Jus Navigandi - Doutrina - Cobrança de dívidas à luz do Código de Def...

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Cobrança de dívidas à luz do Código de Defesa do Consumidor
Texto extraído do Jus Navigandi http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=6921

Francisco Augusto Caldara de Almeida
Advogado, mestrando em Direitos Difusos e Coletivos pela PUC/SP, Especialista em Direito das Relações de Consumo pela PUC/SP

Visando traçar um panorama histórico, ainda que de forma assaz sucinta, num passado muito distante encontramos resquícios de práticas verdadeiramente desumanas no que tange à cobrança de dívidas. À guisa de exemplo, citamos a escravidão por dívidas, muito comum nas sociedades antigas, como Esparta, Roma e Assíria. Naquela época predominava o direito consuetudinário, por meio de Leis orais baseadas na tradição, salvaguardando, sobremaneira, os patrícios em detrimento da plebe, a qual vivia do cultivo das terras (pequenos agricultores). Estes, no intuito de saldar suas dívidas, vendiam inicialmente seus filhos como escravos no mercado e, por fim, não logrando êxito em satisfazer o valor integral, acabavam por ser escravizados. Em Roma, as incessantes lutas de classes que se estenderam pelo período republicano culminaram em diversas conquistas políticas-sociais, dentre elas, a partir do ano de 367 a.c., a Lei Licínia proibiu que plebeus endividados fossem escravizados por proprietários rurais. De igual sorte ocorreu em Esparta com a eleição de Sólon, que também aboliu a escravidão por dívidas, dentre outras conquistas relevantes de cunho social. As práticas relacionadas às cobranças de dívidas se estenderam durante séculos, de maneiras mais amenas do que se via em tempos mais remotos. Todavia, não há olvidar-se que outras formas, ainda consideradas desumanas, se perpetuaram por muito tempo. Interessante se faz salientar, que não obstante a abolição das práticas desumanas de cobrança de dívidas há muito, ainda nos dias atuais encontramos históricos de práticas que ferem os direitos personalíssimos dos indivíduos, não somente no Brasil como também em países considerados de "primeiro mundo", como Japão e Estados Unidos, dentre outros, ou seja, o credor, no afã de ver a dívida saldada, acaba por desrespeitar outros direitos garantidos nas mais diversas Cartas Políticas, utilizando-se de práticas consideradas abusivas nas cobranças de dívidas. Na análise das práticas em berlinda, é importante mencionar que com a conseqüente evolução dos ordenamentos jurídicos, o homem passou a ser posicionado como centro do direito e, via regressa, o próprio direito como instrumento hábil à satisfação dos interesses daquele, culminando, portanto, no reconhecimento do princípio da dignidade da pessoa humana, como fundamento do Estado Democrático de Direito. Ao tratarmos das práticas relacionadas à cobrança de dívidas, à luz dos artigos 42 e 71 do Código de Defesa do Consumidor, inevitavelmente esbarramos em aparente conflito de normas, uma vez que a possibilidade de cobrar uma dívida, ao menos a primeira vista, aponta para exercício regular de direito. Nesta esteira, importante se torna trazermos à baila os comandos emergentes do inciso I do artigo 188 e 153 do Código Civil de 2002: "Art. 188. Não constituem atos ilícitos:

