Você está na página 1de 3

SENTENÇA

I – RELATÓRIO

Trata-se de ação proposta em face do IBGE, objetivando pagamento de


diferenças oriundas de extensão aos inativos/pensionistas do valor pago a título de Gratificação de
Desempenho de Atividade em Pesquisa, Produção e Análise, Gestão e Infra-Estrutura de Informações
Geográficas e Estatísticas (GDIBGE) aos servidores em atividade.

Alega a parte autora, em síntese, que a Lei nº 11.355/2006, através da qual


foi instituída a citada gratificação, previu pagamento linear aos servidores ativos enquanto não efetivado
procedimento de mensuração da produtividade, superior ao determinado para os aposentados/pensionistas
que já percebiam seus benefícios quando de sua vigência, o que, no seu entender, representa afronta ao §8º,
do art. 40 da CF/88, razão pela qual entende fazer jus à percepção de tais gratificações de forma integral.

Devidamente citado, o IBGE apresentou contestação, pugnando pela


improcedência do pedido.

A causa é meramente de direito, comportando julgamento antecipado (art.


330, I do CPC). É o breve relato, que poderia até ser dispensado (art. 38 da Lei nº 9.099/95). Passo a
decidir.

II – FUNDAMENTAÇÃO

A Gratificação de Desempenho de Atividade em Pesquisa, Produção e


Análise, Gestão e Infra-Estrutura de Informações Geográficas e Estatísticas (GDIBGE) é devida aos
servidores, ativos e aposentados ou pensionistas, com fundamento no art. 80 da Lei nº 11.355, de
19/10/2006.

Nos termos do art. 81-A da referida lei, o valor mensal da GDIBGE depende
da pontuação decorrente do desempenho institucional e coletivo dos servidores, respeitando-se o valor
máximo de 100 (cem) pontos para cada servidor.

Não havendo na lei disposição sobre os critérios de aferição da


produtividade, previu o art.80, § 4º que tal atribuição caberia ao Conselho Diretor do IBGE:

Art. 80 (...)
§ 4º Os critérios e procedimentos específicos de avaliação de desempenho
institucional e individual e de atribuição da GDIBGE serão estabelecidos em ato do
Conselho Diretor do IBGE, observada a legislação vigente

Antevendo possível demora na regulamentação desse dispositivo, o art. 81 da


lei 11.907/2009 previu o pagamento da citada gratificação nos seguintes termos:

Art. 81. Até que seja publicado o ato a que se refere o § 4o do art. 80 desta Lei e
processados os resultados da primeira avaliação individual e institucional, conforme
disposto nesta Lei, todos os servidores que fizerem jus à GDIBGE deverão percebê-la
em valor correspondente ao último percentual recebido a título de GDIBGE,
convertido em pontos que serão multiplicados pelo valor constante do Anexo XV-A
desta Lei, conforme disposto no art. 81-B desta Lei.
§ 1o O resultado da primeira avaliação gera efeitos financeiros a partir da data de
publicação do ato a que se refere o § 4o do art. 80 desta Lei, considerando a
distribuição de pontos de que trata o art. 80 desta Lei, devendo ser compensadas
eventuais diferenças pagas a maior ou a menor.
§ 2o O disposto no caput deste artigo e no seu § 1o aplica-se aos ocupantes de
cargos comissionados que fazem jus à GDIBGE.
(...)

Por outro lado, o art. 149 do mesmo diploma normativo assim dispôs
quanto ao pagamento da GDIBGE para os inativos:

Art. 149. Para fins de incorporação das gratificações de desempenho a que se referem
os arts. 34, 61, 80 e 100 desta Lei aos proventos de aposentadoria ou às pensões,
serão adotados os seguintes critérios:
I - para as aposentadorias concedidas e pensões instituídas até 19 de fevereiro de
2004, a gratificação será correspondente a 50% (cinqüenta por cento) do valor
máximo do respectivo nível, classe e padrão;
II - para as aposentadorias concedidas e pensões instituídas após 19 de fevereiro de
2004:
a) quando ao servidor que deu origem à aposentadoria ou à pensão se aplicar o
disposto nos arts. 3o e 6º da Emenda Constitucional nº 41, de 19 de dezembro de
2003, e no art. 3º da Emenda Constitucional nº 47, de 5 de julho de 2005, aplicar-se-á
o percentual constante no inciso I do caput deste artigo;
b) aos demais aplicar-se-á, para fins de cálculo das aposentadorias e pensões, o
disposto na Lei no 10.887, de 18 de junho de 2004.

