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Poder Judiciário

Justiça Militar da União


Auditoria da 9ª Circunscrição Judiciária Militar

Ação Penal Militar nº 7000100-97.2019.7.09.0009.

Acusado: LOUSIVAL ZUQUI - ST R1 EB.

Crime(s): Art. 326 do CPM.

SENTENÇA

Vistos, examinados etc.

O Representante do Ministério Público Militar ofertou Denúncia contra o Subtenente R1 da Reserva do


Exército LOUSIVAL ZUQUI, anteriormente qualificado, conforme certidão (Evento 111), em suma,
pelo fato de ter violado o sigilo funcional, revelando fato de que tinha ciência em razão do cargo que
ocupava.

Narra a exordial acusatória que, "(...) em dezembro de 2018, houve a divulgação para inúmeros
militares através de whatsapp e correio eletrônico, do conteúdo da Ata Notarial registrada em 19 de
dezembro de 2018 pelo Subtenente R-1ZUQUI no 3º Serviço Notarial de Campo Grande - MS. Nesta Ata
Notarial (fls. 50/51), o denunciado afirma que teriam ocorrido diversas irregularidades envolvendo
militares que alcançaram o posto de segundo-tenente do Quadro Auxiliar de Oficiais (2º Ten QAO), e
não só menciona nomes dos promovidos como detalha informações disponíveis apenas para os
militares que trabalhavam na Diretoria de Avaliação e Promoções (DA PROM) à época, como, por
exemplo, os dados fornecidos sobre o Cap QAO ANTÔNIO ERLEY PINTO DE GOES: "concorreu à
promoção à 2º Tenente com um perfil profissiográfico baixíssimo, sendo "R" de formação, quase "R" de
CAS, nenhum idioma, somente medalha corpo de tropa bronze (a confirmar) e militar de prata,
nenhum ponto de monitoria, 1 ponto de vivência, ou seja, último quartil em todos os quesitos para a
promoção (formação, CAS, FVM, CGC, Mérito Puro)." (...) Ocorre que, ao assumir a função no DAPROM,
assinou Termo de Compromisso de manutenção de sigilo (fls.66/68), que o obrigava a salvaguardar as
informações de terceiros, circunstância não observada quando registrou a Ata Notarial em Cartório".

Desta forma, estaria o ora denunciado incursionado no art. 326, do Código Penal Militar.

Por tal fato, Lousival Zuqui foi denunciado e processado, perante este Juízo, como incurso nas penas do
art. 326 (que tipifica o delito de violação de sigilo funcional), do Código Penal Militar, conforme descrito
na exordial acusatória (Evento 1 - Documento 1).

A Denúncia foi lastreada, em especial, nos elementos de convicção produzidos no IPM nº 7000083-
61.2019.7.09.0009 e diligências posteriores.

Em 03/06/2019 o R. do MPM ofereceu Denúncia contra Lousival Zuqui, como incurso no art. 326 do
CPM (evento 9 do IPM). Em decisão datada de 06/06/2019, a denúncia foi recebida e, não havendo

Documento assinado eletronicamente por JORGE LUIZ DE OLIVEIRA DA SILVA - JUIZ FEDERAL DA
JUSTIÇA MILITAR DA AUDITORIA DA 9ª CJM, Matricula 8143. Em 23/03/2020 15:43:12.
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testemunhas arroladas na denúncia, a teor da decisão Plenária do STF nos autos do HC nº 127.900/AM,
foi determinado que o interrogatório do acusado fosse realizado ao final da instrução criminal,
conforme o art. 400 do CPP comum e determinada a abertura do prazo do art. 417, § 2° do CPPM
(Evento 1 - Documento 3).

As Certidões de Antecedentes Criminais, referentes à Justiça Federal, Estadual - nada consta (Evento 3
- Documentos 1 a 3).

O acusado foi devidamente citado, em 12/06/2019 (Evento 11).

A Defensoria Pública da União apresentou o rol de testemunhas no evento 13, reservando-se na


análise da hipossuficiência do acusado para patrocinar a sua defesa, vindo, posteriormente, informar o
indeferimento do pedido de assistência jurídica ao acusado, e a pedido deste, desistindo da oitiva das
seis últimas testemunhas arroladas (Evento 15).

