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UK’A

editorial
METADE CARA, METADEE MÁSCARA
ELIANE POTIGUARA

Mulher, indígena, marcada. Professora, escritora, ativista, premiada. Várias


máscaras, uma só alma. Por meio de relatos autobiográficos e poemas de própria
autoria, Eliane Potiguara nos traz, nesta obra, histórias de luta dos povos
indígenas para manter sua cultura, tão subjugada pelos europeus quando da
colonização, sob a perspectiva feminina. Ela nos apresenta sua história –
violência vivida, a repressão, a resistência- entremeada nas história de suas
ancestrais, permeada por poesias em que podemos não só compreender o ser
mulher indígena como também perceber a sua busca pela própria identidade. São
poema de dor, de luta e de luto.

Que faço com aminha cara de índia?/


E meus espíritos/ E minha força/
E meu tupã/ E meus círculo? [...] Brasil,
O que eu faço com a minha cara de índia?/
Não sou violência/ Ou estupro/
Eu sou história/ Eu sou cunhã/
Barriga brasileira./ Ventre sagrado/
Povo brasileiro./ Ventre que gerou/
O povo brasileiro/ Hoje está só...

METADE CARA,
METADE MÁSCARA
ELIANE POTIGUARA

Copyright O 2004 Eliane Potiguara


Direitos desta edição reservados à UK?A Editorial, um selo da DM Projetos
Especiais Ltda. ME

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida,
disponibilizada para download ou transmitida por qualquer meio (eletrônico,
mecânico, fotocópia), sem a autorização por escrito do proprietário do Copyright.

2a edição atualizada, janeiro de 2018


Obra revisada conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Edição, coordenação e produção editorial e gráfica: Ab Aeterno Texto de


orelhas: Lu Peixoto
Capa, projeto gráfico e diagramação: Olé Estúdio
Revisão de texto: Lu Peixoto, Patrícia Vilar e Camile Mendrot | Ab Aeterno
Fotografia da capa: Antonio Carlos Banavita

Impresso no Brasil.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira


do Livro, SP, Brasil)

Metade cara, metade máscara / Eliane Podguara. - 2. ed. — Lorena : DM Projetos


Especiais, 2018.

ISBN 978-85-64045-08-8

1. índios da América do Sul - Brasil - Condições sociais 2. índios da América do


Sul - Brasil - Cultura 3. índios da América do Sul - Brasil - História 4. índios
Potiguara - Brasil 5. Povos indígenas - Brasil I. Título.

17-09926 CDD-306.089981

índices para catálogo sistemático:

1. índios Potiguara : Cultura : Brasil: Sociologia


306.089981

2. índios Potiguara : História : Brasil: Sociologia


306.089981

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Dedico está obra


À minha falecida avó indígena Maria de Lourdes, que, no início do século XX, teve
seu pai desaparecido por ação coloniza- dora no estado da Paraíba. Suas quatro
filhas indígenas, ainda adolescentes, migraram compulsoriamente dessas terras,
sacrificando- -se, como outras mulheres indígenas anônimas, pela construção de
um momento novo na luta dos povos indígenas brasileiros hoje, o reconhecimento
do grande contingente de descendentes de indígenas e de indígenas
desaldeados.
Aos meus filhos Moina, Tajira e Samora Potiguara e à minha mãe, a eterna
sacerdotisa que as águas fluviais levaram para seu mundo.
A todos os parentes indígenas.

Esta utilidade pública da poesia se baseia na força, na ternura, na alegria e na


essência verdadeira. Sem esta qualidade a poesia soa, mas não canta.

Pablo Neruda

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver o Universo.


Alberto Caieiro (em Fernando Pessoa)

Agradeço a todas as mulheres de garra e luta e todos os homens fortes.


E mais: a todos os homens com perspectivas de mudanças

Visões de ontem, hoje e amanhã: é hora de ler as palavras 9


Identidade indígena: uma leitura das diferenças 13

1. Invasão às terras indígenas e a migração 19


2. Angústia e desespero pela perda das terras e pela
ameaça à cultura e às tradições 41

3. Ainda a insatisfação e a consciência de mulher indígena 73

4. Influência dos ancestrais na busca pela preservação


da identidade 87

5. Exaltação à terra, à cultura e à espiritualidade indígenas 119

6. Combatividade e resistência 145

7. Vitória dos povos 151


Bibliografia 163
Biografia 165

VISÕES DE ONTEM, HOJE E AMANHÃ: É HORA DE LER AS PALAVRAS

Daniel Munduruku 1

1 Daniel Munduruku é formado em filosofia, é doutor em Educação pela


Universidade de são Paulo (UPS) e PÓS-Doutor em licenciatura pela a
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor de diversos e premiados
livros de literatura infantojuvenil e diretor presidente do Instituto UKA-Casa dos
Saberes Ancestrais.

Houve um tempo em que pertencer a um povo indígena era quase uma maldição.
Falava-se desses povos como atrasados, selvagens, inoportunos para o
progresso, sem razões e sem convicções. Havia quem falasse que
desapareceriam à mercê do capitalismo selvagem, já que não teriam como resistir
ao impacto da “civilização”. Havia, porém, quem ousasse defendê-los, encorajá-
los, informá-los sobre seu real papel dentro da sociedade envolvente. Esses
amigos acreditaram na verdade desses povos, acreditaram em sua índole,
acreditaram no seu futuro.

O tempo passou e, aos poucos, alguns líderes indígenas foram


conhecendo melhor a sociedade que os rodeava: dominaram as letras, os
números, os códigos sociais, os processos econômicos, as políticas e passaram a
ser protagonistas da história, passaram de objetos a sujeitos de seu próprio
destino, passaram a ser senhores. Assim nasceu o “movimento indígena”, um
primeiro exercício de expressão da própria dor; um momento de liberdade, ainda
que ilusório; um átimo de futuro.

Daqueles primeiros líderes muito se viu e ouviu, mas pouco se leu. O povo
brasileiro viu o trabalho deles e ouviu suas palavras;
p.9
viu o seu sangue escorrer pela covardia das emboscadas armadas daqueles que
eram atingidos pelas balas de suas palavras; viu suas danças embaladas pelas
denúncias de desrespeito; ouviu suas músicas, lamentos de resistências; viu
gestos, atitudes, dignidades, verdades; ouviu murmúrios, queixas, lamentos,
choros e rituais de quem briga para sobreviver.

Agora é hora de ler as palavras que foram ditas ao papel. Palavras que chocarão,
trarão vertigens, denúncias, tristezas, verdades, realidades. Realidades sombrias,
frágeis, únicas. Realidades marcadas pela dor, pela alegria, pela esperança, pelo
sucesso. Realidades ditas pela poesia, pela prosa, por números, por nomes.
Realidades mostradas com as singularidades das visões indígenas.

Esta obra foi criada para dar a possibilidade de externalizar o olhar indígena sobre
si mesmo, sobre os “outros” das ciências e sobre a sociedade brasileira. Fazendo
isso, acreditamos, estaremos “deixando que o Outro seja”.

p.10

IDENTIDADE INDÍGENA: UMA LEITUR DAS DIFERENÇAS

Graça Graúna 2

................

2Graça Grauna é um potiguara, nasceu na antiga vila de São José do Campestre


(RN); uma vila formada também por indígenas oriundos da aldeia Catu, nos
arredores de Goininha e Canguaretama, a 70km de campestre e a 100km de
Natal, Graduada, bacharel especialista mestra e doutora em letras pela a
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pós doutora em licenciatura,
educação e direitos indígenas pela a UMESP. Professora universitária, poeta,
ensaísta e autora de O imaginário dos povos indígenas na literatura infantil
brasileira (dissertação); contrapontos da literatura indígena contemporânea no
Brasil (tese); Canto Mestizo Tessituras da Terra da palavra e flor da mata
(poema); e criaturas de nanderu, entre outras narrativas catalogadas como
literatura infantil. Membro do conselho escolar indígena de Pernambuco
(CEEI/PE), da comissão de direitos humanos Dom Helder Câmara, na UFPE,
participa de várias antologias, entre os quais, poesia ameríndia do Brasil( Revista
poesia sempre, n.37,2013)

A leitura das diferenças possibilita compreender uma literatura que


expande o seu grito, dos mais excluídos, e tece a esperança de poder refletir os
problemas dos povos indígenas e seus descendentes. O pensamento de Eliane
Potiguara requer essa leitura, a começar pelo título da obra Metade cara, metade
máscara, que remete também a uma sugestiva conversa de Potiguara com João
Batista Faustino, um parente de etnia.

Por volta de 1979, o cacique Faustino dissera que o sinal cor de jenipapo
que Eliane Potiguara traz no lado direito do rosto (de nascença) representa uma
marca de ancestralidade. Essa cosmovisão fortalece o vínculo que os filhos da
terra mantêm com as leis que regem a natureza, sem desprender-se da realidade
que os cerca. Essa vivência-vidência vai ao encontro da luta que a escritora
Potiguara abraça em defesa da propriedade intelectual indígena; uma luta que ela
também compartilha pelos caminhos da internet, com escritores(as) indígenas e
afrodescendentes. Seu objetivo é “difundir e debater a tradicionalidade do
discurso oral e escrito das histórias, contos, filosofias e direitos em toda a sua
plenitude, enfim, a literatura indígena como um importante pensamento brasileiro”.

p.13

outros aspectos da crítica-es- critura de Eliane Potiguara dão conta de que


é fecunda a palavra da mulher indígena; é semelhante à terra sagrada que
multiplica o cereal plantado, como diria Ana da Luz F. do Nascimento (uma anciã
Kaingang). Neste livro, Potiguara fala de amor, direitos humanos, família,
sexualidade, etnia, violência, racismo, migração e outras questões que ela
problematiza e difunde também na rede de comunicação indígena Grumin, a
primeira associação de mulheres indígenas no Brasil, voltada para educação,
gêneros e direitos. São questões que remetem a uma das faces deste livro com
as “Histórias não contadas de mulheres indígenas”.
Eliane Potiguara imprime um rico tratamento poético a esses problemas
como sugerem Identidade indígena, Brasil, Agonia das Pata- xós, Oração pela
libertação dos povos indígenas e outros poemas. Nessa instância, cabe um breve
comentário: o poema Identidade indígena é o primeiro de autoria indígena
feminina de expressão portuguesa a ganhar publicação de abrangência nacional
e driblar a censura e o regime militar na década de 1970. Esse poema foi escrito
no ano de 1975, em memória de seu bisavô Potiguara, desaparecido desde 1920,
“quando se estabelecera ali [na Paraíba], a neocolonização da agricultura
algodoeira, causando a fuga de famílias indígenas, oprimidas pela escravidão
moderna”, afirma Potiguara. Em Identidade indígena, a consciência em torno da
ancestralidade cumpre-se no ritual coletivo, como quer a voz do texto. Nessa
perspectiva, convém verificar os recursos linguísticos no emprego de pronomes e
verbos (em primeira pessoa do plural e do singular) e os contrapontos acerca do
fazer literário.

Potiguara comenta que não se preocupa com a tônica estrutural , porém dá


mais atenção ao conteúdo do seu trabalho que é entremeado de cantos, choro e
exaltação identitária contida nos poemas.

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Em outras palavras: “para [...] a literatura burguesa, eu misturo prosa e poesia. Eu


misturo verdade e reação. História e desabafo. Vida e voz indígena, a luta pela
sobrevivência” (Potiguara, 2002, em depoimento pessoal). Eis alguns fragmentos
de Identidade indígena.

Nosso ancestral dizia: temos vida longa Mas caio da vida e da morte

E range o armamento contra nós.


