Você está na página 1de 8

JOSÉ sebastião WitTer

Resgate
fascinante

Uma Arqueologia
da Memória Social –
Autobiografia de um
Moleque de Fábrica,
de José de Souza
Martins, São Paulo,
Ateliê, 2011, 464 p.

JOSÉ SEBASTIÃO
WITTER é professor
emérito do
Departamento
de História da
FFLCH-USP.
Quem já fez a primeira leitura dessa
“arqueologia” o fez de uma só vez ou em
poucos dias. A escrita do autor prende e
encanta, desde os mínimos detalhes até o
tratamento sociológico de todos os por-
menores, nos fazendo enveredar, com ele,
pelos caminhos da roça, pelas ruas estreitas
da cidade e pelos confins da fábrica. Mas,
depois de outras leituras do conjunto ou de
partes de capítulos que tocam cada um de
forma diferente e peculiar, então, pode-se
ver realçar o conhecimento profundo de sua
constante busca pelo aprender e o desco-
brimento do quanto lembranças de nossas
memória é memória como vidas podem fazer do particular o coletivo
documento das estruturas e do restrito, o amplo e abrangente.
básicas de modos de viver; Quando José de Souza Martins foi,
de modos de pensar e de em 1976, buscar suas mais longínquas e
modos de organizar ima- remotas origens, não esperava descobrir
ginariamente o vivido, as tanto da história do próprio mundo e do
referências que nem sempre aparecem por significativo viver de imigrantes, como o
inteiro naquilo que é lembrado, mas estão foram seus familiares. E ele tinha ascenden-
lá. Memória é, de fato, o conjunto social e tes espanhóis e portugueses. Mas, se sabia
sociologicamente situado das lembranças, um pouco mais dos espanhóis, por tudo que
reconectadas pelo desvendamento das sua mãe dissera e narrara, pouco ou quase
ocultações próprias da sociedade contempo- nada conhecia da história paterna e de seus
rânea. Abrange, portanto, o que não é lem- ascendentes portugueses. E, como ele mes-
brado, na medida em que o esquecimento é mo diz, aquilo que pensou ser o fim de uma
um esquecimento seletivo e organizado que busca acabou por se transformar em início
deixa seus indícios no que é seletivamente de uma longa pesquisa. Afinal, ele ficara
lembrado. Mais do que no esquecimento, órfão de pai aos 5 anos de idade e, depois
naquele tempo, e talvez ainda hoje, o proi- disso, vivera ao lado da mãe, de um irmão
bido se refugiava no silêncio” (José de menor e, posteriormente, de um padrasto,
Souza Martins). uma parte significativa e marcante de sua
vida. Mas sempre repleta de indagações, que
Antes de tudo, é preciso assinalar que começam a ser respondidas na Inglaterra.
essa obra do professor José de Souza Martins E, para que se possa acompanhar toda
resgata, com muita propriedade, momentos a trama da vida das famílias emigradas,
inesquecíveis e especiais de cada uma das através dessa família, a dos Martins, um
crianças que já fomos. E, ainda mais, se dos episódios mais significativos é o que
formos descendentes de imigrantes e se en- ele descreve no capítulo “Encontro na
frentamos a pobreza, como tantos de nós… Estação Victoria”, em Londres, ponto de
Embora não esteja balizada e nem encontro entre o professor e seu primo
assinale datas de início e fim, nesse livro Amalio, “numa manhã de domingo, em
encontraremos, nas idas e vindas do tempo, agosto de 1973”, portanto, três anos antes
uma recuperação da nossa história desde da viagem a Portugal. Como diz o autor
os idos de 1940, ainda no dinâmico século sobre o momento, ele
XX. Recuperação essa que nos traz – por-
que Martins é mestre na narrativa –, até “[…] abriu para mim uma página desco-
hoje, aquele mundo, neste, ainda incógnito, nhecida e inesperada da história de minha
século XXI. família materna. Era a página dos silêncios

