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Belo Horizonte, 24 de Março de 2020

Ao
Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos - SISEMA
A/C Allana Abreu Cavalcanti
Diretoria Regional de Regularização Ambiental
e-mail: allana.cavalcanto@meioambiente.mg.gov.br

Ref: Informações detalhadas a respeito da atividade de landfarming

Prezada Allana Abreu Cavalcanti,

Em resposta ao e-mail encaminhado em 20/03/2020 09:05h, solicitando


informações sobre o procedimento de landfarmig, informamos que em 29/01/2019 a
Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais Ltda, CNPJ 17.249.111/0066-84
formalizou o processo administrativo nº 18637/2009/001/2019 solicitando o licenciamento
do empreendimento “Fazenda da Lapa” para realizar a atividade de compostagem de resíduos
industriais, enquadrada de acordo com a Deliberação Normativa Copam nº 217 de 2017
sob o código F-05-05-3, devido não haver um código específico para a atividade de
landfarming.
Entretanto, tratam-se de atividades distintas, sendo o objetivo principal da
compostagem a produção de um produto final denominado de composto ou fertilizante
orgânico que possui valor econômico, enquanto a atividade de landfarming tem o objetivo
principal do aproveitamento agronômico com a disposição direta da matéria orgânica no solo.
Ambas as atividades são consideradas como formas de destinação final
ambientalmente adequadas, conforme preconiza a Política Nacional de Resíduos Sólidos,
Lei 12.305 de 02 de agosto de 2010 no inciso VII do artigo 3°:
VII - destinação final ambientalmente adequada: destinação de resíduos
que inclui a reutilização, a reciclagem, a compostagem, a recuperação
e o aproveitamento energético ou outras destinações admitidas pelos
órgãos competentes [...] de modo a evitar danos ou riscos à saúde
pública e à segurança e a minimizar os impactos ambientais adversos.
(Brasil, 2010, grifo nosso).
Mas tanto a Resolução CONAMA n° 313 de 2002 quanto a Instrução Normativa
IBAMA n° 01 de 2013 consideram códigos diferentes para as atividades de compostagem e
de landfarming, sendo portanto, atividades diferentes.
A Resolução CONAMA n° 481 de 2017 define o processo de compostagem no
inciso III do artigo 2° como:
“[...] processo de decomposição biológica controlada dos resíduos
orgânicos, efetuado por uma população diversificada de organismos,
em condições aeróbias e termofílicas, resultando em material
estabilizado, com propriedades e características completamente
diferentes daqueles que lhe deram origem.” (BRASIL, 2017, grifo
nosso).

Segundo Pereira Neto (2007) a compostagem é um processo aeróbio controlado


de degradação, mineralização e humificação de resíduos orgânicos cujo objetivo é a
produção de fertilizante orgânico. Os processos de compostagem podem ser divididos em
três grandes grupos: Sistema de leiras revolvidas (windrow), Sistema de leiras estáticas
aeradas (static pile) e Sistemas fechados ou reatores biológicos (In-vessel).
Já a aplicação no solo (landfarming) é definida pela NBR ABNT 13.894 (1997)
como:
Método de tratamento onde o substrato orgânico de um resíduo é
degradado biologicamente na camada superior do solo. Possui
sinônimos, tais como land spreading, land application, sludge
farming, land disposal e soil cultivation.