Mas enquanto eu tiver o coração aceso
Não morre a indígena em mim.

A pluralidade do texto de Potiguara mostra o ritmo do outro (o dominante)


que imprime o desconcerto do mundo. Nesse enfrentamento, a voz indígena
metamorfoseia-se no fio da história tal e qual uma “agulha que ferve no meio do
palheiro”, até multiplicar- -se em dez, cem, mil, milhões de cardumes indígenas de
diferentes etnias, apesar de expostos à humilhação, ao desrespeito e a tantos
outros problemas que compõem a sintaxe da diáspora indígena:

Não somos dez, cem ou mil


Que brilharemos no palco da História.
Seremos milhões unidos como cardume
E não precisaremos mais sair pelo mundo

Embebedados pelo sufoco do massacre


A chorar e derramar preciosas lágrimas
Por quem não nos tem respeito.

[...]
Eu viverei 200, 500 ou 700 anos
E contarei minhas dores para ti

Oh! Identidade.

No espaço do poema, o palco dos acontecimentos estende-se ao sujeito da auto-


história porque “a consciência se levanta a cada murro”, porque “Nós, povos
indígenas/Queremos brilhar no cenário da

p.15

História”. Desse modo, a indianidade transmigra mostrando que, ao contrário do


que se pensa, a diáspora indígena existe, é uma realidade. Apesar disso, a voz
do texto proclama:

E tomaremos de assalto moral


As casas, os templos, os palácios

E os transformaremos em aldeias de amor


Em olhares de ternura
Como são os teus, acalentante identidade
E transformaremos os sexos indígenas
Em órgãos produtores de lindos bebês
guerreiros do futuro

e não passaremos mais fome.

A diáspora vem de muito longe, da história/memória dos parentes exterminados


ao longo dos mais de 500 anos de colonização. Daí o passado tornar-se presente,
para estabelecer um mundo possível, em memória dos que se foram (os
suicidados, os desaparecidos, os torturados...) e os que foram bruscamente
arrancados a ferro e fogo de suas aldeias. Apesar disso, a indianidade convoca à
realização do amor entre os povos; o sumo da ancestralidade os alimentará para
sempre. Com esse espírito, em Metade cara, metade máscara expõe-se uma
esperança: ainda que tarde 700 anos, muitos (entre) lugares serão transformados
em “aldeias de amor”.

Em verso ou em contação de histórias, a visão dos povos indígenas em Potiguara


é fruto da somatória de saberes ancestrais e dos chamados tempos modernos.
Não é à toa que ela questiona a representação da mulher indígena na sociedade
não índia, mostrando que, desde a colonização, essa mulher foi e continua sendo
tratada com requintes de malícia, discriminação, brutalidade, preconceito. Basta
um olhar nas cartas que falam do “descobrimento” das Américas, ou no
antidiálogo de jesuítas para aquilatar a imagem lia mulher indígena: pecado em
carne e espírito, perversão, encarnação do mal.

p.16

No discurso dominante, a mulher indígena não é considerada bela, nem capaz de


parir “lindos bebês” e “guerreiros futuros” como sugerem os poemas de Potiguara.
Seus cânticos denunciam os abusos sexuais contra as índias Yanomami e a
violência contra as mulheres de diferentes etnias em várias regiões do país. Mas,

Nós, povos indígenas

Queremos brilhar no cenário da História


Resgatar nossa memória
E ver os frutos de nosso país, sendo

divididos
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e “desplazados”

Como nós.

Reconhecer a propriedade intelectual indígena implica respeitar as várias


faces de sua manifestação. Nesse percurso, os Munduruku, os Krenak, os
Nambikwara, os Guarani, os Sateré-Mawé, os Terena, os Potiguara e outras
etnias se reconhecem nos parentes da floresta, dos rios, dos cerrados, das
montanhas, das cordilheiras, dos campos, das cidades e onde mais houver
esperança de construção de um mundo possível.
Negar a existência da literatura de autoria indígena e afrodes- cendente,
por exemplo, é uma forma de preconceito literário. Não é à toa que, em algumas
sociedades indígenas e africanas, as máscaras têm a função de expulsar as
doenças das aldeias. Assim, também, deve ser a presença deste livro Metade
cara, metade máscara-, um símbolo de proteção contra qualquer tipo de
preconceito. Uma herança da qual somos/estamos todos(as) convidados(as) a
participar.

Fazendo uso das palavras de Eliane Potiguara, convido-os à leitura; a


compartilhar de uma missão “dentro da alma, [pois] levar adiante essa herança é
SABEDORIA”.

Brasília/DF, junho de 2004.

p.17

1. INVASÃO ÁS TERRAS INDÍGENAS E A MIGRAÇÃO

Dedicado a Marina (que eu apelidei juçara em outros Textos meus), esposa do


líder indígena (Guarani Sepé Tiaruju, século XVIII.

Ela representa o início da solidão das mulheres motivada pela violência e pelo
racismo.

SEPARAÇÃO DE JURIPIRANGA E CUNHATAÍ EFEITOS DA COLONIZAÇÃO


PARA A FAMÍLIA E A MULHER VIOLÊNCIA, RACISMO E INTOLERÂNCIA.

Muitas famílias indígenas foram separadas pelas invasões estrangeiras. Invasões


do passado, invasões do presente, invasões do futuro. No passado, as frentes de
expansão econômica, as frentes missionárias e as frentes de atração eram as
causas das transformações sociais das populações indígenas. Varicela,
escarlatina, varíola, sarampo, gripe e tuberculose, em 1763, fizeram 7.414
vítimas! O padre Fernandez escreveu, em um de seus relatórios, que os
portugueses e os mamelucos de São Paulo tinham assassinado, em 130 anos, 2
milhões de índios Guarani nas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai.
Muitos desses indígenas foram, capturados, levados para São Paulo, para o Rio
de Janeiro e até para o Nordeste brasileiro. Em 1729, a chamada República
Guarani somava um total de 131.658 indígenas escravizados. Os exércitos
português e espanhol, na batalha de 7 de fevereiro de 1756, próxima a Bagé
(sudoeste do Rio Grande do Sul), assassinaram Sepé Tiaraju e mais 10 mil
Guarani. Sua esposa, Marina (fuçara), levaria às costas a menina recém-nascida
que Sepé jamais veria. Era o início da solidão das mulheres, motivada pela
violência, pelo racismo e por todas as formas de intolerância referentes inclusive à
espiritualidade e à cultura indígenas.

P.19

Durante o processo de escravidão indígena, muitos pais e famílias realizavam o


suicídio em massa contra essa forma de opressão. Despencavam dos penhascos.
Isso era um ato de resistência. Então, percebemos que muitas famílias sofreram a
separação, e é a esse enfoque que nos reportamos. Entre as causas da
separação das famílias estão a violência aos territórios imemoriais dos povos
indígenas e a migração compulsória. Isso provocou insegurança familiar,
distúrbios, medo e pânico, causando loucura, violências interpessoais, suicídios,
alcoolismo, timidez e a baixa autoestima diante do mundo. Tudo isso motivado
pelo racismo contra povos indígenas e em prol da colonização europeia. E mais: a
destruição dos cemitérios sagrados dos povos indígenas, que representam uma
forte referência cultural, fez com que famílias perdessem definitivamente o elo
com seus ancestrais, causando a desintegração cultural e espiritual.

VIOLÊNCIA, MIGRAÇÃO E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Dando um salto cronológico na história, já na segunda década do século XX, a


violação aos direitos humanos dos povos indígenas continua. E, aqui, contamos
não um caso particular, mas um caso comum a milhares de brasileiros, migrantes
indígenas. Conta-se que o índio X, pai das meninas Maria de Lourdes, Maria
Isabel, Maria das Neves e Maria Soledad, por combater a invasão às terras
tradicionais no Nordeste, foi assassinado cruelmente, segundo palavras de uns
velhos que encontrei um dia. Amarraram-lhe pedras aos pés, enfiaram um saco
em sua cabeça e o arremessaram ao fundo das águas do litoral paraibano. A
família colonizadora inglesa Y ainda fez desaparecer muitos pais e avós de
família. Quase 70 anos depois, a empresa Z foi à falência e nunca se fez justiça a
esses crimes organizados, objetivando interesses políticos e econômicos locais.

As filhas do índio X e toda a sua família, amedrontadas, assim como outras


famílias, migraram para Pernambuco, nordeste do
P.20

Brasil. Em 31 de dezembro de 1928, nascia a pequena Elza, filha de Maria


de Lourdes, fraquinha e enferma — tanto pelas condições de vida de sua família
quanto por sua própria mãe ter somente 12 anos, uma menina ainda em
formação, violentada sexualmente pelo colonizador. Pouco tempo depois, toda a
família migrava de novo para o Rio de Janeiro, em um navio subumano que trazia
os nordestinos para o sul do Brasil. Sem conhecer ninguém e completamente
empobrecida, a família indígena permaneceu por uns tempos nas ruas. Quando
Maria de Lourdes, índia, mulher, analfabeta, paraibana, nordestina e já separada
do homem que lhe fez mais dois filhos, conseguiu trabalho, se estabeleceu com a
família em uma área de prostituição chamada Zona do Mangue, próxima à
Estação Ferroviária da Central do Brasil, na Praça XI, propriamente à rua General
Pedra.

Para que Maria de Lourdes pudesse trabalhar, a debilitada Elza tinha de


tomar contar de seus dois irmãos, la à escola, levando-os junto, um no colo e
outro pela mão. Elza, no começo da adolescência, acabou permanecendo seis
meses entrevada na cama por uma doença nos ossos. Mais ou menos oito anos
depois, a jovem Elza casou-se e teve dois filhos: um menino e uma menina.
Lamentavelmente, seu marido foi atropelado por um bonde na cidade e morreu,
ficando órfãs as suas crianças. A história se repetiu na vida de Elza, tornando-se
só, como sua mãe Maria de Lourdes, e sofrendo todas as consequências de uma
mulher sozinha em uma sociedade em que o pátrio poder dominava.

Em 1956, quando a filha de Elza já tinha 6 anos de idade, Maria de


Lourdes, mulher indígena, analfabeta, paraibana, nordestina e, então, quase mão
de obra escrava nas feiras cariocas, iniciou o processo de criação da menina,
para ajudar Elza, que trabalhava como faxineira em uma empresa.

A menina, então, foi criada a sete chaves, dentro de um quarto mal


iluminado, e quase nunca saía. Quando via o Sol, desmaiava. As necessidades
fisiológicas e os banhos eram realizados ali mesmo. A cozinha apertada e fora da
casa era cenário das caçarolas expostas;

P.21

os peixes e carnes-secas eram pendurados como se fossem roupas no


varal ou expostos no telhado para secar, sendo constante a presença de
mandioca, fruta-pão, inhame, banana-da-terra e frutas em geral. Quando
conseguiam, comiam caranguejo e o caldo com farinha, fazendo bolinhas com a
mão. Presume-se que a índia Maria de Lourdes mantinha a pequena menina
Potiguara no quarto objetivando a preservação de sua identidade moral, física e
psicológica, pois viviam em uma área socialmente comprometida. Além disso,
havia uma colônia de estrangeiros que vieram imigrados da Europa, fugindo da
Segunda Guerra Mundial, como carvoeiros italianos, ba- naneiros portugueses e
comerciantes espanhóis. Maria de Lourdes era uma curandeira: não só curou
pessoas estranhas como também dois tumores de sua neta, alojados um no olho
outro no mamilo, com uma mistura de minhoca amassada, teia de aranha e visgo
de jaca. Ela trocava essa composição diariamente, por um período de mais de
quinze dias.

