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Anais do 7º Encontro de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais Belo Horizonte – 12 a 15 de setembro de 2004

O TRABALHO DE CAMPO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS (EJA) EM PERSPECTIVA INTERDISCIPLINAR

Área Temática de Educação

Resumo

Trata-se do relato de projeto de ensino em que se desenvolveu experiência de trabalho de campo, realizada com Educação de Jovens e Adultos (EJA). A interdisciplinaridade foi proposta como estratégia metodológica com o fim de romper com o ensino fragmentado e unir as diversas áreas do conhecimento. Agindo assim o conhecimento é experimentado pelos alunos de forma ampla e inter-relacionada e não desarticulada como ainda é praticado em muitas escolas. Foi, pois, um trabalho interdisciplinar para testar a hipótese de que o trabalho de campo auxiliaria a efetivação da experiência interdisciplinar e na sistematização do conhecimento apreendido, possibilitando uma nova perspectiva de ação e intervenção pedagógica a ser utilizada na EJA. Os alunos teriam então a oportunidade de confrontar os conteúdos estudados em sala de aula, seus conhecimentos prévios, a vivência dos fatos observados e a (re)significação dos saberes incorporados.

Autoras

Bianca Alves Dell'Areti - Graduanda em Ciências Biológicas

Elise Avelar Barbosa - Graduanda em Letras Flávia Alves Rocha - Graduanda em Pedagogia Paula Resende Adelino - Graduanda em Matemática Priscila Weitzel Novaes - Graduada em História

Instituição

Faculdade de Educação, Instituto de Ciências Biológicas, Faculdade de Letras, Instituto de Ciências Exatas/Departamento de Matemática e Faculdade de Filosofia e Ciências

Humanas/Departamento de História.

Palavras-chave: EJA; interdisciplinaridade; trabalho de campo

Introdução e objetivo Este trabalho foi realizado com alunos do Projeto de Ensino Fundamental de Jovens e Adultos da Escola Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG PROEF-II, referente ao II

segmento (quinta a oitava séries do Ensino Fundamental regular) da EJA. Esse projeto integra

o Programa de Educação de Jovens e Adultos, coordenado pelo Núcleo de Educação de

Jovens e Adultos, sediado na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. O público atendido pelo Projeto compõe-se de pessoas que não tiveram acesso ao ensino regular ou dele foram excluídos por algum motivo. As aulas são ministradas à noite, de segunda à quinta-feira, na Escola Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG – CP e são distribuídas de modo a contemplar, eqüitativamente, todas as áreas do conhecimento (Ciências, Geografia, História, Matemática e Português) que, durante a semana, possuem duas aulas de uma hora. Além disso, duas horas por semana são destinadas ao desenvolvimento de trabalhos interdisciplinares, pelos quais todos os monitores/professores são responsáveis. O

projeto que ora se apresenta foi elaborado pela equipe de professoras-monitoras das turmas 36

e 40, corroboradas pelas idéias de RIOS, segundo a qual "uma pessoa não pode ser

competente sozinha. A qualidade de seu trabalho não depende apenas dela – define-se na

relação com os outros". (1997:79). (Também são autoras deste trabalho Meiriane Veloso Guimarães, graduanda em Licenciatura em Geografia e Edna Maria Santana Magalhães, orientadora). Tinham como objetivo principal contemplar a interdisciplinaridade através do trabalho de campo e garantir uma interação entre teoria e prática, uma vez que essa facilita a aprendizagem, a (re)construção e a (re)elaboração de novos conhecimentos pelos alunos jovens e adultos, público alvo desse projeto. De acordo com os estudos atuais e observação sobre a construção do processo de ensino aprendizagem, esses "novos" conhecimentos não necessitam ser puramente de natureza acadêmica, contanto que auxiliem os alunos na percepção e na abstração das relações existentes entre os fatos históricos, as informações científicas e específicas tratadas nas diversas disciplinas do Ensino Fundamental. Esse projeto explicitou a necessidade de se propor novas estratégias e instrumentos que incentivem o desenvolvimento de habilidades e competências básicas para que o aluno se conscientize como sujeito critico de sua história e do ambiente onde atua e se aproprie efetivamente de novos saberes. Segundo José Carlos BARRETO e Vera BARRETO (1995:32) “a aprendizagem, na visão popular, está centrada na ação do professor. É ele que

