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Sigam-me os bons: apuros e aflições nos enfrentamentos ao

regime da heteronormatividade no espaço escolarI

Fernando SeffnerII

Resumo

Este artigo aborda os desafios enfrentados quando se busca modi-


ficar os regimes de desigualdade na escola envolvendo atributos de
gênero e sexualidade. Utiliza-se a etnografia de cenas escolares em
três escolas públicas de Porto Alegre, as quais são palco de ações
autoclassificadas como de “combate à homofobia”, “respeito pela
diversidade” e “inclusão para todos”. Não se trata de fazer uma
avaliação das políticas públicas, uma vez que há pouca enverga-
dura do trabalho de campo, mas a reflexão sobre o que foi obser-
vado e relatado tem importância como insumo de monitoramento
e avaliação das ações, bem como para estimular a reflexão teórica
acerca das categorias conceituais em que tais ações se baseiam. O
texto está estruturado em três unidades. Na primeira, percorre-se
parte da complexa discussão conceitual e política que hoje envolve
categorias como diferença, diversidade, inclusão, igualdade e desi-
gualdade, em articulação com as categorias do campo específico:
gênero, sexualidade e masculinidades no espaço escolar. Na segun-
da unidade, explicita-se o método de etnografia de cenas escolares,
situando o contexto das escolas e dos grupos de alunos. A terceira
narra algumas cenas, articulando seu conteúdo com questões de or-
dem teórica e com diretrizes de políticas públicas vigentes na área.
A principal hipótese aqui desenvolvida é de que as ações escolares
parecem querer valorizar a diversidade sem tocar no estatuto da
heteronormatividade, o que compromete seu alcance.

Palavras-chave

Escola – Heteronormatividade – Diversidade de gênero – Diversidade


sexual – Políticas públicas.

I- Agradeço aos(às) professores(as) e alunos(as)


das escolas públicas pesquisadas, bem como
aos estagiários e às estagiárias do curso de
Licenciatura em História da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, sempre disponíveis para
conversar com o pesquisador.
II- Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.
Contato: fernandoseffner@gmail.com

Educ. Pesqui., São Paulo, v. 39, n. 1, p. 145-159, jan./mar. 2013. 145


Follow me, the good ones: trouble and sorrow in confronting
heteronormativity in the school environmentI

Fernando SeffnerII

Abstract

This paper addresses the challenges one faces when attempting to


change the basis of inequality in school associated with attributes
of gender and sexuality. Ethnographic procedures are utilized to
describe school scenes in three public schools in the city Porto
Alegre, which are the stage where actions self-rated as intended
to “fight homophobia”, “respect towards diversity” and “inclusion
of all”. The aim is not evaluate public policies, since there is little
span of field work, instead the reflection on what has been observed
and reported is important as an input for monitoring and assessing
actions, as well as to stimulate theoretical thinking about the
conceptual categories on which such actions are based. The text
is structured in three units. The first one deals with the complex
conceptual and political discussion that currently involves categories
such as difference, diversity, inclusion, equality and inequality, in
articulation with the specific field categories: genders, sexuality and
masculinities in the school environment. The second unit brings the
ethnographic method for school scenes, assigning the context of the
schools and groups of students. The third unit narrates some scenes
and articulates their contents with theoretical issues and guidelines
of the public policies currently in force for the subject. The main
hypothesis developed herein is that school actions seem to praise
diversity without touching the status of heteronormativity, which
adversely affects its outreach.

Keywords

School – Heteronormativity – Gender diversity – Sexual diversity –


Public policies.

I- I thank the teachers and students from the


schools involved in the research, as well as the
interns from the bachelor´s course on History
at the Federal University of Rio Grande do Sul,
always available to talke with the researcher.
II- Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, Porto Alegre, RS, Brazil.
Contact: fernandoseffner@gmail.com

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Isso, isso, isso! estão também construindo atributos de femi-
nilidade em relação aos quais, em geral, dese-
O texto analisa desafios que se colocam jam mostrar distância ou superioridade. Não foi
quando se busca modificar os regimes de desi- objetivo da pesquisa conferir a veracidade das
gualdade na escola em relação a atributos de orientações sexuais indicadas. As afirmações
gênero e sexualidade. Para tanto, flagra reações dos alunos foram tomadas como modos de di-
a programas implantados no cenário educacio- zer de si plenamente válidos e operou-se com a
nal, a partir da etnografia de cenas escolares em identidade autoatribuída de cada um.
três escolas públicas de Porto Alegre, as quais A abordagem está estruturada em três
são palco de ações autoclassificadas como de unidades. Na primeira, percorre-se parte da
“combate à homofobia”, “respeito pela diversi- discussão conceitual e política que envolve
dade” ou, ainda, “inclusão para todos”.1 Não se diferença, diversidade e inclusão, em articulação
trata de fazer uma avaliação das políticas pú- com as categorias do campo específico: gênero
blicas, uma vez que há pouca envergadura do e sexualidade no espaço escolar. Na segunda
trabalho de campo e principalmente porque não unidade, explicita-se o método de etnografia de
se procede ao exame da conexão direta entre cenas escolares, situando o contexto das escolas.
as ações realizadas nas escolas e as manifes- A terceira narra cenas escolares, articulando
tações dos alunos capturadas pela etnografia. seu conteúdo com questões de ordem teórica e
Mas a reflexão pode ser valiosa como insumo com diretrizes de políticas públicas vigentes na
de monitoramento e avaliação das ações, bem área. Como título e subtítulos do texto, utilizo
como para estimular a reflexão teórica acerca frases do personagem de televisão Chapolin
das categorias conceituais e das estratégias em Colorado.3 O motivo pelo qual são utilizadas
que tais ações se baseiam. O texto apresenta expressões desse personagem revela a origem
elementos da trajetória de pesquisa recente do dos equívocos e apuros que, em meu entender,
autor, buscando debater certos temas a partir do cercam muitas ações de combate à desigualdade
recurso à etnografia de cenas escolares, como e à homofobia no ambiente escolar: mesmo
se pode ver em Seffner (2011a, 2011b), Ferrari e feitas com ótimas intenções, elas por vezes
Seffner (2010) e Seffner (2010b). levam a resultados atrapalhados, e isso talvez
Coerente com a tradição de pesquisa em se deva ao fato de que as boas intenções
que estou inserido no PPGEDU/UFRGS,2 a dis- contêm em si algo de ingenuidade para com os
cussão centra-se nos processos culturais e pe- mecanismos da heteronormatividade.
dagógicos de produção, manutenção e modifi-
cação das masculinidades, com especial ênfase E os olhos como são? São azuis,
para as relações entre masculinidade, corpo e um pouco esverdeados, talvez um pouco
sexualidade. As cenas etnografadas abordam cinzentos, mas em compensação são
principalmente as falas e as ações dos garotos bem negros.
na escola, narradas diretamente ao pesquisador
por eles próprios ou por professores, sem perder Na estruturação das ações de combate à
de vista os aspectos necessariamente relacio- homofobia no espaço escolar, articula-se uma
nais das questões de gênero e sexualidade. Os rede conceitual que envolve categorias como
garotos, quando falam de sua masculinidade, diferença, diversidade, inclusão, igualdade, de-
sigualdade e visibilidade, em associação com
1 - O uso de aspas duplas marca termos, expressões e falas dos as categorias do campo específico: gênero, se-
informantes ou da mídia coletados oralmente ou anotados com base em xualidade e masculinidades no espaço escolar.
cartazes ou materiais escritos encontrados nas escolas pesquisadas.
2 - Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio 3- Herói de uma série televisiva mexicana bastante conhecida no Brasil,
Grande do Sul, linha de Pesquisa Educação, Sexualidade e Relações de Gênero. interpretado pelo ator Roberto Gómez Bolaños.

