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Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS


CAMPUS FRANCA

MARCO ANTÔNIO TEODORO DE SOUZA

As ordens no Terceiro Reich: o ideal nazista e a racionalização da


indústria da morte

FRANCA

2013
MARCO ANTÔNIO TEODORO DE SOUZA

As ordens no Terceiro Reich: o ideal nazista e a racionalização da


indústria da morte

Artigo apresentado à Faculdade de Ciências Humanas e


Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho”, como requisito para aprovação no curso de História
sob a orientação do Professor doutor José Adriano Fenerick.

FRANCA 2013
As ordens no Terceiro Reich: o ideal nazista e a racionalização da
indústria da morte

Marco Antônio Teodoro de Souza 1

RESUMO

Esse artigo discorre sobre a trajetória de alguns grupos


encarregados de exterminar inimigos do Terceiro Reich, sobretudo
pessoas de origem judia durante a Segunda Guerra mundial nos
territórios alemão e russo no período de 1941 a 1945. Pretendemos
ainda tentar entender, a partir do estudo de fontes bibliográficas e
audiovisuais, a capacidade dos nazistas de relativizar tais operações
que tinham como missão levar à morte homens, mulheres e
crianças; e como foram evoluindo as influências para se conseguir
resultados práticos para o propósito do regime nazista na Alemanha.
Ao fim dessas pesquisas, aborda-se que, apesar de todo o horror, o
sentido de humanidade do povo alemão à época não foi suficiente
para contestar as ordens no terceiro Reich

Palavras-Chave: extermínio, origem judia, resultados psicológicos.

Abstract

This article discusses the history of some groups in charge of

1
Discente do 4º ano do Curso de História da Faculdade de História, Direito e Serviço Social – UNESP - Univ.
Estadual Paulista, Campus de Franca - Av. Eufrásia Monteiro Petráglia, 900, CEP: 14409-160, Franca, São
Paulo, Brasil. E-mail: marcoantonio.historia@gmail.com.
exterminating enemies of the Third Reich, especially people of
Jewish origin during the Second World War in German and Russian
territories in the period 1941-1945. We also want to try to
understand, from the study of literature sources and media, the
ability of the Nazis to relativize such transactions that had the
mission lead to death men, women and children, and how the
influences were evolving to achieve practical results for the purpose
the Nazi regime in Germany. At the end of this research, approaches
that, despite all the horror, the sense of humanity of the German
people at the time was not enough to challenge the orders in the
Third Reich

Keywords: extermination, Jewish origin, psychological outcomes.

1 INTRODUÇÃO

A morte como uma consequência de uma guerra sempre


ocorrerá por se tratar de um momento em que para ambos os lados o
objetivo, obviamente, é a derrota do inimigo. Entretanto na Segunda
Guerra Mundial a morte tomou outro rumo até então impensado
para humanidade. A Alemanha deflagradora desse conflito
empreendeu, a partir da invasão da Polônia, uma guerra contra um
inimigo definido e, portanto, externo ao seu território, ou seja,
contra praticamente toda a Europa ocidental, pelo menos a
princípio.

