétipo do mau
namorado: irresistível, perigoso, amoral. Casanova não era o
único hedonista diligente de sua época, tampouco a figura
literária mais brilhante, e certamente não era o único cafajeste,
mas era inigualável em desempenhar os três papéis à
perfeição.
Embora o lugar de Casanova na história da sensualidade e
do folclore amoroso esteja assegurado, para muitos constitui
surpresa que tenha sido uma pessoa de carne e osso e ainda
uma figura proeminente do Iluminismo. Sua Histoire de ma
vie [História da minha vida], em doze volumes, escrita em
francês, representa a fonte de informação mais importante
sobre sua vida e seus amores, bem como uma visão
caleidoscópica de seu tempo. Suas 3700 páginas, escritas
numa caligrafia bela e firme, estão guardadas na Bibliothèque
Nationale de France, em Paris. São uma aquisição recente.
Depois que uma comissão francesa declarou a obra um tesouro
nacional, a BnF pagou 9 milhões de dólares para obter o
manuscrito: a aquisição mais cara na história da biblioteca.
Casanova, em sua vaidade suprema, teria ficado extremamente
orgulhoso com essa confirmação de seu lugar central nas letras
francesas e na vida intelectual de sua era.
Se o seu épico de sedução, espionagem e alpinismo social
tivesse sido publicado em vida, teria chocado seus
contemporâneos e comprometido a vida e a reputação de
venezianos proeminentes e de outras pessoas importantes
cujos vícios e escapadas tornam a leitura do livro tão
interessante. As transgressões sexuais, até mesmo a sedução
da filha ilegítima, que talvez tenha engravidado dele, eram
reveladas ali em um mundo tão regulamentado quanto amoral.
Mas Casanova publicou muita coisa em vida. Escreveu um
romance de ficção científica em vários volumes, além de uma
história da Polônia, também em diversos volumes; traduziu a
Ilíada para o italiano; compôs quatrocentos poemas; envolveu-
se em uma polêmica desmentindo Voltaire; escreveu cerca de
2 mil cartas sobre quaisquer ideias que lhe viessem à cabeça; e
deixou ainda 3 mil páginas de projetos literários não
finalizados, ao mesmo tempo que se envolvia em casos
amorosos ardentes e intrigas elaboradas. Sua ânsia sexual só
era comparável ao seu ímpeto literário.
A superstição era a regra na Veneza de Casanova.
Acreditava-se que a magia e o demônio levavam as pessoas a
se perder nas ruas labirínticas da cidade e até a enlouquecer.
Os venezianos acreditavam na existência de fantasmas.
Mesmo hoje, alguns juram que, ao encostar a ponta dos dedos
na parede de uma casa, conseguem sentir a presença dos
falecidos e escutar suas vozes.
A República se esparramava por 180 ilhotas em uma
laguna, ou pântano, colonizada por refugiados desesperados
vindos de Roma, Pádua e outras cidades saqueadas por
invasores nos primeiros séculos da Era Cristã. Rebelando-se
contra prelados e generais, eles estabeleceram o primeiro doge
— título derivado de dux, “líder”, em latim — em 726 e
tomaram as rédeas do império. Mercadores venezianos
furtaram as relíquias de Marcos Evangelista — um dos
discípulos de Paulo de Tarso e Pedro — de Alexandria em 828
e as levaram para Veneza, onde permanecem até hoje, na
basílica de São Marcos, o centro espiritual da cidade.
Além dos limites da laguna, o Iluminismo — dedicado à
reforma social, à promoção do conhecimento e à liberdade
sexual — circulava, cultivando novas ideias pela Europa
ocidental, mas os venezianos rejeitavam obstinadamente
influências externas. O instruído e poliglota Casanova
criticava duramente Voltaire e Rousseau, duas figuras
proeminentes do movimento. No entanto, talvez fosse
Casanova que Voltaire tivesse em mente quando, em 1770,
afirmou que o ótimo é inimigo do bom. Casanova estava longe
de ser uma pessoa ótima; sua mensagem era de regozijo na
exploração sexual como caminho para a realização pessoal e a
iluminação. Não obstante, ele conservou sua lealdade à velha
ordem familiar e corrupta; preferia a emoção da escapada à
responsabilidade da liberdade. Acreditava piamente em Deus e
se compadecia dos que não o faziam. Mas, enquanto libertino,
franco-maçom, epicurista e devoto da cabala, estava sempre
tentando romper os limites das instituições venezianas para
exaltar o eu — e a sexualidade. Acreditava em tudo que
aparecia na sua frente: religião, filosofia, magia, ciência e,
especialmente, amor. Ele apimentou a Era do Iluminismo com
sexo e mais sexo. Explorou as mulheres despudoradamente.
Ao mesmo tempo, entregava-se às mulheres que possuía. “Eu
não conquisto, me submeto”, explicou. Exaltava as mulheres
além da razão. Cada envolvimento amoroso era, para ele, uma
reunião de mente e espírito, um vislumbre da eternidade e do
êxtase.
Livro I
VENEZA
1. Zanetta
A primeira mulher importante na vida de Giacomo Casanova foi
sua exibicionista e elusiva mãe, Zanetta Farussi. Conhecida
publicamente por seu nome artístico, La Buranella, um tributo ao local
onde nasceu, a pitoresca e minúscula ilha de Burano, na laguna
veneziana, notável por suas casas pintadas de fúcsia, limão, turquesa,
oliva, amarelo, verde e outras cores caprichosas. Dela, Casanova
herdou uma mistura sedutora de pendor pela astúcia, pela
extravagância e pelo ardil.
Filha de um sapateiro, Zanetta se transformou numa celebrada atriz
e cortesã, a heroína de um conto de fadas para adultos.1 Ela nasceu em
27 de agosto de 1707, filha ilegítima de Girolamo Farussi e da viúva
Marzia Baldissara, e foi batizada em 4 de setembro na antiga igreja de
San Giacomo dell’Orio, no centro de Veneza. Em alguns meses, a
pequena família se estabeleceu na paróquia de San Simeone Grande, e
em 31 de janeiro de 1709 seu pai e sua mãe se casaram e voltaram a se
mudar, agora para a Calle delle Muneghe, uma rua cheia e
movimentada na paróquia de San Samuele.
Aquele inverno registrou as temperaturas mais frias em quinhentos
anos.2 A laguna veneziana se transformou num bloco de gelo. O gado
pereceu, as cristas das galinhas congelaram e caíram, rompendo-se
com o ar frio, e viajantes morreram. A fome era onipresente. Os
venezianos aguentaram firme, como sempre. Grande parte do povo,
que era apaixonado pela arte teatral, encontrava emprego como
cabeleireiros, bilheteiros, professores de canto e atuação, contrarregras
e especialistas em iluminação. Havia entre eles fãs obcecados, puxa-
sacos e pretensos atores. Dramaturgos em busca de atenção liam suas
peças para transeuntes indiferentes, e admiradores secretos das atrizes
tentavam obter um vislumbre de suas divas. Carlo Goldoni, que
estudava para a carreira sacerdotal, fez uma tentativa de adaptar
comédias gregas e romanas para o palco e acabou transformando a
commedia dell’arte, o gênero burlesco recheado de improvisos.3 O
público da época sentia-se perfeitamente familiarizado com seus
personagens típicos — o Pantaleão, o Polichinelo, a Colombina — e
suas peripécias. Todo mundo sabia o que o Arlequim ia dizer antes que
ele abrisse a boca, assim Goldoni inventou novas palavras para o
personagem. Os atores passaram a contar com seus diálogos e
orientações de direção. Para dar conta de suprir o apetite pela
novidade, terminava suas peças em questão de dias. A ideia de
copyright ou direitos autorais era inexistente. Quando Goldoni
entregou dezesseis peças completas para seu gerente numa temporada,
não recebeu bonificação alguma por seu trabalho — “Nem um centavo
a mais do que o salário anual, nada”. Recebia elogios de sobra, mas,
como observou, “não se vive só de glória”.
Em meio a essa efervescência, um jovem ator chamado Gaetano
Casanova ficou enamorado de uma atriz conhecida como La Fragoletta
— “Moranguinho”. Essa criatura voluptuosa na verdade se chamava
Giovanna Benozzi. Em 1713, aproximadamente, Gaetano abandonou
sua Parma natal para se juntar a ela em Veneza, onde a mulher
gerenciava dois teatros, San Luca e San Samuele, em nome da
poderosa dinastia Grimani. Bem depois, Giacomo alegaria ter ouvido
dizer que Gaetano, seu pai, iniciara a carreira como dançarino e, mais
tarde, voltara-se para a atuação, “sendo merecedor de estima ainda
mais elevada por seu caráter do que por seu talento” — um modo
diplomático de dizer que não era bom ator.
Algo deu errado nas investidas de Gaetano sobre La Fragoletta e
ela fugiu para Paris com outra trupe teatral. Permanecendo em Veneza,
Gaetano entrou para a companhia permanente do Teatro San Samuele,
apresentando-se em farsas e pantomimas e indo morar na Calle degli
Orbi, na casa de sapateiros que alugavam quartos para atores. Segundo
Giacomo, a pequena família incluía Girolamo Farussi, sua esposa,
Marzia, e a filha de dezesseis anos do casal, Zanetta.
Gaetano se apaixonou por Zanetta em 1723 e imediatamente
enfrentou resistência. “Por ser um ator”, explicou Giacomo em suas
memórias, “[Gaetano] não podia nutrir esperanças de tê-la com o
consentimento de Marzia, sua mãe, e menos ainda de Girolamo, seu
pai”, que “via atores como uma abominação”.4 Quando Girolamo
faleceu, no ano seguinte, Marzia conservou o direito de viver na Calle
de Muneghe, na casa de uma instituição de caridade, e o principal
obstáculo à união de Zanetta e Gaetano foi removido. Em 27 de
fevereiro de 1724, eles se casaram na igreja de San Samuele.
Segundo o relato exagerado de Casanova, os amantes fugiram para
se casar, com Marzia “protestando de forma histérica” e o pai da jovem
“morrendo de tristeza” pouco após o matrimônio, não antes. Numa
realidade menos novelesca, os recém-casados foram morar com
Marzia, a sogra enviuvada de Gaetano, que acolheu a companhia dos
dois. Por algum tempo, a vida foi tão normal quanto poderia ser para
um casal esforçado de jovens atores em Veneza. Gaetano conservou o
emprego no teatro e Zanetta ocasionalmente pegava pequenos papéis, a
despeito de ter prometido renunciar ao teatro depois de casada. A
jovial soubrette chamou a atenção do dono do teatro, Michele Grimani,
que pertencia à classe dominante de Veneza, uma casta estreitamente
coesa de cerca de quatrocentas famílias. Ele era uma figura augusta de
fato. As fofocas sobre o envolvimento dos dois nunca cessaram,
sobretudo quando Zanetta engravidou — muito provavelmente de
Gaetano.
Casanova escreve que nasceu “desse casamento nove meses
depois, em 2 de abril de 1725”, e foi batizado três dias mais tarde.
Assim diz seu relato oficial sobre suas origens. Em seus últimos anos,
ele revisitou o tema de sua paternidade com a publicação de um longo
relato satírico, Nè amori, nè donne, alegando que Michele Grimani, e
não o atormentado Gaetano Casanova, era seu verdadeiro pai. Grande
parte da identidade e do legado de Casanova como o sedutor galante e
erudito está envolta no enigma de sua paternidade. Se o seu pai foi de
fato o humilde e afável ator de Parma, a persona chamativa que seu
filho forjou para si próprio foi um dos mais bem-sucedidos e
prolongados atos de autoinvenção de sua era, uma performance de vida
inteira capaz de suplantar qualquer coisa que seus pais poderiam ter
imaginado. Mas se o seu pai foi o aristocrático Grimani, seus pais
verdadeiros nunca poderiam ter se casado. A nobreza veneziana com
frequência tinha filhos fora do casamento, ainda que as leis em sua
sociedade proibissem o casamento com pessoas de fora do círculo. Se
Giacomo Casanova realmente era filho ilegítimo de Grimani, ele fazia
parte de uma extensa mas negligenciada classe de crianças, e o
casamento de Zanetta serviu para acobertar sua indiscrição. De um
modo ou de outro, a criança seria um eterno pária, com acesso negado
ao mundo rígido e privilegiado da nobreza veneziana. Enquanto
continuasse em Veneza, seria lembrado de sua falta de status
diariamente. Seria um príncipe ilegítimo ou um pé-rapado? Essa crise
de identidade o estimulou, importunou e atormentou ao longo dos
anos. Ele passaria a vida tentando obter por meio de lisonjas e
ocasionalmente à força um lugar entre o círculo do qual acreditara ter
sido excluído.
Incansável e ambiciosa, Zanetta conseguiu chamar a atenção de
Goldoni, que procurava se moldar à feição de Molière, a grande voz da
comédia francesa do século precedente. Mas ali era a Itália. “Na
França”, um diretor de teatro aconselhou-o certa vez, “você pode tentar
agradar ao público, mas aqui na Itália são os atores e as atrizes que se
deve ter em mente.” Isso era tão verdadeiro na vida como no palco; em
Veneza, as personalidades prevaleciam sobre os costumes, e entre uma
das mais fascinantes que Goldoni conheceu estava Zanetta. Ela lhe
pareceu “linda e muito talentosa” e obteve um papel em seus
interlúdios musicais, encantando o público com seu “bom gosto,
ouvido e execução perfeitos”.5
Enquanto estava em turnê em Londres, Zanetta deu à luz seu
segundo filho, Francesco, em 1727. Giacomo foi a criança que ela
deixou para trás, em Veneza, e Francesco aquela que manteve a seu
lado, em Londres. Ele se tornou seu filho predileto, o que tinha mais
chances de dar certo na vida. E quanto a Giacomo? A ele coube o
papel do filho inconveniente e esquecido. Contudo, essa criança
rejeitada e sem amor se tornou o amante mais famoso dos tempos
modernos, além de gênio matemático e literário. E Francesco? Tornou-
se um artista estimado em sua época; sua fama ultrapassava de longe a
do indecoroso irmão mais velho.
Já adulto, Giacomo ficou a par da carreira teatral da mãe, bem
como de sua tentativa de moldar a própria identidade; ela legou ao
filho o desejo de fazer o mesmo. Anos depois, ele viajaria para
Londres, Dresden e Praga, cidades que a mãe amava e onde havia
morado e se apresentado, como que tentando capturar sua desvanecida
glória. Aonde quer que fosse, buscava o rosto, os lábios, os olhos e o
cheiro de sua jovem mãe em cada amante que conquistava. Em sua
mente, eram todas manifestações de Zanetta; assim ele as seduzia para
que o seduzissem.
A história de como esse patinho feio se transformou no galante
cisne veneziano conhecido como Casanova é extraordinária. Seu
desenvolvimento na infância foi de uma lentidão alarmante. Quando
criança, ele nunca falava e era considerado tolo, fadado ao anonimato.
Giacomo, que acabou por escrever doze tomos de memórias
recordando as pessoas e os eventos de sua vida em cativantes e
primorosos detalhes, alegava não ter nenhuma lembrança dos
primeiros oito anos de sua vida.
Em agosto de 1733, tudo mudou quando seu “órgão da memória se
desenvolveu”. E vejam só:
Eu estava no canto do quarto, apoiado na parede, com a cabeça recostada e
olhando para o sangue que escorria do meu nariz para o chão. Minha avó Marzia,
que me tinha como favorito, aproximou-se de mim, lavou meu rosto com água
fria e, sem informar ninguém na casa, subiu a bordo de uma gôndola e levou-me
para Murano. Trata-se de uma ilha densamente povoada a cerca de meia hora de
Veneza. Deixando a gôndola, entramos em um barraco, onde encontramos uma
velha sentada em um palanque, com um gato preto nos braços e cinco ou seis em
torno. Ela era uma bruxa.

Marzia conversou com a bruxa no dialeto friuliano,


incompreensível para Giacomo, e lhe deu um ducado de prata, ao que
“ela abriu um baú, pegou-me em seus braços, enfiou-me ali dentro,
fechou a tampa e trancou, dizendo-me que não tivesse medo”. Deitado
na escuridão, segurando um lenço junto ao nariz sujo de sangue, ele
escutou “a alternância de risadas e choros, gemidos, cantoria e diversas
batidas surdas no baú”. A bruxa o tirou de dentro e o submeteu a
“inúmeros afagos”. Então o embrulhou num lençol, recitou
encantações, libertou-o e finalmente lhe deu comida, depois voltou a
afagá-lo com um unguento calmante, e conforme o vestia o advertiu de
que seu sangramento diminuiria contanto que não contasse a ninguém
sobre o tratamento. De outro modo, sangraria até a morte. Por fim,
uma “mulher encantadora” o visitaria e sua “felicidade dependeria
dela”.
Ele foi para casa com a avó e, nesse ponto, “vi, ou achei que vi” —
acrescentou cautelosamente — “uma mulher deslumbrante descer pela
chaminé […] usando na cabeça uma coroa com uma profusão de joias
que pareciam cintilar como fogo”. Ela sentou em sua cama e abriu
diversas caixas pequenas. “Após fazer um longo discurso, do qual não
compreendi coisa alguma, e me beijar, partiu como havia chegado.”
Na época, Giacomo não falou com ninguém de seu incidente
místico. Ele o manteve selado “no recesso mais secreto de sua
incipiente memória”, para abri-lo apenas anos mais tarde, quando
escrevia suas memórias. Era sua primeira e mais poderosa lembrança,
seu mito de origem, relatando como o frágil e debilitado Giacomo teve
a saúde restituída por essa mulher benigna, de beleza estonteante. “Os
remédios para as piores doenças nem sempre são encontrados no
boticário”, aconselhava; eles podem ser achados nos rincões mais
distantes do cosmos ou do coração. A despeito dessa manifestação de
uma sensualidade feminina que tanto salvou sua vida como reviveu seu
intelecto hibernante, ele continuou mais cético do que místico. “Nunca
houve magos neste mundo”, explicou, apenas aqueles “capazes de
persuadir [os outros] que são tais coisas”.
Após o tratamento, Giacomo parecia um caso tão perdido quanto
antes, “uma companhia muito débil”, em suas palavras. “As pessoas
sentiam pena de mim e me deixavam sozinho; todo mundo supunha
que eu não viveria muito. Minha mãe e meu pai nunca falavam
comigo.” No entanto, milagrosamente, ele recuperou as forças. A
hemorragia no nariz cessou. Sua mente começou a se agitar e “em
menos de um mês aprendi a ler”.
Com o intelecto, veio a decepção. Três meses depois, Giacomo
recorda com um estremecimento, ele e seu irmão mais novo,
Francesco, estavam observando o pai trabalhar em sua oficina de
oculista. “Sobre a mesa, notei um grande cristal redondo lapidado em
facetas.” Era fascinante segurá-lo diante dos olhos e ver “tudo
multiplicado”. No momento seguinte, “percebendo que ninguém me
observava, aproveitei a oportunidade para enfiá-lo no bolso”. Enquanto
seu pai procurava o valioso objeto, Francesco afirmou com sinceridade
não saber nada a respeito, e o dissimulado Giacomo alegou o mesmo.
Gaetano ameaçou dar uma surra no culpado. O jovem Giacomo
fingiu procurar o cristal antes de transferi-lo para o bolso do irmão
inocente. “Fiquei com pena na mesma hora”, admitiu, “mas o crime já
fora cometido. Meu pai, exasperado com nossos esforços inúteis, faz
uma revista em nós, encontrou o cristal no bolso de meu pobre irmão e
lhe infligiu o castigo prometido.” Giacomo foi incapaz de ficar de bico
fechado: “Três ou quatro anos mais tarde, fui estúpido o bastante para
me gabar com meu irmão de que eu lhe passara a perna naquele
episódio. Ele nunca me perdoou e aproveitava toda oportunidade para
se vingar”. Francesco seria o primeiro de muitos homens a se indispor
com Giacomo.
Seis semanas depois, tragédia bem maior ocorreu. Nas palavras de
Giacomo, “meu pai foi atacado por um abscesso na cabeça, na altura
do ouvido, que o levou para o túmulo em uma semana”. Os remédios
aplicados por um médico apenas agravaram o quadro.
Dois dias antes de morrer, Gaetano convocou a família e os amigos
mais próximos; entre eles incluíam-se o Signor Grimani, o nobre
veneziano que diziam ser amante de Zanetta. Gaetano os fez prometer
que protegeriam seus filhos e, chorando copiosamente, pediu mais uma
coisa. “Fez nossa mãe, que se desmanchava em lágrimas, jurar que não
conduziria nenhum de seus filhos para os palcos, onde ele nunca teria
pisado não fosse o fato de ter sido levado a isso por uma desafortunada
paixão. […] Ela prometeu.”
Zanetta, que precisava da renda no teatro para alimentar as
crianças, estava grávida de seis meses. Ela nunca voltou a se casar —
“com toda sua beleza e juventude, recusou todos os pretendentes que
vieram pedir sua mão”. Quanto a Giacomo, “eu estava extremamente
debilitado, sem apetite, era incapaz de me empenhar no que quer que
fosse, e parecia um idiota”.
Continuava perdendo grandes quantidades de sangue, até mais,
assim parecia à sua família, do que seu pequeno corpo era capaz de
produzir. Os médicos chegavam com expressão sombria; um deles o
aconselhou a respirar de boca aberta para manter os pulmões cheios.
Um amigo de seu pai, um poeta e aristocrata chamado Signor Baffo,
determinou que o menino devia ser mandado a Pádua para tratamento,
“e a quem, por consequência, devo minha vida”.
Um padre conhecido da família localizou uma pensão em Pádua
para o menino. “Em 2 de abril de 1734, dia em que completei nove
anos, fui levado a Pádua em um burchiello”, o que, explicou ele, “pode
ser considerado uma pequena casa flutuante. Ele possui um salão com
uma cabine em cada ponta e alojamentos para criados à popa e à proa”.
Os burchiellos serviam para festas flutuantes e inspiraram uma torrente
de escritos exaltando-os. Goldoni, Byron, Goethe, Montaigne e
também Casanova louvaram essas embarcações em suas produções
literárias.
A viagem pela água durou a noite toda. Ao amanhecer, sua mãe
“abriu uma janela que ficava diante da cama, e os raios de sol nascente
incidindo em meu rosto fizeram-me abrir os olhos”. E, quando fez isso,
ele vislumbrou um desfile de árvores passando lentamente. “‘Ah!
Minha querida mãe!’, exclamou, ‘o que significa isso? As árvores
estão andando.’” Quando os presentes riram da pobre criança, ela
explicou: “É o barco que está se movendo, não as árvores. Vista-se”.
Começando a raciocinar, ele decidiu ser possível que “o sol não se
movia, e somos nós que vamos do oeste para o leste”. Zanetta,
impaciente, “deplora tamanha estupidez, o Signor Grimani se
compadece de minha falta de inteligência e eu fico completamente
perplexo e à beira das lágrimas”. Por sua vez, o Signor Baffo o
tranquiliza: “Tendes razão, minha criança. O sol de fato não se move,
sede corajoso, raciocinai sempre com lógica e deixai que os outros
riam”. Profundamente desconfiada desse conselho tão radical, Zanetta
perguntou ao aristocrata se ele estava “fora de si”, ao que ele
respondeu com uma “teoria adaptada à minha razão simples, intacta”.
A afirmação do poder da razão significou muita coisa para a criança
aflita: “Esse foi o primeiro prazer real de que desfrutei em minha
vida”.
Finalmente chegaram a Pádua, a cerca de cinquenta quilômetros de
Veneza. A cidade mantinha estreitas relações com Veneza, mas, ao
mesmo tempo, ficava a um mundo de distância. Quem desejava fugir
das restrições e da perpétua penumbra de Veneza procurava os amplos
espaços abertos e banhados de sol de Pádua. Veneza era o bastião do
comércio, combate e misticismo; Pádua, centro de fé e aprendizado.
Sua gigantesca Basilica Pontificia di Sant’Antonio di Padova atraía
peregrinos de toda a Europa que vinham venerar o túmulo de Antônio
de Pádua, “il Santo”, venerado como mestre e canonizado apenas um
ano após sua morte, em 1231, com a idade de 35 anos.
1. Balsa do correio veneziana, ou burchiello, por Giandomenico Tiepolo.

Fundada em 1222 como uma escola de direito, a Universidade de


Pádua era considerada uma das maiores e mais influentes instituições
de seu gênero na Europa. Qualquer veneziano procurando ensino ia
para lá, porque a própria Veneza, com todos os seus palácios, igrejas,
teatros e oficinas, não tinha universidade. Com o tempo, a escola de
direito se expandiu e uma escola de medicina foi aberta. O anfiteatro
de anatomia atraía tanto médicos como artistas para estudar
dissecações. O jardim botânico da universidade reivindicava ser a mais
antiga instalação acadêmica de seu tipo. Nicolau Copérnico estudou
medicina ali. Galileu Galilei ocupou a cátedra de matemática da
universidade de 1592 a 1610.
O lugar fervilhava de alunos, com seus debates calorosos,
inquietação intelectual e protestos. Devagar, o jovem Giacomo
começou a florescer. Após a partida da mãe, ele ficou brevemente na
casa de um amigo da família chamado Ottaviani, “cuja esposa fez-me
muitos afagos”. Os cinco ou seis filhos de Ottaviani prometiam dar um
fim a seus anos de isolamento.
Lamentavelmente, sua estadia foi curta. Ele foi logo mandado para
a casa de uma “senhora eslovena” que vivia a cinquenta passos dali e
via em seu jovem inquilino uma fonte conveniente de renda. Com a
mágoa da época ainda fresca na mente sete décadas depois, ele
recordou sua chegada à pensão da mulher: “Meu pequeno baú foi
aberto em sua presença e foi lhe dado um inventário de tudo que
continha”. Ela exigiu e recebeu pagamento adiantado referente a seis
meses. “Por apenas seis zecchini cabia-lhe me alimentar, manter-me
asseado e arrumado e me mandar para a escola.” A mulher protestou
que a quantia não bastava para cuidar dele, mas nenhum de seus
parentes lhe deu ouvidos. “Ganhei um beijo, fui instruído a obedecer-
lhe sempre em tudo e deixado ali onde estava. Assim se livraram de
mim.”
Sua senhoria eslovena lhe mostrou a cama onde dormiria, no sótão,
“a última numa fileira de outras quatro, três das quais pertencentes a
meninos de minha idade, naquele momento na escola, e a quarta à
criada, que era incumbida de nos fazer dizer nossas orações e de ficar
de olho em nós, para que não nos entregássemos às travessuras e
impudência típica de meninos”. Em meio a esse ambiente novo e
austero, o jovem inocente ficou entorpecido, “nem feliz, nem infeliz;
eu nada disse; não senti esperança nem desespero, tampouco
curiosidade”. Sua senhoria lhe causava repulsa. “Seus traços
masculinos me desolavam toda vez que eu erguia os olhos para seu
rosto de modo a escutar o que me dizia.” O cabelo preto, a tez
amarelada, as sobrancelhas grossas enregelavam seu coração; ele não
conseguia desviar o olhar dos horrendos pelos que brotavam daquele
queixo. Seus seios eram “hediondos, semiexpostos” e “flácidos, com
um grande vão entre eles que descia até a metade de seu corpo alto”.
No almoço, “sentei à mesa e, vendo uma colher de pau diante de
mim, empurrei-a e pedi meus talheres de prata, presente de minha avó
e que me eram muito queridos”, mas teve seu pedido negado. Tinha de
se adaptar aos demais meninos enquanto estivesse sob o teto da
mulher. Igualdade era o lema, de modo que tomou sua sopa como
fizeram os outros, direto da terrina, como se não fossem muito
diferentes de porcos diante da gamela. A sopa repugnante deu lugar a
um bacalhau seco e duro e uma maçã — nada além. Era época da
Quaresma, assim foram lembrados, e isso significava que não
receberiam copos. Todo mundo bebia de uma mesma jarra de cerâmica
contendo a grappa, um resíduo dos talos de uva fervidos — nem
sequer as próprias uvas.
E então chegou a hora de conhecer seu professor, um padre
chamado Antonio Maria Gozzi, destinado a passar toda a sua carreira
em paróquias nos arredores de Pádua. A senhoria de Giacomo pagou
ao padre uma ninharia para dar aulas ao recém-chegado. O dr. Gozzi,
com no máximo 26 anos, pelas estimativas de Giacomo, era
“gorducho, modesto e cerimonioso”.6 Aos nove anos, Giacomo parecia
decididamente lerdo, então o dr. Gozzi o colocou junto com meninos
de cinco anos que aprendiam a escrever. As crianças “começaram a
zombar de mim na mesma hora”.
A ceia se revelou ainda mais nauseabunda e parca do que o
almoço, e então era hora de ir para a cama e conhecer novos horrores:
“Três insetos não me permitiram cerrar os olhos”. Ratos corriam pelo
assoalho e pulavam em sua cama, “enchendo-me de um medo que
gelava meu sangue”. De seu sofrimento, Giacomo extraiu uma moral:
“Desse modo aprendi o significado da infelicidade e a suportar o
infortúnio com paciência. Entrementes, os insetos que me devoravam
minimizaram o terror inspirado pelos ratos, e meu terror, por sua vez,
deixou-me menos consciente das picadas dos insetos. Minha alma tirou
proveito da competição entre minhas aflições”.
Quando os primeiros raios de sol irromperam na escuridão do
sótão, Giacomo se levantou de seu “ninho de pragas”. A criada chegou,
o menino se queixou de suas aflições e pediu uma camisa limpa, “já
que a que usava estava terrível com as manchas de piolho”. Nada de
roupa limpa para ele, não nessa manhã, apenas aos domingos. Ele
ameaçou protestar com a senhoria insensível e desleixada, e a resposta
da criada a seu sofrimento foi uma gargalhada. “Escutei meus
companheiros zombando de mim. Estavam nas mesmas condições que
eu, mas haviam se acostumado àquilo.”
Giacomo cochilava durante as aulas matinais, até que o dr. Gozzi
resolveu descobrir o que havia de errado. Privadamente, o menino lhe
contou de suas agruras, e o professor examinou as picadas inflamadas
em seu jovem corpo. Com isso, conduziu-o de volta à pensão,
confrontou a senhoria, que pôs a culpa na criada, que por sua vez
culpou a senhoria pela infestação. Gozzi descobriu que todas as camas
eram igualmente abjetas. A resposta da senhoria foi dar um tabefe na
criada; então a criada devolveu o tabefe e se afastou furiosamente,
enquanto o padre repreendia de forma severa a eslovena, afirmando
que Giacomo não poderia voltar às aulas enquanto ela não tomasse as
providências para que ficasse “tão limpo quanto os demais alunos”.
Quando o padre partiu, Giacomo recebeu uma “violenta bronca”. Se
algum dia fizesse todo aquele alarde por coisa nenhuma outra vez,
advertiu a mulher, ela o expulsaria da pensão.
“Fiquei completamente desnorteado”, ele disse. Mas ganhou uma
camisa limpa — atirada em seu rosto — e não muito depois a criada —
uma nova — trocou seus lençóis encardidos.
Com as condições de moradia por ora ajeitadas, Giacomo se
debruçou nos estudos. Um preceptor afável, o dr. Gozzi “punha-me
sentado a sua própria mesa, onde, para convencê-lo de que merecia a
distinção, apliquei-me a estudar com toda minha energia”. Ao final do
mês, “eu estava escrevendo tão bem que ele passou a me dar aulas de
gramática”.
Seu amadurecimento físico veio com o intelectual, e ele começou a
se desenvolver. “A nova vida que eu levava, a fome que fui forçado a
suportar e, acima de tudo, o ar de Pádua trouxeram-me uma saúde que
antes nunca imaginara.” Não mais enfermiço, começou a espichar. A
robustez súbita veio acompanhada de um novo tormento: “Eu era
esfomeado como um cão”. Quando finalmente comia, dormia — “nove
horas do sono mais profundo, sem ser perturbado por sonho algum”, a
não ser por um em que “satisfazia meu cruel apetite”. Para suplementar
a comida recebida na pensão, Giacomo resolveu “roubar e engolir tudo
de comestível em que pudesse pôr as mãos quando tinha certeza de não
estar sendo observado”. Ele devorou cinquenta arenques defumados;
enormes quantidades de linguiça crua; ovos recém-postos, ainda
quentes — tudo “comida fina”. Saqueou até a despensa do dr. Gozzi.
Mesmo assim, continuou “magro como um esqueleto, só pele e osso”.
Fez rápido progresso intelectual, enchendo a cabeça não menos do
que a pança. Em seis meses, o dr. Gozzi o designou como proctor, ou
monitor, dos outros alunos. Ele tentou ser rígido, mas, admitiu, os
meninos aprenderam a cair em suas boas graças e a abrandar a
severidade de seu julgamento com pequenos subornos de “frango
assado e escalope, e muitas vezes me davam dinheiro”, coisa que só
serviu para transformá-lo, segundo sua própria descrição, em um tirano
que sonegava aprovação a menos que recebesse o incentivo
apropriado. Os alunos extorquidos por ele se uniram para denunciá-lo
ao mesmo dr. Gozzi que pouco antes acorrera em seu auxílio. O padre
destituiu Giacomo de suas atribuições como monitor, porém, ainda
enxergando uma chance de bondade no rapaz, propôs um esquema
para libertá-lo da pavorosa senhoria eslovena e passar a se hospedar
com ele. Tudo que ele tinha a fazer era escrever uma petição para o
Signor Baffo e sua mãe a fim de efetuarem a mudança. Mas sua
irrequieta mãe estava ocupada com a carreira de atriz e a vida amorosa,
e desse modo ele a substituiu por sua “boa avó”. Descreveu “todos os
meus sofrimentos” para ela “e profetizei minha morte caso não fosse
resgatado das garras da eslovena e alojado com meu mestre-escola, que
estava disposto a me receber mas pedia dois zecchini por mês”.
Grimani negou o pedido, porém sua adorada avó analfabeta,
ouvindo-os conversar sobre o conteúdo da carta, descobriu o covil da
ignóbil velha eslovena. “Assim que a vi, atirei-me em seu pescoço,
incapaz de conter as lágrimas, no que ela instantaneamente me
acompanhou.” Ele lhe mostrou a refeição escassa e a cama detestável.
Sofrera ali por seis meses! A senhoria informou Marzia secamente que,
em razão da parca soma paga por sua família, aquilo era o melhor que
podia ser oferecido. “Era verdade”, recordou Casanova, “mas quem a
obrigava a manter uma pensão e desse modo se tornar a assassina dos
meninos que a avareza entregava aos seus cuidados?”
A avó de Giacomo instruiu o menino a fazer a mala, pois estavam
de partida dali. Ele carregou os talheres de prata consigo, como
evidência de seu valor negligenciado. Ela o levou para uma hospedaria,
onde ficou admirada de seu apetite voraz. Então o dr. Gozzi apareceu,
e travaram uma breve negociação referente ao futuro do jovem. Os
termos: 24 zecchini por um ano de alojamento, quantia pela qual ele
lhe daria um recibo. Mas ela ainda não terminara com o neto. Passou
os três dias seguintes obtendo roupas para ele se vestir de abade em
treinamento — abades geralmente usavam preto, eram proibidos de
dançar e duelar, mas de resto viviam como qualquer pessoa. Fez ainda
com que ele cortasse o sujo e embaraçado cabelo e lhe providenciou
uma peruca.
Por mais estranha que possa parecer a escolha de carreira para o
menino, suas opções eram limitadas. Filho de um ator e uma atriz, ele
não tinha lugar na sociedade. Não haveria fortuna a herdar,
propriedade a administrar, herdeira com quem se casar. As leis e os
costumes venezianos proibiam que se casasse com uma aristocrata. Ele
podia se tornar comerciante, um sapateiro, por exemplo, como o avô.
Como padre, por outro lado, evitaria a penúria, e se viesse a ser
intelectualmente dotado, talvez fizesse um nome para si. Para a família
seria uma honra dar um filho para a Igreja. Zanetta escreveu de
Varsóvia para encorajar o plano: “Podes imaginar meu conforto se
dentro de vinte ou trinta anos souber que és um bispo?”.
Como preparativo para essa nova etapa de sua vida, Giacomo
juntou-se à pequena família do dr. Gozzi: sua mãe, “feia, velha e mal-
humorada”; seu pai, que “trabalhava o dia inteiro e nunca falava com
ninguém”, a não ser em suas ocasionais idas à taverna, de onde voltava
invariavelmente “irascível e embriagado”; e a irmã mais nova do
padre, Bettina, de treze anos, “linda, alegre, leitora de romances”. Ela
se tornou o primeiro amor de Giacomo: “Foi ela que pouco a pouco
acendeu em meu coração as primeiras centelhas de um sentimento que
mais tarde passou a ser minha paixão dominante”.
Por ora, Giacomo admirava Bettina à distância, enquanto estudava
com o dr. Gozzi, cujos alunos haviam debandado. “Todos os demais o
deixaram, pois eu era o objeto solitário de suas atenções.” Para
compensar a perda da renda, o padre decidiu começar um pequeno
internato, mas levaria dois anos para pôr esse projeto em andamento.
“Durante esses dois anos, ensinou-me tudo que sabia, o que, para ser
honesto, era muito pouco”, escreveu seu pupilo, “mas o suficiente para
me iniciar em todos os ramos do aprendizado.” Ao mesmo tempo, o
bom padre iniciou o rapaz nas complexidades do violino, outro recurso
que se provaria ocasionalmente valioso. Casanova tinha pouco amor
ou aptidão para a música, por mais estranho que seja, mas em Veneza o
pendor por fazer música era uma habilidade de sobrevivência tão
inestimável quanto manejar uma arma.
Os dois se envolviam em discussões filosóficas sob o estímulo de
suas aulas. Quando o padre tentou enfiar na cabeça dura de Giacomo a
crença de que Deus criara o universo do nada, o menino alegou
“provar” que a ideia era absurda. O dr. Gozzi redarguiu que o jovem
era um “tolo”, e o debate foi retomado. Com toda a polêmica, o
menino nunca perdeu a consideração pessoal pelo mestre, notando que
o padre “ria da estupidez de pessoas que perdiam tempo lendo jornais,
que, segundo ele, nunca diziam a verdade e sempre falavam a mesma
coisa”. Ele se opunha à “incerteza” e até “ao pensamento, pois
engendrava a dúvida”.
Aos domingos ele dava sermões, recheados de passagens em latim
e grego asseverando que “o pecado da carne era o maior de todos os
pecados”, que enchiam os bancos de sua igreja de mulheres. A visão
impressionava Giacomo, que estava despertando para a atração
feminina. Ele implicou com os textos, afirmando que o pecado da
carne era o menor de todos os pecados, enfurecendo seu mentor.
No início de 1736, quando Giacomo estava prestes a completar
onze anos, sua mãe, impulsiva como sempre, convidou o dr. Gozzi
para levar o filho a Veneza, aonde regressara para um breve interlúdio
de sua temporada teatral em São Petersburgo. O dr. Gozzi, um humilde
padre de Pádua, “nunca conhecera Veneza nem a boa sociedade e não
queria aparentar ser um noviço em nenhum aspecto”. Em pouco tempo
ele e Giacomo embarcaram em um elegante burchiello com destino a
Veneza. Zanetta, experiente na arte de causar impressão, recebeu o
filho e o dr. Gozzi “com perfeitas boas maneiras”, porém o padre “viu-
se na desconfortável situação de ter de conversar com ela, mas sem ter
coragem de lhe fitar o rosto”. Ela, por sua vez, não pôde resistir a
flertar com o homem.
Após uma ausência de dois anos, a criança desajeitada e obtusa se
transformara em um rapaz calmo e composto, usando uma peruca loira,
que, como ele recordou, “destacava-se contra minha tez escura e fazia
o contraste mais gritante com minhas sobrancelhas e olhos negros”.
Zanetta encarregou Bettina, a quem Giacomo era tão afeiçoado, de
cuidar de sua aparência e encomendou uma peruca nova, mais
elegante, para combinar com sua pele escura. Ele avaliou seus irmãos:
Francesco e seus desenhos, “que fingi considerar razoáveis”; e
Giovanni, que lhe pareceu “um estúpido”. Os outros eram novos
demais para ser levados em consideração.
À mesa do jantar nessa noite, o dr. Gozzi protagonizou um episódio
embaraçoso quando um inglês, convidado da família, dirigiu-lhe a
palavra, esperando que o padre respondesse em latim, ao que ele
afirmou constrangido que não falava inglês. Em seguida o homem
resolveu pôr à prova as capacidades do precoce Giacomo com uma
charada picante em latim: por que a palavra latina para vagina —
cunnus — era masculina e a palavra para pênis — mentula — era
feminina? Onde estava a lógica disso?
Giacomo alegou ter respondido em pentâmetro latino: “Porque o
escravo assume o nome de seu senhor” (Disce quod a domino nomina
servus habet). Satisfeito consigo mesmo e com o que chamou de sua
primeira façanha literária, “as sementes do desejo pela fama que
advém da literatura foram plantadas em minh’alma”. E assim o amante
mais célebre da história deu seus primeiros passos rumo à
imortalidade, pelo menos aos seus próprios olhos.
“O inglês se impressionou e, após comentar que nenhum menino
de onze anos jamais fizera tal coisa, primeiro me abraçou diversas
vezes e em seguida me presenteou com seu relógio.” Deliciada com o
filho precoce, Zanetta apareceu com outro relógio, esse para o dr.
Gozzi, “cuja incapacidade de expressar a extensão de sua gratidão para
com ela transformou a cena numa comédia”. Zanetta beijou o padre em
ambas as bochechas e depois ofereceu o rosto para que ele fizesse o
mesmo, “mas o pobre homem ficou tão constrangido que preferiria ter
caído duro ali mesmo a retribuir o tratamento”. Quatro dias mais tarde,
quando a visita se encerrou, “minha mãe deu-me um presente para
entregar a Bettina e o abade Grimani deu-me quatro zecchini para
comprar livros. Uma semana depois, minha mãe voltava a São
Petersburgo”.
Em Pádua mais uma vez, o dr. Gozzi, fascinado com a coquete
Zanetta, não parou de falar nela pelos quatro meses seguintes. Bettina
se afeiçoou ainda mais a Giacomo quando abriu seu presente, uma
generosa medida de seda e doze pares de luvas. Ela escovava o rapaz
com intimidade crescente: “Ela cuidou tão bem do meu cabelo que em
menos de seis meses pude abandonar o uso da peruca. Vinha pentear
meu cabelo todos os dias, e quando eu continuava deitado, dizendo não
ter tempo para esperar que eu trocasse de roupa. Lavava meu rosto,
meu pescoço e meu peito e fazia-me carícias infantis que, na medida
em que eu tendia a considerá-las inocentes, levavam-me a ralhar
comigo mesmo por permitir que me atormentassem”, e como o
atormentavam. Mesmo assim, era mais velha “e não podia me amar
com qualquer intenção maldosa, e isso deixou-me furioso com o mal
que percebia em mim”. Quando ela apertava sua carne para mostrar
como estava ganhando peso, “excitava as emoções mais intensas em
mim”. E quando “dizia que eu tinha a pele macia, as cócegas me
faziam recuar, e eu ficava irritado comigo mesmo por não ousar fazer o
mesmo com ela”. Quando o lavava, ela o cobria “dos beijos mais
doces” e o chamava de “criança querida”, mas ainda assim ele se
refreava conforme ela o provocava por sua “timidez”. Quando ela por
fim saía de seus aposentos, aparentemente imperturbada por esses
encontros, ele mergulhava no desespero “por não ter seguido minha
inclinação natural”.
Para piorar as coisas, um jovem de quinze anos chamado Candiani
apareceu, e não havia como deixar de perceber a atração que exerceu
sobre Bettina. Giacomo alega que não sentiu “ciúme nem indignação”
com o novo rival, “pois, sendo um bronco, ignorante, estúpido e
rústico filho de fazendeiro”, Candiani não podia competir com ele,
exceto pelo fato de que o menino mais velho já atingira a puberdade.
Bettina acusou Giacomo de inveja, a provocação perfeita. Pouco
depois, foi até sua cama para presenteá-lo com meias brancas que
tricotara para ele. Enquanto penteava seu cabelo, instruiu-o a calçá-las,
para ver como ficavam. (O dr. Gozzi estava fora, na missa, assim
como, presume-se, o bruto Candiani.) Ela sentou em sua cama e,
enquanto punha as meias nele, disse a Giacomo que suas coxas
estavam sujas e “imediatamente começou a limpá-las sem me pedir
licença” — como se ele fosse negá-la! Ele sucumbiu a um “sentimento
voluptuoso” que ela continuou a estimular até finalmente chegar ao
ápice, para sua grande mortificação. Ele se desculpou por ter
“cometido um crime”, mas Bettina lhe disse que “a culpa era toda
dela”. Ela tomaria o cuidado para que aquilo nunca voltasse a
acontecer, e desse modo o deixou em um estado de total confusão.
Ele expiaria seu pecado casando-se com Bettina, se ela o aceitasse,
mas nunca teve oportunidade de lhe pedir a mão. Dia após dia se
passou sem que ela voltasse a visitar sua cama, e ele ficou mergulhado
na “mais sombria melancolia”. Seu comportamento calculista só podia
significar que o amava. Ele escreveu para se defender. “Julguei minha
carta uma obra-prima e mais do que suficiente para levá-la a me adorar
e preferir a Candiani, que eu considerava uma besta embrutecida.” Na
resposta, ela disse que visitaria a cama de Giacomo, mas continuou
mantendo distância. “Fiquei furioso”, observou ele. No jantar, ela
perguntou a Giacomo se ele gostaria que o vestisse “de menina para ir
com ela ao baile” que seria dado por um vizinho, o dr. Olivo. “A mesa
inteira aplaudiu a ideia e eu consenti.” Mas isso nunca aconteceu; em
vez disso, uma “verdadeira tragicomédia” se seguiu.
Ouvindo dizer que o dr. Gozzi estaria fora, Giacomo informou
Bettina que deixaria sua porta aberta, na expectativa de uma visita a
altas horas. Retirando-se para o quarto, ele apagou a vela e esperou.
Por volta da meia-noite ela ainda não aparecera, e a neve caía.
Finalmente, ao alvorecer, tendo esperado em vão a noite inteira, ele
desceu a escada na ponta dos pés e se aproximou do quarto onde
achava que Bettina estaria dormindo, mas a porta estava trancada.
Quando enfim foi aberta, Giacomo deparou com Candiani, “que me
desfere tal pontapé na barriga que caí esticado, meio enterrado na
neve”. Voltando a se levantar, Giacomo ameaçou estrangular Bettina,
mas ela se refugiara atrás de outra porta trancada. Ele chutou a porta
com toda força, e um cachorro, assustado, começou a latir. Arrasado,
Casanova correu para o quarto, atirou-se na cama e tentou se recobrar
da humilhação. Ele teria sua vingança… envenenaria os dois…
contaria ao preceptor sobre os delitos de Bettina. Mas era jovem
demais para tais “planos heroicos de vingança”. Dias depois, foi
surpreendido pelos lamentos da mãe de Bettina, pois sua filha estava
morrendo.
“Aflito de que pudesse morrer antes que eu a matasse, levantei-me,
desci e a encontrei na cama de seu pai, sofrendo terríveis convulsões.”
A visão era aterrorizante. “Ela se debatia, se contorcia, golpeava a
esmo com os punhos e os pés, desvencilhava-se com violentos puxões”
dos familiares que “tentavam imobilizá-la”. O dr. Olivo, que era
médico, chegou ao leito, bem como a parteira, e constataram que
Bettina não estava em trabalho de parto, mas tendo ataques. Giacomo,
assistindo à cena, espantado, admirou-se de que pudesse “possuir
tamanha força” e atribuiu a culpa por seus descontrolados espasmos ao
encontro com Candiani. Após vasculhar os bolsos da roupa de Bettina
e descobrir uma carta de Candiani planejando a sem-vergonhice mais
recente, ele se deu conta, com uma sofrida gargalhada, de que bancara
o “perfeito idiota”, e como resultado, “acreditei estar curado de meu
amor”. Ele desprezaria Bettina e perdoaria Candiani — até se lembrar
do maldoso pontapé desferido pelo rapaz.
As convulsões de Bettina voltaram no dia seguinte e duraram a
noite toda. Pela manhã, a mãe da menina declarou que a criada idosa
da família era na verdade uma bruxa e fora a responsável pela desgraça
da filha. Como prova, afirmou que ela tinha o hábito de fazer uma
barricada na porta de seu quarto com vassouras cruzadas. Exigiu saber
onde a criada estivera na quinta-feira anterior, à noite, e acusou-a de
comparecer a um sabá, “pois és uma bruxa e enfeitiçaste minha filha”.
Ela cuspiu no rosto da criada e “ergueu a bengala para aplicar uma
surra na velha”, que foi embora da casa.
O dr. Gozzi saiu em seu encalço e lhe deu algumas moedas para
que não mencionasse o episódio a ninguém. Depois, voltou para casa
sabendo o que devia fazer: Bettina estava possuída pelo demônio e ele
teria de realizar um exorcismo.
Um silêncio desceu sobre a família Gozzi, e o rito começou.
Giacomo permaneceu cético durante todo o episódio. “Achei que
aquelas pessoas eram insanas ou idiotas”, declarou em suas memórias.
“Não conseguia imaginar demônios no corpo de Bettina sem dar
risada.” Não que lhe faltasse fé — pelo contrário, ele permaneceu
devoto a vida toda —, mas esse comportamento em nome da religião
lhe pareceu um disparate.
O padre e o dr. Gozzi murmuravam entre si algo sobre a fé, e
Giacomo, acreditando não estar sendo observado, curvou-se e
sussurrou em seu ouvido: “Tende coragem, recuperai-vos e contai com
meu silêncio”. O dia passou quieto; talvez o exorcismo houvesse
funcionado; talvez suas palavras de conforto a tivessem curado.
Contudo, no dia seguinte ela ficou delirante, balbuciando em latim e
grego. Era hora de medidas mais enérgicas.
A mãe de Bettina procurou o “exorcista mais célebre de Pádua”,
que acontecia de ser um “monge capuchinho extremamente feio
chamado Fra Prospero da Bovolenta”. (Os capuchinhos pertencem a
um ramo da austera ordem franciscana; em geral usam barba e seu
nome é derivado do capuz, ou cappuccio, em seu hábito.) Ao ver o
monge, Bettina riu, chamando-o de “impostor ignorante, desprezível”,
entre outros insultos. O frade “começou a estapear Bettina com um
grande crucifixo, afirmando que batia no demônio”, com Giacomo
observando tudo, perplexo. O monge recuou “apenas quando viu que
ela estava prestes a jogar um penico em sua cabeça”.
O capuchinho exigiu falar com o demônio e Bettina respondeu que
se ele cortasse a barba, o demônio, falando por meio de Bettina, iria
embora. Giacomo riu com tanta força que o capuchinho ordenou que o
menino saísse do quarto. Na porta, ele viu Bettina cuspindo na mão do
exorcista quando ele a instruiu a beijá-la. “Ali estava aquela jovem
incrivelmente talentosa, confundindo o capuchinho, e no entanto
ninguém ficou surpreso porque todas as suas palavras eram atribuídas
ao diabo!” Mais tarde, ela jogou na cara do frade algum tipo de líquido
preto e nojento, que respingou em Candiani, para deleite de Casanova.
Finalmente o capuchinho entregou os pontos, frustrado, dizendo ao dr.
Gozzi para encontrar outro exorcista.
A família Gozzi retomou a tranquilidade do dia a dia. Bettina
dormiu calmamente e apareceu à mesa do jantar para se unir à família.
Como se nada tivesse acontecido, conversou animadamente sobre
comparecer ao baile no dia seguinte e esperava que Giacomo
mantivesse a palavra e lhe fizesse companhia indo vestido de garota;
ela planejava pentear seu cabelo de manhã, ignorando seu conselho de
repousar e ficar calma após a provação que sofrera. Sozinho no quarto
nessa noite, ele encontrou o seguinte bilhete em sua touca de dormir:
“Se não fordes ao baile comigo vestido de menina, mostrar-vos-ei algo
que vos fará chorar”. Mas ele respondeu que não iria.
Pela manhã, ela retomou as vociferações demoníacas, e o dr. Gozzi
se preparou para consultar outro exorcista, o eminente padre Mancia,
que causou formidável impressão, “alto e majestoso, com cerca de
trinta anos de idade”, cabelo loiro e olhos azuis. Passaram horas juntos,
rezando e meditando, e no fim ela pareceu curada. Melhor ainda,
escreveu um bilhete a Giacomo explicando que parara de ver Candiani
“desde a noite fatal que me deixou miserável” e, ainda melhor, “é a vós
somente que devo minha vida e honra”.
Giacomo detectou um “desaforo sem paralelo” no esforço de
“prender-me em seus grilhões outra vez”. Onde ela aprendera seus
ardis? Nas páginas dos romances que lia, ele supôs. Mais tarde, quando
visitou sua cama, onde ele se recuperava de dolorosas frieiras
ocasionadas pelo frio incessante, ele calmamente a repeliu: ela havia
“sufocado a semente de uma bela paixão de uma hora para outra”,
referindo-se ao pontapé humilhante e exasperante que recebera de
Candiani. Desde então passara a “desprezá-la”. Por fim, ele a perdoou
e até passou a ter uma apreciação por sua inteligência. “Fui feito de
bobo pelo seu intelecto, mas não tinha importância: ele existe, é
espantoso, divino, eu o admiro, adoro.” Ele exigiu que ela o tratasse da
mesma forma, com respeito e amizade, “pois sou capaz de amar apenas
se tiver certeza de estar sendo amado sem rival”. Bettina insistiu que
nunca amara Candiani e se desmanchou em lágrimas.
“O que acabara de me contar era plausível”, decidiu Giacomo, “e
lisonjeiro: mas já acontecera coisas demais.” O espectro de Candiani
continuava a pairar sobre ambos. Bettina desfiou uma elaborada
história recheada de meias verdades sobre como planejava acertar as
coisas com Candiani e sua família. “Dizem que estou enfeitiçada e que
demônios tomaram o controle de mim. Nada sei de tais coisas; mas, se
for verdade, sou a mais infeliz jovem que já viveu.” Ou a mais
ardilosa, pensou Giacomo. E ele ficou incomodado com o belo padre
Mancia. “O modo como vossos demônios preferem os exorcismos do
belo monge aos do feio capuchinho não fala em favor de vossa honra”,
advertiu-a.
A provação de Bettina recomeçou. Sofreu delírio e febre, e
manchas — varíola — surgiram em sua pele. “A pobre Bettina estava
tão coberta pelas manchas pestilentas que no sexto dia era impossível
ver qualquer pedaço de sua pele no corpo. Seus olhos se fecharam e
todo seu cabelo teve de ser cortado.” Para piorar, “descobriu-se que sua
boca e garganta estavam tão cheias de manchas que nada além de umas
poucas gotas de mel podiam ser introduzidas em seu esôfago”. Sua
cabeça inchou “até ficar um terço maior”. O nariz desapareceu em seu
rosto e temia-se que ficasse cega. E ainda havia o “suor malcheiroso”
que ele se forçou a suportar.
Após onze dias, Bettina estava às portas da morte. “Suas pústulas
haviam ficado negras e a secreção expelia um fedor que deixava o ar
irrespirável.” No 13º dia, ela se debatia na cama, sofrendo com a
“coceira intolerável, que nenhum medicamento podia ter aplacado
mais do que as poderosas palavras que repeti para ela: ‘Lembrai,
Bettina, que haveis de ficar bem; mas se ousardes vos coçar, ficareis
tão feia que ninguém jamais vos amará outra vez’”.
Com o passar das semanas, um abscesso em seu pescoço a
confinou ao leito e ela o infectou com oito ou dez pústulas, “que
deixaram uma marca indelével em meu rosto”. Suas feridas o fizeram
crescer aos olhos de Bettina, “que então percebeu que somente eu
merecia sua afeição”.
Ela se recuperou devagar, as virulentas manchas vermelhas
arruinando sua pele por um ano inteiro. A garota outrora bela casou-se
com um humilde sapateiro, Pigozzo, “um salafrário vil que a arrastou
para a pobreza e o sofrimento”. Giacomo voltaria a vê-la quarenta anos
depois, em 1776. “Encontrei Bettina velha, doente e moribunda”,
escreveu, e ela faleceu no dia seguinte, lembrada mais do que ninguém
por Casanova, que a amara e a desprezara.
Assim começou sua educação sobre o amor e as mulheres. Elas
eram sua face oculta, sua “paixão dominante”. Ele dedicaria a vida a
tentar compreender tudo sobre as mulheres. Iria se tornar um libertino.
Daria rédea aos sentidos, suspenderia o juízo moral e se entregaria a
seus apetites. Ser um libertino era manter-se à parte da sociedade,
recusar a aceitar definições e restrições. Filho de artistas do teatro, dois
párias, ele passaria a vida como um ator no palco do mundo,
experimentando uma coleção infinitamente cambiante de papéis e
trajes, desempenhando todos os papéis, o vilão e o herói. Sua
imaginação tentaria conquistar todos eles.
Giacomo retomou sua vida para descobrir que a mãe, a volúvel
Zanetta, chegara inesperadamente a Pádua. Seis meses depois, ele
voltou a visitá-la, dessa vez em Veneza, pouco antes de partir para
Dresden, onde ela aceitara uma posição “a serviço do Eleitor da
Saxônia, Augusto III, rei da Polônia”, o arranjo perfeito para uma atriz
em seus anos de declínio.
Zanetta não levou Giacomo para Dresden; ele continuou em Pádua
para completar seus estudos, mas sua irmã pequena, Maria Maddalena,
e seu irmão Giovanni, agora com oito anos de idade, foram com ela.
Giacomo observou que o menino “chorava de forma desesperada
quando partiram, o que me levou a suspeitar que não fosse
particularmente inteligente, pois não havia nada trágico na partida”.
Depois da partida de Zanetta, Giacomo raramente voltou a vê-la.
Ela permaneceu em Dresden pelo resto da vida, exceto por uma breve
estadia em Praga. Ela o abandonara; e assim, em toda mulher que
tentou conquistar quando adulto, Giacomo Casanova buscou recriar a
intimidade que um dia vivenciara com a mãe, até ela deixá-lo para ir
atrás de sua carreira e seus vários amantes — postura mais ao estilo de
Casanova, impossível. De fato, ela foi a Casanova original.
Giacomo se matriculou na Universidade de Pádua em 28 de
novembro de 1737, com a idade de doze anos, para fazer um curso que
incluía o secundário e o superior combinados. (Seu nome não figura
nas listas da prova de direito, assim temos de confiar em sua palavra
quanto a essa fase de sua carreira acadêmica. E há atestados de
assiduidade com seu nome em 1739.) O sistema de ensino paduano era
notório. “O princípio do governo veneziano” — que administrava
Pádua — “era pagar estipêndios muito elevados a professores de
grande renome e deixar aqueles que compareciam a suas palestras
viverem na mais completa liberdade.” Um representante do corpo
discente era o responsável pelos alunos, chamado de o “síndico”, que
atuava como intermediário entre eles e os mestres e diretores. Suas
medidas disciplinares iam de inexistentes a brandas, mas sua presença
bastava para manter os homens da lei à distância. “Os sbirri” — ou
policiais — “comuns jamais ousariam prender um aluno”, comentou
Giacomo. Em meio à alegria, vivenciou um embate entre os sbirri e os
estudantes, que resultou em dois jovens mortos. “Armados de pistolas
e uma carabina, eu saía com meus colegas todos os dias em busca do
inimigo”, mas não conseguiram encontrar um único sbirro. Ele
escreveu à avó pedindo ajuda, e ela foi a Pádua e o tirou da casa do dr.
Gozzi. Os dois chegaram a Veneza em 1º de outubro de 1739 e
Giacomo regressou ao mesmo apartamento onde havia morado, na
Calle degli Orbi, ainda alugado por sua mãe ausente.
Não mais uma criança retraída e enfermiça, Giacomo era agora alto
e confiante. “‘Acaba de chegar de Pádua, onde estudou na
universidade’ era a frase utilizada para me apresentar em toda parte”,
vangloriou-se. Recebia os “cumprimentos dos padres e os afagos de
mulheres de idade”, incluindo “algumas que não eram realmente de
idade, mas dispostas a passar por tal, de modo que pudessem me
abraçar sem impropriedade”. E esses afagos eram proibidos, pois ele
estava se preparando para o sacerdócio. Foi nomeado à igreja
paroquial, San Samuele, e entrou para as classes avançadas de italiano
e poesia, lecionadas pelo abade Schiavo. Em 14 de fevereiro de 1740,
quando se aproximava do aniversário de quinze anos, foi tonsurado
pelo patriarca de Veneza, Antonio Francesco Correr, como sinal de
humildade. Seus novos costumes seriam melhores e mais puros, mas
por quanto tempo isso duraria?
2. Angela
Quando parecia que a carreira eclesiástica lhe acenava,
Casanova se tornou o protegido de Alvise Gasparo Malipiero,
um senador veneziano. “Pouco desejoso de se ocupar dos
negócios de Estado em sua idade, que era de setenta anos” —
na verdade Malipiero era ainda mais velho —, “levava uma
vida agradável em seu palazzo, comendo bem e recebendo
toda noite um grupo bastante seleto, composto de mulheres
vividas e homens de classe e inteligência que tinham certeza
de estar por dentro dos mais recentes acontecimentos da
cidade.”1
Casanova se lembrava do senador, a quem tratava sempre
por “Vossa Excelência”, como um velho solteirão abastado
que sofria de gota severa “de tal modo que seu corpo todo era
incapacitado. Apenas sua cabeça, pulmões e estômago haviam
sido poupados”. Contudo, o venerando estadista permanecia
mentalmente alerta, bem-apessoado, eloquente e com vinte
amantes, para então se dar conta de que “tinha de deixar de
acreditar que iria satisfazer até mesmo uma”.
Ao cair nas boas graças do senador, Casanova obteve
acesso a um dos domicílios mais celebrados de Veneza. O
Palazzo Malipiero, embora perto da San Samuele, tinha vista
para o Grande Canal. De inspiração bizantina, o palacete fora
reformado muitas vezes, mas mantinha seu caráter
aristocrático essencial, assomando acima das gôndolas e de
outras embarcações que deslizavam sob suas janelas fechadas.
Durante suas prolongadas refeições, o rapaz ficou sabendo que
Malipiero, a despeito da doença debilitante, “nutria uma
inclinação amorosa” por Teresa Imer, filha de um poderoso
impresario de teatro veneziano, Giuseppe Imer, que morava
tão perto de sua residência que as janelas de sua casa davam
para os aposentos do senador.
Teresa Imer era uma preciosidade de apenas dezessete anos
(dois anos mais velha do que Casanova e incontáveis anos
mais nova que o senador banguela que se sentia atraído pela
jovem), bem como “linda, voluntariosa e coquete”. Seus dias
eram preenchidos estudando música para uma suposta carreira
nos palcos e exibindo-se diante da janela, para deixar
Malipiero completamente seduzido. Casanova acreditava que a
garota atormentava o enamorado senador com crueldade
calculada. “Ela aparecia quase todos os dias para visitá-lo, mas
sempre acompanhada da mãe, uma velha atriz que se
aposentara do palco para buscar a salvação de sua alma.”
A rotina delas consistia em ir à missa diariamente,
confessar-se no domingo e às tardes visitar o libidinoso velho
senador. Quando Teresa recusava-se a beijá-lo, mesmo na
presença da mãe, ele se entregava a um terrível acesso de
fúria. Casanova afirmou que o velho lhe permitia observar
esses incidentes humilhantes, incluindo aqueles em que “a mãe
salafrária aplaudia a resistência da filha” e censurava o
paralisado senador.
Após testemunhar várias dessas visitas bizarras, Casanova
sugeriu que o senador se casasse com a jovem provocadora
para possuí-la, mas foi informado de que ela já recusara sua
proposta.
“Ofereça a ela uma grande soma de dinheiro, uma
posição”, aconselhou.
“Ela afirma que não cometeria um pecado mortal para se
tornar a rainha do mundo.”
O jovem propôs estratégias mais extremas. “Deveria violá-
la” ou, caso isso não desse certo, “bani-la”.
Vossa Excelência replicou, bastante razoavelmente, que era
incapaz de levar a termo a primeira e relutava em recorrer à
segunda. Como ali era Veneza, onde as mulheres usufruíam de
poucos direitos, Casanova insistiu: “Mate-a!”.
O debilitado senador admitiu que talvez fizesse mesmo
isso, caso não morresse primeiro.
Por que, quis saber Casanova, o senador sempre recebia
Teresa? Por que ele não a visitava? Não, respondeu o homem,
de forma misteriosa, nesse caso correria o risco de se
apaixonar por ela. Não havia nada a ser feito, niente.
Na segurança das boas graças do senador, Casanova se
mudou para o esplêndido Palazzo Malipiero, em meio às
grandiosas residências venezianas. Continuou os estudos
acadêmicos e eclesiásticos, embora o mundo profano
exercesse nele fascínio maior do que os áridos textos latinos
ou enigmas teológicos. Durante sua estada no palacete,
Casanova aprendeu a seguir as regras da casa impostas pelo
senador. Não devia falar a menos que lhe dirigissem a palavra
“e acima de tudo nunca expressar opinião a respeito do
assunto que for, pois com a idade de quinze anos eu não tinha
direito a uma”. E foi enfaticamente advertido de que não devia
fofocar sobre as figuras da sociedade que conhecesse; de outra
forma seria considerado um salafrário. “Desse modo ele
inculcou em minha pessoa o sólido preceito da discrição.” Ele
conquistou a confiança do senador “e em poucos dias tornei-
me o favorito de todas as mulheres que o visitavam”.
Considerando-o um jovem sem importância, convidavam-no
para as visitas a suas filhas e sobrinhas nos conventos para
onde elas haviam sido enviadas a fim de receber educação e
evitar complicações românticas. Quando as noviças percebiam
um homem se aproximando, afastavam-se correndo, até se
revelar que ele não passava de um rapaz inofensivo. “Ficava
deleitado com a credulidade delas”, observou Casanova.
Seu pároco rejeitava as distrações desse mundo de artifício
e hipocrisia e exortou Casanova a “agradar a Deus com meu
estado de espírito”, e “condenou meus cachos elaborados e o
delicado perfume de meu creme cosmético; disseme que o
demônio me tinha pelos cabelos”. Uma espessa cabeleira ou
peruca agora ocultava a tonsura sacerdotal de Casanova. Se
continuasse nesse rumo, corria o risco de ser excomungado.
Mesmo a benevolente avó fez coro às críticas. Magoado, ele
começou a citar o exemplo de “uma centena de abati” que
usavam três vezes mais talco ou que aplicavam um creme
“perfumado com âmbar-gris que faria uma mulher em trabalho
de parto desmaiar”, ao passo que ele, Casanova, nada usava
senão um leve aroma de jasmim que suscitava elogios aonde
fosse. Se quisesse cheirar mal, vituperou asperamente com o
padre, teria se tornado um monge capuchinho. Assim,
lamentava muito, mas recusava-se a se submeter a sua vontade
nesse assunto.
Certa manhã, bem cedo, o padre apareceu em sua casa e
persuadiu a avó de Casanova a permitir que ele fosse até seu
quarto, onde dormia em sono profundo. “O padre arrogante,
que gostava de mim, se aproximou furtivamente de minha
cama e, com uma tesoura, cortou-me toda a frente do cabelo,
de orelha a orelha.” Quando Casanova acordou, mais tarde,
levou as mãos à cabeça e explodiu de indignação ao observar
“o estado ao qual o audacioso padre me reduzira!”.
Determinado a obter sua vingança, vestiu-se e foi ter com o
advogado Carrara, que conhecera no Palazzo Malipiero, para
saber se poderia acionar o padre na justiça. Carrara o
encorajou, contando de uma família inteira levada à ruína
porque seu patriarca raspara o bigode de um mercador
esloveno, ao passo que Casanova sofrera indignidade bem
maior!
No dia seguinte, quando se preparava para voltar ao
escritório do Signor Carrara, eis que surge diante dele um
jovem cabeleireiro que o senador mandara chamar,
considerando que Casanova não podia comparecer ao jantar no
palazzo com o cabelo naquele estado. O cabeleireiro examinou
o estrago e riu, dizendo-lhe que deixasse por sua conta, que
“iria tornar possível para mim sair com madeixas ainda mais
encaracoladas do que antes”. Destramente, aparou sua franja
em um comprimento uniforme e a penteou “en vergette, com
tal efeito que me senti contente, satisfeito e vingado”.
Esqueceu o insulto na mesma hora e à noite pensou
jocosamente que de fato fazia por “merecer a excomunhão”.
Presumiu que sua relação com a Igreja houvesse morrido
ali, mas então o senador, invocando sua posição como
“presidente da Congregação do Sagrado Sacramento”,
convidou seu protegido pródigo a “tecer um panegírico”, ou
discurso de louvor, no dia seguinte ao Natal. Casanova achou
que o idoso senador devia estar brincando, “pois jamais me
passara pela cabeça a ideia de me tornar um pregador, muito
menos um com a capacidade de compor um sermão e proferi-
lo”, mas ele insistiu que “eu havia nascido para ser o mais
famoso pregador do século, assim que tivesse engordado,
característica da qual ainda estava longe, pois nessa época era
magro demais”. No dia seguinte, o Signor Malipiero lhe
explicou que contara sobre a ideia ao padre, que ficara
“deliciado” e apenas impusera a condição, com a qual
Casanova concordava, de lhe submeter seu discurso para se
assegurar de que não contivesse nada herético. E desse modo
ele passou o resto da semana escrevendo seu panegírico.
Sua avó ficou sabendo do extraordinário golpe de sorte do
neto e “chorou de satisfação”. Ele leu seu discurso para ela,
que achou “lindo”, e para o senador, que o elogiou muito por
não enchê-lo de citações em latim. Mas Casanova pegara seu
tema de um moralista, Horácio — “Sentiram que seus méritos
não fossem recebidos com a gratidão que haviam esperado”
—, e o senador o advertiu de que o padre não iria gostar.
O destino interveio. Quando foi à casa do padre, ele não
estava, e enquanto aguardava sua volta, acabou caindo de
amores por sua sobrinha, Angela, mais ou menos da idade
dele, que estava ali entretida em um bordado, ouvira falar do
incidente do cabelo e insistiu para que ele lhe contasse os
detalhes. Esse amor, segundo ele, selou seu destino, porque
levou a outros amores, e destes para mais amores, toda uma
cascata de paixão terminando depois por “obrigar-me a abrir
mão de ser clérigo”.
Ao chegar, o padre examinou o sermão e julgou que a
despeito de seus méritos era inadequado para ser lido no
púlpito. Os dois tiveram uma longa discussão, e após o assunto
ser levado ao senador, chegaram a um acordo, acatado a
contragosto por Casanova, de fazer a alteração pedida pelo
padre. Giacomo também enviara o texto, “por vaidade”, ao dr.
Gozzi, que o condenou e lhe perguntou se havia “ficado
louco”.
De um modo ou de outro, Casanova proferiu seu sermão
na igreja de San Samuele para “uma audiência mui seleta”,
que cobriu o jovem de “grande louvor”, prevendo que iria se
tornar “o maior pregador do século”, ou pelo menos assim ele
recordou. Em seguida, Casanova coletou as oferendas da
missa: “quase cinquenta zecchini, além de cartas de amor que
escandalizaram os carolas” e deixaram seu destinatário em
êxtase. O moralismo público e a transgressão privada andavam
de braços dados. Ele não via razão para escolher entre o amor
de Deus e o amor das mulheres.
Ia à casa do padre diariamente em busca de ajuda para
atingir sua meta eclesiástica, sempre se encontrando com sua
sobrinha Angela, “que estava disposta a deixar que eu a
amasse, mas que, revelando-se um perfeito dragão da virtude,
recusou-se com obstinação a me conceder o mais ínfimo
favor” — a menos que ele renunciasse ao sacerdócio e se
casasse com ela. Naturalmente, “eu não podia me obrigar a
fazer isso”.
Em 19 de março de 1741, planejava proferir outro
panegírico, antecipando dessa feita recompensas ainda
maiores, mas estava “escrito que eu não pregaria mais do que
uma única vez nesta vida”. Compusera o sermão sozinho e
depois o memorizara. Talvez acontecesse de tropeçar numa
frase aqui e ali, mas podia improvisar, já que “nunca me vi
perdido em uma conversa com os outros”. Confiante, comeu e
bebeu até se fartar na companhia de aristocratas. Quando
chegou a hora de se apresentar na igreja, com a barriga cheia e
a cabeça zonza de vinho, pôs-se a recitar seu sermão, mas,
após um belo começo, acabou por se perder. Conforme
improvisava de maneira débil, os fiéis foram ficando cada vez
mais impacientes e inquietos. Alguns poucos deixaram escapar
uma risada. Ele se sentiu tonto e, intencionalmente ou não,
“desabou no piso do púlpito, atingindo a parede com a cabeça
e desejando ter rachado o crânio”. Dois clérigos o levaram
dali.
Ele correu para casa em desgraça, fez as malas às pressas e
seguiu para Pádua, onde reingressou no seio da família Gozzi,
guardando o triunfo e o infortúnio que passara em Veneza para
si mesmo. Prosseguiu nos estudos com diligência, recebeu seu
diploma e, ao voltar a Veneza após a Páscoa, descobriu que
tudo fora esquecido. Foi encorajado a tornar a pregar, mas
“renunciei completamente à profissão”. Em vez disso,
acompanhava Angela à sua escola de bordado, apenas para
perceber que “sua parcimônia em me conceder favores me
irritava e já então achei meu amor um tormento”. Com seu
temperamento passional, ele “precisava de uma garota como
Bettina, que apreciasse apaziguar a chama do amor” —
aparentemente, com suas adoráveis mãos em sua
masculinidade —, “sem apagá-la”. Mas esse romance com a
“recalcitrante Angela” não estava indo a lugar algum. “Ela me
exauria; fui ficando cada vez mais magro.” Quando a
encontrava na escola, seus “discursos emotivos e queixosos”
impressionavam as outras garotas, mas Angela permanecia
impassível. Se ao menos tivesse olhado em volta, teria notado
duas irmãs que demonstravam disponibilidade, mas Angela o
deixara “obstinado” com suas histórias. Dizia que estava
preparada para se casar com ele apenas se formalizasse sua
proposta. “Ela me exasperou além do limite quando, como
sinal de extrema predileção, disseme que a abstinência a fazia
sofrer tanto quanto a mim”, escreveu trincando os dentes.
Magansesa! Traidora!
Um convite inesperado da condessa de Montereale — um
título sempre captava a atenção de Casanova — para visitar
sua propriedade, Pasiano, em Friuli, na região nordeste da
Itália, surgiu como uma distração no fim daquele verão.
Embora sob o domínio de Veneza, Friuli tinha um caráter todo
próprio, montanhoso e verdejante, e era conhecida por seu
encorpado vinho branco. Ali ele previa “brilhante companhia”,
incluindo a filha da condessa. Ela era linda e inteligente e,
acrescentou ele, magnânimo, “tinha um olho tão encantador
que compensava o outro, tornado horrível” por uma cicatriz
branca na córnea.
Assim que ele chegou e lhe mostraram seu quarto, no
térreo, com vista para o jardim, esqueceu todos os seus
tormentos com Angela. Dormiu de forma jubilosa na cama e,
de manhã, uma serviçal, de talvez dezessete anos, com pele
clara, olhos negros, cabelos encantadoramente soltos e
anáguas que “expunham metade de suas pernas nuas”, chegou
com o café da manhã, encarando-o com “tanta franqueza e
calma quanto se fosse um velho conhecido”. Conversaram
sobre como a cama era confortável, e ela se apresentou como
Lucia, filha do concièrge, e disse que tinha apenas catorze
anos. Prometeu ficar a seu serviço, o que inflamou sua
imaginação. Sentou-se na cama enquanto ele bebericava seu
café e jogou conversa fora até seus pais entrarem e se
desculparem pelo comportamento da filha, quando então se
foi. Em sua ausência, seus pais exaltaram suas virtudes, mas
lhe advertiram que tinha um defeito: a extrema juventude. Um
pouco depois ela voltou, fez uma mesura, beijou a mãe
repetidas vezes e sentou-se no colo do pai, recusando a oferta
de Casanova para voltar a sentar-se na cama.
Lucia repetiu a performance na manhã seguinte. Sem
dúvida percebia que corria o risco de deixá-lo pegando fogo,
como disse o próprio Casanova. Ele decidiu testá-la. “Estico a
mão libertina em sua direção e com o que parece um
movimento involuntário ela a retira.” Após alguns momentos
de confusão, ambos retomam a conversa como antes, dessa
vez por horas, até que ele a convida a fugir do frio de Friuli
juntando-se a ele sob as cobertas. Mas e se sua mãe aparecer?,
perguntou ele. “Não vai pensar nada de mal”, respondeu
Lucia.
“Venha aqui, mas sabe o risco que corremos.”
“Claro”, disse Lucia. “Não sou tonta; mas você é bom e,
além do mais, um padre.”
“Então venha, mas primeiro feche a porta.”
Mas ela a deixou aberta e entrou na cama dele, que se
obrigou a ficar imóvel, “não desejando ceder aos movimentos
da natureza”. Finalmente, quando o relógio soou a hora
avançada, ela pediu licença. E se os encontrassem ali? Com
isso, deixou-o na cama “em um estado de violenta excitação”.
E quando Lucia voltou na manhã seguinte, a conversa o
convenceu de que realmente era tão ingênua quanto seus pais
disseram. Era inocente, sem malícia, um anjo, coisas que
entristeceram Casanova, que conjecturou que a jovem iria “ser
vítima do primeiro libertino que a tivesse ao alcance”. Não
seria Giacomo Casanova, fosse ele quem fosse. Ele não
poderia arruiná-la para seu próprio prazer e desse modo trair a
confiança de seus “respeitáveis pais”, que a confiavam a seu
serviço todas as manhãs. “Desse modo optei pelo caminho do
sofrimento.” As visitas continuaram, duas ou três horas de
conversa estimulante toda manhã, durante as quais “a
companhia desse anjo me fez sofrer as aflições do inferno”.
Ela aproximava seu rosto a um palmo do dele e, quando ele ia
cobri-la de beijos, ela dizia que queria ser sua irmã.
Entrementes, “senti que me tornara tão inflamável quanto
palha”. Ele lhe confessou como fazia com que se sentisse, e
por ser um abade, um padre em treinamento, ela escutava em
silêncio. “À conclusão de meu sermão” — uma escolha
denunciadora de palavra —, “ela limpou minhas lágrimas com
a frente de seu camisão, em nenhum momento sonhando que
por esse ato caritativo expunha à minha vista duas rochas
eminentemente adaptadas para fazer o mais hábil dos capitães
sofrer um naufrágio.”
Ele alegou que seu amor por ela estava lhe fazendo mal e
que temia levá-la à ruína. Esses argumentos soaram sem
sentido para a jovem. “Meu caro abade”, ela disse, “se o amor
é uma tortura para vós, lamento. Não será o caso de que não
nascestes para amar?” Ela lhe assegurou de que nunca deixaria
de amá-lo, independentemente do que ele fizesse, dissesse ou
pensasse. Arrebatado, ele a estreitou em seus braços, e ficaram
assim, num silêncio perplexo, por uma hora, até sua mãe
cumprimentar Casanova por seu “belo aspecto” e instruir
Lucia a se preparar para a missa. Ela voltou a confiar nele: “Se
vossa felicidade perfeita depende apenas de mim, sede feliz!
Nada posso vos recusar”.
Ele sentiu que pairava na “beira do abismo” — uma
deliciosa provação. Naturalmente, ele caiu nele sem mais
delonga. “Após passar todo o mês de setembro no campo, vi-
me em posse de Lucia por onze noites sucessivas, as quais,
ciente do sono pesado de sua mãe, ela vinha passar em meus
braços.” Ela “fez tudo em seu poder” para forçar Casanova a
renunciar à sua “abstinência”, pois “não podia provar a doçura
do fruto proibido a não ser deixando-me comê-lo. Tentou uma
centena de vezes tapear-me dizendo que eu já o colhera, mas
Bettina ensinara-me coisas demais para que eu me deixasse
ludibriar”.
A descrição feita por Casanova de sua iniciação sexual se
tornou um tour de force de provocações e evasivas. Pode-se
presumir de suas insinuações sussurradas que houve felação,
estímulos com as mãos e beijos sem fim, mas não está claro
que tenham mantido relações sexuais ao longo de seu idílio de
onze dias. Quando o tempo dos dois chegou ao fim, ele
prometeu regressar a Pasiano na primavera, porém os eventos
em sua vida levaram a melhor sobre ele e seus desejos.
Em Veneza mais uma vez, Casanova esqueceu Lucia e
procurou Angela, a aluna de bordado, “esperando conseguir ao
menos o que conseguira com Lucia”, mas um certo “terror das
consequências fatais para minha futura carreira refreou meu
pleno divertimento”. Ele falava sem comedimento de sua
afeição por Angela, alarmando a diretora da escola de
bordado, “uma velha santimonial”, que foi ter direto com o tio
da jovem, o padre. Casanova relatou o desfecho em palavras
cuidadosas, sem dizer muito: “Um dia, ele me advertiu
delicadamente de que eu não deveria frequentar tanto a casa,
uma vez que minha assiduidade podia ser mal interpretada, e
de uma maneira prejudicial à honra de sua sobrinha”.
Sofrendo dores na consciência, ele se abriu para o Signor
Malipiero, que admitiu que “estava na mesma situação com
respeito a Teresa”. Teresa? Ele se lembrou do modo como ela
atraía e provocava o pobre coitado a ponto da insanidade.
Nesse ínterim, o velho senador instruiu os criados a alimentar
Casanova, e quando viu o rapaz “comer com o apetite de um
cão”, começou a rir, e Casanova se juntou às risadas. A vida
era absurda, assim como as mulheres.
Ele retomou os estudos em Pádua. Nessa arena,
demonstrou confiança e perícia ao defender sua tese sobre
metafísica e recebeu o doutorado em direito civil e canônico
com a idade de dezesseis anos, tendo escrito sua tese de direito
civil sobre testamentos (“De testamentis”) e de direito
canônico sobre a legalidade ou não de judeus construírem
novas sinagogas. No entanto, não estava planejando seguir
carreira no direito nem na Igreja, mas na medicina, pela qual
sentia “forte inclinação”. Porém não era para ser; disseram-lhe
que estudasse direito, “pelo qual sentia insuperável aversão”.
Quem dera pudesse ter sido médico, “em cuja profissão a
charlatanice é ainda mais eficaz do que na prática legal”,
comentou. “As disputas legais mais arruínam do que ajudam
as famílias; e os que são mortos pelos médicos são em número
muito maior do que os que são curados. Disso se depreende
que a humanidade seria bem menos miserável sem essas duas
laias.”
Mas não tinha importância. Ele se regozijou com a vida
estudantil em Pádua. A palavra “livre” lhe ocorria o tempo
todo; era um homem livre, livre para se divertir, livre para se
associar com bem entendesse, sobretudo com “os grandes
libertinos, jogadores, frequentadores de lugares de má
reputação, bêbados, devassos, sedutores de moças decentes”.
Os alunos eram alegremente livres da moralidade sufocante e
os diretores da universidade faziam vista grossa, “pois o
interesse do Estado não podia permitir que tal severidade
diminuísse o número de estudantes que afluía para essa
universidade vindos de todas as partes da Europa”.
E depois estava de volta a Veneza e à rede de intriga
romântica de Angela. Ela queria ouvir de seus lábios que ele
ainda a amava. Lá se foi ele a seu encontro, com duas garrafas
de vinho e “uma língua defumada no bolso”. Mas Angela
ficaria detida até a hora da ceia, assim lhe disseram. Esse rumo
dos acontecimentos encorajou Casanova a declarar então que
passaria a noite com duas irmãs, Nanetta e Marta. Foi uma
virada surpreendente, ser desprezado por uma e tentado por
duas.
“Durma aqui”, instruiu Nanetta, “e nós dormiremos no
sofá, no outro aposento.”
Antes disso, as irmãs puseram três lugares para o jantar.
Quanto mais comiam e bebiam, mais agradáveis as duas
jovens se tornavam a seus olhos, e a sedução mútua se tornou
sua vingança da dissimulada Angela. Ele lhes perguntou se
não desaprovavam também o “modo desprezível” como
Angela o tratava. Claro! Nesse caso, o trio devia trocar juras
de eterna fidelidade “na inocência de nossos corações”. Nesse
espírito, trocaram “beijos inofensivos”, porém após algum
tempo esses beijos “começaram a acender um fogo em nós três
que deve ter nos surpreendido”. Separaram-se, entreolharam-
se em um estado de choque e constrangimento, e Casanova
sentiu que se apaixonava por Nanetta e por Marta. Acaso não
eram mais formosas que a ausente Angela? E mais
inteligentes?
Embora já tivesse superado Angela, a conversa recaiu
sobre ela, e as duas revelaram que Angela, quando dormia
com elas, como fazia ocasionalmente, cobria Marta de beijos,
chamando-a de “meu querido abade”, ou seja, Casanova.
Quando a irmã tentou impedi-la, Marta afirmou que o hóspede
delas “não podia deixar de saber o que duas jovens que eram
boas amigas faziam quando estavam juntas na cama”.
“Todo mundo já ouviu falar desses pequenos jogos”,
declarou ele. Quem fazia o papel do marido, ele quis saber, e
quem era a esposa? Casanova propôs então que os três
tirassem a roupa e dormissem juntos. “Contai com minha
palavra de honra, que vos dou, de que não encostarei em vós.”
Elas podiam simplesmente sair da cama, caso ele não se
comportasse, e dizendo isso virou de costas para as duas e
fingiu pegar no sono.
Na escuridão, moveu-se com cautela na direção de uma
das garotas, sem saber se era Nanetta ou Marta: um agradável
dilema.
Encontrei-a enrodilhada e coberta com seu camisão, mas, sem fazer
nada que pudesse sobressaltá-la e procedendo passo a passo o mais
gradualmente possível, logo a convenci de que o melhor curso de ação
para ela era fingir que dormia e me deixar prosseguir. Pouco a pouco,
fiz com que se esticasse, pouco a pouco ela se desenrodilhou, e pouco
a pouco, com movimentos lentos, sucessivos, mas maravilhosamente
naturais, ela se ajeitou numa posição que era a mais favorável que
podia oferecer sem se trair. Pus mãos à obra, mas para coroar meus
esforços era necessário que ela se juntasse a eles de modo franco e
inegável, até que a natureza finalmente a forçou a tanto. Achei essa
primeira irmã acima de qualquer suspeita e, imaginando a dor que
deve ter suportado, fiquei surpreso.

Ele a deflorava assim como ela também tirava sua


virgindade, permitindo-lhe sentir “um prazer cuja doçura eu
experimentava pela primeira vez na vida”. Era como se
estivesse tirando infinitas pétalas acetinadas de uma rosa em
botão. Após se recuperar do esforço amoroso, “deixei a vítima
em paz e me virei para fazer a mesma coisa com a outra irmã”.
Ela estava deitada de costas “em um sono profundo e
imperturbável”, mas Casanova não se deu ao trabalho de
identificar que irmã estava prestes a tomar para si. Em vez
disso, “com a maior das precauções, e dando toda mostra de
temer despertá-la, comecei por deleitar sua alma”,
aparentemente massageando sua vulva com o dedo, ou a
língua, ou ambos, conforme assegurava “que era tão intocada
quanto a irmã; e continuei o mesmo tratamento até que,
afetando o movimento mais natural, sem o qual eu não poderia
ter coroado meus esforços” — ejaculando —, “ajudou-me a
triunfar; mas nesse momento de clímax não mais teve forças
de manter o fingimento. Tirando a máscara, agarrou-me em
seus braços e pressionou a boca na minha”.
Quando se recuperaram o suficiente para falar, arriscou-se
a supor que tinha Nanetta em seus braços. Havia primeiro
deflorado Marta, depois passado a Nanetta. Eufórico,
exclamou: “Tudo que fizemos foi obra do amor”.
O trio se levantou da cama e “fez uma toalete improvisada
em um balde d’água”. Segundo o costume da Idade de Ouro,
“ou seja, nus, ou quase isso, devoraram a língua defumada e
tomaram uma garrafa d’água e, com energias renovadas,
voltaram para a cama, onde passaram “o resto da noite nas
mais variadas diversões”.
Ao amanhecer, ele se despediu calmamente e foi para casa,
onde dormiu até o meio-dia. Quando acordou, o Signor
Malipiero notou sua “expressão feliz e os círculos escuros”
sob seus olhos. “Deixei-o a imaginar o que bem lhe
aprouvesse, mas nada lhe contei.”
Ele se vingou de Angela pouco depois, quando ela foi
passar uma noite com Nanetta e Marta, que confessaram o
deleitável episódio envolvendo Casanova e até a culparam por
desencadear os eventos que levaram ao seu comportamento.
“Ela as regalou com os mais grosseiros insultos”, revelou
Casanova, e “jurou nunca mais voltar a pisar naquela casa,
mas elas não se importaram.” Angela mudou-se para a vizinha
Vicenza, onde morou com o pai, um pintor sem importância
chamado Iseppo Tosello, e passou seus anos dali em diante
adornando casas com afrescos, enquanto Casanova passava
“pelo menos duas noites por semana” com suas afetuosas
companheiras, que o haviam presenteado com uma impressão
em massa da chave de seus aposentos, para que mandasse
fazer uma cópia.
Suas experiências com as duas irmãs o encorajaram a se
aventurar ainda mais a fundo na sociedade veneziana. Em abril
de 1742, pouco após o encerramento do Carnaval, ele
conheceu Giulietta Preato, uma notória cortesã conhecida
como La Cavamacchie — dialeto para “a faxineira”, que era a
linha de trabalho de seu pai, segundo Casanova. Como todas
as cortesãs venezianas, ela queria algo. Desejava tomar
emprestada a sala de visitas da casa do Signor Malipiero para
dar um baile. Pagaria por tudo, inclusive os candelabros, e
suas criadas fariam os arranjos; para isso, ela o recompensaria
com 24 zecchini. Um baile em Veneza na época era um evento
sem igual; era uma celebração sofisticada, onde todos usavam
máscaras. As convidadas vinham fantasiadas de sílfides
sedutoras; aristocratas faziam as vezes de mobília humana
para outros usarem como queriam; freiras falsas eram na
verdade mulheres de vida fácil. As danças proporcionavam
oportunidade para acariciar e apalpar. Os convidados
entregavam-se a suas fantasias num espetáculo renomado em
toda Europa por sua devassidão e caráter blasfemo.
Após a ceia, enquanto os convidados dançavam uma
variação veneziana do minueto, Giulietta o levou para um
quarto, trancou a porta e o instruiu a vesti-la de abade,
trocando de roupas com ele. Travestidos, dariam uma dupla
sob medida para o evento. “Enrolei rapidamente seus longos
cabelos e deixei que me fizesse um chinó, que arrumou com
grande esmero sob seu próprio chapéu”, observou ele. Ela
aplicou ruge em seu rosto, “deixando-a ver com sinceridade
que eu estava gostando”, e o beijou apenas uma vez, sob a
condição de que não pedisse por mais. Até uma cortesã tinha
de ser cuidadosa. “Nesse ínterim, falei que a adorava.”
Com destreza, ela se despiu em sua presença e vestiu sua
cueca; o traje coube, mas seus culotes ficaram “apertados
demais na cintura […] e nas coxas”. Ele tentou afrouxar os
culotes, porém a calça acabou rasgando no corpo dela. Ela
vestiu suas meias, sapatos e camisa, mas quando ele
“arrumava os franzidos e o colarinho, ela achou minhas mãos
atrevidas demais, pois seus seios estavam nus”. Ele ignorou os
“nomes vis” com que o chamou e se obrigou a lembrar que
estava lidando com “uma mulher por quem 100 mil scudi
haviam sido pagos” — quase 1 milhão de dólares, mas, em
Veneza, as mulheres eram mais valorizadas do que tudo. Ela
vestiu Casanova em seu camisão e saia e depois virou e ralhou
com ele, por expor o “efeito por demais visível dos encantos
dela sobre mim”, na forma de uma ereção. Pior ainda, ela
“recusa-me o alívio que teria me acalmado num instante”. Ele
tentou beijá-la novamente, ela resistiu, e em meio à contenda,
“o resultado de minha incontinência mancha visivelmente o
camisão”. Esta não era a juventude tímida que ela havia
esperado. “Minha prontidão lhe pareceu falta de respeito.”
Enquanto discutiam, ela terminou de vesti-lo em suas roupas,
o encanto erótico quebrado.
Voltaram ao baile, e o aplauso que o surgimento dos dois
provocou nos presentes lhes restituiu o bom humor. “Todo
mundo supôs que eu fizera a conquista que [na realidade] me
escapou”, e para sustentar a ilusão, Giulietta se comportou em
relação a ele como uma amante teria feito. Mais tarde nessa
noite, “todos os homens sentiram-se no direito de tomar
liberdades com Giulietta em seu papel de abade”, ao passo que
Casanova, esbaldando-se no traje apertado de Giulietta e
impregnado do aroma pungente de sua carne, “não se refreou
com as garotas”. Todo mundo farreou na festa libidinosa, com
exceção de Marta e Nanetta. Essas generosas donzelas haviam
acreditado que Casanova pertencia somente a elas. Agora
compreendiam como tinham sido ingênuas.
À medida que o baile se aproximava do final, Casanova
despiu as roupas de Giulietta e tentou beijar a cortesã, dessa
vez mais agressivamente, prometendo lhe dar “toda a
satisfação de que era merecedora”. Em retaliação por sua
galanteria presunçosa, “desferiu-me um golpe tão violento na
orelha que quase retribuí o cumprimento”. A cena podia
parecer saída de uma comédia pastelão, mas não tinha a menor
graça quando protagonizada por ele. Ele lavou o rosto para
tirar qualquer vestígio da maquiagem de Giulietta e tentou
recuperar a compostura, mas a impressão da bofetada se
provou resistente. Quando o casal brigão voltou à festa, os
convidados notaram a marca em seu rosto, embora ela ainda
não houvesse dado por encerrado seu assunto com esse
irritante emergente social. “Antes de ir, chamou-me de lado e
disseme enfaticamente que se eu tinha algum desejo de vir a
ser lançado de uma janela, tudo que tinha a fazer era visitar
sua casa, e que mandaria me matar se o que acontecera entre
nós viesse a público.”
Casanova aquiesceu. “Não lhe dei motivo para fazer
nenhuma das duas coisas.”
Marta e Nanetta estavam dispostas a perdoar Casanova por
abandoná-las e o acolheram de volta a seu lar e a seu leito, e
ele retomou os estudos eclesiásticos como se nada houvesse
acontecido.
Após a Páscoa, ele regressou a Pasiano, mais uma vez a
convite da condessa de Montereale. Ali experimentou o vinho
friuliano e procurou Lucia, sem encontrá-la em parte alguma.
Em lugar dela achou seu pai, “parecendo desolado”. Casanova
o interrogou ansiosamente sobre a filha. Ela morrera? Não,
explicou ele, pior que isso: Lucia fugira com o mensageiro do
conde Daniele, “um famoso canalha”. Casanova encheu-se de
remorso. “Eu tinha sido virtuoso o bastante para preservar sua
virgindade”, raciocinou, e contudo seu “tolo autocontrole”
tinha levado à insensatez e à desgraça.
Da próxima vez que se sentisse atraído por uma mulher,
resolveu, iria se comportar mais ousadamente. A oportunidade
chegou quando envolveu-se em um flerte aparentemente sem
consequência com uma mulher casada. Ela era jovem, cerca de
dezoito ou vinte anos, avaliou, e ele desdenhou do jovem
marido, reputando-o como um completo idiota. No Dia da
Ascensão, em fins de maio, ele se juntou ao grupo que viajaria
para visitar uma figura local da sociedade. Quatro convidados,
incluindo a jovem sem nome, ocupavam uma carruagem,
deixando Casanova na carruagem restante, de dois lugares,
sozinho. Para mostrar que confiava em Casanova, a jovem foi
se sentar com ele, e então partiram para a floresta de Cecchini.
Meia hora mais tarde, o céu claro foi obscurecido de
repente por uma violenta tempestade. A carruagem era
coberta, mas ele advertiu sua companhia de que a chuva iria
encharcar seu vestido. “E o que me interessa o vestido?”, ela
disse. “É dos trovões que tenho medo.” A tempestade
redobrou a fúria e um relâmpago brilhou, acompanhado por
um rugido de furar os tímpanos. Um raio caiu a cem passos
dali. Quando os cavalos empinaram, aterrorizados, ela se
atirou em Casanova, que a agarrou apertado, erguendo sua saia
no processo. Outro raio a fez se inclinar para a frente, sobre
ele. “No intento de voltar a cobri-la com o manto, eu a puxo
para mim; ela literalmente cai sobre mim, e eu rapidamente
abro suas pernas. Como sua posição não podia ser mais
propícia, não perco tempo, ajusto-me em um instante, fingindo
arrumar o relógio no cinto de meus culotes.” Ele a manobrou
para ficar em posição e a instruiu a fingir que desmaiava. Ela
lutou e o chamou de “monstro cruel”. Tanto fazia. “Agarro-a
pelas nádegas e levo a termo a mais completa vitória que um
espadachim habilidoso já conquistou.” Ele não podia ter ficado
mais despreocupado com essa conquista e suas consequências.
No momento em que chegaram à casa da condessa, ela
disparou da carruagem para seu quarto e trancou a porta.
Nessa noite, à ceia, o marido da jovem ingenuamente
comentou que estava certo de que Casanova jamais viajaria
com ela outra vez. “Nem eu com ele”, ela respondeu, entre os
dentes. “Ele é um descrente que conjurou o relâmpago com
suas piadas.” Sua aversão pós-coito era palpável, e assim,
suspirou ele, “nunca mais tive ocasião de ficar a sós com ela
outra vez”.
Cada um de seus romances até lá havia tomado um rumo
inesperado. Mas nenhum pode se comparar em intimidade e
mistério com seu amor seguinte.
Célebres, notórias, com fama de serem as mulheres mais
belas da Europa, as vienenses ostentavam os poderes
concedidos a elas pelos homens e tinham também de
resguardo poderes próprios. As mulheres de Veneza tinham
um jeito todo particular. Forasteiros ficavam irresistivelmente
atraídos por seu estilo sedutor, divertido, fogoso. O sujeito
nunca sabia em que pé estava com uma veneziana, mesmo
uma cortesã, e a incerteza fazia parte de seu fascínio. Elas
tingiam o cabelo em muitos tons sutis de loiro, usavam
maquiagem elaborada e lançavam a seus admiradores uma
expressão provocante, a smorfia, desafiando-os a tentar a
sorte.
Turistas vindos de todos os lugares do continente iam a
Veneza, considerada a cidade mais depravada da Europa, para
seduzir e ser seduzidos. “Essas jovens venezianas são mais
levianas que uma pluma”, escreveu Philippe Monnier, um
visitante à procura de amor.2 “O Inquisidor perde o sono por
causa delas. Em vão o Inquisidor dá busca em seus
documentos, confisca seus livros, fecha suas casas de campo,
confina-as aos respectivos palazzi, ordena, por intermédio de
seus filhos adultos, que conservem a paz. Elas silenciam o
Inquisidor; zombam de seus terrores.” Elas pareciam capazes
de tudo; podiam ser “cativantes, delicadas, descaradas,
graciosas, encantadoramente doces”. E, ainda assim,
misteriosas. Por esse escandaloso estado de coisas, os
governantes da República, o sigiloso Conselho dos Dez,
culpou as mulheres, prontamente identificadas por seus
provocantes sapatos de madeira de salto alto, cravejados de
joias, chamados zoccoli.3 Uma veneziana se equilibrando nos
zoccoli precisava da ajuda dos criados para não cair; quando
tinha um encontro marcado, substituía os sapatos por pantufas
adornadas com brocados cintilantes. “Demasiado
conveniente”, afirmou o furioso doge. 4

Com toda a sua sensualidade, as venezianas eram


fascinadas pelas modas parisienses. No Dia da Ascensão os
manequins exibiam a alta-costura e os tecidos da França.
Goldoni satirizou toda essa adulação em sua farsa Le femmine
puntigliose [A mulher exigente], em que uma dama rejeita um
vestido feito de tecido veneziano.5 Ao contrário das francesas,
as venezianas eram extremamente cuidadosas com a higiene
pessoal, suavizando a pele com cremes e unguentos até deixá-
la com uma textura amanteigada, aromatizando a água do
banho com hortelã, almíscar ou mirra, ou ocultando-se sob
uma máscara facial feita com tiras de vitela mergulhada em
leite.
A busca da beleza era uma ocupação em tempo integral
das mulheres venezianas. Segundo uma estimativa, elas
passavam sete horas por dia envolvidas no toalete, grande
parte disso com seus cabeleireiros, que lhes aplicavam um
arco-íris de tinturas para deixar seus cabelos brilhando como
fios de ouro. As venezianas queriam ser loiras e passavam
horas clareando os cabelos. Ruge e perfumes fortes eram
proibidos, mas nenhuma beldade de Veneza seria considerada
completa sem a sfrontata no nariz; a civetta ou coquete em
uma covinha; a passionata, um pedaço de tecido no canto do
olho; e a devastadora assassina no canto da boca.6
Os cabeleireiros se tornavam confidentes, confessores e às
vezes amantes das mulheres que atendiam. A despeito de todo
seu refinamento e fascínio, as casadas levavam uma existência
enclausurada; um visitante francês as descreveu como
“escondidas de toda vivalma”. De vez em quando, uma dama
veneziana dava o ar de sua graça em um balcão, brevemente, e
isso era tudo. Uma das poucas válvulas de escape para essa
vida em clausura era a gôndola, em que ela podia passar as
horas entre o crepúsculo e o amanhecer flutuando ao longo dos
canais. Ninguém sabia aonde iam durante essas excursões —
encontrar-se com o amante, participar de uma sessão espírita,
jogar num dos cassinos? —, nem sequer os maridos, e os
gondoleiros faziam um juramento de sigilo. Se contassem
alguma coisa, corriam o risco de ser expulsos da guilda ou
afogados. Em Veneza, com suas máscaras, segredos e ruelas
escondidas, um assassinato casual era um fato comum. Numa
sociedade que consistia em casamentos arranjados baseados na
linhagem e na riqueza, maridos e esposas seguiam caminhos
separados após cumprir o dever de produzir herdeiros. Os
casais tomavam a precaução de marcar presença em eventos
públicos, como matrimônios e enterros, porém no mais
levavam vidas separadas, no plano social, romântico e sexual.
2. Veneziana com pinta, por Pietro Longhi.