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Nesse espaço, tais ações entram fazendo interfa- atributos ditados de cima para baixo. Para al-
ce com outros conceitos: currículo, aprendiza- guns, classes tão heterogêneas nas escolas pú-
gens, avaliação, disciplinas, projetos pedagógi- blicas acarretam a perda de qualidade; para
cos, professores(as), alunos(as),4 escola pública, outros, é a partir dessa heterogeneidade que se
cidadania, progressão, retenção, laicidade do poderá construir um referencial de qualidade
Estado etc. Para além de conceitos da área das inclusivo. Historicamente, a escola foi marca-
ciências humanas, identidade, diversidade, dife- da por princípios de homogeneidade, e muitos
rença e inclusão constituem bandeiras políticas acreditam que só se pode ensinar de modo pro-
de muitos movimentos sociais, sendo também, dutivo em classes homogêneas, onde as crianças
recentemente, termos-chave no desenho de po- têm a mesma idade, compartilham dos mesmos
líticas públicas de educação. As questões de gê- referenciais culturais, têm a mesma religião, são
nero e sexualidade – nos últimos anos, sobretu- todas heterossexuais, são da mesma classe so-
do aquelas que envolvem a homossexualidade cial, vêm de famílias igualmente “estruturadas”
masculina – politizaram-se enormemente, pro- e, por conta disso, aprenderiam todas “na mes-
vocando debates que opõem grupos organiza- ma velocidade” e “do mesmo jeito”.
dos, lideranças políticas, lideranças religiosas, Para a maioria dos professores, a diver-
diretrizes das Nações Unidas e políticas públi- sidade na sala de aula constitui um enorme de-
cas, com variados impactos no sistema escolar safio: alunos com idades diversas (como ocorre
público. Tal inflação no uso desses termos le- em classes de educação de jovens e adultos);
vanta muitos desafios analíticos, em particular alunos com pertencimentos religiosos diferen-
no campo da educação, fortemente atravessa- ciados (que não necessariamente se identifi-
do por demandas políticas. O regime de acesso cam com o crucifixo que fica acima do qua-
universal ao ensino fundamental, por força da dro negro); alunos e alunas que não são todos
obrigatoriedade constitucional conquistada em heterossexuais (portanto, não necessariamente
1988, também colaborou para a visibilidade de expressam afetos e desejos da mesma forma);
novos públicos na escola, como alunos e alu- alunos que não necessariamente têm a mesma
nas que se reconhecem homossexuais, profes- cor de pele (e que podem ter opiniões muito
sores e professoras que se assumem travestis diversas sobre cotas para o acesso ao ensino su-
e transexuais,5 gerando novos embates. Esta perior, por exemplo); alunos(as) que não neces-
é a diretriz da escola republicana: um espaço sariamente provêm de famílias com um mesmo
público de negociação das diferenças. perfil (e que talvez não venham a desenhar uma
A conversão desses conceitos em ban- família ao estilo propaganda de margarina, pois
deiras políticas provoca crise de sentidos, recu- podem ter irmãos de mães ou de pais diferentes,
sas inflamadas ou adesões entusiasmadas. Para todos convivendo na mesma família); alunos
muitos, a inclusão é objetivo a ser alcançado a que não necessariamente pertencem às mesmas
todo custo; para outros, é terrível armadilha de culturas juvenis (podendo estar sentados, lado
normalização, fazendo desaparecer as diferen- a lado, funkeiros, roqueiros, pagodeiros, ado-
ças e a originalidade de cada ator social. Para radores ou inimigos de Lady Gaga, usuários de
uns, a afirmação da diversidade é armadilha e drogas e integrantes da “geração saúde”).
sinal de enfraquecimento das lutas; para ou- Tudo isso até seria simples se fossem
tros, é sinônimo de autonomia dos agentes, apenas conceitos, mas, como já frisado aqui,
que querem falar por si e não mais aceitam falar em diversidade (“respeito à diversidade”
4- A declinação de gênero não foi utilizada de modo intensivo ao longo ou “reduzir a diversidade”) é também falar em
de todo o artigo. Ela está feita em alguns momentos do texto, alertando bandeiras de luta, sem esquecer que atrás da
periodicamente o leitor ou a leitora que se trata de professores e
professoras, alunos e alunas. ideia de inclusão temos um mundo de possibi-
5- Recomendo a nota de pesquisa apresentada em Reidel (2012). lidades: todos devem ser incluídos? Mas alguns