acham que o professor ensina, só quando fala

de coisas sobre as quais eles não tenham a menor idéia”. Acredita-se que as estratégias pedagógicas propostas neste projeto criem a possibilidade de desmistificar os estereótipos de que a educação está restrita à sala de aula onde o professor é o único detentor do conhecimento. Partindo desse pressuposto, a equipe de monitores, coordenação e alunos das turmas 36 e 40, propuseram a elaboração de um trabalho de campo à cidade de Ouro Preto. Um dos motivos da escolha dessa cidade foi a proximidade da capital mineira onde está sediado o projeto. Outro fator considerado é o fato de que Ouro Preto é uma cidade tombada pelo Patrimônio Nacional e da Humanidade, faz parte da memória coletiva, não só dos mineiros, mas também de toda a nação brasileira e, além de possuir um conjunto arquitetônico de extrema significação, foi palco da Inconfidência Mineira de 1789 que tem como personagens Tiradentes e os poetas inconfidentes. Esses personagens e o cenário da própria cidade estão inseridos nos contextos literários da época, caracterizando o Barroco e o Arcadismo mineiros. Com isso, inclui-se a questão da Literatura e a arte de Aleijadinho e Mestre Ataíde como temas de estudo e de observação prática dos alunos. Ouro Preto é importante também pela questão ambiental. Localizada em região de nascentes, é uma cidade com abundância de recursos hídricos. O trabalho de campo proposto possibilitou aos alunos verificar aspectos da paisagem da região, o que os permite perceber a importância da conservação da diversidade. Através da interação com os habitantes nativos, foi possível aos alunos verificarem a relação dos moradores com algumas questões relacionadas à água. Foram eleitos, também, como objetivos deste projeto: incentivar o desenvolvimento de algumas habilidades básicas nos alunos, como a observação, a criatividade, a autonomia, a leitura, a pesquisa, a extrapolação, a (re)elaboração de conhecimentos prévios e a sistematização do conhecimento científico; possibilitar aos alunos confrontar o conhecimento obtido nas diversas áreas do conhecimento, com a observação de dados concretos através das visitas aos locais selecionados, e durante todo o itinerário do trabalho de campo; despertar nos alunos a importância de se preservar o meio ambiente e a conscientização sobre o impacto da ação do homem no espaço biogeográfico.

coloca o conhecimento dentro dos alunos. (

)

Metodologia Com a decisão de ir a Ouro Preto também houve algumas questões a serem resolvidas. Inicialmente, enfrentou-se a questão pedagógica, pois como afirma OLIVEIRA, na EJA “( ) Um primeiro ponto a ser mencionado aqui é a adequação da escola para um grupo que não é o

‘alvo original”(1999:61) da instituição. Currículos, programas, métodos de ensino foram

originalmente concebidos para crianças e adolescentes que percorriam o caminho da escolaridade de forma regular”. Com o trabalho de campo não é diferente, pois muitos alunos pela idade avançada e limitações físicas não possuem condições favoráveis para a participação nesse tipo de iniciativa. Além desses há: os empecilhos financeiros, porque a maioria dos alunos possui baixos salários; a definição da data de realização do evento que coincide com o dia de folga deles, sendo esse o momento para ficarem com a família, pois a maioria dos alunos da EJA trabalha durante todo o dia e estudam durante a noite. Muitos deles trabalham, também, aos finais de semana restando pouco tempo para o convívio familiar, descanso e tarefas domésticas. Esses alunos, freqüentemente, não querem abdicar desse dia para realizar uma tarefa escolar. Porém, mesmo com tantos impedimentos e dificuldades foi

