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OTEXTO

EACONSTRUÇAO
DOS SENTIDOS

INGEDOREG.VILLAÇAKOCH

SBD-FFLCH-USP

262964
11

cüõüfo
pU 5 1 /''t'"l'z'"'t b a

e.. J 5 CoP7riglzf © 1997 Ingedore Villaça Koch

Todos os direitos desta edição reservados à


EonoR{A CONTEXTO(Editora Pinsky Ltda.)

SUMÁRIO
Composição; FA Fábrica de Comunicação
Revisão: Verá Lúcia Quintanilha
Capa: AntonioKehl

Dados Internacionais de Catalogaçãona Publicação (cip)


(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Koch, Ingedore Grunfeld Villaça Introdução 7


O texto e a construção dos sentidos / Ingedore Koch 7. ed
São Paulo : Contexto, 2003.
Parte 1: A Construção Textual do Sentido 9
Bibliografia
ISBN85-7244-068-2
A Atividadede ProduçãoTextual 11
1.Fala 2. Linguagem 3. Textos l.Título 11.Série

O Texto: Construção de Sentidos 25


97-1799 CDD-415
Atividades e Estratégias de Processamento
Índices para catálogo sistemático:
1. Lingüística textual 415
Textual 31
2. Sentidos: Lingüística 415
3. Texto: Lingüística 415
U A Construção dos Sentidos no Texto
m Coesão e Coerência 45
D
r'> l4nTVnUA ( f"\h.lvrvvr"\
A Construção dos Sentidos no Texto
C Diretor editorial: JaimePinsky
l
Rua Acopiara, 199 Alto da Lapa Intertextualidade e Polifonia 59

0
i0 05083-110--São Paulo--sp
PABX:
(11) 3832 5838
contexto@editoracontexto.co m .br Parte 11:A Construção do Sentido no
www.editoracontexto.com.br Texto Falado
g
l
75

'n A Natu reza da Faia 77


8 'n
r' 2003
0
= Atí\'idades de Construção do Texto Falado;
l
r' Proibida a reprodução total ou parcial.
Tipos e Funções 83
m
Os inó-atires serãoprocessadosna forma da lei
}

lematização e Rematização: Estratégias


93
de Construção do Texto Falado

A Repetição como Estratégia de


É23
Construção do Texto Falado INTRODUÇÃO
A Dinamicidade dos Tópicos no Texto
Conversacional: Digressão e Coerência 147

É59
Bibliografia
A Autora no Contexto 167

O processo de produção textual, no quadro das teorias só- 7

cio-interacionaisda linguagem, é concebido como atividade


inreracional de sujeitos sociais, tendo em vista a realizaçãode
determinados Gins.
As teorias sócio-interacionais reconhecem a existência de um
sujeito planejador/organizador que, em sua inter-relação com ou-
tros sujeitos,vai construir um texto, sob a influência de uma com-
plexa rede de Estores,entre os quais a especificidade da situação, o
jogo de imagens recíprocas, as crenças, convicções, atitudes dos
interactantes, os conhecimentos (supostamente) partilhados, as
expectativas mútuas, as normas e convenções sócio-culturais. Isso
signif:ica que a construção do texto exige a realização de uma série
de atividades cognitivo-discursivas que vão dota-lo de certos ele-
mentos, propriedades ou marcas, os quais, em seu inter-relaciona-
mento, serãoresponsáveispela produção de sentidos.
É ao estudo de tais atividades discursivase de suasmarcas
na materialidadelingüística que se destina a presenteobra. Na
primeira parte, trato de questõesgerais relativasà produção do
sentido, comuns, portanto, às modalidades escrita e EHadada
língua; na segunda,detenho-me no estudo da construção dos
sentidos no texto falado.
Os capítulos que compõem estelivro constituem versões
mais ou menos próximas de trabalhos publicados em revistas
especializadas e/ou apresentados em congressos, que discutem
questões centrais referentesà construção textual dos sentidos e
que seinterligam teórica e metodologicamente, formando o todo
que aqui apresento e que submeto à apreciação dos leitores, cujas
críticas e sugestões serão sempre bem-vindas.

8
PARTE l

A CONSTRUÇÃO
TEXTUAL DO SENTIDO
AAriViDADEDE
PRODUÇÃO TEXTUAL

11
Segundo as teorias da atividade verbal, o texto resulta de
um tipo específicode atividade a que autoresalemãesdenomi-
nam 'Spxacó#cÃei /7a 2e/ 'l entendendo por Á.z/zZe/n todo tipo
de influência consciente, teleológica e intencional de sujeitos
humanos, individuais ou coletivos, sobre seu ambiente natural e
social. Dessa forma, Spracó#cÃef .fía/z2e/fzdiz respeito à realiza-
ção de uma atividadeverbal, numa situaçãodada, com vistasa
certos resultados.
A escola psicológica e psicolingüística soviética, por sua
vez, baseada em Vigotsky, emprega o termo "dejatel'post" para
designar o complexo conjunto de processos postos em ação para
a consecução de determinado resultado, que é, ao mesmo tempo,
o motivo da atividade,ou seja,aquilo por meio do que seconcre-
tiza uma necessidade
do sujeito (Serébrennikov,1933:60). Con-
sequentemente,tal atividade pode articular-seem três aspectos:
motivação, finalidade e realização. Diz Leont'ev (1971:31):