Com isso, nesse período, o intuito do Terceiro Reich era ao


mesmo tempo a expansão territorial e o fortalecimento interno por
intermédio da força. E para se conseguir tal intento lançava do
recurso da violência, como sugeria o próprio Hitler, em 1925,
quando se dirigiu ao povo alemão: “Devemos nos convencer de que
não conseguiremos a recuperação dos territórios perdidos por meio
de invocações solenes ao bom Deus ou por esperanças vãs com uma
Liga das Nações, mas unicamente pelo poder das armas” 2
Por outro lado e ao mesmo tempo ao conflito que se
deflagrara, os germânicos também empreenderam outra guerra,
contra um “inimigo” que não usava armas militares ou possuía
qualquer intenção nesse momento de se opor belicamente contra o
povo alemão; esse inimigo, além disso, não ofereceria grande
resistência ou alguma ameaça militar violenta, já que pertencia à
própria sociedade alemã e vivia, por óbvio, no território alemão.
Entretanto, a imputação de culpabilidade do povo judeu pelo
iminente "fracasso interno" da Alemanha então germinava a partir
desse pensamento.
O povo judeu que vivia nessa época no território alemão
começava a sentir os efeitos da perpetuação daquilo que o ideal
nazista trazia. As punições aplicadas em várias formas e as
perseguições que sempre foram muito constantes tornavam-se agora
ainda mais contundentes e violentas, passando de “meras” ameaças
para práticas, inclusive de mortes, cada vez mais em maior número
e brutalidade. Assim, nesse ponto, não se tratava mais de
simplesmente fazer frente contra os tradicionais oponentes externos
armados e com territórios geograficamente definidos por fronteiras,
mas também, segundo o pensamento das lideranças do Reich, de
combater aqueles que eram considerados os inimigos próximos:
vários grupos étnicos que habitavam a Alemanha, sobretudo os
judeus3
E com essa intenção, é que na segunda Guerra Mundial há
uma transformação da prática de morte do inimigo de guerra,

2
HITLER, ADOLF. Minha luta. São Paulo, 1925, p. 585

3
ROSEMAN, Mark. Os nazistas e a solução final. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor. 1 Ed.2003. p. 32-33
tomando um sentido que culminou mais adiante na ideia de se
extinguir esse inimigo4. O encalço aos judeus na Alemanha tomava
corpo aqui, ainda que não tenha se começado a persegui-los após o
início desse conflito e também deve-se dizer que a Segunda Guerra
não foi iniciada com a deliberada ideia de extermínio de todos os
judeus, ao contrário do que afirma por exemplo Goldhagen 5. O que
ocorreu nesse período foi que essa empresa tomou um formato
totalmente diferente daquilo que até no momento havia-se feito
contra as pessoas de origem judia tanto na Europa quanto,
sobretudo, na Alemanha. Embora Hitler já deixasse claro em 1922
que os judeus sempre foram inimigos da Alemanha6, pode-se
teorizar que os acontecimentos durante a segunda guerra levaram a
uma mudança nos projetos originais nos nazis até que se decidissem
pelo extermínio dos judeus.
Houve, nesse espaço de tempo, o que poderíamos
ironicamente chamar de uma “evolução” na maneira e nos objetivos
que essa perseguição pretendia alcançar ao final, em caso de vitória
dos nazis. À medida que os líderes do NSDAP perceberam que a
vitória se lhes escapava, técnicas foram sendo criadas,
transformadas e aproveitadas a fim de que se conseguisse mais
mortes em menor tempo e gasto possível. As leis que foram sendo
criadas a partir de 1933 até por volta de 1939 foram os importantes
passos da perseguição alemã ao povo judeu, mas nesse período a
ideia ainda era de erradicação, ou seja, expulsão dos judeus do
território germânico, e não de extermínio. Aos poucos essa
legislação, que objetivava barrar as atividades corriqueiras do dia
dos judeus foi gradativamente minando toda a perspectiva dessa
4
. ROSEMAN, Mark. Os nazistas e a solução final. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor. 1 Ed.2003. p34

5
Goldhagen estende a ideia de que a Segunda Guerra surgira já com um planejamento de extermínio total do povo judeu e coloca todo o
povo alemão como concordante e participantes nos atos cometidos nessa época pelo Regime Nazista