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o artigo 187 do Código Civil define que: ".. Cível. pela boa-fé ou pelos bons costumes. (. 153. excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social..).Jus Navigandi . ao exercê-lo.)" Somente à luz dos artigos comentados até aqui. que no exercício desse direito legalmente reconhecido não poderá o credor exceder os limites impostos pelo fim econômico ou social." (1) Por outro lado. independentemente da relação da qual advêm a dívida (de Consumo." Segundo ensinamentos de Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin." (Grifos nossos) Inobstante o reconhecimento de que cobrar uma dívida constitui exercício regular de um direito e. Não se considera coação a ameaça do exercício normal de um direito.. Diante das conclusões esposadas anteriormente.. deduzimos.com. (..) III – ninguém será submetido a tortura nem tratamento desumano ou degradante. é cediço que tal exercício "É a utilização do direito sem invadir a esfera do direito de outrem.. o legislador consumerista optou por vedar expressamente o abuso de direito nas práticas relativas à cobrança de dívidas advindas das relações de consumo. no caput do artigo 42 do CDC: "Na cobrança de débitos. de tal sorte.. ao nosso ver.br/doutrina/imprimir.. portanto. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação." Nesta linha de raciocínio.. bem como não poderá ultrapassar a fronteira das garantias fundamentais estampadas na Constituição Federal.comete ato ilícito o titular de um direito que. ato lícito nos moldes dos artigos colacionados. Só exerce regularmente seu direito aquele que não prejudica direito de outrem..os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido. http://jus2. extrai-se. sem adentrarmos ainda propriamente nos ditames do artigo 42 do CDC. Comercial. portanto...) X – são invioláveis a intimidade. o consumidor inadimplente não será exposto a ridículo. ainda: "Art.." "Art.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def.. o dispositivo 2 de 10 14/06/2010 11:08 . a honra e a imagem das pessoas.asp?id=6921 I . Todavia.Doutrina . Entretanto. positivou. (.uol. o artigo 42 do CDC poderia até parecer desnecessário. como já citado. pela boa-fé ou pelos bons costumes. a vida privada.. nem o simples temor reverencial... também.5o Todos. nem será submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça. nossa Carta Magna positiva como fundamento do Estado Democrático de Direito o princípio da "dignidade da pessoa humana". Tributária e etc. afastando. É não prejudicar o direito de outrem. a necessidade de qualquer interpretação legal de dispositivos esparsos e. no Título II – DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS -. podemos concluir que não é necessário muito esforço interpretativo para se inferir que cobrar uma dívida é atividade comum e legítima (exercício regular de direito).. Ademais. independentemente de causar dano.

Seção 7. e da lei norteamericana conhecida por Fair Debt Collection Practices Act. para cobrar. segundo o mesmo autor supracitado. Section 7. senão vejamos: "Section 7. or abuse any person in connection with the collection of or attempt to collect any claim alleged to be due and owing by that person or another. preparado pelo National Consumer Law Center. conjuntamente com a cobrança. na versão do seu First Final Draft.br/doutrina/imprimir. Ilusórias ou Enganosas) Nenhum credor deve usar de representação ou recursos fraudulentos.Doutrina . http://jus2.206 (Unfair or Unconscionable Means) No debt collector shall use unfair or unconscionable means to collect or attempt to collect any claim.sofreu grande influência do projeto do National Consumer Act.203 (Harassment. ilusórios ou enganosos. Abuse) No debt collector shall unreasonably oppress.204 (Unreasonable Publication) No debt collector shall unreasonably publicize information relating to any alleged indebtedness or debtor.Jus Navigandi . promulgada em 1977" (2) Interessante citar ainda.205 (Representações Fraudulentas. qualquer valor alegado devido e exigível...com.205 (Fraudulent. de qualquer demanda alegada devida e exigível por tal pessoa ou por outra. ou para obter informações concernentes aos consumidores." (3) Tradução livre: "Seção 7.202 (Threats or Coercion) No debt collector shall collect or attempt to collect any money alleged to be due and owing by means of any threat. Deceptive or Misleading Representations) No debt collector shall use any fraudulent. os principais pontos que influenciaram o texto brasileiro. coerção ou tentativa de coerção. ou tentar cobrar. 3 de 10 14/06/2010 11:08 . Section 7. perturbar ou abusar de qualquer pessoa. Seção 7. por meio de qualquer ameaça. Seção 7.203 (Perturbação/Abuso) Nenhum credor deve arbitrariamente oprimir. deceptive or misleading representation or means to collect or attempt to collect claims or to obtain information concerning consumers. ou tentativa de cobrança. Section 7. Section 7.. coercion or attempt to coerce.asp?id=6921 em comento ".204 (Publicação arbitrária) Nenhum credor deve.uol. ou tentar cobrar demandas. harass.202 (Ameaças ou Coerção) Nenhum credor deve cobrar.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. arbitrariamente. divulgar informação relativa a qualquer dívida ou a seu devedor..