Quando não estavam sendo atendidas por seus


cabeleireiros privadamente, as venezianas elegantes saíam
com um cavaliere servente, ou cicisbeo, um homem
efeminado mas não necessariamente homossexual, que servia
de companhia constante numa relação estreita, porém
ambígua.7 O cicisbeo devotava seu tempo e atenção para
atender os caprichos de sua senhora. Cuidava de seu cabelo,
sua maquiagem, seu guarda-roupa; ele a elogiava, a protegia
do sol forte e enxotava intrusos desagradáveis. Ele a
acompanhava nos eventos públicos, segurando seu braço ou
sua mão, sussurrando em seu ouvido. “Ele é como uma
sombra a seu lado”, disse um observador.
Ele andava com ela na gôndola, fechado na cabine atrás de
venezianas. Ao fim do dia, a ajudava a se despir,
desamarrando suas fitas, removendo suas ligas, selecionando
uma muda de roupa e acompanhando-a até que fosse dormir.
Talvez fizesse mais do que acompanhá-la; ninguém podia
dizer; um cicisbeo agia com discrição. Se o marido e a esposa
— ele com sua jovem amante, ela com seu jovem cicisbeo —
reconheciam um ao outro em um cassino ou baile,
disfarçavam. Um visitante francês declarou que essas
mulheres eram “dez vezes mais casadas com eles do que com
seus maridos”.
Indiferentes, os maridos — velhos, ricos e poderosos —
zelavam por seus interesses comerciais e visitavam as amantes
ao seu bel-prazer. Anulações matrimoniais em Veneza eram
comuns, e muitos membros da nobreza, incluindo a maioria
dos doges, ou soberanos supremos, nem se davam ao trabalho
de se casar. Os venezianos que o faziam em geral herdavam
riqueza dinástica. Em uma família com três ou quatro filhos, o
herdeiro escolhido se casava, enquanto os outros usufruíam de
uma prolongada vida de solteiro animada pelas cortesãs
venezianas, uma classe variada, talentosa e mercenária —
como Casanova descobriu em seu contato com Giulietta —
que adorava extrair o máximo de seu status informal mas
amplamente reconhecido.8 Elas se vestiam com elegância e de
forma provocante, e seu modo de falar sugeria refinamento e
educação. As melhores dentre elas tornavam-se celebridades
que cobravam um valor absurdo por sua companhia. “Elas
abrem mão por inteiro do coração”, cantava um refrão popular,
“e nada além de prata e ouro é a retribuição.”
As prostitutas de Veneza, numerosas, anônimas e em geral
toleradas, ficavam abaixo das cortesãs.9 Elas se juntavam após
o escurecer sob os pórticos das igrejas, segurando velas,
transformando a casa de Deus em prostíbulo. Ocasionalmente,
alguma lei municipal as bania; ninguém levava a sério.
Espiões da Inquisição, sem nada melhor para fazer,
acompanhavam obsessivamente seus movimentos. “Há
prostitutas por todos os lados”, escreveu um agente em seu
relatório oficial sobre os cafés.10 “Entram o tempo todo,
saindo com um ou outro homem, e lá se vão para o pátio mais
próximo ou para alguma ruela.”
Em uma Veneza superpovoada, uma passagem estreita
iluminada por uma vela gotejante diante de uma imagem da
Virgem fornecia todo o abrigo de que um casal mascarado
precisava para satisfazer seus desejos. Os cafetões,
mangiamarroni, ou “comedores de castanhas”, argumentavam
que as prostitutas forneciam um serviço necessário.11
Jean-Jacques Rousseau, o filósofo genebrino do
Iluminismo e da revolução, visitou Veneza em 1743, na época
em que Casanova aprendia suas primeiras lições amorosas.12
Com prostitutas por toda parte, decidiu que Veneza “não é
lugar para manter distância de mulheres da vida” e se tornou
um cliente regular de duas garotas.
Os pais contratavam criados para cuidar dos filhos e
encontravam os pequenos estranhos apenas em ocasiões
formais, como batizados e enterros. O costume ditava que as
crianças usassem ostentosos casacos de renda, cintilando com
filigranas de ouro, conforme passavam de tutor em tutor e se
preparavam para assumir seu lugar na sociedade veneziana.
Estudantes do sexo masculino sem aptidão acadêmica
obtinham uma amante com a idade de dezesseis anos. As
meninas iam direto para o convento, onde permaneciam até se
casar, se casassem. Como os casamentos eram arranjados, elas
eram apresentadas aos futuros maridos quando assinavam o
contrato matrimonial, atraindo brevemente seus novos maridos
para longe de suas amantes. Bento XIV, cujo papado se
estendeu de 1740 a 1758, advertia: “Deveis vos casar para
usufruir das bênçãos da viuvez um dia”.
Era frequente que os casais entrassem com pedido de
divórcio junto ao Conselho dos Dez. Por mera formalidade,
tinha de haver um motivo, e o mais comum era a impotência,
mesmo se o casal já tivesse filhos.13 Uma vez concedido o
divórcio, o homem normalmente corria para os braços de suas
amantes e a mulher buscava refúgio em um convento,
recebendo apenas os pais, o advogado e admiradores.
Passando por retiros espirituais, os conventos de Veneza
costumavam funcionar como bordéis da alta sociedade,
atraindo turistas em busca de prazer vindos de todos os lugares
da Europa.14 “Os conventos […] tinham a reputação de ensejar
encontros amorosos”, escreveu um visitante francês. “De fato,
essas freiras estão entre as mais atraentes dentre todas as
mulheres de Veneza, e se eu tivesse de permanecer por longo
tempo aqui, seria a elas que devotaria minha atenção. Todas as
que vi na celebração da missa, atrás da grade, conversando e
rindo entre si o tempo todo, pareciam extremamente atraentes;
e seus trajes realçavam sua beleza.”
Sob tais circunstâncias, dois terços dos aristocratas
venezianos permaneciam solteiros. Diversas dinastias
venezianas se extinguiram, e no tempo de Casanova apenas 42
famílias governavam o reino da laguna, muitas delas gastando
mais do que suas posses permitiam. Para reabastecer as fileiras
da liderança, o Maggior Consiglio recorria à venda de assentos
para não venezianos por 100 mil ducados, e até mesmo essa
estratégia desesperada com frequência fracassava. Quando um
mercador abastado estava no auge, ele geralmente se retirava
para uma de suas propriedades rurais, sobretudo durante os
lânguidos meses de verão. Mercadores gregos e judeus
dominaram muitos empreendimentos comerciais
negligenciados. Embora a economia veneziana tivesse
estagnado e sua sociedade se tornado ainda mais licenciosa, o
futuro da República ainda parecia assegurado. A cidade-
Estado perdurava havia um milênio, sobrevivendo a dinastias
por toda a Europa, mas sua segurança, minada por dentro,
tornara-se uma ilusão.
Quando deixou Pádua e foi para Veneza, Casanova
esperava retomar sua vida com a família, mas a doença da avó
o levou a ficar a seu lado até a morte dela, em 18 de março de
1743.
A morte de Marzia Farussi significou o fim da juventude
de Casanova. “Ela não me deixou nada, pois me dera tudo que
possuía durante a vida.” Como resultado, “sua morte teve
consequências que me obrigaram a adotar um novo estilo de
vida”. Sua mãe escreveu que não seria capaz de voltar a
Veneza naquele momento nem nunca. Ia devolver a casa
arrendada onde ele morava. Mais uma vez, ela o abandonara
bem no momento em que precisava de apoio. Dali em diante,
teria de obedecer ao abade Grimani, que ficava com sua tutela.
Ele venderia a mobília, instalaria Giacomo e seus irmãos e
irmã numa pensão respeitável, e eles teriam de cuidar do
próprio sustento. “Visitei o Signor Grimani para lhe assegurar
de que me manteria sempre obediente a sua autoridade. O
aluguel da casa estava pago até o final do ano.” Essa
declaração marcou o fim de sua submissão formal. Ele era
virtualmente um órfão. Seu pai estava morto, sua mãe fora
para um país estrangeiro para nunca mais voltar, e a única
pessoa com quem ele podia contar, sua avó iletrada, mas
afetuosa e protetora, morrera. Ele estava com apenas dezoito
anos.
Desesperado por fundos, apressou-se a vender todo o
linho, as tapeçarias e as porcelanas que havia na casa, e depois
também se desfez dos espelhos e das camas. “Eu sabia que
merecia ser censurado por isso; mas era a herança do meu pai,
sobre a qual minha mãe não tinha nenhuma reivindicação;
considerei-me em meu direito. Quanto a meus irmãos, sempre
haveria tempo para discutir sobre isso depois.” Essa venda
voltaria para assombrá-lo, mas por ora os Casanova obtinham
seu sustento da melhor forma possível. Felizmente, Grimani
arrumou uma posição para Maddalena Casanova com um
colega, e Francesco Casanova começou como aprendiz de
Antonio Joli, um cenógrafo que trabalhava para as produções
de ópera nos teatros dos Grimani, o San Samuele e o San
Giovanni Grisostomo. Giacomo se mudou para uma casa perto
do segundo, para ver o que o futuro lhe reservava.
Semanas mais tarde, no fim de maio, Zanetta escreveu de
Varsóvia para dizer que andara atarefada em prol dele, fazendo
lobby com todo seu poder de persuasão. “Travei conhecimento
aqui, meu querido filho, com um intelectual mínimo” —
tratava-se de Bernardino de Bernardis, que pertencia à Ordem
dos Mínimo, estrita ordem mendicante de monges
franciscanos —, “cujas extensas qualidades fizeram-me pensar
em vós todas as vezes em que me honrou com uma visita.”
Sua mãe não era atriz a troco de nada. Agora desempenhava o
papel de impresario, por sua vez arranjando um papel de
primeira para o filho padre e demonstrando sua afeição à
distância. Os dois chegaram a um acordo. Bernardino
assumiria a responsabilidade por Casanova se ela conseguisse
persuadir a rainha da Polônia, uma grande personalidade a
quem ela tinha acesso na corte, a nomeá-lo para um bispado.
“Atirei-me aos pés de Sua Majestade”, contou Zanetta ao
filho, “e ganhei suas boas graças.”
O papa nomeou Bernardino de Bernardis como bispo de
Martirano, na Calábria, a 16 de maio, e preparando-se para sua
nova vida, Casanova deixou a pensão e foi para o seminário de
San Cipriano, na ilha de Murano, onde visitara, quando
criança, a bruxa que o curou de seus males misteriosos. Não
ficava a grande distância dos teatros de Grimani, mas Murano
e seu seminário ficavam a um mundo de distância da vida que
Casanova conhecera.
“Adeus, Veneza!”, exclamou Casanova. “Certo de que me
aguardava a perspectiva da fortuna mais brilhante, não tardei a
ingressar na carreira que a ela me conduziria.” Disse a si
mesmo que bastava de vaidades e que “só o que me interessará
no futuro são as coisas grandes e substanciais”. O debilitado
Signor Malipiero, que sabia da vida que Casanova levava,
ficou encantado “em me ver prestes a cumprir meu destino em
outro lugar”. Mais uma vez, ele estava fadado a servir a Deus
como sacerdote, longe das mulheres que governavam suas
paixões.
O Signor Malipiero cuidava de duas protegidas, além de
Casanova. Uma era Teresa Imer; a outra, a filha de um
gondoleiro, Gardela, três anos mais jovem do que Casanova.
Desse modo, ele a chamava de a pequena Gardela. Ela fazia
aulas de dança para melhorar suas chances na vida. “Porque
[…] é impossível que a bola entre na caçapa a menos que a
empurremos”, gracejava Malipiero, e ela teria uma brilhante
carreira como atriz e amante de um patrono abastado. Um dia,
Malipiero convidou os três para jantar em sua companhia,
depois pediu licença para tirar sua soneca. Em seguida foi a
vez de Gardela se retirar para uma aula, deixando Casanova a
sós com Teresa Imer. Ele a achava atraente, mas nunca ousara
flertar com a moça, que vivera sob as asas da mãe. Nessa
ocasião, os dois, “em nossa inocente alegria”, decidiram
“comparar as diferenças entre nossas formas”, uma de suas
artimanhas favoritas. “Estávamos no ponto mais interessante
de nosso exame quando um violento golpe de bengala atingiu
meu pescoço, e teria sido seguido de um segundo, e
certamente de um terceiro, se eu não tivesse fugido correndo.”
Recuperando-se do choque em seu aposento temporário, ele
recebeu um mensageiro portando o chapéu e o relógio que
deixara para trás, bem como um bilhete da governanta de
Malipiero advertindo-o a “nunca mais ousar pôr os pés no
palácio de Vossa Excelência”.
Sua resposta irada — “Vós me haveis batido estando
encolerizado, portanto não vos podeis vangloriar de terdes me
dado uma lição. Por esse mesmo motivo, não aprendi nada” —
foi em vão. Malipiero banira Giacomo Casanova, conforme “a
cidade toda riu da história” e Teresa se recusou a dizer uma
palavra em sua defesa.
Casanova suportou esses dolorosos acontecimentos com
tranquilidade e até empolgação. A rotina enfastiava seu apetite
pela vida; a mudança, voluntariamente ou não, aguçava-o. Ele
era bem mais feliz improvisando à medida que seguia em
frente. Um novo desafio o confrontou: um mensageiro de
aparência sinistra — peruca negra, semblante bronzeado e
manto escarlate — entregou-lhe uma missiva do Signor
Grimani “instruindo-me a deixar toda a mobília da casa à sua
disposição”. Repassando os itens com o mensageiro, Casanova
admitiu que vendera a mobília para fugir das dívidas.
Grimani denunciou Casanova e ordenou que deixasse a
casa. “Enlouquecido de raiva, corri a procurar um judeu para
lhe vender tudo que restava”, relatou Casanova. Na época, os
judeus de Veneza moravam no Ghetto original — o abarrotado
bairro que devia seu nome às centelhas lançadas pelas oficinas
de fundição na área. Muitos tinham lojas de penhores e faziam
empréstimos para nobres falidos, jogadores azarados e
qualquer um capaz de oferecer garantias.
No caminho, recebeu uma intimação de Antonio Razzetta,
o homem da peruca negra e do manto escarlate. Quando tentou
entrar na casa da família, Casanova descobriu que fora lacrada
e até mesmo seu quarto estava interditado no momento. Sem
se deixar abater, ele tomou providências para que a casa fosse
aberta no dia seguinte e um advogado intimasse Razzetta, mas
ele precisava de um lugar para passar a noite, e assim se
hospedou com seus “anjos”, fossem quem fossem as mulheres.
Após mais um ou dois dias de manobras legais, Casanova
recebeu um convite para visitar Grimani, que exigia que o
jovem explicasse sua rebeldia. O confronto terminou com uma
trégua: Grimani arranjou para Casanova um quarto no térreo
de uma casa que possuía em San Giovanni Grisostomo.
“Mandai levar vossas roupas e livros para lá e vinde jantar
comigo todos os dias”, instruiu ele. “Pus vosso irmão numa
boa casa e vossa irmã também numa boa casa, então tudo está
arranjado.” Ele descobriu que o segundo andar onde ficaria era
ocupado por uma jovem dançarina conhecida como La
Tintoretta, nome artístico (inspirado pelo negócio de seu pai
como tintureiro) de Margherita Giovanna Grisellinii. Ele
permaneceria lá por seis meses, até retomar seus estudos para
o sacerdócio e dar seus passos iniciais no que agora chamava
de “a estrada para o pontificado”. Casanova não tardou a
depreciar seus próprios sonhos de grandeza: “meus castelos na
Espanha”.
Ele naturalmente estudou La Tintoretta, julgando-a “uma
dançarina medíocre mas uma garota inteligente, nem bela nem
feia”. Ela de vez em quando alternava seu atual amante, o
príncipe Waldeck, com o antigo protetor, Girolamo Lin, que
era mais velho, porém um nobre. Um dia, Lin convidou
Casanova para uma recepção no apartamento do segundo
andar ocupado por ela. “Ela me recebeu ao estilo de uma
princesa”, observou Casanova, empolgado, “tirando a luva
para me oferecer a mão para ser beijada.” Embora veneziana,
insistiu em falar com Giacomo e os demais convidados em
francês. “Pedi-lhe que falasse na língua de nosso país”,
recordou ele, por não entender francês. Trocaram presentes,
um soneto “muito ruim” que ele mandara imprimir para ela e,
para ele, uma caixa de rapé, de ouro. Se não estivesse
acalentando planos de se tornar bispo e talvez papa, teria se
apaixonado. A mera proximidade com ela levou sua mãe a
escrever para Grimani a fim de que este lhe encontrasse uma
“moradia decente e digna”. Ela o queria fora de Veneza e que
arranjasse um modo de acompanhar o recém-nomeado bispo
de Martorano ao seu novo posto dentro de vários meses. Nesse
ínterim, os padres que supervisionavam sua educação o
transferiram para um seminário, antes que fosse presa das
armadilhas do mundo. “A ideia deles era loucura total”,
escarneceu Casanova, mas, no fim, concordou.
Trajado como seminarista, Casanova viajou para os
mosteiros de Murano e San Cipriano, onde reinavam a
quietude, o silêncio e a devoção, e onde parecia que legiões de
romanos, etruscos e outros invasores haviam partido no dia
anterior. Nessas paragens, ele levaria uma existência
elementar, porém refinada.
“Mostraram-me três ambientes em que havia pelo menos
150 seminaristas, dez ou doze salas de aula, o refeitório, o
dormitório, os jardins para caminhadas durante as horas de
recreação, e esforçaram-se por me fazer imaginar nesse lugar a
vida mais feliz que um jovem podia desejar.” Tudo isso,
embelezado pela eloquência dos monges, “me fez rir”. Ainda
na noite anterior ele dormira com duas mulheres que
jocosamente chamou de suas “esposas”. Elas haviam
“borrifado a cama com suas lágrimas misturadas às minhas”.
Dois anjos!
As garotas ocupavam seus pensamentos durante o trajeto
de gôndola para Murano quando ele ficou nauseado e teve um
acesso de vômito. Atônitos, os padres o encheram de
remédios, ignorando por completo que “o acesso foi efeito dos
esforços amorosos que eu fizera a noite toda com meus dois
anjos, os quais temia segurar nos braços pela última vez”. Ele
foi cambaleando na direção de seu dormitório, onde seu baú,
manto e chapéu o aguardavam. Esperava ser colocado numa
classe de adultos devido a sua altura, mas não tinha idade para
isso. Informou ao reitor que desejava se juntar à escola de
teologia doutrinária, para aprender a história da Igreja, e no
entanto, quando chegou a hora de realizar uma simples prova,
ele se sabotou e foi colocado em uma classe consistindo em
meninos de nove e dez anos, para quem explicou solenemente
que era na verdade um doutor. Mais tarde nesse dia, o prior o
confrontou: “Por que haveis pretendido ignorância em vosso
exame?”, ao que Casanova redarguiu: “Por que haveis
cometido a injustiça de a ele me sujeitar?”. Posteriormente, ele
fez amizade com um seminarista de quinze anos. “Em quatro
dias nos tornamos amigos tão próximos que sentíamos ciúme
um do outro. Ficávamos amuados quando um de nós saía para
caminhar com qualquer outro.”
Ficar no dormitório se revelou mais difícil. Um monitor,
“cujo principal dever era assegurar que nenhum seminarista
fosse para a cama com outro”, vigiava. Masturbar-se era
estritamente proibido. Tais restrições revoltavam Casanova.
“Tolos ignorantes”, protestou, e citou o exemplo de alunos na
Alemanha que reagiam a regras similares masturbando-se
ainda mais. “Um homem saudável” precisa de alívio, porém a
“proibição o estimula”, declarou. Alunos se masturbavam “a
fim de ter o prazer de desobedecer, um prazer natural a todo
homem desde o tempo de Eva e Adão”. Nesse aspecto,
preferia estar ao lado das madres superioras dos conventos,
que “sabem por experiência que não existe menina que não
comece a masturbação com a idade de sete anos, e elas nunca
pensam em lhes proibir essa prática pueril, embora possa
produzir resultados infelizes em meninas também, ainda que
menos extensos, pois a emissão é pequena”.
Nove dias após chegar ao seminário, Casanova se
surpreendeu quando seu jovem amigo entrou na cama com ele,
mas a travessura o alarmou; arriscavam-se a cometer “o mais
antigo dos crimes”. Nesse momento, o monitor pegou os dois
juntos. O amigo de Casanova, ao sair correndo do dormitório,
derrubou o monitor no chão e sumiu na escuridão.
No dia seguinte, o prior prometeu proteger o anonimato
dos dois transgressores contanto que fossem até ele se
confessar. O assunto teria se encerrado aí se Casanova não
decidisse visitar o mesmo jovem em seu dormitório algumas
noites depois. Dessa vez, meteram os pés pelas mãos na hora
de fugir, e suas mentiras só tornaram as coisas piores. Nem
mesmo Casanova era capaz de escapar de um castigo severo
na base da conversa: “Quatro criados nos pegaram, amarraram
nossos braços atrás das costas, levaram-nos de volta para
dentro e nos fizeram ajoelhar perante o grande crucifixo”.
Com os rapazes assim aterrorizados, o prior pregou um sermão
e os criados puseram mãos à obra. “Senti então sete ou oito
golpes da corda ou da vara descerem sobre meus ombros,
todos os quais, como meu estúpido companheiro, recebi sem
proferir uma única palavra de queixa.” A dor foi terrível; seu
corpo logo se recuperou, mas seu espírito levaria muito mais
tempo.
No momento em que foi libertado, pediu permissão para
escrever algumas linhas para depositar “ao pé do crucifixo”.
Nelas, protestava sua inocência. A carta incitou os protestos
dos seminaristas, que enxotaram o prior “em meio a uma
tempestade de assobios e vaias” — em vão. O prior ordenou
que todos os transgressores fossem confinados a uma prisão no
sexto andar do mosteiro. Subir os degraus já era uma forma de
penitência. Casanova sofreu em uma cela tendo somente uma
cama por companhia e duas refeições diárias. No quarto dia,
um padre que ele conhecia, Tosello, chegou e se compadeceu.
“O prior se recusa a admitir que está errado.” Nesse caso,
Casanova fugiria com a ajuda de Tosello. Chegaram a um
mosteiro jesuíta, onde Tosello o abandonou “sem um soldo e
de posse de nada além do que eu tinha comigo na hora”.
Recuperou as forças na casa de conhecidos e foi em busca
de diversão com seus dois anjos, mas logo se encontrou a
caminho de uma ceia com seu irmão Francesco, que agora
morava em uma pensão onde “a tirania era tão pesada sobre
ele como foi sobre mim”. Casanova prometeu libertar o irmão.
Primeiro, visitou a dupla de jovens que gostava de chamar de
suas “pequenas esposas, mas, confesso, para minha vergonha,
que a preocupação incapacitou o amor, a despeito das duas
semanas passadas em abstinência”. Jurou que na noite
seguinte, quando se encontrassem, estaria em uma condição
totalmente diferente. Após passar uma manhã na elegante
Biblioteca Marciana, na Piazza San Marco, foi abordado por
um soldado que o informou de que uma gôndola o aguardava;
o anúncio o levou a se alarmar. “Eu odiava escândalos e a
desgraça da notoriedade.” Não exatamente: ele florescia com
isso.
A gôndola, como já imaginava, pertencia a Grimani. Ele
entrou na cabine escura, a cortina foi puxada e a embarcação
deslizou silenciosamente rumo à ilhota de Lido, um longo
banco de areia nos arredores de Veneza, conhecido nessa
época como a fortaleza de Sant’Andrea. Casanova não tinha a
menor ideia do que aconteceria com ele nesse lugar um tanto
remoto. Viu-se confinado a uma casa de guarda. Outro soldado
explicou que ele permaneceria ali, recebendo a escassa paga
de um soldado, dez soldi por dia. Exausto, ele “passou uma
noite insone na companhia de alguns soldados eslovenos que
nada faziam além de cantar, comer alho, fumar um tabaco que
empesteava o ar e beber vinho esloveno. Parece tinta, e só um
esloveno consegue tomar”.
Fez a ceia com o major, sua esposa e diversos oficiais, a
quem divertiu com sua “animação natural” e uma narrativa de
três horas envolvendo suas aventuras e dificuldades desde a
morte da avó. Sempre que as pessoas paravam para escutar
seus infortúnios, ele refletia: “Inspiro nelas cordialidade
suficiente para ficarem do meu lado e me serem úteis”. O
truque, explicou, era revelar até as partes mais embaraçosas e
ações censuráveis. “Acredito que um homem culpado que ousa
admitir sua culpa perante um juiz justo tem maior
probabilidade de ser absolvido do que um homem inocente
que responde com evasivas.” Casanova era justamente esse
homem.
Ele encontrara seu métier. Contando suas várias escapadas,
desafiando as autoridades, seduzindo e sendo seduzido por
mulheres e depois contando histórias a respeito, servia de
entretenimento, confissão, penitência e validação. Descobrira
seu assunto favorito: ele mesmo.
Na manhã de 2 de abril de 1743, quando completou
dezoito anos — ou, como um irritado Giacomo Casanova
disse, “o dia fatal da minha entrada neste mundo” —, ele
encontrou uma “linda grega” que lhe implorou por ajuda. Ela
alegava que o marido deixara de ser promovido porque ela se
recusara a dormir com seu oficial comandante. Se ao menos
Casanova pudesse escrever uma petição em favor do pobre
marido, ela ficaria grata de todo coração. Ele escreveu a carta,
mas ela resistiu a seus avanços “em nome das aparências”, até
que enfim cedeu. O encontro foi tão prazeroso que ela voltou
para uma segunda e uma terceira vez.
Dois dias depois, ele descobriu que a mulher lhe passara
uma doença venérea. Ele censurou a bela grega, mas “ela me
desconcertou, ao responder rindo que não me dera senão o que
tinha e que eu errara em não tomar minhas precauções”.
Ele foi lembrado de sua vergonha semanas depois, no Dia
da Ascensão, em maio, quando seus dois anjos — ainda
anônimos — o visitaram em seu forte em Lido para assistir à
cerimônia anual do casamento entre Veneza e o mar, cujo
ponto alto era o doge lançando um anel consagrado às ondas.
Quando ficaram sozinhos, recordou ele, as meninas “se
atiraram em meu pescoço, achando que rapidamente eu lhes
daria prova de minha constância”. Mas não enquanto ainda
sofria com sua inflamação venérea. “Ai de mim! Apenas lhes
dei uma profusão de beijos, fingindo temer que alguém
pudesse aparecer”, e o reencontro logo chegou ao fim.
Conforme os dias e semanas no forte se arrastavam, ele
caiu vítima da melancolia. No calor opressivo de junho,
observando os raios de sol penetrarem através da penumbra,
sentiu-se entediado, infeliz e furioso. Em meio a esses
períodos de abatimento, quando estava no quarto do major, foi
visitado por um de seus atormentadores, Razzetta, o emissário
de Grimani de pele bronzeada, peruca negra e manto escarlate,
que chegou acompanhado. O ódio entre os dois era tão intenso
que Razzetta avançou para atacar Casanova com uma bengala,
mas foi contido pelos demais.
Casanova ansiava por fugir. Pensou que “um barco sob
minha janela, no qual eu pudesse saltar, poderia levar-me a
Veneza para passar a noite e trazer-me de volta ao forte antes
da alvorada, após eu ter cumprido meu propósito”. Algumas
moedas de zecchini contrataram os serviços de um barqueiro
chamado Biago, que concordou em se aproximar da janela de
Casanova ao anoitecer. Quando o barqueiro se posicionou,
Casanova desceu até o bote, e os dois remaram vigorosamente
até Veneza, desembarcando no Riva degli Schiavoni, o amplo
passeio à beira d’água junto à Piazza San Marco.
Disfarçado com um manto de marujo, Casanova se dirigiu
à casa de Razzetta e esperou até sua presa se aproximar vindo
do Campo San Polo. Isso era tudo de que precisava saber, e ele
rapidamente voltou à fortaleza, sem que ninguém tivesse dado
por sua breve ausência.
Dias depois, Casanova fingiu um entorse de tornozelo
grave o bastante para ficar acamado no quarto, onde encorajou
seus criados a beber até cair. Enquanto dormiam no estupor da
bebida, ele regressou a Veneza no barco com Biago e foi para
um canal estreito junto ao Campo San Polo. Pareceu “sob
medida para mim atirar meu inimigo ali”. Quando Razzetta se
aproximou, Casanova ergueu seu porrete e o acertou na cabeça
e no braço, e após mais alguns golpes o empurrou para dentro
do fétido canal. Depois fugiu pela praça “como um pássaro”,
atravessou o canal e entrou no barco em que viera. Estando de
volta a seu quarto em Sant’Andrea à meia-noite, fingiu ter
convulsões para acordar seus cuidadores adormecidos,
disfarçadamente jogou fora os medicamentos que lhe deram
para tratá-las e pegou no sono. Acordou com a “ótima notícia”
de que Razzetta fora agredido e jogado no canal, embora
tivesse sobrevivido. “Melhor para vós, pois vosso caso teria
sido muito pior: todos têm certeza de que fostes vós que
cometestes esse crime”, disse o major.15
Sofrendo de uma fratura no nariz, dentes quebrados e
dolorosos hematomas, Razzetta ansiava por punir seu agressor,
mas uma investigação formal inocentou Casanova, que usou
seu álibi, e Razzetta, a vítima, teve de pagar as custas do
processo. Com uma combinação de astúcia e sorte, Casanova
se safara de uma tentativa de homicídio e conquistara a
reputação de que era melhor não mexer com ele, mesmo sendo
apenas um rapaz.
Pouco depois, requisitou sua liberação de Sant’Andrea e,
para sua surpresa, recebeu-a. Como brincadeira, disse ao major
que “preferia sua casa à cidade de Veneza”, e o major
respondeu segurando-o no forte por mais uma semana.
Durante esse período, juntou-se a ele um ilustre companheiro
de cela, o conde Giuseppe Bonafede, um florentino que se
estabelecera em Veneza e ocasionalmente espionava para a
República. De maior interesse foi a filha de quinze anos do
conde que apareceu para visitá-lo e “pareceu-me uma beldade
de nova espécie. Ela tinha cabelos loiros, olhos azuis, nariz
aquilino e uma bela boca entreaberta”. Além do mais, “seu
talhe era tão esbelto que parecia artificial, mas seu busto
perfeitamente formado assemelhava-se a um amplo altar,
contínuo, a não ser pelos dois pequenos botões de rosa um
tanto apartados”.
Quando passeavam juntos pelo forte, a Signorina
vangloriou-se de seus esboços de Adão e Eva. Ele presumiu
que sua Eva deveria se assemelhar a uma mulher real, mas que
seu Adão seria idealizado, ao que ela o corrigiu. Adão exibia
cada músculo do corpo. A insinuação foi tão intensa que ele
“ficou indecente e, por estar usando culotes de linho em razão
do calor intenso, foi totalmente incapaz de esconder o fato”. A
situação ficou ainda mais terrível quando um dos sapatos saiu
do pé da jovem; ele se ajoelhou para devolvê-lo ao pé, ergueu
o rosto e percebeu que ela não usava nada sob a saia. O
vislumbre “quase me fez cair morto”. O flerte desajeitado “me
deixou tão constrangido que me odiei e não duvidei de que ela,
por sua vez, não só me odiava como também me desprezava”.
No oitavo dia de seu período de confinamento extra,
Casanova obteve a soltura formal. Ele passou a primeira noite
de liberdade com seus dois anjos. Pela manhã, foi ver Grimani
na companhia do major. Surpreendido pelo conselho de
Grimani para “perdoar Razzetta”, Casanova confessou ser o
autor da agressão. A admissão foi recebida com descrença.
Como Casanova podia ter feito aquilo confinado ao forte e
com um tornozelo torcido? Talvez ele tivesse elaborado o álibi
perfeito, afinal de contas.
Ele visitou a jovem contessa que havia conhecido no forte.
“Indo ver um anjo, imaginei que adentraria em um canto do
Paraíso.” Em vez disso, “vi-me numa sala de visitas na qual
nada havia além de três ou quatro poltronas de madeira caindo
aos pedaços e uma mesa velha e suja”. Essa não era a
esplêndida nobreza que imaginara quando conhecera o conde e
sua filha; eles eram barnabotti, a nobreza destituída que
subsistia de escassa caridade, centrada em torno da paróquia
de San Barnaba, de onde tiraram seu nome.16 Mesmo em suas
circunstâncias limitadas, eles mantinham seus assentos no
Maggior Consiglio, mas, rudes e indesejados, os barnabotti
trabalhavam como lojistas ou viviam de caridade. Habitações
gratuitas estavam disponíveis para essa casta privilegiada mas
decadente, contanto que se abstivessem de casar e ter filhos.
Eram tão pobres que penhoravam suas roupas finas, ficavam
dias sem comer para juntar alguns vinténs e iam à missa
regularmente para que seus nomes não fossem retirados das
listas de caridade.
Casanova disse algumas palavras de consolo para a jovem,
que queria lhe apresentar seus desenhos de Adão e Eva.
Explicando que “há muito me acostumei à pobreza”, ela lhe
mostrou seu quarto frugal contendo uma mesa, cadeira, um
pequeno espelho e “uma cama virada de modo que se via
apenas a parte de baixo do colchão. O espectador ficava assim
livre para imaginar que havia lençóis”. Mas não havia. Um
“antigo fedor” o dominou. “Nunca um amante perdeu o ardor
mais rapidamente.” Sua vontade era dar um punhado de
zecchini para a deplorável família e se mandar. Em vez disso,
obrigou-se a ver os desenhos da menina. Eles mostravam
talento, e ele perguntou por que ela não aprendera a pintar, já
que assim poderia vender suas pinturas. Ela explicou que uma
caixa de tintas custava dois zecchini, mais do que podia pagar.
Ele lhe ofereceu seis, e ela, às lágrimas, aceitou. “Saudei seus
lábios com um beijo que ela era livre para acreditar que viera
do amor.” Ele prometeu retornar, mas dez anos se passariam
antes de voltar a ver a jovem condessa.
“Que lição!”, refletiu ele após sua partida, pensando sobre
a maneira como as mulheres inflamavam e iludiam os homens,
apelando à imaginação. E a maioria dos homens estava mais
do que disposta a ser iludida em nome do amor.
Quando chegou a hora de trocar Veneza pelo sul da Itália
para se juntar ao bispo de Martorano, Casanova acompanhou o
embaixador veneziano a Ancona, um porto localizado no
Adriático, cerca de quatrocentos quilômetros ao sul de Veneza.
Longe de ser tão grandiosa e devassa quanto Veneza, Ancona
se orgulhava de sua grande catedral do século XIII e abrigava
uma população judaica em expansão que revigorava a
economia da cidade. Casanova não via a hora de ir, mas
primeiro visitou seus dois anjos, “que tinham certeza de que
nunca voltariam a me ver”, o que significou que “passamos a
noite entre a alegria e a tristeza, entre risadas e lágrimas”.
Havia a necessidade de embalar seus pertences, seus
documentos e, acrescentou ele, “todos os livros proibidos que
eu possuía”, sem especificar quais podiam ser. A Inquisição
vêneta considerava blasfemos livros sobre misticismo e a
cabala, e era muito provável que os livros fossem sobre esses
assuntos. Casanova não tinha ideia de quanto tempo ficaria
longe de Veneza; talvez nunca voltasse. Sua senhoria na época
previu que sua ausência não duraria mais que um ano; ela dizia
que, com seu extenso conhecimento do mundo, nunca errava.
Uma última coisa: Grimani, aliviado de ver a partida do
irresponsável rapaz, deu-lhe dez zecchini, o suficiente para
sustentá-lo. No caminho, ele perdeu os dez zecchini e mais
trinta do seu disputando faro, um jogo de cartas viciante que
envolvia um único baralho, uma banca e vários apostadores
que ganhavam ou perdiam conforme as cartas baixadas
combinavam ou não. Quando jogado estritamente segundo as
regras, a casa, ou banca, praticamente não tinha vantagem;
assim, com o tempo os estabelecimentos de jogatina por toda
parte conceberam modos sutis de enganar os jogadores. Isso
foi precisamente o que aconteceu com Casanova. Para levantar
fundos para mais uma rodada de carteado, ele penhorou o
conteúdo de seu baú, apostou o dinheiro obtido e voltou a
perder tudo.
Quando se preparava para dormir, viu “os odiosos sinais da
mesma enfermidade [a doença venérea] da qual fora curado
menos de dois meses antes. Fui para a cama entorpecido.
Acordei onze horas depois, mas tão completamente desolado
que continuei na modorra”. Ele não teve coragem de levar sua
doença à atenção de um médico, nem de retornar para Veneza.
“Minha vida se tornara um fardo para mim”, lamentou. Em
vez disso, continuou a viagem, recusando-se a comer, “em um
estado de completa apatia”, encontrando alívio apenas quando
levou para a cama uma governanta que flertava com ele. Por
algum tempo, esqueceu “todas as causas de melancolia que
não podiam deixar de oprimir qualquer homem que fosse”,
hesitando na hora de cometer o que chamou de “pecado
imperdoável”, isto é, transmitir sua resistente doença venérea.
Mas ela era tentadora; não havia como voltar atrás, e assim ele
a possuiu, usufruindo do momento doce enquanto de algum
modo dava um jeito de ocultar seu mal.
Enfim ele chegou de barco a Ancona. Um veneziano leal,
considerou o porto inferior, “a não ser pelo molhe construído a
grande custo”. Ele desembarcou, preparou-se para suportar 28
dias de quarentena em um lazaretto sob suspeita de abrigar a
peste.17 Já cansado e acostumado a ser confinado, “aluguei dos
judeus uma cama, mesa, algumas cadeiras, cujo aluguel
deveria saldar ao fim da quarentena”. Certo Frate Steffano lhe
fez companhia, dormiu sobre palha e conquistou sua
confiança. Não demorou para que Casanova lhe contasse sobre
sua “triste situação”, que, para sua surpresa, deleitou o frade,
que propôs um arranjo. Ele cuidaria do rapaz se Casanova
escrevesse cartas para ele, que era capaz de rabiscar seu nome
(com as duas mãos, gabou-se), mas apenas isso. Casanova
concordou de pronto, acrescentando passagens em latim
conforme o monge o orientava (“até as que eram dirigidas a
mulheres”). Ocasionalmente corrigia a falta de domínio da
história eclesiástica exibida pelo frade, que o rebatia, e quando
se recusou a continuar escrevendo, o monge ameaçou parar de
alimentá-lo.
Casanova planejava uma viagem a pé até Loreto, na
província de Ancona, sede da Basilica della Santa Casa, um
destino sagrado popular entre os peregrinos. “Cheguei a essa
cidade santa morto de cansaço. Era a primeira vez na vida que
fazia quase 25 quilômetros a pé, sem beber nada além de
água.” Em uma estalagem confortável, ele dormiu por dez
horas. Com energia renovada, caminhou por horas rumo ao
interior até chegar à cidade de Muccia, onde tentou saltar por
cima de uma vala e torceu o tornozelo “tão dolorosamente que
não pude dar mais um passo”. O único recurso que lhe restou
foi rezar por ajuda. O resgate chegou uma hora depois na
forma de um camponês, que o transportou até Serravale, onde
ficou se contorcendo de agonia no catre de palha da casa de
um camponês.
Enfim um cirurgião veio examinar o tornozelo de
Casanova, prescreveu três dias de repouso e providenciou que
seu paciente fosse transportado para uma estalagem. No quarto
dia, ele estava pronto para seguir caminho, mas havia a
questão embaraçosa da conta a acertar. Tudo o que Casanova
tinha a oferecer era o casaco; estava chovendo e ele repudiava
a ideia, mas não havia outra escolha. Eis então que apareceu o
Frate Steffano, fazendo a mesma viagem, mas a um ritmo mais
lento, “rindo como um louco”. A coincidência deixou o jovem
perplexo, e ele se perguntou sobre o papel que a Providência
desempenhava em sua vida; “me senti reconfortado quando vi
aquele tolo, aquele patife, aquele salafrário ignorante aparecer,
pois não duvidei sequer por um momento de que me resgataria
de minhas dificuldades”.
Quando a improvável dupla de peregrinos finalmente
chegou a Roma, o bispo não estava mais lá, tendo deixado
instruções para Casanova encontrá-lo em Nápoles. Casanova
finalmente alcançou sua elusiva presa no vilarejo remoto de
Martorano, Calábria. Logo ficou óbvio para ambos que o
austero lugar nunca seria adequado. O bispo mandou
Casanova de volta para Roma portando cartas de apresentação
para o cardeal Acquaviva e o padre Georgi, que, conforme se
dizia, desfrutavam de boas relações com o papa. “Não faça
amizade com ninguém sem me consultar”, aconselhou o padre
Georgi. E evite frequentar os cafés. “Se tiver de ir, escute, mas
não fale.” E quando Casanova apresentasse suas credenciais
para o cardeal, devia se vestir como um “modesto abade”.
Munido desse conselho, Casanova perambulou por Roma.
Nos cafés, escutou “duras críticas” ao papa e a vários
sacerdotes sem emitir opinião. Após uma semana, concluiu
que “não há uma cidade cristã e católica no mundo onde as
pessoas sejam menos rígidas em matéria religiosa do que em
Roma”. No laissez-faire da Cidade Eterna, eles comiam carne
aos sábados: a transgressão o fez parar para pensar. “Os
romanos são como os empregados do monopólio do tabaco,
que têm permissão de pegar quanto quiserem em troca de
nada.”
Apesar do ambiente permissivo, foi ali, escreveu ele, que
“finalmente me decidi a ser tonsurado”, como se fosse a
primeira vez. Talvez o ato significasse um recomeço. O
cardeal finalmente o recebeu e advertiu o noviço a começar a
aprender francês, língua da diplomacia.
Mesmo nesse momento delicado começou um flerte com
duas irmãs, Angelica e Lucrezia. Mas, antes que pudesse ir
além com elas, entrou em um café onde encontrou um “abade
de formosas feições. Seus quadris e coxas levaram-me a
pensar que fosse uma jovem disfarçada”. O abade em questão
era Beppino della Mammana, nome artístico de Giuseppe
Ricciarelli, um conhecido castrato. “Ele me lança um olhar
ousado e diz que me servirá como menino ou menina,
qualquer coisa que eu preferir.” Casanova avaliou a sugestão,
mas preferiu a companhia de Lucrezia. Ela era casada, porém
sua situação acentuou a excitação da conquista. Sua
oportunidade chegou quando passeavam pelo jardim
luxuriante de uma mansão, onde, numa manobra inicial, ele
lhe pediu para explicar: “Da metafísica de vosso amor, como
pode ser que neste momento sinto-me como se estivesse
prestes a mergulhar convosco nas delícias do amor pela
primeira vez?”. Ela olhou em sua direção, mas nada disse.
Encorajado, ele procurou por um “altar a Vênus”, onde
pudessem se oferecer “em sacrifício até perecermos”. Mesmo
que o papa os pegasse em flagrante, não parariam: na verdade,
ele os abençoaria, não? Encontraram um ponto adequado sob
um caramanchão, onde a grama fora moldada na forma de uma
cama. “Olhamos para aquilo e rimos. Era uma cama de
respeito”, e o momento chegou. “Intensamente solenes,
olhando nos olhos um do outro, desfizemos os laços e
desabotoamos nossas roupas, com os corações palpitando,
nossas mãos apressadas para acalmar a impaciência.”
Passaram duas horas entregues a rompantes de “combate”,
ao fim das quais se entreolharam, dizendo: “Amor, eu vos
agradeço”. Beijaram-se novamente, mas quando Lucrezia viu
que “estava me reanimando”, afastou-se e sugeriu que se
vestissem. Mesmo depois disso, acomodaram-se em um
“banco longo e estreito sem encosto, que podia ser montado
como uma mula”, onde o “combate começou e prosseguiu
vigorosamente”, mas dessa vez o clímax se provou difícil de
alcançar, e assim “o postergamos até estarmos frente a frente
na escuridão da noite à música de quatro cavalos trotando”.
Na carruagem, riram por todo o caminho até os jardins
luxuriantes de Tivoli, com suas lagoas, cascatas, chafarizes e
fontes, onde passariam a noite na casa do cunhado dela.
“Passamos duas horas frente a frente na carruagem
desempenhando uma comédia que éramos incapazes de
terminar. Chegando à casa deles, tivemos de baixar as
cortinas.” Os atos amorosos se encerraram e o tempo voltou a
correr. “Fui para a cama um tanto cansado; mas um bom sono
restaurou-me por completo.” Na manhã seguinte, apenas a
lembrança do castrato “de belas feições” que se ofereceu para
servi-lo como homem ou mulher perturbou seus pensamentos.
Comparecendo a recepções no palácio de “meu mestre, o
cardeal”, atraiu a atenção de certa Marchesa G., que lhe dirigiu
algumas palavras em francês, mas ele respondeu sempre em
italiano, não querendo fazer papel de tolo. Ficou receoso de se
apaixonar pela marquesa, ou de encorajar seu interesse, porque
já estava apaixonado por Lucrezia. Os outros, porém, notaram,
inclusive Gama, o abade português, que perguntou a Casanova
se ele ocasionalmente a visitava. “Não é necessário vos
fazerdes anunciar”, explicou o abade. “Simplesmente ide vê-la
quando as portas duplas do quarto estiverem abertas. Vós a
encontrareis cheia de gente lhe fazendo a corte.”
Antes disso Casanova encontrou alguém bem diferente: o
polido Bento XIV, que dera o conselho tão memorável sobre o
casamento. Com a Reforma andando devagar, o estado de
espírito em Roma relaxou, e assim foi com o papado. Como
muitos outros, Casanova achou o papa “instruído” e “um
homem afeito a uma piada e extremamente agradável”. Suas
tiradas inteligentes haviam circulado por Roma e além. Na
França, Voltaire, notório por seus incansáveis ataques à Igreja,
decidiu dedicar uma de suas obras a ele. Talvez o pior que
tinham a dizer a seu respeito fosse que escrevia demais e
governava de menos. O papa apoiava bibliotecas,
principalmente eclesiásticas, e fundou academias para
promover o estudo das leis, da história da Igreja e da
Antiguidade. Todo mundo a essa altura sabia que o jovem
abade veneziano conhecera o Santo Padre.
E então ele fez a corte à marquesa, como ela havia “mais
ou menos obrigado” que fizesse. Passando sem hesitação do
sagrado ao profano, ele entrou na sala de recepções. Ela sorriu.
Ele fez uma mesura. Alguma coisa mais era esperada dele,
alguma prova de seu apreço a ela. Em vez disso, ele foi jantar.
“Ela era bonita e poderosa em Roma; mas não consegui me
forçar a rastejar. Os costumes romanos me exasperavam.” De
modo que nada fez.
Em novembro, voltou para os braços de Lucrezia em
Tivoli, a cerca de 25 quilômetros de Roma. Dividindo um
fáeton com a família dela, sentiu-se atraído por outra irmã,
Cecilia. Interpretou os comentários dela como “uma
declaração de amor muito clara. Fiquei quase paralisado” —
ainda mais quando Lucrezia pôs a mão nele e o sacudiu,
querendo saber o que Cecilia dissera. Casanova lhe disse a
verdade e ela prometeu “dar um jeito na irmã”.
Após um dia conhecendo as atrações turísticas de Tivoli,
voltaram para casa “exaustos e morrendo de fome”, de modo
que fizeram uma ceia de “pratos requintados e com o
excelente vinho de Tivoli” e foram se deitar. Mas as coisas não
eram tão simples. Casanova ficou separado da terceira irmã,
Angelica, por uma porta trancada, da qual ele tinha a chave.
“Pus o olho no buraco da fechadura”, recordou, e observou
Lucrezia e Angelica entrarem. Elas se sentaram no sofá, e
Angelica, de dezessete anos, “a virgem, sem saber que estava
sendo observada, tirou até a camisa de baixo e nesse vestuário
esplêndido atravessou o quarto. Lucrezia apagou a luminária,
soprou as velas e também se deitou”.
No escuro, Casanova lentamente abriu a porta com sua
chave e se aproximou de Lucrezia. E então, “nunca me despi
mais rapidamente. Abri a porta e caí nos braços de Lucrezia”,
que pediu a Angelica para ficar de boca fechada. Em menos de
um minuto tornaram-se um “único ser” conforme “o fogo
intenso nos chamuscou; ele teria nos queimado se tentássemos
refreá-lo”. Começaram um prolongado “combate, que,
encantando todos os nossos sentidos, não podia ter defeito
senão o de terminar demasiado breve; mas me sobressaí na
arte de prolongá-lo”.
O casal enroscado dormiu até o amanhecer. “Cuidado com
vossa irmã”, sussurrou Casanova para Lucrezia, “ela pode
virar e nos ver.”
Aproveitando a ideia, Lucrezia ordenou à irmã virgem:
“Virai e vede o que vos aguarda quando o amor torna as
pessoas em escravas”.
Lucrezia implorou à irmã mais jovem para perdoá-los e
invocou “o poder do Amor” para justificar seu
comportamento. Então deu um passo além: “Dizendo-me para
beijá-la, Lucrezia fica do meu outro lado e usufrui do
espetáculo de sua irmã em meus braços, suave e não
mostrando sinais de resistência”. Casanova agarrou-a “num
frenesi, ao mesmo tempo deleitando-se no êxtase que via no
rosto de Angelica, que testemunhava embate tão esplêndido
pela primeira vez”. Então Lucrezia empurrou-o para cima de
Angelica, que “agarra-me ao seu seio com tanta força que
atinge a felicidade” — seu orgasmo — “quase sem minha
participação”. Lucrezia ficou empolgada de ver a irmã
sucumbir à paixão. Enxugou a testa de Casanova e depois
“pereceu pela terceira vez”.
Quando Casanova entrou na sala de visitas, uma hora
depois, ficou “deliciado em ver que minhas formosas
conquistas tinham aparência revigorada e corada. Donna
Lucrezia estava perfeitamente relaxada; Angelica, mais alegre
do que o normal e radiante”. O idílio não duraria muito mais
tempo. O marido de Lucrezia estava prestes a regressar após
outra ausência prolongada.
Depois que a família partiu, Casanova, abruptamente
isolado, foi “deixado no estado de lassidão ao qual sucumbe
um jovem quando seu coração está vazio”. Ele passou os dias
no quarto, resumindo e catalogando a correspondência do
cardeal. Era um trabalho meticuloso e monótono.
A Marchesa G. flutuou na periferia de sua consciência,
mas “sua atitude comigo era fria”. Talvez a notícia de suas
aventuras em Tivoli houvesse chegado a ela, pois afirmou ao
cardeal que seu jovem secretário estava trabalhando duro para
curar sua tristeza. Entrementes, Casanova insistia que seu
amor por Lucrezia, embora real, era inteiramente inocente. A
ficção se provou suficiente para a Marchesa declarar seu
profundo interesse pessoal nele “sob o disfarce de sua
grandeza”. Ninguém, explicou Casanova, teria visto algo
impróprio em seu interesse por ele. “Um jovem abade como
eu, sem a menor importância, só poderia aspirar a sua
proteção.” Perscrutando o futuro imediato, ele a julgou digna
de “suceder Donna Lucrezia”, pois era “linda, jovem,
inteligente, espirituosa, muito culta, lida e um poder em
Roma”. Ele naturalmente fingiria não ter lembrança dos planos
dela para ele e até insinuaria que a “amava sem ousar
alimentar esperança”.
Após dias de intrincadas manobras, compondo sonetos na
esperança de conquistar sua admiração, ele ficou frente a
frente com ela certa noite diante de uma balaustrada; estavam
tão próximos que o joelho dela foi pressionado contra o bolso
que continha seu relógio. “Eu vos adoro, Signora”, declarou-se
ele, mas, “se não me permitis esperança, jamais voltarei a vos
ver. Pronunciai vossa sentença sobre mim.”
E assim ela fez. “Creio que sois um libertino e um
inconstante.”
“Nem um, nem outro”, insistiu ele, e “saudou seus lábios
com um beijo amoroso”. Ele tentou tirar as roupas dela. Agora
não!, disse a Marchesa. Ela tentou convencê-lo de que ela e o
cardeal eram apenas bons amigos, assim como Casanova
alegava ser com Lucrezia, e desse modo ele decidiu “esperar
mais um dia para obter um maior favor”. Sem aviso, Sua
Eminência apareceu, oferecendo copiosas desculpas, ainda que
suspeitas, por mantê-los esperando.
Quando a notícia do entendimento entre Casanova e a
Marchesa se espalhou, padre Georgi o advertiu a não trocar ela
por alguma outra. Parecia que Roma, na pessoa do cardeal
Acquaviva, estava mudando de ideia sobre Casanova. O que
isso significaria para seu futuro?
3. Bellino
Durante a temporada da Quaresma, o cardeal Acquaviva
convocou Casanova com o pretexto de que o jovem estivera
tangencialmente envolvido em um escândalo amoroso. “Vejo-
me na obrigação de vos pedir para deixar não só meus
serviços, como também Roma”, afirmou ao rapaz. Para manter
as aparências, ele teria permissão de “anunciar ao mundo” que
estava cuidando de negócios do cardeal.1 “Deveis vos preparar
para partir em uma semana”, aconselhou. “Acreditai-me,
lamento profundamente vos perder”, acrescentou, quando o
jovem se desmanchou em lágrimas.
Procurando consolo nos jardins da Villa Borghese,
“caminhei por duas horas em desespero, pois amava Roma, e
tendo começado a trilhar o caminho da fortuna, vi-me na
condição de pária, sem saber que direção tomar e com todas as
minhas esperanças malogradas”. Quem dera ele houvesse
prestado atenção nos sinais sutis e escutado mais atentamente
o conselho do padre Georgi. O cardeal o convocou mais uma
vez. “Descrevi a dor que sentia por deixá-lo”, disse Casanova,
“pintando-a nas cores mais vivas.” Suas súplicas lacrimosas
duraram uma hora, mas o cardeal não se comoveu e perguntou
a Casanova aonde ele desejava ir em seguida.
“A palavra que o desespero e o ressentimento” —
combinados ao cálculo — “trouxeram aos meus lábios foi
‘Constantinopla’”, a antiga capital do Império Otomano, onde
o escritório do embaixador veneziano passava por uma
reorganização. Casanova limpou as lágrimas, considerando sua
escolha o resultado “do misterioso poder de meu gênio, ali
invocado em combinação com meu destino”, conforme o
cardeal se dava conta das vantagens de transferir o jovem
abade para um posto a mais de 1500 quilômetros de Roma.
Finalmente, ele disse: “Podeis dizer a todos que vos envio para
Constantinopla, pois ninguém acreditará”, e estendeu a mão
para que Casanova a beijasse.
Ele não tinha a menor ideia do que fazer em
Constantinopla ou a quem procurar. O cardeal, que se
vangloriava de ter amigos em toda parte, permaneceu em
silêncio sobre o assunto. Embora a perspectiva da aventura o
animasse, Casanova ficou devastado por “ter de deixar a
Marchesa G., por quem eu estava apaixonado, e de quem não
obtivera nada importante”.
Antes de partir de Roma, ele visitou seus amigos, amantes
e supostas amantes, incluindo Angelica, agora casada. Ele não
fora convidado para o casamento. Mas recebeu a bênção do
papa. “Não fiquei surpreso de ouvi-lo contar-me de seus
conhecidos em Constantinopla.” Além do mais, o Santo Padre
agraciou-o com “um rosário de ágatas ligado por uma fina
corrente de ouro”, acrescentando com um quê de desânimo
“que deve valer doze zecchini”. O cardeal, por outro lado,
encheu-o de moedas que “valem setecentos zecchini”, que
foram se somar aos trezentos que ele conseguira poupar.
Com fundos adequados para variar, ele partiu de Roma em
uma carruagem compacta e elegante conhecida como berlinda.
Ao seu lado estava sentada uma mãe que acompanhava a filha
a Loreto para cumprir uma promessa religiosa, mas “a jovem
era feia. Fiquei entediado a viagem toda”.
Em Ancona mais uma vez, Casanova hospedou-se na
estalagem mais confortável da cidade na noite de 25 de
fevereiro de 1744. Pediu carne para o jantar, mas o
estalajadeiro lembrou-o de que era Quaresma. Casanova
respondeu descaradamente que recebera uma isenção especial
do papa para comer carne. Acabara de chegar de Roma, onde
vigoravam diferentes regras, ou regra nenhuma! Estava a
caminho de Constantinopla numa missão confidencial, pelo
amor de Deus, e queria carne! “Praguejei, imprequei; nisso um
indivíduo de aspecto solene saiu de um quarto e veio me dizer
que eu estava errado em querer carne, uma vez que o peixe em
Ancona era melhor.”2 Momentaneamente humilhado, o
impaciente veneziano comparou “o frio bom senso do hóspede
com minha petulância apressada”, admitindo que “ele tem seu
valor por me ensinar uma ou duas coisas”. Com isso,
Casanova devorou sua ceia.
O homem, um espanhol a serviço do exército, apresentou-
se como Sancho Pico, convidou Giacomo para ouvir música e
se ofereceu para apresentá-lo a uma atriz hospedada na
estalagem. “A palavra ‘atriz’ aguçou minha curiosidade”,
confessou Casanova. Em vez de uma atriz, ele notou um
“jovem” de gênero indeterminado que lhe pareceu “de beleza
estonteante” e “com não mais do que dezesseis ou dezessete
anos de idade”, que estava jantando com a família: a mãe, o
irmão e uma ou duas irmãs. “A família viera de Bolonha e
ganhava a vida com seus talentos. A afabilidade e a
despreocupação compensavam sua pobreza.” Filho de atores,
Casanova viu-se entre o tipo de pessoas que conhecia,
mercadores itinerantes da arte e da sedução, ciganos da alma e
ladrões do coração. Todos eles desempenhavam seus papéis
até que a fantasia sobrepujasse a realidade.
Aquele que atraíra seu olhar era um famoso castrato
chamado Bellino. Os castrati eram parte integrante da música
italiana desde meados do século XVI. A castração em si
consistia em remover os testículos ou secionar os dutos que
carregavam sangue para eles, em geral com o paciente sedado
por ópio. A prática recebeu a bênção oficial quando, em 1588,
o papa Sisto V usou um verso de Coríntios — “Que as
mulheres estejam caladas nas assembleias. Pois não lhes cabe
falar, mas devem ser submissas, como diz a lei” — para
proibir mulheres nos coros e palcos. Seus papéis foram para os
castrati. Com o tempo, alguns compositores passaram a
preferir as vozes dos castrati. L’Orfeo (1607), a ópera de
Monteverdi, apresentava suas vozes ternas, pungentes e
arrepiantes, e no século XVII, Christoph Willibald Gluck e
Georg Friedrich Händel escalavam castrati para os principais
papéis das óperas. Farinelli, Scalzi, Senesino eram todos
célebres castrati, requisitados e ricos, exercendo especial
atração sobre as mulheres. Em anos vindouros, até mesmo
Napoleão se tornaria um apreciador dos castrati, conhecidos
pelo eufemismo educado de musico ou, ocasionalmente,
evirato. Segundo uma estimativa, pelo menos 4 mil meninos
eram castrados todo ano nessa época em que Casanova
conheceu Bellino. Eles se apresentavam pela Europa toda, mas
eram particularmente populares na Itália. Embora alguns
repudiassem os castrati como homossexuais, muitos, se não a
maioria, se identificavam como heterossexuais, a ponto de se
gabarem de suas aventuras com mulheres; mas, com sua
genitália imatura combinada à proibição de se casarem, tais
escapadas provavelmente tinham mais de lenda do que de
realidade. Casanova certa vez descreveu um castrato favorito
do cardeal Borghese desta maneira: “Era óbvio que esperava
inspirar o amor dos que gostavam dele como homem e
provavelmente não teria feito tal coisa como mulher”.

4. Farinelli, o famoso castrato, a caráter.

Casanova observou com atenção arrebatada o jovem


sentar-se diante de um cravo e “tocar e cantar com a voz de
um anjo”. Até mesmo o impassível Don Pico “pareceu ficar
em êxtase”. O veneziano estudou os olhos negros de Bellino,
“que cintilavam com um fogo que queimou minh’alma”. Às
vezes, aquela criatura o lembrava suas amantes romanas,
Lucrezia e a Marchesa G., tão feminino era seu rosto, e ainda
que Bellino se vestisse como um rapaz, Casanova detectou
“certa corpulência de busto, que me pôs na cabeça que, a
despeito do que se anunciava, aquele devia ser uma menina”.
Ele ficou apaixonado por Bellino. Tendo decidido que o
castrato devia ser uma jovem, “não opus resistência aos
desejos que ele despertou em mim”. Ou será que Casanova
quis dizer “ela”?
Pela manhã, Bellino apareceu na porta de seu quarto, e
Casanova o fez sentar-se na cama, “pretendendo tratá-lo como
uma garota”, até que foram interrompidos por duas irmãs de
Bellino. Um pouco depois, após pedir às meninas que o
deixassem a sós com seu “irmão”, ele foi direto ao ponto.
CASANOVA: Meu caro Bellino, estou certo de que vós não sois de
meu sexo.
BELLINO: Sou do vosso sexo, mas um castrato; já fui examinado.
CASANOVA: Deixai-me examinar-vos…
BELLINO: Não, pois está claro que vos apaixonastes por mim; e a
religião proíbe-me de permiti-lo.
CASANOVA: Não fostes tão escrupuloso com o confessor do bispo.
BELLINO: Ele era velho e tudo que fez foi dar uma rápida olhada
em minha infeliz condição.

(Casanova esticou a mão para apalpar Bellino, que a


empurrou e se levantou. A obstinada resistência o enfureceu e
ele ficou ostensivamente amuado. Logo se recuperou, e ambos
foram se juntar às irmãs de Bellino, que comiam castanhas
junto ao fogo. Casanova beijou as outras, as quais aceitaram o
gesto, incluindo Bellino, e nesse ponto ele habilmente enfiou a
mão sob o rufo da camisa de Bellino, agarrando um monte
quente e maleável que só podia ser um seio.)
CASANOVA: Este seio proclama que sois uma jovem, e não podeis
negá-lo.
BELLINO: Todos nós castrati temos a mesma deformidade.
CASANOVA: Disso tenho ciência. Mas sei o bastante sobre isso para
diferenciar uma coisa da outra. Este seio de alabastro, meu caro
Bellino, é o encantador seio de uma garota de dezessete anos.

“Completamente em fogo”, como conta, Casanova tentou


beijar o seio de Bellino com “lábios ofegantes”, mas “o
impostor”, sentindo o “prazer proibido” de seu pretendente,
levantou-se e se afastou. “Sou deixado ardendo, porém
incapaz de culpá-lo.”
Frustrado e constrangido, ele se preparou para retomar a
viagem a Constantinopla. Pouco antes de partir, soube por uma
das irmãs que Bellino desejava acompanhá-lo até Rimini, onde
o castrato se apresentaria em uma ópera após a Páscoa. “Ide e
dizei-lhe”, respondeu Casanova, “que estou pronto a lhe fazer
o favor se ele primeiro me conceder o favor de me mostrar, na
presença de vós, se ele é uma garota ou um garoto.”
Ao mesmo tempo, Casanova convidou a irmã de Bellino,
Cecilia, para passar a noite com ele. Ele a amava, disse. Seria
bondoso com ela. “Eu vos amo também”, disse a garota. “Vou
avisar minha mãe.” Ela logo regressou “de bom humor”,
trancou a porta e caiu em seus braços “com o abandono do
amor”. Talvez até fosse virgem, ele não tinha certeza. Em
seguida, ela lhe disse que ele a fizera feliz. Casanova
descreveu de forma indiferente o ato amoroso: “Ela foi terna,
eu fui terno”. Ele pegou no sono em seus braços e, pela
manhã, deu-lhe algumas moedas, que, alegou, a agradaram
mais do que “juras de eterna fidelidade”. Como eram ridículos
aqueles votos de amor e matrimônio, ponderou, enquanto a
jovem levava as moedas para sua extática mãe. O sexo servia
como a verdadeira moeda do reino.
As repercussões imediatamente se seguiram. A outra irmã
de Bellino, Marina, queixou-se com Casanova. “Cecilia
passou a noite com vós, amanhã partireis com Bellino, e sou a
única deixada de lado.”
Ao que ele só conseguiu pensar numa resposta: “Quereis
dinheiro?”.
Não! Ela o amava.
Mas era jovem demais, replicou ele.
“A idade nada tem a ver com isso. Sou mais bem
desenvolvida que minha irmã.” Nesse caso, talvez já tivesse
um amante, ou assim ele sugeriu, mas ela negou.
“Tanto melhor. Descobriremos esta noite.”
Marina declarou que pediria à mãe para deixar lençóis
extras preparados para o evento, “de outro modo a empregada
adivinharia o que aconteceu”.
Casanova riu com a perspectiva de deflorar Marina.
“Achava esses teatros muito divertidos”, observou.
Antes que Casanova pudesse seguir viagem, a irmã de
Bellino, Marina, “alegremente trancou minha porta” e passou
a descrever seu conhecimento sexual para ele, tentando
convencê-lo de que, por mais jovem que fosse, era uma
“mestra nos mistérios do amor”, seu modo tortuoso de explicar
que não era virgem. Achando graça, ele explicou que “a
virgindade em garotas parecia-me apenas imaginação pueril”.
Quando os dois fizeram amor após esse elaborado prelúdio,
ele teve o prazer de descobrir que ela era “superior em tudo à
irmã”, tanto à noite como pela manhã. Pagando o que era
devido, deu-lhe três moedas, que foram parar no bolso da mãe.
Agora ele sabia o preço de Bellino, baseado nas transações
com sua irmã, se chegasse aonde queria.
Na ceia, Bellino, “se por capricho ou ardil”, apareceu
“vestido de menina, seguido das duas bonitas irmãs, a quem
eclipsava totalmente”. Se Casanova ainda tinha dúvidas sobre
o verdadeiro sexo de Bellino, elas haviam evaporado. “Era
impossível imaginar jovem mais bela.” Durante a refeição —
trufas brancas, mariscos, xerez e champanhe, e vinhos
espanhóis —, ele não conseguia tirar os olhos “desse ser que
minha natureza depravada impele-me a amar”. Jantaram,
Bellino cantou e Casanova finalmente escoltou sua presa até o
quarto. Se Bellino fosse um rapaz, ele sairia. Se fosse uma
jovem, passaria a noite com Casanova, que lhe daria cem
zecchini no dia seguinte pela inconveniência. Bellino rejeitou a
oferta. “Sou um castrato”, repetiu ele, como que
mecanicamente. “Não posso satisfazer vossa curiosidade.”
Casanova levou a mão “ao lugar onde devia descobrir se
estava certo ou errado”, mas Bellino bloqueou a manobra, e
quando Casanova lhe ordenou que retirasse a mão, Bellino se
recusou, “pois percebo que estais numa condição que me
horroriza”. Casanova se recompôs e tentou descer a mão pelas
costas de Bellino, mas foi bloqueado outra vez. Mas ele
sentiu… alguma coisa. “Foi nesse momento que percebi que
era um homem.” O choque foi esmagador. Casanova
descreveu seu estado como “atônito, furioso, mortificado,
enojado”. Bellino saiu calmamente, tendo provado o que
queria.
As irmãs fizeram a gentileza de chegar para se juntar a
Casanova, mas ele as dispensou e fechou a porta. Pela manhã,
viajou com Bellino, como combinado, porém não conseguia
olhar para o companheiro de viagem sem “arder de paixão”.
Casanova confessou precisar acariciar o membro de
Bellino para se convencer de que o que vira privadamente não
era um “monstruoso clitóris”. E assim levou a mão outra vez
ao corpo do jovem, e seja lá o que for que segurou, persuadiu-
se de que Bellino era de fato homem. Casanova nunca poderia
amá-lo! “Essa é uma abominação pela qual — louvado seja
Deus! — não sinto inclinação.” Além do mais, ele agora tinha
motivo para queixa, pois, como acusou Bellino, “haveis
incubado o cruel esquema de me deixar apaixonado por vós e
depois levar-me à loucura recusando-me a única prova capaz
de restaurar minha sanidade”. Bellino “desmanchou-se em
lágrimas” com a acusação e Casanova “fechou-se no mais
desolado silêncio possível” até que a carruagem chegou perto
de Sinigaglia (atual Senigália), pequeno porto cerca de 25
quilômetros ao norte de Ancona, onde ele planejava passar a
noite.
Nesse momento, Bellino anunciou, categoricamente:
“Estais apaixonado por mim seja eu uma jovem ou um rapaz”.
Os dois continuaram nessa discórdia com fúria crescente.
“Só o que vos peço é que me deixeis tocar em um objeto
que não pode senão me encher de aversão!”, exclamou
Casanova.
Ao que Bellino replicou que se por acaso ele fosse mulher,
as coisas seriam bem piores, pois Casanova perderia o
autocontrole e produziria uma “torrente que dique nenhum
conseguiria segurar”. Se Bellino escondia seus encantos
femininos apenas em nome da discussão, “vós finalmente me
ameaçaríeis com a morte”. Ele preferia morrer a ceder sua
essência a Casanova num rompante de luxúria.
“Exagerais”, retrucou Casanova, recuperando o
autocontrole à medida que se aproximavam da estalagem em
Sinigaglia, onde havia uma única cama disponível. Deveriam
fazer outro arranjo? Casanova relatou que “ele me surpreendeu
respondendo que não fazia objeção a dormir em minha cama”.
Sentaram para cear em um estado de espírito sombrio.
“Após pedir uma lamparina, Bellino fechou a porta, despiu-se
e entrou na cama. Eu fizera o mesmo sem pronunciar palavra.
E assim ficamos juntos na cama.” Ele estava a sós com a
personificação do indomável Eros.
“Fui conquistado ao vê-lo se movendo em minha direção.
Seguro-o junto a mim, vejo que está inflamado pelo mesmo
arrebatamento. O princípio de nosso diálogo foi um dilúvio de
beijos misturados. Seus braços deslizaram primeiro de minhas
costas até os quadris. Estico os meus, um pouco mais baixo,
uma revelação suficiente de que estou feliz, eu a sinto, tateio,
fico convencido disso.” Ele exultou em silêncio, pois “receio
que se falar não mais serei feliz ou serei feliz de uma maneira
que não gostaria de ser, e entrego-me, corpo e alma, ao júbilo
que inundou todo meu ser e o qual vi que era compartilhado”.
Quando se aproximava do clímax, “o excesso de minha
felicidade domina todos os meus sentidos com tal força que
atinge o grau em que a natureza, afogando-se no mais elevado
de todos os prazeres, fica exausta”. Por um minuto ou dois ele
ficou lânguido em uma bruma pós-coito, “imobilizado no ato
de contemplar e venerar meu próprio auge”. Ele experimentou
a suprema sensualidade com Bellino quando determinou que
se tratava de uma mulher.
Na verdade, Casanova já desconfiava disso. Ela não era o
único imitador de castrato que fazia uso dessa farsa. Em um
ambiente de ilusão, as pessoas estavam mais do que dispostas
a se deixar tapear em nome do entretenimento.
A questão da verdadeira natureza de Bellino foi enfim
elucidada, mas a questão da identidade de Casanova revelava-
se mais difícil de resolver. Seria ele um padre ou um libertino?
Aristocrata ou plebeu? Ele tampouco sabia a que lugar
pertencia — a Veneza, Pádua ou algum outro lugar, ou talvez a
lugar algum. Por ora, o único lugar ao qual ele sentia pertencer
era enroscado com sua amada na cama.
Após um breve interlúdio, os amantes retomaram o ato
amoroso, “Bellino expressando os gemidos mais doces a cada
quarto de hora; eu, recusando-me a chegar ao fim de meu
curso novamente”, para proporcionar maior prazer a Bellino.
Ele se perguntou na mesma hora: “O que sucedeu com o
monstruoso clitóris que vi ontem?”.
Finalmente, Bellino confessou a verdade. Seu verdadeiro
nome era Teresa. Ela era a filha quase destituída de alguém
que descreveu apenas como “funcionária” de um distinto local
de ensino, o Instituto de Bolonha.
Quando Teresa estava com doze anos, Salimbeni, um
famoso castrato, hospedou-se em sua casa e ensinou-a a cantar
e a tocar cravo. À medida que suas habilidades musicais
progrediam, ela e Salimbeni se tornaram íntimos; castrato ou
não, ele tirou sua virgindade: “Não fiquei envergonhada de
entregá-la a ele”. Na verdade, ela o venerava. Foi uma
estranha e ambígua iniciação sexual, tornar-se a amante de um
homem com idade suficiente para ser seu pai, mas cuja
masculinidade estava comprometida. “Homens como vós são
certamente preferíveis a homens como meu primeiro amante”,
explicou ela, “mas Salimbeni foi uma exceção.” Ele era
atraente, talentoso, sensível, generoso e discreto. As mulheres
se atiravam a seus pés, e contudo nunca se gabava de suas
conquistas. E, mesmo assim, era um castrato. “Sua mutilação o
tornava um monstro”, admitia ela, “mas um monstro de
adoráveis qualidades.”
Esse monstro em particular tinha um jovem protegido, um
homem que fora castrado em tenra idade e atendia pelo nome
de Bellino. Ele era irmão da nova amante de Casanova. Pouco
depois, o pai de Teresa morreu, assim como o Bellino original.
Salimbeni se propôs a treinar Teresa para passar por Bellino e
ir morar com a mãe do falecido rapaz, “que, sendo pobre,
acharia vantajoso guardar segredo”.
Salimbeni deixou outro item para completar a transição de
Bellino a uma nova identidade, um “pequeno aparato” que ele
a ensinaria a usar sob as roupas o tempo todo. Essa foi então a
origem do “monstruoso clitóris!”.
Para despistar admiradores curiosos, o aparato seria eficaz
para deixar claro “o sexo que o engodo passaria despercebido”
caso ela tivesse de se submeter a um exame físico. O objeto
em questão, Casanova viu, era uma “tripa longa e macia, da
grossura de um polegar, branca e com superfície muito lisa”.
5. Teresa Lanti, conhecida como Bellino, amante de Casanova.

Ela gabou-se: “Não pude deixar de rir quando o chamastes


de clitóris”.
Provar seu status de castrato sempre que se apresentava
significava que tinha de se submeter várias vezes ao mesmo
exame degradante, “pois aonde quer que eu vá as pessoas
acham que pareço tanto com uma garota que não acreditam
que sou homem até terem sido convencidas”. (Não admira que
Bellino tivesse sido tão hábil em confundir Casanova.) Seus
examinadores oficiais, a propósito, eram padres, que “ficavam
inocentemente satisfeitos por ter visto e depois me atestavam
ao bispo”. Ela achava mais difícil revelar a verdade de seu
sexo para potenciais amantes, por medo de que, “ficando
curiosos, desejarão usar o aparato para satisfazer vontades
monstruosas”. Pior ainda, disse, eram aqueles “canalhas que
me perseguem além do suportável” na crença equivocada de
que amavam Bellino, “o castrato que eu fingia ser”. Ela temia
que pudesse até “esfaquear um deles”.
Para mantê-la a salvo dessa situação infernal, ela suplicou
a Casanova, como seu amante e protetor, para levá-la com ele
como sua “amante carinhosa”. Ela insistiu que lhe seria fiel.
“Acredito que não me tornei verdadeiramente mulher até
provar o idílico prazer do amor em vossos braços”, declarou.
Ouvindo essa história, Casanova concluiu que eram
“espíritos muito afins”, observação com frequência tomada
como se referindo a seus sentimentos ambíguos ou
homossexuais, mas que na verdade significava que ambos
usavam disfarces, ela como um castrato, ele como cavalheiro.
Suas identidades ocultas os uniam enquanto impostores e
almas gêmeas.
Ele continuou sem se convencer de que ela o amasse com
o mesmo ardor que Casanova sentia, ao que ela respondeu,
sensata: “Quando vi que trocastes tão prontamente de Cecilia
para Marina, achei que me trataríeis do mesmo modo assim
que houvésseis satisfeito vossos desejos”. Mas ele tinha um
plano. Levaria Bellino para Veneza, vestido de mulher e com
um nome falso, e passariam os dias juntos. Bellino concordou
com a oferta; com Salimbeni morto, podia ser sua própria
agente. Agora que conseguira o que queria, pediu para vê-la
“com o estranho artifício que Salimbeni lhe deu”. Ele
descreveu a transformação de seu adorado amor com um misto
de admiração, excitação e ansiedade:
Ela desce da cama, coloca água em um copo, abre o baú, tira o aparato
e suas gomas, dissolve-os e encaixa na máscara. Vejo algo
inacreditável. Uma garota encantadora, que assim parecia em cada
parte de seu corpo, e que, com esse extraordinário acessório, pareceu-
me ainda mais interessante, pois o apêndice branco não constituía
obstrução ao seu sexo. Disselhe que fora prudente de sua parte não me
permitir tocá-lo, pois teria me inebriado e me tornado no que eu não
era, a menos que ela me tranquilizasse revelando a verdade. […]
Nossa união foi cômica. Pegamos no sono depois e só acordamos bem
tarde.

Pela manhã, Casanova voltou à ideia de casamento. “Vós


talvez achais que sou homem de elevado berço, mas sou de
classe mais baixa que a vossa”, sem lugar na sociedade, “nem
parentes ou amigos, tampouco com planos definidos”. Ele
dispunha apenas de “módica inteligência” e dos “inícios
básicos de uma carreira em literatura”. E era bom ela saber
que “minha natureza tende à extravagância” — para dizer o
mínimo. Agora ela o via como ele realmente era: um ninguém,
o filho mais malnascido e mal-amado dos enjeitados.
Bellino, que ele começou a chamar pelo nome verdadeiro,
Teresa, afirmou ficar surpresa com sua candura. “Vamos para
Veneza”, ela disse, “e meu talento será nosso ganha-pão.” Ela
só exigia que ele a amasse “e a mais ninguém”. Casanova
lembrou Teresa, e talvez a si próprio, que estava a caminho de
Constantinopla para cumprir uma missão eclesiástica. Sem
esmorecer, ela propôs que ele se casasse com ela “e assim
vosso direito sobre mim será legal”. Ele prometeu casar-se
com a amada em Bolonha “depois de amanhã, no mais tardar”.
Como preparativo, passaram o resto do dia e da noite na cama,
fazendo amor.
Um dia, no início de março de 1744, partiram. Cruzaram
com um conflito entre soldados austríacos e espanhóis durante
a Guerra da Sucessão Austríaca, em andamento havia quatro
anos. Em Pesaro, a pouco mais de 150 quilômetros de
Bolonha, oficiais militares pediram seus passaportes. Teresa
apresentou o dela, mas Casanova perdera o seu.
“Ninguém perde o passaporte”, disse o comandante.
“Na verdade perde, e prova disso é que perdi o meu.”
Ele foi preso. Explicou que vinha de Roma com uma carta
do cardeal Acquaviva e com destino a Constantinopla.
Apresentou a carta, selada com o emblema do cardeal. Repetiu
sua história para um general, que respondeu: “Só um tolo
perde o passaporte, e o cardeal vai aprender a não confiar suas
incumbências a tolos”. Casanova recebeu permissão de
escrever para o cardeal e pedir um novo passaporte, e depois
foi preso em uma catedral em ruínas. Despediu-se de Teresa,
“a quem o percalço inoportuno mergulhara na melancolia”.
Deu-lhe cem zecchini e lhe pediu que o esperasse em Rimini,
cinquenta quilômetros ao norte.
Confinado à casa da guarda de Santa Maria, como a prisão
era conhecida, sentou em seu baú e bradou ordens para seu
guarda. Desejava um criado, comida, bebida, e tinha meios de
pagar por tudo, mas o guarda ignorou os pedidos de Casanova.
Exausto e faminto, passou a noite em um sono inquieto sobre
um monte de palha, em meio a soldados catalães. Tentou se
mostrar filosófico acerca de seu sofrimento, ruminando sobre
os pensadores clássicos e consolando-se com a ideia de que
voltaria a se reunir com Teresa dali a alguns dias.
De manhã, seu guarda foi rendido por um oficial francês
que se dirigiu a Casanova como “abate”, imediatamente
estabelecendo um tom cordial. Encantado com Casanova, o
guarda ordenou a um soldado que cuidasse do hóspede,
transferiu sua cama da prisão para o alojamento da guarda,
convidou-o para jantar e, após um animado jogo de cartas
conhecido como Piquet, aconselhou-o a não jogar com os
demais oficiais, que levariam todo o seu dinheiro. O guarda
até mesmo permitiu que Casanova passeasse fora da casa da
guarda, confiando que voltaria de livre e espontânea vontade.
Numa dessas perambulações, ele observou um oficial
desmontar do cavalo, largar as rédeas e desaparecer para
alguma incumbência. “Por nenhum motivo particular, peguei
as rédeas, apoiei o pé no estribo e montei. Era a primeira vez
na vida que eu ficava sobre o dorso de um cavalo.” Quando
menos esperava, “o cavalo dispara como um raio”, seu pé
direito sacudindo loucamente, sem conseguir encontrar o
estribo. Vendo o cavalo se aproximar a galope, uma sentinela
ordenou que Casanova parasse, mas “fui incapaz de
obedecer”. Mesmo depois de escutar um mosquete disparando,
não conseguiu controlar o corcel em fuga até dois guardas o
segurarem e o arrastarem para a casa da guarda em Rimini,
onde ele conheceu o príncipe austríaco Georg Christian
Lobkowitz, a quem contou a improvável história.
Simpatizando com Casanova, o príncipe ordenou que um
ajudante o escoltasse aos arredores da cidade e advertiu o
jovem andarilho a “tomar cuidado para não voltar a encontrar
seu exército sem passaporte”. Casanova descobriu que podia
obter um passaporte novo em Bolonha; com ele, voltaria a
Pesaro para buscar seu baú e se reunir com Teresa.
Chegou ao subúrbio de Rimini debaixo de um aguaceiro.
Suas meias de seda ficaram absolutamente arruinadas!
Precisava de uma carruagem adequada, mas não encontrou
nenhuma. Em vez disso, virou do avesso seu elegante
redingote — um longo casaco traspassado de montaria —, “a
fim de não ser reconhecido como abade”, e depois esperou.
Mulas espirrando água passaram por ele na lama, quarenta ao
todo, a caminho de Rimini, seu destino imediato. “Aproximo-
me de uma das mulas, ponho a mão em seu pescoço, na
verdade sem nenhuma intenção particular, e, acompanhando
vagarosamente seu ritmo, volto a entrar na cidade de Rimini,
e, como pareço um cocheiro, ninguém me dirige a palavra.”
Encharcado, com o cabelo enfiado sob um gorro, sua
elegante bengala escondida sob a roupa, descobriu o paradeiro
de Teresa, que estava “vestida de menina” e acompanhada dos
membros de sua família, mas o reencontro o decepcionou. Ele
contou de suas atribulações, mas Teresa pôs a culpa em seu
comportamento leviano. Ela tinha suas próprias novidades: em
Rimini, diferente de Ancona, as mulheres tinham permissão de
subir no palco, e assim ela não precisava disfarçar seu sexo.
Ela agendara vinte apresentações depois da Páscoa, após o que
se juntaria a Casanova em um lugar de sua escolha. A mãe
dela observou que Teresa perdera mil zecchini de cachê por
não se apresentar em Roma durante o Carnaval, ao que ele
respondeu: “Ela teria sido desmascarada em Roma e enfiada
em um miserável convento pelo resto da vida”.
Os amantes seguiram rumos separados por mais algum
tempo, Teresa para se apresentar em Rimini, e Casanova para
obter seu passaporte em Bolonha, a 120 quilômetros de
distância, onde trocou a sotaina simples de abade por um
esplêndido uniforme de oficial branco e azul, enfeitado com
galões prateados e dourados. A farsa o encorajou, “pois eu
sabia que Bolonha era uma cidade onde as pessoas viviam na
mais perfeita liberdade”. Ali ele desempenhou o papel de um
militar insolente e pomposo, até que uma gazeta de Pesaro
publicou um artigo informando os leitores de que “o Signor
Casanova, oficial do Regimento da rainha, desertou após
matar seu capitão em duelo”, em seguida fugindo com o
cavalo do oficial morto. Sim, ele tomara o cavalo emprestado,
mas não houvera duelo nem mortes! Tampouco era um oficial,
ao contrário das aparências. Para evitar suspeita, insistiu com
qualquer um que por acaso perguntasse que o vil artigo se
referia a um homônimo.
Quando definhava em Bolonha, arquitetando seu regresso
a Veneza — sua missão em Constantinopla aparentemente
postergada outra vez —, Teresa, orientada pela mãe, escreveu
que lhe haviam oferecido mil zecchini mais despesas para se
apresentar por um ano no novo Teatro San Carlo, em Nápoles.
Ela incluiu uma cópia do contrato, que estava prestes a assinar,
junto com um segundo documento em que “se comprometia a
me servir enquanto vivesse”. Ponderando sobre esses dois
desdobramentos, ele confessou: “Fiquei em estado de grande
dúvida”. Odiava a ideia de levar Teresa a abrir mão do rico
contrato; por outro lado, como poderia aparecer em Nápoles
“sem qualquer posição no mundo a não ser a de um poltrão
vivendo às custas da esposa ou amante?”. Aconselhou-a por
carta a assinar o contrato, ir para Nápoles e obter uma criada
de aparência respeitável para desencorajar escândalos.
Ao voltar a Veneza, foi submetido a mais uma quarentena,
“pois Veneza era particularmente rígida em questões de
saúde”. O que fazer? Passou-se por morador do estado da
Mântua, que não exigia quarentena, e subornou funcionários
para deixá-lo passar com uma certidão de saúde. Tendo
contornado todos os obstáculos, chegou a Veneza em 2 de abril
de 1744, seu aniversário de dezenove anos, conforme
recordou. (Pode ser que tenha errado por um ano e voltado em
1745, quando tinha vinte anos. Casanova em geral tinha
memória mais confiável para nomes, lugares e diálogos que
para datas.) Sem demora, organizou as coisas para viajar a
Constantinopla, seu objetivo longamente negligenciado, mas
não havia navios com destino a esse distante porto senão dali a
dois ou três meses. Em vez disso, subiu a bordo do Nossa
Senhora do Rosário (nome que adorou), com destino a Corfu,
quase 1300 quilômetros ao sul; o navio partiria dali a semanas,
parando primeiro em Orsara, uma pequena aldeia de
pescadores na costa da Ístria, na Croácia. Até lá, determinou-
se a tirar o máximo proveito de Veneza. Após o período em
Roma, o lugar não parecia mais ser o centro do mundo, como
os venezianos presumiam, mas ainda era o seu lar. O arrastado
dialeto veneziano, o vêneto, era-lhe tão familiar quanto sua
própria pele. E as mulheres coquetes de Veneza, as civette,
continuavam insuperáveis, equilibrando-se em seus zoccoli,
parando ocasionalmente para lhe lançar uma smorfia.
Na Piazza San Marco, ele encontrou o abade Grimani, que
o cumprimentou com ruidoso bom humor, surpreso apenas
com o uniforme militar que Casanova usava. O jovem
explicou que abandonara a Igreja para se tornar um
aventureiro.
Em seu novo disfarce, procurou Nanetta e Marta, que
entreteve por “três deliciosas horas” com a narrativa de suas
viagens. “Vi a alegria no rosto de minhas duas esposas, que
reconquistaram o império de meu coração a despeito da
imagem de Teresa, perante os olhos de minh’alma a todo
momento.” No dia seguinte, mudou-se para a casa delas,
adaptando-se rapidamente ao novo ambiente. “Na primeira
noite, ambas dormiram comigo, e nas noites seguintes se
revezaram.” Foi apenas um breve interlúdio. No dia 5 de maio,
“muito bem provido de roupas, joias e dinheiro vivo”, zarpou
para Corfu.
4. Zelmi
Após quatro dias no mar, quase naufragaram numa
tempestade. O capelão, um padre esloveno por quem
Casanova alimentara instantânea antipatia, subiu ao convés
para exorcizar os demônios que só ele discernia nas nuvens
escuras. Os marinheiros, aterrorizados, choravam de maneira
incontrolável e permitiram que o navio vagasse perigosamente
à deriva para perto de alguns rochedos. “Com grande
imprudência considerei ser meu dever intervir”, observou
Casanova. Subiu então no cordame e exortou os marujos a
darem tudo de si no navio. Não havia demônios nas nuvens,
gritou, e o “padre que estava apontando para eles era um
louco”, ao que o religioso denunciou Casanova como ateu e
voltou a tripulação contra ele.
A tempestade os convenceu de que ele era um Jonas, um
portador de mau agouro, e que teria de ser sacrificado. A um
sinal pré-combinado, um deles jogou Casanova pela amurada,
“acertando-me tal golpe com um bastão que me derrubou”.
Caindo nas ondas, ele se agarrou a uma âncora e foi resgatado
por um membro da tripulação. Quando tornou a subir ao
convés, pegou o bastão de seu agressor e o surrou, conforme
os demais marinheiros e o padre acorriam em defesa do
homem. Alguns dias após a crise, passageiros e tripulação
desembarcaram na ilha de Corfu, no mar Jônico. Imbuída da
herança grega que remontava à Antiguidade, Corfu fora parte
da esfera de influência veneziana desde o século XIII, reforçada
por uma sucessão de sítios navais. Os venezianos haviam
emprestado sua cultura, cozinha, música e língua para eles.
Quando Casanova desembarcou ali, quase se podia acreditar
que continuasse em Veneza.
Em meados de julho, chegou à casa de Osman, paxá de
Karamania, na realidade um oficial francês, o conde de
Bonneval, que se convertera ao islã. Lá estava aquele
“corpulento senhor de idade, trajado à francesa”, perguntando
o que podia fazer pelo protegido do estimado cardeal
Acquaviva. Embora Casanova tivesse trocado a veste clerical
pelo uniforme de soldado, seu anfitrião pouco se importou
com sua roupa e afirmou invejar o jovem que “sem
preocupações, planos ou qualquer moradia fixa, abandonou-se
à fortuna, sem nada temer nem nada esperar”.
Descobrindo sobre as inclinações literárias do hóspede, o
paxá conduziu-o a uma sala mobiliada com armários com
treliças de ferro, que Casanova presumiu que contivessem
livros, mas na verdade guardavam garrafas de vinho de
qualidade. O álcool era proibido pela fé à qual o conde se
convertera, mas, segundo sua opinião, “isso não impede que
cada um seja o senhor de sua própria danação, se assim lhe
aprouver”. Não havia Inquisição ali em Constantinopla. Os
dois saborearam um “excelente borgonha branco” enquanto
conversavam agradavelmente sobre Veneza, Roma e religião.
O paxá confidenciou que fora dispensado do rito da
circuncisão: “Na minha idade, teria sido perigoso”. Como
concessão à sua terra de adoção, usava um turbante, do qual
parecia se orgulhar muito. No geral, alegava estar melhor
longe de Veneza, onde, como disse, “a sopa comera a tigela”.
A despeito dessas queixas, Casanova percebeu a saudade que
seu anfitrião sentia dos amigos que deixara para trás na
Sereníssima República.
Nesse momento, foi apresentado a Yusef Ali, que ofereceu
partilhar o cachimbo com seu hóspede, o qual “educadamente
recusou”, preferindo fumar o cachimbo que um servo de
Bonneval lhe trouxera. Os dois companheiros de tabaco
estabeleceram uma relação baseada no respeito intelectual
mútuo, e quando Yusef Ali convidou o jovem veneziano a sua
casa, Casanova aceitou, porque “o tédio é uma ameaça pior
para estrangeiros do que a peste”.
Na casa, foi recebido pelo criado de Yusef, um napolitano
analfabeto que começara a vida como marinheiro, fora
capturado, escravizado e ao longo dos últimos trinta anos
trabalhara para seu mestre como jardineiro, afirmando estar
tão feliz com seu destino que se Yusef algum dia lhe desse a
liberdade, ele consideraria isso uma punição. Yusef chegou a
cavalo, e os dois passaram as horas debatendo sobre os
prazeres de um “tabaco ideal” e sobre o conceito de prazer.
Mesmo discussões sobre suas diferentes visões de Deus e da fé
os aproximaram ainda mais. Yusef revelou que possuía três
esposas, duas das quais falecidas, dois filhos, ambos
encaminhados e prósperos, bem como uma filha, Zelmi, que
estava destinada a herdar a propriedade do pai. Ela tinha
quinze anos e era linda — e solteira.
Casanova confessou que não tinha a menor intenção de se
casar. Nesse caso, respondeu Yusef, seu jovem amigo
veneziano não podia chamar a si mesmo de cristão ou de um
“homem perfeito”.
“Sou perfeitamente homem e sou cristão”, insistiu ele. “E
vos direi ainda que adoro o sexo frágil e não tenho a menor
vontade de renunciar ao mais doce dos prazeres.”
“Estareis condenado segundo vossa religião”, retrucou
Yusef.
De modo algum, respondeu Casanova. Uma vez que se
confessasse com um padre, seria perdoado, pois eles “são
obrigados a nos absolver”, assegurou a Yusef, que insistiu que
só Deus podia perdoar um crime. E então passou a outro
assunto possivelmente relacionado, masturbação. Era um
crime entre cristãos? Sim, era, garantiu Casanova, “e ainda
maior do que a cópula ilegítima”, uma lei que pareceu a Yusef
absurda, inaplicável e, no caso de um homem solteiro,
extremamente perigosa, porque em seu desejo de evitar a
masturbação ele podia contrair uma “doença mortal”. Ao final
da discussão, Yusef surpreendeu Casanova com uma proposta:
“Quando eu morrer, ela” — Zelmi, sua filha de quinze anos —
“ficará com tudo que possuo, e estou em posição de tornar rico
qualquer homem que a despose enquanto estiver vivo.” Ele
pintou um quadro de como ela era adorável, seus olhos e
cabelos negros, seu porte esbelto e “natureza gentil”, sem
deixar de dizer que era bem instruída, fluente em grego e
italiano, prendada em música e bordado, e protegida com tanto
cuidado que nenhum homem podia “se vangloriar de ter visto
seu rosto”. Essa criatura perfeita podia ser de Casanova —
após ele ter passado um ano morando com um parente de
Yusef em Adrianópolis (atual Edirne), uma cidade maltratada
pela guerra no norte da Turquia, para aprender a língua, os
costumes e a religião de seu povo. Assim que se tornasse
muçulmano — e podia ver por si mesmo com que facilidade o
francês realizara a transição —, Zelmi se tornaria sua esposa e
“terás uma casa, escravos próprios e uma renda que vos
permitirá viver no luxo”.
Mas havia um porém. Até ter se declarado, Casanova não
podia ver nem conversar com Zelmi, que seu pai mantinha
escondida, e mesmo que obtivesse um relance da jovem, ela
estaria de véu. Para decidir como responder, Casanova
precisava apenas obedecer à vontade de Deus “segundo o
inevitável decreto de vosso destino”, e com Zelmi a seu lado
“vos tornarei — assim prevejo — um pilar do Império
Otomano”. Yusef abraçou Casanova, que voltou a seus
aposentos pasmo demais para pensar.
Manteve-se distante por quatro dias antes de procurar
Yusef outra vez, e quando o fez, questionou: e se Zelmi, com
todos os seus talentos e beleza, simplesmente não gostar de
mim?
“Minha filha ama você”, proclamou Yusef. Ela o vira
disfarçadamente quando ele conversava com seu pai e
esperava com ardor que se tornasse um crente para que
pudessem partilhar a vida a dois.
Mas Casanova ainda tinha de vê-la! “Fico feliz que não
vos seja permitido deixar-me vê-la, pois ela poderia me
deslumbrar, e nesse caso seria a paixão que faria pender a
balança; eu não poderia mais me orgulhar de me haver
decidido de cabeça limpa”, respondeu ele, acreditando em
parte na própria resposta. Se ela de fato fosse bela, seria tanto
mais difícil de resistir, e a ideia de mudar de religião, mesmo
com a perspectiva de uma grande riqueza, significava que teria
de abandonar seu objetivo de conquistar fama nas “belas-artes
ou na literatura” nas “nações refinadas” da Europa. Apenas
crentes sinceros iriam “assumir o turbante”, como afirmou, “e
eu não me contava entre eles”. E se a encantadora Zelmi se
revelasse não tão encantadora, afinal? Isso seria certeza de
sofrimento, sobretudo se Yusef, que sem dúvida
supervisionaria cada aspecto do casamento, das finanças à
criação de filhos, vivesse por outros vinte anos, ou mais ainda.
Dias depois, em uma festa com a presença de “lindos
escravos napolitanos de ambos os sexos” dançando e
encenando farsas, Casanova quis demonstrar a furlana, uma
popular dança folclórica friuliana, para os convidados. Em
alguns minutos um violinista apareceu, assim como uma
“linda mulher” usando uma moretta de veludo negro. “A deusa faz a
pose inicial, junto-me a ela e dançamos seis furlane, uma após a outra.
Fico sem fôlego, pois não existe dança nacional mais violenta; mas a
bela continua firme ali, imóvel e sem o menor sinal de cansaço, como
que me desafiando. Durante o rodopio, que é a parte mais exaustiva da
dança, ela parecia flutuar; fiquei fora de mim de admiração. Não me
lembrava de ter visto a dança tão bem executada nem em Veneza.

