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Pesquisa Qualitativa
e Análise de Conteúdo
Sentidos e formas de uso

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o arquivamento em qualquer sistema ou banco de dados.

Título
Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo – Sentidos e formas de uso
Autora
Isabel Carvalho Guerra
Edição e copyright
Princípia, Cascais
1.ª edição – Junho de 2006
Reimpressões – Setembro de 2008; Fevereiro de 2010; Janeiro de 2012; Setembro de 2014
© Princípia Editora, Lda.
Design da capa Maia Moura Design • Execução gráfica Tipografia Lousanense
ISBN 978-972-8818-66-1 • Depósito legal 241774/06

Princípia
Rua Vasco da Gama, 60-C – 2775-297 Parede – Portugal
Tel.: +351 214 678 710 • Fax: +351 214 678 719 • principia@principia.pt • www.principia.pt

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Isabel Carvalho Guerra
Professora Catedrática do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa
e da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa

Pesquisa Qualitativa
e Análise de Conteúdo
Sentidos e formas de uso

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Introdução

Ao contrário do que sucede com a utilização de metodologias e técnicas mais


lógico-dedutivas, como por exemplo a construção de inquéritos por questionário, as
metodologias e técnicas qualitativas sofrem de uma grande fluidez de estatuto teóri-
co-epistemológico e de formas de aplicação e tratamento.
Desde os anos 70 que o retomar do interesse por este tipo de pesquisas emer-
ge a partir da renovação das «famílias metodológicas» mais qualitativas em resultado
de um trabalho aprofundado de refrescamento das conceptualizações weberianas,
em particular as que foram accionadas pelo interaccionismo simbólico e as «groun-
ded theories».
Como é conhecido, Max Weber, mergulhado numa Alemanha atravessada por
apaixonados debates sobre a questão dos métodos que confrontavam as ciências da
natureza e as ciências da cultura, irá defender uma nova perspectiva, fazendo da
actividade social o fulcro do interesse sociológico. A análise sociológica deveria
estar centrada no sentido que lhe é dado pelo(s) actor(es) que orienta(m) os seus
comportamentos num contexto de racionalidades variadas em interacção com os
outros. Weber não exclui os conceitos e as representações colectivas, considerando
mesmo necessário aprofundar a lógica social de certas estruturas societais que fun-
cionam como enquadramento das formas como os sujeitos interagem. O que impor-
ta salientar é que Weber (1992) pretende fazer da sociologia uma disciplina que
encara os acontecimentos da vida humana sob o ângulo da sua significação cultural,
distinguindo-se assim claramente de um tipo de análise que visa descobrir as leis da
regularidade do funcionamento societal.
A retoma mais actual dos «paradigmas compreensivos»1, nos finais do século
XX, vai num primeiro momento assumir uma postura muito crítica em relação às
metodologias lógico-dedutivas e propor a substituição da procura das regularidades
e das «leis» do funcionamento societal pelos sentidos sociais accionados pelos acto-

1
A oposição entre metodologias quantitativas e metodologias qualitativas tem cada vez menos sentido, até pelas
formas «quantitativas» de tratamento do «qualitativo». Neste sentido, preferimos apelidar de «metodologias compreensivas
ou indutivas» as metodologias que se socorrem de quadros de referência weberianos (como as etnometodologias, o
interaccionismo, as teorias enraizadas, etc.) e de «lógico-dedutivas ou cartesianas» as metodologias que se socorrem de
quadros de interpretação sistémicos ou funcionalistas.

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res nos seus comportamentos, substituindo a explicação das causalidades pela com-
preensão dos sentidos da acção social. Opera-se, assim, uma dupla deslocalização
do objecto de pesquisa: do centramento nas instituições sociais estabilizadas para a
procura do sentido da acção social de sujeitos concretos; e do centramento nos
enquadramentos do profissional-investigador para a atenção ao actor/utente. «Esta
deslocação do ponto de referência da pesquisa é tal que as categorias de percepção
e análise estabelecidas pela organização ou pelos agentes profissionais são deixadas
em suspenso, questionadas e muitas vezes substituídas por análises e conceitos que
fazem mais apelo às redes sociais, às estratégias dos actores, às suas representações
e trajectórias, quer dizer, à diversidade da vida social da qual é parte integrante»
(Lionel-Henri Groulx, 1997, p. 58).
Hoje assumimos que as perspectivas sistémicas e compreensivas não são, por
natureza, opostas, na medida em que se influenciam reciprocamente, sendo mesmo
complementares. A perspectiva sistémica é particularmente pertinente para a análise
de longos períodos de estabilidade quando as regularidades provocam efeitos de
sistema, situação em que a análise deve consistir expressamente na procura de regu-
lações ou formas estruturais que produzem e reproduzem o sistema. A perspectiva
compreensiva torna-se mais pertinente para explicar os períodos de crise, particular-
mente aqueles em que se assiste a transformações culturais com profundas mudan-
ças ao nível das práticas sociais.
Por outro lado, parece pertinente rejeitar a hipótese de uma hierarquia na
prática social de investigação e substituí-la pela hipótese de uma influência mútua
ou de uma co-determinação entre os diferentes elementos constitutivos da análise.
De facto, opor a um individualismo metodológico, que pretende entender os fenó-
menos macroscópicos sobre as bases de um funcionamento micro, a um holismo
que considera o todo social, impondo-se às partes, só pode conduzir a um confron-
to estéril. Autores tão diferentes como Durkheim ou Touraine centram o interesse
científico numa análise que encontra na relação social a unidade de base capaz de
explicar um conjunto de fenómenos sociais do microscópico ao de regulação macro
e essa relação social pode ser estudada a um nível macrossociológico ou microsso-
ciológico, dependendo do objecto do investigador.
Os resultados das pesquisas, mesmo as mais localizadas, exigem geralmente
a situação dos acontecimentos num conjunto global, inscritos em tendências a longo
prazo, permitindo assim uma melhor compreensão dos contextos nos quais se inse-
rem as múltiplas interacções individuais.

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Introdução

Mas a especificidade das perspectivas compreensivas é, sobretudo, a sua orien-


tação para a identificação das práticas quotidianas e das emergências de novos fenó-
menos sociais, que elucidam ou transformam, no hic et nunc das dinâmicas sociais,
as regras ou as instituições existentes. Não estamos perante indivíduos isolados pelo
individualismo metodológico, mas perante actores que agem tendo em conta a per-
cepção dos outros e balizados por constrangimentos sociais que definem intencio-
nalidades complexas e interactivas. Assim, o ponto de partida associa a análise da
racionalidade dos actores à atenção aos modelos de interacção entre os sujeitos e os
sistemas sociais, no contexto de um «sistema de acção» socialmente construído onde
os contextos transcendem as situações imediatas.
A passagem de um ao outro nível de análise não é, no entanto, automática e
está no centro de um número considerável de polémicas quer teóricas, quer metodo-
lógicas. De facto, a lógica de funcionamento societal e a lógica de construção do
sentido da acção social têm descontinuidades que advêm de efeitos de aglomeração,
muitos deles perversos, como nos ensinou Boudon2. Confronta-se de alguma forma
uma sociedade «em acto» ou, dito de outra forma, confronta-se a «produção social»
quotidiana com a «reprodução social» gerada pelo funcionamento das estruturas e
regras de jogo do funcionamento societal.
Para que um conjunto complexo de microacontecimentos possa constituir
uma estrutura macro, deve estar suficientemente sedimentada para resolver/apoiar
alguma função social importante, ser enunciada de forma racional e alargada pelos
autores que a mobilizarão para atingir certos fins e, finalmente, possuir uma durabi-
lidade e uma longevidade suficientes. Esta passagem de microacontecimento para
macroestrutura não se realiza plenamente senão quando «os investimentos» foram
suficientes para fazer emergir as propriedades estruturantes dos sistemas de acção:
estes últimos tornam-se o meio e o resultado das práticas sociais, viabilizando assim
a contínua e contingente reprodução na vida quotidiana (Giddens, 1987b).
Mas é forçoso assumir que o conhecimento das regularidades do funciona-
mento societal não é suficiente para dar conta das complexidades das dinâmicas
sociais e, sobretudo, dos processos de mudança, pois é através desses processos
que se criam assimetrias e interagem inúmeras racionalidades, já que os actores

2
Ver o desenvolvimento desta ideia em Isabel Guerra (2001), Fundamentos e Processos de Uma Sociologia da
Acção: o Planeamento nas Ciências Sociais, Princípia, Cascais.

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agem de forma diferenciada, têm acessos diferenciados aos recursos, possuem dife-
rentes competências para interpretar e intervir no contexto em que se inserem.
Há, no entanto, uma grande diversidade de modelos propostos, metodológicos
e técnicos, alguns limitando-se exclusivamente às interacções quotidianas e rejeitando
o «ambiente» e todos os fenómenos que relevam de níveis mais macrossociais, e ou-
tros construindo enquadramentos mais complexos onde estão presentes todos os ní-
veis de interacção humana. Mas, ainda, se uns pretendem tão simplesmente narrar os
acontecimentos da vida social, outros de forma mais ambiciosa pretendem reconstruir
indutivamente as teorias interpretativas da mudança social. A referência comum para
todos são, no entanto, as teorias compreensivas e a herança histórica de Weber.
Enquanto se aguarda por teorizações mais avançadas na explicitação desta
relação entre o sistema e os actores (mesmo estando conscientes da pouca vantagem
desta velha dicotomia), vamos desenvolvendo formas de investigação que procuram o
sentido da acção colectiva, isto é, conhecer os sentidos e as racionalidades que fazem
cada um agir e, por via disso, produzir a sociedade onde todos vivemos. É o aprofun-
damento dessa racionalidade cultural que permitirá conhecer as formas de produção
da sociedade e os contornos da mudança social. Esse conhecimento daria ao cientista
social um enorme campo de intervenção e de interacção com os actores sociais.
Assim, as vantagens das metodologias compreensivas são, segundo Poupart
(1997), de várias ordens: de ordem epistemológica, na medida em que os actores são
considerados indispensáveis para entender os comportamentos sociais; de ordem
ética e política, pois permitem aprofundar as contradições e os dilemas que atraves-
sam a sociedade concreta; e de ordem metodológica, como instrumento privilegiado
de análise das experiências e do sentido da acção.

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Capítulo 1

A DIVERSIDADE DE PARADIGMAS
DE REFERÊNCIA E OS PRESSUPOSTOS
DAS METODOLOGIAS COMPREENSIVAS

É preciso considerar que, na denominada «investigação qualitativa», se en-


quadram práticas de pesquisa muito diferenciadas, fazendo apelo a diversos para-
digmas de interpretação sociológica com fundamentos nem sempre expressos e de
onde decorrem formas de recolha, registo e tratamento do material também elas
muito diversas. Jean-Pierre Deslauriers afirma mesmo que «a expressão “métodos
qualitativos” não tem um sentido preciso em ciências sociais. No melhor dos ca-
sos, designa uma variedade de técnicas interpretativas que têm por fim descrever,
descodificar, traduzir certos fenómenos sociais que se produzem mais ou menos
naturalmente. Estas técnicas dão mais atenção ao significado destes fenómenos do
que à sua frequência» (1997, p. 294).
Assim, este livro não pode deixar de ter uma perspectiva própria de utiliza-
ção das metodologias qualitativas, em grande medida baseada na reconceptualiza-
ção que tem surgido na academia a partir de uma utilização alargada das histórias
de vida. Esta reflexão está centrada na realização de entrevistas intensivas, mais do
que na observação ou na análise documental e é, por um lado, um posicionamen-
to provisório face a um processo de aprendizagem e clarificação ainda em curso e,
por outro lado, um treino «viciado» por um certo tipo de entrevistas em profundida-
de orientadas para a recolha de informação em primeira mão 3. É também uma

3
Embora parte desta análise possa ser utilizada noutro tipo de entrevistas, nomeadamente nas entrevistas a
informadores privilegiados, utilizamos estas formas de equacionar a análise compreensiva referindo-nos a entrevistas em
profundidade feitas a actores que falam das suas experiências personalizadas.

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proposta de trabalho ao nível da análise de conteúdo que não utiliza programas


informáticos, hoje disponíveis e já razoavelmente amigáveis4.
Vários pressupostos inter-relacionados questionaram os métodos quantitativos:
• A crise dos paradigmas estruturo-funcionalistas;
• A crítica aos critérios de cientificidade tradicionais, nomeadamente a aten-
ção ao «senso comum» e ao quotidiano, a defesa do pragmatismo, das
finalidades e da «produtividade» da ciência social face aos seus compro-
missos societais;
• A descoberta da relatividade do conhecimento e da pluralidade dos mo-
dos de pensar, ser e fazer.
Como já se referiu, não se opõem as metodologias positivistas e cartesianas às
metodologias compreensivas, mas defende-se que há uma profunda ruptura episte-
mológica, teórica e metodológica entre estes diferentes tipos de produção do conhe-
cimento e que não se dar conta dessa diferença é comprometer os processos e
mecanismos da pesquisa. O accionamento de metodologias compreensivas levanta
vários e profundos questionamentos que atravessam, por oposição, os pressupostos
das metodologias hipotético-dedutivas:
• Estamos perante a «explicação» ou a «interpretação» do social e o que
significam esses conceitos?
• Qual o papel do actor, no quadro epistemológico de manifestação do eu
e na produção do conhecimento?
• Como se poderá dispensar uma representatividade estatística a favor de
uma representatividade social?
• Qual a articulação entre o «objectivo» e o «subjectivo» na análise da vida
quotidiana?
• Qual a epistemologia da relação entrevistado/entrevistador e como equa-
cionar a «perda de objectividade»?
• Haverá oposição na passagem de metodologias dedutivas para metodolo-
gias indutivas (há quem diga transductivas) na análise sociológica?
• Como passar de conceitos particulares para teorias universais? É possível
– e desejável – fazê-lo?

4
A nossa experiência permite-nos afirmar que a utilização de programas informáticos de análise de conteúdo e o
consequente tratamento informático multivariado não dispensam uma análise categorial e tipológica tradicional como a
que aqui se apresenta.

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A Diversidade de Paradigmas de Referência

1.1. Concepção teórico-metodológica das entrevistas


e histórias de vida

a) A «explicação» e a interpretação social: das regularidades às interdependências


O confronto entre técnicas de pesquisa diversas é também o confronto entre
«correntes» sociológicas até hoje razoavelmente inconciliáveis: opõe-se o «estrutural» ao
«compreensivo» através da eterna trilogia sociológica da relação entre estruturas, práti-
cas e representações. São hoje inúmeras as tentativas de reconciliação destes paradig-
mas, tentando entender a vida social contemporânea a partir da relação entre o actor e
o sistema. Giddens, Beck, Habermas, etc. são alguns dos autores mais recentes que
tentam organizar teorias gerais na procura de um entendimento integrado das dinâmi-
cas sociais e da refundação daquilo a que Touraine chamaria uma teoria da acção.

Figura 1
A DIVERSIDADE DE «PARADIGMAS» DE ENTENDIMENTO DO «SOCIAL»

Est r ut ura s

NOVA
TEORIA DA
ACÇÃO

Prática s R epre senta çõe s

Durante anos, a ciência defendeu que o seu objectivo central era a «desocul-
tação» do real realizada a partir de quadros de reflexão e hipóteses de trabalho
deduzidas para a verificação empírica. Este posicionamento tem subjacente uma
concepção da sociedade que obedece a regularidades sociais (a leis de funciona-
mento societal) a partir das quais é possível interpretar os fenómenos concretos. É a
época dos grandes quadros teóricos de interpretação da sociedade, mais marxistas
ou mais funcionalistas, mas sempre sistémicos.

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

A recusa da realidade em ser interpretada de forma linear e determinista (e a


redundância de muitas pesquisas dedutivas que provavam o já provado) alertou para
a multiplicidade dos fenómenos sociais e para a sua não-redutibilidade à interpreta-
ção a partir dos grandes quadros «estruturais». O desencadeamento da polémica é,
sobretudo, realizado a partir da reemergência do interesse pela vida quotidiana e
pelos «modos de vida», a que a sociologia foi muito sensível nos anos 80.
Confrontavam-se então duas linhas dicotómicas de pesquisa da vida quotidia-
na: por um lado, a dos que defendiam que a vida quotidiana só poderia ser inter-
pretada à luz das grandes determinações estruturais de que ela era, em grande parte,
um reflexo; e, por outro lado, a dos que defendiam que a vida quotidiana possuía
uma lógica própria, não redutível nem dedutível das grandes determinações estrutu-
rais. Os primeiros analisavam a vida quotidiana a partir das determinações estru-
turais, sobretudo de «classe»; os segundos centravam-se no colorido dos modos de
ser e fazer quotidianos, retomando as teorias weberianas do sentido da acção social
mesmo quando balizada pelas instituições, os costumes e as normas colectivas.
Nesse debate estava não só a defesa de uma «sociologia do quotidiano» e das
pequenas coisas, tão querida a Maffesoli, ou a Goffman, mas também a chamada de
atenção para o equilíbrio da relação entre a análise das grandes forças sistémicas
que historicamente formatam a nossa sociedade e a análise da estratégia de actores
que, em cada circunstância concreta, têm nas suas mãos o fermento da mudança.
É verdade que as «estruturas» que organizam os sistemas e os modos de acção colec-
tiva não são dados «naturais» que emergem espontaneamente e cuja existência seria o
resultado automático de uma dinâmica qualquer. Mas as estruturas não são tão-
-pouco o fruto da soma linear das decisões individuais. As «estruturas» são sempre
«provisórias e contingentes», fruto das soluções encontradas pelos actores graças a
recursos e capacidades específicos e historicamente datados5.
As novas propostas do final do século XX pretendiam ultrapassar a dicotomia
tradicional entre sujeito e sociedade, entre estruturas e práticas, entre dedução e
indução, propondo novas rearticulações. Revendo Touraine (1984), pretendia-se não
encontrar a «explicação» do social, mas «interpretar» o sentido da dinâmica social.

5
As estruturas e as formas de acção colectiva (mais ou menos formalizadas/institucionalizadas) são «artefactos
humanos», estruturação de um «mínimo de organização dos campos de acção social». Isto significa que o sistema de acção
resulta de «efeitos de agregação» ou de «efeitos de sistema» (Crozier, 1977) cuja lógica de funcionamento não provém
directamente da racionalidade/intencionalidade dos actores individuais.

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A Diversidade de Paradigmas de Referência

Touraine incita à ultrapassagem do conceito de «sociedade» pelo conceito de «vida


social», centrando o trabalho sociológico na análise da estratégia dos actores e iden-
tificando a dialéctica contraditória dos fenómenos e relações sociais: «O essencial é
que a separação crescente do actor e do sistema seja substituída pela sua interde-
pendência, graças à ideia de sistema de acção… Em lugar de descrever os mecanis-
mos de um sistema social, da sua integração e da sua desintegração, da sua estabilidade
ou mudança, os sociólogos devem voltar ao estudo das respostas sociais à análise
dos mecanismos de autoprodução da vida social» (1984, pp. 31 e 103).
A interpretação sociológica recusaria a explicação que apela às regularidades
e ao sentido de causalidade, revendo-se nos paradigmas compreensivos onde con-
vergem diferentes correntes que vão desde a etnometodologia e a fenomenologia às
«teorias enraizadas»6, etc. e que se caracterizam pela oposição ao naturalismo das
ciências humanas.
Do ponto de vista ontológico, o objecto de análise é o mundo humano, o que
implica, como afirmam Michelle Léssard-Herbert e outros, considerar que «os factos
sociais não são “coisas” e a sociedade não é um organismo natural, mas sim um
artefacto humano. Do que se precisa é de compreender o significado dos símbolos
sociais, artefactuais e não explicitar as realidades sociais “externas”. O ponto de vista
“objectivo” ou “neutro”, recomendado pelo positivismo, é uma impossibilidade me-
todológica e uma ilusão ontológica: estudar o social é compreendê-lo (o que não se
torna possível sem o reviver); o objecto social não é uma realidade exterior – é uma
construção subjectivamente vivida» (1994, p. 48).
De facto, as metodologias compreensivas defendem uma outra forma de
abordagem, mais próxima de Weber, Touraine ou Bertaux do que de Durkheim,
mediante a passagem da análise das regularidades para a análise dos processos
sociais onde se encontra a lógica social dos fenómenos, o que só poderá ser reali-
zado a partir do centramento das análises nas racionalidades dos sujeitos. A tenta-
tiva é a de reconciliar Marx com Weber e estabelecer uma nova teoria da acção
social que articule o triângulo acima descrito, no contexto de uma discussão ainda
hoje não terminada, mas que tem desde já uma profunda influência nos modos de
pensar e investigar.

6
Tradução de grounded theories retomadas por B. Glaser e A. L. Strauss (1967), The Discovery of Grounded Theory.
Strategies for Qualitative Research, Aldine, Chicago.

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As causalidades complexas
Recusar a procura das regularidades implica também deixar de lado a procura
das «causas» dos fenómenos sociais e basear toda a análise em hipóteses de relaciona-
mento entre variáveis. Apesar da diversidade de entendimentos do conceito de causa7,
as metodologias compreensivas mergulham em universos sistémicos e complexos onde
as variáveis (as dinâmicas) identificadas são, simultaneamente, causas e efeitos, dada a
interdependência complexa entre os fenómenos sociais. O recurso à análise de siste-
mas complexos, e a muitos dos seus instrumentos8, permite a passagem para um con-
ceito de causalidade sistémica ligada a concepções mais interactivas da vida social ou
à teoria dos sistemas. Esta teoria postula que não há determinantes causais entre variá-
veis, na medida em que a sua interacção as coloca simultaneamente como causa e
efeito dos dinamismos de umas e outras. «Nas ciências sociais, a noção de causalidade
vai assumir um significado particular. Trata-se menos de encontrar um factor gerador
do que factores interdependentes» (Madeleine Grawitz, 1993, p. 359).
No entanto, ainda hoje muitas das análises qualitativas utilizam os conceitos de
causa e de hipótese (ver mais à frente o ponto 3.2.) mesmo não lhe atribuindo o
mesmo sentido que assumem nas pesquisas hipotético-dedutivas. Segundo Michelle
Léssard Herbert e outros (1994), o postulado da interpretação na pesquisa qualitativa
desempenha o papel de um duplo princípio de causalidade: ao nível geral, os seres
humanos constróem um conhecimento da natureza e dos outros seres humanos graças
à (por causa da) interpretação da vida social e, a um nível especificamente social, essas
interpretações de nível geral conduzem a (são a causa de) determinadas acções leva-
das a cabo pelos seres humanos. Nesse sentido, é a diversidade das interpretações da
vida que permite a mudança e esta é o centro do olhar sociológico.

b) O individualismo – Do sentido da acção à mudança social


A abordagem compreensiva tem um posicionamento específico face ao papel
do sujeito na vida social. De facto, todas as teorias sociológicas assumem, de forma
expressa ou implícita, uma determinada concepção do sujeito e da acção social.

