Jus Navigandi - Doutrina - Cobrança de dívidas à luz do Código de Def...

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Cobrança de dívidas à luz do Código de Defesa do Consumidor
Texto extraído do Jus Navigandi http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=6921

Francisco Augusto Caldara de Almeida
Advogado, mestrando em Direitos Difusos e Coletivos pela PUC/SP, Especialista em Direito das Relações de Consumo pela PUC/SP

Visando traçar um panorama histórico, ainda que de forma assaz sucinta, num passado muito distante encontramos resquícios de práticas verdadeiramente desumanas no que tange à cobrança de dívidas. À guisa de exemplo, citamos a escravidão por dívidas, muito comum nas sociedades antigas, como Esparta, Roma e Assíria. Naquela época predominava o direito consuetudinário, por meio de Leis orais baseadas na tradição, salvaguardando, sobremaneira, os patrícios em detrimento da plebe, a qual vivia do cultivo das terras (pequenos agricultores). Estes, no intuito de saldar suas dívidas, vendiam inicialmente seus filhos como escravos no mercado e, por fim, não logrando êxito em satisfazer o valor integral, acabavam por ser escravizados. Em Roma, as incessantes lutas de classes que se estenderam pelo período republicano culminaram em diversas conquistas políticas-sociais, dentre elas, a partir do ano de 367 a.c., a Lei Licínia proibiu que plebeus endividados fossem escravizados por proprietários rurais. De igual sorte ocorreu em Esparta com a eleição de Sólon, que também aboliu a escravidão por dívidas, dentre outras conquistas relevantes de cunho social. As práticas relacionadas às cobranças de dívidas se estenderam durante séculos, de maneiras mais amenas do que se via em tempos mais remotos. Todavia, não há olvidar-se que outras formas, ainda consideradas desumanas, se perpetuaram por muito tempo. Interessante se faz salientar, que não obstante a abolição das práticas desumanas de cobrança de dívidas há muito, ainda nos dias atuais encontramos históricos de práticas que ferem os direitos personalíssimos dos indivíduos, não somente no Brasil como também em países considerados de "primeiro mundo", como Japão e Estados Unidos, dentre outros, ou seja, o credor, no afã de ver a dívida saldada, acaba por desrespeitar outros direitos garantidos nas mais diversas Cartas Políticas, utilizando-se de práticas consideradas abusivas nas cobranças de dívidas. Na análise das práticas em berlinda, é importante mencionar que com a conseqüente evolução dos ordenamentos jurídicos, o homem passou a ser posicionado como centro do direito e, via regressa, o próprio direito como instrumento hábil à satisfação dos interesses daquele, culminando, portanto, no reconhecimento do princípio da dignidade da pessoa humana, como fundamento do Estado Democrático de Direito. Ao tratarmos das práticas relacionadas à cobrança de dívidas, à luz dos artigos 42 e 71 do Código de Defesa do Consumidor, inevitavelmente esbarramos em aparente conflito de normas, uma vez que a possibilidade de cobrar uma dívida, ao menos a primeira vista, aponta para exercício regular de direito. Nesta esteira, importante se torna trazermos à baila os comandos emergentes do inciso I do artigo 188 e 153 do Código Civil de 2002: "Art. 188. Não constituem atos ilícitos:

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excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social. (.comete ato ilícito o titular de um direito que. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.. 153." (1) Por outro lado. a honra e a imagem das pessoas. o dispositivo 2 de 10 14/06/2010 11:08 ..)" Somente à luz dos artigos comentados até aqui.5o Todos. nossa Carta Magna positiva como fundamento do Estado Democrático de Direito o princípio da "dignidade da pessoa humana"..com. sem adentrarmos ainda propriamente nos ditames do artigo 42 do CDC..) III – ninguém será submetido a tortura nem tratamento desumano ou degradante. nem será submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça... independentemente de causar dano... ato lícito nos moldes dos artigos colacionados. ao nosso ver. (. bem como não poderá ultrapassar a fronteira das garantias fundamentais estampadas na Constituição Federal. o legislador consumerista optou por vedar expressamente o abuso de direito nas práticas relativas à cobrança de dívidas advindas das relações de consumo. pela boa-fé ou pelos bons costumes..Cobrança de dívidas à luz do Código de Def.. o artigo 187 do Código Civil define que: ". http://jus2. Comercial." Nesta linha de raciocínio. de tal sorte.. Entretanto. Só exerce regularmente seu direito aquele que não prejudica direito de outrem. nem o simples temor reverencial. ao exercê-lo." (Grifos nossos) Inobstante o reconhecimento de que cobrar uma dívida constitui exercício regular de um direito e. o consumidor inadimplente não será exposto a ridículo. no Título II – DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS -. a necessidade de qualquer interpretação legal de dispositivos esparsos e.. é cediço que tal exercício "É a utilização do direito sem invadir a esfera do direito de outrem. positivou." Segundo ensinamentos de Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin..) X – são invioláveis a intimidade. a vida privada. pela boa-fé ou pelos bons costumes. no caput do artigo 42 do CDC: "Na cobrança de débitos.Doutrina .uol. ainda: "Art. independentemente da relação da qual advêm a dívida (de Consumo. Todavia.Jus Navigandi . também.. (. podemos concluir que não é necessário muito esforço interpretativo para se inferir que cobrar uma dívida é atividade comum e legítima (exercício regular de direito). Tributária e etc.asp?id=6921 I .os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido. afastando.br/doutrina/imprimir... Ademais. extrai-se. que no exercício desse direito legalmente reconhecido não poderá o credor exceder os limites impostos pelo fim econômico ou social. Não se considera coação a ameaça do exercício normal de um direito. portanto. portanto. como já citado..). É não prejudicar o direito de outrem.. o artigo 42 do CDC poderia até parecer desnecessário." "Art. Diante das conclusões esposadas anteriormente. deduzimos. Cível.

Section 7. arbitrariamente. Seção 7. deceptive or misleading representation or means to collect or attempt to collect claims or to obtain information concerning consumers..uol. coerção ou tentativa de coerção. Seção 7..Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. Section 7. ou tentativa de cobrança. Abuse) No debt collector shall unreasonably oppress. Section 7.205 (Fraudulent. ou tentar cobrar. 3 de 10 14/06/2010 11:08 . segundo o mesmo autor supracitado. coercion or attempt to coerce.204 (Publicação arbitrária) Nenhum credor deve. perturbar ou abusar de qualquer pessoa.Jus Navigandi .com. os principais pontos que influenciaram o texto brasileiro.sofreu grande influência do projeto do National Consumer Act.205 (Representações Fraudulentas.. e da lei norteamericana conhecida por Fair Debt Collection Practices Act. qualquer valor alegado devido e exigível. promulgada em 1977" (2) Interessante citar ainda. de qualquer demanda alegada devida e exigível por tal pessoa ou por outra.. ou tentar cobrar demandas.asp?id=6921 em comento ". Seção 7. preparado pelo National Consumer Law Center.203 (Harassment. ilusórios ou enganosos." (3) Tradução livre: "Seção 7.203 (Perturbação/Abuso) Nenhum credor deve arbitrariamente oprimir. http://jus2.204 (Unreasonable Publication) No debt collector shall unreasonably publicize information relating to any alleged indebtedness or debtor.206 (Unfair or Unconscionable Means) No debt collector shall use unfair or unconscionable means to collect or attempt to collect any claim. Deceptive or Misleading Representations) No debt collector shall use any fraudulent. Ilusórias ou Enganosas) Nenhum credor deve usar de representação ou recursos fraudulentos. ou para obter informações concernentes aos consumidores.Doutrina . conjuntamente com a cobrança. na versão do seu First Final Draft. senão vejamos: "Section 7.br/doutrina/imprimir. divulgar informação relativa a qualquer dívida ou a seu devedor. Section 7. por meio de qualquer ameaça. para cobrar. or abuse any person in connection with the collection of or attempt to collect any claim alleged to be due and owing by that person or another.202 (Threats or Coercion) No debt collector shall collect or attempt to collect any money alleged to be due and owing by means of any threat. harass.202 (Ameaças ou Coerção) Nenhum credor deve cobrar.