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parecem ser mais “merecedores” de inclusão do ela joga futebol muito bem, ninguém se lembra
que outros. Não será necessário que cada um de que pode haver ali uma futura Marta,6 mas
demonstre “esforço” para ser incluído? Ou bas- já se vê a “lésbica-sapatona-caminhoneira” que
ta ser criança e já ter direito a estar na escola? depois vai sair agarrando todas as demais me-
Alguns parecem que “se esforçam por serem ninas, e talvez até as professoras!
excluídos”; não seria o caso de então retirá-los Os conceitos que estruturam as ações
da escola, afinal, não querem estudar e estão ali dos programas de valorização da diversidade
apenas para “bagunçar”? Todas essas questões e de combate à homofobia estão situados num
complicam-se sobremaneira quando cruzadas campo de luta. No escopo deste artigo, não é
com as questões de gênero e sexualidade. Uma possível precisar extensamente as definições de
coisa é falar da inclusão e do respeito à diferen- todos os conceitos mencionados,7 mas oferece-
ça das pessoas deficientes, aquelas portadoras -se a seguir uma abordagem de seus aspectos
de necessidades especiais, cadeirantes, alunos essenciais. O conceito de identidade é normal-
com surdez ou redução visual, alunos com al- mente utilizado em seu viés cultural, ou seja,
gum comprometimento cognitivo. Nesses casos, como identidade culturalmente construída no
mesmo reconhecendo os desafios de aprendi- interior de relações de poder, em referência
zagem e permanência na escola, em geral, há a homens gays, mulheres lésbicas, travestis e
unanimidade na defesa de sua inclusão. Afinal, transexuais, bissexuais ou intersex. Entretanto,
eles não são “culpados” por aquele atributo que o modo como esse conceito transita nas falas
os diferencia. e nos documentos favorece uma apropriação
Mas quando se está diante de um meni- com atributos mais essencialistas, seja por ele
no que deseja vestir-se de menina e não gos- se vincular a uma identidade biológica (em for-
ta de futebol na aula de educação física, ou de mulações como “os homossexuais possuem um
uma menina que claramente manifesta sua pre- desenho de cérebro particular”, “os homosse-
ferência afetiva por outras meninas, a crença na xuais nascem assim” ou “a homossexualidade
inclusão balança e podem surgir duas posições: está presente em todos os grupos animais”), seja
busca-se ou excluir esses diferentes, porque por se vincular a uma identidade psicológica
causam muita perturbação no cenário escolar, (em formulações como “os homossexuais são
ou exigir que “entrem nos eixos” e “se esforcem fruto de configurações familiares específicas”),
por ter um comportamento adequado” para que seja porque existe um essencialismo cultural
possam ter os “benefícios” da inclusão, que é que, embora fale em construções culturais (e,
percebida como ato benemerente, e não como portanto, históricas), afirma coisas como “a ho-
direito. As questões relativas à diversidade de mossexualidade existe desde a Grécia Antiga”
gênero e sexualidade andam de braços dados ou “temos registros que mostram que os índios
na escola – assim como na sociedade em ge- praticavam a homossexualidade antes da che-
ral – com os valores morais e religiosos, o que gada de Cabral”.
explica manifestações que qualifico de quase Notadamente nos discursos militantes,
pânico moral: se Rafael, numa classe de educa- reivindica-se por vezes uma espécie de es-
ção infantil, certo dia, na hora de escolher uma sencialismo estratégico (MISKOLCI, 2010): ao
fantasia, enfiou-se num vestido, a professora já mesmo tempo em que se reconhece que a iden-
percebe aí o primeiro passo em direção à ho- tidade é cultural, transitória, historicamente
mossexualidade, e o pânico se instala. Fica-se situada e fruto de interpelações, apela-se para
na obrigação de intervir, porque todos sabem
que “é de pequenino que se torce o pepino”. Se 6- Marta Vieira da Silva, jogadora de futebol brasileira, diversas vezes
considerada a melhor futebolista do mundo.
a menina do primeiro ano do ensino fundamen- 7- Para um alargamento da discussão, remetemos aos trabalhos de
tal insiste em jogar futebol ou, pior ainda, se Junqueira (2009) e de Ribeiro e Santos (2011).

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uma essencialidade da homossexualidade, com entes, desviantes, perturbados, transtornados,
o objetivo de unificar sob essa bandeira dife- pecadores etc.
rentes indivíduos (mulheres, homens, negros, Examinando a estruturação das políticas
brancos, ricos, pobres, ateus, evangélicos, afro públicas de inclusão no âmbito educacional,
religiosos, jovens, velhos, magros, gordos, bo- podemos distinguir três movimentos (PINTO,
nitos, feios, ativos, passivos, flexíveis etc.) e, 1999): nomear, reconhecer, incluir. Em coerên-
com isso, obter mais força na reivindicação, cia com isso, na composição de muitos pro-
deixando em segundo plano as óbvias diver- gramas nas escolas, encontramos esforços de
gências que podem existir entre gays jovens e nomeação (definir ou esclarecer o que é a ho-
velhos, ricos ou pobres etc. Parte dos concei- mossexualidade, de onde vem, qual sua origem,
tos em que se amparam as ações de combate à o que é ser lésbica, o que é transexualidade etc.),
homofobia nas escolas guarda estreita relação um conjunto de estratégias de reconhecimento
com a luta LGBT no Brasil e, dessa forma, pode (o que fazem, como são, quais são seus pro-
estar a serviço de lógicas políticas contingentes, blemas, como se organizam, o que reivindicam)
experimentando uma labilidade que faz com e mecanismos de inclusão (aceitar, valorizar,
que a mesma palavra possa ser azul, verde, ver- respeitar, observar os direitos humanos, deixar
melha, negra ou dourada, o que explica o título viver, incluir nos benefícios já existentes para o
deste tópico. restante da população, proteger das agressões,
Articulado à noção de identidade, temos assegurar a permanência na escola, garantir o
o conceito de diferença. Esta é entendida como direito às aprendizagens etc.). As políticas de
processo cultural e de distribuição de poder inclusão comportam, obviamente, procedimen-
– mobilizando as divisões de raça, classe, cor tos de localização, policiamento e controle,
da pele, geração, gênero, sexualidade, perten- mesmo quando guiadas por boas intenções. E
cimento religioso, entre outras – conforme o isso gera efeitos, é percebido por alunos e pro-
contexto analisado, onde algumas diferenças fessores e causa situações inusitadas, o que é
podem significar mais do que outras. No Brasil, capturado nas cenas etnografadas.
poucas vezes necessitamos marcar o pertenci-
mento à nacionalidade brasileira, mas isso pode Todos os meus movimentos são
tornar-se importante quando estamos em outro friamente calculados
país. Marcar a diferença de orientação sexual
– ser heterossexual, ser homossexual – poderá Cabem aqui considerações sobre o mé-
emergir como algo importante a depender do todo de etnografia de cenas escolares e sobre
contexto, conforme se verificará nas cenas ana- o contexto das escolas e dos grupos de alunos.
lisadas a seguir. Identidade e diferença guardam Ocupar-se com a observação, a descrição e a
conexão com o regime de heteronormatividade, reflexão de cenas escolares é tarefa que impacta
entendida como norma que articula as noções positivamente a construção da experiência do-
de gênero e sexualidade, estabelecendo como cente. Podemos pensar a experiência não como
natural certa coerência entre sexo (nasceu ma- o que nos acontece, mas como o que fazemos
cho, nasceu fêmea), gênero (tornou-se homem, com aquilo que nos acontece. Nesse sentido, le-
tornou-se mulher) e orientação sexual (se é um cionar muitos anos pode não acrescentar expe-
homem, irá manifestar interesse afetivo e se- riência docente. A experiência vem da reflexão
xual por mulheres, e vice-versa). Esse modelo, sobre os acontecimentos dessa trajetória. Parte
binário e dicotômico, é entendido como natu- desses acontecimentos constitui-se de cenas
ral e para muitos parece estar na “ordem das que o professor assiste no ambiente escolar e
coisas”, o que faz com que indivíduos que não que podem ser boas para refletir sobre deter-
se reconheçam nele sejam percebidos como do- minadas questões, bem como para estabelecer