possível mostrar aos alunos um significado para essa atividade, sempre se levando em consideração que os alunos da EJA não devem ser furtados do direito ao conhecimento como os alunos que estão em idade regular dos cursos diurnos. Portanto, um dos primeiros passos foi conseguir um dia em que as atividades dos alunos e dos monitores fosse compatível, arrecadar recursos financeiros e um meio de transporte particular, pois o transporte rodoviário seria mais oneroso, além de inviabilizar a centralidade nas atividades a serem executadas pela equipe toda. Posteriormente, foi preciso elaborar um roteiro de visitas que englobasse o mais possível todas as áreas do conhecimento. Além disso, esses locais teriam que ser próximos uns aos outros em função da idade avançada da maioria dos alunos presentes nesse trabalho de campo. Resolvidos os problemas acima citados, caberia às professoras- monitoras apresentar aos alunos a importância deste trabalho. Essas, cada uma em seu campo de atuação, definiram um conjunto de objetivos, estratégias, materiais e instrumentos de avaliação que pudessem ser processados ao longo do desenvolvimento do projeto, em todas as suas etapas. A seguir, serão descritas individualmente as ações, objetivos e avaliações, mais por uma questão pedagógica do que metodológica, porque todos os esforços confluíram a um

único fim: sistematização formal e efetiva do conhecimento escolar pelo confronto com as

observações e aprendizados propiciados pela prática no trabalho de campo. Em Português, foi trabalhado, antes da ida a Ouro Preto, o estilo de época Arcadismo

em sala de aula, visando despertar nos alunos o interesse em conhecer fatos e curiosidades

sobre

a obra dos artistas, a vida dos poetas e sobre a poesia que circulou durante o século

XVIII

em Ouro Preto. Então, os alunos estudaram as características, o contexto histórico, os

poetas

e seus poemas, enfatizou-se a vida e obra de Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio

Gonzaga e Alvarenga Peixoto por serem os autores mais conhecidos e, também, inconfidentes. Após isso, os alunos se deleitaram com a leitura dos poemas. Foi uma experiência surpreendente, pois muitos deles nunca tinham lido um poema ou nem sempre entendiam o que liam. Isso despertou neles grande interesse em conhecer de perto os lugares

onde os poetas viveram, freqüentaram, namoravam e até mesmo onde eles morreram, além de

conhecer mais sobre a cidade palco de tantos acontecimentos importantes. Em Ouro Preto, ao visitarmos a Casa dos Contos, os alunos conheceram mais informações sobre a vida desses

poetas e se emocionaram por conhecerem: o lugar onde se reunia a classe pensante da época

para jogar cartas, discutir sobre política e outros assuntos de importância, o local onde Cláudio Manoel da Costa ficou preso e foi achado morto. Perceberam que a poesia pode

conter informações históricas e esse fato despertou grande indagação nos alunos, pois através

do poema exposto no local, o poeta diz sobre ameaças que sofreu pouco tempo antes de morrer ou ser morto. Eles copiaram o poema, fizeram várias perguntas e foram pesquisar em qual livro estava para poderem lê-lo novamente. Essa vontade de aprender foi um dos fatores primordiais do sucesso desse trabalho porque demonstrou que os alunos estavam comprometidos com sua aprendizagem. Para essa observação sobre a busca de informações

do aluno, apoiaram-se os monitores em FREIRE que postula que "ensinar não é transferir

conhecimento, conteúdos, nem formar é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou

Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende

ensina ao aprender"(1997:26). Isso evidencia a importância dos alunos “viverem” de perto a vida desses poetas e como isso desperta o entusiasmo pela poesia e pela História da época. Ainda na Casa dos Contos, os alunos conheceram a biblioteca onde havia muitos livros clássicos como Os Lusíadas e o Livro do Ouro. Através deste, os alunos notaram a diferença do português arcaico do atual. Eles se impressionaram com a diferença entre a letra escrita pela pena e a escrita pela caneta e a importância da tradução para que se possa entender o conteúdo escrito nos documentos expostos. Tiveram também a consciência da importância da escrita para o

registro da História que, como todas as coisas sujeitas ao dinamismo da vida, com o passar do tempo, tudo muda, inclusive a língua. No Museu da Inconfidência, os alunos visitaram o túmulo dos poetas e conheceram um pouco mais de suas vidas através das informações do guia de turismo. Foram contadas histórias de Marília de Dirceu e Bárbara Heliodora e escutaram poemas de amor de PEIXOTO e GONZAGA. Impressionaram-se com essas histórias o que gerou grande discussão sobre a mulher e o amor. Com este projeto, ficou claro o grande aprendizado dos alunos na medida em que, após esse contato direto com a arte, discutiram e produziram textos sobre a sua experiência em Ouro Preto e os novos saberes sistematizados. Primeiramente, os alunos tiveram que descrever a viagem. Então, pode-se avaliar a capacidade de observação e interesse de cada um, além se ser um exercício formal com a escrita. Eles têm que ser capaz de desenvolverem todas as habilidades de leitura, no sentido amplo, para descreverem aquilo que realmente é relevante e redigirem adequadamente textos. Logo após, foi proposto um trabalho com o poema de Cláudio Manoel da Costa

exposto onde ele foi preso. Os alunos tiveram que escrever qual foi a versão contada pelo guia

e depois elaborar sua opinião comprovando-a com argumentos do poema. Essa atividade foi

bem sucedida. A maioria dos alunos chegou à conclusão de que o poeta fora morto, contrariando o fato histórico, e provaram com informações explicitas e implícitas do texto. Tal resultado demonstrou a sua capacidade de interpretação, de relação e de extrapolação

textual. Já a História se utilizou, inicialmente, de uma pergunta aos alunos cuja resposta deveria ser escrita: o que é patrimônio? Essa pergunta foi feita e respondida antes do trabalho de campo à cidade de Ouro Preto. As respostas se concentraram no quesito bem material, algo relacionado à propriedade, mas à propriedade privada. Isso foi um fator muito importante para

a prática durante as visitas aos museus e monumentos da cidade, pois a relação dos alunos

com o patrimônio histórico deveria ser diferente. A escolha dos lugares a serem visitados, na área de História, foi influenciada pelos principais pontos turísticos da cidade que retratam, um pouco, o conteúdo trabalhado em sala de aula.

alma a um corpo indeciso ou acomodado(

)

Outro fator decisivo para a escolha dos lugares é o que cerca o imaginário dos alunos ou que possuem objetos próprios que permeiam esse imaginário. Durante as visitas os alunos deveriam anotar o que achassem mais importante para um posterior relatório que pudesse ser fonte de análises e estudos sobre a EJA nesse tipo de atividade. Na área de Geografia, durante o percurso até Ouro Preto foi estimulada a observação para a composição da paisagem, observando a vegetação e o relevo. Atenção maior foi dada aos impactos causados pela mineradora Ferteco, que é historicamente conhecida pelas degradações ambientais causadas na região. Destaca-se o “reflorestamento”, que foi feito por eles, com eucaliptos. Aproveitando a oportunidade para mostrar a perda da biodiversidade na região causada pelo impacto da ação do homem, pretendendo-se com isso desenvolver nos alunos a capacidade de analisar criticamente as relações do homem com a natureza. Já em Ouro Preto os alunos observaram o espaço urbano,

atentando para sua evidentes função econômica. A área de Ciências, especificamente, elegeu a questão da água para ser estudada mais a fundo. Segundo informações obtidas através do Jornal da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), a água é um “desafio do presente” e há um alerta “para o sistema de Ouro Preto, onde não se paga água”, porque “Essa história de água de montanha engana. Não existe água potável na natureza. Ela pode ser natural, mas não