:Surge de uma necessidade. Depois, planinicamos a ativida-


de, Fazendouso de meios sociais os signos ao determinar
sua meta e eleger os meios adequados à sua realização. Final-
mente, a realizamos, e com isso alcançámosos resultados
visados. Cada ato da atividade compreende, pois, a unidade
dos três aspectos:começacom um motivo e um plano,e e. dependência constante da situação em que se leva a cabo a
termina com um resultado,com a consecuçãoda meta pre- atividade, tanto para a planificação geral como para a rea-
vista no início; mas, nessemeio, há um sistema dinâmico de
lização das ações e a possível modificação do processono
ações e operações concretas orientadas para essa meta' decurso da atividade (troca das açõesprevistas por outras,
de acordo com mudanças produzidas na situação).
Leont'ev (1974) ressaltaque tais ações e operações, que
constituem a atividade verbal, estão inseridasem um processo
social -- o que permite considerar a linguagem enquanto ativida- A TEORn DA ATIVIDADE VERBAL
de determinada pelos fatores sociais.
A teoria da atividade verbal (teorija recevojdejatel'nosti)
Ora, toda atividadepressupõe
a existênciade uma
é, portanto, a adaptação ao 6enâmeno "linguagem" de uma teoria
estruturação interna, a qual, segundo Leont'ev (1971), "se ex-
12 da atividade de caráterâlosófico, articulada com uma teoria da 13
pressa sobretudo no fato de que o processo da atividade consta de
arividade (social) humana, que se especifica em uma teoria da
açõesindividuais(...). As mesmasaçõespodem pertencer a dife- atividade(comunicativa) verbal.
rentes atividades e vice-versa: o mesmo resultado pode ser alcan-
A atividadeverbalé definida por Leont'ev(1971) como
çado por meio de diferentes ações".Tais ações,que presidem a
"... uma atividade (...) do ser humano que se transmite até certo
estruturação ou atividade, e que possuem também determinação
grau mediante os signos de uma língua (cuja característicafun-
social (e psico-individual), articulam-se por sua vez em opera-
damental é a utilização produtiva e receptiva dos signos da lín-
ções específicas, que são os meios de realização das ações indivi-
gua). Em sentido restrito, deve-seentendê-la como uma atividade
duais, em virtude da motivação própria de cada uma delas.
na qual o signo lingüístico atua como 'estímulo' (\Vgotsky), uma
Enquanto as ações têm caráter "psíquico", as operações são fun-
atividade, portanto, em cujo transcurso construímos uma expressão
damentalmente psicofisiológicas (na atividade verbal, pot exem-
lingüística para alcançar um objetivo prendado.
plo, as operações de Eonação, articulação etc.).
O que interessa,assim,ao estudo propriamente lingüístico
Toda atividade humana, portanto, teria os seguintesas-
são as formas de organização da linguagem para a realização de
pectos fiindamentais:
fins sociais(o que inclui, evidentemente,o estudodo sistema
a.
de signos de que nos valemos). Isto é, seu objetivo é verificar
existência de uma necessidade/interesse;
como se conseguem realizar determinadas açõesou interagir
b estabelecimento de uma finalidade;
socialmenteatravésda linguagem (que é, em essência,também
c. estabelecimentode um plano de atividade, formado por
a preocupação da teoria dos atos de EHa de Austin, Searle e suas
ações individuais;
variantes) .
d realização de operações específicas para cada ação, de con-
A realizaçãolingüística da atividade verbal dependedas
formidade com o plano prefixado;
condições sociais e psicológicas, além de vir determinada pelo
motivo básico da atividade, e utiliza diversos meios como: probabilidades", tem a maior probabilidade de êxito) para
a. seleçãode palavras;b. passagem do programaà sua realiza- cumprir seupapel específicodentro do conjunto de ações
ção;c. projeto gramatical; d. traduçãoe comparaçãode varian- em que se articula a atividade.
tes sintáticas; e. fixação e reprodução dos compromissos Sob a influência de tais fatores, o sujeito idealiza o plano
gramaticais,unidos à programaçãomotora (fisiológica) geral do texto, que determina a organização interna deste, antes
(Leont'ev, 74). de passar à sua realização mediante unidades lingüísticas.
Quanto ao modo como o conjunto da atividade e do seu Já os Estoresque determinam a rea]ização verbal da inten-
entorno sócio-psicológico influi na forma específicada expressão ção verbal, ou seja, os aspectos especificamente "superficiais", são,
linguística, ele destaca: segundo Leont'ev:
Fatoresque determinam a intervenção verbal(isto é, aquilo
14
que [eva à realização de determinado ato verbal): a língua particular em que se realiza o enunciado, isto é, o
sistemalingüístico de uma dada língua;
motivação-- geralmentenão há um motivo único, mas o grau de domínio da língua;
um conjunto de motivos, embora seja possível destacar o o Eator fiincional-estilístico, que determina a escolha dos
motivo central ou dominante; meios lingüísticos mais adequados dentre todas as possi-
situação que inclui um conjunto de influências inter- bilidades existentes, de acordo com as condições especíRl-
nas que aeetam um organismo e que, juntamente com a cas em que se realiza a comunicação. É responsável, por
motivação inicial, informam com precisãoesseorganis- exemplo, pela seleçãoda forma dialogada ou monoiogada,
mo quanto às escolhas que deve realizar; e também a si- escritaou calada,
do tipo de textoetc.,assimcomodos
tuação objetivo (situaçãopropriamentedita) e a infor- aspectos tradicionalmente considerados 'estilísticos";
mação sobre situações distintas nas quais se realizaram o eatoraeetivo,expressivo;
outras atividades; as diferençasindividuais em experiênciaverbal entre Fa-
prova de probabilidades, que determina quais, entre asdi- lante e ouvinte, que exigemdeterminadasestratégiaspor
versas ações possíveis (integrantes de uma atividade com- parte do Edante na seleçãodas formas lingüísticas, de acordo
pleta), têm mais possibilidade de produzir os frutos dese- com as necessidadese possibilidades do ouvinte;
jados; o contexto verbal, no sentido de "contexto lingüístico";
tarefa-ação segundo a qual se seleciona a ação que terá a situação comunicativa.
mais probabilidade de êxito; consiste fundamentalmen-
Em resumo:A linguagemé uma Formade atividadee,
te em nosso próprio conhecimento da estrutura e da fi-
assim sendo, deve ser encarada como uma atividade em geral, e,
nalidade de toda a atividade, isto é, trata-se de projetar mais especificamente,como uma arividade humana. Como tal,
uma das ações (aquela que, de acordo com o "cálculo de
toda atividade verbal possui, além da motivação, um conjunto referência à situação texto como reflexo de traços da si-
de operações, que são próprias do sistema lingüístico e que repre- tuação comunicativa;
sentam a articulação das açõesindividuais em que se estrutura a intencionalidade -- texto como uma forma de realização de
atividade,e um objetivo final que, como o motivo inicial, tem mtenções;
um caráter basicamente lingüístico. No processo de realização da boa formação -- texto como sucessão linear coerente de
atividade mediante açõesverbais (arosverbais), é preciso distin- unidades lingüísticas; unidade realizada de acordo com
guir duas fases: a estruturação da motivação inicial e a realização determinados princípios;
superâcial dessamotivação. Em ambas,é preciso ter em conta os boa composição -- texto como sucessãode unidades lin-
determinantes não-lingüísticos, fundamentalmente de caráter güísticas selecionadas e organizadas segundo um plano de
psico-social, devendo, inclusive, a manifestaçãosuperficial expli- composição;
16
car-se, em grande parte, por tais Estores. gramaticalidade-- texto como sucessão
de unidadeslin- t7
güísticas estruturadas segundo regras gramaticais.
ALGUMAS PROPOSTASNO INTERIOR
O estudo do texto em sua totalidade deve considerar os
OA LINGÜÍSTICA TEXTUAL
oito aspectos,embora o autor tenha dedicado seu trabalho ape-
1. Dentro da teoria da atividade verbal, uma das primei- nas aos aspectos6, 7 e 8. Cada um deles pode dar origem a
ras tentativas de elaboração de um modelo textual 6oi desenvolvi-
uma teoria parcial, de modo que os oito, em conjunto, permi-
do por H. lsenberg (1976), que propôs um método apto para tiriam o estudo -- necessariamente interdisciplinar -- do texto
descrevera geração (e também a interpretação e análise) de um lingüístico. Os vários aspectos são apresentados numa ordem
texto, desde a estrutura pré-lingüística da intenção comunicativa tal que cada um deles pressupõeos anteriores,sendo l e 2
até a manifestaçãosuperficial, incluindo fiindamentalmente as pressupostos básicos: existe, em primeiro lugar, a necessidade
estruturas sintáticas, mas que pode ser ampliado aos níveis infe- social, para cuja realização se elabora um texto, cujo conteúdo
riores (morfológico, fonológico etc.). Paraele, o texto pode ser se fixa de acordo com a situação comunicativa e a intenção do
encarado sob oito aspectos diferentes:
falante; passo a passo chega-se ao nível superficial do "texto" em
forma de elementoslingüísticos sucessivos.Para o estudode
legitimidade social -- texto como manifestação de uma ati- cada aspecto, é preciso ter em conta os anteriores; assim, por
vidade social legitimada pelas condições sociais; exemplo, uma descrição adequada da gramaticalidade deverá
funcionalidade comunicativa -- texto como unidade de co-
levar em conta a intenção.
municação;
lsenberg ressalta a importância do aspecto pragmático como
semanticidade -- texto em sua função referencial com a determinante do sintático e do semântico: o plano geral do texto
realidade;
determina as funções comunicativas que nele irão aparecere es-
tas, por sua vez, determinam as estruturas superficiais. A relação sistema de signos, denotativo, mas como sistema de atividades ou
existente entre os elementos do texto deve-seà intenção do Falan- de operações, cuja estrutura consiste em realizar, com a ajuda de
te, ao seu plano textual prévio, que se manifesta por meio de um repertório aberto de vmiáveis (...) e um repertório fechado de
instruções ao ouvinte para que realizeoperaçõescognitivas desti- regra, determinadas operações ordenadas, a Glm de conseguir um
nadasa compreendero texto em suaintegridade,isto é, o seu determinado objetivo, que é informação, comunicação, estabeleci-
conteúdo e o seu plano global; ou seja, o ouvinte não se limita a mento de contado, automani6estação, expressãoe (per) formação
;entender" o texto no sentido de captar seu conteúdo referencial, da atividade. Por isso é que propõe, para os "jogos verbais"de
mas aguano sentido de reconstruir os propósitos do falante ao Wittgenstein, a denominação "jogos de atuação comunicativa'
estrutura-lo, isto é, descobrir o "para quê" do texto.
4. Wunderlich (1978: 30), por suavez, assinala:"0 obje-
E8
2. 1hmbém os trabalhos de Van Dijk, especialmente os da tivo da teoria da atividade é extrair os traços comuns das ações,
década de 80, enquadram-se numa teoria acional da linguagem. planos de ação e estágiosdas ações,e pâ-los em relação com
Em Van Dijk (1981: 210), por exemplo,lê-se"... o planejamento traços comuns dos sistemas de normas, conhecimentos e valo-
pragmático de um discurso ou conversaçãorequer a atualização res. A análise do conceito de atividade (o que é atividade/ação)
mental de um conceito de ato de Edaglobal. É com respeito a esse está estreitamente ligada à análise do conhecimento social so-
macroato de Edaque se constrói o propósito da interação: que X bre as açõesou atividades (o que se considera uma ação?).A
quer saber ou Emer algo. Se dissermos, de maneira bastante vaga, teoria da atividade é, portanto, em parte uma disciplina de ori-
embora familiar nas ciências sociais, que a ação humana é entação das ciências sociais, em parte, também, filosófica e de
finalisticamente orientada ("goal directed"), estaremossignifican- metodologia da Ciência. A relação com a lingüística está em
do que seqüências de ações (...) são realizadas sob o controle eeetivo que o fundamento pragmático da teoria da linguagem deve en-
de uma macro-intenção ou plano, encaixadonuma macro-finali- laçar-se com a teoria da atividade e que, por sua vez, a análise
dade, para um ou mais fitos globais. Enquanto tal macro-propósi- linguística pode contribuir de alguma forma para o desenvolvi-
to é a representação das consequências desejadas de uma ação (...), mento da teoria da atividade:
a macro-intenção ou plano é a representação conceitual do estado
6ina], isto é, do resultado da macro-ação. Sem um macro-propósito 5. Beaugrande& Dressler (198 1), por seuturno, aârmam:
e uma macro-intenção, seríamos incapazes de decidir qual ato de "A produção e a recepçãode textos funcionam como ações
Edaconcretopoderiapropiciar um estadoa partir do qual o resul- discursivas relevantes para algum plano ou meta". (cf as ações
tado pretendido e a meta intencionada poderiam seralcançados.' verbais de Leont'ev) . Partindo da definição de Von Wright (1 967) :
'açãoé um ato intencional que transforma uma situação de uma
3. Schmidt (197 1: 33) escreve, acerca da teoria do ato ver- forma como, de outro modo, não teria ocorrido", descrevema
bal: 'IA linguagem... já não é considerada primariamente como ação discursiva em termos das modificações que ela efetua sobre a
situação e sobre os vários estadosdos participantes: estado de Paraessesautores, embora a coesãoe a coerênciaconstitu-
conhecimento, social, emocional etc. Entre todas as mudanças
am os padrões mais evidentes de textualidade, não são, por si só,
que ocorrem por meio de um discurso,o cocode cada participan- suficientes para estabelecer fronteiras absolutas entre textos e não
te recai sobre aquelesestadosque são instrumentais para os seus
textos, já que as pessoasmuitas vezesutilizam textos que, por
planos, com vistas a determinado objetivo. Deste modo, os esta- várias razões, não se apresentam totalmente coesos e/ou coeren-
dos são processados através de sua vinculação a um plano, isto é, tes. E isso que os leva a incluir as atitudes dos usuáriosentre os
pelo encaixamentodasaçõesnuma sequênciaplanejadade esta-
critérios de textualidade: para que uma manifestação lingüística
dos ("plan attachement").
constitua um texto, é necessárioque haja a intenção do produtor
Seu trabalho, portanto, insere-setambém nos quadros de de apresenta-la e a dos parceiros de aceita-la como tal -, em
uma teoria da atividade. Dizem elesque a primeira Emeda pro- uma situação de com unicação determinada. Pode, inclusive, acon-
20
dução de textos consiste usualmente no planejamento: o produ- tecer que, em certas circunstâncias, se afrouxe ou elimine 21
tor tem a intenção de atingir determinadameta via texto, de deliberadamente a coesão e/ou coerência semântica do texto com
modo que a produção deste é uma submeta no trajeto para o o objetivo de produzir efeitos específicos.,Aliás,nunca é demais
atingimento do objetivo principal.
lembrar que a coerência não constitui uma propriedade ou qua-
Definindo o discurso como uma seqüênciade situaçõesou
lidade do texto em si: um texto é coerente para alguém, em dada
eventos em que vamosparticipantes apresentam textos como ações
situação de comunicação específica (cf, por ex., Van Dijk, 1983;
discursivas, Beaugrande & Dressler consideram a atividade verbal
Koch & Travaglia, 1989 e 1990). Este alguém, para construir a
como uma instância de planejamentointerativo. Por isso, inclu-
coerência, deverá levar em conta não só os elementos lingüísticos
em, entre os critérios ou padrõesde textualidade, a inten- que compõem o texto, mas também seu conhecimento enciclo-
cionalidade/aceitabilidade. Segundo eles,a intencionalidade, em
pédico, conhecimentos e imagens mútuas, crenças,convicções,
sentido estrito e imediato, diz respeito ao propósito dos produto- atitudes, pressuposições,intenções explícitas ou veladas,situa-
res de textosde Emercom que o conjunto de ocorrênciasverbais ção comunicativa imediata, contexto sociocultural e assim por
possa constituir um instrumento textual coesivo e coerente, capaz diante.
de realizar suasintenções, isto é, atingir uma meta especificada em
um plano; em sentido amplo, abrangetodas as maneiras como os 6. Motsch & Pasch(1987) concebemo tcxto como uma
sujeitos usam textos para perseguir e realizar seus objetivos. seqüência hierarquicamente organizada de atividades realizadas
A aceitabilidade, por suavez, refere-seà atitude cooperati- pelos interlocutores. Segundo eles, componentes da atividade lin-
va (cf. Grice) dos interlocutores, ao concordarem em "jogar o güística (AL) reúnem-se na seguinte formula:
jogo", de acordo com as regrase encaram, em princípio, a contri-
buição do parceiro como coerentee adequadaà realizaçãodos a] = (e, int., cond., cons.)
objetivos visados.
em que e representa a enunciação, int., a intenção do anunciador enfatizar), distinguem duas categorias: a) as que visam a que o
de atingir determinado objetivo, cond., as condições necessárias enunciatário compreenda a enunciação (OBf-2); b) as que pre-
para que esseobjetivo seja alcançado, e cons., as conseqüências tendem leva-lo a aceitar realizar o objetivo fundamental do
enunciador (OBf-l).
decorrentes do atingimento do objetivo.
De acordo com essaformula, a enunciação(e) é movida Hilgert (1990: 9), comentando a proposta desses autores,
relativamente àsatividades de composição do texto Enfado(ou de
por uma intenção (int.) do enunciador de atingir determinado
objetivo ilocucional em relaçãoao enunciatário. Para atingir um formulação "lato sensu"), afirma que estasdevem servistascomo
objetivo fundamental (OBf), o enunciador precisa atingir um procedimentos de solução de problemas: "se, em sentido lato,
outro(OBf- 1), anterior e subordinado àquele:que o enunciatário admitir-se que asatividades de formulação sãoiniciativas de cons-
aceite, isto é, esteja disposto a mostrar a reação pretendida pelo trução ]ingüístico-comunicativa de um enunciador, para forne-
cer uma "proposta de compreensão" ao enunciatário, em interação 23
22 enunciador ou, ainda, que o enunciatário queira que o
enunciador atinja o OBf. E, finalmente, para que a aceitação com o qual o processo comunicacional se realiza; e se, com Rath

ocorra, um outro objetivo (OBf-2), anterior e subordinado a (1 985: 21), se considerar que "na língua fadada, um texto consiste,