6
Ibid. p 35
gente no que diz respeito a sua existência seja do ponto de vista
social ou econômico7.
De qualquer forma, esse regramento interfere diretamente no
modo de como deveria ser tratada a questão da morte inclusive os
motivos alegados pelo ideal nazista para justificar esses atos
ficavam bem claros. Com a eclosão da guerra direcionada agora
para o leste europeu e com o passar do tempo que o conflito ia se
arrastando, a radicalização crescia cada vez mais e o horror se
moldou de uma maneira que para o regime nazista era o caminho a
ser seguido, segundo as consequências advindas desse ideal que era
em grande parte reconquistar territórios considerados por eles como
sendo seus de direito, inclusive parcelas do próprio território
alemão que entendiam esses líderes estarem ocupadas por povos
inferiores, ou seja, era preciso evitar a “contaminação genética” 8.
Em 1939, quando a Alemanha invade a Polônia, momento
que entendemos ser o início de fato da Segunda Guerra Mundial, a
perseguição aos judeus começa tomar ares de brutalidade. ”Porém,
isso não era nada comparado ao que aconteceu no rastro da invasão
da Rússia em 1941” 9, um local onde brutalmente se matava quem
estivesse na frente sem nenhum tipo de julgamento, ainda que se
fosse possível condenar aquelas pessoas à morte por não concordar
com o regime vigente, sobretudo no estado de guerra sendo elas
civis.
Essa radicalização veio a aumentar ainda mais a partir desse
momento, período em que a questão dos judeus se tornara crucial e
os acontecimentos e rumos que a guerra tomava, sobretudo agora
7
ROSEMAN, Mark. Os nazistas e a solução final. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor. 1 Ed.2003. p41.

8
EHRENBURG. Llya. Memórias: a Europa Sob o Nazismo, vol. IV (1933-1941). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S.A..Rio de Janeiro.1
Ed.1966.p. 92.

9
GEARY, Dick. Hitler e o nazismo. 2 Ed. São Paulo : Paz e Terra , 2010. p. 98.
quando da entrada da União Soviética no conflito em virtude do não
cumprimento, por parte de Hitler, de um pacto de não agressão entre
as duas nações. Nessa esteira, sob o comando principal de Heinrich
Luitpold Himmler surgem as Einsatzgruppen que se espalharam
principalmente pelo interior invadido da União Soviética a fim de
deter mortalmente todos aqueles que eram inimigos políticos ou
raciais do regime nazista.
Tanto o estilo de se fazer guerra, bem como o consumo
humano que ia se instituindo na Alemanha após 1941 , tudo foi se
modificando e, na medida em que as conformações e necessidades
do momento da guerra vivido pelo Reich não lhe “davam”
alternativas para avançar a passos largos como se tinha planejado,
era, portanto, necessário mais força e por conseqüência mais
violência. Com o avanço temporal do conflito e, sobretudo nesse
momento, agora com pretensões também no leste europeu, a tática
obviamente deveria ser mudada, pois, além do próprio Exército
Vermelho que evidentemente não era fácil de enfrentar havia
também o enfrentamento do rigoroso clima russo que minava cada
vez mais as pretensões alemãs naquelas regiões. A distribuição ao
longo do território russo nesse momento não avançava muito, mas
nas regiões onde já se tinha certa dominação por parte da Alemanha
a crueldade aumentava cada vez mais em função da tática adotada
pelos nazistas nessa fase da guerra·.
Para se tentar entender como a conformação desses
acontecimentos se dava é preciso levar-se em conta, sobretudo o
fato de que: embora se tenha do ponto de vista geral ou pelo menos
como ideia corrente de que todos os alemães eram partícipes ativos
das atividades do partido nazista, nesse tocante é preciso ter cautela,
pois “o anti-semitismo popular não era nem uma das principais
10
preocupações da maioria dos alemães” ··. Por conta disso as

10
GEARY, Dick. Hitler e o nazismo. 2 Ed. São Paulo :Paz e Terra , 2010. p 107.
conformações que advieram ao longo da Segunda Guerra Mundial
terão de ser vistas sempre com um olhar um pouco mais crítico do
que o de costume11.
Cautelas como já foram ditas, se dão pelo fato de que nem
todos eram perpetradores que buscavam a morte a todo custo de
judeus ou que faziam isso rotineira e prazerosamente como se tem
pensado equivocadamente muitas vezes. Esse pensamento que
coloca todos os alemães como sendo “carrascos” nazistas, não é
apanágio do mundo leigo, mas também se vê no mundo acadêmico
das ciências humanas, que muitas vezes equivoca-se em pensar uma
generalização com relação à Alemanha nazista. Portanto, tal
advertência se faz necessário, pois, não há uma definição tão precisa
como se pensa em relação a esse ódio aos judeus por parte dos
alemães que se possa ser medido em apenas um parâmetro sem que
se cometam fatalmente erros, como os de alguns pesquisadores
como Goldhagen que teoriza afirmando que praticamente todo
alemão desse período era favorável ou participante desses atos,
embora esse mesmo pesquisador defina bem quatro tipos ações em
relação à perseguição aos judeus por perpetradores nazistas que,
segundo ele poderia variar:

primeiro pela rotina advinda da dos próprios alemães na perseguição dos


judeus[...] , segundo para cumprir ordens de seus superiores[...], terceiro
trata-se da crueldade ordenada por autoridades e acatadas por
perpetradores[...] e por último a crueldade por iniciativa individual por
parte dos alemães sem que houvesse um cumprimento de ordem
12
propriamente dito

11
ABRAHAM, Ben. Segunda guerra mundial: síntese. São Paulo: Sherit Repleita do Brasil.2 Ed. 1985.p 32.

12
GOLDHAGEN, Daniel Jonah.Os carrascos voluntários de Hitler: o povo alemão e o Holocausto.São Paulo :
Companhia da Letras .1 Ed 1997.p. 400-401.
Não se trata obviamente de uma defesa de atos de covardia
contra a natureza da vida os quais foram cometidos nesse episódio
fatídico da humanidade, nem de tirar tal responsabilidade, mas de se
enxergar os fatos pela perspectiva histórica correta. Embora essa tal
distribuição de ódio entre a população alemã dessa época fosse
patente e variasse em decorrência de vários fatores como: estrato
social, descendência, formação educacional entre outros; para
aqueles que participavam ativamente dos grupos que perseguiam
judeus ficava claro que as ordens sempre eram cumpridas à risca,
por óbvio, em função de: primeiro pelo fato de serem ordens
militares ou paramilitares e esse tipo de ordem não se questiona
apenas se cumpre, segundo pelo fato de que essas ordens além de
tudo eram dadas em função de um bem maior que seria estendido a
todo o povo alemão e por isso mais do que nunca deveriam ser
cumpridas também e terceiro pelo incentivo que dava à ideia de se
minimizar a estafa do “trabalho” de matar que muitas vezes
funcionava13.

2 EUFEMISMO E SUBTERFÚGIO

A Segunda Guerra e as ações que empreenderam os nazistas


durante o seu desenrolar foram muitas vezes inundadas de variações
de intenções conforme a guerra ia caminhando e a perseguição aos
judeus foi o ato principal que se formulou e se fez e que, portanto,
foi o mais ousado em matéria de se submeter uma ideia a todos para
com isso fazer valer os argumentos que poderiam ser, de certo

13
LENHARO, Alcir. Nazismo: o triunfo da vontade. São Paulo: Editora Ática. 5 Ed.1995.p. 85
modo, discutíveis.
Para tanto muito do que se fez e do que se tentou fazer na
Alemanha durante a guerra foi embasado em argumentos que
muitas vezes precisavam ser dissimulados, até mesmo para aquele
que participavam diretamente dos desígnios do Führer. A matança
que se empreendeu nos campos de concentrações e que muitas
vezes a ideia que se dava a tudo como muito rotineiro não pode ser
descartada, pois, dada a quantidade de crimes cometidos todos os
dias naquele período de guerra não poder ser negado.
A partir do momento em que os esforços de guerra
empreendidos pela Alemanha começaram a minar após a invasão da
União Soviética, houve uma política de disfarçar ou mesmo
camuflar os acontecimentos ocorridos por conta das ações para
exterminar os judeus e outros não enquadrados na ideologia racial
ariana. Havia uma tentativa por parte dos oficiais para que os
perpetradores e a sociedade alemã não compreendessem que se
estava fazendo e os motivos pelos quais se fazia tudo aquilo. Nomes
como eutanásia que se baseava em um argumento de tirar a vida por
um propósito determinado e ao mesmo tempo justificável segundo
as lideranças nazista “que envolvia assassinato de crianças
14
deficientes com injeções letais em hospitais” ou a “Solução
Final”, nos leva crer que mesmo em tempo de guerra era perceptível
que esses nomes tinham ao que parece um significado justificador
das ações do Terceiro Reich, na tentativa de se legitimar um ideal
que muitas vezes poderia até ser, em certa medida, perigoso para o
próprio Regime; daí talvez a preocupação perante o cerco que se
fechava diante do Reich.