A Defesa constituída apresentou rol de testemunhas no evento 20 - documento 01, sendo agendada a
data de 27/08/2019 para a inquirição, por meio de videoconferência, conforme certidão constante no
evento 42.
Na data aprazada foram ouvidos o ST Paulo José Lopes (Evento 60 - mídias 1 e 2), Ten Cel Dorian
Cerqueira de Souza (Evento 63 - mídias 1 a 3), Ten Francisco José Vanderilton de Araújo (Evento 64 -
mídias 1 a 3), Ten Manoel Mendes da Costa Filho (Evento 65 - mídias 1 a 3) e 2º Ten R/R Messias
Sant'ana Dias (Evento 66 - mídias 1).

Determinada a abertura de vista às Partes, no prazo do art. 427 do CPPM (Evento 67); o MPM requereu
a dissolução do Conselho Permanente de Justiça (Evento 74), em decorrência foi afastada a
competência do CPJ/Ex (Evento 85);

Designada a data de 18/11/2019, às 15:00 horas, para a audiência de qualificação e interrogatório do


acusado (Evento 90), a qual não se realizou, conforme evento 98, restando redesignada a data de
02/12/2019, às 15:00 horas (evento 100); na data aprazada foi realizada a qualificação e interrogatório
do acusado (eventos 112 e 113).

Determinada vista às partes, fins do art. 428 do CPPM (Evento 113).

Em alegações escritas (Evento 116), o MPM aduziu que a autoria e materialidade estão comprovadas,
pela prova testemunhal colhida em juízo, e pela prova documental existente - a Ata Notarial Registral,
que confirmam os elementos de convicção trazidos e que a justificativa trazida pelo acusado de que
registrou a ata por orientação de seu advogado não podem elidir a sua conduta vez que se trata a ata
notarial registras de um documento público, que permite o acesso ao público em geral e que a
divulgação dos dados, por si só, é hábil a configurar o delito, ante o potencial lesivo à Administração
Militar. Requereu, pois, a condenação do acusado, nos termos da denúncia, ante a ausência de
excludentes de ilicitude ou de culpabilidade.

A Defesa, em alegações escritas (Evento 120), requereu, a absolvição do acusado quanto ao delito que
lhe foi imputado - a violação do sigilo funcional, pois, ao contrário do entendimento do Parquet Militar,
de que não se discute o mérito do conteúdo da informação divulgada, os princípios da Administração
Pública, dentre eles a moralidade, exigem que a divulgação de atos ilícitos e lesivos ao interesse
público deve ocorrer, principalmente porque são objeto de diversas ações em trâmite no país, dentre
elas, ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal; asseverou ainda que as Instruções
Gerais para Salvaguarda de Assuntos Sigilosos (IG 10-51) não tem o condão de proteger
informações que versem sobre atos ilícitos; requereu, em caso de eventual condenação, na dosimetria
da pena, a fixação da pena no mínimo legal, e o reconhecimento do direito de apelar em liberdade.

O Ministério Público Militar e a Defesa não requereram a apresentação de alegações orais, em


decorrência, foram os autos conclusos para prolação de sentença.

Determinado pelo Juiz Federal a submissão dos autos ao CPJ/Exército, fins homologar os atos já
praticados, reafirmando-se a competência do CPJ/Exército.

Documento assinado eletronicamente por JORGE LUIZ DE OLIVEIRA DA SILVA - JUIZ FEDERAL DA
JUSTIÇA MILITAR DA AUDITORIA DA 9ª CJM, Matricula 8143. Em 23/03/2020 15:43:12.
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Designado o dia 23/03/2020, às 14h, para realização da sessão de julgamento. Partes intimadas. Réu
intimado. Em razão da pandemia do coronavírus o Juiz Federal determinou que a sessão fosse
realizada na modalidade telepresencial.

Da data designada, presentes na integralidade o CPJ/Exército, o R. do MPM, o Advogado Constituído,


dispensado o réu, foram iniciados os debates. O MPM ponderou que tinha uma visão diferente do
pedido contido nas alegações escritas, posto que entendia que não houve prejuízo efetivo à
Administração Militar, razão pela qual requereu a absolvição do réu, com encaminhamento da questão
à autoridade militar fins aferir a ocorrência de transgressão disciplinar. Com a palavra a Defesa, que
reafirmou ser o réu inocente, concordou com a manifestação do MPM e requereu a absolvição do réu.
Não houve réplica.