Ali, naquele pequeno mundo ou, politicamente situando, naquele pequeno


gueto indígena, a menina foi ouvindo as histórias indígenas de suas tias, tias-avós
(aquelas quatro adolescentes filhas do índio X) e mãe, todas mulheres indígenas,
migrantes de suas terras originais. Com exceção da tia Evanilda, todas se
casaram e, tempos depois, os maridos foram embora ou morreram, ficando as
mulheres sozinhas com os filhos para criar e enfrentando o racismo e a
intolerância da sociedade. A menina a que nos referimos teve como cenário de
vida essa história e tornou-se uma pessoa muito observadora, calada, sensível e
espiritualizada, herança dessas mulheres indígenas que, mesmo fora das terras
originais e violentadas pelo processo histórico, político e cultural, mantiveram sua
cultura, seus hábitos tradicionais e, principalmente, seus laços com os ancestrais,
a cosmologia e a herança espiritual.

Quando a menina começou a ir à escola, era a sua avó que a levava


diariamente e permanecia do lado de fora das grades, tomando conta,
observando todas as ações da neta. A menina nunca podia falar com as outras
crianças, não conseguia se relacionar ou brincar

P.23

com elas, principalmente porque a estigmatizavam por ser indígena e por


sua avó ter hábitos de uma avó diferenciada. Aquela avó tinha peitos grandes,
caídos, barriga inchada, vendia bananas, tinha algum pedaço de ouro nos dentes,
misturado às grandes falhas, como uma necessidade de elevar seu nível social
que testemunhava a pobreza. Mas sua fala, seu sotaque e seus hábitos
denunciavam sua condição de migrante indígena e as crianças e adolescentes
debochavam cruelmente, em uma atitude xenófoba, que deixava Potiguara
extremamente infeliz, sentindo-se feia, magra e menor, não conseguindo
compreender o sentido daquilo tudo.

Porém, com a cultura indígena recebida no gueto familiar, o amor e a


dedicação que tinha aos livros, Potiguara (com i e não com y) foi crescendo. Sua
avó, analfabeta, sempre solicitava que a menina, já com 7 anos, escrevesse
cartas a uma determinada pessoa na Paraíba e sempre chorava ao receber as
respostas. Por isso, a avó bebia demais, bebia cachaça pura, que era escondida
atrás das panelas, sob a pia enegrecida pelo limo e pelo tempo de uso. Carlos
Alberto, irmão da menina, às vezes, despejava a bebida no ralo e substituía por
água, o que deixava a idosa Lourdes revoltada. Foi assim que Potiguara começou
a escrever, absorta nas histórias da própria avó e no sentimento que tudo isso
envolvia. As histórias reais de sua avó a levavam para um mundo mágico e
literário.

Quando a “encarcerada domiciliar” se tornou professora primária, “o


orgulho da família pobre, indígena e desaldeada”, a sua consciência crítica estava
borbulhando a ponto de explodir. Ao tomar contato com a filosofia de educação do
professor Paulo Freire, um dos maiores educadores populares do Brasil,
perseguido pela ditadura militar e exilado no Chile e na África, a menina — agora
mulher — ganhou o mundo. Incentivada por sua avó, já falecida pelos maus-tratos
da migração, e pelo cantor e comunista, de origem indígena Charrua, o
inesquecível Taiguara, com o qual se unira em 1978, Potiguara fez o retorno ao
inconsciente coletivo visitando nações indígenas e perseguindo, sem medir
esforços, a verdadeira história de sua tão sacrificada, marginalizada e
discriminada família

P.23

migrante do nordeste brasileiro, uma das áreas mais pobres do país. Nas
cidades de Santa Maria, Bagé, Santo Angelo e cidadelas próximas à fronteira do
Uruguai, em 1978, pôde conhecer as mulheres indígenas que testemunhavam em
suas peles e rugas o sofrimento que causava a violação dos direitos dos povos
indígenas. Ali começou a segunda etapa de seu diálogo com as mulheres
indígenas. Pensava, já naquela época, na organização e na articulação das
mulheres indígenas. Há quase quatro décadas!

Visitou as terras imemoriais de sua mãe, de sua avó paraibana e de seus


ancestrais espirituais. Ali sentiu a essência da existência humana, o seu cordão
umbilical queimava e seus pés não andavam: flutuavam... Foi lá que, em 1979,
conheceu um senhor muito velhinho e cego, o índio Potyguara, a quem
chamavam de Sr. Marujo, com cerca de 90 anos, que narrou como se deu a
retirada daquela família específica do local, por volta de 1927. Foi impactante
porque eram todas mulheres, as quatro filhas do índio X, mais a mãe Maria da
Luz. Sua avó, a menina Maria de Lourdes, com apenas 12 anos, já era mãe
solteira, vítima de violação sexual praticada por colonos que trabalhavam para a
família inglesa Y, que escravizava a população indígena no plantio do algodão.

Com esse testemunho, a nova cidadã, agora sabedora de suas raízes,


tinha a certeza de que estava em casa e queria resgatar e preservar essa
cidadania. Entrou para o movimento indígena, arquitetou políticas de resistência,
fez um trabalho de campo que sensibilizou muitas pessoas, mas esbarrou com as
forças reacionária, política e econômica locais que quase a mataram, por querer
noticiar os fatos arbitrários e por disseminar a conscientização dos Direitos
Indígenas entre aquele povo, que, na época, sofria o impacto sociopolítico e
ambiental do arrendamento de terras indígenas e suas trágicas consequências.
Sofreu humilhações públicas, ameaças de morte, extorsões e difamações em
jornais de renome e em jornais locais. Sofreu também abuso sexual, o que
prejudicou sua imagem moral, afetou seu trabalho, seu lado psicológico e o de
seus filhos.

P.24

Para não prejudicar a imagem histórica, política e social de um povo, teve


de se calar na época, sendo levada pela Polícia Federal, na frente de seus filhos,
como se fora uma assassina. Teve de depor na Procuradoria do Estado, na época
do governo de Fernando Collor, e retirar-se, constituindo, assim, um ato de
respeito e desapego à história de seu povo, após uma ação de solidariedade
internacional do Pen Club da Inglaterra e da organização internacional
denominada Escritores na Prisão, que defendiam os Direitos Humanos em seus
países. Essa ação de solidariedade foi indicada por Genaro Bautista, índio
mexicano, escritor, jornalista e coordenador do Agência de Imprensa Indígena
(Aipin).

SIMILARIDADES DE HISTÓRIAS

Analisando esses fatos que ocorreram no final do século XX, percebemos


que a causa principal dos conflitos, dissabores, amarguras e solidão está lá! Lá no
início do século XX, quando o índio X foi dado como desaparecido e sua família
mutilada. E a violência, a intolerância e o racismo aos direitos indígenas se
arrastaram por muitos e muitos anos e séculos, vindo a prejudicar dezenas de
vidas e de relações interpessoais. Assim está formalizada a história de muitas
famílias indígenas que se separaram de seu território tradicional e de seus
parentes. Esse é um caso a ser estudado também e que deve se constituir em um
inquérito a partir de estudos antropológicos baseados em histórias e testemunhos,
para que se consiga resgatar a dignidade e a cidadania dessas famílias
discriminadas, exploradas e escravizadas por milhares de processos
colonizadores ao longo do território nacional, como é o caso também dos Povos
Ressurgidos e dos Quilombolas.

A história aqui narrada não é um caso incomum. A diferença é que, aqui,


está tendo visibilidade, quando a esmagadora maioria de famílias indígenas
violentadas, que continua em aldeias indígenas ou que faz parte das famílias
desaldeadas ou desestruturadas, permaneceu calada, enferma, enlouquecida,
isolada na sociedade

P.25

envolvente. Famílias caladas pela pressão política, social e econômica ou


por desconhecerem os seus direitos ou, até mesmo, por vergonha. A vergonha é
o resultado do estigma. A paraibana Maria de Lourdes, a avó da menina, tinha
vergonha de sua história, assim como muitos indígenas desaldeados das terras
amazônicas. A vergonha se transforma em medo, medo da discriminação social e
racial.

Esse tipo de violência e racismo e a migração dos povos indígenas de suas


áreas tradicionais merecem estudos, pois essas situações não têm visibilidade no
país, assim com a situação das mulheres indígenas que sofrem abuso, assédio,
violência sexual, que se tornam objeto de tráfico nas mãos de avarentos e
degradados nacionais e internacionais não é divulgada. Essa é a causa que
estamos levantando!

Os conflitos entre povos e o poder, no mundo inteiro, têm causado


migrações, deslocamentos (esses povos são obrigados a se deslocar e a fugir por
diversos motivos, sejam guerras locais, sejam internacionais, conflitos de raça,
etnia ou religião). Muitas consciências já se levantaram contra essa situação e,
principalmente, contra as consequências desses deslocamentos de povos de seu
habitat natural, constituindo-se no chamado racismo ambiental. Muitos
organismos da Organização das Nações Unidas (ONU) têm tratado desse ponto
com considerável atenção. E as mulheres e as crianças são os mais atingidos
nesses casos.

Sobre as mulheres indígenas, a violação aos seus direitos humanos as tem


conduzido às mãos de homens corruptos que as seduzem por um prato de
comida, por programas ou eventuais promessas, que confundem esse universo
feminino, pois essas mulheres têm valores e tradições totalmente diferentes do
mundo urbano, envolvente e masculino. Temos como exemplo o caso de algumas
mulheres indígenas Yanomami (Roraima), que, há mais de uma década, são
conduzidas à prostituição, ludibriadas por soldados ou comerciantes.

Em 1996, um chefe indígena no Brasil Central passou por uma situação


muito humilhante perante os parentes de seu povo.

P.26

Sua esposa partiu com um comerciante local, estranho à sua etnia. As


mulheres indígenas, em suas comunidades, acabam sendo iludidas pelo
encantamento e pelas condições da sociedade envolvente, assim, centenas delas
acabam por sair de suas casas para a insegurança das cidades próximas ou das
grandes cidades. Isso constitui tráfico de mulheres, pois a maioria acaba sendo
empregada como doméstica com mão de obra quase escrava. Podemos tomar
como exemplo o depoimento de Deolinda Prado, índia Dessana (Amazonas),
dado ao Grupo Mulher-Educação Indígena (Grumin) há quase trinta anos, quando
eu estive lá, que motivou a criação do primeiro núcleo de apoio às empregadas
indígenas em Manaus, a Associação de Mulheres do Alto Rio Negro (Amarn).

As mulheres indígenas também vão trabalhar como operárias mal


remuneradas ou nas grandes plantações dos latifundiários, em um sistema de
cativeiro, trocando seu trabalho por latas de sardinhas e nunca conseguindo
pagar sua dívida com o contratante. Outras vezes, vão morar com homens sem
caráter que as transformam em objeto de cama e mesa, submetidas a agressões
físicas e parindo dezenas de filhos, para viverem, miseravelmente, nas casas de
palafitas na Amazônia, dentro e fora do Brasil, ou sobreviverem em favelas
contaminadas moral, social, política e fisicamente. Muitas vezes, trabalham
somente pelo prato miserável de comida ou por um pouco de farinha de
mandioca.

Atualmente, com o apelo da comunicação de massa, muitas meninas e


adolescentes querem projetar-se nos louríssimos símbolos sexuais das grandes
redes de televisão, atuais modelos de beleza brasileira que deixam os homens
enlouquecidos e supérfluos. E o que acontece com centenas de mulheres
indígenas que se dirigem aos grandes centros urbanos como Manaus, Belém,
Boa Vista, Recife, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e demais capitais do Brasil.
Muita gente desatenta pode criticar, conduzindo seu raciocínio para um
julgamento injusto e intolerante, do tipo: “Essa população, então, não preserva
mais os seus valores, já quer o mundo da sociedade envolvente!”. Outra forma de
escravidão de mulheres indígenas

P.27

é a constatação da presença delas em prostíbulos e em zonas de


meretrício, onde vendem seu corpo por migalhas, contraindo Aids e outras
doenças sexuais. Criando crianças sem futuro, famintas ou portadoras do vírus
HIV.