182 REVISTA USP, São Paulo, n.91, p. 181-188, setembro/novembro 2011


e rupturas decorrentes da emigração para nases e, de novo, na cidade e na fábrica.
o Brasil, para a lonjura dos cafezais, em O padrasto acabaria por levar a família de
endereço tão vago que só por milagre uma volta a viver na zona rural, de onde saíram,
carta chegava ao destino” (p. 59). vindos da região de Bragança Paulista, para
São Caetano. Agora iam para Guaianases,
Esse reencontro teve muito significado onde Martins conheceria as dificuldades dos
para os dois, mas, como relembra o pro- “meninos da roça” que querem estudar. Mas,
fessor, se a vida da família não foi fácil, durante
essa experiência, mais desconcertante se
“Amalio convidou-me para um café antes de tornou quando voltaram ao mundo urba-
tomarmos o ônibus para sua casa. Estáva- no. Entretanto, acompanhar as peripécias
mos muito emocionados com o encontro e do professor, quando menino, nas suas
surpresos com a recíproca descoberta de que idas e vindas para a escola primária, e as
existíamos. À medida que caminhávamos surpresas vividas nesses percursos, além
descobrimos que não tínhamos o que con- das dificuldades para superar o dia a dia
versar. Nós não nos conhecíamos. Éramos da moradia precária, em Guaianases, fará
apenas parentes separados por sessenta o leitor entender melhor o que era a vida
anos de distância, pelo oceano e por muitas das pessoas em nossa sociedade nos anos
interrogações. Íamos tateando, indagando. 1940. Não se pode nunca perder de vista
A conversa, enfim, chegou ao ponto: o que que o Brasil viveu a distância, mas viveu
estávamos fazendo ali? O pranto, por que tempos difíceis, quando da Segunda Guerra
o pranto? Eu abraçara nele e ele em mim, Mundial, que terminaria em 1945, e no
três gerações depois, os laços da família período do pós-guerra, em nada mais fácil.
que a pobreza e a emigração dividira para A volta da família a São Caetano e tudo
sempre […]” (p. 64). que o moleque José precisou aprender a
fazer para ajudar todos a sobreviver é outro
Essa mesma estranheza de 1973 Martins episódio que vai encantar o leitor. O autor,
viveria em 1976, quando ouviu de Elo, que quando menino e mesmo adolescente, fez
era neta de Catalina, irmã mais moça de de tudo um pouco. Com isso cresceu e
sua avó: “Y que nos toca este?”. Explica o muito – internamente.
mestre: “Mais ou menos isto: ‘o que é que Entretanto, considero que “o viver a
temos a ver com esse aí?”. E acrescenta fábrica e seus desafios” foi o que ocorreu
Martins: “Curioso mapa da vida o mapa da de melhor para preparar o jovem a trilhar
família…”. É tão empolgante tudo o que se o futuro brilhante que é sua marca, desde
segue que a vontade é de copiar e copiar os tempos de estudante até hoje…
os trechos que me tocaram profundamente; Em São Caetano ele passou por algumas
talvez porque também eu seja filho e neto experiências em empregos diferentes até
de imigrantes, só que de origens alemã e chegar à Cerâmica São Caetano, por inter-
italiana… Mas com as mesmas interroga- médio do padrasto, em outubro de 1953.
ções e muito mais silêncios, com certeza. Nesse momento, o professor trabalhava
Mas como não poderia transpor para com um guarda-livros, que nem o registrou
o espaço desta resenha as 464 páginas do como deveria, apesar de já ter a carteira fazia
livro do professor Martins, procuro, com um ano, desde outubro de 1952, quando
estes retalhos, criar nos que não o leram completou 14 anos, o que era natural na
a curiosidade necessária para começar. vida de meninos e filhos de trabalhadores
Compreenderão muito do nosso Brasil… E naqueles tempos.
muito mais do que significa o viver familiar. Emprego arranjado, lá se foi o nosso
Retornemos às incógnitas do menino que moleque trabalhar no “Escritório do Dr.
vivera no Arriá, ou Pinhalzinho, na região Renato”, como era conhecido o escritório
bragantina, em São Paulo, e voltemos àquilo do engenheiro e diretor da Divisão de Ter-
que ele viveria em São Caetano, em Guaia- racota, como nos conta Martins.