considerando ainda o custo benefício de uma cobrança judicial. telefonemas aos devedores. Duty sobre o que estava fazendo com seu dinheiro. cartas com entrega especial e telegramas. 273 S. antes do fornecedor exercer o direito de cobrar a dívida judicialmente. À guisa de exemplo. http://jus2. indiscutivelmente. em Wichita Falls. telefonema interurbano.. com custo de 11 dólares. interrompendo seu sono. em outra ocasião.Doutrina .com. colocação de cartões vermelhos na porta de sua residência. sendo esta acusada de gastá-lo de outras maneiras que não com o pagamento do empréstimo. citamos os relatos extraídos da decisão judicial Duty v. os molestamentos praticados pela empresa poderiam ser resumidos da seguinte forma: "longos telefonemas diários para o Sr. Duty. indagação à Sra. utilização de tom de voz alto. incomodando-o com discurso sobre o alegado débito dos autores. ainda." Nos Estados Unidos. ameaças de provocarem a perda dos seus empregos. ameaça de penhora dos seus salários. no Brasil.. para o trabalho da mãe da Sra. mesmo com as normas contidas nos artigos 42 e 71 do CDC. ao nosso ver o CDC visa regular o mercado de consumo em todas as suas fases (pré-contratual. telefonema a um vizinho dizendo-se ser um irmão doente de um dos autores e. 1954): "Segundo o tribunal.206 (Recursos Injustos ou Exagerados) Nenhum credor deve usar de recursos injustos ou exagerados para cobrar. ou tentar cobrar qualquer demanda.uol. apesar de acreditarmos que houve uma redução de tais práticas. ameaças de colocá-la na lista negra do Serviço de Proteção ao Crédito. não há dúvida que ainda existem abusos nas cobranças de dívidas. e podemos afirmar. solicitação aos seus patrões para que fizessem com que a dívida fosse liquidada. e Sra Duty. e crime contra as relações de consumo (art. General Finance Co.W. e 4 de 10 14/06/2010 11:08 .. ao menos sob a égide do nosso ordenamento jurídico . a cobrar.Jus Navigandi . tudo na tentativa de receber seu crédito sem ter que recorrer ao judiciário.br/doutrina/imprimir. cartões pardos. diversas vezes ao dia. em Albuquerque. insinuante e rude. afirmações a seus vizinhos e empregadores de que eram malandros. contratual e pós-contratual). e. a não ser que a dívida fosse saldada. portanto. Este. que não são poucas. de telegramas e cartas com entrega especial. certo das mazelas e delongas do judiciário. remessa. ou seja. nos seus ambientes de trabalho. com notas de insultos no seu verso e ameaças veladas. acusações de serem malandros. para casa do irmão do Sr. quando não.2d 64 (Tex. Tais práticas ocorrem exatamente na fase extrajudicial. notou-se a necessidade de se editar tais normas tendo em vista a constatação de inúmeras práticas abusivas utilizadas pelas empresas de cobrança. assim como outras subsidiárias que já cometamos alhures.configuraria abuso do exercício legal do direito de cobrar (art. ingressam de forma patente na seara de direitos e princípios constitucionais já comentados em outro passo. a cobrar. inundação de sua casa e locais de trabalho com uma imensidão de cartas de cobrança. Duty.sem ingressarmos no campo das conseqüências . no Novo México. um enteado.71CDC). Compartilhando com a doutrina mais seleta.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def.asp?id=6921 Seção 7. telefonema interurbano. envio de cartões com a seguinte abertura: "Caro Cliente: Nós lhe fizemos um empréstimo porque imaginamos que você fosse honesto". Infelizmente.42CDC). por volta da meia-noite." (4) Os métodos utilizados pela empresa de cobrança no caso supracitado. opta por contratar empresa de cobrança ou utiliza setor interno próprio. telefonemas para seus trabalhos. ataques à reputação dos autores junto a seus colegas de trabalho. sem qualquer receio de se estar cometendo equívocos.

