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Recensão crítica

Relações Internacionais (Universidade de Lisboa)

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Descarregado por Rui Guilherme Rodrigues (ruiguilhermecoelho200@hotmail.com)
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A obra “Príncipios de Geografia Humana” escrita por Vidal de La Blanche


e publicada por Emmanuel de Martonne, no início do século XX, uma época em
que a geografia desenvolvia os seus ramos e consolidava conclusões e estudos
científicos com o propósito de compreender os conflitos emergentes e as tensões
presentes antes da Primeira Guerra Mundial, nomeadamente, pela Escola de
Geografia Francesa, a qual o autor foi o seu fundador, apresenta uma estrutura
organizada e induzida a responder ás questões básicas da ciência que estuda a
relação entre o Homem e o seu meio ambiente através de texto e do recurso a
mapas geográficos. Contudo, o capítulo alvo da recensão crítica é a Introdução
“Significado do objeto da Geografia Humana”, que apesar de ser por si só um
texto introdutório sobre a matéria, reflete as preocupações e as considerações
iniciais necessárias para um avanço crítico divididas em subtítulos, a saber: I -
“Exame crítico da conceção de Geografia Humana” ; II –“O princípio da unidade
terrestre e a noção do meio” ; III –“ O Homem e o meio” ; IV –“O Homem, fator
geográfico”.

O autor, Vidal de La Blanche, nascido no dia 22 de janeiro de 1845, inicia


a sua análise relembrando que o elemento humano é um elemento essencial no
estudo da Geografia. De notar que não o refere como principal, por isso surgiu a
especificidade “Humana” como forma de afirmação deste critério, e de consolidar
a estrutura sobre a máxima de que “a ideia de região é inseparável da ideia dos
seus habitantes” (Vidal de la Blanche, 1946, p.23) tal como os antigos
perpetuavam. Por este motivo, o ramo não se opõe à sua raiz. Pelo contrário,
faz surgir um novo foco que irá incidir a sua luz nas relações entre a Terra e o
Homem, num processo de co-constituição mútua.

Esta reflexão sobre a influência do meio físico na sociedade humana já


havia sendo aclamada pelo pensamento científico, principalmente por
pensadores da Grécia Antiga como Tucídides e Aristóteles. Atualmente,
poderiam ser considerados liberais, visto que promoviam ideais de integração de
novos conceitos e fatores, bem como o seu estudo adequado. A primeira
tentativa desse ensaio foi a de encontrar no meio físico uma elucidação para o
temperamento dos habitantes recorrendo ao método de observação.
Curiosamente, no século XVII - XVIII surge “A teoria dos Climas” de
Montesquieu, onde este discorre sobre a forma como o clima e a geografia

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afetam diretamente o quotidiano, costumes e hábitos de uma população e divide


por grupos os climas terrestres e as zonas do globo atribuindo-lhes
características intrínsecas. Por exemplo, aponta os locais quentes como
propícios à procrastinação, à ineficiência, e estabelecendo um paralelo com a
conjuntura atual, são estes os países que enfrentam quase sempre grandes
dificuldades económicas, comerciais e financeiras apesar de serem, muitas das
vezes, aqueles que possuem os melhores recursos.

Para alguns autores, como Ritter, a interpretação da natureza continua a


ser o tema primordial contrariamente ao estereótipo de que a Terra é somente
“a cena em que se desenrola a atividade do Homem” (Vidal de la Blanche, 1946,
p.25) esquecendo que também ela tem a sua própria vida. Este facto revela a
ausência de perspetivas, ou seja, o domínio era considerado apenas por uma
visão do mundo, aquela em que o que estava em evidência era a ação humana.
Porém, é de tamanha importância a diversidade de teorias visto se tratar de uma
ciência social onde nenhuma verdade é absoluta.

Aquando da referência a um certo determinismo que influenciou o decurso


da história, há que reparar que esta premissa é arriscada. O Homem desde a
sua existência que se adaptou ao meio, que aprendeu a viver nas condições de
que dispunha, a extrair dele os seus recursos e a rentabilizá-los ao máximo.
Caso contrário, se realmente a natureza determinasse por completo os
processos que aconteceram ao longo do tempo, o Homem jamais viveria em
locais inóspitos e descentralizados, o que na verdade não se verifica ainda por
existirem, a título exemplar, tribos indígenas na floresta da Amazónia, ou povos
nómadas na Mongólia. A questão que ainda perdura é a falta de apreciação
pelas consequências que se tornaram inevitáveis, como as alterações climáticas,
um fenómeno que se tem transformado a um ritmo impressionante, e o modo
como o comportamento do Homem pode ser manipulado, como fora discutido
anteriormente a respeito da teoria de Montesquieu.