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uma compreensão sobre sua prática. As cenas em sala de aula); a sempre complicada nego-
são os dados que alimentam as pesquisas e, ciação da disciplina e da condução das tarefas
para tanto, necessitam ser convenientemente escolares; a aprendizagem de gírias, gostos mu-
anotadas, discutidas, analisadas e colocadas em sicais, referências culturais dos alunos. Enfim,
conexão com leituras e discussões acadêmicas. trata-se de conhecimentos que constituem o sa-
A sala de aula pode ser vista como um labo- ber fazer do professor, que auxiliam no encami-
ratório onde o professor vai coletando cenas, nhamento prático de soluções e nos quais pode
situações, e anotando-as num diário de cam- (ou não) estar impressa uma forte marca de au-
po para futura análise. As cenas podem ser toria (no caso, por exemplo, de professores(as)
dos mais diversos tipos: disciplinares, ligadas que buscam construir um estilo de atuação).
a questões de aprendizagem, ligadas à socia- Infelizmente, os professores do ensino
bilidade entre os alunos, envolvendo posições fundamental e do ensino médio poucas vezes
políticas dos alunos em temas da atualidade etc. convertem o que lhes acontece em motivo de
O presente texto ocupa-se de narrar e analisar reflexão. Em geral, tudo o que acontece na esco-
cenas onde estão envolvidas negociações de la e, em especial, na sala de aula colabora para
atributos de gênero e sexualidade. alimentar o circuito da queixa, que termina por
O método de observação, seleção e regis- ocupar o lugar do pensamento (FERNANDEZ,
tro descritivo das cenas apoia-se em discussões 1994). Por conta disso, a maioria dos docentes
referenciadas na etnografia cultural e está mais vai apenas “sofrendo” os anos de magistério,
detalhado em Seffner (2010a). Em síntese, ob- jamais convertendo em experiência o que lhes
servar e efetuar o registro adequado para poste- acontece. Uma carreira docente com um mínimo
rior análise exige alguns procedimentos, dentre de qualidade profissional e pessoal deve envol-
os quais se destacam: desenvolvimento da no- ver a formação de um professor pesquisador ca-
ção de estranhamento para com os aconteci- paz de refletir sobre sua prática. Se o professor
mentos escolares; estabelecimento de direções não se sentir como produtor de conhecimentos,
de observação (no caso deste texto, questões jamais será capaz de gerar uma boa experiência
de gênero e sexualidade); manutenção de uma docente (assim como o professor que não tem
rotina de observação e de um diário de campo; gosto pela leitura jamais conseguirá contribuir
descrições do contexto e dos principais atores de modo efetivo para que seus alunos leiam). De
envolvidos na cena; atenção para elementos modo sucinto, exerço minha função de pesqui-
recorrentes nas cenas, bem como para impre- sador abrindo bem os olhos e os ouvidos quan-
vistos, novidades ou surpresas; atenção para a do das incursões nas escolas possibilitadas pelos
delimitação da cena, desde o momento em que momentos de supervisão dos estágios docentes,
ela tem início até sua finalização. e recolho todo tipo de cena a partir de alguns
Pensar o professor como um observador interesses temáticos específicos.8
atento de cenas escolares busca agregar valor As cenas trabalhadas neste texto foram
ao saber docente e à constituição de um pro- coletadas em três escolas públicas de Porto
fessor pesquisador. Por saber docente, na esteira Alegre, duas delas localizadas em área central
de Tardif (2003), entende-se aquele conjunto de
8- Sou professor do curso de Licenciatura em História e atuo em
aprendizados que o dia a dia da docência pro- disciplinas de orientação de estágio docente. A cada semestre, tenho
porciona e que, em geral, não são sistematizados oportunidade de supervisionar diretamente os alunos, assistindo a uma ou
nem valorizados, por estarem ligados à esfera de duas aulas de cada um deles. Dessa forma, compareço à escola em horário
previamente agendado, sento-me no fundo da sala de aula e observo o
conhecimentos práticos tais como: a gestão da estagiário em seu trabalho docente. Tais visitas também oportunizam
classe de alunos; os procedimentos pedagógicos circular pela escola, conversar com professores, observar rituais escolares,
momentos de recreio, entrada e saída de crianças na escola etc. Todas as
e avaliativos estratégicos (ou aqueles que o pro- cenas aqui narradas foram diretamente assistidas por mim e anotadas em
fessor percebe que se mostram mais produtivos meu diário de campo.