REVISTA USP, São Paulo, n.91, p. 181-188, setembro/novembro 2011 183


A partir daí, a sua vivência na fábrica, do Brás, que, depois de cursar os diferentes
graus de ensino, acabou ingressando no
“[…] onde passaria os anos decisivos de curso superior noturno de administração
minha adolescência. Um emprego de ver- de empresas. “Tornou-se um profissional
dade. De fato, o sonho dos adolescentes e competente, bem remunerado, prosperou
seus pais. […] Era o que os trabalhadores na vida, exclusivamente às custas de seu
chamavam de ‘emprego de futuro’. Em trabalho”, salienta Martins.
vez do vínculo formal e expressamente Já sobre si mesmo, diz:
contratual se propor ao operário como um
direito, propunha-se como um privilégio. “O modo como ela administrou suas dú-
Era esse um dos fortes ingredientes da vidas a respeito do meu futuro, naquele
alienação política da classe operária dos começo dos anos 50, é uma boa indicação
bairros industriais de São Paulo e da região de como as profissões estavam basicamente
fabril do ABC. O privilégio criava, como definidas como profissões ou de homem
eu mesmo vi, testemunhei e experimentei, ou de mulher. Qualquer desvio de inte-
uma classe operária conformista, orientada resse em direção ao trabalho intelectual
predominantemente por valores religiosos, ou formas intelectualizadas de trabalho
comunitários e de família. O mundo do era como se fosse um desvio sexual. Por
trabalho era prudentemente assim. Nossos sim ou por não, colocou-me numa escola
pais nos ensinavam que o futuro significava de datilografia. Era uma escola que usava
ter os pés firmemente no chão do presente, máquinas de escrever Remington muito
ainda que descalços” (p. 290). antiquadas e cujo livro de método era o da
própria Remington, escrito em português
Mas José de Souza Martins é realmente anterior à reforma ortográfica do Estado
mágico nesse belo livro. Como ninguém, Novo” (p. 284).
ele vai mesclando o seu viver, como garoto
trabalhador, e todos os mistérios da fábrica Entretanto, a mãe de Martins não desistiu
com o mundo dos moleques de rua, num de fazê-lo cursar, além da datilografia, ta-
capítulo muito delicioso, no qual podemos quigrafia Pitman (que era um dos métodos)
recordar das brincadeiras de roda, de pega- e inglês, que ele acabou fazendo num curso
dor, de bolinhas de gude, além do “jogo de noturno do bairro dos Campos Elíseos,
bola”. Os brinquedos adquiridos em lojas porque não poderia deixar de trabalhar. É
eram raros – bicicleta então, nem pensar! saboroso acompanhar essa experiência do
– mas todos os meninos e meninas de sua menino, bem como a tentativa feita, também
rua sabiam criar condições para se divertir. pela mãe, para que ele fosse para um semi-
O outro encantamento dos moleques era o nário e se formasse padre. Gostou demais
time de futebol, o Corintinha, como era co- de tudo que viu no seminário, porém a ideia
nhecido o time de sua preferência. Era pelo não vingou porque o seminário era ligado
próprio terreno do time que eles encurtavam aos padres camilianos, que eram dedicados
caminhos. Raramente alguém conseguia ter aos doentes: “Acontece que eu tenho pavor
um brinquedo de cordas. a sangue. Certa vez desmaiei ao ver um
Também é muito interessante o seu filme documentário sobre a operação de um
capítulo sobre a religião e a fé e as novas fumante canceroso. Quando o bisturi fez o
igrejas que se organizavam na cidade. E corte e o sangue brotou, uma vertigem me
ainda a sua caminhada pelos meandros dos derrubou” (p. 283).
cursos que sua mãe insistia que frequentasse. Acabou professor primário, como eu,
Ela não o acreditava como um operário de formado no Instituto de Educação Américo
carreira, até por sua compleição física. Di- Brasiliense, onde fez o Curso Normal. E
ferente da situação de seu irmão mais novo, ressalto dois episódios por ele contados
matriculado em regime de tempo integral que parecem reprodução de minha infância/
na Escola Técnica Getúlio Vargas, no bairro adolescência. Lembrando de sua vida nas