Desse modo, considerando que os critérios e procedimentos específicos de


aferição da produtividade somente serão estabelecidos em ato do Conselho Diretor do IBGE, conforme
previsão do art. 80, § 4º, e considerando, ainda, que a rubrica não está sendo adimplida com base na
produção pessoal, constata-se separação desarrazoada entre os ganhos a título de GDIBGE conferidos aos
ativos e aos aposentados/pensionistas. Ora, se até a definição de meios de avaliação dos servidores ativos
estes ficarão percebendo montante fixo, não se pode estabelecer distinção em relação aos
inativos/pensionistas, sob pena de afronta ao princípio da isonomia.

Assim sendo, faz jus a parte autora à implantação da diferença entre a


pontuação determinada aos aposentados/pensionistas e aos servidores da ativa, até que sejam estabelecidos
e operacionalizados os critérios de produtividade, bem como à percepção da diferenças atrasadas apuradas
pelo mesmo fundamento, devendo-se levar em conta que, no cálculo dos valores devidos, deverá haver o
desconto de quantias, mesmo que parciais, eventualmente pagas nos termos do pedido, conforme fichas
financeiras da parte autora.

III – DISPOSITIVO

Diante do exposto, julgo parcialmente procedente o pedido, nos termos do


art. 269, I, do CPC, para condenar o INSS a implantar a gratificação GDIBGE em valor idêntico ao que
vem sendo percebido pelos servidores da ativa, até que seja disciplinada a forma de aferição do desempenho
individual e institucional e sejam processados os resultados da primeira avaliação, quando então os
promoventes passarão a receber a pontuação prevista para as aposentadorias e pensões; bem como a pagar
as quantias em atraso até a efetivação da obrigação de fazer, nos termos da fundamentação, desde a
instituição da parcela remuneratória (GDIBGE), para os autores que já eram aposentados e pensionistas
nessa data, ou que, mesmo ainda não sendo pensionistas, tiveram o benefício oriundo de instituidor que já
era aposentado em tal época; e/ou desde a data da concessão da aposentadoria ou pensão, caso essa data seja
posterior à instituição da parcela remuneratória.

Os valores atrasados serão pagos através de RPV, com juros de mora de 0,5%
ao mês a partir da citação (art.1º-F da Lei nº 9.494/97) e correção monetária, a contar do vencimento, nos
termos do Manual de Cálculos da Justiça Federal, conforme planilha de cálculos a ser elaborada pela
Contadoria do Juízo.
A execução limita-se ao teto, considerando o respectivo montante na data de
expedição da requisição de pequeno valor (RPV).

Na RPV, será deduzida a verba honorária devida ao patrono no percentual


indicado no contrato que for juntado até a respectiva expedição e, caso não seja juntado contrato, fica
arbitrada a quantia no percentual de 20% do valor da condenação nos termos do § 2° do art. 22 da Lei
8.906/1994.

Defiro o benefício de Justiça Gratuita pleiteado. Sem custas e honorários


advocatícios (art. 55 da Lei nº 9.099/95).

Publicação e registro decorrem automaticamente da validação desta sentença


no sistema eletrônico. Intimem-se.

Natal/RN, 1º de outubro de 2009.

MANUEL MAIA DE VASCONCELOS NETO


Juiz Federal

[1] ARAGÃO, Egas Dirceu Moniz. Comentários ao Código de Processo Civil. Rio de Janeiro: Forense, 1995. 8ª ed. p.
394.