OBf-l, precisa ser alcançado: que o enunciatário reconheça a ao menos em parte, na própria produção do texto (...)", onde 6enâ-
intenção do enunciador, ou seja, compreenda qual é o objetivo menos especíâcos como interrupções, reinícios, correções, paráfra-

que este persegue,o que dependeda formulação adequadada ses, repetições e outros o apresentam em constante status nascendo;

enunciação. então se pode admitir que as atividades de formulação são


Em outras palavras,de acordo com Motsch e Pasch,para desencadeadas
por problemas reaisou virtuais de compreen-
alcançar o objetivo ilocucionário fundamental, exige-se que o são, detectados por ocasião do processamento textual. Em outras

enunciador assegureao enunciatário as condições para que este palavras, atividades de formulação são aqueles procedimentos a que

reconheça sua intenção (compreendendo a formulação da recorrem os interlocutores para resolver,contornar, ultrapassarou
enunciação) e aceite realizar o objetivo a que ele visa. Deste modo, aemtar dificuldades, obstáculos ou barreiras de compreensão.
o enunciadorrealizao objetivo a que ele visa. Deste modo, o O estudo dasatividades de composição ou construçãotex-
enunciador realiza atividadeslinguístico-cogn itivas para garantir tual tem sido objeto de uma sériede pesquisas,entre asquaisas
a compreensãoe estimular,facilitar ou causara aceitação.Da de Koch & Souzae Silva (1991, 1992, 1993); nasquaisse pro-
parte do enunciatário, para que a atividade i]ocuciona] seja bem põe uma revisão de alguns posicionamentos de Motsch e Pasch e
sucedida, faz-se necessárioque ele compreenda o objetivo do seapresenta uma proposta de classificação das atividades de cons-
enunciador, aceite esseobjetivo e mostre a reação desejada. Os trução do texto calado.

autores, relacionando os objetivos parciais OBf-2 e OBf- l com


asatividades de composição textual (como fundamentar, justifi- De todo o exposto,pode-seconcluir que, vista sobessapers
car, explicar, completar, repetir, parafrasear,corrigir, resumir, pectiva, a atividade de produção textual pressupõe um sujeito -
entidade psico-físico-social que, em sua relaçãocom outro(s)
sujeito(s), constrói o objeto-texto, levando em consideração em
seu planejamento todos os Estoresacima mencionados, combinan- OTEXTO:CONSTRUÇÃO
do-osde acordo com suasnecessidades e seusobjetivos. O(s) outro(s) DE SENTIDOS
sujeito(s) implicado(s) nessaatividade -- e no próprio discurso do
parceiro, já que a alteridade é constitutiva da linguagem pode(m)
ou não atribuir sentido ao texto, aceita-lo como coeso e/ou coeren-
te, considera-lo relevante para a situação de interlocução e/ou ca-
paz de produzir nela alguma transformação.
O QUE É UM TEXTO
Na atividade de produção textual, social/individual,
24 alteridade/subjetividade, cognitivo/discursivo coexistem e con- É sabido que, conforme a perspectiva teórica que se adoce, 25
dicionam-se mutuamente, sendo responsáveis, em seu conjunto, o mesmo objeto pode ser concebido de maneirasdiversas.O con-
pela ação dos sujeitos empenhados nos jogos de atuação comuni- ceito de texto não foge à regra. E mais: nos quadros mesmosda
cativa ou sócio-mterativa. Linguística Textual, que tem no texto seu objeto precípuo de
estudo, o conceito de texto varia conforme o autor e/ou a orienta-
ção teórica adotada.
Assim, pode-severificar que, desdeas origensda Lingüís-
tica do Texto até nossos dias, o texto foi visto de diferentes for-
mas. Em um primeiro momento, eoi concebido como:

a.
unidade lingüística (do sistema) superior à frase;
b sucessãoou combinação de frases;
c.
cadeia de pronominalizações ininterruptas;
d cadeia de isotopias;
e.
complexo de proposições semânticas.

Já no interior de orientaçõesde naturezapragmática,o


texto passou a ser encarado:

a. pelas teorias acionais, como uma seqüência de aros de Eda;


b. pelasvertentes cognitivistas, como 6enâmeno primariamen-
te psíquico, resultado, portanto, de processosmentais; e
Poder-se-ia, assim, conceituar o texto como uma manifes-
c. pelas orientações que adoram por pressuposto a teoria da
atividade verbal, como parte de atividades mais globais tação verbal constituída de elementos linguísticos selecionados e
de comunicação,que vão muito além do texto em si, já ordenados pelos co-anunciadores, durante a atividade verbal, de
que este constitui apenas uma Fasedesse processo global. modo a permitir-lhes, na interação, não apenasa depreensãode
conteúdos semânticos, em decorrência da ativação de processose
Desta Forma,o texto deixade ser entendido como uma estratégiasde ordem cognitiva, como também a interação (ou
estrutura acabada (produto), passando a ser abordado no seu atuação) de acordo com práticas socioculturais (cf. Koch,1 992).
próprio processo de planejamento, verbalização e construção. É esta tambéma posiçãode Schmidt (1978:170), para
Combinando essesúltimos pontos de vista, o texto pode ser quem o texto é "qualquer expressãode um conjunto linguístico
concebido como resultado parcial de nossaatividade comunicativa, numa atividadede comunicação no âmbito de um 'jogo de
26 que compreende processos,operaçõese estratégiasque têm lugar na atuação comunicativa' tematicamente orientado e preenchen- 27