O sistema político, que deveria garantir o direito territorial dos povos


indígenas, a preservação cultural e sua dignidade, nada faz. Entra governo e sai
governo e as terras indígenas não são prio- rizadas, tampouco os direitos
constitucionais e imemoriais desses povos são considerados. Os povos, há
séculos, sobrevivem em um clima constante de insegurança, não se sabendo se
aquele local em que estão enterrados seus mortos será o território de seus filhos!

Os instrumentos jurídicos internacionais resultantes das Conferências


sobre o Meio Ambiente Humano organizadas pela ONU estão aí para serem
aplicados pelos governos. Mas cada vitória da população oprimida do mundo é
uma nova batalha para que os governos ponham em prática os direitos
conseguidos.

QUANDO CHEGARAM OS ESTRAGEIROS

Jurupiranga e Cunhataí são dois personagens do texto Ato de amor entre


povos, de minha autoria, reproduzido nas próximas páginas, que sobreviveram à
colonização e, poeticamente, vão nos contar as suas dores, lutas e conquistas.
Esses personagens são atemporais e sem locais específicos de origem. Eles
simbolizam a família indígena e o amor, independentemente de tempo, local,
espaço onírico ou espaço físico; eles podem mudar de nome, ir e voltar no tempo
e no espaço. Na sequência, há outros poemas também de minha autoria que
falam do mesmo assunto.
3 Conferencia de Estocolmo (Estocolmo, 1972); Eco 92 ou Rio 92 (Rio de Janeiro,
1992); Rio+10 ou Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável
(johanesburgo, 2002); Rio+ 20 (2012).

P.28

BRASIL

Que faço com a minha cara de índia?


E meus cabelos
E minhas rugas

E minha história
E meus segredos?

Que faço com a minha cara de índia?

E meus espíritos

E minha força E meu Tupã


E meus círculos?

Que faço com a minha cara de índia?

E meu Toré

E meu sagrado
E meus“cabocos”
E minha Terra?

Que faço com a minha cara de índia?

E meu sangue

E minha consciência E minha luta


E nossos filhos?

Brasil, o que faço com a minha cara de índia?


Não sou violência
Ou estupro
P.29

Eu sou história
Eu sou cunhã

Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro.

Ventre que gerou


O povo brasileiro
Hoje está só...
A barriga da mãe fecunda

E os cânticos que outrora cantavam


Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo.

INVASÃO

Quem diria que a gente tão guerreira


Fosse acabar um dia assim na vida.
Quem diria que viriam de longe
E transformariam teu homem
Em ração para as rapinas.

Quem diria que sobre os escombros


Te esconderias e emudecerias teu filho — fruto do amor.

Cenário macabro te é reservado.


Pra que lado tu corres,
Se as metralhadoras e catanas e enganos Te seguem e te mutilam?
E impossível que mulher guerreira
Possa ter seu filho estrangulado
E seu crânio esfacelado!
P.30

Quem são vocês que podem violentar


A filha da terra

E retalhar suas entranhas?

ORAÇÃO PELA LIBERTAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS

Parem de podar as minhas folhas e tirar a minha enxada


Basta de afogar as minhas crenças e torar minha raiz. Cessem de arrancar os
meus pulmões e sufocar minha razão
Chega de matar minhas cantigas e calar a minha voz.
Não se seca a raiz de quem tem sementes Espalhadas pela terra pra brotar.
Não se apaga dos avós — rica memória

Veia ancestral: rituais pra se lembrar


Não se aparam largas asas
Que o céu é liberdade

E a fé é encontrá-la.
Rogai por nós, meu Pai-Xamã
Pra que o espírito ruim da mata

Não provoque a fraqueza, a miséria e a morte.


Rogai por nós — terra nossa mãe
Pra que essas roupas rotas

E esses homens maus


Se acabem ao toque dos maracás.

Afastai-nos das desgraças, da cachaça e da discórdia,


Ajudai a unidade entre as nações.
Alumiai homens, mulheres e crianças,

Apagai entre os fortes a inveja e a ingratidão.


Dai-nos luz, fé, a vida nas pajelanças,
Evitai, ó Tupã, a violência e a matança.
Num lugar sagrado junto ao igarapé.
Nas noites de lua cheia, ó MARÇAL, chamai
P.31

Os espíritos das rochas pra dançarmos o Toré.


Trazei-nos nas festas da mandioca e pajés
Uma resistência de vida

Após bebermos nossa chicha com fé.


Rogai por nós, ave-dos-céus
Pra que venham onças, caititus, seriemas e capivaras Cingir rios Juruena, São
Francisco ou Paraná.
Cingir até os mares do Atlântico
Porque pacíficos somos, no entanto.
Mostrai nosso caminho feito boto
Alumiai pro futuro nossa estrela.
Ajudai a tocar as flautas mágicas

Pra vos cantar uma cantiga de oferenda


Ou dançar num ritual Iamaká.

Rogai por nós, Ave-Xamã


No Nordeste, no Sul toda manhã.
No Amazonas, agreste ou no coração da cunhã.

Rogai por nós, araras, pintados ou tatus,


Vinde em nosso encontro
Meu Deus, NHENDIRU4 !

Fazei feliz nossa mintã5


Que de barrigas índias vão renascer.

Dai-nos cada dia de esperança


Porque só pedimos terra e paz
Pra nossas pobres — essas ricas crianças.

.................
4Nnhendiru: Deus
5 Mintã: criança
FIM DE MINHA ALDEIA

Tenho medo das coisas que falo

Que mais parecem profecias


De tudo mais que falei
Hoje estou tão só, triste e descontente

Perdi o meu amor


Perdi minha razão
Dói-me profundo

Profundamente meu coração.


Choro intranquila, sofro a desgraça Vivo o desamor na solidão E por onde passo
Há só lembranças, tristes lembranças
De uma aldeia acabada.

Eu tenho medo das coisas que falo

Que mais parecem profecias


Pois de tudo, tudo que falei
Hoje estou sofrida, amargurada

Perdi minha essência


Grito traída, canto a trapaça
Sou a própria tristeza

Transformei-me numa constante ameaça.


Agora não rio, não sonho
Não suporto mais nada

Uma dor aguda me sufoca, me maltrata


É a dor da saudade que me mata.
p.33

MIGRAÇÃO INDÍGENA

No teu universo de gestos


Teus olhos são mensagem sem palavras
Tua boca ainda incandescente
Me queima o rosto na partida
E tuas mãos...
Ah!... Não sei mais continuar esses cânticos

Porque a mim tudo foi roubado.


Se ainda consigo escrever alguns deles
Só é fruto mesmo da mágoa que me toma a alma

Da saudade que me mata


Da tristeza que invade todo o meu universo interno Apesar do sorriso na face...

PARTIDA DO GUERREIRO EM LUTA

Negros olhos na tarde clara


Se espreitam emudecidos
No derradeiro encontro
As vésperas de uma nova era
Às portas de uma nova vida.

Mãos outrora apertadas


Vão-se agora
Soltas

Entristecidas

Fim de tarde em corpos loucos

Suados, cálidos, calados


Uniram-se num amor quietinho
Sem nenhuma lágrima ou lamento.

O sussurro inda retumba no espaço


E os ecos se chocam contra os ventos

Esquentando ossos e pulmões sozinhos

P.34

Vai-se a graúna sussurrenta


Vai-se mais um dia.
O outro, e mais o outro
Vão-se todos os dias...
Por que largar teu ninho
Por que sucumbir teu bem?

Essa estância amante e sonhadora


Se despojou da energia e do calor
Hoje está só

Fria
Sem amor e sem ninguém.
Vai-se a graúna negra do meu cais

Cantar nos campos lisos, ensolarados


Deixa teu rastro rude pros passarinhos
Que pelo teu cheiro e brilho
Eu bem sei que não molestas os arrozais.

Vai-se a minha graúna querida

Enquanto resguardo paciente o meu corpo puro


Enquanto preservo consciente, meus beijos, juro!
Vai-se a graúna tranquila

Que minha fonte de amor é intocável


E descansa sobre gozos abafados
E esconde a grande paixão ferida

Por isso trago nos olhos vermelhos


A saudade e as marcas
Pra uma nova visão de VIDA.

ORFÃ

Não adianta fugir dessa realidade


Quando te trazem aos braços
Uma criança que nem dois anos completos tem.

E tua boca que gargalhadas davam

P.35
Ao sabor do ácool
Se cala
E umedece de vez

E te deserma
É uma criança faminta
Doente

Órfã de pais
Órfã de pais

CONCIÊNCIA TIKUNA

Sou um cachorro raivoso e irado


E minhas garras cortam as gargantas
Das feras, nos portões de ferro do mundo.
Não me venham com análises
Porque não sou louco.

Sou lúcido, tanta lucidez


Que sangro e consigo engatilhar meu coração

E explodo nos ares.


Aí, cato meus pedaços
E saio pelas ruas

Avenidas, matas
Florestas e espaço...
Procurando a verdade.

TAMOIOS E TUKANOS

Do teu passado de cão maldito


Pra abanar a fome cansado do grito...

Do suco extraído da própria terra


Pra embebedar o teu berro...
Da mulher violada que a ti esteve junto
Pra satisfazer desejos imundos...
Do teu sorriso roubado

Pra rosnar de dor, o menino calado...

Da trama criada e da boca sem paz

Pra caírem em ti feito fera voraz...

Por destruírem ma palhoça inteira

E te cortarem as orelhas
Não precisam de mais nada...

Já padece teu corpo na sujeira


E te arrematam os porcos, à baioneta...

Quer ser lacaio prostituído,


Quer ser caniça bêbada
Ou escorregar num parque

BICHO-MARIONETE?
Pra agradar o poder, esconder o grito
Pra servir de história social...

E virar herói nacional!

A PERDA DOS YANOMAMI

Eles criticam
Por nos encontrar nas estradas

Alegrem-se
Por não nos encontrar ainda nos hospícios!...
P.37

PERDA DA ESSEÊNCIA DA MULHER

Meu coração em ma ausência arde


E diverge minha mente confusa.
Naquele rio erguia meus braços
Eu não era eu.

Eu mesma
Fugia de mim na outra margem...

Dentro de mim essa ausência forja


Uma mulher fatal e louca
Desgarrada me toma essa fera e age

E mancha a várzea verde do meu ser


E mancha a essência branca do meu lar...
A incerteza gera em mim todos os males
E temia o medo de nadar nos rios
E tinha medo de andar nas matas
E ganhava medo de existir nos vales

Eu era o próprio medo da minha viagem...

Gritou meu medo de vergente

Tua despedida me matou de verdade


Rugiu ainda minha voz rouca
Fraca, anêmica, covarde...

Quebrou-se um destino
Fora de combate

Num desvio que eu mesma repugnei:


E a mulher de fibra que um dia imerge

Nas falsas e corruptas personagens...


Mágoas, lágrimas rolam dessa existência
Num pedido de perdão, amor primeiro.

Perdoe-me a triste sina, a violência,


P.38

Meu medo, minha carência


Minha sorte!
Antes que tudo em mim se transforme em morte...