Ele tomou fôlego, constrangido por sua falta de resistência,


e disse ofegante para sua parceira mascarada: “Ancora sei, e
poi basta, se non volete vedermia morire”, ou seja, “Mais seis,
depois basta, se não desejais me ver morrer”. Segurando o
botão da moretta entre os dentes, era-lhe “impossível
pronunciar uma palavra; mas uma pressão de sua mão que
mais ninguém pôde ver contou-me muita coisa”. Ela sumiu tão
abruptamente quanto chegara, deixando seu parceiro se
maravilhar com sua agilidade e saboreando “o único prazer
real” que experimentara naquela terra distante.
Depois, ele saiu perguntando se a dama de moretta era
veneziana; como poderia não ser uma veneziana? Ninguém
respondeu sua pergunta.
O ex-conde de Bonneval explicou que a inclinação pelo
flerte da escrava branca prejudicara a reputação de seu dono e
que seria mais prudente da parte de Casanova evitá-la. “Sede
ajuizado”, aconselhou, “pois, considerando os costumes do
país, essas intrigas são sempre perigosas.” Casanova prometeu
evitar qualquer passo em falso, mas confessou, ou se gabou,
“não mantive a palavra”.
Dias depois, recebeu um misterioso convite escrito numa
caligrafia desconhecida para um encontro com a mulher,
informando-o de que era de fato veneziana. Então, uma velha
se aproximou para lhe dizer que Zelmi o observava nesse
exato momento. A jovem era muito atraente, ela lhe
assegurou. Tudo o que tinha a fazer era concordar em se tornar
seu marido. A essa altura, confessou, “eu estava ainda mais
temeroso de entrar em um labirinto no qual poderia muito
facilmente me perder”. A mera visão de um turbante enchia-o
de ansiedade.
Yusef tentou Casanova convidando-o a sua casa, onde uma
mulher, sua identidade oculta sob o véu, falou de forma
sedutora. Essa deve ser Zelmi, pensou, mas ela se identificou
como a esposa de Yusef, de apenas dezoito anos. “Um lindo
corpo coberto”, observou, “só pode despertar desejos que
sejam facilmente satisfeitos; o fogo que isso inflama é como
palha queimando.” Ele viu braços nus, bem como as mãos, seu
busto farto, “dois pequenos globos”, notou ansioso, “separados
por um vão, que a mim parecia um regato de leite criado para
aplacar minha sede e para ser devorado por meus lábios”.
Ele esticou o braço para erguer seu véu e poder contemplar
seus olhos, e desse modo sua alma, mas ela advertiu: “Mereces
a amizade de Yusef quando violas sua hospitalidade
insultando-lhe a esposa?”.
Ele implorou perdão, temendo que Yusef pudesse lhe fazer
um grande mal, e atirou-se aos seus pés. Ela ordenou que se
sentasse, “cruzando as pernas de um modo que me
proporcionou um vislumbre momentâneo dos encantos que
teriam me virado completamente a cabeça, se visíveis por um
momento mais”.
“Estás em chamas”, ela disse…
… e nesse ponto Yusef entrou na sala, murmurando: “Que
a paz esteja convosco”.
“Pensei que estivesse em presença de Zelmi”, disse
Casanova.
“Não posso imaginar um homem decente confiando a
própria filha à companhia de um estranho.”
Casanova correu para um bote, remou até um barco
pesqueiro e escapou. À meia-noite, desembarcou na costa, sem
fazer ideia de onde estava. Talvez a trinta quilômetros de
Corfu, “em um lugar onde ninguém poderia imaginar que eu
estivesse”. Era o início de dezembro, as noites estavam frias,
ele não tinha manto, apenas um uniforme leve, e assim “fiquei
morrendo de frio”.
Pela manhã, topou com um homem idoso ao leme de uma
embarcação a vela latina conhecida como tartana. O capitão
ofereceu uma pistola a Casanova por dez zecchini, quando
qualquer um em Corfu teria pago doze pela arma. Não havia
nada a fazer senão “abandonar-me às exigências do
momento”, o que significava empregar sua nova arma para
obter alimento, alvejando uma ovelha.
Casanova voltou para Corfu, onde desfrutou de novas
aventuras amorosas — e mais uma vez contraiu uma doença
venérea. Durante suas semanas finais na ilha, “ninguém dava
ouvidos ao que eu falava, ou, se o faziam, era apenas para me
julgar estúpido em vez de espirituoso”, como outrora era
considerado. Parecia que as “pessoas me evitavam, como se
minha má sorte fosse contagiosa; e talvez tivessem razão”. Em
setembro, relatou ter recuperado “saúde excelente”, como
resultado de seu tratamento médico, ou a despeito disso.
Ele partiu de Corfu no fim do mês numa frota de cinco
galeras. Os navios ancoraram no porto de Veneza em 14 de
outubro de 1745; então seguiu-se um mês de quarentena, e
finalmente, em 25 de novembro, ele circulava livre em sua
cidade outra vez.
Ele voltou a usar a bauta e procurou as antigas companhias
de alcova com quem compartilhara tantas noites. Elas não
haviam ficado ociosas em sua ausência. Nanetta se casara; era
agora uma condessa, absolutamente fora de seu alcance. E
Marta se tornara freira na ilha de Murano. Ele recebeu uma
carta dela para adverti-lo “em nome de Jesus Cristo e da
Virgem Maria” a nunca mais vê-la. Ela perdoava seu “crime”
de seduzi-la, mas passaria o resto da vida se arrependendo e
orando por sua conversão.
Procurou outras pessoas, mas foi recebido com
indiferença. Seu irmão Francesco, o pintor, vivia confinado ao
forte de Sant’Andrea, onde Giacomo passara algum tempo.
Descobriu que o confinamento de Francesco fora arranjado
pelo inimigo da família, Antonio Razzetta, que Casanova
jogara no canal após lhe dar uma surra, certa noite. Giacomo
usou sua limitada influência para libertar Francesco da
embaraçosa circunstância. Nessa época a irmã deles, Maria
Maddalena, sobre quem normalmente tinha pouco a dizer,
juntara-se à inconstante mãe dos três, em Dresden.
As perspectivas de Casanova eram limitadas, mesmo que
resolvesse se casar.1 Em Veneza, nobres de linhagem
incontestável integravam formalmente o influente Maggior
Consiglio ao completar 25 anos. Um patrício que se casasse
abaixo de seu status ficava automaticamente excluído do
Maggior Consiglio e era privado de sua prerrogativa de
nobreza, incluindo o privilégio máximo de servir como doge, o
soberano militar e espiritual de Veneza. Como resultado, os
patrícios casavam-se entre famílias de mesma casta, e as
mulheres da classe dominante precisavam de maridos de sua
condição para continuar a linhagem, registrada no Libro
d’Oro, o registro oficial de nobres na República.2 Nenhuma
dinastia veneziana poria em risco seu status para ajudar
Casanova.
Por falta de coisa melhor para fazer, jogou até ficar
quebrado, como que punindo a si próprio por sua
licenciosidade em Corfu. Ele desistira de seus planos na Igreja
(“forçado a me tornar um eclesiástico e incapaz de triunfar de
qualquer outro modo senão pela hipocrisia, tive de sentir nojo
de mim mesmo”) e no exército (“eu teria de praticar uma
paciência da qual não tinha motivo para me acreditar capaz”)
ou de ser um célebre escritor e pensador, porque precisava de
dinheiro. E assim tornou-se violinista, a despeito de sua
indiferença pela música. “O dr. Gozzi me ensinara o suficiente
para que eu pudesse juntar uns trocados na orquestra do
teatro.” Após as apresentações, ia com os colegas músicos a
uma taverna, “que deixávamos apenas em um estado de
embriaguez para passar a noite em uma casa de má fama”. Se
o bordel estivesse cheio, ele e os companheiros jogavam os
outros fregueses na rua, e quando Casanova e sua turma
arruaceira de sete ou oito, muitas vezes incluindo Francesco,
terminavam sua orgia, saíam “sem pagar as infelizes que se
submeteram a nossa brutalidade”.
Em outras noites, perambulavam pelas ruas de Veneza
perpetrando brincadeiras de mau gosto; desamarravam
gôndolas dos ancoradouros diante dos palacetes e observavam
a correnteza levá-las embora e deixar seus donos presos em
terra. Mandavam parteiras atender mulheres que não
precisavam de seus serviços. Despachavam médicos crédulos
às casas dos nobres sob o pretexto de que estavam sofrendo de
“apoplexia”. Tampouco poupavam os padres, a quem tiravam
da cama “e enviavam para orar pela alma de pessoas no
perfeito gozo da saúde que, assim dizíamos, encontravam-se
às portas da morte”. Cortavam a corda dos sinos, derrubavam
marcos veneráveis; escalavam torres e soavam falsos alarmes
de incêndio, fugiam dos gondoleiros sem pagar pela corrida…
até certa noite, durante o Carnaval, em que a farra excedeu os
limites.
À meia-noite, oito deles “vagavam pela cidade”, tentando
pensar em alguma nova diabrura para impressionar os
companheiros. Suas máscaras lhes davam licença para fazer o
que bem entendessem. Em Santa Croce, uma das 72 paróquias
de Veneza, entraram em uma taverna onde uma “mulher muito
bonita” bebia pacificamente com três homens. Não seria
divertido raptar a mulher e “usá-la depois para nosso prazer”?
O líder do grupo, que Casanova descreveu como um nobre,
coordenou o ataque. Os envolvidos usavam máscaras de
Carnaval. Uma parte do grupo segurou os três homens e os
levou a um barco, onde Casanova e a mulher foram se juntar a
eles. Com os três temendo pela vida, o barco os levou para a
ilha de San Giorgio Maggiore, conhecida por sua imensa
igreja, e os deixou ali, aliviados, mas a mulher foi levada para
outro distrito, San Marcuolo, onde Francesco e outros
membros da turma os aguardavam. O líder deles, o jovem
nobre, tentou acalmar a mulher assustada. “Vamos beber um
copo no Rialto e depois vos devolveremos a vossa casa”,
murmurou, mas ela queria seu marido e ninguém mais. O
nobre prometeu que ela estaria com o esposo assim que
amanhecesse.
Aliviada, ela acompanhou sua escolta mascarada a uma
taverna, a Duas Espadas, perto do Rialto. Fizeram uma
fogueira para espantar o frio da noite, pediram comida e
bebida, despacharam o garçom e tiraram suas máscaras, e
nesse ponto a mulher “foi só amabilidade ante a visão de
nossos rostos e o modo como nos comportamos”. Pouco
depois, “sobreveio-lhe o que ela não podia ter antecipado”, a
começar pelo líder aristocrático do bando, que se tornou o
“primeiro a lhe prestar seus respeitos amorosos, após muito
educadamente ter superado sua resistência a se entregar na
presença de todos nós”. Ela lhe permitiu fazer o que lhe
aprouvesse, mas seu sorriso submisso sumiu quando o jovem
Casanova deu um passo à frente e ficou óbvio que seria
possuída novamente, e depois que encerrasse com ela, outro
membro do grupo teria sua vez, até que ela “não mais duvidou
de seu feliz destino”, como Casanova descreveu a situação.
Francesco hesitou em participar do estupro, até perceber que
“não tinha outra escolha, pois a lei entre nós irrevogavelmente
exigia que cada um fizesse o que os demais faziam”. No fim,
agiu da mesma forma que os outros. Quando o bando terminou
sua “bela façanha”, puseram as máscaras de volta e escoltaram
a vítima para sua casa como se encerrassem as festividades da
noite. “Nenhum de nós conseguiu deixar de rir quando ela nos
agradeceu sinceramente e na mais perfeita boa-fé.”
O marido da vítima, um tecelão, apresentou sua queixa aos
três juízes principais do Conselho dos Dez, acurada na maioria
dos detalhes, com uma exceção crucial: o documento afirmava
que os oito mascarados “não haviam submetido a mulher a
maus-tratos”. Apenas descrevia o bando levando-a como uma
pilhéria de Carnaval. Talvez a pavorosa realidade da violação
fosse demais para o tecelão, sua esposa e a reputação de
ambos.
Casanova relatou as consequências da queixa: “A primeira
foi fazer a cidade toda rir. A segunda, atrair todos os ociosos a
San Giobbe” — onde moravam o tecelão e sua esposa —
“para ouvir a heroína contar pessoalmente o episódio. A
terceira foi fazer o tribunal emitir um decreto prometendo
quinhentos ducati a qualquer um que revelasse quem eram as
partes culpadas, mesmo que fosse um deles, com exceção de
seu líder”. A vultosa recompensa teria atemorizado os
perpetradores se o líder deles não fosse um nobre. E mesmo
que houvesse se tornado um informante, como Casanova
julgava possível, o tribunal “nada teria feito, uma vez que teria
de punir um patrício”. Se algum bem resultou do episódio, foi
que Casanova e seu bando ficaram “tão assustados que nos
emendamos todos e nossas expedições noturnas chegaram ao
fim”.
Mas ele se enganava se achava que se safara com o
estupro. Meses mais tarde, um juiz dos Inquisidores do Estado,
o tribunal secreto do Conselho dos Dez, informado por uma
rede de espiões, “deixou-me perplexo ao relatar-me a história
completa da troça e dar os nomes de todos os envolvidos”. A
partir daí, a Inquisição ficaria no seu pé.
Nessa época, Casanova não tinha esperança quanto a suas
perspectivas em Veneza. Ele se perdera, ou, como explicou,
“permiti que minha ambição adormecesse”. Após sua
educação obtida a custo, seu “conhecimento das letras”, para
não mencionar suas “acidentais vantagens pessoais”, como seu
charme e sua altura, “eis-me aqui, com a idade de vinte anos,
tornado em um servil artífice de uma arte sublime” — a
música — “na qual aquele que sobressai é admirado, a
mediocridade é justamente desprezada”. Havia demanda de
instrumentistas em Veneza, com sua vibrante cultura teatral, e
ele encontrou trabalho nessa “deplorável profissão” como
violinista na orquestra do Teatro San Samuele, de Grimani,
onde recebia um salário desprezível, “mantinha-me longe de
todas reuniões elegantes” e sofria a indignidade de escutar o
menosprezo alheio. “Vendo-me reduzido a essa situação após
ter usufruído de oportunidades tão esplêndidas, fiquei
envergonhado, mas guardei o sentimento para mim mesmo.”
Ele conhecera a adversidade e confiava que a fortuna ajudava
os jovens, “e eu era jovem”.
Em 20 de abril de 1746, um patrício chamado Girolamo
Cornaro casou-se com a filha de outra família veneziana
proeminente. Segundo Casanova, “toquei violino numa das
diversas orquestras contratadas para os bailes”, que duraram
três dias, celebrando a ocasião. “No terceiro dia, quando as
festividades estavam quase terminadas, deixo a orquestra por
uma hora antes de amanhecer para voltar para casa e, ao
descer a escada, noto um senador em seu manto vermelho
prestes a entrar em sua gôndola.” Nesse instante, o senador
deixa cair uma carta quando vai tirar seu lenço do bolso e
Giacomo curva-se para pegá-la, “alcançando o majestoso
Signore no momento em que descia a escada”, e a entrega para
ele. O senador agradece educadamente, pergunta seu nome e
se oferece para levá-lo em casa.
Três minutos depois, sentados na gôndola, o senador
afirma: “Sinto tal dormência que é como se nem tivesse este
braço”. Ele pediu a Casanova para sacudir o braço acometido,
o que ele fez com vigor.
Então, “escuto o homem me dizer, em palavras
inarticuladas, que sentia estar perdendo a perna toda também e
que pensava estar morrendo”. Os sintomas descritos por
Casanova sugerem fortemente que o senador acabara de sofrer
um derrame. “Muito alarmado, abro a cortina, pego a lanterna,
olho em seu rosto e fico aterrorizado ao ver que sua boca
estava contorcida em direção à orelha esquerda e que seus
olhos perdiam o brilho. Digo aos gondoleiros que parem e me
permitam sair para encontrar um cirurgião para vir
imediatamente e realizar uma sangria em Vossa Excelência,
que certamente fora vítima de uma apoplexia.” Encostaram em
uma ponte junto à Calle Bernardo, onde, três anos antes, ele
atacara o infame Razzetta com um porrete. Ele correu até um
café, gritando que precisava de um médico. Tirou um da cama
e o conduziu até a gôndola, onde sangrou o nobre, o
procedimento médico aceito na época.
A gôndola seguiu caminho para o Palazzo Bragadin, uma
monstruosidade do século XV. Acordaram a criadagem, que
carregou seu senhor da gôndola para o apartamento no
segundo andar. Quando o despiram e o esticaram na cama, ele
parecia morto, ou quase. Por instinto, Casanova permaneceu
junto ao leito do aristocrata, considerando seu dever não se
afastar, até que outro patrício chegou, e o aristocrata
questionou os gondoleiros, que apontaram para o violinista
entre eles. A essa altura, um padre fora chamado para
ministrar a extrema-unção. As horas se passaram, e Casanova,
na companhia de dois patrícios, permaneceu com o enfermo.
Disseram-lhe que podia ir, se quisesse; manteriam vigília na
noite seguinte, deitados em colchões ao lado do amigo. Nesse
caso, o jovem violinista disse que passaria a noite. Se fosse
embora, temia que o paciente morresse, “assim como tinha
certeza de que não morreria enquanto eu continuasse ali”. Os
outros patrícios, atônitos, entreolharam-se, mas permitiram
que o jovem ficasse.
Durante a ceia, Casanova ficou sabendo que o homem
acamado era ninguém menos que o Signor Matteo Giovanni
Bragadin. Agora era a vez de o jovem ficar atônito. “Esse
Signor Bragadin era celebrado em Veneza não só devido a sua
eloquência e seus talentos de estadista, como também por seus
casos amorosos.” Nesse aspecto, era um homem parecido com
Casanova. Seu irmão, Daniele Bragadin, servira nos últimos
onze anos como procuratore di San Marco, encarregado
oficialmente de administrar a basílica de mesmo nome, sede
da Arquidiocese Católica Romana em Veneza, e desse modo a
segunda pessoa mais influente na cidade-Estado depois do
doge. No entanto, sob seus mantos vermelhos de patrícios, os
irmãos Bragadin eram inimigos ferozes. Dez anos antes,
Daniele ficara doente e suspeitara que o irmão tentara
envenená-lo. Houve um grande escândalo, uma investigação e
um julgamento perante o Conselho dos Dez. Matteo Bragadin
foi inocentado, mas o rancor entre os dois persistiu.
No momento, porém, Matteo Bragadin estava sendo
tratado por um médico chamado Ferro, cujos remédios
falsificados deixaram Casanova alarmado, sobretudo um
pernicioso unguento à base de mercúrio aplicado ao peito.
“Em menos de 24 horas, o paciente foi acometido de violenta
inflamação cerebral.” Ferro explicou em medicalês que o
efeito era esperado. Casanova imaginou se o médico não
estaria planejando matar o paciente como forma de curá-lo.
À meia-noite, Bragadin mal conseguia respirar, e
Casanova despertou os outros dois patrícios, que cochilavam.
Em seguida lavou o nocivo unguento de mercúrio e, em
questão de minutos, o paciente repousava confortavelmente. O
dr. Ferro voltou na manhã seguinte e encontrou Bragadin bem
melhor, e Dandolo, um dos amigos, explicou que Casanova
removera o venenoso mercúrio. “Mantive um silêncio
modesto”, recordou, “embora achando difícil sufocar minha
risada.” Ferro, fuzilando-o, “concluiu corretamente que eu era
um atrevido charlatão que ousara tomar seu lugar”, desse
modo anunciando que deixava o caso imediatamente. De
repente, Giacomo Casanova, músico obscuro e salafrário
notório, tornou-se o “médico de um dos membros mais ilustres
do Senado veneziano. Considerando a situação, fiquei em
êxtase”. Ele sempre fora um forasteiro, e seus esforços
erráticos para penetrar no círculo aristocrático de Veneza não
haviam dado em nada — até agora.
Enquanto o dr. Ferro fazia a caveira de Casanova por toda
Veneza, o paciente recuperava a saúde. Quando um de seus
parentes expressou perplexidade por ter feito seu médico um
mero “violinista de orquestra de teatro”, Bragadin respondeu
rindo que o violinista em questão conhecia mais do que todos
os médicos combinados.
Casanova desempenhou seu mais recente papel com toda
seriedade. Tornou-se o alter ego de Bragadin, seu oráculo. “Eu
falava como médico”, recordou. “Expressava-me de modo
dogmático e citava autores que nunca lera.”
Impressionado com a erudição exibida por Casanova,
Bragadin, que era inclinado ao misticismo, confidenciou
acreditar que o jovem possuía um “dom sobrenatural” para a
cura. Era verdade, não era? Ele queria saber de qualquer jeito.
Casanova concordou e ao ser inquirido blefou que possuía
um “cálculo numérico” que comunicava conhecimento
exclusivamente a ele e a mais ninguém.
Ah!, exclamou Bragadin. Ele sabia — ou achava que sabia
— exatamente o que Casanova queria dizer: a Chave de
Salomão, escrita em hebraico, traduzida para o latim,
explicando como obter poder dos espíritos do inferno e outras
questões esotéricas — a antiga cabala. Essa escola de
pensamento religioso e místico remontava a séculos e era
originalmente domínio dos judeus. Mais recentemente, fora
adaptada por alguns cristãos e ganhara um público mais
amplo, e em Veneza tornara-se algo como uma moda
teológica.
Sim, concordou Casanova, sustentando a farsa, era de fato
a cabala, com seus antigos mistérios e sabedoria.
Onde, perguntou Bragadin, ele aprendera os mistérios da
cabala?
Ora, com um eremita que vivia numa região remota dos
montes Apeninos.
Bragadin recuou, admirado. “Estais de posse de um
tesouro e recai sobre vós obter a máxima vantagem dele.”
Casanova protestou que as respostas originadas
recentemente por seu cálculo o haviam desapontado e que
deixara de usá-las, ainda que, se não tivesse construído sua
“pirâmide” cabalística apenas três semanas antes, nunca teria
conhecido Bragadin. (Os cabalistas expressavam letras com
números e vice-versa. Eles empregavam as 22 letras do
alfabeto hebraico para expressar os dois modos e para
construir diferentes versões de sua arcana, seus segredos, na
forma de pirâmides.) Ele explicou que seu oráculo o advertira
a deixar as festividades precisamente às quatro da manhã, no
momento em que encontrou o Signor Bragadin e seus dois
amigos. Para testar Casanova, um dos amigos de Bragadin, o
Signor Dandolo, escreveu uma pergunta para Casanova, que
não entendeu patavina, mas elaborou uma intrincada resposta
numérica que pareceu satisfazer Dandolo, que a declarou
produto de uma “inteligência imortal”.
Os três homens bombardearam Casanova com perguntas,
achando suas respostas “divinas” — que sorte! — e impelindo
o jovem amigo a lhes agradecer por levá-lo a apreciar o valor
de algo que para ele era a coisa mais natural.
Perguntaram-lhe se lhes ensinaria as regras do cálculo.
De bom grado, ele respondeu, “ainda que o eremita tenha
me advertido de que se eu as ensinasse para alguém antes de
completar cinquenta anos, cairia morto três dias depois”. Mas,
assegurou-lhes, não acreditava na ameaça do eremita, ao que o
Signor Bragadin disse que a advertência devia ser levada a
sério, “e dali em diante nenhum dos três voltou a me pedir
para lhes ensinar a arte da cabala”.
Casanova percebeu como aqueles patrícios, com seus
mantos vermelhos e palacetes formidáveis, eram crédulos e
excêntricos. Considerou-os todos muito inteligentes, “mas
uma inteligência preconceituosa raciocina pobremente”. Por
exemplo, eles consideravam a Ressurreição “um assunto tão
frívolo que não achavam que fosse um milagre”, e ele se
pegou rindo em silêncio quando zombavam de outros que
consideravam menos inteligentes.
Ainda mais estranho, “todos os três eram solteiros e todos
haviam se tornado inimigos irreconciliáveis das mulheres,
após renunciar a elas”, em marcado contraste com Casanova,
que era fascinado pelas mulheres. Os homens só negociavam
com aqueles que haviam se comprometido à mesma renúncia,
de modo que Casanova, nos dias e semanas que se seguiram,
contou-lhes a história de sua vida sem incluir seu complexo
relacionamento com as mulheres.
“Sei que os tapeei”, admitia, “mas se o leitor for um
homem vivido, peço-lhe para pensar um pouco antes de me
considerar indigno de sua indulgência.” Não fosse assim, teria
de ter voltado a tocar seu violino em uma pequena orquestra
de teatro, ganhando uma miséria. Depois de muito refletir,
“deveria eu ter cometido a barbaridade de deixar esses homens
dignos expostos aos dolos de algum salafrário desonesto que
pudesse ter planejado conhecê-los e os arruinado?”. Claro que
não! Em vez disso, “tomei o curso mais respeitável e nobre e o
único natural. Decidi me pôr numa posição em que não
precisasse mais prosseguir sem as necessidades da vida”, e
quem mais do que ele sabia quais eram essas necessidades?
Não apenas boas roupas e peças de mobília, joias e talvez um
ou dois criados, mas, mais importante, a entrada nos círculos
mais exclusivos da República. “Com a amizade dessas três
pessoas iminentes, tornei-me um homem que gozaria de
consideração e prestígio em seu próprio país.” Seu nome
estaria constantemente nos lábios alheios. “Ninguém em
Veneza era capaz de compreender como uma intimidade podia
existir entre mim e três homens daquela estirpe, eles todos céu
e eu todo terra; eles sobremaneira severos em sua moral e eu
devotado a todo tipo de vida dissoluta.”
Em junho de 1746, Bragadin se recuperou suficientemente
de sua crise para regressar ao Senado. Antes de retomar seus
deveres, conversou com Casanova: “Seja vós quem fordes, eu
vos devo minha vida. Vossos patronos, que esperavam fazer de
vós um padre, um erudito, um advogado, um soldado e depois
um violinista, eram tolos que não vos conheciam. Deus
ordenou a vosso anjo que vos trouxesse a mim”. Ofereceu-se
para tratar Casanova como um filho, disponibilizou um
apartamento no palazzo para o jovem, bem como um criado,
uma gôndola e um estipêndio de dez zecchini por mês,
aconselhando: “Em vossa idade meu pai não me concedia
subsídio maior”.
Casanova se atirou aos pés de seu protetor, tratou-o por
“pai” e jurou lhe obedecer como um filho.
Nem bem atingira sua apoteose, começou a arruiná-la. Ali
estava ele, “sem preocupações financeiras, agraciado pela
natureza com um exterior admirável, um jogador resoluto, um
esbanjador, um grande conversador de língua afiada,
absolutamente destituído de modéstia, destemido, correndo
atrás de mulheres bonitas, suplantando rivais e achando que
nenhuma companhia era boa a não ser que me entretivesse”.
Não era de admirar que “só podia ser odiado”.
Bragadin tolerava as loucuras de Casanova e lhe disse
rindo que estava vivendo “a vida louca que ele levara em
minha idade”, mas advertiu o jovem “a se preparar para pagar
o preço e a receber minha punição quando chegasse a sua
idade”. Casanova não conseguia imaginar que tipo de punição
seria capaz de empanar seu prazer. “Trocei de suas lúgubres
profecias e segui meu caminho.” Não pensou nas
consequências de seu comportamento, apenas em seu apetite
insaciável pelo triunfo seguinte nas mesas de carteado e pela
conquista seguinte na alcova.
“No início de outubro [de 1746], com a abertura dos
teatros, saí mascarado da estalagem para Roma e seguia meu
caminho quando avistei a figura de uma jovem, com a cabeça
envolta no capuz de seu manto”, escreveu Casanova. Ela
acabara de desembarcar de um corriere, ou barco do correio,
vindo de Ferrara, cerca de 110 quilômetros ao sul de Veneza.
“Percebendo que estava só e notando sua insegurança, sentime
impelido por uma força oculta a me aproximar dela e oferecer
meus serviços, caso necessitasse.”
Ela respondeu que precisava descobrir um endereço. Em
vez disso, Casanova convidou-a para um bar de vinho, onde
ela poderia conversar livremente. Quanto tempo até conseguir
levá-la para a cama, para beber um néctar mais encorpado e
doce?
Como o pequeno bar ficava a poucos passos do cais, eles
se sentaram frente a frente. Casanova removeu a bauta para
revelar seus olhos cintilantes, lábios pronunciados e nariz
aquilino. Ela puxou o capuz, embora os cachos do cabelo
escondessem a maior parte do rosto, revelando apenas seus
olhos, o nariz, a boca e o queixo. Che bella! As coisas que ele
viu em seu rosto: juventude, beleza, tristeza, nobreza, candura:
um soneto sem palavras. Ela revelou que era nobre de
nascimento. Viera a Veneza para encontrar certo homem que a
seduzira, abandonara e “destruíra sua felicidade”.
“Suponho que vos tenha prometido matrimônio.”
“Deu-me sua promessa por escrito. O favor que vos peço é
levar-me a sua casa, deixar-me lá e ser discreto.”
“Podeis contar, Signora, com os sentimentos de um
homem honrado. Sou um deles, e desde já sinto profundo
interesse em tudo que vos diz respeito. Quem é esse homem?”
Ela tirou uma carta do peito e a entregou a Casanova, que
reconheceu a caligrafia como sendo de Zanetto (Giovanni)
Steffani, prometendo casar-se com a condessa em Veneza dali
a uma semana.
Casanova lhe devolveu a carta e revelou que conhecia o
homem em questão. Era um funcionário do governo de alto
escalão — e em Veneza nada avançava sem seus selos,
carimbos, fitas e assinaturas —, e não deveria causar surpresa
a ela que seu pretendente fosse um libertino. Um dia, quando a
mãe dele morresse, ele seria rico, mas por ora estava afundado
em dívidas. Uma má escolha de marido, aconselhou Casanova.
“Levai-me a sua casa”, ela ordenou.
Casanova cientificou-a de seu plano feito às pressas. Como
Steffani a abandonara, com certeza não ficaria feliz em vê-la
aparecer inesperadamente diante de sua porta. Em vez disso,
ela devia aguardar. Nesse ínterim, Casanova ofereceu-se para
descobrir o que Steffani “pretende fazer em relação a vós e o
que pode ser obrigado a fazer”.
Mas onde ela passaria a noite? Estava disposta a se
hospedar com Casanova contanto que fosse casado, mas ele
admitiu ser solteiro, de modo que a levou para a casa de uma
viúva respeitável. Subiram a bordo de uma gôndola e
deslizaram pela água escura. Durante o trajeto, ela relatou os
detalhes de seu romance com Steffani, como haviam se
conhecido um mês antes, quando a carruagem dele quebrou na
cidade dela e se apaixonaram. Steffani permaneceu por perto
durante quatro semanas para cortejá-la, ficando sob sua janela.
Disse que a amava, claro, e que suas intenções eram honradas,
claro, e assim ela o instruiu a procurar seus pais para pedir sua
mão em casamento. Em vez disso, ele a encorajou a confiar
nele, passar três dias a sós em sua companhia, depois do que
toda a cidade a veria como sua esposa, e quando voltassem, ele
admitiria a situação dos dois. “O amor me cegou”, disse ela a
Casanova, que não precisava que ninguém lhe dissesse isso.
“Acreditei nele. Consenti.”
Na noite seguinte, ela “consentiu com o crime”.
Posteriormente, Steffani prometeu regressar. Ela o esperou em
vão e acabou descobrindo que o “monstro” partira. Se não
conseguisse encontrá-lo e acertar a situação, estava
determinada a morrer. Ela andou pelas ruas de sua cidade a
noite toda, recusando-se a comer até pouco antes de embarcar
no corriere com destino a Veneza. Rezou a viagem inteira até
que encontrou Giacomo Casanova. Agora que confessara tudo,
suplicou a ele para não “permitir que minha complacência vos
incline a fazer mau juízo de minha inteligência”. Até um mês
atrás, ela fora racional, educada, prudente, e agora, dizia entre
lágrimas, “o amor me fez sucumbir, junto com a falta de
experiência”.
Casanova disselhe de maneira brusca que Steffani a
seduzira e enganara unicamente para sua própria gratificação,
e que se ele de algum modo habitava seus pensamentos,
deveria ser apenas para buscar vingança. Longe de motivá-la,
suas palavras a levaram a enterrar o rosto nas mãos. Com isso,
ele a entregou aos cuidados da viúva para passar a noite e, a
exemplo de Steffani, prometeu voltar na manhã seguinte.
Sozinho, Casanova foi rapidamente para a casa de Steffani.
Ninguém sabia onde ele estava, nem sua mãe. Ela lhe disse
para esperar, Steffani acabaria chegando.
À noite, Casanova voltou com presentes para a condessa:
um clavicórdio e partituras — ela lhe contara que era
musicista — e “pantufas de diferentes tamanhos”. Ele supôs
que sua caminhada noturna deixara seus sapatos com furos.
Não tinha nenhuma intenção de inspirá-la a se apaixonar por
ele e nenhum desejo de se apaixonar por ela. Em todo caso, a
mulher não teria se mostrado “aberta a um novo amor em sua
terrível condição”.
Ele assumira o que considerava uma “delicada obrigação”
para com a condessa desonrada. Persuadiu-se de que estava
desempenhando seu papel em uma “intriga heroica” que fazia
as vezes também de “experimento consigo mesmo”. Ele
improvisou, dizendo-lhe que ela não se apaixonara por
Steffani, aquele patife indigno, mas que se apaixonara pelo
amor e temporariamente perdera a razão. Ela concordou na
hora. “Odeio o monstro!”, declarou. Seu irmão desafiaria
Steffani para um duelo e sem dúvida o mataria.
Não, retrucou Casanova, um covarde como Steffani nunca
teria uma morte honrada.
Nesse momento, a condessa tirou um punhal de 25
centímetros do bolso e o pôs sobre a mesa diante deles.
Explicou que planejara cravar a arma no próprio peito, mas,
após o auxílio de Casanova, recuperara a vontade de viver.
Muito agitado, Casanova pegou o punhal e saiu, a cabeça
girando com pensamentos.
No dia seguinte, visitou-a após o almoço, determinado a
convencê-la a tocar clavicórdio. Quando chegou, ela “penteava
os cabelos loiros muito longos e tão belos que as palavras são
impotentes para descrever”. A visão de seu rosto, pescoço,
ombros e braços o inflamou. Ele balbuciava algo sobre seu
perfume quando seus olhos pousaram em um retrato que se
parecia com ela em todos os aspectos, exceto que a figura
retratada tinha cabelos muito negros. Seu irmão, ela explicou,
um oficial militar, dois anos mais velho do que ela.
Encorajado, ele se ofereceu para pôr o anel em seu dedo. Ela
esticou a mão e, num gesto galante, ele se curvou para beijá-la,
mas ela a recolheu. Ele pediu desculpas e ela respondeu que
devia pensar em se proteger de si mesma, mais do que se
proteger dele, comentário que ele tomou como um elogio sutil
e denunciador.
Então, para seu deleite, ela se sentou diante do clavicórdio
— enfim! — e tocou uma peça atrás da outra, “da maneira
mais talentosa”, e quando cantou uma ária para acompanhar,
Casanova ficou enlevado. “O amor instantaneamente
transportou-me para o céu.” Mais uma vez, pediu sua mão
para beijar. Ela permitiu que a segurasse, coisa que ele fez,
lutando para se impedir de “devorá-la”. Sabia que estava
apaixonado e tinha de se declarar para ela. Mas e quanto a
Steffani?
Devia ter lhe contado quem era quando se conheceram,
mas agora era tarde demais. Nessa mesma noite, fez para a
condessa um relato cuidadosamente editado de seu assunto
favorito, ele mesmo, “melhor do que qualquer um poderia ter
feito”. Antes que o romance dos dois pudesse prosseguir,
tinham de localizar Steffani, que podia estar tanto na cidade
vizinha como no quarto vizinho, ninguém sabia exatamente
onde. Sua longa ausência era incompreensível. Ela falou sobre
ele com “ódio” e ameaçou buscar refúgio em um convento.
Casanova ficou sabendo pelo Signor Barbaro, um de seus
três patronos, que o escândalo envolvendo Steffani e a
condessa se espalhara entre a aristocracia e poderia em breve
ser levado perante o formidável Conselho dos Dez. Ela
implorou a Casanova para interceder, “pois preferiria a morte a
se tornar esposa de um monstro”. Para demonstrar a perfídia à
qual Steffani a submetera, mostrou a proposta por escrito de
casamento. Casanova cambaleou quando ela expôs “todo o
braço desnudo” sem sequer uma camisa para cobrir a carne.
Mais tarde nessa noite, ele consultou um oráculo e ficou
sabendo que Steffani fora condenado à morte. Afirmou ter
ficado espantado, mas ao mesmo tempo tivera a sensação de
que “Steffani estava destinado a morrer nas mãos de alguém”.
O próprio Signor Bragadin havia declarado que o canalha já
estava morto e tudo que restava era convencer a família da
condessa a perdoar suas ações impulsivas, pois ela fora
tapeada e não podia levar nenhuma culpa.
Esses desdobramentos, tanto ocultos como óbvios,
conspiraram para aproximar Casanova de seu amor. A
“intervenção direta da eterna Providência, do poder divino de
nossos anjos da guarda”, mais do que mera figura de
linguagem, fora responsável, “e assim nos apaixonamos”.
Acariciando suas mãos sublimes com os lábios, ele perguntou
se ela o “temia”, ao que ela respondeu: “A única coisa que
temo é perder-vos”. Com essa admissão, ele se “abandonou”
aos sentimentos e abraçou a condessa, que baixou os olhos e
suspirou. Em torno deles, os relógios soaram meia-noite, e a
necessidade de preservar a honra da jovem obrigou-o a sair.
Ele ajustou a máscara no rosto, enfiou o chapéu tricorne na
cabeça e partiu abruptamente.
Ao acordar de manhã, ele ruminou sobre a sentença de
morte de Steffani. Como podia odiar o homem responsável por
lhe trazer tamanha felicidade? Se ao menos houvesse uma
maneira de revogar o veredicto.
Jantando com o Signor Bragadin nesse dia, a conversa
inevitavelmente voltou-se para o paradeiro de Steffani e o
comportamento subsequente da condessa. O Signor Bragadin
ouvira pelo capitão do corriere que a trouxera a Veneza que
um homem mascarado a encontrara no cais e que haviam se
afastado juntos. Seria Steffani? Não, ele não. Steffani era
baixo e o mascarado era alto, como Casanova, mas ninguém
ligou uma coisa à outra. Em vez disso, presumiram que devia
ter sido um amigo de Steffani. Fosse quem fosse, teria de se
explicar perante o Conselho dos Dez. Um jogo de adivinhação
quanto à identidade do mascarado se seguiu, e Bragadin
apareceu com uma lista por escrito de suspeitos. O Signor
Barbaro leu a lista em voz alta e o último nome era o de
Casanova. “Quando escutei meu nome, dei um pulo que levou
meus três amigos a rirem histericamente.” Ficaram em silêncio
quando o patrício acorreu em sua defesa, dizendo que a
condessa estaria a salvo com ele “ainda que não tenha a
aparência de um homem a quem se confiaria alguma jovem”.
Apreensivo, Casanova trocou de gôndola por três vezes a
caminho de se encontrar com a condessa. “Na vasta cidade de
Veneza esse é o melhor meio de frustrar os esforços de espiões
que seguem uma pessoa sem saber aonde ela está indo.” Sua
máscara estava firmemente presa ao rosto, sua cabeça ficou
abaixada, seu tabarro, ou manto, a embrulhá-lo, seu corpo
todo encolhido conforme tentava parecer apenas mais uma
silhueta circulando pela brumosa atmosfera de Veneza, onde
os segredos da meia-noite tinham o costume de se tornar
assuntos do meio-dia e olhos invisíveis observavam de janelas
escuras acima dos canais.
Ao chegar a seu destino, relatou a extraordinária conversa
que tivera ao jantar para a condessa, que começou a chorar e
rir e, melhor de tudo, a abraçar Casanova por lhe trazer a
notícia. Em seguida, “fizemos uma ceia alegre, sem menção a
Steffani ou à vingança”. E depois, “o amor levou a melhor
sobre nós”, recordou. “Deixei-a à meia-noite, assegurando-lhe
que ela me veria outra vez sete ou oito horas mais tarde.”
Casanova resistiu a passar a noite toda com sua enamorada
porque, conforme explicou, “queria que a anfitriã fosse capaz
de jurar que eu nunca passara sequer uma noite ali”. A
despeito dessa mais doce das conquistas, permaneceu
vigilante.
Quando voltou ao palacete de Bragadin, encontrou os três
patronos à espera de lhe comunicar a notícia de que Steffani
“vestira o hábito dos capuchinhos” — a austera ordem
religiosa — “e que o Senado todo sabe do fato”. Essa
resolução significava complicações extras para Casanova, pois
seus três patronos insistiam em encontrar a mulher desonrada
por Steffani e continuavam sem fazer ideia de que ela tivesse
alguma relação com seu jovem protegido. Começaram a orar
em uníssono para o anjo místico que compartilhavam, Paralis,
que revelaria a resposta.
O curso dos eventos incitou Casanova a agir. Ele informou
os patronos sobre a condessa. O Signor Dandolo e o Signor
Barbaro ficaram pasmos ao descobrir que Casanova e a jovem
haviam estado juntos por quase duas semanas, mas o Signor
Bragadin atribuiu esses acontecimentos inescrutáveis aos
desígnios da cabala. Casanova conseguira destramente trazer o
trio de protetores para seu lado.
Era hora de visitar a amada mais uma vez. “Eu entro, vejo-
a na cama e fico deliciado de observar um contentamento
sorridente em um rosto em que por dez dias inteiros eu nada
vira senão tristeza.” Apenas depois de “longos encontros” com
a condessa ele revelou o que descobrira com seus três
protetores. Sem dúvida, “a notícia de que Steffani, em vez de
se matar, entrara para os capuchinhos, pegou-a completamente
de surpresa”, mas só por um momento. Ao refletir, ela sentiu
pena dele. Até a mãe de Steffani concordou que o filho tinha
apenas duas escolhas: tornar-se um monge capuchinho ou se
matar. Casanova permitiu-se discordar. “O mundo está cheio
dessas mães vingativas”, desdenhou. “Elas acham que são
virtuosas apenas quando estão pisoteando a natureza. São
mulheres malévolas.” Era possível que sentisse alguma
compaixão pela provação de Steffani?
Em pouco tempo, providenciou uma reconciliação entre a
condessa e sua família agradecida, parando brevemente para
admirar o que conseguira. “Que cena para os palcos! O amor
de um irmão e uma irmã expresso em dois rostos angelicais
fabricados do mesmo molde. Um júbilo puro e luminoso dos
abraços mais ternos” e, claro, “eu, o principal arquiteto desse
nobre edifício, deixado como espectador silencioso,
completamente esquecido”, mas apenas até que ela pusesse
sua mão sobre a dele e declarasse Giacomo Casanova — “que
me protegeu de uma centena de vergonhas das quais eu não
fazia ideia e que, vede, beija esta mão pela primeira vez” —
como seu salvador. Nem bem pronunciou essas palavras,
começou a chorar da maneira mais decorosa. Era sua alma
pura e virtuosa falando, não seus próprios desejos ignóbeis,
que ele satisfez na manhã seguinte, quando acharam que
podiam estar passando suas últimas horas juntos. “Ela viu
minha alma suando sangue”, exclamou ele. Depois que ela se
vestiu, beijou as pantufas que ele havia lhe presenteado e disse
que estava determinada a guardá-las para o resto da vida, e
Casanova pediu uma mecha de cabelo “para que pudesse fazer
uma trança”.
Após a realização desse tributo, a condessa passou à vida
póstuma de sua memória afetiva, fazendo companhia às
demais mulheres que ele amara. Tudo que restava era lhe
desejar uma viagem de volta segura a bordo do mesmo
corriere que a trouxera a Veneza. Ele não tinha intenção de
passar sequer mais um minuto com ela.
O verão em Pádua já ia bem adiantado, a cidade lotada de
venezianos de férias, Casanova entre eles. Ele e seus três
patronos haviam chegado em meados de junho para
comparecer à feira de Sant’Antonio, no centro da cidade.
Voltando ao local após longa ausência, ele descobriu que seu
antigo professor, o dr. Gozzi, se estabelecera em outra cidade,
junto com sua irmã e Bettina. Como Casanova previra, ela
abandonara o marido rude, “que se casara apenas para
despojá-la de seu […] dote”.
Inquieto em Pádua, ele “se apaixonou por uma das mais
celebradas cortesãs venezianas de seu tempo”. O nome dela
era Ancilla, “assistente”, em latim, e ele a conheceu por
intermédio de um “jovem tão estouvado quanto eu”, também
afeito a viver como aventureiro, com uma veia literária,
chamado conde Tommaso Medina, que se orgulhava de ocupar
o lugar de precedência entre os amantes de Ancilla, mas
Casanova esperava que houvesse espaço para mais um. A
beleza dela era lendária; sua reputação, imensa. Ancilla dirigia
um estabelecimento de jogatina, e o conde Medina “ma
apresentou apenas com o intuito de me passar a perna nas
cartas”. Casanova ingenuamente cooperou até o “momento
fatal” em que pegou seus glamorosos companheiros
trapaceando e encostou uma pistola no peito do conde Medina.
Ancilla desmaiou, conforme o conde vagarosamente
devolvia o dinheiro de Casanova, e terminava por desafiar o
intrépido jovem para um duelo. Os oponentes se dirigiram à
grande praça junto à basílica de Santo Antônio para levar a
termo seu desvario. Duelar era comum, mas Casanova, um
espadachim inexperiente, estava em desvantagem.
Uma vez desembainhadas as espadas, as lâminas brilhando
ao luar, Casanova teve “a boa sorte de feri-lo no ombro” —
poderia ter sido mais sério para ambos —, e o conde,
agarrando seu braço, se rendeu. Casanova foi direto para casa,
acreditando que a disputa fora resolvida, mas o Signor
Bragadin, mais vivido nessas questões, advertiu-o a deixar
Pádua imediatamente e voltar para Veneza. O problema não
estava resolvido; longe disso. “Esse conde Medina virou meu
inimigo pelo resto da vida.” Tampouco terminara a história
com a cortesã Ancilla.
5. Henriette
Casanova jogava obsessivamente, mas sua sorte acabou e
ele perdeu tudo. Viu-se desesperadamente necessitado de
duzentos zecchini. Para pagar a dívida, pegou emprestado um
caro anel de diamante, que planejava penhorar em Treviso, a
cerca de 25 quilômetros dali. “Essa admirável instituição não
pode ser encontrada em Veneza”, queixou-se, “porque os
judeus têm poder suficiente para impedir sua introdução”,
embora eles na verdade mantivessem um estabelecimento
similar em Veneza para os pobres. Ele viajaria de gôndola e
carruagem para Treviso, conseguiria seus zecchini e voltaria a
Veneza no mesmo dia para acertar a dívida. Uma coisa levou a
outra e ele permaneceu em Treviso durante a maior parte do
ano.
No outono de 1747, um amigo de Casanova apresentou-o a
uma cômica família que vivia na cidade de Zero Blanco, perto
de Treviso. “Havia jogatina, sexo e muitas divertidas
brincadeiras de mau gosto”, observou.1 “Ofender-se com o que
quer que fosse não era permitido. Tinha-se de entrar na
brincadeira ou ser reputado como um tolo.” Parecia um mundo
feito sob medida para Casanova, com seu apreço pelo faz de
conta, pelo disfarce e pelos truques de ilusionismo.
Um dia, na companhia de várias mulheres, tomou um
atalho por uma fazenda; chegaram a uma tábua sobre uma
vala. Como elas se recusavam a passar, ele foi na frente para
encorajá-las, e “quando cheguei à metade, o pedaço de tábua
onde pusera o pé subitamente cede e sou derrubado dentro da
vala, que estava cheia não de água, mas de lama imunda e
malcheirosa. Fiquei enterrado na sujeira até o pescoço”. Foi
obrigado a participar da hilaridade geral com seus apuros
enquanto alguns camponeses o tiravam do nojento lodo. “Meu
novo traje de outono incrustado de lantejoulas ficou arruinado,
bem como minhas meias e sapatos.” Mais séria foi a injúria à
sua vaidade. Enquanto ria, “determinei-me a obter uma cruel
vingança, pois a piada foi cruel”, disse para si mesmo. O que
começou como uma pilhéria rapidamente se tornou uma
sanguinária rixa.
Notando que a tábua fora previamente serrada, ele pagou
uma camponesa para lhe contar o nome do autor da
brincadeira, que vinha a ser um jovem contratado pelo
verdadeiro tratante, o Signor Demetrio, um mercador de
especiarias grego de meia-idade. Acontecia de Giacomo gostar
do Signor Demetrio. Era verdade que fizera uma piada de mau
gosto com o grego ao seduzir sua namorada, uma simples
camareira, mas que mal podia haver nessa pequena travessura?
A questão agora era como obter sua vingança contra o “grego
maligno”. Nada lhe vinha à mente até que deparou com o
enterro de um cadáver. Mais tarde nessa noite, escreveu: “Fui
sozinho até o cemitério com minha faca de caça, desenterrei o
morto, cortei seu braço na altura do ombro, não sem grande
dificuldade”. Ele voltou a enterrar o corpo mutilado e levou o
braço decepado para o próprio quarto.
No dia seguinte, Casanova se escondeu sob a cama do
grego, segurando o braço do morto e esperando pela volta de
sua vítima. “Quando acho que ele está dormindo, puxo as
cobertas pelo pé até descobrir seu quadril. Escuto-o rir e dizer:
‘Seja quem for, vá embora e me deixe dormir. Não acredito em
fantasmas’.” Ele puxou as cobertas e tentou voltar a dormir.
Minutos mais tarde, Casanova repetiu a travessura, dessa vez
segurando os lençóis, de modo que o grego esticou a mão para
puxá-los de volta. “Em vez de lhe permitir que encontrasse
minha mão, fiz com que encontrasse a mão do morto.” O
grego puxou com cada vez mais força até Casanova finalmente
soltar o braço decepado. Ele esperava escutar o grego gritar
horrorizado. Em vez disso, sobreveio apenas o silêncio.
“Minha brincadeira” — note o contexto teatral de Casanova —
“chegando ao fim, vou para o meu quarto, certo de que lhe
dera um grande susto, mas sem ter lhe ocasionado nenhum
outro mal.”
Pela manhã, a dona da casa o informou: “O Signor
Demetrio está morrendo”.
Será que o matei?, perguntou-se Casanova.
Ele foi até o quarto, onde deixara o grego; estava agora
ocupado pela família toda, um padre e um sacristão, que se
recusava a enterrar novamente o braço decepado. Quando
Casanova entrou, “todos me fitaram horrorizados e riram
apenas quando insisti que não sabia nada a respeito do
assunto”. Como podiam pensar que ele era o culpado? Ao que
responderam em uníssono que era o único que conheciam
capaz de tal ato. Nas horas que se seguiram, o mercador grego,
tendo feito uma sangria (ou a despeito de ter feito uma
sangria), recuperou a capacidade de mexer os olhos, mas
continuava sem conseguir falar ou mover os braços e as
pernas; no dia seguinte, recuperou a capacidade de falar, mas
continuou espasmódico. Parecia ter sofrido um derrame e,
segundo Casanova, “passou o resto da vida na mesma
condição”.
Casanova foi intimado a comparecer perante um tribunal
especial sob a acusação de blasfêmia. Exigindo saber o motivo
da ação, declarou-se “perplexo” ao descobrir que fora acusado
de cortar o braço do morto. Encarava a coisa toda como uma
travessura, não como um comportamento criminoso. Pouco
depois, foi condenado por ter desenterrado e desfigurado um
cadáver. Ele mesmo reconheceu que seu comportamento
correspondia a um “crime da máxima gravidade”.
O Signor Bragadin aconselhou-o a “dar o braço a torcer”.
Assegurado por seus três protetores de que dentro de um ano
estaria livre das acusações, Casanova tornou-se um fugitivo.
Vagou de cidade em cidade pelo norte da Itália; em
Mântua, um policial o prendeu por não andar com lanterna à
noite. O capitão supervisor ordenou que fosse libertado e, duas
horas depois, dois oficiais vieram se juntar a eles, bem como
“duas revoltantes prostitutas”. O grupo bebeu e jogou. Quando
Casanova saiu ao ar livre para respirar ar puro e desanuviar a
cabeça, uma das prostitutas o seguiu e tentou apalpá-lo para
conquistar sua afeição; como resultado, ele sofreu pela quarta
vez de uma doença venérea.
“Curei-me por completo em seis semanas simplesmente
bebendo uma decocção de salitre, mas ao mesmo tempo
observando uma dieta que achei extremamente monótona”,
explicou.
A Páscoa de 1748 chegou em 14 de abril, e nessa época
Casanova estava em Mântua. No dia da festividade, ele se viu
conversando amigavelmente com uma mulher idosa, uma atriz
que se aposentara dos palcos vinte anos antes.
Casanova ficou impressionado com o esforço que ela fazia
para manter a aparência, cobrindo-se de talco, realçando as
feições com ruge, tingindo as sobrancelhas de preto e usando
dentes falsos em cima e embaixo. “Ela expunha metade do
busto flácido, o que suscitava repulsa porque mostrava o que
devia ter sido.” Recendia a âmbar-gris, um perfume popular da
época, e quando ele se aproximou para apertar sua mão
trêmula, viu que “seu cabelo nada mais era que uma peruca
que aderia muito imperfeitamente a sua testa e têmporas”. Ele
se encolheu e suprimiu uma risada ao ver que sua percepção
da moda estava datada em pelo menos vinte anos. Finalmente,
“vi com terror as marcas da horrorosa velhice em seu rosto,
que, antes de ser arruinado pelo tempo, deve ter conquistado
inúmeros amantes”. Apesar de tudo, ela se portava como se
fosse a mulher mais atraente do mundo. A certa altura, ele
notou algo acerca dela que resistira ao tempo: “a brilhante
marca de morango em seu peito” que lhe dera o nome que
sempre carregaria: La Fragoletta. Ele estremeceu porque,
como afirmou, “o fantasma diante de mim era a causa da
minha existência”. Essa era a atriz “cuja magia seduzira meu
pai trinta anos antes”. Não fosse por ela, seu pai “nunca teria
me gerado em uma veneziana”. Agora ali estava perante ele o
primeiro amor de seu pai, a precursora de Zanetta, La
Fragoletta, Giovanna Benozzi, uma decadente lenda do teatro
com quem ele partilhava uma ligação secreta. Foi como se
tivesse sido simultaneamente arremessado de volta para um
tempo anterior ao começo de sua existência e adiante para o
frágil futuro das mulheres mais importantes de sua vida.
La Fragoletta perguntou seu nome. “Casanova”, ele a
informou.
Ela ficou agitada.
“Sim, Signora, e meu pai, cujo nome era Gaetano, era de
Parma.”
A atriz anciã se animou. “Eu adorava seu pai.”
Giacomo sempre ouvira dizer que La Fragoletta se cansara
de Gaetano e o largara, mas nesse momento ela acrescentou
um detalhe à antiga história. Seu pai, disse, ficara
“injustificadamente enciumado” e assim “me abandonou. Não
fosse por isso, vós teríeis sido meu filho”. As circunstâncias de
como seu pai a abandonara já não tinham importância.
“Deixai-me abraçá-lo como sua mãe”, ela propôs.
Casanova permitiu que o segurasse, o afagasse e o
confortasse com sentimentos ternos do que podia ter sido mas
nunca fora. Essa intimidade decorosa era mais do que podia
suportar. Ela limpou as lágrimas, “sempre a atriz”, observou
ele, quando a mulher implorou que não duvidasse de sua
sinceridade, embora não parecesse perturbada. A vaidade da
criatura! Ela havia amado seu pai, disse, a única culpa dele
sendo sua “ingratidão”. Casanova explicou em suas memórias
que “ela veria a mesma culpa no filho, pois, a despeito de
todas as ofertas amáveis que me fez, nunca mais voltei a pôr
os pés em sua casa”.
Em 1749, Casanova era menos impressionável do que seu
jovem eu e tão ultrajante quanto sempre fora, enquanto
aguardava seu exílio de Veneza. No verão desse ano,
interessou-se por uma mulher que descreveu como a amante
de um oficial. Ele a espiara quando ela se escondia na cama na
mesma estalagem onde ele estava hospedado, e mais tarde,
quando conversavam durante o almoço, “ela exibiu o tipo de
inteligência espirituosa que eu tanto admirava, dificilmente
encontrada na Itália e com frequência vista na França”.
Decidiu que seria uma conquista fácil e que seu companheiro
seria realista e obsequioso. Tudo que tinha a fazer era lhes
oferecer um lugar em sua carruagem e viajar com eles.
Descobriu que estavam a caminho de Parma; logo, ele estava a
caminho de Parma. O oficial, como esperado, imediatamente
aceitou o oferecimento de Casanova e lhe disse que fizesse a
proposta à sua desejável companheira, que tratou pelo
revelador mas dissimulado pseudônimo de Henriette.
A verdadeira identidade dela há muito intriga os estudiosos
de Casanova. Alguns propuseram Jeanne Marie d’Albert de
Saint-Hippolyte, 31 anos de idade, recém-separada do marido
com quem estivera casada por cinco anos.2 Outra candidata é
Anne-Henriette de Bourbon, que era, de forma intrigante, uma
das oito filhas de Luís XV. A terceira e talvez mais provável
candidata seja a irmã dela, Adélaïde de Gueidan. Em
Casanova’s Women [As mulheres de Casanova], Judith
Summers argumenta com autoridade a favor de Adélaïde, que
nasceu em 14 de dezembro de 1725, foi educada em um
convento, tornou-se marquesa pelo casamento e era mãe de
três filhos. Mais sofisticada e graciosa do que as cortesãs,
megeras e rústicas jovens do campo que ele estava acostumado
a seduzir, ou pelas quais costumava ser seduzido, ela exibia
um comportamento magnificente. Nas memórias de Casanova,
sempre permaneceu simplesmente Henriette: “Conceder-me-
íeis, madame Henriette, a honra de vos conduzir a Parma?”.
“Ficaria encantada.”
Assim começou o mais obsessivo affaire de sua vida.
Primeiro, ele tinha de conseguir uma carruagem. Sua generosa
oferta não passara de blefe. Então foi a um café local,
encontrou um transporte apropriado pelo preço de duzentos
zecchini, obteve uma parelha de cavalos e, enquanto cuidava
dos preparativos, entreteve-se conversando com Henriette.
“Admirei nela a fineza de espírito que era inteiramente nova
para mim, pois nunca conversara com uma francesa.”3 No
início, ele presumiu que ela fosse uma “aventureira” à procura
do golpe seguinte, uma embusteira como todo mundo —
incluindo ele —, e contudo ficou “surpreso ao descobrir que
ela entretinha sentimentos que eu julgava que só podiam ser
fruto da educação mais refinada”. E ela era absolutamente
discreta, recusando-se a divulgar a mais ínfima informação
sobre seu companheiro e amante, o oficial, porém mantendo
um relaxado charme. Ele tinha confiança de que poderia
agradá-la, “uma vez que tinha dinheiro de sobra e era senhor
de meu destino”, e que dentro de dois ou três dias, no máximo,
consumariam sua relação. Em sua imaginação, até o
companheiro dela, o oficial, que falava húngaro, desejava isso.
“À parte o fato de que na questão física eu tinha tudo que um
amante aceitável podia ter a fim de agradar, também parecia
muito rico, ainda que não tivesse criado.” Ele contornou essa
omissão explicando que a falta de criado significava nenhum
espião, nenhum ladrão em sua casa. “Henriette compreendeu-
me perfeitamente; e em pouco tempo minha futura felicidade
me deixou inebriado.”
Quando chegou a hora de partirem, um “concurso de
polidez” teve lugar entre Casanova e o complacente oficial
quanto a quem se sentaria ao lado de Henriette. Casanova
acabou se sentando diretamente de frente para ela, assim podia
olhar em seus olhos sem virar a cabeça. Os três conversavam
de um modo hesitante, quase ininteligível, em húngaro (o
oficial), francês (Henriette) e latim (Casanova). Era impossível
tentar qualquer comentário galante em meio a essa babel: “Em
todas as línguas do mundo a última coisa que se aprende é o
que tem de espirituoso; e com muita frequência a piada
consiste no idiomático”.
Porém sua corte progrediu rápido, porque, ao final do dia,
quando pararam em uma estalagem entre Bolonha e Rimini, “a
jovem me pareceu tão imprevisível que receei que fosse deixar
o leito de seu amante e passar ao meu”. Se isso acontecesse,
Casanova, que não falava uma palavra de húngaro, seria
incapaz de negociar com seu acompanhante. “Eu desejava
possuir Henriette em paz e tranquilidade, como resultado de
um arranjo amigável e honrado.” O que Henriette via nele? Ela
nunca mencionou sua família, e Casanova nunca revelou sua
infame história recente: o braço decepado, seu flerte com a
magia, seu duvidoso status em Veneza.
Para aumentar o mistério, Henriette não possuía “nada
além do traje masculino que estava vestindo, nem sequer uma
peça de roupa feminina, nem mesmo uma camisa. Quando se
trocava, punha uma camisa limpa pertencente ao amante. Isso
era-me tão inédito quando enigmático”. O hermafroditismo do
traje deixou Casanova hipnotizado, assim como o convincente
disfarce de Bellino outrora o fizera. Ele questionou Henriette
sobre suas origens, suas motivações, mas ela virou para seu
companheiro, cujo relato, quando traduzido do húngaro para o
latim, revelou-se igualmente desconcertante. “Não posso vos
dizer nada a respeito de sua situação. Só o que sei é que ela
deseja ser chamada de Henriette, que deve ser francesa, que é
muito gentil, que parece ter tido excelente educação, que goza
de perfeita saúde e que deve ser tão inteligente quanto
corajosa.” Talvez relatasse sua história para Casanova; nesse
caso, o húngaro ficaria deliciado em ouvi-la. A despeito de sua
proximidade, e até de sua presumível intimidade física, não
estavam apaixonados; o húngaro considerava Henriette uma
amiga querida.
Quando os dois homens olharam para Henriette à espera de
uma explicação, ela respondeu: “O mesmo princípio que me
proíbe de mentir não me permite dizer a verdade”. Ao se
aproximarem de Parma, ela expressou o desejo de que seu
companheiro de viagem mais velho a esquecesse e, se por
acaso voltassem a se encontrar, “fingisse não me conhecer”.
Com essas palavras, ela abraçou o húngaro com “muito mais
compaixão do que amor”. Casanova traduziu suas palavras de
despedida para o velho e observou o efeito mortificante que
tiveram. Uma atmosfera melancólica desceu sobre os três, e
Casanova estudou o rosto “vermelho de fogo” de Henriette.
“Quem pode ser essa jovem, que combina os sentimentos
mais nobres com uma aparência da maior libertinagem?”,
perguntou-se quando se preparava para dormir. Era bem
provável que a perdesse no momento em que chegassem a
Parma, quando ela passasse a seu encontro seguinte, mas e se,
“num espírito de desenfreada libertinagem, ela intenta desafiar
a fortuna para mergulhar no mais terrível abismo?”. Esse seria
o “projeto de uma louca ou desesperada”. O oficial tentara lhe
dar alguns zecchini e ela recusara até a modesta quantia, a
despeito do “risco de se ver nas ruas de Parma”. Que cálculos
haviam levado a tal decisão? E por que fizera com que se
apaixonasse por ela? Já devia saber que ele iria seduzi-la mais
cedo ou mais tarde. “Se pensou que podia bancar a pudica
comigo e fazer de mim seu tolo, devo mostrar-lhe que está
equivocada”, decidiu. Antes de pegar no sono, jurou pedir a
ela para “conceder-me os mesmos favores que concedeu ao
oficial”, e se ela se recusasse, obteria sua vingança
“dedicando-lhe o mais humilhante desprezo”. Não esperava
nenhum tipo de problema da parte do húngaro, “homem
sensato” que era.
Henriette lhe apareceu nessa noite em um sonho, dizendo
que o amava, que não conhecia ninguém em Parma, que não
era “louca nem desesperada” e, mais importante, “quero
apenas ser sua”. No sonho, ela se rendia a seus “enlevos
amorosos” conforme ele reclamava a aparição para si ao longo
da noite. “Que sonho longo!” Ele sonhara com mulheres antes,
mas nada como isso, não por uma noite inteira, até o devaneio
rivalizar com a realidade. Quando finalmente despertou de seu
sono e percebeu a surpreendente verdade de seu “sonho
jubiloso”, admitiu que até acordado estava “irremediavelmente
apaixonado”.
Nesse estado alterado, ele se vestiu e foi para o quarto que
Henriette dividia com o húngaro. “Informo o oficial que me
apaixonei por Henriette.” Ele se incomodaria se Casanova
“tentasse convencê-la” a se tornar sua amante? Ele desejava
meia hora para discutir o assunto com Henriette e, caso ela
recusasse, permaneceria ali, naquela estalagem, enquanto os
dois prosseguiam rumo a seu destino. Ora, não, o húngaro não
se incomodava; Casanova teria duas horas para “persuadi-la a
fazer o que vós desejais”. Na verdade, confidenciou o homem,
“ficarei infinitamente feliz de deixá-la a vossos cuidados”.
Mais uma vez Casanova passava a se referir aos eventos
como um “jogo”. Convidou Henriette para conhecer Bolonha
com ele; ela concordou, contanto que fosse vestida de mulher.
A última coisa que ela queria era “sair por aí exibindo-se
perante toda a cidade em roupas masculinas”. Assim que o
húngaro os deixou a sós, Casanova inquiriu-a com desespero
apaixonado. Ele era meramente parte de uma série infinita de
affaires misteriosos? Não exatamente. Ela receava o mal
causado pelas inquirições do húngaro. Casanova se revelara
seu amigo e ela não faria essa mesma exigência dele.
“Não me é possível deixá-la só”, desabafou ele, “sem
dinheiro e nada que possais vender, no meio da rua em uma
cidade em que não podeis conversar.” E, além do mais,
qualquer um que aquiescesse ao pedido dela não era de fato
seu amigo. Mas ela permanecia convencida de que o húngaro a
esqueceria.
Nesse caso, disse Casanova, “a amizade que ele sente por
vós é de natureza inteiramente diferente da minha”, pois — e
aqui enfim se declarou — “eu vos amo”. Invocando um
melodrama próprio para a ocasião, concluiu: “Sabei, madame,
que um francês” — ou, aliás, um húngaro — “pode ser capaz
de esquecer, mas um italiano, a julgar por mim mesmo, não
possui esse estranho poder”. Deveria ele acompanhá-la a
Parma ou seguiriam caminhos separados? “Escolhei antes que
aquele homem digno e desesperado regresse.”
Henriette riu. “Nunca em minha vida concebi uma
declaração de amor sendo feita com raiva.” Quando ele devia
ser terno, era exigente.
Ele entendia, mas não eram personagens num romance;
isso era a vida real, “história”, como disse, e menos ordenada
que a ficção. “Percebeis a excruciante condição de um homem
apaixonado no momento em que deve optar por um curso
capaz de determinar sua própria vida?”, perguntou, sufocando-
a com suas indagações.
“Continua no mesmo tom?”, queixou-se Henriette. “Sabeis
que pareceis com raiva?”
Não!, retrucou, não sentia raiva, mas era presa de um
“violento paroxismo”. Apenas a decisão dela poderia aliviá-lo
de sua terrível agonia. Ele a desafiou a convidá-lo — não,
convidá-lo não, pois não se tratava de uma recepção ao ar livre
—, a ordenar que fosse a Parma com ela.
Sim, ela finalmente respondeu, venez à Parme.
“Caí a seus pés, agarrei seus joelhos, beijando-os uma
centena de vezes; nada mais de raiva, nada mais de tons
ásperos, ternos, submissos, agradecidos, ardentes, juro que
nunca mais pedirei sequer para beijar suas mãos até ter feito
por merecer seu coração.” Ela instruiu seu pretendente
suplicante a se levantar e sussurrou que tinha certeza de que
ele a amava e que faria tudo em seu poder para conservar sua
lealdade. “Estava com os lábios pressionados em suas lindas
mãos quando o capitão entrou. Ele nos congratulou. Contei-lhe
alegremente que eu iria e mandei buscar os cavalos, deixando-
a ali com ele. Partimos juntos, todos os três muito satisfeitos.”
Ao cair da noite, o húngaro, com sua missão completa,
deixou Casanova e Henriette numa estalagem enquanto ia a
Parma sozinho. No jantar, esforçaram-se por encontrar um
tópico de conversa apropriado. “Sabíamos que dormiríamos
juntos; mas achávamos indiscreto dizer tal coisa um ao outro.
Que noite! Que mulher era ela, essa Henriette que tanto amei,
que me fez tão feliz!”
Chegaram a Parma, Casanova usando o nome da mãe,
Farussi, Henriette passando por Anne d’Arci, francesa. Um
jovem francês lhes indicou uma estalagem, D’Andremont’s,
com comida, vinho e mobília franceses. Casanova empregou o
jovem como seu lacaio.
A conclusão recente da Guerra da Sucessão austríaca
trouxe uma nova ordem a Parma. Em 7 de março de 1749, o
príncipe Filipe da Espanha entrara na cidade para tomar posse.
Para Casanova, essa abrupta transição política significava que
“os espiões devem estar por toda parte”. Como que a
confirmar seus pressentimentos, “escutei transeuntes falando
em francês ou espanhol”. Quando tentou comprar anáguas e
espartilhos para Henriette, encontrou o lojista em estado de
pânico com a situação política. Em vez disso, chamou uma
costureira à estalagem para confeccionar “vestidos, chapéus,
mantos, tudo, pois como mulher podeis imaginá-la nua em
pelo”. Contanto que fosse paga, respondeu a empolgada
costureira, nada faltaria à senhora. Ele a reconstruiria, à
maneira de Pigmalião. “Instruí a costureira, que estava
acompanhada da filha, a me seguir, carregando meu linho.
Parei apenas para comprar meias de seda e algodão, e, quando
entrava em meu apartamento, trouxe meu sapateiro, que estava
à porta. Esse foi o momento de verdadeiro prazer! Henriette, a
quem eu nada dissera, observa tudo sendo depositado sobre a
mesa com expressão do mais completo contentamento.”
Contrataram uma comitiva de criados para se somar ao
sapateiro e às costureiras, um grupo variado que conversava
em francês, flamengo, italiano e, quando o capitão se juntou a
eles, húngaro. Henriette chamava o capitão de “Papa” e
Casanova passou a chamar Henriette de “minha querida
esposa”.
Mais tarde nessa noite, Henriette, ficando melancólica,
disse que se Casanova gastava seu dinheiro para fazer com que
o amasse, ele o estava “jogando fora, pois vos amo mais do
que ontem”. Casanova, de sua parte, suplicou que nunca o
abandonasse. “Quem pode ter certeza do futuro?”, ela
respondeu. Ele não era livre? Claro que era. Mas ela não podia
estar à altura de seu direito. “Estou certa de que me procuram;
e sei que, se for encontrada, poderão facilmente dispor dos
meios de tomar posse de mim.” Se isso acontecesse, jurava se
matar. Ela recuou um pouco, explicando que não acreditava
estar em perigo iminente, meramente aliviada de ter terminado
com seu prévio companheiro, a quem cobrira com seus favores
apenas porque ele a protegera, não por alguma genuína afeição
entre os dois. Ela recorreu a esse expediente para impedir o
sogro de interná-la em um convento, o que equivaleria a uma
sentença de prisão. Mais do que isso, ela se recusou a contar.
E, assim, “fomos para a cama apaixonados, para acordar pela
manhã ainda mais apaixonados. Passei três meses com ela,
sempre igualmente apaixonado e constantemente me
congratulando por ser assim.” O que começara como uma
atração passou ao delírio. Ele sentiu-se lançado no empíreo,
bebendo grandes goles de imortalidade com ela. Além de
todos os seus encantos sensuais, a divina Henriette apelava ao
seu esnobismo, a seu desejo de participar vicariamente da
nobreza e desse modo alçar-se a um nível mais elevado de
existência do que era possível na estratificada Veneza. Talvez
ela soubesse que se misturava a um gênio ansioso por
satisfazer seus caprichos femininos, e que de bom grado
abandonara tudo por ela. Ele era tanto seu servo como seu
íncubo.
Pela manhã, Valentin de la Haye, um professor de línguas
e de matemática, chegou para dar aulas de italiano para
Henriette; ela lhe pagou seis liras por duas horas de aula.
(Tratava-se de liras de Parma, observou Casanova, o
equivalente a trinta sous franceses, ou a vigésima parte de um
franco.) Além disso, ela lhe deu uma gorjeta de dois zecchini
ao final, para que comprasse os romances mais recentes.
Com De la Haye, “instruído à moda antiga”, Casanova
iniciou um animado debate relativo à descoberta de Copérnico,
em 1543, de que a Terra girava em torno do Sol. Um cristão,
disse o professor, só podia aceitar a revolução copernicana
como uma “hipótese engenhosa” ausente das Escrituras,
afirmação que forneceu a Casanova a munição necessária para
afirmar que “as Escrituras não são um livro com o qual um
cristão pode aprender física”. Não obstante, se esse verdadeiro
“Tartufo” — Casanova se referia ao piedoso hipócrita de
Molière — “podia divertir Henriette e ensinar-lhe italiano, era
tudo que eu queria”.
Casanova exultava numa das fases mais felizes de sua
vida, o mais distante das privações de seus tempos de escola e
camas infestadas de pragas que podia imaginar. Estava em
constante união com o objeto de suas afeições e protegido das
vicissitudes da realidade, pelo menos por ora. Nunca
conhecera um amor como aquele, tão generoso, tão intenso,
tão constante. “Aqueles que não acreditam que uma mulher é
capaz de tornar um homem igualmente feliz todas as 24 horas
do dia nunca conheceram uma Henriette”, escreveu numa
passagem célebre. “A alegria que inundava minh’alma era
muito maior quando eu conversava com ela durante o dia do
que quando a tinha em meus braços à noite. Tendo lido muitas
obras e tendo um bom gosto natural, Henriette fazia um juízo
correto de tudo e, embora não instruída, raciocinava como uma
geômetra. Uma vez que não se pretendia intelectual, nunca
dizia nada importante a não ser com uma risada, que,
emprestando ao comentário a cor da frivolidade, punha-o ao
alcance de todos que a escutavam.” Às vezes ela era como
uma esposa para ele; em outras, uma amante. “Quando íamos
juntos para a cama, parecia ser a primeira vez.”
Embora fosse feliz com Henriette, Casanova repercutia a
avaliação condescendente que sua época fazia do intelecto
feminino. “Em uma mulher, a erudição fica deslocada;
compromete as qualidades essenciais de seu sexo; e também,
aliás, nunca vai além dos limites do que já é sabido. Nenhuma
descoberta científica jamais foi feita por uma mulher. Ir além
exige um vigor que a mulher não pode ter. Mas no raciocínio
simples e na delicadeza de sentimentos, devemos nos render às
mulheres.”
À medida que transcorria o idílio com Henriette em Parma,
pequenas divergências surgiram. Depois de vestir Henriette
com o traje mais fino que havia, Giacomo naturalmente queria
desfilar a seu lado pela cidade, mas ela tinha um medo mortal
de ser descoberta, capturada e levada dali. Para atenuar sua
ansiedade, ele obteve uma lista de estrangeiros em visita; ela a
inspecionou e nenhum nome lhe pareceu familiar. Ao ouvir
dizer que a esposa do príncipe da França chegara a Parma,
Casanova, ainda abonado, reservou um camarote na ópera,
onde certamente poderia encontrá-la — não uma vez por mês
nem uma vez por semana, mas uma vez por dia. “Desejais ir à
ópera todos os dias?”, perguntou Henriette, horrorizada. Ela
não era apreciadora de ópera e tinha medo de se mostrar em
público, mas Casanova revelava cada vez mais seu lado
veneziano. A ópera, o teatro e a música estavam em seu
sangue.
“Sou louco por música, minha cara; não posso deixar de
estremecer ao mero pensamento de sair.”
“Se estremeces, eu tremo.”
Respeitando a necessidade de privacidade de Henriette,
Casanova pegou um camarote na segunda fila. O teatro era tão
pequeno que “uma mulher bela não podia passar despercebida
ali”. Chegaram. Henriette se encolhia no escuro, sem uma
vela, sem ruge, tentando passar por mais um rosto na multidão.
Ela se escondia atrás dos binóculos de ópera, em nenhum
momento examinando os ocupantes dos camarotes. “Ninguém
pareceu curioso acerca de nós, assim fomos para casa muito
satisfeitos, nos braços da paz e do amor.” Para recapturar o
momento, ele tentou obter a partitura do fim do segundo ato,
bem como um cravo, mas “ela nunca aprendera a tocar o
instrumento”.
A vida prosseguiu por cerca de um mês nessa toada
artificial; Henriette aprendeu a falar italiano, uma alegria para
Casanova; foram à ópera “algumas vezes sem fazer nenhum
conhecido”. Fora isso, nunca saíam e se recusavam a receber
visitas, que aliás não havia. “Não conhecia ninguém e
ninguém me conhecia.” O admirador húngaro foi embora.
“Vivendo juntos dessa forma e provando as delícias da
verdadeira felicidade, zombamos da filosofia que nega que a
felicidade pode ser perfeita, porque, assim ela afirma, ela não é
duradoura.”
Henriette permitia-se discordar. “A felicidade eterna
poderia ser comparada a um buquê composto de várias flores
que fariam uma combinação tão bela e tão harmoniosa que
seria tomada por uma única flor.” Seria um coroamento da
felicidade deles, afirmou, que os dois morressem juntos após
uma vida de felicidade. “Era muito feliz com Henriette”, disse
Casanova, “e ela não menos comigo: nunca um momento de
mau humor, nunca um bocejo, nunca uma pétala de rosa
dobrada veio perturbar nosso contentamento.”
Mas após algum tempo acabaram aceitando um convite
para um jantar com a presença de músicos que passavam pela
cidade. Ali não era Veneza, ninguém usava máscaras, mas
podiam muito bem usar, pois apresentações excessivamente
informativas e perguntas indiscretas não faziam parte dos
acontecimentos. Henriette obrigou-se a aturar o escrutínio dos
demais convidados. Se alguma coisa desse errado, se fosse
reconhecida, Casanova estava preparado para fugir com ela
para a Inglaterra, conforme disse. Todo mundo, parecia, teceu
elogios à linda Henriette, “os quais ela recebeu com uma
naturalidade ignorada em qualquer lugar a não ser na França, e
de fato apenas nos círculos mais elevados”.
A noite se tornou uma revelação quando os músicos se
juntaram para executar uma composição para pequena
orquestra. No encerramento, Henriette se levantou
inesperadamente e pediu ao violoncelista para lhe emprestar
seu instrumento. “Ela senta em seu lugar, põe o violoncelo
entre os joelhos e pede à orquestra para recomeçar o
concerto.” O silêncio tomou conta do ambiente; Casanova
ficou em pânico; Henriette não aprendera a tocar nem cravo,
quanto mais violoncelo, lembrou, conforme ela se preparava
para a apresentação. “Achei que fosse apenas uma piada que
terminaria naquela cena deveras encantadora; mas, quando vi
o primeiro toque do arco, achei que a palpitação excessiva do
meu coração fosse me fulminar.” Com Giacomo prendendo a
respiração, ela tocou e o público aplaudiu, sacudindo-o até a
medula, mas aparentemente não causando nenhum efeito em
Henriette, “pelo menos de forma visível”. Ela executou seu
solo até o fim não uma, mas seis vezes, absteve-se de
agradecer os aplausos recebidos e disse apenas que nunca
tocara em um instrumento melhor, como que a transferir a
responsabilidade por seu virtuosismo. Encerrou desculpando-
se por estender o concerto em meia hora além do programa.
Casanova pediu licença e foi enxugar as lágrimas, e,
quando voltou à presença dos convidados, apenas Henriette
percebeu o significado de seus olhos vermelhos. À ceia, ela
prosseguiu em seu triunfo, conquistando a todos com sua
sagacidade, com o anfitrião encarando Casanova como se ele
fosse seu orgulhoso impresario. No início, Giacomo
“aparentou submissão e o mais profundo respeito pela deusa”
sentada à sua frente, até que se deu conta de que “ela queria
que todo mundo percebesse que eu era seu oráculo”. Ele!
Giacomo Casanova. Talvez presumissem que fosse sua esposa.
O anfitrião tentou deixá-la num aperto perguntando se preferia
a França ou a Espanha, diante de convidados de ambas as
nações. Casanova se encolheu, mas não era necessário: “Ela
falou com tanta elegância que os espanhóis desejaram ser
franceses e os franceses desejaram ser espanhóis”. O anfitrião
questionou-a até sobre os italianos, e nesse ponto Casanova
desejou sumir por um buraco no chão. Henriette explicou que
não conhecia nenhum italiano, portanto era incapaz de formar
uma opinião conclusiva. Sua modéstia foi um sucesso. “Devo
ter sido o mais estúpido dos homens se mostrei o menor sinal
de que escutara a magnífica resposta de Henriette”, recordou.
Ela então explicou que aprendera a tocar violoncelo em um
convento e teria dado continuidade a seu treinamento musical
“na esperança de agradar minha mãe”, mas a abadessa não
permitira, porque “insistiu que eu não podia segurar o
instrumento sem assumir uma postura indecente”. Os austeros
espanhóis, relatou Casanova, morderam os lábios ao escutar
tal relato, “mas os franceses explodiram numa gargalhada”.
Pouco depois, Henriette se levantou e, acompanhada por
Giacomo, imerso no deleite do amor, foi embora.
“Nesse momento, devo ter sido mortalmente odiado”,
vangloriou-se com a jovem. “Sois meu universo. Cruel
Henriette! Quase me matastes com vosso violoncelo! Na
medida em que não podia crer que teríeis mantido segredo,
achei que enlouquecêreis e, no momento em que vos escutei,
tive de sair para secar as lágrimas que evocastes em meu
coração.” Que outras habilidades ocultas ela devia possuir?
Ela devia confessar, assim ele não iria “morrer de terror ou
surpresa”. Quando ela tocou, a voz quase humana do
instrumento calara diretamente em seu coração. No fim, ela
lhe assegurou que “esgotei meus recursos e agora conheceis
vossa Henriette por completo”. Ou não? A despeito da
irrestrita admiração que sentia, Casanova admitiu que ela tinha
um modo de dizer uma coisa e fazer outra. Ela era adepta do
disfarce, ainda mais do que ele.
Na busca de um milieu à altura de seu novo amor,
Casanova expusera Henriette desnecessariamente a espiões e
curiosos sobre a verdadeira identidade da moça, apressando o
momento de sua partida. Agora a tarefa dela era mantê-lo
bem-disposto para si, sobretudo após ele ter cuidado de suas
necessidades e vaidades e a protegido de perseguidores
vorazes, os quais não nomeou. Por um tempo, ela foi bem-
sucedida; Casanova recordou que “passamos três ou quatro
semanas perdidos de felicidade. Na doce união de nossos
corações e nossas almas, nenhum momento vazio jamais
apareceu para nos apresentar essa desoladora espécie de
sofrimento conhecida como bocejo”. Ocasionalmente, saíam
para um passeio de carruagem, da qual nunca desciam, e
nunca falavam com ninguém, a despeito das perguntas
daqueles — especialmente homens — que haviam conhecido
Henriette no jantar. Ninguém a reconheceu!
Compareceram a uma festa luxuosa no Palácio Ducal de
Colorno, perto de Parma, onde a corte francesa recebia
convidados. Para Casanova, passear pelos jardins foi um
deleite, mas para a reclusa Henriette significava o risco de ser
descoberta. Não demorou para que Chevalier, membro de uma
ordem de mérito, ou cavalaria, começasse a segui-los. Ele era
um cavalheiro mais velho e, quando os alcançou, apresentou-
se como D’Antoine, ou, para dar seu nome completo e título,
conde François d’Antoine-Placas, camarista do duque de
Parma e cavalariço-chefe da duquesa Louise Elisabeth.
Henriette lançou-lhe um olhar gelado.
“Não me recordo, monsieur, de ter a honra de vos haver
conhecido.”
“Isso basta, madame. Peço-vos que me perdoeis.”
Mais tarde, nessa noite, ela admitiu conhecer D’Antoine,
ou pelo menos sua família, “famosa na Provença”. Sua
inquietação preocupou Casanova, que propôs que seguissem
para Veneza. A ideia de Henriette em Veneza! Porém, quando
regressaram a Parma, perceberam que ainda não estavam
livres de D’Antoine, que requisitara um encontro. Por
insistência de Henriette, Casanova concordou em aparecer no
jardim ducal às onze e meia, onde se encontrou com o
cavalheiro, que lhe confiou uma carta lacrada destinada à
jovem, que, se assim ela desejasse, ser-lhe-ia permitido ler.
Após esse encontro, as coisas se deterioraram rapidamente.
Henriette abriu o documento de quatro páginas, leu-o com
cuidado, mas, por uma questão de honra, não quis permitir que
Casanova fizesse o mesmo. Pior ainda, teria de receber
monsieur D’Antoine porque eram parentes.
“Infeliz miserável que sou!”, exclamou ele com toda a
convicção que foi capaz de reunir, e se castigou por sua
estupidez de permanecer com ela em Parma, onde a
probabilidade de ser descoberta era quase tão grande quanto se
estivessem na França. “Poderia eu ter cometido erro mais
estúpido?”, lamentou-se. Agora era tarde demais para corrigi-
lo, e ele se encheu de tristeza em relação ao “mais doloroso
desfecho que posso imaginar”.
Henriette tentou abrandar suas preocupações. Sim, ela se
encontraria com D’Antoine, mas não, não concordaria com
suas sugestões. Não voltaria à França; em vez disso,
“passemos o resto de nossos dias juntos onde preferirdes”. E
no entanto… esse talvez não fosse o melhor curso de ação para
eles. Teriam de considerar as alternativas e pensar em
maneiras de viver e serem felizes no futuro um sem o outro, se
a situação chegasse a esse ponto. “Confiai em mim”, pediu ela.
Não haviam cometido um erro ao negociar com monsieur
D’Antoine; de outro modo, ele poderia ter decidido fazer sua
própria investigação e relatar suas escandalosas descobertas
para a família dela, “que me teria exposto a um violento
processo que vosso amor não toleraria”.
“A partir desse momento”, escreveu ele, “nosso amor ficou
triste, e a tristeza é uma doença que no fim mata o amor.”
Entreolharam-se por uma hora sem falar. A luz que era
Henriette se ofuscou. O idílio chegava ao inevitável fim.
Ambos os amantes eram fugitivos no caos de Parma, Henriette
em fuga da família, tentando manter seu anonimato da melhor
forma possível, Casanova escapando da Inquisição veneziana.
Embora tivessem vivido por meses num estado de intensa
intimidade, haviam ocultado partes importantes de suas
identidades. Se ele se cansou de personificar um cavalheiro,
não teria de fazê-lo por muito mais tempo.
No dia seguinte, monsieur D’Antoine veio e passou a
maior parte do dia com Henriette. “Passeis seis entediantes
horas sozinho, fingindo escrever”, recordou Casanova com
angústia, conforme os relanceava em seu espelho. “Não
consegui ver nada além do mais triste dos desfechos.”
Quando sua visita partira, Henriette veio até ele, os olhos
inchados de lágrimas. Iriam embora juntos, mas apenas por
duas semanas, durante as quais ela não temeria violência.
“Não consigo mais aturar esta cidade!”, disse sobre Parma.
“Eu a odeio”, concordou Casanova. “Vamos para Milão?”
“Excelente! Para Milão.” Com seu violoncelo, claro.
Após duas semanas melancólicas de indulgência em um
amor cada vez mais envelhecido, voltaram a Parma, e
D’Antoine apareceu para o jantar, sem ser convidado,
impondo sua presença. Quando foi embora, ela virou para
Casanova, tomada de tristeza, e disse que chegara a hora de
partir. Viajariam juntos para Genebra e seguiriam caminhos
diferentes. Dias mais tarde, ao cair da noite, partiram, parando
em Turim para empregar um criado pelo resto da viagem até
Genebra. Era inverno, e atravessaram um passo alpino gelado
em liteiras e, depois, trenó.
Cinco dias mais tarde, chegaram a Genebra, onde se
hospedaram no melhor hotel da cidade, À la Balance, nome
perfeitamente apropriado a sua vida periclitante. Aí Henriette
firmou um acordo financeiro com seu banqueiro e
“permanecemos juntos, melancólicos e pensativos, como se
fica quando a tristeza mais profunda pesa no espírito”. Parma,
e todo o resto da experiência, com seus momentos preciosos e
irrecuperáveis, suas alegrias e tristezas, evaporou como fios de
fumaça sob os ventos gelados de Genebra. Tentaram levar
conforto um ao outro trocando presentes, cada um dos quais só
fez enfatizar a realidade de sua despedida. Casanova, que viera
pagando pelas extravagantes despesas desde que ficaram
juntos, aceitou cinco rolos de cédulas com cem luíses cada,
cerca de 10 mil francos em moedas de ouro, “um pobre
consolo para meu coração, por demais opresso com despedida
tão cruel”. E então, suspiros, lágrimas, abraços, mas nenhuma
esperança de nova união. Na verdade, Henriette lhe pediu
especificamente para nunca perguntar a seu respeito e se, por
acidente, seus caminhos um dia voltassem a se cruzar, que
fingisse não conhecê-la. Ao menos ele não alimentaria falsas
esperanças: triste consolo.
A hábil direção de cena executada por Henriette na
despedida deles continuou no dia seguinte, quando ela instruiu
Casanova a permanecer em Genebra até receber uma carta que
ela lhe enviaria do primeiro lugar onde fizesse a troca dos
cavalos, na viagem de volta para casa. “Ela saiu assim que o
dia amanheceu, com sua dama de companhia ao lado e um
lacaio no assento do cocheiro, bem como outro à frente, a
cavalo. Só voltei ao nosso quarto no andar de cima após ter
acompanhado a carruagem com os olhos e esperado que
sumisse de vista. Depois de ordenar ao camareiro que não
entrasse em meu quarto enquanto os cavalos com que
Henriette viajava fossem devolvidos, fui para a cama, na
esperança de que o sono acorresse em auxílio de minh’alma
afligida pela dor.”
Casanova só recebeu notícias de Henriette no dia seguinte,
quando o coche vindo de Châtillon, a primeira parada na
estrada para a França, voltou a Genebra, com uma carta dela.
Louco de expectativa, ele a abriu e leu sua única palavra
indiscutível: “Adeus”. Nada de “eu vos amo” nem “sempre
vos levarei no coração”. Apenas “adeus”. Sua decisão de
deixá-lo e voltar para a família lançou-o no desânimo; ele
comparou o amor a uma doença incurável e a um monstro
divino. “Passei dois dos dias mais tristes de minha vida
sozinho no quarto”, recordou. “Numa de suas duas janelas vi
escrito: Tu oublieras aussi Henriette.” Também tu esquecerás
Henriette. “Ela escrevera as palavras com a ponta de um
pequeno diamante, incrustado em um anel, com o qual eu a
presenteara.” Parecia uma ordem impiedosa, mas era destinada
a libertá-lo de ficar escravizado por sua lembrança. Ela estava
errada. Ele nunca a esqueceu, “e é um bálsamo para
minh’alma toda vez que me lembro dela”.
Pela manhã, ele começou a árdua jornada de Genebra a
Veneza. Quem poderia dizer que aventuras o aguardavam
quando chegasse?
6. Mimi
No início, ele sentiu “uma espécie de desespero com um quê de
doçura” ao atravessar os Alpes pelo passo do Grande São Bernardo.1 A
uma altitude de quase 2500 metros, a estrada era vazia, gelada e
sobrenatural como a morte. Descendo a trilha escorregadia, coberta de
gelo, ele voltou a Parma em janeiro de 1750, onde se hospedou numa
choupana decrépita, como que para se punir após os meses de
indulgência naquela cidade com Henriette. Uma vez ali, levou a termo
o último pedido de sua amada, entregar uma carta para D’Antoine,
mas, quando o destinatário abriu-a, devolveu-a a Giacomo, pois
continha uma carta endereçada a ele.
“Não nos queixemos de nosso destino”, exortava-o, comparando o
tempo passado juntos a um sonho agradável. Ela cuidaria de si própria
pelo resto da vida e seria o mais feliz possível sem ele. Mesmo nesse
momento admitia ainda não saber quem ele de fato era, porém
“ninguém neste mundo vos conhece melhor do que eu”. Ela lhe
assegurava que não amaria ninguém mais pelo resto da vida — como
ele poderia saber? —, mas esperava, ou melhor, admitia, que ele nem
pensaria em imitá-la a esse respeito, e, ao encerrar, escreveu: “Quero
que ames outra vez e até que encontres outra Henriette”.
Ele ficou acamado por dias, sem comer nem beber. “Tal é o efeito
de uma grande tristeza.” Após algum tempo, Valentin de la Haye, o
professor de línguas e jesuíta, veio em seu socorro, convenceu-o a
tomar uma sopa — e, mais tarde, fazer uma refeição leve — e pregou
um sermão sobre “a vaidade dessa vida mortal”. Quanto mais De la
Haye se demorava, mais Casanova gostava dele. Entrementes, outro
envolvimento, dessa vez com uma “atriz” — sinônimo de prostituta
—, que ele esperava que apagasse a lembrança de Henriette, deixou-o
com o terceiro ou quarto, não, seu quinto episódio de doença venérea,
e a cada ocasião ele deveria ter pensado duas vezes antes de se
relacionar com uma prostituta — mas ele guardou o sofrimento para si,
pois considerava uma punição justa “por haver me abandonado tão
baixamente após ter pertencido a Henriette”.
Confessou seu ordálio ao aparentemente empobrecido
companheiro de refeição e conselheiro espiritual, De la Haye, que
trouxe o cirurgião Jacques Frémont (também um dentista) para tratar o
mal de seu amigo com um regime que Casanova chamou de “a grande
cura”, o qual envolvia o uso de mercúrio, erroneamente tido como um
paliativo para doenças venéreas, e o isolamento de seis tediosas
semanas em seu pequeno quarto, onde a única visita era,
inevitavelmente, De la Haye, que ralhou com Casanova que ele deveria
se considerar com sorte por ter pego a doença, que lhe dava uma
oportunidade de buscar a salvação em Deus. Ele chorou de
arrependimento e De la Haye chorou com ele, falando sobre o Paraíso
“como se houvesse estado lá pessoalmente”. A essa altura Casanova
estava tão atordoado que, como recordou, “não dei risada dele”. Os
dois homens se abraçaram conforme De la Haye assegurava ao amigo
que ele estava “trilhando a única estrada segura para o céu”. Casanova
estava confuso demais para discordar.
Em abril, com o tempo melhorando, sua doença venérea
aparentemente curada e seu isolamento chegando ao fim, Casanova
ficou sabendo que as acusações contra ele em Veneza por exumar um
cadáver e usar o braço decepado para apoquentar um velho haviam
sido retiradas. Sentindo o coração leve pela primeira vez em meses,
providenciou seu regresso a Veneza junto com De la Haye, que passara
a chamar Casanova de seu filho, tagarelando sobre a “divina marca da
predestinação” estampada no rosto do jovem.
“Após um ano de ausência, meus amigos me receberam como se eu
fosse um anjo do Paraíso”, gabou-se Casanova. Bragadin e os outros
foram animadamente apresentados a De la Haye. Que esplêndido estar
de volta à paisagem e às sonoridades familiares após seu turbulento
ano no exílio, ver rostos familiares e escutar os gritos das crianças e
comerciantes ecoando pelos muros, ver as gôndolas silenciosamente
exercendo seus afazeres e os cidadãos mascarados de Veneza passando
em seus tabarri como cardumes de negras águas-vivas.
Ele percebeu então que De la Haye, embora fizesse o papel de
“rematado e perfeito cristão”, era na verdade um “rematado hipócrita
[…] que no fundo não ligava para nada a não ser o próprio bem-estar”
e sem “a menor inclinação para o sexo”. Ele falava sem cessar de
“Deus, anjos e glória eterna, sempre indo a uma igreja depois da outra”
com os três patrícios, que o tinham na conta de um santo eremita,
membro de uma ordem secreta ou misterioso instrutor de Casanova na
cabala. O fingimento funcionou. “No breve intervalo de três semanas,
vi-o obter tal ascendência sobre a mente deles que ele foi tolo o
bastante de achar que não tinha mais necessidade de mim para manter
seu status, e até mesmo que gozava de status suficiente para me
desancar se assim estivesse inclinado.”
De la Haye e os três patrícios se comunicavam numa língua
particular, ostensivamente excluindo Casanova. Para envenenar o
espírito dos patrícios contra o protegido deles, De la Haye começou “a
se queixar, embora com palavras melífluas, quando eu passava a noite
sem que se soubesse onde”, e a dar a entender que Casanova o
desencaminhava. Ao mesmo tempo, Casanova tentou restabelecer a
ligação cabalística com seus três protetores. Disselhe que o oráculo que
obedeciam sem hesitar os advertira a nada fazer em relação a quaisquer
sugestões que De la Haye pudesse dar sem consultá-lo primeiro. “Não
tinha dúvida de que obedeceriam à ordem.” Vendo a mudança na
atitude dos três patrícios para com ele, De la Haye “começou a se
portar mais sensatamente”.
O Carnaval chegou e com ele a infindável pândega de jogatina e
prostitutas. Ele jogava cartas diariamente e perdia. O lugar de escolha
para seu aviltamento era, como descreveu, “um pequeno cassino que
nenhum nobre veneziano ousava frequentar”, pois um de seus
membros era funcionário da embaixada espanhola. As complicadas
regras da diplomacia em Veneza proibiam patrícios de se misturar a
estrangeiros, exceto em situações oficiais. Sem explicar como, recebeu
a quarta parte da aposta de um patrício “e no primeiro dia da Quaresma
vimo-nos como os ganhadores de soma suficiente”. Sim! Ele ganhara
na loteria veneziana: 3 mil ducados. Conquistara a façanha
simplesmente acertando a combinação vencedora, conhecida como
terno, consistindo em três números.
Teve essa maré de sorte e tinha sua liberdade, porém carecia da
antiga ambição. Não se ouvia mais falar em suas aspirações literárias,
sua relação de amor e ódio com a ordem social veneziana, apenas um
desejo de viajar a Paris com seu parceiro, Antonio Balletti, um
bailarino e candidato a impresario do balé, que planejava se reunir com
sua família teatral em Paris e se apresentar com eles. A seu ver,
Casanova não podia ter “escolhido companhia mais agradável e mais
apta a me granjear incontáveis vantagens em Paris e uma quantidade
de brilhantes conhecidos”. Ele se despediu do Signor Bragadin e
prometeu voltar em dois anos, na primavera de 1752, assegurando a
seu irmão Francesco, o pintor, “que pensaria nele quando estivesse em
Paris, onde naquele tempo o gênio certamente encontrava seu caminho
para a fortuna”.
Em 1º de junho de 1750, partiu com altas expectativas, bem-
vestido, bem equipado, graças a seu prêmio de loteria, “com
abundância de dinheiro, e certo de não me ver em penúria se me
comportasse apropriadamente”. Embarcou em uma peota, cujos
remadores o levaram durante a noite para um porto próximo à cidade
de Ferrara, mais de cem quilômetros ao sul de Veneza. Descendo em
terra firme, contratou uma calèche e chegou a tempo do almoço e de se
reunir com Balletti.
No dia seguinte, foi à feira em Reggio, que classificou como uma
decepção, mas ao menos voltou a se encontrar com Balletti por lá, e os
dois seguiram para Turim, onde passara dias idílicos com Henriette.
Sem essa distração para monopolizar seu tempo, conheceu os pontos
turísticos da cidade, suas “ruas cheias de mendigos”, o opulento Teatro
Reggio e até o rei da Sardenha, Carlos Emanuel I. Casanova nunca vira
um rei e tentou chegar bem perto. “Uma ideia espúria levava-me a crer
que um rei devia ter qualquer coisa de rara beleza ou majestade em sua
fisionomia que não era partilhada pelo resto da humanidade. Enquanto
jovem republicano pensante, minha ideia não era completamente
estúpida”, porém ele ficou desolado à visão do monarca, “feio,
corcunda, moroso e ordinário até mesmo nos modos”. Por comparação,
Giacomo Casanova, bem-vestido e com boas maneiras, via-se como
um príncipe.
“Nenhuma inclinação amorosa perturbou minha paz de espírito em
Turim, a não ser pela filha de uma lavadeira.” Com ela, ele vivenciou
um acidente que deixou por escrito “só porque me ensinou uma lição
em fisiologia”. Casanova devotou considerável esforço, como explicou
cuidadosamente, a “arranjar uma conversa em minhas acomodações ou
nas dela, ou em qualquer lugar, sem sucesso”. A situação pedia,
concluiu, “um pouco de violência ao pé da escada escondida” que ela
subia para o quarto dele quando trabalhava. Ele se escondeu junto à
escada, “e quando vi que estava a meu alcance, dei o bote e, mediante
em parte persuasão e em parte ação rápida, subjuguei-a nos últimos
degraus”. Tudo ia como o planejado, “mas à primeira estocada de
nossa união, o som mais extraordinário, procedente do lugar próximo
ao que eu ocupava, arrefeceu meu furor”. Ffft! “A vítima, como ele
candidamente chamou a filha da lavadeira, levou a mão ao rosto “para
esconder a vergonha que sentiu com sua indiscrição”. Ignorando tais
distrações, ele tentou “tranquilizá-la” com um beijo, “mas, surpresa,
um segundo som, mais alto do que o primeiro” sobreveio, seguido de
um terceiro, “e tão regular que era como o contrabaixo de uma
orquestra marcando o tempo para uma peça musical”. Bfft! No fim,
“esse fenômeno auditivo, junto com o constrangimento e a confusão
que vi em minha vítima, de repente tomaram posse de meu espírito;
tudo somado, ofereceram uma ideia tão cômica à minha mente que, a
risada tendo subjugado todas as minhas faculdades, tive de parar”.
No momento em que a soltou, ela fugiu, deixando-o ali sentado na
escada por quinze minutos, com espasmos de risada. Imaginou que
uma anomalia na “configuração de seu órgão” causara a reação, desse
modo ajudando a preservar sua virtude. “Creio que três dentre quatro
mulheres fáceis o deixariam de sê-lo se sujeitadas a tal fenômeno”,
especulou. Mas se os seus amantes tivessem a mesma peculiaridade, a
“estranha sinfonia podia se tornar mais um charme da feliz união”.
Trocando Turim por Lyon na companhia de seu amigo Balletti,
Casanova envolveu-se com sociedades e fraternidades secretas que
alegavam antiga linhagem e poderes místicos. Esse aficionado da
cabala ingressou na mais controversa delas todas, a maçonaria.2 A
ligação veio por intermédio de Balletti, que, como muitos atores
franceses, já era membro dessa organização influente e profundamente
suspeita, com membros famosos como George Washington, Benjamin
Franklin, Paul Revere, Leopold Mozart e Wolfgang Amadeus Mozart,
cuja ópera A flauta mágica, composta em 1791, é uma delirante
alegoria maçônica.
Essa organização é tão difundida que uma versão de seu símbolo
principal, o Olho da Providência, ocasionalmente chamado de o Olho
Onividente de Deus Zelando pela Humanidade, aparece com destaque
no verso do Grande Selo dos Estados Unidos e na nota de um dólar
americana.
Segundo a sociedade, as raízes da maçonaria remontam à
construção do Templo de Jerusalém pelo rei Salomão, no século X a.C.
Nessa alegoria, os construtores do templo eram pedreiros e os
antepassados dos modernos franco-maçons. Às vezes os franco-
maçons são vinculados a outra ordem mística, os Cavaleiros
Templários, monges que teriam descoberto um imenso tesouro em
meio às ruínas do Templo do rei Salomão até o rei Filipe IV da França
reivindicá-lo no século XIV. Após esse episódio, os Templários
praticamente desapareceram, para ressurgir no tempo de Casanova.
Assim dizia a lenda. Uma explicação mais pragmática sobre a origem
da maçonaria envolvia os trabalhadores que construíam igrejas e
castelos na França, Inglaterra e Escócia. Para preservar o monopólio de
seu ofício, eles formaram guildas e fundaram o que viria a ser
conhecido como lojas para fazer suas refeições e armazenar
ferramentas de trabalho, criando apertos de mão secretos e palavras em
código para se reconhecerem mutuamente. Na época de Casanova, a
franco-maçonaria evoluíra de uma guilda comercial — embora
retivesse parte das ferramentas dos pedreiros por seu valor simbólico
— para uma fraternidade que promovia intercâmbio intelectual e
tolerância religiosa. À medida que aristocratas e artistas ocuparam o
lugar dos artífices originalmente associados com a organização, ela se
tornou elegante e exclusiva. Em 1717, quatro lojas maçônicas em
Londres formaram a primeira Grande Loja, com autoridade sobre as
outras lojas espalhadas pela Inglaterra.
À medida que a franco-maçonaria florescia, os governos e a Igreja
foram ficando desconfiados do pendor da organização pelo sigilo,
pelos rituais idiossincráticos e pelas crenças religiosas tolerantes.3 O
rei Luís XV baniu os maçons da França em 1737 e no ano seguinte o
papa Clemente XII proibiu os católicos de se tornarem franco-maçons
sob pena de excomunhão. Portugal declarou a franco-maçonaria
punível com a morte.
Para Casanova, uma sociedade proibida de indivíduos poderosos e
ideais altivos exercia um apelo irresistível.
Balletti o apresentou a François de la Rochefoucauld, marquês de
Rochebaron, que “obteve para mim o privilégio de ser admitido na
companhia dos que enxergam a luz”, escreveu Casanova, adotando o
imaginário maçom. “Tornei-me um aprendiz de franco-maçom.” Em
alguns meses, ele conquistou o segundo grau, e depois o terceiro, “que
é o de mestre. É o mais elevado”. Nessa época, as lojas franco-
maçônicas ofereciam três graus, tal como ele afirmou, estendendo-os
posteriormente para 33.
A maçonaria lhe garantiu acesso a um conjunto venerando de
coordenadas sociais e místicas. Suas doutrinas conferiam uma
obrigação à busca de verdades sagradas de natureza oculta em antigos
rituais maçônicos que derivavam do Templo do rei Salomão. Nada
apelaria mais ao intelecto e à vaidade de Casanova do que uma busca
mística na companhia de intelectuais e aristocratas. Se a franco-
maçonaria não existisse, ele poderia tê-la inventado. Ele recomendava
que “todo jovem que viaja, que deseja conhecer a sociedade, que não
deseja ser inferior a outro e excluído da companhia de seus iguais na
era em que vivemos, deve ser iniciado no que chamamos de franco-
maçonaria”, mas, advertia, deve “fazer a escolha acertada da loja da
qual quer se tornar membro, pois embora más companhias não possam
agir na loja, podem estar presentes nelas, e o candidato deve estar
ciente das ligações perigosas”.
Ele mencionou o cerne da franco-maçonaria, o “segredo da
fraternidade”, sem revelar seu significado. “O segredo da maçonaria é
inviolável por sua própria natureza”, observou em suas Memórias,
“uma vez que o maçom que o conhece, conhece-o apenas porque o
adivinhou. Não o aprendeu com ninguém. Descobriu-o em virtude de
comparecer à loja, observando, raciocinando e deduzindo. Quando
chega ao segredo, toma o cuidado de não partilhá-lo com ninguém,
mesmo que seja seu melhor amigo e um maçom, pois se este não teve a
capacidade de descobri-lo, exatamente por isso não terá a capacidade
de tirar proveito disso se descobri-lo por meio de palavras saídas da
boca de outro. O segredo, assim, será sempre segredo.”
Sua viagem com Balletti de Lyon a Paris, cerca de quinhentos
quilômetros, consistiu em cinco dias sacudindo numa carruagem. Ao
chegar ao palácio em Fontainebleau, sul de Paris, o coche foi recebido
pela mãe de Balletti. Mais uma vez ele estava à vontade entre atores.
Ao contrário dos italianos, os atores franceses tratavam-se
exclusivamente por seus nomes artísticos, de modo que era “Bonjour,
monsieur Arlequin; bonjour, monsieur Pantalon” tanto no palco como
fora dele. Até a tia de Balletti, Elena Virginia Balletti, atendia pelo
nome de seu personagem, Flaminia, ao jantar.
Casanova pareceu a Flaminia “um candidato na República das
Letras”, ou seja, um aspirante a escritor, e “ela julgou de bom-tom
honrar-me com sua conversa”, ainda que ele a tenha achado “repulsiva
de rosto, tom, estilo e até voz”. Ele dirigiu sua atenção à mãe de
Balletti, Silvia, “agradável, calma, afável, articulada, amável com todo
mundo, cheia de bom humor e no entanto completamente
despretensiosa”. Não conseguia decidir se ela era bonita ou sem graça,
um pouco de cada, talvez, dotada de um “poder oculto” que atraía
admiradores. Ele estava bem ciente da importância dela na vida teatral
francesa, “ídolo em toda a França”, em suas palavras, e seu talento era
“o esteio de todas as comédias que os maiores autores escreviam para
ela”. Ainda mais surpreendente, “sua vida era pura. Dispunha-se a
fazer amigos entre os homens, mas nunca amantes — desprezando um
privilégio de que podia ter usufruído, mas que a tornaria vil segundo
sua própria avaliação. Por esse motivo, ganhou reputação de
respeitabilidade em uma idade em que teria parecido absurda e quase
insultuosa para as mulheres de sua profissão”. Ninguém falava mal
dela quando estava fora dos palcos, tampouco a vaiava quando se
apresentava. “Por um consenso geral e unânime, Silvia era uma mulher
acima de sua profissão” — profissão que ainda era vista como de má
reputação, a despeito da popularidade de atrizes como ela. A Igreja
lhes negava os ritos matrimoniais e o enterro em solo consagrado.
Quando Silvia morreu, dez anos depois, o clero abriu uma exceção; ela
foi enterrada no cemitério de uma igreja paroquiana, com o padre
declarando que o fato de ser atriz “nunca a impedira de ser cristã”,
como se o dela fosse um caso excepcional.
Paris brilhava no auge de la Lumière, o Iluminismo, movimento de
intelectuais devotado à razão, à individualidade, ao livre-pensamento e
à libertinagem, incluindo a exploração e o excesso sexuais. Os
pensadores franceses do Iluminismo — intelectuais, escritores,
cientistas e filósofos que estudavam assuntos de importância geral e
buscavam reformas — incluíam René Descartes, o matemático;
Bernard Le Bovier de Fontenelle, talvez o mais admirado homem de
letras da época; os críticos sociais Voltaire e Montesquieu; e Denis
Diderot, recluso porém intelectualmente aventureiro coeditor (com
Jean d’Alembert) da revolucionária Enciclopédia, a chef-d’oeuvre do
Iluminismo francês. Essa obra, em suas várias edições, vendeu 250 mil
exemplares para um público ávido pela igualdade de informação. Junto
com essas figuras de proa vieram Jean-Jacques Rousseau; Georges-
Louis Leclerc, conde de Buffon, matemático, cosmólogo e naturalista;
Étienne Bonnot de Condillac, filósofo e epistemologista; Anne-Robert-
Jacques Turgot, economista e estadista; e Nicolas de Condorcet, o
matemático, filósofo e cientista político que defendia a igualdade entre
homens e mulheres de todas as raças. Essas figuras e outras como eles
encarnaram o apetite da era pelo conhecimento, aonde quer que
levasse. Era como se Casanova tivesse viajado da mentalidade
medieval veneziana, com suas maldições e superstições, direto para o
Iluminismo. “Se há algo que sabeis, comunicai”, exortava a
Enciclopédia. “Se há algo que não sabeis, pesquisai.” Foi uma
mensagem que Casanova levou a sério conforme percorria as ruas de
Paris conversando com seus moradores, saboreando suas mulheres da
vida e maravilhando-se com a riqueza de conhecimento à disposição
em suas bibliotecas e nas mentes de seus philosophes.
A agitação de Paris o deixava admirado. Andava de um lado para
outro boquiaberto, como qualquer turista faria. Até mesmo os
parisienses ficavam de queixo caído com a sua cidade, contemplando a
maravilha que habitavam “da manhã à noite, divertindo-se com tudo e
se admirando de tudo”. Havia tanto com que se maravilhar: “A beleza
da avenida principal, a obra imortal de Luís XV, a limpeza das
estalagens, as refeições ali servidas, a prontidão com que éramos
servidos, a excelência das camas, os modos reservados da pessoa que
nos atendia à mesa, em geral a filha mais educada da família e cuja
conduta, asseio e comportamento eram suficientes para barrar qualquer
licenciosidade”. Tudo tão diferente de Veneza.
Se havia um único local que personificava o Iluminismo para
Casanova, era o enorme Palais-Royale, antiga residência do cardeal
Richelieu. Os jardins públicos atraíam turistas e homens que haviam
marcado encontro com mulheres da vida. Mesmo assim, era Paris,
onde quase qualquer mulher podia ser considerada notável.
Acomodando-se em uma cadeira alugada, ele pediu um chocolate
quente que achou decepcionante e discutiu com o garçom, trocando
seu pedido por água de cevada. Quando pediu para ficar a par das
fofocas, o rapaz o atendeu com prazer: a dauphine acabara de dar à luz
um príncipe. Mas ele foi vigorosamente corrigido por um abade, que o
informou tratar-se de uma princesa, iniciando um acalorado debate.
Logo Casanova gracejava com o abade, que o apresentou a um
advogado chamado Patu, que alegou ser um conhecedor de literatura
italiana. Casanova conversou em italiano com o cavalheiro e o homem
respondeu “exatamente no estilo de Boccaccio”, levando o veneziano a
observar que embora o italiano do advogado fosse tecnicamente
correto, ninguém mais falava à maneira do Decamerão do século XIV.
Os dois ficaram amigos, discutindo literatura, trocando endereços e
prometendo uma visita.
“Não podeis imaginar que boas almas são os parisienses”,
entusiasmou-se seu amigo. “Estais no único país do mundo em que a
inteligência pode abrir caminho para a fortuna, seja manifestando-se
em genuína contribuição, e nesse caso ela é acolhida pela inteligência,
seja se ela se impõe sobre o que é especioso, e nesse caso é
recompensada com a estupidez.” Quanto a Luís XV, as coisas eram um
pouco mais complicadas. “Tudo que acontece na França faz os
estrangeiros acreditarem que a nação admira seu rei; mas a classe
pensante dentre nós vê que isso não passa de ouropel”, explicou seu
amigo. Quando o rei visita Paris, continuou, “todo mundo grita, ‘Vida
longa ao rei’, porque algum ocioso começou a gritar. É um brado que
advém da euforia, ou talvez do medo, e que o próprio rei, acreditai, não
leva a sério. Ele não vê a hora de voltar a Versalhes, onde há 25 mil
homens para protegê-lo da fúria do mesmo populacho que, ganhando
sabedoria, pode decidir gritar: ‘Morte ao rei’”.