7
Ver o papel da explicação pela «causa» em Madeleine Grawitz (1993), Méthodes de Sciences Sociales, Ed. Précis,
Dalloz, 9.ª edição, pp. 356 e seguintes.
8
Nomeadamente a modelização, que permite apoiar o entendimento da complexidade e da interactividade dos
sistemas humanos.

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A Diversidade de Paradigmas de Referência

Essa diversidade de concepções vai desde o homem «alienado» (e coisificado) de


Marx, ao homem «integrado» de Durkheim ou até ao «homo communicans» das teo-
rias interaccionistas.
As análises compreensivas têm em comum a assunção da concepção webe-
riana do sujeito, que o considera capaz de ter racionalidades próprias e comporta-
mentos estratégicos que dão sentido às suas acções num contexto sempre em mudança
provocada pela sua própria acção. Do ponto de vista qualitativo, considera-se que
os sujeitos interpretam as situações, concebem estratégias e mobilizam os recursos e
agem em função dessas interpretações. No contexto do paradigma interpretativo, o
objecto de análise é formulado em termos de acção, acção essa que abrange o
comportamento físico e os significados que lhe são atribuídos pelo actor e por aque-
les com quem ele interage. No entanto, tradicionalmente, e do ponto de vista socio-
lógico, o objecto da investigação social interpretativa é o significado dessa acção
(meaning in action), e não o comportamento em si próprio.
Como afirmam Michelle Lésard Herber e outros (1994), o investigador postula
uma variabilidade das relações entre as formas de comportamento e os significados
que os actores lhes atribuem através das suas interacções sociais, pois que a com-
portamentos idênticos do ponto de vista físico podem corresponder diferentes signi-
ficados sociais. O trabalho do investigador centra-se nesta variabilidade das relações
comportamento/significado e visa, ao nível do pólo teórico, a descoberta de «esque-
mas específicos da identidade social de um dado grupo» (Erikson). A uniformidade
do social seria apenas aparente e não uma propriedade do próprio mundo, o que
não significa que num dado momento histórico os seres humanos não disponham
de um conjunto de crenças comuns, isto é, de um conjunto de interpretações colec-
tivas, a que chamamos geralmente «cultura».
Esta perspectiva tem especial impacte nas histórias de vida, já que a emergência
do interesse pelo material biográfico está ligada de forma intrínseca ao processo de
individualização. A entrevista em profundidade (ou a história de vida) só é possível
quando o narrador se separa de uma história colectiva e se reporta a um discurso
pessoal que ele próprio estrutura. É a partir de uma concepção específica da essência
do ser humano, caracterizado pelos traços de liberdade e igualdade, que o sujeito
concebe quer a necessidade imperiosa de realizar o seu futuro pessoal, quer a possibi-
lidade de organizar a sua história de vida através de uma racionalidade própria.
Há quem afirme que esta forma de individualismo só existe nas sociedades
ocidentais, sendo difícil pesquisá-la através de «histórias de vida» em sociedades,

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por exemplo, do tipo africano, cuja identidade grupal absorve a identidade pessoal,
ou mesmo junto de grupos de camponeses (para quem a visão cósmica do mundo
retira parte da identidade individual) ou ainda de jovens ou crianças (cuja identida-
de pessoal está ainda diluída nos grupos de pertença). Nestes contextos, seria pos-
sível apenas algumas entrevistas em profundidade ou récits de la pratique 9, que
constituirão excertos de elementos biográficos parciais, mas não uma verdadeira
história de vida.
Seja qual for o método a ensaiar, nas entrevistas compreensivas os sujeitos
tomam o estatuto de informadores privilegiados, uma postura muito diferente da dos
entrevistados nos métodos de pesquisa mais cartesianos, que são reduzidos à posição
de informadores objectivos. Na primeira postura epistemológica, o investigador perde
o controlo da relação, necessariamente de poder, que lhe dá o facto de ser o único
que controla o saber, pois o saber que agora interessa está no personagem a entrevis-
tar. No entanto, no trabalho sociológico, «o acento não é colocado na interioridade
dos sujeitos, mas sim no que lhes é exterior, isto é, nos contextos sociais sobre os
quais adquiriram um conhecimento prático» (Bertaux, 1997, p. 17). Claro que se trata
de actores situados em contextos de acção concretos, e a atenção à criação de signi-
ficações pelos actores (sense making) – centro de interesse das problemáticas inter-
pretativas – remete para uma dimensão social fundamental que corresponde à relação
entre as perspectivas dos actores e os contextos nos quais eles se encontram implica-
dos. Esta postura epistemológica, teórica e metodológica levanta um sem-número de
questões específicas das metodologias qualitativas, quer do ponto de vista da sua con-
cepção, quer do das consequências práticas durante a execução de uma pesquisa:
• O que o sujeito diz é sempre verdade?
• Como generalizar de um para vários sujeitos?
• Como dar conta da multiplicidade de pontos de vista?
O que poderemos dizer desde já é que a «verdade» científica se coloca de
forma semelhante nas pesquisas dedutivas e indutivas, embora umas e outras organi-
zem de forma diferente o processo de construção do conhecimento:
• Confronta-se um determinado corpo de conhecimentos teóricos com os
dados empíricos, o que permite a interpretação dos resultados da pesquisa;

9
O conceito francês de récit de la pratique significa a realização de histórias de vida estruturadas a partir de um fio
condutor problemático (por exemplo, a mobilidade social ou habitacional) e é de difícil tradução para português.

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A Diversidade de Paradigmas de Referência

• O conhecimento é progressivamente elaborado e sempre conjunturalmen-


te produzido;
• É necessário introduzir um pluralismo e um relativismo na definição dos
objectos e das problemáticas, mostrando a diversidade dos pontos de
vista, o que permite relativizar ao mesmo tempo os pontos de vista institu-
cionais e profissionais e obriga a que se escutem os pontos de vista invi-
síveis, censurados e ou simplesmente mudos (Michelle Léssard Hérbert e
outros, 1994).

c) A articulação entre o objectivo e o subjectivo, ou como se processa


a passagem da história individual à história colectiva
Os defensores das metodologias compreensivas argumentam que a intenção
deste tipo de pesquisa é articular as várias dimensões da vida social ao mesmo
tempo que se recusa a ruptura entre o «sujeito da ciência» e o seu «objecto», o «sujeito
real»; dito de outra forma, pretendem-se novas reconciliações entre teoria e prática,
entre a «ciência do geral» e os «saberes particulares», entre o «indivíduo e a sociedade».
Tomando como objecto um sujeito histórico em acção, esta metodologia observa, no
mesmo movimento, o sujeito e a sociedade em interacção, mas também, e simultanea-
mente, os factos e as emoções que os acompanham.
Assim, do ponto de vista do sujeito interrogado, as entrevistas em profundi-
dade exigem-lhe um processo de totalização através do qual procurará dar consis-
tência a racionalidades dispersas, a estratégias flutuantes e temporais, enfim, à sua
vida tal como ele a concebe nesse momento. Frequentemente, a racionalidade de
uma vida, ou de uma decisão, não é um fenómeno prévio aos factos. A racionalida-
de é encontrada exactamente ex post, no momento da narração; aí, os elementos
que na altura pareciam dispersos e as racionalidades que no momento emergiam
como espontâneas estruturam-se num todo coerente que amarra o fio condutor de
múltiplas decisões e acções10. Essa totalização significativa do sujeito narrador or-
ganiza factos cognitivos e factores emocionais da vida do sujeito e, frequentemente,

10
É esta capacidade heurística de narrações como as histórias de vida que faz com que alguns investigadores
defendam a sua utilização apenas em contextos pedagógicos claramente centrados no aumento de reflexividade dos
actores sobre a sua construção do mundo e o seu percurso de vida, acusando de voyeurismo sociológico as pesquisas
que as utilizam apenas para conhecimento externo ao sujeito da acção.

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

a narração dos factos surge como barreira protectora perante a interiorização senti-
da dos acontecimentos.
Note-se, no entanto, que estamos no domínio da análise sociológica, e não no
da análise das particularidades individuais. Bertaux (1997) faz uma distinção entre os
dois tipos de análise sociológica predominantes: a análise sócio-simbólica, que é
hermenêutica e fundamentalmente linguística, centrada no discurso de enunciação do
sujeito; e a análise sócio-estrutural, de carácter mais sociológico e estruturada segun-
do a compreensão da relação entre o actor e o contexto social. Da nossa experiência,
e do ponto de vista sociológico, essa distinção não tem grande pertinência, porque,
de facto, nas entrevistas os sujeitos narram, em simultâneo, os «factos» e as emoções
que lhes estão associadas. O que acontece é que a sociologia dispõe de pouco de-
senvolvimento de técnicas de análise do discurso mais sócio-linguísticas que permiti-
riam dar conta de um certo tipo de construção identitária tão querida à «sociologia
clínica» e tão indispensável à compreensão da génese de muitos comportamentos. Por
isso, os sociólogos privilegiam geralmente não os sujeitos individuais, mas estes en-
tendidos como «síntese activa» de um «sistema em acto», muito embora não se esgote aí
a capacidade de análise das dinâmicas dos actores e dos sistemas sociais.
Do ponto de vista técnico, a passagem do sujeito individual à generalização
para o contexto social implica a clarificação de duas noções básicas: a de diversifica-
ção e a de saturação (ver o ponto 3.3.). A maioria dos autores que trabalham hoje com
metodologias compreensivas considera que, garantindo a diversidade dos perfis a en-
trevistar e a saturação do material recolhido, é possível substituir totalmente – e com
vantagens – as metodologias hipotético-dedutivas por metodologias indutivas.

d) Da representatividade estatística à representatividade social


A questão central que se coloca na análise compreensiva não é a definição
de uma imensidade de sujeitos estatisticamente «representativos», mas sim uma pe-
quena dimensão de sujeitos «socialmente significativos» reportando-os à diversidade
das culturas, opiniões, expectativas e à unidade do género humano. Dito de outra
forma, a interrogação que se coloca é a da representatividade social de um peque-
no número de indivíduos, questão inevitável nas investigações que utilizam entre-
vistas em profundidade.
Como veremos adiante, esta questão relaciona-se com a montagem de regras
próprias de representatividade desta metodologia (o conceito central é o de satura-

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A Diversidade de Paradigmas de Referência

ção). Mas é também em nome da coerência lógica dos métodos indutivos que não
nos parece aconselhável chamar «amostras» aos universos de análise qualitativa, já
que este é um conceito ligado a uma representatividade estatística e não à represen-
tatividade social que se pretende neste tipo de pesquisa.

e) A epistemologia de uma relação


Um dos motivos tradicionais de menosprezo pelas metodologias compreensivas
é o receio da perda de objectividade do entrevistador. Esta postura está tão enraizada
que mesmo um dos mais insuspeitos metodólogos, Sierra Bravo, escreve que «esta
peculiaridade da entrevista (o facto de criar uma interacção intimista entre entrevistado
e entrevistador) altera e modifica imediatamente a pureza11 necessária à observação
científica» (1983, p. 319).
Frequentemente, os autores consideram que a dimensão de interacção, nas en-
trevistas e histórias de vida, cria novos «obstáculos epistemológicos», visto que a inte-
racção entre duas pessoas e duas subjectividades num processo de grande intimidade
gera tensão entre o quadro formal da pesquisa e essas duas subjectividades: i) tensão
porque o narrador cria a sua própria racionalidade no discurso e porque o cientista
terá de descodificar essa racionalidade posteriormente, mas também ii) tensão porque
o «voyeurismo» sociológico não é suficiente para descansar o espírito do investigador
relativamente ao facto de nada ter para retribuir essa dádiva de partilha da intimidade,
sobretudo quando se trata de populações desprotegidas e com graves carências.
A maioria dos autores discute ainda as questões de ordem ética que se colocam
não só por esta relação ser tão intimista, mas também por, devido ao pequeno número
de entrevistados, se correr o risco de ser possível identificar os informadores e quebrar
o compromisso de confidencialidade quase sempre presente.
Não parece que seja de dramatizar em demasia as questões de ordem afectivo-
-relacional que decorrem de entrevistas em profundidade. É de assumir como pressu-
posto desta postura metodológica que estamos perante sujeitos racionais (entrevistador,
mas também entrevistado), sendo que ambos dão sentido à sua acção e, de forma
aberta e transparente, definem o objectivo dessa interacção: um pretende colher in-
formações sobre percursos e modos de vida sobre os quais o outro é um informador

11
Destaque nosso.

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

privilegiado pelo fenómeno social que viveu. Assim, estamos perante um informador
que, como sujeito inteligente, é capaz de reconhecer o seu interesse na pesquisa e
concentrar-se na maioria das interrogações que o investigador coloca. Também se lhe
reconhece o direito de recusar prestar informações, por não concordar com alguma
dimensão da pesquisa ou por qualquer outra razão. Assim, os dois principais princí-
pios éticos, que são o de informar correctamente os indivíduos acerca dos objectivos
da investigação e o de proteger as fontes, devem ser garantidos; o resto é uma interac-
ção entre actores racionais capazes de relacionamento humano.
Do ponto de vista relacional, a entrevista (ou a observação) exige o mesmo
que qualquer outra técnica de recolha de informação decorrente do estabelecimento
de uma relação de confiança: neutralidade e controlo dos juízos de valor, confiden-
cialidade, clareza de ideias para as poder transmitir e devolução dos resultados.

f) Da dedução à indução
Uma das rupturas mais significativas entre as metodologias hipotético-deduti-
vas e as compreensivas relaciona-se com o tipo de raciocínio a imprimir na análise, o
que tem consequências importantes em todo o processo de pesquisa: desde a formu-
lação da grelha analítica e das hipóteses de trabalho até à análise de conteúdo.
É comum nos defensores das metodologias compreensivas a defesa da passa-
gem de um raciocínio hipotético-dedutivo, que alguns denominam de «cartesiano»,
para um raciocínio indutivo. A diferença nem sempre é claramente percebida, embo-
ra seja simples: a lógica da investigação não é gerada a priori pelos quadros de
análise do investigador, que espera conseguir encontrar essa lógica através da
análise do material empírico que vai recolhendo. A intenção dos investigadores
não é comprovar hipóteses definidas a priori e estanques, mas antes identificar as
lógicas e racionalidades dos actores confrontando-as com o seu modelo de referên-
cia. A consequência imediata é que o trabalho de construção do objecto, da análise
e das hipóteses é contínuo desde o início até ao final da pesquisa.
O confronto entre as metodologias compreensivas e as metodologias hipotéti-
co-dedutivas passa, em larga medida, pelo papel que é atribuído à teoria no processo
de investigação, na medida em que, nas segundas, as regularidades sociais estabele-
cidas a priori são colocadas no contexto da prova, enquanto nas primeiras as rela-
ções entre variáveis potencialmente explicativas do funcionamento social são colocadas
no contexto da descoberta. No contexto da prova, a principal função da investigação

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A Diversidade de Paradigmas de Referência

é a verificação de uma dada teoria. No contexto da descoberta, o investigador pro-


cura a formulação de conceitos, teorias ou modelos com base num conjunto de
hipóteses que podem surgir quer no decurso, quer no final da investigação. Assim, as
metodologias compreensivas privilegiam o contexto da descoberta como terreno de
partida de uma investigação, associando-o a uma abordagem indutiva, embora não
recusem a ideia da prova: esta só é accionada mais tarde quando são formuladas as
primeiras hipóteses a partir de um contexto empírico já trabalhado (ver os pontos 2.2.
e 3.2.). Recorrendo às análises indutivas, as metodologias compreensivas criticam o
apriorismo dos quadros hipotético-dedutivos e recorrem ao conceito de indução para
fundamentar o processo de análise e a relação entre teoria e empiria.
O lugar da indução no trabalho sociológico não é um tema novo, mas reto-
ma agora uma grande diversidade de posturas e formas de fazer sociologia. De
facto, a prioridade dada ao indutivo vem já da Escola de Chicago, muito ligada à
etnologia e à etnografia, para a qual o «trabalho de terreno» estava no centro do
trabalho de análise social. Mas esta longa tradição não torna, hoje, mais fácil o
entendimento das formas de trabalho das metodologias indutivas e dos resultados
que podem ser esperados.
Os manuais de métodos qualitativos classificam a indução analítica como um
dos métodos de pesquisa qualitativa, mas o que é a indução analítica?
Znaniecki, citado por Jean-Pierre Deslauriers, considera que a indução analí-
tica está em oposição aos métodos estatísticos que classifica com o nome de «indu-
ção enumerativa» e define a primeira «antes de mais como um processo lógico que
consiste em partir do concreto para passar ao abstracto identificando as característi-
cas centrais do fenómeno» (Deslaurier, 1977, p. 295). Este autor cita ainda Manning,
para quem «a indução analítica é um método de pesquisa sociológica, qualitativa e
não experimental que faz apelo ao estudo exaustivo de caso para chegar à formula-
ção de explicações causais universais» (Deslaurier, 1977, p. 295), concluindo com
uma definição sua: «Indução analítica é um modo de colheita e análise dos dados
que tem como finalidade clarificar os elementos fundamentais de um fenómeno e
deduzir, se possível, uma explicação universal» (Deslaurier, 1977, p. 295-296).
O respeito pelo terreno empírico é o ponto de partida e, segundo Bertaux, «o
objecto de um inquérito etno-sociológico centra-se na elaboração progressiva de um
corpo de hipóteses plausíveis, um modelo fundamentado nas observações, rico em
descrições de “mecanismos sociais” e em proposições de interpretação (mais do que
de explicação) dos fenómenos observados» (1997, p. 19).

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

Mas foi o desenvolvimento das «teorias enraizadas» (grounded theories), so-


bretudo de Glaser e Strauss em The Discovery of Grounded Theory, Strategies for
Qualitative Research (1967), que veio animar a discussão, fundamentalmente por-
que estes autores vão bem mais longe, insistindo em que as análises indutivas não
devem limitar-se a descrever os fenómenos, mas têm também a função de produzir
teorias gerais. Pretendendo reconciliar as metodologias hipotético-dedutivas com as
compreensivas, Glaser e Strauss querem produzir teorias inteiramente fundamenta-
das na análise dos fenómenos e propõem-no a partir de três ideias centrais. A pri-
meira é a defesa de que a finalidade de qualquer pesquisa em sociologia é produzir
teoria, isto é um conjunto de «categorias», de «propriedades» e de relações (também
chamadas «hipóteses»). A segunda ideia é a de que estas teorias não são prévias à
pesquisa, mas sim o seu resultado: a pesquisa é uma teorização (generating theory)
fundamentada numa contínua análise comparativa dos dados em que se constróem
progressivamente os conceitos e as categorias, que são novamente confrontados
com a realidade. Finalmente, a terceira ideia é a de que esta teoria está «enraizada»,
«ancorada», «baseada» (grounded) nos dados recolhidos de várias formas: entrevistas,
estatísticas, observação, etc. (Didier Demazière e Claude Dubar, 1997).
Para todos os investigadores que subscrevem estas formas de análise, a rela-
ção entre teoria e empiria é indispensável, pois que a teoria não está nos dados
recolhidos e, portanto, não é suficiente descrever o que se recolheu. A produção
científica resulta da acção dos investigadores que interrogam a empiria, formulando
conceitos que se relacionam entre si e produzem conhecimentos articulados. Segun-
do estabelece Jean-Pierre Deslauriers (1997), o investigador deverá ter em conta as
seguintes etapas da construção do conhecimento indutivo:
1. Define, grosso modo, o fenómeno que quer explicar;
2. Formula um quadro hipotético provisório onde situa as potenciais inter-
pretações desse fenómeno;
3. Confronta cada caso observado com esse quadro, pretendendo determi-
nar se ele é coerente com os factos recolhidos;
4. Reformula as proposições conceptuais, caso elas não correspondam aos
factos;
5. Atinge uma certeza provável depois de ter examinado um pequeno nú-
mero de casos, mas a descoberta de um único caso negativo, por ele ou
por outro investigador, infirma a explicação e exige a respectiva refor-
mulação;

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A Diversidade de Paradigmas de Referência

6. Retoma o processo de exame dos casos, a redefinição do fenómeno e a


reformulação do quadro conceptual e das hipóteses potencialmente expli-
cativas até que se estabeleça uma relação universal;
7. Examina cautelosamente as necessidades de prova (casos fora do terreno
e circunscritos) para determinar se a explicação final se aplica também
aos que analisou.
Assim, o investigador trabalha «de baixo para cima», começando nos factos
(no terreno); o trabalho analítico inicia-se por um exame contínuo e aprofundado do
material recolhido, para depois construir os conceitos e as proposições teóricas que
se articularão numa teoria à medida que se forem «saturando» os casos em análise.
A construção da teoria faz-se, assim, num processo evolutivo, visto que ela é o ponto
de chegada do método e não o seu ponto de partida. As construções explicativas são
elaboradas no decurso da pesquisa, pela interacção entre os quadros de referência
conceptuais disponíveis e os dados de terreno.
A capacidade de generalização das propostas teóricas depende quer do estatuto
da pesquisa e da sua forma de construção da explicação, quer das informações reco-
lhidas até à formulação final (ver o ponto 2.2.). Teoria e hipótese são, ao mesmo
tempo, um fim e um meio, e a conclusão de uma pesquisa analítica deve possibilitar a
construção de «explicações» sob a forma de tipologias de casos, de categorias, de
fenómenos, de relações entre as categorias e as hipóteses (ver os pontos 2.2. e 4.)12.
Apesar destas clarificações hoje centrais, para a maioria dos investigadores a
utilização de métodos indutivos na pesquisa sociológica ainda não é pacífica. Mesmo
Michelle Léssard Herbert e os seus colaboradores (1994), claros activistas de novas
relações entre conhecimento e acção, criticam a defesa de que as metodologias qua-
litativas são meramente indutivas e acusam de simplista a actividade de teorização na
investigação qualitativa, que faria desta última uma experiência puramente intuitiva e
dedutiva, quase mística e não transmissível. «Os métodos de investigação no campo
são por vezes considerados radicalmente indutivos, mas essa concepção é falsa.
É certo que, no início do trabalho de campo, o investigador não possui categorias de
observação especificamente predeterminadas. No entanto, é também verdade que,

12
Deve considerar-se que os vários paradigmas e tipos de análise utilizando a construção de categorias a partir da
empiria pretendem resultados diferentes. Por exemplo, as grounded theories pretendem mesmo a construção de modelos
conceptuais construídos «de baixo para cima» e a etno-sociologia defendida por Bertaux pretende apenas a verificação
sucessiva de resultados e a produção de teorias intermédias explicativas de fenómenos localizados.