mais especificamente. o fornecedor não poderá ameaçar o consumidor em outros sentidos (e. e) exposição do consumidor a ridículo. independentemente de suas conseqüências. as práticas de cobrança vedadas.. por exemplo. coação. O dispositivo em comento define. as condutas proibidas. Ao nosso ver.. a) Ameaça Salvo a ameaça de. No que tange ao crime previsto no artigo 71. não há que se perquirir se realmente o consumidor se sentiu ameaçado.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. ou interfiram na esfera dos direitos personalíssimos (intimidade. haja vista que o legislador visou proteger também o mercado de consumo e. permitindo-nos extrair o propósito da lei. aponta para o desrespeito da norma em comento. pois diferentemente do que se verifica no artigo 147 do Código Penal. afixar aviso em local de seu convívio social e etc. o qual define o tipo penal aplicável. ameaçar de comunicar seus familiares. 71 – Utilizar. implicará necessariamente na violação de um desses direitos. definitivamente.uol.g. f) interferência no trabalho. apresenta técnica legislativa louvável no sentido de regular o mercado de consumo no que tange a cobrança de dívidas dele advindas (pós-contratual). Condutas proibidas pelo Código de Defesa do Consumidor nas práticas de cobrança de dívidas Notamos que parte da doutrina. uma vez verificadas. ou seja. injustificadamente. A este respeito. mister trazer à baila o comando emergente da citada norma: "Art. a ridículo ou interfira com seu trabalho. incorretas ou enganosas ou de qualquer outro procedimento que exponha o consumidor. cumpre ainda analisar o artigo 71 do CDC.br/doutrina/imprimir. honra e imagem). 5 de 10 14/06/2010 11:08 . De tal sorte.. d) emprego de afirmações falsas. assim sendo. uma vez que o legislador certamente não visou beneficiar o devedor. descanso ou lazer: Pena – Detenção de três meses a um ano e multa. vida privada." Como visto. mesmo que o consumidor não tenha ciência da ameaça. incorretas ou enganosas. seu empregador. descanso ou lazer do consumidor. naquele a simples conduta exaure o tipo. c) constrangimento físico ou moral. as práticas vedadas são todas aquelas que configuram abuso do direito de cobrar.) Importante comentar que a ameaça estampada no artigo 42. as quais. entendemos ainda que. não recebendo o débito. ao nosso ver.asp?id=6921 especialmente em seu artigo 42.Doutrina . afirmações falsas. a simples conduta ameaçadora.com. práticas consideradas legais em doutrina e jurisprudência. visando justamente assegurar o cumprimento do artigo 42. quaisquer práticas que não respeitem princípio constitucional (dignidade da pessoa humana). na cobrança de dívidas.Jus Navigandi . mas tão-somente estabelecer limites para que outros direitos não sejam usurpados quando do exercício desse direito. ou de envio do nome do consumidor aos cadastros de inadimplentes. ou seja. configuram crime contra as relações de consumo. da leitura dos artigos 42 e 71 do CDC. o fornecedor não poderá utilizar-se de: a) ameaça. no qual a pessoa deve sentir a intimidação. encontramos de forma expressa as condutas vedadas na prática de cobrança de dívidas. expor o consumidor a ridículo ou submete-lo a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça na cobrança de uma dívida. tomar as medidas judiciais cabíveis. Nesta esteira. a interpretação. não exige a aferição da gravidade do mal. o crime está consumado. contida em carta encaminhada erroneamente ao destinatário. preocupa-se em definir quais são. http://jus2. deve ser a mesma. constrangimento físico ou moral. b) coação.. ou seja. ao comentar o artigo 42 do CDC. de ameaça. isto porque.