6. Luís XV, rei da França, 1715-74, por Maurice Quentin de la Tour.

Patu explicou que, com poucas exceções sentimentais, a “França


nunca amou seus reis”. Após sobreviver a uma doença, Luís XV
comentou: “Estou admirado com todo esse regozijo por ter recobrado a
saúde, pois não vejo razão para ser tão amado”. Essa falta de lealdade e
respeito aparecia até em conversas casuais. Luís nunca se animou com
o papel que nascera para desempenhar e para muitos parecia um
monarca frio e distante. Na verdade, era tão tímido que, precisando
fazer um discurso, entregava-o a um ministro para ler em seu lugar.
A principal amante do rei na época era a célebre e influente
madame de Pompadour, nascida Jeanne-Antoinette Poisson. Filha de
um financista envolvido em escândalos, ela se insinuou na corte
francesa, onde encantou o rei, que a proclamou a melhor amante do
mundo, para ser lembrado por um cortesão de que se Sua Majestade
tivesse visitado um bordel a fim de compará-la com outras cortesãs,
talvez não fosse tão apressado em glorificar seus dotes amorosos. O
homem foi logo banido por sua irreverência, mas madame de
Pompadour permaneceu. Para manter o interesse do rei, ela organizava
orgias e outras formas de devassidão apreciadas pelo monarca, que a
chamou de “Maravilha Imaculada”.
Em Paris, Casanova devotou-se ao estudo de língua e literatura
francesas. Numa conversa com o octogenário escritor Prosper Jolyot
de Crébillon (pai do mais conhecido Claude, o romancista), Casanova
caracterizou-se como um “aluno intolerável, sempre questionando,
curioso, exigente, insaciável”. Além do mais, disse que não era rico o
bastante para bancar um professor de francês competente, presumindo
que pudesse encontrar um. A insinuação se revelou irresistível para o
velho littérateur, que alegou estar à procura de um aluno como ele
havia cinquenta anos e propôs pagá-lo para que fosse a seu
apartamento no Marais, na margem direita do Sena, na Rue des Douze
Portes, para ter aulas.
Nessa época, o Marais era considerado um quartier aristocrático de
Paris, e Casanova ficou encantado com o ilustre senhor de 1,83 metro
de altura e semblante leonino que fazia acompanhar suas refeições de
comentários espirituosos, um homem caseiro com o cachimbo sempre
na boca e seu harém de vinte gatos, com os quais brincava
constantemente. A governanta administrava sua vida enquanto ele se
desincumbia de suas responsabilidades no antiquado papel de “censor
real”, comentando obras que a mulher lia para ele. “Visitei Crébillon
três vezes por semana durante um ano e aprendi com ele todo o francês
que conheço, mas nunca fui capaz de me livrar dos italianismos”,
admitiu Casanova. “Eu os reconheço quando os identifico nos outros;
mas, quando saem de minha própria pena, não os percebo.”
Ao longo das semanas seguintes, ele compareceu à ópera, ao teatro
e a várias reuniões na companhia de seu amigo Patu, familiarizando-se
com a sociedade francesa a despeito de se envolver em muitas
“trapalhadas embaraçosas”. Cometeu um lapso clamoroso quando
visitava uma escola de balé, onde uma jovem aluna — que não devia
ter mais que treze ou catorze anos — se queixou de dor de cabeça.
Casanova lhe ofereceu um preparado e ela respondeu: “Não é isso.
Acho que estou grávida”.
“Como um tolo”, ele respondeu que “nunca teria imaginado que a
madame era casada”, ao que ela ficou vermelha, olhou para a amiga, e
as duas caíram na gargalhada “com todo gosto”. Chocado e achando
graça, Casanova se foi, “coberto de vergonha e determinado a
futuramente nunca atribuir virtude a jovens do teatro”. Como filho de
uma atriz que o abandonara, ele tinha mais a dizer sobre a questão da
virtude: “Elas se orgulham de não tê-la e riem da estupidez dos que
lhes atribuem tal coisa”.
Como Casanova veio a descobrir, muitas das jovens bailarinas
queriam acima de tudo trocar sua exaustiva profissão pelo conforto de
se amasiarem com um patrono abastado; se casado ou não, pouco
importava. Para elas, o palco era um meio para atingir um fim, e
estavam sempre prontas a fazer um teste para o papel de amante. Nesse
meio pouco respeitável, mulheres de virtude duvidosa, ou virtude
alguma, tornaram-se suas companhias preferidas. O licencioso Patu
apresentou-o a “todas as mulheres licenciosas que gozavam de alguma
reputação em Paris”. Finalmente, as mulheres de Paris! Era como se
Casanova estivesse prestes a contar suas experiências com elas, pois
Patu “amava o sexo frágil tanto quanto eu, mas infelizmente não era
dotado de uma constituição tão forte quanto a minha e pagou por isso
com a vida”: uma perda incalculável, na opinião de Giacomo. Ele
morreu aos trinta anos e “se tivesse vivido teria assumido o lugar de
Voltaire”. A lembrança pungente de Patu permaneceu forte o bastante
para levar Casanova a trocar as mulheres por sua grandiosa busca, o
estudo de línguas e literatura. Patu ensinara-lhe um segredo que “os
escritores franceses usam para ter certeza de que sua prosa é perfeita”.
Escreviam seus importantes textos em prosa, como panegíricos ou
dedicatórias, em versos sem rima, alexandrinos, para ser mais
específico, “ou seja, uma linha de doze sílabas com uma cesura, ou
pausa, no meio, na sexta sílaba”.
Casanova não ficou convencido do exercício, uma “grande dose de
aborrecimento por nada”, declarou. “Acho que sois o único escritor
disposto a se dar tamanho trabalho.” Quando perguntou a Crébillon,
seu tutor, sobre essa técnica, o velho confirmou que existia, mas
afirmou que ele mesmo nunca a empregara.
Em 10 de dezembro de 1751, Patu acompanhou Casanova à
celebrada ópera no Palais-Royal para uma nova montagem da obra
intitulada Les Fêtes vénitiennes. A produção iniciou com uma
cintilante abertura, mas, quando a cortina subiu, “vejo um cenário
representando a piazzetta vista da pequena ilha de San Giorgio
Maggiore; mas fico surpreso em ver o Palácio do Doge à minha
esquerda e a Procuradoria” — edifícios na Piazza San Marco — “e o
grande campanário à minha direita. Esse erro ridículo — uma desgraça
para meu século — me leva a rir, e Patu, a quem esclareço, não pode
deixar de rir também”. Ele atribuiu esse equívoco grosseiro “à
ignorância crassa do pintor, que se atrapalhara ao copiar uma gravura”.
À medida que a ópera se desenrolava, a música começou a entediá-lo,
e o recital o tirou do sério, “devido a sua monotonia e gritos sem
sentido”. A ambientação — o Carnaval — e os trajes lhe pareceram
“falsos mas divertidos. Porém o que realmente me levou a rir foi ver o
doge e doze conselheiros saírem dos bastidores usando mantos bizarros
e começarem a dançar uma passacaglia”, uma forma musical típica da
Espanha. Mais tarde, ele observou a bailarina de alguma idade
conhecida como Camargo, “a primeira bailarina que ousava pular”,
gabou-se Patu, “e o maravilhoso é que não usa roupa de baixo”.
“Percebi”, comentou Giacomo.
“O que vistes? Era apenas sua pele, a qual, para dizer a verdade,
não é branca.”
Ele preferia os prazeres proporcionados pela Comédie-Française,
fundada por Luís XIV em 1680 com a fusão das duas trupes de atores
da cidade. Com o tempo ela veio a ser conhecida como a casa de
Molière, nome artístico de Jean-Baptiste Poquelin, dramaturgo e ator.
No tempo das visitas de Casanova, o teatro ficava localizado numa
quadra de tênis na Rue des Fossés-Saint-German. Ele compareceu a
apresentações de O avarento e O misantropo de Molière entre um
público inferior a duzentas pessoas. A experiência de assistir às figuras
tragicômicas de Molière — categoria à qual o próprio dramaturgo
pertencia, desfalecendo durante uma apresentação de sua última obra-
prima, O doente imaginário, em 1673, e morrendo de tuberculose
horas depois — foi mais do que um passatempo para Casanova;
consistiu em uma educação sobre as possibilidades do teatro além dos
prazeres grosseiros da commedia dell’arte. Após as apresentações, foi
conversar com os atores. Quando mencionou a beleza de uma atriz em
particular, uma mulher mais velha concordou que ela era “deliciosa”,
acrescentando que era “uma companhia deveras agradável e uma
grande promessa”. Ele expressou seu desejo de conhecê-la, coisa que
descobriu ser fácil de conseguir. “Seu pai e sua mãe são a urbanidade
em pessoa, e tenho certeza de que ficarão deleitados de serem
convidados por vós para uma ceia. Não hão de se interpor em vosso
caminho; irão para a cama e vos deixarão à mesa na companhia da
jovem pelo tempo que desejardes. Estais na França, monsieur, onde as
pessoas sabem o que vale a pena na vida e tentam extrair o máximo
dela.” Tudo que restava era ser apresentado à moça.
Um pouco mais de alpinismo social o deixou perante o homem que
acreditava ser o mais abastado dos atores expatriados italianos em
Paris, Carlo Veronese. Casanova começou a cortejar as duas filhas do
ator, Coralline e Camilla. Essa experiência o levou a conhecer a bem
relacionada Catherine Charlotte Thérèse, duquesa de Ruffec. Mas,
quando foi apresentado à grande dama, ficou consternado de ver “uma
mulher de sessenta anos” — na verdade, ela estava mais próxima dos
quarenta — “com o rosto coberto de ruge, uma pele manchada, fina,
horrível e sem viço, sentada imodestamente em um sofá”.
“Oh, que lindo jovem!”, ela exclamou ao vê-lo, convidando-o a
sentar-se a seu lado. Ele aquiesceu, mas foi “imediatamente repelido
por um fedor insuportável de almíscar”. Forçando-se a olhar na direção
dela, “vejo um busto hediondo, que a bruaca exibia em sua inteireza, e
espinhas, não visíveis pois que cobertas por esparadrapos, mas
palpáveis”. No momento em que foram deixados a sós, “a harpia
surpreende-me com dois lábios babados que me oferecem um beijo
com o qual talvez eu poderia ter condescendido, mas ao mesmo tempo
estendendo um braço descarnado”.
“Vejamos se tendes um belo…”, arrulhou, levando a mão a sua
virilidade encolhida.
“Oh, meu Deus! Madame la Duchesse!”
“Recuais? Estais agindo como criança. Qual o problema
convosco?”
Ele sussurrou que sofria de um caso grave de la chaudepisse, ou
gonorreia: uma ficção útil.
“Criatura imunda!”
Ele fugiu correndo da casa e, mais tarde, na companhia de Patu,
consolou-se no Hôtel de Roule, um notório bordel parisiense operado
com eficiência por Justine Paris, na verdade Bienfait, que talvez tenha
servido como modelo para a personagem de Juliette, a amoral
ninfomaníaca retratada no romance licencioso de 1797 do marquês de
Sade. Ela não era a cafetina mais famosa de Paris na época — a honra
cabia a Marguerite Gourdan, que mais tarde tornou-se sua sócia —,
mas uma visita a sua casa de tolerância era obrigatória para um
aventureiro com tempo e dinheiro.
Quando visitou o lugar, Casanova recordou com admiração as
“doze a catorze jovens selecionadas” que trabalhavam ali, além de uma
“boa cozinha, bons vinhos, camas excelentes”. Como o
estabelecimento ficava nos arredores de Paris, no vilarejo de Chaillot
(hoje um subúrbio), ela podia estar “certa de que os que iam a sua casa
fossem pessoas de recursos, pois era longe demais para ir a pé”. Seus
clientes conheciam a tabela de preços de cor. “Pagava-se seis francos
para fazer o desjejum com uma jovem, doze francos para jantar ali e
um luís” — uma moeda de ouro valendo cerca de vinte francos —
“para a ceia e passar a noite.”
7. Bordel parisiense, c. 1795.