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

quando chega ao campo, o investigador tem já em mente um quadro conceptual e


objectivos de pesquisa. No trabalho de campo, a indução e a dedução encontram-se
em diálogo constante» (Michelle Léssard Herbert e outros, 1994, p. 100).
Apesar desta postura, Michelle Léssard Herbert e seus colaboradores não con-
sideram que o trabalho de análise indutiva seja meramente descritivo e de senso
comum, pois pretende-se que o trabalho empírico esteja sempre acompanhado de
um objectivo de teorização. Teorizar a partir dos dados do terreno supõe, como em
qualquer pesquisa, uma atenção particular e controlada às formas de recolha, escrita
e apresentação dos dados. É essa característica que distingue a sociologia da etno-
grafia simples, que considera sobretudo o caso singular, pois o exercício analítico
contempla sempre a comparação que permite descobrir – sempre indutivamente –
«as categorias e propriedades formais» que são produto da teorização sociológica. Os
métodos indutivos teorizam-se sempre a partir da comparação progressiva e perma-
nente com outros dados diferentes mas semelhantes, distintos mas comparáveis.
Mas como passar da descrição à interpretação? Como passar da linguagem do
senso comum para o conceito? Esta velha questão simultaneamente filosófica e prá-
tica está, ainda hoje, no centro de debates fascinantes e apaixonados e obtém dife-
rentes respostas teóricas e metodológicas das várias correntes de pensamento e áreas
de actividade científica. São várias as interpretações da relação entre as «categorias
naturais» e as «categorias científicas», bem como da utilização destas para legitimar as
«categorias oficiais» do discurso político.

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Capítulo 2

A OPÇÃO PELAS METODOLOGIAS


QUALITATIVAS E DIVERSIDADE
DE UTILIZAÇÃO

A utilização das metodologias qualitativas pelas ciências sociais tem uma grande
diversidade de posturas teóricas de suporte e de métodos e técnicas que delas decor-
rem. Michelle Lessard Hérbert (1994), citando Herman, agrupa em quatro grupos os
métodos do paradigma compreensivo nas ciências sociais, onde se poderão obser-
var diversas tradições disciplinares:
1. Verstehen psicológico – Método descritivo que permite isolar tipos psico-
lógicos invariantes no espírito humano, a partir de uma compreensão ínti-
ma dos acontecimentos sócio-culturais: método de «reminiscência» ligado
à noção de empatia que faz reviver os acontecimentos sociais;
2. Hermenêutica – Originalmente, era a arte de interpretação de textos; inter-
preta a cultura e implica uma forma de «holismo semântico», pois que é
preciso apreender o todo para entender as partes;
3. Fenomenologia – Pretende apreender a lógica dos fenómenos subjectivos;
4. Etnometodologia – Dá relevo à prática discursiva na esfera do social, isto
é às formas de utilização da linguagem. Através da análise de conteúdo,
pretende-se compreender a racionalização das práticas quotidianas atra-
vés de determinados tipos de enunciados da linguagem comum.
Hoje, poderíamos acrescentar as grounded theories desenvolvidas por Glaser
e Strauss, que já apresentam várias ramificações conceptuais e técnicas.

2.1. As posturas teórico-epistemológicas face à utilização


de metodologias compreensivas
Face à diversidade de posturas teórico-epistemológicas na utilização de meto-
dologias compreensivas, situamo-nos fundamentalmente no campo da sociologia

27

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

seguindo Demazière e Dubar (1997), que, de forma prática, consideram que emer-
gem três posturas possíveis – e coerentes – face à análise empírica, sobretudo quan-
do a pesquisa repousa parcial ou quase totalmente em entrevistas qualitativas: i) a
postura ilustrativa e de lógica causal; ii) a postura restitutiva e o hiperempiricismo; e
iii) a postura analítica e de reconstrução do sentido.

a) Postura ilustrativa e lógica causal 13


Tradicionalmente, as entrevistas eram concebidas essencialmente como es-
tudos exploratórios e estruturadas em função do questionário – considerado o mé-
todo por excelência –, sendo essencialmente utilizadas em três situações: como
estudos prévios para «fechar» perguntas no questionário, como aprofundamento ex-
ploratório perante problemáticas ainda desconhecidas, levantando novas interroga-
ções para pesquisas futuras, ou como exemplificação mais colorida de determinados
nós problemáticos.
Ia neste sentido a proposta de Lazarsfield e Merton, que consideravam ser
possível dar conta das opiniões subjectivas atribuindo um carácter exploratório às
entrevistas e identificando as dimensões «cognitivas» a estruturar nas categorias do
questionário. Nessa tradição, a entrevista era definida como «a obtenção de infor-
mação mediante uma conversa de natureza profissional» e, porque subjugada
ao omnipotente questionário, ele sim representativo, nunca foi pensada com rigor
e regras sistemáticas de aplicação e aferição. Aliás, infelizmente, o uso selectivo
da palavra das pessoas parecia frequentemente servir (e ainda hoje serve) para
apoiar as demonstrações do investigador, não se garantindo uma análise de con-
teúdo rigorosa.
Esta concepção das informações qualitativas assenta em pressupostos de pes-
quisa que postulam que as relações causais entre os fenómenos estão no centro das
análises sociológicas.
Demazière e Dubar (1997) revêem a forma como as relações de causalidade
eram demonstradas nos manuais de Sociologia. Inicialmente, era preciso definir a
«problemática» e passar de um problema social a um problema sociológico. Esta
passagem é apresentada como uma ruptura e exemplificada pelo estudo do suicídio

13
Ver Demazière e Dubar (1997), op. cit.

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A Opção pelas Metodologias Qualitativas e Diversidade de Utilização

em Durkheim. Fazer do suicídio um acto sociológico obrigava a romper com as


«prenoções» que faziam dele um acto individual causado por «motivos» dessa índole
(desgostos, depressão, etc.). As «causas sociais» do suicídio em nada se relacionavam
com a operação de classificação dos «motivos invocados» pelos parentes sobre as
«razões» dadas pelo suicida. Inversamente, essa perspectiva causal implicava uma
ruptura com a subjectividade inerente à definição do «facto social» como algo exterior
à consciência individual. O instrumento primeiro dessa ruptura é a estatística, pois
não estuda o suicídio como acto individual, mas sim a taxa social de suicídios apre-
sentada por peritos.
A análise causal contém assim três pressupostos essenciais bem conheci-
dos: i) O tratamento dos factos sociais como «coisas», quer dizer, a categorização
a partir do exterior, independentemente do sentido que lhes pode ser atribuído
pelas pessoas que os sofrem; ii) O raciocínio sociológico assemelha-se ao do
conhecimento das ciências da natureza – quer dizer, é uma análise hipotéti-
co-dedutiva com base numa teoria prévia que se pretende verificar; e, finalmente,
iii) é necessário romper com as prenoções, nomeadamente através da refutação da
subjectividade.
O ponto de partida de um processo causal é testar as hipóteses sobre as
relações «objectivas» num objecto sociológico considerado como efeito ou resultado
e cruzá-las com as «variáveis independentes» consideradas indicadores de «causas
sociais». As entrevistas serviriam para identificar essas variáveis e essas hipóteses14
através de estudos exploratórios.
Mas a lógica taxinómica da análise de conteúdo tradicional fragmentava o
discurso em função de categorias estruturadas a partir da lógica do entrevistador.
Este identificava, isolava e comparava os temas de uma entrevista com as categorias
definidas a priori. Ignora-se a coerência das entrevistas e não se está muito atento
aos novos conteúdos introduzidos pelos interlocutores.
De facto, a célebre «análise temática» está fundamentada na «desestruturação
da estruturação do discurso singular» (Demazière e Dubar, 1997, p. 19), consistindo
na identificação dos temas, na construção de uma grelha de análise que decompõe
ao máximo a informação. A grelha era construída de forma endógena em relação
ao quadro teórico referencial e a partir das hipóteses que ele gerava e de forma

14
As hipóteses assim concebidas assentam num modelo causal.

29

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

exógena em relação ao material empírico. São as hipóteses da pesquisa, as proble-


máticas da grelha de entrevista, bem como a interpretação do investigador que
constituem as principais categorizações do discurso e não, de forma alguma, as
percepções e os sentidos dos entrevistados ou as lógicas argumentativas que estes
desenvolvem nas entrevistas.
Nesse sentido, toda a análise temática e, mais globalmente, as análises
taxinómicas são portadoras da mesma lógica «positivista» do questionário. Nestas
concepções, a concepção da palavra subjacente ao uso ilustrativo da entrevista
pode resumir-se nos traços seguintes: a palavra não tem consistência própria, é
puramente informativa ou constitui um conjunto de postulados a inserir na lógi-
ca comprovativa das hipóteses teóricas do investigador. Enfim, considera-se que,
enquanto expressão, a linguagem é subjectiva e elemento de «ilusão», fornecen-
do no entanto material de comprovação (raramente de infirmação) das hipóteses
do investigador.

b) Postura restitutiva e hiperempirismo


A postura restitutiva tem como objectivo fazer grande uso da linguagem dos
entrevistados e remetê-la dessa forma ao leitor. A relação entre a linguagem dos
entrevistados e a dos entrevistadores é invertida face à postura anterior. Considera-se
que a palavra das pessoas é transparente e está no coração da pesquisa, sendo a
postura investigativa subjectivista e considerando-se que o sujeito é o verdadeiro
actor social produtor de comportamentos e sentidos. A restituição dos saberes so-
ciais assenta numa reacção radical contra o «teoricismo». Demazière e Dubar (1997)
organizam da seguinte forma os postulados-base deste posicionamento:
• O social é construído – e reconstruído – pelos sujeitos;
• O sociólogo é o porta-voz dos sujeitos e tem a função de objectivar os
seus saberes;
• Não é necessário – e é mesmo nocivo – ter qualquer hipótese prévia;
• Todos os saberes sociais são contextualizados e indissociáveis das especi-
ficidades da situação e o sociólogo não poderá generalizar – todo o co-
nhecimento é localizado no espaço e no tempo.
O trabalho de análise de conteúdo acaba por ser muito redutor, limitando-se
a «contar o que nos foi contado», considerando-se que a palavra dos interlocutores é
transparente e que essas narrações exemplificam situações típicas.

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A Opção pelas Metodologias Qualitativas e Diversidade de Utilização

c) Postura analítica e reconstrução do sentido


Na postura analítica e de reconstrução do sentido, a pesquisa sociológica
pretende produzir metodicamente sentido social a partir da exploração de entrevistas
(ou outro material) de pesquisa. Considera-se que o sujeito é uma «síntese activa» do
todo social e pretende-se realizar uma análise de conteúdo que tente interpretar a
relação entre o sentido subjectivo da acção, o acto objectivo (práticas sociais) e o
contexto social em que decorrem as práticas em análise.
Baseada numa sociologia compreensiva, e reivindicando a concepção webe-
riana (e da escola alemã) da acção social, esta postura não está associada a uma
metodologia específica. Assentando numa grande diversidade de posturas teóricas,
os paradigmas compreensivos consideram que o foco da análise incide sobre o
sentido da acção e as diferentes racionalidades dos actores e que o desafio é «tornar
objectiva a subjectividade».
A postura analítica e de reconstrução do sentido é comum aos vários paradig-
mas etnometodológicos e interaccionistas. Bertaux denomina-a «etno-sociologia» e de-
fine esta perspectiva como «um tipo de pesquisa empírica fundada sobre inquérito de
terreno que se inspira na tradição etnográfica da utilização de técnicas de observação,
mas que constrói os seus objectos por referência a problemáticas sociológicas […].
Apesar do interesse intrínseco de tais descrições monográficas e sociográficas, é preci-
so passar do particular ao geral, descobrindo, no interior do terreno observado, as
formas sociais específicas – relações sociais, mecanismos sociais, lógicas de acção,
lógicas sociais, processos recorrentes – que seriam susceptíveis de estar presentes numa
multitude de contextos similares» (1997, p. 11).
Assumindo sempre uma certa tensão entre o particular e o geral, a hipótese cen-
tral da perspectiva etno-sociológica é a de que as lógicas que regem o conjunto social
estão também presentes nos microcosmos que as compõem, mas que é necessário tam-
bém multiplicar os terrenos de observação para dar conta da diversidade do social.
Na diversidade de entendimentos, as únicas referências metodológicas comuns
a todos os que se reclamam da sociologia compreensiva é, por um lado, a metodologia
comparativa e, por outro, a noção weberiana de ideal-tipo. Apesar disso, estas noções,
sendo muito gerais, não orientam para nenhum tipo preciso de método sociológico,
dando origem a uma grande variedade quer de formas de recolha de material (no-
meadamente de construção e realização de entrevistas), quer de formas de análise de
conteúdo (ver o ponto 4.).

31

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

Um dos problemas da interpretação sociológica reside no confronto entre as


significações que o sujeito verbaliza (sentido subjectivo) e as categorias objectivas
que advêm do contexto «sistémico» em que se passa a acção. O centro da análise é a
categorização social accionada por uma narração que permite ao sujeito estruturar o
sentido do mundo social e o seu lugar nesse mundo e que torna possíveis as suas
apropriação e interpretação metódicas pelo investigador. Este tem um papel funda-
mental, não se limitando a contar o que lhe contaram, mas «interpretando» essa nar-
ração, produzindo as categorias e proposições (hipóteses explicativas) indispensáveis
ao entendimento dos fenómenos através de um processo indutivo com origem na
própria narração – e não da sua relação com as categorias oficiais.
O social toma a forma de linguagem e a palavra não reflecte uma realidade
inconsistente ou instrumental, mas é fonte essencial do conhecimento e da cons-
trução problemática da análise sociológica: é pela linguagem que o social toma
forma, e é pela palavra que os sujeitos se socializam e se apropriam das formas de
vida social. Hoje, valorizam-se as entrevistas de per si e tenta-se quer estabelecer as
situações em que elas devem ser aplicadas, quer definir os critérios de construção
da sua cientificidade.
Defendendo uma postura deste tipo, Bertaux (1991) considera as seguintes
potencialidades das metodologias indutivas:
• Permitem apreciar as decisões, os comportamentos e os valores como
uma totalidade em que objectivo e subjectivo se encontram no mesmo
processo e é possível apreciar as dimensões da mudança e da história;
• Permitem ajuizar acerca da heterogeneidade das situações que exterior-
mente parecem semelhantes, apreciando a diversidade subjacente às re-
gularidades que elas apresentam;
• Permitem articular o sujeito com a sociedade, permitindo dar conta das
mediações que decorrem entre a racionalidade dos sujeitos e as regulari-
dades do sistema;
• Permitem contrapor ao saber do técnico o saber do homem comum, permi-
tindo um processo contínuo de verificação e reformulação das hipóteses
e aceitando que o sujeito não é um objecto de investigação passivo, já
que, pelo sentido que dá à sua própria vida, é produtor do real;
• Têm uma dimensão formativa e interventora quando apelam ao reconhe-
cimento do saber e da acção do sujeito, implicando-os nos processos de
produção de conhecimento;

32

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A Opção pelas Metodologias Qualitativas e Diversidade de Utilização

• No que se refere às histórias de vida, permitem organizar a dimensão


temporal, quer do ciclo de vida do indivíduo ou da família, quer deste e
da conjuntura exterior num processo dinâmico e de relações recíprocas.

2.2. As três funções da análise compreensiva


A diversidade de contextos e intenções da pesquisa leva alguns autores, no-
meadamente Bertaux (1997), a reflectir sobre o impacte do estatuto da pesquisa na
construção dos instrumentos de recolha de informação. Segundo este autor, o estatu-
to da pesquisa determina muitas das decisões sobre o decurso do processo, nomea-
damente a resposta a questões centrais como: Quem interrogar? Quantos interrogar?
Qual o output da pesquisa?, etc.
Para Bertaux (1997), as entrevistas podem cumprir várias funções: explorató-
rias, analíticas e verificativas e de expressão na fase de síntese.
a) Função exploratória – Este estatuto tem interesse quando se inicia uma
pesquisa de terreno e se pretende descobrir as linhas de força perti-
nentes, dado o desconhecimento do fenómeno estudado. Geralmente,
faz-se uma observação directa, entrevistas a informadores privilegia-
dos e entrevistas exploratórias. O tipo de questionamento é extensivo
num primeiro momento, diversificando o mais possível as problemáti-
cas e os interlocutores. No decurso da pesquisa, o guião vai-se «afi-
nando», reduzindo os questionamentos, aprofundando e detalhando
os elementos centrais, para se centrar em dimensões cada vez mais
precisas; e a pesquisa torna-se mais intensiva. No estatuto exploratório,
o investigador deve garantir a diversidade dos interlocutores, mas não
necessita de garantir a saturação (ver o ponto 3.3.). As conclusões de
uma pesquisa exploratória têm o estatuto de «hipóteses explicativas»,
funcionando como interpretações hipotéticas que exigem o prolonga-
mento da pesquisa (por métodos quantitativos ou qualitativos) para a
sua generalização.
b) Função analítica – A pesquisa torna-se analítica quando se pretende
estabelecer uma teoria interpretativa geral, isto é, que ultrapasse o con-
texto particular em que se realiza, o que exige garantir, simultaneamente,
a diversidade e a saturação (ver o ponto 3.3.). Num primeiro momento,
torna-se necessário construir o quadro geral da pesquisa relacionando

33

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

os fenómenos e definindo tipologias de interlocutores15. À medida que


a pesquisa avança, há uma passagem das ideias gerais às hipóteses, e
destas à construção de uma teoria interpretativa considerada como «re-
presentação mental do que se passa na realidade social». Num segundo
momento, procede-se à verificação e à consolidação empírica das pro-
postas descritivas e elaboram-se interpretações avançadas que permitem
generalizar em determinadas condições dependentes do estatuto da pes-
quisa. Na complexa fase final, em que à saturação empírica se associa a
«imaginação teórica», procura-se a repetição pondo à prova o modelo
construído por confronto com «casos negativos» e/ou com categorias
mal exploradas.
c) Função expressiva – Neste estatuto de pesquisa, o material recolhido
tem uma função de comunicação e não de pesquisa. Trata-se, sobretu-
do, de «fazer passar a mensagem» utilizando extractos significativos das
entrevistas para exemplificar os resultados da investigação.

15
Ver, no ponto 3.3., a diversidade de formas de construção das «amostras».

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Capítulo 3

AS DIFERENTES FUNÇÕES
E FORMAS DE UTILIZAÇÃO

3.1. Como fazer? Técnicas de realização de entrevistas


Há uma grande diversidade de objectivos e contextos de utilização das en-
trevistas, bem como das suas formas de concepção e estrutura. Os modos de
investigação «fixam o quadro instrumental da apreensão dos dados e devem, con-
sequentemente, harmonizar-se com as técnicas de recolha»16.
A maioria dos textos sobre métodos e técnicas de análise sociológica revela
pouca preocupação com a exemplificação das formas de fazer, o que é tanto mais
complicado quanto, no caso dos métodos e técnicas, não se aprende ouvindo dizer,
mas exemplificando e fazendo17. Na diversidade das formas de fazer, e face ao
estatuto da pesquisa já definido neste livro (ponto 2.2.), iremos clarificar e exempli-
ficar como fazer através das seguintes etapas:
• Construção do modelo de pesquisa: objecto, quadro conceptual e hipóteses
• Quem interrogar?
• Quantos interrogar?
• Como construir o guião?

3.2. Construção do modelo de pesquisa: objecto, modelo


conceptual e hipóteses
Uma polémica tradicional discute se se deve partir de imediato para o terreno
e, através de um olhar desarmado e «ingénuo», registar para analisar ou se é necessá-

16
Segundo Michelle Lessard Hérbert (1994), pode-se organizar a pesquisa qualitativa em vários tipos: estudo de caso:
escolha; estudo multicasos; experimentação «no terreno»; experimentação «em laboratório»; simulação por computador.
17
Há excepções e cita-se geralmente um livro fundamental, que serve de referência a este texto: J. Poirier, S. Clapier-
-Valladon, P. Raubaut (1983), Les Récits de Vie: Théorie et Pratique, PUF, Paris [trad. port.: J. Poirier, S. Clapier-Valladon,
P. Raubaut (1999), Histórias de Vida – Teoria e Prática, Celta Editora, Oeiras].