mas. interessante trazermos à colação o exemplo citado na obra de Luiz Antônio Rizzatto Nunes: "(. sem a qual o consumidor jamais agiria de determinada forma (vontade absolutamente anulada) Nesta esteira. quando exara que configurado o puro "blefe" no sentido de exercitar um direito.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. não obstante as duas condutas sejam apenadas da mesma forma (coação ou constrangimento físico ou moral). Por derradeiro." (5) Quanto a conclusão esposada pelo renomado doutrinador. desequilíbrio na relação em detrimento máximo do fornecedor. Se seguirmos o posicionamento do citado autor.. Claro que. verifica que aquela atitude pode ser inócua. por exemplo. mas sob outro fundamento ("emprego de afirmação falsa.Doutrina . se houver puro "blefe". todavia. o consumidor não tem sua vontade anulada.uol. diante da constatação de que o devedor não possui bens passíveis de constrição. essa diz respeito à prática que impõe. portanto. ao nosso ver. em um primeiro momento o fornecedor pensa em realmente tomar as providências judiciais cabíveis. muitas vezes. o que jamais configuraria o crime previsto no artigo 71 do CDC. permitimo-nos discordar de tal posicionamento. seria tirar do fornecedor a opção de comunicar o consumidor das possíveis conseqüências do seu inadimplemento. o que não parece ser a intenção do sistema...Jus Navigandi . não exaurindo o tipo penal do artigo 71. ficando a cargo do fornecedor exerce-lo ou não. o que se afigura. data maxima venia. sim. fica dentro do campo do exercício regular de direito. a intenção do legislador foi de vedar o emprego de violência absoluta (grave ameaça). mister tecermos comentário ao quanto asseverado por Antônio de Herman de Vasconcellos e Benjamin em seus comentários ao artigo em berlinda. enganosa ou incorreta. no sentido de fazer valer um direito. o que nos parece uma impropriedade. b) Coação No que tange a proibição de coagir o consumidor. só poderia ocorrer se realmente o fosse exercê-lo em vias de fato. uma atuação do consumidor contra sua própria vontade.. De tal sorte. o fornecedor incorreria no crime previsto no artigo 71. mas 6 de 10 14/06/2010 11:08 . No constrangimento físico ou moral.) O administrador ou seu agente coage o consumidor a assinar uma nota promissória ou a entregar um cheque para o pagamento da dívida. pelo emprego de violência relativa. uma vez que afirmou e não cumpriu. a comunicação de um procedimento acobertado pelo Direito. Por outro lado. sob pena de não liberá-lo do hospital ou não liberar pessoa de sua família" c) Constrangimento físico ou moral No que tange a vedação ao constrangimento físico ou moral. incorretas ou enganosas"). pois não se trata de afirmação falsa. mas de simples aviso informando que poderá buscar guarida no judiciário em determinado lapso de tempo.asp?id=6921 Por derradeiro. senão vejamos: "(.com. http://jus2. mesmo que regularmente. conforme exarado na possível comunicação. o crime estaria configurado. ou seja.) Assim se o credor avisa o consumidor que em sete dias estará propondo ação de cobrança. de forma inadmissível. mesmo diante desta decisão que ocorreu em um segundo momento. aí não há qualquer ameaça. mesmo nesse caso.br/doutrina/imprimir. pois acreditamos que a ameaça de tomar as medidas judiciais cabíveis configura exercício regular de direito. caracterizada está a infringência ao preceito. concluir que a ameaça. em um segundo momento.. entendemos.. que a ameaça de tomar as medidas judiciais cabíveis em tempo determinado.