Casanova e Patu dispensaram o coche e entraram no Hôtel de


Roule, onde uma “mulher bem-vestida e educada, caolha, que parecia
ter cerca de cinquenta anos, nos pergunta se estamos ali para jantar e
conhecer as jovens de sua casa. Respondemos que sim, e ela nos
conduz a uma sala de visitas onde vemos catorze jovens usando
vestidos idênticos de musselina branca, com bordados nas mãos,
sentadas em semicírculo; quando entramos, todas se levantam e fazem
juntas uma profunda mesura. Exibiam lindos penteados, eram mais ou
menos da mesma idade e todas bonitas — algumas altas, outras de
altura mediana e outras baixas, algumas morenas e algumas loiras,
outras de cabelos ruivos. Passamos as moças em revista, dirigindo
algumas palavras a cada uma, e assim como Patu escolhia a sua, eu me
apossava da minha. Nossas duas escolhidas gritaram de alegria,
penduraram-se em nossos pescoços, instaram-nos a deixar a sala para
mostrar o jardim enquanto aguardávamos a chamada para o jantar”. Às
suas costas, madame Paris encorajou os dois clientes a “usufruir do
bom ar, da paz e do silêncio” reinantes na casa, assegurando-lhes, a
propósito, que “respondo-vos pela boa saúde das jovens que
escolhestes”.
Nem bem haviam jantado com suas companhias, a “caolha aparece,
relógio na mão, para nos informar que nossa hora se esgotou”. Se
pagassem mais seis francos poderiam continuar a se entreter.
Decidiram ficar até que o tempo chegasse ao fim outra vez. Ambos
concluíram que prazeres “medidos por hora estão longe da perfeição”.
Resolveram voltar para uma terceira sessão, mas dessa vez pagaram o
suficiente adiantado para se assegurar de que as mulheres de sua
escolha “ficarão em nosso poder até amanhã”. A madame os elogiou
por se revelarem “homens de discernimento”.
Casanova selecionou sua terceira jovem da noite, cujos encantos
pagou para desfrutar pelas catorze horas seguintes. “Uma beldade”,
observa ele, chamada Gabrielle Siberre, que atendia pelo nome de
“Saint-Hilaire”. “Ela me fitou com ar de orgulho e desdém. Levei mais
de uma hora caminhando em sua companhia para acalmá-la.
Considerou-me indigno de dormir com ela porque me atrevera a não
escolhê-la na primeira nem na segunda vez.” (Patu mais tarde
cumprimentou Casanova por sua escolha, dispondo dos serviços da
jovem na semana seguinte.) A noite correu a contento, segundo
Casanova, que deliciou-se em saber que Saint-Hilaire ficou “muito
satisfeita” com ele e até “jactou-se para suas colegas”. E ele ficou tão
satisfeito com a jovem que voltou ao Hôtel de Roule “mais de dez
vezes”. “Não tive coragem de escolher outra jovem”, explicou. “Saint-
Hilaire ficou orgulhosa de conseguir manter-me em sua posse.”
Com a chegada do verão, Casanova usufruiu de prazeres mais
refinados. “Em agosto estive no Louvre para ver as novas pinturas que
os membros da Academia Real de Pintura exibiam ao público.”
Nenhuma delas tinha tema militar, mas ele conhecia alguém capaz de
remediar a omissão. “Concebi o plano de trazer meu irmão, Francesco,
a Paris; ele estava em Veneza e tinha talento no gênero.” Se tudo
corresse bem, “achava que meu irmão podia fazer sua fortuna”.
Escreveu para o Signor Grimani e para Francesco, que concordaram
com o plano, mas levaria meses até Francesco finalmente chegar.
Até chegar a hora, Casanova se distraiu com uma visita estendida a
Fontainebleau, a residência real. Os Balletti — Silvia e seu marido —
o convidaram para se juntar a eles em uma hospedaria alugada. Ele
aceitou na hora, pois “não poderia desfrutar de melhor oportunidade
para vir a conhecer toda a corte de Luís XV e todos os enviados
estrangeiros”. E que corte ele observou, perpetuamente em ação. O rei
adentrava a casa dos quarenta anos, tendo governado a França desde os
cinco; era popularmente conhecido como Louis le bien aimé, Luís, o
Bem-Amado, a despeito da infinidade de ações malsucedidas que se
provariam altamente prejudiciais à monarquia. Era, como Casanova
explicou, “apaixonadamente afeito à caça [e] tinha o hábito de passar
seis semanas todo outono em Fontainebleau. Sempre voltava a
Versalhes em meados de novembro. A viagem lhe custou 5 milhões;
levava consigo tudo que poderia contribuir para o divertimento de
todos os enviados estrangeiros da corte inteira. Os comediantes
franceses e italianos e seus atores e atrizes da opéra receberam ordens
de acompanhá-lo. Durante essas seis semanas, Fontainebleau era muito
mais brilhante que Versalhes”.
Ele acompanhou o embaixador veneziano à França para a primeira
dessas apresentações bucólicas de ópera, uma obra de Jean-Baptiste
Lully, italiano que renunciou à cidadania pela França e compôs óperas
elaboradas. Quando uma famosa diva, Lemaure, abriu a boca,
Casanova escutou um “grito tão alto e inesperado que achei que a
mulher enlouquecera. Dei uma pequena risada, com a maior inocência,
nunca imaginando que alguém a pudesse julgar inapropriada”. Mas um
dignitário discordou da indiscrição e perguntou num tom arrogante de
onde ele era. “Respondi secamente que era de Veneza.”
“Quando estava em Veneza, eu também costumava rir dos recitais
em vossa ópera.”
Casanova retrucou: “Estou igualmente certo de que ninguém lá
jamais pensou em obstar que o fizésseis”. Ele estava a uma tréplica de
se meter num duelo; em vez disso, uma risada de madame de
Pompadour, antiga amante do rei, os interrompeu, e ela perguntou ao
jovem veneziano se ele de fato era daquele lugar “lá embaixo”.
Ele informou à senhora que Veneza não ficava “embaixo”, mas
“em cima”.
“Essa minha resposta foi considerada ainda mais estranha do que a
primeira, e o camarote todo se pôs a discutir se Veneza ficava em cima
ou embaixo. Aparentemente concluiu-se que eu tinha razão e não
tornei a ser atacado.”
Ele voltou a assistir à ópera de Lully, fazendo força para reprimir o
riso e ostensivamente bufando pelo nariz. Seu comportamento
chamativo provocou uma admoestação de madame de Pompadour, que
resolveu perguntar qual das duas atrizes lhe agradara mais. “Ao avaliar
a beleza de uma mulher, a primeira coisa que considero são as pernas”,
respondeu ousadamente Casanova, empregando a palavra francesa
écarter, que significa tanto “abrir” quanto “descartar”. O trocadilho
obsceno, do qual ele afirmou não ter consciência, “destacou-me e
deixou os demais presentes no camarote curiosos a meu respeito”.
(Mas grande parte do que o sensualista Casanova dizia podia ser visto
como tendo duplo sentido.) Pouco depois ele viu — assim afirmou —
o rei a caminho da missa, seguido da família real e das damas da corte,
“que me surpreenderam pela feiura, assim como as da corte de Turim
haviam me surpreendido pela beleza”. Elas vinham, disseram-lhe, do
apartamento da rainha, “e caminham de forma tão desajeitada porque
seus calçados têm saltos de quinze centímetros, o que as obriga a andar
com os joelhos curvados”.
E eis que de repente passava o rei em pessoa, o braço em torno dos
ombros de um ministro. “A cabeça de Luís XV era de uma beleza
estonteante e ajustada à perfeição em seu pescoço. Nem o pintor mais
habilidoso poderia retratar a postura do monarca ao virar para olhar
alguém. A pessoa sentia-se de imediato impelida a amá-lo.” O
soberano, com sua vaidade excessiva, dificilmente poderia ter se
expressado melhor. Não admira que madame de Pompadour houvesse
se apaixonado por ele. Agora que o rei ceava em sua companhia, Maria
Leszczyńska, sua rainha polonesa, com quem permanecia casado havia
um quarto de século e com quem tivera dez filhos, sete dos quais
sobreviveram até a idade adulta, fazia a refeição sozinha, “sem ruge,
usando um largo capuz, parecendo idosa e devota, agradecendo duas
freiras que puseram na mesa um prato contendo manteiga fresca”. A
pantomima real continuou, observada de perto por Casanova. “A
rainha começa a comer, sem olhar para ninguém, e mantendo os olhos
fixos no prato. Ela havia começado um prato e, julgando-o apetecível,
voltou a ele, mas quando o fazia relanceou sua comitiva,
aparentemente para ver se reconhecia alguém a quem pudesse justificar
seu epicurismo” — seu prazer pela comida. Seu olhar recaiu sobre um
homem ainda mais alto que Casanova, um conde russo, que se curvou
e deu três passos em sua direção. E então ela finalmente falou:
“Acredito que o melhor ragu que existe é o fricassé de frango”.
“Sou da mesma opinião, madame”, respondeu o conde, “no mesmo
tom em que uma pena de morte seria pronunciada na corte marcial.”
Ele ficou maravilhado com a hauteur dele. Contanto que continuasse
calmo, apreciava a competição de chistes com os franceses,
alternadamente zombando deles e aprendendo com eles, mesmo
quando era alvo de zombarias e sucumbiam a seu charme veneziano e
sotaque inerradicável. Com um rápido estudo e sendo um mímico
habilidoso, ele conseguiu se misturar à aristocracia. O que era a vida na
corte senão um novo jogo — ou seria o mesmo jogo que jogava
diariamente? —, com os atores fazendo o papel do público?
Voltando a seus dias de glória em Paris, Casanova refletiu sobre
seu primeiro entrevero com a lei francesa, quando foi acusado de
seduzir a filha de sua senhoria, o que provavelmente era verdade, mas
ele deu sua própria versão do fato: a filha mais jovem de madame
Quinson, Mimi, “muitas vezes apareceu em meu quarto sem ter sido
chamada”. Ele concluiu que de algum modo ela o amava e teria
considerado estranho permanecer frio em relação a ela, sobretudo
porque “tinha uma linda voz, lia todas as novas publicações e
conversava sobre tudo com uma vivacidade encantadora. Tinha a idade
ambrosíaca de quinze ou dezesseis anos”.
Por meses, afirmou, nada entre os dois aconteceu, “mas, chegando
por acaso certa noite muito tarde, encontrei-a adormecida em minha
cama. Curioso em ver se acordava, despi-me, deitei-me, e o resto
dispensa explicações”. Podia ter sido pego, não fosse uma chapeleira e
sua filha entrarem no quarto para lhe venderem um ou dois chapéus, e,
quando saíam, “madame Quinson e Mimi entram para arrumar minha
cama”.
Trabalhando em sua escrivaninha, ele escutou madame Quinson
murmurar: “Ah! Essas putas!”. A quem se referia? “Esses lençóis estão
arruinados”, explicou ela, insinuando que a chapeleira e sua filha eram
na verdade uma cafetina e sua jovem prostituta, cuja virgindade ele
acabara de roubar, manchando os lençóis.
Casanova pediu a madame Quinson para prosseguir como se nada
tivesse acontecido.
“E apenas deixar que as putas voltem?”, perguntou madame
Quinson.
Quando pediu licença para buscar roupa de cama limpa, disse
Casanova, “Mimi permanece no quarto, eu a censuro por sua
imprudência, ela ri e diz que o Céu protegeu a inocência de nossas
ações”. Em outras palavras, o sangue nos lençóis era de Mimi, não da
filha da chapeleira. “Desse dia em diante”, segundo Casanova, “Mimi
vinha dormir comigo quando sentia necessidade, e eu, não menos sem
cerimônia, mandava-a embora quando não a queria, e nossa pequena
casa era tão harmoniosa quanto possível” — até Mimi ficar grávida.
Chocado, Casanova ignorou o pedido de Mimi para que se
casassem. “O que vier a acontecer, aconteceu”, disse. “Quanto a mim,
não pensarei mais no assunto.” Isso, claro, se provou impossível. “No
quinto ou sexto mês, a barriga de Mimi leva sua mãe a não ter mais
dúvidas sobre o estado das coisas”, e sua mãe, antes meiga e educada,
reagiu furiosamente, agarrando Mimi pelos cabelos, batendo nela e
forçando-a a admitir a verdade, ou, nas palavras de Casanova, “quem
era o responsável por sua circunferência”. Inevitavelmente, “Mimi lhe
diz — e talvez fosse verdade — que sou eu”.
Casanova enfrentou a fúria maternal. “Madame Quinson sobe a
escada e entra em meu quarto, espumando. Atira-se em uma poltrona,
recupera o fôlego, dá vazão à raiva insultando-me e encerra dizendo
que devo me preparar para casar com sua filha.” Ao receber o ultimato,
ele informou-a de que já era casado — na Itália.
“Então por que fez um bebê em minha filha?”
“Asseguro a senhora de que não tinha tal intenção, e, além do mais,
quem vos disse que fui eu?”
“Ela disse, monsieur. Está segura disso.”
“Dou-lhe minhas felicitações”, mas ele não estava tão certo.
“E agora?”
“E agora… nada. Se está grávida, terá um filho.”
A mulher saiu, murmurando imprecações. No dia seguinte, na
central de polícia local, após ter sido intimado a comparecer, ele
confrontou tanto um investigador quanto sua inimiga, madame
Quinson, “em formação de batalha”. O investigador submeteu-o a uma
lista de perguntas diretas e tentou obter sua confissão de que maltratara
a filha da madame. Após pedir ao funcionário para escrever sua
resposta ipsis litteris, Casanova respondeu: “Não desonrei Mimi, filha
de madame Quinson aqui presente, e sugiro que pergunte à própria
Mimi, que sempre mostrou para comigo a mesma amizade que mostrei
para com ela” — a resposta mais apropriada que um libertino poderia
dar.
Os dois altercaram.
“O que destes a ela para seduzi-la?”, perguntou o investigador.
“Nada, pois foi ela que me seduziu e ficamos de acordo em um
instante.”
“Ela era virgem?”
Casanova não fazia ideia.
Quando a mãe exigiu “reparações”, como se o assunto privado
fosse um incidente internacional, ele se recusou, sustentando que não
quebrara nenhuma lei, a despeito de o investigador alegar que ele
transgredira “as leis da sociedade”. Au contraire, insistiu, a mãe
enviara a filha a seu quarto, de modo que era um caso de cilada, e as
duas deviam estar preparadas para sofrer as consequências de seu
comportamento. Tudo que haviam feito juntos fora mútuo, “nada à
força, ou fora do meu quarto, pelo qual sempre paguei o aluguel em
dia”. Assim, não pagaria a penalidade e, se o julgassem culpado,
apelaria “à última jurisdição”. Havia um princípio em jogo: “Nunca
cometerei a indignidade de recusar minhas carícias a uma jovem que
me atrai e que entra em meu quarto para submeter-se a elas,
especialmente quando estou certo de que veio com o consentimento da
mãe”. Quando enfim terminou, leu e assinou a transcrição.
O tenente-geral da polícia, após escutar o depoimento, liberou o
veneziano e ordenou à “mãe imprudente que pagasse os custos”.
Casanova cedeu às súplicas lacrimosas de Mimi para que pagasse pelo
parto da criança, que nasceu em um hospital de enjeitados, mas seu
apoio financeiro encerrou-se por aí.
Por dois anos Giacomo Casanova viveu a vida elegante e devassa a
que aspirara, como se estivesse desempenhando uma farsa de Goldoni
em que o arrivista veneziano tentava imitar os franceses. Patu
funcionava como seu parceiro de sedução e transgressão. Só o que
faltava era um objeto de conquista apropriado. A certa altura ele se viu
na casa de uma atriz de descendência irlandesa, Victoire Morphy, que
ele tomou por flamenga, mas, fosse como fosse, não queria dormir
com ela, mesmo ao preço com desconto, de modo que optou pela
solidão de um sofá, para então ser distraído pela “irmã mais nova de La
Morphy, uma criaturinha linda, maltrapilha e suja”, também disponível
a um preço módico, cama provisória inclusa. Casanova concordou, sob
a condição de que ela permanecesse nua. “Tudo bem”, ela disse, “mas
não deveis fazer nada comigo.”
Ele embarcou em negociações paralelas, uma financeira, a outra
erótica, com a jovem, Marie-Louise O’Murphy. Diante de seus olhos,
“ela se despiu, deitou e se cobriu com uma velha cortina. Tinha treze
anos” — metade da sua idade. “Olho para a moça; mando todo
preconceito às favas; não enxergo sua sujeira nem seus trapos, acho-a
uma beleza perfeita.” A extrema juventude de Murphy não lhe
despertou escrúpulo algum. Considerou-a madura para ser iniciada.
Tentou examiná-la, mas ela se encolheu até ele lhe oferecer um
preço mais elevado, que na mesma hora tornou-a “dócil como um
cordeiro, e, como sua única falta fora a sujeira, eu a lavo toda com
minhas mãos”. Ela o deixou fazer o que queria, a não ser por aquilo
que mais desejava; para isso, o preço, segundo a irmã mais velha, seria
ainda mais elevado. “Digo-lhe que pechincharemos sobre isso em
algum outro momento; e em seguida ela me dá todo indício de seu
futuro consentimento com tudo que eu desejar.”
Após essas preliminares, ele alegou ter se deleitado, “mas
mantendo-a virgem”. Aparentemente a extraordinária beleza dela lhe
oferecia suficiente satisfação, e ele aprendera sua lição sobre dormir
com jovens pela dolorosa experiência com as Quinson. Casanova a
visitou repetidas vezes, pagando centenas de francos pelo privilégio de
ver a jovem perfeitamente adorável. Contratou um retratista alemão
para pintá-la nua com os braços e os seios repousando em um
travesseiro e as pernas e as coxas desenhadas de tal forma “que o olho
não pudesse desejar ver mais”. Por insistência de Casanova, o artista
intitulou o quadro O-Morphi, um trocadilho entre seu nome, Morphy, e
o grego para “formosura”.
O retrato, e a notória similitude com a Marie-Louise O’Murphy
pintada por François Boucher, teve consequências espetaculares.
Patu ficou tão admirado com a imagem sensual que insistiu em
obter uma cópia. Percebendo que estava com um objeto valioso em
mãos, o artista alemão transportou outra cópia para Versalhes, onde foi
exibida para monsieur de Saint-Quentin, o camarista, que por sua vez
apresentou-a ao rei, que ficou curioso em saber se o retrato da “menina
grega” era fiel ao modelo. Caso sim, Luís XV “alegava o direito de
sentenciar a original a aplacar o fogo que ela inflamara em seu
coração”. As duas irmãs Morphy ficaram em júbilo com a perspectiva
de visitar Versalhes, assim relata Casanova, “e ali submeter-se aos
ditames da Providência”, na forma do todo-poderoso monarca que as
cobriria de benesses. Em função dessa série de eventos improváveis ele
gravitou em torno desse patamar da sociedade onde o comportamento
mais vil era a norma: a corte de Luís XV.
Ao chegarem, atravessaram um labirinto burocrático até Luís XV,
que queria garantias de que aquela O-Morphi que aparecia em sua
corte era de fato virgem. Ele lhe deu um beijo real e ela riu, porque,
como explicou ao espantado soberano, ele se parecia exatamente com a
moeda de seis francos. Ele a fitou e viu a imagem do amor; ela olhou
para ele e viu o simulacro do dinheiro.
O conto de fadas depravado se desenrolou rapidamente, para
alegria de Casanova. “O monarca deu uma gargalhada e perguntou se
ela gostaria de ficar em Versalhes; ela respondeu que precisava
conversar com a irmã, e esta afirmou ao rei que nada a deixaria mais
feliz. O rei então saiu, deixando-as trancadas. Um quarto de hora mais
tarde, Saint-Quentin veio e deixou que saíssem, pôs a irmã mais nova
em um apartamento no térreo sob a custódia de uma mulher e foi com
a irmã mais velha à procura do alemão, a quem deu cinquenta luíses
pelo retrato, mas nada para La Morphy. Ele apenas anotou seu
endereço, assegurando que teria notícias suas. Ela recebeu mil luíses,
que me mostrou no dia seguinte. O honesto alemão deu-me 25 luíses
por meu retrato e fez outro para mim copiando o de Patu. Ofereceu-se
para pintar para mim, gratuitamente, todas as belas garotas cujos
retratos eu pudesse vir a desejar.”
Segundo Casanova, o rei chamou sua mais nova amante pelo
apelido que o veneziano lhe dera, O-Morphi, e instalou-a em um
apartamento numa ala de Versalhes conhecida como Parc aux Cerfs,
“onde Sua Majestade mantinha nada menos que um serralho e que
ninguém tinha permissão de adentrar, exceto as damas apresentadas à
corte”. Alguns relatos afirmavam que um vasto séquito de mulheres
ficava à espera de que o rei estalasse os dedos, que o lugar era um
vasto bordel, com madame de Pompadour fazendo as vezes de
alcoviteira, enquanto outros diziam que esse notório harém consistia
meramente em alguns quartos de hóspedes e nada mais.
Independentemente da extensão de seus domínios ou da quantidade de
competidoras, Louise O’Murphy ocupou posição de destaque,
conservando o interesse do rei. Ninguém chegou a tanto em Versalhes;
o rei passava grande parte do tempo na cama, copulando com quem
quer que caísse em seu gosto. A influência e o status de madame de
Pompadour exemplificavam quão profundamente entranhada era a
prostituição nos níveis mais elevados da sociedade francesa; o fato
espelhava a ordem estabelecida e desdenhava dela, em última
instância, reforçando-a.
No ano seguinte, 1753, ela sofreu um aborto, motivo de tristeza
para ela e o rei, e depois deu à luz uma filha, Agathe-Louise de Saint-
Antoine, em 1754. Casanova também menciona que o rei teve um filho
cujo destino era ignorado, “pois Luís XV não queria saber de seus
bastardos enquanto a rainha Maria Leszczyńska” — cuja paciência e
polidez tinham limites — “estivesse viva”.
Após dois anos gozando dos favores reais, O’Murphy caiu em
desgraça no harém quando uma cortesã maldosa lhe disse que faria o
rei dar umas boas risadas “perguntando-lhe como tratava a velha
esposa”, a rainha. Se tivesse um pouco mais de noção, ela teria
percebido que a pergunta era provavelmente ofensiva; em vez disso,
“fez ao rei a pergunta impertinente e insultuosa, que espantou o
monarca de tal forma que, levantando-se e fuzilando-a, ele disse:
‘Patife miserável, quem vos mandou perguntar tal coisa?’”. Embora
Louise O’Murphy tenha lhe dito a verdade, nunca mais voltou a ver o
rei. Como resumiu Giacomo, “Luís XV, que sabia ter falhado com a
esposa como marido, queria ao menos compensá-la enquanto rei. Ai de
quem ousasse faltar-lhe ao respeito!”.
De uma hora para outra a antiga favorita do rei viu-se expulsa do
serralho e casou-se com um jovem nobre, ou, como Casanova
explicou, “o rei lhe deu quatrocentos francos, que ela usou como dote
para se casar com um oficial” — Jacques de Beaufranchet — “na
Bretanha”. O casal teve dois filhos em rápida sucessão antes de
Beaufranchet morrer em batalha. Louise O’Murphy nunca mais voltou
ao paraíso perdido dos favores reais.
Casanova saiu ganhando com a história. Indiretamente, atuara
como alcoviteiro para o rei da França, um feito e tanto para um
aventureiro veneziano. “A despeito de toda a inteligência dos
franceses, Paris é e sempre será a cidade em que impostores” — ele
acima de todos — “triunfarão. Quando uma impostura é descoberta,
todo mundo dá de ombros e ri, e o impostor mais do que todos, pois já
ficou rico”, declarou. Ele acreditava saber por quê: “Essa característica
que faz a nação cair tão facilmente em uma armadilha deriva da
suprema influência que a moda exerce sobre ela”.
Casanova se movia por Paris com a ousadia de um aventureiro
nato; nesse ínterim, seu irmão mais novo, Francesco, lutava para
ganhar aceitação enquanto artista. Giacomo acompanhou Francesco
certa ocasião para apresentar uma tela, uma cena de batalha, gênero
popular na época, a um nobre que morava perto do Louvre.
A apresentação foi um desastre: “Um homem trajado em negro
entra, vê o quadro, para diante dele por um momento e diz, sem se
dirigir a ninguém: ‘É ruim’”. Como se isso não fosse humilhação
suficiente, outros dois homens se aproximam para examiná-lo e
começam a rir. “É de algum aluno”, disse um. Casanova notou que
Francesco “suava profusamente” à medida que o salão se enchia de
pessoas. “A precariedade da pintura era o alvo de todos que se
juntavam em torno dela, rindo e criticando. Meu pobre irmão quase
morreu e não parou de dar graças a Deus por ninguém conhecê-lo.”
Mais do que se compadecer ou ficar constrangido, Casanova sentiu
vontade de rir, e passou calmamente à sala contígua, gesticulando para
que o irmão o seguisse. Quando estavam a sós, tentou animar
Francesco, asseverando que, assim que aparecesse, o nobre decretaria a
pintura um sucesso, e os outros fariam o mesmo. Francesco escutou,
“mas com grande bom senso não concordou comigo”. Enviaram um
criado para buscar a pintura e desceram rapidamente pela escada,
escapando em um coche. Em casa, “meu irmão talhou a pintura pelo
menos vinte vezes com a espada e na mesma hora decidiu arrumar suas
coisas, deixar Paris e ir a algum outro lugar para estudar e dominar a
arte a que se devotara”.
A desgraça final ocorreu quando Casanova fazia uma refeição
frugal sozinho em um albergue dirigido por um casal chamado Condé,
perto do Jardim das Tulherias e do Louvre. Quando chegou a conta,
descobriu que estava errada, cobravam-lhe o dobro, na verdade.
Discutiu com a proprietária, mas ela se recusou a ceder. Revoltado,
pagou a soma total, mas não sem antes acrescentar a palavra “Labré” à
assinatura “femme Condé” (esposa de Condé) ao pé da folha. A
expressão resultante, Condé-Labré, ou “con délabré” era
profundamente vulgar.
Casanova deixou o albergue e foi logo abordado por um homem
baixo brandindo uma enorme espada e ameaçando lhe cortar a garganta
— se conseguisse alcançá-la. Em sua fúria, Casanova chamou o
insolente de anão. O baixinho esquentado declarou ser um cavaleiro e
informou-o de que “haveis insultado uma mulher respeitável sob
minha proteção. Desembainhai”.
Duelos de esgrima eram tão comuns em Paris quanto pombos e
castanhas. Casanova pôs-se en garde antes de investir com seu fleche,
ou ataque, “e, sem esperar que ele protegesse o corpo, feri-o no peito”
— como que a obter vingança pela ultrajante conta adulterada, pelos
insultos à pintura que seu irmão ouvira e pelos outros ressentimentos
obscuros contra a ordem social que espreitavam em seu íntimo. “Ele dá
um pulo para trás e diz que o feri traiçoeiramente.” Os dois trocaram
acusações, Casanova insistindo que sua estocada “foi legítima, pois o
outro sacara a espada antes de mim. Se não se protegera, fora por sua
própria culpa”. O veneziano podia se tornar, quando desonrado, um
cruel lutador de rua; ele provara seu valor em casa e provou-o
novamente quando rechaçou seu agressor.
Recuperando o fôlego, Casanova considerou que era hora de deixar
Paris, “onde permaneci por dois anos e usufruí de todos os prazeres da
vida sem empecilhos, a não ser talvez me achar com frequência falto
de dinheiro”, pela tranquila e refinada cidade de Dresden, onde sua
mãe se cercava de admiradores na condição de atriz exilada.
Em meados de agosto de 1751, os irmãos Casanova estavam na
estrada para Dresden — celebrada como a Florença do Elba,
resplandecendo com palácios, teatros, salas de concerto, jardins e
fontes inspiradas na arquitetura italiana e francesa.4 Para os jovens que
realizavam o Grand Tour europeu em busca de cultura e sofisticação,
uma visita a Dresden era de rigueur. Para Casanova, Dresden abrigava
“a corte mais brilhante da Europa”, ainda que carecesse da “intriga
amorosa” pela qual ansiava.
Ao chegar, “vimos nossa mãe, que também nos saudou da maneira
mais afetuosa, pelo deleite de ver os dois primeiros frutos de seu
casamento, que não esperava voltar a ver”. Acomodaram-se rápido,
Francesco se devotando a seus estudos artísticos, copiando
diligentemente cenas de batalhas nos museus locais durante os quatro
anos seguintes, até sentir-se preparado para enfrentar os críticos em
Paris mais uma vez.
A vida em Dresden deixou Casanova entediado e desmotivado. Ele
flertou com a dramaturgia, sem dúvida influenciado pela mãe. De 6 a
10 de fevereiro de 1752, o Teatro Real de Dresden apresentou a ópera
Zoroastro, de Jean-Philippe Rameau, cujo libreto Casanova traduziu
para o italiano, modificando o original francês de Louis de Cahusac.
De forma notável, estrelava Zanetta Farussi, mas as memórias de seu
filho não faziam menção à colaboração com a mãe após anos de
separação.
Meses mais tarde, ele conheceu a fugaz satisfação de ver a
montagem de uma “tragicomédia” sua em que “fiz dois personagens
desempenharem o papel de Arlequim”. E recebeu aprovação, se não
aclamação, por La Moluccheide, uma paródia leve de La Thébaïde
(1664), tragédia do dramaturgo francês Racine sobre um filho de
Édipo. O jovem homem de letras veneziano aparentemente se lançava
como dramaturgo, porém a feroz ambição e a astúcia que emprestava a
seus outros interesses estavam ausentes. Talvez se sentisse incapaz de
fugir à sombra da reputação materna, ou talvez sentisse o peso de
pensar que uma vocação literária respeitável exigia longos anos de
estudo e esforço, tais como os que seu irmão enfrentara em nome da
arte. Ou talvez estivesse entediado, simplesmente.
Após meses de limitada intimidade sexual em Paris, deu livre
rédeas a sua libido em Dresden, “familiarizando-me com todas as
beldades mercenárias”, isto é, prostitutas, as quais considerou
“superiores às de Itália e França em dotes físicos, mas muito inferiores
em graça, humor e na arte de agradar, que consiste sobretudo em
parecer apaixonada pelo homem que as acha atraentes e lhes paga. Em
consequência, têm a reputação de serem frias”. Sua amarga afirmação
derivava em parte de seu sétimo — em suas contas — episódio de
doença venérea, adquirida com uma meretriz húngara com quem se
deitara em um sórdido bordel de Dresden. “Livrei-me da
enfermidade”, observou, “entrando em dieta por seis semanas”, e
acrescentou com pesar: “Nunca fiz nada na vida além de tentar ficar
doente quando gozava de saúde e tentar recobrar a saúde quando a
perdera”. Ele estaria condenado a repetir esse ciclo de libertinagem e
abnegação por toda a sua vida, e ao longo dos anos viria a abraçar seu
destino. Relembrando na velhice, vangloriava-se de sua “perfeita
saúde, que gostaria de poder arruinar outra vez; mas a idade me
impede”. E quanto a todos os casos de doença venérea que sofrera ao
longo dos anos, a “doença francesa”, como era conhecida entre os
italianos, fazendo o jogo do empurra, “não abrevia a vida quando a
pessoa sabe como curá-la” — na verdade, nem ele nem seus
contemporâneos tinham a menor ideia de como tratá-la e recorriam a
procedimentos ineficazes enquanto a doença completava seu ciclo.
“Ela meramente deixa cicatrizes, mas é fácil se consolar quando
pensamos que foi obtida com prazer.” Ele se comparava a um soldado
que se jactava de antigos ferimentos, um manancial de fama, ao seu
modo de ver. E tinha razão; ele ficaria famoso e assim continuaria, seu
nome sinônimo de promiscuidade, sedução e romance.
Quando se recuperou de seu mais recente acesso de doença
venérea, viajou para o sul, para Viena, a meio caminho de Veneza.
“Então eis-me aqui, na capital da Áustria pela primeira vez, em
todo o vigor de meus 28 anos de idade. Tive algumas posses, mas
quase nenhum dinheiro, de modo que precisei ir devagar até o retorno
de uma letra de câmbio que obtive junto ao Signor Bragadin.” Com
fundos, ele recorreu a seus contatos para se apresentar ao “célebre
abade Metastasio” — um famoso e erudito poeta e libretista italiano
que nesse momento residia em Viena e, desse modo, servia como
possível inspiração e mentor —, “o qual eu estava assaz ansioso por
conhecer”.
Após uma hora de intensa discussão com o grande homem, “achei-
o ainda mais erudito do que suas obras deixam evidente, e dono de
uma modéstia que no início não pude acreditar que fosse natural; mas
mui rapidamente percebi que era genuína, quando recitou algo de sua
própria lavra e comentou sobre suas belezas”. Ao recitar versos que
compusera em honra de seu falecido professor, ele chorou, “comovido
com a brandura de sua própria poesia”, até mesmo perguntando,
retoricamente: “É possível escrever melhor?”.
Estava sem dúvida no direito de pensar assim, respondeu
Casanova, perguntando se lhe custara muito esforço compor aquelas
linhas. “Ele na mesma hora mostrou-me quatro ou cinco páginas cheias
de rasuras na tentativa de escrever catorze versos à perfeição”, a
produção de um dia inteiro. Metastasio explicou que os versos de
aparência mais simples haviam sido os mais difíceis de escrever. A
altiva comiseração foi muito apreciada por Casanova, e elogiosa,
também. Na verdade, “tudo em Viena era esplêndido, havia muito
dinheiro e muito luxo; mas era uma grande provação para os devotos
de Vênus” — em outras palavras, libertinos como ele. “Biltres” a
serviço de uma comissão oficial de castidade “perseguiam
desapiedadamente todas as jovens bonitas”.5
A Comissão de Castidade começara com a imperatriz Maria
Teresa, mãe de dezesseis filhos, treze dos quais sobreviveram à
infância. Ela era antiprotestante, antissemita e ultraconservadora, e no
entender de Casanova carecia da “virtude da tolerância na questão do
amor ilegítimo entre um homem e uma mulher”. Avareza, gulodice e
até assassinato de certa forma carregavam em si suas próprias
punições, acreditava ela, “mas a luxúria é algo que não posso perdoar”.
Assim rezava sua ortodoxia. “Roma é indulgente na questão”, admitia
ela, mas “meus alemães não têm o demônio em seus corpos como os
italianos.”
E contudo, para Casanova, o “amor ilegítimo” era genuíno. O amor
“legítimo” podia ser tudo, menos amor. Era uma forma de hipocrisia,
uma convenção legal, um desejo vão. Mas as autoridades vienenses
pensavam de outra forma, e a Comissão de Castidade fazia valer sua
vontade de maneira brutal. “A toda hora do dia, qualquer garota que
esteja caminhando sozinha pelas ruas de Viena, mesmo para ganhar a
vida honestamente, é capturada e levada para a prisão.” Nada menos
que quinhentos espiões à paisana seguiam essas mulheres e ficavam à
espreita quando saíam de alguma casa ou estabelecimento que
houvessem visitado. Uma vez em posse de sua presa, eles a
interrogavam e, se não ficavam satisfeitos com suas respostas,
tomavam “todo dinheiro ou joias que tivessem”, depois as mandavam
para a prisão. Testemunhando um desses incidentes, Casanova viu-se
de maneira inesperada como o guardião de um relógio de ouro,
passado a ele por uma jovem pouco antes que tais vigilantes a
levassem para a cadeia. Ele lhe devolveu o artigo depois que ela obteve
a liberdade.
Para se defender da perseguição, as mulheres em Viena começaram
a andar sempre com um rosário. “Assim não podiam ser detidas
sumariamente, pois afirmavam estar a caminho da igreja, e Maria
Teresa teria mandado enforcar o comissário.” Havia tantos espiões por
todo lado, queixou-se Casanova, que não havia lugar para um homem
urinar sem ser perturbado. Em certa ocasião, um “sujeito com uma
peruca volumosa” flagrou-o no ato e ameaçou prender o veneziano se
não fosse terminar de se aliviar em outra parte. Por quê? “Porque à
vossa esquerda há uma mulher na janela que vos pode ver.” Ele ergueu
o rosto; ela estava no quarto andar de um edifício, tão distante que teria
precisado de uma luneta para ver “se eu era judeu ou cristão” —
circuncidado ou não.
Ele teria ido embora de Viena em frustração, não fosse um
encontro fortuito numa estalagem com antigos conhecidos de jogatina
de Veneza. Ele os convenceu a apresentá-lo a condes, duques e
embaixadores, bem como “diversas Fräuleins”. Para ser admitido,
“fizeram de mim um barão”, recordou com bom humor. “Foi em vão
que afirmei não ter título; disseram-me que entre companhias como
aquelas eu tinha de ser alguma coisa se quisesse ser recebido onde
quer que fosse em Viena.” Inevitavelmente, ele concordou.
Logo em seguida, uma baronesa mandou avisar que “ficaria feliz
em receber minhas atenções”. Ele foi visitá-la no dia seguinte e ela o
apresentou a seu círculo privilegiado, incluindo três ou quatro damas
“sem o menor temor da Comissão de Castidade”, e desse modo
“devotadas ao amor e tão gentilmente dispostas que não tinham medo
de macular sua nobreza aceitando dinheiro”. Em outras palavras, eram
cortesãs, sua pretensão de títulos tão suspeita quanto seu baronato. (Era
possível comprar uma patente de nobreza, ou o direito a um título, mas
isso custava uma fortuna. Ele preferiu inventar uma identidade
conveniente.) Então assim era: “Após descobrir os privilégios
usufruídos por essas duas jovens, vi que a Comissão de Castidade era
um estorvo apenas para as pessoas que não frequentavam boas casas”.
Ele se deixou arrastar num turbilhão de festas e flertes até calhar de
se ver em um farto piquenique no gigantesco Palácio de Schönbrunn,
na periferia de Viena. “Não me furtei a nada; mas voltei a Viena com
tal indigestão que por 24 horas fiquei à beira do túmulo.” A partir
desse momento, “usei os resíduos de inteligência que me restavam para
salvar minha vida”.
Junto a seu leito estavam diversas pessoas que conhecera em
Viena, uma das quais convidou um médico, ainda que Casanova se
opusesse à ideia. O médico mandou chamar um cirurgião, e, de
repente, “eu estava prestes a ser submetido a uma sangria, sem meu
consentimento e contra minha vontade”. Nenhum bem adviria disso.
“Meio morto, não sei que inspiração me fez abrir os olhos, e nesse
instante vi o homem com o bisturi prestes a lancetar minha veia.” A
despeito de seus débeis protestos, “o açougueiro estava determinado a
me reanimar, a qualquer custo, e percebi meu braço sendo puxado”.
Casanova pegou uma pistola em seu criado-mudo “e disparei
contra o homem que jurara obedecer ao doutor. A bala desenrolou um
cacho de seus cabelos, e isso foi o suficiente para mandar embora o
cirurgião, o médico e todo mundo mais que estava comigo”. Os
instintos médicos de Casanova foram acertados, e ele se salvara de
seus médicos assim como salvara a vida de Bragadin, seu benfeitor,
anos antes, em Veneza. Só a camareira permaneceu ao lado de
Casanova, dando-lhe goles de água ao longo dos quatro dias seguintes
(e foi só o que lhe deu), ao final dos quais ele se considerou
restabelecido e com “perfeita saúde”.
Histórias de seus percalços médicos circularam por Viena. Dois
médicos lhe disseram que se a sangria tivesse sido ministrada, ele teria
morrido, e outros concordaram que tinha o direito de usar uma pistola
para evitar o procedimento. Ele conquistou a reputação de ser o
“homem que se defendeu contra a morte disparando um tiro contra
ela”. E, contudo, “eu tinha de me cuidar para não ficar doente, pois
nenhum médico teria ousado me visitar outra vez”.
Quando recobrou as forças, Casanova visitou Praga, outro centro
de arte e cultura, que para ele significava uma abundância de jogadores
e dançarinas, e Pressburgo, esparramada às margens do Danúbio por
oitenta quilômetros a leste de Viena, com a chegada da primavera
trazendo o império Habsburgo de volta à vida. Ele concluiu que era
tempo de voltar a Veneza, onde chegou a 29 de maio de 1753,
“deliciado em voltar à minha terra natal, que a maior das
predisposições torna cara a todos os homens”.
7. Maria Eleonora
Tudo parecia exatamente como ele deixara: “No quarto
onde eu dormia e escrevia, vi com prazer meus papéis cobertos
de poeira, evidência segura de que ninguém entrara ali nos
últimos três anos”.1 Embora Veneza não houvesse mudado
durante sua ausência, ele amadurecera no exílio e voltou mais
confiante e cínico por ter viajado pelas capitais europeias.
Comportara-se como um crápula, como testemunharam Mimi
e sua mãe, e em certos momentos como um aventureiro, um
andarilho e um poeta manqué. Embora tivesse posto a vocação
literária à prova, suas verdadeiras paixões eram o jogo e as
mulheres.
Dois dias depois, no Dia da Ascensão, que marcava a
ascensão de Jesus ao céu, Veneza encenou seu costumeiro
espetáculo comemorando a união entre a cidade e o mar.
Casanova esperava observar o dia acompanhando o imenso
Bucentauro, a galera oficial, impelida por duzentos remadores,
“em que o doge, segundo o costume, casava-se com o
Adriático”.2 Pouco antes de sair para assistir ao esplêndido
evento, um gondoleiro passou e lhe entregou uma carta de um
jovem nobre, “um rico patrício”, “sem nenhum direito de me
convocar, mas contando com meus bons modos. Fui
imediatamente”.
Na casa do nobre, recebeu mais uma carta, sem lacre, de
Teresa Fogliazzi, objeto de um flerte frustrado em Viena,
agora pedindo com urgência que lhe devolvesse um retrato em
miniatura. “Tenho certeza de que está em vossa posse”,
avisou. “Como não recebo ladrões, tudo em minha casa está
seguro.” Ela o instruiu a entregar o retrato ao jovem nobre que
o tirara da celebração. Sem demora, Casanova o entregou para
o jovem surpreso.
Os dois venezianos gracejaram entre si, e a um convite do
jovem, Casanova escreveu para a mulher uma réplica mordaz:
“O prazer que Casanova sente em se livrar desse retrato é
muito maior do que o que sentiu quando um capricho
inconveniente levou-o a cometer a tolice de enfiá-lo em seu
bolso”.
Logo depois, uma tempestade forçou o adiamento do
casamento com o mar. Sem saber o que fazer, Casanova
acompanhou seu patrono, o Signor Bragadin, numa curta
viagem a Pádua para fugir do caos envolvendo o Dia da
Ascensão. “Um velho verdadeiramente afável leva um
violento prazer ao jovem.” Lembrando-se dessa sequência de
eventos aparentemente aleatória, Giacomo percebeu: “Se eu
tivesse deixado Pádua dez segundos antes ou depois, tudo o
que aconteceu em minha vida seria diferente”. O fator crucial,
claro, foi uma mulher.
Nos arredores de Veneza, perto de Oriago, ele encontrou
um cabriolé puxado por uma parelha de cavalos, levando uma
“linda mulher” e um “homem de uniforme alemão”. No
instante seguinte, um solavanco jogou a mulher na direção de
um regato. Pulando de seu coche, Casanova pegou-a,
“rapidamente abaixando sua saia, que expusera todas as suas
maravilhas secretas aos meus olhos”. Desnorteada, ela
agradeceu profusamente o jovem veneziano e até chamou seu
salvador de “anjo” diversas vezes. Após se desculpar e
expressar sua gratidão, “a dama seguiu para Pádua e eu
continuei minha jornada. Mal chegando a Veneza, vesti uma
máscara e fui à ópera”.
Ele se preparou para ir ao Lido, o banco de areia de onde o
Bucentauro partia. A visão o levou a comentar: “O menor
vento contrário poderia virar a embarcação e afogar o doge
com toda a Serenissima Signoria, os embaixadores e o núncio
papal, fundador e garantidor da eficácia dessa estranha
cerimônia sacramental, que os venezianos justificadamente
reverenciam a ponto da superstição”.
Casanova parou na Piazza San Marco para tomar um café
e observar a multidão, de onde surgiu “uma linda mulher
mascarada” que parou e “bateu por brincadeira em meu ombro
com seu leque”. Ele não a reconheceu e rapidamente terminou
seu café e foi se juntar ao Signor Bragadin em sua gôndola.
Voltou a passar pela mulher da máscara e parou para lhe
perguntar o que pretendera com aquele gesto. “Puni-lo por não
me reconhecer após ter salvo minha vida ontem.” Era a mulher
que quase caíra no regato quando ele passava com seu coche.
Ele a convidou a acompanhá-lo em sua gôndola para
assistir às festividades e ela aceitou, junto com o mesmo
oficial alemão que lhe fizera companhia no episódio. Ele teve
de se assegurar de que eles não tinham ligação com algum
embaixador — nesse caso, teria se metido “numa encrenca
com os Inquisidores do Estado”, que proibiam a comunicação
com forasteiros. Conforme avançavam na gôndola para ver o
Bucentauro, Giacomo tomou “algumas liberdades sob a
cobertura do manto dela”, mas a mulher permaneceu
indiferente a ele. Após a cerimônia, voltaram em segurança a
Veneza. O alemão, se era de fato alemão, convidou Giacomo a
jantar com eles numa antiga estalagem conhecida como
Homem Selvagem. Ele aceitou na mesma hora.
Assim que se viu a sós com a mulher mascarada, ele
declarou seu amor — amor! — por ela, ofereceu-lhe seu
camarote na ópera e se propôs a acompanhá-la pelos quinze
dias das festividades após a Ascensão, isto é, se não estivesse
desperdiçando seu tempo e atenção. “Assim, se pretendeis ser
cruel comigo, tende a bondade de me dizer.” Ela suplicou que
parasse com aquilo; seu “tom” ofendido a estava levando a se
ressentir dele, quando não a odiá-lo.
Ele entendia, “mas receio ter sido tapeado”.
“E por esse motivo quereis começar onde as pessoas
geralmente terminam”, retrucou ela.
Durante a ceia no Homem Selvagem, sem nada definido,
ela tirou a máscara, revelando sua irresistível beleza. Mas
quem era o oficial alemão acompanhando-a — seu marido, um
parente ou mesmo um alcoviteiro? Em resumo, “eu queria
saber em que tipo de aventura havia embarcado”.
Superando o constrangimento desse trio, ele os levou à
ópera-bufa, depois a uma ceia, e então, em sua gôndola, sob a
proteção da escuridão, “a beldade concedeu-me todos os
favores que a decência permite a uma mulher conceder quando
há uma terceira pessoa a ser considerada”. Essas preliminares
eram um bom presságio em Veneza para o início de um
relacionamento sério. Ele ficou sabendo das particularidades
do soldado alemão que a acompanhava; ele não era alemão
nem soldado, porém um astuto homem de negócios chamado
Pier Antonio Capretta, capitão a serviço da Áustria, mas na
realidade fornecedor de gado de corte para o Estado vêneto, ou
ao menos um assistente de um desses homens abastados e,
infelizmente, afastado de seu próspero pai. E a mulher era
Maria Ottaviani, esposa de um corretor de bens não
especificados. Tudo o que ele queria de Casanova era um
“favor necessário que nos unirá na mais estreita amizade.
Tornar-se meu arrimo sem que nada arrisqueis”. Como
caução, ofereceu todo seu suprimento de gado, que estava em
Trieste.
“Atônito com essas palavras e tal proposta, que me
pareceu quimérica e fonte de incontáveis dificuldades”,
Casanova recusou terminantemente, e nesse ponto Capretta
redobrou os esforços de convencê-lo, sem proveito. Quando o
jovem se preparava para ir, escutou Capretta murmurar que ele
e a mulher iriam procurá-lo à noite na Piazza San Marco. Isso
seria um convite ou uma ameaça? “Enojado com as intenções
do homem em relação a mim”, escreveu Casanova, “também
fiquei enojado com as minhas em relação à Signora Capretta.
Acreditei ver um conluio; acreditei ver que estava sendo
tomado por um alvo fácil”, de modo que fez questão de evitar
a Piazza San Marco. Mas visitou o lugar onde o homem estava
hospedado na manhã seguinte, e pouco antes de sair o Signor
Capretta apresentou sua mãe e sua irmã a Giacomo Casanova.
Entusiasmando-se, apaixonou-se por ambas, tanto pela
“mulher sincera e respeitável” como pela “moça muito jovem
que me parece um prodígio”. Após meia hora a sós com a
menina, considerou-se seu escravo. O nome dela era Caterina
Capretta, e em sua Histoire de ma vie ele se referiu a ela como
“Signorina C. C.”. Ela “nunca saía, a não ser com a mãe, que
era piedosa e indulgente. Havia lido apenas os livros na
biblioteca do pai, um homem sério que não possuía
romances”. Ninguém a visitava e “não lhe haviam dito que era
um milagre da natureza”. Quando conversaram, pareceu-lhe
que “sua alma estava no caos”. Quando enfim foi embora da
casa, sentiu uma onda de tristeza tomar conta de si outra vez.
Nunca mais a veria, no entanto desejou que pudesse pedir sua
mão em casamento para o pai. “Achei-a particularmente
dotada para me fazer feliz.”
Encontrando-se com Pier Antonio Capretta na rua dias
depois, Casanova ficou em júbilo ao escutar que “a irmã dele
falou muito de mim”. O irmão concluíra que os dois dariam
um bom casal, e com a jovem vinha até um dote. Por que não
visitar a residência para tomar um café e discutir o assunto?
Inevitavelmente, Casanova foi, “a despeito de ter prometido a
mim mesmo não voltar mais lá. É sempre fácil quebrar a
promessa que fazemos a nós mesmos”. Ficou ainda mais
apaixonado pela moça na visita seguinte. Quando declarou
invejar o homem que o Céu havia lhe destinado, as maçãs da
jovem ficaram vermelhas. “Nunca haviam dito algo assim para
ela antes.”
Foi acometido por dúvidas.
Entregou-se à jogatina — “um grande paliativo para um
homem enamorado” — e ganhou “quinhentos zecchini,
rapidamente”. Matrimônio e dinheiro: ambos eram tão
caprichosos, e contudo operavam segundo diferentes regras.
Jogar era algo que podia fazer muitas vezes; no casamento, só
podia arriscar a sorte uma vez.
Meditando sobre essas complicações quando atravessava
uma calle estreita, foi abordado por um homem mais velho que
reconheceu como sendo o conde Giuseppe Bonafede, que
confessou estar numa “terrível penúria e reduzido ao
desespero pela obrigação de sustentar a enorme família”.
Casanova se lembrou dele do tempo que passaram na fortaleza
de Sant’Andrea, cerca de dez anos antes. O aristocrata
implorou por um único zecchino, suficiente, afirmou, para se
sustentar por uma semana. Abonado com seus ganhos,
Casanova deu-lhe dez zecchini — que estranha cidade era
Veneza, onde um homem sem recursos sentia-se na obrigação
de dar dinheiro a um membro da nobreza que se rebaixara à
mendicância —, e o conde chorou de vergonha e gratidão.
Entre lágrimas, mencionou sua linda filha, que não tinha mais
condições de sustentar, e que “preferiria morrer a sacrificar sua
virtude por necessidade”, ou seja, vender seu corpo.
Casanova prometeu visitá-la.
Encontrou-a ainda a residir em sua casa “quase vazia”, e
no entanto conservara a beleza e o espírito. Pareceu
“arrebatada pela alegria” ao abraçar aquele fantasma do
passado. “Não poderia ter acolhido um amante adorado com
maior ternura.” Com a mãe inválida deixada em um recesso
remoto da casa, produziram “uma tempestade de beijos, que
foram dados e recebidos sob o mero disfarce da amizade”. Não
fazia diferença que tivesse deixado para trás em Paris uma
mulher que recentemente concebera um filho seu, ou que
estivesse negociando os termos do casamento com outra
mulher que vivia em Veneza; no momento, apenas a contessa,
sua mais nova conquista, despertava seu interesse.
Ela descreveu a pobreza da família, “seus irmãos vagando
pelas ruas em andrajos, seu pai, que literalmente não tinha
com que alimentá-los”. Ocorreu-lhe que não podia ter sido o
primeiro a penetrar no círculo da família Bonafede; sem
dúvida a condessa tivera um amante em algum momento. “Um
amante!”, exclamou ela. “Que homem teria coragem de ser um
amante numa casa como esta? Acreditais que sou mulher para
se entregar por trinta soldi? Ninguém em Veneza daria um
preço mais elevado por mim, vendo-me nesta casa arruinada.
Além do mais, não sinto ter nascido para prostituta.”
Ele enfiou doze zecchini em sua mão, uma fração de seus
ganhos recentes. “A quantia deixou-a perplexa; nunca vira
tanto dinheiro.” Ele adivinhara corretamente seu preço e
conquistara seu coração com um desconto.
No dia seguinte, Pier Antonio Capretta declarou que sua
mãe concedera à enclausurada jovem irmã, que nunca
conhecera o interior de um teatro, permissão para assistir à
ópera. Distraído por sua conquista da Contessa Bonafede,
Casanova negligenciara a jovem. Enxergou com maus olhos o
calculista irmão, que “concebera o lindo plano de vendê-la
para mim”. Sentiu pena da mãe e ainda mais da garota que
estava sendo manipulada, “mas” — e era um “mas”
importante — “não fui virtuoso o bastante para recusar o
convite”, assim como não fora capaz de recusar o convite
anterior de fazer uma visita à casa dela. Racionalizou assim:
“Como eu a amo, devo estar presente para protegê-la contra
outras armadilhas”. Caso se recusasse, o irmão recrutaria
algum outro, alguém totalmente inadequado para ela, “e a
ideia envenenou minh’alma”. Por esse motivo, cumpriu sua
promessa de convidar a família Capretta a juntar-se a ele em
seu camarote na ópera, no estimado Teatro San Samuele, com
suas antigas ligações com sua família.
No dia da apresentação, ficou tão ansioso para ir ao
encontro deles que esqueceu completamente o jantar. Caterina
Capretta apareceu, com uma “beleza estonteante e
elegantemente mascarada”, junto com o insuportável irmão.
Ele os conduziu a sua gôndola. Após algum tempo, o irmão
anunciou que tinha de cuidar de um assunto para sua amante.
Bons ventos. Sozinha, Caterina Capretta, surpreendentemente,
não pareceu “assustada nem relutante”. Como fazia calor, ele
encorajou a jovem a tirar a máscara, coisa que “fez
prontamente”. Casanova a fitava com doses iguais de
concupiscência e cavalheirismo, conforme seu “amor ficava
imenso”, seu membro ficando intumescido nos culotes justos.
A sós com a delicada beldade, ficou sem fala, e apenas olhou
para o rosto de Caterina, com medo de ser hipnotizado pelo
busto dela. “Com um decote muito baixo, seu corpete permitia
que eu visse os botões de seus seios. […] Vira-os por apenas
um instante e, aterrorizado, não ousei voltar a olhá-los.”
“Falai comigo”, ela implorou. “Tudo que fazeis é me
encarar e nada dizer.” Ela prosseguiu candidamente e afirmou
que se sentia “mais livre e segura” com ele do que com o
irmão. “Recordais ter me dito que invejáveis o homem
destinado a se casar comigo?” Sim. “Naquele exato momento
eu dizia a mim mesma que a jovem que vos conquistar será a
jovem mais feliz de Veneza.” Para Casanova, ela falava com
“sinceridade tão angelical” que ele quis beijar os lábios que
pronunciaram essas palavras. Ser amado por aquele “anjo
encarnado” evocou “a mais doce alegria”. Teriam de se casar,
ficar “unidos para sempre”, como disse, exceto que “eu
poderia ser seu pai”. Bobagem, ela respondeu. Já estava com
catorze anos.
“E eu tenho vinte e oito.”
“Pois então! Que homem de vossa idade tem uma filha
como eu?”
Nessa noite, após desembarcar da gôndola, “tomamos
sorvete, depois fomos à ópera”, onde mais tarde apareceu o
irmão de Caterina, que insistiu com a irmã menor para beijar
Casanova. Ela ofereceu os lábios, mas o pensamento de se
envolver nesse ato íntimo sob o escrutínio do outro lhe causou
aversão. A jovem presumiu que não a achava atraente e lhe
disse. Ele reiterou seu amor e, como disse, imprimiu um beijo
em sua boca. “Ela se soltou de meus braços com um rubor
escarlate e como que confusa por ter descoberto meu amor de
tal maneira.” Enquanto se atrapalhava para pôr a máscara de
volta e se recompor, seu irmão congratulou o casal. Ela sabia
que Casanova a amava, disse, mas ele não precisava magoá-la
para provar.
Dias depois, Pier Antonio Capretta pediu um “pequeno
favor” a Casanova. Parecia haver um “excelente vinho cipriota
à venda, barato”, e ele podia conseguir um barril, para obter
um lucro certo na revenda, caso tivesse um avalista. Casanova
estaria disposto a dar sua garantia? “Com prazer”, respondeu
ele, e com um floreio, Pier Antonio apresentou o papel para
assinatura.
Mais tarde nesse dia, ele se reuniu com Caterina para uma
excursão a La Giudecca, conhecida por seus restaurantes
rústicos e jardins. Seguiram para o extremo leste da ilha,
“onde um zecchino tornou-me mestre e senhor do lugar pelo
dia inteiro”. Guardaram suas máscaras e casacos e saíram para
um passeio. Casanova comparou-a a um “jovem galgo
libertado de dias de confinamento tedioso no quarto de seu
senhor e enfim ganhando a liberdade dos campos” quando ela
correu pelos jardins, extasiada, e deleitando-se com sua
“liberdade desimpedida”. Ele a observou: “Ela correu e correu
até ficar sem fôlego e depois riu da perplexidade que me
manteve imóvel, olhando para ela”. Ela enxugou a testa e o
desafiou para uma corrida. O primeiro a chegar ao portão que
dava na laguna seria o vencedor. Claro que ele podia ganhar,
mas seu plano era deixar que ganhasse e ver o que ela “me
mandaria fazer”.
Ele deixou que ela chegasse ao portão bem antes dele.
Como castigo, ela escondeu um anel em algum lugar de seu
corpo, sentenciando-o a encontrar. Ele devia procurar com
determinação, pois ela o “teria em muito baixa consideração se
eu não o encontrasse”. Que delicioso. Sentado no tapete
relvado, ele explorou seus bolsos, “as pregas de seu curto
corpete e sua saia, depois seus sapatos”, mas seus dedos não
encontraram o anel. “Ergui sua saia, devagar e com
circunspecção, até chegar a suas ligas.” Nada. Suas mãos
desceram pela saia e, “como sou livre para fazer o que quiser,
tateio suas axilas”. Ela riu e ele encontrou o anel. Para pegá-lo,
desamarrou seu corpete. As pontas de seus dedos entraram em
contato com seu seio, macio e cálido, convidativo e proibido,
mas quando ia pegá-lo, o anel caiu e foi parar na saia. Quando
o pegou, sua mão tremia.
“Por que estais tremendo?”
Porque estava empolgado em encontrar o anel, explicou, e
desafiou-a para outra corrida. Dessa vez recorreu a um
“infalível embuste. Fiquei para trás, choramingando: ‘Oh, meu
Deus!’. Ela vira, crê que me machuquei e vem até mim. Mas,
assim que percebo que estou a um passo dela, ergo o rosto.
Rio e corro até o portão, bato pique e decreto a vitória”. Ele
era um sátiro de 28 anos espreitando uma virgem de catorze.
“Vencer roubando não vale”, ela se queixou. Mas não eram
beijos que ele tinha em mente, como ela teria esperado.
Em vez disso: “Sentencio-vos a trocar ligas comigo”.
Ela ficou horrorizada. “Vistes as minhas. São velhas e
horrorosas, nada valem.” Com relutância, ela lhe deu suas
ligas “horrorosas”, recebendo para seu espanto um lindo par
em troca. O estratagema fora seu modo tortuoso de lhe
oferecer uma lembrança amorosa, pois planejara o tempo todo
dar a ela as elaboradas ligas que estava usando. Ela prometeu
nunca tirá-las.
Famintos, comeram uma omelete e ela lhe pediu que a
ajudasse a pôr as ligas, “em perfeita boa-fé, sem nenhuma
maldade no pensamento e nem um pingo de coquetismo […].
Caterina ergueu a saia até as coxas e percebeu que suas meias
eram curtas demais para conseguir ajustar as ligas acima do
joelho, mas na mesma hora a presenteei com a dúzia de meias
cinza-peroladas que comprara. Em um êxtase agradecido, ela
se sentou em meu colo, dando-me o mesmo tipo de beijo que
teria dado no pai se lhe desse tal presente”. Ele lutou contra “a
violência do meu desejo com uma força sobre-humana”.
“Depois de passear até o cair da noite”, Casanova
recordou, o casal improvável deixou Giudecca e “fomos à
ópera usando nossas máscaras, pois, o teatro sendo pequeno,
poderíamos ter sido reconhecidos” por espiões do pai de
Caterina. Giacomo sentiu uma preocupação urgente com seu
irmão intrometido, que também podia espreitá-los. Ele
esquadrinhou o público, tanto os homens como as mulheres
misteriosamente mascarados, mas não viu sinal do irmão.
Durante o espetáculo, quando Caterina deixou o libreto no
peitoril do camarote, um homem o levou embora. Ainda que o
culpado estivesse mascarado, Casanova reconheceu Pier
Antonio Capretta espreitando no camarote ao lado com sua
amante: a mesma mulher que Casanova salvara ao cair de uma
carruagem.
Contrariando o próprio bom senso, foi com Caterina a uma
ceia após a apresentação no cassino escolhido pelo irmão dela.
“Não gostei; mas não dava para evitar, a não ser me opondo
abertamente; e eu estava apaixonado.” Sem máscara no jantar,
Casanova se encolheu quando a amante de Pier Antonio cobriu
a jovem Caterina de elogios, a despeito de invejar a juventude
da moça. Mais tarde nessa noite, Pier Antonio, embriagado,
empurrou a namorada sobre um sofá e puxou sua saia para
mostrar suas coxas a Casanova e a qualquer um que estivesse
olhando. “Ela lhe deu um tapa de mentirinha como punição,
mas estava rindo.” Quanto ao irmão, “seu comportamento
lúbrico me enojou”, pois que “exibe sua condição bestial”, ou
seja, expôs sua ereção para o grupo, “e ajusta a mulher,
segurando-a com as pernas abertas sobre ele, enquanto ela,
fingindo-se impotente em suas mãos, deixa que prossiga”.
Casanova se interpôs entre Caterina e seu irmão “para
esconder o horror que já deve ter visto no espelho”.
Concluindo, Pier Antonio e sua amante tentaram abraçar
Casanova e Caterina, que “recatadamente afirmou não saber o
que havia para ver”, mas ele percebeu que “sua linda alma
estava em grande agitação” depois de ter sido levada a
observar aquele tipo de comportamento lascivo do qual
Casanova tentara protegê-la, mesmo enquanto contemplava a
possibilidade de tomar liberdades ainda maiores. Ele tremia de
raiva, enquanto “o infame salafrário acreditava ter me dado
grande prova de sua amizade”, quando na realidade estava
“desonrando sua dama e pervertendo e prostituindo a irmã”. O
pensamento o inflamou “a ponto de quase levar um banho de
sangue à cena. Não sei como me segurei para não lhe cortar a
garganta”. A essa altura, os convivas, exaustos, deixaram o
cassino e seguiram para suas casas.
No dia seguinte, Casanova visitou Pier Antonio — o porco
— para condenar seu comportamento no cassino. Não queria
mais saber dele, mesmo que isso significasse romper relações
com a jovem Caterina. Se o irmão achava que podia alcovitá-
la para algum outro, Casanova jurou impedi-lo.
Sua declaração espantou Pier Antonio, que percebeu ter
presumido equivocadamente que o homem diante dele e sua
irmã estavam envolvidos em relações carnais. Implorou que
Casanova o perdoasse e o abraçou “com lágrimas nos olhos”.
Nesse momento, sua mãe indulgente apareceu com
Caterina, ambas sem fazer ideia da desavença entre Casanova
e Pier Antonio, para agradecer o pretendente da menina pelos
presentes que lhe dera. Assumindo o comportamento mais
respeitável, ele prometeu falar com o pai da garota sobre
casamento “após eu ter assegurado suficiente renda para fazê-
la feliz”. Quando se curvou para beijar sua mão, lágrimas
começaram a fluir, “que fizeram as dela fluir”, enquanto o
irmão permanecia mudo como uma pedra. “O mundo é cheio
de mães desse calibre”, comentou Casanova com seus leitores
dando um suspiro, “todas elas honestas e dotadas de todas as
virtudes”, e, como resultado da confiança que depositam nas
pessoas que acreditam ser honestas, tornam-se vítimas.
Relanceando por cima do ombro, Casanova viu o irmão
soluçando com o resto da família, mas “o patife tinha controle
de suas lágrimas”.
O melhor e o pior advieram da situação. Pier Antonio
trouxe a irmã menor para uma reunião com Casanova no
cassino. “Ardendo de paixão, antecipei o que devia acontecer.”
Encomendaram uma ceia a ser entregue mais tarde e subiram
para um quarto privado, onde pretendiam passar sete horas.
Quando ficaram a sós, ela tirou a máscara e se atirou em seus
braços, dizendo que ele havia “conquistado seu coração e sua
alma durante a terrível ceia em que mostrara tanta
consideração por ela”, enquanto trocavam beijos de
intensidade cada vez maior.
Discutiram o comportamento ébrio de seu irmão;
Casanova perguntou se estava com medo de que ele pudesse
lhe fazer o mesmo. Não, ela disse. “Vamos nos resguardar até
estarmos casados. Não é?” Distraíram-se discutindo a parelha
de versos libidinosos na liga que ele lhe dera: “Vós que vedes
minha joia de beleza todo dia/ Dizei-lhe que o amor afirma
que é verdadeira” — ele explicou que a “joia” na verdade
referia-se a sua “pequena coisa” e que a liga, se tivesse olhos,
poderia vê-la todos os dias. Caterina corou profundamente.
Agora não mostraria a liga para ninguém.
Os dois confessaram estar subjugados pelo desejo. “Somos
livres”, disse Caterina, “e meu pai será obrigado a consentir.”
Ele desejava primeiro pedir sua mão em casamento, mas ela
objetou. “Ele vai dizer que sou nova demais.”
Conforme gracejavam, Giacomo ardia de desejo.
“Casemo-nos perante Deus, em sua presença”, propôs. “Não
temos necessidade de documentos.” A formalidade de uma
cerimônia religiosa podia esperar. Nesse ínterim, deveriam se
considerar casados de verdade a partir desse momento. “Agora
vinde a meus braços. Consumaremos nosso casamento na
cama.”
Ela se atirou na cama sem tirar a roupa, mas Casanova
lembrou-a que “o Amor e o Himeneu foram nus”. Momentos
depois, segurava-a nos braços sem nada entre os dois, com
beijos incessantes, envolvendo-a, “lamentando que minha
boca se movesse com menos agilidade do que meus olhos”.
Disselhe que sua beleza era divina e o transportava para além
dos limites da moralidade. Ela era, nesse momento, o prêmio
máximo: uma virgem de catorze anos que o amava e que ele
desejava mais do que tudo. Ela era “branca como alabastro,
com cabelos negros, e sua puberdade era visível apenas na
penugem que, dividida em pequenos cachos, formava uma
franja transparente acima da pequena entrada do templo do
amor”. A risada dela o despertou de seus devaneios, quando
ela observou que ele continuava inteiramente vestido. “Nunca
me despi com mais prontidão”, escreveu. “Então foi a vez de
ela se virar cegamente para obedecer às insinuações do
instinto.”
“Grande poder do amor!”, exclamou ela. “Não sinto
vergonha. Teria acreditado nisso dez dias atrás?” Antes que ele
respondesse, ela acrescentou: “Por favor, não fazei cócegas em
mim ali, é sensível demais”.
“Minha querida, machucar-vos-ei mais do que isso.”
“Que diferença entre vós e meu travesseiro”, ela
murmurou, querendo dizer que “nas últimas quatro ou cinco
noites, não conseguia dormir a menos que tivesse um grande
travesseiro em meus braços e o beijasse várias vezes,
imaginando que fosse vós. Toquei ali, meu querido, apenas
por um momento no fim e muito levemente.” O diálogo
picante revela que Casanova estava ciente do fascínio do
orgasmo feminino, que chamava de la jouissance. “Então um
prazer para o qual não há palavras deixou-me imóvel e como
que morto.”
Assim foi que Caterina se tornou sua “como uma heroína,
como toda jovem apaixonada deve fazer, pois o prazer e a
satisfação do desejo tornam até a dor deliciosa”. E prosseguiu.
“Passei duas horas inteiras sem sequer me separar dela. Seus
êxtases contínuos tornaram-me imortal.” Apenas a noite
iminente e o ronco em suas barrigas interromperam os
abraços, espasmos e exclamações. Mandaram trazer a ceia e
“comeram se entreolhando” num silêncio prenhe de
significado. “Encontramos nossa felicidade suprema no
pensamento de que fomos nós que a criamos e que a
renovaríamos sempre que desejássemos.”
A gerente apareceu e perguntou se haviam terminado a
refeição e estavam prontos para a ópera. Quem dera ela
pudesse ir — ouvira dizer que era “um belíssimo espetáculo”
—, mas nunca fora, explicando que era “caro demais para
pessoas como nós. Minha filha é tão curiosa que daria — Deus
me perdoe! — a própria virgindade para ir ao menos uma
vez”. E com isso ele deu para a senhora atônita a chave de seu
camarote, frisando que custava dois zecchini. Disse que
levasse sua filha e instou-a: “Dizei-lhe que guarde a
virgindade para algo melhor”, dando-lhe mais dois zecchini e
emprestando sua gôndola, além disso. Casanova e seu jovem
amor pretendiam ficar no quarto, explicou, “pois nos casamos
hoje de manhã”.
Uma bisbilhoteira de boa índole, a gerente foi até a cama,
onde espiou “sinais dignos de veneração”, ou seja, sangue do
hímen recém-rompido de Caterina, abraçando e parabenizando
a jovem. Virando para a filha, a mulher disse que esperava que
a mesma coisa acontecesse com ela, e a menina constrangida
respondeu que ela também seria virgem no altar matrimonial.
A gerente e sua filha não perceberam, claro, que Casanova e
Caterina, embora apaixonados, ainda não eram marido e
mulher. Quando ambas saíram para ir à ópera, “nós nos
trancamos no quarto e voltamos para a cama” por quatro
horas. Quando ele a viu “devastada por Vênus, o supremo grau
de prazer apoderou-se de meus sentidos” e os amantes
desabaram, exaustos, para ser acordados horas depois pela
gerente, que batia em sua porta para anunciar que voltara com
a gôndola do casal.
Enquanto os amantes se vestiam apressadamente, a filha
loira da gerente preparou café e relanceou na direção de
Casanova, insinuando ser bem mais vivida do que sua mãe
acreditava. Quando ele voltou a prestar atenção em Caterina,
notou que seus olhos tinham “círculos tão escuros que
pareciam hematomas. A pobre criança passara por um
combate que literalmente a tornara outra pessoa”. Partindo “à
luz da primeira aurora”, rejubilaram-se no pensamento de que
estavam efetivamente casados em suas mentes e espíritos,
quando não aos olhos da lei. Ele jurou consigo mesmo que
convenceria seu protetor, Bragadin, a “conseguir a mão da
jovem para mim”. Isso teria sido a coisa honrada a fazer, e se
seu plano funcionasse, poria Casanova num rumo diferente, o
jogador e libertino reformado vivendo em abençoada união
com sua noiva infante, deixando as dificuldades para trás
conforme ascendia mediante um casamento afortunado para
uma posição de respeitabilidade e solvência. Antes que
pudesse perseguir esse digno objetivo, caiu na cama e dormiu
até o meio-dia. Quando acordou, sua determinação se fora, e,
em suas palavras, “passei o dia jogando e perdendo”.
O irmão maquinador de Caterina apareceu, pedindo outro
enorme empréstimo para uma transação suspeita envolvendo
um bilhete e um anel. O ardil não tapeou mais Casanova, que
percebeu com tristeza que Pier Antonio estava, a seu modo
indireto, alcovitando a irmã. “Como poderia recusar ao patife
o que pedia de mim?” Ele estabelecera um desastroso
precedente relativo a suas relações íntimas com Caterina e,
sem fundos próprios, sentiu-se impotente para resistir a ficar
ainda mais atolado nas dívidas do irmão. “E assim Caterina
Capretta, que não deveria ter me dado nada senão alegria,
tornou-se a causa de minha ruína.”
Nas semanas seguintes, Caterina e Casanova renovaram
seu amor em La Giudecca enquanto a filha loira da gerente
continuava a flertar com mais ousadia ainda, expondo o busto,
“que, usando a desculpa do calor, exibiu com demasiada
prodigalidade”, enquanto ele tentava se desvencilhar dos
negócios com o sôfrego Pier Antonio. Depois Caterina acabou
descobrindo sobre suas ações. Entrementes, o casal aguardava
para falar com o pai da moça. Caso ele não aceitasse ceder sua
mão para Casanova, “ela me implorou para fazer todo o
possível para engravidá-la”. Se o pai a princípio impedisse o
casamento, a visão da barriga inchando o levaria a mudar de
ideia depressa. Casanova a instruiu no processo de “tornar-se
mãe”, prevendo que tinha maior probabilidade de engravidar
“quando chegássemos ao doce êxtase ao mesmo tempo”.
Lutaram dia e noite “para chegar juntos a essa petite morte que
devia assegurar nossa felicidade”.
Enfim chegou o momento em que Caterina ou seu irmão
viria ao encontro de Casanova com a palavra definitiva do pai.
Era uma segunda de manhã, Casanova aguardou com
nervosismo, mas ninguém apareceu. Ele ficou ali por várias
horas, até que no “dobre do ângelus” — seis da tarde —
Caterina chegou apressada, “mascarada mas não sozinha”. A
resposta que trazia não era a esperada. Nenhuma aprovação
fora fornecida por seu pai, que ficou indignado com sua
temeridade. Mas nada que dissesse iria detê-los.
Para se consolarem, “fomos para o nosso jardim, a
despeito de uma tempestade muito violenta, que, nossa
gôndola tendo apenas um remo, aterrorizou-me. Caterina, sem
consciência do perigo, não parava quieta, e o movimento que
provocou na gôndola deixou o gondoleiro em perigo de cair na
água, o que teria representado nossa morte”. Alarmado, o
gondoleiro gritou que ficassem quietos ou corriam o risco de
se afogar. “Chegamos finalmente, e o gondoleiro sorriu
quando lhe paguei quatro vezes o valor da passagem.”
As seis horas seguintes foram passadas “em um estado de
felicidade”. Removeram as máscaras e pressionaram seus
lábios, depois seus corpos. Em suas palavras, “o sono não foi
nossa companhia”. Pela manhã, deixaram sua toca, a cordial
gerente e o jardim para voltar a Veneza.
Incapaz de esquecer Caterina Capretta, Casanova implorou
ao Signor Bragadin e a seus dois amigos íntimos que lhe
concedessem uma audiência privada, na qual explicou que
estava apaixonado pela jovem e “determinado a fugir com ela”
se o pai continuasse teimosamente a se recusar a cooperar.
“Será necessário prover-me com uma renda para viver e
garantir os 10 mil ducados que a jovem me trará como dote.”
Segundo o costume vigente, os três velhos, com o misticismo
de sempre, consultaram seu espírito cabalístico, Paralis, cujo
parecer seguiram à risca. “Nada peço além disso”, comentou
Casanova, já que cabia a ele interpretar as palavras do oráculo.
Ele construiu pirâmides, invocando a franco-maçonaria, e
saiu-se com uma sentença: o Signor Bragadin negociaria com
o pai de Caterina, que estava no campo. Quando voltasse, os
três velhos se reuniriam com ele em nome de Caterina e
Casanova.
Ele esperava que esse desdobramento mais recente
deixasse seu amor animado; mas ela e sua mãe estavam
arrasadas pelo fato de Pier Antonio ter sido preso por dívida.
Reprimindo um sorriso de satisfação, Giacomo lhes deu vinte
zecchini para minimizar seu ônus financeiro, advertindo-as a
não dar ao rapaz mais do que dois ou três zecchini de cada vez.
Essa generosidade lhe granjeou acesso a Caterina em sua casa
para mais noites de amor jubiloso, pontuadas pela ansiedade
com a volta do pai. Caterina advertiu-o de que o pai a via
como criança e não permitiria que se casasse até ter
completado dezoito anos, e além disso apenas com um
mercador, não com um aventureiro e jogador que não tinha
onde cair morto. “Conheço meu pai e estou com medo.” Nesse
caso, afirmou Casanova, fugiriam.
Quando o Signor Bragadin, seus dois amigos e o pai da
jovem se reuniram, o homem declarou sua intenção de mandar
a filha para um convento por pelo menos quatro anos. Se, ao
fim desse período, Giacomo Casanova tivesse “uma posição
bem estabelecida, poderia me conceder sua mão”. Quatro
anos!
Repelido da casa de Caterina, onde a porta fora trancada
por dentro, Casanova retirou-se em seu apartamento, “nem
morto, nem vivo”. Não parecia mais possível fugir com a
garota, agora que ela fora isolada em um convento na ilha de
Murano. Desesperado, visitou Pier Antonio na cadeia, que “me
diz um monte de mentiras, em que finjo acreditar”: ele vai
fugir da cadeia em questão de dias e pagar a Casanova os cem
zecchini que lhe deve — pede desculpas pelo atraso —, e
então honrar aquela promissória de duzentos zecchini,
obrigação que Casanova temerariamente avalizara. E que
notícia trazia de sua adorada Caterina? “Ele nada sabe e
acredita que não há novidade alguma.” Acostumado a esbanjar
seu dinheiro, Casanova jogou dois zecchini para o canalha e
foi embora, pensando num modo de entrar em contato com sua
amada.
Sem conseguir comer ou dormir, ele ficou como uma alma
penada no palacete deserto de Bragadin. O aristocrata e seus
dois amigos inseparáveis haviam ido a Pádua para passar um
ou dois meses celebrando a Feira de Santo Antônio. Sozinho e
vulnerável, Casanova saía apenas para jogar e perder. À
medida que suas dívidas de jogo aumentavam, ele penhorava
tudo em que conseguia pôr as mãos, com “pensamentos de
suicídio” a preocupá-lo. Em 13 de junho, dia da Festa de Santo
Antônio, quando fazia a barba, a campainha tocou, e ele
recebeu uma mensageira trazendo uma carta de Caterina,
datada de 12 de junho. Sua surpresa foi tão grande que “pensei
que fosse cair morto”. Com a mão trêmula, pousou a lâmina de
barbear e leu: “Estou hospedada neste convento, sendo muito
bem tratada, e gozando de saúde perfeita, a despeito da minha
mente ansiosa. A madre superiora tem ordens de não me
deixar ver ninguém e não permitir que me corresponda com
ninguém; mas tenho certeza de que vos posso escrever, a
despeito de tal proibição. Não duvido de vossa fidelidade, meu
querido marido, e tenho certeza de que não duvidais nem
nunca duvidareis da minha”. Após ler essas palavras, Giacomo
levou “quatro ou cinco minutos” para se recuperar. Agora
tinha de entrar em contato com Caterina a todo custo.
Em seu manuscrito, Casanova omitiu o nome do convento,
mas era provavelmente Santa Maria degli Angeli, a Igreja dos
Anjos.3 O antigo edifício abrigara um convento pelo menos
desde 1188 e fora reconstruído não muito antes da chegada de
Caterina. Era um lugar afastado, dedicado à observância
religiosa e à proteção das filhas das famílias venezianas ricas
que desejavam manter sua linhagem à distância de jogadores e
aventureiros em busca de um atalho para a riqueza. Mas a
imaginação de Casanova o transformou num bordel da mais
elevada ordem, um lugar para encontrar jovens de algumas das
melhores e mais ricas famílias em Veneza.
A mulher que trouxera a carta explicou que trabalhava para
as freiras do convento. Ela viajava da ilha de Murano a Veneza
toda quarta para entregar a correspondência. Ele perguntou se
ela sabia ler. De fato sabia; não poderia fazer seu trabalho de
entregar cartas a menos que soubesse ler o endereço. “As
freiras querem ter certeza — e estão com a razão — de que
não daremos a fulano uma carta escrita para sicrano.” No
entanto ela o tranquilizou quanto a sua discrição. “Se não
soubesse como morder a língua, perderia o emprego.” Ela
informou Casanova de que a jovem freira que lhe dera a carta
era dissimulada e a passara para ela sem que as outras vissem.
Ansiosa em desempenhar um papel na intriga, convenceu-o de
que podia lhe confiar sua resposta; ela não contaria às freiras.
Levar uma carta de um cristão para outro não era pecado, era?
Mesmo se fosse, seu confessor era um velho monge surdo. Os
segredos de Casanova estariam a salvo com ela. Seu nome era
Laura.
Ele escreveu quatro folhas transbordando de juras de amor,
oferecimentos de lhe mandar dinheiro, expressões de alívio de
que estivesse a salvo e bem, promessas de escrever
pontualmente toda quarta e pedidos de “cada detalhe da vida
que ela estava sendo forçada a viver”, bem como “suas ideias
na questão de quebrar todos os grilhões e destruir todos os
obstáculos que se interpõem no caminho de nosso reencontro,
pois eu lhe pertencia assim como ela me disse que pertencia a
mim”. Finalmente, ela devia “queimar todas as minhas cartas”.
Ele escondeu um zecchino no envelope, lacrou com cera e
entregou-o à mensageira com um zecchino adicional para a
mulher, que começou a chorar de gratidão e provavelmente já
esperava por isso.
Em júbilo por ter restabelecido uma linha de comunicação
com a jovem que ainda chamava de esposa, Casanova ordenou
ao pajem que arrumasse seu baú. Três horas depois, batia na
porta da residência de verão do Signor Bragadin em Pádua. Os
dois se abraçaram e, junto com os companheiros de Bragadin,
sentaram-se para jantar. Como ele estava faminto! À noite,
jogou, e perdeu mais uma vez. “A fortuna me mostrou que
nem sempre estava do lado do amor.” Nesse caso, ele resolveu
ajudar da melhor forma possível.
Durante essa semana em Pádua, Casanova juntou forças
com o “célebre trapaceiro” Don Antonio Croce — o “Don” era
um título cerimonioso para disfarçar sua baixa reputação —
para operar a banca em um faraó privado. Esse carteado era a
última moda na corte francesa, e a imagem do “faraó” aparecia
numa das cartas. Para o capital inicial, Casanova procurou o
Signor Bragadin, que rapidamente obteve fundos junto a um
“agiota judeu”, que lhe emprestou mil ducados venezianos “a
5% ao mês, pagáveis ao final do mês, e com os juros
deduzidos de antemão”, recordou Casanova, nunca
esquecendo nenhum detalhe relativo a amor ou dinheiro.
Quando o jogo começou, o dinheiro rolou solto. Um oficial e
desertor do exército sueco de nome Gillenspetz apostou 2 mil
zecchini e um judeu inglês chamado “Mendex”
(provavelmente Joshua Mendes, de Londres) perdeu mil
zecchini. Dois dias mais tarde, a casa ficava com 4 mil
zecchini e o esquema de Casanova mostrava a que viera,
demonstrando para ele que era mais lucrativo manter um
estabelecimento de jogatina do que ser um jogador. Lição que
levaria para o resto da vida.
Seus negócios completados, “parti a todo galope ao cair da
noite com um tempo muito ruim, mas nada podia ter me
detido. Eu esperava receber a carta de Caterina pela manhã”.
Mas “a dez quilômetros de Pádua meu cavalo caiu e fiquei
com a perna presa sob seu ventre”. Ele achou que quebrara o
pé, porém quando o postilhão conseguiu soltá-lo, percebeu
para seu alívio que não sofrera nenhuma fratura; o cavalo,
porém, estava ferido. Ele teve então uma violenta discussão
com o postilhão, que se recusava a entregar o próprio cavalo,
como Casanova achava ser correto. “Disparo minha pistola em
sua direção, ele foge e continuo minha jornada.” Ele chegou a
Fusina, perto de Veneza, “à primeira luz da aurora”,
enfrentando esse novo massacre em uma embarcação de
quatro remos para o palazzo de Bragadin, chegando “são e
salvo, embora maltratado pela chuva e pelo vento”. Ao menos
tinha a missiva de Caterina a sua espera, com sete páginas,
nem todas castas e penitentes.
Em sua carta, Caterina explica que a despeito do
isolamento e das ameaças de excomunhão caso violasse a
menor regra, ficara amiga de uma jovial freira de 22 anos. Ela
ouvira falar de uma outra freira que, “por ser rica e generosa,
todas as outras freiras tratavam com deferência”. De maior
interesse, leu ele, “quando estavam a sós, ela lhe dava beijos
dos quais eu poderia sentir ciúme se fossem de um sexo
diferente”. Isso era algo que merecia uma reflexão, assim
como seus recentes pensamentos de fugir com ela: era
perfeitamente possível tirá-la escondida do convento, mas ela
o aconselhou a esperar e ficar alerta. Com sorte, “em cinco ou
seis meses estaria em condição de escandalizar e desonrar o
convento” se uma gravidez ficasse visível. Moralidade à parte,
engravidar era um curso de ação extremamente perigoso. As
mulheres que engravidavam pela primeira vez preparavam seu
testamento, pois seus dias podiam estar contados. Uma em
cada dez mulheres morria ao dar à luz, segundo se estimava;
se uma mulher casada engravidasse cinco vezes, enfrentava
uma chance de cinquenta por cento de morrer no trabalho de
parto, naquele tempo. A jovem Caterina não dava sinal de
saber dos riscos que enfrentava. Apaixonada por Casanova, ela
pediu seu retrato, escondido em um anel, para manter consigo
o tempo todo. Tanto o sigilo como a vaidade do projeto o
atraíram. Ele contratou um “piemontês habilidoso” — do norte
da Itália —, que “ganhou muito dinheiro em Veneza”
exercendo seu mister. Nessa mesma época Casanova pagou
“um excelente joalheiro que fez o anel para mim muito bem”.
O exterior exibia a imagem de uma santa, com um minúsculo
ponto azul contra o fundo branco esmaltado. Quando o ponto
era pressionado com um alfinete, a santa se abria para revelar
a imagem de Casanova.
Sempre que estava sozinha, ela apertava o anel para ver
seu retrato, que ela beijava “cem vezes e não largava se
alguém entrava, pois na mesma hora o fechava para ocultá-lo”.
Uma freira lhe ofereceu cinquenta zecchini pela peça,
afirmando que o retrato externo lembrava a homônima de sua
dona, santa Catarina.
No fim de julho, ele recebeu nova carta por intermédio de
Laura. “Um infortúnio acometeu-me”, escrevera ela.4 “Estou
perdendo sangue. Não sei como fazer o fluxo cessar e tenho
pouquíssimas peças de linho.” Ela necessitava urgentemente
de roupa de cama. “Se a hemorragia me matar, o convento
todo vai saber do que morri”, escreveu. “Mas penso em vós e
estremeço. O que fareis em vosso pesar. Ah, meu querido! Que
pena!”
Laura revelou que Caterina sofrera um aborto.
Desesperado, Casanova foi com Laura em uma gôndola para o
Ghetto, o bairro judeu, onde comprou “um estoque completo
de lençóis e mais de duzentos guardanapos”, pondo tudo em
um saco. Foi para Murano, onde Laura apressou-se a escondê-
lo em sua casa. Ela enfiou todas as peças que conseguiu sob a
saia e foi para o convento enquanto ele esperava. Laura
“voltou uma hora mais tarde e me contou que, tendo perdido
muito sangue à noite, [Caterina] estava na cama e muito fraca,
e que devíamos entregá-la nas mãos de Deus, pois, se a
hemorragia não cessasse, ela sucumbiria em 24 horas”. Ela
tirou o linho sujo da saia, revelando um “pequeno amontoado
disforme”.
Casanova “quase caiu morto. Era um verdadeiro açougue”.
Laura mais tarde lhe trouxe um bilhete que partiu seu coração:
“Meu querido, não tenho forças para vos escrever. Continuo
sangrando e não há remédio. Deus dispõe; mas minha honra
está salva. Meu único consolo é saber que estais aqui”.
Quando terminou de ler, “Laura aterrorizou-me,
mostrando-me dez ou doze guardanapos encharcados de
sangue”. Não havia nada a ser feito. “Fiquei realmente
desesperado. Vendo-me como o assassino daquela jovem
inocente, achei que não pudesse sobreviver a ela.” Ele se
deitou em um catre, recusando-se a comer ou permitir que as
filhas de Laura tirassem sua roupa. Eram garotas de aspecto
bastante agradável, mas “encheram-me de ódio. Eu as vi como
instrumentos de minha horrível incontinência, que me tornara
o carrasco de um anjo encarnado”.
Ao amanhecer, soube por Laura que sua adorada estava
com o pulso fraco, pálida como cera e que não comera. O
sufocante calor de julho agravara seu sofrimento. Ele decidiu
chamar um médico, que encarou nessa situação como se fosse
um oráculo. “Tenho bom motivo para rir de todos os
oráculos”, confessou, mas precisava confiar em um agora.
Enquanto aguardava notícias da condição de Caterina, as
filhas de Laura cuidaram dele, trazendo-lhe o jantar, que ele
recusou, e consumindo-o elas mesmas, “com apetite voraz”.
Entrementes, a filha mais velha, “a exemplar”, esnobou-o. Ele
passou horas monitorando informes da fiel intermediária,
Laura, que “veio enfim e me contou que a paciente continuava
no mesmo estado de inanição, que sua fraqueza extrema
surpreendera enormemente os médicos, que não sabiam a que
atribuí-la”.
Horas mais tarde “percebi muito bem que se ela pudesse
dormir, iria se recuperar, então ansiei pela manhã. Dei seis
zecchini para Laura e uma moeda para cada uma de suas filhas
e comi um pouco de peixe na ceia”. Com isso, foi para a cama.
De manhã, Laura entrou parecendo animada e “contou-me
que a paciente dormira bem e que ela ia voltar ao convento
para levar-lhe um prato de sopa. Porém era cedo demais para
cantar vitória, pois ainda precisava recuperar as forças e repor
o sangue que perdera. Eu agora tinha certeza de que iria
recobrar a saúde”, e assim foi.
Casanova se hospedou na casa de Laura por mais uma
semana, até ir embora sob um dilúvio de lágrimas — de Laura,
porque ele lhe dera todas as peças de linho que comprara, e
das garotas, porque “não haviam me convencido a lhes dar
pelo menos um beijo durante os dez dias que passei na casa”.
Em Veneza, sua vida retomou o antigo padrão; ele jogou e
ganhou, mas isso dificilmente fez diferença. Administrou um
cassino de faraó em parceria com um patrocinador abastado
“que me protegeu contra as fraudes de certos aristocratas
tirânicos contra os quais um cidadão privado, se deseja
competir, sempre leva a pior em meu encantador país”. Cruzou
caminho com outras vidas na rota de seu próprio destino
obscuro, carecendo do que era essencial para sua felicidade,
“um caso amoroso verdadeiro e gratificante”.
Em vez disso, recebia cartas às quartas-feiras da jovem que
chamava de sua esposa e ocasionalmente tinha breves notícias
suas por intermédio de Laura, que lhe disse que Caterina ficara
ainda mais bonita depois de recobrar a saúde. Ele interpretou
corretamente essa observação como um convite para vê-la.
Finalmente conseguia a oportunidade para espiar sua amada
durante uma “profissão”, ou seja, cerimônia em que a freira
toma o hábito e faz os votos mais solenes. “Achei que fosse
morrer de prazer quando a vi a quatro passos de mim, fitando-
me surpresa por me ver ali.” Ela lhe pareceu mais alta, mais
“desenvolvida” após sua provação. Entre todas as freiras sendo
ordenadas, “só tive olhos para ela e só voltei para Veneza após
o fechamento do portão”.
Suas cartas agradecidas inspiraram Casanova a viajar entre
Veneza e Murano, especialmente em dias de festividade,
quando frequentava uma igreja onde sabia que a veria,
tomando o cuidado de preservar seu anonimato dos “cidadãos
comuns de Murano e suas mulheres”. Se a notícia de suas
visitas chegasse aos ouvidos do pai dela, Caterina seria
transferida para outro convento não revelado para sempre.
Entre as freiras, sua presença regular nos dias de festividade
suscitava deleite e especulação. Ele devia estar de luto, diziam
as velhas freiras, vendo-o fazer a ablução com água benta,
enquanto as freiras jovens acreditavam que sofria de
melancolia, como “um misantropo que evitava o mundo como
um todo”.
A carta era branca e o lacre de um matiz esverdeado de
aventurina, um tipo de vidro cintilante com partículas
douradas fabricado em Murano. (Por séculos, Murano fora um
centro de fabricação de vidro, Veneza tendo proibido vidreiros,
por medo do fogo causado por seu equipamento.) Esse foi o
curioso objeto que Casanova encontrou por acaso caído a seus
pés quando embarcou na gôndola após a missa do Dia de
Todos os Santos, 1º de novembro de 1753. Sentado, ele abriu o
envelope e leu: “Uma freira que viu o senhor na igreja em
todos os dias de festividade dos últimos dois meses e meio
deseja que vos apresenteis”. Daí seguiam-se instruções de
complexidade bizantina relativas ao protocolo para se
encontrar com uma freira que o aguardava, por mais
improvável que pudesse parecer, em um cassino em Murano,
ou, se ele assim o desejasse, em um lugar de sua escolha em
Veneza. “Vós a vereis deixando uma gôndola mascarada,
contanto que fiqueis no cais sozinho, sem criado, mascarado e
segurando uma vela.” Essa intriga com ares de mistério o
deleitava. Ele devia entregar sua resposta por escrito à mesma
freira que deixara a carta cair a seus pés; ela o esperaria na
igreja de San Canziano, perto do Rialto, a ponte central de
Veneza, no “primeiro altar à direita”.
Ele considerou a epístola “pura loucura”, e no entanto não
conseguia resistir ao esquema descrito ali. E se acontecesse de
a freira ser “linda, rica e um flerte”, agindo pelas costas de
Caterina? “Afastei a desconfiança precisamente porque me
agradava.” Sua resposta cautelosa, escrita no melhor francês
de que foi capaz, “pulava o fosso”, em suas palavras, entre o
desejo e o decoro. Ela era respeitável? Ele devia recear uma
armadilha? Tinha em mente a pessoa certa? Essas eram todas
perguntas justas. E ele tinha uma única exigência, que a
emissária informasse o nome, pois que o seu obviamente
sabia. “Deveras impaciente, de minha parte”, concluiu, “irei
amanhã à mesma hora para San Canziano, obter vossa
resposta.” Recebeu nova carta, com ainda mais questões e
estipulações tortuosas, e redigiu outra resposta repleta com
suas preocupações. “Achei o bilhete uma obra-prima do
espírito da intriga”, afirmou em suas memórias. “Houve um
quê de altivo nesse modo de proceder.” Ainda estava por
decifrar o significado de tudo aquilo, mas fora atraído demais
pela proposta para ignorá-la. Com que espécie de mulher
estaria lidando — jovem e bonita ou “alguma velha”? Se este
último se provasse ser o caso, estava preparado para rir de sua
tolice. Pediria a Caterina para elucidar o mistério, mas pensou
duas vezes, admitindo em sua imaginação que já lhe estava
sendo infiel. “Além disso, também, fiquei surpreso com a
grande liberdade de que gozam essas virgens consagradas, que
podiam com tamanha facilidade violar a regra do claustro.”
Com um pé atrás, seguindo as instruções de sua
correspondente anônima, encontrou a condessa que devia atuar
como intermediária, “uma mulher imponente, começando a
perder um pouco do viço, mas ainda bonita”, que o escoltou a
outro convento em Murano, San Giacomo di Galizia, onde
viram a “célebre” freira, Maria Eleonora Michiel, de uma
abastada família veneziana, cuja mãe tinha parentesco com os
Bragadin; de modo que ninguém os conhecia a não ser por
reputação. Uma grade de metal os separava, mas, quando ele
pressionou uma mola, quatro seções se abriram, e “qualquer
homem de minha estatura podia passar por ali”. Quando os
três se sentaram para conversar, ele pôde “examinar essa rara
beleza de 22 ou 23 anos à vontade”. Ela só podia ser a amiga
especial de Caterina, que lhe dera aulas de francês. Seu hábito
ocultava muitas características físicas — ele deduziu das
sobrancelhas que o cabelo devia ser da cor de açúcar
queimado —, mas as mãos, o antebraço e o cotovelo davam
eloquente testemunho de sua beleza. Ele teve certeza de que a
possuiria “em alguns dias”.
Quando voltava para Veneza com a condessa, perdida em
pensamentos, ela comentou: “Maria Eleonora Michiel é linda,
mas sua mente é ainda mais extraordinária”.
“Vi uma coisa e acredito na outra”, ele respondeu.
Refletindo, “vi que estava prestes a ser infiel a Caterina
Capretta; mas não me senti restringido por escrúpulo algum”.
Que extraordinárias vidas secretas levavam essas freiras,
admirou-se; havia muito o que aprender com seus modos
clandestinos. Elas viajavam, marcavam encontros amorosos e
sabe-se lá que outras atividades seculares, fazendo de conta
que observavam as exigências de seus conventos.
Paradoxalmente, eles proporcionavam às mulheres que haviam
vestido o hábito uma vantagem sobre seus pretendentes e um
refúgio das consequências de seu comportamento, pois elas
podiam desaparecer atrás de suas grades de metal quando bem
entendessem. Por que mulheres de famílias abastadas
abraçavam uma vida de renúncia era algo que lhe escapava;
mas a escolha não cabia a elas. Suas famílias as confinavam
para impedir que engravidassem, diluindo assim as fortunas e
as linhagens e perturbando a ordem estabelecida. Sua
intermediária, a condessa, fazia uma ideia melhor do que se
passava atrás das portas fechadas de um convento. Pescando
insinuações oblíquas feitas pela condessa, ele se convenceu de
que Maria Eleonora Michiel tinha um amante, “mas resolvi
não deixar que isso me incomodasse”. E assim foi à caça.
Eis Giacomo Casanova atrás de uma mulher enclausurada
que moveu mundos e fundos para convidá-lo a visitá-la: ele
vai a Murano, aguarda sentado, ansiosamente, em uma sala de
espera, tira a máscara, põe o chapéu enquanto aguarda a
chegada da “deusa”. Passa-se uma hora, depois um dia inteiro.
Ele põe a máscara de volta e pergunta se ela foi informada de
sua presença. Sim, já foi informada. Ele deve esperar. Como
um aluno na escola, volta a se sentar, “um pouco pensativo, e,
minutos mais tarde, vejo uma irmã leiga horrorosa, que diz: ‘A
madre Maria Michiel está ocupada o dia inteiro’”.
“Tais são os terríveis momentos a que um perseguidor de
mulheres é exposto”, lembra ao leitor. “Nada mais cruel. Eles
nos degradam, angustiam, matam.” A provação da espera era
humilhante, desnecessária. “Era uma louca, uma criatura
ignóbil, desavergonhada” na maneira como insensivelmente
feria seu amour-propre, “impudente […] maníaca delirante.”
Ele afetaria indiferença, jamais lhe permitiria ver os
ferimentos infligidos conforme concebia absurdos cenários de
vingança, como costumava fazer em sua infância. Ele a
convenceria de que seu comportamento rústico “só me fez rir”.
Nada mais de missivas, nada de esperar à missa em Murano;
não lhe daria essa satisfação. “Queria que tivesse certeza de
que eu a desprezava.” Escrevia cartas e, ao relê-las, rasgava-as
em mil pedaços; davam a impressão de que era “fraco”;
“teriam-na feito rir”. Fez o melhor que pôde para apagar a
lembrança de seu rosto — esse aspecto da eternidade.
Após doze dias, ele devolveu todas as cartas que ela lhe
escrevera, junto com uma resposta furiosa. Supunha que já
estivesse “se gabando” de seu joguinho para as amigas. As
pessoas deviam conservar certas ilusões, desdenhava, mas o
comportamento dela destruíra as suas. “Não leveis a mal se
vos dou esta pequena lição, após a por demais substancial que
me destes, aparentemente por pura zombaria. Estai certa de
que tirarei proveito dela pelo resto da vida.” Ele lacrou a carta,
confiou-a a um mensageiro friuliano e presumiu que o assunto
estivesse encerrado até encontrar o mesmo mensageiro dias
depois, que afirmou ter entregue a carta a uma “freira tão linda
quanto a estrela-d’alva” e que o questionara sobre o emissário.
Ela escrevera e esperava uma resposta; simples assim. O
infeliz mensageiro protestou que apenas tentava cumprir seu
dever, no decorrer do qual “olhava cuidadosamente para todo
mascarado de vossa altura” e finalmente reconheceu Casanova
pelas fivelas. Ele faria a gentileza de responder à carta da
freira? Para receber pelo serviço, o friuliano precisava voltar a
Murano com uma resposta.
Casanova rabiscou sua réplica: “Recebi vossa carta.
Adeus”. Ele trocou de fivelas para não ser reconhecido outra
vez. Então passou a ler a longa missiva de Maria Eleonora
Michiel, que alternava entre a justificativa, a explicação e a
acusação de que a resposta dele era “cruel, bárbara, injusta”.
Ela morreria “a menos que venhais justificar-vos
imediatamente”. Ela incluía as cartas que lhe escrevera, as que
ele tentara devolver, furioso. Ele seria “a causa de minha
morte” se deixasse de voltar a Murano para vê-la; a honra
assim o exigia.
Sua resposta habilidosa endereçava-se “à mais nobre das
mulheres”, a quem “insultara mui cruelmente”. Mais nessa
veia sentimental se seguiu. “Não posso continuar vivendo
senão na esperança de vossa absolvição, e vós a concedereis a
mim ao refletir sobre o que me levou a cometer meu crime.”
Como ela poderia ter lhe infligido tamanha crueldade? “Foi
nada menos que um raio, que não me matou mas tirou minha
vida”, afirmou, invocando o clímax da adaptação de Molière
da escandalosa carreira de Don Juan, quando um raio o manda
para o inferno como castigo divino por uma vida de delitos.
“Sentime tapeado, escarnecido”, escreveu. Com a ilógica do
amor, prometeu estar “a vossos pés uma hora antes do meio-
dia”. Antes que ele aparecesse, será que ela faria a gentileza de
queimar a carta que lhe enviara? “Agora vou me deitar por três
ou quatro horas. Minhas lágrimas encharcarão o travesseiro.”
Quando terminou de escrever, o dia raiava.
Seis horas depois, ele chegou a Santa Maria degli Angeli e
foi para a sala de espera. Caiu de joelhos quando Maria
Michiel se materializou do outro lado da grade e lhe disse,
com considerável constrangimento, para se levantar antes que
fossem vistos. Então se sentaram e se entreolharam pela grade
por “um quarto de hora” antes de pronunciarem uma sílaba.
Ela esticou a mão pela grade: “Banhei-a com minhas lágrimas
e a beijei uma centena de vezes. Ela afirmou que nossa
amizade tendo começado com tempestade tão violenta devia
nos dar esperança de eterna calmaria”. Por meio de gracejos
carregados de insinuações, combinaram de se encontrar fora
dos muros do convento, em um cassino ou em Veneza; ela
precisava apenas de dois dias de aviso para fazer os
preparativos. Casanova não resistiu a se vangloriar de que
estava em “circunstâncias confortáveis” e “longe de recear
gastar dinheiro, regozijo-me nisso”, especialmente porque
“tudo que tenho pertence ao objeto que adoro”. Isso era
adorável de escutar, ela respondeu, porque ela também era
“toleravelmente rica” e sentia que “não posso recusar nada ao
meu amante” que era “completamente seu senhor”. Ele se
encolheu à menção do amante.
“Por seis meses tenho vivido em perfeito celibato”,
confessou.
Mas ele ainda amava Caterina, não?
Ele admitiu que não conseguia pensar nela sem amor, “mas
prevejo que a sedução de vossos encantos há de me fazer
esquecê-la”.
Maria Eleonora disse que compreendia: a pobre criança
fora arrancada dele e ele fora “consumido pelo pesar, evitando
a sociedade” desde então. Mas se ela — a mulher do outro
lado da grade — assumisse seu lugar, “ninguém, minha cara
amiga, arrancar-me-á de vosso coração”, nem mesmo seu
amante, que, ela insistia, “ficará deleitado em ver-me
apaixonada e feliz com um amante como vós”.
Ele suspirou conforme contemplava a magnanimidade
desse misterioso indivíduo. “Heroísmo além da minha
capacidade.”
No fim da longa conversa, em que vieram a se conhecer
melhor, ela abriu brevemente a grade pressionando um botão,
para que ele pudesse beijá-la, e quando ele partia, “ela me
acompanhou até a porta com seus olhos amorosos”.
Ele nunca estivera tão apaixonado! “A alegria e a
impaciência me impediram totalmente de comer e dormir por
dois dias inteiros.” Para tornar esse êxtase ainda mais
delicioso, “ela era uma vestal”, ou seja, uma freira que fizera o
voto de castidade, sob pena de morte. Ao mesmo tempo, ela
evocava lembranças de todas as outras “lindas mulheres que
eu amara em meus treze anos de escaramuças nos campos do
amor” (uma estimativa conservadora de sua carreira de
sedutor), mas que fosse. Ele faria dela sua cortesã.
Aderindo às regras do amor clandestino, Maria Eleonora
lhe deu instruções precisas para o encontro seguinte;
aconteceria num cassino — na realidade, uma casa de prazer
luxuosa e privada —, onde ele não devia conversar com
ninguém, ficar de máscara e seguir as orientações. “Subireis a
escada diante da porta de entrada e ao chegar no topo vereis, à
luz de uma lanterna, uma porta verde, que abrireis para
adentrar um apartamento que encontrareis iluminado. No
segundo quarto me encontrareis e, se eu não estiver ali,
aguardareis minha chegada. Não me atrasarei mais do que
alguns minutos. Podeis tirar a máscara, sentar-se junto ao fogo
e ler. Encontrareis livros.” Ao chegar, ela trocaria o hábito por
“roupas seculares” e “um traje com máscara”. Mesmo o
pensamento dela usando uma peruca o empolgou, contanto
que não a visse sem ela.
Quanto ao amante misterioso, ela explicou que ele não era
velho, como Casanova supusera, e fora o primeiro homem a
possuí-la. Dois dias antes, ela lera as cartas de Casanova para
ele, e agora ele estava curioso em conhecer seu autor, que,
embora veneziano, soava tão francês em suas epístolas
amorosas.
“Nessa noite, na hora designada”, observou Casanova, ele
foi para o cassino, seguiu as instruções e foi recompensado
com a visão da mulher trajada em roupas seculares da maior
elegância”, iluminada por velas bruxuleantes em castiçais com
espelhos. Sem perder tempo, caiu de joelhos, e começou o que
chamou de “combate amoroso clássico”, sendo recebido com a
esperada resistência dela. Engalfinharam-se, altercaram,
sussurraram. “Nessa luta, embora dolorosa para ambos,
passamos duas horas. Ao fim do combate, congratulamo-nos
por ter chegado à vitória”, coisa que, ele insinuava, significou
antes a investigação apaixonada do que o ato amoroso de fato;
em todo caso, ele se deleitava na sensual disputa de vontades.
Por volta de onze da noite, banquetearam-se com oito
pratos colocados sobre travessas de porcelana sobre caixas de
água aquecida para manter a comida “sempre quente”.
Beberam borgonha e champanhe da cor de um olho de perdiz,
ou seja, rosa, e Giacomo começou a suspeitar que o patrono e
protetor de sua amada fosse francês. Ela preparou a refeição
com tanto savoir-faire que, assim ele calculava, “tinha um
amante que lhe ensinara”. Quem podia ser?
Ele teria de esperar para satisfazer sua curiosidade, ela lhe
disse, mesmo quando a conversa passou à França e a madame
de Pompadour, a influente amante de Luís XV. En passant, ela
mencionou o abade De Bernis, François-Joachim de Pierre de
Bernis, embaixador em Veneza e membro da Academia
Francesa, os quarenta “imortais” incumbidos de preservar a
integridade da língua francesa.5
Como Casanova suspeitava, o abade tinha familiaridade
com o cassino e com Maria Eleonora Michiel. Ele era
educado, agradável, talentoso. Voltaire chamou-o de “a florista
do Parnaso”, num misto de inveja e admiração a contragosto, e
talvez o abade fosse o patrono de Maria Eleonora.
À meia-noite, sucumbiram à fadiga. Casanova sugeriu que
passassem a noite juntos, com toda roupa. Quando se
preparavam para deitar, ele descobriu que a peruca de Maria
Eleonora era, na verdade, “a mais bela cabeça cheia de
cabelos”. Inspirado, caiu “mais sobre ela do que a seu lado”,
conforme retomavam seu combate, e ela começou a ceder.
Quando soltava as seis fitas que prendiam seu vestido, “achei-
me o afortunado senhor do mais belo dos bustos”. Melhor
ainda, “ela é forçada, depois de eu tê-lo contemplado, a deixar
que eu o devore”. Ela impediu suas mãos de passearem à toa e
não lhe permitiu mais liberdades, mesmo quando lentamente
moveu sua boca dos lábios dele para seu peito, depois de ele
ter passado horas constantemente engolindo “sua saliva
misturada com a minha”. Os dois acabaram pegando no sono
abraçados, até que o repique de sino os despertou, ela vestiu o
apertado espartilho e o hábito e voltou depressa ao convento.
Antes de ir embora, beijou-o no pescoço e disse que o faria
“completamente feliz” no encontro seguinte. “Cheio de
desejos não satisfeitos, apaguei as velas e dormi
profundamente até o meio-dia.”
Em algumas horas, ele tinha nas mãos uma carta, entregue
pela confiável Laura, de sua “esposa”, Caterina, em que ela
afirmava que “não sinto ciúme do que pode distrair vossa
mente e vos ajudar a suportar nossa separação com paciência”.
Ela afirmou tê-lo visto — por uma fenda convenientemente
aberta na parede do convento — entretido em uma conversa
com “minha cara amiga”, a madre Maria Eleonora Michiel. Só
o que queria dele era que contasse tudo, “a história completa
dessa notável ocorrência”. Não fosse por ela, escreveu
Caterina, o aborto teria sido descoberto.
A carta deixou Casanova inquieto. Quem mais o teria visto
com Maria Eleonora? Ele respondeu que ela estava enganada;
por mais encantadora que sua amiga pudesse ser, não havia
amor entre eles.
Em 25 de novembro, indo de gôndola para a missa em
Murano, ele notou que estava sendo seguido. Ao desembarcar,
o homem em seu rastro o seguiu e sua desconfiança aumentou.
Casanova encurralou o antagonista em um canto, “pondo a
ponta de uma faca em sua garganta”, mas nesse momento um
transeunte apareceu e seu perseguidor escapou. A partir de
então, Casanova decidiu ir a Murano apenas de noite,
cuidadosamente mascarado. Quando mencionou o espião para
Maria Eleonora, no encontro seguinte, ela desconversou, para
sua consternação, e mais uma vez protelou a consumação de
sua felicidade. Ainda mais alarmante, o misterioso amante a
visitaria no dia seguinte para levá-la a Veneza: um
acontecimento muito preocupante.
Sob as circunstâncias, ele resolveu lhe dar uma aula
particular de sedução. Escolheu “o mais elegante e portanto
mais caro” cassino, que alugou até a Páscoa por cem zecchini,
pagamento adiantado. O lugar tinha cinco ambientes e
compartimentos giratórios nas paredes, de modo que os
senhores e a criadagem nunca se vissem; espelhos;
candelabros; uma lareira de mármore branco; paredes
decoradas com pequenos quadrados retratando “casais
amorosos em estado natural, cujas atitudes voluptuosas
incendiavam a imaginação”. Ele providenciou para o lugar
peças de linho fino, pantufas e uma delicada touca de dormir
de renda. Haveria borgonha, champanhe… todo tipo de
refinamento… e, disse ele à criada, não esqueça os lençóis!
Admoestou o infeliz cozinheiro por ter esquecido os ovos
cozidos, as anchovas e o molho de salada, com o que o pobre
homem “revirou os olhos com expressão contrita, acusando-se
de ter cometido um grande crime”.
Na hora marcada, foi cumprimentar sua amada Maria
Eleonora. “A noite estava fria mas magnífica, sem o menor
vento.” Uma gôndola com dois remadores apareceu e uma
figura mascarada desembarcou, mas parecia ser um homem, e
Casanova sumiu nas sombras, lamentando não ter as pistolas
consigo. A figura mascarada se aproximou, estendeu a mão e,
nesse momento, “reconheci meu anjo, vestido com roupas
masculinas”. Atravessaram rapidamente a Piazza San Marco
até o cassino, próximo ao Teatro San Moisè. Ao chegar ao
cassino e subir, tiraram as máscaras, e Maria Eleonora
saboreou os detalhes de tudo que ele havia preparado para a
ocasião, enquanto ele a estudava com fascínio e admiração.
Espelhos iluminados por velas multiplicavam o retrato dela,
espalhando sua imagem. Ele estudou seus trajes: “um casaco
de veludo felpudo rosa enfeitado com lantejoulas douradas na
bainha, um colete bordado à mão, combinando, peças que não
poderiam ser mais opulentas, culotes de cetim preto, babados
de renda, fivelas cravejadas de brilhantes” e outras joias. Ela
usava uma bauta decorada com “renda de bilros preta”. Ele
vasculhou os bolsos dela e encontrou uma caixa de rapé, um
frasco de perfume, um estojo de palitos de dente, binóculos de
ópera, lenços perfumados e um par de pistolas inglesas de
pederneira.
Dominado por seus encantos, ele desabou
melodramaticamente em um sofá, queixando-se de que a mera
visão da mulher solapava sua confiança. “Daqui a um quarto
de hora posso nem mais existir”, disse.
“Estais louco?”, ela quis saber. “Vamos para a cama.”
Mas, primeiro, mais conversa, seguida da ceia, e dicas dela
sobre seu protetor, que cuidava de todas as suas necessidades,
porém deixava seu coração se sentindo vazio. “Acho que ele é
mais rico do que vós”, especulou, “embora este cassino possa
fazer uma pessoa concluir o contrário.” A essa altura, estavam
saboreando os sorvetes, o ponche e as ostras. Ele se entregou a
sua nova brincadeira favorita, passar uma ostra crua
diretamente da boca de um para o outro, sentindo a textura
quente, borrachuda, ligeiramente pungente, lubrificada com a
saliva de origens diferentes. Então, por galhofa, deixou cair as
ostras no corpete de sua amada e fez um jogo elaborado de
procurá-las com os dedos e lábios sôfregos.
Finalmente, convenceu Maria Eleonora a ir para o quarto.
“Atirei-me em seus braços ardentes, inflamados de amor, e
dando-lhe as provas mais intensas dele por sete horas
contínuas, que foram interrompidas apenas por igual número
de quartos de hora que devotamos à conversa mais
apaixonada.” Sete horas! Evocou nela inúmeros “suspiros,
êxtases, arrebatamentos e sentimentos autênticos” conforme
lhe “ensinava que o mais ligeiro refreamento estraga o maior
dos prazeres”. Quando se aproximava a aurora, vestiram-se às
pressas, tomaram café e ele a acompanhou até uma gôndola
com destino à ilha de Murano.
Profundamente satisfeito, voltou para Veneza, “onde dez
horas de sono restauraram-me ao meu estado normal”.
Livre outra vez, ele notou um espião “pobremente
mascarado” em sua cola, desembarcando de uma gôndola, que
Casanova suspeitava estar a serviço do embaixador francês.
“Ele não estava de libré e a gôndola era comum, como todas as
gôndolas pertencentes a venezianos”, notou. A observação o
deixou mais alegre do que preocupado, “satisfeito em ver que
o embaixador era meu parceiro mais velho” no amor a Maria
Eleonora. Que excelente companhia ele, o arrivista, filho de
atores, obtivera! A partir daí, o embaixador francês, François-
Joachim de Pierre de Bernis, com seu rosto rechonchudo e
jovial, ligado aos escalões mais elevados da corte francesa,
tornou-se um parceiro em seus encontros amorosos. Apenas
agora, aproximando-se dos quarenta anos de idade, ele era
ordenado, e mais tarde se tornaria cardeal, mas no momento
não dava sinais de ter pressa alguma em abdicar de seus
costumes libertinos.
Não sendo páreo para a intensidade e a expressividade de
Casanova, parecia se satisfazer em dirigir dos bastidores o
affaire de Maria Eleonora e saboreá-lo vicariamente. “Uma
coisa o preocupa muito”, confidenciou a mulher, “ele quer que
eu vos suplique para não me expor ao risco de uma barriga.”
Ciente do aborto de Caterina, ela não desejava sofrer o mesmo
destino. Casanova agiu com cautela, seu cronograma galante
interrompido pela observância da época natalina que se
aproximava.
Aguardando a chegada da amada no encontro seguinte, ele
descobriu uma “pequena biblioteca na alcova” contendo livros
devotados a “tudo que os filósofos mais sábios escreveram
contra a religião e tudo que as penas mais voluptuosas já
escreveram sobre o assunto que é o objetivo único do amor”.
Esses “livros sedutores, cujo estilo incendiário impele o leitor
a procurar a realidade, que é a única capaz de debelar o fogo
que ele sente correr pelas veias”, excitou sua libido, assim
como os “fólios contendo apenas gravuras lascivas”. Maria
Eleonora apareceu, vestida em seu hábito de freira,
sobressaltando-o. Ela chegou a tempo, disselhe ele quando a
abraçava, “de impedir uma masturbação juvenil”.

8. François-Joachim de Pierre de Bernis, cardeal francês, estadista e libertino.

Ela trocou o hábito por um simples roupão de musselina


que ele considerou “o auge da elegância”. Cearam, foram para
a cama e fizeram planos para o futuro. Desse modo passaram
dez dias juntos no cassino, seu romance um segredo aberto.
“Eu a tive quatro vezes e desse modo a convenci de que vivia
apenas para ela.” E quanto a sua “esposa” negligenciada,
Caterina, que vivia no mesmo mosteiro, e que recentemente
sobrevivera a um aborto? Casanova explicou que seu amor
feroz por ela “se acalmara”. No caso de Maria Eleonora,
“nunca podia tê-la senão com o maior medo de perdê-la”, o
que intensificava seu ardor por ela.
Parou e refletiu sobre o papel que seu sócio silencioso, o
embaixador, desempenhava e decidiu que “o tato e o dinheiro
de seu amante haviam feito tudo aquilo, incluindo calar o
cozinheiro e o gondoleiro. Não obstante, Casanova não
conseguia se livrar da desconfiança de que o gondoleiro, ou
alguém como ele, “devia certamente ser um espião dos
Inquisidores do Estado”, e nesse caso ele atraíra seu escrutínio,
pois os inquisidores estavam por toda parte à procura de
traidores, blasfemos e outros inimigos da República. A ideia
elevou a importância de seu romance com Maria Eleonora.
Antes notório que invisível.
Era o fim de dezembro de 1753. Ele acabara de chegar ao
Palazzo Bragadin após sua estadia prolongada no cassino.
Abriu uma carta de Maria Eleonora e leu que, durante suas
noitadas com ela, De Bernis, o protetor, estivera presente,
“oculto em um perfeito esconderijo de onde podia não só ver
tudo que fazíamos sem ser visto como também escutar tudo
que dizíamos”. De Bernis conseguira isso escondendo-se em
um “cubículo cuja existência não podia ser adivinhada”. Ela
prometeu mostrá-lo a Casanova, acrescentando rapidamente
que ele não devia considerar aquilo impróprio. “Vós o
agradastes, não apenas por tudo que fizestes, como também
por todas as coisas divertidas que me dissestes.” Claro, o
arranjo a deixava ansiosa, estava apavorada com o que
Casanova diria sobre De Bernis, “mas felizmente tudo que
dissestes só lhe podia ser elogioso. Essa é a confissão
completa de minha traição, que, como amante sensível, deveis
me perdoar”. Havia mais…
Quando ela se encontrasse com Casanova, no último dia
do ano, “meu amigo estará no cassino”. Ele não se mostraria.
Em vez disso, “vós não o vereis e ele verá tudo”. Ela
recomendou que tomasse cuidado com sua escolha de
palavras; podia falar de literatura, de viagens, de política,
qualquer assunto sob o sol, menos religião. “A questão a
responder é se estais disposto a permitir que um homem vos
veja durante os momentos em que vos rendeis à fúria do
amor.”
“Sua carta me surpreendeu deveras”, admitiu Casanova.
Pensando bem, a ideia apelava a seu intelecto. “Nunca vou
entender como um homem pode ter vergonha de deixar que
um amigo o veja em um momento em que está dando a maior
prova de amor a uma bela mulher”, escreveu. Pouco importava
que De Bernis fosse um “homem estranho dominado por esse
estranho gosto”. Ele agora considerava De Bernis (que nunca
conhecera) seu amigo, e “eu o amo”. Se ela não sentia
vergonha de ser observada, ele também não. O amigo dela era
bem-vindo para “partilhar dos prazeres” que pudesse ver de
seu esconderijo, se era isso que estava entre suas predileções.
E se a visão de dois deles em comunhão arrebatada o levasse a
um frenesi e o forçasse a se revelar e cair de joelhos,
“implorando-me para vos ceder à violência de seus desejos
amorosos” — se isso acontecesse, “darei risada e entregar-vos-
ei a ele”.
Ele enviou sua carta e passou a semana de feriado com
amigos jogando no Ridotto, perdendo 4 mil e até 5 mil
zecchini, sua “riqueza toda” na época, pensando apenas em
Maria Eleonora, com mais saudades do que nunca.
Em um dia gelado no início de 1754, ele voltou ao seu
ninho amoroso no cassino, onde ela aguardava “trajada como
mulher da moda” em um vestido acolchoado azul-celeste”.
Seu rosto tímido e modestamente sorridente parecia dizer: “Eis
a pessoa que amais”. Ele ficou surpreso ao ver que usava ruge
à maneira das mulheres de Versalhes, “de um modo
aparentemente descuidado”. Esse detalhe instigou seu
interesse, como se fosse um afrodisíaco: “O ruge não se
destina a parecer natural, é aplicado para agradar aos olhos,
que enxergam nele o sinal de uma embriaguez que lhes
promete arrebatamentos e frenesis amorosos”. Ela aplicara a
maquiagem não para agradar a ele, mas a seu amante oculto.
“Ele merece ser chifrado”, observou Casanova, “e
trabalharemos para isso a noite toda. Conservei o celibato na
semana passada, mas preciso comer, pois nada tenho no
estômago senão uma xícara de chocolate e a clara de seis ovos
frescos que comi numa salada.”
Ele a ergueu do chão, segurou-a pelas coxas, girou-a,
sentou-se no tapete e a pôs por cima dele, “depois do que ela
teve a bondade de terminar o serviço com sua linda mão,
coletando a clara do primeiro ovo com sua palma”, sua
ejaculação.
“Faltam cinco”, ela disse, limpando a mão com um
“combinado de ervas aromáticas” e oferecendo-a para que a
beijasse.
Quando se sentaram para cear, “ela comeu por dois, mas
eu comi por quatro”. Mais tarde, devoraram ostras, ao estilo de
Casanova, “trocando-as quando já estavam em nossas bocas.
Ela me oferecia a sua na língua ao mesmo tempo que eu punha
a minha entre seus lábios; não existe jogo mais lascivo e
voluptuoso entre dois amantes, é até cômico, mas a comédia
não faz mal”. Ele se regozijava em trocar fluidos doces,
viscosos. “Que molho condimenta uma ostra que chupo da
boca da mulher amada!”, exclamou. “É sua saliva. O poder do
amor só pode aumentar quando a esmago, quando a engulo.”
Quando ela se preparava para a cama, Casanova abriu uma
caixa que estava ali; guardava preservativos feitos de linho ou
do intestino de um animal. A presença deles era mais uma
prova dos pródigos gastos de Maria Eleonora. Ele surrupiou os
preservativos, substituindo-os por algumas estrofes de versos
obscenos, e depois ergueu a cabeça e viu seu amor
resplandecente em um “vestido de musselina indiana bordado
com flores de fio de ouro”. Atirou-se aos seus pés, suplicando
por alívio ali mesmo, mas “ela me ordenou que segurasse meu
fogo até irmos para a cama”. (Isso só podia ter representado
um grande drama para seu grande figurão oculto contemplar.)
“Não quero me preocupar em impedir que sua quintessência
caia no tapete.” Para impedir a desagradável ocorrência, ela
abriu a caixa, encontrando os versos de Casanova, e não os
preciosos preservativos. Inspirada em sua pequena pilhéria, ela
contribuiu com alguns versos de próprio punho: “Quando um
anjo me come, tenho certeza na mesma hora de que meu único
marido é o autor da natureza. Mas para tornar sua linhagem
livre de suspeita, o amor deve instantaneamente devolver-me
meus preservativos”. Assim que ele obedeceu, e
presumivelmente usava um, “encorajei meu amigo a me comer
sem medo”. Casanova devolveu os preservativos enquanto
“fazia uma mui natural imitação de surpresa”.
9. Homens enchendo preservativos.

A essa altura era meia-noite e desabaram no sofá. “Após


imperiosamente pôr minha sultana no estado natural e fazer o
mesmo comigo, deitei-a e subjuguei-a à maneira clássica,
deliciando-me com seus êxtases.” Ele enfiou um travesseiro
sob as nádegas dela e afastou seus joelhos para “permitir uma
visão mais voluptuosa ao nosso amigo oculto”. A “folia” deles
durou uma hora, após o que ele retirou o preservativo e
admirou a reluzente “quintessência” que o enchia, embora
percebendo que ela própria estava “molhada com as próprias
destilações”.
10. Árvore ereta, entre as obras de arte erótica favoritas de Casanova, de Pietro
Aretino.