mente humana, e que são postos em ação em situações concretas de do uma fiinção comunicativa reconhecível, ou seja, realizando
inreração social. Depende-se, portanto, a posição de que: um potencial ilocucionário reconhecível:
Em Marcuschi(1 983: 12-13), encontramos a seguinte"de-
a. a produção textual é uma atividade verbal, a serviço de Gins finição provisória" de Linguística Textual e de seu objeto, que
sociais e, portanto, inserida em contextos mais complexos também parece ajustar-se bem a essalinha de pensamento:
de atividades (cf. capítulo anterior) ;
"Proponho que se veja a Lingüística do Texto, mesmo que
b. trata-se de uma atividade consciente, criativa, que com- provisória e genericamente, como o as/wdoóZnOPrrnfões#nKüáz/-
preende o desenvolvimento de estratégias concreta de ação
cas e cognitivas reguladoras e controhdoras da produ çao, consta ção,
e a escolha de meios adequados à realização dos objetivos;
funcionamento e recepção de textos escritos ou orais.
isto é, trata-sede uma atividade intencional que o Edante,
Seu tema abrange a coesãosupe?#c/a/ ao nível dos constitu-
de conformidade com as condiçõessob asquais o texto é
intes linguísticos, a coeré/zci co ce/f a/ ao nível semântico e
produzido, empreende, tentando dar a entender seuspro-
cognitivo e o sistema de pressuposições e implicações a nível prag-
pósitos ao destinatário através da manifestação verbal;
mático da produção do sentido no plano dasaçõese intenções.
c. é uma atividade interacional, visto que os interactantes, de
Em suma, a Lingüística Textual trata o texto como um ato de
maneiras diversas, se acham envolvidos na atividade de pro-
comunicação unificado num complexo universo de ações huma-
dução textual.
nas.Por um lado deve preservar a o/gan/zzç.2o#ne.zrque é o tra-
Dessa perspectiva, então, podemos dizer, numa primeira
tamento estritamente lingüístico abordado no aspectoda coesão
aproximação, que textos são resultados da atividade verbal de in-
e, por outro, deve considerar a erga í çúo rfücz/ázzZz
ou tentacular,
divíduos socialmente atuantes, na qual estescoordenam suasações
não linear portanto, dos níveis de sentido e intenções que reali-
no intuito de alcançarum fim social,de conformidadecom as
zam a coerência no aspecto semântico e funções pragmáticas.
condições sob as quais a atividade verbal se realiza.
A ORGANIZAÇÃO DA a. segmentos textuais de extensões variadas;
INFORMAÇÃO TEXTUAL b. segmentostextuais e conhecimentos prévios;
c. segmentostextuais e conhecimentos e/ou práticas
A informação semânticacontida no texto distribui-se, como
socioculturalmente partilhados.
se sabe, em (pelo menos) dois grandes blocos: o üzü e o /copo,
cuja disposição e dosagem interferem na construção do sentido. Quer para a remissão, quer para a progressão textual, cada
A informação dada -- aquelaque se encontra no horizonte língua põe à disposição dos falantes uma série de recursos expres-
de consciênciados interlocutores (cf. Chúe, 1987) -- tem por sivos, comumente englobados sob o rótulo de rojão fex/z/.z/(cf.
fiinção estabeleceros pontos de ancoragempara o aporte da in- Koch, 1989).
formação nova. As relações entre segmentos textuais estabelecem-se em
vários níveis:
28 A retomada de informação já dada no texto se em por meio
de remissão ou referência textual (cf Koch, 1989), formando-se
1 . No interior do enunciado, através da articulação tema-rema.
destarte no texto as coze/ai cães/z"zi,que têm papel importante na
A informação temática é normalmente dada, enquanto a
organizaçãotextual, contribuindo para a produção do sentido
remática constitui, em geral, informação nova. O uso de
pretendido pelo produtor do texto.
um ou outro tipo de articulação tema--rema (progressão
A remissão se Eaz,freqüentemente, não a referentes textual-
com tema constante, progressão linear, progressão com tema
mente expressos,mas a "conteúdos de consciência", isto é, a refe-
derivado, progressãoe subdivisão do rema etc.) tem a ver
rentes estocadosna memória dos interlocutores, que, a partir de com o tipo de texto, com a modalidade (oral ou escrita),
'pistas" encontradas na superfície textual, são (re)avivados, via
com os propósitos e atitudes do produtor.
inferenciação. É o que se denomina am#@oxaiem.infira ou an#@orn
2. Entre orações de um mesmo período ou entre períodos no
/'rc?@nzZz,
que será retomada no Capítulo 4. As inferências cons- interior de um parágrafo (encadeamento), por meio dos
tituem estratégiascognitivas extremamente poderosas,que per- conectoresinteúrásticos, aqui considerados tanto aquelesque
mitem estabelecera ponte entre o material lingüístico presente estabelecem relações de tipo lógico-semântico, como aque-
na superRcie textual e os conhecimentos prévios e/ou comparti- les responsáveis pelo estabelecimento de relações discursivas
lhados dos parceiros da comunicação. Isto é, é em grande parte ou argumentativas (cf Koch, 1984, 1987 e 1989a).
através das inferências que se pode (re)construir os sentidos que o 3. Entre parágrafos, seqüências ou partes inteiras do texto,
texto implícita. por meio dos "articuladores textuais" ou também por mera
Com ancoragem na informação dada, opera-sea progres- Justaposição.
sãotextual, mediante a introdução de informação nova, estabele- Relaçõesentre informação textualmente expressae conhe-
cendo-se, assim, relações de sentido entre: cimentos prévios e/ou partilhados podem ser estabelecidaspor
recursoà intertextualidade,à situaçãocomunicativae a todo o
contexto sociocultural.
QUAL E, AFINAL, A PROPRIEDADE
DEFINIDORA DO TEXTO?
AriViDADES E ESTRATEGiAS
Um texto se constitui enquanto tal no momento em que os
parceiros de uma atividade comunicativa global, diante de uma ma-
DE PROCESSAMENTO
TEXTUAL
nifestação linguística, pela atuaçãoconjunta de uma complexa rede
de fàtores de ordem situacional, cognitiva, sociocultural e interacional,
são capazesde construir, para ela, determinado sentido.
Portanto, à concepção de texto aqui apresentadasubjaz o
postulado básico de que o sentido não está no texto, mas secons- Dentro da concepção de língua(gem) como atividade
30 trói a partir dele, no curso de uma interação. Para ilustrar essa interindividual, o processamentotextual, quer em termos de pro- 31
afirmação, tem-se recorrido com frequência à metáfora do /rede/g dução, quer de compreensão,deve ser visto também como uma
como este, todo texto possui apenas uma pequena superfície ex- atividade tanto de caráterlingüístico, como de carátersócio-
posta e uma imensa área imersa subjacente. Para se chegar às cognitivo.
profundezas do implícito e dele extrair um sentido, faz-seneces- Ainda dentro dessaconcepção, o texto é considerado como
sário o recurso aos vários sistemas de conhecimento e a ativação manifestação verbal, constituída de elementos lingüísticos de
de processose estratégiascognitivas e interacionais. diversasordens, selecionadose dispostos de acordo com as
Uma vez construído um -- e não o sentido, adequado ao virtualidades que cada língua põe à disposiçãodos falantesno
contexto, às imagens recíporocasdos parceiros da comunicação, curso de uma atividade verbal, de modo a facultar aosinteractantes
ao tipo de atividade em curso, a manifestação verbal será consi- não apenas a produção de sentidos, como a fiindear a própria
derada coerente pelos interactantes (cf. Koch & Travaglia, 1989). interação como prática sociocultural.
E é a coerência assim estabelecidaque, em uma situação concreta Nessa atividade de produção textual, os parceiros mobili-
de atividade verbal ou, se assim quisermos, em um "jogo de zam diversos sistemas de conhecimentos que têm representados
linguagem" -- vai levar os parceiros da comunicação a identificar na mem(ária,a par de um conjunto de estratégiasde proces-
um texto como texto.
samento de caráter sociocognitivo e textual.
O objetivo deste capítulo é discutir algumas das questões
ligadas ao processamento sociocognitivo de textos.
SISTEMASDE CONHECIMENTO ACESSADOS POR interação, pretende atingir. Trata-se de conhecimentos sobre dpof zú'
OCASIÃO DO PROCESSAMENTO
TEXTUAL oOeüz,Ofáoz/ífpai zú'azmz&#aü0,que costumam serverbalizadospor
meio de enunciaçõescaracterísticas,embora seja também 6eqüente
Para o processamento textual contribuem três grandes sis- sua realizaçãopor vias indiretas, o que exige dos interlocutores o
temasde conhecimento:o lingüístico,o enciclopédicoe o conhecimento necessáriopara a captação do objetivo ilocucional.
interacional (cf Heinemann & Viehweger, 1991). O conhecimentocomunicacionalé aqueleque diz res-
O conhecimento lingüístico compreende o conhecimento peitos por exemplo, a normas comunicativas gerais, como as
gramatical e o lexical, sendo o responsávelpela articulação som- máximas descritas por Grice (1969); à quantidade de informa-
sentido. É ele o responsável,por exemplo, pela organização do ção necessárianuma situação concreta para que o parceiro seja
material lingüístico na superfícietextual, pelo uso dos meios capazde reconstruir o objetivo do produtor do texto; à seleção
32
coesivos que a língua nos põe à disposição para eeetuar a remissão 33
da variante lingüística adequada a cada situação de inreração e
ou a seqüenciação textual, pela seleção lexical adequada ao tema à adequaçãodos tipos de texto às situaçõescomunicativas. É o
e/ou aos modelos cognitivos avivados. que Van Dijk (1994) chama de modeZoi coK z/f/z,os de con/ex/o.
O conhecimento enciclopédico ou conhecimento de mun- O conhecimento metacomunicativo permite ao produtor
do é aquele que se encontra armazenado na memória de cada do texto evitar perturbações previsíveis na comunicação ou sanar
indivíduo, quer setratede conhecimentodo tipo declarativo(pro- Óon-aneoz/'zPoi/erfor0 conflitos e6etivamente ocorridos por meio
posições a respeito dos fatos do mundo), quer do tipo episódico da introdução no texto, de sinais de articulação ou apoios textuais,
(os "modelos cognitivos" socioculturalmente determinados e ad- e pela realização de atividades específicas de formulação ou cons-
quiridos atravésda experiência).É com baseem tais modelos, trução textual. Trata-sedo conhecimento sobreos vários tipos de
por exemplo, que se levantam hipóteses, a partir de uma man- açõeslingüísticasque permitem, de certa forma, ao locutor asse-
chete; que se criam expectativassobre o(s) campo (s) lexical (ais) gurar a compreensão do texto e conseguir a aceitação, pelo par-
a ser (em) explorado(s) no texto; que se produzem as inferências ceiro, dos objetivos com que é produzido, monitorando com elas
que permitem suprir as lacunasou incompletudes encontradas o fluxo verbal (cf Motsch & Pasch, 1985).
na superfície textual.
O conhecimento superestrutura, isto é, sobreestruturasou
O conhecimento sócio-interacional é o conhecimento so- modelos textuais globais, permite reconhecer textos como exem-
bre as ações verbais, isto é, sobre as formas de / Ir -grão através
plaresde determinado gênero ou tipo; envolve, também, conheci-
da linguagem. Engloba os conhecimentosdo tipo ilocucional, mentos sobre as macrocategorias ou unidades globais que
comunicacional, metacomunicativo e superestrutural. distinguem os vários tipos de textos, sobre a sua ordenação ou
E o conhecimento ilocucional que permite reconhecer os
seqüenciação, bem como sobre a conexão entre objetivos, bases
objetivos ou propósitos que um falante, em dada situação de proposicionais e estruturas textuais globais.
Heinemann & Viehweger (1991) salientam que, a cada estrutura e-o significado de um fragmento de texto ou de um
um dessessistemasde conhecimento, corresponde um conheci- texto inteiro. Elas fazem parte do nosso conhecimento geral, re-
mento específicosobre como coloca-lo em prática, ou seja, um presentandoo conhecimento procedural que possuímossobre
conhecimento de tipo procedural, isto é, dos procedimentos ou compreensão de discurso. Falar em processamento estratégico sig-
rotinas por meio dos quais essessistemasde conhecimento se nifica dizer que os usuários da língua realizam simultaneamente
atualizam quando do processamento textual. Este conhecimento em vários níveis passosinterpretativos finalisticamente orienta-
funciona como uma espéciede "sistemade controle" dos demais dos,-e6etivos,eficientes, flexíveis, tentativos e extremamente rápi-
sistemas, no sentido de adapta-los ou adequa-los às necessidades dos; fazem pequenos cortes no material "entrante" (;ncom//lg),
dos interlocutores no momento da interação. podendo utilizar somente informação ainda incompleta parache-
TH conhecimento engloba, também, o saber sobre as prá- gar a uma (hipótese de) interpretação. Em outras palavras,a in-
34 35
ticas peculiaresao meio sociocultural em que vivem os formação é processada o/z-ane.
interactantes, bem como o domínio das estratégiasde interação, Assim, a análise estratégica depende não só de característi-
como preservação das faces, representação positiva do "self", po- castextuais, como também de características dos usuários da lín-
lidez, negociação,atribuição de causasa mal-entendidos ou fra- gua, tais como seus objedvos, convicções e conhecimento de mundo,
cassosna comunicação, entre outras. Concretiza-seatravés de quer se trate de conhecimento de tipo episódico, quer do conheci-
estratégias de processamento textual.
mento mais geral e abstrato, representadona memória semântica
ou enciclopédica. Desta forma, as estratégiascognitivas consistem
ESTRATÉGIAS
DE PROCESSAMENTO
TEXTUAL em es/xafí#ünz& z/iodo conhecimento. E esseuso, em cada situa-
ção, depende dos objetivos do usuário, da quantidade de conheci-
As estratégiasde processamentotextual implicam, portan-
mento disponível a partir do texto e do contexto, bem como de
to, a mobilização "on-lhe" dos diversossistemasde conhecimen-
suascrenças,opiniões e atitudes, o que torna possível, no momen-
to.. Para efeito de exposição, vou divida-las em cognitivas, textuais
esociointeracionais. to da compreensão, reconstruir não somente o sentido intenciona-
do pelo produtor do texto, mas também outros sentidos,não
previstosou mesmo não desejadospelo produtor.
Estratégias cognitivas Van Dijk & Kintsch citam, entre as estratégiasde proces-
samento cognitivo, as estratégias proposicionais, as de coerência
Na acepçãode Van Dijk & Kintsch (1983: 65), o
local, as macroestratégias, as estratégias esquemáticas, as estilís-
processamentocognitivo de um texto consistede diferenteses-
ticas, as retóricas, as não-verbais e as conversacionais. Não cabe
tratégias processuais, entendendo-se estratégia como "uma ins-
trução global para cada escolha a ser feita no curso da ação". THs aqui aprofundar essasquestões,para o que remeto ao trabalho
desses autores.
estratégiasconsistem em hipóteses operacionais eficazessobre a
Pode-sedizer, portanto, que as estratégiascognitivas, em mo uma interação verbal. Entre elas, podem-se mencionar, além
sentido restrito, sãoaquelasque consistem na execuçãode al- daquelas Klativas à realização dos diversos tipos de fitos de eHa,as
gum "cálculo mental" por parte dos interlocutores. Exemplo estratégias de preservação das faces ("facework") e/ou de repre-
prototípico são as inferências, que, como já 6oi dito, permitem sentaçãopositiva do "self", que envolvem o uso das#ormm Zr
gerar informação semântica nova a partir daquela dada, em cer- .zfe/zw.z(üo,
as estratégias de polidez, de negociação, de atribuição
to contexto. Sendo a informação dos diversos níveis apenasem de causas aos mal-entendidos, entre outras.