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

rio elaborar previamente um modelo teórico a partir do qual se estruturem as dimen-


sões de recolha da informação empírica. Também aqui as respostas dos autores são
diferentes, mas a experiência ensina-nos que não há olhares ingénuos e que os
investigadores só vêem aquilo que estão preparados para ver. Ao mesmo tempo,
sabemos também que a literatura científica pode ser extraordinariamente cega face a
objectos evidentes, pelo que se aconselha a simultaneidade entre as leituras informa-
tivas e os contactos do terreno. Assim, é preciso passar em revista a literatura mais
significativa sobre o assunto ao mesmo tempo que se conhece o meio, se faz uma
primeira descrição do sistema de acção e se realizam contactos exploratórios.
De uma forma prática, as etapas mais frequentes de realização de uma pes-
quisa qualitativa indutiva são as seguintes.

a) A construção inicial do objecto


Na pesquisa (quantitativa ou qualitativa), a definição do objecto é um mo-
mento difícil que se prolonga no tempo. A maioria dos iniciados pensa que, tendo
um tema, uma problemática, ou mesmo um qualquer objecto dotado de realidade
social, tem um objecto sociológico.
Como temos vindo a afirmar ao longo deste livro, não há uma única con-
cepção do objecto, do modelo conceptual ou das hipóteses na investigação com-
preensiva. Defende-se aqui uma postura de pesquisa que advém já de alguma
experiência de terreno e da coerência da construção teórica e que tem ancoragem
nas propostas de Daniel Bertaux e nas suas investigações em sociologia18. A cons-
trução do objecto em pesquisa qualitativa é frequentemente considerada um dos
critérios fundamentais da sua originalidade, pois não será adequado definir um
objecto e um questionamento «positivistas» e optar por metodologias qualitativas.
Lionel-Henri Groulx (1997) aponta como objectos mais adequados à pesquisa com-
preensiva os seguintes:
• Pesquisas descritivas e exploratórias;
• Estudos do quotidiano e do vulgar;
• Estudo do transitório e mutável;

18
Muitas outras disciplinas utilizam as metodologias qualitativas há longo tempo, desde a antropologia, continuando
pela psicologia, a história ou as ciências de educação. A longa tradição de uso nestes campos disciplinares dá-lhes formas
próprias de entendimento dos modos de fazer investigação qualitativa que são socializadas nas academias e nos centros
de pesquisa e que se distinguem umas das outras e muito particularmente da sociologia.

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As Diferentes Funções e Formas de Utilização

• Estudo do sentido da acção;


• Avaliação de políticas.
Mas, na diversidade destas problemáticas, o objecto não está formado à par-
tida – constrói-se progressivamente em contacto com o terreno a partir da interacção
com a recolha dos dados e a análise, não estando previsto um quadro teórico e um
quadro de hipóteses estabelecidos a priori. O primeiro desenho do objecto é geral-
mente descritivo e empírico, mas evita desde logo o senso comum. Por exemplo, «os
modos de vida» não são um objecto, mas um tema; «estudar a instituição X» ou
«estudar o RMG» também não são objectos, mas sim realidades empíricas.
Afastar o senso comum e as ideias preconcebidas, interrogando as evidên-
cias, é uma atitude indispensável a qualquer tipo de pesquisa e o primeiro obstáculo
epistemológico é, quase sempre, a familiaridade com o objecto de análise, pelo que
o foco da curiosidade sociológica é sempre um objecto reconstruído.
Assim, delimitada uma primeira definição do objecto geralmente com base em
informação empírica indutivamente analisada, num segundo momento há, simulta-
neamente, um aprofundamento dessa realidade empírica através da recolha sistemá-
tica de informação (sobretudo análise de documentos e dados estatísticos já existentes
e entrevistas a informadores privilegiados) e uma aproximação à problemática teóri-
ca através da leitura da bibliografia mais pertinente para o objecto delimitado.
A recensão dos escritos leva o investigador a escolher uma ancoragem teórica
e, como afirma Lionel-Henri Groulx, «em definitivo, a recensão dos escritos desem-
penha na metodologia qualitativa um papel simultaneamente estratégico e teórico»
(1997, p. 100).
As primeiras análises são geralmente descritivas e empíricas, mas não se
despreza o interesse da análise descritiva como primeiro nível de abordagem do
funcionamento da vida social. Esta descrição é realizada através daquilo a que fre-
quentemente se chama thick description – uma descrição aprofundada do objecto
social que não considera apenas o seu valor facial, mas também interroga desde
logo a diversidade de lógicas e interesses dos actores sociais, a configuração interna
das relações sociais e das relações de poder em que o objecto está imerso, as ten-
sões e os processos de reprodução e produção societal.
Em planeamento, esta primeira fase termina com um documento de pré-diag-
nóstico que contém não só a modelização empírica do objecto de intervenção, mas
também as pistas necessárias para a interpretação no momento seguinte. Na pesquisa
tradicional, este momento apresenta uma monografia crítica que, não aprofundando

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

causalidades ou hipóteses, inventaria desde logo as problemáticas centrais para a


segunda fase da pesquisa, redefinindo o objecto.

b) A segunda construção do objecto e o papel da teoria


Na pesquisa qualitativa, a redefinição do objecto e a construção conceptual
do modelo de análise vão em simultâneo. Não havendo lugar para hipóteses de
pesquisa, pelo menos inicialmente (pois que se recusa a existência de regularida-
des de funcionamento societal), as leituras e a sua arrumação num modelo con-
ceptual e analítico correspondem no seu todo a um quadro hipotético explicativo
das dinâmicas sociais com o qual se pretende interrogar a realidade, reformulan-
do-o e acrescentando-o ao mesmo tempo que se procuram novas pistas empíricas.
«Se é preciso recusar uma teoria preconcebida (preconceived theoretical framework),
é preciso ter uma perspectiva sociológica geral (general sociological perpective),
um “campo de problemas”, um conjunto de questões e respostas possíveis e aber-
tas, uma sensibilidade teórica (theoretical sensivity) sem a qual nos arriscamos
simplesmente a “nada ver”, nada recolher que seja “teorizável”» (Demazière e Du-
bar, 1997, p. 51).
Aqui, a interacção entre teoria e empiria é horizontal e não vertical, como na
lógica hipotético-dedutiva. Assim, a incidência do foco da pesquisa define-se pro-
gressivamente; o investigador vai focalizando a sua atenção no objecto e definindo
os contornos da questão por meio de uma clarificação do objecto produzida à me-
dida que a colheita de dados e a análise se realizam.
Como vimos atrás, se for exploratória, a pesquisa termina com a elaboração
de um modelo explicativo da realidade estudada a que Bertaux chama «hipóteses
explicativas». Se a pesquisa for analítica, pretende-se produzir uma teoria, apesar de
algumas pesquisas só conseguirem propor conceitos ou teorias intermédios. Escreve
Lionel-Henri Groulx que «enquanto que a abordagem hipotético-dedutiva considera
primordial a definição do objecto de pesquisa e acciona uma aparelhagem técnica
para o estudar, a pesquisa qualitativa apresenta um carácter iterativo e retroactivo: aí
se encontra a simultaneidade da colheita de dados, da análise (descodificação e
categorização, conceptualização) e da elaboração da questão da pesquisa que al-
guns apelidam de modelo de adaptação contínua […]. O investigador continua a ler
em função do movimento do seu objecto e explorará esta ou aquela avenida quer
para delimitar as categorias provisórias de análise, quer para obter pistas de interpre-
tação» (1997, pp. 106 e 107).

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As Diferentes Funções e Formas de Utilização

c) E as hipóteses?
A organização do modelo conceptual hipotético e a detecção dos principais
níveis analíticos são indispensáveis e, provavelmente, mais exigentes neste tipo de
técnica. A formulação das hipóteses é uma questão mais controversa. Para alguns
autores, elas são dispensáveis e até contraditórias com a lógica da análise compreen-
siva; mas, para outros, isso só acontece na fase exploratória da pesquisa.
Como escreve Bertaux, «ele [o investigador] precisa, não de verificar hipóteses
a priori, mas de construir pelo menos algumas [hipóteses] não somente, ou princi-
palmente, sob a forma de “relação entre variáveis”, mas também sob a forma de
hipóteses sobre as configurações de relações entre mecanismos sociais, entre pro-
cessos recorrentes; sobre os jogos sociais e os contextos; em síntese, sobre todos os
elementos que permitem imaginar e compreender “como é que isto funciona”» (1997,
p. 26). O «objecto de um inquérito etno-sociológico consiste na elaboração progres-
siva de um corpo de hipóteses plausíveis, um modelo fundamentado nas observa-
ções, rico em descrições de “mecanismos sociais” e em proposições de interpretação
(mais do que de explicação) dos fenómenos observados» (1997, p. 19).
O espírito da análise compreensiva leva sempre do particular ao geral, à des-
coberta de recorrências operando a construção de conceitos e modelos explicativos
dos fenómenos sociais que se confronta novamente com essas recorrências. Assim,
não se trata de verificar hipóteses, mas sim de ajudar à construção de um corpo de
hipóteses que mais não é do que esse modelo explicativo potencial.
Nesse sentido, o que se defende aqui é que o modelo conceptual esboçado a
partir dos primeiros contactos com o terreno e baseado na revisão bibliográfica tra-
dicional seja entendido como a «representação hipotética do que se pensa existir na
realidade», isto é, como um modelo explicativo potencial. Assim, não parece haver
lugar para a elaboração de «hipóteses de pesquisa», no sentido tradicional do concei-
to, as quais se baseiam na relação linear entre variáveis, concebendo-se regularida-
des que se espera encontrar. De facto, estamos num quadro de análise de «processos»
e de «dinâmicas», pretendendo-se não apenas uma mera descrição da realidade, mas
também a interpretação do sentido das dinâmicas sociais.

3.3. Quem e quantos?


Duas grandes críticas feitas às metodologias qualitativas são a sua «falta de
representatividade» e a «generalização selvagem» que efectua. De facto, considera-

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

-se que não tem muito sentido falar de amostragem, pois não se procura uma
representatividade estatística, mas sim uma «representatividade social» que nada
tem a ver com esse conceito. Assim, há dois conceitos básicos que desde Zanies-
cki estão no cerne do debate e do confronto entre metodologias quantitativas e
metodologias qualitativas: os conceitos de diversidade e de saturação. Nestes con-
ceitos reside a capacidade de generalização e é bom lembrar que para alguns
paradigmas, como as grounded theories, trata-se de produzir teorias substituindo
completamente (por serem enganosas) as metodologias hipotético-dedutivas. As-
sim, estes dois conceitos estão no centro da polémica e da oposição entre métodos
cartesianos e métodos compreensivos.

a) Os princípios da diversificação e da saturação


Pelas suas características, a análise qualitativa nunca estuda muitos casos,
razão por que as críticas mais frequentes consideram que está subjacente uma
concepção atomista da vida social que concebe a sociedade como a soma dos
sujeitos e que esse atomismo pretende, por vezes, ser ultrapassado substituindo-se
a totalidade social por interacções baseadas nos grupos de mediação. Além disso,
acrescentam os críticos, o tipo de análise indutiva seria profundamente subjectivo,
com nenhum controlo das variáveis, dando azo à interpretação selvagem que per-
mite todas as interpretações possíveis e todas as projecções das percepções teóri-
co-ideológicas dos investigadores. A saturação, único critério de cientificidade
apresentado pelos defensores destas metodologias, é considerada um bluff de
difícil definição e pouco controlo científico.
De facto, estando num contexto de indução, de análise «de baixo para cima»,
como garantir «a representatividade» da análise e a «generalização»?
Já vimos atrás que diversidade e saturação delimitam os três tipos de esta-
tuto da pesquisa definida por Bertaux: exploratória, analítica e comunicacional.
Cada um destes tipos de pesquisa assume de forma diferente os critérios de diver-
sidade e de saturação. Mas como definir esses conceitos e a forma como eles se
operacionalizam?

A diversidade
A diversidade relaciona-se com a garantia de que a utilização das entrevistas
se faz tendo em conta a heterogeneidade dos sujeitos (ou fenómenos) que estamos

40

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As Diferentes Funções e Formas de Utilização

a estudar. De facto, na pesquisa qualitativa, procura-se a diversidade e não a homo-


geneidade, e, para garantir que a investigação abordou a realidade considerando as
variações necessárias, é preciso assegurar a presença da diversidade dos sujeitos ou
das situações em estudo. Por exemplo, torna-se obrigatório, numa pesquisa que
utilize entrevistas, interrogar os sujeitos cujas opiniões sejam heterogéneas, reportan-
do-se a um leque variado de situações.
Como se aprofundará no capítulo sobre a discussão da definição do universo
de análise, pode considerar-se, acompanhando Pires (1997), a existência de:
• uma «diversificação externa» identificando a diversidade de actores/situa-
ções no contexto societal; e de
• uma «diversificação interna», quando, optando por um determinado gru-
po/situação homogénea, se explora a diversidade interna desse grupo.
O primeiro tipo de diversificação é utilizado quando a finalidade teórica da
investigação é fornecer um retrato global de uma questão, ou contrastar um largo
acervo de casos variados. Por exemplo, pretende-se representar expectativas de
indivíduos das diferentes culturas ou classes. Trata-se de escolher indivíduos
o mais diversos possíveis, sendo a «amostra» constituída a partir de critérios de
diversificação em função de variáveis que, por hipótese, são estratégicas, para
obter a maior diversidade possível de opiniões face ao objecto estudado (chama-
mos a isto «construção do perfil social dos informadores» – ver exemplo no ponto
3.3.). A segunda forma de diversificação (interna) tem uma finalidade teórica dife-
rente, pois pretende-se explorar a diversidade num conjunto homogéneo de sujei-
tos ou situações.
«A diversificação externa é, por assim dizer, vertical e não permite explorar a
diversificação interna. A primeira tem como efeito reduzir as possibilidades de satu-
ração no interior do grupo para ganhar na capacidade de dispersão e comparabilida-
de intergrupo. O princípio da saturação é oposto ao do contraste ou diversificação,
na medida em que quanto maior for o contraste, mais difícil é atingir a saturação»
(Pires, 1997b, p. 155).

A saturação
O conceito de saturação encontra raízes na tradição de indução analítica,
mas devem-se a Glauser e Strauss (1967) o seu desenvolvimento e a centralidade
que tem hoje na pesquisa qualitativa, tendo sido posteriormente desenvolvido e
modificado. «A saturação é menos um critério de constituição da amostra do que

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

um critério de avaliação metodológico desta. Cumpre duas funções essenciais: do


ponto de vista operacional, indica em que momento o investigador deve parar a
recolha de dados, evitando-lhe o desperdício inútil de provas, de tempo e de di-
nheiro; do ponto de vista metodológico, permite generalizar os resultados ao uni-
verso de trabalho (população) a que o grupo analisado pertence (generalização
empírico-analítica)» (Pires, 1997b, p. 157).
Para Glauser e Strauss (1967), a saturação poderá ter uma leitura teórica e/ou
empírica. A saturação teórica aplica-se a um conceito para significar que este emer-
ge de dados e é confrontado depois com diferentes contextos empíricos: a finalidade
do investigador é desenvolver as propriedades desse conceito e assegurar-se da sua
pertinência teórica e do seu carácter heurístico. Se, nesse confronto sucessivo, ne-
nhuma nova propriedade do conceito emerge, podemos dizer que ele está saturado
(category's theoretical saturation), segundo os autores. A «saturação empírica» apli-
ca-se quando os dados que estão a ser recolhidos não trazem mais informações
novas ou diferentes que justifiquem um aumento da recolha de material empírico
(ver Pires, 1997b, e Bertaux, 1997).
Nesse sentido, a saturação pode ser considerada uma categoria de análise,
significando que, no contexto da interrogação, o entrevistador dá conta da repetição
das informações face aos nós centrais do questionamento. Assim, a saturação é
definida como um fenómeno pelo qual, depois de um certo número de entrevistas, o
investigador – ou a equipa – têm a noção de nada recolher de novo quanto ao
objecto da pesquisa.
Para Bertaux (1997), o conceito utiliza-se diferentemente conforme o estatuto
da pesquisa. De facto, toda a pesquisa empírica se processa por estádios que passam
da ignorância à descoberta, depois à representação mental dos processos sociais e
ao seu confronto com os factos e observações e, enfim, à exposição oral ou escrita
dessa representação com fins de difusão do conhecimento. No fundo, há três mo-
mentos que correspondem a três estatutos ou graus de maturação diferentes da pes-
quisa: exploração, análise e síntese. O critério de saturação apenas precisa de ser
garantido para as pesquisas de análise que pretendem a generalização.

b) A questão da amostragem
A «amostragem» está relacionada com os dois critérios anteriores; no entan-
to, e mais uma vez, não estamos perante posições pacíficas, pois os diversos para-

42

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As Diferentes Funções e Formas de Utilização

digmas, ao pretenderem chegar a resultados diferentes na pesquisa, constróem o


conceito de amostra também de formas diferentes.
Diga-se desde já que não aconselhamos que se designe por «amostras» os
universos de análise qualitativa, apesar de ser essa a opção da maioria dos autores,
que utiliza a noção de «amostra» num sentido não probabilístico. Pires considera
que esta discussão sobre a amostragem probabilística ou não probabilística não tem
grande sentido na análise qualitativa, na medida em que a oposição se faz aqui
mais entre o «caso único» e o «caso múltiplo» (explicitamos em seguida a sua propos-
ta). «Recorre-se à amostra que é de tipo não probabilístico. A amostra não se cons-
titui por acaso, mas em função de características específicas que o investigador
quer pesquisar. Diversas formas de amostra são possíveis: acidental, intencional,
por quotas, típica de voluntários em cascata ou bola de neve […]. É uma amostra
teórica, não probabilística» (1997b, p. 97).
De facto, as características da análise qualitativa não facilitam uma defini-
ção a priori do universo de análise, porque, em primeiro lugar, a pesquisa quali-
tativa é muito maleável, o objecto evolui, a amostra pode alterar-se ao longo do
percurso; e, por outro lado, é difícil (se não mesmo impossível) definir uma amostra
sem fazer referência ao processo de construção do objecto; assim, é quase im-
possível definir uma amostra para as análises qualitativas, dada a diversidade de
objectos e métodos.
Álvaro Pires, num interessante artigo inteiramente dedicado a este tema,
escreve: «Bem entendido, não é falso dizer que as pesquisas qualitativas consti-
tuem o seu corpo empírico de forma não probabilística. É a sua característica
mais imediatamente visível. Mas convém não utilizar esse critério como princípio
director para a classificação geral das amostras. Deve reflectir-se sobre o estatuto
dos dados para falar de amostra e não falar de amostra para reflectir sobre o
estatuto dos dados. Explorarei então a hipótese de que há antes de mais uma
distinção estratégica a estabelecer entre a amostra qualitativa e [a] quantitativa
[…]» (1997b, pp. 116/117). O autor descreve então os diferentes tipos de amostras
quantitativas (os números) e qualitativas (as letras), que se apresentam no qua-
dro seguinte.

43

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

Figura 2
TIPO DE DADOS, DIFERENTES MODALIDADES DE AMOSTRAGEM
E DIFERENTES TIPOS DE AMOSTRAS

Amostragem acidental
Amostragem
Amostragem de voluntários
não
probabilística Amostragem por quotas
Amostragem por escolha racional
O quantitativo
(os «números»)
Amostragem por bola de neve
Amostragem aleatória simples
Amostragem Amostragem sistemática
probabilística Amostragem estratificada
Amostragem em grafos
Dois Amostragem aureolar
Grandes
Tipos
de Dados
Amostragem de actor
Amostragem Amostragem de meio, institucional
por caso ou geográfico
único
Amostragem de acontecimentos
O qualitativo
(as «letras») Amostragem por contraste
Amostragem por homogeneização
Amostragem Amostragem por contraste-aprofun-
por caso damento
múltiplo Amostragem por contraste/saturação
Amostragem por procura de caso
negativo

Fonte: Álvaro Pires (1997), «Échantillonnage et Recherche Qualitative: Essai Théorique et Méthodologique», in
Poupart e outros, La Recherche Qualitative. Enjeux Épistémologiques et Méthodologiques, Gaetan Morin, Canadá.

A amostragem por caso único


A «amostragem»19 por caso único consiste na escolha de uma pessoa, situação
ou local para fazer uma análise intensiva, do tipo «estudo de caso». No terreno das
entrevistas, o caso único assenta na escolha de uma pessoa ou de uma família, ensaian-
do-se geralmente entrevistas aprofundadas com recurso a técnicas complementares

19
Utilizarei sempre a «amostra» ou «amostragem» entre aspas quando referenciada à análise qualitativa, pois, como
já referi, embora muitos autores denominem dessa forma o «universo de análise», não subscrevo essa posição.

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As Diferentes Funções e Formas de Utilização

de recolha de informação. Veja-se, por exemplo, o interessante caso de Tante Suzan-


ne, em que Catani (1982) e outros (incluindo a Susana da história) analisam a trajec-
tória operária durante o século XX através de uma única história de vida de uma
operária chapeleira20. Muitas vezes, estes «casos únicos» servem, na terminologia de
Bertaux, de pesquisa exploratória, abrindo pistas à investigação de análise para gene-
ralização numa segunda fase. Mesmo assim, Pires considera que o facto de haver um
único caso não impede a generalização: «A generalização designa as inferências ana-
líticas feitas a partir da observação sobre a estrutura, os processos de funcionamento
de um sistema ou de uma vida social. Pode-se também aprofundar, como refere
Morin (1969), a partir de fenómenos e situações “extremos”, “paroxísticos”, “patológi-
cos” (para o sistema) que têm um papel “revelador”» (1997b, p. 151).
É preciso reconhecer, sobretudo, que estas situações são adequadas a uma
descrição em profundidade, dando lugar ao detalhe, à procura de sentidos escondi-
dos, e abrindo pistas para exploração futura. O facto de serem «únicos» leva, no
entanto, a uma boa reflexão sobre a escolha dessas unidades de observação.

A amostragem por casos múltiplos


São sociologicamente mais frequentes as amostragens por «casos múltiplos».
A descrição que faz Pires dos vários casos é muito interessante, pois demonstra bem
as condições de generalização, que são muito diferentes em cada uma das «amostra-
gens» sugeridas.

i) Amostra por contraste


A finalidade da amostragem por contraste através de entrevistas é comparar
situações extremas (externas). Segundo Pires (1997b), «constrói-se um mosaico com
um número diversificado de casos: com a presença de pelo menos 2 de cada grupo
pertinente para o objecto de pesquisa». Michelart, citado por Pires (1997b), indica
que o contraste deve ser procurado por via de duas espécies de variáveis: as variá-
veis gerais características dos estudos quantitativos (sexo, idade, grupo social, região,
etc.) e as variáveis específicas, associadas ao próprio objecto da pesquisa.

