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Memória 03. Uma problematização.

Discente: Késia dos Anjos Rocha

Herbart e Pestalozzi são autores fundamentais para a fundamentação das


reformas pedagógicas no Brasil a partir do século XIX. Em Pestalozzi temos o método
intuitivo e uma pedagogia ativa, que muito influencia as primeiras reformas da
educação nacional. Em síntese, sobre os autores estudados nessa aula, Rousseau nos traz
uma pedagogia da infância, modificando a concepção de criança que se tinha e dando a
ela um status de sujeito; com Pestalozzi e depois com Herbart, temos uma pedagogia
mais psicológica. Em Herbart a figura do professor ganha status de autoridade, torna-se
a figura central. De alguma forma, os cinco passos da pedagogia de Herbart fecham o
ciclo da pedagogia moderna, uma pedagogia tradicional e mais burguesa que sugere um
roteiro muito familiar ainda nos dias atuais: preparação de aula, apresentação de
conteúdo, associação do conteúdo novo com o estudado anteriormente, associação de
coisas gerais com coisas mais específicas, resolução de exercícios e também a ideia de
que o professor é quem deve “despertar o interesse” do aluno/a pela aprendizagem.
Temos, portanto, o predomínio do método intuitivo de Pestalozzi, que parte dos sentidos
– ver, tocar, pegar, sentir – e das ideias e passos sugeridos por Herbart como ações
predominantes no nosso modelo educacional ainda vigente. Até mesmo os conceitos de
habilidades e competências presentes em nossa Base Nacional Comum Curricular vêm
das ideias de Pestalozzi e sua metodologia ativa, de que se educa pela ação e não pela
transmissão do conteúdo.

A partir desse olhar inicial para o pensamento desses autores e olhando para a
questão trazida pelas professoras: “O quanto sou um professor Moderno?”, penso que o
método intuitivo, que aproxima os dois autores, no qual o professor é uma figura
central, no qual aprenderíamos partindo das experiências para, em seguida, termos o
contato com a teoria, reconheço muito do nosso modelo e prática educacional. Ao
observar o balanço das sugestões de atividades presentes nos breves planos de aula
elaborados pelos/as colegas (e por mim), não teve como deixar de identificar a
sequência metodológica de Herbart. A ideia de que é necessário formar o/a professor/a,
capacitá-lo/a para exercer esse papel fomentador da educação dos alunos/as, está
presente inclusive no modelo de educação universitária. Fico me questionando, teríamos
nós um modelo republicano, com bases assentadas no referencial moderno de educação
e mais especificamente ancorado nas ideias pedagógicas de Herbart? Teríamos nós um
modelo de educação que, apesar de se propor universal e igualitário, segmenta e ao não
dialogar com as mudanças sociais e econômicas continua não contribuindo mais
radicalmente para uma mudança nas estruturas hierárquicas sociais? Herbart pensava
numa educação integral de qualidade, não necessariamente para todos/as. Nosso sistema
educacional apresenta exatamente esse quadro, temos ainda uma porcentagem pequena
da população que acessa os espaços universitários (educação superior) e isso está
atrelado a fatores que envolvem gênero, classe, raça, etc.

Num breve olhar para o quadro organizado pela professora como ponto de
partida para essa reflexão é interessante notar que quase todas as propostas se iniciam
pelo Verbo, pela ação – “escrever no quadro”; “apresentar o plano”, “organizar a sala”,
“planejar a aula antes”, “Escolher livros”, “Resolver exercícios”, “relembrar conteúdos
da aula anterior”. Uma outra questão é que aparentemente toda ação, todo verbo tem
como ponto de partida o/a professor/a, ele/ela é o “dono/a” da ação, ela parte sempre
dele/a, ele/ela ocupa posição de poder, está na centralidade da ação. É possível notar
alguns movimentos que fogem um pouco a esse modelo – “construção coletiva de
propostas” – mas isso aparece bem pouco.

Em nossa primeira aula, recordo de uma frase que a professora Marizete trouxe,
ela dizia que “a educação era e é um lugar de muitas permanências”. Isso explica um
pouco porque alguns setores conservadores têm trazido com maior intensidade a ideia
de retorno a uma educação domiciliar, isso explica porque estruturalmente e
metodologicamente nossa educação e nossa escola ainda se aproximam tanto do modelo
de educação moderno tecido por todos os autores que estudamos até então. Olhar pra
nós mesmas/os e identificar que nossas práticas, muitas vezes, estão mais próximas
daquilo que criticamos é algo a se pensar. Para concluir, penso muito no nosso papel
enquanto professores/as, inseridos/as num modelo já instituído, e acredito que a
mobilidade e a mudança acontecem lentamente, talvez a gente consiga com nossas
práticas, às vezes “tradicionais”, as vezes mais alternativas, gerar pequenas fissuras
nesse emaranhado de permanências. Eis o desafio.