A NBR ABNT 13.894 (1997) ainda estabelece requisitos técnicos para tal
atividade, considerando que no ecossistema solo ocorre a proliferação de uma das maiores
populações de organismos macro e microscópicos, com potencial para degradar e
mineralizar substâncias orgânicas, garantindo a reciclagem de elementos susceptíveis à
biodegradação, sem haver contaminação do solo assim como das águas subsuperficiais e
superficiais. Os resíduos orgânicos e biodegradáveis em forma líquida ou sólida são
aplicados na superfície do solo, em seguida são incorporados por aração e ou gradagem
para maximizar a atividade bacteriana heterotrófica, criando assim, uma camada reativa
que atua como biorreator natural.
O interesse da incorporação de resíduos orgânicos ao solo está fundamentado no
baixo impacto ambiental e baixo custo operacional, quando comparado com alternativas
técnicas, como disposição em aterros, incineração e compostagem, e na possibilidade de
reciclagem da matéria orgânica e dos nutrientes nestes contidos, que causam uma
melhoria das propriedades físicas e químicas do solo e, consequentemente, aumentam a
produtividade e a qualidade dos produtos agrícolas, bem como reduz os custos de
produção, já que permite a economia de fertilizantes minerais (ABREU JÚNIOR et al.,
2005; MATOS, 2014).
O manejo sustentável da matéria orgânica do solo é fundamental para manutenção
da sua capacidade produtiva a longo prazo (CIOTTA et al., 2003). A matéria orgânica é
considerada como um indicador-chave da qualidade do solo (CONCEIÇÃO, et al., 2005),
apresentando influência direta sobre as demais propriedades físicas, químicas e biológicas
do solo, tais como redução da densidade aparente, melhora da estruturação, consistência,
aeração e drenagem, aumento da fertilidade, capacidade de retenção de água e de troca
catiônica, controle de toxicidez e pH, aumento da biologia do solo, dentre outros (KIEHL,
1985).
Bayer e Bertol (1999), Ciotta et al. (2003) e Costa et al. (2004) realizaram
experimentos de longa duração, demonstrando que é possível conciliar práticas agrícolas
com a conservação do solo, através de um sistema de manejo adequado. Os sistemas de
plantio direto demonstraram um aumento do teor de matéria orgânica que foi diretamente
relacionado com melhorias nas propriedades do solo, como o aumento da capacidade de
troca catiônica (BAYER; BERTOL, 1999; CIOTTA et al., 2003), aumento da
estabilidade de agregados (COSTA et al., 2004) e aumento do teor dos nutrientes carbono,
nitrogênio, cálcio, potássio e fósforo (BAYER; BERTOL, 1999).
Diacono e Montemurro (2010) revisaram vários experimentos de longo prazo (3
a 60 anos) sobre os efeitos da aplicação regular de matéria orgânica no solo através de
resíduos orgânicos brutos, demonstrando que o processo de degradação do solo pode ser
revertido e sua fertilidade recuperada. Dentre os efeitos observados destaca-se: aumento
do carbono orgânico do solo, melhoria das propriedades físicas do solo, principalmente
melhorando a estabilidade do agregado e diminuindo a densidade do solo; aumento do
rendimento da safra, melhoria das funções biológicas do solo com aumento do carbono
da biomassa microbiana e da atividade enzimática.
Os resíduos, gordura e lodo biológico da ETE da unidade da Itambé de Sete
Lagoas são misturados na proporção aproximada de 1:1 e esta mistura será aplicada à
camada de até 50 cm do solo, em doses de entre 250 e 300 ton/ha em base úmida.
Em uma área de 10 ha será realizada a aplicação por um conjunto de trator-
chorumeira ou trator com gradeamento. Nas áreas de pastagens a incorporação por
gradagem só é necessária quando não ocorre serrapilheira em quantidade suficiente para
que ocorra a biodegradação dos resíduos. Nas áreas de culturas anuais, onde a aplicação
dos resíduos geralmente é feita no período na entressafra, a incorporação dos resíduos é
indispensável, como forma de promover a aeração do solo e estimular a atividade de
biodegradação microbiana, evitando assim, a exalação de odores.
Para aumentar a eficiência operacional do sistema de distribuição dos resíduos e
garantir a estanqueidade destes nos reservatórios será preciso trabalhar com dois tratores,
assim, enquanto um trator será utilizado na distribuição dos resíduos o outro se
encarregará de fazer a incorporação por gradagem. A incorporação dos resíduos ao solo
por meio de gradagem é de extrema importância nas áreas sem cobertura vegetal, para
evitar o escoamento superficial, bem como para aumentar a aeração do solo e ativar o
processo de decomposição e mineralização dos resíduos dispostos no solo.
A inspeção das áreas de aplicação será realizada por profissional treinado e além
da inspeção periódica, será realizado o monitoramento de aplicação do resíduo, do solo,
e das águas subterrâneas e superficiais, conforme descrito abaixo:

 Lençol freático: O monitoramento do lençol freático será realizado em quatro


poços de monitoramento instalados na área de landfarming, conforme
recomendação para instalação e localização em ABNT NBR 13895/1997. Os
parâmetros a serem monitorados no lençol freático trimestralmente serão: pH,
condutividade elétrica, e demanda bioquímica de oxigênio, cloreto, nitrato e
fósforo.
 Gordura e lodo biológico: O monitoramento (caracterização química) da mistura
dos resíduos gordura e lodo biológico da ETE, a serem tratados no landfarming
será realizado semestralmente. Os parâmetros monitorados serão: pH; teor de
umidade; cálcio; carbono orgânico; fósforo; magnésio; nitrogênio amoniacal;
nitrito; nitrato; nitrogênio total ou kjeldahl; sódio total; sólidos voláteis; e
coliformes fecais.
 Águas superficiais: O monitoramento das águas superficiais será realizado no
canal de drenagem que corta a propriedade. Ressalta-se que, estas águas
superficiais são acumuladas neste canal somente no período das chuvas. Os
parâmetros que serão monitorados na água superficial, anualmente nos meses de
outubro a março (período chuvoso), serão: pH, oxigênio dissolvido, condutividade
elétrica e demanda química de oxigênio. Para avaliação dos resultados serão
comparados os valores limites da Deliberação Normativa Conjunta
COPAM/CERH-MG nº 01, de 05 de maio de 2008.