20
Maurizio Catani, Susanne Maze (1982), Tante Suzanne ou l’Histoire de Vie Sociale et du Devenir d’Une Femme qui Fut
d’abord Modiste dans la Mayenne à l’Époque de la Premiére Guerre Mondiale et ensuite l’Épouse d’Un Horloger à Paris, Mère de
Deux Enfants et Propriétaire d’Un Jardin en Grande Banlieue sans jamais Nier Ses Origines, Librairie des Merediens, Paris.

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

Estes autores consideram que, numa amostragem por contraste, e no domínio


das atitudes, depois de 30 ou 40 entrevistas já está recolhido material suficiente para
a análise e que a informação complementar não traz grande novidade. Consideram
ainda que, no caso de uma amostra por contraste, não é pela saturação, mas pela
comparação, que se chega à generalização.
Numa amostragem por contraste, o investigador tem uma ideia precisa do
número de entrevistas que precisa fazer, pois a partir de um determinado número de
casos torna-se difícil tratar a quantidade de material recolhido.
Como se coloca, pois, a questão da generalização nas pesquisas por contras-
te? «A representatividade, ou a generalização, apoia-se então primeiro sobre uma
hipótese teórica (empiricamente fundamentada) que afirma que os indivíduos não
são todos intermutáveis, pois não ocupam o mesmo lugar na estrutura social e repre-
sentam um ou mais grupos. São portadores de estruturas e de significações sociais
próprias a cada grupo e é graças a um conjunto de características comuns, específi-
cas de cada grupo, que se pode identificar certas tendências e generalizar ao con-
junto de indivíduos em semelhante situação» (Pires, 1997b, p. 159).

ii) Amostra por homogeneização


Inversamente à situação anterior, na amostra por homogeneização o analista
quer estudar um grupo homogéneo. O controlo da diversidade não é realizado face
a elementos externos ao grupo seleccionado, mas internamente ao grupo. Por exem-
plo, escolhe-se aprofundar a imagem do sindicalismo no grupo dos operários da
indústria automóvel. Aqui aplica-se o princípio da diversidade interna, procuran-
do-se as variáveis pertinentes face a este objecto, isto é, aquelas que façam variar a
posição do actor face ao objecto, na medida em que se procura a diversidade dentro
do grupo dos operários da indústria automóvel. Torna-se assim importante entrevistar
operários com uma grande diversidade de características que se considera susceptí-
veis de fazer variar a apreciação face ao sindicalismo: idade, género, tipo de activida-
de, tipos de contratos de trabalho, experiência de conflitos de trabalho, etc.
Neste tipo de amostra, é difícil prever o número de entrevistas a realizar.
O decurso da pesquisa defini-lo-á: se a pesquisa tiver um estatuto de análise, na
«amostra» por homogeneização não serão necessárias tantas entrevistas para atingir a
saturação. A maioria dos autores considera que a saturação está presente a partir de
30 a 50 entrevistas, mas neste tipo de amostragem, dependendo da definição de ho-
mogeneidade, poderão ser menos.

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As Diferentes Funções e Formas de Utilização

Pires (1997b) considera ainda que a amostra por contraste pode ter duas versões
que permitem reduzi-la: por contraste-aprofundamento e por contraste-saturação.

iii) Amostra por contraste-aprofundamento


Este tipo de amostra situa-se na fronteira entre o caso único e os casos múlti-
plos, pois pretende-se estabelecer a comparação entre dois casos contrastados que
funciona simultaneamente como estudo de caso (análise em profundidade) e como
tipologia de casos múltiplos. Por exemplo: analisar as relações entre alunos em duas
escolas, existido numa delas miscigenação cultural e na outra uma grande homoge-
neidade cultural. Do ponto de vista teórico, pretende-se comparar em profundidade,
e de forma relativamente autónoma, cada caso explorando pistas sobre as variáveis
que marcam as diferenças de convivência entre os alunos. Nesta situação não existe
saturação e o estudo tem geralmente um estatuto exploratório.

iv) Amostra por contraste-saturação


A amostra por contraste-saturação, como o seu nome indica, pretende atingir
rapidamente a saturação e é geralmente aplicada em problemáticas não muito comple-
xas e relativamente restritas. Assim, acumulam-se entrevistas de pequena dimensão
(duas horas), bem centradas em apenas alguns tópicos. Por exemplo, em lugar de fazer
uma entrevista em profundidade de 10 horas, fazem-se três entrevistas mais curtas.
A finalidade teórica é combinar a amostra por contraste e por homogeneização. Não
convém ultrapassar as 50 ou 60 entrevistas, por questões logísticas de tratamento, mas
geralmente atinge-se antes a saturação, tudo dependendo da «densidade» do objecto.

v) A amostra pelo caso negativo


A amostra pelo caso negativo traduz-se na procura de uma situação que infirme
as hipóteses explicativas do investigador. Procura-se a excepção à regra, o «caso negro»
que, pelo confronto, fortaleça as hipóteses explicativas já esboçadas. Sendo uma amostra
rara nos estudos qualitativos, mantém a sua pertinência em temas polémicos.

***
Em síntese, as decisões sobre o número de entrevistas numa pesquisa qualita-
tiva dependem:
• do estádio de conhecimento do objecto;
• do estatuto da pesquisa (exploratória, analítica, etc.);

47

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

• do tipo de definição do universo em análise;


• dos recursos disponíveis para o investigador.
Há ainda limitações técnicas relacionadas com a capacidade dos investigado-
res. A experiência tem vindo a demonstrar que um único entrevistador terá dificulda-
des em trabalhar mais de 30 entrevistas em profundidade. Na maioria das pesquisas,
o trabalho em equipa permite trabalhar até 50 entrevistas, pese embora o facto de a
utilização do software informático de análise de conteúdo, sendo cada vez mais
amigável, estar a mudar rapidamente esse panorama.
Face à questão de saber quem entrevistar (no interior da amostra definida), e
considerando que não se trata de interrogar indivíduos cujas respostas serão soma-
das, mas informadores susceptíveis de comunicar as suas percepções da realidade
através da experiência vivida, não se procura nem a representatividade estatística,
nem as regularidades, mas antes uma representatividade social e a diversidade dos
fenómenos. Nesse sentido, garantindo os critérios científicos já referidos, será útil ter
um bom interlocutor, isto é alguém que seja capaz de verbalizar as suas condições de
vida e, como diria Ferraroti (1983), constitua uma «síntese activa» do universo social.
A disponibilidade do entrevistado e a sua capacidade de verbalização são critérios
considerados importantes; na medida em que se pretendem actores capazes de co-
municar a «racionalidade» da sua posição «de classe» e portanto, em igualdade de
critérios, é preferível escolher um «intelectual de classe», ou seja alguém que consegue
verbalizar bem a sua condição social e a lógica que imprime nas suas acções.

Quadro 1
EXEMPLO DA DEFINIÇÃO DE PERFIS A ENTREVISTAR
(TERESA COSTA PINTO21)

CRITÉRIOS PARA A CONSTITUIÇÃO DOS PERFIS


«Toma-se como ponto de partida a trajectória residencial, tendo em conta o facto
de esta incluir ou não um percurso de mobilidade de Lisboa para a periferia ou vice-versa.
O primeiro caso dará origem ao perfil “Móvel”, o segundo ao perfil “Localizado”;
– A partir destes dois perfis-base, considera-se, para ambos, o local de residência actual
(Lisboa/periferia), dando origem a dois subgrupos: “Central” e “Periférico”;

21
Teresa Costa Pinto (2005), «Percepção e Avaliação da Qualidade de Vida», tese de doutoramento em Sociologia
no ISCTE, Lisboa.

48

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As Diferentes Funções e Formas de Utilização

(Cont.)
– Exclusão dos grupos etários mais novos e mais velhos, pelo excessivo condicionamento
que a idade, nestes grupos, pode impor em termos de noção de qualidade de vida: os mais
novos e não activos, pelo que dependentes financeiramente, tenderão a sobrepor as noções
mais ideais de qualidade de vida, enquanto os mais velhos e também não activos terão meno-
res expectativas e, assim, uma noção de qualidade de vida mais circunscrita ao que a idade
pode oferecer. Daqui resulta o apuramento de um grande grupo constituído pelos activos,
divididos em dois subgrupos: activos até aos 35 anos e activos com mais de 35 anos;
– Toma-se em consideração, para cada um dos perfis, a necessária diversidade em termos de
pertença de classe, incluindo-se pelo menos uma entrevista em cada um dos perfis a um
indivíduo de classe alta, média e baixa.»

Quadro 2
EXTRACTO DA DEFINIÇÃO DOS PERFIS NO «ESTUDO DE AVALIAÇÃO
DOS IMPACTES DO RENDIMENTO MÍNIMO GARANTIDO:
OS BENEFICIÁRIOS» (MAIO DE 2002, IDS)

QUADRO GLOBAL DOS PERFIS


Desemprega- Famílias com Famílias com Famílias
dos de longa probl. saúde Minorias jovens em situação Isolados monopa- Total
duração no agregado étnicas de marginalidade rentais*
Norte 3 2 3 4 3 5 20
Centro 4 4 3 3 3 3 20
Lisboa e Vale
do Tejo 3 2 8 3 1 3 20
Alentejo
8 6 5 5 7 8 39
Algarve
Açores
9 8 9 6 7 39
Madeira
Total 27 22 19 24 20 26 138

* DEFINIÇÃO DOS PERFIS: FAMÍLIAS MONOPARENTAIS FEMININAS

PERFIL 1

• Titulares até 44 anos


• Até dois filhos
• Com situações de desemprego recente

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

(Cont.)
• Em idade activa com dificuldades de inserção profissional por ausência de ofertas
de emprego
• Mais do que o 9.º ano de escolaridade (preferencialmente com o 12.º ano ou mais)
• Ruptura total dos laços sociais
• Menos de dois anos na medida
• Beneficiários
• Novos utentes dos serviços de protecção social

PERFIL 2

• Titulares com mais de 55 anos


• Mais de dois filhos
• Sem situações de desemprego
• Até o 9.º ano de escolaridade
• Ruptura parcial dos laços sociais
• Mais de dois anos na medida
• Beneficiários pela primeira vez na medida
• Situações já conhecidas dos serviços

PERFIL 3

• Titulares até 44 anos


• Mais de dois filhos
• Situações de desemprego sazonal
• Em idade activa com dificuldades de inserção profissional por sazonalidade
• Até o 9.º ano de escolaridade
• Situações de reingresso
• Situações já conhecidas dos serviços

PERFIL 4

• Titulares até aos 44 anos


• Independente do número de filhos
• Com situações de desemprego prolongado
• Em idade activa com dificuldades de inserção profissional por desmotivação pessoal

50

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As Diferentes Funções e Formas de Utilização

(Cont.)
• Até o 9.º ano de escolaridade
• Ex-beneficiários já integrados profissionalmente
• Novos utentes dos serviços de protecção social

PERFIL 5

• Titulares até aos 44 anos


• Com mais de dois filhos
• Com situações de desemprego prolongado
• Em idade activa com dificuldades de inserção profissional por problemas de discri-
minação de género
• Ex-beneficiários já integrados profissionalmente
• Novos utentes dos serviços de protecção social
• Beneficiários
• Situações já conhecidas dos serviços

3.4. Como interrogar?


a) A directividade na condução das entrevistas
Todos os autores defendem que, numa metodologia indutiva, a verbalização
franca por parte do entrevistado (considerado o informador privilegiado) é funda-
mental e, quanto menor for a intervenção do entrevistador, maior será a riqueza do
material recolhido, dado que a lógica e a racionalidade do informante emergirá mais
intacta e menos influenciada pelas perguntas. O pressuposto epistemológico deste
tipo de pesquisa é o de que o informador é um actor racional capaz de dar sentido
às suas acções e que o objecto da entrevista é apreender o sentido subjacente à vida
social. Assim, explicar com clareza o objectivo da entrevista e os seus temas é indis-
pensável, porque permite estabelecer essa relação de parceria que gera a possibilida-
de de «reflexividade» nos dois elementos desta interacção22.

22
É nesta capacidade heurística e ética das entrevistas que reside a defesa insistente, por parte de alguns investiga-
dores, da necessidade da «devolução» do material tratado e da «aferição» do sentido da interpretação como um momento
indispensável do método.

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

No entanto, são fundamentalmente o objecto da pesquisa e o estádio dos


conhecimentos que permitem ser mais ou menos directivo. De facto, considerando a
maioria dos trabalhos em sociologia, torna-se necessário que todos os entrevistados
foquem os mesmos aspectos, pelo que há alguma orientação temática das entrevis-
tas. De facto, a directividade nas entrevistas em profundidade depende, em larga
medida, dos seguintes aspectos:
• O estádio dos conhecimentos (entrevista mais aberta inicialmente e com
um fecho progressivo à medida que as questões centrais vão sendo iden-
tificadas);
• O estatuto da pesquisa (o nível exploratório é geralmente menos direc-
tivo);
• As características pessoais do entrevistado (é sempre bom ter um entrevis-
tado com facilidade para verbalizar).
Assim, e segundo Bertaux (1997), oscilamos entre ausência de directividade e
semidirectividade em função destes muitos factores.
Mas, para além das questões técnicas, colocam-se também questões éticas
quando se trata de entrevistas em profundidade e, muito particularmente, de «his-
tórias de vida», devido ao carácter intimista que tem sempre uma narração biográ-
fica. Parece uma questão simples, mas não é. Pedir a alguém que nos conte a sua
vida é complexo, pela relação de confidência/convívio gerada numa relação de
(apesar de tudo) desigualdade, sobretudo quando se trata de populações em situa-
ções de exclusão social, às quais o sociólogo sente que nada tem para dar em troca
de tanta disponibilidade e abertura.
Lessard-Herbert e outros (1997) assinalam a relação entre a validade de
uma investigação e o respeito por princípios de ordem ética, nomeadamente os
dois que mais privilegia: informar correctamente os indivíduos dos objectivos da
investigação e proteger as fontes. Há, no entanto, nestas como noutras posturas
de pesquisa, que assegurar princípios de estabelecimento de uma relação de
confiança, como a clareza de ideias para poder transmitir os objectivos do traba-
lho, a neutralidade face a juízos de valor, o envolvimento dos próprios na pes-
quisa e, sempre que possível, a devolução dos resultados, etc. Claro que se
pretende uma relação de neutralidade face ao conteúdo do que é dito, mas a
ética da relação estabelecida nas entrevistas é comunicacional e não apenas ra-
cional, pelo que se revelam fundamentais as capacidades de empatia e de inte-
racção humana.

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As Diferentes Funções e Formas de Utilização

b) A construção do guião da entrevista


Para dar espaço às formas de narração do entrevistado, o guião é geralmen-
te estruturado em grandes capítulos, desenvolvendo depois perguntas de «lembran-
ça» que apenas são introduzidas se o entrevistado as não referir nas respostas.
É frequente, sobretudo nas pesquisas exploratórias, que o guião seja completado
ao longo do tempo.
Muitos guiões têm, no final da entrevista (para não perturbar a lógica de
«troca de impressões») uma parte fechada e objectiva com a «caracterização» de
alguns elementos essenciais à pesquisa: idade, tipo de família, datas relacionadas
com o guião (sobretudo se é uma história de vida), etc.
A maior parte das vezes, os investigadores que conceberam a pesquisa
também são quem realiza as entrevistas, pelo que, quando acabam de conceber
o guião, já o conhecem perfeitamente e têm-no memorizado. Essa memorização
permite seguir o discurso do entrevistado na sua lógica própria sem preocupa-
ção com a ordem do questionamento, introduzindo as perguntas de «lembrança»
quando oportuno, assemelhando-se a entrevista a uma conversa informal e flui-
da. De facto, nem o modo de perguntar nem a ordem das perguntas é importan-
te, pois o apelo à racionalidade do actor permite a proximidade no vocabulário
e a sequência.
A questão mais importante na construção do guião não é nenhuma das
acima descritas, que são do conhecimento geral. A questão mais importante é a
clarificação dos objectivos e dimensões de análise que a entrevista comporta. De
facto, mesmo no nível exploratório, mas sobretudo no nível analítico, a necessi-
dade de comparabilidade entre os sujeitos e o evitamento da descrição que pre-
para a interpretação exigem um questionamento complexo que vai muito para
além do senso comum, seguindo «hipóteses explicativas» que permitem interpre-
tar os fenómenos em análise. Assim, sugere-se que, numa primeira fase, o guião
seja construído em função dos objectivos que decorrem da problematização.
Veja-se o exemplo seguinte.

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

Quadro 3
EXEMPLO DE GRELHA ANALÍTICA SOBRE A QUALIDADE DE VIDA

GRELHA ANALÍTICA
PROBLEMÁTICAS DIMENSÕES
ORIGEM SOCIAL • Escolaridade e profissão dos pais
E FAMILIAR • Apreciação sobre o nível de vida até à independência finan-
ceira
• Evolução desse nível de vida (constante, trajectória ascendente
ou descendente)
• Aspirações dos pais em relação aos filhos (escolaridade, pro-
fissão)
TRAJECTÓRIA • Saída de casa dos pais (quando, porquê, onde)
FAMILIAR • Experiências de casamento/união de facto
• Filhos (número e idade)
TRAJECTÓRIA • Nível de escolaridade
ESCOLAR E • Profissões desempenhadas
PROFISSIONAL • Aspirações quanto ao nível de escolaridade e ao trabalho (agora,
na adolescência e na juventude)
• Comparação com outras pessoas do mesmo grupo de amigos
TRAJECTÓRIA • Local de nascimento
GEOGRÁFICA E • Locais por onde passou e em que fase da vida
RESIDENCIAL • Casas habitadas (localização, dimensão, conforto, apreciação)
até à actual
• Razões da mudança
• Agregado familiar em cada uma dessas etapas
• Aspirações quanto à casa (localização, modelo, propriedade)
• Nível de satisfação
APRECIAÇÃO DA • Factores que contribuem para a satisfação e/ou a insatisfação
CASA ACTUAL (localização, modelo, dimensão, propriedade)
• Para os «Móveis»: satisfação em relação à situação actual, com-
parando com a anterior (Lisboa/periferia)
• Correspondência com as aspirações que tinha em relação à casa
• Desejo/possibilidade de mudança, para onde, por que razões
e para que tipo de casa (para os «Localizados», desejo/pos-
sibilidade de mudar para Lisboa/periferia)

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As Diferentes Funções e Formas de Utilização

(Cont.)
• Comparação com outras pessoas do mesmo grupo de amigos
• Casa ideal
QUALIDADE • Significado de qualidade de vida (QV) (evolução desse significado)
DE VIDA: • Factores que mais contribuem para a QV
SIGNIFICADO E • Factores que mais afectam a QV (eventual experiência pessoal
AVALIAÇÃO passada)
PESSOAL • Avaliação da sua QV:
– Nível de satisfação hoje
– Face ao passado
– Perspectivas futuras
– Aspectos/áreas eleitos como os mais importantes para a sua
vida pessoal/Satisfação com esses aspectos
– Correspondência com as aspirações que tinha ou tem em
termos de QV
– Comparação com outras pessoas do mesmo grupo de amigos
QUALIDADE • Apreciação da QV do local de residência
DE VIDA: – Nível de QV
APRECIAÇÃO – Factores que mais contribuem
TERRITORIAL – Problemas que mais afectam
– Nível de satisfação e razões
– Apreciação de alguns factores: espaços verdes, qualidade
ambiental, qualidade urbanística, equipamentos e serviços,
mobilidades
– Correspondência com o local onde pensava/desejava viver
– Local ideal para viver
• Apreciação da QV na cidade/no concelho
– Nível de QV
– Factores que mais contribuem para a QV
– Problemas que mais afectam a QV
– Evolução da QV
• O que deveria ser feito para melhorar a QV no local de
residência e concelho/cidade
• Locais de melhor QV:
– Nas periferias (quais)
– Em Lisboa (em que locais)
Fonte: Teresa Costa Pinto (2005), «Percepção e Avaliação da Qualidade de Vida», tese de doutoramento em Sociologia
no ISCTE, Lisboa.

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

Quadro 4
GUIÃO DE ENTREVISTA*

APRESENTAÇÃO E OBJECTIVOS DA ENTREVISTA


Estamos a contactá-lo(a) no sentido de nos facultar uma entrevista sobre qualidade de
vida e modos de vida no contexto de uma investigação para uma tese de doutoramento,
para a qual nos interessa saber, além da sua concepção de qualidade de vida e da forma como
gere o seu dia-a-dia, um pouco da sua «história de vida», em termos dos locais e das habitações
onde viveu, da sua origem familiar, das profissões que eventualmente já teve, etc.

ENTREVISTA
I. ORIGEM FAMILIAR E TRAJECTÓRIAS RESIDENCIAL, FAMILIAR E PROFISSIONAL
Pode contar-nos, em traços gerais, as principais etapas da sua vida até ao momento
actual, começando por referir:
1. • local de nascimento, escolaridade e profissão dos pais
• como caracteriza o nível de vida que tinha a sua família até à sua independência
financeira e como evoluiu esse nível de vida (constante, trajectória ascendente ou
descendente)
• que aspirações é que os seus pais tinham em relação a si e eventuais irmãos em termos
de grau de escolaridade a atingir e profissão
2. • Diga-nos agora os locais por onde passou e as casas que habitou até este momento,
nomeadamente quanto a:
– locais por onde passou e em que fase da vida (com que agregado familiar em cada
uma delas; referir momento de saída de casa dos pais – quando, porquê, onde –,
experiências de casamento/união de facto, filhos – número e idade)
– tipo de casa (localização, dimensão, conforto, apreciação)
– razões da mudança
• Até à saída para a sua própria casa, que aspirações é que tinha quanto à casa (locali-
zação, modelo, dimensão propriedade)?
3. Vamos referir-nos agora ao seu percurso escolar e profissional. Diga-nos que grau de
escolaridade (que estudos) atingiu e as profissões que já teve até hoje.
• Qual dessas profissões o realizou mais e porquê?
• Na sua adolescência/juventude, o que esperava/sonhava em relação aos estudos e à
profissão (que profissão gostaria ou pensava ter)? E agora?
• Em relação ao grupo de pessoas com quem mais se dá (ao seu grupo de amigos), pensa

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As Diferentes Funções e Formas de Utilização

(Cont.)
que é um privilegiado em termos da profissão e do trabalho que realiza ou, pelo contrá-
rio, acha que os outros têm uma profissão melhor (mais rendimento, estatuto, etc.)?
II. APRECIAÇÃO DA CASA ACTUAL
1. Gostaríamos agora de saber a sua opinião em relação a alguns aspectos desta casa. Está
satisfeito com a casa que agora habita? O que é que gosta mais e menos?
• Factores que contribuem para a satisfação e/ou insatisfação (localização, modelo,
dimensão, propriedade)
2. Esta casa corresponde, de alguma maneira, àquela que pensava poder vir a ter? E àquela
que desejava?
3. Gostaria ou coloca a possibilidade de mudar de casa? Por que razões, para onde e para
que tipo de casa?
4. Acha que a sua casa é melhor ou pior do que a generalidade das dos seus amigos?
5. Como descreveria a casa ideal?
* Extracto do guião de entrevista de Teresa Costa Pinto, tese de doutoramento citada, ISCTE, 2005.

