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está em condições de resistir ao poderoso desafio brasileiro: o Brasil tem o dobro de

superfície e uma população quatro vezes maior, é quase três vezes mais ampla a produção
de aço, fabrica o dobro de cimento e gera mais do dobro de energia; a taxa de renovação de
sua marinha mercante é quinze vezes mais alta. Registrou, além disso, um ritmo de
crescimento econômico bastante mais acelerado que o da Argentina, durante as últimas
décadas. Não faz muito tempo, a Argentina produzia mais automóveis e caminhões do
que o Brasil. No ritmo atual, em 1975, a indústria automobilística brasileira é três vezes
maior do que a Argentina. A frota marítima, que em 1966 era igual à Argentina, equivale
a de toda a América Latina reunida. O Brasil oferece à inversão estrangeira a magnitude de
seu mercado potencial, suas fabulosas riquezas naturais, o grande valor estratégico de seu
território, que limita com todos os países sul-americanos menos com o Equador e o Chile,
e todas as condições para que as empresas norte-americanas radicadas em seu solo avan-
cem com botas de sete léguas: O Brasil dispõe de braços mais baratos e mais abundantes
do que seu rival. Não é por acaso que a terça parte dos produtos elaborados e semi-elaborados
que se vendem dentro da ALALC provenha do Brasil. Este é o país que constitui o eixo da
libertação ou servidão de toda a América Latina. Quem sabe o senador norte-americano
Fulbright não tenha tido consciência completa do alcance de suas palavras quando, em
1956, atribuiu ao Brasil, em declarações públicas, a missão de dirigir o mercado comum da
América Latina.