Passou, então, o CPJ/Exército a deliberar.

É O RELATÓRIO.

FUNDAMENTO

Trata-se de ação penal militar objetivando apurar a responsabilidade criminal do Subtenente R1 da


Reserva do Exército LOUSIVAL ZUQUI, anteriormente qualificado, conforme amplamente narrado no
Relatório da presente Sentença, sendo incursionado no art. 326, do Código Penal Militar:

"Em dezembro de 2018, houve a divulgação para inúmeros militares através de


whatsapp e correio eletrônico, do conteúdo da Ata Notarial registrada em 19 de
dezembro de 2018 pelo Subtenente R-1 ZUQUI no 3º Serviço Notarial de Campo Grande
- MS. Nesta Ata Notarial (fls. 50/51), o denunciado afirma que teriam ocorrido diversas
irregularidades envolvendo militares que alcançaram o posto de segundo-tenente do
Quadro Auxiliar de Oficiais (2º Ten QAO), e não só menciona nomes dos promovidos
como detalha informações disponíveis apenas para os militares que trabalhavam na
Diretoria de Avaliação e Promoções (DA PROM) à época, como, por exemplo, os dados
fornecidos sobre o Cap QAO ANTÔNIO ERLEY PINTO DE GOES: "concorreu à promoção à
2º Tenente com um perfil profissiográfico baixíssimo, sendo "R" de formação, quase "R"
de CAS, nenhum idioma, somente medalha corpo de tropa bronze (a confirmar) e militar
de prata, nenhum ponto de monitoria, 1 ponto de vivência, ou seja, último quartil em
todos os quesitos para a promoção (formação, CAS, FVM, CGC, Mérito Puro)." (...) Ocorre
que, ao assumir a função no DAPROM, assinou Termo de Compromisso de manutenção
de sigilo (fls.66/68), que o obrigava a salvaguardar as informações de terceiros,
circunstância não observada quando registrou a Ata Notarial em Cartório".

O acusado, interrogado em juízo, confirmou os fatos narrados na exordial acusatória dizendo:

"Que confirma os fatos narrados na denúncia, alegando que registrou a Ata Notarial por
orientação de seu advogado que irá representá-lo no Processo de Promoção; que
quando disse que tinha conhecimento das informações sobre as promoções o advogado
disse que teria que ser registrado, senão não surtiria efeito na justiça; que a Ata Notarial
serviria de prova de seu processo e de outros militares que são clientes deste mesmo
advogado; que nunca autorizou que as informações da Ata fossem divulgadas em grupo
de whatsapp ou outra rede social; que a CPQAO é um artifício utilizado pela DAPROM
para majorar o mérito puro do militar que está concorrendo à promoção, o que não está
previsto no decreto 90.116; que a pontuação de 0 a 49 pontos que pode ser dada pelo
mérito do militar, foi criada por legislação interna da DAPROM; que a Comissão tem o
poder de promover ou não promover quem ela quiser com essa pontuação de 49
pontos; que a DAPROM contraria sua própria legislação interna dando esse poder à
Comissão; que a Comissão nem conhece o militar que está sendo avaliado; que na
época os fatos causaram escândalo na DAPROM, por exemplo, a promoção do sub Ten
Erlei, que não tinha condições de ser promovido, tinha um perfil baixíssimo; que para

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fazer a Ata utilizou-se de fatos que se recordava; que, quando ingressou na DAPROM,
assinou um termo de confidencialidade, mas quando divulgou as informações na Ata
acreditou que não estaria cometendo uma ilegalidade; que, de acordo com seu
advogado, ele poderia divulgar essas informações na Ata, pois se tratavam de fatos que
dizem respeito a condutas criminosas (...) Que, quando registrou a Ata, não sabia que o
documento poderia ser acessado por qualquer pessoa (...) Que tem conhecimento de
várias ações envolvendo o questionamento dos critérios para promoção de
Subtenente QAO; que sabe muitos militares pontos descredenciados na ficha de
Valorização do Mérito; que PN significa posicionamento negativo; que as punições
disciplinares voltam a ser avaliadas como PN1, 2 e 3; que tem conhecimento de mais
casos envolvendo irregularidade na Promoção mas prefere não falar; que não precisou
levar os fatos ao conhecimento de seu superior à época porque todos os casos eram
notórios.