indagação à Sra. mesmo com as normas contidas nos artigos 42 e 71 do CDC. um enteado. a cobrar. e podemos afirmar. inundação de sua casa e locais de trabalho com uma imensidão de cartas de cobrança. portanto.71CDC). telefonema interurbano. http://jus2. no Novo México. Compartilhando com a doutrina mais seleta.2d 64 (Tex. interrompendo seu sono.. ou seja. ao menos sob a égide do nosso ordenamento jurídico . a não ser que a dívida fosse saldada.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. 273 S. a cobrar.Jus Navigandi . citamos os relatos extraídos da decisão judicial Duty v. utilização de tom de voz alto. e crime contra as relações de consumo (art. ou tentar cobrar qualquer demanda.configuraria abuso do exercício legal do direito de cobrar (art. cartas com entrega especial e telegramas. em Wichita Falls. 1954): "Segundo o tribunal. quando não. ingressam de forma patente na seara de direitos e princípios constitucionais já comentados em outro passo." (4) Os métodos utilizados pela empresa de cobrança no caso supracitado.sem ingressarmos no campo das conseqüências . À guisa de exemplo. ainda. de telegramas e cartas com entrega especial. sem qualquer receio de se estar cometendo equívocos. General Finance Co. e.br/doutrina/imprimir. e Sra Duty. cartões pardos.asp?id=6921 Seção 7. diversas vezes ao dia. insinuante e rude. não há dúvida que ainda existem abusos nas cobranças de dívidas. Duty sobre o que estava fazendo com seu dinheiro. ataques à reputação dos autores junto a seus colegas de trabalho. solicitação aos seus patrões para que fizessem com que a dívida fosse liquidada.. Este. apesar de acreditarmos que houve uma redução de tais práticas. Infelizmente. em Albuquerque.uol. assim como outras subsidiárias que já cometamos alhures. e 4 de 10 14/06/2010 11:08 . telefonema interurbano. Duty. ameaças de colocá-la na lista negra do Serviço de Proteção ao Crédito.W. incomodando-o com discurso sobre o alegado débito dos autores. colocação de cartões vermelhos na porta de sua residência. envio de cartões com a seguinte abertura: "Caro Cliente: Nós lhe fizemos um empréstimo porque imaginamos que você fosse honesto". notou-se a necessidade de se editar tais normas tendo em vista a constatação de inúmeras práticas abusivas utilizadas pelas empresas de cobrança. indiscutivelmente. contratual e pós-contratual). remessa. para casa do irmão do Sr. Duty. considerando ainda o custo benefício de uma cobrança judicial. telefonemas para seus trabalhos. sendo esta acusada de gastá-lo de outras maneiras que não com o pagamento do empréstimo.. opta por contratar empresa de cobrança ou utiliza setor interno próprio. ameaças de provocarem a perda dos seus empregos." Nos Estados Unidos. telefonema a um vizinho dizendo-se ser um irmão doente de um dos autores e.Doutrina . nos seus ambientes de trabalho. ameaça de penhora dos seus salários. em outra ocasião. Tais práticas ocorrem exatamente na fase extrajudicial. afirmações a seus vizinhos e empregadores de que eram malandros.42CDC). com custo de 11 dólares. os molestamentos praticados pela empresa poderiam ser resumidos da seguinte forma: "longos telefonemas diários para o Sr. telefonemas aos devedores. tudo na tentativa de receber seu crédito sem ter que recorrer ao judiciário. certo das mazelas e delongas do judiciário. antes do fornecedor exercer o direito de cobrar a dívida judicialmente. no Brasil. que não são poucas. com notas de insultos no seu verso e ameaças veladas.com. acusações de serem malandros.206 (Recursos Injustos ou Exagerados) Nenhum credor deve usar de recursos injustos ou exagerados para cobrar. ao nosso ver o CDC visa regular o mercado de consumo em todas as suas fases (pré-contratual. por volta da meia-noite. para o trabalho da mãe da Sra.