A segunda parte foca a unidade terrestre e como esta contribui para o


progresso da Geografia, esta “ciência sublime que lê no céu a imagem da Terra”
como refere Ptolomeu, aludindo à forma como o planeta é posto em perspetiva
na cartografia. A importância da unidade terrestre surge visto que as
circunstâncias, as quais a Geografia Humana trata, apenas por ela podem ser
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explicados, facto imprescindível se se quiser estudar a génese da relação entre


o Homem e o meio. A Geografia Botânica, desenvolvida por Alexandre
Humboldt, é referida como um instrumento fulcral para colocar a tónica sobre a
necessidade desta dicotomia todo-parte, contrariamente à sobrevalorização da
parte. “A concorrência das plantas entre si é tão ativa que só as melhores
adaptadas ao meio ambiente conseguem manter-se.” (Vidal de la Blanche, 1946,
p.28) O que demonstra uma constante transformação das dinâmicas dos seres
vivos e como convivem e coabitam na estrutura.

Em suma, as investigações e as definições de outros ramos como a


geografia botânica ou a ecologia conduzem a um mesmo caminho geográfico,
ao de uma conjuntura que tem um potencial empenho no agrupamento entre
seres heterógenos que vivem em constante interdependência entre si.

A questão III, que discorre sobre “O Homem e o meio” inicia-se com a


problemática sobre os dados em que a Geografia Humana se baseia. Se o ator
principal é o Homem e, em certa medida, a sua evolução, adaptação e
transformação conforme o meio, é lógico que este encontrou no seu caminho
tanto dinâmicas de estruturação, que convergiam aos interesses do mesmo e o
auxiliaram neste processo, como dinâmicas de desestruturação, obstáculos que
foram aprimorando a habilidade de solucionar problemas.

O desenvolvimento tecnológico é uma resposta direta às dinâmicas de


desestruturação por nos oferecer ferramentas para desconstruirmos melhor o
nosso mundo e sabermos mais sobre si, através de estatísticas, recolha de
dados e outros mecanismos. Por esta razão, se afirmarmos, por exemplo, que
vivemos atualmente num mundo onde existe sobrepopulação, que estamos a
enfrentar uma crise demográfica severa, não poderemos ser apelidados de
pessimistas ou críticos (vide fig.1). Basta, simplesmente, ter em conta que o
primeiro lugar de país mais povoado é ocupado pela China, com mais de 1,35
biliões de habitantes, e em segundo encontra-se a India, com mais de 1,25
biliões de habitantes. Quando somados estes países representam mais de 1/3
da população mundial (aproximadamente 36.5%). As causas deste
acontecimento podem ser diversas, desde o aumento da esperança média de
vida até ao melhoramento das condições de vida, promovidos pela revolução

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das tecnologias da informação e comunicação, e apesar da adoção de políticas,


como a do “filho único” da China, esta vertente parece não se resolver.

Contudo, aquilo que confere complexidade ao tema é, sobretudo, a


distribuição. Se por um lado temos países em estado de sobrepopulação,
existem outros com cada vez menos jovens e com altas taxas de
envelhecimento. Neste grupo, são os países europeus que imperam. Adjacente
a este tema surgem as correntes migratórias, que por sua vez dão aso a que
movimento racistas, xenófobos e populistas emirjam, resultado de uma ausência
de cooperação e integração global. No final do século XVIII, Thomas Malthus
sugere duas fontes que podem originar crises: a economia e a demografia. Nos
seus ensaios apresenta a segunda hipótese como a única capaz de ser
solucionada através da diminuição da população, por meios controversos.
Todavia, Malthus não se afastara muito da verdade na medida em que a Terra
está sobrelotada e não existem recursos e meios para todos subsistirem. Por
este motivo, se não existirem medidas para algum controlo deste aspeto, o futuro
não se assemelha a algo próspero nem para esta geração nem para qualquer
outra vindoura.

Por fim, o último subcapítulo enfatiza o homem como fator geográfico e


como este contribui para determinados acontecimentos, como o isolamento.
“Hoje, todas as partes do mundo estão em comunicação” (Vidal de la Blanche,
1946, p.36) principalmente, 100 anos depois da publicação do livro, através da
globalização e da liberdade de movimento entre espaços. Por outro lado, ainda
há países que preferem manter-se à margem deste fenómeno quer por
ideologias políticas, como o comunismo em Cuba, quer pelo regime político,
como o de Kim Jong-un na Coreia do Norte que mantém o seu país isolado do
contacto internacional, ou seja, o isolamento que possa existir é deliberado e não
uma consequência da Natureza.

Concluindo, o objeto que trata a geografia humana não se cinge apenas


ao conhecimento de espécies. Engloba todas as relações que ocorrem entre si
e como essas transformam o sistema e a estrutura em que se desenvolvem. É o
estudo deste núcleo social e intercomunitário dos seres vivos, colocando o
Homem e a Terra como atores principais com o objetivo de entender em que
medida o determinismo, se é que o mesmo existe, condiciona as nossas vidas.
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Referências bibliográficas:

• Blanche, Vidal de la (1946 – versão traduzida), Introdução: Significado do


objeto de Geografia Humana in Princípios de Geografia Humana, Edições
Cosmos, pág. 23-41

• Freire Andrade, Miguel. 2014. Geografia Humana in Enciclopédia das


Relações Internacionais. Publicações Dom Quixote. Pág. 223-224

Fig. 1 Distribuição da população mundial por país

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