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4.5 – Molas Helicoidais de Pequeno Passo.

Uma aplicação do estudo da torção de barras de seção circular, com certa


utilidade na engenharia mecânica, se encontra no dimensionamento de molas helicoidais
de pequeno passo, normalmente utilizadas sob tração, em peças de pequeno porte.
Conforme se verifica da análise das forças atuando no corpo livre assinalado na
figura 4.5.1 (b) abaixo, o vetor momento equilibrante do binário formado pelo par de
forças F tem sua direção perpendicular ao plano da figura, portanto, praticamente na
direção do eixo do arame (momento de torção T), já que se trata, por hipótese, de uma
mola de pequeno passo (tornando desprezível a componente deste momento, atuando
como momento fletor).
O equilíbrio de momentos aplicados à parte destacada
F na figura 4.4.1(b) permite escrever:
F x R = T.
Portanto, no cômputo da tensão máxima de
cisalhamento devido à torção do arame, teremos:

d τ max = 16 F R / π d3

(como se verá mais adiante, esta tensão deverá ser


T acrescida do valor (16/3)F/π d2, correspondente ao
corte simples da seção, 4/3 Q/A).
F
No cômputo das deformações devido à torção do
R arame ao longo de seu comprimento (que se manifesta
de forma global através da elongação da mola δ x),
(a) utilizaremos o teorema da energia, escrevendo que o
(b)
trabalho W realizado pela força, crescendo de zero até
δ x seu valor final F, deslocando seu ponto de aplicação de
δ x será armazenado na mola sob a forma de energia
ds elástica por distorção Ud:
s
W = ½ F δ x = Ud = ∫ ud dV,
2
sendo ud = ½ τ / G a energia específica de
τ d/2 distorção, por unidade de volume V (equação 1.8.2).
r Considerando o volume dV assinalado na figura
dV ao lado (dV = 2π r dr ds), onde a tensão tangencial é
dr uniforme ( eq. 4.2.2 ), teremos:
T s =2π Rn r = d/2

(c)
Ud = ∫ s=0 ∫ 0 (1/2G)(FR/Jp)2 r2 2π r dr ds
2π Rn d/2

Fig. 4.5.1 – Mola helicoidal de pequeno passo Ud = ∫ 0 (1/2G) (FR/Jp)2 ds ∫ 0 r2 2π r dr =1/2 P δ x


sob tração. Raio de enrolamento: R; diâmetro
do arame: d;( R >>d); nº de espiras: n. Jp

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Levando em conta que Jp = π d4 / 32, e feitas as simplificações obteremos:
δ x = 64 n R3 F / G d4 que, reescrita na forma tradicional da Lei de Hooke F=Kx se
torna:
F = { G d4 / 64 n R3 } δ x ........................................... (4.5.1)

Kmola Exemplo 4.5.1 – Deseja-se dimensionar a


mola de acionamento de um punção utilizado
para furar papel, dispondo-se de um arame de
aço especial (G = 80 GPa e τ adm = 32 MPa) com
diâmetro de 3 mm.

Pede-se determinar o raio R em que deve ser


enrolada a mola e o número de espiras n,
considerando-se que a máxima força F a ser
aplicada não ultrapasse 15 N, para um curso do
punção de, no máximo, 17 mm.

Solução: Para a força e tensão máximas


admitidas, teremos:
32 x 106 = 16 x 15 x R / π (3)3 x (10-3)3
d Rmax = 11,3 mm.

Utilizando a equação 4.5.1 obtemos:

15 = {80x109 x 34x10-12 / 64n 0,01133} 0,017

n = 79,5 espiras.

Adotando valores inteiros: n = 80 espiras e


R = 11 mm, obteremos, para F = 15 N ⇒
τ max = 31,1 MPa e δ x = 15,8 mm
δ x R
A mola (fechada, em repouso) teria um
comprimento total de 80 x 3 = 240mm, que
somado a seu curso de 15,8 mm totalizaria um
comprimento de 255,8 mm, quando estendida (o
que poderá ser considerado impróprio para a
geometria da peça, indicando outra solução,
com outro R, e outro n, ou até outro arame com
F novo d).
11 Obs.: o pequeno passo da mola (avanço de 3
3 mm somado à elongação por espira, 15,8/80 =
0,2mm, num percurso para uma volta do arame
de valor 2π (11) = 69,1 mm mostra que a
suposição de ser desprezível a flexão e´ cabível
no caso.