O art. 326 do Código Penal Militar tipifica o crime de Sigilo Funcional:

Art. 326. Revelar fato de que tem ciência em razão do cargo ou função e que deva
permanecer em segredo, ou facilitar-lhe a revelação, em prejuízo da administração
militar:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, se o fato não constitui crime mais grave.

Trata-se de crime militar impróprio. O sujeito ativo aqui é o funcionário público civil ou militar, que tem
conhecimento de segredo em razão do cargo ou função que exerce e o revela, ou facilita o seu
conhecimento a outros que não o tinham. O Sujeito Passivo é o Estado, na figura da Administração
Militar e, eventualmente, a pessoa prejudicada com a revelação. O objeto do crime é o fato que deva
permanecer em segredo (grifo nosso).

De início, pelo documentos presentes nos autos, em especial a Ata Notarial registrada pelo Subtenente
Zuqui no 3º Serviço Notarial de Campo Grande, a autoria está confirmada. Porém, sem materialidade
não há que se falar em autoria, ou melhor, não há lastro para futura condenação, muito menos
conduta a ser analisada.

Pelo que se depreende dos autos, o réu trabalhou de 2010 a 2014 no setor de Valorização do Mérito,
na Diretoria de Avaliação de Promoções (DAPROM), onde teve conhecimento das nuances que
envolvem o processo administrativo de promoção ao Quadro Auxiliar de Oficiais (2º Ten QAO).
Inconformado com a promoção de algumas pessoas que, no seu entender, não deviam alcançar tal
graça, o acusado passou a questionar o modus operandi do DAPROM, visando inclusive, questionar
judicialmente o motivo pelo qual foi preterido em sua promoção.

Sob orientação de seu advogado, o réu registrou a Ata Notarial 326083/2018 em Campo Grande/MS,
que foi usada por seu advogado no processo em que pleiteava seu direito a promoção, e em outros
que seu advogado patrocinava. Assim, diante da publicidade dada à mencionada Ata entre os clientes
de seu patrono, as supostas irregularidades presenciadas, ou apenas conhecidas pelo réu, vieram a
público, sendo publicadas, até mesmo, em grupo de whatsapp e seu teor discutido em um blog.

O Ministério Público aduz que essa Ata Notarial é prova suficiente da materialidade, e que o
denunciado quis expor informações sigilosas que teve conhecimento em razão do cargo. Disse ainda
que acusado quis insinuar que a Chefia do DAPROM era conivente com alguns militares em detrimento
de outros que teriam mais condições de serem promovidos. Por isso entendeu que a conduta do réu se
enquadra no tipo previsto no art. 326 do Código Penal. Todavia, da análise detida dos autos, não há
como concordar com o parquet. A conduta do réu não se amolda ao tipo penal do art. 326 do CPM!

Explica-se: o dispositivo legal aventado indica tipifica penalmente a revelação de fato de que o
agente tem ciência em razão do cargo ou função, ou facilitar a revelação. Fatos são acontecimentos
oriundos de eventos naturais ou ações humanas, que podem ser lícitas e ilícitas. Uma suposição não é
um fato, uma interpretação particular de um acontecimento também não é um fato.

Alguns fatos supostamente revelados pelo réu não foram confirmados pelas testemunhas de defesa,
inclusive pelo Ten Cel Dorian Cerqueira e Ten Francisco José Vanderilton, que trabalharam com o réu

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no setor de Valorização do Mérito. Outros foram totalmente desmentidos.