P.39
2 A ANGÚSTIA E DESESPERO PELA A PERDA DAS TERRAS E PELA A
AMEAÇA Á CULTURA E AS TRADIÇÕES

DOR E REVOLTA DE JURUPIRANGA


E CUNHATAÍ
MIGRAÇÕES E RACISMO

O processo de colonização e neocolonização dos povos indígenas do


Brasil os conduziu ao trabalho semiescravo, em um regime de exploração
causado pela intromissão de milhares de segmentos, tais como madeireiros,
garimpeiros, latifundiários, mineradoras, caminhoneiros, empresários das
hidrelétricas, rodovias, pistas de pouso etc.

Tal intromissão, conivente com políticas locais, com a falta de vontade


política e com a omissão governamental, causou, nas últimas décadas, o
desmatamento, o assoreamento dos rios, a poluição ambiental e a diminuição da
biodiversidade local, entre outros estragos. As invasões trouxeram as
enfermidades, a fome, o empobrecimento compulsório da população indígena. E
mais: as dificuldades locais levaram muitas pessoas à migração, à submissão ao
trabalho semiescravo e a péssimas condições de moradias (favelas, casas de
palafitas na periferia dos centros urbanos).

As invasões trouxeram também distúrbios como a loucura, o alcoolismo, o


suicídio, a violência interpessoal, afetando consideravelmente a autoestima dos
seres humanos indígenas. Podemos perceber

P.41

claramente que todos esses sintomas são causados pelo racismo


subliminar do poderio do Estado e pelas reações discriminatórias subliminares da
sociedade brasileira, oriunda da miscigenação entre brancos e negros, índios e
brancos e negros e índios. O desejo de ascensão da população miscigenada e/ou
branca é construído com base no racismo implícito e no processo de escravidão,
semiescravidão e exploração da mão de obra barata dos mais oprimidos
segmentos da sociedade, como os miseráveis, pobres, negros e a população
indígena.
A colonização e a neocolonização, no entanto, são refletidas também por
grupos de interesses religiosos que, ao longo da história do Brasil, vêm
confundindo a cosmovisão indígena com ideologias e fundamentos alheios à
realidade tradicional. Impor culturas dominantes é uma forma de racismo. O
paternalismo oficioso e governamental e o paternalismo eclesiástico também são
formas de racismo, por melhores que sejam as intenções. Há de se respeitar a
espiritualidade e as tradições de ritos dos povos indígenas.

A demarcação das terras indígenas nunca foi uma prioridade


governamental. Uma política que garantisse e respeitasse os povos indígenas
como unidades sociopolíticas e culturais distintas deveria ser uma prioridade
como respeito histórico. Nunca se realizou, na prática, uma política voltada aos
interesses e projetos econômicos de autossustentação propostos pelos indígenas,
baseados em sua biodiversidade, com segurança para a saúde, a educação, a
agricultura e os direitos humanos, levando em consideração sua cultura
diferenciada.

Por todas essas razões, há muitas décadas, muitas lideranças têm sido
sacrificadas por lutar por seus direitos. Os casos mais polêmicos referem-se ao
assassinato de Marçal Tupã-y, em 1983; ao caso dos 14 índios Tikuna
assassinados, em 1988; ao caso do assassinato dos 16 índios Yanomami, em
1993 e ao caso do índio Galdino, do povo Pataxó, queimado em Brasília, um
exemplo clássico de racismo urbano e violento, em 1997. Todos esses casos
continuam impunes. Ainda existem outras centenas de casos anônimos,
indefinidos, e outros abafados de indígenas que lutam pelos seus direitos, por
temerem represálias ou por estarem abalados moral e psicologicamente.

P.42

O governo brasileiro, nas últimas décadas, tem facilitado os interesses das


mineradoras em territórios indígenas e protegido sempre os empresários e
políticos locais.

Uma mulher indígena Potyguara me contou um dia, em 1989: “Eu estava


em casa sozinha, cozinhando; entrou um homem-peixe em minha casa e me
tomou o espírito e partiu. Nunca mais o vi, mas sempre ia à beira-mar esperar por
ele”. Os dias se passaram, os meses, os anos... A mulher estava louca e velha.
Havia passado toda uma vida e a velha esperava seu homem-peixe, desde que
acontecera aquele incidente. A menina-moça estava em casa sozinha, entrou um
colonizador local inescrupuloso, nos anos 1940, a violentou sexualmente e fugiu...
O desastre à mente daquela criança foi tamanho que o universo cultural foi
completamente confundido, tornando-a uma criança — mulher — velha
maltrapilha e louca! Quantas histórias dessa natureza teremos?

Um chefe da nação indígena Macuxi (Jornal do Brasil, 10 jul. 1980) nos


conta, referindo-se à situação das mulheres:

Quando o branco chegou nas nossas terras, índio pensava que branco era
do lado de Deus, índio pensava que Deus tinha vindo visitar. De fato, branco tem
tudo e índio não tem nada: branco tem arame farpado, nós não temos; branco
tem livro, nós não temos; branco tem machado de ferro, nós não temos; branco
tem carro, nós não temos; branco tem avião, nós não temos [...] Mas o branco
veio e roubou as nossas terras; e o índio não podia mais caçar. Falou que as
terras boas eram dele, falou que os peixes dos rios e dos lagos eram dele. Depois
trouxe doenças. E depois se aproveitou de nossas mulheres [grifo nosso]. E o
índio se revoltou. Então o branco matou os nossos avós, matou-os, massacrou-os
muito,

P.43

e o índio fugia tão rápido como a coisa mais rápida. Então o índio entendeu que o
Deus do branco era ruim.

Exemplos como esse mostram que povos indígenas são colonizados, mas, na
realidade, não aceitam integralmente os valores impostos por terceiros. Povos
indígenas, na realidade, e até muitas vezes precariamente, dependendo da região
e dos níveis de integração, continuam mantendo e exercendo sua espiritualidade
e suas raízes cosmológicas, rendendo homenagens aos seus ancestrais e aos
símbolos tradicionais da natureza.

QUAL A DIFERENÇA DESSA HISTÓRIA PARA A HISTORIA CONTADA PELA


FAMÍLIA INDÍGINA MIGRANTE DO NORDESTE BRASILEIRO DESCRITA NO
INÍCIO DO CAPÍTULO 1?

As razões de violência são caracterizadas sempre da mesma forma. As razões


são as mesmas, o espírito de dominação do homem pelo homem é o mesmo,
passadas gerações, séculos, enfim...

MULHER INDÍGENA: MAE, MULHER E PROFESSORA

Amílcar Cabral, poeta, escritor negro, na luta revolucionária na Guiné-Bissau


(África), na década de 1970, afirmava que “a cultura deve ser utilizada como
instrumento de libertação nacional”. Complementando o raciocínio, podemos dizer
que a libertação do povo indígena passa radicalmente pela cultura, pela
espiritualidade e pela cosmovisão das mulheres. O papel da mulher na luta pela
identidade é natural, espontâneo e indispensável. A mulher tem a função política
de gerar o filho e educá-lo conforme as tradições, assim como na sociedade
envolvente. Se criarmos um adolescente em um ambiente de tráfico de drogas,
ele poderá vir a ser um marginal.

P.44

Com relação à cultura indígena, a mulher é uma fonte de energias, é


intuição, é a mulher selvagem não no sentido primitivo da palavra, mas selvagem
como desprovida de vícios de uma sociedade dominante, uma mulher sutil, uma
mulher primeira, um espírito em harmonia, uma mulher intuitiva em evolução para
com sua sociedade e para com o bem-estar do planeta Terra. Essa mulher não
está condicionada psicológica e historicamente a transmitir o espírito de
competição e dominação segundo os moldes da sociedade contemporânea. O
poder dela é outro. Seu poder é o conhecimento passado através dos séculos e
que está reprimido pela história. A mulher, intuitivamente, protege os seios e o
ventre contra seu dominador e busca forças nos antepassados e nos espíritos da
natureza para a sobrevivência da família. Todos esses aspectos foram mais
preservados do que no homem.

Frantz Fanon, escritor argelino (África), nos mostra em seu livro Os


condenados da Terra como o processo de violência, tortura, repressão e
opressão deixou o povo argelino anestesiado, cabisbaixo, triste, infeliz e até
louco, na luta pela libertação nacional, na década de 1960. O mesmo aconteceu
com os povos das Missões Guarani. Existiu, de 1610 a 1768 — portanto, durante
um século e meio —, um tipo de sociedade chamada República Cristã dos
Guarani ou República dos Guarani, envolvendo os estados do Paraná, Santa
Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e uma parte do Paraguai,
Argentina e Uruguai. Essa república foi criada pelos bem-intencionados jesuítas
contra os espanhóis e portugueses, que queriam submeter e subjugar os
Guaranis como escravos. Mas, mesmo essas missões, em que a população
aprendia artes, ofícios, astrologia, filosofia, matemática, física etc., não foram o
suficiente para tornar os indígenas felizes. Após a expulsão dos jesuítas pelo
Marquês de Pombal, em 1759, a república foi totalmente dissolvida. Conta-se que
os sobreviventes desse projeto, quando iam para a lavoura, permaneciam
cabisbaixos, não mais produziam, recusavam-se à reprodução humana e,
melancólicos, não mais cantavam. Eu senti um enorme calafrio andando pelas
ruínas das missões, em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, em 1978. Parecia
que, nos

P.45

entroncamentos, se ouviam os gritos de dor ecoando pelos ares e que as paredes


estavam impregnadas do suor da escravidão e do racismo. Assim senti quando
estive lá! Meu coração esquentava de dor e minha imaginação era um pesadelo.
O mesmo aconteceu quando visitei as ruínas da igreja de São Miguel e o
cemitério indígena, já na área Potyguara, no estado da Paraíba, em 1979. A voz
dos oprimidos ecoa igualmente em qualquer parte do mundo. E temos de ouvi-la
para que a justiça se faça a qualquer momento da história.

Em 18 de abril de 1977, o líder indígena Marçal Tupã-y, assassinado em 25


de novembro de 1983, esteve nas terras do Sul do Brasil e disse:

Eu não fico quieto não!

Eu reclamo...

Eu falo...

Eu denuncio!...

Voltando à história, em 1557, por meio de armas e canhões, os espanhóis


subjugaram 40 mil Guarani da região Sul do Brasil. Os portugueses e os
mamelucos de São Paulo assassinaram e escravizaram, em 130 anos (séculos
XVI e XVII), 2 milhões de índios nas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai,
no período da chamada Caça ao índio no processo de escravidão e racismo.

Após tantas violências contra as mulheres, não só as indígenas, como as


indianas, que os homens têm o direito de queimar vivas em suas próprias
cozinhas (pude saber desse fato quando viajei pelo interior do território indiano
com o Programa de Combate ao Racismo — mesmo programa que apoiava
Nelson Mandela —, convidada pelo Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra,
1995). Soube como as mulheres muçulmanas têm seus clitóris arrancados
quando nascem, para que não sintam prazer sexual; assim como as mulheres
chinesas têm seus pés amarrados para que não cresçam e não possam correr
livremente pelo mundo, buscando o conhecimento, além de muitos outros
exemplos... Sendo assim, parte da
P.46

os homens encontraram para defender as mulheres das mãos dos


colonizadores ingleses, holandeses, alemães etc., que chegavam aos seus
países, invadindo-os e saqueando suas riquezas naturais e familiares, em nome
do poder econômico, político, social e religioso.

Como resultado das denúncias das mulheres do mundo inteiro, a ONU


promoveu várias grandes conferências internacionais. São elas: a Conferência da
Mulher, na Cidade do México, no México, em 1975; a de Copenhague, na
Dinamarca, em 1980; a de Nairóbi, no Quênia, em 1985; a do Cairo, no Egito, em
1994; a de Pequim, na China, em 1995 (Beijin+10), e muitas outras reuniões de
avaliação, nas quais foram estudadas e propostas diversas estratégias a favor da
mulher, dentre elas a que diz que “A saúde reprodutiva é um estado de completo
bem-estar físico, mental e social em todas as matérias concernentes ao sistema
reprodutivo, suas funções e processos, e não a simples ausência de doença”.