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4.6 – Torção de Barras de Seção Retangular. Outras formas de seção. Analogia da
membrana.
As tensões tangenciais despertadas pela torção de uma barra de seção retangular
se distribuem no plano da seção transversal de uma forma mais complexa, quando
comparada à distribuição das tensões no caso da torção de eixos de seção circular, não
se podendo acolher a hipótese de que a seção se mantém plana, depois de torcida a peça.
A simetria da figura apenas permite presumir que, no centro da seção (eixo da barra), a
tensão será nula. Nas quinas da barra (pontos mais afastados do centro), ao contrário do
que se poderia inicialmente presumir, quanto a serem elevadas as tensões, serão elas
também nulas. Realmente: a condição de simetria do tensor das tensões, estabelecida
em 1.5, nos permite escrever que, para essas quinas (pertencentes ao contorno livre da
barra, onde as tensões serão nulas), teremos, necessariamente, que no plano da seção,
também serão nulas as tensões (τ yx = τ xy = τ zx = τ xz = 0), nos quatro cantos da
barra. τ =
0
A Resistência dos Materiais Elementar não dispõe de um
método simples para avaliar as tensões em seções de
formato diferentes da circular. Através da Teoria da
Elasticidade, utilizando equações mais complexas, obtem-
se, para o cálculo da tensão de cisalhamento máxima,
ocorrente nos pontos médios do lado maior da seção
retangular, o valor:

τ = τ Max = T / α h b2 .........................
0 (4.6.1)

Para o ângulo de torção da barra, a teoria aponta:

δθ = T L / β h b3 .......................(4.6.2)
Tabela III sendo os valores de α e β dados na Tabela III abaixo:
h
τ Max
τ Max h/b 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 5,0 10,0 ∞
α 0,208 0,231 0,246 0,258 0,267 0,291 0,312 0,333
β 0,1406 0,1958 0,229 0,249 0,263 0,291 0,312 0,333

As equações obtidas através da Teoria da Elasticidade, utilizadas para


a determinação das tensões tangenciais nos pontos de uma dada seção
b de formato qualquer, em uma barra torcida, observa-se, são idênticas
às equações utilizadas na solução de um outro problema totalmente
Fig.4.6.1 – Torção de barras de distinto, qual seja, o da determinação do formato assumido pela
seção retangular. superfície de uma membrana elástica e homogênea, cujas bordas
fossem presas a uma moldura rígida, com um formato qualquer,
quando submetida a uma diferença de pressão entre suas faces,
estufando. Enquanto nas equações para solução do problema da torção
aparecem as variáveis “tensão” e “torque”, nas equações idênticas para
solução do problema da membrana deformada aparecem as variáveis
“inclinação da membrana” e “diferença de pressão entre as faces”.
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No caso da seção retangular,
a analogia da membrana nos
permite avaliar, sob o
aspecto qualitativo, que
sendo nula a inclinação da
tangente à superfície da
membrana estufada nos seus
quatro cantos e no centro, a
tensão tangencial nos pontos
equivalentes será nula. Da
mesma forma, não é difícil
perceber que a inclinação da
tangente à superfície da
membrana estufada nos
pontos médios dos limites de
maior extensão será maior
(ver figura) que a inclinação
correspondente aos pontos
médios dos lados menores. A
analogia permitiria, portanto,
prever que a tensão máxima
na torção ocorrerá no ponto
médio do lado maior do
retângulo.
Muitas outras evidências
também podem ser extraídas
pela analogia da membrana,
como por exemplo a
ocorrência de tensões muito
(a) elevadas na torção de barras
que tenham seção transversal
com cantos vivos reentrantes
Canto vivo ( Fig. 4.6.2 – b ) sendo
necessária a adoção de raios
de adoçamento para eliminar
a concentração de tensões
nestes locais.
Pode-se também concluir
(b) que, para barras chatas
torcidas, a tensão máxima
independe do formato da
seção, dependendo apenas da
R relação h/b, desde que
promovidos raios de
adoçamento nos cantos vivos
h reentrantes existentes.

R
b (c)

Fig . 4.6.2 – Analogia da membrana. Tensões na torção.


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Exemplo 4.6.1 – Para a peça composta mostrada na
figura (em aço – G = 80 GPa), pede-se determinar a
máxima tensão tangencial e o ângulo de giro da
aresta da extremidade em relação ao engaste.
5 mm Solução: O torque ao longo da peça valerá: T
= 5000 x 0,100 = 500 N m. Para a parte tubular
teremos:η = 90/100 = 0,9 e:
τ max = 16 x 500 /π (1 – 0,94)(0,1)3 = 7,40 MPa
δθ = 500x0,4 / 80x109x(1 – 0,94)(π /32)0,14
= = 0,042º.