Fizeram suas abluções e depois assumiram seus lugares


“lado a lado diante de um grande espelho vertical, passando os
braços pelas costas um do outro”. Admirando-se tanto quanto
seu convidado invisível provavelmente fazia, entregaram-se a
“todo tipo de combate, ainda de pé”, até Maria Eleonora
desabar no tapete persa. “Teria parecido um cadáver se os
batimentos de seu coração não fossem visíveis”, observou
Casanova, introduzindo um quê de crueldade na cena. Ainda
que ela estivesse exausta, ele obrigou-a a “fazer a ‘árvore
ereta’”, uma pose atlética retratada na escandalosa e popular
série de ilustrações de Pietro Aretino do século XVI, I Modi —
“Os costumes”. Em sua Árvore ereta, um homem com o pênis
duro tenta o ato sexual com uma mulher de cabeça para baixo
que segura uma pequena roda. “Nessa posição eu a ergui para
devorar seu aposento do amor, que eu não podia alcançar de
outra maneira, uma vez que queria tornar possível para ela, por
sua vez, devorar a arma que a feria até a morte” — o clímax
— “sem tirar sua vida.”
Embora estivessem tão esgotados que ele implorasse por
uma “trégua” no combate, ela exigiu vingança. Insistiu que
trocassem de papéis e fizessem a árvore ereta outra vez. Ela o
segurou “pelo quadril” e o ergueu. Haja vista sua altura, as
pernas e os pés dele devem ter ficado mais altos do que ela.
Quando se preparava para devorá-lo, “ficou horrorizada em
ver seus seios respingados com minha alma destilada em gotas
de sangue”. Perdendo as forças, ela o deixou cair no chão e
desabou em cima dele. Quando se soltaram, ele riu das gotas
de sangue como “a gema do último ovo, que geralmente é
vermelha”.
Quando lavava os seios dela, acalmou seu medo de que
engolir sua ejaculação pudesse lhe causar mal, e ela
lentamente vestiu o hábito e o fez prometer escrever assim que
voltasse a Veneza. Ele partiu antes dela, imaginando que
passaria o resto do tempo com seu amigo oculto numa
celebração da libertinagem.
Ao acordar em Veneza, Casanova voltou ao artista que
produzira o retrato em miniatura para Caterina, dessa vez para
encomendar uma imagem maior para esconder atrás de um
medalhão exibindo um ícone sagrado para Maria Eleonora
usar em torno do pescoço. A seguir desse jeito, todas as freiras
de Santa Maria degli Angeli teriam imagens escondidas de um
certo e ousado jovem veneziano! Nem bem providenciara a
feitura do retrato, ele abriu uma carta de sua “esposa” Caterina
em que esta revelava que ela e Maria Eleonora haviam se
tornado amantes, para seu deleite. Ela havia parado de contar
qualquer coisa sobre si mesma ao seu confessor, em contraste
com a fofoca que enchia o convento e vazava para o mundo
exterior.
Por parte de Maria Eleonora, Casanova soube que a
performance apaixonada no cassino rendera elogios
entusiasmados de seu público de uma pessoa só. “Ele está
louco por vós”, escreveu ela, “e determinado a vos conhecer.”
Passaria a comer salada com clara de ovo para imitar
Casanova. Sua única reticência era que Maria Eleonora fazia
esforços “além da delicadeza de meu sexo”. (Aquela árvore
ereta!) Para fornecer uma expressão concreta ao seu amor, ela
lhe enviou um retrato duplo disfarçado de caixinha de rapé. No
lado de fora, havia a figura de uma freira, de pé; dentro, ela
estava nua em uma cama de cetim negro.
Agora ele se via equilibrando suas afeições por duas freiras
que estavam apaixonadas por ele e eram íntimas entre si. A
situação ficava cada vez mais complicada, no entanto ele
prosperava nas complicações sem esperança de solução.
Casanova assegurou a Caterina “que a afeição que eu sentira
por sua cara amiga de modo algum depreciava a constância de
minha paixão por ela”.
O Carnaval se aproximava. Ele compareceria a um baile
dado no convento, “mascarado de tal forma que minhas caras
amigas não me reconheceriam”. Conforme explicava ao leitor,
que talvez ficasse incrédulo com o pensamento de um evento
assim, “durante o Carnaval em Veneza as freiras tinham
permissão de ter esse prazer inocente”. As freiras observavam
“as festividades de trás de suas amplas grades”, como se
fossem prisioneiras, e ao fim da ocasião iam embora “muito
satisfeitas de terem estado presentes em uma das diversões
laicas”.
Ele se vestiu de Pierrô, o personagem da commedia
dell’arte, empoando o rosto com farinha e usando um traje
branco folgado. O Pierrô etéreo estilizado parece um palhaço,
mas perpetuamente pranteando seu amor perdido, a coquete
Colombina, que, segundo a convenção, traiu-o com o devasso
Arlequim. “Não existe fantasia mais apropriada para disfarçar
uma pessoa, contanto que não seja corcunda nem manca”, ele
observou. O dia estava frio, ele tremia em sua fantasia fina. “O
sujeito não podia estar mais levemente trajado”, suspirou, e
também ele não estava usando um manto quando tomou a
balsa para Murano, seus únicos acessórios consistindo em um
lenço, as chaves de seu cassino e a carteira.
Ele entrou na sala de visitas e tomou seu lugar entre as
festividades. “Vejo Polichinelos, Scaramouches, Pantaleões,
Arlequins, e atrás da grade, acompanhando intensamente com
o olhar, ficavam as freiras, umas de pé, outras sentadas,
Caterina e Maria Eleonora entre elas.” Casanova atravessou a
multidão, fingindo estar embriagado, como Pierrô estaria,
atraindo olhares curiosos. “Paro diante de uma bela jovem
disfarçada de Arlequina e rudemente pego sua mão para fazê-
la dançar um minueto comigo.” Todo mundo ria conforme
Casanova fingia perder o equilíbrio e quase cair, e quando
terminaram, ele ficou esgotado dançando uma vigorosa furlana
atrás da outra; seguindo essa exibição, fingiu descansar e
pegar no sono, até um folião vestido de Arlequim começar a
golpeá-lo com um batte, ou bastão, objeto associado ao
personagem. Quando a companheira do Arlequim entrou na
brincadeira, ele a ergueu no ombro, “estapeando seu traseiro”
enquanto corria, deixando-a aterrorizada de que, caso ele
caísse, sua roupa de baixo ou a malha ficasse exposta à
multidão excitada. As micagens continuaram até outro
personagem da commedia dell’arte, Polichinelo, passar o pé
em Casanova, que caiu de bruços. Enfurecendo-se, ele
desafiou o outro para uma luta, e “joguei-o no chão e o sacudi
com tamanha brutalidade que seu casaco desabotoou e ele
perdeu a corcunda e a falsa barriga”. Com o público
aplaudindo, ele escapou, sem fôlego.
Chamou uma gôndola e se fechou na pequena cabine para
se refugiar do frio e secar o suor que lhe cobria o cabelo.
Jogou a noite inteira no Ridotto, depois tomou outra gôndola
para Murano e seu cassino, onde marchou direto para o quarto,
esperando ver Maria Eleonora, mas a mulher que o encarou
era a jovem Caterina, sua “esposa, usando o hábito de freira”.
Ele sentiu como se estivesse sendo atingido por um raio.
Como Maria Eleonora podia tê-lo traído enviando Caterina,
sua rival e amante secreta? “Percebi alternadamente que fora
enganado, tapeado, emboscado, menosprezado.” E, não
precisava acrescentar, descoberto.
O confronto silencioso durou meia hora. “Tive de me
decidir por um curso de ação, pois não podia pensar em passar
a noite toda ali mascarado como eu estava e sem dizer nada.”
Teve um pensamento perverso: e se Maria Eleonora estivesse
nesse momento escondida no cubículo secreto, observando a
cena? Ao pensar nisso, removeu a máscara branca de Pierrô
para ser acolhido pelos braços de Caterina. Numa torrente de
palavras, ela explicou que acabara de ficar íntima de Maria
Eleonora, e as duas haviam ido ao baile, onde observaram
alegremente Pierrô aprontar travessuras sem se dar conta de
quem era: o amor que partilhavam. “Sois afortunado”,
concluiu, “e desejo-vos felicidade. Madre Maria Eleonora é a
única mulher, depois de mim, que merece vossa afeição, a
única mulher com quem posso me contentar de compartilhar
esse amor.” Ela ordenou: “Beijai-me”.
Que escolha ele tinha? “Eu teria de ser um ingrato e um
bárbaro para não estreitar em meu peito com sinais genuínos
da afeição mais sincera o anjo de bondade e beleza”, embora
considerando que a amiga comum dos dois fizera um “truque
baixo” com ele. Mais tarde nessa noite, o concièrge trouxe a
ceia — salada de clara de ovo, notou ele com uma risada. Sua
fome aplacada, ele refletiu: “Sempre considerei que não há
mérito em ser fiel a uma pessoa que amamos de verdade”. Por
mais nobre ou prático que o sentimento parecesse à primeira
vista, era inteiramente circunstancial e conveniente. O que
mais poderia dizer um homem pego entre duas freiras — logo
o quê! — em sua própria defesa? Felizmente, as mulheres,
talvez devido a sua ligação íntima, permitiram que a
explicação colasse.
Quando soou a meia-noite, Casanova, tendo perdido a
esperança de ver Maria Eleonora nessa ocasião, abraçou
Caterina. Ele ainda a amava, mas não fazia ideia de como
descrever seus sentimentos para ela. “Voltei a pôr meu disfarce
para cobrir a cabeça e me proteger de um vento muito forte e
ululante e desci correndo a escada depois de dar a Caterina a
chave do cassino e lhe dizer para devolvê-la a Maria
Eleonora.” Mas, quando voltou ao traghetto, ou ponto da
gôndola, não havia nenhuma disponível para levá-lo ao
continente. “Segundo os regulamentos da polícia veneziana,
isso nunca pode acontecer, pois a qualquer hora todo traghetto
é obrigado a ter pelo menos duas gôndolas preparadas para
atender o público.” Ele continuava vestido em sua fina fantasia
de Pierrô, exposto ao vento cortante vindo do oeste. Seus
bolsos estavam cheios de ouro que ganhara no Ridotto,
oferecendo mais um risco. “Eu tinha motivos para temer os
ladrões de Murano, bandidos muito perigosos e
determinados.” Caso encontrasse um, não teria arma com que
se defender. “Eu era digno de pena e tremia de frio.”
Ele subtraiu uma parte da pequena fortuna que carregava
consigo e pagou a um homem para encontrar uma gôndola que
o levasse a Veneza antes de o dia raiar. Mas, novamente a
bordo, correu risco de se afogar na laguna ao largo da ilha de
San Michele, a meio caminho de Veneza. Considerava-se um
“bom nadador”, mas duvidava que pudesse resistir à poderosa
corrente. Orientou os remadores a buscar abrigo em San
Michele, porém eles se recusaram. Como era típico dos
teimosos gondoleiros! À medida que o vento aumentava, “as
ondas espumantes transpunham a amurada da gôndola e meus
homens, a despeito de sua força, não conseguiram avançar”.
De repente, uma “furiosa rajada de vento” derrubou na água
um dos homens, “mas ele se segurou na gôndola e não teve
dificuldade de subir a bordo”. Nesse intervalo caótico, ele
perdera o remo e a gôndola saíra muito do rumo. “A situação
era desesperadora.”
Ele bradou mais ordens e atirou um punhado de moedas
para os gondoleiros. Eles “obedeceram na mesma hora” com o
incentivo e logo estavam atravessando um canal no norte de
Veneza, o Rio dei Mendicanti. Casanova orientou os
gondoleiros a seguirem para o Palazzo Bragadin, onde uma
cama e a segurança o aguardavam. Tentando se aquecer
debaixo de cobertores, sentiu-se tão miserável que o sono se
provou impossível.
Mais tarde nesse dia, recebeu uma visita de seu protetor, o
Signor Bragadin. Casanova continuava sofrendo, “mas isso
não impediu o Signor Bragadin de dar risada ao ver minha
fantasia de Pierrô” — molhada, suja e rasgada — “sobre o
sofá”. O homem mais velho deixou ali o febril e delirante
Casanova, suando e tremendo com calafrios. Quando a doença
aplacou, ele jurou consumir apenas alimentos saudáveis.
8. Tonina
Conforme sua cabeça clareava, Casanova começou a ler as
cartas longas e angustiadas de Caterina e Maria Eleonora, em
que tentavam conciliar seu comportamento temerário com o
amor que sentiam uma pela outra, por ele e pela vocação
religiosa. Era uma tarefa impossível, claro. Mesmo enquanto
assegurava as duas de seu amor, bem como de seu próprio
senso de inadequação enquanto “criatura fraca e imperfeita
que não vos pode imitar a ambas”, confessou que alimentava
uma “curiosidade que não ouso confiar ao papel; mas que vós
satisfareis, estou certo, da primeira vez que nos virmos”.1
Estava confiante de que sabiam precisamente que transgressão
ele tinha em mente.
Em 4 de fevereiro de 1754, voltou a encontrar Maria
Eleonora. Ela usava seu hábito, “nosso amor mútuo
declarando-nos igualmente culpados” conforme se ajoelhavam
frente a frente, ansiosos em mostrar arrependimento por
quaisquer desentendimentos ou mágoas que pudessem ter
causado um ao outro. Com beijos desesperados, desabaram em
um sofá, “onde permanecemos inseparáveis até chegar a hora
de um longo suspiro que não poderíamos ter refreado mesmo
se tivéssemos certeza de que pressagiava a morte”. Seu manto
e seu rígido bauta permaneceram no lugar, acessórios que
aumentavam o arrebatamento do encontro.
Quando se recuperaram, Maria Eleonora conduziu-o ao
cubículo secreto que abrigara as testemunhas nas ocasiões
anteriores. Era um ambiente “onde vi todo o necessário para
uma pessoa passar algumas horas”: um sofá-cama, cadeira,
mesa, velas e castiçais. Um painel móvel próximo à cama
deslizava para revelar “vinte buracos” dando para o quarto
onde Casanova e sua amada haviam selado sua união. Quando
examinavam o palco de suas orgias com toda solenidade,
Maria Eleonora oscilou entre o ciúme e a devoção, a
abnegação e o egoísmo. “Se vos casardes com ela”, disse,
referindo-se a Caterina, “tereis uma esposa divina. Quando a
perder, sentir-me-ei miserável; mas vossa felicidade me servirá
de compensação.” Era um mistério para ela que amasse ambas,
assim como era um mistério como Caterina não odiava Maria
Eleonora por atrair seu interesse. Quanto a sua própria
intimidade com Caterina, Maria Eleonora menosprezou-a
como nada além de “prazeres estéreis”.
Com grande franqueza, revelou o nome de seu observador
incógnito. Era o abade De Bernis, o embaixador francês.
Como tal, De Bernis não podia ser visto sequer brevemente,
mesmo numa situação informal, na companhia de Casanova ou
de qualquer patrício veneziano. Isso seria um “crime grave”
aos olhos da Inquisição veneziana. Por esse mesmo motivo,
até as mais ligeiras ligações de Casanova, residindo no
Palazzo Bragadin com três patrícios, o deixavam em posição
precária.
Maria Eleonora presumira que Casanova pertencia à
aristocracia, impressão que ele fez pouco para desencorajar,
pois era um papel que lhe vinha a calhar e combinava com sua
vida aparentemente confortável e sua jogatina. Agora que ela
fazia melhor ideia de suas origens, queria apresentá-lo aos dois
homens por “nome e título”. Claro, o encontro teria um
protocolo elaborado: “Lembrai-vos de que ele está ciente de
que deveis saber que ele é meu amante, mas não deveis
demonstrar ciência de que ele tem conhecimento de nossa
mútua afeição”. O pequeno logro apelava ao amor pela intriga
de Casanova, mas ele permanecia agudamente ciente dos
perigos inerentes ao encontro. “Se eu fosse um patrício, os
Inquisidores do Estado teriam vindo investigar com toda
determinação”, disse, “e as terríveis consequências disso
fazem-me tremer.”
Na verdade, os Inquisidores do Estado já estavam
circulando. Eles eram diferentes do soberano Conselho dos
Dez, um órgão processual interno estabelecido em 20 de
setembro de 1539. Os Inquisidores do Estado funcionavam
como a Suprema Corte em questões políticas e assuntos
relativos à segurança pública, especialmente vigilância.2 Suas
temidas sentenças só podiam ser pronunciadas quando o
consenso era atingido em segredo. Aqui e ali Casanova captara
relances de figuras que achava que podiam ser espiões dos
Inquisidores do Estado; em Veneza, onde espionar era comum,
essa era uma pressuposição digna de crédito. E o que era De
Bernis senão um espião do amor?
Por ora, Casanova deixou de lado tais preocupações e
pensava apenas em quando a ceia iria ocorrer. O encontro
estava marcado para 8 de fevereiro. Durante as duas horas
seguintes, relatou, ele e Maria Eleonora fizeram amor. O casal
pegou no sono e suas bocas continuavam “grudadas” quando
acordaram, seis horas mais tarde, para fazer amor mais uma
vez antes de se vestir correndo para o novo dia.
No dia combinado, Maria Eleonora reuniu Casanova, que
fez uma profunda mesura, e o embaixador, que, ao retirar a
máscara, lembrou que os dois já haviam se encontrado antes,
em Paris. De início, Casanova acreditou que fossem estranhos,
mas depois recordou que haviam se conhecido brevemente em
um jantar. “A partir desse momento”, disse De Bernis, “não
podemos nunca mais esquecer um do outro. Os mistérios que
nos unem são de natureza a nos tornar amigos íntimos.” O
banquete que se seguiu no cassino, com seu esplêndido vinho,
ostras e ditos espirituosos, prosseguiu com elegância gaulesa.
A gravidade não tinha lugar ali. E quando a conversa recaiu
sobre as mulheres, Maria Eleonora e Caterina, Casanova teve a
presença de espírito de parecer esquecido do fato de que De
Bernis viera observando o combate de seu cubículo oculto.
Casanova inferiu que De Bernis planejava incorporar
Caterina em seu esporte, mas era tarde demais para recuar. “A
autoestima, que é mais forte do que o ciúme, não permite a um
homem que aspira a ser visto como inteligente mostrar que
está com ciúme.” Mesmo assim, o pensamento do rico e bem-
nascido De Bernis seduzindo a pequena Caterina afligiu
Casanova, a despeito de suas inúmeras traições. Assim eram
suas reflexões sobre “fraqueza, ciúme e vergonha”. Caterina
chegou e Maria Eleonora deu rédea à paixão delas. Em
minutos, escreveu, “as duas afetuosas amigas começaram a
trocar carícias, o que me fez rir, e que gradualmente
despertaram meu interesse. Tenho o tipo de espírito que se
excita e aprecia um espetáculo com o qual estou há muito
familiarizado”.
Nesse momento, Maria Eleonora chegou com um livro de
gravuras provocantes de um artista conhecido como Meursius,
nom de plume de Nicolas Chorier, advogado francês que, nas
palavras de Casanova, retratava “uma bela série de encontros
amorosos entre mulheres”. O livro, L’Académie des dames,
contava a história de uma mulher casada de 26 anos que
levava sua prima para a cama para iniciá-la na gratificação
sexual antes que a jovem se submetesse aos rigores da vida de
casada.
Folheando o livro, Casanova percebeu Maria Eleonora
lançando um “olhar malicioso para meu rosto”, conforme “me
pergunta se eu gostaria de pedir que a lareira fosse acesa na
alcova”. A alcova continha uma cama grande o bastante para
três e ficava fora do campo de visão do cubículo usado por De
Bernis.
Quando Caterina e Maria Eleonora preparavam um
ponche, despreocupadamente começaram a tirar a roupa uma
da outra, revelando seus seios. “Na mesma hora embriagado
pelo desejo de comparar e avaliar tudo”, Casanova escolheu
uma ilustração do livro “e em menos de cinco minutos ficamos
todos em estado natural e presas do prazer e do amor.
Começaram a trabalhar com a fúria de duas tigresas prontas
para se devorar. A visão de minhas duas beldades em combate
deixando-me em fogo, não sei por onde começar.” Deveria
favorecer Caterina primeiro ou Maria Eleonora? Caterina era
mais magra, porém ele julgava suas coxas e seu quadril mais
amplos. “Seus ornamentos eram marrons, os da outra, loiros, e
eram igualmente hábeis no combate, que as estava cansando
sem a possibilidade de que chegássemos a uma conclusão.”
Ele não podia resistir nem mais um minuto a seus
encantos. “Lancei-me sobre elas e, fingindo separá-las, pus
Maria Eleonora sob mim, mas ela escapa, jogando-me sobre
Caterina, que me recebe com os braços abertos e me faz ceder
minha alma em menos de um minuto, acompanhando minha
morte com a sua, sem que nenhum dos dois pensássemos em
tomar quaisquer precauções.” Quando se recuperaram,
atacaram Maria Eleonora, que ele “segurou em sujeição por
uma hora pelo menos”. Ao fim da peleja, o grupo dormiu por
duas horas. Ao amanhecer, os três, “transportados por fúrias
contínuas, fizeram uma destruição com tudo visível e palpável
que a natureza nos agraciara” até acharem que haviam “se
tornado do mesmo sexo em todos os trios que havíamos
realizado”. Quando por fim se separaram, os amantes
sentiram-se satisfeitos e até um pouco humilhados, “mas não
excessivamente”. Não haveria mais luta entre crime e virtude,
como ele disse. Giacomo Casanova, diletante e dândi, havia
enfim encontrado sua vocação: seria o cafetão filósofo, o
imperador de Eros, o impresario do êxtase.
Pela manhã, ele sentiu remorso por ter manipulado as duas
mulheres, embora elas também o tivessem manipulado. “Tive
certeza de que a ausência do embaixador fora arranjada entre
as duas”, concluiu, mas isso não significava que De Bernis
tinha direito ao mesmo privilégio? Nesse caso, Casanova não
tinha escolha a não ser aquiescer aos planos delas. Outro
pensamento provocou um calafrio de horror em sua espinha. E
se tivesse engravidado uma delas? Ou ambas? As
consequências seriam intoleráveis para todos. Ao menos uma
vez sentiu-se oprimido pelas circunstâncias que trabalhara
tanto para criar. Em vez de enfrentar as mulheres e De Bernis,
ofereceu a desculpa furada de que tinha de cuidar de seu
patrono, o Signor Bragadin, e num péssimo humor foi jogar no
Ridotto, “onde perdi meu dinheiro três ou quatro vezes
seguidas”.
Nas semanas seguintes, o arranjo volátil entre os libertinos
se desmanchou. Ao jantar certa noite com De Bernis e Maria
Eleonora, Casanova expressou preocupação quanto à discrição
dos gondoleiros que os transportavam de Veneza para Murano,
mas, mais do que isso, mencionou a crença de que a relação
deles estava sendo monitorada pela Inquisição, que certamente
a usaria de maneira hostil, e o perigo de serem traídos por
alguma freira que percebesse que Maria Eleonora e Caterina
entravam e saíam do convento com intenções desonrosas. O
pensamento de que pudessem vir a ser desmascarados foi
suficiente para fazer Maria Eleonora ir para a cama e levar De
Bernis a arrumar elaboradas justificativas de que agora “ia
trabalhar” em um elaborado projeto diplomático “que
provocará comentários por toda a Europa”. Aconselhou
Casanova a “se pronunciar contra qualquer coisa que vos
pudesse expor a calamidades” possivelmente “fatais”. Falou
de relacionamentos escandalosos entre freiras e leigos que
terminaram em tragédia. Pelo menos em seu caso nenhuma
das duas estava grávida, mas De Bernis admoestou Casanova:
“Vós vos arriscastes a um terrível infortúnio! Ela acreditava
que era fácil provocar um aborto tomando certos
medicamentos, mas eu a dissuadi da ideia”. Após o sermão,
De Bernis escoltou Casanova de volta a Veneza, onde ele
passou “uma noite muito inquieta”. Ele perdeu todo interesse
em sua “esposa” Caterina, seu coração à deriva em um oceano
de dúvidas.
De Bernis deixou de perceber que a razão podia ensejar o
romance, mas o romance, mais tirânico, nunca ensejaria a
razão. Para demonstrar a Maria Eleonora que conservava
profundos sentimentos por ela, Casanova providenciou um
encontro no fim de maio, a sexta-feira após o Dia da
Ascensão.
Receando ser traído por gondoleiros a soldo da Inquisição,
empregou seu próprio barco e até se vestiu com a roupa de um
gondoleiro. “Posicionado à popa”, conduziu a pequena
embarcação para o cais do convento, pegou Maria Eleonora
“ocultada no capuz de seu manto” e foi para o cassino, onde
tomou o cuidado de prender o barco com uma corrente e um
cadeado “para protegê-lo de ladrões, que se divertiam à noite
roubando quantos barcos conseguiam quando os encontravam
presos apenas por um cabo”.
Embora ele estivesse “pingando de suor”, recordou, “isso
não impediu meu anjo de se pendurar em meu pescoço”.
Devotaram duas horas no cassino a fazer amor; só então se
fortificaram com uma ceia. Ele ficou surpreso ao descobrir que
Maria Eleonora parecia mais apaixonada do que nunca.
Pretendia levá-la furtivamente de volta ao convento às três da
manhã, mas, quando terminaram seu repasto, uma violenta
tempestade começou a cair. “Nada falei”, escreveu, “mas
fiquei aterrorizado.” Decidiu que deviam partir imediatamente
se pretendiam chegar ao convento a tempo. Uma vez a bordo
da gôndola, conduziu-a para além de um ponto exposto, onde
numa noite calma uma pessoa só precisaria de dez minutos
para chegar ao cais, mas sob a tempestade a corrente o
empurrou para trás e ele ficou exausto na luta contra ela. Parar
por um minuto que fosse seria arriscar-se ao desastre. Viu um
barco se aproximando e gritou um pedido de ajuda,
acompanhado por oferecimentos de zecchini.
O resgate aconteceu com eficiência, e em poucos minutos,
Casanova foi capaz de guiar sua embarcação em segurança até
o cais.
Casanova e Maria Eleonora tiveram mais encontros
clandestinos durante os três meses seguintes, mas De Bernis,
sempre ciente de suas atividades, advertiu que “não conseguia
enxergar senão desgraças caso não puséssemos um ponto-final
àquilo”.
Como que para acelerar sua ruína, Giacomo ficou amigo
de mais um estrangeiro, John Murray, um diplomata inglês
“cheio de bom humor, instruído e um prodigioso apreciador do
sexo frágil, de Baco e da boa comida” — e para incrementar
suas credenciais, ele estava “mantendo a célebre Ancilla”, a
notória cortesã que enfeitiçara Casanova em Pádua, Lyon e
Veneza. A despeito de sua proximidade com Ancilla, ele se
segurou. Ela exibia sintomas preocupantes, estava rouca e
queixando-se de uma “dor de garganta”. De fato, encontrava-
se nos últimos estágios da sífilis, não que a enfermidade
esfriasse minimamente sua luxúria. Casanova escreveu: “Um
quarto de hora antes de expirar, seu amante, Murray, em minha
presença, cedeu a sua insistência e prestou a homenagem de
um amante devotado”. A visão dos dois proporcionando prazer
mútuo enquanto Ancilla morria deixou profunda impressão na
lembrança de Casanova; ele chamou aquilo de “um dos
espetáculos mais espantosos que já vi na vida”. Enquanto os
amantes lutavam, ele notou que “o nariz e metade de seu lindo
rosto” estavam enfermos. A desfiguração era causada
provavelmente por ulcerações se espalhando do esôfago para a
faringe e a laringe, até atacarem as mucosas da boca e do
nariz, tornando-a incapaz de falar ou comer. A justaposição da
grande beleza e do grande sofrimento o deixaram pasmo.
À medida que o ano progredia, seu amor por Maria
Eleonora sumia. De Bernis retirou-se de Veneza quando
madame de Pompadour o convocou à França, para grande
desalento de Maria Eleonora, de quem ele fora benfeitor,
amante e inspiração. Ao mesmo tempo, em 1754, a Guerra dos
Sete Anos estourou. Antes de sua conclusão, nove anos antes,
ela envolveria a maior parte dos países da Europa, bem como
suas colônias, reclamando pelo menos 1 milhão de vidas,
talvez até mais.
La Serenissima, protegida por sua marinha, pelos
Inquisidores do Estado e o culto do segredo, seguiu seu
próprio caminho. Com De Bernis a serviço da guerra e suas
exigências, Casanova perdeu seu cassino, e talvez pela dor e
estresse da perda, Maria Eleonora ficou doente. Casanova
escreveu sobre encontrá-la na grade do convento em 2 de
fevereiro de 1755 e percebeu que “a vida dela estava em
perigo. Seu rosto exibia os sinais da morte iminente”.
Preparando-se, ela transferiu seus diamantes, “livros
escandalosos”, dinheiro e cartas para ele com ordens de
devolvê-los todos caso se recuperasse ou de ficar com eles
caso morresse. Ele ficou por perto, em Murano, para cuidar
dela durante a doença, voltando brevemente e com grande
tristeza a Veneza para esconder no Palazzo Bragadin tudo o
que ela lhe dera. Então ele foi para seus aposentos mobiliados
na ilha de Murano para a vigília de Maria Eleonora. Sua
atenciosa intermediária, Laura, providenciara os serviços de
sua filha de quinze anos, Tonina, que passou a noite no
saguão.
Casanova, sendo quem era, não demorou a flertar com a
jovem Tonina, que ansiava por sua afeição. Embora ele lhe
desses seis liras diárias por seu trabalho, tomou o cuidado de
manter distância, “pois corria o risco de ceder muito
facilmente à minha inclinação natural por diversão, que teria
desonrado meu pesar”.
Mergulhando no redemoinho de sua tristeza, ele escreveu
para Caterina, afirmando que se Maria Eleonora morresse, ele
a seguiria ao túmulo, mas…
Pensando melhor, se ela morresse, ele queria fugir com
Caterina. Os dois viveriam da riqueza dela e de seus ganhos no
Ridotto. Ele tinha cerca de 4 mil zecchini em seu nome, um
bom começo.
Quando Caterina leu a carta em voz alta para Maria
Eleonora, ainda gravemente enferma, pareceu induzir
“tremores espasmódicos”, febre alta e horas de delírio em
francês, por sorte, pois assim as outras freiras não podiam
entender o que dizia. Se entendessem, teriam ficado
escandalizadas. “O efeito ominoso de minha carta deixou-me
desesperado”, afirmou Casanova.
O Carnaval chegou e se foi, e no fim de março a paciente
estava fora de perigo e esperando deixar o quarto de
convalescença depois da Páscoa. Casanova prometeu ficar
quieto no apartamento de Murano até o dia em que visse seu
rosto na grade. Por suas contas, passou 48 dias “sem sair do
quarto”, mal comendo ou dormindo, com Tonina sentada em
uma poltrona junto a sua cama, cuidando dele “como se fosse
minha mãe”.
Durante a provação, não deu um único beijo na menina e
não deixou que o visse se despindo, e ele tinha motivo para
sentir orgulho de sua mortificação. Estava incomodado não
apenas com o pensamento de que ninguém, muito menos
Caterina, Maria Eleonora ou a mãe de Tonina, Laura, teria
acreditado que fosse verdade. A doença de Maria Eleonora
serviu para revelar os profundos laços que os uniam, a
despeito dos efeitos corrosivos do tempo, da distância e de
seus outros casos amorosos. Quando Maria Eleonora recobrou
a saúde, suas preocupações com ela diminuíram outra vez.
Casanova criou coragem de deixar o apartamento em
Murano para uma breve viagem a Veneza. Voltou encharcado
após uma tempestade, e nesse ponto o flerte com a jovem
Tonina se tornara irresistível. Quando ela o secava, o camisão
largo da garota subiu e revelou “seios em botão cujo poder só
um morto não sentiria”. Como poderiam continuar sem
provocar uma distração um no outro? Ele propôs que usassem
ambos uma venda antes de ela ajudá-lo a se despir, mas,
quando ela se aproximou, “agarrei-a em meus braços e
ninguém mais pensou em brincar de cabra-cega”. Na cama,
“eu a cobri de beijos e jurei que seria seu até a morte”, e então,
como disse, “colhi sua linda flor, achando-a, como sempre,
melhor do que qualquer uma que colhera durante catorze
anos”. Quando fizeram amor pela segunda vez, ele acreditava
estar mais profundamente apaixonado pela jovem Tonina do
que jamais estivera por outra mulher.
Ao mesmo tempo, Tonina (ou sua mãe) estivera levando
cartas entre Casanova e Caterina, mas ela descartou essa
complicação: “Ela está lá dentro e eu estou aqui. Sois meu
senhor e depende apenas de vós serdes sempre meu senhor”. A
devoção dela o convenceu de que “Tonina parecia ter se
tornado outra pessoa”. Como ele podia ter negligenciado suas
“raras qualidades”? Estivera distraído demais com Caterina e
depois com Maria Eleonora para dar a Tonina a atenção que
ela merecia. Quando ela preparava um elaborado jantar
veneziano para ambos, ele a considerava “a uma só vez minha
esposa, minha amante e minha criada”. Assim Tonina se
tornou uma página menor mas esclarecedora de seu catálogo
de conquistas. Ela era simples e doce, parecendo indiferente a
seus outros amores. E por ser iletrada era perfeita para sua
necessidade de discrição, mas por quanto tempo ele, que não
podia ser mais literário, aguentaria suas limitações? Ele alegou
que passaram 22 dias nesse estado jubiloso até o fim de abril,
quando, como prometeu a si mesmo, viu Maria Eleonora na
grade outra vez, e ela estava “muito mudada”. Ele fez o
melhor que pôde para esconder o fato de que não mais a
amava. “Fiquei com medo demais de que pudesse ficar doente
outra vez se eu a privasse dessa esperança.”
Muitos dos 35 conventos em Veneza funcionavam como
haréns e escolas de escândalo. As freiras, confinadas contra a
vontade por suas ricas famílias para impedir que se casassem
ou engravidassem, escondiam manuais de sexo em seus livros
de oração e passavam as horas ociosas se masturbando com a
pastinaca muranese, ou nabo de cristal, um consolo feito de
vidro veneziano fabricado em Murano e preenchido com água
quente.3
Escarnecendo das regras, muitos membros de ordens
religiosas envolviam-se em casos amorosos, não só Maria
Eleonora e Caterina. Gravidezes indesejadas e filhos
ilegítimos abundavam, assim como abortos secretos e mortes
no parto. Atrás dos muros dos conventos, freiras com os seios
de fora davam bailes e espetáculos, durante os quais recebiam
pródigos presentes de seus amantes e admiradores.4 As
abadessas ocasionalmente recebiam comissões e faziam vista
grossa para as atividades ilícitas das freiras. Estrangeiros de
toda a Europa viajavam a Veneza expressamente para visitar
os conventos e fazer sexo com as freiras. A palavra “freira”
virou sinônimo de “prostituta”. Homens que gostavam de se
travestir usavam hábitos para preservar seu anonimato.
Casanova ouviu uma freira se gabar de seus dez amantes e
relatou que cem zecchini pagavam os favores sexuais da
abadessa do Convento das Virgens.
Esse comportamento não era um acontecimento recente em
Veneza. No século XV, um padre chamado Giovanni Pietro
Leon de Valcamonica mantinha um harém de quatrocentas
freiras em um convento na ilha de Giudecca.5 Ele as
chantageava com suas confissões ou as tentava com presentes,
preparando o terreno para novas chantagens. Vendia seus
bordados para comprar artigos de luxo para si. Quando estava
calor, mantinha suas freiras favoritas por perto, nuas. Se
engravidavam, como muitas vezes acontecia, insistia que
abortassem. No fim, as freiras acabaram por denunciá-lo às
autoridades; ele foi julgado, condenado e decapitado.
Literatura erótica de convento, sempre escrita por homens,
tornou-se popular: Vênus no claustro, ou a religiosa de
camisão e O porteiro da cartuxa (1745), uma história da
iniciação sexual de uma jovem freira por uma irmã mais velha.
Denis Diderot, famoso por sua gigantesca e popular
Enciclopédia, escreveu A religiosa em segredo, e a obra foi
publicada doze anos após sua morte, em 1796. Esse romance
notório foi baseado na história verídica de Marguerite
Delamarre, forçada pelos pais a se tornar freira contra a
vontade. Ela passou trinta anos como prisioneira em um
convento, até a chegada da Revolução Francesa. “Creio que
nunca se escreveu sátira mais terrível dos conventos”, afirmou.
Casanova tampouco era imune à intriga e ao infortúnio. O
irmão de seu protetor, Bragadin, morreu, deixando uma
fortuna e fazendo Bragadin, com a idade avançada de 63 anos,
considerar se casar com sua amante de longa data, com quem
tinha um filho fora do casamento. O casamento traria
legitimidade a seu filho e salvaria a linhagem de Bragadin da
extinção. Casanova não via com bons olhos essas maquinações
financeiras: “Fiquei muito preocupado com a vida de meu
querido benfeitor, que a atividade do casamento teria matado”.
Para piorar suas inquietações, começou a perder “somas muito
grandes” no jogo, incluindo todos os diamantes de Maria
Eleonora. Ela ficara reduzida a seus últimos quinhentos
zecchini e não havia mais conversas de fugirem juntos. Ele
passou a fazer apostas pequenas com adversários ruins,
esperando que a sorte voltasse.
E por fim teve um peculiar jantar com John Murray, o
dissoluto inglês, e Tonina. De manhã Murray escreveu: “Estou
irremediavelmente apaixonado por vossa Tonina”, e passou a
descrever planos detalhados de arrumar para ela uma casa com
criados, renda, tudo de que precisasse, sob a condição de ter
acesso ilimitado a ela. “Eu vos dou oito dias para me
responder.” Casanova precisou de apenas três para dizer que
Tonina talvez estivesse grávida, mas que isso não o impedia de
insistir que aceitasse os termos do inglês: “Pertencereis apenas
a vosso novo amante. Considerai que tomareis posse de um
dote capaz de vos trazer um ótimo casamento e que não estou
em posição de fazer tais arranjos por vós”. Quando sua mãe,
Laura, ficou sabendo dos termos, concordou na mesma hora, e
antes que Tonina se desse conta, tinha um contrato com o
inglês por duzentos ducados venezianos anuais para se tornar
sua amante oficial. Se estivesse grávida, o inglês daria a
criança para Casanova; na verdade, podia continuar a dar a
Casanova “provas de sua afeição até sua gravidez estar
terminada”. Com as negociações concluídas, a jovem Tonina,
às lágrimas, declarou que teria amizade por Casanova, mas seu
amor seria todo de Murray.
Nesse ponto, foi a vez de a irmã menor de Tonina,
Barberina, seduzi-lo. O lugar escolhido foi um pequeno jardim
fechado com uma figueira, e ela ostensivamente subiu em uma
escada para se expor a ele, “apresentando-me uma cena que a
experiência mais consumada não poderia ter imaginado”. Ela
percebeu que provocara “êxtases” nele e logo estavam
planejando a primeira noite juntos. Casanova exultava mais
uma vez. Se ao menos tivesse uma fortuna para estabelecê-la
em uma casa generosa como o inglês havia feito com Tonina!
Consolou-se de que Barberina, ao contrário de Tonina, ainda
era virgem. Um ou dois dias depois, não pôde mais reivindicar
essa condição e Casanova se jactanciou: “Eu estava provando
um fruto cuja doçura nunca sentira tão plenamente no
passado”. Ele planejava alugar um apartamento de dois
dormitórios para eles na Fondamenta Nuove, no extremo norte
de Veneza, de frente para Murano, onde ela podia amadurecer
como um dos figos que colhera no jardim.
Mas nesse ínterim os espiões da Inquisição veneziana o
estavam observando e descrevendo suas atividades em
relatórios secretos, ou riferte. Não tardou para que tivesse de
lidar com o que chamou de “a catástrofe”.
A confusão começou quando Casanova denunciou o
trabalho de outro veneziano, Pietro Chiari, um jesuíta feito
dramaturgo. Chiari escreveu dezenas de peças no gênero
conhecido como comédie larmoyante, ou comédia lacrimosa,
misturando temas farsescos e trágicos que se encerravam com
uma exaltação moral. A difamação literária de Casanova
chegou aos ouvidos de Chiari e os insultos entre os dois
circularam por Veneza. Chiari caricaturou seu Fornicador em
um romance, La Commediante in Fortuna, publicado em
1754. Na versão em língua inglesa (1771), intitulada Rosara;
or the Adventures of an Actress: A Story from Real Life, uma
passagem faz referência a “Vanesio, de nascimento ignorado e,
como informado, ilegítimo. Era um homem bem constituído;
de tez trigueira; tinha modos pomposos e afetados, mas era
muito ousado e presunçoso”.6 A questão da paternidade de
Casanova fora objeto de rumores em Veneza de tempos em
tempos; ele não tocava no assunto publicamente, porém a
possibilidade de que seu pai legítimo não fosse o fracassado
ator Gaetano Casanova, que morrera jovem, mas um outro
desconhecido, sem dúvida importunou seu senso de identidade
e segurança.
Chiari retratou Casanova (na figura de Vanesio) em tons de
acidez e admiração ao mesmo tempo, descrevendo-o como
“um desses fenômenos na atmosfera civil cujo brilho não
sabemos explicar: eles não têm propriedade nem cargo,
tampouco talentos para lhes obter tal afluência”. Tudo que era
estrangeiro excitava seu interesse: “Ele não falava de outra
coisa senão Londres e Paris, como se essas duas capitais
compreendessem o mundo todo. Sempre elegante quanto um
Narciso, sempre vaidoso e andando como um pavão; sempre
agitado como um moinho de vento, sua missão diária era se
intrometer em todo grupo, galantear toda mulher, adaptar-se a
toda circunstância que o provesse dos meios de obter dinheiro
ou ser afortunado no amor”. A despeito de seu dinamismo, era
um hipócrita e “amigo de ninguém”.
As palavras passaram a ameaças quando Casanova recebeu
uma carta anônima advertindo-o de que se cuidasse para não
levar uma porretada na cabeça ou coisa pior. Nesse momento,
calhou de conhecer Giovanni Battista Manuzzi, que percebeu
ser um “espião dos Inquisidores do Estado”. Passando-se por
negociante de pedras preciosas, Manuzzi generosamente lhe
ofereceu “diamantes a crédito”, com a condição de que
Casanova o recebesse em seu apartamento. Casanova deveria
ter ficado com a pulga atrás da orelha; em vez disso, recebeu
Manuzzi em casa. “Observando vários livros que eu tinha por
lá, parou e examinou alguns manuscritos que tratavam de
magia. Apreciando sua admiração, mostrei-lhe como
funcionava a arte de se familiarizar com todos os espíritos
elementares” — parte importante da cabala, considerada uma
compilação suspeita do pensamento místico. Dias mais tarde,
Manuzzi voltou a se encontrar com Casanova não para
negociar pedras preciosas, mas livros. Alegou que “um
colecionador cujo nome não posso mencionar estava
preparado para me dar mil zecchini” — uma soma
considerável — “por meus cinco livros”. Havia uma única
condição: o colecionador queria vê-los previamente para
determinar se eram genuínos, e Manuzzi prometeu devolvê-los
no dia seguinte.
“Eu realmente não dava valor a eles”, recordou Casanova.
“Confiei os livros a ele.”
Manuzzi manteve a palavra e os devolveu prontamente,
mas disse que seu colecionador havia concluído que se tratava
de “falsificações”. Na verdade, Manuzzi entregara as obras
comprometedoras para o secretário dos Inquisidores do
Estado, “que desse modo descobriu que eu era um
arquimago”. De fato Casanova via-se como um intérprete
místico da cabala, aspiração que partilhava com Bragadin e
seus dois outros benfeitores, em geral para manipulá-los de
modo que fizessem sua vontade, mas ele não era nenhum
adorador do demônio, blasfemador (nem quando perdia nas
cartas) ou subversivo dedicado a derrubar a República. Muito
pelo contrário: considerava-se religioso e aspirava apenas a se
tornar parte do establishment veneziano. Não obstante, as
odiosas acusações secretas de Manuzzi pegaram. Como
Casanova ouviu dizer, alguns patrícios acreditavam que ele
desencaminhara Bragadin com a cabala. “A isso tudo
acrescentaram que eu frequentava embaixadas estrangeiras e
que, como morava com três patrícios, era certo que, sabendo
de tudo o que se fazia no Senado, eu vendia essas revelações
por elevadas somas em dinheiro.” Para completar, ele era um
franco-maçom, sinônimo de traição. Quando essas questões
chegaram perante os Inquisidores do Estado, Casanova
declarou: “Foi precisamente o que me arruinou”.
Por um período de sete meses, Manuzzi compilou um
dossiê de relatórios secretos sobre Casanova concebido para
expor seu alvo sob a pior luz possível. Em 11 de novembro de
1754, ele escreveu: “Casanova habitualmente exagera; com
suas mentiras e embustes, vive às custas dos outros. Tem sido
a ruína de Vossa Excelência, o Signor Zuanne Bragadin, tendo
obtido muito dinheiro dele sob o pretexto de que o Anjo da
Luz estava a caminho. É surpreendente como alguém que
obteve tamanho prestígio no país se permita ser tapeado por tal
impostor”.
Manuzzi ficou sabendo que Casanova frequentava o café
Bottega delle Acque. Passando incógnito entre os clientes,
ouviu-o criticando ruidosamente os débeis esforços dramáticos
de Pietro Chiari. Cinco dias depois, deu entrada em outro
relatório. Ao mesmo tempo, Manuzzi determinou-se a
descobrir a identidade do autor de várias sátiras indecentes que
circulavam na Bottega delle Acque. O culpado, claro:
Giacomo Casanova. “A fim de ganhar fama com suas sátiras,
ele as distribui entre os nobres mencionados acima,
acreditando desse modo granjear mérito aos seus olhos,
enquanto eles os menosprezam como um impostor e um
imprestável.”7 Manuzzi tentou repetidamente obter a cópia de
pelo menos uma sátira, segundo seu agravado riferte de 30 de
novembro, mas Casanova mandou avisar que precisava pôr o
sono em dia antes de poder aquiescer, deixando seu algoz
tanto frustrado quanto fascinado por seu elusivo investigado.
Como se essas coisas não fossem suficientes para destruir
Casanova, a empobrecida aristocrata condessa Lorenza
Maddalena Bonafede voltou a assombrá-lo. Antes que ela
pudesse persuadi-lo a se declarar seu amante oficial, ele se
distraiu com Caterina e Maria Eleonora, as duas freiras, entre
outras mulheres. Seu completo desinteresse não impediu a
contessina Bonafede de tentar enlaçá-lo; ele desconfiava que a
necessidade urgente de dinheiro dela e de sua família a
motivavam a persegui-lo. Até mesmo o pai dela, o conde
Bonafede, enfrentava a perspectiva de despejo iminente, e
todos viam em Casanova a salvação financeira. Ele se safou
lhes dando o dinheiro que tinha consigo, mas não antes de
acusá-la, bem como a seu pai, de tentar armar uma cilada. Um
drama se seguiu: “Ela nega, ela chora, ela cai de joelhos. Eu
não olho para ela. Pego meu manto e me vou”.
Ele evitou a condessa por meses, até que, como disse, “a
paixão, a fome e a pobreza deterioraram seus miolos. Ela
enlouqueceu a ponto de sair nua em pleno dia, correndo pelo
Campo San Pietro” — área de prostitutas —, “e pedir a quem
quer que encontrasse e aos homens que a prenderam para ser
levada a minha casa”. Esse incidente ultrajante virou o assunto
de Veneza. O que Giacomo Casanova fizera para levá-la a tais
extremos? A falação virou “um grande aborrecimento para
mim”, como tão insensivelmente afirmou, conforme a mulher
atormentada era internada em um hospital. Os Inquisidores do
Estado decidiram que “a jovem condessa Bonafede
enlouquecera com as medicações e filtros amorosos que eu lhe
dera”. Para completar o espetáculo, “em seus acessos de
loucura, ela nunca deixou de dizer meu nome e despejar
imprecações sobre mim”. Quando recebeu alta, “saiu
mendigando pelas ruas de Veneza como todos os seus irmãos”,
a não ser por um que foi trabalhar como guarda-costas em
Madri. Ela morreu não muito depois, em um hospício.
Os amigos de Casanova o aconselharam a fugir; a todo-
poderosa Inquisição veneziana o investigava. Entre os que o
advertiram estava Bragadin, que fora um agente da Inquisição
e falava com conhecimento de causa. Como Casanova sabia,
“os únicos que podem viver felizes em Veneza são aqueles
cuja existência é ignorada do formidável tribunal; mas fiz
pouco de seus conselhos”. Dar-lhes ouvidos o teria deixado
preocupado, “e detesto preocupação”. Havia muito mais coisa
capaz de lhe provocar ansiedade, como perder seguidamente
no jogo. Ele admitiu: “Eu havia penhorado todas minhas joias
[…] as pessoas me evitavam”. No fim, “todas essas nuvens
escuras e pesadas se juntaram sobre minha cabeça para me
atingir com um raio”. Era apenas questão de tempo antes que
fosse convocado a comparecer perante o tribunal da
Inquisição.
Em 22 de março de 1755, Manuzzi voltou a espreitar sua
presa, que segundo ele parecia estar envolvida num esquema
para trapacear nas cartas — atividade importante numa Veneza
louca pela jogatina — e se associar a devotos de outro credo
blasfemo: “Don Gio Batta Zini da paróquia de San Samuele,
amigo de Casanova, contou-me que conforme revelações
feitas a ele pelo próprio Casanova de certos segredos que
partilhava com nobres patrícios que gostavam de segurar as
cartas nas mãos, recomendou-lhe que não se envolvesse
porque, caso algum acidente acontecesse, eles todos diriam
que trapaceara e toda culpa recairia sobre ele, que o dito
Casanova está sob grande escrutínio público aqui,
principalmente por trapacear nas cartas”. Outro motivo de
preocupação, Giacomo Casanova fizera amizade com os
irmãos patrícios Memmo, e de suas fontes Manuzzi escutou a
frase condenatória: “São um bando de epicuristas”.
A estranha filosofia que Casanova abraçara era um antigo
sistema sucintamente expresso por Filodemo de Gadara,
nascido na Grécia por volta de 100 a.C., em quatro concisos
ditames:
Não tema Deus;
Não se preocupe com a morte;
O que é bom é fácil de obter;
O que é terrível é fácil de suportar.
Era bastante blasfemo; Manuzzi considerou isso um golpe
ainda maior para convencer Casanova a revelar sua
cumplicidade com a franco-maçonaria. Em seu riferte de 12 de
julho de 1755, relatou: “Requeri uma composição de Giacomo
Casanova”.8 As três páginas confidenciais tratavam de “coito
do modo direto e indireto, falsidades diversas, escritos
sagrados e profanos e o nascimento de Jesus Cristo”.
Casanova em seguida abriu seu baú para exibir os aparatos da
franco-maçonaria. “Ele me mostrou um [objeto] de couro
branco que tinha em seu baú da forma de uma pequena faixa
para ser amarrada em torno da cintura. Perguntei-lhe para que
servia e ele respondeu que era usada quando se vai a
determinado lugar, onde a pessoa também deve usar certos
instrumentos e um traje negro. Perguntei-lhe onde estavam os
instrumentos e ele respondeu que são mantidos na loja, porque
é perigoso demais mantê-los em casa. Lembrei-me então de
que o próprio Casanova me contara no passado sobre uma
seita de maçons, sobre as honras e vantagens de pertencer à
irmandade.” Casanova, um franco-maçom? O relato disparou
alarmes nos Inquisidores do Estado.
Algo tinha de ser feito. “Que nada tenha acontecido com
ele até o momento, mesmo frequentando com tal ousadia esses
nobres patrícios e tapeando-os com tais ideias, é um enigma.
Se alguns deles o delatassem, ele estaria encrencado.”
Manuzzi ambicionava fazer esse desgraçado franco-maçom,
vigarista e trapaceiro prestar conta de seus atos.
Para piorar, a influência perniciosa de Casanova espalhou-
se para além dos limites de Veneza. “Pelos últimos sete anos,
mais ou menos, espalharam-se rumores por todo o país de que
Vossa Excelência, Bragadin, e ele se comunicaram com
espíritos e que ao ser avisado por Bragadin de que esse assunto
fora submetido a este Grande Tribunal, de modo a escapar à
punição ou ao exílio, ele deixou Veneza.”9 Manuzzi explicava:
“Ele tem conhecidos entre estrangeiros e a juventude mais
afortunada; negócios nos lares de muitas filhas, mulheres
casadas e mulheres de outros tipos. Consegue se entreter de
muitos modos e sempre tenta algum grande golpe para
melhorar sua sorte, embora não tenha nenhuma carência de
dinheiro para satisfazer cada prazer seu”.
Na última segunda à noite, relatou Manuzzi, um de seus
informantes calhou de estar presente na Bottega delle Acque
quando “Casanova leu uma composição em versos blasfemos
no dialeto veneziano em que está trabalhando neste
momento”.10 Manuzzi tentou obter uma cópia do manuscrito,
mas Casanova se recusou. “O assunto é muito sensível”,
advertiu Manuzzi, “pois mostra o que é necessário fazer com
as mulheres desde [o tempo do] adultério de Davi, do qual
nasceu Salomão, até chegar a Jesus Cristo”. Manuzzi concluiu:
“Não sei o que é mais monstruoso do que esses pensamentos e
conversa sobre o tema da religião, uma vez que Casanova
sustenta que quem acredita em Jesus Cristo é débil mental. Ao
tentar entender Casanova, podemos ver que a descrença, a
impostura, a lascívia e a voluptuosidade se combinam de
maneira a inspirar terror”. Dias mais tarde, Manuzzi
apresentou documentos de apoio, incluindo os versos
blasfemos no dialeto vêneto.11 Com base nessa evidência, o
processo de Casanova avançou rapidamente.
Em julho de 1755, esse “mês fatal” na estimativa de
Casanova, a Inquisição emitiu um mandado para sua prisão
“vivo ou morto”. Esse era de fato um assunto grave, pois “a
mais ligeira ordem dela nunca é promulgada a não ser sob
pena de morte para aquele que a infringe”, explicou. Sem
saber mais o que fazer, assim disse, procurou Maria Eleonora
para pedir um empréstimo; ela lhe confiou quinhentos
zecchini, que ele mais uma vez perdeu no decorrer de uma
noite de jogatina.
“Ao raiar do dia, precisando me acalmar, fui ao Erberia”, o
mercado veneziano de ervas e flores perto da ponte do Rialto.
A toda sua volta, outros jogadores se vangloriavam de seus
ganhos e se pavoneavam com suas mais recentes amantes,
enquanto ele lamentava o fim dos velhos tempos, quando as
venezianas, raramente vistas, eram objeto de fascínio e
mistério. Agora, “se um homem vai até lá com uma mulher, é
para reduzir os amigos à inveja exibindo sua sorte; e, se vai
sozinho, espreita com esperança, ou tenta deixar alguém com
ciúme. As mulheres estão ali só para serem vistas e
ostensivamente constrangidas. Dificilmente poderiam tentar
atrair admiração no estado em que se encontram — como se
tivessem todas concordado em parecer um bagaço para dar às
pessoas algo sobre o qual conversar”. E quanto aos seus
namorados, “seus modos negligentes e desinteresse geral são
calculados para transmitir tédio após o evento e insinuar uma
responsabilidade triunfante pelo desmazelo de suas
companheiras”.12
Caminhando para seu apartamento, ele ficou surpreso ao
dar com a porta entreaberta e a fechadura arrombada. Ficou
sabendo que as autoridades haviam entrado sob o pretexto de
procurar um baú cheio de sal, “o que era estritamente
contrabando”. Haviam ido embora antes que chegasse.
Fechando a porta atrás de si, dormiu um sono breve e agitado.
No dia seguinte, Casanova pediu ajuda a seu protetor, o
Signor Bragadin, mas o sábio e velho homem hesitou. Em vez
de procurar corrigir o mal sofrido, aconselhou Bragadin,
Casanova devia pensar em “escapar em segurança”. O “baú
cheio de sal” que a polícia procurava era apenas um pretexto.
Era possível que não tivessem encontrado Casanova de
propósito para permitir que fugisse. Em todo caso, seria
sensato de sua parte subir na gôndola de Bragadin, viajar de
coche para Florença e aguardar notícias de quando seria
seguro voltar a Veneza. “Se não tendes dinheiro, dar-vos-ei
cem zecchini como presente.” Casanova protestou que não
fizera coisa alguma para incorrer na ira da Inquisição e
preferia ficar, mas nesse ponto Bragadin instou seu protegido a
consultar o oráculo. Casanova se recusou a fazer até mesmo
isso, insistindo que fugir da cidade seria admissão de culpa, e
ele era inocente! Como último recurso, Bragadin pediu ao seu
protegido que passasse a noite em um apartamento no palazzo,
onde ficaria a salvo de ser preso, mas, escreveu Casanova,
“continuo envergonhado de ter lhe recusado o favor”.
Bragadin levou a perspectiva da prisão e suas consequências
muito mais a sério do que Casanova.
Tendo feito tudo que podia, Bragadin observou que a
melhor coisa seria que “não voltassem a se ver”, e Casanova,
por sua vez, implorou “a ele para não me entristecer”. O fim
da ligação pode ter sido um golpe pior do que qualquer coisa
infligida pela Inquisição. “Abracei-o às lágrimas e saí.” A
ocasião sombria marcou a última vez que viram um ao outro.
Bragadin morreria onze anos depois.
Nessa noite, 25 de julho de 1755, Giacomo voltou para
casa, onde tentou dormir. Quando se deu conta, já era de
manhã, e uma batida na porta o acordou, assustado.
Um funcionário do tribunal estava na porta e exigiu ver
seus documentos. “A palavra ‘tribunal’ petrificou minh’alma”,
recordou Casanova, “deixando-me apenas a capacidade física
de obedecer-lhe.” Sua escrivaninha estava aberta, e o
funcionário, junto com vários ajudantes, confiscou seus
manuscritos e cartas. Também estavam à procura de livros de
magia, “e então percebi: o negociante de gemas, Manuzzi, fora
o infame espião que me acusara de possuir aqueles livros
quando o admiti em minha casa”. Os itens incriminadores
eram a Chave de Salomão, um livro de magia sobre a
reputação de Salomão como feiticeiro; o Zohar, obra em
hebraico considerada pedra fundamental da cabala; e Picatrix,
um estudo medieval da adoração do demônio; e outras obras
sobre “conversar com demônios de todas as classes”. Aos
olhos do tribunal, livros como esses eram um indício de que
Casanova praticava as artes proibidas. Passou por sua cabeça o
pensamento de que “aqueles que sabiam que eu tinha esses
livros achavam que eu era um mago e isso me contentava”. E
os livros em seu criado-mudo eram quase igualmente
prejudiciais. Ariosto, Horácio e outros descrentes, bem como
“o livrinho de posturas lúbricas de Pietro Aretino que Manuzzi
também informara”, acrescentavam provas incriminadoras
contra seu dono.
Tendo reunido a evidência, o agente mandou Casanova se
vestir, coisa que fez sem pressa, escolhendo uma camisa de
rufos limpa, um manto leve de seda e um gorro elegante
decorado com renda e uma pluma para a ocasião. Ele iria ao
encontro de seu destino com estilo.
Ao entrar na sala de visitas, encarou trinta policiais —
trinta! “É estranho que em Londres, onde todo mundo é
corajoso, apenas um homem seja usado para prender outro, e
que em meu querido país, onde as pessoas são covardes, trinta
sejam enviados.” O funcionário encarregado mandou
Casanova embarcar em uma gôndola e sentou-se a seu lado
para o trajeto até a sede dos Inquisidores do Estado em uma
ala do Palácio Ducal. O contraste entre o esplendor do palácio,
sua arte, joias e ouro e as salas da Inquisição não poderia ser
maior. Ele passou por uma porta e da luz para a escuridão,
descendo ao inferno. Será que escaparia algum dia?
9. I Piombi
Casanova passou quatro horas trancado numa cela, seu sono
interrompido a cada quinze minutos pela vontade de urinar. Era muito
pouco ao seu feitio, mas ele enchia um penico após outro e atribuiu o
fenômeno ao “ato de opressão” ao qual fora sujeitado.1 Sua “mente
aterrorizada” o levou a se comportar como se estivesse em uma prensa
de vinho, expelindo fluidos.
Uma campainha soou e um guarda apareceu, declarando ter ordens
de pôr Casanova “debaixo dos Chumbos”. Ele foi forçado a entrar em
outra gôndola, que tomou uma rota tortuosa pelo Grande Canal até o
Cais das Prisões. Subiram vários lances de escada até uma ponte, mais
tarde conhecida como Ponte dos Suspiros, ligando o Palácio do Doge e
a Nova Prisão “sobre o canal chamado de Rio del Palazzo”.
Atravessaram uma galeria e ficaram frente a frente com o patrício
Domenico Cavalli, o secretários dos Inquisidores, que disse, segundo
Giacomo: “E quello; mettetelo in deposito” — “É ele; meta-o no
depósito” —, palavras simples marcando o fim de uma vida.
Casanova não foi levado à Nova Prisão, como imaginava, mas aos
Chumbos, I Piombi, localizados diretamente sob o telhado de chumbo
do Palácio do Doge. A segurança era tão estrita que até onde ele sabia
ninguém jamais escapara. O confinamento ali equivalia a ser enterrado
vivo.
Ele confrontou mais portas, cadeados e galerias estendendo-se por
uma escuridão sem fim, mitigada apenas por estreitos feixes diagonais
de luz passando no alto. Partículas de pó flutuavam e sumiam, visão
que criava uma insuportável sensação de melancolia e isolamento,
como se ele estivesse prestes a ver o túmulo onde repousaria pelo resto
da eternidade. “Adentrei um sótão amplo, horrível e sujo, com doze
metros de comprimento por dois de largura, fracamente iluminado por
uma trapeira elevada.” O carcereiro “abriu uma pesada porta revestida
de ferro com um metro de altura e um buraco de vinte centímetros de
diâmetro no centro, e ordenou-me que entrasse bem quando eu olhava
atentamente para um mecanismo de ferro pregado na sólida parede, no
formato de uma ferradura”. Com um sorriso, o carcereiro explicou:
“Quando Suas Eminências ordenam que alguém seja estrangulado, o
preso fica sentado em um banco com as costas para esse colar e sua
cabeça é ajustada de modo que o colar passe por metade de sua
máscara. As duas pontas de uma meada de seda passam por esse
buraco levando a um sarilho no qual são presas. Um homem gira a
manivela até que o paciente tenha entregue sua alma a Nosso Senhor,
pois seu confessor nunca o deixa até que esteja morto”.
Casanova se curvou para entrar e um guarda o trancou em sua cela
apertada. Agora era sua vez de ficar confinado do outro lado de uma
grade de metal, não em um convento, mas na mais temida instituição
penal de Veneza. Uma janela “atravessada por seis barras de ferro com
dois dedos de espessura formando dezesseis aberturas de doze
centímetros quadrados” teria admitido luz suficiente, não fosse uma
das “vigas principais do teto”, com quase meio metro de espessura,
bloquear o sol. Sob o teto baixo, ele tinha de se manter curvado o
tempo todo para não bater a cabeça. Tateando na escuridão quase total,
Casanova viu que não havia cama, cadeira, mesa nem tampouco
nenhuma peça de mobília, “a não ser um balde para as necessidades da
natureza” e uma tábua grosseira presa à parede. “Nela pus meu lindo
manto de seda rústica, meu belo casaco, que começara tão mal sua
vida, e meu chapéu enfeitado com renda espanhola e uma pluma
branca”, como que abrindo mão de sua identidade. Mergulhando no
desespero, ele confessou: “Fui parar em um lugar onde o que é falso
parecia verdade e a realidade parecia um sonho ruim”. Desde a mais
tenra infância que não conhecia tal privação, desamparo e
claustrofobia.
“O calor era extremo. Em minha perplexidade, o instinto me levou
à grade, o único lugar onde podia descansar, apoiado nos cotovelos”,
escreveu. “Ratos do tamanho de coelhos andavam de um lado para
outro. Esses animais pavorosos, cuja visão eu odiava, vinham
diretamente sob minha grade sem mostrar o menor sinal de medo.
Rapidamente fechei o buraco redondo no centro de minha porta, pois
uma visita deles gelaria meu sangue.” Ele passou as oito horas
seguintes com os braços cruzados sobre o peitoril, “no devaneio mais
profundo”, paralisado pelo medo e contemplando o horror que o
cercava. Dizia-se que outra prisão, no porão, ultrapassava até I Piombi
em puro sofrimento, mas Casanova não fez menção a ela. E dizia-se
que prisioneiros de I Piombi podiam pedir comida e mobília do mundo
exterior para aliviar sua estadia, mas Casanova não se valeu desses
pequenos luxos. As sete celas em I Piombi geralmente mantinham
prisioneiros políticos, membros do Conselho dos Dez caídos em
desgraça ou outros notáveis à espera de julgamento. Porém Casanova
não fora formalmente acusado, o que tornava seu tormento ainda pior,
pois não tinha contra o que se defender, nenhuma data de julgamento,
nenhuma esperança de soltura, apenas um Purgatório sem fim
estendendo-se à sua frente. Por que fora preso? Seria por sua coleção
de livros sobre assuntos blasfemos ou proibidos, suas dívidas no jogo,
suas variadas indiscrições em Murano? Teria sido traído por De Bernis
ou até por Bragadin? Quem mandara Manuzzi atormentá-lo? No estado
policial veneziano de espiões e sigilo, ele não tinha como saber. Mais
impressionante de tudo, estava confinado não a algum forte remoto em
uma ilha distante na laguna, mas ao último andar da ala leste do
Palazzo Ducale, residência do próprio doge e sede do Senado, do
Conselho dos Dez e de mais uma dúzia de outras instituições da
República. Obras elegantes, caprichosas e pitorescas de Bellini,
Tintoretto, Pisanello e Ticiano adornavam os corredores e tetos do
palácio. No entanto ele não tinha acesso a nada disso, habitando um
mundo de trevas e ratos, cheirando a dejetos humanos e animais, como
se estivesse a mil quilômetros de distância. A separação física da
opulência de Veneza e do centro de governo era desprezível; a
separação psicológica, imensurável.
No verão, o chumbo do telhado absorvia o calor e transformava I
Piombi em um forno e, no inverno, absorvia o frio e o lugar virava
uma geladeira; as temperaturas extremas sujeitavam os prisioneiros a
pneumonia, desidratação e sofrimento sem alívio. Se não morresse de
fome na cela, ou sucumbisse a uma enfermidade fatal, ficaria louco em
razão do confinamento e da escuridão quase total. Ninguém o visitou,
“nem para me trazer uma cama, uma cadeira ou ao menos um pouco de
pão e água”. Ele rezou para que alguém chegasse antes da meia-noite,
mas ninguém apareceu, e ele recordou: “Sucumbi a uma coisa muito
parecida com a loucura, uivando, batendo os pés, praguejando e
fazendo acompanhar todo esse ruído inútil que minha estranha situação
me levava a produzir com gritos altos. Após meia hora desse exercício
em fúria, não vendo vivalma, sem o menor sinal de que alguém
escutava meus desvarios e amortalhado nas trevas, fechei a grade,
temendo que os ratos pulassem para a cela. Joguei-me no chão após
enrolar o cabelo em um lenço. Essa deserção impiedosa pareceu
impensável, mesmo se eu tivesse sido sentenciado à morte. Minha
consideração do que eu podia ter feito para merecer um tratamento tão
cruel não podia continuar por mais um minuto, pois não vi motivo para
minha detenção. Como grande libertino, um conversador ousado, um
homem que não pensava em outra coisa senão aproveitar a vida, não
podia me ver como culpado, mas percebendo que era não obstante
assim tratado, poupo o leitor de tudo que a raiva, a indignação e o
desespero fizeram-me dizer e pensar contra o horrível despotismo que
me oprimia”. A única coisa que restava a fazer era enlouquecer e
morrer, “porém minha raiva e o desespero que me espreitava e o chão
duro no qual eu jazia não me impediram de pegar no sono; minha
constituição precisava de sono; e quando uma pessoa é jovem e
saudável, sua constituição pode satisfazer sua necessidade sem pensar
duas vezes”.
A badalada da meia-noite o despertou. “Não podia crer que passara
três horas insensível a qualquer desconforto. Sem mudar de posição,
mas ainda deitado no mesmo lugar, sobre o lado esquerdo, estiquei o
braço para pegar meu lenço, que a memória me assegurava ter posto
ali. Quando tateei… Deus! Que surpresa ao descobrir outra mão fria
como gelo! O terror me eletrizou da cabeça aos pés e cada fio de
cabelo em mim se eriçou.” Após uma espera de alguns minutos,
decidiu que “o que eu tocara não passava de um produto da minha
imaginação; convicto disso, estiquei o braço outra vez até o mesmo
ponto e descobri a mesma mão, que, gelando de horror e soltando um
grito lancinante, agarrei e larguei, recolhendo o braço”.
Refletindo um pouco, “decidi que enquanto dormia um cadáver
fora colocado ao meu lado”, talvez um amigo, “que fora estrangulado e
colocado ao meu lado de modo que, quando eu acordasse, encontraria
um exemplo do destino que devia aguardar”. Furioso, ele procurou a
mão do cadáver — “seguro-a e nesse mesmo momento fico de pé,
pretendendo puxar o cadáver em minha direção e assim verificar o fato
em toda sua atrocidade; mas quando tento me soerguer no cotovelo
esquerdo, o mesmo frio que estou segurando ganha vida, recolhe-se e,
para minha grande surpresa, instantaneamente percebo que a mão em
minha mão direita nada mais é que minha mão esquerda, que,
adormecida e dura, perdeu o movimento, o tato e o calor”.
Ele parou e pensou: “O incidente, embora cômico, não me divertiu.
Pelo contrário, foi motivo das minhas ruminações mais sombrias”. Sua
mão dormente o aterrorizara e repelira como um símbolo de extinção e
horror, das profundezas nas quais ele afundaria se fosse abandonado.
Assim que a mão formigou e voltou à vida, ele a reincorporou ao corpo
e reconheceu sua ligação com ela e com as trevas que representava.
Sua razão estava comprometida, sua imaginação propensa a submetê-
lo a falsas esperanças ou a um profundo desespero. Ele estava
aprisionado na realidade grotesca e aterrorizante concebida pelo artista
veneziano Giovanni Battista Piranesi, cujas fantásticas águas-fortes de
prisões, Carceri d’invenzione, retratavam um mundo voltado sobre si
mesmo, uma escada caracol sem fim, um cadeado sem combinação,
um enigma sem resposta. Essa prisão era uma armadilha tanto
psicológica quanto física, a essência da claustrofóbica Veneza como
uma imensa cadeia, com seus espiões e segredos, máscaras e bailes a
fantasia, estendendo-se através da laguna para ilhas repletas de fortes,
mosteiros, conventos e outras formas de confinamento que serviam
como estilo de vida.
Era apenas questão de tempo para que se juntasse às outras vítimas
de I Piombi, quebradas para sempre no corpo e no espírito. A fim de
conservar a sanidade, ele se voltou às consolações da filosofia, assim
como fizera nos momentos mais difíceis e estressantes de sua vida.
Ficou imóvel, perdido num devaneio em que levava o povo de Veneza
a “massacrar os aristocratas”. Não era suficiente deixar as execuções
para os outros, “era eu mesmo que devia massacrá-los”.
Passou horas tentando acalmar a raiva. Por fim, “o profundo
silêncio do lugar, o inferno da humanidade vivente, foi rompido pelo
guincho dos ferrolhos nos vestíbulos dos corredores que tinham de ser
atravessados para chegar a minha cela. Vi o carcereiro diante da grade
perguntando-me se eu tivera ‘tempo de pensar sobre o que queria
comer’”. Ignorando a zombaria, Giacomo pediu sopa de arroz, carne
cozida, um assado, pão, água e vinho. Mais tarde, o carcereiro,
advertindo sobre uma estadia prolongada em I Piombi, deu a Giacomo
papel e lápis para escrever uma lista de todas as coisas de que
precisava: cama, camisas, meias, pantufas, camisola, touca de dormir,
poltrona, mesa, pentes, espelhos, navalhas, lenços, seus livros
confiscados, nanquim, penas e papel. Acontecia de livros, nanquim,
papel, espelho e navalhas serem proibidos em I Piombi, e ele teria de
pagar pelo jantar. Casanova ofereceu um zecchino.
Horas mais tarde, o carcereiro voltou acompanhado de cinco
guardas, que trouxeram o jantar, a mobília pedida e mais um item
essencial: “Meu serviço de mesa consistia em uma colher de marfim
que ele trouxera com meu dinheiro, faca e garfo sendo proibidos, bem
como instrumentos de metal”. E assim sua vida na cadeia se fixou
numa rotina, ocasionalmente pontuada por pilhérias sem graça com
seus guardas. Casanova expressou apreciação por ficar confinado
sozinho, não com criminosos, o que suscitou a réplica: “Como,
Signore? Criminosos? Isso me deixa deveras ressentido. Há apenas
pessoas respeitáveis aqui, que tiveram de ser separadas da sociedade
por motivos que somente Vossas Excelências sabem. Fostes deixado
sozinho numa cela para aumentar vossa punição e desejais me
transmitir vossos agradecimentos por isso?”.
“Não sabia disso”, respondeu Casanova calmamente.
Nos dias subsequentes, ele veio a apreciar o modo como a solidão e
o isolamento criavam o “mais miserável dos mortais. O sujeito anseia
pelo inferno, se acredita nisso, nem que seja pela companhia”. Ele
sonhava com a companhia de um assassino, um maníaco ou um
homem “fedendo a doença” — até um urso. Se ao menos pudesse se
distrair com uma escrivaninha e pena, nanquim e papel. Em vez disso,
tinha apenas o reverberante relógio de San Marco para distraí-lo e as
pulgas trazidas pelos ubíquos ratos. “Um milhão de pulgas divertindo-
se com meu corpo todo, ávidas por meu sangue e minha pele, e
perfurando-o com uma voracidade da qual eu não fazia ideia” o
torturavam por horas a fio, no escuro, sozinho, conforme “os insetos
amaldiçoados davam-me convulsões, faziam meus músculos se
contraírem espasmodicamente e envenenavam meu sangue”.
Quando gastou todo seu dinheiro comprando suas refeições, o
tribunal lhe concedeu uma mesada de cinquenta soldi por dia, mas o
calor intenso diminuíra seu apetite e ele não gastou nem essa quantia
ínfima com comida. “Era a temporada da canícula pestilencial: a força
dos raios do sol incidindo nas placas de chumbo que cobriam o teto de
minha prisão mantinham-me como que numa sauna.” Ele se sentava
em sua poltrona, nu em pelo, o suor escorrendo por cada poro. A
constipação o acometeu por duas semanas, e, quando conseguiu
esvaziar os intestinos, “achei que morreria de uma dor da qual não
fazia ideia”. A causa, hemorroidas, o atormentaram pelo resto da vida.
O calor extremo deu lugar a “calafrios violentos” causados pela
febre. Ficou no leito precário, assegurado por seu carcereiro, Lorenzo,
de que o tribunal teria a magnanimidade de lhe fornecer um médico e
remédios “a troco de nada”. Mais tarde, um médico de “fisionomia
imponente”, de nome Bellotto, apareceu diante de sua porta, mas foi
rechaçado pelo prisioneiro febril. Quando ia embora, advertiu que
Casanova corria risco de morrer, ao que o prisioneiro ao menos uma
vez concordou: “Era o que eu queria”.
Mais tarde nesse dia, o médico voltou, vela na mão, aconselhando
seu paciente a “afugentar a tristeza” e tomar “grande quantidade de
limonada” a intervalos frequentes. Casanova bebeu e sonhou com
“extravagâncias místicas”. Pela manhã, um cirurgião veio fazer a
sangria no paciente e trouxe notícias animadoras: Casanova seria
transferido para outra parte de I Piombi, onde não fazia tanto calor. Ele
recusou, temendo um novo ataque de ratos, mas em todo caso
manteve-se ocupado com água de cevada e uma seringa. “Mantende-
vos entretido com enemas”, aconselhou o cirurgião.
“Ele fez quatro visitas e restaurou minha saúde”, comentou
Casanova, agradecido. “Meu apetite voltou. No início de setembro,
gozava de boa saúde.”
Mas o calor e as pulgas continuavam a atormentá-lo, e seu
carcereiro, Lorenzo, juntou doações com o intuito de que um padre
rezasse missas em nome de Casanova. “A mínima injustiça que
Lorenzo podia cometer contra mim era se apropriar do meu dinheiro e
rezar minhas missas para si mesmo em alguma taverna.”
Toda noite ele pegava no sono na esperança de que o dia seguinte
trouxesse a libertação do cativeiro, mas permanecia confinado a sua
cela. Não teve notícia de seus protetores, embora eles devessem fazer
ideia de onde fora parar; também não teve notícias de seus irmãos, sua
mãe; Maria Eleonora Michiel e Caterina Capretta; ou as outras
mulheres que amara. A não ser pelo repique dos sinos em San Marco, e
a alternância entre calor e frio, o mundo além de sua cela deixara de
existir. Ele vivia apenas no desespero do momento.
Consolava-se com o pensamento de que estava, dia após dia,
cumprindo uma sentença fixa que terminaria em 1º de outubro de
1755, quando os três inquisidores que o haviam sentenciado, Andrea
Diedo, Antonio Condulmer e Antonio da Mula, seriam substituídos.2
Sua conjectura se revelou errônea. Sem que tivesse consciência disso,
fora considerado culpado e sentenciado a cinco anos de prisão por
“ateísmo”, ofensa que cobria uma variedade de pecados. “O único
negócio do tribunal veneziano é julgar e sentenciar; o culpado é uma
máquina que não necessita tomar parte alguma no negócio a fim de
cooperar; ele é um prego que só precisa ser martelado em uma tábua.”
O dia 1º de outubro passou sem qualquer anúncio relativo a sua
iminente liberdade. Ele sofreu dias de “raiva e desespero”, convencido
de que recebera pena perpétua, de que não duraria muito mais. “Das
duas uma, eles me matariam ou eu o faria.”
No sábado, 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, ele começou
a contemplar um plano de escapar de I Piombi, algo que ninguém
conseguira fazer. Melhor suportar o martírio do que esse sofrimento.
Mais ou menos por essa época, quando Lorenzo e dois outros
carcereiros estavam saindo de sua cela, a grossa viga passando
diretamente acima da cabeça deles começou a tremer, virando para a
direita, depois retomou a posição original. Casanova ficou intrigado
com aquilo e de repente perdeu o equilíbrio. Então ele e os outros
homens perceberam que estavam no meio de um forte terremoto. As
ondas de choque continuaram se propagando a intervalos brevemente
espaçados e os carcereiros fugiram em disparada, temendo pela vida, e
por estarem testemunhando a ira divina na presença de seu cativo ateu.
Angustiado, Casanova imaginou o Palácio do Doge desabando,
libertando-o de seu tormento, depositando-o “são e salvo e em
liberdade no lindo pavimento da Piazza San Marco”. Bem mais tarde,
ele percebeu que fora tomado por uma loucura temporária.
O abalo na verdade era proveniente do terremoto de Lisboa de
1755, uma tragédia que matou 40 mil lisboetas e reclamou muitas
vidas mais em Portugal, Espanha e Marrocos. Incêndios e tsunamis
continuaram a destruição por dias após o desastre. Lisboa ficou
praticamente no chão após os tremores, o que incluiu os palácios da
cidade e os arquivos reais contendo registros das viagens de Vasco da
Gama, Magalhães e outros, junto com obras-primas de Ticiano e
Rubens.
Por toda a Europa o terremoto de Lisboa esmagou a crença em uma
divindade benevolente. Os católicos puseram a culpa nos protestantes,
que por sua vez culparam seus acusadores. Todo mundo se perguntava
por que o terremoto ocorrera no Dia de Todos os Santos. Seria esse
acontecimento o julgamento divino de uma sociedade pecadora?
Contudo a Alfama, o bairro da luz vermelha em Lisboa, fora em
grande parte poupado. Que tipo de julgamento divino era esse? Como
tal cataclismo podia ocorrer no melhor de todos os mundos possíveis,
como os filósofos gostavam de repetir? A devastação impressionou
Voltaire, que devotou seu “Poème sur le désastre de Lisbonne” ao
tema, Rousseau e outros filósofos do Iluminismo, que tentaram forjar
uma explicação para as implacáveis forças da natureza.
Poupado da aniquilação, sozinho em sua cela, meditando sobre seu
plano louco de fuga, Casanova permaneceu a salvo, pelo menos por
ora.
Ele repassou o desenho da prisão tal como a conhecera. Acima, as
placas de chumbo de quase um metro quadrado cobriam as celas, três a
oeste, incluindo a sua, e quatro a leste. Do outro lado, as celas eram
altas o bastante para permitir a um prisioneiro ficar de pé — quem dera
pudesse fazer o mesmo —, onde a imensa trave assomava no alto e o
forçava a se manter curvado o tempo todo. Olhando para baixo, ele se
deu conta de que calhava de o piso ficar diretamente sobre a sala dos
Inquisidores, onde as pessoas se reuniam à noite, após as deliberações
diárias do Conselho dos Dez. “Fazendo uma perfeita ideia da
topografia do prédio”, escreveu, “o único modo de escapar com
alguma chance de sucesso que divisei era fazer um buraco no chão de
minha prisão; mas eu precisava de instrumentos, questão difícil em um
lugar onde toda comunicação externa era proibida.” Se ele
estrangulasse seu carcereiro e o guarda, outro guarda no fim do
corredor logo tomaria seu lugar. Não obstante, “quando um homem
enfia na cabeça de realizar determinado projeto e persegue isso em
detrimento de tudo o mais, deve ser bem-sucedido a despeito de todas
as dificuldades”.
Em meados de novembro, ele ganhou um companheiro de cela,
“um jovem algemado que estava chorando. Trancafiaram-no em minha
‘casa’ e saíram sem dizer palavra”. O recém-chegado era baixo, com
pouco mais de um metro e meio, e assim capaz de ficar de pé na cela.
Casanova descobriu que se tratava de Lorenzo Mazzetta, de Milão, que
contou uma história complicada envolvendo uma condessa e uma
gravidez. Ele só se deu conta da gravidade de sua situação quando
Casanova o informou de que estava em I Piombi, e então “começou a
chorar lágrimas quentes”. O pobre prisioneiro ficou arrasado, mas era
jovem e estava vivo; embora extenuado pelos meses na cadeia,
Casanova o consolou. Quando o jovem esperava por cama e comida,
Casanova informou-o de que tão cedo nada viria, e sugeriu que
partilhassem sua refeição, mas o rapaz não conseguia engolir. O novo
prisioneiro acabou ganhando seu próprio catre, os arranjos para as
refeições foram feitos, e os dois receberam permissão de caminhar pelo
sótão.
Ele encontrou cadernos de anotações abandonados que pegou para
si; eram registros de casos criminais muito antigos, acusações relativas
a confessores que haviam “abusado de suas penitentes femininas,
mestres-escolas condenados por pederastia e guardiães que haviam
tapeado seus protegidos” e assim por diante, remontando a “dois ou
três séculos”, um catálogo de astúcia, depravação e malevolência que
lhe deu “algumas horas de prazer”.
À medida que suas caminhadas o deixavam mais forte, ele
contemplava sua fuga. A hora se aproximava, ou assim pensou, mas
teria de aturar mais onze meses de encarceramento antes de arriscar a
vida para obter a liberdade.
O choroso companheiro de cela de Casanova foi transferido para
outra prisão mais confortável chamada I Quattro, onde os detentos
podiam chamar os carcereiros à vontade e contavam com o benefício
de uma lamparina a óleo para iluminar suas acomodações.3 Ele logo
foi substituído. O novo companheiro de cela de Casanova parecia ter
cerca de cinquenta anos de idade, “ligeiramente curvado, esquelético,
com boca grande e dentes compridos e sujos; tinha pequenos olhos
esverdeados e cílios ruivos compridos, usava uma peruca preta redonda
recendendo a óleo e um casaco de tecido rústico cinzento”. Era filho de
um camponês friuliano chamado Squaldo Nobili (“Carlo”, nos
registros da prisão) que levou Casanova à beira da loucura. Em seu
isolamento, concluiu que o mundo o esquecera. Incapaz de aparar a
barba, deixara crescer um arbusto cacheado e parecia por sua vez meio
louco também.
Em 1º de janeiro de 1756, seu carcereiro, Lorenzo, chegou com
presentes que levaram lágrimas aos olhos do prisioneiro: um roupão
forrado com pelo de raposa, uma colcha de seda, uma bolsa de pele de
urso para aquecer suas pernas no frio cortante e dinheiro suficiente
para comprar “todos os livros que eu queria”. Esses preciosos
presentes haviam sido mandados pelo Signor Bragadin, que por fim se
lembrava de seu protegido caído em desgraça. Casanova na mesma
hora escreveu para seu benfeitor, a lápis: “Fico agradecido pela mercê
do tribunal e pela virtude do Signor Bragadin”. O arroubo de palavras
parecia derivar de uma insanidade temporária. “Na intensidade de
minha gratidão, perdoei meus opressores e quase abandonei meu plano
de fuga; como se torna complacente um homem quando o infortúnio o
degrada.” Ficou sabendo por Lorenzo que o Signor Bragadin suplicara
às lágrimas, de joelhos, perante os três austeros inquisidores, que lhe
permitissem enviar os presentes a Casanova, “caso eu continuasse
entre os vivos”. E continuava, por pouco. Reunindo sua presença de
espírito, escreveu “os títulos de todos os livros que eu queria”.
Rejuvenescido, ele voltou a caminhar pelo sótão como antes,
encontrando um “longo ferrolho” no chão. Avaliando o peso,
“considerei suas possibilidades como arma de ataque e defesa” e o
escondeu sob o casaco.
Na privacidade da cela, esfregou o ferrolho contra um pedaço de
mármore, frustrando-se com a dificuldade de fabricar uma arma mortal
no escuro. “Não tendo óleo para lubrificar e amolecer o ferro no qual
queria produzir uma ponta, não usei coisa alguma senão minha saliva e
labutei por duas semanas para limar oito facetas triangulares”,
escreveu. “O resultado foi um estilete octogonal tão bem-
proporcionado quanto seria de esperar de um bom cuteleiro.” A tarefa
deslocou seu ombro direito. “A palma da minha mão ficara em carne
viva depois que as veias se romperam; apesar da dor, não parei o
trabalho; estava determinado a vê-lo melhorado.”
Se fosse pego com aquilo, as consequências teriam sido
devastadoras. Ele escondeu o artefato no fundo de sua poltrona para o
dia de sua fuga. Agora tinha uma ferramenta para “fazer um buraco no
chão sob a cama”. Através dele, poderia descer por uma corda feita de
lençóis presa a sua cama para a sala onde os inquisidores se reuniam.
Uma vez ali, iria se esconder sob uma grande mesa, segurando a arma,
e fugir pela manhã, no momento em que não houvesse ninguém
olhando. Se acontecesse de cruzar com algum guarda, ele o mataria
“mergulhando meu pique em sua garganta”.
Por ora, era essencial impedir os guardas de varrerem o chão de sua
cela e descobrirem o buraco, mas eles insistiam em realizar esse
trabalho servil. Para impedi-los, Casanova fingiu estar doente. Ele
furou um dedo, sujou o lenço de sangue e convenceu Lorenzo a
chamar um médico, que lhe fez uma sangria e passou uma prescrição
depois de Casanova atribuir sua situação ao pó levantado que invadia
seus pulmões. “Lorenzo jurou acreditar que estava me prestando um
serviço e que nunca mais voltaria a varrer o piso enquanto vivesse.”
Casanova riu sozinho do sucesso de seu ardil antes de sucumbir a um
novo sofrimento. “As intermináveis noites de inverno me angustiavam.
Tinha de passar dezenove horas mortais na absoluta escuridão; e em
dias nublados, que não são incomuns em Veneza, a luz que entrava
pela janela e pelo buraco na porta não era suficiente para minhas
leituras. Como não podia ler, eu voltava a pensar em minha fuga, e a
mente com uma ideia fixa tende a enlouquecer.”
No meio dessa insanidade, ele ficou acamado com “uma espécie de
sarampo”, mas sobreviveu à doença, embora ela o tenha deixado
coberto de feridas pruriginosas. Obteve prescrição de um unguento
para aliviar a coceira nos braços. Querendo preparar ele mesmo o
bálsamo, pediu fósforos ao carcereiro para aquecer os ingredientes, e a
essa altura a confiança entre os dois crescera a ponto de Lorenzo
aquiescer sem hesitação. Casanova planejava usar os fósforos em uma
lâmpada que construíra para acabar com a interminável escuridão
hibernal. Sucesso! “Nada mais de noites para mim.” Em seu
entusiasmo, planejava “começar a quebrar o assoalho na primeira
segunda da Quaresma”. Mas, pouco antes que pudesse executar seu
plano de fugir, a porta de sua cela foi aberta, e Lorenzo trouxe “um
homem muito gordo” que assumiu o lugar de “Carlo”.
Casanova reconheceu o recém-chegado logo de cara. Era “o judeu
Gabriel Schalon, célebre por sua capacidade de conseguir dinheiro para
jovens rapazes por meio de negócios ruinosos; conhecíamos um ao
outro, de modo que trocamos as usuais saudações que a ocasião
exigia”. (Casanova data a chegada de Schalon do início da Quaresma
de 1756, mas os registros da prisão indicam que ela na verdade ocorreu
em 19 de dezembro de 1755.)4 A chegada do novo companheiro de
cela atrapalhou seu plano de fuga cuidadosamente elaborado e tocava
na questão do antissemitismo. “Esse judeu, que era desmiolado,
tagarela e estúpido em seu comércio, começou congratulando-me por
eu ter sido escolhido em detrimento de todos os demais para partilhar
de sua companhia”, lamentou-se Casanova, amaldiçoando o infortúnio
de ficar preso com aquele patife. Schalon, de sua parte, considerava
Casanova um criminoso comum. “Estritamente entre nós”, esbravejou,
“os Inquisidores do Estado meteram os pés pelas mãos ao mandarem
me prender, e devem estar se perguntando como consertar sua
burrada.”
“Talvez vos paguem uma pensão, pois sois homem a ser tratado
com consideração”, respondeu Casanova com sarcasmo. Schalon
jactou-se de ser tão bem relacionado que podia ajudar seu pobre
companheiro de cela a obter a liberdade. “O salafrário imbecil
acreditava ser alguém!”, queixou-se Casanova, mas não havia como
fugir da figura singularmente irritante. “Fiquei com essa pedra em
torno do pescoço pelas oito ou nove semanas seguintes”, choramingou,
enquanto Schalon bancava o “exigente, ignorante, supersticioso,
fanfarrão, tímido, às vezes entregando-se às lágrimas e ao desespero”.
Reclamou que a prisão estava arruinando sua reputação, mas, lembrou
Casanova, “assegurei-lhe de que, no que tocava a sua reputação, ele
nada tinha a temer, e o homem tomou meu escárnio por elogio”.
À noite, o insone Schalon resolveu acordar Casanova para que lhe
fizesse companhia. “Homem detestável!”, respondeu Casanova. “Creio
que vossa insônia é uma verdadeira tortura e lamento por vós”, mas
advertiu que, se Schalon voltasse a acordá-lo, o estrangularia. (“Não
acredito que o teria de fato estrangulado”, explicou mais tarde em um
relato inicial de sua fuga, “mas sei que fiquei tentado. Um homem na
prisão que dorme pacificamente não fica aprisionado durante seu doce
sono. […] Deve por conseguinte ver qualquer um que o acorde como
um bruto que vem privá-lo de sua liberdade e afundá-lo de volta no
sofrimento.”) Durante o dia, Schalon exigia que os guardas limpassem
o lugar e desse modo ameaçava expor o buraco para a fuga que
Casanova fizera com tanto esforço. Foi necessária toda sua
engenhosidade para manter os guardas à distância, insistindo que o pó
levantado pela vassoura o deixaria gravemente enfermo.
A perspectiva de soltura atraía e torturava ambos os prisioneiros. A
certa altura, Schalon se convenceu de que estava prestes a ser libertado
quando um representante do tribunal chegou. Casanova observou a
porta ser aberta e Schalon sair, mas, em vez de exclamações de alegria
e agradecimento, Casanova escutou “apenas soluços e gemidos”
quando Schalon voltou à cela. Então Casanova foi convocado. Ele fez
uma mesura para o representante no escuro e em seguida permaneceu
imóvel e em silêncio. “A cena muda durou mais ou menos tanto quanto
a de meu camarada.” O funcionário acenou ligeiramente, mal erguendo
o queixo, e se foi. Casanova voltou à cela e vestiu o casaco de pele. O
frio era brutal. “O ministro do Tribunal deve ter tido de empregar toda
sua força para não dar risada quando me viu, pois minha aparência,
galantemente trajado, mas desgrenhado e com uma barba escura de
oito meses, teria provocado o riso no mais solene dos homens.”
Ele buscou consolo, ou ao menos distração, na religião e começou
a rezar para conseguir escapar. Que santo o guiaria à liberdade?
Decidiu-se por são Marcos, “a cuja proteção eu, enquanto veneziano,
teria algum direito, de modo que lhe enderecei minhas orações, mas
em vão”. Ele em seguida tentou propiciar são Jaime, e depois são
Filipe, “mas me equivoquei outra vez”. Por fim, decidiu-se por uma
figura local, santo Antônio, que, “assim dizem em Pádua, realiza trinta
milagres por dia; mas não foi menos em vão”. Desse modo, afirmou,
tornou-se “acostumado a esperar em vão pela proteção dos santos”. O
único meio em que podia confiar era a arma que lenta e dolorosamente
fabricara.
Quando Schalon, seu insuportável colega de cela, foi transferido
para I Quattro, Casanova silenciosamente voltou ao trabalho “com toda
impaciência”. Suas orações tinham sido atendidas, afinal.
Ele começou a alargar o buraco no chão que levava à sala da
Inquisição, tomando o cuidado de embrulhar em um guardanapo cada
lasca que soltava e despejando o que juntara “atrás de uma pilha de
cadernos de anotações no fim do sótão”, onde ninguém notaria.
No segundo dia após a retomada do trabalho, topou com uma
camada impenetrável de pedaços de mármore cimentados com cal sob
o assoalho. “Fiquei aterrorizado quando vi que meu ferrolho não estava
desbastando o material; foi em vão que golpeei e fiz força; a ponta
deslizava. Fiquei completamente desalentado.” Seu estado de espírito
melhorou quando ele se lembrou de uma passagem do historiador
romano Lívio sobre Aníbal atravessando os Alpes ao amolecer as
rochas com vinagre — “coisa que havia considerado inacreditável”. A
despeito de suas dúvidas, entornou uma garrafa de um forte vinagre na
camada de mármore “e, na manhã seguinte, fosse como resultado do
vinagre ou de minha maior paciência, percebi que seria bem-
sucedido”. O vinagre dissolvera a cal entre os fragmentos de mármore
e ele passou por esse nível para encontrar outro assoalho, o último,
presumia. Agora seu buraco estava com 25 centímetros de
profundidade e ele continuou empenhado em sua missão.
Ele levou um susto em 25 de junho, dia de comemoração em
Veneza. “Nu em pelo, pingando de suor, deitado de bruços, eu
trabalhava no buraco, no qual, para conseguir enxergar, pusera minha
lâmpada acesa”, escreveu. “Fiquei morto de pavor ao escutar o rangido
penetrante do ferrolho na porta para o primeiro corredor. Que
momento!” Ele assoprou a lâmpada, deixou sua ferramenta no buraco,
sem esquecer de jogar um guardanapo por cima e arrastar o catre de
volta sobre a obra toda, deitando-se “como morto bem no momento em
que Lorenzo abria minha cela. Um minuto antes e teria sido pego em
flagrante”. Essa imagem de Casanova, brilhando de suor, prostrado no
chão, penetrando-o com seu instrumento como se o assoalho fosse a
amante mais recalcitrante que já encontrara, revela a paixão que
empregou na tarefa.
O ruído fora causado pela chegada de um novo prisioneiro, o conde
Fenaroli de Brescia, de cinquenta anos, um jogador rico e bem
relacionado, já velho conhecido de Casanova. Os dois se abraçaram,
deplorando o infortúnio comum, ainda que ao mesmo tempo rindo das
circunstâncias do improvável encontro. Ficar encarcerado com um
genuíno conde em vez de um trapaceiro animou Casanova, que extraía
sua autoestima da companhia que mantinha, e ajudou a aplacar as
feridas que sua vaidade sofrera em I Piombi. O remédio para o
desespero da vida na prisão revelou-se a bonomia. Se ao menos
pudessem jogar naquele local, ele ficaria quase feliz.
Os dois conversaram a noite toda — era tudo interessante demais
para parar! —, ignorando da melhor forma possível as pulgas que os
devoravam. O conde teve sua parcela de sofrimento; entre lágrimas,
confessou seu ardor pela Signora Alessandri, tão bela e talentosa, uma
cantora e a amante — na verdade, esposa — de um amigo, e agora que
estava na cadeia, ele sentia terrível saudade dela. “Quanto mais
favorecido é o amante”, observou Casanova, “mais miserável se torna
se é arrancado dos braços da mulher amada.” Recuperando-se um
pouco, o conde alegou que todo mundo em Veneza tentava adivinhar
por que Giacomo Casanova fora mandado para a cadeia. Alguns
diziam que era por blasfêmia, outros, ateísmo, e outros ainda porque
criticara publicamente as comédias do abade Chiari e até ameaçara
matá-lo.
“Tudo invenções”, escarneceu Casanova. “Eu não me importava o
bastante com religião para estar interessado em fundar uma nova.” Seu
ateísmo era igualmente questionável, conforme oscilava entre a fé e o
ceticismo. Quanto aos esquetes patéticos de Chiari, se os Inquisidores
do Estado mandassem prender todo mundo que os vaiava, as prisões
estariam superlotadas.
Ao amanhecer, Lorenzo voltou trazendo café e um generoso jantar
para o animado conde, que ergueu a sobrancelha para o horário do
repasto. Após uma vigorosa perambulação, o conde insistiu que a cela
empoeirada fosse varrida e Casanova não teve escolha senão revelar
seu plano todo, o buraco, a arma, o guardanapo, tudo. O conde ficou
surpreso, até “mortificado” em descobrir o ardil astucioso, mas
encorajou Casanova a terminar o trabalho — se possível, naquele
mesmo dia. Até se voluntariou para segurar a corda que desceria
Casanova à sala abaixo e, depois, puxá-la de volta. Ele mesmo não
tinha interesse em arriscar uma fuga, mas deu os parabéns a Casanova
pelo plano habilidoso e ousado.
Em 3 de julho, após uma semana na cadeia, o conde recebeu a
notícia de que em breve seria libertado. Casanova lamentou a perda de
sua “preciosa companhia”, e passaram as últimas três horas juntos
“fazendo juras da mais terna amizade” antes que Lorenzo aparecesse
para escoltar o conde para a liberdade.
Sozinho, Casanova voltou a abrir seu buraco e a aperfeiçoar seus
planos de fuga. Fixou a data em 28 de agosto, Dia de Santo Agostinho.
“Eu sabia que o Maggior Consiglio se reunia nessa festividade” e sua
rota de fuga estaria desimpedida. Mas, três dias antes do evento,
Lorenzo enfiou a cabeça pela grade da cela para anunciar que
Casanova seria transferido de sua “cela vil para outra, luminosa”, e da
qual poderia ver “metade de Veneza de suas duas janelas”. O teto seria
“alto o bastante para lhe permitir ficar de pé”.
Casanova gemeu. “Achei que fosse morrer.” A transferência
significava que seu plano seria descoberto. Numa bruma de decepção,
ele deixou sua cela, notando que um dos guardas carregava a poltrona
em que ocultara sua arma. “Quem dera eu também estivesse sendo
seguido pelo lindo buraco em que empregara tamanho esforço e que
agora tinha de abandonar, mas isso era impossível. Meu corpo seguia
em frente, porém minh’alma ficou para trás.”
Ele seguiu obedientemente Lorenzo até sua nova cela, que
proporcionava uma vista panorâmica de Veneza, da laguna até o Lido,
“mas eu não estava em condições de ser consolado”, agora que seus
planos meticulosos de fuga haviam sido arruinados. Ele afundou em
sua familiar poltrona, “imóvel como uma estátua” e convencido de que
seus esforços não haviam redundado em nada. “Fiquei sem esperança
alguma, e o único alívio que me restava era não pensar no futuro.” Se
ao menos tivesse marcado a data de sua fuga para três dias antes, seria
um homem livre. Em vez disso, atormentou-se imaginando o pior em
seu futuro, o horror claustrofóbico do confinamento pelo resto da vida.
“O tribunal, senhor dos sótãos e dos porões do grande palácio, podia
perfeitamente ter decretado o inferno para qualquer um que houvesse
tentado fugir do purgatório.”
Lorenzo interrompeu seu devaneio, “espumando de raiva,
blasfemando contra Deus e todos os santos” e exigindo que Casanova
devolvesse todos os instrumentos que usara para fazer um furo no piso
de sua antiga cela. O prisioneiro respondeu que não fazia ideia do que
Lorenzo estava falando. O carcereiro iria lhe mostrar! Ele ordenou aos
sbirri que despissem Casanova e revistassem seu corpo, e então seu
catre, o estofo de sua poltrona e até “o fedorento penico”. Depois disso
tudo, nada apareceu.
Desafiador, Casanova declarou que, se tivesse feito um buraco no
chão, diria a todos que Lorenzo fornecera as ferramentas. Ouvindo
isso, os sbirri urraram de aprovação, enquanto Lorenzo gritava, batia
os pés e dava com a cabeça na parede como um louco. Ordenou aos
homens que levassem os objetos pessoais de Casanova para um
corredor sufocante e estreito com duas janelas lacradas. Vistoriando
seu novo covil, mal capaz de respirar, Casanova percebeu que o
carcereiro não encontrara a arma escondida na poltrona. “Venerei a
Providência e percebi que ainda podia contar com ela como meio de
fuga.”
Após sofrer oito dias com o intenso calor, recusando comida
estragada e ameaçando Lorenzo, ele recebeu uma cesta de limões e
uma garrafa d’água: presente do Signor Bragadin. Mesmo o frango que
acompanhava esses itens parecia comestível, e para iluminar o
ambiente um guarda abriu as duas janelas. À medida que um estado de
espírito mais calmo se instalava, ele despachou Lorenzo para comprar
obras do crítico de arte e dramaturgo italiano Marchese Maffei. O
guarda se perguntou por que o prisioneiro queria mais livros, quando já
tinha tantos.
“Já li todos eles e preciso de novos.” Lorenzo ofereceu-se para
trocar os livros da coleção de Casanova pelos de outro prisioneiro.
“São romances, coisa que não aprecio.”
Eram “livros doutos, e se pensais que sois o único com miolos por
aqui, estais enganado”, disse Lorenzo. O prisioneiro concordou com o
plano do carcereiro.
Conforme a troca era realizada, Casanova, a unha afiada para
formar uma ponta e manchada no sumo de amoras-pretas, escreveu
uma mensagem oculta em um volume. Isso suscitou uma resposta de
um patrício e monge veneziano chamado Marin Balbi, que indicou que
estava preparado para iniciar uma correspondência clandestina oculta
nos livros que passavam de um para outro. Embora Balbi advertisse
que ambos deviam ocultar suas mensagens, Casanova se deu conta de
que Lorenzo inspecionaria os livros e mostraria quaisquer anotações
manuscritas que achasse ao “primeiro padre que encontrasse na rua”.
E, assim, “concluí na mesma hora que esse padre Balbi devia ser um
cabeça-oca”. Balbi vangloriava-se de ter sido condenado por
engravidar três virgens, cada uma das quais dera à luz uma criança
batizada “com seu próprio nome”, devido ao “amor paternal que sentia
pelos pobres inocentes” — e porque era rico e suas mães, não. Ele
aconselhou seu correspondente invisível: “Não há perigo de que meu
superior incorra na mesma falta, uma vez que sua piedosa afeição é
demonstrada apenas com seus jovens pupilos”. As mensagens de Balbi
também revelavam que Lorenzo, o carcereiro, temia por sua vida caso
se descobrisse que fornecera a Casanova as ferramentas para a
execução da fuga. Por outro lado, o Signor Bragadin prometera a
Lorenzo mil zecchini para ajudar Casanova a fugir. Servir dois
senhores deixava o carcereiro numa posição precária.
Em troca de suas informações, Balbi pediu mais notícias de
Casanova, que inventou uma história sobre uma “grande faca” que
escondera junto à janela perto de sua cela. Como Lorenzo não fora à
procura da faca, Casanova concluiu que o carcereiro não devia ter lido
as cartas clandestinas. Tranquilizado, ele recrutou o padre Balbi para
seu plano da grande fuga. “Comecei por lhe perguntar se desejava a
liberdade e se estava preparado para arriscar tudo o que tinha a ganhar
fugindo comigo.” O padre Balbi respondeu que sim, mas acrescentou
uma lista de quatro páginas dos obstáculos para atingir esse objetivo
que “teriam me mantido ocupado pelo resto da vida se tivesse tentado
evitá-los”. Assim que o monge tirou isso do peito, Casanova
prosseguiu com seu plano.
Como sempre, era importante tratar Lorenzo com cuidado; o
esperto carcereiro podia ajudar a subverter a ilícita empreitada deles.
Casanova o distraiu com tigelas gigantes de nhoque, manteiga
derretida e queijo parmesão para celebrar a festa de São Miguel, em 29
de setembro. Era um plano ousado — sfacciato. Lorenzo concordou
em levar uma tigela para o padre Balbi na ocasião, e Casanova pôs por
cima uma grande Bíblia escondendo um ferrolho apropriado para abrir
um buraco no chão. Era para levar o nhoque com cuidado, advertiu
Casanova ao carcereiro, “para que a manteiga do prato não espirre e
suje a Bíblia”. Recebendo o nhoque, a Bíblia e o ferrolho, Balbi assoou
o nariz três vezes para sinalizar que estava tudo em ordem e pegou o
ferrolho, mas depois de tudo isso removera apenas um tijolo da parede
em 8 de outubro.
Não importava, Casanova “tinha de fazer o que eu estava fazendo
ou desistir do meu plano todo”. Quando a empreitada era grandiosa, o
negócio era executá-la, não ficar falando a respeito. O mesmo se
aplicava ao padre Balbi, que voltou a pôr mãos à obra e “removeu 36
tijolos da parede”. A fuga começava a tomar forma.
Em 16 de outubro, quando matava o tempo traduzindo as Odes de
Horácio — considerações poéticas datando de 23 a.C. sobre assuntos
variados como o amor, a natureza e a vaidade dos ricos —, Casanova
ouviu uma série de batidas do monge, indicando que a escavação
estava quase completa. “Com um parceiro”, estimou Giacomo, “fiquei
certo de que em três ou quatro horas podia fazer uma abertura no
grande telhado do Palácio Ducal”, subir nele de alguma forma e descer
até o chão… nesse exato instante seu sangue gelou, quando escutou a
porta da cela se abrir e viu Lorenzo trazendo o “salafrário abjeto”
destinado a ser seu novo companheiro de cela. O homem estava em
péssimas condições, imundo, mãos e pés atados, esquelético, e usava
uma “peruca preta redonda”. Seu nome era Francesco Soradaci e
representava um “obstáculo fatal” para o plano de fuga. Ele deu tal
demonstração elaborada de devoção, orando e procurando um
crucifixo ou qualquer outro objeto religioso para mostrar sua fé, que
esse comportamento “levou-me a pensar que me tomava por judeu”.
Casanova dissuadiu-o dessa ideia à custa de mais tempo. Ele
acompanhou o homem em todo tipo de observância cristã, mesmo
desconfiando que seu companheiro de cela era um “monstro” que
merecia a cadeia. Essas terríveis distrações não teriam fim?
Sob a proteção da escuridão, Casanova escreveu para o padre Balbi
dizendo-lhe que retomasse o trabalho; o momento da fuga se
aproximava. Os três primeiros dias de novembro eram feriado em
Veneza e os Inquisidores do Estado e outros venezianos proeminentes
abandonavam seus palacetes e iam para suas mansões de veraneio
junto ao Brenta, um bucólico canal na região do Vêneto, ao sul. Com
seus senhores longe, era fatal que Lorenzo ficasse bêbado. Mais uma
vez, Casanova criou coragem. “O maior alívio que um homem vítima
do infortúnio pode obter é a esperança de escapar em breve dele.” Para
vaticinar se a hora enfim chegara, Casanova consultou o Orlando
furioso de Ariosto, um poema épico em 46 estrofes terminado em
1532. “Eu venerava sua genialidade e o achava muito mais apropriado
do que Virgílio” — a fonte tradicional de adivinhação — “para
predizer minha boa fortuna.” Influenciado pelo treino cabalístico, e
pela numerologia, ele examinou uma estrofe que mencionava um
período entre o fim de outubro e o começo de novembro. Pareceu-lhe
que a passagem indicava a meia-noite de 31 de outubro, e assim ele se
decidiu por esse momento para fugir.
Até lá, distraiu o demente Soradaci fingindo conversar com a
Virgem Maria, que advertia o outro a desistir de suas perfídias e
permitir a Casanova cuidar de sua vida. Com toda a gravidade que foi
capaz de reunir, previu que o teto da cela se abriria e um anjo do céu
desceria para levá-los dali, se o padre Balbi jurasse não espionar
Casanova. O diálogo persistiu por horas, “e a comédia me entreteve
enormemente, pois eu tinha certeza de que a chegada do anjo deixaria
a razão miserável do bruto vacilando”.
O anjo — padre Balbi — estava programado para chegar às duas
horas. Quando Casanova escutou débeis ruídos, ordenou ao crédulo
colega de cela que caísse de joelhos. “Ele obedeceu, fitando-me como
um idiota com olhar vazio.” Casanova se prostrou e empurrou o outro
para o chão. Os dois permaneceram de bruços até Balbi ter completado
sua escavação e partido. Da maneira como as coisas estavam,
Casanova calculou que escapariam em 31 de outubro. Nesse ínterim,
fantasiou maneiras de se livrar de Soradaci, se possível estrangulando-
o, “como qualquer outro homem racional mais cruel do que eu teria
feito”. Como Casanova analisou a situação, “sua lealdade duraria
apenas durante o frenesi de seu fanatismo, que estava fadado a
desaparecer assim que ele visse que o anjo era um monge”. Conforme
planejava a fuga, ele ficou claramente tomado pela própria capacidade
de manipular seu caminho para a liberdade e, embora mal admitisse, a
predisposição de Lorenzo em permitir que ocorresse o êxodo de I
Piombi, predisposição comprada pelo Signor Bragadin em prol do
jovem que outrora salvara sua vida. Outros prisioneiros haviam
morrido ou enlouquecido na prisão, mas Casanova ficava cada vez
mais fortalecido e resoluto. O jogador sensualista, pretenso escritor,
alpinista social e sedutor exibia uma feroz vontade de sobreviver.
Antes de ir, ele cortou a barba de seus colegas prisioneiros. Depois
de aparar as próprias suíças, subiu pelos buracos que ele e o padre
Balbi haviam aberto com tanto esforço. Rastejando rumo a “um
imenso telhado inclinado coberto de placas de chumbo”, encontrou
outro prisioneiro espreitando nas sombras, que o advertiu contra a
perigosa fuga. “Só o que peço”, proclamou Casanova, “é conseguir
avançar até encontrar a liberdade ou a morte.”
Começou a abrir um buraco entre as vigas apodrecidas do telhado.
“A cada golpe desferido com meu pique, tudo era feito em pedaços.”
Estava tudo apodrecido, símbolo da glória decrépita de Veneza,
vulnerável aos golpes infligidos por um único indivíduo. Tendo
penetrado o telhado como queria, ele voltou ao seu quarto, onde fez
uma corda com lençóis e guardanapos, lembrando de empregar “nós de
tecelões, pois um nó malfeito podia se soltar e quem quer que estivesse
pendurado na corda nesse momento teria caído até o chão”. Então ele
voltou ao trabalho em sua rota de fuga, planejando completá-la às oito
daquela noite. “Passando a cabeça pelo buraco, fiquei aflito ao ver a
luz brilhante da lua crescente”, que lançaria luz demais sobre a
escapada até chegar a hora de se pôr, após a meia-noite. “Numa noite
esplêndida, quando todo mundo com os mais diversos propósitos
estaria passeando na Piazza San Marco, eu não podia me arriscar a ser
visto andando ali em cima.” Eles projetariam compridas sombras ao
luar, os sbirri perceberiam, os prenderiam e isso “arruinaria todos os
meus belos planos”. Mas, depois que a lua sumisse, segundo seus
cálculos, teriam sete horas de completa escuridão para escapar.
Reunindo-se na cela de Casanova, os conspiradores conversaram
empolgadamente entre si, antecipando sua fuga, com exceção do padre
Balbi, que lhe disse “dez vezes seguidas que eu quebrara minha
promessa, uma vez que lhe assegurara em minhas cartas que meu plano
estava preparado e era infalível, quando na verdade não era nada
disso”. Se o monge tivesse sabido dessa incerteza de antemão, nunca
teria cooperado!
Com a fuga próxima, enfrentaram um monte de preocupações
práticas. O telhado se inclinava em um ângulo tão acentuado que não
podiam caminhar em cima dele, nem sequer ficar de pé. Suas cordas
não seriam de nenhuma ajuda, pois não conseguiriam amarrá-las ao
telhado escorregadio. Havia mais: seria necessário que o primeiro a
fugir descesse os demais até o chão com a corda, como que baixando
um balde em um poço. O que o último homem deixado para trás faria?
Quem ele trairia para salvar a própria pele? Se não se matassem na
tentativa de escapar, provavelmente seriam capturados pelos sbirri,
feriado ou não. Não tinham gôndola nem nenhuma embarcação a
postos. Em sua condição debilitada, teriam de nadar para se salvar, ou
pelo menos aqueles dentre eles que sabiam nadar. E se perdessem o
equilíbrio no chumbo íngreme e caíssem? O raso canal não salvaria
seus pescoços. Se tivessem muita sorte, talvez quebrassem braços e
pernas e, uma vez recapturados, ver-se-iam de volta à prisão sob
condições piores e sentenças ainda mais longas. Casanova acreditava
estar preparado para tais exigências, mas preferiu não discutir sua
estratégia com aqueles dois parceiros indignos de confiança.
Em meia hora a lua desapareceria de vista. No momento, uma
espessa neblina cobria o telhado com uma névoa escorregadia.
Soradaci prostrou-se de joelhos, beijando suas mãos. “Tenho
certeza de que cairei no canal”, choramingou. “Deixai-me aqui e
passarei o restante da noite orando a são Francisco por vós.” Feliz em
se ver livre dele, Casanova concedeu ao homem o que ele desejava e
então virou para o monge dizendo que o covarde não valia a honra de
escapar com eles, sabendo plenamente que o padre Balbi não passava
de “mais um covarde em que esperava despertar algum senso de
honra”.
Casanova se concentrou em redigir uma carta formal com pena,
nanquim e papel adquiridos ilegalmente com Lorenzo, “que teria
vendido o próprio são Marcos por um escudo”. Nela, pôs-se a registrar
sua aventura, sabendo que talvez vivenciasse suas horas finais.
Ocorreu-lhe que a fuga de I Piombi consistia no primeiro — e muito
possivelmente no último — evento significativo de sua vida.
Nossos Senhores os Inquisidores do Estado estão determinados a fazer de tudo
para manter um culpado na prisão à força, mas o culpado afortunado o bastante
para estar em condicional também deve fazer tudo que puder para conquistar sua
liberdade. O direito deles está fundamentado na justiça; o do culpado, na
natureza. Assim como eles não precisam de seu consentimento para trancafiá-lo,
ele não precisa do deles para fugir.

Giacomo Casanova, que escreve isto com amargura em seu coração, sabe que
está sujeito ao infortúnio de ser pego antes que deixe o Estado e devolvido às
mãos daqueles de cuja espada ele busca fugir, e nesse caso apela de joelhos à
humanidade de seus generosos juízes.

O bilhete em sua cela exibia um tom mais desafiador: “Uma vez


que não pedis minha permissão para jogar-me na cadeia, não vos peço
a vossa para sair”.
Se fosse bem-sucedido em sua fuga, Casanova instruía os
carcereiros a entregar seus pertences ao miserável Francesco Soradaci,
que rotulou como um covarde; com efeito, “Casanova roga à
magnânima virtude de Vossas Excelências não negar ao infeliz o
presente que ele lhe fizera”. Com um floreio melodramático final,
observou que escrevia “uma hora antes da meia-noite, sem luz”, em 31
de outubro de 1756. Entregou o bilhete para Soradaci e “o idiota
respondeu que esperava me ver outra vez e devolver tudo para mim”.
A lua sumia de vista; chegara a hora de partir. Casanova prendeu-se
ao padre Balbi com as cordas, vestiu um colete com alguns itens
básicos, enfiou o chapéu na cabeça, assim como o recalcitrante monge,
e “partimos para ver o que podíamos encontrar” no escuro e na
neblina, sessenta metros acima do chão. Casanova foi primeiro,
seguido pelo padre Balbi, enquanto Soradaci devolveu a placa de
chumbo ao seu lugar.
De gatinhas, Casanova avançou pelo telhado úmido, orientando-se
pelas bordas das placas, e assim, escreve, “fui capaz de me segurar no
alto do telhado” enquanto arrastava o monge, que mantinha quatro
dedos de sua mão direita na fivela do cinto de Casanova, de modo que
Casanova se sentia “como uma besta de carga, ao mesmo tempo
carregando e puxando, e ainda por cima escalando uma inclinação
úmida de névoa”. Quando o monge choramingou que uma de suas
trouxas se soltara e caíra nas escuridão, “minha primeira reação é a
tentação de lhe aplicar um belo pontapé”, mas resistiu ao impulso,
reconhecendo que precisava do monge desastrado para completar sua
escapada.
Atravessaram dezesseis placas ou algo assim e descansaram
escarranchados em um pico metálico, observando a laguna
amortalhada na bruma. Às suas costas estendia-se a ilha de San
Maggiore, à frente, os domos da basílica de São Marcos, um panorama
geralmente partilhado apenas por pássaros e espíritos.
Tomando fôlego, Casanova descansou suas cordas e trouxas e
instruiu o monge a fazer o mesmo, mas, quando ele fazia isso, uma de
suas trouxas caiu no canal. Um mau sinal, alegou o monge.
Besteira, disse Casanova, um percalço comum; nem mesmo uma
pessoa supersticiosa consideraria aquilo um mau agouro. Era uma sorte
ter caído onde caiu; se tivesse caído no pátio, os guardas teriam
descoberto e “encontrado uma maneira de nos visitar”.
Cada passo era um convite ao desastre ao atravessarem o mar de
painéis úmidos. Seu período no cárcere o preparara para o ordálio;
tivesse escapado antes, teria sido delicado e medroso demais para se
pôr à prova. Agora estava ávido por liberdade.
No decorrer de uma hora procurou lugares para jogar a corda e
baixarem-se até o chão, mas, sem um caminho óbvio, viu-se “na maior
perplexidade”, e contudo devia avançar, ser “ousado mas não
temerário”. Contemplando os arredores, avistou uma água-furtada a
média distância… cautelosamente, deslizou para lá — um escorregão e
se espatifaria no chão —, e no momento em que a alcançou, como que
por milagre, o sino da meia-noite soou na São Marcos, anunciando o
início do Dia de Todos os Santos, e ele recordou a passagem
enigmática em Orlando furioso relativa ao fim de outubro e ao início
de novembro que parecia indicar o momento apropriado de executar
seu plano. “O repique do sino falou comigo, instou-me a agir e
prometeu-me a vitória.”
Segurando o ferrolho, ele quebrou a janela e o caixilho de madeira.
Sua mão sangrou de um ferimento superficial causado pela beirada
irregular de uma vidraça quebrada quando ele removeu a grade e
voltou ao monge, “desesperado, furioso e num humor atroz” por ter
sido abandonado por duas horas. Casanova o silenciou e os dois
rastejaram de volta para a janela quebrada.
Em pânico, o monge tentou convencer Casanova a baixá-lo no
espaço aberto e reunir-se a ele quando julgasse melhor. Mais uma vez,
Casanova precisou de todo autocontrole em face de sua covardia, mas
depois decidiu, por que não? Passou a corda em torno do peito do
monge e lentamente o desceu, os pés primeiro, para o piso do sótão.
Casanova avaliou que a distância de sua posição no telhado para o
piso consistia em “dez vezes o comprimento do meu braço” — muito
longe para se arriscar a pular; podia quebrar uma perna, ou pior. Nesse
momento, encontrou uma escada usada para reparos, prendeu sua
corda em um degrau e lutou com todas as forças para empurrar a
escada pela janela da água-furtada. Esse expediente talvez houvesse
funcionado, mas significava deixar a escada exposta após sua descida,
denunciando sua posição para os sbirri.
Em vez disso, posicionou-se na calha e empurrou a escada na
direção da janela, tentando não perder o equilíbrio, sob risco de cair de
cabeça no canal abaixo. Quem dera tivesse o monge ao lado para
ajudá-lo a manobrar a desajeitada escada! Sozinho, empurrou, puxou,
arrastou… a certa altura, perdeu o equilíbrio e “meu corpo mergulhou
no espaço até a altura do peito, ficando pendurado pelos meus dois
cotovelos”.
Fazendo força contra a calha para recuperar o equilíbrio, uma
câimbra odiosa “praticamente paralisou todos os meus membros”.
Após a dor ceder, ele galgou a janela, arrastando a escada atrás de si,
jogando a corda e as trouxas na frente, e caiu nos braços do padre
Balbi, que puxou a escada para dentro, a salvo dos sbirri, e
cumprimentou Casanova em triunfo. “De braços dados, fizemos a
ronda do lugar escuro onde estávamos, que devia ter nove por três
metros.”
Guardaram o equipamento, e nesse instante Casanova sucumbiu a
uma “absoluta exaustão de corpo e mente” e ferrou “tão
irresistivelmente no sono que acreditei me entregar para a morte”. Ele
e seu imprestável parceiro continuaram inconscientes por três horas e
meia até que foi despertado pelos gritos agudos do monge. Ainda que
fizesse um dia ou talvez dois que comera pela última vez, Casanova
sentiu-se revigorado com o repouso e ao ver que não estavam mais na
prisão, mas em um sótão. “Deve haver um modo perfeitamente simples
de sair daqui.” Contudo, ele ainda se via confinado, aprisionado no
Palácio do Doge e em toda Veneza, uma prisão do corpo e do espírito.
Abriram passagem por várias portas com o ferrolho, desceram por
uma “escada de pedra curta e estreita”, passaram por uma porta
lustrosa e viram-se na Cancelleria Ducale, um arquivo para a
armazenagem de decretos. Ele espiou por uma janela; ela o levaria ao
pátio junto à São Marcos — “Deus me livre!”. Em vez disso, procurou
dinheiro — “Deus sabe com que prazer eu teria me apropriado […] por
direito de conquista”. Não havia nada para pegar.
Passou à porta, meia hora batendo e quebrando a madeira,
assustando o monge, que temia que o barulho fosse atrair um enxame
de sbirri — “Eu sabia do perigo, mas tinha de arriscar” —, até
completar um buraco cheio “a toda volta com um denteado suficiente
para rasgar nossas roupas e lacerar nossas peles”. Ele pôs um
banquinho sob o buraco, o monge subiu em cima e Casanova o
empurrou “para as trevas densas”. Reposicionando o banquinho para
se ajustar a sua altura, ele entrou no buraco, ficando todo arranhado,
sem ninguém para ajudá-lo a passar, até que o monge o pegou e o
puxou “sem misericórdia”, enquanto ele suportava em silêncio a dor
infligida pelas lascas de madeira.
Seus passos se aceleraram quando passaram por um vão “grande
como um portão de cidade” que levava à Scala dei Giganti, a escada
dos gigantes, onde, no patamar mais elevado, os doges eram coroados.
A porta estava trancada. Nenhum ferrolho ou faca seria capaz de abri-
la. Casanova desabou no chão, dizendo ao monge que haviam feito
tudo ao seu alcance e cabia a “Deus ou à fortuna fazer o resto”. Talvez
os varredores do palácio viessem e eles conseguiriam escapar, mas, em
um Dia de Todos os Santos, dificilmente estariam trabalhando.
Podiam morrer de fome. O monge gritou com Casanova. Louco!
Mentiroso!
O relógio soou as sete da manhã. Se pretendiam completar sua
fuga, precisavam trocar de roupa. O padre Balbi, na opinião de
Casanova, parecia um “camponês”, mas pelo menos não estava
sangrando ou esfarrapado, e tinha intactos os culotes de couro. Mas
Casanova ficara “rasgado e arranhado da cabeça aos pés”, coberto de
sangue. Ele estancou os ferimentos nos joelhos com as meias de seda.
Tentou disfarçar suas horríveis condições pondo roupas que trouxera
consigo — meias brancas, uma camisa enfeitada com renda. Pôs o
manto sobre os ombros do monge — serviu tão mal que parecia ter
sido roubado — e, quanto a Casanova, parecia que saíra de um baile e
fora a um bordel, onde havia “levado uma surra”. Então ele enfiou um
delicado cappello na cabeça, encimado por uma pluma… estavam em
Veneza, afinal, e ele era Giacomo Casanova.
Ele abriu a janela abruptamente, atraindo a atenção de vários
desocupados no pátio abaixo, que despacharam um ajudante com uma
chave para soltar os dois, sem se dar conta de que eram prisioneiros em
fuga. O som de passos se aproximando encheu Casanova de ansiedade.
“Na maior agitação me levantei, olhei por uma fenda na grande porta,
vi um homem sozinho” — seu nome era Andreoli — “usando uma
peruca grande e sem chapéu, segurando calmamente as chaves com as
duas mãos.” Casanova se posicionou junto à porta, preparado para
descer correndo a escada no momento em que o homem abrisse a
fechadura, disposto a lhe cortar a garganta, se necessário.
A porta foi escancarada e o homem ficou paralisado ante a visão
dos dois invasores. Casanova e o padre Balbi passaram correndo por
ele (em um inquérito, Andreoli testemunhou que Casanova lhe deu um
encontrão e o derrubou) e desceram a escadaria, com o monge
insistindo: “Vamos para a igreja!”.
Casanova discordou. “As igrejas em Veneza não oferecem
imunidade alguma para transgressores.” O asilo que ele buscava estava
“além das fronteiras da Sereníssima”. Ele escapara em espírito “e eu
tinha de fazer o mesmo com o corpo”. Sua estadia na cadeia fora um
rito de passagem confirmando seus piores temores — de que era um
forasteiro miserável e malquisto sem esperança — e suas mais caras
excogitações — de que podia dominar suas circunstâncias e emergir
como o herói de sua própria história.
Casanova e Balbi passaram pela imponente e viril estátua de
Netuno e se aproximaram da entrada do palácio, a Porta della Carta,
sem olhar para os lados. A dupla atravessou a piazzetta, chegou ao cais
e entrou na primeira gôndola que viu, ordenando aos gondoleiros que
os levassem para Fusina, um vilarejo do outro lado da laguna, uma
forma de despistamento. Casanova chamou um segundo gondoleiro
para se juntar a eles. E então: “Sentei no banco como quem não quer
nada e a gôndola na mesma hora deixou o cais”. Ele e seu maltrapilho
companheiro “embrulhado em meu manto” pareciam uma dupla de
“charlatães”.
Após quinze meses e cinco dias na prisão, estava livre.
A gôndola contornou a alfândega, no extremo sul de Veneza, e eles
seguiram para o canal Giudecca, onde Casanova instruiu os
gondoleiros a levá-los ao porto do Mestre, no continente, em vez de
Fusina; a mudança provocou uma discussão entre os homens, resolvida
quando um dos gondoleiros anunciou: “Estaremos em Mestre em três
quartos de hora, pois temos a corrente e o vento a nosso favor”.
11. Casanova escapando de I Piombi, Veneza, 31 de outubro de 1756.