14
CORNWELL, John. Os cientistas de Hitler: ciência, guerra e o pacto com o demônio. Rio de Janeiro: Imago. 1 Ed. 2003.p. 304.
A tecnologia da morte foi sendo adaptada e ao mesmo
tempo desenvolvida para que a morte fosse cada vez mais rápida,
não no sentido de se terminar com o sofrimento da vítima e sim
para que o trabalho fosse cada vez mais rápido, eficaz e com menos
despesas que se pudesse conseguir15, pois a demanda era cada vez
maior e era necessário expandir os esforço no sentido de que a
tarefa fosse bem cumprida com um alto grau de precisão.
Entretanto, na maior parte do tempo não estava sendo fácil para tal
empreendimento seguir adiante como gostariam as lideranças
nazistas, porque, como o cerco ia se fechando cada vez mais contra
os judeus e isso leia-se mortes, a quantidade de assassinatos
aumentava e era preciso também aumentar a estrutura
proporcionalmente à grande quantidade necessária naquele
momento e, portanto, envolver um sem números de partícipes para
que os “problemas” diminuíssem e o “trabalho” fosse feito a
contento “à medida que a sempre crescente demanda de incineração
superava a capacidade de entrega dos engenheiros”16. Assim sendo,
não se havia alternativas: era preciso acelerar os “trabalhos”.
A questão do subterfúgio que reforça o argumento sobre o
quão grande era o mal feito à humanidade pertencente ao povo
judeus nesse período pode ser percebida a partir da ideia de como
os comandantes nazistas tratavam o assunto muitas vezes de forma,
que com certo juízo de valor, nos parece irônico dado a
circunstância. Para isso foi dado uma

ordem para que se deportassem os judeus alemães para o leste .Campos de

15
ROSEMAN, Mark.Os nazista e a solução final.Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor.1 Ed.2003. p. 42.

16
CORNWELL, John. Os cientistas de Hitler: ciência, guerra e o pacto com o demônio. Rio de Janeiro: Imago. 1 Ed. 2003.p. 308.
extermínios , como os de Belzec, Triblinka e sobibor , foram construídos e antigos
membros da companhia de eutanásia viram-se envolvidos nas preparações para o
assassinato sistemático dos judeus nas câmaras de gás uma “solução mais
“humana” para os assassinos , na opinião de Himmler! 17

Essa estratégia, não justifica os crimes cometidos por todos


aqueles que participaram de tamanho extermínio e mais uma vez
não destitui quem o fez de nenhuma culpa perante seus atos, não é
esse o propósito desse trabalho, não se trata de fazer aqui um
julgamento histórico. O que ocorre, entretanto, é que o exemplo de
Himmler ao se dirigir desse modo para que uma ordem como essa
fosse dada dessa maneira impõe a sua ironia justamente em ser real
a fadiga causada pelo “trabalho” de matar pessoas não importando a
idade o sexo nem a força física que cada um desses humanos tinha.
Ainda que fossem a maioria daqueles que participavam diretamente
do massacre ávidos pela disseminação do ideal alemão naquele
momento e não pararam de fazê-lo, pelo menos parte desses
participantes, ao que parece não se sentia tão confortáveis com tal
tarefa e tal comportamento com isso poderia afetar o andamento do
que se desejava, naquele momento, o alto escalão do nazismo: a
exterminação sistemática dos judeus e outros não adequados ao
ideal alemão.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