p'rte explicitadano texto, ficando a maior parte implícita, as A efn.z/lkfa Ze p eserz,.zçãozZ #aref manifesta-se linguis-
inferências constituem estratégiascognitivas por meio das quais ticamente atravésde aros preparatórios, eufemismos, rodeios,
o ouvinte ou leitor, partindo da informação veiculada pelo tex- mudanças de tópico e dos marcadores de atenuação em geral. O
to e levando em conta o contexto (em sentido amplo), constrói gaz/ Zr po#ó2kzé socialmente determinado, em geral com base
36
novas representaçõesmentais e/ou estabeleceuma ponte entre nos papéis sociais desempenhadospelos participantes, na neces- 37

segmentostextuais, ou entre informação explícita e informação sidade de resguardar a própria face ou a do parceiro, ou,.ainda,
não explicitada no texto. condicionado por normas culturais.
As inferências são estratégias cognitivas comuns à modali- Conflitos, mal-entendidos, situações que desencadeiam
dade escrita e falada. Existem, contudo, estratégias específicas da incompreensãomútua são inevitáveis no intercâmbio linguístico.
fala, como aquelasque venho denominando "estratégiasde Para restabelecera "commonality", Eaz-sepreciso, então, que as
desaceleração" (cf Koch & Souza e Silva, 1994), algumas das dificuldades sejam devidamente identificadas e .zfr/óz/ií2úzi
a.poli/-
quais, como, por exemplo, aspausasde planejamento, têm por z,eüc'zz/i,zf
subjacentes
ao conflito. Como conseqüência
da atri-
função ganhar tempo para o processamentopor ocasião da pro- buição (adequada ou inadequada) de causas às dificuldades, os
dução textual.
contratos subjacentes necessitam ser, muitas vezes, modificados,
As estratégiasde ordem cognitiva têm, assim, a função de ou então, novos contratos devem ser estabelecidospara prevenir
permitir ou facilitar o processamentotextual, quer em termos de fiituros problemas do mesmo tipo. .Além disso, toda interação
produção, quer em termos de compreensão.As estratégias envolve a neKac/açúode uma denlnição da própria situação e das
mteracionals, por su' vez, visam a fazer com que os jogos de lin- normas que a governam. Na verdade, todos os aspectos da situa-
guagem transcorram sem problemas, evitando o fracasso da ção relativos aos participantes estão sujeitos à negociação. Isso vai
mteração.
resu[tar numa construção social da realidade, já que, sendo a rea-
lidade social e constituída no processo contínuo de interpretação
e interação, os seusvários aspectos podem ser considerados e
Estratégias sócio-interacionais
(re)negociadosde forma explícita ou implícita.
Estratégias interacionais são estratégias socioculturalmente Portanto, as estratégiasinteracionais visam a levar a bom
determinadas que visam a estabelecer,manter e levar a bom ter- termo um "jogo de linguagem". As estratégiastextuais,por seu
turno -- que, obviamente não deixam de ser também interacionais
que se pode Edar de segmentação (cf cap. 3 da Parte11).Nestes,
e cognitivas em sentido lato --, dizem respeito às escolhastextu-
a integração sintática reduzida ou mesmo inexistente resulta da
ais que os interlocutores realizam, desempenhando diferentes fun-
possibilidadeque tem o Edantede introduzir de imediato um
ções e tendo em vista a produção de determinados sentidos.
elemento temático ou remático, sem que a relaçãosintática com
o(s) subseqüente(s) já esteja plenamente planejada (Koch, 1995).
Estratégias textuais Além do aspectodo planejamento, outros parâmetrosda interação
'face-a-facedesempenham aqui papel relevante: a rápida alternância
1. De organização da informação.
2. De formulação. dos turnos, a expressividade, a inserção na situação comunicativa,
entre outros.
3. De reGerenciação.
38
4. De "balanceamento" ("calibragem") entre explícito e implí- 39
cito. 2. Estratégiasde formulação -- têm funçõesde ordem
cognitiva-interacional. Entre tais estratégias,podem citar-se os
vários tipos de /nierf.2a e de rl:Éormz/ázçáo(cf.cap. 2 da Parte ll).
1. Estratégias de organização da informação -- dizem res
As inserçõestêm, em geral, a fiinção de facilitar a compre-
peito à distribuição do material lingüístico na superfície textual
ensãodos interlocutores, criando coordenadaspara o estabeleci-
dado/novo mento de uma estrutura referencial,de modo que o material
inserido não é supérfluo, isto é, não é eliminável sem prejuízo
para a compreensão. Por meio da inserção, introduzem-se expli-
Conforme já 6oi ressalvadono Capítulo 2, a estrutura
cações ou justiâcativas, apresentam-se ilustrações ou exemplifi-
inÊormaciona] de um texto exige a presença de elementos dados e
cações,Errem-se comentários metaeormulativos que têm, muitas
elementos novos. É com base na informação dada, responsável
vezes,a função de melhor organizar o mundo textual. A inserção
pela locaçãodo que vai ser dito no espaçocognitivo do enter-
pode ter, também, a fiinção de despertar ou manter o interesse dos
locutor, que seintroduz a informação nova, que tem por função
parceiros,como no casoda introdução de questõesretóricas(re-
introduzir nele novas predicações a respeito de determinados re-
curso persuasivo) e/ou criar uma atmosfera de intimidade ou cum-
ferentes,com o objetivo de ampliar e/ou reformular os conheci-
plicidade, como aconteceno casoda introdução de comentários
mentos já estocados a respeito deles.
jocosos ou alusivos a convicções, crença e opiniões partilhada pelos
interlocutores. Pode, ainda, servir de suporte a uma argumentação
estratégiasde articulação tema-rema
em curso e/ou expressar a atitude do locutor perante o dito, intro-
duzindo, por exemplo, atenuações, ressalvas,avaliações.
Em termos da articulação tema-rema, particularmente na
Quanto às estratégias de reformulação, postulamos que
linguagem falada, tem-se uma série de padrões expressivosem
podem ser retóricas ou saneadoras.A reformulação retórica rea-
liza-se, basicamente, através de repetições e parlraseamentos, cuja [os que Errem parte de um mesmo "fume" ou "script", a partir de
função precípua é a de reforçar a argumentação, sendo, nesse um ou vários de seus elementos explícitos na superfície textual.
caso,comum às modalidades escrita e oral. Pode [er, também, a Eis alguns exemplos:
fiinção de facilitar a compreensão através da desaceleraçãodo rit-
mo da fala, dando ao(s) parceiro(s)tempo maior para o (1) .l#2oi finas e delicadasteciam as mais graciosasrendas,en-
processamento do que está sendo dito (cf Capítulo 4 da Parte ll). quanto aZ»oi e üó/oí pareciam sorrir suavemente.
A reformulação saneadora,por sua vez, pode ocorrer sob (2) Jorge 6oi atacado pelo enorme cão policial. Eles são realmente
forma de correções ou reparos, e também de repetições e paráfra- animais muito perigosos
ses,todas elas com função de solucionar imediatamente após a (3) Ao ser abordada pelo assaltante, a bolsa da jovem abriu-se, e
verbalização de um segmento, dificuldades nele detectadaspelo seus pertences espalharam-se pela calçada. O /e/zfo, o vaza/z,a
40
próprio falante ou pelosparceiros, podendo, assim, serauto - ou pente rolaram para o meio da rua. 41
heterocondicionada.

Há, também, a remissão para a frente catáeora-- que se


3. Estratégias de referenciação -- a reativação de referentes realizapreferencialmente atravésde pronomes demonstrativosou
no texto é realizada através de estratégias de reEerenciaçãoanaforica indefinidos neutros (isto, isso,aquilo, tudo, nada)ou de nomes
(Koch, ] 987 e 1989 e outros), formando-se, desta maneira, ca- genéricos,mastambém por meio dasdemaisespéciesde prono'
deias coesivas mais ou menos longas. Aquelas que retomam refe- mes, de numerais e de advérbios propominais.
rentes principais ou temáticos (por exemplo, protagonista e
antagonista, na narrativa; ser que é objeto de uma descrição; tema (4) O incêndio havia destruído fzído: casas,móveis, plantações
de uma discussão,em textos opinativos) percorrem em geral o
texto inteiro.
Uma das formas de avivar ou reativar referentes são expres-
Como serádetalhado no Capítulo 4, essetipo de remissão sõesnominais deânidas, ou seja, as descrições deânidas do refe-
pode ser e6etuadopor meio de recursosde ordem "gramatical" rente. Ora, o uso de uma expressãodefinida implica semprena
ou por intermédio de recursosde naturezalexical, como sinóni- escolhadentre as propriedades ou qualidades que caracterizamo
mos, hiperânimos, nomes genéricos,descriçõesdefinidas; ou, referente, escolha, escolha esta que será deita de acordo com aque-
ainda, por reiteração de um mesmo grupo nominal ou parte dele; las propriedades ou qualidades que, em dadas situações de
e, 6lnalmente, por meio da elipse. interação, em fiinção dos propósitos a serematingidos, o produ-
Por vezes, a (re)ativação de referentes, a partir de "pistas tor do texto tem interesseem ressaltar,ou mesmotornar conhe-
expressasno texto, se dá via ineerenciação. Pode-se inferir, por cidas de seu(s) interlocutor(es). Veja-se, por exemplo, a diferença
entre (14) e (15):
junto a partir de um ou mais subconjuntos; enfim, conhecimen-
(14) Collor preocupa-seem manter a forma. Ocres/Zr /f exercita- A necessidadede recorrer aos sistemas de conhecimento e
se todos os dias.
às estratégias aqui parcialmente descritas, por ocasião do
(15) Collor preocup'-se em manter a forma. O mosto /nZzan.zlamrr processamentotextual, permite constatar a grande complexida-
exercita-se todos os dias.
de do processo de construção de um texto e a gama de atividades
de ordem sociocognitivaque se realizam com vistasà produção
Como se vê, a escolha das descrições deânidas pode trazer de sentidos.
ao interlocutor informações importantes sobre as opiniões, cren-
çase atitudesdo produtor do texto, auxiliando-o na construção
do sentido. Por outro lado, o locutor pode também, através do
uso de uma descriçãodeGlnida,dar a conhecerao interlocutor
42
dados que acredita desconhecidos deste, relativamente ao refe- 43
rente textual, com os mais variados propósitos; ou ainda
categorizar, classificar, resumir a informação previamente apre-
sentada de uma certa maneira: a hipótese, a cena, a tragédia etc.

4. Estratégia de "balanceamento" do explícito/implícito


-- relaçõesentre informação textualmente expressae conhecimen-
tos prévios, pressupostoscomo partilhados, podem também ser
decidas por meio de estratégias de "sinalização" textual, por
meio dasquaiso interlocutor, por ocasiãodo processamentotex-
tual, é levado a recorrer ao contexto sociocognitivo(situação co-
municativa, "scripts" sociais, conhecimentos intertextuais, e assim
por diante).

Visto que não podem existir textos totalmente explícitos,


o produtor de um texto precisaprocederao "baJanceamento"do
que necessitaser explicitado textualmente e do que pode perma-
necer implícito, por ser recuperável via inHerenciação a partir das
marcas ou pistas que o locutor coloca no texto ou do que é supos-
to por este como conhecimento partilhado com o interlocutor
(éf: Nystrand & Wiemelt, 1991; Marcuschi, 1994). Na verda-
de, é este o grande segredodo locutor competente.
ACONSTRUÇÃO DOSSENTIDOS
NOTEXTO:COESÀOECOERÊNCIA

Em muitos anosde reflexõessobreos fenómenostextuais


da coesão e da coerência, tenho-me perguntado com freqüência 45
sobreas fronteiras entre ambos. Sou de opinião que setrata de
Genâmenosdistintos, conforme defendi em diversos trabalhos
sobre a questão (Koch, 1984,1985, 1989a, 1989b, 1990, en-
tre outros), em concordânciacom a maioria dos autoresque
trabalham atualmente nesse campo (Beaugrande & Dressler,
Charolles,Heinemann & Viehweger, Van Dijk, para citar ape-
nas alguns).
É preciso considerar, contudo, que existem zonas mais
ou menos amplas de imbricação entre eles, nas quais se torna
extremamente difícil ou mesmo impossível estabeleceruma se-
paraçãonítida entre um e outro fenómeno.
Pretendo, portanto, aprofundar um pouco mais essa re-
flexão.