Casanova virou e olhou para “o esplêndido canal; e não vendo um


único barco e admirando o dia mais lindo que poderia imaginar, os
primeiros raios de um sol magnífico começando a despontar no
horizonte, os dois jovens gondoleiros remando a toda velocidade, e
pensando ao mesmo tempo na noite cruel que eu havia passado, no
lugar onde estivera no dia anterior, e em todas as coincidências que me
haviam sido favoráveis, o sentimento tomou posse de minh’alma, que
se alçou a um Deus misericordioso, despertando minha gratidão,
comovendo-me com força extraordinária e tão profundamente que
minhas lágrimas de repente acharam completa vazão para o alívio de
meu coração, que estava sufocando do excesso de alegria”. Ele chorou
“como uma criança forçada a ir para a escola”.
Com boa dose de ironia, Casanova observou que “meu encantador
companheiro achou que era seu dever acalmar minhas lágrimas, de
cuja nobre origem não suspeitava”. Quando chegaram a Mestre, no
continente, o padre Balbi desapareceu. “Olho em volta, pergunto onde
está, ninguém sabe.” Finalmente, “ocorre-me enfiar a cabeça em um
café e lá o vejo, sentado ao balcão, tomando um chocolate e
conversando com a garçonete”. Ninguém teria adivinhado que acabara
de realizar a fuga mais impressionante da história de Veneza. O monge
fez um gesto para Casanova juntar-se a ele e tomar uma xícara de
chocolate. “Tive de pagar”, observou, “pois ele não tinha dinheiro.”
Segurando o braço do padre Balbi com tanta força que quase o
quebrou, deixou algumas moedas sobre o balcão e arrastou o monge
para uma carruagem à espera, onde foram confrontados por “um
cidadão de Mestre chamado Balbo Tomasi, um bom homem, mas com
a reputação de ser um espião do tribunal dos Inquisidores”.
“Ei, Signore!”, gritou o homem. “Estou encantado em vos ver.
Então acabais de escapar. Como conseguistes?”
Não, explicou Casanova calmamente, haviam sido soltos. Tomasi
não acreditou, e o fugitivo percebeu que ele podia prendê-lo
“meramente piscando para o primeiro dos inúmeros sbirri que havia
em Mestre”. Casanova agarrou-o pelo colarinho, pegou o pique e se
preparou para agredi-lo, mas Tomasi fugiu correndo, virando apenas
para desejar boa viagem a Casanova, e desapareceu de vista. Ele
duvidou de que Tomasi tivesse alguma “má intenção”, mas não fazia
diferença. “Minha situação era terrível. Estava sozinho e numa guerra
aberta contra todas as forças da República.” E continuava atrelado ao
monge.
Os dois caminharam por horas, morrendo de fome, exaustos. Ele
tentou explicar para o monge os apuros em que haviam se metido:
“Tenho certeza de que estamos sendo procurados por todo mundo e
nossa descrição muito precisa estava circulando, assim seríamos presos
na primeira estalagem em que entrássemos juntos. […] Então dei
adeus”.
“Prometestes que nunca nos separaríamos.”
Frustrado, Casanova pegou uma pá e advertiu o monge: “Vou
enterrá-lo vivo nesse buraco”. Se ele fugisse, Casanova não iria atrás.
O monge avançou na direção do companheiro e os dois se abraçaram,
unidos e agora separados por sua aventura. Casanova, agindo
impulsivamente, lhe deu todo seu dinheiro, até o último soldo, e o
monge concordou em seguir seu próprio caminho, mas só quando
Casanova prometeu que voltariam a se encontrar em uma estalagem na
fronteira norte do Estado veneziano. Tendo realizado a mais arriscada
de todas as fugas, ele tinha certeza de que “conseguiria fugir do
Estado”.
Casanova viu um vilarejo distante e, nele, uma casa vermelha, e
decidiu passar a noite ali, ainda que pertencesse ao Capitano della
Campagna, o “chefe dos sbirri” — a zelosa polícia da Inquisição.
Embora a lógica ditasse que devia evitar o lugar, uma força invisível o
atraiu para lá. “Admito que em toda minha vida nunca dei um passo
tão ousado” — em mais de uma maneira. Esse era um tempo de
transição, mental e geográfica. Ele trocaria um mundo de acusação,
temor e culpa por crimes inomináveis pela possibilidade de
regeneração.
Entrando na casa vermelha, Casanova perguntou a uma criança
onde estava seu pai; em vez de responder, o menino correu para buscar
a mãe, linda e grávida, que o informou de que o marido partira a cavalo
dias antes com todos os seus homens. Como se algum demônio tivesse
se apossado dele, fingiu familiaridade com o dono da casa e requisitou
uma cama para passar a noite, ao que ela concordou, oferecendo
também uma refeição. Ela prometeu que o marido, o Capitano della
Campagna, o cumprimentaria quando voltasse, mas no momento
estava à procura de dois prisioneiros que haviam escapado de I Piombi.
“Um é um patrício e o outro se chama Casanova.” Imperturbável,
Casanova disse que precisava ir dormir imediatamente.
“Qual o problema com vossos joelhos?”, perguntou o menino.
Casanova explicou que levara um tombo quando caçava nas
montanhas e o menino afirmou que a mãe cuidaria dele. Ela também
acreditou em sua história, sem reparar nas meias brancas rasgadas, no
casaco de tafetá e na ausência de um cavalo, tratando-o, ele achou,
“como uma mãe e sempre me tratando por ‘filho’ ao cuidar de meus
ferimentos”. Em outro tempo e lugar, ele teria expressado sua gratidão
com exibições de afeição física, mas aquele não era o momento,
mesmo após seus meses na prisão. Deixando que cuidasse de seus
ferimentos, pegou no sono e acordou por volta das sete da manhã
seguinte. Quando se apercebeu de sua situação arriscada, vestiu-se o
mais rápido que pôde e foi embora da casa, sem nem olhar para dois
sbirri que estavam junto à porta, e refletindo que só recebera cortesia,
boa comida e o tão necessário descanso misturados “a uma sensação de
horror que me deixou tremendo, pois vi que de forma assaz imprudente
eu me expusera ao mais óbvio dos perigos”. Marchou por cinco horas
pelo campo ondulado antes de ousar descansar, quando viu uma
pequena igreja. Era o Dia de Finados, e os fiéis iam à missa, e lá foi ele
também, mas, ao adentrar a igreja, deu de cara com o Signor
Marcantonio Grimani, sobrinho de um dos Inquisidores do Estado,
junto com a esposa, ambos os quais o fitaram com perplexidade.
Após a missa, o Signor Grimani quis saber que bicho mordera
Casanova para ir à missa naquela igreja, e, além disso, onde estava seu
parceiro? Mais atrevido do que nunca, ele explicou que dera dinheiro
ao monge para que seguisse seu caminho e agora seguia rumo à
fronteira. “Se Vossa Excelência puderdes fazer a bondade de me dar
algum auxílio, eu talvez me saísse melhor.” Não tinha um soldo em sua
posse. Grimani não aceitou lhe dar dinheiro, mas quis saber como
Casanova conseguira fugir da cadeia.
Sujeitado a essa inquirição, ele pediu licença o mais educadamente
possível e voltou a andar de casa em casa, apostando na hospitalidade
de seus donos antes de seguir em frente, sua árdua jornada uma
recapitulação de sua vida atribulada, até que chegou a uma casa que
acreditava pertencer a um amigo, um “corretor da Bolsa”, que se
recusou a lhe dar o que quer que fosse. Inflamado, Casanova sacudiu o
homem e ameaçou esfaqueá-lo, com o que recebeu moedas de ouro no
valor de seis zecchini — e dez vezes mais, se quisesse. “Não, estou de
partida e vos aconselho que me deixeis ir calmamente, ou voltarei e
atearei fogo a vossa casa.”
Nessa noite, engoliu um jantar horroroso e dormiu sobre palha.
Pela manhã, comprou um jumento, um redingote puído e botas e
cavalgou no ar gelado rumo a Brento, cerca de 150 quilômetros a
sudoeste de Veneza, onde topou com uma figura usando um redingote
verde e chapéu com a aba abaixada: o padre Balbi, aguardando-o na
estalagem que Casanova especificara quando os dois se despediram. O
monge se mostrou surpreso; não esperava que o ardiloso Giacomo
mantivesse a palavra. Exausto, ele passou o dia seguinte na estalagem,
na cama, escrevendo vinte cartas com endereços em Veneza, nas quais
explicava as provações por que passara “para obter seis zecchini” de
um corretor que tinha uma dívida com ele. Ao mesmo tempo, “o
monge escreveu cartas impertinentes para o padre Barbarigo, seu
superior; e para seus irmãos patrícios; e cartas de amor para as criadas
que haviam sido o motivo de sua ruína”.
Ele partiu no dia seguinte, ainda atrelado ao padre Balbi; aonde
quer que fossem, o monge fazia desajeitadas investidas sobre as
criadas. “Como não tinha o talhe nem as feições para deixá-las gentis e
submissas, elas retribuíam seus avanços com sonoras bofetadas, que
ele recebia com paciência exemplar.” Casanova extraiu um prazer
moderado de observar esse triste comportamento.
Chegaram à relativa segurança de Munique em meados de
novembro e pouco após ele ter deixado o infeliz monge aos cuidados
de uma igreja acolhedora. Na verdade, ficou “deliciado de se livrar
dele de forma tão honrada”. Sozinho mais uma vez, o padre Balbi
considerou abandonar o sacerdócio, raciocinando que, se deixasse de
ser monge, o Tribunal em Veneza deixaria de considerá-lo culpado.
Veneza enxergava as coisas de forma diferente. Ele foi recapturado e
mandado para a cadeia local, até terminar por ser devolvido a I Piombi
— como Casanova soube mais tarde — por dois anos.
Livre enfim do padre Balbi, Casanova buscou refúgio em
Strassburg, na Áustria, 320 quilômetros a noroeste de Veneza,
descansou em uma estalagem por vários dias e completou o último
trecho de sua viagem em um coche para Paris, oitocentos quilômetros
a oeste.
Ele chegou à capital francesa em 5 de janeiro de 1757, uma quarta-
feira. Seu amigo Balletti, o bailarino, levou-o para a casa de sua
família na Rue Petit-Lion-Saint-Saveur. Casanova abraçou o pai e a
mãe de Balletti, “que me trataram do mesmo modo como haviam feito
quando parti, em 1752”. Além do mais, a irmã de dezessete anos de
Balletti, Manon, pareceu “muito bonita”, sobretudo aos olhos de um
homem que ficara preso por mais de um ano.
Mas, primeiro, foi cuidar de sua vida, alugando um quarto nas
proximidades e saindo nesse mesmo dia para visitar seu influente
amigo, o abade De Bernis, com quem passara tantas horas libertinas na
ilha de Murano. Ex-embaixador francês em Veneza, De Bernis logo se
tornaria secretário de Estado das Relações Exteriores, e Casanova
“tinha um bom motivo para esperar que me pusesse na estrada da
fortuna”.
Casanova ficou sabendo que De Bernis fora a Versalhes, a uma
curta distância de Paris, e partiu depois dele num coche conhecido
como “penico”. Ao chegar, descobriu que seu amigo já voltara a Paris
na companhia do embaixador espanhol em Veneza e sentiu que “não
tinha escolha senão fazer o mesmo”. Mas, quando chegou ao portão,
“vejo uma grande multidão correndo em todas as direções na mais
absoluta confusão e escuto as pessoas gritando à esquerda e à direita:
‘O rei foi assassinado. Sua Majestade acabou de ser morta’”.
12. O balanço (1767), de Jean-Honoré Fragonard.
Livro II
PARIS E ALÉM
10. Madame D’Urfé
Em 5 de janeiro de 1757, a neve caía sobre o Palácio de Versalhes,
e todos os seres vivos tremiam de frio. Luís XV, que governara a
França por mais de quatro décadas, e cuja popularidade declinava
rapidamente, não saiu a maior parte do dia. Relatos dos movimentos do
rei mencionam sua visita à filha, madame Victoire, que contraíra gripe.
Às seis da tarde, seus coches se reuniram para levá-lo de volta a sua
residência no Trianon. Quando o rei caminhava ao longo do Pátio de
Mármore, mal iluminado por sentinelas segurando tochas, uma figura
grisalha, mais tarde identificada como Robert-François Damiens,
passou pelos guardas e esfaqueou o rei entre a quarta e a quinta
costelas com uma pequena faca. Conspícuo em seu chapéu, o assassino
foi rapidamente preso.
Embora sangrando, Luís XV permaneceu calmo, imaginando se a
faca fora embebida em veneno. “Alguém me atingiu”, disse ele,
atordoado. Um espectador apontou o homem do chapéu como o
culpado. “Estou ferido, prendei aquele homem, mas não o firais”, disse
o rei, antes de seguir para seus aposentos. Presumindo que a morte era
iminente, Luís mandou chamar seu confessor e desmaiou. A rainha,
que ele negligenciara durante anos de infidelidade, correu para ficar a
seu lado, e quando ele voltou a si pediu seu perdão. Jurou que, se
vivesse, faria uma confissão ainda mais completa. E anunciou: “Perdoo
completa e inteiramente meu assassino”.
Luís sobreviveu ao atentado porque, como Voltaire explicou em
sua Histoire du Parlement de Paris, a lâmina “atingiu o rei através de
um sobretudo muito espesso e todas suas roupas, de modo que o
ferimento, felizmente, não foi muito mais significativo do que un coup
d’épingle” — uma agulhada. A extensão do ferimento não fazia muita
diferença; Damiens atacara o próprio coração da França.
13. Robert-François Damiens, o aspirante a assassino de Luís XV.

Espalhou-se um rumor de que o rei fora assassinado. “Meu


cocheiro aterrorizado não pensa em outra coisa além de prosseguir;
mas minha carruagem foi detida”, recordou Casanova quanto ao
momento caótico.1 “Recebi ordens de descer e fui levado à casa da
guarda, onde em três ou quatro minutos vejo mais de uma vintena de
pessoas sendo presas, todas igualmente atônitas e culpadas como eu.
[…] Como não creio em feitiçaria, achei que estivesse sonhando. Lá
estávamos nós, entreolhando-nos e não ousando abrir a boca […] e
cada um de nós, embora inocente, estava com medo.”
Casanova contratou outro “penico” para a viagem de volta a Paris,
mas as estradas estavam tão cheias que a viagem levou três horas,
durante as quais dezenas de mensageiros passavam a galope,
“propalando a notícia aos quatro ventos”. Por esses mensageiros, ele
ficou sabendo que o rei fora ferido e que o ferimento não era fatal —
na verdade, era tão superficial que “Sua Majestade poderia até ir ao
Trianon, se quisesse”.
Ao chegar a Paris, Casanova tentou dissipar os rumores de que o
rei fora assassinado, para tremendo alívio de seus amigos, os Balletti,
com quem estava se hospedando, e “toda a vizinhança”. Imaginou que
talvez dormissem melhor devido à notícia tranquilizadora que ele
trouxera. Mas, pensando bem, se deu conta de que os franceses
nutriam a mesma relação ambivalente com a monarquia que ele
observara em uma visita anterior, mais despreocupada. “Naqueles
tempos, os franceses imaginavam adorar seu rei”, comentou. “Hoje” —
ou seja, após a sanguinária Revolução Francesa, quando ele escreve
suas memórias — “viemos a conhecê-los um pouco melhor.”
Fosse como fosse, estava de volta “à grande cidade de Paris, e, já
que não posso mais contar com meu próprio país, sou forçado a fazer
minha fortuna aqui”. Ele devia evitar “companhia duvidosa” e, acima
de tudo, “a reputação de ser um homem pouco indicado a ver-se
incumbido de assuntos importantes”. Bastava de ultrajantes escapadas;
em lugar disso, “decidi praticar uma reserva sistemática tanto em
palavras como em ações, que me levariam a ser considerado ainda
mais apropriado para questões importantes do que eu tinha alguma
razão para supor que era”. Em outras palavras, ele personificaria um
homem de valor. E precisava ficar à altura do papel, “pois não tinha
paletós nem camisas” quando se apresentou ao abade De Bernis,
prestes a se tornar ministro do governo.
Ao se encontrarem, De Bernis revelou ter lido sobre a milagrosa
fuga de I Piombi em cartas escritas pela amante de ambos, Maria
Eleonora Michiel, que ansiava em ver os dois novamente. Privada da
companhia e afeição deles, escreveu, “sua vida se tornara um fardo”.
Sua confidente, Caterina Capretta, tampouco estava contente com o
novo marido. É estranho pensar que preferiam o confinamento do
convento em Murano e sua libertinagem clandestina à situação mais
estável da vida atual delas.
Lendo as cartas de Maria Eleonora, Casanova viu na mesma hora
que entendera errado muitos detalhes de sua escapada e prometeu
escrever um relato preciso para De Bernis e lhe dar permissão de
mostrá-lo a quem pudesse ser de alguma ajuda em Paris. (Na verdade,
ele contaria a história de sua fuga para qualquer um que desejasse
escutar, contanto que a pessoa dispusesse de duas horas para isso.)
Acorrendo em auxílio do amigo, De Bernis intercedeu junto ao
embaixador veneziano na França, o patrício Niccolò Erizzo, que
declarou que não perseguiria nem receberia Casanova, “não querendo
se comprometer com os Inquisidores do Estado”. O ministro deu um
pequeno conselho crucial: “Tentai pensar em algum projeto lucrativo
para o erário público, evitando qualquer coisa complicada”.
Casanova expressou gratidão pela sugestão, mas permaneceu “sem
a menor ideia de como encontrar uma maneira de aumentar as receitas
do rei”. Sob o errático Luís XV, a França metera os pés pelas mãos
numa desajeitada aliança com a Áustria na Guerra dos Sete Anos
contra a Prússia. Ao mesmo tempo, França e Inglaterra se enfrentavam
na Guerra Franco-Indígena — uma disputa amarga e não declarada
pelas colônias da América do Norte. Esses conflitos haviam esvaziado
os cofres franceses e, combinados a fomes crônicas, estabeleceram o
cenário para a Revolução Francesa. Em meio a essas circunstâncias
sombrias, dizem que madame de Pompadour virou para o rei e
profetizou: “Après nous le déluge”.
O único remédio que ocorria a Casanova era cobrar novos
impostos da população já sobrecarregada — uma impossibilidade.
Após várias tentativas fracassadas, ele se viu na presença do recém-
nomeado controlador-geral, Jean de Boulogne, conde de Nogent, mais
uma vez sob os auspícios de De Bernis, que preparara o burocrata para
considerar monsieur Casanova um financista importante. Nisso, “quase
explodi numa gargalhada”. O controlador-geral, por sua vez,
apresentou o cavalheiro de Veneza a Joseph Pâris Duverney, que fizera
fortuna vendendo suprimentos para o Exército francês e ajudara a
salvar a França em crises financeiras anteriores. Agora ele pretendia
fundar uma academia para treinar tão necessários oficiais franceses, a
École Militaire, no Campo de Marte. A instituição abrira as portas
apenas seis meses antes e ele precisava de 20 milhões de francos para
sustentá-la. “O negócio é encontrá-los sem onerar o Estado ou
comprometer o Tesouro real”, explicou. Casanova dominava a primeira
regra das finanças, sempre manter uma expressão e uma postura sérias,
e começou a pensar.
Em Veneza, os mercadores ganhavam dinheiro, assim como os
bordéis. Ele não tinha o menor desejo de se tornar comerciante,
tampouco aspirava a ser um cafetão — não depois de tudo que
suportara. O modo como ele e outros venezianos obtinham seus
zecchini era jogando. Jogando! “Tenho um plano em mente que
poderia render ao rei um retorno de 100 milhões”, anunciou.
“E quanto esse rendimento custaria ao rei?”
“Apenas o custo de coletá-lo”, respondeu. A nação francesa
forneceria a receita, não por meio de impostos, que são difíceis,
quando não impossíveis, de coletar, mas voluntariamente.
Tendo escutado o suficiente, Duverney convidou o veneziano para
jantar no dia seguinte. Para se preparar para o evento, Casanova
passeou pelo Jardim das Tulherias, “refletindo sobre o fantástico golpe
de sorte que o destino parecia lhe oferecer. Fui informado de que são
necessários 20 milhões, e vangloriei-me de poder conseguir 100
milhões sem fazer a menor ideia de como”.
No grande jantar, Casanova conheceu os principais financistas da
França, fazendo mesuras tão elegantes quanto era capaz. Após o
evento, monsieur Duverney convidou Casanova para se juntar aos
homens na sala de visitas, a fim de discutir as finanças da França.
Apresentaram a Casanova um plano que presumiam ser precisamente
igual ao seu, uma loteria.2 Por que não o adotava?, ele queria saber.
Acaso o rei “não permite que seus súditos apostem?”.
O rei não fazia nenhuma objeção a que os súditos jogassem, mas
todos se perguntavam: “Como levantar o dinheiro?”. E, uma vez feito
isso, como conservá-lo?
Casanova improvisou sua resposta: o Tesouro real anunciaria o
prêmio — ele tirou um número da cabeça — “100 milhões”. A soma
com certeza atrairia muitos apostadores. E para as expressões céticas
ele explicou: “O segredo é deslumbrar”.
E se o rei perdesse o dinheiro no primeiro sorteio? Nesse caso, “o
sucesso da loteria está assegurado”, explicou Casanova. “É um
infortúnio a ser desejado.” E em seguida deu ao seu público uma breve
aula sobre o emergente conceito matemático da probabilidade:
“Provar-vos-ei perante todos os matemáticos da Europa que,
admitindo-se que Deus seja neutro, é impossível o rei não lucrar com a
loteria”. O modo de manter a loteria honesta e respeitável, explicou,
era “um sorteio programado todo mês, pois assim o público tem
certeza de que o financiador pode perder”. A publicidade oriunda desse
resultado atrairia jogadores, enriqueceria a loteria e enfatizaria a
credibilidade da Coroa. “As companhias de seguro não estavam ricas,
todas elas?” A loteria sob consideração seguiria princípios
matemáticos similares e o rei obteria um lucro anual de cerca de 20%.
A quantia exata não podia ser garantida; ela flutuaria de acordo com as
leis da probabilidade, mas não resultaria da sorte, explicou ele, ou do
jogo. Estariam apoiados nas leis imutáveis da probabilidade.
Em seguida Casanova se dirigiu ao conselho da École Militaire.3 O
plano era bastante simples: uma gaiola giratória conhecida como
“Roda da Fortuna” continha noventa fichas numeradas em sequência.
Depois que os jogadores fizessem suas apostas, um mediador
selecionaria cinco fichas vencedoras na Roda da Fortuna. Os jogadores
apostavam em um único número, um par ou um trio de números. As
chances de ganhar aumentavam, e o prêmio crescia, conforme
aumentasse o número de fichas. (Variações posteriores levaram os
riscos e recompensas a alturas vertiginosas.) No decorrer de duas
reuniões, Casanova defendeu enfaticamente seu plano. Entre os que ele
seduziu, intelectualmente falando, estavam Jean d’Alembert, o
filósofo, matemático e coeditor da influente Enciclopédia, e um
emigrado italiano que se tornaria essencial para a empreitada, Giovanni
Antonio de Calzabigi, um diplomata. “Vossa fortuna está assegurada”,
declarou ele a Casanova após uma das sessões. “Temos movido
mundos e fundos por dois anos para fazer esse projeto ser aceito, e
todo nosso esforço nunca foi retribuído senão com estúpidas objeções,
que vós derrubastes na semana passada.” Ele propôs que ambos
reunissem forças, junto com seu irmão, que divisara um formato de
loteria muito parecido com o de Casanova. O irmão do embaixador era
Ranieri de Calzabigi, um libretista nascido em Livorno, conhecido por
suas colaborações com o compositor Christoph Willibald Gluck, da
Ópera de Paris. “Ele está doente”, Giovanni informou sobre o irmão, o
libretista, “mas sua mente continua perfeitamente ativa. Vamos visitá-
lo.” E, quando fizeram isso, Casanova encontrou uma figura grotesca,
coberta de feridas, “mas isso não o impedia de comer com apetite,
escrever, conversar e realizar todas as funções de um homem no pleno
gozo da saúde”. Ele não aparecia em público porque, além das feridas
deformantes, “tinha de coçar constantemente alguma parte do corpo, o
que em Paris é uma abominação”.
Casanova consentiu com o libretista e puseram mãos à obra.
“Descobri que era muito inteligente”, recordou, “um grande aritmético,
totalmente familiarizado com a teoria e a prática das finanças, e com o
comércio de todas as nações, versado em história, espirituoso, um
admirador do sexo frágil, e um poeta.” Na verdade, Giovanni “era-lhe
inferior em todos os aspectos”. Casanova se convenceu a juntar forças
com eles “sem lhes revelar que eu precisava de sua ajuda”.
Nessa noite, ao jantar na residência dos Silva, ele ficou
atipicamente silencioso, pensando em negócios, a despeito de se
distrair com as diversas mulheres presentes, inclusive a atraente jovem
irmã de seu amigo. Ele não conseguia deixar de ficar admirado ao
pensar em como ele, um aventureiro veneziano, fugitivo, blasfemo e
charlatão, fora acolhido no seio da intelligentsia francesa. “Duas horas
antes do alvorecer, no dia seguinte, fui para Versalhes, onde o ministro
De Bernis recebeu-me com gracejos, dizendo que apostaria que, não
fosse por ele, eu nunca teria descoberto que era um especialista em
finanças.”
No palácio, Casanova aproximou-se do poder por trás do trono,
madame de Pompadour — a “Reinette”, como era chamada, ou
pequena rainha —, ainda a principal amante do rei, nominalmente,
embora não mais de fato. Durante os anos de ausência de Casanova,
ela consolidara habilmente sua posição na corte, onde devia sua
influência tanto ao rei como à situação política. Quando Casanova
prestava seus respeitos a madame de Pompadour, ela comentou que
considerava sua fuga da cadeia “muito interessante”. E arriscou um
gracejo sobre os Inquisidores do Estado venezianos, dizendo que eram
“grandemente temíveis”. Casanova respondeu com um sorriso
cansado, enquanto ela expressava a esperança de que estivesse
“pensando em se estabelecer entre nós”. De fato ele estava, mas exigiu
patrocínio, e havia “aprendido que neste país isso é concedido apenas a
quem tem talento”, uma fonte de abatimento que madame de
Pompadour delicadamente fez o melhor possível para suavizar.
Mais tarde nessa noite, quando voltou para casa, ele examinou
tabelas “de toda a loteria”. Elas provavam que, contanto que apenas
cinco números em seis fossem sorteados, era “cientificamente certo”
que não podia perder.
De manhã, na École Militaire, Casanova defendeu seu plano com
vigor, citando o precedente das companhias de seguro, “todas elas ricas
e florescendo”, que “riem da fortuna e das mentes fracas que a
temem”. Nada podia oferecer uma garantia melhor de resultado do que
as leis imutáveis da probabilidade, e, para fechar o negócio, Duverney
lembrou o Conselho que podia cancelar a loteria, se quisessem. Todos
os presentes assinaram um acordo, e Casanova viu-se recebendo uma
generosa cota dos lucros: uma renda de 4 mil francos todo ano e a
gerência de seis pontos de venda.
O Hôtel de la Loterie, na rue Montmartre, abrigava a principal casa
lotérica. Para incrementar sua renda, ele vendeu cinco de seus seis
estabelecimentos por 2 mil francos cada, acumulando outra fortuna
antes que um único bilhete tivesse sido oferecido ao público, e instalou
o sexto na rue Saint-Denis. Supervisionava pessoalmente sua luxuosa
casa lotérica, de vez em quando vendendo bilhetes ele mesmo. Pensara
certa vez em cuidar de um estabelecimento de jogo em Veneza; agora
estava com algo incomparavelmente melhor em suas mãos, uma loteria
real. “Dentro de 24 horas eu tinha notas promissórias garantindo que
todos os bilhetes assinados por mim seriam pagos em meu ponto na
rue Saint-Denis 24 horas após o sorteio. Como resultado, todo mundo
vinha ao meu estabelecimento comprar bilhetes. Meu lucro consistia
em 6% da quantia recebida.”
O primeiro sorteio foi marcado para 18 de abril de 1758, e, após
determinar todos os ganhadores, “a loteria obteve um lucro de 600 mil
francos sobre o total recebido, que chegou a 2 milhões. Só Paris
contribuiu com 400 mil francos”.4 A loteria foi um grande sucesso,
cobrindo de glória Casanova, os irmãos Calzabigi e os outros
patrocinadores. A publicidade concedida aos ganhadores só serviu para
aumentar as vendas de bilhetes no futuro. “Quando a moda pegou,
esperamos que os ganhos no sorteio seguinte fossem o dobro.” Para
muitos parisienses, Casanova personificava a loteria. “Em todas as
grandes casas que eu frequentava e nos saguões dos teatros, assim que
as pessoas me viam davam-me dinheiro, pedindo-me para apostar para
elas como achasse melhor e depois lhes dar os bilhetes, pois não
entendiam do assunto. Eu carregava bilhetes para somas vultosas e
pequenas nos bolsos, dos quais deixava que as pessoas escolhessem, e
voltava para casa com os bolsos cheios de dinheiro.” Ele andava pela
cidade em uma luxuosa carruagem que transmitia “reputação e crédito
ilimitado. Paris era, e ainda é, uma cidade onde as pessoas julgam tudo
pela aparência; não existe país no mundo onde é mais fácil
impressionar”.
A loteria de Casanova criou um frenesi; os parisienses corriam para
comprar bilhetes. Houve cinco sorteios em 1758, e, a partir daí, eles
ocorriam uma vez por mês. Quando o governo francês vergou sob o
peso da dívida crescente, a loteria foi mais tarde transferida da École
Militaire para a Coroa e rebatizada Loterie Royal de France. Os
sorteios ocorriam duas vezes por mês e a loteria se revelou bem mais
estável do que o regime que ela ajudava a sustentar.
A essa altura, Casanova acolhera seu irmão mais novo, Francesco,
o pintor, agora com 31 anos. Os dois não se viam havia seis anos, e o
reencontro foi cordial. Casanova se ofereceu para usar sua influência
recém-conquistada de forma a obter a admissão do irmão na Academia
Francesa, mas Francesco respondeu que não precisava de ajuda.
Superara os velhos reveses e adquirira um renome para si. Como prova
de sua afirmação, exibiu uma de suas cenas de batalha no Louvre e foi
admitido por conta própria, além de receber 12 mil francos pela
pintura. Assim Giacomo não era o único Casanova causando
impressão em Paris. “Após sua recepção, meu irmão se tornou famoso
e em 26 anos ganhou quase 1 milhão; no entanto, as extravagâncias e
dois casamentos ruins o deixaram arruinado.”

14. Apostadores no Ridotto, Johann Heinrich Tischbein, o Velho.

Giacomo Casanova, por outro lado, evadia-se à armadilha do


matrimônio. Tão tranquilo quanto seu temperamento inquieto permitia
que ficasse, começou a flertar com as parisienses, em particular
“mademoiselle de la M-re”, que nunca foi identificada, e que lhe
propôs casamento por carta. “Compreendeis que não posso ser feliz a
menos que me case com vós ou vos esqueça?”, ela implorou, dando-
lhe quatro dias para pensar. Ela era admirável, amava-o, possuía uma
fortuna, mas ele decidiu que “eu me conhecia bem demais para não
prever que com um modo de vida acomodado eu me tornaria infeliz, e
portanto minha esposa também seria infeliz. Minha hesitação em tomar
uma decisão […] convenceu-me de que não estava apaixonado por
ela”, no entanto faltava-lhe a determinação para rejeitar o pedido,
incorrendo em sua ira. E assim ele protelou.
Os eventos o engolfaram, sobretudo a iminente execução de
Damiens, que esfaqueara o rei. Toda Paris pranteava, como se Luís XV
houvesse morrido, embora mal se tivesse ferido.
A multidão se juntou para assistir à punição de Damiens na Place
de Grève (atual Place de l’Hôtel de Ville). Não querendo ficar de fora
da comoção, Casanova ofereceu a seus conhecidos acesso a uma
“grande janela” de onde podiam ver o “horrível espetáculo”. Só o que
restava era encontrar um rapidamente, coisa que fez, “uma boa janela
um andar acima, entre duas escadas, por três luíses”, de frente para o
patíbulo.
Uma tarefa mais delicada envolvia formular uma resposta para
mademoiselle de la M-re. Sim, ele aceitava se casar com ela, assim
como uma centena de outros homens aceitariam, mas precisava de
tempo “para conseguir uma casa, mobiliá-la e me pôr em posição de
ser considerado digno de me casar com uma jovem de vossa posição”.
Ele ficou com vergonha de admitir que, no momento, parecia um
aventureiro desgrenhado.
Em 28 de março, dia da execução, alugou uma carruagem para
transportar mademoiselle de la M-re e diversos amigos à janela que
reservara para o repulsivo evento. Enquanto sua amiga especial
sentava-se em seu colo, três outras mulheres “espremiam-se diante da
janela, curvando-se com os cotovelos apoiados para nos permitir ver” a
agonia de Damiens. Como tal comportamento bestial podia ocorrer em
Paris, o epítome da civilização? Isso, segundo Casanova, era o
paradoxo dos franceses. Ainda que Damiens mal houvesse ferido o rei,
“o populacho presente à sua execução chamava-o de monstro cuspido
do inferno para assassinar ‘o melhor’ dos reis”, observou, “e no
entanto era o mesmo populacho que massacrou toda a família real,
todos os nobres da França e todos aqueles que davam à nação o belo
caráter que a tornava estimada, amada e até tomada como modelo por
todas as demais nações”.
No dia designado, Damiens, considerado culpado de “regicídio” e
usando uma longa camisa, foi transportado em uma carroça à Place de
Grève, onde um patíbulo o aguardava.5 “Os cidadãos de províncias
próximas e distantes, estrangeiros até, vieram para o festival”, recordou
um observador. “Janelas, telhados, ruas estavam apinhados” de
curiosos que “se espremiam para ver mais de perto a tortura”.
Eles viram os carrascos segurarem Damiens e cortarem grandes
pedaços de carne de seu corpo, depois entornarem chumbo derretido e
enxofre nas feridas. Quando o enxofre foi aceso, “a chama era tão fraca
que só a pele superficial da mão pegou fogo, e muito ligeiramente”. O
cheiro acre de carne queimada e enxofre se espalhou pelo ar. “Então o
carrasco, as mangas enroladas, pegou as pinças de metal,
especialmente feitas para a ocasião, de quase meio metro, e puxou
primeiro a panturrilha da perna direita, depois a coxa, e em seguida as
duas partes carnosas do braço direito; depois os peitos.”
À medida que o procedimento avançava, “o secretário do tribunal
foi até o paciente várias vezes e perguntou se tinha algo a dizer. Ele
respondeu que não; a cada tormento, gritava, como se espera que
gritem os condenados no inferno: ‘Perdão, meu Deus! Perdão, meu
Senhor’. A despeito de toda essa dor, erguia a cabeça de tempos em
tempos e olhava em volta com insolência. As cordas tinham sido
amarradas com tanta força pelos homens que lhe causavam
indescritível dor”. Damiens reuniu forças para beijar um crucifixo
quando os cavalos tracionaram os membros de seu corpo, mas os
animais desistiram antes de completar sua tarefa. As cordas foram
trocadas, o procedimento se repetiu até que seu braços foram
arrancados e se partiram nas juntas.

15. A tortura e execução públicas de Damiens, Place de Grève, Paris, 28 de março de 1757.
Durante sua provação, Damiens gritou: “Meu Deus, tende piedade
de mim! Jesus, ajudai-me!”, enquanto um padre tentava consolá-lo.
O carrasco pediu permissão para cortar as pernas do prisioneiro.
Um observador recordou que o carrasco e um assistente “tiraram uma
faca cada do bolso e cortaram o corpo nas coxas, em vez de seccionar
as pernas nas juntas, os quatro cavalos deram um puxão e saíram
arrastando as coxas”. Quando terminou, a Place de Grève reverberava
com aplausos.
Damiens estava morto, mas sua boca tremia como se estivesse
falando ou rezando quando os carrascos levaram seu corpo para uma
estaca cercada de lenha e palha seca. Um carrasco acendeu o fogo e as
chamas reduziram o cadáver a cinzas. A fogueira continuou a arder até
as onze da noite, enegrecendo a grama em volta. Posteriormente, o
tormento do suposto assassino não inspirou remorso algum. Damiens
foi chamado de le monstre, le détestable assassin e le parricide, como
se tivesse sido bem-sucedido em seu plano criminoso, e não sofrido,
nas palavras de um observador, o duque de Croy, “as maiores torturas
que um ser humano já teve de suportar”.
Casanova continuava alimentando ambições literárias, tendo
publicado um poema em um jornal literário, Mercure de France,
dedicado a “Camilla” — Giacoma Antonia Veronese, uma atriz que ele
conhecera sete anos antes em Fontainebleau. Quando a reencontrou em
Paris, ele “grudou” nela para ser admitido em seu salão perto da
Barrière Blanche, um posto de alfândega na margem direita do Sena,
onde ela morava com seu jovem e rico amante principal, Nicolas
Rouault, conde de Égreville. Casanova foi para lá à procura de
Camilla. Não bastava estar apaixonado ou fazer amor, era preciso ser
visto estando apaixonado. Camilla distribuía favores para um rol de
admiradores, incluindo o conde de La Tour d’Auvergne, “um nobre de
antiga linhagem que a adorava e que, não sendo rico o bastante para tê-
la só para si, tinha de se contentar com a cota que ela lhe concedia”.
Aguardando os favores de Camilla, Casanova perseguiu uma criada
de quinze anos, “simples, ingênua, sem um grão de ambição”, chamada
Babet, “apreciando os comentários simplórios com que encantava o
grupo todo”. A chance de conquistar Babet chegou quando se viu em
uma carruagem — quatro rodas, dois cavalos, espaço muito apertado
— com o conde La Tour d’Auvergne e a garota, que se sentava no colo
de Casanova. “Sem perder tempo, já que o cocheiro corria muito, pego
sua mão, aperto-a, ela aperta a minha, ergo-a agradecido aos lábios,
cobrindo-a com beijos silenciosos”, mas, quando começou a devorá-la,
o conde interrompeu: “Estou em dívida com vós, meu caro amigo, por
um pouco da polidez de vosso país da qual não mais me julgava digno;
espero que não seja um equívoco.”
Casanova ficou paralisado ao escutar essas “horríveis palavras”. O
conde o censurava da maneira mais digna possível, reprovação ainda
mais dolorosa quando se dissolveu numa risada que suscitou uma
expressão engraçada em Babet. Arrasado, Casanova sentiu-se “um
completo tolo” antes de desembarcar da carruagem diante de seu
apartamento, com as gargalhadas do conde ecoando em seus ouvidos.
Meia hora mais tarde, Casanova percebeu o humor da situação e
começou a rir também, “pois percebi que devia ser o alvo de muitas
piadas”.
Percebendo a vulnerabilidade de Casanova, La Tour o provocou
sem cessar, imitando uma garota toda vez que se encontravam. Ele
desafiou Casanova a aparecer no salão para encarar Babet. Apesar da
perspectiva de uma severa humilhação, Casanova aquiesceu e ouviu a
jovem Babet chamando-o de “porco imundo”. O confronto levou a um
desfecho inesperado: “Por motivos insondáveis o episódio se voltou
contra ela e me granjeou a afeição de La Tour d’Auvergne”.
Talvez o incidente não fosse assim tão insondável, afinal de contas:
criadas iam e vinham, mas a nobreza era algo raro e a ser valorizado,
ou seja, até D’Auvergne provocá-lo outra vez, agora por causa de uma
soma em dinheiro. Numa segunda-feira, o “encantador conde” de
repente precisou de cem luíses, que prometeu pagar no sábado.
Casanova lhe ofereceu dez ou doze luíses, tudo que tinha na carteira.
“O coletor da loteria devia ter mais de mil”, insistiu o conde.
“Claro”, respondeu Casanova, “mas meu cofre é sagrado.” Um
agente do governo coletava todo o conteúdo semanalmente. O conde
prometeu repor o dinheiro, dando “sua palavra de honra”, antes da
chegada do coletor. Intimidado, Casanova foi até sua casa lotérica na
rue Saint-Denis, juntou cem luíses e os entregou para o conde, que
considerou sua dívida. Sábado chegou, mas o conde não apareceu, e no
dia seguinte Casanova teve de penhorar seu anel para completar o
cofre a tempo de o coletor do governo passar na segunda. O conde La
Tour d’Auvergne apareceu mais tarde nessa semana para se desculpar
por não cumprir com a palavra e jurou devolver o dinheiro até o
sábado seguinte. Casanova fez um gesto com a mão, desconsiderando
a promessa do conde — e com isso viu “o galante nobre ficar pálido
como um cadáver”. Ele insultara a honra de um nobre francês, “e o mal
só pode ser desfeito com o sangue de um de nós”.
La Tour orquestrou habilmente o dénouement. A uma hora
combinada, os dois caminharam rumo ao Étoile, o impressionante
cruzamento de doze avenidas em Paris. Quando não havia mais
ninguém olhando, o conde passou um rolo de cem luíses para
Casanova “com a maior cortesia” e então recuou quatro passos para
desembainharem as espadas. Seria uma estocada para cada um,
declarou o conde. Casanova atacou o conde, convencido de que o
ferira no peito. O conde baixou a espada, “pôs a mão no peito e,
mostrando que estava manchada de sangue, afirmou se dar por
satisfeito”. Quando o conde aplicava um lenço ao ferimento, Casanova
disse algumas palavras reconfortantes. Ele derrotara o conde ou o
conde, com seu sacrifício de sangue, o vencera?
Ninguém ficou sabendo do duelo. Uma semana mais tarde,
estavam jantando na casa de Camilla como se nada tivesse acontecido,
e, não muito depois disso, Casanova pegou-se cuidando de um
debilitante caso de ciática de La Tour com uma mistura de
cataplasmas, encantações e ritual quase maçônico. Ele em seguida
enrolou a coxa do conde com três guardanapos e o aconselhou a
permanecer imóvel por 24 horas, após o que estaria curado. Casanova
considerou seu remédio um descarado charlatanismo, mas o conde se
recuperou. Agradecido, La Tour se ofereceu para apresentar Casanova
— curandeiro, místico e mago da loteria — a sua tia, que estava
“morrendo”. Tratava-se de um convite disfarçado, pois ela era a
marquesa D’Urfé. “Eu não a conhecia, mas o nome D’Urfé causou-me
imediata impressão.”
A tia de La Tour era uma das mulheres mais ricas da França — e
uma das mais excêntricas.
Foi como se sua charlatanice o tivesse conduzido a um novo
Bragadin, só que dessa feita a rica benfeitora pertencia à aristocracia
francesa. Jeanne Camus de Pontcarré se casara com Louis-Christophe
de la Rochefoucauld, o marquês D’Urfé, para conquistar seu status
nobre. Na casa dos cinquenta anos, o salão que promovia era famoso
por sua exploração do oculto. Seus convidados regulares incluíam
François-Joachim de Pierre de Bernis, o corpulento e intriguista
embaixador de Veneza que Casanova tão bem conhecia; madame
Bontemps, uma adivinha socialmente talentosa de madame de
Pompadour; e o conde Alessandro di Cagliostro, um sinistro
hipnotizador e falsificador habilidoso que certa vez forjara uma carta
de Casanova.
A seu modo insistente e untuoso, Casanova disse a La Tour que
compareceria de bom grado à residência de sua amiga quando ele
quisesse, contanto que houvesse apenas os três convidados. “Ela
recebe doze pessoas para o jantar todo dia”, respondeu La Tour
d’Auvergne, “e jantareis em sua casa com a nata da sociedade
parisiense.” Isso, explicou Casanova, era precisamente o que não
queria, “pois odeio a reputação de mágico”, com o que queria dizer
curandeiro fajuto, fraude e charlatão, a despeito de seus dotes
terapêuticos, sobretudo entre os ricos, mas seu amigo não quis saber:
“O que fizestes por mim convenceu-me de que poderíeis desfrutar de
uma brilhante e lucrativa carreira”. Casanova considerava seu
tratamento para a ciática nada mais que uma “peça”, e qualquer cura
que houvesse ocorrido era estritamente imaginária ou inspirada pelo
poder da sugestão. A última coisa que ele queria era a reputação de ser
um dos malucos de madame D’Urfé. “Abstenho-me terminantemente
de fazer papel de bobo.”
No fim, obteve uma audiência privada com a senhora, “que me
recebeu mui educadamente com toda a afável graça da antiga corte nos
dias da Regência”, com o que se referia a um período relativamente
informal de vida na corte, ou assim imaginava, antes da ascensão de
Luís XV ao trono. Durante toda a superficial troca de amenidades, “ela
me examinava tão atentamente quanto eu a examinava. Um tentava
levar o outro a revelar alguma coisa”. Parecia óbvio que sua anfitriã
“não via a hora de exibir seu conhecimento”, e, depois que La Tour
saiu, ela começou uma discussão sobre “química, alquimia, magia e
todas as coisas pelas quais tinha paixão”. Com ar casual ele tocou no
assunto da alquimia — uma longa tradição filosófica, mística e
científica mais conhecida pela tentativa de transmutar metais em ouro
—, ao que ela respondeu com um “gracioso sorriso”, sugerindo a
Casanova que “já possuía a assim chamada pedra filosofal” para tanto,
e, mais do que isso, “era versada em todas as grandes operações”. Ela
exibiu seus manuscritos sobre magia e misticismo para demonstrar a
extensão de seu interesse no oculto. Seduziu-o com um manuscrito que
mostrava como fabricar a “panaceia universal”, capaz de curar todas as
doenças. Seu laboratório, após uma inspeção, “realmente me causou
perplexidade”, pois continha um pó que transformava todos os metais
em ouro no tempo de um minuto. Conversaram sobre encantamentos,
poções e símbolos por horas, testando a profundidade de conhecimento
do oculto um do outro.
Ela o deixou impressionado ao discutir um “precioso manuscrito”
que mantinha a quatro chaves em um cofre de marfim, contendo
conhecimento alquímico anotado com comentários de antigos eruditos
e filósofos tanto da Europa como da Ásia, homens que, insistiu ela
com vivacidade, “não estavam mortos”. Em outra caixa ela guardava
uma substância que Casanova chamou de patina del Pinto, que ela
tomava por prata, mas era provavelmente platina, muitas vezes
confundida com o metal menos precioso. (O nome “platina” deriva da
palavra espanhola platina, ou “pequena prata”.) Ela embasou sua
legitimidade alquímica quando confidenciou que recebera a substância
do inventor inglês Charles Wood, que descobrira a platina em 1741 e a
levara para Londres em 1743, mesmo ano em que a presenteara com a
substância. “Ela me mostrou a mesma platina em quatro recipientes
diferentes, três dos quais o continham intacto, em ácido sulfúrico e
nítrico, e clorídrico, no quarto, em que usara aqua regia” — ácido
nítrico misturado com ácido clorídrico. Havia tanta coisa mais em seu
laboratório; conversaram sobre outros elementos químicos, sobre
feitiços e símbolos, sobre os atributos do mundo invisível.
Casanova se deu conta de que encontrara alguém a sua altura na
pessoa de madame D’Urfé no momento em que a conversa passou a
uma sociedade secreta conhecida como Irmãos da Rosacruz —
especificamente, o juramento, que podia ser “trocado entre homens
sem indecência, mas uma mulher como madame D’Urfé devia hesitar
em fornecê-lo a um homem que estava vendo pela primeira vez”. Ficou
patente que suas descrições de rituais eram substitutos de transações
mais íntimas. Quando La Tour voltou para a casa da tia nessa noite,
encontrou os dois profundamente entretidos na conversa.
Nos dias que se seguiram, Casanova juntou-se ao privilegiado
círculo de madame D’Urfé e conheceu uma série de personalidades —
um médico “que me entediou deveras”, um monge (outro chato) e o
Chevalier D’Arzigny, de noventa anos, que teceu reminiscências sobre
a corte de Luís XIV. Com as maçãs cobertas de ruge, o casaco adornado
com antigos pompons, professando afeição ilimitada pela amante, ao
mesmo tempo que usufruía da companhia de outras meninas mais
jovens, o velho chevalier era um homem afeito ao gosto de Casanova.
“O velho trêmulo, amigável mas decrépito, tinha tal doçura de caráter e
modos tão incomuns que acreditei em tudo que dizia.” Sua elegância
era prejudicada apenas por seus dentes, que “exalavam um odor
extremamente forte, que madame D’Urfé achava normal, mas que para
mim era intolerável”.
Casanova viu um reflexo de si mesmo em outro notório
participante, o conde de Saint-Germain — “erudito, linguista, músico e
químico, bem-apessoado e um perfeito mulherengo”.6 Além do mais,
alegava ter trezentos anos de idade e ser capaz de derreter diamantes.
O conde de Saint-Germain insinuara-se nas boas graças de madame de
Pompadour, que por sua vez persuadira Luís XV — “um mártir do
tédio”, na percepção de Casanova — a construir um laboratório para
fabricar tinturas a um custo de 100 mil francos, incluindo luxuosos
aposentos para o conde no majestoso Château de Chambord.
Assim que Casanova encontrou seu lugar entre esses charlatães, até
madame D’Urfé “acreditou que eu era um genuíno adepto disfarçado
de homem sem importância”. Ele manipulou habilmente os anseios de
transcendência dela, por mais forçada que fosse. Quando ela expressou
frustração por não ser capaz de conversar com espíritos, ele explicou
que se comunicava por meio de pena e nanquim. “Sou capaz até de
permitir que o questioneis vós mesma dizendo-lhe seu nome”,
ofereceu: Paralis, o espírito guia de seus três protetores anciãos em
Veneza. Empregando suas técnicas cabalísticas, ele converteu as
perguntas escritas dela em números, arranjou-os numa pirâmide e
manipulou-a a decodificar a resposta convertendo os números em
letras, primeiro consoantes, depois vogais, para chegar a uma “resposta
perfeitamente clara, que a surpreende”. Tendo operado sua magia de
cálculo na mulher, ele saiu, “levando comigo sua alma, seu coração,
seu espírito e todo o bom senso remanescente da mulher”.
Ele passou a se vangloriar de que era o “único amigo” de madame
D’Urfé. Desse modo, todos os parentes dela certamente o tratariam
com respeito e ele jantava com a madame “quase todo dia”. Os criados
“consideravam-me seu marido”, ainda que tivesse idade para ser seu
filho. Ele a encorajou a acreditar que era rico e “assumira o posto na
loteria da École Militaire apenas como disfarce”. Convenceu-a de que
possuía a pedra filosofal e de que podia transmutar metais em ouro e
“conversar com todos os espíritos elementares”. Cega de paixão, “ela
acreditava que eu tinha o poder de fazer o mundo ficar de cabeça para
baixo e determinar as fortunas da França para o bem ou para o mal”. E
Casanova não via motivos para contradizê-la.
Invocando sua falta de reputação no mundo espiritual, ela propôs
que Casanova devia saber com certeza “como fazer sua alma passar
para o corpo de uma criança do sexo masculino nascida da união
filosófica entre um imortal e uma mulher, ou entre um homem e uma
mulher que fosse de natureza divina”. Quem poderia dizer que forma a
“união filosófica” deveria assumir? Ele apoiou “as ideias malucas da
mulher”, o que não era o mesmo que tapeá-la. Acostumou-se a “flutuar
com a maré” dessa mulher com um grande rendimento de seus
investimentos e propriedades. No entanto, ficou desapontado ao
descobrir que “madame D’Urfé era uma muquirana”. Ela guardava seu
dinheiro e seguia o conselho de um corretor; desse modo, “aumentara
enormemente a carteira de ações”. Apesar de todo sucesso em investir,
contou a Casanova que “daria tudo que tinha para virar homem”, e, não
tendo conseguido, confiava nele para levar a termo a “operação”. Ele
insistiu que nunca faria tal coisa, “pois teria de tirar sua vida”.
“Eu sei”, ela disse. “Sei até o tipo de morte a que devo me
submeter e estou pronta.” Tinha em mente uma poção mística: decerto
Casanova, com suas ligações cabalísticas, poderia encontrá-la em
Paris. Outra conversa revelou que ela mesma possuía a poção; tudo de
que precisava para a concocção era sêmen “extraído de uma criatura
mortal”, como por exemplo Giacomo Casanova. Disse a ele para não
se entregar a nenhuma “compaixão equivocada que pudesse sentir por
minha velha carcaça”.
Casanova pediu licença e saiu para tomar ar fresco no cais, onde
passou “um quarto de hora refletindo sobre suas idiotices”. Voltou a
sua presença com os olhos úmidos, mas o coração empedernido,
encorajando madame D’Urfé a acreditar que estivera chorando. E
então deu as costas a sua presa no momento da conquista. Casanova
quis levar seus leitores a crer que abandonou a mulher nesse momento,
mas a perspectiva de sucesso o assustava mais do que o fracasso.
Poderia ver-se casado com uma das mulheres mais ricas da França,
mas estaria tão preso quanto em I Piombi, vivendo sua vida como um
alquimista recluso confinado a seu laboratório, dominado pelas tolices
de uma mulher excêntrica determinada a colher seu sêmen para suas
“operações”.
Casanova voltou sua atenção para “a grande escassez de dinheiro”
na deteriorada economia francesa. Os desafios iam muito além desse
sintoma. A implosão da aristocracia francesa, a infindável Guerra
Austro-Húngara e uma série de invernos gelados se combinaram para
exaurir o Tesouro. Não obstante, ele ficou convencido de que uma
solução monetária podia ser encontrada vendendo ações reais para
corretores na Holanda. Passou a alegar que fora nomeado a uma
missão clandestina para reanimar a economia francesa. No processo,
planejava aumentar sua riqueza pessoal. Passaporte na mão, despediu-
se de seus amigos em Paris, com exceção de madame D’Urfé, “com
quem passaria o dia seguinte inteiro”. Pusera de lado suas apreensões
quanto às “idiotices” alquímicas dela, mas não em nome dos bizarros
pedidos de seu sêmen. Em vez disso, providenciou a venda de ações a
seu pedido na Holanda, em lugar da Bolsa de Paris, “porque não havia
dinheiro aí”. Em sua ausência, autorizou seu secretário a assinar
bilhetes de loteria em seu nome.
Em 15 de outubro de 1758, começou a viagem para o norte.
Em Haia, procurou Tobias Boas, o membro mais proeminente da
família de banqueiros mais proeminente na cidade. Boas atuava como
uma espécie de diplomata financeiro com excelentes ligações com a
Casa de Orange, a ordem dinástica mais importante da Holanda, e
intercedia em prol dos judeus de toda a Europa. Casanova considerava
essa figura influente simplesmente “o Boas judeu”, mas, para sua
surpresa, o banqueiro estendeu sua hospitalidade ao aventureiro
veneziano: “Ao deixar a embaixada, tomei uma carruagem para a casa
do banqueiro Boas, que encontrei à mesa com sua família feia e
numerosa”, escreveu Casanova. “Ele me perguntou por que, já que era
véspera de Natal, eu não ia fazer nanar o Menino Jesus; respondi que
estava ali para celebrar a Festa dos Macabeus” — ou seja, o Hanukkah
— “com ele. Ele e toda sua família aplaudiram minha resposta, e ele
implorou que eu aceitasse me hospedar em sua casa.” Pego de
surpresa, Casanova aceitou a oferta e “mandei a notícia ao meu pajem
para trazer minha bagagem à casa, e quando me despedia de Boas após
a ceia, pedi-lhe para me conseguir um bom negócio em que pudesse
ganhar 18 mil ou 20 mil florins durante o breve tempo em que
pretendia ficar na Holanda”. Boas se ofereceu para considerar o
assunto até o dia seguinte.
Pela manhã, surpreendeu Casanova levando-o a seu gabinete,
dando-lhe 3 mil florins e expressando confiança de que podia
facilmente ganhar 20 mil por semana. Não, disse Casanova, ele dissera
aquilo como piada, mas Boas insistiu, delineando uma estratégia passo
a passo de comprar ducados na baixa com a Casa da Moeda holandesa
e vender na alta. Casanova admitiu, antes de mais nada, que não tinha
recursos para comprar os ducados.
“A julgar pela proposta que me fizestes ontem”, disse o banqueiro,
“achei que fôsseis um milionário.” Em vez disso, Boas pediu a um de
seus filhos para realizar a transação, humilhando Casanova no
processo.
Mais tarde, seu contato francês advertiu Casanova a não discutir
negócios com judeus, “o mais honesto dos quais era apenas
minimamente desonesto”. A despeito das garantias que deu aos
banqueiros não judeus, Casanova continuou a fazer negócios com
Boas, a aprender com ele o básico das finanças holandesas e a conduzir
diversas transações com o homem em nome de madame D’Urfé, no
interesse de quem chegou a Amsterdam em 7 de dezembro.
Na rica capital, completou suas transações financeiras conforme
seu antigo parceiro de devassidão, De Bernis, rastreava cada
movimento, e se aproximou de um banqueiro que chamou de monsieur
D. O. — pseudônimo para a família de banqueiros escoceses de
Thomas e Zachary Hope. De maior interesse era a filha de catorze anos
de Zachary, Lucia. “Uma beldade, à exceção dos dentes ruins. Era
herdeira de toda a riqueza de seu afável pai, que a adorava. Com a tez
branca, cabelo negro, que usava sem empoar, e grandes olhos negros
eloquentes, causou-me grande impressão.” Falava francês, tocava
cravo e “era uma leitora apaixonada”.
No dia de Ano-Novo de 1759, ele se viu a sós com a jovem Lucia e
seus dentes descuidados na casa esplendidamente decorada dos Hope.
Depois que ela terminou de tocar o cravo, perguntou se Casanova
planejava assistir a um concerto. Não, ele respondeu, porque estava
com ela. Ela dificilmente poderia ir sozinha. “Eu vos acompanharia de
bom grado, mas não ouso ter esperanças”, ele disse.
“Estaríeis fazendo-me grande favor e estou certa de que se fizerdes
a oferta a meu pai, ele não recusará.” Se o fizesse, seria “culpado de
grosseria”. Casanova ficou cético em relação à proposta. “Percebo que
não conheceis os costumes holandeses”, ela respondeu. “Neste país,
jovens solteiras gozam de decente liberdade; elas a perdem apenas
quando se casam. Ide ter com ele”, ordenou.
Uma hora mais tarde, seu pai tendo dado a permissão, ela apareceu
diante de Casanova, radiante e pronta para o concerto. “Só gostaria que
tivesse usado um pouco mais de talco no cabelo”, disse ele de sua
ousada companhia de catorze anos. “Mas [Lucia] tinha orgulho da cor
de seu cabelo, que fazia sua pele parecer ainda mais branca. Um fichu
[espécie de lenço usado sobre os ombros] preto transparente cobria seu
busto, permitindo entrever apenas seu incipiente desenvolvimento.”
Cheio de emoção, ele quis beijar sua mão. Mas em vez disso ela o
beijou, como teria feito na presença do pai. Assim foi que Casanova
recebeu aulas de amor de uma virgem holandesa de catorze anos.
No concerto, Casanova ficou encantado com a multidão de jovens
atraentes. A orquestra executou uma sinfonia e então a cantora, “muito
elogiada sob o nome de Trenti”, assumiu seu lugar junto ao cravista.
Teresa Imer! Ele recordou-a vivamente de seu encontro, dezoito anos
antes, em Veneza, quando o “velho senador Malipiero me aplicara uma
surra de bengala ao me pegar em alguma perversidade infantil com
ela” e, mais tarde, em 1753, calculou, “fizemos amor uma ou duas
vezes, não como crianças, mas como amantes de verdade”, antes que
fosse confinado em I Piombi. Desde então, Teresa se apresentara pela
Europa afora.
Quando Teresa, que passava o prato de prata, reconheceu
Casanova, “ficou muito surpresa”. Ao depositar um pequeno rolo de
dinheiro em seu prato, a atenção dele foi atraída por uma menina que
seguia Teresa. Quando a criança beijou sua mão, “fiquei muito
surpreso de ver que tinha precisamente minhas feições”. Ela ficou
imóvel, olhando para ele, que num gesto galante lhe ofereceu
bombons, junto com a caixa que os continha. A caixa era feita de casco
de tartaruga, mas mesmo que fosse de ouro sólido ele teria lhe dado de
presente.
Rindo, Lucia disse que a menina se parecia muito com ele.
Casanova deu de ombros, mas ficou abalado.
Nessa noite, quando ele comia um prato de ostras, “Teresa e a
menina apareceram em meu quarto. Levantei-me para lhe dar o abraço
extasiado que a ocasião exigia”. A garota pareceu desmaiar e ele a
reanimou com algumas gotas de água fria. Os três então foram cear, e
os adultos trocaram histórias de seus anos separados até as sete da
manhã. Não constituía surpresa que as desventuras, infidelidades e
projetos teatrais fracassados dela a tivessem deixado com grandes
dívidas. Seu marido, alegou, cometera suicídio “durante um acesso de
loucura causado por dores no intestino; ele abrira o próprio abdômen
com uma navalha e morrera do ferimento em suas entranhas”, e ela
fugira para a Holanda para não ser presa. As dívidas de que falava
eram reais, mas a morte grotesca do marido muito provavelmente era
produto de sua imaginação teatral.
Quando conversavam, os amantes tentaram reacender sua paixão.
No fim, Teresa declarou que a menina, chamada Sophie, era filha de
Casanova, e foi buscar uma certidão de batismo. Mas seria verdade?
Casanova recordou que ele e Teresa tinham sido amantes em Veneza
“no início da Feira da Ascensão, em 1753”, no começo de maio. No
entanto, nesse momento Casanova fora levado de roldão por seus
affaires com Caterina Capretta e Maria Eleonora Michiel, e não fazia
menção a Teresa. Sophie nasceu oito meses depois em Beirute e
acabara de completar seis anos. Casanova declarou ter ficado
persuadido com a improvável história. Além do mais, “uma vez que eu
estava em posição de provê-la com a melhor educação, fiquei pronto
para tomar conta dela”.
Se achava que esse gesto magnânimo lhe granjearia uma família
pronta, estava equivocado. Teresa resistiu à ideia de lhe dar sua filha,
chamando Sophie de “sua joia”. Se Casanova adotasse a menina, iria
“arrancar sua alma do corpo”. Em vez disso, podia assumir a
responsabilidade por seu filho de doze anos, que morava em Rotterdam
com um homem “que nunca o dará a mim a menos que eu pague tudo
que lhe devo”. Concordaram em se encontrar outra vez em Haia, onde
ele pagaria para libertar o garoto e reclamaria sua posse. “O
entusiasmo de sua gratidão e alegria foi extenso”, ele observou, “mas
não foi dotado de força suficiente para reacender meu antigo apreço,
ou, antes, o antigo desejo que sentia por ela, pois eu nunca a amara
apaixonadamente.” Por um quarto de hora ela o abraçou e o acariciou,
“mas em vão”. O ardor de Casanova fora apagado pelo inverno
holandês: “Retribuí suas carícias sem nunca lhe dar a prova que ela
buscava de que provinham da fonte à qual Sophie devia seu
nascimento”. Dando-se por vencida, Teresa “se desmanchou em
lágrimas” e foi embora com Sophie, lembrando Casanova que
voltariam a se encontrar.
Ele concluiu suas negociações, calculando que proporcionara a
madame D’Urfé um retorno melhor do que o esperado, que a
convenceria de sua honestidade.
Sob uma espetacular nevasca, voltou à residência dos Hope, onde
Lucia ousadamente o provocou na presença do pai, sobre passar a noite
em uma estalagem com Teresa Trenti. Aliviado, Casanova aquiesceu
ao convite de seus anfitriões para calçar esquis e se aventurar pelo rio
Amsted congelado. “Uma vez que sou um completo novato no esporte,
o leitor pode imaginar que, tendo caído abruptamente no gelo duro
pelo menos vinte vezes, achei que acabaria quebrando as costas”, mas
ele sobreviveu para usufruir de uma refeição ao meio-dia. Entretanto,
“quando levantamos da mesa, senti como que todos os membros
paralisados”. Lucia lhe deu um jarro de unguento para aliviar as dores.
“Percebi que toda a saída para esquiar fora organizada apenas para
fazer de mim o alvo de piadas e não vi nada errado nisso.” Seu estado
de espírito atipicamente magnânimo foi inspirado pela esperança de
que “tanta submissão e obediência de minha parte” o fariam benquisto
junto a Lucia.
Quando acordou, na manhã seguinte, “achei que estava acabado”.
Seu cóccix “parecia em mil pedaços”. O convite de Lucia para lhe dar
um beijo de despedida antes de sua partida da Holanda finalmente o
tirou da cama. Ele a encontrou “em um estado de espírito alegre, com a
tez de lírios e rosas”, fingindo flertar com ele.
“Estou certo de que não teríeis vindo se eu não houvesse usado a
palavra ‘beijo’”, disse ela antes de se entregar a seus “lábios sôfregos”,
que aguçaram seu apetite por mais. “Relanceando os botões róseos de
seus jovens seios, fiquei prestes a segurá-los, mas, assim que ela
percebeu, parou de rir e se defendeu.”
Ele contou a Lucia que voltaria para Amsterdam um dia
“apaixonado apenas por ela”. Ela lhe deu um beijo de despedida tão
carinhoso que ele ficou “certo de que ela lhe concederia tudo por
ocasião de meu regresso. Parti muito apaixonado…”.
11. Miss Wynne
Ao chegar a Haia, Casanova recebeu de sua antiga amante,
possível parceira e suposta antagonista Teresa Trenti um
convite para jantar. “Encontrei essa mulher assaz incomum no
quinto andar de uma casa dilapidada com a filha e o filho”,
recém-chegados de Rotterdam, possivelmente com ajuda de
Casanova.1 “No meio da sala havia uma mesa coberta com um
pano preto, sobre o qual havia duas velas. Como Haia é uma
cidade da corte, eu estava ricamente vestido. A mulher, trajada
em preto com seus dois filhos, me lembrou Medeia.” (Na
tragédia de Eurípedes, Medeia assassina seus dois filhos.) Pelo
menos o aparecimento das crianças afastou suas apreensões.
“Nada podia ser mais belo que as duas jovens criaturas.
Abracei o menino com carinho, chamando-o de filho. Sua mãe
lhe disse que a partir daquele momento deveria me considerar
seu pai.” Mais evidência de que Casanova pagou pelo
privilégio.
Os dois receberam um ao outro em suas vidas
educadamente, já que Casanova reservava suas atenções para a
pequena Sophie, que erguia em seu colo e cobria de beijos. “A
despeito de todo seu silêncio, ela gostava de ver que
despertava mais interesse meu do que seu irmão.” Usava uma
combinação leve, percebeu ele, conforme seus lábios
devoravam “cada parte de seu lindo corpo, deliciado de ser o
homem a quem a menininha devia a existência”. Sophie se
submeteu com paciência a seu abraço afetuoso, lembrando a si
mesma que seu pai de verdade estava morto, e aquele estranho
homem podia ser seu “amigo carinhoso”, como sugeriu
Casanova, após o que trocaram “um bom abraço”.
Ao jantar, Casanova avaliou seu “filho”, que planejava
levar consigo a despeito das falhas de caráter do menino.
“Descobri que era falso, dissimulado, sempre com a guarda
levantada e preparando as respostas de antemão, e nunca
dando as do fundo do coração.” O rapaz disfarçava seu
fingimento com uma mostra de boas maneiras, o que levou
Casanova a lhe dar um sermão sobre a importância da
sinceridade. Quando a mãe dele, acorrendo em sua defesa,
explicou que ela mesma ensinara o filho a ser reservado, “falei
na sua cara que isso era abominável e que não podia imaginar
como um pai pudesse ter algum carinho — muito menos
predileção — por um filho que nunca dizia o que pensava”.
Ele ofereceu mais conselhos: “O negócio é expor a alma […] e
revelar para mim até as coisas que vos podem fazer corar”.
Casanova chegou à conclusão de que “a alma de seu filho
recém-adotado não era tão atraente quanto sua pessoa”. Pior,
ele se mostrou “incapaz de amizade”.
Casanova tinha um motivo inconfesso para sujeitar o filho
de Teresa ao escrutínio; ele planejava apresentá-lo a madame
D’Urfé como a encarnação de seus anseios místicos de
realização. “Quanto mais eu tornava seu nascimento um
mistério”, pensou, “mais o gênio dela a levaria a inventar
fantasias delirantes.”
Observando essa interação entre Casanova e seu irmão, a
pequena Sophie começou a chorar. “Por que choras?”,
perguntou sua mãe. “É estúpido.”
Sophie explodiu numa gargalhada e beijou a mãe.
Casanova, observando atentamente, tomou seu gesto afetuoso
como falso e suas lágrimas, reais.
Em 8 de janeiro de 1759, Casanova voltou a Paris e foi
direto procurar seu benfeitor, De Bernis.
“Há quanto tempo estais em Paris?”, perguntou o
corpulento ministro.
“Nem um minuto. Acabei de descer de minha post-
chaise”, ou carruagem de transporte. De Bernis instruiu
Casanova a ir a Versalhes imediatamente para transmitir a
notícia de seu sucesso financeiro na Holanda ao controlador-
geral. “Haveis realizado milagres. Ide e sede adorado.”
A urgência do homem levou Casanova a achar graça.
“Ninguém vai a Versalhes no meio do dia, mas era assim que
os ministros falavam quando estavam em Paris. Era como se
Versalhes ficasse logo ali na esquina.” Em vez disso, ele foi
visitar madame D’Urfé, que, ao ver Casanova, declarou que
seu gênio — seu guia místico — previra o encontro deles
“nesse exato dia”. Ela pareceu extasiada com seu sucesso
financeiro e se desculpou por determinar emolumentos tão
baixos para ele, mas Casanova galantemente disse que não se
preocupasse. Ele tinha uma notícia ainda melhor, na verdade
um golpe melhor, pois agora a considerava seu alvo, atraindo-
a com o filho de Teresa. Só de mencionar o menino, madame
D’Urfé “tremeu de alegria”. Ela fez planos na mesma hora de
educá-lo em um prestigioso internato parisiense.
Em seguida ele foi à Comédie-Italienne, a versão francesa
da commedia dell’arte, onde encontrou uma mulher que
chamou de madame XCV, ou Lady Anna Wynne, nascida na
Grécia. Seis anos antes, ele se apaixonara pela filha mais velha
dela, então com dezesseis anos de idade, tendo sido expulso
por sua mãe. Casanova teria sido mais devotado, porém, “por
estar na época apaixonado por Maria Eleonora Michiel e
Caterina Capretta, facilmente a esqueci”, ou seja, até essa
noite.
A jovem reconheceu Casanova e o apontou para a mãe,
que o chamou ao seu camarote com um aceno do leque. Ele
recebeu uma acolhida afetuosa, especialmente da filha, que lhe
pareceu uma “deusa”, e prometeu fazer uma visita à família
após ir a Versalhes no dia seguinte. Ao chegar lá, vangloriou-
se com os ministros de que “tenho um plano infalível para
aumentar a receita do rei em 20 milhões sem causar nenhuma
queixa entre aqueles que irão providenciá-los”.
“Executai-o”, respondeu um ministro, e “o próprio rei vos
concederá uma pensão de 100 mil francos e uma carta-patente
de nobreza se pretendeis vos tornar cidadão francês.” Ele
obteria para si uma fortuna segura e status permanente de um
só golpe. A própria madame de Pompadour ofereceu seus bons
votos, solidarizando-se com ele por não ser apreciado “lá
embaixo” em Veneza e entre seus Inquisidores, mas ele em
breve seria recompensado em Paris. Como que para ilustrar o
que ela afirmava, um patrício e poeta veneziano, Tommaso
Giuseppe Farsetti, relanceou em sua direção e perguntou com
ar condescendente se o cargo dele na loteria pagava bem.
À medida que retomava seus contatos em Paris, Casanova
reuniu coragem para visitar Lady Anna Wynne, no momento
instalada na Rue Saint-André-des-Arts, aproximadamente
equidistante de Saint-Germain-des-Près e do Sena. Apesar das
aparências, as origens de Lady Wynne eram tão suspeitas
quanto as de Casanova. Ela era filha de pai inglês, Sir Richard
Wynne, um baronete, e de mãe veneziana, que lutara a vida
toda para assegurar uma posição na sociedade, assim como
Casanova, que a irritava além da conta. “Ele se adorna de
maneira deslumbrante”, ela admitia.2 “Tem dois lindos anéis
de diamante, dois relógios de bolso, caixas de rapé incrustadas
em ouro e sempre muita renda. Ganhou admissão, não sei
como, entre a fina flor da sociedade parisiense.” Em resumo,
esse Casanova era “cheio de si e estupidamente pomposo.
Numa palavra, insuportável. A não ser quando narra sua fuga,
que conta de forma admirável”.
Casanova admitia que Lady Anna “não gosta de mim, mas
recebeu-me mui cordialmente. Em Paris, e rico, pareci a ela
outra pessoa”. E a filha mantinha seu fascínio. “Era difícil
estar perto dela e não se apaixonar”, mesmo que ela parecesse
“fria sem ser indelicada”. Contudo, sua paciência com os
modos difíceis da jovem se esgotara. “A menos que receba
certa quantidade de alimento, o amor do libertino esfria
rapidamente.”
Quando voltou a encontrar madame D’Urfé, ela usava um
grande ímã em torno do pescoço, explicando que o objeto
“atrairia raios sobre ela e assim ela iria para o sol”. O tempo
todo, segurava o “suposto filho” de Casanova nos braços, e
com uma risada ele advertiu o menino a tratá-la como sua
rainha. O menino revelou que a madame o instruíra a dormir
com ela. Esses acontecimentos contribuíram para o plano de
Casanova; na verdade, ele os achou “sublimes”. O menino em
sua cama podia “ser a pessoa que iria assegurar seu
renascimento”, como ela desejava, mas, aconselhou ele, “ela
estragaria tudo se não aguardasse até ele chegar à puberdade”.
E o menino foi para o internato custeado por ela.
Para aproveitar sua riqueza recém-adquirida, Casanova
visitou diversas propriedades, escolhendo Cracovie en Bel Air,
situada em um tranquilo subúrbio parisiense conhecido como
Pequena Polônia. O refúgio tinha dois jardins, três
apartamentos, um estábulo para vinte cavalos, banhos, adega e
“uma grande cozinha com todas as panelas e frigideiras
necessárias”, tudo a um aluguel de cem luíses anuais,
incluindo uma excelente cozinheira, madame Saint-Jean, que
ele chamava de “A Pérola”, por seu valor. Em uma semana, o
aventureiro errante contratara um cocheiro, duas carruagens,
cinco cavalos, um cavalariço e dois lacaios de libré.
Aventurando-se pelos arredores, descobriu que praticamente
qualquer lugar em Paris ficava a apenas quinze minutos de sua
casa suburbana, ainda mais com seus cavalos velozes. “Um
dos maiores prazeres parisienses é andar rápido”, observou.
Quando madame D’Urfé visitou a nova residência,
animadamente presumiu que Casanova adquirira a propriedade
para ela, um equívoco que ele não corrigiu. Quando ela o
informou de que seu “suposto filho” pertencia a uma ordem
secreta de rosa-cruz, que viera ao mundo por meio de uma
operação mística e que um dia “morreria sem deixar de viver”,
Casanova concordou, balançando a cabeça num gesto solene, e
ela deixou a casa num “contentamento supremo”.
Em outra ocasião, o improvável casal visitou o filósofo
Jean-Jacques Rousseau, vivendo em circunstâncias difíceis em
Montmorency, a norte de Paris. “Não o achamos um homem
agradável, por assim dizer”, lamentou-se Casanova. A esposa
e ex-criada de Rousseau, Marie-Thérèse Levasseur, não
mostrou interesse em se socializar e “mal nos olhou”.
Desiludido com o encontro, “voltamos para Paris rindo da
excentricidade do filósofo”.
Procurando outras mulheres, ele compareceu a um baile de
máscaras público, na ópera, mas dessa vez não tinha fantasia.
“Não estando mascarado”, recordou, “fui abordado por uma
mulher vestida de dominó, que, dizendo-me em falsete muitas
coisas a meu respeito que eram verdade, deixou-me curioso
em saber quem era.” Ele a incitou a tirar a máscara; era
Giustiniana Wynne, escondendo-se da família e se divertindo à
beça.
Casanova tentou reacender a chama da paixão, como disse,
mesmo ao conversarem sobre seu noivado com Alexandre
Jean Joseph Le Riche de La Poupelinière, o abastado e
sexagenário fermier général, coletor de impostos real.3 Ele era
um generoso patrono da música que mantinha uma orquestra
particular dirigida pelo compositor Jean-Philippe Rameau. La
Poupelinière flertara com o escândalo desde que expulsara a
esposa; contudo, quando ficou gravemente enfermo, ela voltou
para cuidar dele, até morrer de câncer. Ele sobreviveu e
arranjou amantes, que se recusavam com obstinação a deixar
sua grande casa na Rue de Richelieu.
Foi Farsetti, o condescendente rival veneziano de
Casanova, que apresentou miss Wynne ao idoso monsieur De
La Poupelinière, o qual gostou dela na mesma hora, e, com sua
mãe mexendo os pauzinhos, miss Wynne ficou noiva de um
dos homens mais ricos da França. Embora ele lhe garantisse
um dote de 1 milhão de francos, ela jurou nunca consentir com
o casamento, afirmando não querer se tornar miserável “com
um homem de que não gosto”. Tinha outros pretendentes a
considerar e, além do mais, envolvera-se em um sério apuro.
Após fazer várias visitas à jovem miss Wynne, que estava
normalmente na cama quando ele aparecia, Casanova recebeu
uma carta trazida por seu lacaio na propriedade alugada,
Cracovie en Bel Air. Continha notícias chocantes: “Eis a
verdade, caro Casanova: estou grávida e vou me matar se
descobrirem”. Em seguida, prometia: “Todo meu ser, e tudo
que possuo, será vosso se me ajudardes. Ser-vos-ei muito
grata”. Se pudesse se livrar do “fardo que me desonra”,
monsieur De La Poupelinière proveria por ela. Em nenhum
momento revelou quem era o pai da criança. Em vez disso,
implorou a Casanova para encontrar um médico que pudesse
“livrar-me de minha miséria”, mesmo “à força, se necessário”.
Ela não tinha medo de sentir dor, escreveu, e pagaria o
cirurgião vendendo seus diamantes. Considerava Casanova seu
“anjo da guarda”, talvez a primeira vez que alguém o
enxergava dessa forma, e insistia com ele para pedir às
“garotas do teatro” — sem dúvida ele conhecia o tipo — uma
solução para seu problema. Emitia um lamento sincero: “Ah,
Deus, se ao menos imaginásseis o que tenho passado!”.
Reiterava sua súplica. “Estou em desespero. Ponho-me em
vossas mãos. Deveis conseguir um aborto para mim.”
“É crime”, ele a lembrou.
“Eu sei”, ela respondeu, “mas não é pior do que o suicídio.
Farei um aborto ou tomarei veneno.” Estava com a substância
preparada. “Assim, meu único amigo, vós vos tornastes o
árbitro de meu destino”, disse ela, se desmanchando em
lágrimas.
Casanova explicou que o aborto seria um perigo a sua
vida. “Jamais incorrerei no risco de me tornar vosso assassino,
mas jamais vos abandonarei.” Como um meio-termo entre o
aborto e o suicídio, ele forneceria uma droga especial, um
opiáceo, sob a condição de que ela mantivesse segredo, “pois
se trata de quebrar as mais severas leis. É uma infração
punível com a morte”. Ele propôs começar por uma sangria
executada com o auxílio de uma parteira.
Nesse momento, cometeu um equívoco “absurdo” —
inserindo a palavra italiana madornale em suas memórias
escritas em francês. Em lugar de levar miss Wynne para uma
parteira apropriada, pediu conselho a uma madame chamada
La Montigny. Ela o instruiu a ir ao Marais, onde morava Reine
Demay, uma mulher desmazelada e de má reputação na casa
dos trinta anos. Ele marcou hora sem mais delongas para miss
Wynne. “Com uma risada, ela” — a parteira — “diz sem
rodeios que acomodará a jovem por apenas cinquenta luíses”,
metade paga no ato, metade após o serviço. Cinquenta luíses!
Uma soma considerável, mesmo para miss Wynne.
Para se recuperar do aborto, Casanova convidou miss
Wynne a ficar em sua residência no subúrbio. “Achei que o
momento de minha felicidade estava próximo.”
Ao chegar, instruiu Pérola, sua cozinheira, a acender o
fogo e preparar uma omelete acompanhada de champanhe. O
casal se acomodou diante da lareira, com miss Wynne não
oferecendo resistência a seus avanços até que “ela vê […] que
estou prestes a atingir o auge do triunfo”.
Ela não queria deixar que terminasse. Ele a puxou para a
cama “com força delicada”, mas ela resistiu. Fingindo
indignação, ele proclamou: “A mera ideia de violência me
deixa revoltado”, e começou a rogar em causa própria. Ainda
frustrado, caiu de joelhos, implorando perdão, até que seus
lábios se encontraram e ficaram nos braços um do outro. Ele a
visitou na manhã seguinte e muitas manhãs depois,
restringindo seu desejo de tal forma que ela o provocou por
não amá-la o bastante.
Entrando no sexto mês, miss Wynne vivia na cama, cheia
de exigências. “Ela me tornou miserável”, resmungou
Casanova. Como achava que ele não mais a amava, induziu-o
a examinar seu quadril e sua barriga. “Fiz o papel de parteira,
mostrando completa indiferença a seus encantos”, explicou,
“mas eu já estava por aqui.” Quando ela falava em veneno, ele
ficava calado. Quando sua paciência chegou ao limite, ele
buscou o conselho de madame D’Urfé sobre “um modo seguro
de realizar um aborto”. Ela recomendou o aroph de Paracelso,
infalível e fácil de ministrar. Instruiu-o a olhar o manuscrito e
verificar o preparo de “um unguento cujos ingredientes eram
açafrão, mirra” e mel. “A mulher decidida a esvaziar seu útero
devia pôr uma dose desse opiáceo na extremidade de um
cilindro do tamanho apropriado e inseri-lo em sua vagina de
forma […] a estimular o canal conduzindo à porta fechada da
pequena casa que abrigava o pequeno inimigo cuja partida era
desejada. Esse procedimento, repetido três ou quatro vezes por
dia, durante seis ou sete dias, enfraquecia a porta de tal forma
que ela finalmente se abria e o feto era despejado.”
Quando voltou a visitar miss Wynne, “na cama como de
costume e deprimida porque o opiáceo por mim receitado não
surtia efeito algum”, ele exaltou o aroph de Paracelso como
um “remédio tópico infalível para enfraquecer o anel do
útero”. Num arroubo de inspiração, acrescentou que o aroph
“tinha de ser misturado a esperma que não perdesse seu calor
por um instante sequer”. Na verdade, “é necessário que o
esperma toque o anel imediatamente ao sair”. Na ausência de
um amante, explicou, ela precisava de um “amigo que morasse
na casa com ela e de que ninguém suspeitasse para ministrar o
remédio amoroso três ou quatro vezes ao dia”. Casanova ficou
surpreso de ter se saído “com esse despautério que trazia todos
os sinais de verdade, mas completamente no impulso do
momento”.
Miss Wynne acusou Casanova de crueldade; ele nunca a
amara, nunca, e dizendo isso prorrompeu em lágrimas.
Comovido, Casanova caiu de joelhos e ela começou a
cooperar com seu plano. Ele preparou o aroph, subornou as
criadas, especialmente a arrumadeira inglesa, Magdelaine,
para que cooperassem com sua artimanha. Acontecia de ela
também ter um amor secreto, o rapaz da cozinha, que teve de
ser trazido para o grupo de confiança deles.
Na hora combinada para o procedimento, miss Wynne se
escondeu em um sótão com a ajuda da criada. Nessa noite,
Casanova apareceu, fechando a porta às suas costas e fazendo
uma barricada. À luz de uma única vela, “tiramos a roupa
muito rápido, dispensando inteiramente as preliminares que
sempre precedem nossa performance quando o amor leva a
ela”. Desempenharam o papel de médico e paciente à
perfeição, miss Wynne deitada de costas, as coxas espaçadas,
os joelhos erguidos, o corpo arqueado, enquanto Casanova,
segurando uma vela na mão, aplicava o aroph ao orifício com
a outra. Ele acrescentou seu esperma à mistura. “O
surpreendente é que nenhum de nós sentiu o menor desejo de
rir, tão absorvidos estávamos em nossos papéis.”
Quando o ato se encerrou, “a tímida miss Wynne soprou a
vela, mas dois minutos depois me fez acendê-la outra vez”.
Embora ele estivesse convencido de que haviam executado o
procedimento de forma correta, ela não tinha tanta certeza.
“Obsequiosamente, afirmei que não me importava em repetir a
performance”, e assim a penetrou outra vez. “Da segunda vez
a aplicação do remédio levou um quarto de hora e ela me
assegurou que fora perfeito. Fiquei certo disso.” Talvez
devessem dormir? Mas não havia necessidade. Em vez disso,
miss Wynne cedeu a ele mais uma vez, e depois, “outra
preparação, outro combate com o desfecho mais bem-
sucedido, que se seguiu de um longo sono”.
Pela manhã, ela voltou a seu quarto, e Casanova saiu por
uma porta secreta que lhe fora revelada pelo rapaz da cozinha
a quem ele subornara. E quando visitou miss Wynne ao meio-
dia, “ela se excedeu nos agradecimentos, o que de fato esgotou
minha paciência”.
O esforço em induzir um aborto tendo fracassado, miss
Wynne pretendia fugir para evitar o casamento com La
Poupelinière e implorou que Casanova a ajudasse. Ele fingiu
se solidarizar, mas na realidade não tinha a menor intenção de
ser considerado culpado de sequestrá-la, nem, aliás, de “unir
nossos destinos pelo matrimônio”. O pensamento de se casar
com quem quer que fosse, mesmo uma jovem rica e atraente,
era execrável. Melhor ser um detento do que um marido.
Nenhuma cadeia podia segurá-lo por muito tempo, mas o
casamento, com suas obrigações financeiras, filhos e
restrições, era inescapável.
À procura de uma saída, ele recorreu a uma pessoa de sua
confiança que tomou as providências para que Henriette
Marguerite de Mérinville, a abadessa do priorado de Notre-
Dame de la Conception, escondesse a desafortunada mãe
solteira em um convento em Conflans, perto de Paris. Nem
mesmo sua família saberia de seu paradeiro. Após dar à luz,
faria a confissão e receberia uma “certidão formal” da
abadessa para apresentar a sua mãe, que, assim previa a
abadessa, ficaria feliz em vê-la e, percebendo que fugira para
evadir-se ao casamento, deixaria de pressionar a filha nessa
questão.
Ele trouxe a boa-nova para miss Wynne em seu sótão às
dez da noite. “Apaguei a vela e passamos a noite como
verdadeiros amantes sem pensar mais no aroph.”
Miss Wynne entrou no convento em 6 de abril. Um mês
depois, deu à luz, segundo Casanova, um “belo menino”.
Possivelmente foi levado para um orfanato, seu nome e
destino ignorados. Lady Anna Wynne, monsieur De La
Poupelinière e vários empregados da família compareceram ao
convento, onde miss Wynne os recebeu escondida atrás de
uma grade na área de visitas. La Poupelinière declarou que
continuava preparado para se casar com miss Wynne, mas o
pensamento de integrar seu serralho era-lhe insuportável e ela
resistia a sua proposta.
Com o passar das semanas, saía para caminhadas, perdeu
peso e apareceu na grade do convento para provocar La
Poupelinière em suas visitas ocasionais. Com o passar do
tempo, o escândalo acarretado pelos eventos morreu e ela
deixou o convento para se juntar à família.
Em julho, os Wynne, incluindo Giustiniana, mudaram-se
de Paris para Londres e voltaram à Itália em 1760; ela estava
com 23 anos de idade. No ano seguinte, casou-se com Philip
Joseph, conde Orsini-Rosenberg, o rico e idoso embaixador
austríaco em Veneza. O casal levou uma vida tranquila. Em
seus anos finais, ela começou a escrever, e quando Casanova
descobriu seu livro, Du Sejour des comtes du Nord à Venise
(Visitas de condes do norte a Veneza), ele escreveu a sua
autora, elogiando seu “estilo fluente e despretensioso”, e em
resposta recebeu um curto bilhete de agradecimento da mulher
que um dia lhe prometera tudo.
Enfim livre dos Wynne, Casanova retomou sua existência
libertina. “O estilo em que vivi na pequena Polônia tornou-a
famosa. Todos comentavam sobre a mesa excelente que eu
servia. Eu mandava as aves serem alimentadas com arroz em
uma sala escura. Eram brancas como a neve, com um sabor
requintado.” Além do mais, “aos convidados escolhidos a
dedo eu aliava ceias requintadas, na medida em que minha
companhia via que meu prazer dependia do prazer que eu lhes
fornecia”. Quando estava nesse estado de espírito efusivo,
“damas distintas, todas elas versadas no amor, vinham pela
manhã para caminhar em meu jardim com jovens galantes
imaturos que não ousavam abrir a boca e os quais eu fingia
não ver”. Os que captavam seu olhar viam-se recebendo ovos
frescos e manteiga de sua despensa. Ele afirmava estar
“deliciado com essa vida”, embora precisasse de pelo menos
100 mil francos por ano para mantê-la, e no ritmo em que
gastava em breve estaria quebrado.
Buscou uma fuga de seu dilema em um novo
empreendimento inspirado por um homem “enviado pelo Céu
para me prover com uma renda acima das minhas esperanças.
Ele conversou comigo sobre os lucros exorbitantes que faziam
os fabricantes de seda”. Esse indivíduo alegou que “havia uma
vasta fortuna a ganhar” fixando os preços da produção local
em cerca de um terço dos competidores chineses para “obter
um lucro de 100%”. Com a proposta, ele “definitivamente
captou meu interesse”. O que o homem dizia tinha razão de
ser; os europeus elegantes da época estavam fascinados com
padrões chineses ou de inspiração chinesa aplicados aos
tecidos, sobretudo seda. Se pudesse barateá-la, suas peças
encontrariam um mercado entusiasmado em Paris. “Senti
grande satisfação, pois ficaria rico a ponto de ser recomendado
para o Estado.” Ele tomou as medidas necessárias, tendo
“investigado à exaustão receitas e gastos e encarregado ou
atestado pessoas confiáveis”; levava amostras nos bolsos para
impressionar os amigos e alugou um espaço, sem se importar
com os custos.
Casanova contratou vinte mulheres bonitas com idades de
dezoito a 25 anos para decorar a seda.4 Interessou-se por uma
delas — o nome não é revelado — e lhe arrumou
acomodações. “O exemplo da primeira bastou para fazer todas
exigirem casa e mobília assim que perceberam que haviam
despertado desejos em mim.” Seus casos duraram apenas três
ou quatro dias, mas continuou a pagar as despesas delas muito
depois disso. Os problemas pioraram quando um patrocinador
do empreendimento sumiu com os ativos e depois processou
Casanova. O golpe final veio quando a Guerra dos Sete Anos
interrompeu as vendas. “Eu tinha quatrocentas peças de tecido
pintado em meus depósitos”, queixou-se, “e não era provável
que as vendesse antes de haver paz.”
A debacle o forçou a considerar suas circunstâncias. “A
vida que eu estava levando era a de um homem feliz, mas eu
não estava feliz.” Ele sentia como se estivesse fazendo o papel
de si mesmo, tentando sem sucesso se tornar o libertino que
imaginava ser. Embora tivesse obtido mais riqueza e status em
Paris — Paris! — do que jamais obtivera em Veneza,
permanecia distraído e pouco à vontade. “Eu me divertia”,
disse, “e o prazer que extraía de gastar dinheiro com
prodigalidade impedia-me de pensar no futuro.”
Quanto mais ficava exilado de Veneza, mais veneziano se
tornava. Passou suas noites com uma sucessão de mulheres
pouco memoráveis ao mesmo tempo que prosseguia em seu
relacionamento complicado com a principal amante, Manon
Balletti.5 Depois de reencontrar Casanova, Manon rompera o
noivado com seu professor de música, Clement, e começou a
escrever em segredo para seu novo amor, para então se ver
enredada em um turbilhão emocional, revelado numa série de
cartas, 49 ao todo, redigidas numa mistura de francês e
italiano.
Em abril de 1757, ela escrevera para Casanova: “Não
desejo outra coisa senão ver vosso amor por mim durar para
sempre, [mas] irá? Sei que vos rebelareis contra minha dúvida.
Mas, enfim, meu amigo, não cabe a vós parar de me amar ou
amar-me para sempre?”.6 Casanova permanecia de uma
indiferença exasperante. “Houve ocasiões em que imaginei
que talvez pudésseis retribuir meu amor e que não me dáveis
prova de vosso amor porque as circunstâncias não vos
permitiam.” Ela tinha suas falhas, mas o instava a olhar sua
alma e decidir. Ele virava as páginas, considerava suas
palavras e nada fazia.
Em maio, ela escreveu comentando sobre os esforços
frenéticos da mãe para lhe encontrar um marido adequado.
Felizmente, a atividade de casamenteira a mantinha ocupada,
“graças a Deus!”. Manon permaneceu obcecada por Casanova:
“Amai-me, meu caro Casanova, amai apenas a mim e fazei-me
feliz!”. Ela o advertia de que, se demorasse a vê-la, “vou
dormir sem comer, não vou mais escrever”. Não apenas isso,
mas fora acometida por uma “dor nos olhos”.
Ela intensificou as investidas em cartas subsequentes.
“Escrevo, monsieur, para vos dizer quão furiosa estou
convosco, para vos dizer como estou convencida de vosso
parco amor por mim.” Como lhe era possível mostrar por ela
tão pouca consideração e “tão pouco amor?”. Seus sentimentos
de tristeza e pesar eram opressivos. “Deus, estou furiosa
comigo e ainda mais convosco!” Ele era “o mais ingrato dos
homens”.
Casanova continuava sem coragem de se casar com ela,
ainda que a amasse. “Ela vivia dizendo que eu a iludia”,
lamentou-se, admitindo que falava a verdade.
Para deixar tudo ainda mais às claras, a mãe de Manon,
Silvia, morreu de tuberculose “em seus [de Manon] braços e
nos meus”, nas palavras de Casanova. “Dez minutos antes de
expirar, entregou a filha aos meus cuidados.” Ele fez a única
coisa que um libertino podia fazer: “Prometi do fundo de
minh’alma que a faria minha esposa, mas o destino” — ou
seja, a rapidez com que esqueceu da promessa de última hora
— “foi contra”.
Casanova vendeu sua parte na empresa de pintura de seda
chinesa para um investidor. Recebeu sua cota dos lucros, mas
um roubo o lançou em disputas financeiras. Despediu todas as
garotas que empregara e contratou um advogado que lhe
assegurou não haver nada com que se preocupar.
Às oito da manhã de 23 de agosto de 1759, quando dirigia
sua carruagem, Casanova foi preso pelo chefe de polícia, que o
escoltou a For-l’Évêque, uma prisão para devedores e atores.
“Assim que entrei, o escrivão contou-me que, se pagasse 50
mil francos ou deixasse algo de caução, poderia ir para casa na
mesma hora; mas, não tendo dinheiro nem caução à mão,
permaneci na prisão.” Pedindo material para escrita, redigiu
cartas urgentes para madame D’Urfé, seu irmão e todos os
amigos de cujos endereços conseguia lembrar, pedindo ajuda.
Manon Balletti, sua amante negligenciada, mandou um par de
brincos como caução; uma amiga mandou seu advogado; seu
irmão não respondeu. E madame D’Urfé escreveu dizendo que
o esperava para o jantar. “Achei que enlouquecera.” Ele se
declarou “extremamente irritado” por ser detido devido a
fraude em um negócio no qual se considerava antes vítima do
que perpetrador. À parte o “desconforto da prisão”, sua
situação constrangedora “só poderia arruinar minha reputação
por toda Paris”. Um rumor de que seria enforcado alegrou seus
inimigos.
Nesse momento, um carcereiro o libertou e confidenciou
que “uma senhora estava à minha espera junto à porta de sua
carruagem”. Sua salvadora era madame D’Urfé, que o
cumprimentou “com grande dignidade”. (Em suas memórias,
ele escreve que passou apenas “algumas horas desagradáveis”
na prisão; na realidade, seu encarceramento durou dois dias.)
Ela o aconselhou a “caminhar pelas Tulherias e pelo Palais-
Royal imediatamente, para convencer o público de que o
rumor de minha prisão era falso. Acatei seu conselho”.
Durante seu passeio, observou que “todos os meus conhecidos
ficaram atônitos de me ver”. Ele devolveu os brincos para uma
chorosa Manon e jantou com madame D’Urfé, que gracejou
que ele planejara sua detenção simplesmente para fazer as
pessoas falarem a seu respeito. A piada tinha uma ponta de
verdade: fosse com raiva ou admiração, ele adorava escutar o
som de seu nome. Posteriormente, voltou a procurar Manon
Balletti, “que ficou deliciada em ter aproveitado a
oportunidade de me dar prova de sua afeição”. Depois que
fizeram amor, “a alegria dela não conhecia limites quando lhe
contei que ia desistir de minha fábrica, pois achava que minhas
operárias eram o motivo para eu não me decidir a casar com
ela”. Manon não foi a primeira nem a última a acreditar que se
tornaria a esposa de Casanova.
Ele concluiu que não nascera para a vida de comerciante:
“Minh’alma ficava atormentada toda vez que eu tinha de pedir
favores, gastar dinheiro com advogados e desperdiçar meu
tempo, que só considerava bem utilizado quando em busca de
meu prazer”. O que ele precisava, disse a si mesmo, era de
uma “renda regular suficiente para me proporcionar completa
paz de espírito”. E assim decidiu “abandonar tudo”. Voltaria à
Holanda para “renovar meus recursos financeiros”, como
disse, depois voltar a Paris, investir o dinheiro com sabedoria e
se casar com Manon Balletti. “Informei-a de meu plano e ela
não via a hora de ver sua execução.” Talvez até ele acreditasse
nessa fantasia, mas suas ações contavam uma história
diferente. Em seu frenesi purgativo, ele abriu mão da
propriedade na Pequena Polônia e largou a loteria e a École
Militaire, seus principais esteios em Paris. “Renunciei a minha
irrisória posição de coletor da loteria”, explicou, e entregou a
casa a seu assistente, que fez uma pequena fortuna com esse
golpe de sorte. “Vendi meus cavalos, minhas carruagens e toda
minha mobília” e, ainda mais doloroso, “deixei Manon às
lágrimas”, agarrando-se a sua promessa de voltar. Com essas
rápidas medidas se desfez praticamente de tudo o que
conseguira desde sua chegada a Paris.
A 1º de dezembro de 1759, partiu em uma post-chaise
levando 100 mil francos consigo. Em seu bolso havia uma
obra inflamatória do filósofo francês Helvétius, Do espírito,
que certamente causaria estranheza a quem quer que a visse.
Em Amsterdam, perseguiu sem grande convicção seu plano de
obter dinheiro suficiente para se casar com Manon, que se
queixava muito em sua ausência. “Como é possível aguentar
mais de três meses com pessoas que fedem a queijo, tabaco e
chá”, escreveu, imaginando-o à deriva em um ambiente
estranho “sem cadeiras, nem cama […]. Ó meu querido amigo,
voltai agora”. E concluía de forma pungente: “Sou vossa
esposa, que vos ama ternamente”.
Ele não demorou a descobrir que não era bem o caso. A
surpresa o atingiu como um raio e “quase me matou”.
A carta de Manon Balletti, em Paris, era datada de 7 de
fevereiro (1760). “Sede razoável e recebei calmamente a
notícia que vos envio”, começava.7 Ela anexava suas cartas,
duzentas no total, bem como seu retrato. “Devolvei meu
retrato, e, se ainda tendes minhas cartas, queimai-as”,
ordenava. Ele não devia mais pensar nela e ela faria tudo a seu
alcance para esquecê-lo. O motivo era simples: iria em breve
se casar com Jacques-François Blondel, de 55 anos, arquiteto e
membro da Académie Royale d’Architecture. Concluindo,
aconselhava: “Far-me-eis grande favor se, regressando a Paris,
fingirdes não me conhecer”.
Ele contemplou o retrato dela com dor e tristeza. “Meu
semblante, antes alegre, agora se mostra ameaçador e raivoso.”
Embora nunca houvesse manifestado afeição duradoura por
Manon, a abrupta rejeição o lançou num caos emocional.
Começou a escrever uma resposta, rasgou-a e começou outra
vez, mas não conseguia se expressar adequadamente no papel.
Tomou uma tigela de sopa e foi para a cama. Incapaz de pegar
no sono, concebeu um plano louco: iria a Paris “e matarei esse
tal de Blondel, que nunca vi mais gordo e que ousara se casar
com uma garota que me pertencia”. Sua agitação não cessava,
e ele ignorava as próprias infidelidades compulsivas.
Confinado a seu quarto, escreveu e jogou fora mais cartas.
“Minha barriga vazia mandava vapores para minha cabeça que
me deixavam prostrado; quando me recuperei, explodi,
falando sozinho num acesso de fúria que dilacerou
minh’alma.” Ele precisava comparecer a uma importante
reunião da maçonaria em Haia com “todos os franco-maçons
da Holanda”, mas foi incapaz de criar ânimo para ir. Em vez
disso, ficou se remoendo sobre Manon, que, assim parecia,
representara sua última esperança de felicidade, a última vez
que encontraria um lugar em uma família veneziana que o
aceitaria, e onde se sentia em casa. Seu romance malogrado
sugeria paixões mais sombrias espreitando sob a superfície
diáfana da época.
O banqueiro escocês, Hope, despachou a filha para cuidar
de Casanova. Sua presença reconfortante o ajudou a recuperar
o equilíbrio, conforme ela o alimentava com tigelas de caldo e
chocolate para lhe devolver o bem-estar. “Ela era um tesouro
desejando ser meu”, comentou ele a respeito de sua
sofreguidão por intimidade, “que eu não podia lhe dar.” Com
sua ajuda, “comecei a pensar que não odiava Manon, mas
sentia desprezo por ela; analisar esse novo sentimento deu-me
esperança e coragem”. Quando a jovem Hope lia sua
correspondência, ficou apaixonada por Casanova devido às
palavras que ele escrevera para outra mulher. “Essas cartas
amaldiçoadas serão minha morte”, murmurou, e pediu que o
ajudasse a queimá-las.
“Em vez disso, confiai-as a mim; nunca deixarão minhas
mãos.”
Ela se interessou pelo inventário romântico de Casanova,
especialmente O-Morphi, e ele aquiesceu. Como era tão mais
fácil falar de amor do que vivenciá-lo. “O retrato de Maria
Eleonora Michiel como freira e depois nua a fez dar risada.”
Mais tarde, quando a desejou, ela deixou que beijasse seu
“rosto róseo e aveludado”. Não tardou a fazer contato com seu
“busto de alabastro”. Começaram a sentir que haviam nascido
um para o outro. Assim Casanova descobriu que a melhor cura
para um coração partido era um novo amor. Passou mais dois
dias com ela, lendo as cartas de amor de Abelardo e Heloísa,
escritas no século XIII, enquanto seus dedos sondavam em
busca do segredo entre as pernas dela, até que ela se ajeitou
para “expô-lo à vista”. Ele procurou com cuidado. Lá estava
uma marca em seus pequenos lábios, “não maior do que uma
semente de painço”. Ele se ajoelhou e aproximou a boca da
membrana reluzente. “Ela me deixou beijá-los até eu quase
perder o fôlego.” Passaram “duas horas em brincadeiras
amorosas sem jamais chegar ao grande ato, que tinha razão em
me recusar”. A certa altura ela disse a Casanova que era hora
de discutir o casamento. Claro que ele tinha tanta intenção de
se casar com aquela garota quanto tinha de se casar com
Manon. Ele mudou a conversa para a cabala. Ela suplicou que
a instruísse. A cabala seria sua ligação. De manhã, ele trouxe
para ela livros sobre alquimia e misticismo que “certamente a
deixariam entretida”. Tendo completado sua tarefa, pediu
licença. Estava de partida para a Alemanha a negócios, disse,
misteriosamente. Prometia voltar a vê-la ao final do ano e é
claro que nunca o fez.
“Eis toda a história de minha segunda estadia na Holanda,
onde não realizei coisa alguma para incrementar minha
fortuna”, mas, olhando em retrospecto, “concluo que o amor
compensou tudo.”
No fim de março, Casanova chegou a Stuttgart, onde se
juntou à gente do teatro e do balé de Veneza em busca de
trabalho e diversão no clima muito frio. Hospedado n’O Urso,
conheceu três bem-apessoados policiais — terrível decisão de
sua parte — que o incitaram a jogar até perder todo seu
dinheiro. Os policiais o levaram para um bordel, o obrigaram a
beber vinho adulterado e roubaram suas posses. Casanova não
tinha a quem culpar por sua negligência a não ser sua própria
estupidez. “Minha cabeça girava tão rápido que tiveram de
mandar buscar uma liteira para me levar de volta à estalagem.
Conforme me desveste, meu pajem diz que perdi meus
relógios e minha caixa de rapé de ouro.” Nesse cenário, o
descuidado Casanova personificava o Libertino, o Aventureiro
e o Jogador, os emblemas de sua era.
Os três policiais o visitaram às nove da manhã seguinte
para coletar suas dívidas. “Senhores”, ele anunciou, “perdi
uma quantia que não posso pagar e que certamente não deveria
ter perdido não fosse o veneno que vós me fizestes engolir
com vosso vinho húngaro.” Um bate-boca eclodiu. Casanova
deu uma escolha a seus antagonistas: levar a pendenga às
barras dos tribunais ou “descontá-la em meu corpo com toda
honra e no mais completo segredo, um de cada vez e espada na
mão”. Em vez de castigá-lo preferiam ser pagos — até o
último centavo —, depois o matariam.
Ele decidiu procurar a justiça, apresentou seu caso e
derrotou os três oficiais pelos meios justos e legais. Três dias
depois, foi convocado a dar seu testemunho a um tabelião.
“Passei duas horas com o homem, que escreveu em alemão
tudo que lhe disse em latim.” Foi orientado a assinar, mas se
recusou, com base no fato de que não podia compreender o
texto alemão de seu depoimento.
Pela manhã, um policial educadamente o informou em
francês que permaneceria detido em seu quarto na estalagem.
Uma sentinela fora postada diante da sua porta e deveria
entregar sua espada, coisa a que obedeceu com grande
relutância. “Era de aço, valia cinquenta luíses e fora presente
de madame D’Urfé.” Seu amigo Binetti o advertiu de que, se
esperava obter sua liberdade, devia entregar cada grama de
ouro e diamantes para seus “pretensos credores”, no entanto
ele não teve coragem de dar seus anéis, relógios, estojos,
retratos e outros itens preciosos, todos os quais somando cerca
de 40 mil francos, por suas estimativas.
Um advogado que pegou seu caso explicou que haveria
testemunhas para declarar que era um “jogador profissional”
suspeito que atraíra os três policiais para o antro de jogatina, e,
enquanto estivesse longe se defendendo contra tais acusações,
“funcionários do tribunal virão aqui e esvaziarão vossos dois
baús, vosso cofre e vossos bolsos, tudo será listado e tudo irá a
leilão no mesmo dia”, e se o procedimento não cobrisse suas
dívidas, ele seria recrutado como “soldado comum nas tropas
de Vossa Mais Serena Alteza”, destino que deixou Casanova
“petrificado”. Ele sentiu que “todos os fluidos em meu corpo
buscavam uma válvula de escape”: a mesma reação que
sofrera ao chegar a I Piombi, em Veneza.
Antes de ser encarcerado, Casanova escreveu para o
magistrado de polícia, prometendo vender todas as suas posses
de modo a satisfazer seus credores em troca da liberdade. As
negociações quanto ao momento da venda renderam-lhe
alguns dias de manobra. Ele chamou três aliados venezianos
— Balletti, Binetti e La Toscani — e revelou sua “decisão de
escapar sem perder nenhum pertence”. Binetti endossou o
plano, dizendo a Casanova que, assim que chegasse a sua casa,
a zona rural seria sua passagem para a liberdade. La Toscani
prometeu supervisionar seus baús e Balletti ofereceu a ajuda
de sua esposa. A ideia de fugir com todas as suas posses,
exceto a carruagem, pareceu a Casanova igualmente difícil,
“mas não tão difícil quanto escapar de I Piombi”. Logo La
Toscani se ocupava de esconder dois trajes seus debaixo da
saia. Três outras mulheres que o visitaram em dias sucessivos
também partiram com posses suas escondidas sob as roupas.
Sua fuga ficou planejada para o domingo seguinte, dias antes
de seu aniversário de 35 anos, em 2 de abril de 1760. Parecia-
lhe que durante toda sua vida eventos importantíssimos
ocorriam perto dessa data.
Nessa noite, “vesti um apoio de peruca com uma touca de
dormir, arrumei-o sobre o travesseiro e puxei as cobertas de
modo que qualquer um seria tapeado”. Enquanto os
conspiradores distraíam a sentinela diante do quarto bebendo
em sua companhia, Casanova esperou o cair da noite armado
de uma faca de caça e duas pistolas. Após escurecer, deixou
furtivamente seu quarto, desceu a escada na ponta dos pés e
passou por uma porta aberta “sem encontrar ninguém”. Era
pouco depois da meia-noite. Correu para a casa de Binetti,
onde sua esposa abriu a porta e rapidamente o guiou até uma
janela pela qual escaparia. “A esposa de Balletti estava ali para
me ajudar a descer, e seu marido esperava embaixo com barro
até os joelhos.” As mulheres passaram uma corda em torno de
seu peito, sob as axilas, seguraram as duas pontas e “aos
poucos a afrouxaram de modo sincronizado com minha
descida suave, calma e completamente segura. Nunca um
homem foi mais bem servido”. Ele saboreava a emoção de
mais uma fuga, evadindo-se de forma simbólica aos grilhões
da moralidade e da mortalidade.
No chão, correu através da lama, afundando as canelas e
galgando sebes, até chegar à estrada elevada, onde uma
carruagem preparada por Balletti o aguardava.
“Após cear bem e dormir melhor ainda”, recordou,
escreveu cartas idênticas para os três policiais que haviam sido
a causa de seu sofrimento, desafiando-os a um duelo. Jurou
esperar três dias para que aparecessem, “na esperança de matar
todos eles e desse modo me tornar famoso em toda a Europa”
— como se a Europa notasse suas desventuras. Esse era mais
um exemplo das fantasias grandiosas que ocasionalmente o
dominavam. Se não pudesse obter seu status mediante a
respeitabilidade, talvez o conseguisse por intermédio da
notoriedade.
Os dias se passaram, os policiais não apareceram, mas “as
filhas do estalajadeiro fizeram o tempo passar do modo mais
agradável que eu podia esperar”.
No quarto dia, Casanova recebeu um aviso urgente
instruindo-o a fugir para a Suíça de modo a evitar ser
assassinado por capangas contratados por seus três inimigos,
que haviam ficado furiosos com o engodo arranjado para sua
fuga. Ao chegar a Zurique, alojou-se confortavelmente em
uma estalagem de renome, A Espada. “Sozinho após a ceia na
cidade mais rica da Suíça”, recordou, “entreguei-me a
reflexões sobre minha presente situação e minha vida
pregressa. Rememoro as coisas boas e ruins que me ocorreram
e examino minha conduta.” Ele nada fizera além de abusar de
“todos os favores que a fortuna realizara para mim […]
estremeço e decido parar de ser o brinquedo da fortuna”.
Como um esteio contra o caos, investiria seu dinheiro “para
assegurar uma renda permanente não sujeita a flutuações”.
Adormecendo com esse pensamento reconfortante, sonhou em
usufruir de sua liberdade no campo até que subitamente
acordou ao amanhecer, inquieto e furioso. “Levanto-me, visto-
me e saio, sem me importar para onde estou indo.”
Marchou por sulcos de rodas em uma estrada qualquer,
recusando-se a pedir orientações aos camponeses que
encontrava. Seis horas mais tarde, viu-se numa planície
cercada por quatro montanhas muito altas. Foi até uma igreja
distante “e me senti feliz de estar em um cantão católico”. Ao
encerramento da missa, os monges beneditinos ofereceram um
tour improvisado pelos “ornamentos extremamente ricos, as
casulas cobertas de grandes pérolas e vasos sagrados cobertos
de diamantes e outras pedras preciosas”. Sem falar alemão,
conversou em latim com o abade, que insistiu que Jesus
consagrara pessoalmente a igreja e “mostra-me na superfície
do mármore cinco concavidades que os dedos de Jesus Cristo
havia deixado”. O abade, “deleitado com a atenção obediente
com que eu escutava toda essa bobagem, perguntou-me onde
estava hospedado”.
“Em lugar nenhum.” Casanova fizera a viagem a Zurique a
pé.
O abade ergueu as mãos para dar graças a Deus por trazer
esse estranho pecador à igreja — “para dizer a verdade,
sempre pareci um grande pecador”, interpôs Casanova — e o
convidou a jantar com os monges. Ao repasto, ficou sabendo
que chegara a Nossa Senhora de Einsiedeln, reverenciada por
sua Virgem Negra, que séculos de fumaça de velas haviam
escurecido. Nesse refúgio de passados pregressos e perigos
presentes, “respirei outra vez”.
Em meio ao rarefeito ar montanhoso e ao sussurro dos
monges, ele contemplou um regresso à vida monástica que
conhecera na juventude. O abade aconselhou Casanova a
deliberar por duas semanas antes de tomar uma decisão.
Durante esse intervalo, familiarizou-se com a biblioteca do
mosteiro, estimada por sua coleção de incunábulos — livros
impressos antes de 1500. Notou “Bíblias, exegeses, os Santos
Padres, legistas diversos” — autoridades na lei romana — “e o
grande dicionário de Hoffman” em quatro volumes, datado de
1668. Sentindo um renascimento de seus impulsos
escolásticos, poderia de bom grado ter permanecido entre os
massudos volumes, livre do tumulto da vida libertina. “Foi
então que senti pela primeira vez o desejo de me tornar um
monge, mas não lho disse.” Em vez disso, fez uma “confissão
geral de todos os meus múltiplos pecados”. Havia muito a
conversar. “Em menos de três horas, contei-lhe uma
quantidade de histórias bastante escandalosas, mas carentes de
graça literária, uma vez que tinha de usar o estilo do
penitente.” O abade despachou o recém-chegado a um recinto
para devotar o dia à oração, embora Casanova tivesse em
mente algo diferente: “Para ser feliz, achei que precisava
apenas de uma biblioteca”.
Para manter-se ocupado, estudava alemão durante três
horas toda manhã, com poucos resultados. Para sua satisfação,
seu professor “solenemente chamou todos os monges de pior
escória da raça humana”. Disse que os monges de Nossa
Senhora de Einsiedeln em particular nada mais eram que “um
bando de oito preguiçosos, ignorantes, hipócritas depravados,
verdadeiros porcos”, e o próprio abade, “um palhaço”.
Após duas semanas de doutrinação, em 23 de abril,
Casanova olhou pela janela certa manhã e viu uma mulher em
traje de montaria — “en Amazon”, em suas palavras —, uma
morena, com tez aveludada, maçãs róseas e capuz de cetim
azul do qual pendia uma impressionante borla prateada.
Quando avistou seu admirador no mosteiro, virou em sua
direção, exclamou alto, e então, chocada consigo mesma,
explodiu numa gargalhada.
“Defendei-vos, mortais, contra um encontro desses, se
tendes forças”, adverte Casanova em suas memórias.
Ele se atirou na cama para recobrar a compostura. Escutou
a “amazona” vindo para o mosteiro com duas amigas para cear
antes de realizar suas preces na manhã seguinte, às seis. Teve a
ideia de pegar um avental verde de garçom emprestado para
servir as mulheres à mesa. Seria uma deliciosa distração.
Adotou apenas a expressão de “torpeza e falsa modéstia
exigida para o papel que estou a desempenhar”. Mais tarde, à
mesa das mulheres, trinchou destramente um capão suculento
temperado com sal grosso. Notando sua habilidade, a amazona
perguntou se servia ali havia muito tempo. Só algumas
semanas, respondeu ele, acrescentando: “Sois muito bondosa”.
Nesse momento, ela notou a “magnífica renda” em seu punho,
incomum para um criado. Presente de um nobre irlandês,
respondeu ele com modéstia.
Na manhã seguinte, bem cedo, quando a servia de novo,
seus olhos “se banquetearam em seu busto de alabastro”.
Quando ela lhe pediu que buscasse suas botas, ele pediu que o
deixasse amarrá-las. Ela o encarou com desdém e partiu. Em
sua frustração, ele procurou “beleza jovem e mercenária” —
duas delas, na verdade — e usufruiu de “diversão suficiente”
até a meia-noite, pagando pelo privilégio.
Viu a amazona uma última vez quando ela se preparava
para partir, tendo descoberto seu nome: baronesa Marie Anne
Louise Roll von Emmenholtz.8 Recém-casada. Quando a
observava de sua janela, ela subiu em sua carruagem sob a
chuva, removendo o capuz de cetim azul com a borla e o
saudou com um sorriso gracioso.
Para ser considerado digno da baronesa e outras de sua
classe, ele assumiu o nome de Chevalier de Seingalt. Já se
passara por barão, para sua grande alegria, e esse novo título
soava ainda mais aventuroso. “Chevalier” era uma palavra
arcaica para “cavaleiro”; o título se aplicava também a um
status elevado em várias ordens de mérito francesas, em geral
conferidas por um monarca. O nome Giacomo Casanova soava
comum, mas o patrício Chevalier de Seingalt sugeria missões
secretas, espionagem e riqueza sem limites. Quanto mais
Casanova insistia no fingimento, quanto mais assinava cartas e
manuscritos com esse título, mais convencido ficava de sua
identidade fabricada. Com ela, repetidamente cruzava a linha
entre a fantasia e a fraude.
No fim de abril, o Chevalier de Seingalt deixou Zurique e
foi para Lucerna e Berna, na Suíça, onde se hospedou numa
estalagem aconchegante e confortável, La Couronne, e
continuou a perseguir a baronesa. Ao mesmo tempo, sua
benfeitora em Paris, madame D’Urfé, enviou uma carta
apresentando-o ao marquês de Chavigny, o embaixador
francês de longa data em Veneza. Casanova naturalmente
ouvira um monte de coisas a seu respeito e “mal podia esperar
para conhecê-lo”. A amizade entre os dois ficou famosa, com
Casanova agindo da maneira mais melíflua e encantadora de
que era capaz, até o marquês assustá-lo dizendo que duas
mulheres haviam lhe dito que ele não era o Chevalier de
Seingalt coisa nenhuma, mas um garçom que as servira
quando iam rezar. Claro que a história não podia ser
verdadeira, não é?
Era e não era verdade, explicou Casanova. Ele se
disfarçara de garçom para flertar com uma mulher, que,
desnecessário dizer, já estava prometida a outro. Disfarces e
máscaras eram sua segunda natureza. Ele vivia
desempenhando algum papel que se adequasse a sua fantasia
ou o ajudasse a consumar suas ambições.
A intriga romântica de Casanova deleitou o marquês, e os
dois mantiveram sua amizade enquanto Casanova morou num
pequeno castelo alugado e cortejava a baronesa. Certa noite,
quase alcançou seu objetivo, mas a grande custo. Após a ceia
com o objeto de sua afeição e vários outros convidados,
anunciou que iria se retirar para seu quarto a fim de escrever.
Antes disso, saiu à procura dela. “Saio tateando pela casa.
Aproximo-me da porta aberta.” Nesse momento, “sinto um
toque. A mão que ela põe sobre minha boca diz que não devo
falar. Caímos no largo sofá e na mesma hora atinjo o auge dos
meus desejos”. A noite de verão era breve; ele tinha apenas
mais duas horas com ela. “Usei-as para dar repetidas provas do
fogo que me consumia à mulher divina que eu tinha certeza de
segurar nos braços. Achei que sua decisão de não esperar por
mim na cama fora sumamente perspicaz, uma vez que o som
de nossos beijos podia ter despertado o marido. Suas fúrias,
que pareciam exceder as minhas, elevaram minh’alma ao céu e
fiquei certo de que, dentre todas as minhas conquistas, essa era
a primeira de que podia justificadamente me orgulhar.”
O primeiro indício de que as coisas tinham dado errado
ocorreu na manhã seguinte, quando encontrou a baronesa, que
exclamou: “Fui dormir apenas às quatro horas, depois de vos
esperar em vão. Que infortúnio vos impediu de vir?”.
“Horrorizado”, como ele disse, percebeu que deitara com
outra mulher, que chamou de madame F., em vez da baronesa!
Era mais do que um faux pas; era um insulto à ordem social.
“Senti que morria. Para não cair no chão, recostei a cabeça
contra uma árvore.” Talvez a baronesa estivesse tentando
negar o encontro, o que seria seu direito, mas ele não podia
imaginar uma mulher de sensibilidade tão refinada sendo
capaz de um comportamento tão baixo. A essa altura ele sabia
da brutal verdade: madame F. o enganara, e como conseguira
isso ele não sabia dizer. Como o “infalível tribunal de todos os
meus sentidos” falhara? “Apenas o tato teria bastado.” Ele
amaldiçoou o amor, a natureza e sua própria fraqueza, e
sentenciou-se à morte — após ralhar com a mulher que o
enganara.
“Soturno e emudecido”, retirou-se ao quarto para ler uma
carta da mulher “que me tornara o mais miserável dos
homens”. Suas palavras eram ainda mais danosas do que ele
imaginara.
“Por dez anos tive uma ligeira indisposição que nunca fui
capaz de curar”, escreveu madame F. “Fizestes o bastante
ontem à noite para contraí-la; aconselho-vos a tomar
medicações de imediato. E vos aviso de que tomeis o cuidado
para não transmiti-la a vossa beldade, que em sua ignorância
poderá passá-la ao marido e a outros.” Cada nova frase era
uma nova torção na faca. “Se necessitardes de um médico,
requerei sua discrição”, aconselhou, “pois é sabido […] que
sofro desse pequeno mal e as pessoas podem dizer que
pegastes de mim.” À medida que se dava conta de sua
malevolência, ele contemplava o sofrimento de tratar seu
oitavo caso de doença venérea. Nada de affaire com a
baronesa e nada de vingança contra a pérfida madame F.
Só podia culpar a si mesmo. “Passei uma noite cruel, que
sempre foi a coisa mais incomum para um homem do meu
temperamento”, recordou. E, quando tocou a campainha para
chamar a empregada na manhã seguinte, “ela disse que eu
parecia um cadáver”, conforme lhe servia café da manhã.
“Nem bem tomara meu chocolate, vomitei.” Se não tivesse
pedido que a criada o preparasse para ele, teria pensado que
madame F. estava tentando envenená-lo. “Um minuto mais
tarde vomitei tudo que comera na ceia e, com grande esforço,
uma fleuma verde e viscosa.”
Exausto, dormiu por sete horas e, tendo se recomposto,
recebeu a visita de um “cirurgião para tratamento”.
Conforme se recuperava, elaborou sua vingança contra
madame F. Respondeu sua carta, dizendo-lhe que estava
terrivelmente enganada: “Sabei, monstro do inferno, que não
deixei meu quarto, de modo que passastes duas horas com
Deus sabe quem”. Acrescentou que se tivesse lido sua carta
em sua presença, “certamente vos teria perseguido e
assassinado com minhas próprias mãos”. Tendo dado vazão a
seu spleen no papel, “enviei-a à miserável que me tornara
miserável”. Uma hora mais tarde, enviou outra arenga para
anunciar que seu pajem exibira recentemente “sintomas da
sífilis”, e que ele admitia ter “recebido esse belo presente”
dela. Aparentemente ela tomara o pajem por Casanova.
Encerrando, parabenizava-a por ter usufruído em sua
imaginação de um prazer que “certamente jamais teria obtido
na realidade”.
Ela escreveu em resposta breves linhas para insistir que
não acreditara em nenhuma das mentiras de Casanova.
Sem se intimidar, Casanova despachou o criado para
ameaçar madame F. de um processo na justiça. Ela infectara
deliberadamente o incauto pajem, que precisava de dinheiro
para a cura. Sob pressão de Casanova, a autora do agravo
terminou por capitular, escrevendo em resposta: “Estou
desesperada por ter causado mal a uma pessoa inocente e de
bom grado pagarei a penalidade”. Ela incluía 25 luíses para o
tratamento do pajem e um apelo para manter o assunto no
“mais estrito silêncio”. Se Casanova não aquiescesse,
escreveu, “deveis temer minha vingança”.
Casanova respondeu com uma carta furiosa: “Ficai
sabendo, mulher maldita, que o mundo não é inteiramente
povoado por monstros que preparam armadilhas para a honra
daqueles que dão valor a ela”. E, tendo disparado essa salva,
devolveu o dinheiro que ela mandara com o pajem. Casanova
esperava que o criado voltasse depois de ter entregue a
mensagem, coisa que fez após uma angustiante demora.
Mas na manhã seguinte ele “viu o primeiro sintoma de
minha amaldiçoada doença”. Felizmente, em alguns dias “vi
que não era grande coisa”, e uma semana depois se considerou
curado.
Nesse ínterim, entreteve sua inocente e meiga empregada
com histórias de suas aventuras, muitas vezes amenizando as
coisas para poupá-la. Com o passar dos dias, passaram do
formal vous para o casual tu, sinal de sua relação cada vez
mais próxima. “Ela escutava com o mais vívido interesse
quando eu contava minhas vicissitudes no amor.” Quando
percebia que estava escondendo algo, “insistia comigo para lhe
contar tudo sem rodeios”, e assim ele fazia. Quando contou ter
encontrado a marca da “semente de painço” nos lábios
menores da filha do banqueiro escocês, a empregada explodiu
numa gargalhada e caiu nos seus braços. “Em seus espasmos
de riso, era incapaz de me oferecer grande resistência.” Suas
aventuras com outras mulheres agiram como um afrodisíaco
para a empregada. Havia quase tanto prazer em “descrições
pormenorizadas” de atos íntimos quanto em realizá-los.
Ainda incapaz de conjunção carnal devido a sua sífilis
muito contagiosa, Casanova e a empregada se acariciaram até
atingir a “crise” mútua. Entreolharam-se, e a empregada, não
mais completamente inocente, disselhe: “Meu querido amigo,
nós nos amamos e, se não tomarmos cuidado, não mais nos
restringiremos à mera frivolidade”.
Quando chegou a Lausanne, Casanova ansiava por
estímulo intelectual tanto quanto por provocação erótica.
Nesse baluarte protestante, um refúgio para os huguenotes
franceses, ele empregou as cartas de recomendação recebidas
de madame D’Urfé para conhecer cientistas e filósofos
eminentes, alguns dos quais lembrava de seus tempos de
estudante em Pádua, quando haviam dado aulas por lá. Entre
os mais proeminentes estava Albrecht van Haller, o médico,
botânico, estudioso clássico e poeta suíço cujo poema mais
conhecido, “Os Alpes” (“Embora a natureza dissemine pedras
na terra estéril/ O arado não obstante doma seu solo e as
colheitas crescem”), era muito remoto para as sensibilidades
venezianas de Casanova. O acesso de Haller a Voltaire, que
morava perto, importava muito para Casanova. Voltaire, como
todo mundo sabia, era o nom de plume de François-Marie
Arouet, autor de inumeráveis livros e livretos. Na cabeça de
Casanova, os dois homens eram de igual estatura, uma opinião
delirante mas reveladora. Na realidade, sua reputação literária
era ínfima, ao passo que Voltaire — espirituoso, dramaturgo,
polemista, filósofo e historiador — residia entre as figuras
mais proeminentes do Iluminismo. “Quando lhe contei que
desejava ansiosamente ser apresentado ao famoso Voltaire, ele
respondeu sem um vestígio de amargura que eu tinha razão em
almejar tal coisa, mas que muitas pessoas o haviam achado, a
despeito das leis da física, maior de longe do que de perto.”
Percebendo que Haller era capaz de obter um convite para
visitar Voltaire, a opinião de Casanova sobre o médico suíço
foi às alturas, e ele impressionou Casanova por ter se casado
três vezes — e ficado viúvo em duas ocasiões. “O corpulento
suíço era um homem douto da mais elevada ordem, mas da
maneira menos pomposa possível.”
Pela manhã, durante a viagem de coche de Lausanne para
Genebra, ele travou um animado debate com um pastor
calvinista, cujas posições racionais e robustas sobre sua fé
deixaram o veneziano admirado, embora não abrindo mão de
seu catolicismo, apesar de tudo. “Não havia mistérios para ele,
tudo era razão”, maravilhou-se Casanova, para quem em geral
o oposto era verdadeiro. “Nunca encontrei um padre tão à
vontade com seu cristianismo como foi com esse homem
digno.” Mesmo assim, quando os dois discutiram a
infalibilidade papal, Casanova começou a “citar os evangelhos
e o deixei boquiaberto”. Afinal, ele treinara para o sacerdócio.
Sua camaradagem improvável se aprofundou quando o
pastor mencionou a sobrinha de vinte anos. “Ela é teóloga e
bonita.”
“Deus me poupe de discutir com ela”, disse Casanova.
“Ela vos forçará a discutir, e ficareis muito feliz com isso,
prometo.”
À noite, Casanova chegou a sua estalagem, À la Balance,
relanceou uma janela e viu as palavras “Tu oublieras aussi
Henriette”, que ela escrevera na vidraça doze anos antes.
Vendo isso agora, “meus cabelos ficaram de pé”. Ele foi
assombrado pela lembrança de sua paixão, a mais idílica que
conhecera, e pelo súbito desaparecimento dela de sua vida. A
previsão, é claro, não se concretizou: ele nunca a esqueceria.
“Nobre e estimada Henriette, que tanto amei, onde estais?” Ele
ansiava por correr para os braços dela, se ao menos soubesse
onde estava.
Em vez disso, ficou distraído com a perspectiva de se ver
frente a frente com Voltaire. Será que parte da estatura moral
do grande homem passaria para Casanova?
12. A freira de olhos negros
“Este é o momento mais feliz da minha vida”, exclamou Casanova,
ou assim queria levar Voltaire a crer.1 “Finalmente encontro meu
mestre; faz vinte anos, monsieur, que me tornei vosso aluno.”
“Honrai-me com mais vinte e depois prometei trazer meus
emolumentos”, respondeu Voltaire, então com 66 anos, nesse mesmo
espírito jovial.
“Eu vos dou minha palavra, e só a morte — eu não — quebrará
minha palavra.”
Pouco antes de Casanova aparecer, Voltaire publicara Cândido, ou
O otimismo, uma sátira sobre a filosofia resolutamente animada de
Gottfried Wilhelm Leibniz e, por extensão, o éthos complacente e
hipócrita da classe dominante na França. Ele morava em uma
propriedade perto de Genebra chamada Les Délices, com Louise
Denis, née Mignot, que era sua governanta, sobrinha e, mais
recentemente, amante. Com uma piscadela bem a seu feitio, Voltaire se
proclamara o “estalajadeiro da Europa”. Seu mais recente hóspede era
Giacomo Casanova.
Em seu primeiro encontro, os dois puseram à prova o
conhecimento mútuo de língua, literatura e filosofia discutindo as
mentes eminentes da era — Isaac Newton e Bernard Fontenelle, entre
outros.
“Francesismos não tornam vossa língua mais bela?”, inquiriu
astutamente Voltaire a seu visitante alto e ansioso. (Isso, é claro, era a
lembrança de Casanova sobre o encontro.) “Eles a tornam mais
intolerável”, respondeu o jovem, desafiante, “assim como o francês
recheado de italianismos ficaria, mesmo escrito por vós.”
“Tendes razão”, disse Voltaire. “Deve-se escrever com pureza.”
Uma nova estocada: “A que ramo da literatura vos devotastes?”.
16. François-Marie Arouet Voltaire e sua companheira, Marie-Louise Mignot Denis.