17
GEARY, Dick. Hitler e o nazismo. 2 Ed.São Paulo : Paz e Terra , 2010. p.107
A racionalidade dita com o intuito de se fazer algo seja do
ponto de vista político ou econômico e até bélico, aqui não pode ser
tomado como regra e nem pode também ser entendido como algo
que seja aceitável ou justificável. A ideia que sempre se fez do povo
alemão bem como de todos os acontecimentos na Alemanha nazista
desde a subida ao poder por Hitler e os acontecimentos que foram
se delineando durante a Segunda Guerra Mundial nem de longe
explica tais atrocidades.
A estratégia nazista sempre foi de grande eficácia no que
tange àquilo que se queria construir: o Terceiro Reich embora tal
empreendimento não tenha sido concretizado. A guerra avançou
segundo uma evolução e dava vazão ao ideal político que culminou
na perseguição a um inimigo que nem de longe era o culpado por
todos os problemas da Alemanha. E, apesar do fardo alemão do
período ter sido traçado muito antes, no final acabou por eleger a
existência ou permanência do povo judeu em solo alemão como
sendo a explicação de todos os problemas dos germânicos, pelo
menos no pensamento do seu líder maior e por isso mesmo todos
“sempre agiam tendo como referencia os desejos e as visões
conhecidas do Führer”.1
Assim toda forma que se pode usar no sentido de que a
guerra deveria seguir um curso e que tal empreendimento foi muito
mais ideológico racial do que político fez com que o desperdício de
vidas que ocorreu na Segunda Guerra Mundial nos impõe uma
questão que nos remete até que ponto tais justificativas de guerra
podem ser levadas em busca de um ideal. Referimo-nos ao mesmo
tempo na ideia de que a Alemanha nesse período empreendeu um
esforço de guerra com uma tecnologia alta em contraposição aos
seus propósitos que foram na maioria das vezes mal direcionados

1
GEARY, Dick. Hitler e o nazismo. 2 Ed. São Paulo : Paz e Terra , 2010. p.99.
era uma guerra que servia a propósitos não mais condizentes com
século XX ao qual ela pertencia.
Mais uma vez voltamos ao foco do que se trata esse trabalho
no sentido de perceber que a estratégia nazista tinha uma rigidez
incomum, que para eles era necessária, a fim de que o esforço
bélico fosse levado adiante para atingir como em toda guerra seus
objetivos justificados. Por isso mesmo como já dissemos, todo um
sem número de táticas psicológicas e tentativas de se incutir cada
vez mais que a ideia deveria ser levada adiante a qualquer custo está
sempre à frente das ordens que eram dadas para executores,
sobretudo os de mais baixas patentes, pois sendo esses aqueles que
quase sempre eram oficialmente “incumbidos das missões mais
“desumanas” para parafrasear Himmler”2
Desse modo, para exemplificar o desses argumentos entre as
táticas de se diminuir sempre a estafa daqueles que estavam ligados
diretamente com a morte de judeus fazia-se com na Letônia onde

prisioneiros cavaram um trincheira em forma V com seis metros de


profundidade na areia e cortaram um ressalto mais ou menos um metro e
vinte abaixo da parede da vala voltada para o mar, em que as vítimas eram
obrigadas a ficarem em pé, olhando para o oceano, para serem fuziladas
pelas costas3

Seja pelo descrito acima como tática de se diminuir


psicologicamente por subterfúgios realizados pelos próprios

2
RHODES, Richard. Mestres da morte: a invenção do holocausto pela SS nazista. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 2 ed. 2003.p. 232