184 REVISTA USP, São Paulo, n.91, p. 181-188, setembro/novembro 2011


igrejas, a memória reaviva a beleza dos Em casa, peguei um caixote velho, que fora
corais. Então nos conta que: usado para misturar cimento, descasquei-o,
limpei-o, pintei-o e o transformei na minha
“O coro cantava lá na frente, à vista de primeira estante” (p. 340).
todos, em destaque, não raro com beca ou
uniforme. Eram os escolhidos de Deus e, E, em seguida:
principalmente, do regente, pelo dom da
voz, alguns raramente escondendo a vaidade “Passei a ler jornais: no sábado A Gazeta,
da escolha e da exibição. Foi lá [na Igreja nesse dia um jornal de artigos longos, quase
protestante] que ouvi críticas dos amigos de sempre de história de São Paulo, pela qual
minha idade à minha voz pequena e ruim, eu tinha muito interesse, desde a visita ao
com explícitas insinuações de que era me- Museu do Ipiranga, quando estava na escola
lhor que eu ficasse de boca fechada. Coisa primária […]. Tornei-me ouvinte da Rádio
de adolescentes […] Fui parcialmente salvo, Gazeta, pois finalmente tínhamos um rádio-
quanto à voz, quando fiz o curso normal” -vitrola em casa. […] Eu não perdia ‘A Hora
(pp. 319-20). do Livro’, do professor Fernando Soares e
do poeta Paulo Bonfim, que sempre recitava
Essas lembranças do coral e da Escola uma de suas belas poesias […]” (p. 340).
Normal fazem parte de um outro capítulo
delicioso, “A Pulga e a Fé”, repleto de pas- E por aí vai o mestre nos trazendo re-
sagens que dizem tudo da vida dos moleques cordações do vivido e do encanto que tudo
de então, não importa se num subúrbio, representava. Imagine a rádio-vitrola, os
como Martins em São Caetano, ou como programas de música erudita e os grandes
tantos outros Josés em cidades do interior cantores e cantoras que preenchiam nossas
de São Paulo, do Rio Grande do Sul ou do mentes e nos vaziam sonhar.
Nordeste. São muitos os detalhes vividos Permitam-me mais uma cópia das pala-
por ele e que correspondem aos vividos pela vras do autor, que tanto me tocaram e que
meninada da época… Um mundo de medo demonstram um pouco mais do seu muito
e de ingenuidade e de muito respeito aos saber e de tudo que nos ensina em seus
mais velhos e representantes das diferentes sempre oportunos escritos, tanto em livros
religiões. A cada nova leitura de algumas quanto em artigos:
dessas peripécias de rua ou de instituições,
é revelado um Brasil que vivia uma época “Da Biblioteca Municipal tornei-me fre-
de efervescência e encantamento, repleto quentador nos sábados, depois de sair da fá-
de valores outros que o mundo atual des- brica ao meio-dia. A Biblioteca funcionava
conhece. até às dez horas da noite e raramente dela
Transcrevo mais alguns trechos de mi- saía antes dessa hora. Aprendi a lidar com
nha leitura por razões diversas e distintas, seu fichário, a descobrir as preciosidades que
mas especialmente porque dizem muito e continha, a fazer incursões bibliográficas
não se pode traduzi-los sem que se traia por conta própria. Tornei-me um autodi-
o autor: data. […] Dei-me conta de que teria que
ir ao Departamento do Arquivo do Estado
“Foi sem dúvida a cultura protestante que e ao Arquivo Histórico Municipal, onde
me ajudou a juntar fragmentos da cultura estava a documentação inédita. Consegui
erudita que se dispersam, sem nexo, na cul- convencer meu chefe na fábrica a me dar
tura operária e popular. Passei a ler poesia, um sábado por mês, para que eu fosse ao
como aconteceu com outros adolescentes Arquivo do Estado que, na época, como
da igreja que eu frequentava, e a comprar a fábrica, funcionava nos sábados até o
livros de poesia pelo reembolso postal, pois meio-dia. Américo Mendes, diretor, e Nélio
em São Caetano não havia livraria: Castro Garcia Migliorini, paleógrafo, espantados
Alves, Casemiro de Abreu, Gonçalves Dias. com a novidade de um adolescente no meio

REVISTA USP, São Paulo, n.91, p. 181-188, setembro/novembro 2011 185


dos poucos velhos que frequentavam o Ar- prende o leitor e o faz melhor entender a
quivo, como Antonio Paulino de Almeida vida que trilhamos juntos nestes surpreen-
e Washington Luís, me ensinaram como se dentes séculos XX e XXI. Mas não poderia
lia um documento antigo, me mostraram o encerrar sem mais esta transcrição:
imenso acervo e me disseram como estava
organizado[…]” (p. 342). “Esta é a história da gestação social da
pessoa comum, de suas discrepâncias
Não é fascinante? em relação a tipos e modelos de natureza
Também são muito belos os capítulos analítica. É o que faz destas memórias um
que tratam de “Os Mistérios da Fábrica”, testemunho documental e uma narrativa
“Na Última Manhã de Getúlio”, “A Gre- crítica sobre a alienação do operário do
ve”, “A Saída do Labirinto” e também a subúrbio no pós-guerra, o operário da Era
“Conclusão: A Biografia na Experiência Vargas. Aquela foi uma era em que os
da Memória”. limites se tornaram imprecisos. Criança e
Pois bem, esse é o presente que o nosso adulto se confundiam nas necessidades de
grande sociólogo e professor emérito da sobrevivência. Ser propriamente criança
USP nos dá em 2011. Um livro que mostra era raro e era um luxo. Na família operária
o quanto é possível quando se quer. a criança vivia e testemunhava desde cedo
Para ir encerrando estes pequenos e su- as vicissitudes da vida adulta. É esta, pois,
perficiais comentários quero ainda salientar uma etnografia do mundo operário com base
a importância do resgate das imagens, tanto no arquivo das impressões da criança e do
Tia Sebastiana e de pessoas como de lugares e ambientes, adolescente, que ficaram residualmente nas
tio Brás que ajudaram a construir a narrativa, que lembranças do adulto” (p. 462).

Fotos: Arquivo José de Souza Martins

186 REVISTA USP, São Paulo, n.91, p. 181-188, setembro/novembro 2011


Maria de Jesus
de Souza
Martins com
seu filho, pai do
autor, em foto
de 1912

Tia Maria, em
seu sítio no
Pinhalzinho

REVISTA USP, São Paulo, n.91, p. 181-188, setembro/novembro 2011 187


Hospedaria
dos Imigrantes,
no bairro do
Brás, 1913

Martins e seu
irmão em 1944;
acima, cadeira
que pertenceu à
tia Sebastiana

188 REVISTA USP, São Paulo, n.91, p. 181-188, setembro/novembro 2011