Os direitos humanos da mulher compreendem seu direito de ter controle


sobre sua sexualidade, incluindo sua saúde sexual e reprodutiva, assim como
decidir livremente sobre ela, sem estar exposta à coerção, à discriminação e à
violência, e controlar sua própria fecundidade como um elemento responsável
para o desfrute de outros direitos.

Para isso, é necessário que as políticas públicas, os programas estatais e


comunitários facilitem o exercício responsável desses direitos.

E necessário também que se adotem medidas legislativas, administrativas,


sociais e educativas claras para defender as meninas, tanto na família quanto na
sociedade, contra todas as formas de violência física ou mental, lesões ou
abusos, abandono ou trato negligente, maus-tratos ou exploração, incluindo o
abuso sexual.

P.47

QUE ESTRATÉGIS O GRUMIN, ORGANIZAÇÃO QUE CRIAMOS


MORALMENTE EM 1976E, DEZ ANOS MAIS TRDE, EM 1986, OFICIALIZAMOS
JURIDICAMENTE, UTILIZOU PARA A APRESENTAÇÃO DO TEMA:
VIOLAÇÃO DOS DIREITOS INDÍGENAS DAS MULHERES E DIREITOS A
SAÚDE REPRODUTIVA?
Após quinze anos de trabalho do Grumin, que juridicamente surgiu em uma
reunião no Rio e Janeiro e foi, posteriormente, ampliado em uma assembleia na
área indígena Potyguara, Paraíba, em 1987, apoiada pelo, na época, cacique
João Batista Faustino, pela mulher mais velha da tribo que eu chamava de tia
Severina, por Maria de Fátima da Conceição, o líder Djalma, entre outros — após
vários debates locais, regionais e estaduais, cursos de capacitação, seminários
nacionais e conferências internacionais que realizamos, chegamos à crítica
conclusão de que não existiam estudos, cifras, estatísticas que documentassem
as maneiras como as mulheres indígenas eram ameaçadas e violadas em seus
direitos humanos. Também não era dada atenção ao modo como elas estavam se
extinguindo a partir da mortalidade materna, por violências físicas, por conflitos
culturais, por migração de suas terras indígenas e por conflitos políticos que
ameaçavam suas vidas, suas famílias e o direito ao território indígena e à sua
cosmo- visão. Quando, naquela época, o Grumin chamava a atenção para a
invisibilidade da mulher indígena, a antropologia, a Igreja, as entidades e o
Estado, conservadores, nos miravam como inconsequentes, por falarmos em
saúde e direitos reprodutivos.

Naquela época, não existiam Organizações não Governamentais (ONGs),


que foram criadas a partir de 1992, motivadas pela Conferência Internacional do
Meio Ambiente promovida pela

P.48

ONU. Acreditavam, as entidades ligadas à questão indígena daquela


época, que esse assunto era alheio à cultura indígena e influenciado pelo
Movimento de Mulheres Não Indígenas, as feministas brasileiras ou outros
movimentos populares. As entidades ainda viam a questão indígena de uma
forma muito romântica, apesar de compreenderem a violação aos Direitos
Indígenas. Eu mesma sentia os olhares questionadores quando distribuía o
polêmico Jornal do Grumin, em um encontro muito conhecido em Altamira (Pará),
o ls Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, sobre hidrelétricas, no final da
década de 1980. Lembro-me como uma minoria de sociólogos, sutilmente,
causava desconforto entre nós, indígenas, por sermos urbanos, aldeados do
Nordeste ou desaldeados citadinos. A discriminação contra nossa consciência era
enorme, principalmente quando vínhamos das cidades. Imaginem! Nós tínhamos
nossas terras e fomos acuados para as cidades! Não somos culpados. De
vítimas, passamos a ser discriminados como oportunistas! Vinte anos depois,
organizações já levantam a bandeira dos indígenas ressurgidos, nordestinos,
inclusive desaldeados e descendentes, como no caso da Bahia. Algum dia
reconhecerão a importância política dos indígenas desaldeados pela violência ou
pela migração.

No encontro em Altamira, a guerreira Tuíra apontou o facão para um


empresário como uma atitude de intimidá-lo. Em contrapartida, um líder indígena
me mandou ir para a cozinha e me ordenou que eu ficasse fora das assembleias,
segurando os filhos no colo, inclusive o dele! Acredito que Tuíra Kaiapó abriu uma
brecha para a mulher indígena, mas, ainda hoje, temos que impulsionar as
Conferências de Saúde Indígena para que se inclua o tema Saúde Integral e
Direitos Reprodutivos em todos os fóruns indígenas. Há quinze anos, por
exemplo, eu já via uma mulher indígena como líder na Coordenação Indígena da
Amazônia Brasileira (Coiab), a guerreira Sonia Bone Guaiaiara, pressionada por
veteranas mulheres indígenas como a falecida Zenilda Sateré-Mawé, Deolinda
Prado e suas amigas, que conheceram muito bem os guerreiros indígenas de
Manaus Álvaro Tukano, o inesquecível Manoel Moura Tukano, entre outros, e,
assim, vejo a multiplicação de organizações de

P.49

mulheres indígenas e as vejo se formarem como advogadas e, quem sabe,


futuras juízas, deputadas e vereadoras. Isso é uma vitória!

CAPACITAÇÃO

Os cursos de capacitação, as consultas nacionais, os seminários sobre


família e cidadania e sobre direitos reprodutivos, as feiras de artesanatos, os
projetos de desenvolvimento comunitário, as cartilhas, os jornais, os panfletos e
os livros de conscientização contra o alcoolismo, contra a violência, contra a
desinformação, contra o analfabetismo, contra a ignorância de não se querer
preservar e em prol resgatar a identidade indígena, todas essas ações e outras
foram estratégias que utilizamos no Grumin, no período de 1988 a 1996, época
em que amei em campo, objetivando trazer o assunto à tona. Foi um desafio.

Hoje já se sabe que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) dispõe de


uma ação nas áreas indígenas e que a Fundação Nacional do índio (Funai) está
aberta ao assunto, mas é preciso ampliar esse debate. As ONGs de apoio e as
organizações indígenas devem facilitar a visibilidade desse assunto e interessar-
se por ele, assim como as próprias mulheres indígenas têm provado a
necessidade de se unirem para discutir suas necessidades.

Também é um desafio para os povos indígenas a discussão sobre o


assunto, pois em seu pensamento estão enraizados os vícios e fatores impostos
pelo colonizador, como dificuldades de se falar sobre sexo, desinformação,
alcoolismo, incestos, gravidez prematura, analfabetismo, desequilíbrios emocional
e psicológico causados pelas invasões das terras e ameaças de sobrevivência,
falta de alimentos, roupas e medicamentos, o desprestígio das parteiras dos pajés
e dos caciques, intrigas e competições entre membros comunitários, além de
outros fatores.

P.50

PONTOS DE DISCURSÃO SOBRE SAÚDE REPRODUTIVA E


SUGESTÕES PARA SOLUCIONAR OS PROBLEMAS IDENTIFICADOS EM
1991

Os pontos de discussão e as sugestões apresentadas a seguir não foram


criados ou imaginados. Tais referências têm base em consultas nacionais e
regionais que realizamos ao longo de alguns anos. Acreditamos que possam ser
analisadas, discutidas e que sirvam de base para futuras investigações científicas,
ações políticas e medidas legislativas, sociais, educativas e administrativas,
enfim, ações afirmativas para os povos indígenas, além de servirem de base para
aprofundar o tema. Os pontos não são estáticos, são dinâmicos, e partiram de
observações e conversas ao pé do ouvido e resultados de seminários e
conferências organizadas pelo Grumin. Nada técnico ou científico. Apenas real,
apenas palavras não contadas. O importante é não esquecer que esses temas
foram levantados em uma época em que não se falava desse assunto, e que
demos o pontapé inicial. Eis os pontos:
CONHECIMENTOS TRADICIONAIS E PATRIMÔNIO CULTURAL

- Que as políticas públicas reconheçam os direitos reprodutivos das


mulheres indígenas de acordo com as tradições e culturas, desde que essas
culturas não violentem as mulheres.

- Que as mulheres indígenas curandeiras, pajés, líderes espirituais e os


próprios pajés sejam valorizados pelas políticas públicas como conhecedores
milenares da tradição indígena.

- Que o conhecimento ancestral sobre ervas medicinais seja uma prioridade


em benefício da saúde e da integridade da mulher, da comunidade e da
humanidade. Que as cerimônias de cura sejam respeitadas pelas políticas
públicas.

- Que as mulheres indígenas sejam incentivadas, por agentes de saúde


locais e líderes do movimento indígena, a realizar seus partos em casa junto às
parteiras tradicionais.

P.51

- Que os métodos tradicionais de controle de natalidade, assim como as


decisões culturais sobre concepção e parto, sejam reconhecidos nos hospitais
públicos, caso a mulher recorra a eles.

- Que a espiritualidade feminina possa ser resgatada quando ela queira e


reconhecida dentro e fora da cultura, espiritualidade essa exercida em forma de
pajelança e que foi abafada pela imposição da Igreja no período da colonização.

VIOLÊNCIA

- Que as mulheres possam buscar socorro em caso de violência doméstica


causado por alcoolismo de seus maridos, pais ou irmãos e que eles sejam
punidos pelos órgãos competentes. Que as mulheres possam falar sobre esse
assunto sem receber represálias.

- Que as adolescentes e meninas sejam educadas sobre incesto, assédio,


abuso e violência sexuais ou estupro e que tenham acesso garantido à defesa
legal, não sendo obrigadas a esconder o fato por medo, pena ou risco de vida,
mesmo dentro das áreas indígenas.
- Que seja garantido o tratamento das consequências psicológicas da
violência física, moral ou estupro, como silêncio por medo ou por não conhecer os
seus direitos, alcoolismo, loucura, violência feminina com as crianças etc.

SAÚDE INTEGRAL E DIREITOS REPRODUTIVOS

- Que as mulheres indígenas e seus filhos tenham acesso facilitado e


garantido à saúde integral, por meio das políticas públicas.

- Que a concepção materna seja um ato consciente da mulher indígena e de


seu marido e que o casal seja instruído, informado e conscientizado sobre a
questão de esterilização depois do segundo ou terceiro filho, prática feita e
imposta pelas políticas públicas.

- Que as mulheres indígenas tenham determinação sobre seu parto e que a


cesariana não seja uma imposição, como meio mais cômodo para os médicos.

P.52

- Que as mulheres indígenas sejam incentivadas, por agentes de saúde


locais e líderes do movimento indígena, a realizar seus partos em casa junto às
parteiras tradicionais.

- Que os postos de saúde locais e seus agentes estejam conscientizados


sobre os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres.

- Que as mulheres e jovens não sejam obrigadas ao aborto clandestino e


mecânico, que as leva à morte e a enfermidades irreversíveis. Que a ligadura das
trompas não seja imposta e sim decidida pela família, pela mulher. Que as
mulheres possam decidir sobre sua maternidade com dignidade e em conjunto
com sua cultura e tradições.

- Que adolescentes, meninos e homens possam ser instruídos e recebam


apoio institucional sobre o ato da concepção e suas responsabilidades paternas,
incluindo as responsabilidades políticas referentes à preservação da cultura e à
garantia da identidade indígena.