“NUNCA SEREMOS AFORTUNADOS, NUNCA!”, PROFETIZOU SIMÓN BOLIVAR

Para que o imperialismo norte-americano possa, hoje em dia, integrar para reinar na
América Latina, foi necessário que o Império britânico contribuísse para dividir-nos com os
mesmos rins. Um arquipélago de países, desconectados entre si, nasceu como conseqüên-
cia da frustração de nossa unidade nacional. Quando os povos em armas conquistaram a
independência, a América Latina aparecia no cenário histórico enlaçada pelas tradições
comuns de suas diversas comarcas, exibia uma unidade territorial sem fissuras e falava
dois idiomas fundamentalmente da mesma origem, o espanhol e o português. Porém nos
faltava, como assinala Trías, uma das condições essenciais para constituir uma grande
nação única: nos faltava a comunidade econômica.
Os pólos de prosperidade, que floresciam para dar resposta às necessidades euro-
péias de metais e alimentos, não estavam vinculados entre si: as varinhas do leque tinham
seu vértice do outro lado do mar. Os homens e os capitais se deslocam no vaivém da sorte
do ouro ou do açúcar, da prata ou do anil, e só os portos e as capitais, sanguessugas das
regiões produtivas, tinham existência permanente. A América Latina nascia como um só
espaço na imaginação e na esperança de Simón Bolívar, José Artigas e José de San Martin, porém
estava dividida de antemão pelas deformações básicas do sistema colonial. As oligarquias portuá-
rias consolidaram, através do livre comércio, esta estrutura de fragmentação, que era sua
fonte de ganhos: aqueles ilustrados traficantes não podiam incubar a unidade nacional
que a burguesia encarnou na Europa e nos Estados Unidos. Os ingleses, herdeiros da
Espanha e Portugal desde tempos antes da independência, aperfeiçoaram essa estrutura
ao longo do século passado, por meio das intrigas de luvas brancas dos diplomatas, as
forças de extorsão dos banqueiros e a capacidade de sedução dos comerciantes. “Para nós,
a pátria é a América”, havia proclamado Bolívar: a Gran Colômbia se dividiu em cinco
países e o libertador morreu derrotado: “Nunca seremos afortunados, nunca!”, disse ao
general Urdaneta. Traídos por Buenos Aires, San Martín se despojou das insígnias de
comando e Artigas, que chamava de americanos a seus soldados, marchou para a morte
solitária do exílio no Paraguai: o vice-reinado do Rio da Prata tinha-se partido em quatro.
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Francisco de Morazán, criador da República Federal da América Central, morreu fuzilado
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, e a cintura da América se fragmentou em cinco pedaços aos quais logo se somaria o
Panamá, o canal com categoria de república que Teddy Roosevelt inventou.
O resultado está à vista: atualmente, qualquer das corporações multinacionais opera com
maior coerência e sentido de unidade do que este conjunto de ilhas que é a América Latina, desgarra-
da por tantas fronteiras e tantas incomunicações. Qual integração podem realizar,entresi,
países que nem sequer se integraram internamente? Cada país padece de profundas
fraturas em seu próprio seio, agudas divisões sociais e tensões não resolvidas entre seus
vastos desertos marginais e seus oásis urbanos. O drama se reproduz em escala regional.
As ferrovias e as estradas, criadas para transportar a produção ao exterior por rotas mais
diretas, constituem ainda a prova irrefutável da impotência ou da incapacidade da Amé-
rica Latina para dar vida ao projeto nacional de seus heróis mais lúcidos. O Brasil carece de
conexões terrestres permanentes com três de seus vizinhos - Colômbia, Peru e Venezuela
- e as cidades do Atlântico não têm comunicação telegráfica direta com as cidades do
Pacífico, de tal maneira que os telegramas entre Buenos Aires e Lima ou Rio de Janeiro e
Bogotá passam inevitavelmente por Nova Iorque; o mesmo acontece com as linhas telefô-
nicas entre o Caribe e o sul. Os países latino-americanos continuam se identificando cada
qual com seu próprio porto, negação de suas raízes e de sua identidade real, a tal ponto que
a quase totalidade dos produtos do comércio intra-regional é transportada por mar: os
transportes interiores virtualmente não existem. Mas ocorre, neste sentido, que o cartel
mundial dos fretes fixa as tarifas e os itinerários segundo seu critério, e a América Latina se
limita a padecer as tarifas exorbitantes e as rotas absurdas. Das 118 linhas marítimas
regulares que operam na região, unicamente há 16 de bandeiras regionais; os fretes san-
gram a economia latino-americana em um bilhão de dólares por ano 129.Assim, as mercado-
rias enviadas de Porto Alegre a Montevidéu chegam mais rápido ao destino se passam antes por
Hamburgo, e o mesmo ocorre com a lã uruguaia em viagem aos Estados Unidos; o frete de Buenos
A ires a um porto mexicano do golfo diminui em mais da quarta parte se o tráfego se realiza através
de Southampton130. O transporte de madeira do México à Venezuela custa mais do dobro do que o
transporte de madeira da Finlândia à Venezuela, embora o México esteja, segundo os mapas, muito
mais perto. Um envio direto de produtos químicos de Buenos Aires até Tampico, no México, custa
muito mais caro do que se fosse realizado por Nova Orleans 131.
Destino muito diferente se propuseram e conquistaram, por certo, os Estados Uni-
dos. Sete anos depois de sua independência, as treze colônias já tinham duplicado sua
superfície, que se estendeu além dos Aleganios até as margens do Mississippi, e quatro
anos mais tarde consagraram sua unidade criando o mercado único. Em 1803, compraram
da França, por um preço ridículo, o território de Louisiana, com o que voltaram a multipli-
car por dois seu território. Mais tarde, foi a vez de Flórida e, em meados do século, a
128. “Mandou preparar as armas, descobriu-se, mandou apontar, corrigiu a pontaria, deu voz de
fogo e caiu; ainda levantou a cabeça sangrenta e disse: estou vivo; uma nova descarga o fez
expirar.” Gregorio Bustamente Maceo, Historia militar de El Salvador,San Salvador, 1951
Na praça de Tegucigalpa, a banda toca música ligeira todos os domingos à noite ao pé da
estátua de bronze de Morazán. Porém a inscrição está errada: esta não é a estampa eqüestre do
campeão da unidade centro-americana. Os hondurenhos que viajaram a Paris, tempos depois do
fuzilamento, para contratar um escultor a pedido do governo, gastaram o dinheiro em farras e
acabaram comprando uma estátua do Marechal Ney no mercado das pulgas. A tragédia da
América Central convertia-se rapidamente em farsa.
129. Nações Unidas-CEPAL, Los fletes marítimos en el comercio exterior de América Latina, Nova
Iorque-Santiago do Chile, 1968.
130. Enrique Angulo H. no volume coletivo Integración de América Latina, experiencias y perspectivas,
México, 1964.
131. Sidney Dell, Experiencias de la integración económica en América Latina, México, 1966.
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invasão e a amputação de meio México em nome do “Destino manifesto”. Depois, a
compra do Alasca, a usurpação do Havaí, Porto Rico e Filipinas. As colônias se tornaram
nação, e a nação se fez império, ao longo do processo de colocar em prática objetivos
claramente expressos e perseguidos desde os distantes tempos dos pais fundadores. En-
quanto o norte da América crescia, desenvolvendo-se para dentro de suas fronteiras em
expansão, o sul, desenvolvido para fora, explodia em pedaços como uma granada.
O atual processo de integração não nos faz reencontrar nossa origem nem nos apro-
xima de nossas metas. Bolívar tinha afirmado, certeira profecia, que os Estados Unidos
pareciam destinados pela providência para alastrar a América de misérias em nome da
liberdade. Não há de ser a General Motors ou a IBM que terá a gentileza de levantar, no
nosso lugar, as velhas bandeiras de unidade e emancipação caídas na luta, nem hão de ser
os traidores contemporâneos os que realizarão, hoje, a redenção dos heróis ontem traídos.
É muita podridão para lançar ao fundo do mar no caminho da reconstrução da América
Latina. Os despojados, os humilhados, os miseráveis têm, eles sim, em suas mãos a tarefa.
A causa nacional latino-americana é, antes de tudo, uma causa social: para que a América
Latina possa renascer, terá de começar por derrubar seus donos, país por país. Abrem-se
tempos de rebelião e mudança. Há aqueles que crêem que o destino descansa nos joelhos
dos deuses, mas a verdade é que trabalha, como um desafio candente, sobre as consciên-
cias dos homens..

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