3
RHODES, Richard. Mestres da morte: a invenção do holocausto pela SS nazista. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 2 ed. 2003.p. 235
executores, através de ordens dados por superiores ou “para alguns,
isso significava ter prazer em matar; para outros, significava matar
quando com ordens para fazê-lo e beber, depois, para esquecer”3
Tudo isso leva-nos a crer que a necessidade de um cuidado especial
no comando desse tipo de grupo que deveria sempre ser levado de
um modo cauteloso a fim de manter o controle e as execuções
continuarem. Essa cautela pôde ser descortinada quando “em
outubro de 1944, com o Exercito Vermelho se aproximando, o
crematório IV foi incendiado pelos operadores sonderkommando: o
prédio foi posto abaixo a violenta supressão da insurreição pela SS.
No fim de novembro Himmler ordenara o fim dos envenenamentos
por gás, e destruíram-se os crematórios II e III. O campo foi
evacuado a 18 de janeiro e dois dias depois explodiu as estruturas
sólidas restantes. O crematório V foi dinamitado à uma hora da
manhã, e o Exército Vermelho que apareceu no dia seguinte, não
encontrou nada além de lixo coberto de neve”. 4

Portanto, seja pertencente a qualquer grupo: SS,


Einsatzgruppen não importando qual denominação, mais uma vez
não se faz aqui o juízo de valor com relação à guerra propriamente
dita e nem com seus resultados do ponto de vista históricos As
perdas humanas causadas pelas mortes nesse conflito extrapolaram
o limite daquilo que se chama guerra, em que toda guerra é dita
justa pela forma “desumana” por parte dos que perpetraram tantas
vidas. Dado a tudo isso entendemos que é como bem salienta
Richard Rhodes:

”É importante repetir que o trauma psicológico inerente ao cumprimento


de ordens criminosas para assassinar grandes grupos de não-combatentes
3 4
RHODES, Richard. Mestres da morte: a invenção do holocausto pela SS nazista. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 2 ed. 2003.p. 236
desarmados de maneira nenhuma atenua o crime. “Na verdade, esse
conflito mental é uma prova indireta dos Einsatzgruppen estavam bem
conscientes do que estavam fazendo era criminoso e perverso, mesmo que
5
as mais altas autoridades do estado alemão”

Ao que tudo indica a estratégia de esconder determinadas


ações que indicava certa radicalização, ainda que não diminuída
somente camuflada, fornece-nos um grande indicativo de que era
preciso se ter uma cautela ao mesmo tempo em que todos ou quase
todos sabiam do que ocorriam em campo de concentrações.6

4 Bibliografia

ABRAHAM, Ben. Segunda guerra mundial: síntese. São Paulo:


Sherit Repleita do Brasil.2 Ed. 1985

CORNWELL, John. Os cientistas de Hitler: ciência, guerra e o


pacto com o demônio. Rio de Janeiro: Imago. 1 Ed. 2003.

_________________________
5
RHODES, Richard. Mestres da morte: a invenção do holocausto pela SS nazista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2 ed. 2003.p 246

6
FERRO, Marc. Historia da Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Editora Ática. 1Ed.1995. p. 42

EHRENBURG. Llya.Memórias:a Europa Sob o Nazismo , vol. IV


(1933-1941).Rio de Janeiro.Civilização Brasileira S.A..Rio de
Janeiro.1 Ed.1966.

FERRO, Marc. Historia da Segunda Guerra Mundial. São


Paulo: Editora Ática. 1 Ed.1995

GEARY, Dick. Hitler e o nazismo..São Paulo :Paz e Terra , 2010. 2


Ed.
GOLDHAGEN, Daniel Jonah.Os carrascos voluntários de Hitler:
o povo alemão e o Holocausto.São Paulo : Companhia da Letras .1
Ed 1997.

HITLER, ADOLF. Minha luta:São Paulo.Editora Verídica.5


Ed.1969.

LENHARO, Alcir. Nazismo: o triunfo da vontade. São Paulo.


Editora Ática. 5 Ed.1995

RHODES, Richard. Mestres da morte: a invenção do holocausto


pela SS nazista. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 2 Ed. 2003.

ROSEMAN, Mark..Os nazista e a solução final.Rio de


Janeiro.Jorge Zahar editor.1 Ed.2003.

5 FILME
Arquitetura da Destruição. Direção: Peter Cohen. 1992, Suécia.
Produção: POJ Filmeproduktion AB. Distribuição: Versátil /
Seleções .DVD (1 hora : 54 min.)

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