A COESÃO TEXTUAL

Podemosconceituar a coesãocomo o fenómeno que diz


respeito ao modo como os elementos linguísticos presentesna
superfície textual seencontram interligados entre si, por meio
de recursos também lingüísticos, formando seqüências veicu-
ladoras de sentidos.
.. Segundo Marcuschi(1 983), os estores de coesão são aque- (2) Márcia olhou em torno de si. Sfz/i pais e irai irmãos observa-
les que dão conta da seqüenciação
superficial do texto, isto é, os vam-na com carinho.
mecanismos formais de uma língua que permitem estabelecer, (3) Acorreram ao local muitos curiosos. .4/gw/zitrepavam nas ár-
entre os elementoslingüísticos do texto, relaçõesde sentido. vores para enxergar melhor.
Tenho considerado em meus trabalhos duas grandes mo- (4) O concurso selecionará os melhores candidatos. O pr/me/ra
dalidadesde coesão:a remissãoe a seqüenciação.
Gostaria de deverá desempenhar o pape] principal na nova peça.
proceder, aqui, a uma revisão dessaclassificação' (5) O juiz olhou parao auditório. -4/í estavamos parentese ami-
A coesão por remissão pode, no meu entender, desempe- gos do réu, aguardando ansiososo veredito final.
nhar quer a fiinção de (re)ativaçãode referentes,quer a de 'sina- (Q Um policial que seguravauma arma aproximou-se do desco-
lização" textual. nhecido. O estranho, ao ver o pa#clall lançou-sea sf#i pés.
46
47
A reativação de referentes no texto é realizada por meio da
re6erenciaçãoanaforica ou cataforica, formando-se, deste modo Muitas vezes,a (re)ativaçãode referentes,a partir de "pis-
cadeias coesivas mais ou menos longas. Aquelas que retomam tas" expressas no texto, se dá via ineerenciação. Pode-se inferir,

referentes principais ou temáticos (por exemplo, protagonista e por exemplo, o todo a partir de uma ou de algumaspartes;um
antagonista, na narrativa; ser que é objeto de uma descrição; tem, conjunto a partir de um ou mais subconjuntos, o gênero ou es-
de uma discussão,em textosopinativos)percorrem em geral o péciea partir de um indivíduo; enâm, conhecimentosque amem
texto inteiro. '
parte de um mesmo "fume" ou "script", a partir de um ou vários
EssetiPO de remissão pode ser e6etuado, como âoi mencio- de seus elementos explícitos naxsuperfície textual ou vice-versa.

nado no capítulo anterior, por meio de recursosde ordem "gra- Eis alguns exemplos:

matical" -- pronomes pessoaisde terceira pessoa (retos e oblíquos)


. os demais pronomes (possessi
e ---'
os, demonstrativos, indeânidos. (7) O aposento estava abandonado. .4i z,iZrafm quebradas deixa-
vam entrar o vento e a chuva.
interrogativos, relativos), os diversos tipos de numerais, advérbios
(8) A baleia azul é um animal em vias de extinção. E&a ainda são
pronominais (como agzz/,aZ ZÉ.z110e artigos definidos; ou por
Intermédio de recursos de natureza lexical, como sinónimos. encontradas em algumas regiões do globo.

hlperânimos, nomes genéricos, descriçõesdeânidas;"ou, a nda, (9) Chamaram-me a atenção os lábios vermelhos, os olhos pro-
fiindamente azuis, as sobrancelhas bem desenhadas,o nariz
por reiteração de um mesmo grupo nominal ou parte dele; e,
finalmente, por meio da elipse. Gins,a tez morena. Nunca iria esqueceraqueleraifal
Observem-se os exemplos:
A remissão para a frente -- catá6ora -- realiza-se preferencial-
(1) A jovem acordou sobressaltada.Z& não conseguia lembrar-se
do que havia acontecidoe como coraparar ali mente atravésde pronomes demonstrativos ou indefinidos neu-
tros (isto, isso, aquilo, tudo, nada) ou de nomes genéricos,mas
também por meio dm demais espéciesde pronomes, de numerais Sou de opinião que, nessescasos de "sinalização", seria mais
e de advérbios pronominais. Seriam exemplos de remissão cataforica: adequado Edar de "dêixis textual", como tem postulado, entre
outros, K. Ehlich. Isto é, não setrataria aqui de relaçõesde refe-
(10) O incêndio havia destruído f#2o: casas,móveis, plantações. rência ou corre6erência, mas antes de "mostração" dêitica no inte-
(11) Desejo somente ;f/a: que me dêem a oportunidade de me rior do próprio texto.
defender das acusações injustas. Segundo Ehlich (1981), asexpressõesdêiticas permitem ao
(12) O enfermo esperava m z coça apenas:o alívio de seussofri- EHanteobter uma organização da atenção comum dos interlocutores
mentos.
com referência ao conteúdo da mensagem. Para consegui-lo, o pro'
(13) ÉZ' era tão bom, o presidente assassinado! dutor do texto tem necessidade
de focalizara atençãodo parceiro

48
sobre objetos, entidades e dimensões de que seserve em sua ativi-
A "sinalizaçãotextual", por sua vez, tem a fiinção básicade 49
dade lingüística. Assim sendo,o procedimento dêitico constitui o
organizar o texto, fornecendo ao interlocutor "apoios" para o instrumento para dirigir a 6ocnlizaçãodo ouvinte em direçãoa um
processamento textual, atravésde "orientações" ou indicações para item específico, que Em parte de um domínio de acessibilidade
cima, para baixo (no texto escrito), para a frente e para trás,'ou comum -- o espaço dêitico. Na comunicação cotidiana simples,
ainda, estabelecendouma ordenação entre segmentostextuais esseespaço dêitico é o próprio espaço da atividade de eda, isto é, a
ou p'nes do texto. Vejamosalgunsexemplos: situação de interação. Os procedimentos dêiticos atualizam-se atra-
vésdo uso de expressõesdêiticas. Como as atividades de orientação
(14) As evidências aóaüo comprovam esta afirmação: a. ; b.-- dêitica são atividades sobretudo mentais, o uso de expressões
C
dêiticas em procedimentos dêiticos constitui uma atividade verbal
(15) Como eoi mencionado ac;ma, postulo a existência de duas com âns cognitivos e, quando bem sucedida, com consequências
grandes modalidades de coesão
de ordem cognitiva para o interlocutor.
(16) MaÜ azZÜza@ voltarei a essa questão. Embora, evidentemente,o domínio da fala sejao domí-
(17) Na seçãoanterior, tratei da origem do termo; .z irKmz6acor- nio dêitico por excelência, e as expressõesdêiticas estejam ge-
darei sua evolução semântica.
ralmente ligadas a fenómenos diretamente visíveis para os
l interlocutores, isto é, que se encontrem no seu campo
Entre os casosde "apontamento"para trás, poder-se-iam perceptual/sensorial, Ehlich assinala que, se levarmos em con-
incluir aqueles tipos de remissãocom fiação "distributiva", como em: sideração o "tempo" como uma dessasdimensões, mesmo no
domínio da fala, essadimensão seestenderáalém doslimites da
(18)
Paulo, José e Pedra deverão formar duplas com Lúcia, Mariana percepção sensorial direta, ou seja, o quadro de referência com-
e Renata, reiper/;z'úmfmre
partilhado será em si mesmo uma estrutura mental comum a
ambos: quando, por exemplo, o falante usa uma expressãocomo
"agora", Éazuso de um sistemade conhecimentos que pressu- menores, do texto antecedente ou subseqüente. Incluem-se, tam-
põe partilhado com seu interlocutor.
bém, na noção de anáfora, além dos elementos que Errem remissão
Partindo dessa constatação, o autor depende a posição de a outros expressosno texto, os que remetem a elementosdo uni-
que a dêixis relativa ao domínio da Eda é apenas um caso v'l'vbx
especí- verso cognitivo dos interlocutores, desdeque ativadospor alguma
fico do procedimento dêitico. Dessemodo, o procedimento
expressão do texto. De minha pote, considero interessante proce-
dêitico deveser estudadode maneiraglobal, de forma a tornar der à distinção sugerida por Ehlich, entre anáfora e dêixis textual,
evidente que há um porteenvolvimento de sistemasmentais, sis-
": por razões como as seguintes, entre outras:
temas de conhecimento e de análise da realidade comuns, para-
Ihados pelos interlocutores, possibilitando, descarte,a economia l A anáfora estabelece uma relação de correfêrencia ou, no
comunicativa através do uso das expressõesdêiticas. mínimo, de referência, entre elementos presentes no texto
50
Concentrando seu estudo no que chama de "dêixis textual«, ou recuperáveis através de in6erenciação; ao passo que a 51

procura contrapâ-la à noção de anáeora,ao contrário do que se dêixis textual aponta, de forma indicial, para segmentos
na maior parte da literatura, na qual geralmente'a se- maiores ou menores do co-texto, com o objetivo de focali-
gunda engloba os fatos característicos da primeira ou seja, a dêixis zar nelesa atenção do interlocutor.
textual não tem sido considerada uma dêixis propriamente dita 2 Nos casos de aná6ora tem-se, com freqüência, instruções
mas sim descrita apenascomo um uso anaforico ou cataf6rico de congruência (concordância), o que raramente acontece
específico, em virtude da concepção sensório-perceptual da dêixis na dêixis textual, e6etuadaem geral por meio de formas
dominante entre os estudiosos da questão.
neutras e de advérbios ou expressõesadverbiais, portanto
Isto é: a remissãono interior do texto tem sido vista geral- invariáveis.
mente como um âenâmeno de referência endoforica(cf Hiiiday 3 Através da remissão anaGórica, estabelecem-se no texto ca-
& Hasan, 1976). Distingue-se, por vezes, entre aná6ora e catáâora. deias coesivas ou referenciais, o que não ocorre nos casos
outras vezes, incluem-se todos os tipos de remissão sob a designa- de dêixis textual.
ção genérica de aná6ora, em contraposição à dêixis, que constituiria
apenas a remissão a elementos exteriores ao texto(exóeora, para Quanto à catá6ora,parece-meque fica a meio caminho
Halliday). Há outrosautoresque, por seuturno, englobama anáEora entre os dois Genâmenos:sehá casosde remissão referencial, como
J. fdomínio geral da dêixis, ou sqa, pensam a aná6oracomo parte
no (13), exemplos como(lO),(11),(12), bem como(19) e(20) a
do âenâmenoglobal de remissão,de modo que tal conceito acaba seguir podem ser considerados como casosde dêixis textual:
por abrangerfatos bastantedísparesem termos de seufiinciona-
mento. São vistos como anaÉ6ricosnão só os elementos do texto (19) Observem bem irra: não lhes pareceum tanto estranho?
que remetem a sintagmasou a um ou alguns constituintes de um (20) Não estava habituado a coisa ramo eilm. ser servido, receber
sintagma, como os que remetem a porções inteiras, maiores ou atenções e homenagens.
A coesão seqüenciadora, por seu turno, é aquela através da
Se, porém, é verdade que a coerência não está no texto, é
qual se Éazo texto avançar,garantindo-se, porém, a continuidade
dos sentidos. verdade também que ela deve ser construída a partir dele, levan-
do-se, pois, em conta os recursos coesivos presentes na superfície
O seqüenciamento de elementos textuais pode ocorrer de for-
textual, que flincionam como pistas ou chavespara orientar o
ma direta, sem retornou ou recorrência; ou podem ocorrer na pro- interlocutor na construção do sentido. Para que se estabeleçam as
gressãodo texto recorrências das mais diversas ordens: de termos ou
relaçõesadequadasentre tais elementos e o conhecimento de
expressões,de estruturas(paralelismo), de conteúdos semânticos(pa- mundo (enciclopédico), o conhecimento socioculturalmente par-
sse)lde elementos fonológicos ou prosódicos(similicadência, rima, tilhado entre os interlocutores, e as práticas sociais postasem
aliteração, assonância) e de tempos verbais. Em Koch(1989a), dis- ação no curso da interação, torna-se necessário, na grande maio-
cuto em maior profimdidade essasquestões.
52 ria dos casos, proceder a um cálculo, recorrendo-se a estratégias
Entre os recursos responsáveis pelo seqüenciamento textu- 53
interpretativas, como as inferências e outras estratégiasde nego-
al, estão a seleção dos campos lexicais a serem ativados no texto ,;.,=A in ...t.;J.x
bla.\.a v \Xv D\..K ILXUVa
(contigüidade, conforme Halliday & Hasan) e o inter-relaciona- A coerência se estabeleceem diversos níveis: sintático, se-
mento que se estabeleceentre dois ou mais campos com vista à mântico, temático, estilístico, ilocucional, concorrendo todos eles
obtenção de determinados efeitos de sentido, os (diversostipos de para a construção da coerência global. Assim, há autores que dis-
articulação tema-rema e o encadeamento ou conexão(commecíednaxJ.
tinguem entre a coerência local (isto é, aquelaque ocorre em'um
commex/iO,também estudados em Koch (1989a).
dessesníveis, sobretudo no sintático) e a coerência g]oba] do tex-
Alguns dessesâenâmenos serão retomados mais adiante em
nossa discussão. to (cf. Charolles, 1978; Van Dijk, 1981 e 1990, entre outros).