é potável”. (JORNAL DA UFOP). Para que os alunos começassem a se familiarizar com o

tema, foram realizadas atividades diversas em sala antes do trabalho de campo entre elas, palestras realizadas por profissionais da UFMG e apresentados vídeos mostrando a importância do assunto. Após cada atividade dessas, solicitou-se um relatório de modo que os alunos pudessem desenvolver a capacidade de sintetizar idéias e produzir textos. Foram elaboradas algumas aulas a cerca da importância da preservação da água para a saúde de todos. Enfoque maior foi dado ao estudo das verminoses, sempre colocando em evidência os riscos que se corre quando se entra em contato com água contaminada. Medidas de saneamento básico e higiene são fundamentais no combate a muitas doenças e assim as aulas, muitas vezes proporcionaram comentários sobre saúde pública. Fica evidente que as discussões realizadas em sala são o ponto de partida para que as professoras- monitoras apresentem novos conteúdos aos alunos. Além disso, vários pontos são extrapolados, de modo que o ensino assuma significado relevante para os alunos. Em Ouro Preto, os alunos tiveram um tempo reservado para conversar com os habitantes sobre questões relacionadas à água, a fim de verificar o grau de informação da população sobre a água que utilizavam no dia-a-dia. Foram feitas indagações sobre captação, tratamento, distribuição, uso e desperdício da água. Questões relacionadas ao lixo e tratamento de esgoto também foram incluídas por estarem relacionadas à contaminação de cursos d’água. Os alunos utilizaram o recurso do questionário para se fazer essa "pesquisa de opinião" com os moradores visando, posteriormente, terem dados mais concretos sobre o nível de conhecimento da população sobre o sistema de captação, tratamento e distribuição da água. Foi pedido aos alunos que produzissem um relato, registrando as informações obtidas através desses “bate-papos” e questionários.

Resultados e discussão Os alunos não executaram passivamente as atividades propostas, pelo contrário, demonstraram o tempo todo serem sujeitos de sua aprendizagem. Eles nesta atividade de campo demonstraram que "conhecem os objetivos dos trabalhos, aprendem a planejá-los, a

buscar, selecionar, organizar, informações e com elas dialogar, interpretá-las e criticá-las, sob

a orientação do professor. Aprendem a transformar informação em conhecimento. Interagem e

comprometem-se com os colegas e com o trabalho", corroborando, pois, o que afirma CALDEIRA (2002:19). “A primeira vez que fui a Ouro Preto há dez anos, eu tinha outra visão, pois fui a passeio e não para estudar, agora tive outros olhos. Só que o tempo foi pouco.

Só deu para visitar três monumentos, mas mesmo assim foi muito bom” (relato de uma aluna da turma 40). Esse relato ilustra não só a percepção que a aluna teve do trabalho de campo, mas também da importância do trabalho das monitoras antes da visita à cidade de Ouro Preto porque ajudou a despertar o interesse dos alunos ao visitar a cidade. A discussão sobre esse trabalho de campo a Ouro Preto na disciplina História envolve o conceito de patrimônio histórico a partir da relação e reação dos alunos perante esse objeto de estudo. O conceito sobre patrimônio mudou depois da visita, não só porque se inseriu a palavra histórico, mas também pelo contato visual e tátil nos quais os alunos puderam participar mais ativamente através de um diálogo direto com o objeto. Pelos resultados explicitados, a adoção do trabalho de campo como estratégia pedagógica e a busca de diálogo com os alunos no contexto escolar, demonstra como afirma SIMAN (1999), que “a educação escolar tem, cada vez mais, buscado estabelecer um diálogo com outros espaços culturais com vistas a explorar o que