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da cidade e a terceira em bairro afastado. Todas Não contavam com minha
atendem clientela de classe média baixa. Uma astúcia!
é escola exclusiva de ensino médio, outra é ex-
clusiva de ensino fundamental e a terceira con- Primeira cena: de como as categorias
ta com todas as séries da educação básica. Nas utilizadas nos materiais instrucionais são repro-
três escolas, há ações de combate à homofobia, cessadas e ressignificadas pelos alunos, podendo
de valorização da diversidade de gênero e se- servir a outras lógicas. Turma de 8º ano do ensi-
xual e de respeito aos direitos humanos, todas no fundamental, turbulenta, segunda-feira pela
elas vinculadas às diretrizes do Programa Brasil manhã. Ontem tivemos um GRENAL10 disputado,
Sem Homofobia.9 Ao longo dos anos, o trabalho que terminou em empate. A quase totalidade dos
desenvolvido nas escolas experimentou várias meninos e muitas meninas estão com camisetas
interrupções, devido à transferência de profes- de algum dos dois times. Brincadeiras, provoca-
sores, ao desinteresse ou interesse de docentes, ções e uso de palavrões referindo atributos do
às parcerias eventuais com organizações não jogo a questões de sexo. Os garotos, particular-
governamentais LGBT, ao atendimento a pro- mente, usam metáforas sexuais (meter, cravar,
jetos do governo estadual ou federal e à dispo- traçar) para se referirem ao que pretendem fazer
nibilidade de verbas e materiais instrucionais. com os adversários, por conta do novo GRENAL
De todo modo, pode-se dizer que, nos últimos que deverá acontecer nos próximos dias e que
cinco anos, nas três escolas sempre ocorreram decidirá o campeão. Um garoto nitidamente mais
algumas ações e campanhas ligadas a tais te- delicado e reservado – Diogo –, sentado exata-
mas. Assim, cartazes, palestras com convidados mente em frente à mesa do professor, assiste a
e atividades envolvendo questões de gênero, se- tudo sem dizer nada, e parece não encontrar
xualidade e direitos humanos estiveram presen- companhia adequada na sala de aula, em espe-
tes no cotidiano escolar desses três estabeleci- cial neste momento, em que todos estão tão agi-
mentos, afetando as classes de alunos. As cenas tados. Tudo isso ocorre enquanto o professor es-
estão aqui narradas sem localização específica tagiário de costas para a turma escreve algumas
da escola em questão, enfatizando-se pelo tí- instruções no quadro e faz a chamada, ao mesmo
tulo o que se deseja debater. Todos os nomes tempo em que atende um ou outro aluno com
de alunos citados são fictícios. A linguagem de reclamações sobre notas. A classe está um pouco
descrição das cenas é um tanto coloquial, fruto “por sua própria conta”. Estou sentado ao fundo
das anotações no diário de campo. da sala, rodeado por esta turbulência. Em dado
Finalizo esta seção enfatizando seu título, momento, um aluno diz: “a gente vai fazer com
que discute a metodologia da pesquisa: “todos os gremistas o que o Diogo gosta que façam com
os meus movimentos são friamente calculados”. ele”. Todos riem, cúmplices. Diogo muito prova-
Embora o registro das cenas esteja pensado como velmente não escutou, está sentado lá na frente.
metodologia de inspiração etnográfica que opera Outro aluno retruca que “os gremistas vão ser
com objetividade, rigor e precisão, os imprevis- minoria sexual no próximo jogo”, referindo-se
tos de uma sala de aula produzem o sabor do ao fato de que o próximo jogo vai acontecer no
inesperado e da surpresa, arrastando por vezes o estádio do Internacional e, então, os torcedores
próprio pesquisador, que, colhido na esteira das do Grêmio serão minoria. Outro diz: “lá não tem
contingências, atua “mais por sorte do que por defesa das minorias”. E todos riem. Outro com-
juízo”, tal como o Chapolin Colorado. plementa dizendo que “ser maioria é bombar”,
9- Brasil Sem Homofobia: Programa de Combate à Violência e à e ainda outro afirma que “o lance é ser maioria,
Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. sempre, e maioria é Inter”, talvez se referindo ao
Consiste em um programa do governo federal, no âmbito da Secretaria
Especial dos Direitos Humanos (SEDH). Informações disponíveis em: <http://
www.sedh.gov.br/clientes/sedh/sedh/brasilsem>. Acesso em: 12 jun. 2012. 10- Clássico do futebol gaúcho, entre os times Grêmio e Internacional.

152 Fernando SEFFNER. Sigam-me os bons: apuros e aflições nos enfrentamentos ao regime da heteronormatividade...
fato de que o Internacional tem mais sócios do Segunda cena: das surpreendentes es-
que o Grêmio. O professor estagiário encara a tratégias mobilizadas para “conter” a diferença.
turma e começa a falar da matéria que vai abor- Chego mais cedo para observar minha estagi-
dar; a conversa se interrompe e não é retomada ária e fico conversando com duas professoras
até o final da aula. que na escola estiveram envolvidas em ações de
As noções de maioria e minoria são combate à homofobia e já participaram de se-
metáforas bélicas, entendidas na ótica de uma minários oferecidos na Faculdade de Educação
geopolítica de ataque e defesa. Ao contrário do acerca de gênero e sexualidade. Uma delas me
que insistem os programas de direitos humanos conta um “caso” acontecido em turma de crian-
na escola, o linguajar é apropriado numa lógi- ças do 1º ano do ensino fundamental. A profes-
ca que valoriza o pertencimento à maioria para sora regente da classe chamou a mãe de Felipe
oprimir a minoria. Outro elemento aqui presen- para conversar sobre certos comportamentos
te é o afastamento entre o que se diz, o que se agressivos que vinham acontecendo na relação
faz e o que se valoriza no interior da escola, e de seu filho com os colegas da turma. Felipe
o que prevalece na “vida lá fora”. Conforme já brigava muito, agredia os colegas, usava pala-
tratado extensamente na bibliografia educacio- vrões com frequência, desobedecia à professora.
nal – vale lembrar obras clássicas inspiradas no Frequenta essa turma outro menino, Paulo, que
pensamento de Paulo Freire, como a de Ceccon gosta de brincar de bonecas com as meninas.
(1991) –, uma parte importante do que é apren- Para surpresa da professora, a mãe de Felipe
dido na escola é vista como sem valor no mundo atribuiu a agressividade do filho à presença de
“lá fora”, assim como uma parte enorme de co- Paulo e ao seu comportamento tido como fe-
nhecimentos e questões do “mundo lá fora” não minino, uma vez que tal situação deixava seu
entra e não é problematizada na escola. Pode filho bastante “irritado e nervoso”. Isso para ela
até ser, como mostram outras cenas do acervo, era compreensível, visto que o comportamento
que no ambiente escolar esses garotos respeitem de Paulo não era normal. É importante destacar
meninos como Diogo. Mas da porta para fora que as situações de conflito envolvendo Felipe
da escola a regra é outra. Parte do que já assisti não ocorriam de forma exclusiva ou persecu-
em atividades dedicadas a valorizar o respeito tória com relação a Paulo e tampouco eram
pela diferença e a atenção aos direitos humanos justificadas por Felipe em função de qualquer
traz certa marca de “politicamente correto” e comportamento de Paulo. As professoras que
não permite que os aprendizados sejam levados me contaram o caso concluíram que quem de
para fora do cenário escolar, que igualmente fato parecia ficar “irritada e nervosa” era a mãe
não é visto como laboratório para questões da de Felipe, devido à presença de Paulo na classe.
vida. Duas considerações podem ajudar a modi- Indo adiante, a mãe de Felipe insinuou que o
ficar essa situação: trazer para análise situações comportamento delicado de Paulo estaria sendo
do “mundo lá de fora” que envolvam a maioria, “estimulado” na escola, por causa dos cartazes
não ficando refém de análises sobre os proble- que falavam em respeito à diferença, valori-
mas da minoria e mostrando as conexões entre zação da diversidade, direitos humanos etc. A
maioria e minoria. Nessa cena, a categoria de essa altura da conversa, a professora regente da
minoria – ligada de modo positivo à noção de turma entrou na sala dos professores e foi logo
valorização da diversidade na maior parte dos acolhida em nosso bate-papo. Ela acrescentou
discursos e das ações no âmbito do Programa algo que não sabíamos. Meses antes, os pais de
Brasil Sem Homofobia – foi ressignificada pelos Paulo tinham conversado com ela e pedido sua
alunos, sendo a ela atribuída uma sinalização ajuda para estimular Paulo a fazer “coisas de
negativa em oposição à noção de maioria, que menino”, evitando tantas brincadeiras com bo-
foi então positivada. necas e o convívio com as meninas. Segundo os