As testemunhas de defesa, quando questionadas a respeito dos "fatos" revelados pelo réu, disseram:

Ten Cel Dorian Cerqueira de Souza (Evento 63 - mídias 1 a 3):

(...) Que não tem conhecimento sobre o quadro de promoção, pois trabalhava na
Seção de Valorização do Mérito, que era uma parte do processo de promoção; que
entende que quem trabalha com o setor de promoções deve ter conhecimento da
legislação correspondente, mas que participava de somente parte processo (...) Que
não se recorda do caso do Subtenente Flores, que foi promovido na condição sub
judice; que no caso do ST Alan foi verificado que uma outra diretoria responsável fez
seu cadastro, não ocorrendo nenhuma irregularidade por parte do DAPROM, sendo
todas as informações publicadas no boletim; que no caso do ST Alan não houve
abertura de sindicância, pois não houve irregularidade, toda a documentação estava
correta, tanto por parte do DAPROM quanto do Setor de Valorização do Mérito; que
não conhece o sistema lithium e não tem conhecimento sobre a planilha com nome
de pessoas a serem promovidas com o nome de posicionamento negativo (...) Que
um militar foi promovido com uma pontuação que levava em conta a valoração do
mérito que não estaria correta por conta de erro na interpretação; que o caso foi
levado aos superiores a situação foi regularizada; que tudo foi publicado; que não
houve a abertura de Sindicância porque não houve irregularidade e sim erro na
interpretação.

Ten Francisco José Vanderilton de Araújo (Evento 64 - mídias 1 a 3):

(...) Que todos as informações cadastradas eram publicadas no boletim interno; que o
boletim interno (...) Que não levou o caso do subtenente Flores ao Ten Cel Dorian
porque ele não foi promovido porque estava sob judice, esse caso nunca existiu (...)
Que não tem conhecimento sobre uma planilha de posicionamento negativo; que até
onde sabe, tudo referente a promoção é realizado segundo a legislação (...)

Ten Manoel Mendes da Costa Filho (Evento 65 - mídias 1 a 3):

(...) Que tem conhecimento de uma planilha chamada PN, e que existem os códigos
PN1, 2 e 3, mas não sabe nada a respeito, não tem conhecimento sobre a subtração
de pontos; que informações sobre terceiros são mantidas em sigilo; que as
pontuações dadas aos candidatos promovidos sempre são divulgadas, inclusive
entregue ao Juízo competente quando o caso está sob julgamento (...)

Na verdade, o réu revelou o que, segundo a sua interpretação, parecia ser verdade, todavia não há nos
autos provas de que os fatos que chegaram ao seu conhecimento em razão do cargo ou função, são
reais ou fruto de sua percepção ou interpretação equivocada, até porque servia no setor de
Valorização do Mérito e, muito provavelmente, não tinha acesso a todas as etapas e critérios relativas
ao processo de promoção.

Como se percebe, ficamos no plano das ideias, no provavelmente, deduzindo algo que não foi provado
nos autos, muito menos será, pois as irregularidades administrativas que podem eventualmente ter
ocorrido no DAPROM não fazem parte do mérito desta ação penal.

Como se sabe, cabe ao Juiz respeitar a taxatividade da norma penal, um dos fundamentos jurídicos do
Princípio da Reserva Legal. Assim, deve haver vinculação máxima e precisa da conduta ao tipo penal
quando da verificação da tipicidade. É o entendimento do STJ no HC 92010/ES: "princípio da reserva
legal atua como expressiva limitação constitucional ao aplicador judicial da lei, cuja competência
jurisdicional, por tal razão, não se reveste de idoneidade suficiente para lhe permita a ordem jurídica
ao ponto de conceder benefícios proibidos, sob pena de incidir em domínio reservado ao âmbito do
Poder Legislativo".

Da mesma forma, o Conselho Julgador deve primar pela observância do Princípio da Correlação entre a

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Denúncia e a Sentença. Assim, o fato descrito na Denúncia e pelo qual o réu está a ser processado é a
ocorrência de revelação de fato que tinha conhecimento em razão da função e deveria permanecer em
segredo, causando assim prejuízos à Adminstração Militar. Portanto, não cabe ao Conselho Julgador
entrar no mérito de uma possível ocorrência de outros delitos em substituição aos fatos narrados na
Denúncia, tais como possíveis crimes contra a honra. Logo, ao fim da instrução criminal, o que se tem
nos autos é a identificação de alguns procedimentos praticados de forma equivocada pela
Administração Militar, conforme reconhecido pela testemunha Ten Cel DORIAN, mas, segunda
mencionada testemunha, posteriormente o erro fora corrigido. Os demais fatos foram negados pelas
testemunhas e também não qualquer lastro probatório a identificar sua pertinência. Portanto, o que
temos são fatos revelados pelo réu que não foram comprovados a existência e tampouco o prejuízo a
Administração Militar em razão da "revelação", figurando este como elementar do tipo penal. Ora, se
os fatos revelados não existiram, ao menos no plano probatório da verdade processual, evidentemente
não há como incursionar o réu no tipo penal aventado, posto que o "segredo" revelado não existe, ao
menos no campo da verdade processual.