esses espaços oferecem para a aquisição de conhecimento por meio de emprego de outras linguagens e ferramentas”. Baseado nessas concepções é possível perceber que a relação dos alunos da EJA com a história e o objeto se transformam. Há o resgate de uma nostalgia de algo que ouviram dizer na escola há muito tempo atrás e que está sendo sempre reforçada pela linguagem das novelas e minisséries televisivas. Outros motivos relevantes para esta constatação é a maioria deles fazerem parte da classe popular e muitos serem negros. Ao conhecerem uma senzala de perto, a sensação é de poderem “pegar” no tempo e em uma memória coletiva que não possuem materialidade. O objetivo inicial dessas visitas foi colocar esses alunos em contato com os vestígios de um passado que já foi vivido e permanece como objeto trabalhado nas escolas nas aulas de História e que, muitas vezes, faz parte do imaginário coletivo. Com esse trabalho foi possível verificar que os alunos ampliaram sua percepção sobre a importância de se preservar o meio ambiente, considerando que as atividades propostas antes da saída de campo abriram espaço para que eles percebessem a relevância da proposta de se trabalhar com a água. Os vários textos produzidos mostram uma evolução em relação ao envolvimento deles com as atividades apresentadas. Conforme já foi descrito, foi pedido que os alunos conversassem com os habitantes. Na conversa com os moradores, os estudantes tiveram a chance de, não apenas conhecer a opinião das pessoas, mas também de vencer barreiras pessoais como a timidez e a insegurança. Outro resultado positivo se refere ao fato de que os alunos se tornaram mais críticos em relação à falta de informação e agora, a maioria deles é capaz de relacionar questões referentes à água com questões referentes à saúde. Muitos alunos se envolveram de tal forma com as atividades propostas que os conhecimentos construídos passam a fazer parte de seu cotidiano. Além disso, muitos se tornam multiplicadores desses conhecimentos, mostrando que a educação realmente tem feito sentido para eles.

Conclusões

No final da realização do trabalho constatamos que mais importante do que a natureza acadêmica do conhecimento é a sua função de auxiliar os alunos na percepção e na abstração das relações existentes entre os fatos históricos, as informações científicas e específicas tratadas nas diversas disciplinas do Ensino Fundamental. (Re)conhecer e (re)valorizar os conhecimentos prévios dos alunos foi uma proposta metodológica bem sucedida uma vez que os estudantes detêm um conjunto de saberes já que estão tos inseridos no tempo e espaço, com histórias e vivências diferenciadas. O diálogo entre estes saberes e o discurso escolar mostrou-se, pois como um princípio a ser perseguido nas relações e intervenções pedagógicas

e

metodológicas no trabalho com a EJA. Nesse processo de construção do conhecimento pelo aluno foi possível conciliar lazer

e

estudo, contribuindo para desconstruir o mito de que só a sala de aula produz saberes e que a

aquisição dos mesmos não pode ser algo prazeroso. Com o desenvolvimento deste projeto interdisciplinar de ensino buscou-se, além da interação entre todas as disciplinas, ampliar para os alunos a sua concepção sobre as formas de acesso ao saber, a legitimação das possibilidades de trocas entre a escola e outros espaços de formação cultural.

Referências bibliográficas

BARRETO, José Carlos e Vera. Um sonho que não serve ao sonhador. Revista Alfabetização

e Cidadania. Rio de Janeiro: Grafhus, 1995.

CALDEIRA, Anna Maria Salgueiro. Elaboração de um projeto de ensino. Revista Presença Pedagógica. Belo Horizonte: Dimensão.n.44, v.8, mar/abr, 2002. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo:

Paz e Terra, 1997.

OLIVEIRA, Marta Kohl. Jovens e adultos como sujeitos de conhecimento e aprendizagem. Revista Brasileira de Educação. São Paulo, n.12, set/dez, 1999. RIOS, Terezinha Azeredo. Ética e competência. São Paulo: Cortez, 1997. SIMAN, Lana Mara de Castro. Práticas culturais e práticas escolares: aproximações e especificidades no ensino de História. JORNAL DA UFOP. Água: um desafio do presente. Disponível em <http://www.ufop.br/jufop/156/topo>. Acesso em: 02 de maio de 2004.