- Que homens e mulheres indígenas possam encontrar, juntos, caminhos


concretos que viabilizem atitudes responsáveis com relação à saúde reprodutiva e
desenvolvam uma relação de gênero mais consciente e mais democrática,
baseada em conceitos perdidos ao longo da colonização e da neocolonização.
- Que homens e mulheres indígenas possam ter acesso às informações
sobre doenças sexualmente transmissíveis, vias mais fáceis de acesso a outras
doenças mais graves como a Aids.

- Que as mulheres tenham acesso à informação sobre câncer cervical e das


mamas e sua prevenção.

- Que o conhecimento ancestral sobre ervas medicinais seja uma prioridade


em benefício da saúde e da integridade da mulher, da comunidade e da
humanidade.

- Que se introduzam no Estatuto do índio medidas bem claras e específicas


que defendam os direitos humanos das mulheres e seus direitos reprodutivos.

- Que os agentes de saúde sejam, na maioria, indígenas ou, caso contrário,


que sejam sensibilizados para tal.

- Que todos os documentos produzidos pelo Movimento Indígena Brasileiro,


órgãos governamentais ou não de saúde local

P.53

ou nacional contenham sempre itens que denunciem a violação dos direitos


reprodutivos das mulheres indígenas e proponham ações afirmativas segundo
seus desejos e que melhorem sua qualidade de vida, defendendo seus direitos
humanos como mulheres indígenas.

Essa foi a Declaração Final dos Encontros de Mulheres Indígenas (Saúde e


Direitos Reprodutivos), 1993 a 1996, organizados pelo Grumin (Grupo Mulher-
Educação Indígena, hoje, Rede de Comunicação Indígena).

CONCLUSÃO

Em resumo, o governo deve reconhecer, na prática, isto é, por meio das ações
afirmativas, o fator pluricultural e diferenciado dos povos indígenas, incluindo os
direitos relativos a gênero, direitos sexuais e reprodutivos das mulheres
indígenas, como foi discutido na Conferência Mundial sobre População (Cairo,
1994) e na Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial,
Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, ocorrida em Durban (África do Sul), em
2001, ambas realizadas pela ONU. As terras indígenas devem ser definitivamente
demarcadas como garantia da integridade física, social, cultural, econômica e
psicológica dos povos indígenas e, em particular, das mulheres — velhas, viúvas
e mães solteiras. Os invasores devem ser definitivamente retirados para garantir a
sobrevivência e a segurança das mulheres, das crianças e dos mais velhos.

Os programas de desenvolvimento aplicados à mulher, em instância nacional,


devem ser estendidos às mulheres indígenas, desde que a comunidade seja
consultada e dentro do que espera e necessita esse povo. Especificar
detalhadamente medidas emergen- ciais que defendam, em rápido prazo, os
direitos das mães solteiras, viúvas e mães anciãs contra a violência doméstica e
social.

A Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e


Intolerâncias Correlatas, vitoriosamente, teve sua marca peculiar. Foi a maior e
mais expressiva conferência de todos os tempos e deu o passo inicial para futuras
gerações. Que possamos verdadeiramente colher os frutos em prol dos direitos
humanos em todas as partes do mundo.

P.54

COMO SURGIU O GRUMIN

O Grumin, hoje, Grumin/Rede de Comunicação Indígena, foi criado juridicamente,


em assembleia, em 1987, mas política e moralmente foi concebido em 1978. O
Grumin recebeu o II Prêmio Cidadania Internacional, em 1996, da Comunidade
Bah’ai, por ter desenvolvido dezenas de projetos comunitários e ter promovido a
formação de opiniões. A diretoria era formada por Wilma, Fátima, Djalma, To-
nhô, Marina, Belarmina, Anaí, Rosineide Pio e Zenilda Sateré-Mawé.

DIZIAM OS OBJETIVOS

Promover o acesso de mulheres e homens indígenas e suas organizações às


informações, mobilizando-os, influenciando-os na formação de opiniões.
Desenvolver consciências críticas mobilizando indivíduos e organizações ao
“empoderamento”, empowerment., buscando o exercício dos direitos humanos
para o desenvolvimento sociopolítico-econômico do presente e do futuro de suas
tradições e cultura. Promover consciências à multiplicação de organizações de
mulheres indígenas no Brasil. O Grumin visa o acesso à informação e à
tecnologia. Dizíamos: “Mulheres indígenas: criem suas organizações dentro de
suas próprias casas”.

PROJETO ATUAL

1. Rede Grumin (ex Jornal do Grumin)


Foi criado em 1988, e hoje está constituído em versão on-line ou textos para
discussão via Facebook. O jornal objetiva difundir informações sobre direitos
indígenas sob perspectiva de gênero, abordando a questão racial e a violência
à cosmovisão indígena (cultura, território, educação, biodiversidade e meio
ambiente, espiritualidade). Trata também da migração e de formas
contemporâneas de racismo. Objetivava ainda sensibilizar a opinião pública
para os direitos constitucionais; difundir instrumentos jurídicos nacionais e
internacionais; difundir os debates do Fórum Permanente e o Projeto de
Declaração dos Povos

P.55

Indígenas; sendo que o Grumin esteve presente em vários momentos de sua


criação, em Genebra, por ocasião das sessões do Grupo de Trabalho sobre
Populações Indígenas, nas Nações Unidas. Objetiva divulgar documentos e os
passos anteriores e futuros da Conferência Mundial contra o Racismo.

2. Série Cadernos Conscientizados

E um material didático para grupos de estudo que objetiva difundir filosofia,


educação, saúde e direitos reprodutivos e pensamentos indígenas,
disseminando as causas da discriminação social e racial que permeiam as
etnias indígenas.

3. Fórum de debates on-line

Objetiva disseminar e discutir instrumentos jurídicos elaborados pelo Grumin


ao longo de uma década, como as Declarações dos Encontros e
Conferências, nas quais foram mencionados, pela primeira vez, temas como
mulheres indígenas, direitos e meio ambiente (1989); saúde e direitos
reprodutivos (1994), direitos humanos das mulheres indígenas, família e
identidade (1995); racismo, violência, migração (1996) etc. Esse fórum abre
canal para difundir e debater a tradicionalidade do discurso oral e escrito das
histórias, contos, filosofias indígenas, enfim, da literatura indígena como um
importante pensamento brasileiro.

PROJETOS JÁ DESENVOLVIDOS

1. Publicação de livro didático Akajutibiró: terra do índio potiguara, apoiado


pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
(Unesco).
2. Publicação do livro A terra ê a mãe do índio, premiado pelo Pen Club da
Inglaterra e o Fundo Livre de Expressão.

3. Boletins Informativos.

- Rede Grumin, hoje, Rede de Comunicação Indígena.

- Boletim do Grumin, em língua inglesa.

P.56

4. Projetos de desenvolvimento comunitário como: Casa da Mulher Indígena,


promovendo o resgate e a preservação cultural; feiras de artesanato; produção
de roupas, redes de dormir e colchas; incentivos à criação de plantações e
farmácias de fitoterapia; projeto de primeiros-socorros; cursos de capacitação
em vários temas; cursos de corte e costura; doação de equipamentos de
cestas básicas e carros; apoios às

lideranças indígenas em viagens e pequenos projetos e muitos outros projetos


de desenvolvimento comunitário, que buscam basicamente fortalecer e
“empoderar” a mulher indígena em suas relações.

5. Organização de seminários, conferências e congressos envolvendo


questões de gênero e direitos.

6. Participação em conferências nacionais e internacionais, objetivando


negociações, consultorias e testemunhos.

BUSCANDO A HISTÓRIA PARA COMPREENDER AS REVOLTAS

Ignacio Alberto Pane, o primeiro antropólogo indígena do Paraguai, autor do


livro Apuntes de sociologia e do poema La mujer paraguaya sobre a mulher
Guarani, conta que, antes do processo de escravidão, a mulher indígena tinha
o mesmo papel de decisão que os pais, maridos e irmãos. A sua palavra era a
palavra final para decidir uma guerra intertribal, uma decisão ou uma
assembleia política. Com a chegada dos estrangeiros, a mulher passou à
retaguarda e permanece até hoje servindo de mão de obra escrava, ou
submetendo-se à neocolonizaçâo como objeto sexual e descartável. Basta!

Vamos ousar dizer que não haverá defesa do meio ambiente se inicialmente
não se reconhecerem os direitos indígenas. O meio ambiente, o território, o
planeta Terra estão intrinsecamente ligados ao ventre da mulher indígena, da
mulher selvagem nos dois sentidos (primeira cidadã do mundo e intuitiva) e,
por isso, não haverá defesa ambiental se não se destacar a influência e o
conhecimento milenar da mulher, do ser que habita esse meio ambiente. Isso
é um testemunho para a sociedade e para a formação da cidadania brasileira.

p.57

Se a natureza deve ser respeitada no seu ciclo de existência e valorizadas as


fases da Lua, da maré, do florescimento das árvores, da correnteza dos rios,
do nascer e do pôr do sol da colheita, as mulheres indígenas devem ter o
mesmo tratamento.

DEPOIS DA ANGÚSTIA E DO DESESPERO, O ATO DE CRIAÇÃO: O


COMEÇO DA CURA!

O ato de criação é um ato de amor. Amor a si mesmo, amor ao próximo,


amor à natureza. Pode ser criar um texto, uma música, uma pintura ou
qualquer outra arte. Mas, para se chegar até aí, muitos caminhos foram
bloqueados, tivemos de tomar muita água envenenada; muitos fantasmas
tivemos de enfrentar. Permanecemos como um rio que morre, que não corre e
não ecoa ao encontrar-se com as pedras. Tornamo-nos uma fome
desesperada pelo novo, enfraquecendo a nossa fecundidade. Enfim, um
caminho árido e infértil. Estivemos enclausurados dentro de nós mesmos. Mas
não aguentamos mais e demos um basta! E hora de criarpaáentemente o
novo!

Aí soltamos as amarras que sufocam a nossa alma, a nossa anima., a


nossa essência, para que os pássaros possam cantar de novo dentro de
nosso espírito. Parece tudo muito simples. Mas não é. Reencontrarmo-nos
com nosso ser selvagem, com nossa intuição, com nosso ser sutil, com
nossos ancestrais, com nossa força interior é um desafio diário, principalmente
quando a força externa impõe condicionantes sociais, psicológicos e político-
econômicos maléficos, que lançam as sementes da enfermidade da alma e
que, lá na frente, se transformam em enfermidades da mente e do corpo.
Nosso corpo pode estar doente porque nossa alma também está. E temos de
buscar a cura do espírito, a cura da anima. Somente nós mesmos podemos
fazer isso, assim como somente nós mesmos podemos sentir o ato do
nascimento, quando nascemos, e o ato da morte, quando morremos. São atos
só nossos. Ninguém pode senti-los. Por isso, quando morre um parente
indígena, seus pertences são todos depositados em sua tumba. Somos seres
coletivos, mas,
P.58

antes, temos nossa individualidade, inclusive nossa solidão, como no


ato do pensar e da escrita.

Nos tempos atuais, é hora do desafio. Extirpar o monstro que nos mata
dia a dia é dura tarefa. Primeiro se sofre calado. Há os que se acostumam com
a dor, a opressão e a repressão social e política, desembocando no
desequilíbrio ou na loucura. Mas há os que clamam, depois de invernos. Há os
que berram! Nesse momento, abre-se uma porta. A mudança dentro de nós só
se dá quando identificamos o inimigo interno (às vezes o inimigo somos nós
mesmos) e o rejeitamos, seja da maneira que for. Então, podemos parecer
loucos, mas, no ato de “vomitar”, é que está a transformação do espírito para o
novo homem, para a nova mulher! Sofremos e não estamos aqui para sofrer.
O Criador oferece grandes dádivas de vida para seu filho, senão ele não
criaria tantas belezas, tantos mares, tantas planícies, céus, montanhas,
pássaros, seres humanos, ad infinitum...