Nenhum, esquivou-se Casanova, para esconder sua parca produção


literária. “Leio tanto quanto posso e dedico-me a estudar a humanidade
viajando.”
É uma abordagem possível, concedeu Voltaire, “mas o livro é
grande demais. O método mais fácil é ler história”.
“A história mente”, redarguiu Casanova. “Não se pode ter certeza
dos fatos; é entediante; e estudar o mundo en passant me diverte.”
Duelaram sobre poesia antiga e moderna — Casanova ao menos
dessa vez em seu elemento intelectual —, com Voltaire o deleitando ao
recitar de memória duas passagens do Orlando furioso, “sem nunca
esquecer uma linha, jamais pronunciando uma palavra a não ser de
acordo com a estrita prosódia; ele comentava sobre a beleza de seus
versos para mim, com reflexões que só um grande homem de verdade
podia fazer”.
Casanova escutava com a respiração suspensa, sem piscar, tentando
em vão encontrar um erro — só um! — nas palavras do grande
homem, mas sem sucesso, excetuando sua observação de que o
infalível Voltaire era “insaciável por elogios”. E durante todo esse
tempo, madame Denis, uma figura literária por seu próprio mérito,
observava com ar de aprovação e desafiou Casanova a recitar de
memória 36 estrofes do poema épico. Ele aquiesceu, recitando-os
“como se fossem prosa”, em vez de declamar enfaticamente os versos,
“animando-os pela voz, pelos olhos e pela entonação variada
necessária para a expressão de sentimento”. Ele represou as emoções
até que “as lágrimas verteram dos meus olhos de forma tão impetuosa
e abundante que todos os presentes também derramaram lágrimas”.
Voltaire correu a abraçar Casanova, que manteve distância conforme
chorava para chegar ao fim da sua declamação, e ao concluir
“sombriamente recebi as congratulações de todos”.
Voltaire declarou: “Para extrair lágrimas, a pessoa deve chorar;
mas, para chorar, deve sentir, e assim as lágrimas vêm da alma”.
Prometendo recitar as mesmas estrofes no dia seguinte, também
chorando, Voltaire insistiu que seu talentoso hóspede ficasse “pelo
menos mais uma semana”. Os dois se envolveram numa discussão
bem-humorada e concordaram com três dias.
Durante esse intervalo, Voltaire questionou Casanova sobre a
questão do governo veneziano, “sabendo que devo nutrir um
ressentimento”. Ambos haviam sido presos por seus respectivos
governos, porém Casanova argumentou que Veneza, não obstante,
permitia liberdade em abundância, um juízo permeado de intensa
nostalgia. Casanova explicou que os venezianos eram tão livres quanto
possível “sob um governo aristocrático. A liberdade que temos não é
tão grande quanto a usufruída pelos ingleses, mas estamos contentes.
Meu encarceramento, por exemplo, foi um completo ato de
despotismo”, mas “considerei que tinham razão em me prender sem as
formalidades de praxe”. Era o estilo veneziano.
“Nesse caso”, escarneceu Voltaire, “ninguém está livre em
Veneza.”
“Possivelmente”, rebateu Casanova, mas “para ser livre basta
acreditar.” Voltaire não concordava muito com isso e observou que os
patrícios venezianos em cargos do governo não podiam viajar sem
antes obter permissão. (A situação era ainda pior do que Voltaire
pensava: os diplomatas e ministros venezianos eram absolutamente
proibidos de se encontrar com estrangeiros.) Casanova defendeu a
ideia, que era uma segunda natureza para ele, porque permitia aos
venezianos manter seu poder.
Mais tarde, Voltaire mostrou seu jardim enquanto falava sobre
Homero, Dante e Petrarca, muitas vezes traindo uma falta de
discernimento e precisão, no entender de Casanova. Pior que isso, o
figurão se entregava a cansativos acessos de “zombarias, pilhérias mal-
humoradas e sarcasmo”, rindo das próprias piadas e elogiando as
próprias opiniões. Conforme passeavam pela casa de Voltaire,
passando por pilhas enormes de correspondência, Casanova teve ideia
de como era a vida de um homem de letras eminente. Poderia um dia
ser a sua, também? Voltaire evidentemente usufruía de uma renda
imensa que o capacitava a viver com toda extravagância, mas de onde
ela vinha? “Aqueles que diziam e dizem que se tornou rico apenas
trapaceando os livreiros estão equivocados”, observou Casanova. “Pelo
contrário, os livreiros o passaram muito para trás”, com exceção dos
irmãos Cramer, editores genebrinos de Voltaire.
A prolongada visita a Voltaire envenenou o espírito de Casanova.
Alimentou um “ressentimento contra ele por dez anos”, criticando tudo
que o “grande homem” escrevia ou falava. Se ao menos Voltaire não
tivesse se entregue àquela maldita “zombaria” no terceiro dia, o
veneziano o teria achado “sublime em todos os aspectos”. Em vez
disso, pretendia informar Voltaire de “quantos erros há em seus livros”.
No início de agosto de 1760, Casanova trocou Genebra por
estâncias no norte reservadas a nobres, avarentos, inquietos e esnobes.
Seu itinerário incluía Aix-les-Bains, a sudoeste de Genebra, e
Grenoble, onde alugou uma casa de campo e continuou numa querela
epistolar desnecessária, mas muito apreciada, com Voltaire. Na
vizinhança de Aix, espionou uma freira que se parecia com Maria
Eleonora Michiel, em que não punha os olhos havia mais de cinco
anos. “Quando caminho ao seu lado, ela rapidamente baixa o véu e
toma outra direção, obviamente para me evitar.” Ele a seguiu,
presumindo que fugira de seu convento “desesperada, talvez louca”, e
viera a Aix para aproveitar as águas terapêuticas. Perguntou aos outros
sobre ela, mas não obteve informação útil. Planejando conseguir um
encontro, pegou uma escada e a apoiou contra uma parede sob sua
janela ao luar. Acreditando escutar a própria Maria Eleonora anunciar
claramente “Vinde e nada temei”, entrou em ação.
“Subi, entrei e agarrei-a em meus braços, cobrindo seu rosto de
beijos. Perguntei em veneziano por que não tinha velas e lhe pedi para
satisfazer minha impaciência de imediato”, mas, quando ela falou, não
foi com a voz de uma veneziana, e não com a voz de sua amada. Ele
pediu profusas desculpas à mulher, fosse ela quem fosse,
provavelmente francesa, por sua indiscrição. Após uma pausa, ela lhe
contou de suas aflições: engravidara, presa entre os muros de um
convento e o capricho de seu amante, um corcunda francês. “Como
podeis ter-vos apaixonado por ele?”, quis saber Casanova. Ela explicou
que não se apaixonara; ficara com pena dele. “Ele queria se matar.
Fiquei com medo.” Não, ele não a forçara, implorara às lágrimas para
possuí-la até que finalmente cedeu. Não ficara com medo de
engravidar porque “sempre acreditei que para uma jovem engravidar
precisava fazer aquilo com um homem pelo menos três vezes”.
(“Desafortunada ignorância!”, declarou Casanova.) Contudo, sem que
soubesse por quê, ficou grávida de fato, sem ter ninguém a quem
recorrer. Após lhe confidenciar sua história, desmanchou-se em
lágrimas.
Casanova prometeu visitá-la outra vez no dia seguinte e então
desceu a escada. Foi direto para a cama, “no fim das contas muito feliz
por estar equivocado em minha ideia de que a freira pudesse ser minha
querida Maria Eleonora”. Entretanto, desejava conhecer essa nova e
estranha freira muito melhor do que conhecera. Contudo, quando a
visitou outra vez, decidiu que seu rosto era “de uma semelhança tão
perfeita que não posso crer que me enganei”. Quando ela abriu os
olhos para fitá-lo, e ele viu que eram negros, não azuis como os de
Maria Eleonora, percebeu que se enganara outra vez. Não obstante,
“fiquei profundamente apaixonado por ela e a tomei nos braços”.
Quando a cobria de beijos, ela deu um espirro tão forte que não pôde
responder na mesma moeda. Quando corria para pôr o véu, expressou
seu medo da abadessa e da excomunhão se permitisse a um homem vê-
la. Casanova ministrou esternutatório, um pó que causava espirro, e foi
embora, “temendo que o esforço de espirrar pudesse fazê-la dar à luz”.
Por mais que tentasse tirá-la da mente, percebeu que se apaixonara
por “essa nova Maria Eleonora Michiel de olhos negros”. Não
permitiria que voltasse a seu convento naquela condição. Atribuiu esse
bizarro rumo dos acontecimentos românticos a uma “ordem divina.
Deus desejara que eu a tomasse por Maria Eleonora”. Na verdade,
todos os eventos em sua vida podiam ser atribuídos a Deus, “embora a
chusma dos filósofos sempre me acusara de ateísmo”.
Quando voltou a encontrar a freira de olhos negros, descobriu que
o pó esternutatório que lhe ministrara — mas apenas em pequenas
quantidades! — induzira o parto e ela dera à luz. “Tive apenas uma dor
violenta”, contou-lhe com alívio. O bebê foi rapidamente tirado de
suas mãos e levado à “roda”, uma plataforma giratória na parede da
maternidade, junto com um bilhete dizendo que a criança ainda não
fora batizada. Com um giro da plataforma, os recém-nascidos se
tornavam enjeitados, disponíveis para quem estivesse passando.
Ela atribuiu a recuperação de seu ordálio à afeição de Casanova.
“Dizei-me se sois um homem ou um anjo, pois temo incorrer no
pecado de vos adorar”, suspirou. Contudo a intensidade de sua
devoção o preocupou a tal ponto que “pensei que ela enlouqueceria de
gratidão”. Embora ele tenha prometido vê-la no dia seguinte, “não
podia esperar para sair da arriscada situação”, a despeito da compaixão
que sentiu pela freira de olhos negros tão ingênua e crédula. Ele
calculou que ela não permaneceria como sua amante de longo prazo
porque “se arrependera muito profundamente de ter corrido o mesmo
risco com outro homem”. Contudo, no dia seguinte, quando ela se
queixou de que seus seios lactantes estavam doloridos, ele se ofereceu
para examiná-la. Ele acariciou seus seios e moveu a mão para o mais
baixo que ousou, pedindo seu perdão e dando-lhe “um beijo terno”
quando partiu, chamando-a de “filha querida” para deixá-la à vontade,
conforme se tornava o homem mais recente a abusar dela.
Ele voltou ao leito da mulher após uma noite de jogatina e,
enlevado com seus ganhos, continuou a cortejá-la. “Ela tinha 21 anos
de idade e eu 35. Minha afeição por ela era muito mais forte do que a
de um pai.” Ela o recebeu nua em sua cama e ele mencionou que se a
visse usando o hábito no dia seguinte, a visão o deixaria perturbado.
“Então me encontrareis nua na cama”, ela lhe assegurou. Ele requisitou
permissão para prestar seus respeitos de tempos em tempos, mesmo
sob o risco de excomunhão. E quando revelou os detalhes de seu
romance com Maria Eleonora Michiel, ficou perplexo ao descobrir que
as duas freiras tinham o mesmo nome. Abalado com a coincidência,
Casanova e a freira de olhos negros permaneceram em silêncio por
longos minutos. Quando ele recomeçou, mostrou um retrato da Maria
Eleonora original. “É meu retrato”, avaliou a sucessora, “a não ser
pelos olhos e as sobrancelhas. É meu hábito! É maravilhoso.”
A cada revelação, Casanova persuadia a freira de olhos negros a se
aproximar da consumação. Em seguida, passou a insistir em que lhe
permitisse beber o leite de seus seios ainda intumescidos. “Que
loucura!”, ela exclamou. “Acredito que estais bebendo o leite de vossa
pobre filha.”
“É doce, minha cara amiga”, ele respondeu, “e o pouco que tomei é
um bálsamo para minh’alma. Não podeis lamentar ter-me concedido
esse prazer, pois nada é mais inocente.” Para encorajar o desejo dela,
exibiu um retrato nu de sua predecessora; a imagem inspirou
arrebatamentos conforme ela o beijava. Ela revelou seus cabelos, por
mais pecaminoso que fosse. “Acreditei realmente que estava vendo
Maria Eleonora Michiel com os cabelos negros”, maravilhou-se.
Quando comparou-a ao retrato, “o objeto vivo triunfou sobre a imagem
pintada”. Na verdade, quase triunfou.
“Tenho tanto amor por vós que lamento não serdes uma mulher”,
suspirou a freira de olhos negros. Casanova refutou a ideia; se ele fosse
mulher, não a amaria tanto quanto sendo homem.
Convidou-a a se sentar para que pudesse “sugar as últimas doces
gotas de vosso leite”. Quando bebia o néctar proibido, ela proclamou
que nunca conhecera alegria mais pura do que a que ele lhe concedera
“prendendo-se em seus seios”. Beijaram-se até ficarem exaustos, mas
ela se recusou a conceder favores adicionais. Ele exercitou seu
autocontrole e, estimulado mas insatisfeito, regressou a seus aposentos
às duas da manhã, apaixonado por sua freira de olhos negros.
Quando ele voltou, ela usava um espartilho adornado com fitas cor-
de-rosa — presente de uma camponesa, como explicou, não de um
admirador. Apalpando e arrumando, a freira de olhos negros comentou
sobre o conforto e o tamanho da cama, os “belos lençóis” e a peça
folgada que estava vestindo. “Dormirei melhor esta noite, contanto que
possa me defender desses sonhos sedutores que puseram minh’alma
em fogo ontem à noite”, disse, com um trinado coquete.2
Casanova suspirou. Desejava agir, mas temia “causar-lhe dor”.
“Prazer demais”, ela o corrigiu. Mas seu prazer era inocente; o
dela, completamente pecaminoso, ele sugeriu. Após mais alguns
gracejos, ela o convidou a desamarrar seu espartilho. Ele serviu a freira
de olhos negros de taças de clarete conforme ela removia sua touca,
sacudia os cabelos, tirava o espartilho e, “passando os braços pela
peça, mostrou-se aos meus olhos amorosos”. Quando arrumou espaço
para ele na cama, Casanova compreendeu que “era hora para eu deixar
a razão de lado e o amor exigia que aproveitasse o momento. Lancei-
me a seu lado, não sobre ela, e, tomando-a nos braços, pressionei meus
lábios contra os dela”, conforme começava a fazer amor com a freira.
O resultado foi uma aula de sedução. As maçãs dela ficaram escarlate
quando ela dormiu, ou, como Casanova expressou com delicadeza;
“As papoulas de Morfeu tornaram seu rosto radiante”. Ela murmurou
durante o sono. “Desvestindo-a e segurando-a perto, consumei o doce
crime nela e com ela”; mas antes do clímax ela abriu os olhos. “Ah,
Deus”, gemeu com voz agonizante, “então é verdade!” Em um mundo
de paixão e indulgência, o êxtase era tudo.
Entre uma e outra jogatina, Casanova voltava a sua freira de olhos
negros. Com retratos nus dela como afrodisíaco para ambos, ela o
tomava nos braços, “mas disselhe para esperar um momento”. Ele
tinha um pequeno pacote que ela apreciaria imensamente, uma
“pequena jaqueta de pele muito fina e transparente, com vinte
centímetros de comprimento e fechada numa ponta, e que a título de
correia de bolsa na extremidade aberta tinha uma estreita fita cor-de-
rosa”. Quando ela examinava o preservativo com uma risada nervosa,
ele explicou que usara uma jaqueta exatamente igual àquela com sua
amante veneziana, Maria Eleonora Michiel.
No início, ela pareceu confiante. “Eu mesma vestirei em vós”,
declarou, “e não podeis imaginar como estou feliz.” Estudando seu
pênis, embainhado em alerta, concluiu que, “a despeito da fineza e da
transparência da pele, o coleguinha me agrada menos trajado”. Na
verdade, “a cobertura o degrada, ou me degrada — uma coisa ou
outra”.
Sim, sim, Casanova concordou, “vamos filosofar mais tarde”. Só
queria tomá-la em seus braços.
Ela proclamou que “os desavergonhados artesãos que fabricam tais
bolsas” merecem punição. Deviam “ser excomungados uma centena de
vezes” e sujeitados a multas e punições corporais. Nesse momento, ele
a penetra, desesperado por alívio, atingindo um clímax prematuro.
“Não poderíeis ter esperado mais um minuto?”, exclamou ela ao
perceber o ocorrido. Tendo ejaculado, ele lhe assegurou que nenhum
mal fora feito. “Nenhum mal foi feito?”, ela lamentou. “Ele está morto!
Rides!”
Ele argumentou que “em um minuto vereis o coleguinha revivido e
tão cheio de vida que da próxima vez não morrerá com tanta
facilidade”. Gentilmente removeu o preservativo e ofereceu um novo à
freira de olhos negros, que ela colocou assim que o membro foi capaz
de sustentá-lo. Fizeram amor novamente e então ele cambaleou de
volta a seu quarto, e a freira de olhos negros a seu convento.
Quando chegou a Gênova, a cidade o lembrou tanto Veneza que ele
sentiu o peso do exílio — até encontrar duas mulheres para distraí-lo.
Havia a brincalhona e coquete Rosalie, pela qual achou estar
apaixonado, e Veronica Alizeri, uma aristocrata empobrecida que o
deixou “em fogo” mesmo ao rechaçar suas investidas.
Ele continuou a cortejá-la publicamente quando se apresentou em
uma produção teatral com Veronica: a popular L’Écossaise, ou Le
Café, de Voltaire, que Casanova traduzira do francês para o italiano,
como forma de manter sua ligação com a controversa celebridade
literária.
Voltaire compusera sua sátira em cinco atos durante oito dias em
1760, escondendo-se atrás de um pseudônimo, como muitas vezes
fazia, fosse como padre, rabino ou filósofo. Nesse caso, passou-se por
certo “mister Hume”, da Igreja de Edimburgo, e irmão do filósofo
David Hume, mas não enganou ninguém, especialmente porque o alvo
da sátira calhava de ser Élie Catherine Fréron, cuja carreira fora
construída atacando filósofos como Voltaire e lançando um movimento
de vida curta chamado de Contrailuminismo. Em L’Écossaise, Fréron,
mais conhecida entre o público leitor como editora de L’Année
littéraire (O ano literário), figura como a pomposa chefe de L’Âne
littéraire (O asno literário). A peça fora um sucesso tanto na França
como na Inglaterra, e Voltaire apreciara cada minuto do escândalo
suscitado.
Casanova enviou sua tradução para o homem ilustre, “junto com
uma carta muito educada em que me desculpava com ele por ter tido a
ousadia de verter sua linda prosa francesa para o italiano”. Voltaire
desdenhou do tributo, e o menoscabo deixou Casanova “tão irritado e
ofendido” que ele reafirmou sua intenção de se tornar “inimigo do
grande homem”.
Contra esse pano de fundo de duelo literário, os ensaios para a
produção genovesa de L’Écossaise transcorreram sem problemas. Uma
semana antes da apresentação, cartazes apareceram em Gênova para
anunciar: “Encenaremos L’Écossaise, de monsieur de Voltaire,
traduzida por mão anônima e sem nos servir de um ponto”.
Casanova classificou a apresentação como um “sucesso absoluto”,
enchendo um grande teatro — não com pessoas comuns, observou,
mas “com a gente mais nobre e rida desta grande cidade”. Ele recebeu
pedidos para cinco novas apresentações, além de outra peça de sua
pena. Em vez disso, devotou-se a perseguir Rosalie, ainda que
descobrisse para sua mortificação que estava envolvida com outro
homem, que talvez a houvesse engravidado. A essa altura Casanova
não queria nenhum envolvimento com ela. No fim, Rosalie se casou
com um mercador genovês e Casanova voltou sua atenção a Veronica e
sua irmã, Annetta.
“Vós me deixais em fogo”, ele declarou.
“Oh, acalmai-vos, por favor! Amanhã à noite não vos deixarei em
fogo. Por favor, por favor, deixai-me em paz.” Ele empurrou Veronica
para o sofá, apalpando suas áreas mais sensíveis sob a roupa… até que
ela fugiu.
Nessa noite ele foi para a cama frustrado e “extremamente
descontente comigo mesmo”. No dia seguinte, em sua irritação,
caminhou durante duas horas para recobrar a compostura. Em uma
taverna de vilarejo comeu uma omelete antes de perceber que não tinha
forças para voltar a Gênova a pé. Com a noite se aproximando
rapidamente, pediu um cavalo e um guia, tendo dez quilômetros pela
frente. “A chuva foi minha companhia por todo o trajeto até Gênova,
onde cheguei às oito horas, encharcado, morrendo de frio e cansaço, e
com a parte superior das coxas em carne viva devido à sela rústica, que
rasgou meus culotes de cetim.”
Ele voltou a seus aposentos, exausto, encharcado até os ossos, para
encontrar uma carta de desculpas de Veronica, mas ela não apareceu
em carne e osso. Em sua ausência, ele ceou com a irmã mais nova dela,
Annetta, “observando com prazer que ela bebia apenas água, mas
comia mais do que eu. Minha paixão por sua irmã me impedia de
pensar nela”. Ele insistiu que bebesse vinho, e a conversa passou à
irmã. “Pensais que ela tem o direito de me fazer sofrer?”, ele
perguntou.
Não, respondeu Annetta, “mas se vós a amais, deveis perdoá-la”.
Assim ele manteve distância da jovem, “pois temi achá-la demasiado
complacente”. Ele lhe pediu que buscasse uma jarra de uma “pomada
inodora” para aliviar os ferimentos causados pela “sela amaldiçoada na
qual cavalguei por dez quilômetros”. Ela podia examiná-lo na cama,
olhar mais de perto, tocar nos lugares delicados. “Posso apostar que,
por mais míope que fosse, nunca vira a coisa tão bem antes, e deve ter
apreciado.” Com o tempo, seus dedos foram além dos pontos
doloridos, até que ele não pôde suportar mais o tratamento e implorou
que parasse, o que ela fez, perguntando-se o que fizera de errado.
Recuperando o fôlego, ele pediu a Annetta para passar uma ou duas
horas com ele e depois de ficar apenas de camisão ela aquiesceu, “sob
a condição de que não penseis mais em minha irmã”. Casanova jurou e
a possuiu.
“Pela manhã”, Casanova ficou surpreso ao ver que “a vítima não
maculara o altar com sangue”. Ela não era virgem, afinal. “Isso muitas
vezes me aconteceu”, disse ele após sua descoberta, mas, advertia seus
leitores, “nenhuma conclusão legítima pode ser extraída de um fluxo
de sangue ou de sua ausência. Uma jovem só pode ser condenada por
ter um amante se ele a engravidou.” Ele pegou no sono e, quando
acordou, encontrou as duas irmãs deitadas na cama, sem “o menor
sinal de desentendimento entre elas”. Ele naturalmente se aproveitou
da situação. Quando rolavam na cama, Veronica repunha as cobertas
sempre que caíam, e Annetta “exibia todos os seus tesouros para mim”.
Uma enérgica batida na porta os tirou de seu estupor erótico. Era o
criado dele, anunciando que um felucca o aguardava para levá-lo.
“Furioso com a interrupção”, Casanova cambaleou até a porta, ordenou
ao criado que pagasse o capitão e o instruiu a voltar na manhã seguinte.
Quando a embarcação voltou, o vento estava soprando do lado errado e
a viagem foi adiada mais uma vez. Casanova continuou com as irmãs
por mais uma noite, até que o capitão finalmente anunciou que o tempo
estava bom para fazer-se à vela. Partindo a bordo do felucca, ele
refletiu sobre o paradoxo de seus desejos; era mais feliz perseguindo
um objetivo inatingível do que conquistando-o.
Ele viajou para o Sul por Livorno, Pisa e Florença, onde alugou um
apartamento com vista para o rio Arno.
Alugou uma carruagem e um lacaio trajado com a libré azul e
vermelha da dinastia Bragadin. Apresentava-se não como Giacomo
Casanova, mas como o Chevalier de Seingalt. (“Não queria me impor
sobre ninguém, mas queria causar certa impressão.”) Em sua nova
encarnação, visitou um banqueiro para obter crédito, foi ao teatro e
reservou um camarote na ópera posicionado de modo que pudesse ver
os artistas, entre eles a prima virtuosa, Teresa Lanti, antes o célebre
“castrato” Bellino, ainda cantando após todo esse tempo, ainda “bela,
viçosa e […] tão jovem quanto antes”. Estavam amadurecendo juntos,
dois navios viajando rumo a seus destinos a uma mesma velocidade e
parecendo não avançar.
“Ao fim de sua ária ela vai para os bastidores e mal chega às coxias
antes de virar e sinalizar com o leque para que eu vá falar com ela.”
Seu coração bate rápido conforme ele se lembra de ter deixado de
responder sua última carta, treze anos antes. “Aproximo-me e ela
permanece muda. Tomo sua mão e a ponho contra meu peito, de modo
que possa sentir meu coração, que parece querer pular para fora.” Ele
informou-a de que não era casado, mas seu marido, um jovem muito
bem-vestido e bem-apessoado, apresentou-se. Mesmo depois de saber
que ele era rico, e não tendo nada mais a fazer senão cobrir Teresa de
atenção, Casanova confessou que “sinto meu velho fogo se reacender e
acho que não lamento tê-la encontrado casada”.
Ele apareceu na porta de sua casa às sete horas da manhã seguinte.
“Abraçamo-nos como amigos afetuosos, ou como amantes usufruindo
a felicidade de um momento pelo qual ansiaram.” Lágrimas de alegria
fluíam, e limpando os olhos ambos explodem numa gargalhada ao ver
o jovem marido de Teresa observando-os boquiaberto. Ela salvou a
situação dirigindo-se a Casanova como “pai”, mesmo ele sendo apenas
dois anos mais velho.
Ele explicou para o jovem marido de Teresa: “Ela é minha filha,
ela é minha irmã, um anjo sem sexo, é um tesouro vivo e é vossa
esposa”.
Virando-se para Teresa, pediu desculpa por não responder sua carta
no passado remoto, mas ela explicou que “sabe tudo” sobre suas
aventuras: a freira que se tornou sua amante, sua fuga de I Piombi e
suas peripécias em Paris e Holanda. Para tranquilizar o marido, Teresa
o abraçou, mas a visão dos dois juntos incomodou Casanova, que
sentiu a antiga paixão agitando-se em suas partes baixas. O momento
constrangido passou e os três se sentaram para tomar café da manhã.
No momento em que o marido de Teresa saiu, os amantes caíram
nos braços um do outro, Teresa querendo abraçar Casanova uma
centena de vezes nesse dia “e depois deixar por isso mesmo”.
Conseguiram “satisfazer parte do nosso fogo”, mas Teresa alegou que
amava o marido e nunca quis enganá-lo, assim disse a Casanova que
deviam esquecer o que haviam feito. Ele jurou manter o antigo affaire
em segredo. Teresa concordou, dizendo que preferia falsidades
inofensivas a verdades danosas. Por exemplo, ela alegou estar com 24
anos, mas, como sabiam, disse Casanova, estava na verdade com 32.
“Quereis dizer 31”, ela corrigiu.
Quando ele estava prestes a se atirar em seu pescoço como um
vampiro, o marido de Teresa voltou, seguido de uma linda camareira.
(Casanova não conseguiu deixar de notar que ela carregava “três
xícaras de chocolate em uma bandeja de prata dourada”.) Chocolate
era a última moda; todo mundo bebia, Luís XV bebia, assim como sua
amante. Casanova se declarou “loucamente apaixonado por chocolate”.
Então todos beberam, o marido de Teresa espiando pela borda da
xícara sua visita incomum. Enfim, Casanova decidiu que podia perdoar
Teresa por “ter se apaixonado pelo belo rosto do homem, pois conheço
muito bem o poder de um belo semblante; mas desaprovei o fato de ter
feito dele seu marido, pois um marido adquire direitos soberanos”.
Teresa tinha mais uma surpresa reservada para Casanova.
Conversando com ela dias depois, “de repente aparece uma figura que
absorve e desconcerta todas as faculdades do meu espírito. Um jovem
de talvez quinze ou dezesseis anos, mas com o tipo de maturidade que
um italiano pode atingir em certa idade”. Quando o jovem fez uma
mesura e entrou, Teresa o apresentou como seu irmão. Casanova
manteve a compostura, mas ficou “perplexo”, pois “esse suposto irmão
de Teresa era feito à minha imagem, embora não tão escuro; na mesma
hora vejo que é meu filho. A natureza nunca fora mais indiscreta”.
Entre olhares constrangidos e tossidas sufocadas, Casanova
estudou o jovem, que só podia ser seu, e percebeu que devia ter
engravidado Teresa anos antes, e ela ocultara dele esse fato singular.
Ele se aprouve com “o porte distinto do jovem e a inteligência que
mostrou conforme falava no dialeto napolitano”. Era músico, anunciou
Teresa, um clavicordista talentoso. Casanova se levantou
espontaneamente, aproximou-se do rapaz e o abraçou. O nome de seu
lindo filho perdido, descobriu, era Cesarino.
“Ele é o ditoso fruto de nosso amor”, explicou ela, acrescentando
que o jovem fora criado por um duque, acreditando que Teresa era sua
irmã mais velha. “Meu coração sangra porque não posso lhe dizer que
sou sua mãe, pois acho que me amaria ainda mais.” Casanova
acreditou piamente na história de Teresa sobre as origens do rapaz.
Talvez fosse bom demais para ser verdade, mas as circunstâncias
atenderam sua necessidade de um filho ao mesmo tempo aliviando-o
da responsabilidade de seu cuidado. Ele perguntou se o jovem
Cesarino tinha as qualidades de outro Casanova, ou seja, seu primeiro
caso amoroso? “Não creio”, respondeu Teresa, “mas acho que minha
camareira está apaixonada por ele.”
“Dai-o a mim”, ordenou seu suposto pai, “e lhe ensinarei como
funciona o mundo.”
Mais tarde nesse dia Cesarino voltou para entreter os convidados
com canções napolitanas espirituosas que “nos fizeram rir com gosto”,
fazendo-se acompanhar ao clavicórdio. Teresa relanceava de Cesarino
para Casanova e vice-versa, ocasionalmente abraçando o jovem
marido. Para ser feliz neste mundo, declarou, “é preciso estar
apaixonado”.
“Assim passei esse dia”, recordou Casanova, “que foi um dos mais
felizes da minha vida.”
De Florença, Casanova avançou para Roma, com segundas
intenções; queria muito voltar a Veneza, mas precisava de uma
dispensa papal para evitar ficar preso em I Piombi outra vez. A visita
ocasionou um desconfortável reencontro com seu irmão Giovanni, um
artista que ele não via fazia uma década e “que devia estar então com
trinta anos de idade e encontrava-se em Roma estudando com o
famoso [Anton Raphael] Mengs” — um sombrio pintor neoclássico
que fugira de Dresden para Roma durante a Guerra dos Sete Anos.
Os irmãos Casanova se abraçaram e conversaram por uma hora ou
algo assim, “ele fornecendo-me um breve relato dos pequenos
acontecimentos de sua vida e eu dos grandes acontecimentos da
minha”. Tal era a opinião que Giacomo tinha de suas reputações; na
realidade, Giovanni era o Casanova mais conhecido, o artista
emergente e irmão mais novo de um elusivo aventureiro e alpinista
social.
Casanova em seguida conheceu o cardeal Alessandro Albani,
bibliotecário do Vaticano, cego e balbuciando incoerências. Quando se
deu conta de que o espigado veneziano diante dele era o notório
Casanova que escapara de I Piombi, “ele rudemente diz que está
admirado de que eu tenha o descaramento de aparecer em Roma, onde
a um mínimo pedido dos Inquisidores do Estado um decreto papal me
obrigaria a partir”. Irritado, Casanova retrucou: “Seriam os
Inquisidores do Estado os acusados de descaramento se ousassem pedir
por mim, uma vez que seriam incapazes de declarar por qual crime
privaram-me de minha liberdade”. Essa “resposta rude silenciou o
cardeal”. Pelo menos o amigo de seu irmão, “o infatigável Mengs, que
era realmente grande em sua arte, mas não menos excêntrico em
sociedade”, tratou Casanova com civilidade. Casanova em troca
considerou-o “o maior e mais detalhista pintor deste século”, não que
sua arte tivesse sido transmitida a Giovanni, “pois meu irmão nunca
fez nada para merecer o nome de seu mestre”. (Casanova estava
claramente consumido pela rivalidade fraternal.) Não obstante,
Giovanni apresentou Giacomo a Silvio Passionei, um “cardeal assaz
incomum, inimigo dos jesuítas, homem de inteligência e agraciado
com raro conhecimento de literatura”. Se havia alguém em Veneza
capaz de lhe mostrar o caminho da redenção, esse alguém era ele.
Casanova logo se viu na presença do cardeal.
“Ele me recebeu em uma grande sala em que escrevia
concentradamente: um minuto mais tarde pousou a pena. Não podia
me dar permissão para sentar, pois não havia cadeiras.” Os dois
conversaram sobre o Santo Padre, Clemente XIII, que o cardeal chamou
de “tolo” em voz alta. “Como minh’alma se rejubilou!”, observou
Casanova ao escutar o malevolente comentário. O papa (Carlo della
Torre di Rezzonico) foi pego em uma controvérsia relativa aos jesuítas
e aos principais filósofos do Iluminismo. Cedendo à pressão dos
jesuítas, incluiu a Enciclopédia de Diderot e D’Alembert e as obras de
Diderot no Index Librorum Prohibitorum, ou Lista de Livros
Proibidos. O cardeal, para dizer o nome de apenas um de seus
adversários, discordava enfaticamente da posição dos jesuítas, e assim
chamava o papa de tolo em toda oportunidade. Era exatamente o tipo
de controvérsia em que Casanova se deleitava.
Quando voltaram a se encontrar no dia seguinte, o cardeal pediu a
Casanova para contar a conhecida história de sua fuga de I Piombi, “da
qual escutara maravilhas”. Ele sabia as linhas gerais, mas queria
escutar os detalhes da boca de Casanova.
“Devo me sentar no chão?”, perguntou Casanova, com um quê de
insolência. O cardeal tocou a campainha para chamar um lacaio, que
trouxe um banco para ele, mas “um assento sem braços ou espaldar me
deixa furioso”.
Vexado, “conto mal minha história, e num quarto de hora”, e não
nas duas ou três que normalmente devotava ao relato.
O cardeal concordou com a desoladora avaliação de Casanova
quanto a sua performance nesse dia: “Escrevo melhor do que vós
falais”. Porém, sua performance, ainda que inadequada, granjeou-lhe
uma audiência com o papa.
“Podeis ir beijar o pé do papa amanhã às dez.”
Perante o público, Casanova presenteou o cardeal, que considerou
um homem inteligente, ainda que “altivo” e “vão”, com um livro raro.
Não era uma obra qualquer. Era o Pandectas, ou digesto, de juristas
romanos, um código de leis datando do século VI, compilado por
ordem do imperador Justiniano. Casanova também o ganhara de
presente, mas afirmou não ter utilidade para o livro. O Pandectas
compreendia uma série de cinquenta volumes, “bem encadernados e
preservados”. Ele presumia que o cardeal Passionei, como diretor da
biblioteca do Vaticano, apreciaria o presente excepcional. Em troca,
ganhou o texto de um discurso fúnebre feito pelo cardeal anos antes,
em 1736.
E então era o momento de ser conduzido à presença de Clemente
XIII em Monte Cavallo, a residência de verão do papa no monte
Quirinal, uma das sete colinas de Roma. “Mal entrei e beijei a santa
cruz representada em sua pantufa santa antes dele, pondo a mão em
meu ombro esquerdo, dizer que se lembrava da ocasião em que deixei
sua recepção em Pádua assim que ele começou a entoar o rosário.”
(Clemente XIII fora bispo de Pádua de 1743 a 1758, quando foi eleito
para o papado.) Casanova corou ao admitir, e declarou: “Venho me
prostrar a vossos pés para receber absolvição”, que recebeu sem mais
delonga, junto com a permissão de pedir um favor ao Santo Padre.
Casanova estava com seu pedido na ponta da língua: “A
intercessão de Vossa Santidade, de modo que eu possa voltar
livremente a Veneza”. Clemente XIII disse que discutiria o pedido com
as autoridades, incluindo o embaixador em Veneza. Desconsiderar uma
determinação da Inquisição veneziana era um assunto sério, mas com
seu presente do Pandectas Casanova demonstrara sua familiaridade
com uma obra incomum e erudita destinada a apagar a lembrança dos
textos blasfemos e subversivos que originalmente haviam atraído a
atenção dos inquisidores. Ele papeou com o Santo Padre sobre as
idiossincrasias do cardeal Passionei até que “o papa riu com tanta força
que foi tomado por um acesso de tosse e, depois de cuspir, riu outra
vez”. O momento foi puro Casanova, capaz de encantar cortesãos e o
papa quando a ocasião se apresentasse. Após a audiência, ele ficou
sabendo que o Pandectas recebera a aprovação do cardeal, que
considerou a obra “rara e valiosa e em melhores condições do que a
existente no Vaticano”. Na verdade, ele insistiu em pagar por ela, pois
a queria para sua biblioteca pessoal. Estufando o peito, Casanova
explicou para um intermediário que não tinha intenção de vendê-la.
“Dizei ao cardeal que ficarei honrado se aceitá-la como um presente.”
“Ele vos enviará de volta.”
“E eu lhe enviarei de volta sua oração fúnebre. Não aceitarei
presentes de alguém que se recusa a recebê-los.”
No fim, o cardeal devolveu o Pandectas a Casanova, que retribuiu
devolvendo a elegia para o cardeal.
Ele trocou o clero pelos prazeres a serem desfrutados com a família
do pintor Anton Raphael Mengs, que conhecera por intermédio de
Giovanni. Ele ficou sabendo que a irmã de Mengs, uma talentosa
retratista de miniaturas por seus próprios méritos, comum mas alegre,
fora rejeitada por Giovanni, que considerava “o mais ingrato dos
homens: tratar-me com tamanho menosprezo”. Casanova sabia
exatamente o que ela queria dizer; Giovanni o tratara do mesmo jeito.
A esposa de Mengs, Margherita Teresia Geltrude, “era bonita,
virtuosa, muito escrupulosa no exercício de todos os deveres de uma
esposa e mãe e muito submissa ao marido, que não podia ter amado
porque ele não era amável”, segundo Casanova, que achou seu
anfitrião “teimoso e cruel”, um bêbado em casa, sóbrio em público.
“Sua esposa teve a paciência de servir como seu modelo para todos os
nus que ele teve oportunidade de pintar”, coisa que fez, supunha
Casanova, pela preocupação de que seu marido logo a substituísse por
outra modelo.

17. Anton Raphael Mengs, autorretrato, c. 1778.

Ele recebeu uma convocação para se apresentar ao secretário do


Conselho dos Dez, talvez a pessoa mais poderosa no governo
veneziano, mas hesitou, alegando que faria isso apenas se tivesse uma
“carta de recomendação” papal. Sem ela, “jamais me exporei ao risco
de ficar trancafiado em um lugar de onde a mão invisível de Deus me
libertou mediante uma série de milagres”, ou seja: se aparecesse diante
do secretário, arriscava-se a uma nova estadia em I Piombi, com pouca
chance de escapar novamente.
Para se desincumbir de sua obrigação com o papa, caiu de joelhos e
pediu para presentear seu Pandectas à biblioteca do Vaticano. Em
troca, o papa prometeu um “símbolo de nossa singular afeição”. Mas o
que seria?
Antes de partir de Roma, ele recebeu a Ordem da Espora de Ouro
de Clemente, por realizações na ciência e na arte. “Uma medalha tão
brilhante é muito útil a um homem em viagem”, observou Casanova.
“É um ornamento, uma decoração substancial que evoca o respeito dos
tolos”, e, num mundo cheio deles, “nada como uma medalha para
dobrá-los e lhes levar confusão, êxtase e humildade”. A honra veio
com um diploma “selado com o sinete papal”, tornando-o um “doutor
do direito civil e canônico”. Ignorando a convenção, pendurou a cruz
no pescoço “com uma larga faixa vermelho-papoula” e considerou
mandar incrustá-la com diamantes e rubis. Na verdade, a ordem se
tornara tão desvalorizada que “apenas charlatães a usam”, mas
Casanova se consolou com o pensamento de que os “papas a dão a
embaixadores, ainda que estes a deem a seus pajens”.
Tanta gente usava “emblemas extravagantes”, refletiu, “caçadores,
acadêmicos, músicos, fanáticos religiosos, amantes” — por que não
ele? Quanto aos variados ornamentos usados por mulheres, “vamos
amá-las e não tentar penetrar em seus mistérios”, sobretudo porque o
objeto em questão na maior parte das vezes “calha de ser alguma
bugiganga ou coisa grotesca que usam apenas para chamar atenção e
despertar a curiosidade”. As pessoas haviam se tornado tão inamistosas
que “você não pode mais perguntar a um homem de onde ele vem”. E
era melhor não perguntar a um nobre “quais são suas armas, pois se ele
não conhece o jargão da heráldica, fica constrangido”. Aliás, não
elogie os cabelos de um cavalheiro — ele pode estar usando peruca —
e não cumprimente a mulher por seus dentes — podem ser falsos. Não
pergunte o nome à mulher, tampouco; na França, condessas e
marquesas recebem tantos quando são batizadas que são incapazes de
se lembrar de todos eles. O “cúmulo da falta de modos” era perguntar a
alguém qual a sua religião. “Em resumo, se a pessoa quer ser
apreciada, o mais seguro é não perguntar nada a ninguém.”
Na manhã seguinte, “após um belo desjejum e um abraço carinhoso
no meu irmão”, ele partiu para Nápoles, chegando “quando toda a
cidade estava alarmada, devido ao fatal vulcão ameaçando explodir”.
A erupção do monte Vesúvio, vinte quilômetros a oeste de
Nápoles, teve início em 23 de dezembro de 1760 e continuou até 5 de
janeiro de 1761. O vulcão viera cuspindo fumaça a intervalos
intermitentes desde o ano 79, e mais recentemente em 1737; os mais
inclinados à superstição tomaram essa última perturbação como sinal
de que Deus planejava destruir Nápoles. Mas tais preocupações não
passavam pela cabeça de Casanova quando desviou das cinzas e da
fumaça para chegar à cidade após uma ausência de dezoito anos.
Havia muita coisa que ele queria ver em Nápoles — palácios,
jardins, casas de ópera, parentes distantes e a pequena nobreza local,
que o recebeu mesmo durante a erupção do vulcão. Entre os mais
hospitaleiros estava o duque de Matalona, que lhe forneceu acesso a
seu camarote na ópera, localizado na terceira fileira do luxuoso Teatro
di San Carlo, assim como ao camarote de sua amante. Um gesto
estranho, parecia, mas o duque explicou que amava a esposa; tinha
uma amante apenas “para manter as aparências”. Corria um boato de
que o duque era “impotente com todas as mulheres da terra”.
“Presumo que não estais brincando”, respondeu Casanova, “mas
acho difícil de crer. Como um homem pode ter uma amante que não
ama?”
O duque insistiu que amava sua linda amante de dezessete anos,
que, entre seus muitos atributos, falava francês. Quando Casanova a
conheceu, achou-a encantadora, na verdade, notável, ao passo que o
duque lembrou-o de que a amava como um pai ama uma filha, nada
além disso. “Eu respondo que isso é incrível.”
A cortina subiu em Attilio Regolo, de Metastasio, nome artístico de
Pietro Antonio Domenico Trapassi, poeta e reconhecido autor de
libretos de opera seria.3 A apresentação durou cinco horas, durante as
quais o público tagarelou alegremente. Casanova encontrou a
encantadora jovem amante do duque, Leonilda. Mais tarde, os três
foram jogar em um lugar isolado, pois a atividade era proibida em
Nápoles. Casanova pareceu determinado a perder uma considerável
soma em dinheiro para o duque, que deu a seu novo amigo veneziano
quanto tempo ele quisesse para pagar sua dívida. Para acertar ainda
mais as coisas, ele convidou Casanova a participar de um banquete
com “um enorme prato de macarrão e dez ou doze pratos de tipos
variados de frutos do mar”. No início da manhã seguinte, o duque
apresentou Casanova ao rei Fernando IV de Nápoles, por ocasião de
seu aniversário de dez anos. “Beijei a mão do rei”, recordou, “que
estava inchada de tantas frieiras”, mal do qual o jovem monarca
sofreria por toda a vida.
Durante essas atividades, Casanova relanceava Leonilda, que o
cativou mostrando brevemente o seio e a coxa. Ela tomou café da
manhã em uma sala decorada com posições amorosas chinesas,
imagens que tanto ela como o duque pareciam não notar, mas, ao
examiná-las, Casanova ficou “chocado; entretanto, disfarcei”. O duque
esperava que a arte erótica excitasse Casanova, mas não percebeu sinal
disso, nem quando o apalpou com a mão. Mas quando Casanova
pressionou a mão de Leonilda em seus lábios, “o duque retira sua mão
úmida, exclamando, rindo e levantando para pegar uma toalha.
Leonilda nada faz, mas sucumbe a uma risada incontrolável, assim
como eu e o duque”. A arte erótica deixou Casanova brilhando de
felicidade, não humilhado. “Todos os três transgredimos certos
limites”, admirou-se, “embora tenhamos conseguido nos manter dentro
de outros.” O grupo encerrou a cena com um abraço comunal caloroso,
com os lábios de Leonilda pressionados contra os de Casanova,
enquanto ele cedia à “embriaguez do amor que agrilhoa a mente”. Ele
ficou tão fascinado por ela que pediu ao duque para “cedê-la”, de
modo que pudesse se casar imediatamente. O duque sugeriu que
Casanova falasse ele mesmo com a jovem, coisa que, após perder em
mais uma jogatina, ele enfim fez, no camarote dela na ópera, onde, no
decorrer de quatro horas, lhe contou que o amor que ela inspirava nele
“não podia tolerar rivais nem delongas, tampouco a mais leve
possibilidade de inconstância futura”, e com isso pediu sua mão,
oferecendo um generoso dote. Na realidade, era tão capaz de se tornar
o devotado marido de Leonilda quanto era de voar até a Lua.
Sua sorte no jogo mudou, e após uma noite febril ele quebrou a
banca. Com a confiança e a solvência restabelecidas, viu Leonilda
nessa manhã, mas não mencionou o casamento. Em vez disso,
“passamos o resto do dia observando as maravilhas da natureza nos
arredores de Nápoles”, e quando voltou a se encontrar com sua amada
para negociar os termos do casamento, “ela me achou amoroso apenas
em palavras”, embora, bem a seu modo, “mais uma vez jurei que cabia
inteiramente a ela deixar Nápoles comigo, ligada pelo matrimônio a
meu destino até a morte”. Cético e sorridente, o duque perguntou se
Casanova ainda queria se casar com a jovem após ter passado a manhã
sozinho com ela. “Mais do que nunca”, ele respondeu.
Teve uma discussão de duas horas com o duque relativa à anuidade
de Leonilda, joias e guarda-roupa, tudo isso coisas que Casanova
pagaria ao duque, que as afiançaria com uma hipoteca numa casa de
campo e acabaria por passar à mãe de Leonilda. “Podeis ter certeza de
que sereis o primeiro a quem minha querida Leonilda estreitará junto
ao seio”, afirmou o duque. Tudo que faltava era a mãe dela assinar os
documentos e um padre realizar o matrimônio. Leonilda desmaiou nos
braços do duque quando ele a chamou de “querida filha” e a beijou
várias vezes. Quando voltou a si, “todos nós secamos nossas lágrimas”.
Casanova agora se considerava um homem casado, e como tal
parou de jogar. Só o que faltava para ele era conhecer a mãe da noiva.
Esperava que fosse idosa, mas, para sua surpresa, ficou sabendo que
não tinha mais do que 37 ou 38 anos de idade. À noite, encontrou o
duque parado entre a mãe e a filha. “Olho primeiro para a mãe, que, no
instante em que apareço, dá um grito lancinante e desaba no sofá. Fico
olhando para ela.”
Era Lucrezia Castelli. “Sento-me; compreendo tudo, fico com os
cabelos em pé e afundo no mais sombrio silêncio.” O duque e sua
protegida, Leonilda, perceberam num instante que Casanova e Donna
Lucrezia se conheciam, “mas não podiam saber além disso”. Ele
calculou que seu tempo juntos, combinado à idade de Leonilda,
significava que sua amada podia ser sua filha, mesmo que o
apaixonado marido de Lucrezia não fizesse ideia.
Lucrezia levou Casanova para uma sala contígua e lhe contou sem
rebuços que Leonilda era de fato sua filha. “Tenho certeza disso.” Até
seu marido sabia das origens dela e “não protestava”. Ela se ofereceu
para mostrar a Casanova a certidão de batismo da criança, para que ele
pudesse ver por si mesmo. Além do mais, quando criança, ela fora
chamada de “Giacomina”, por causa do pai. Quanto ao presente
casamento, isso a horrorizava, mas não podia se opor abertamente. “O
que pensais?”, perguntou. “Tendes realmente coragem de se casar com
ela? Hesitais. Haveis consumado o matrimônio antes do contrato?”
Não, não, não, ele insistiu. E, além do mais, “ela não tem meus
traços”.
“Isso é verdade. Parece comigo.”
Seguiu-se uma cena constrangida em que Lucrezia explicou para
sua filha que o nome pelo qual outrora era chamada, Giacomina,
derivava do homem ora diante dela, seu pai e noivo. “Ide e beijai-o
como filha”, ordenou Lucrezia, “e se ele foi vosso amante, esquecei
vosso crime.”
Explodindo em lágrimas, ela gritou: “Nunca o amei, a não ser
como filha”.
O duque e Casanova ficaram mudos como estátuas de mármore.
Continuaram juntos por mais duas ou três horas, até se despedirem à
meia-noite. Mais tarde, ele refletiu sobre o tabu que quase quebrara.
“Se um pai se apossa da filha em virtude da autoridade paterna,
exercita uma tirania que a natureza deve abominar”, o que reconhecia
como o “eterno tema das tragédias gregas”.
“Fui para a cama mas não pude dormir. A súbita transição que tive
de fazer do amor carnal para o paternal causou a todas minhas
faculdades morais e físicas a mais profunda aflição.” Decidiu deixar
Nápoles no dia seguinte, mas o duque advertiu que sua partida seria
vista com desprazer. Casanova não podia considerar todo seu plano de
casamento como uma pequena piada? “Aconselho que retomeis vosso
affaire com Donna Lucrezia”, disse o duque. “Deveis tê-la achado
como era há dezoito anos; não poderia estar melhor.” Casanova
considerou a ideia; o conselho do duque tinha certa lógica, mas no
amor, como disse, uma mercadoria não pode substituir a outra.
Leonilda, pelo contrário, parecia a imagem da alegria, abraçando
seu pescoço e chamando-o de “querido papá”. Ao mesmo tempo,
assim que sua mãe, Lucrezia, o chamou de “caro amigo”, os anos se
apagaram, e ela apareceu diante dele sem as marcas do tempo.
Trocaram reminiscências da primeira noite passada juntos e ele se
ofereceu para se casar com ela, como deveria ter feito anos antes.
Horas mais tarde, Lucrezia foi para sua cama. “Entregamo-nos ao
verdadeiro autor da natureza, o amor.” Casanova encontrara uma nova
família, com uma esposa e uma filha. “Eu fui o mais feliz dos mortais
naqueles dias.”
Lucrezia contou a Casanova que, se ele realmente a amava, tinha
apenas de comprar a propriedade onde ela moraria com ele sem exigir
que se casasse, a menos que ela ficasse grávida. Ele imaginou o idílio
da vida deles juntos. Contudo, havia problemas. Embora rico, “eu teria
de ter adotado um curso prudente de conduta que era absolutamente
estranho a minha natureza”, e, como libertino, ele “odiava a ideia de
sossegar em algum lugar”. O máximo que podia oferecer a Lucrezia
era a promessa de se abster de seduzir Leonilda, ou, como gentilmente
expressou, “perturbar sua inocência” — se ela era de fato inocente.
Como era possível que o duque, que a tivera por amante, a tivesse
deixado intacta?
“O duque é impotente”, disselhe Lucrezia, confirmando o rumor.
“Agora sabeis de tudo.”
Nesse momento, Leonilda irrompeu no quarto, rindo e beijando
ambos. Lucrezia reagiu tirando a roupa de Casanova, jogando suas
roupas para longe e convidando a “inocente” Leonilda a juntar-se a
eles na cama. “Vosso pai”, explicou, referindo-se a Casanova,
“restringirá a atenção a vossa mãe.” Leonilda tirou a roupa, dizendo
que, como seu pai, Casanova tinha liberdade para ver “todo seu
trabalho”, e assim ele fez. Lucrezia se posicionou entre Casanova e a
garota que podia ter sido sua filha, mas “foi apenas nela [Lucrezia] que
extingui meu fogo”.
18. Casanova admirando uma mulher nua, gravura de Chauvet.

Leonilda adquiriu um ar de admiração. “Então foi isso que fizestes


quando me engendrastes há dezoito anos?”
Percebendo que Lucrezia em breve atingiria o clímax, Casanova
acreditou ser seu “dever recolher-se” para poupar-lhe constrangimento,
mas, “movida pela piedade, Leonilda envia a pequena alma da mãe em
seu voo [orgasmo] com uma mão e com a outra põe um lenço branco
sob seu pai ejaculando”.
Depois do clímax, Lucrezia agradecidamente cobriu a filha de
beijos antes de virar para o outro lado e comentar com Casanova que a
garota permanecia “imaculada”. Rindo, Leonilda dirigiu a atenção de
Casanova mais uma vez para Lucrezia. E, assim, “o combate começou
outra vez e não terminou até que pegamos no sono”.
Quando os raios do sol matutino os acordaram, “Leonilda, tão nua
quanto minha mão, obedientemente vai até a cortina, mostrando-me as
belezas que, quando a pessoa está apaixonada, nunca viu o bastante”.
Ele sufocou a jovem com beijos quando ela voltou para a quentura da
cama, “mas, assim que me vê na beira do precipício, sai devagar e me
entrega a sua mãe, que me recebe com braços abertos e
imperiosamente ordena para não poupá-la”. Levou um tempo
excessivamente longo em seu estado exaurido, mas no fim reuniu
forças para aquiescer.
Mais tarde nesse dia, Casanova reafirmou sua intenção de viajar a
Roma para usufruir da última semana de Carnaval, e, se encontrasse
uma orgia por lá, tanto melhor. Ele também não esquecera seu
esquema vital para obter o perdão de Clemente XIII e poder voltar a
Veneza.
Partiu numa carruagem com destino a Roma numa das estradas
mais perigosas da Itália, onde ladrões e trechos íngremes ameaçavam
os viajantes noite e dia. Ignorou todos esses riscos, preferindo
obedecer aos ditames do inconsciente para recapturar sua vida perdida
em Veneza e o amor de sua mãe-fantasma: a Casanova original e ainda
a ladra de seu coração.
13. Hedwig e Helena
Com o Carnaval caindo entre 26 de janeiro e 3 de fevereiro
de 1761, Casanova correu para Roma. Nápoles e suas
mulheres sumiram de sua consciência como se nada mais
fossem que um sonho. Aguardando-o agora estavam seu
irmão, Giovanni, e Mengs.
Ao chegar, ele alugou um opulento landau para se
locomover em grande estilo pela ampla e reta Via del Coso, da
Piazza Venezia à Piazza del Popolo, fazendo uma bella figura
no meio da multidão de foliões. “Vão mascarados ou sem
máscara, ao bel-prazer; usam todo tipo de fantasia, indo a pé
ou a cabalo; jogam doces para o povo, distribuem sátiras,
pasquinadas, livretos. As pessoas mais nobres em Roma
misturam-se aos mais humildes, há uma confusão geral e os
cavalos berberes correm no meio do corso entre os landaus,
cheios de espectadores, que são atraídos à esquerda e à direita.
Ao cair da noite toda a multidão se dispersa para encher os
teatros e assistir a óperas, peças, pantomimas e exibições de
dança sobre a corda bamba, em todas as quais os artistas
devem ser homens ou castrati.”1
Voltando a se