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pais de Paulo, teria sido o psicólogo do menino Após a observação da aula de uma estagiária,
quem teria pedido que o garoto fosse estimula- duas professoras da escola pediram para con-
do nesse sentido, e eles contavam com a aju- versar comigo. Elas já convidaram algumas li-
da da escola. Nesse momento, a sirene tocou, deranças gays para falas e distribuição de ma-
anunciando o início das aulas, e tivemos de en- teriais junto aos alunos. Disseram-se bastante
cerrar a conversa. atrapalhadas com certos resultados das ações
A escola tem a guarda das crianças du- que haviam feito. Em particular, recordaram
rante o período das aulas. Os(as) professores(as) que o que as havia estimulado a envolver-se
são adultos de referência, educam segundo di- nisso tudo era um histórico de ofensas e agres-
retrizes das políticas públicas. Por mais que se sões ocorridas na escola, sofridas tanto por
deixem chamar de “tias” ou “tios”, eles e elas alguns meninos mais delicados, quanto por
não fazem parte da família, e os aprendizados algumas meninas que manifestaram desejo de
escolares não são a mera continuação do que namorar outras e que foram amplamente cri-
se ensina em casa. Quando se abordam temas ticadas, sobretudo pelos professores, gerando
que implicam valores morais, a colisão com a situações muito complicadas e vexatórias na
moralidade familiar está sempre presente. Mais escola. No ver dessas professoras, tais alunos
ainda, a escola está cercada de outros agentes e alunas que sofreram problemas deveriam ser
da moral: padres e pastores, psicólogos, polí- os mais beneficiados por todas as ações que
ticos de todo tipo, médicos, lideranças comu- elas já haviam promovido na escola. Ocorre
nitárias, jornalistas e repórteres etc. Muitos que elas vêm percebendo que as coisas não
alunos experimentam boa parte da vida afetiva são bem assim. Em mais de uma oportunidade,
na escola ou em atividades a ela relacionadas, essas supostas “vítimas” das agressões mani-
como passeios e festas. A escola é um terreno festaram desconforto com a visibilidade que
de experimentação dos modos de ser homem e adquiriram e relataram fatos que entristeceram
de ser mulher, e cada vez mais é um terreno de as professoras. Um aluno chamado Renato re-
expressão da diversidade de orientação sexual. clamou que em duas situações, quando elas
Num caso como o narrado, percebe-se como se trouxeram uma liderança gay para uma entre-
exerce uma vigilância sobre as ações escolares vista coletiva e quando elas passaram alguns
no terreno do gênero e da sexualidade, e como vídeos de campanhas contra a homofobia, os
as professoras ficam cercadas tanto pela famí- demais colegas de sua turma – tanto meninos
lia quanto por outros profissionais, os quais quanto meninas – alegaram que tudo aquilo
desejam a adesão delas no sentido de “refor- era feito “por causa do Renato”. Uma menina
çar” a orientação considerada “correta” para as amiga de Renato disse que ela “preferia aula
crianças, que é sempre a heteronormatividade. de matemática, ao invés de ficar falando des-
O papel tradicional da escola está mais voltado sas coisas”, porque, “afinal, o que tinha que ser
a coibir do que a estimular essas experimenta- feito era punir os guris que faziam agressões, e
ções em termos de gênero e sexualidade. Não pronto, e as professoras, em vez de fazer isso,
há como fazer programas de combate à homo- ficavam agora tirando eles das aulas para estas
fobia sem envolver as famílias, o que constitui palestras”, o que evidentemente deixou Renato
um notável desafio e, na maior parte das vezes, muito constrangido. Mais ainda, as professo-
não é feito. Por conta disso, o alcance das ações ras me mostraram uma carta de outro aluno,
escolares se enfraquece, pois elas passam a ser Pedro, em que ele discorria sobre uma série de
questionadas por numerosos atores sociais. enfrentamentos que teve para assumir sua ho-
Terceira cena: falar de sexualidade pode mossexualidade; da carta, elas ressaltaram um
implicar visibilidade, e visibilidade pode im- trecho sobre o qual haviam conversado com
plicar acréscimo de vulnerabilidade pessoal. Pedro, que dizia o seguinte:

154 Fernando SEFFNER. Sigam-me os bons: apuros e aflições nos enfrentamentos ao regime da heteronormatividade...
uma cena que me marcou muito antes dos porque fracamente nomeados. Com as palestras
meus 17 anos foi quando eu tinha ficado e a presença de lideranças gays na escola, o que
com um guri e ele queria coisas a mais eu era pressentido se reforça, e o sujeito fica in-
disse não ele me ameaçou e disse que ia teiramente capturado pelo discurso da sexuali-
contar para todo mundo eu não acreditei e dade. Todos os seus atos passam a ser julgados
nem dei bola um outro dia eu ia indo para por essa lente, e é a ele que se dirigem cada vez
escola ele gritou no meio da rua eu me sen- mais questões, reforçando esse seu lugar so-
ti muito mal eu tinha vontade de fazer um cial. Claramente, as professoras estavam muito
buraco no chão e me enterrar. angustiadas por perceber que seu trabalho re-
forçava as dificuldades enfrentadas por alguns
Pois bem, ao conversar com Pedro sobre meninos na escola, embora paradoxalmente
essa cena, em que o tal colega havia gritado al- eles agora não fossem mais agredidos fisica-
guns insultos a ele, chamando-o publicamente mente, mas estavam sempre sendo citados.
de “bicha, veado, bichinha”, Pedro acabou re- Quarta cena: a masculinidade balança
ferindo que, depois de algumas atividades na por pouca coisa. Estou no fundo da sala, en-
escola em relação à homossexualidade, tanto quanto o estagiário projeta slides e fala com
meninos quanto meninas que eram seus cole- desenvoltura sobre o exército espartano, sua
gas agora puxavam assunto com ele de modo organização, suas conquistas. A turma é com-
um tanto debochado, mesmo quando misturado posta por uma maioria de meninas, mas neste
com algo amistoso, querendo saber detalhes de momento elas estão caladas. Ao revés, os me-
sua vida sexual, “se ele era ativo, passivo, se ninos participam intensamente, falam do filme
ele chupava, se ele já tinha feito isso e aquilo”. 300,11 fazem perguntas, dizem todo tipo de coi-
Dessa forma, ele terminou por revelar que que- sa sobre guerras, armas, matanças, divertem-
ria apenas ficar no seu canto, sem que ninguém -se com as gravuras e a exposição, e a rela-
lhe perguntasse nada, e que as palestras esta- tiva escuridão da sala os ajuda a se soltarem.
vam provocando um mar de perguntas. Claramente, o tema provoca forte adesão dos
Programas de combate à homofobia não meninos e visível passividade nas meninas.
conseguem andar separados da promoção da Esse entusiasmo todo sofreu uma reviravol-
visibilidade da identidade homossexual. Dessa ta completa em menos de quinze segundos. O
forma, por vezes efetuam uma captura dos in- estagiário projetou uma gravura que mostrava
divíduos em tal identidade. Em outros termos, dois soldados espartanos abraçados, segurando
podem reduzir a pessoa à sua orientação sexual. seus escudos apoiados no chão à frente, com os
Terminam por produzir certa obrigação de se capacetes na mão, usando apenas uma sunga,
expor, ao mesmo tempo em que reiteram a invi- uma ampla capa e as sandálias de guerra. Com
sibilidade dos heterossexuais, que permanecem a figura projetada, em voz alta e clara, ele co-
na sombra. Uma das astúcias da norma é não meçou a falar do companheirismo no exército
dizer de si. Quem deve explicar-se, desvendar- grego e de como o afeto de um soldado pelo
-se, responder a perguntas é quem “foge da nor- outro ajudava a vencer batalhas. Pela primeira
ma”. Com isso, tal indivíduo fica cada vez mais vez desde o início da aula, uma menina se
capturado pelo atributo que o fez afastar-se da manifestou e perguntou qual era a diferen-
norma – no caso, a sexualidade. Dificilmente ça entre afeto e amor, pois ela achava que
conseguimos abordar o tema de modo a mos- os soldados eram namorados. O estagiário não
trar que a exceção faz parte da norma, que ela teve oportunidade de responder, pois foi atro-
é um “fora” constitutivo da norma. Terminamos pelado por várias manifestações dos meninos,
lançando mais luz para cima de indivíduos que 11- 300. Direção de Zack Snyder. Estados Unidos, 2007. O filme concede
até o momento estavam por vezes num limbo, amplo destaque à Batalha das Termópilas.

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agora na mão contrária, ou seja, criticando tudo comprovando a afirmação de Scott (1995) de
o que estava sendo mostrado. Um aluno saiu di- que a abordagem de gênero permite notar as
zendo que todo o exército romano era formado relações sociais a partir das diferenças perce-
por gays, e por isso Roma tinha sido derrubada bidas entre os sexos, sendo este um elemento
(vale dizer que a aula era sobre os gregos, mas constitutivo das relações de poder. A mascu-
ele misturou tudo). Outro falou que Obama tinha linidade heterossexual, que parece ser algo da
permitido que os gays servissem no exército, o ordem da natureza, tão sólida, mostra evidentes
que para ele era uma piada. Outros alunos fala- pontos fracos. No caso em questão, os atributos
ram todos ao mesmo tempo, dizendo palavrões, de valentia e virilidade que estavam empolgan-
rindo, desdenhando dos soldados, falando que do os alunos tiveram seu sinal invertido em me-
era tudo “bichinha, boiola, engolia rola”. Enfim, nos de um minuto, e os alunos defenderam-se
foi uma verdadeira chuva de deboches. Quando com aquela que parece ser sua estratégia mais
a onda de zombarias arrefeceu, a menina que frequente: o deboche e a algazarra, que evitam
havia feito a pergunta falou: “mas vocês não es- trazer a questão para um nível de discussão
tavam gostando do exército espartano?”. Neste racional. De toda forma, a estratégia utilizada
momento, várias outras gurias riram, em tom de pelas meninas terminou produzindo efeitos: a
troça. Uma delas foi adiante e disse: “os guris aula tornou-se mais democraticamente partici-
mais bonitos que tem aqui no colégio estudando pativa e os meninos perderam a dianteira nos
de noite são gays”. Os guris agora estavam na comentários e mesmo na condução das brin-
defensiva e claramente não sabiam o que dizer, cadeiras. O estudo de questões de gênero não
optando então pela continuação dos deboches, deve deixar de lado aquilo abordado por Scott
dizendo coisas que aqui são impublicáveis. O (1995, p.86): “o gênero é uma forma primá-
pobre do estagiário, de pé, na frente da turma, ria de dar significado às relações de poder”.
ficou completamente sem ação, até que uma das Muito do que se verifica nos manuais e nas
gurias disse “continua a aula professor, os gu- oficinas sobre gênero no espaço escolar são
ris estavam muito agitados, agora eles vão ficar longos exercícios de identificação dos códi-
quietinhos”. Claro que isso provocou nova onda gos do masculino e do feminino, acabando
de vaias, risos, batidas de mão na classe. Mas por enfatizar a igualdade que deve presidir
assim como veio, tudo arrefeceu, o estagiário essas relações. Talvez o mais eficiente fosse
tratou de avançar para o próximo slide, que por partir das relações de gênero e de poder que a
sorte mostrava um mapa com locais de batalhas todo momento se estabelecem na sala de aula
e a distribuição das cidades gregas, o que pos- e que redundam em enfrentamentos.
sibilitou encaminhar o assunto para outro lado. Quinta cena: de como a diferença vira
Até o final da aula, várias meninas e meninos um atributo, uma “coisa”, e não é entendida na
fizeram perguntas, ou seja, a participação ficou ótica da relação. Ao concluir a observação da
mais equilibrada em termos de gênero. Quando aula de uma estagiária, encontrei no corredor
bateu a sineta para a troca de períodos, um dos uma professora que frequentemente participa
guris se levantou, pegou sua mochila e ia saindo, dos cursos sobre gênero e sexualidade ofertados
quando outro colega perguntou a ele: “tu não por nosso núcleo de pesquisa. Ela se apressou
vai ficar para a aula de matemática?”. E o guri em me contar um episódio. Depois de realizar
respondeu “larguei mão dessas gurias”, saindo atividades em uma turma de 9º ano do ensino
porta afora. fundamental com materiais produzidos no âm-
O enfrentamento entre meninos e meni- bito de um dos programas de combate à homo-
nas na aula está sempre acontecendo, e tudo fobia, um aluno, Artur, que é claramente hosti-
pode ser motivo para isso. Ou seja, quase tudo lizado pelos outros por ser mais delicado, veio
se generifica (LOURO, 1999) numa sala de aula, conversar com ela e se queixou de que, depois