E, quando o homem selvagem e a mulher selvagem6 gritam dentro de


nós querendo voltar para a casa primitiva, é chegada a hora da mudança.
Atente para os significados de selvagem e primitivo, que nada têm a ver com
historiografia, mas sim com interior humano, âmago, essência espiritual, ser
sutil, a casa da alma, a ancestralidade e a intuição. Quando perdemos os
tesouros de Deus e ficamos desnudos e damos um basta, é chegada a hora
da criação. Ficamos quietos, sentimos solidão, solidão que parece que mata,
que maltrata, mas que é necessária. E entramos em outras esferas superiores
e sagradas. Esse selvagem sagrado que foi resgatado, e que já estava dentro
de nós e não sabíamos, está também nos “recriando” e nos enchendo de amor
e nos fortalecendo. Nasce a criatividade. E renascemos. E florescemos para o
futuro. O processo de criação emana de algo que surge e que vai crescendo
em nosso âmago; é como um novo amor em nossos corações. Vai crescendo
e não temos rédeas para segurá-lo. É um vulcão. E a (r)evolução do espírito.
E o êxtase. E o insight para o novo ser humano.

5 Aqui, “selvagem” refere-se a um conceito psicológico que significa


intuição, segundo a escritora Clarissa Píncola.

p.59
E esse único ato de criação é o suficiente para alimentar um oceano,
assim como o leite doce e materno de uma jovem mãe é o suficiente para
trazer de volta um ser nascido prematuramente. No ato da criação se dá a
purificação do espírito, da anima, da alma e, consequentemente, a purificação
do corpo e a extirpação de velhos tumores, velhos fantasmas... O termo
“purificação” não está ligado a facções religiosas ou conotações cristãs. O
termo refere-se ao ser primeiro, ao ser sutil, à compreensão simples de que a
vida precisa ser vivida com amor e dignidade, e que o amor, a compreensão, o
diálogo e cooperação são os alicerces para o novo homem, a nova mulher.

O processo anterior à criação — o sofrimento, o coração endurecido, a


anima esfacelada — é agora neutralizado e transformado em pó, diante da
grandiosidade da BUSCA pela transformação e purificação do espírito. Tudo
isso é simplesmente política, a política da existência. CRIEMOS, então...
porque a criação é um ato divino que tende a mudar consciências, formar
opiniões, suavizar o individualismo que ronda as mentes.

E a mulher indígena, que passou por toda a sorte de massacres ao


longo da história, condicionada ao medo e ao racismo, sobrevive porque é
criativa, é xamã, é visionária, é curandeira, é guerreira e guardiã do planeta.
Seu inconsciente coletivo ancestral refloresce a cada ato de criação, porque
ela é capaz de beijar as cicatrizes do mundo, em um ato de caridade. E a
palavra dela é sagrada como a terra que dá o alimento ao próximo, alimento
da CURA em todos os sentidos.

Retornando à personagem de nosso enredo, a Cunhataí, após o


sofrimento da perda de suas terras, de sua família e de sua consciência de
mulher indígena, revolta-se e desafoga suas dores refletidas nos textos a
seguir, porque, além do desterro, não consegue saber o paradeiro de seu
homem.

p.60

IDENTIDADE PERDIDA

Amanhã é o último dia que venho aqui


Vou prestar as contas

Vou tirar essas roupas sujas


E vou lavar minha alma
Acho que vou ser feliz
Ou então vou viver na inércia da própria existência.
TOCANTINS DE SANGUE
(Período de colonização)

Há vida nesta flor


Há vida nesta vida
Tão guerreira

Desprendida.
Há flor nesta vida
Há vida nesta vida

De guerreiro desprendido.

Nas veias Tocantins


Corre teu sangue humano
Louco, desvairado
Corre ou marca passo

A vida e a alegria
A ida que não devia.

Escorre, faz doer


Teu corpo humano
Pinga no alvorecer

Gotas, gotas rubras


Sangue louco, desvairado
Desvairado sangue

Sangue desesperado sangue

p.61

Há sangue nesta vida


Há vida neste sangue

Tão guerreiro
Desprendido.
Banha o suor do mundo
Com tua luta
Junta líquidos, faz crescer
Nossa gente pobre

Nossa vida amarga Nós — Decadentes!


Indígenas, não...
Indigentes.

AGONIA DOS PATAXÓS

Às vezes

Me olho no espelho
E me vejo tão distante
Tão fora de contexto!
Parece que não sou daqui
Parece que não sou desse tempo.

PANKARARU

Sabe, meus filhos...


Nós somos marginais das famílias

Somos marginais das cidades


Marginais das palhoças...
E da história?

Não somos daqui


Nem de acolá...
Estamos sempre ENTRE
P.63

ESSÊNCIA INDÍGENA

Um dia
Esse corpo vai apodrecer

E eu vou ser verdade...


Então eu vou ser feliz.
NESTE SÉCULO

Neste século já não teremos mais os sexos. Porque ser mãe neste século de
morte

E estar em febre pra subsistir


E ser fêmea na dor Espoliada na condição de mulher.

Eu repito
Que neste século não teremos mais os sexos Tampouco me importa que
entendam

Possam só compreender em outro século besta.

Não temos mais vagina, não mais procriamos

Nossos maridos morreram


E pra parir indígenas doentes
Pra que matem nossos filhos

E os joguem nas valas


Nas estradas obscuras da vida
Neste mundo sem gente

Basta um só mandante.
P.63

Neste século não teremos mais peitos

Despeitos, olhos, bocas ou orelhas


Tanto faz sexos ou orelhas
Princípios morais, preconceitos ou defeitos

Eu não quero mais a agonia dos séculos...

Neste século não teremos mais jeito


Trejeitos, beleza, amor ou dinheiro
Neste século, oh Deus (?!)

Não teremos mais jeito.

SEPÉ TIRAJU
Eu sou rebelde
E faço questão de o ser.
Tenho fome, tenho ódio

E não me deem uma metralhadora.

UNI-ÃO

O que tenho pra te oferecer amigo


Enquanto bebo tua fonte que me espera?
São palavras, são sentidos, são perigos

Ou são silêncios profundos de uma era.

O que tenho pra te oferecer amigo


Enquanto sugo de teus olhos uma velha história?
São prazeres, são amores, roucos gritos
Ou sussurros de vencer até a vitória.
P.64

O que tenho pra te oferecer amigo


Enquanto me aqueço no calor de tuas mãos?

São lágrimas, são motivos, são juízos


Ou são faíscas conscientes da razão.

Andaram procurando por mim


E eu estava só, triste e doente
E você amigo me estendeu a mão

Mesmo com palavras duras que não mentem.

Amigo, tu moras no fundo de minh’alma


E o que tenho pra te oferecer?
Só muita garra Muita luta

Uma grande gratidão.


Pra nunca desvanecer...
Pra nunca desmerecer...
Pois te amo com grande afeição!

NA TRILHA DA MATA

Não me importo
Se o que escrevo

São ilusões
Não me importo
Se o que escrevo

Não são versos,


Rimas
Redondilhas...
Não me importo
Se dizem que não trabalho
Sou vagabunda da vida

E ela é minha amante.

Juntos, temos o que contar...


P.65
O CRIADOR, A IDENTIDE E O GUERREIRO
Escorria-me das veias doentes

Um sangue ainda quente


Como percorre as águas do
Norte Levando pra bem longe

As ervas daninhas.
Onde estavas identidade adormecida?

Sofrida nas noites ensanguentadas


Anestesiada ou morta
Ou apenas me contemplando

Ao pé da porta?

Mirava-me calada, identidade amiga


Mas vieste a mim, pelas mãos do
Criador Fruto das atenções da luta
De suas mãos solares

De olhares ternos e carinhos puros.

Quem tu és identidade?

Que secretos poderes tens,


Que me matas ou me faz reviver
Que me faz sofrer ou me faz calar

Quais mistérios tu trazes na alma?

E quem é você doce guerreiro salvador das vidas?


Por quantos sangues lutou para estancar?
Quantos curumins fez brotar
Doce amante de mil formas a me encantar.

Vamos embora — nós três — agora

Tu, eu e a identidade caminhante

Só que cada um pro seu lado


P.66
Porque minha identidade pra renascer

A qualquer instante Basta um fio de luz.

Uma gota mínima de tolerância

Ou uma esperança em seu semblante.


Porque só um fogo eterno

O útero de meus avós


Pra tornar minha cidadania decente.

DESILUSÃO

A mim me choca muito esse ambiente


Essa música, essa dança
Parece que todos dizem sim.
Sim a quê?
Sim a quem?

Por que concordar tanto


Se o que se tem que dizer agora
É NÃO!

NÂO à morte da família


NÃO à perda da terra
NÃO ao fim da identidade.
FANTASIAS DESERTAS

Não tenhas medo, Ianuí


Que não vou te enfeitiçar
O nada, eu quero de ti
Pro nada talvez vou partir.
Poema de Amor?

Sei lá... se poema de amor!...


Só sei que me passa essa chama
P.67

E que me queima a alma errante.


Horas, mas dias, mil noites
Relembro teu corpo parado

Feito máscara imóvel ao vento


Doido a flutuar nos mares quentes.
Pássaro louco bicando os peixes

Engorda teu peito aberto


Inflama teu coração militante

É tua, essa paixão dos séculos


Mas te guardas feito tatu
Que não é chegada a hora

Enfia teus dedos na terra.

Desafoga as dores nela!


Mira pros céus navegantes
De teu barco em flor e vela
E rouba todas as forças solares

E renasce Boto8, amante, mais belo.


Engorda teu peito aberto
Aquece o coração nu noutras eras

Alimenta tuas veias em asas


Nas fantasias desertas
Corre pelos cajueiros e arrozais

Que te trago essa cana caiana


E outras limas pra melar nossas bocas
E relaxar no calor das manhãs.

Eu não te quero mais puro


Entrega-te que te vejo criança

Amor pronto a explodir


Fogo eterno, quem sabe?...
8 mamíferos marítimo que mostra o caminho
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VELHO ÍNDIO
Cabelos em mantos prateados

Ondas soltas nos meus mares


Sol aberto pra fortuna
Calor nos seios, teus olhares:

Rolam na imensidão de uma loucura.


Cabelos mágicos metálicos

São grisalhos os teus orvalhos


Tua cara é clara e farta
Tão bonita quanto a Antártida.

Cabelos tontos tons da paz


Despertam num mar entristecido
Tuas dores nunca ouvidas
Carências, desamor desesperados.

Cabelos brancos, neves, pratas


Achou-me nua, sem fé, vagante
Solidão nas madrugadas andantes

Amor, beijo-te o sexo: néctar das matas!

São teus cabelos tão brancos

Lindos brancos quanto francos


Me rouba toda num grande encanto
Feitiço brando em meus cânticos.
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Quais mistérios nesses cantos?


Amor louco desvairado

Em tua descrença tão doída


Nas tuas desilusões de vida.

Tua beleza de meio século


Brota em teu corpo crédulo-nobre
Pele em flor amante descobre

Teu forte, lábios famintos


E me leva arrebatado afora
Pro outro século

E faz-me mulher desses ossos


Nas tuas asas românticas...

Gota de amor, tão obscura!


Alimenta meu coração insano

E dou-te o fogo, a força, a forma


Dou-te amor, faço-te certeza
E ganhas tempo, ganhas terra
Nós: Vida e amor, hoje... Tão mancos!
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