ao comentar o artigo 42 do CDC. uma vez que o legislador certamente não visou beneficiar o devedor. as condutas proibidas. apresenta técnica legislativa louvável no sentido de regular o mercado de consumo no que tange a cobrança de dívidas dele advindas (pós-contratual). o qual define o tipo penal aplicável. entendemos ainda que. as quais. tomar as medidas judiciais cabíveis. contida em carta encaminhada erroneamente ao destinatário.br/doutrina/imprimir. Ao nosso ver. b) coação. visando justamente assegurar o cumprimento do artigo 42. http://jus2. expor o consumidor a ridículo ou submete-lo a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça na cobrança de uma dívida.g. mais especificamente. mister trazer à baila o comando emergente da citada norma: "Art.) Importante comentar que a ameaça estampada no artigo 42. 71 – Utilizar. Nesta esteira. quaisquer práticas que não respeitem princípio constitucional (dignidade da pessoa humana). a simples conduta ameaçadora. o crime está consumado. uma vez verificadas. constrangimento físico ou moral. De tal sorte. honra e imagem). isto porque. a interpretação. a ridículo ou interfira com seu trabalho. configuram crime contra as relações de consumo.. f) interferência no trabalho. d) emprego de afirmações falsas. o fornecedor não poderá ameaçar o consumidor em outros sentidos (e. a) Ameaça Salvo a ameaça de. ou de envio do nome do consumidor aos cadastros de inadimplentes. c) constrangimento físico ou moral. incorretas ou enganosas. de ameaça. preocupa-se em definir quais são. assim sendo. no qual a pessoa deve sentir a intimidação. práticas consideradas legais em doutrina e jurisprudência.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. as práticas de cobrança vedadas. incorretas ou enganosas ou de qualquer outro procedimento que exponha o consumidor. implicará necessariamente na violação de um desses direitos. descanso ou lazer do consumidor.. o fornecedor não poderá utilizar-se de: a) ameaça.. coação. na cobrança de dívidas. definitivamente. O dispositivo em comento define. ameaçar de comunicar seus familiares. 5 de 10 14/06/2010 11:08 . injustificadamente. pois diferentemente do que se verifica no artigo 147 do Código Penal. ou seja. ou interfiram na esfera dos direitos personalíssimos (intimidade. A este respeito." Como visto. descanso ou lazer: Pena – Detenção de três meses a um ano e multa.Doutrina . por exemplo. ou seja. mas tão-somente estabelecer limites para que outros direitos não sejam usurpados quando do exercício desse direito. cumpre ainda analisar o artigo 71 do CDC. aponta para o desrespeito da norma em comento. naquele a simples conduta exaure o tipo.uol. permitindo-nos extrair o propósito da lei. ou seja. seu empregador. não há que se perquirir se realmente o consumidor se sentiu ameaçado.com. ao nosso ver. haja vista que o legislador visou proteger também o mercado de consumo e. Condutas proibidas pelo Código de Defesa do Consumidor nas práticas de cobrança de dívidas Notamos que parte da doutrina. deve ser a mesma. afirmações falsas.. independentemente de suas conseqüências. No que tange ao crime previsto no artigo 71. da leitura dos artigos 42 e 71 do CDC.asp?id=6921 especialmente em seu artigo 42. não recebendo o débito. mesmo que o consumidor não tenha ciência da ameaça. não exige a aferição da gravidade do mal. vida privada. as práticas vedadas são todas aquelas que configuram abuso do direito de cobrar. encontramos de forma expressa as condutas vedadas na prática de cobrança de dívidas. afixar aviso em local de seu convívio social e etc. e) exposição do consumidor a ridículo.Jus Navigandi .