Para a barra chata teremos: h/b


400 5 kN = 100/20 =5 e α = β = 0,291
20 . Portanto:
τ
max =500 / 0,291 x 0,100 x
x 0,0202 = 43,0 MPa
δθ = 500x0,5
500 0,291x80x109x0,1x0,023
δθ
100 δθ = 0,77º

5 kN
Exemplo 4.6.2 – Para a peça
mostrada, submetida ao torque T,
determine, considerando os trechos de
seção circular e de seção quadrada, as
relações entre (a) as máximas tensões
tangenciais e (b) entre os ângulos de
a torção por metro de comprimento.
Solução:
τ max = 16T /π a3= 5,093 T / a3

τ max = T / 0,208 a3= 4,808 T


b /a 3

(a) (τ )
max circular / (τ )
max quadrada=
a 1,059
b
δθ = 32Tb /Gπ a4=10,19
T Tb /Ga 4

δθ =Tb /
4 4
0,1406Ga =7,112Tb /Ga

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100

Exemplo 4.6.3 - O perfil “I” esquematizado é


montado através da união de duas barras chatas de
aço, de 100 x 20 mm2 (“mesas”) soldadas a outra
barra chata, também de aço, de 150 x 15 mm 2
(“alma”), sendo submetido a um torque T = 1,00
450 mm
kN.m em sua extensão de 450 mm. Pede-se
determinar:
a) a máxima tensão tangencial no perfil, e
b) o ângulo de torção do perfil .
Solução:
20 Inicialmente deve-se reconhecer que se
100 trata de um problema estaticamente
indeterminado, podendo-se, tão-somente, admitir
que o torque T total será distribuído pelas duas
mesas (Tm em cada) e pela alma (Ta), de forma a
que:
15
T = 2 (Tm) + (Ta)..............(1)
150

A compatibilidade de deformações nos


permite escrever:
T = 1,00 kN.m δ θ alma = δ θ mesa ;
TaL /0,312Gx150x153 = TmL /0,291Gx100x203
Ta = 0,6785 Tm ...............(2)
Levando em (1) obtem-se: T = 2 Tm + 0,6785 Tm
20 Tm = 0,3733 T e Ta = 0,2533 T
100
Tm = 373,3 N.m e Ta = 253,3 N.m
τ alma= 253,3 / 0,312x0,150x0,0152=24,0 MPa
τ mesas = 373,3 / 0,291x0,100x0.020 =32,1MPa
2

δ θ = 373,3x0,450 /
0,291x80x109x0,100x0,0203=
=253,3x0,450 / 0,312x80x109x0,150x0,0153
4.7 – Torção dutos de parede fina.
A determinação das tensões e deformações em barras de seção
transversal diferente da circular, como vimos, recai na solução
de equações complexas. No entanto, para o caso especial de
barras vazadas, constituídas de chapas de parede fina, montadas
na forma de dutos, pode-se conseguir uma solução utilizando-se
uma teoria matemática bem mais simples. Tal estudo tem
aplicação, com boa aproximação, para o caso de dutos de
ventilação, fuselagem de aviões, casco de navios, e outros,
quando submetidos à torção.

Fig.4.7.1 – Torção de dutos de parede fina. Casco de navios. Fuselagens de aviões.


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O fato de a tensão tangencial necessariamente ter a direção tangente ao contorno, tanto externo,
como interno, no caso das barras de parede fina nos leva a admitir que o seu valor se distribui
uniformemente ao longo da espessura da parede.
O torque T na seção será obtido (Fig. 4.7.2 a) pela
integral curvilínea fechada (Fig. 4.7.2 b):
Fig. 4.7 – Dutos de parede fina sob torção.

τ T=
∫ τ e ds ρ sen β .......... (4.7.1)

Uma simplificação importante tornará exeqüível a


T realização de tal integração sem maiores dificuldades,
qual seja, a da invariância do produto (chamado fluxo
cisalhante) τ x e ao longo do perímetro da seção do duto
(ver nota abaixo).
Realmente: a análise do equilíbrio de esforços
(a)
atuantes no elemento assinalado na figura 4.7.2 (c),
τ segundo o eixo x do duto, nos permite escrever:

ds τ 1 e1 dx = τ 2 e2 dx.,
β
que, levada em 4.14, fornece:
ρ

e
β T=
τ e
∫ ds sen β ρ .

Observando, na fig. 4.7.2(b), que ½


ds ds sen β ρ vem a ser a área do
triângulo assinalado ao lado, pode-
(b) se concluir que a integral
ρ
e1
@
e2
∫ ds sen β ρ = 2 @

τ 1 τ 2
computa o dobro da área @ limitada pela linha média da
espessura da parede do duto.
dx Podemos finalmente escrever:

τ = T / 2 e @ ............................ (4.7.2).