Quadro 5
EXEMPLO DA GRELHA (PROVISÓRIA) DE ENTREVISTA
A ASSISTENTES SOCIAIS QUE TRABALHAM EM SAÚDE MENTAL

TÓPICOS PERGUNTAS INFORMAÇÃO PRETENDIDA


Contexto Sabe quais são as linhas de Conhecimento dos objectivos da
político e legal orientação fundamentais da política política de saúde mental
de Saúde Mental a partir de 1998? Tipo de regulamentação instituída:
Tem ideia de quais são as leis mais se prevê apenas o tratamento, ou
importantes nessa matéria? também a integração social e a
defesa dos direitos
Contexto Qual é a finalidade ou a missão da Missão da instituição: prevenção,
institucional instituição onde trabalha? Como se tratamento e/ou reabilitação
reflecte na intervenção do S. Social? Filosofia de intervenção subjacente
Que resultados espera do trabalho Influência sobre as práticas dos
do assist. social? assistentes sociais. Resultados
esperados

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

(Cont.)
Objectivos da O que pretende atingir, ou espera Se a intervenção é mais dirigida
intervenção do que aconteça, quando intervém para a normalização dos
assistente social junto dos seus clientes? comportamentos, para a integração
social ou para a emancipação das
pessoas e o reconhecimento dos
seus direitos
Reconhecimento É habitual fazer uma análise das Se os assistentes sociais sabem
das necessidades/ necessidades e dos problemas e podem transmitir informação
/dos problemas sociais e fazê-la chegar às suas sobre necessidades e problemas
chefias? sociais às instâncias decisoras
Relação com os Que tipo de relação estabelece com Se o resultado da relação é a
clientes/utentes os seus clientes/utentes? Que forma dependência ou a autonomia,
e famílias de tratamento utiliza? Como os se a posição do utente é passiva
designa? E com as famílias? ou activa.
Se a relação é de controlo, de
apoio ou de colaboração. Se há
uma partilha do poder
Abordagem à Qual é a sua intervenção junto da Se a intervenção na comunidade
comunidade e comunidade? Encaminhamento, é uma forma de envolvimento
às redes sociais articulação, trabalho em rede, das pessoas, dos grupos sociais
parcerias? e serviços, como meio de mudar
as atitudes perante a saúde/
/doença mental.
Importância Qual é a tarefa que as associações Qual é o papel da sociedade civil
das associações desenvolvem? na prestação de cuidados de saúde
e IPSS Prestação de serviços? mental e na promoção dos direitos
Representação dos utentes? e participação das pessoas

Perspectiva dos Acha que no seu trabalho é Se existe uma preocupação com a
direitos humanos possível ter em conta ou promover defesa e a afirmação dos direitos,
os direitos das pessoas/utentes? numa perspectiva de cidadania e
Como? participação. Quais os direitos que
Que direitos? estão em causa

58

Pesquisa_2reimp.p65 58 2010-02-12, 16:40


As Diferentes Funções e Formas de Utilização

(Cont.)
Tendências Considera que existem algumas Se os profissionais estão abertos
actuais e desafios tendências actuais na Saúde a novas perspectivas de actuação
para o SS Mental que sejam desafios para como o empowerment,
o ass. social? a participação de utentes nos
serviços, a auto-ajuda
Regulação/ Acha que a sua acção contribui Se as práticas dos assistentes
/emancipação para a integração e a normalização sociais são mais reguladoras
dos comportamentos ou para a ou mais emancipatórias,
autonomia e a participação? se promovem o controlo
social ou a participação
democrática
Fonte: Isabel Fazenda, dissertação de mestrado em Serviço Social na FCH da Universidade Católica, 2006.

c) A equipa
Para a realização da entrevista, é sempre preferível que se possa contar com
duas pessoas, o que permitirá, por um lado, um maior controlo do guião e, por
outro, a disponibilização de um dos investigadores para os aspectos relacionais,
enquanto o outro se «especializa» nas questões de ordem logística: gravador e seu
funcionamento, registo do contexto e das formas de expressão e elementos essen-
ciais da entrevista, etc.

d) A gravação e a transcrição
A gravação em magnetofone depende, mais uma vez, do tipo de pesquisa que
se está a realizar, mas sugere-se que, sempre que possível, as entrevistas sejam grava-
das ao mesmo tempo que se vai tomando notas.
A sua transcrição é sempre aconselhável, mas, dado o tempo disponível, su-
gere-se que seja feita apenas no caso das entrevistas em profundidade, quando o
material é tratado directamente. Nas outras situações, constroem-se as sinopses das
entrevistas (ver o ponto 4.3.) recorrendo a novas audições do material já gravado.
Sugere-se a leitura do livro de Poirier e Valadon (1983) sobre os conselhos para um
bom trabalho de gravação e transcrição.

59

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

e) O tempo da entrevista
As entrevistas têm um tempo muito variável, dependente do tipo de pesquisa.
Uma pesquisa de caso único como a «Tante Suzanne» já referida (ver nota da p. 45)
levou vários anos. Pois incluiu para além da «Tia Susana» muitos outros familiares,
colegas de trabalho, empregadores, etc. É muito frequente serem necessários vários
momentos de entrevista, não apenas devido à duração (porque o tempo da entrevista
pode exceder a disponibilidade do entrevistado naquele momento), mas também
porque, em entrevistas que têm um cariz diacrónico, a clarificação da sequência de
momentos cronológicos exige que se volte a falar do mesmo para clarificar alguns
elementos ou datas. De qualquer forma, o tempo desejável para não criar mal-estar
no entrevistado é de duas a três horas.

f) O lugar da realização da entrevista


As entrevistas devem ser realizadas preferencialmente num lugar neutro, ou
pelo menos de fácil controlo pelo informador. O controlo do território da entrevis-
ta coloca o entrevistado mais à vontade e permite-lhe também uma melhor gestão
do tempo se a entrevista for longa. No entanto, os inconvenientes são a frequência
com que o contexto da vida quotidiana do entrevistado pode interferir na entrevis-
ta e na intimidade necessária à narração. Frequentemente, quando as entrevistas se
realizam em casa do entrevistado, ou nas suas proximidades (café do bairro, co-
lectividade, etc.), os vizinhos e a restante família podem interferir em demasiada,
gerando alguns problemas.
As entrevistas devem ser marcadas com antecedência e o entrevistado deve
ser avisado da duração média esperada. Não se deve esquecer as questões prévias
a colocar no início das entrevistas, tais como a explicitação do objecto de traba-
lho, a valorização do papel do entrevistado no fornecimento de informações con-
siderando o seu estatuto de informador privilegiado, a duração e a licença para
gravar, etc.

60

Pesquisa_2reimp.p65 60 2010-02-12, 16:40


Capítulo 4

TRATAMENTO DO MATERIAL

Este capítulo, centrando-se no tratamento de entrevistas em profundidade,


pretende apresentar um tipo de análise de conteúdo que tem vindo a ser ensaiado
no CET 23 e que tem origem na simplificação da proposta de Poirie, Valladon e
outros (1983). Claro que não há um único tipo de análise de conteúdo, como não
há um tipo de entrevista, e assim esta sugestão de trabalho é apenas adequada a
alguns tipos de pesquisa sociológica em que estão disponíveis pelo menos duas
dezenas de entrevistas.

4.1. A evolução do entendimento da análise de conteúdo


No contexto deste livro, estamos situados nos paradigmas da análise com-
preensiva e indutiva, recusando pois as propostas convencionais de análise de
conteúdo de carácter hipotético-dedutivo. Nos paradigmas indutivos há lugar para
uma grande capacidade de interpretação, ou inferência, por parte do investigador,
mas, por isso mesmo, os riscos e as críticas a este tipo de investigação são bastan-
te superiores aos das propostas tradicionais de análise de conteúdo que se estru-
turam a partir de lógicas dedutivas decorrentes dos quadros conceptuais.
Considera-se, no entanto, que a maioria dos manuais apresenta apenas
uma análise de conteúdo de lógica dedutiva que, para além de ser contraditória
em relação aos pressupostos da pesquisa compreensiva, está melhor preparado
para os textos escritos e curtos e é de pouca utilidade para o tratamento em
entrevistas longas, a não ser que se utilizem programas informáticos de análise de
conteúdo.
De facto, inicialmente, a análise de conteúdo inseria-se na mesma lógica da
utilização das metodologias qualitativas que já se criticou e pretendia-se quase

23
Centro de Estudos Territoriais do ISCTE.

61

Pesquisa_2reimp.p65 61 2010-02-12, 16:40


Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

sempre o seu tratamento quantitativo. Em 1952, Berelson24 apresentava a análise


de conteúdo como uma descrição objectiva, sistemática e quantitativa 25 do con-
teúdo manifesto de uma comunicação. Alguns anos mais tarde, Moscovici26 (1968)
«aliviava» a definição escrevendo que a análise de conteúdo tinha «a finalidade de
efectuar inferências com base numa lógica explicitada sobre mensagens cujas ca-
racterísticas foram inventariadas e sistematizadas». Já mais perto do final do século
(1980), Krippendorf 27 retira a dimensão descritiva e quantitativa e define a análise
de conteúdo a partir das «inferências» como uma «técnica de investigação que per-
mite fazer inferências válidas e replicáveis dos dados do contexto».
É um pressuposto que a análise de conteúdo é uma técnica e não um método,
utilizando o procedimento normal da investigação – a saber, o confronto entre um
quadro de referência do investigador e o material empírico recolhido. Nesse sentido,
a análise de conteúdo tem uma dimensão descritiva que visa dar conta do que nos
foi narrado e uma dimensão interpretativa que decorre das interrogações do analis-
ta face a um objecto de estudo, com recurso a um sistema de conceitos teórico-
-analíticos cuja articulação permite formular as regras de inferência.

4.2. Diversidade nas formas de utilização


Todo o material recolhido numa pesquisa qualitativa é geralmente sujeito a uma
análise de conteúdo, mas esta não constitui, no entanto, um procedimento neutro,
decorrendo o seu accionamento e a sua forma de tratamento do material do enquadra-
mento paradigmático de referência. A análise de conteúdo tradicional que estruturava à
partida as categorias e subcategorias de análise partia de um quadro positivista lógico-
-dedutivo onde a teoria detinha o comando integral dos resultados da pesquisa e deixa-
va escapar as dimensões e racionalidades dos sujeitos não contidas no enquadramento
inicial. O seu accionamento também se torna difícil quando estamos perante entrevistas
longas que tornam impossível a análise sistemática de todo o acervo disponível28.

24
Citado por Laurence Bardin (1979), Análise de Conteúdo, Edições 70, Lisboa.
25
Destaque nosso.
26
Citado por Bardin (1979), op. cit.
27
Citado por Bardin (1979), op. cit..
28
Imagine-se uma pesquisa em que se realizam 25 entrevistas que, depois de transcritas, têm, cada uma, cerca de 30
páginas. Isso significaria cerca de 750 páginas para analisar.

62

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Tratamento do Material

A escolha da técnica mais adequada para analisar o material recolhido depen-


de dos objectivos e do estatuto da pesquisa, bem como do posicionamento paradig-
mático e epistemológico do investigador. O tratamento do conteúdo varia, pois,
consideravelmente de pesquisa para pesquisa e de investigador para investigador.
Segundo Bardin (1979) num célebre manual, os vários tipos de análise de conteúdo
podem agrupar-se em:
• CATEGORIAL – Análise temática, que constitui sempre a primeira fase da
análise de conteúdo e é geralmente descritiva;
• AVALIAÇÃO – Mede as atitudes do entrevistado face ao objecto de estudo
e a direcção e a intensidade da opinião: desmembra-se o texto em unida-
des de significação (de forma semelhante ao que faz a análise categorial)
e analisa-se a carga avaliativa;
• ENUNCIAÇÃO – Entende-se a entrevista como um processo. Usa-se so-
bretudo para entrevistas longas e muito abertas em que se desprezam os
aspectos formais da linguagem, centrando-se a análise nos conteúdos.
• EXPRESSÃO – Análise fundamentalmente formal e linguística utilizada
geralmente para investigar a autenticidade de documentos, em psicolo-
gia para dar conta do processo de construção das identidades e perso-
nalidades ou ainda, em ciência política, para a análise dos discursos
políticos.
Todo o método de identificação das categorias e subcategorias sugeridas
por Bardin é hipotético-dedutivo, pelo que preferimos aqui sistematizar a partir de
Demazière e Dubar (1997) algumas metodologias de análise de conteúdo baseadas
nos paradigmas mais indutivos, pese embora a enorme diferença entre eles e, por-
tanto, entre as formas de tratamento do material recolhido.
Baseando-se no paradigma compreensivo, Didier Demazière e Claude Dubar
(1997) sintetizam em três os tipos de análise de conteúdo:
i. A análise proposicional do discurso (APD);
ii. A análise das relações por oposição (ARO);
iii. A análise indutiva de desenvolvimento dos próprios autores.

a) A análise proposicional do discurso (APD)


Ensaiada sobretudo por psicólogos nos anos 80, este tipo de análise tem
como postulado de base a defesa de que o sujeito constrói o seu discurso através

63

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

de uma «estrutura de universo simples» organizado em torno de «algumas noções-


-chave». Todo o discurso é, assim, estruturado através de uma estrutura argumenta-
tiva que traduz a sua consistência cognitiva. O objectivo da APD é explicitar esse
mundo referencial e reconstituir a sua imagem desmontando a forma como o dis-
curso se relaciona com os objectos e os factos.
A unidade semântica é a proposição que associa um argumento a um predi-
cado. As proposições atribuem propriedades aos objectos, ou ligam os objectos
entre si, sendo as relações representadas por verbos. O discurso é assim corta-
do em proposições que constituem unidades autónomas de tratamento do texto.
A etapa seguinte consiste em identificar os referentes (substantivos, pronomes ou
equivalentes) que têm valor referencial.

b) A análise das relações por oposição (ARO)


Inspirada na análise estrutural, a análise das relações por oposição é um
método de exploração das entrevistas que repousa na hipótese da existência de
uma sintaxe sobreposta à gramática linguística que, estruturando o discurso, or-
ganiza o seu significado em oposições. Este método é conhecido pelo nome de
«análise das relações por oposição» (ARO) e centra-se na procura dessa estrutura
de relações de oposição apoiando-se nos procedimentos de corte, codificação e
redução do discurso analisado. Procede-se a partir da identificação dos signifi-
cantes e das relações de significação (semelhante ao recorte de temas e segmen-
tos de discursos relacionados). Cada enunciado deve ser decomposto num objecto
significante (substantivo, verbo ou equivalente) e numa proposição de significa-
do (adjectivo, verbo ou equivalente). Depois, os pares assim identificados são
reduzidos à sua expressão mais simples (por exemplo, cozinha-ordem; cozinha/
/quotidiano; jardim-espaço público/horta-espaço privado, etc.). Veja-se, a título
de exemplo, na tese de mestrado de Alexandra Castro 29, a apreciação dos mate-
riais de construção por parte dos emigrantes de dupla residência em Portugal e
em França.

29
Alexandra Castro (1998), O Gosto na Arquitectura Popular: as Casas dos Emigrantes de Dupla Residência França-
-Portugal, ISCTE, Mestrado de Sociologia do Território, p. 179.

64

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Tratamento do Material

Quadro 6
PROPRIEDADES ESTÉTICAS DA VIDA QUOTIDIANA (PEVD)
– OS MATERIAIS
EXEMPLO DE ANÁLISE DAS RELAÇÕES POR OPOSIÇÃO

PEVD Materiais Estética em si


Mármore Brilhante (+)
Antigo/Moderno Madeira Bonito
Frio/Quente Tijoleira Frio
Limpo/Sujo Tijoleira A brilhar
Ordem/Desordem Parquet Discreto
Antigo/Moderno Pedra Exige savoir-faire
Antigo/Moderno Estuque Bonito

Estética em si
PEVD Materiais
Outro/Ética Funcionalidade Económico
Limpo/Sujo Mármore Nota-se tudo, sujidade Sempre sujo, mancha
perceptível tudo
Mármore «Corriqueiro», vulgar
Ordem/Desordem Madeira Exige trabalho, tempo Altera-se com o
tempo
Ordem/Desordem Tijoleira Definitivo Definitivo
Limpo/Sujo Tijoleira Sujo, pouco perceptível Fácil de lavar
Limpo/Sujo Parquet Fácil de limpar
Limpo/Sujo Pedra Sujo, pouco perceptível Não mancha
Pedra Valor acrescentado
Fonte: Alexandra Castro (1998), O Gosto na Arquitectura Popular: as Casas dos Emigrantes de Dupla Residência França-
-Portugal, ISCTE, Mestrado de Sociologia do Território, p. 179.

c) Análise indutiva e processo de teorização: a proposta de Demazière e Dubar


Apoiando-se nas teorias de Glaser e Strauss30, Demazière e Dubar defendem
uma abordagem indutiva, quer na análise dos materiais, quer nas suas interpretação
e produção teórica. Criticando os métodos dedutivos pelo facto de pressuporem a

30
Glaser B. G. e Strauss, A. L. (1967), The Discovery of Grounded Theory, Strategies for Qualitative Research,
Aldine, Chicago.

65

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

priori uma teoria que seria de seguida verificável no terreno, defendem que os da-
dos empíricos são o ponto de partida e a matéria-prima de qualquer teoria.
Assim, não partindo de uma teorização prévia, elaboram um campo proble-
mático (leituras e referências a outros autores, estudos, etc.) e estruturam um con-
junto de questionamentos abertos mas centrados nas problemáticas que investigam
recolhendo informações. A teoria é construída interrogando indutivamente os da-
dos empíricos.
A análise do material recolhido faz-se a partir dos seguintes níveis de identifi-
cação do discurso:
• Nível das funções: recorte dos episódios do discurso e identificação das
sequências (S);
• Nível das acções (identificando os actuantes/personagens que intervêm e
o sistema de relações (A);
• Nível da narração: presença de teses, argumentos e propostas destinados
a convencer o interlocutor ou a defender uma ideia – Argumentos (P).
O incidente, depois de codificado e relacionado com os diferentes campos, é
classificado, formulando-se proposições de interacção entre as categorias de que resul-
ta um modelo descritivo que especifica as condições necessárias e suficientes de um
fenómeno. Com apoio em Greimas e Hiernaux, analisa-se as unidades de significação
assim identificadas como uma «estrutura de relação binária» (por exemplo, «gosto» e
«não gosto») ou como uma relação de disjunção que a opõe ao seu inverso.
Esta estrutura de análise é ensaiada no livro de Demazière e Dubar31 de forma
original, pois que são muito poucos os que, situando-se no campo da sociologia,
propõem um método de análise de conteúdo em que o sujeito é analisado «vertical-
mente» na lógica interna da produção de um discurso individual, ao contrário do que
é frequente na análise por categorias ou problemáticas. Na maioria das análises de
conteúdo em sociologia, são as categorias sociais, e não os sujeitos, que estão no
centro da análise, «desmontando-se» os discursos e reunindo-se os fragmentos em
categorias sociológicas.
Num dos exemplos que os autores apresentam, trata-se da análise de entre-
vistas sobre a inserção de jovens no mercado de trabalho. A análise de conteúdo

31
Didier Demazière e Claude Dubar (1997), Analyser les Entretiens Biographiques: l'Exemple des Récits d'Insertion,
Nathan, Paris.

66

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Tratamento do Material

inicia-se por uma síntese dos elementos significantes, como se descreve no esque-
ma em baixo, onde se anota a estrutura do discurso através de «sequências»32, os
argumentos 33 e também os actuantes 34 (personagens) que as corporizam. Estão
claras as oposições mais marcantes: entre os estudos, o trabalho, o fácil e o difícil,
o possível e o impossível.

Quadro 7
EXTRACTO DE ANÁLISE DE ENTREVISTA
EM DEMAZIÈRE E DUBAR

Sequências Argumentos Actuantes


• A vida não é fácil. (P2)
• Eu trabalho. • Tenho dinheiro para viver • Não vejo como posso sair
• Eu magoo-me. • Tive sorte, mesmo assim. (P1) daqui. (A1)
• Fazer pequenos biscates
de construção (S+)
• Tenho muita bagagem ao • Não é fácil encontrar um • É para mim... eu... o pior (A1)
nível da escola. (S-1) lugar com estabilidade. • Ela prefere instalar-se primeiro
• Um trabalho para uma pessoa e depois casar.
se instalar e tudo
• Parei de estudar no 1.º ano • O meu pai foi também assim,
do CAP. nunca foi à escola. (A4)
• Não ia bem, não fazia nada.
(S=)
• Um ano depois tornei a ir • Já não é apenas uma questão
embora, fiz um estágio… de estar ocupado.
Não se aprendia nada (S!) • Fazemos aquilo, não temos
nada, não significa nada. (P7)
• Trabalhar nos estaleiros de • Trabalho nas obras e biscates • Tinha conhecimentos, um
construção civil.. Aprendi encontra-se sempre. (P1) vizinho... Comecei com ele,
todos os ofícios. era o seu auxiliar. (A5)
Fonte: Demazière e Dubar (1997), p. 127.
As letras e os números referem-se às sequências/unidades do discurso.