diante da constatação de que o devedor não possui bens passíveis de constrição.) O administrador ou seu agente coage o consumidor a assinar uma nota promissória ou a entregar um cheque para o pagamento da dívida. o que jamais configuraria o crime previsto no artigo 71 do CDC. mas. senão vejamos: "(.asp?id=6921 Por derradeiro. http://jus2.. verifica que aquela atitude pode ser inócua. mas 6 de 10 14/06/2010 11:08 . só poderia ocorrer se realmente o fosse exercê-lo em vias de fato.. aí não há qualquer ameaça. Se seguirmos o posicionamento do citado autor. ao nosso ver. incorretas ou enganosas"). mas sob outro fundamento ("emprego de afirmação falsa. quando exara que configurado o puro "blefe" no sentido de exercitar um direito. essa diz respeito à prática que impõe. muitas vezes. mesmo diante desta decisão que ocorreu em um segundo momento.br/doutrina/imprimir. Por derradeiro. uma atuação do consumidor contra sua própria vontade. No constrangimento físico ou moral.. mas de simples aviso informando que poderá buscar guarida no judiciário em determinado lapso de tempo. se houver puro "blefe". portanto. o que não parece ser a intenção do sistema. o fornecedor incorreria no crime previsto no artigo 71. em um segundo momento.Doutrina . mister tecermos comentário ao quanto asseverado por Antônio de Herman de Vasconcellos e Benjamin em seus comentários ao artigo em berlinda.uol. por exemplo. de forma inadmissível. uma vez que afirmou e não cumpriu. enganosa ou incorreta. b) Coação No que tange a proibição de coagir o consumidor.Jus Navigandi . sem a qual o consumidor jamais agiria de determinada forma (vontade absolutamente anulada) Nesta esteira.. pois acreditamos que a ameaça de tomar as medidas judiciais cabíveis configura exercício regular de direito. interessante trazermos à colação o exemplo citado na obra de Luiz Antônio Rizzatto Nunes: "(.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. desequilíbrio na relação em detrimento máximo do fornecedor. a comunicação de um procedimento acobertado pelo Direito. pelo emprego de violência relativa.) Assim se o credor avisa o consumidor que em sete dias estará propondo ação de cobrança. o crime estaria configurado. todavia. Por outro lado. permitimo-nos discordar de tal posicionamento. entendemos. sim.com. mesmo nesse caso. o consumidor não tem sua vontade anulada. em um primeiro momento o fornecedor pensa em realmente tomar as providências judiciais cabíveis. a intenção do legislador foi de vedar o emprego de violência absoluta (grave ameaça). data maxima venia." (5) Quanto a conclusão esposada pelo renomado doutrinador.. De tal sorte. o que se afigura. sob pena de não liberá-lo do hospital ou não liberar pessoa de sua família" c) Constrangimento físico ou moral No que tange a vedação ao constrangimento físico ou moral.. não exaurindo o tipo penal do artigo 71. o que nos parece uma impropriedade. que a ameaça de tomar as medidas judiciais cabíveis em tempo determinado. Claro que. fica dentro do campo do exercício regular de direito. ou seja. caracterizada está a infringência ao preceito. seria tirar do fornecedor a opção de comunicar o consumidor das possíveis conseqüências do seu inadimplemento. ficando a cargo do fornecedor exerce-lo ou não. concluir que a ameaça. mesmo que regularmente. no sentido de fazer valer um direito. conforme exarado na possível comunicação. pois não se trata de afirmação falsa. não obstante as duas condutas sejam apenadas da mesma forma (coação ou constrangimento físico ou moral).