atingindo diretamente seus direitos personalíssimos. 3) Enganosas . cobrar o consumidor por meio de ligações telefônicas para terceiros não garantidores do débito.com. por exemplo. ou. Citamos. bem como afetar o conceito moral e de honestidade que ele sustenta perante aqueles que fazem parte do seu convívio social. os quais trataremos em momento oportuno detalhadamente. parece correto dizer que as expressões "afirmação falsa".. de qualquer forma. são vedadas pelo Código de Defesa do Consumidor. o fornecedor também não pode utilizar afirmações: 1) Falsas . Nesta linha de raciocínio. "incorreta" e "enganosa" são tomadas como sinônimas..asp?id=6921 sim viciada.Jus Navigandi . a cobrança que apresenta ao devedor uma conta de valor maior do que ele deve. com isso.que não sejam sustentadas em dados ou fatos reais . Especialmente no caso sob análise (pós-contratual). d) Emprego de afirmações falsas. fornecimento de água ou médicos emergenciais). apresenta-se ao devedor como oficial de justiça ou advogado (sem sê-lo). possa ser identificada por terceiros como tal.que confundam o juízo de verdade do consumidor por meio de ação ou omissão. o leve a erro.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. Outro exemplo reside no corte de fornecimentos de serviços considerados essenciais ou de urgência (eletricidade..Doutrina . concordamos plenamente com o ínclito professor Luiz Antônio Rizzatto Nunes. Os exemplos muitas vezes vão esbarrar em mais de um dos subtipos de afirmações que não podem ser utilizadas no momento pós-contratual. também. oferecendo-lhe um "desconto". pois aqui o consumidor sofre grave ameaça acerca de sua saúde e integridade física. Um exemplo seria o emprego de força – capangas contratados exigirem o pagamento sob pena de aplicarem uma surra no consumidor -. 7 de 10 14/06/2010 11:08 .. quais sejam: afixar lista de devedores em local de acesso público. utilizar correio ou telegrama fechados. ainda que parcialmente.. 42 CDC) e penal (art. a ação do mero cobrador da empresa que. não acreditamos que a proibição em comento seja relativa. 71 CDC). respondendo os responsáveis por tais práticas no âmbito civil (art.. ou seja. cobrar o devedor por meio de comunicação que.. ao telefone. mas que seu envelope possa ser identificado como de empresa cobradora de dívidas e etc." (6) e) Exposição do consumidor a ridículo É considerada prática abusiva de cobrança a que expõe o consumidor a ridículo (envergonhá-lo ou humilhá-lo).) Por isso. toda cobrança que exponha o consumidor a ridículo é terminantemente proibida. contratual e pós-contratual). http://jus2. ao ponderar com muito acerto que: "(. mas sim absoluta. com o que se chegará ao débito real (original).br/doutrina/imprimir.. ou seja.que levem à interpretação desconforme. portanto.uol. É abusiva." e segue com os exemplos: "É abusiva. pressioná-lo e conseguir negociação para o recebimento. incorretas ou enganosas Tal vedação está intimamente relacionada com a correção e clareza das informações que se exige em todas as fazes da relação consumerista (pré-contratual. Com muito respeito aos posicionamentos contrários. como exemplo. Tais práticas são capazes de submeter o consumidor a situações vexatórias e. de modo a afetar o próprio conceito moral que ele tem sobre si. 2) Incorretas . para. alguns atos que interferem no conceito moral do consumidor.

o próprio CPC autoriza. Dentre as inúmeras que podemos encontrar no mercado. receber citação por meio de oficial de justiça em condomínio acerca de cobrança judicial. que o contato deve ser direto com o devedor ou com o possível garante e estritamente pessoal. ao nosso ver configuram cobrança abusiva e desrespeito aos artigo 42 e 71 do Código de Defesa do Consumidor. haja vista que o fornecedor realmente não pode interferir no trabalho. porém isso não culmina em mitigação plena do exercício regular do direito de cobrar..Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. pois se ficar 8 de 10 14/06/2010 11:08 . período esse em que. descanso e trabalho do devedor (e. Assim sendo. Entretanto. O que se veda.Ligações para o trabalho do consumidor devedor Tal prática.br/doutrina/imprimir. sem interferir no seu descanso ou de sua família. ressalvando. normalmente. mister se faz interpretar o dispositivo em comento com muita cautela. Todavia. realmente. o simples fato de estar sendo cobrado já não é situação agradável para ninguém.Jus Navigandi . Neste ponto.§ 2o art.uol. conforme já cometamos em outros passos. ou seja.Doutrina . que mesmo diante de nossa sugestão. devendo tão-somente atentar aos limites legais. mais uma vez. ao nosso ver. a qual concluímos dentro de um parâmetro que nos parece razoável.com. é importante também. o que levaria a conclusão de que. sem envolver terceiros alheios à dívida. desde que a pessoa não se identifique como cobradora para terceiros. mas é legítimo e justificável. Importante salientar ainda. f) Interferir no trabalho. por exemplo. há quem diga que o legislador fez uso do termo "injustificadamente". com inúmeras ligações diárias. a proibição seria relativa. http://jus2. o que certamente ultrapassa os limites do exercício legal de cobrar.. que apontam para o exercício regular de direito. é possível encontrar o consumidor em casa. não deixe recado com amigos e. tais exposições seriam justificadas em via de exceção e. no caso concreto caberá ao magistrado perquirir acerca da ocorrência de tais hipóteses diante do conjunto probatório.asp?id=6921 Todavia. principalmente. há que se ponderar o número de chamadas telefônicas e os horários em que são realizadas. 172). não apresenta desrespeito à norma contida no artigo 42 do CDC. tampouco no 71. citação por hora certa. são as práticas abusivas. o assunto a ser tratado.Interferir no descanso do consumidor Ligar para casa do consumidor também não é considerada prática abusiva de cobrança. após o horário laboral costumeiro. que não se interfira no trabalho do consumidor. Ligações após o horário que citamos como referência. em algumas situações. não transpareça. ao nosso ver. Parece-nos que o termo foi utilizado no sentido de ressalvar situações comuns. o qual pode ser residencial ou comercial.g. portanto. vamos citar algumas condutas que nos parecem legais e outras que não: . Nesta linha de raciocínio. entendemos que um bom limite de horário compreenderia o período das 8:00 às 22:00 horas. ou seja. mas que por sua própria natureza já culminam em situações que interferem na moral. descanso ou lazer do consumidor. de qualquer forma. em casos excepcionais a citação fora do horário permitido e aos domingos e feriados . o legislador optou por utilizar o termo para justificar as práticas exercidas dentro dos limites impostos pela Lei. pode o fornecedor ligar para o endereço informado pelo consumidor para possível cobrança. . descanso ou lazer do consumidor.