A Defesa se debruça na tese de que o tipo penal denunciado não se aplicaria em casos que revelassem
uma conduta imprópria, que deveria ser revelada por ordem moral, de quem tivesse dela
conhecimento. Trata-se de tese interessante e pertinente. Porém, consoante já exposto, nada se logrou
comprovar nos autos: nem que os fatos relatados pelo réu se revestiriam de notória ilícitude a ponto
de abraçar a tese defensiva e nem tampouco que tais fatos tenham até mesmo existido.

É certo, pois, que os atos praticados pelo ST LOUSIVAL ZUQUI podem e deve ser aferidos na esfera
adminstrativa-disciplinar, pelas autoridades militares competentes. Não obstante, os autos não ofertam
substrato necessário à implementar uma condenação criminal, como até mesmo o R. do MPM
reconheceu em suas alegações orais. Não está aqui a se afirmar que o ST ZUQUI não realizou a
divulgação das informações e tampouco que teria ele agido com correção. O que se afirma é que,
diante das provas colacionadas nos autos, apenas um fato teria ocorrido e, ainda, assim de forma
diferente da mencionada pelo réu. O restante dos fatos foi negado pelas testemunhas, inexistindo,
ainda, provas materiais ou documentais a lhes dar suporte. Assim, não há fato que deveria ser mantido
em sigilo revelado, posto que os fatos foram desmentidos em Juízo pelas testemunhas, o que
descaracteriza o tipo penal, conduzindo à absolvição em homenagem não só ao Princípio do Favor Rei
como também ao Princípio da Correlação entre a Denúncia e Sentença, que impede o Conselho
Julgador a adentrar à análise de outros tipos penais porventuras mapeados na conduta do réu. Na
verdade, temos, pois, uma atipicidade penal. Ainda que comprovados os fatos, restaria prejudicada a
elementar relacionado ao prejuízo à Administração Militar, posto que não se vislumbrou, ao menos no
curso da instrução criminal, qualquer prejuízo efetivo à Administração Militar.

Desta forma, outro caminho não há, senão o da absolvição do réu Louzival Zuqui, considerando a
descaracterização da tipicidade formal de sua conduta, já que não restou provada a existência ou não
do objeto do crime (fatos sigilosos), elemento essencial para a configuração do crime; além,
evidentemente, da ausência de demarcação da elementar "prejuízo à Administração Militar".

DECISÃO
Pelo exposto, o Conselho Permanente de Justiça para o Exército Brasileiro, por unanimidade de votos,
resolve julgar IMPROCEDENTE a DENÚNCIA, para ABSOLVER o LOUSIVAL ZUQUI, pela prática do
delito tipificado no art. 326 do Código Penal Militar, com fulcro no art. 439, alínea "b", do Código de
Processo Penal Militar, sem prejuízo da avaliação de sua conduta na esfera disciplinar, a critério da
autoridade militar a qual se encontra vinculado.

Publique-se.

Registre-se.

Intimem-se.

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Para confirmar a validade deste documento, acesse: https://eproc1g.stm.jus.br/eproc_1g_prod/ e digite o
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Comuniquem-se.

Sala das sessões dos Conselhos de Justiça da Auditoria da 9ª C.J.M., com sede em Campo Grande/MS,
aos vinte e três dias do mês de março do ano de dois mil e vinte.

JORGE LUIZ DE OLIVEIRA DA SILVA


Presidente

Cel Gustavo Luis Ventura Notaroberto


Juiz Militar

Major Márcio Antônio Volpi da Silva


Juiz Militar

Cap Magno Oliveira Fahel


Juiz-Militar

2º Ten Isaac Espindola Correa


Juiz-Militar

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