quais sejam: afixar lista de devedores em local de acesso público.asp?id=6921 sim viciada. 42 CDC) e penal (art. Nesta linha de raciocínio.Jus Navigandi .. pois aqui o consumidor sofre grave ameaça acerca de sua saúde e integridade física.que não sejam sustentadas em dados ou fatos reais . o leve a erro. fornecimento de água ou médicos emergenciais). apresenta-se ao devedor como oficial de justiça ou advogado (sem sê-lo). 3) Enganosas . cobrar o consumidor por meio de ligações telefônicas para terceiros não garantidores do débito. cobrar o devedor por meio de comunicação que. Os exemplos muitas vezes vão esbarrar em mais de um dos subtipos de afirmações que não podem ser utilizadas no momento pós-contratual... ao telefone.) Por isso. parece correto dizer que as expressões "afirmação falsa". a ação do mero cobrador da empresa que." (6) e) Exposição do consumidor a ridículo É considerada prática abusiva de cobrança a que expõe o consumidor a ridículo (envergonhá-lo ou humilhá-lo). alguns atos que interferem no conceito moral do consumidor. 7 de 10 14/06/2010 11:08 . Especialmente no caso sob análise (pós-contratual). Com muito respeito aos posicionamentos contrários.uol. bem como afetar o conceito moral e de honestidade que ele sustenta perante aqueles que fazem parte do seu convívio social.com. Outro exemplo reside no corte de fornecimentos de serviços considerados essenciais ou de urgência (eletricidade." e segue com os exemplos: "É abusiva.. "incorreta" e "enganosa" são tomadas como sinônimas.. http://jus2.que confundam o juízo de verdade do consumidor por meio de ação ou omissão. Um exemplo seria o emprego de força – capangas contratados exigirem o pagamento sob pena de aplicarem uma surra no consumidor -. concordamos plenamente com o ínclito professor Luiz Antônio Rizzatto Nunes. ou. portanto.Doutrina . incorretas ou enganosas Tal vedação está intimamente relacionada com a correção e clareza das informações que se exige em todas as fazes da relação consumerista (pré-contratual. também. pressioná-lo e conseguir negociação para o recebimento. não acreditamos que a proibição em comento seja relativa. os quais trataremos em momento oportuno detalhadamente. a cobrança que apresenta ao devedor uma conta de valor maior do que ele deve. atingindo diretamente seus direitos personalíssimos.. d) Emprego de afirmações falsas. ao ponderar com muito acerto que: "(..que levem à interpretação desconforme. respondendo os responsáveis por tais práticas no âmbito civil (art. contratual e pós-contratual). É abusiva. 71 CDC). utilizar correio ou telegrama fechados. mas sim absoluta. com isso. são vedadas pelo Código de Defesa do Consumidor. toda cobrança que exponha o consumidor a ridículo é terminantemente proibida. ou seja. o fornecedor também não pode utilizar afirmações: 1) Falsas . Citamos. 2) Incorretas . ou seja. para. com o que se chegará ao débito real (original). de modo a afetar o próprio conceito moral que ele tem sobre si. Tais práticas são capazes de submeter o consumidor a situações vexatórias e. mas que seu envelope possa ser identificado como de empresa cobradora de dívidas e etc. de qualquer forma. ainda que parcialmente.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. oferecendo-lhe um "desconto". como exemplo.br/doutrina/imprimir. por exemplo. possa ser identificada por terceiros como tal..

pois se ficar 8 de 10 14/06/2010 11:08 . descanso e trabalho do devedor (e. entendemos que um bom limite de horário compreenderia o período das 8:00 às 22:00 horas. com inúmeras ligações diárias.asp?id=6921 Todavia. são as práticas abusivas. é importante também. Dentre as inúmeras que podemos encontrar no mercado. não transpareça. em algumas situações. Entretanto.. Assim sendo. período esse em que. o qual pode ser residencial ou comercial. ressalvando. normalmente. o que certamente ultrapassa os limites do exercício legal de cobrar. sem envolver terceiros alheios à dívida. citação por hora certa. mister se faz interpretar o dispositivo em comento com muita cautela. não deixe recado com amigos e. o legislador optou por utilizar o termo para justificar as práticas exercidas dentro dos limites impostos pela Lei. ou seja.uol. vamos citar algumas condutas que nos parecem legais e outras que não: . Ligações após o horário que citamos como referência. no caso concreto caberá ao magistrado perquirir acerca da ocorrência de tais hipóteses diante do conjunto probatório. tampouco no 71. devendo tão-somente atentar aos limites legais. . há quem diga que o legislador fez uso do termo "injustificadamente". ao nosso ver. haja vista que o fornecedor realmente não pode interferir no trabalho.g.Doutrina . 172). tais exposições seriam justificadas em via de exceção e. a proibição seria relativa. o que levaria a conclusão de que. o próprio CPC autoriza. que mesmo diante de nossa sugestão. a qual concluímos dentro de um parâmetro que nos parece razoável. descanso ou lazer do consumidor. porém isso não culmina em mitigação plena do exercício regular do direito de cobrar.. http://jus2. Nesta linha de raciocínio. que apontam para o exercício regular de direito.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def.Interferir no descanso do consumidor Ligar para casa do consumidor também não é considerada prática abusiva de cobrança. pode o fornecedor ligar para o endereço informado pelo consumidor para possível cobrança. ou seja.Jus Navigandi . após o horário laboral costumeiro. o assunto a ser tratado. conforme já cometamos em outros passos. realmente. sem interferir no seu descanso ou de sua família. Neste ponto.§ 2o art. descanso ou lazer do consumidor. Parece-nos que o termo foi utilizado no sentido de ressalvar situações comuns. em casos excepcionais a citação fora do horário permitido e aos domingos e feriados . mais uma vez. por exemplo.br/doutrina/imprimir. Importante salientar ainda. de qualquer forma. não apresenta desrespeito à norma contida no artigo 42 do CDC.Ligações para o trabalho do consumidor devedor Tal prática. o simples fato de estar sendo cobrado já não é situação agradável para ninguém. mas é legítimo e justificável. é possível encontrar o consumidor em casa. receber citação por meio de oficial de justiça em condomínio acerca de cobrança judicial. há que se ponderar o número de chamadas telefônicas e os horários em que são realizadas. ao nosso ver configuram cobrança abusiva e desrespeito aos artigo 42 e 71 do Código de Defesa do Consumidor. f) Interferir no trabalho. desde que a pessoa não se identifique como cobradora para terceiros.com. portanto. ao nosso ver. principalmente. que não se interfira no trabalho do consumidor. Todavia. mas que por sua própria natureza já culminam em situações que interferem na moral. que o contato deve ser direto com o devedor ou com o possível garante e estritamente pessoal. O que se veda.