32
Considera-se sequência o conjunto de todas as unidades que descrevem acontecimentos, acções ou situações
encontradas pelo entrevistado e que são narradas como factos tendo geralmente uma ordem cronológica. No caso da
entrevista de Luc, são sintetizadas 36 sequências.
33
Os argumentos são propostas simples que têm uma apreciação ou um juízo sobre um acontecimento, uma pessoa
ou uma situação.
34
No original, actants ; são consideradas actuantes todas as unidades do discurso que fazem intervir uma per-
sonagem (mesmo que seja o entrevistado) que se coloque em relação com as situações ou personagens.

67

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

Figura 3
ESQUEMA-SÍNTESE DA ENTREVISTA DE LUC

Mundo sócio-profissional

Sem estudos Com estudos


(trabalho operário) (trabalho terciário)

PARECIDO NÃO PARECIDO

(Com independência) (Sem independência) (Estudos curtos) (Estudos longos)


TRABALHO, TUDO FÁBRICA, NADA DIPLOMA PROF. UNIVERSIDADE

Impossível NEGÓCIO
(sonho) (artesanato) PLANO INFERNAL
NADA FÁCIL (carreira)

Improvável LUGAR
NADA FÁCIL FÁBRICA (emprego)

Possível
FÁCIL BISCATES
(precário)
Provável CONSTRUÇÃO
(real) FÁCIL CIVIL

Vizinho Eu Pai Namorada Irmão

NÃO SE A VIDA
DEVE NÃO É TENHO PROJECTOS
SONHAR FÁCIL

Fonte: Didier Demazière e Claude Dubar (1997), Analyser les Entretiens Biographiques, Nathan, Paris, p. 139.

4.3. Proposta de análise de entrevistas aprofundadas


e histórias de vida: processo simplificado de análise
de conteúdo
Apresenta-se aqui uma proposta de análise de conteúdo a partir de um
processo simplificado que tem por base as propostas de Poirier e Valladon (1983).
Esta proposta tem, no entanto, alguns pressupostos que assentam nos interesses
da análise em sociologia, nomeadamente no facto de estar orientada para um
número razoável de entrevistas (pelo menos 15 a 20 entrevistas), pois baseia-se

68

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Tratamento do Material

numa análise comparativa através da construção de tipologias, categorias e análi-


ses temáticas.
A análise de conteúdo pretende descrever as situações, mas também interpre-
tar o sentido do que foi dito. De facto, quando falamos em investigação empírica,
falamos de uma série de operações como descrever os fenómenos (nível descritivo),
descobrir as suas co-variações ou associações (nível correlacional e grosso modo
objectivo da análise categorial) e ainda descobrir relações de causalidade/de inter-
pretação das dinâmicas sociais em estudo (nível interpretativo e grosso modo corres-
pondente à análise tipológica).
Nas entrevistas em profundidade (e histórias de vida) utiliza-se uma diversida-
de de técnicas de análise de conteúdo para cada uma destas operações. Como fazer,
pois, uma análise de entrevistas em profundidade?

a) Transcrição
Em primeiro lugar, neste processo simplificado de análise de conteúdo pres-
supõe-se que as entrevistas sejam realizadas com a lógica e as técnicas referidas
em 3. Assim, uma vez realizadas as entrevistas, torna-se necessário transcrevê-las
para papel.
As formas de transcrição podem ser aprofundadas pela leitura do livro de Poi-
rier, Valladon e outros (1983), mas recorda-se que cerca de uma hora de gravação leva
entre três a quatro horas de transcrição (há quem refira até 10 horas de transcrição).
No contexto de entrevistas em que os entrevistados falam na primeira pessoas35,
a transcrição deve ser integral e fiel ao que foi dito.
As propostas para tornar mais célere a transcrição são as seguintes:
• Numa primeira fase transcrever (de preferência logo no computador) o
que se entende na audição, deixando espaços brancos nas passagens em
que a audição não é clara;
• Numa segunda fase, rever a gravação e preencher manualmente as «brancas»;
• Numa terceira fase, redigir um discurso capaz de ser inteligível, com pon-
tuação, supressão de elementos inúteis (há quem o faça apenas para as

35
Quando os entrevistados têm o estatuto de informadores privilegiados e falam em nome de terceiros ou emitem
opiniões de ordem geral, não é necessária uma transcrição total e pode-se passar depois da audição à construção das
sinopses de entrevista.

69

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

frases que vai aproveitar no texto e mantenha intacto o resto da entrevis-


ta). No entanto, é preciso dar conta de que a transcrição do discurso oral
simples, sem arranjo, não torna o discurso inteligível depois de escrito.

b) Leitura das entrevistas


Uma vez transcritas, as entrevistas são impressas, deixando-se margens largas
à esquerda e à direita do papel; procede-se depois a uma leitura cuidadosa de cada
entrevista.
A leitura das entrevistas comporta pelo menos duas operações:
• Sublinhar algumas das frases do texto a cor, por exemplo:
– Azul: para os factos;
– Amarelo: para algumas frases ilustrativas do discurso que iremos pro-
vavelmente aproveitar no momento da redacção do texto;
– Vermelho: para frases ou sequências de que não apreendemos o sig-
nificado de imediato e que merecem tratamento posterior;
– Há quem assinale a uma outra cor as surpresas do discurso, os temas
inesperados, novas articulações problemáticas, etc.
• Leitura das entrevistas e anotação
Ao mesmo tempo, «resume-se» a entrevista nas margens esquerda e direita do
papel: durante a leitura, regista-se na margem esquerda uma pequena síntese da
narrativa (análise temática) e na margem direita a relação mais conceptual com o
modelo de análise (análise problemática)36.
Como se trata de uma leitura indutiva, muito próxima do material das entre-
vistas, é natural que surjam novas temáticas (descritivas) e problemáticas (níveis
que permitem novas interpretações sobre o fenómeno a estudar). Estas temáticas e
problemáticas devem constar das margens na análise das entrevistas. De qualquer
forma, como a entrevista teve como suporte um quadro conceptual de problemati-
zação e um guião, a grande maioria das temáticas e problemáticas está identificada,
sendo então completada nomeadamente ao nível das subaquáticas que emergiram
no discurso.

36
Ver o exemplo no Quadro 8, retirado da pesquisa de «Estudo de Avaliação dos Impactes do Rendimento Mínimo
Garantido: os Beneficiários», Maio de 2002, IDS.

70

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Tratamento do Material

Quadro 8
EXEMPLO DE LEITURA DA ENTREVISTA
E ANOTAÇÕES

71

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

(Cont.)

72

Pesquisa_2reimp.p65 72 2010-02-12, 16:40


Tratamento do Material

c) Construção das sinopses das entrevistas


Com base na leitura anterior, constroem-se as sinopses das entrevistas numa
grelha vertical cuja primeira coluna apresenta as grandes temáticas do guião de en-
trevista, acrescentadas com os novos elementos introduzidos pela leitura anterior
(ver exemplo na página 74).
As sinopses são sínteses dos discursos que contêm a mensagem essencial da
entrevista e são fiéis, inclusive na linguagem, ao que disseram os entrevistados. Tra-
ta-se portanto de material descritivo que, atentamente lido e sintetizado, identifica as
temáticas e as problemáticas (mesmo as que não estão referenciadas no guião da
entrevista). Quando se trata de estudos exploratórios e as entrevistas são muito aber-
tas, as temáticas e problemáticas são construídas durante a pesquisa, sendo depois
agrupadas de forma a permitir a sua comparação.
Alguns investigadores optam por colocar o próprio discurso dos entrevistados
nas caixas da grelha através de «copia e cola», mas é preciso dar conta de que um
mesmo assunto pode ser referido em diferentes momentos da entrevista. Há quem
coloque desde logo na sinopse as frases que foram assinaladas na leitura inicial, de
forma a poder recorrer a elas no momento da construção do texto e, portanto, traba-
lhar com menos papel.
As sinopses têm como objectivos centrais:
• Reduzir o montante de material a trabalhar identificando o corpus central
da entrevista;
• Permitir o conhecimento da totalidade do discurso, mas também das suas
diversas componentes;
• Facilitar a comparação longitudinal das entrevistas;
• Ter a percepção da saturação das entrevistas.
As sinopses podem ser completadas por outros esquemas que dão conta de
percursos biográficos, dados de caracterização, etc. (Ver o interessante exemplo na
pesquisa de Alexandra Castro caracterizando o percurso geográfico e habitacional
das famílias ciganas – Figura 4).
Assim, as várias temáticas poderão ter uma leitura horizontal (ver os exemplos
nos quadros 8 e 9 extraídos da pesquisa de «Estudo de Avaliação dos Impactes do
Rendimento Mínimo Garantido: os Beneficiários», Maio de 2002, IDS e da tese de
mestrado em Sociologia do Território de Alda Gonçalves, «Construção Social de Iden-
tidades Juvenis em Contexto de Exclusão Social», ISCTE, 1995, Volume 1).

73

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

Quadro 9
EXEMPLO DE SINOPSE DE ENTREVISTA

Problemáticas Entrevista 1 Entrevista 2 Entrevista 3


Tempos «[...] juntar miúdos e tentar «[...] são os gostos do «[...] ando aí no bairro, ou ‘tou
livres andar com eles a brincar e a pessoal da minha idade: ali no Real a jogar às máquinas,
(Ocupações) correr e a fazer desporto, a ouvir música, falar com ou ‘tou aqui na Rotunda [...]
conhecer a serra, p. e., que é o pessoal, estar em estamos por ali o dia todo
uma das coisas que eu adoro contacto com outras encostados, à espera de
fazer, que eu acho que esta pessoas e [...] com pessoal, ou vamos [...] ali ao
serra é lindíssima...» [Trata-se amigos.» (P. 1) Continente [...] dar uma volta
da serra de Sintra]« [...]. Daqui dos jovens do
[...] é como morrer, estar bairro, isto é mais ou menos a
inactivo é horrível, por isso eu vida de 90% deles [...], não
tento sempre fazer qualquer trabalham, não fazem nada [...].
coisa, assim, juntar pessoas, Eu acho que a vida que eu levo
conversar com pessoas... [...] não é a vida da maior parte dos
ensinar os mais novos a fazer jovens de agora [...] a que eu
coisas giras, ou então mesmo levo é um bocado esquisita,
com jovens [...] criar sempre digamos assim.» (P. 1)
qualquer coisa diferente.» (P. 1)
Representa- «[...] o trabalho significa a «P’ra mim, o trabalho «Não trabalho [...] já fiz montes
ções sobre o realização dos meus sonhos [...] significa ganhar dinheiro de coisas, desde paquete a
trabalho fazer aquilo que realmente p’ra sobreviver.» (P.1) servente, já estive ali no
quero; tenho de lutar por isso Continente também, como
[...] fazer aquilo que se gosta repositor [...] já fiz montes
ou anda-se aqui uma vida de coisas.»
frustrada...» (P. 3) «O significado do trabalho
p’ra mim? [...] é um tempo que
eu estou a passar [...] numa
coisa que eu goste [...] pode
ter o meu futuro [...] agora
se for assim um trabalho
qualquer p’ra mim é ganhar
o dinheiro ao fim do mês
e pronto.» (P. 2)
Consumos «[...] estão-se a criar vários «[...] toda a gente, não só «[...] dinheiro é preciso em
– Modos de vícios [...] o jovem realmente os jovens, mas os adultos, todas as ocasiões, sem dinheiro
vida juvenis precisa do dinheiro para gastá- precisam de dinheiro p’a ninguém vive. O consumo [...]
-lo nos vícios, porque eles, por consumir [...] p’a se viver, vai depender dos gostos de
uma razão ou por outra, por não é? [...] há jovens que cada um [...] viver e pagar a
não encontrarem em casa precisam de dinheiro p’a renda da casa e ter um carro,
aquilo que realmente precisam consumir a droga e há pagar o carro, pagar o
ou nas escolas, ou andarem outros jovens que consumo do carro e os nossos
frustrados... [...] encaram os precisam de dinheiro p’a consumos do dia-a-dia. [...] p’ra
vícios como uma maneira de se vestirem bem [...] os mais uns há mais uns gastos
lhes dar prazer [...].» (P. 4) jovens hoje só pensam que outros não têm, têm os
em dinheiro p’a gastar.» consumos da droga, têm os
(P. 1) consumos do alcoolismo e
pronto, tudo isso leva
dinheiro.» (P. 3)

Fonte: Alda Gonçalves (1995), A Construção de Identidades Juvenis em Contexto de Exclusão Social, Tese de Mestrado
em Sociologia do Território, ISCTE.

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Quadro 10

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EXEMPLO DE SINOPSE DE ENTREVISTA REALIZADA NO ÂMBITO DO «ESTUDO DE AVALIAÇÃO DOS
IMPACTOS DO RENDIMENTO MÍNIMO GARANTIDO: PERFIL MINORIAS ÉTNICAS» (2001-2002, IDS/CET)
1.2. Comparação da vida
presente face à passada ANÁLISE EXCERTOS DA ENTREVISTA

Percepção da condição Manifesta viver com grandes dificuldades não só


sócio-económica actual porque vive em condições muito deficitárias, mas
também porque tem agora mais dificuldades em

75
fazer venda ambulante (frequenta um curso de for-
mação profissional diário, que lhe ocupa o dia todo)
Comparação da condição Julga ser este o pior momento da sua vida em «Por isso nunca posso ter uma vida conforme as outras pessoas
sócio-económica actual termos de condição sócio-económica. têm. E se tivesse uma casa, eu tinha uma vida. A nossa vida é
face à(s) condição(ões) vender na rua, pronto, sinto-me bem andar a vender na rua e...
sócio-económicas trazer comer para as minhas filhas. Nunca passei uma necessidade
anterior(es) tão triste conforme estou a passar agora. [...] Nunca, nunca, nunca,
passei tão mal na minha vida.”
Enquanto viveu com os pais, teve uma condição «Quando vivia com os meus pais? Pronto, ou era eu que não

75
sócio-económica mais desafogada («Pelo menos pensava, nunca fui rica, mas era eu que não pensava e tinha o
sempre teve o que comer»). que queria se calhar, vinha à hora do almoço, tinha o almoço,
mesmo que fosse pouquinho, mas tinha. Depois quando veio as
filhas é que eu comecei a pensar... calçar, vestir...»
Atribui as suas dificuldades não só ao seu percurso «Antigamente o cigano não passava assim tanto. Não sei se se
Tratamento do Material

pessoal de vida, mas também a alterações sociais lembram de eles irem assim para a Avenida de Roma vender...
significativas que afectam a comunidade cigana de pronto, tinham uma vida diferente, não é como agora, estas, estas
uma forma mais genérica. drogas e estas coisas, estas misérias, estes roubos, pronto.
Antigamente não se ouvia falar de tanta coisa assim. Era diferente.
A gente ia para a Avenida de Roma sempre vendíamos, sempre
trazíamos dinheiro para comer, nunca passávamos fome.»
Percepção de situações Ainda existe alguma discriminação social. No centro «Há. Há crianças “olha o cigano”, “oh mãe, olha os ciganos”; sentem-
de discriminação social paroquial, onde as filhas estão no ATL, não existe, -se com medo, mesmo que eles não façam mal, há crianças assim,
porque estão já muito habituados com os ciganos. já tenho visto. [...]. Não, aqui não, aqui estão muito habituados à
etnia cigana, que sempre moraram, já há muito ano que moraram

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aqui no Campo Grande. As professoras estão habituadas e os miú-
dos aqui na escola, aqui não é tanto, mas se for outra escola, já há.”»
Influência de eventuais situações
de discriminação social na
condição sócio-económica actual
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Figura 4
TRAJECTÓRIAS GEOGRÁFICAS E RESIDENCIAIS DOS ENTREVISTADOS

César Espanha/Portugal Valverde Monte das Flores Portugal

76
Coruche
1928
Alentejo/Espanha Cabrela Évora* Az. Manhoso Alto dos Cucos Malagueira
Anos 30 e 40 Anos 50 Anos 60 e 70

Vitor Portugal / Espanha


Espanha Castelo Branco
Moura
1933
Alentejo Lisboa Évora* Setúbal Paio Pires Az. Manhoso Alto dos Cucos Malagueira
Anos 30 e 40 Anos 50 Anos 60 e 70

76
Alentejo Viana do Castelo
Algarve
Olga.
Castro
1957 Cruz da Picada Malagueira C. da Picada
Évora* Az. do Manhoso Évora Évora Évora
Anos 60 Anos 70 1988 1993 1994
* Actual bairro da Malagueira.
Legenda:
Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

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Percursos paralelos
Tenda Barraca Casa do Casa ocupada Casa própria Local e data
empregador ou arrendada de nascimento Percursos coincidentes

Fonte: Alexandra Castro (1994), Apropriação do Espaço e Estratégias Identitárias do Grupo Étnico Cigano no Bairro da Malagueira, Tese de Licenciatura em Sociologia, Lisboa,
Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.
Tratamento do Material

d) A análise descritiva: análise tipológica, categorial e temática aprofundada


A análise de uma grande diversidade de material escrito segue geralmente qua-
tro etapas:
• Redução e selecção da informação;
• Descrição;
• Interpretação/verificação;
• Escrita e divulgação.
As análises tipológicas, categoriais e de temática aprofundada são considera-
das análises descritivas e ainda não interpretativas, mas têm uma forte intervenção do
investigador. No fundo, a intenção é contar ao leitor o que nos disseram os entrevista-
dos, mas, em lugar de contar 25 opiniões, agregam-se as diferentes lógicas do que nos
foi contado.
A proposta é realizar três tipos de análises «descritivas» – «construção de tipolo-
gias por semelhança», «análise categorial» e «análise temática aprofundada», apresentan-
do depois as análises interpretativas (análises de ideal-tipo e/ou outro tipo de arrumação
das interpretações sociológicas).

A análise tipológica
Em metodologia qualitativa, a realização de análises tipológicas é o método por
excelência. Como referem Didier Demazière e Claude Dubar, «o estabelecimento de uma
tipologia é uma das operações mais correntes e das mais praticadas quer nas ciências
sociais, quer nas ciências experimentais. Colocar em ordem os materiais recolhidos, clas-
sificá-los segundo critérios pertinentes, encontrar as variáveis escondidas que explicam
as variações das diferentes dimensões observáveis tais são os objectivos mais correntes
de uma tipologia. Todos os manuais de metodologia, todos os dicionários de especialida-
de científica falam de tipologias e dos diferentes modos de as realizar» (1997, p. 274).
Mas a diversidade de conceptualizações sobre o que é uma análise tipológica e as
diferentes propostas tornam confusa a sua utilização, já que, como escreve Dominique
Schnapper, «[…] não existe verdadeiro consenso dos sociólogos sobre a análise tipológi-
ca, enquanto que os procedimentos, pelos quais os dados recolhidos por inquéritos
empíricos podem ser interpretados, são objecto de um largo consenso» (1999, p. 2)37.

37
Vale a pena aprofundar a diversidade das formas de entendimento e de construção da análise tipológica com
Dominique Schnapper (1999), La Compréhension Sociologique: Démarche de l'Analyse Typologique, PUF, Paris.

77

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

O estabelecimento de uma tipologia é uma operação básica da análise de con-


teúdo e consiste em ordenar os materiais recolhidos, classificá-los segundo critérios
pertinentes, encontrar as dimensões de semelhanças e diferenças, as variáveis mais
frequentes e as particulares. Aqui, propõem-se dois tipos de análise que pretendem
reagrupar de forma inteligível o que nos foi transmitido nas entrevistas:
• A construção de tipologias por semelhança, que consiste em reagrupar por
critérios de proximidade de conteúdo (os sujeitos, os fenómenos, as opi-
niões, etc.) em agrupamentos exclusivos, isto é, as dimensões não são
cumulativas;
• A análise categorial, que consiste na identificação das unidades pertinentes
que influenciam determinado fenómeno em estudo «reduzindo o espaço de
atributos» de forma a sacar apenas as variáveis explicativas pertinentes.

Figura 5
EXEMPLOS DE ANÁLISES DE CONSTRUÇÃO
DE TIPOLOGIAS POR SEMELHANÇA
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE A SIDA

Quadro de representações
sociais e valores dos
portadores de sida

1.º TIPO 4.º TIPO

LETALIDADE
Associação da doença LONGEVIDADE
a morte e à É possivel viver com
esperança de vida a sida, vivência adquirida
mais curta ao longo da doença.