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das atividades, os colegas, além das brincadeiras pluralidade é um importante passo, mas há que
que já faziam com ele, haviam acrescentado mais se discutir como se articula e se mantém a di-
uma. Utilizando o bordão de um dos cartazes ferença do ponto de vista do poder, pois é por
(“valorize a diferença”), ficavam dizendo na sala meio dele que as situações de desigualdade são
de aula “valorize o Artur”. A professora também criadas e mantidas. O que em geral se observou
acrescentou que a coisa terminou envolvendo um nas cenas escolares, e que em parte caracteri-
dos professores de literatura, também objeto de za os discursos que operam com o conceito de
gracejos por parte dos alunos por ser assumida- diversidade, é um “estacionamento” da discus-
mente gay, e que agora era alvo de brincadeiras são na valorização do múltiplo, do diverso, do
do tipo “valorize o professor de literatura”. plural, aproveitando então para fazer uma apo-
Um resultado concreto do prolongado logia a favor da aceitação da diversidade, da
período de afirmação da política das identida- demonstração da riqueza que está contida na
des que vivemos no Brasil é que a diferença tem diversidade e do aprofundamento daquilo que
apenas o sentido de construir uma nova iden- tem sido chamado de política das identidades.
tidade. Sou um homem que gosta de homens, O que se revela pobre, nas cenas e nos docu-
então essa diferença serve rapidamente para mentos, são as estratégias de enfrentamento do
produzir outra identidade, que já é catalogada, regime de heteronormatividade ou heterossexu-
recebe nome e atributos, vira algo “naturaliza- alidade compulsória.
do”. A noção de que a identidade é relacional A heteronormatividade é percebida
fica relegada ao segundo plano, não sendo pro- porque articula dispositivos de ordem dis-
blematizada. Certamente a identidade é marca- ciplinar e de controle sobre o corpo dos in-
da pela diferença, mas a ela não se reduz, uma divíduos e sobre as populações (FOUCAULT,
vez que a identidade é uma posição de sujeito 1977, 1985). Os que supostamente “fogem” à
fruto de interpelações (WOODWARD, 2000). O norma são necessários a ela, para demarcar
jogo de poder que envolve norma, identidade e seus limites, suas possibilidades e penalida-
diferença acaba ficando oculto. O que é inten- des. Ninguém está fora da norma, embora
samente visibilizado é a nova identidade, seus possa estar em situação de confronto com
atributos, suas características, seus modos de ela, pois só conseguimos estabelecer o que
ser. Reafirma-se aqui a astúcia da norma em é normal e desejável (por exemplo, o aluno
não dizer de si. O sujeito heterossexual não é heterossexual) se tivermos em mente o que
visto como diferente, mas simplesmente passa não é normal nem desejável (o aluno homos-
a usar a diferença “do outro” como sinônimo sexual). Percebemos que a maioria das ações
de identidade, empobrecendo as possibilidades empreendidas não colabora para explicitar a
de envolver a todos na discussão que produz norma. A invisibilidade da norma é condição
posições de si. importante de sua eficácia, silenciando sobre
Cumpre destacar alguns aspectos à guisa os mecanismos que nos fazem tomar algumas
de conclusão. O primeiro diz respeito ao forte identidades (a identidade de gênero heteros-
componente de valorização da diversidade pre- sexual, por exemplo) como comportamentos
sente nas cenas em manifestações de alunos(as) que não precisam dizer de si, não precisam
e professores(as) e igualmente em materiais ser problematizados. Não se enfrenta a he-
no âmbito de programas como o Brasil Sem teronormatividade e, com isso, o discurso de
Homofobia. Embora haja dados positivos, ve- valorização da diversidade parece pretender
rificamos (em conexão com as teorias pós- conviver com a existência dessa norma, o que
-identitárias e com a produtividade das ações) explica algumas das situações um tanto pa-
que não basta a inclusão de novos conteúdos radoxais narradas nas cenas. Há uma inces-
e novos personagens na escola. A aceitação da sante preocupação em achar a “explicação”

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de por que as pessoas vivem a partir de tal dados a palestrar na escola. Já os “normais”
ou qual orientação de gênero ou de sexuali- não precisam falar, e poucos se preocupam
dade, sendo que essa preocupação jamais se em problematizar a norma de gênero, a hete-
volta para a tentativa de explicar a hetero- ronormatividade. Não é propósito deste texto
normatividade, conceito que, aliás, é quase a desvalorização das ações que atualmente são
ausente das propostas de ação, dos materiais desenvolvidas em escolas no sentido de com-
produzidos e dos relatos dos envolvidos nas bater a homofobia. Levantamos questões para
cenas. Na maior parte das vezes, os “diferen- pensar, e a principal delas é esta: as ações não
tes” são chamados a falar de si, a dizer dos podem ficar capturadas pela astúcia da norma de
seus desejos, ou são narrados pelos convi- não dizer de si, elas precisam fazer a norma falar.

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Recebido em: 22.06.2012

Aprovado em: 08.10.2012

Fernando Seffner é professor no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
na área de Educação, Sexualidade e Relações de Gênero. Pesquisa as pedagogias de gênero e sexualidade envolvidas na
produção, na manutenção e na modificação das masculinidades.

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