g. Nelson Junior e NERY. http://jus2. Forense Universitária. o que só será realmente aferido caso a caso.asp?id=6921 demonstrado que o consumidor labora no período noturno (e. 7a Ed. RIZZATTO NUNES. 112.g.uol. Forense Universitária. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. Saraiva.2005. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto.br/doutrina/imprimir. Notas NERY. pág.Doutrina . justamente. envelope com indicação do nome social que possa ser identificada de plano como empresa de cobrança. como já viemos tratando ao longo do texto. que o enfoque dos artigos em comento reside eminentemente no afastamento do abuso de direito. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. 7a Ed. 338. De tal sorte.542.2005) Elaborado em 06.. RT. Envio de correspondência pessoal também não configura desrespeito aos dispositivos em comento. pág. envelope com tarja indicando "cobrança" ou palavras sinônimas. 7a Ed. no que tange as práticas pós-contratuais. desde que provada a ciência do fornecedor quanto a tal peculiriadade. vigia de condomínio). Curso de Direito do Consumidor.. 338 (nota de rodapé 285). 6 5 4 3 2 1 Sobre o autor Francisco Augusto Caldara de Almeida E-mail: Entre em contato Sobre o texto: Texto inserido no Jus Navigandi nº719 (24. Ed. visando. teriamos situação oposta em relação ao perído citado anteriormente como razoável no sentido de não interferir no descanso do consumidor.. pág. 9 de 10 14/06/2010 11:08 .. Forense Universitária. in: Novo Código Civil e Legislação Extravagante Anotados. 7a Ed. Rosa Maria de Andrade. em última análise.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def. o que jamais pode ser considerado como mitigação plena do exercício legal do direito de cobrar. o que os artigos 42 e 71 do CDC buscam garantir é o mínimo de dignidade e privacidade ao consumidor inadimplente e regular todo o mercado de consumo.6. Enfim.com. 342.. São Paulo. Luiz Antônio. Forense Universitária.Jus Navigandi . obstar verdadeiro retrocesso acerca dos direitos fundamentais constitucionalmente garantidos. desde que não contenha qualquer menção externa que possa ser identificada por terceiros como tal (e. Conclui-se. pág. p. pág. fica patente que seu descanso se dá no período diurno. São Paulo 2004. envelope no qual se possa ter acesso aos dizeres internos sem que seja efetivamente aberto pelo consumidor). 2002. 340 (nota de rodapé 287).. portanto. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto.

com.Jus Navigandi .asp?id=6921>. 719. 2005. ano 9. Francisco Augusto Caldara de..uol. n.Doutrina . 10 de 10 14/06/2010 11:08 . Jus Navigandi. http://jus2. Cobrança de dívidas à luz do Código de Defesa do Consumidor . Acesso em: 14 jun.com.asp?id=6921 Informações bibliográficas: Conforme a NBR 6023:2000 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Teresina.Cobrança de dívidas à luz do Código de Def.br/doutrina/imprimir.br/doutrina/texto. 24 jun. 2010.uol.. este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: ALMEIDA. Disponível em: <http://jus2.

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