ZONAS DE INTERSECÇÃO
A COERÊNCIA
Defendo a posição de que, sempre que se Em necessário
A coerência diz respeito ao modo como os elementos
algum tipo de cálculo a partir dos elementos expressosno texto
subjacentes à superfície textual vêm a constituir, na mente dos como acontece na absoluta maioria dos casos-- já seestá no cam-
interlocutores, uma configuração veiculadora de sentidos.
po da coerência. Ora, como já indiciei acima e procurarei detalhar
A coerência, portanto, longe de constituir mera qualidade a seguir, é bastante comum, para se interpretarem adequadamente
ou propriedadedo texto, é resultadode uma construçãodeita as relações coesivas que o texto sugere, que sejamos obrigados a
pelos interlocutores, numa situação de interação dada, pela atua- eGetuardeterminados cálculos quanto ao sentido possível dessas
ção conjunta de uma série de favoresde ordem cognitiva, relações.É nessesmomentos, portanto, que se obliteram os limi-
situaciona], Sociocultural e interacional (cf Koch & Travaglia, tes nítidos entre coesão e coerência.
Passoa examinar alguns dessescasos:
1. Anáfora semântica, mediata ou profiinda -- conforme de uma expressãodefinida implica sempre uma escolhadentre as
mencionei anteriormente, é preciso, em tal situação, "extrair" o propriedades ou qualidades que caracterizam o referente, escolha
referente da forma feEerencial de modelos ("arames", "scripts estaque serádeitade acordo com aquelaspropriedadesou quali-
cenários") armazenados na memória, ou seja, de conhecimentos dadesque, em dada situação de interação, em fiinção dos propó-
que constituem nosso " horizonte de consciência". Como afirma sitos a serematingidos,o produtor do texto tem interesseem
Webber (1980), a relação entre situação discursiva ou externa. ressaltar, ou mesmo tornar conhecidas de seu(s) interlocutor(es) .
de um lado, e os referentes da anáfora, de outro, é indireta, me- Veja-se, por exemplo, a diferença entre (21) e (22):
diada pelos modelos dos participantes, de modo que escolher
entre os possíveis antecedentes de uma forma anahrica pode, (21) Reaganperdeu a batalha no Congresso. Opreside [? amrrjra-

pois, demandar habilidades sintáticas, cognitivas, pragmáticas, na não tem tido grande sucessoultimamente em suasnegocia-
54 55
inâerenciais e avaliativas muito soGtsticada da parte do interlocuto.. ções com o Parlamento.
Assim, em exemploscomo (7), (8) e (9), como em um (22) Reaganperdeu a batalha no Congresso. O fazaóaydo#araeire
grande número de outros casos,há necessidadede introduzir amfrifazzo não tem tido grande sucesso em suas negociações
contextualmente determinadas entidades, atravésdo conhecimen- com o Parlamento.
to de mundo partilhado entre os interlocutores.
Como se vê, a escolha das descrições definidas pode trazer ao
2. A forma como é feita a remissão, isto é, a construção das interlocutor informações importantes sobre as opiniões, crençase
cadeias coesivas a escolha dos elementos lingüísticos usados para atitudes do produtor do texto, auxiliando-o na construção do senti-
Emer a remissão, o tom e o estilo podem constituir índices valiosos do. Por outro lado, o locutor pode também, através da descrição
das atitudes, crençase convicçõesdo produtor do texto, bem como definida, dar a conhecerao interlocutor dados que acreditadesco-
do modo como ele gostariaque o referentefossevisto pelos pa'ced- nhecidos deste, relativamente ao referente textual, com os mais vui-

ros. Remissõespor meio de formas diminutivas, por exemplo, po- ados propósitos. Veja-se, por exemplo(20), em que, na verdade, o
dem revelar o carinho ou a empatia do produtor pelo referente; ou, que o locutor Êmé anunciar ao(s) parceiro(s) que Pedro é agora na-
dependendo do tom e, na Eda, de certas marcas prosódicas, expres- morado da irmã, ou, então, que ela mudou de namorado:
sões6lsionâmicas,gestosetc., uma atitude pejorativa permitindo,
assim, aos interlocutores depreender a orientação argumentativa (20) Pedro não 6oi classificado no concurso. O nado /zdmoxuzüde
que o produtor pretende imprimir ao seu discurso. m/mó.z ;rm.Z não anda realmente com muita sorte.

3. Referência por meio de expressõesdefinidas uma das 4. A seleção dos campos lexicais e a seleção lexical de modo
formas de emer a remissão são justamente as expressões nominais geral pelo que 6oi dito anteriormente, já se pode deduzir a
definidas, ou seja,as descriçõesdefinidas do referente. Or,, o uso importância da seleçãolexical na construção do sentido. O uso
de Mrmulas de endereçamento,de dada variante da língua, de ção entre segmentos textuais), cabe ao interlocutor, com base em
gírias ou jargões profissionais, de determinado tipo de adjetivação, seusconhecimentoslingilísticos e enciclopédicos,suprir essaEf-
de termos diminutivos ou pejorativos fornece aos parceiros pistas ta, "repondo" mentalmente a marca fdtante, como se pode ver
valiosaspara a interpretação do texto e a captação dos propósitos em (23) e (24):
com que é produzido.

Também a ativação de determinados campos lexicais -- que (23) Não desejavaser vista por ninguém. Estava suja, cabelos em
são a contraparte lingüística dos modelos cognitivos -- tem sua desalinho, o rosto banhado de lágrimas. Poderiam imaginar
influência no cálculo do sentido. Além disso, o inter-relacionamento coisas a seu respeito. Não queria pâr a perder a boa imagem
de dois ou mais campos lexicais permite a produção de novos sen- que tinham dela.
tidos, nem sempre claramente explicitados, e que, portanto, cabe (24) Olhar fixo no horizonte.Apenaso mar imenso.Nenhum si-
56
ao interlocutor reconstruir (veja-se,também, Koch, 1984). nal de vida humana. Tentativa desesperadade recordar algu- 57

ma coisa. Nada.
5. Ambigüidade referencial -- sempre que ocorre no texto
a ambiguidade referencial, isto é, quando surgem vários candida- É interessantenotar que o interlocutor, em geral, não tem
tos possíveis a referentes de uma forma remissiva, torna-se neces- dificuldade em reconstruir a conexão Estante pelo recurso a pro-
sário proceder a um cálculo para a identificação do referente cessoscognitivos como, por exemplo, a ativação de.»amos,a par'
adequado.
tir dos elementos que se encontram expressos na superHcie textual.
Thl cálculo terá de levar em conta não só as possíveisins- Outros casosexistem, os quais exigem dos interlocutores o
truções de congruência dadas pela forma remissiva, como tam- recurso a processos e estratégias de ordem cognitiva para procede-
bém todo o contexto, ou seja,as predicaçõesGaitastanto sobrea rem ao "cálculo" do sentido. Os que Geramaqui apresentadosser-
forma remissiva, como sobre os eventuais referentes, para só en- vem apenascomo exemplificação.
tão proceder-seao "casamento"entre a forma reÊerencia]ambí- Por tudo o que Goidiscutido, deve ter ficado patente que,
gua e o referente considerado adequado. Para tanto, torna-se preciso embora coesão e coerência constituam fenómenos diferentes,
recorrer ao nosso conhecimento de mundo e do contexto opera-se, muitas vezes, uma imbricação entre eles por ocasião do
Sociocultural em que nos encontramos inseridos, além de outros processamento textual.
critérios como saliência temática e recência(fere/zq0, por exemplo. Não há dúvida de que a presençade recursoscoesivosem
um texto não é condição nem suficiente, nem necessáriada coe-
6. Encadeamentos por justaposição -- quando se encadei- rência.A coesão,inclusive, em alguns tipos de texto, é não só dis-
am enunciados por mera justaposição, sem a explicitação da rela- pensável, como seria até mesmo de estranhar -- veja-se o caso de
ção que se desejaestabelecerentre eles por meio de sinais de certos textos poéticos modernos, quer em prosa, quer em verso.
articulação (conectores, termos de relação, partículas de transi- Ressalte-se,
porém, que, em muitos outros (textos didáticos,
jornalísticos, jurídicos, científicos, por exemplo), sua presençase ACONSTRUÇÃO DOSSENTIDOS
torna altamente desejável, visto que, nestes casos, ela permite au-
NO TEXTO: INTERTEXTUALIDADE
mentar a legibilidade e garantir uma interpretação mais uniforme.
Portanto, nos textos em que a coesãoestápresente-- já que EPOLIFONIA
ela não é condição nem necessária,nem suficiente da coerência--.
pode-se afirmar que ambas passam a constituir as duas faces de
uma mesma moeda, ou então, para usar de uma outra metáfora,
o verso e o reversodessecomplexo 6enâmenoque é o texto. Pretendo, nestecapítulo, proceder a uma reflexão sobreos
conceitos tão freqüentes na literatura lingüística contemporânea
de intertextualidade e polifonia, com o intuito, inclusive, de ve-
59
rificar, através da determinação das características e do âmbito de
abrangênciaque lhes têm sido atribuídos, se designam um só
6enâmeno;ou, não sendoesseo caso,como seriapossíveldistin-
guir entre um e outro. Tratarei, em primeiro lugar, da intertex-
tualidade.