3.º TIPO
2.º TIPO

NEGATIVIDADE SOFRIMENTO
SOCIAL A ideia de sofrer é
Na cidade é uma mais significativa;
doença de marginais associação à doença

Fonte: Paulo Caldeira, Tese de Licenciatura; ISCTE, 1994

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Tratamento do Material

Quadro 11
TIPOLOGIA DE FORMAS DE LAZER E CONVÍVIO
DE JOVENS EM BAIRRO DEGRADADO

TIPOLOGIA Principais actividades Frequência


1.º TIPO: LAZER CONVIVIAL • Ouvir música E2,E6,E7,E8,
Caracteriza-se por se privilegiar claramente a dimensão • Conviver e conversar E11,E12,E15
relacional, de convívio com amigos. É, portanto, com amigos
claramente, convivial. • Frequentar o Clube de
Jovens
• Passear acompanhado
• Ir para casa de amigos
«não fazer nada»
• Ir a cafés e discotecas
2.º TIPO: LAZER MARGINAL • Ouvir música E3,E5,E14,E16
Prevalece a dimensão de convivialidade, mas com • Conviver com amigos
uma particularidade: é vivida no seio de grupos de • Ir a cafés e discotecas
toxicodependentes, sobretudo englobando actividades • Consumir substâncias
relacionadas com o consumo da droga. tóxicas
3.º TIPO: LAZER COMPLEXO • Desportos E1
Caracterizam-se por combinar actividades desportivas, • Organização de actividades
actividades ao ar livre que privilegiam o contacto com a com crianças e jovens
natureza e ainda a organização de actividades diversas • Relação com a
com crianças e jovens – trata-se de um tipo de lazer natureza, passeios
que privilegia a actividade e a criatividade por oposição • Convivialidade
ao imobilismo. É preferencialmente de grupo e encerra • Organização de actividades
também uma dimensão de convivialidade. diversas no Clube de Jovens
4.º TIPO: LAZER CLÁSSICO • Teatro E$
Engloba algumas actividades distintas das anteriores, • Assistir a espectáculos de
possuindo uma dupla dimensão: são praticadas quer música clássica
individualmente, quer em grupo, embora a dimensão • Leccionar Francês no Clube
convivial não seja referida como dominante. de Jovens
• Cafés

Fonte: Alda Gonçalves (1995), A Construção de Identidades Juvenis em Contexto de Exclusão Social, Tese de Mestrado
em Sociologia do Território, ISCTE.
E – entrevista

Na análise tipológica da Figura 5, Paulo Caldeira (1994) representa as quatro ati-


tudes-tipo que identificou na análise das entrevistas nas pessoas portadoras de sida.
O investigador identificou quatro situações-tipo nas formas de viver e representar
a doença. A lógica com que cada uma vive a relação com a sua doença é bem
diversa, já que alguns a associam à morte ou à sobrevivência, ao sofrimento ou ao
estigma de que sofrem os que vivem com a doença. A tipologia foi construída a
partir da análise de entrevistas e é exclusiva, isto é um entrevistado que está numa
tipologia não estará na outra. Chama-se a atenção para o facto de estas tipologias

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

não serem ideais-tipo, mas sim construções empíricas que existem na realidade
nos sujeitos entrevistados.
No segundo exemplo de construção de tipologias, Alda Gonçalves estrutura a
lógica de organização de tempos livres de jovens moradores num bairro de realoja-
mento em Cascais. Encontrando quatro tipos de lazer dominantes, associa-lhes as
actividades mais frequentes e identifica as entrevistas que correspondem a cada tipo
de lazer. Como se está no domínio da diversidade, embora existam tipologias domi-
nantes, mesmo que exista apenas um actor com um comportamento diferente, esse
actor deve constituir uma tipologia, até porque nas pesquisas exploratórias, dada a
não-saturação do material, é de prever a existência de mais situações com aprofun-
damento em entrevistas posteriores.
Na elaboração do relatório da pesquisa é tradição ilustrar as tipologias por
semelhança com extractos da entrevista, identificados no momento da leitura atenta
da mesma e sublinhadas (a amarelo como sugestão). Esta ilustração não serve ape-
nas para enfeitar o texto, mas é uma explicação dada ao leitor acerca da forma como
se construíram as tipologias, «comprovando» as fontes da análise.

A análise categorial
À identificação das variáveis cuja dinâmica é potencialmente explicativa de
um fenómeno que queremos explicar chamamos «análise categorial». Para Poirier e
Valladon (1983, p. 216), categoria é «uma rubrica significativa ou uma classe que
junta, sob uma noção geral, elementos do discurso». O sentido da identificação da
categoria deve ser bem explícito, mas não unívoco, isto é, não há vantagem em
dizer o tipo de variação a não ser que haja uma posição única em todas as entre-
vistas. Por exemplo, se numa pesquisa sobre as expectativas face ao futuro, as
«habilitações literárias» são uma das variáveis explicativas que fazem variar o fenó-
meno, elas devem ser explicitadas como «nível de habilitações» e não como «baixas
habilitações» ou «altas habilitações», dado que se encontram entrevistados em am-
bas as situações.
Esta análise, sendo ainda uma análise descritiva, é de alguma forma mais
abstracta e não exclusiva, isto é, na mesma entrevista é normal existirem vários dos
factores explicativos encontrados e nenhum dos discursos dos entrevistados contém
todas as variáveis. Assim, é uma análise que faz a mediação para uma explicação e
para a construção ideal típica que se aprofundará a seguir.

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Tratamento do Material

Figura 6
EXEMPLOS DE ANÁLISES CATEGORIAIS
VARIÁVEIS INTERVENIENTES NA PERCEPÇÃO DA TRAJECTÓRIA DO BAIRRO
(IMPACTO DO REALOJAMENTO)

Género Acesso a um
M/F estatuto
residencial
mais elevado

Percepção da
trajectória do bairro
Tempo de
residência Requalificação Diluição
territorial/ Percepção da sociabilidades
/desestruturação das transformação
relações sociais de das relações
sentido comunitário sociais Aumento da
conflitualidade

Segregação
sócio-espacial dos
toxicodependentes
Percepção da
evolução do
fenómeno da
droga/aumento
visibilidade

Fonte: Observatório de Habitação, 6.ª fase (2000), Os Actores e a Produção das Imagens Negativas, CET/GEBALIS.

Estes dois exemplos de análise categorial foram construídos com base numa
pesquisa sobre a identificação das imagens negativas dos habitantes em contex-
tos de realojamento. No primeiro caso, identificam-se as variáveis intervenientes
e potencialmente explicativas da diversidade de imagens. Aí o género, o tempo
de residência, a percepção do tipo de mobilidade social gerada pela nova casa,
etc. influenciam a diversidade de imagens do bairro. No segundo caso, salien-
tam-se as variáveis dominantes e descritivas da imagem negativa. Na diversidade
da lógica interna de construção das categorias em ambas as situações, apenas se
destacam os elementos dominantes e sociologicamente pertinentes para descre-
ver a situação.

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

Figura 7
EXEMPLOS DE ANÁLISES CATEGORIAIS
SINTESE DAS VARIÁVEIS INTERVENIENTES NA PERCEPÇÃO DO BAIRRO

IMAGEM
CONFLITUALIDADE
NEGATIVA

DINÂMICA
SOCIAL LOCAL
Droga
Conflitos
com consumidores
e traficantes

Desestruturações;
Fragilização
das interacções
Composição Conflitualidade locais
social de vizinhança

Clima de
insegurança

Vandalismo Conflitualidade Processo de


de origem étnica não-identificação

Solidão social

BAIRRO = ESPAÇO ESTIGMATIZADO E ESTIGMATIZANTE

Fonte: Observatório de Habitação, 6.ª fase (2000), Os Actores e a Produção das Imagens Negativas, CET/GEBALIS.

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Tratamento do Material

A análise de conteúdo tradicional


Para além da análise das tipologias e da análise categorial, é frequente ainda
a construção de análises temáticas tradicionais para alguns dos nós centrais das
entrevistas. São identificados os corpus centrais da entrevista a analisar em profundi-
dade e, com recurso à identificação e à contagem de categorias e subcategorias, faz-
-se uma análise de conteúdo temática. Volta-se ao material original registado na
gravação e já transcrito, e recompõem-se os fragmentos do discurso dispersos ao
longo do texto.
Pode-se realizar os tipos de análise de conteúdos sugeridos por Demazière e
outros (1997), nomeadamente o de oposição, muito frequentemente utilizado. Hoje,
ainda, para esses corpus específicos, também se utilizam os programas informáticos
de análise de conteúdo.

e) A análise interpretativa: as «hipóteses explicativas» e os «ideais-tipo»


Como se afirmou, as análises anteriores pretendem descrever o que foi dito
pelos entrevistados de forma mais organizada e condensada. No trabalho sociológi-
co, a focalização não se faz geralmente nas dimensões particulares, mas sim nos
fenómenos sociais colectivos, pelo que é através da comparação das entrevistas que
se organiza a apresentação do material.
Mas o trabalho sociológico não se limita à descrição, e compete ao investiga-
dor relacionar os processos históricos globais com as individualidades históricas e
interrogar-se sobre a génese daqueles fenómenos à luz das interrogações que conce-
beu face ao objecto de estudo. Para isso, não se limita a simples descrições etnográ-
ficas, mas procura o sentido social que está subjacente à descrição dos fenómenos
através quer da rearticulação das variáveis, quer da ligação aos fenómenos estrutu-
rais que conhece.
É-lhe permitido, nesta passagem para o nível interpretativo, conceber novos
conceitos e avançar com proposições teóricas potencialmente explicativas do fenó-
meno que estuda. No contexto de uma investigação compreensiva, o investigador
não pretende fazer uma demonstração causal, mas sim defender o sentido da plau-
sibilidade dos resultados.
Se se trata de uma fase exploratória, trata-se de organizar no final as «hipóte-
ses explicativas» do fenómeno estudado; se se trata de uma pesquisa analítica, é
preciso construir um modelo científico de interpretação dos resultados da pesquisa.

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

De facto, se a pesquisa tem carácter exploratório, a sua conclusão, segundo Bertaux


(1997), é exactamente esboçar «hipóteses explicativas» que possibilitem a sua conti-
nuação através de metodologias quer hipotético-dedutivas, quer compreensivas.
Mas, em ambos os casos, coloca-se agora um outro nível de abstracção e de
exigência na investigação: torna-se necessário interpretar sociologicamente o mate-
rial, cruzando a diversidade das informações que até então foram analisadas parce-
larmente por sujeitos ou temas. É um trabalho arriscado, porque se corre o risco de
descolar do material, e exigente na articulação entre a teoria e a empiria, sendo
importante o controlo e o pensamento crítico de toda uma equipa.
Por exemplo, na pesquisa realizada junto dos proprietários de habitação
construída clandestinamente38, identificaram-se quatro hipóteses explicativas: i) a ori-
gem rural e camponesa dos «clandestinos», nomeadamente um determinado habi-
tus de apropriação do alojamento que «explicaria» a predisposição para este processo
construtivo; ii) a presença de redes de solidariedade e cumplicidade relacionadas
com um certo modo de vida e de enraizamento local; iii) uma construção social da
realidade que confrontava as necessidades «morais» individuais com as necessida-
des colectivas imaterializadas e, finalmente; iv) uma dimensão sistémica traduzida
na estratégia de contorno da legalidade que variava em função da situação sócio-
-política do País. Ao contrário do que sucedia nas análises anteriores, em nenhum
momento das entrevistas estes elementos foram verbalizados, resultando antes de
um trabalho de interpretação transversal aos elementos recolhidos da responsabili-
dade da equipa de investigadores.
Uma parte significativa das pesquisas compreensivas em sociologia conclui,
no entanto, com a elaboração de ideais-tipo de pessoas/instituições. Havendo tam-
bém aqui muitas interpretações do que é – e de como se constróem – o ideais-tipo,
sugere-se novamente a referência ao livro de Dominique Schnapper (1999) já citado.
Escreve a autora: «Reduzir a análise tipológica a distinguir num conjunto de unidades
(indivíduos, grupos de indivíduos, factos sociais, etc.) os que se podem considerar
homogéneos de certo ponto de vista reduz a ambição da tradição histórica de We-
ber… Ela [a análise tipológica] não se confunde com a classificação de categorias
mesmo quando o pensamento classificatório e o pensamento tipológico são ambos
mobilizados no decurso de uma pesquisa… A compreensão sociológica tem por

38
António Fonseca Ferreira e outros (1984), Perfil Social e Estratégias dos Clandestinos, CES/ISCTE, Lisboa.

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Tratamento do Material

objectivo substituir a diversidade do real pelas relações inteligíveis ou, segundo a


fórmula de Passeron, propor «uma construção interpretativa da realidade e estabele-
cer “ilhas de inteligibilidade”» (pp. 5 e seguintes).
Essa construção interpretativa da realidade passa frequentemente, na análise
compreensiva, pela construção de ideais-tipo que mais não são do que organizações
simplificadas resultantes da observação sistemática do real. Esses ideais-tipo, tal como
os concebe Weber, não são uma descrição do real e não existem real e empiricamen-
te (o que não acontece com as categorias anteriores que já descrevemos) – são um
instrumento para compreender a acção social, um sistema de pensamento de rela-
ções abstractas, um «quadro de pensamento» (Schnapper, 1999).
Por exemplo, Alcides Monteiro (2004), na sua tese de doutoramento39, sobre
associações de desenvolvimento local, estabelece uma tipologia de associações:
as associações «de tipo instrumental», que maximizam as suas competências técni-
cas; as «de orientação para-pública», que estão muito orientadas para a gestão
funcional de programas; as «de orientação autónoma e solidária», que se estrutu-
ram a partir de concepções alternativas de desenvolvimento, e ainda as «de orien-
tação militante».
A tipologia foi construída a partir de cinco variáveis que foram consideradas
as mais influentes no tipo de orientação da acção das associações de desenvolvi-
mento local: relação com o mercado, tipo de parceria, relação com o Estado, projec-
to político e relação com a comunidade.
Provavelmente, nenhuma das associações analisadas corresponde exactamen-
te a este perfil, mas são construções de «ideal-tipo» que clarificam sociologicamente
o sentido da acção destas associações com base na pesquisa empírica realizada.
Um outro exemplo é-nos apresentado no trabalho de investigação de doutora-
mento de Luís Capucha40, quando actualiza as tipologias face à pobreza identifican-
do cinco «modos de vida» estruturantes das formas de viver a pobreza: «restituição»;
«investimento na mobilidade», «poupança», «dupla referência», «destituição e restrição».
Estes modos de vida são posicionados em dois eixos considerados estruturantes.
O primeiro eixo é o de «competências, oportunidades e recursos materiais» e o se-
gundo contém as «disposições e orientações culturais e relacionais».

39
Alcides A. Monteiro (2004), Associativismo e Novos Laços Sociais, Quarteto, Coimbra.
40
Luís Capucha (2005), Desafios da Pobreza, Celta Editora, Oeiras.

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

Também aqui, estas tipologias são tipos puros baseados num apurado tra-
balho empírico que vem desde 1982 e que foi sofrendo contínuas reformulações à
medida que a investigação avançava.
Estas construções de ideais-tipo são, já por si, um resultado significativo
das pesquisas e um contributo fundamental para a análise das formas de com-
portamento social, mas muitos interrogam-se sobre as possibilidades de genera-
lização.
Na lógica da pesquisa compreensiva, e da forma como neste livro se cons-
truiu o raciocínio, a generalização depende do estatuto da pesquisa. Se a pesquisa
garantiu a diversidade (externa e interna) e saturou a informação, os riscos de
generalização são semelhantes aos de qualquer outra pesquisa. De facto, qualquer
pesquisa é sempre parcelar e provisória, não só porque as dinâmicas sociais mu-
dam no espaço e no tempo, mas também porque a garantia das boas amostragens
é reduzida na pesquisa sociológica, exigindo cuidados aprofundados na extrapo-
lação para universos mais alargados.
Bertaux (1981), citando Glaser e Strauss, afirma que a «a verosimilhança de
generalizações a propósito do mundo social repousa inteiramente na descoberta
de “mecanismos genéricos” de configurações específicas de relações sociais defi-
nindo as situações, as lógicas de acção e desenvolvendo-se – para além dos fenó-
menos de diferenciação – em resposta a situações […]. É descobrindo o geral no
cerne das formas particulares que se pode avançar nesta via. Isto passa pela pro-
cura de recorrências e por aquilo a que se chama saturação progressiva do modelo»
(Bertaux, 1981, p. 21).
Resumindo, realizou-se uma análise horizontal e vertical que nos permitiu
organizar as tipologias interpretativas (as variáveis que influenciaram os fenóme-
nos e a diversidade de situações, expectativas e opiniões) e estruturou-se a inter-
pretação sociológica que é exigida no final da pesquisa; resta agora divulgar os
resultados.

4.4. Elaboração do relatório e restituição


Como em todas as pesquisas, a elaboração do relatório final nunca é uma
questão simples, a maioria das vezes devido à multiplicidade de públicos a que se
destinam as conclusões e, consequentemente, à selecção do tipo de informação e
do tipo de linguagem consoante o público-alvo da divulgação.

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Tratamento do Material

Mas é útil relembrar algumas das sugestões de Poirier e Valladon (1983)


sobre as dimensões que um relatório deve conter, muito particularmente quando
está em causa a divulgação de técnicas de análise menos difundidas ou aceites:
• Explicitar os postulados teóricos, meios e métodos de recolha de infor-
mação;
• Clarificar cuidadosamente as estratégias de recolha e análise dos dados;
• Documentar com dados empíricos as construções teóricas mais signifi-
cativas;
• Expor os resultados negativos ou menos atingidos;
• Revelar as decisões tomadas no terreno que influenciaram as estratégias
da pesquisa e os objectos da pesquisa; apresentação e análise das hipóte-
ses rivais;
• Preservar a confidencialidade das informações;
• Estabelecer a sinceridade dos participantes;
• Explicitar a significação teórica e a generalização dos dados.
A remissão dos dados para os informadores privilegiados é um dos elementos
éticos, políticos e científicos fundamentais deste tipo de pesquisa e, frequentemente,
torna-se necessário produzir vários tipos de relatórios em função dos públicos-alvo.
A divulgação e a aferição pública dos resultados são aspectos inerentes a uma pes-
quisa que considera os informadores como actores participantes na produção da
inteligibilidade social. Nesse sentido, a sociologia é sempre uma sociologia de acção,
pois os conhecimentos produzidos pela pesquisa, ao aumentarem a reflexividade
colectiva, aumentam também a capacidade de compreensão e de mudança social de
todos os implicados.

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Bibliografia de base

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

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Isabel Carvalho Guerra (1997), «The Dark Side of the Moon do Rendimento Mínimo»,
in Sociologia: Problemas e Práticas, n.º 25, Novembro, pp.157-164.
Isabel Carvalho Guerra (2000), Fundamentos e Processos de Uma Sociologia da Acção:
o Planeamento em Ciências Sociais, Princípia, Cascais.
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J. Poirier, S. Clapier-Valladon, P. Raubaut (1983), Les Récits de Vie: Théorie et Pratique,
PUF, Paris [trad. port.: J. Poirier, S. Clapier-Valladon, P. Raubaut (1999), Histó-
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Jean-Claude Kaufmann (1996), L'Entretien Compréhensif, Nathan, Paris.
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Bibliografia de Base

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Robert Mayer e outros (2000), Méthodes de Recherche en Intervention Sociale, Gaetan
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Teresa Costa Pinto (2005), Percepção e Avaliação da Qualidade de Vida na AML: Recur-
sos, Aspirações e Necessidades na Construção da Noção de Qualidade de Vida.
Teresa Costa Pinto (org.) (1999), Processos de Constituição de Imagens Públicas, Di-
nâmicas de Conflitualidade e Insegurança. Um Estudo Comparativo em 5
Bairros Sociais, CET/CML, Observatório de Habitação, Lisboa.
Teresa Costa Pinto (org.) (2000), Os Actores e a Produção de Imagens Negativas, CET/
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Índice

INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 07

1. A DIVERSIDADE DE PARADIGMAS DE REFERÊNCIA


E OS PRESSUPOSTOS DAS METODOLOGIAS COMPREENSIVAS ............ 11
1.1. Concepção teórico-metodológica das entrevistas e histórias de vida ............... 13
a) A «explicação» e a interpretação social: das regularidades
às interdependências ........................................................................................ 13
As causalidades complexas ............................................................................... 16
b) O individualismo – Do sentido da acção à mudança social ......................... 16
c) A articulação entre o objectivo e o subjectivo, ou como se processa
a passagem da história individual à história colectiva ................................... 19
d) Da representatividade estatística à representatividade social ......................... 20
e) A epistemologia de uma relação ...................................................................... 21
f) Da dedução à indução ...................................................................................... 22

2. A OPÇÃO PELAS METODOLOGIAS COMPREENSIVAS E DIVERSIDADE


DE UTILIZAÇÃO ................................................................................................. 27
2.1. As posturas teórico-epistemológicas face à utilização de metodologias
compreensivas ..................................................................................................... 27
a) Postura ilustrativa e lógica causal .................................................................... 28
b) Postura restitutiva e hiperempirismo ................................................................ 30
c) Postura analítica e reconstrução do sentido ................................................... 31
2.2. As três funções da análise compreensiva ........................................................... 33

3. AS DIFERENTES FUNÇÕES E FORMAS DE UTILIZAÇÃO .......................... 35


3.1. Como fazer? Técnicas de realização de entrevistas ........................................... 35
3.2. Construção do modelo de pesquisa: objecto, modelo conceptual
e hipóteses ........................................................................................................... 35
a) A construção inicial do objecto ....................................................................... 36
b) A segunda construção do objecto e o papel da teoria .................................. 38
c) E as hipóteses? .................................................................................................. 39

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Pesquisa Qualitativa e Análise de Conteúdo

3.3. Quem e quantos? ................................................................................................. 39


a) Os princípios da diversificação e da saturação .............................................. 40
A diversidade .................................................................................................... 40
A saturação ........................................................................................................ 41
b) A questão da amostragem ................................................................................ 42
A amostragem por caso único ......................................................................... 44
A amostragem por casos múltiplos .................................................................. 45
i) Amostra por contraste ............................................................................... 45
ii) Amostra por homogeneização ................................................................. 46
iii) Amostra por contraste-aprofundamento ................................................. 47
iv) Amostra por contraste-saturação ............................................................ 47
v) Amostra pelo caso negativo ..................................................................... 47
3.4. Como interrogar? .................................................................................................. 51
a) A directividade na condução das entrevistas .................................................. 51
b) A construção do guião da entrevista ............................................................... 53
c) A equipa ............................................................................................................ 59
d) A gravação e a transcrição ............................................................................... 59
e) O tempo da entrevista ...................................................................................... 60
f) O lugar da realização da entrevista .................................................................. 60

4. TRATAMENTO DO MATERIAL .......................................................................... 61


4.1. A evolução do entendimento da análise de conteúdo ...................................... 61
4.2. Diversidade nas formas de utilização ................................................................. 62
a) A análise proposicional do discurso (APD) .................................................... 63
b) A análise das relações por oposição (ARO) ................................................... 64
c) Análise indutiva e processo de teorização: a proposta de Demazière
e Dubar ............................................................................................................. 65
4.3. Proposta de análise de entrevistas aprofundadas e histórias de vida:
processo simplificado de análise de conteúdo .................................................. 68
a) Transcrição ........................................................................................................ 69
b) Leitura das entrevistas ....................................................................................... 70
c) Construção das sinopses das entrevistas ......................................................... 73
d) A análise descritiva: análise tipológica, categorial e temática
aprofundada ..................................................................................................... 77
A análise tipológica ........................................................................................... 77

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Índice

A análise categorial ........................................................................................... 80


A análise de conteúdo tradicional ................................................................... 83
e) A análise interpretativa: as «hipóteses explicativas» e os «ideais-tipo» ............ 83
4.4. Elaboração do relatório e restituição .................................................................. 86

BIBLIOGRAFIA DE BASE ........................................................................................ 89

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