Ficamos à disposição para enviar qualquer outra informação que se faça necessário.

Atenciosamente

Mauricio Petenusso
Gerente de Sustentabilidade
REFERÊNCIAS

ABNT. Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 13894. Tratamento no solo


(landfarming).1997. 10 p.
ABREU JÚNIOR, C. H.; BOARETTO, A. E.; MURAOKA, T.; KIEHL, J. C. Uso
agrícola de resíduos orgânicos potencialmente poluentes: propriedades químicas do solo
e produção vegetal. Tópicos Especiais em Ciência do Solo, Viçosa, v.4, p.391-470,
2005.

BAYER, C.; BERTOL, I. Características químicas de um Cambissolo húmico afetadas


por sistemas de preparo, com ênfase à matéria orgânica. Revista brasileira de ciência
do solo, Campinas. Vol. 23, n. 3, p. 687-694, 1999. Disponível em:
https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/172952/000299617.pdf?sequence=1.
Acesso em 20 jun. 2018

BRASIL, Deliberação Normativa Copam nº 217 de 2017. Estabelece critérios para


classificação, segundo o porte e potencial poluidor, bem como os critérios locacionais a
serem utilizados para definição das modalidades de licenciamento ambiental de
empreendimentos e atividades utilizadores de recursos ambientais no Estado de Minas
Gerais e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília-DF, 8 dez. 2017.

BRASIL, Lei 12.305 de 02 de agosto de 2010 Institui a Política Nacional de Resíduos


Sólidos; altera a Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. Diário
Oficial da União, Brasília-DF, 2 ago. 2010.

BRASIL, Resolução CONAMA n° 313 de 2002. Dispõe sobre o Inventário Nacional de


Resíduos Sólidos Industriais. Diário Oficial da União, Brasília-DF, 22 nov. 2002.

BRASIL, Resolução n° 481 de 03 de outubro de 2017. Estabelece critérios e


procedimentos para garantir o controle e a qualidade ambiental do processo de
compostagem de resíduos orgânicos, e dá outras providências. Diário Oficial da União,
Brasília-DF, 04 out. 2017.

CIOTTA, M. N. et al. Matéria orgânica e aumento da capacidade de troca de cátions em


solo com argila de atividade baixa sob plantio direto. Ciência rural. Santa Maria. Vol.
33, n. 6 (nov./dez. 2003), p. 1161-1164, 2003. Disponível em:
http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/22497/000435433.pdf?sequence=1.
Acesso em: 20 jun. 2018

CONCEIÇÃO, Paulo Cesar et al. Qualidade do solo em sistemas de manejo avaliada pela
dinâmica da matéria orgânica e atributos relacionados. Revista Brasileira de Ciência do
Solo, v. 29, n. 5, 2005. Disponível em:
<http://www.redalyc.org/html/1802/180214037013/>. Acesso em: 20 jun. 2018.
COSTA, F. S. et al. Aumento de matéria orgânica num latossolo bruno em plantio
direto. Ciência rural, Santa Maria. Vol. 34, n. 2 (mar./abr. 2004), p. 587-589, 2004.
Disponível em< http://www.scielo.br/pdf/cr/v34n2/a41v34n2>. Acesso em: 20 jun. 2018.
DIACONO, M.; MONTEMURRO, F. Long-term effects of organic amendments on soil
fertility: A review. Agronomy for Sustainable Development, V. 2, p. 401-422, 2010.
Disponível em: < https://hal.archives-ouvertes.fr/file/index/docid/886539/filename/hal-
00886539.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2018.

KIEHL, E.J. Fertilizantes orgânicos. Piracicaba: Editora Agronômica “Ceres”, 1985.


492p.

MATOS, A. T. de. Tratamento e aproveitamento agrícola de resíduos sólidos. Viçosa,


MG: Editora UFV, 2014. 240 p.

PEREIRA NETO, J. T. Manual de compostagem: processo de baixo custo. Viçosa, MG:


Ed. UFV, 2007. 81 p. - Série Soluções.

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