Nota: a invariância do produto τ xe (fluxo cisalhante) indica


uma interessante analogia com a equação da continuidade
para o escoamento de fluidos incompressíveis, quanto à vazão
(c) Q = V x A (a velocidade cresce quando a área da canalização
diminui, da mesma forma que a tensão tangencial será maior
nos trechos de menor espessura do duto, como se as tensões
“escoassem” ao longo da parede).
x

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Fig. 4.7.2 – Tensões em dutos de
parede finaQuanto
torcidos.
às deformações, mais uma vez, utilizaremos os conceitos de energia para determinação
do ângulo δ θ de torção do duto em função do torque T que lhe é aplicado (o trabalho realizado pelo
torque será armazenado sob a forma de energia potencial elástica no duto torcido).

W = ½ T δ θ = Ud = ∫ ud dV,
2
sendo ud = ½ τ / G a energia específica de distorção, por
unidade de volume V (equação 1.8.2).
ds L Considerando o volume dV assinalado na figura ao lado
(dV = e dx ds), onde a tensão tangencial é dada por 4.7.2,
podemos escrever:
s e
Ud = ∫ ud dV = ∫
2
dV (½ τ
/ G)dV =
= ∫ ∫ (1/2G)[T/2e@] (e ds dx).
2

x δθ
Na primeira integração,ao longo de s,
teremos como constantes G, T, @ e dx,
dx
permitindo escrever:

Ud = ∫ (1/2G)[T/2@] dx ∫ ds/e).
2

No caso de um duto de seção e material


uniformes, submetido a um torque
constante ao longo de sua extensão,
a segunda integração nos leva a:

Ud = (1/2G)[T/2@] L ∫ ds/e)= ½ T
2

δθ
Fig.4.7.3 – Deformação de dutos de parede fina torcidos.

Teremos portanto:

δ θ = [( Τ L) / 4 G @2] ∫ ds/e ..................................


(4.7.3)
No caso simples de dutos com espessura de parede uniforme (e constante), a integral curvilínea
se converte na relação adimensional perímetro/espessura da seção.
No caso comum de dutos formados pela união de chapas, de espessuras distintas, mas que se
mantêm uniformes na extensão de cada chapa, a integral se converte em um somatório, podendo ser
reescrita sob a forma:
b1
Exemplo 4.7.1 – Mostrar que, no cálculo das tensões e deformações de um duto de parede fina de seção
δ θ = (em
circular, os resultados são convergentes para ambas as teorias estudadas [ ( Τ4.6 eL) / 4 G
em 4.2).
@ ] Σ si /ei ......................
2 Realmente: para um duto circular de
(4.7.4)diâmetro d e espessura de parede e, teremos:
Jp = (π d e) (d/2)2 = π e d3 / 4, portanto, de (4. 2.2):
b2 e2 e1e3 (é o=que
b2 eτ2 = (T/J
b2 p)(d/2) 2T /ocorre,
π e d2.por exemplo, no casco de uma embarcação,
b3 cujo chapeamento do convés tem espessura diferente das
Por outro lado, de 4.6.2 obtemos, com @ = π d /4: 2

τ = (T / 2 echapas
@) = 2T π e d2. e do fundo, ficando no caso:
do/ costado ∫ ds/e76=
Da mesma forma, de 4. 2.8 e 4. 6.4, obteremos,
b1/e1 + 2bsucessivamente:
2/e2 + b3/e3
δ θ = T L / G Jp = 4 T L / G π e d3 = [T L / 4 G @2] π d/e
e

d/2

2 mm
Exemplo 4.672 – A seção transversal da fuselagem de um
avião, próximo à cauda, construída em alumínio (G =28
GPa), tem as dimensões mostradas na figura. Adotando
R=450
os valores admissíveis para a tensão tangencial τ = 90
MPa e para a deformação por torção como sendo 1º / m
de comprimento, pede-se determinar o máximo torque T a
900 que a fuselagem pode ser submetida.
Solução: Para a seção temos @ = 0,9 x 0,8 +
2,5 mm 800 2
2π 0,45 / 2
2,5 mm @ = 1,356 m2 (nota: utilizando as dimensões internas do
duto, obtemos um valor inferior para @,, a favor da segurança
para o cálculo das tensões e deformações).
De 4.6.2 ⇒ τ = 90x106= T / 2x0,002x1,356
max
e Tmax = 488 kN.m.
R=450 De 4.6.4 ⇒ δ θ /L = 1 / 57,3 = [T /4x28x109x(1,356)2] x
3 mm x [( π x 450/2) + 2 x (800/2,5) + ( π x 450/3);
e Tmax = 1977 kN.m.
Portanto = Resp.: Tmax = 488 kN.m.

Problema proposto: dispondo-se de uma chapa (a) de comprimento L, largura b e espessura e,


deseja-se confeccionar um duto dobrando a chapa, com costura nas bordas. Para as opções (b) e
(c) assinaladas pede-se determinar as relações entre as tensões máximas e os ângulos de torção,
para um dado torque T aplicado.

costuras

L
e

(a) (b) (c)


b

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