Nelson Junior e NERY. De tal sorte. 7a Ed. RT. 338 (nota de rodapé 285). http://jus2. visando. pág. fica patente que seu descanso se dá no período diurno. Envio de correspondência pessoal também não configura desrespeito aos dispositivos em comento. o que jamais pode ser considerado como mitigação plena do exercício legal do direito de cobrar. Enfim. 2002. Forense Universitária. 7a Ed. p.uol.g. pág. teriamos situação oposta em relação ao perído citado anteriormente como razoável no sentido de não interferir no descanso do consumidor. desde que não contenha qualquer menção externa que possa ser identificada por terceiros como tal (e. desde que provada a ciência do fornecedor quanto a tal peculiriadade. pág. Curso de Direito do Consumidor. 112..br/doutrina/imprimir. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. 340 (nota de rodapé 287). Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. em última análise. no que tange as práticas pós-contratuais. envelope com tarja indicando "cobrança" ou palavras sinônimas. Rosa Maria de Andrade. o que só será realmente aferido caso a caso. obstar verdadeiro retrocesso acerca dos direitos fundamentais constitucionalmente garantidos. 338.. o que os artigos 42 e 71 do CDC buscam garantir é o mínimo de dignidade e privacidade ao consumidor inadimplente e regular todo o mercado de consumo. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. portanto. Luiz Antônio. pág.. Conclui-se..542. que o enfoque dos artigos em comento reside eminentemente no afastamento do abuso de direito. RIZZATTO NUNES. Saraiva. Forense Universitária. 6 5 4 3 2 1 Sobre o autor Francisco Augusto Caldara de Almeida E-mail: Entre em contato Sobre o texto: Texto inserido no Jus Navigandi nº719 (24.com. Notas NERY.g. Ed.asp?id=6921 demonstrado que o consumidor labora no período noturno (e. 7a Ed.2005. como já viemos tratando ao longo do texto. pág. 9 de 10 14/06/2010 11:08 . 342. in: Novo Código Civil e Legislação Extravagante Anotados. vigia de condomínio). Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. envelope com indicação do nome social que possa ser identificada de plano como empresa de cobrança.Doutrina . São Paulo. Forense Universitária. 7a Ed..Jus Navigandi .. envelope no qual se possa ter acesso aos dizeres internos sem que seja efetivamente aberto pelo consumidor). São Paulo 2004. Forense Universitária.6. justamente.2005) Elaborado em 06.

Doutrina .Jus Navigandi .Cobrança de dívidas à luz do Código de Def.uol.br/doutrina/imprimir.uol. http://jus2. 2005. Teresina. n.. este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: ALMEIDA.com. 10 de 10 14/06/2010 11:08 . Jus Navigandi.. 24 jun. Disponível em: <http://jus2. ano 9. 2010. Francisco Augusto Caldara de.com.asp?id=6921 Informações bibliográficas: Conforme a NBR 6023:2000 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).asp?id=6921>. Acesso em: 14 jun. 719.br/doutrina/texto. Cobrança de dívidas à luz do Código de Defesa do Consumidor .

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