INTERTEXTUALIDADE

Começo citando Barthes (1974): "0 texto redistribui a

língua. Uma das vias dessareconstrução é a de permutar textos,


fragmentos de textos, que existiram ou existem ao redor do texto
considerado, e, por fim, dentro dele mesmo; todo texto é um
intertexto; outros textos estão presentes nele, em níveis variáveis,
sob formas mais ou menos reconhecíveis'
Isso signiâca que todo texto é um objeto heterogêneo,que
revelauma relaçãoradical de seuinterior com seuexterior;e,
desseexterior, evidentemente, Errem parte outros textos que Ihe
dão origem, que o predeterminam, com os quais dialoga, que
retoma, a que alude, ou a que se opõe. Foi essaa razãoque levou
Beaugrand & Dressler (1981) a apontarem, como um dos pa-
drõesou critérios de textualidade,a intertextualidade,que, se-
gundo eles, diz respeito aosmodos como a produção e recepção da intertextualidade é também válido entre universos discursivos
de um texto dependem do conhecimento que se tenha de outros diferentes(por exemplo, cinema e televisão); em terceiro lugar, no
textos com os quais ele, de alguma forma, se relaciona. Essasfor- processo de produção de um discurso, há uma relação intertextual
mas de relacionamento entre textos são, como se verá, bastante com outros discursosrelativamente autónomos que, embora fiincio-
variadas.
nando como momentos ou etapa da produção, não apuecem na
Partirei da distinção que Gizem Koch (1986) entre inter- superfície do discurso "produzido" ou "terminado". O estudo de tais
textualidade em sentido amplo e intertextualidade em sentido textos mediadores pode oferecer esclarecimentos fiindamentais não
restrito.
só sobre o processo de produção em si, como também sobre o pro'
cesso de leitura, no nível da recepção. Trata-se, segundo Verón, de
uma intertextualidade "profunda", por se tratar de textos que, parti-
60 Intertextualidade em sentido amplo 61
cipando do processode produção de outros textos, não atingem
A intertextualidadeem sentido amplo, condição de exis- nunca(ou muito raramente) a consumação social dos discursos.
tência do próprio discurso, pode ser aproximada do que, sob a Segundo Verón (1980: 82), a análise semiológica só pode
perspectiva da Análise do Discurso, se denomina inter- avançar por diferença, isto é, por comparação entre objetos tex-
discursividade (ou heterogeneidade constitutiva, segundo Authier, tuais: "Um texto não tem propriedades 'em si': caracteriza-seso-
1982). É nessesentido que Maingueneau (1976: 39) aârma ser mente por aquilo que o diferencia de outro texto (...). Por isso,
o mtertexto um componente decisivodas condiçõesde produ também a noção de intertextualidade não se refere apenasà veri-
ção: "um discursonão vem ao mundo numa inocente solitude. ficação de um dos aspectos do processo de produção dos discur-
masconstrói-seatravésde um já-dito em relaçãoao qual tom, sos, mas também à expressão de uma regra de base do método
posição". Também Pêcheux (1969) escreve: "Deste modo, dado (...); trabalha-se sempre sobre vários textos, conscientemente ou
discurso envia a outro, frente ao qual é uma respostadireta ou não, uma vez que as operações na matéria significante são, por
indireta, ou do qual ele'orquestra'os termos principais, ou cujos definição, intertextuais'
argumentos destrói. Assim é que o processo discursivo não tem. É também por meio da comparação dos textos produzidos
de direito, um início: o discursoseestabelece
sempresobreum em determinada cultura que se podem detectar as propriedades
discurso prévio...
formais ou estruturais, comuns a determinados gênerosou tipos
Verón (1 980), por sua vez, examina a questão da produção (intertextualidade de caráter tipológico), que são armazenadas
do sentido sob um ângulo sócio-semiológico. Para ele, a pesquisa na memória dos usuários sob a forma de esquemastextuais ou
semiológica deve considerar três dimensões do princípio da superestruturas (cf., por exemplo, Van Dijk & Kintsch, 1983;
intertextualidade: em primeiro lugar, as operaçõesprodutoras de Van Dijk, 1983). Tais esquemas,que são socialmente adquiri-
sentidosãosempreintertextuaisno interior de um certo universo dos, desempenham papel de grande relevância no processamento
discursivo(por exemplo, o cinema);em segundolugar, o princípio (produção/intelecção) textual.
Essassão algumas das razõesque me levam a concordar quando o autor de um texto imita ou parodia, tendo em vista
com Kristeva (1974:60), quando aârma: "Qualquer texto se cons- efeitos específicos, estilos, registros ou variedades de língua, como
trói como um mosaico de citações e é a absorção e transformação é o casode textos que reproduzema linguagembíblica, a de
de um outro texto' determinado escritor ou de um dado segmento da sociedade.

2. Explícita X implícita.
Intertextualidadeem sentido restrito
A intertextualidade é explícita, quando há citação da conte
Considero intertextualidade em sentido restrito a relação do intertexto, como aconteceno discursorelatado,nascitaçõese
de um texto com outros textospreviamenteexistentes,isto é, referências; nos resumos, resenhas e traduções; nas retomadas do
e6etivamenteproduzidos. Respaldo-me em Jenny ( 1979:14): texto do parceiro para encadear sobre ele ou questiona-lo, na con-
62 63
'Propomo-nos a Edar de intertextualidade desde que se versação.A intertextualidade implícita ocorre sem citação expressa
possaencontrar num texto elementosanteriormente estruturados, da fonte, cabendo ao interlocutor recupera-lana memória para
para além do lexema, naturalmente, mas seja qual for seu nível construir o sentido do texto, como nas alusões,na paródia, em
de estruturação'
certos tipos de paráfrase e de ironia.
Entre os tipos de intertextualidadeem sentido restrito,
podem-se considerar os seguintes:
3. Das semelhançasX das diferenças (cf. Aüonso Romano de
Sant'Anna).
1. De conteúdo X de forma/conteúdo (descargoa possibili-
Na intertextualidade das semelhanças,o texto incor-
dade de uma intertextualidade apenasde forma, pois toda
forma enforma/emoldura um conteúdo) . pora o intertexto para seguir-lhe a orientação argumentativa
e, freqüentemente, para apoiar-se nele a argumentação(por
Ocorre intertextualidade de conteúdo, por exemplo, entre
textos científicos de uma mesma área ou corrente do conheci- exemplo, na argumentação por autoridade). Maingueneau
(1987) fala aqui de valor de captação.Em setratando de
mento, que se servem de conceitos e expressõescomuns, já defi- intertextualidade das diferenças, o texto incorpora o in-
nidos em outros textos daquela área ou corrente; entre matérias
tertexto para ridiculariza-lo, mostrar sua improcedência ou,
de jornais (e da médiaem geral),no mesmodia ou no período de
pelo menos, coloca-lo em questão (paródia, ironia, estraté-
tempo em que dado assuntoé focal; entre diversasmatériasde
gia argumentativa da concessãoou concordância parcial).
um mesmo jornal sobre tal assunto; entre textos literários de uma
É o que Maingueneau denomina valor de subversão.
mesma escola ou de um mesmo gênero (por exemplo, as epopéi-
as). Tem-se intertextualidade de forma/conteúdo, por exemplo,
4. Com intertexto alheio, com intertexto próprio ou com ou posiçõesque se representam nos enunciados. Paraele, o sen-
intertexto atribuído a um enunciador genérico. tido de um enunciado consiste em uma representação(no sen-
tido teatral) de sua enunciação. Nessa cena, movem-seas
Alguns autoresreservama denominaçãode intertextuali-
personagens figuras do discurso -- que se representam em di-
dade apenaspara o primeiro caso, utilizando para o segundo o
versos níveis:
rótulo de intra ou autotextualidade.Por seuturno, atribuem-sea
um enunciador genérico(a que Berrendonner, 1981, chamaON), a.
locutor "responsável" pelo enunciado. (Ducrot distin.
enunciaçõesque têm por origem um enunciador indeterminado,
gue ainda entre ]ocutor enquanto ta] L e locutor en.
asquais fazem parte do repertório de uma comunidade, como é o
quanto pessoal.
caso dos provérbios e ditos populares. Ao usar-se um provérbio,
b enunciadores encenações de pontos de vista, de perspec
produz-se uma "enunciação-eco" de um número ilimitado de
64 uvasdiferentesno interior do enunciado. 65
enunciaçõesanteriores do mesmo provérbio, cuja verdade é ga-
rantida pelo enunciador genérico, representante da opinião ge-
Em Ducrot (1984) consideram-sedois tipos de polifonia
ral, da "vox populi", do sabercomum da coletividade.
Todas essasmanifestações da intertextualidade permitem
a.
quando,no mesmoenunciado, setem maisde um locutor
aponta-la como Eatordos mais relevantesna construção da coe-
correspondendoneste casoao que denominei intertex-
rência textual (Koch & Travaglia, 1989).
tualidade explícita (discurso relatado, citações, referênci-
as, argumentação por autoridade etc.);
POLIFONIA b quando, no mesmo enunciado, há mais de um enunciador,

O conceito de polifonia, como se sabe, 6oi introduzido recobrindo, em parte, a intertextualidade implícita, sen-
nas ciências da linguagem por Bahktin (1929), para caracteri- do, porém, mais ampla: bastaque se representem,no mes-
zar o romance de Dostoiévski. Para Bahktin, o dialogismo é mo enunciado, perspectivasdiferentes, sem a necessidade
constitutivo da linguagem:"A palavraé o produto da relação de utilizar textos eGetivamenteexistentes. Por isso é que
recíproca entre falante e ouvinte, emissor e receptor. Cada pala- Ducrot se refere à encenação (teatral) de enunciadores
vra expressa
o 'um' em relaçãocom o outro. Eu me dou forma reais ou virtuais a quem é atribuída a responsabilidade
verbal a partir do ponto de vista da comunidade a que perten- da posição expressa no enunciado ou segmento dele. Essa
ço. O Eu se constrói constituindo o Eu do Outro e por ele é noção de polifonia permite explicar uma gama muito am-
constituído' pla de eenâmenos discursivos, que podem ser classificados
Ducrot (1980,1984) trouxe o termo para o interior da segundo a atitude de adesãoou não do locutor à perspec-
pragmáticalinguística para designar,dentro de uma visão tiva poli6onicamente
introduzida.
enunciativa do sentido, as diversasperspectivas,pontos de vista
A. Entre os casos de adesão (L = EI), podem-se mencio- &
(3) Tudo o que o jornalista escreveu é a pura verdade, logo ele não

nar os seguintes: merece ser punido. (Quem diz a verdade não merece castigo).

l Pressuposição encenam-se, no caso, dois enunciadores, b. certos enunciados introduzidos por n'ãoió... mm iamóán,
um primeiro (EI), responsável pelo pressuposto (geral- em que a parte introduzida por áo só não é apenasde
mente o enunciador genérico ON, ou então o grupo a que responsabilidade do locutor:
o locutor e interlocutor pertencem)e o outro (E2), res-
ponsávelpelo conteúdo posto, com quem o locutor se iden- (4) Vejam nossasofertas. Temos produtos não só baratos,mas
tifica. Por exemplo: X também duráveis. (El: Uma boa oferta é aquela em que se
oferecem produtos baratos).
(1) Mariana continua apaixonada por RaEael. 67
66
C certos enunciadosem que ocorre o uso "metaforico" do
2 Certos tipos de par#raseamento, nos quais é possível de- futuro do pretérito (cf Weinrich, 1964), em que seintro-
tectar a presençado intertexto. É o caso, por exemplo, de duz a voz a partir da qual se argumenta, mas cuja respon-
vários textos (Hino Nacional Brasileiro, Canção do Expe- sabilidade não se assume,uso atestado com freqüência na
dicionário etc.) que, de alguma forma, parafraseiam tre-
linguagem jornalística:
chos da Canção do Exílio, de Gonçalves Dim.
3 Argumentação por autoridade: quando se encenaa voz de
(5) Novas reformas estariam sendo cogitadas pelo governo. Já é
um enunciador a partir da qual o locutor, identificando-se
tempo mesmo de pâr as mãos na massa.
com ele, argumenta:

a. enunciados conclusivos -- nos quais se argumenta a partir d. enunciados introduzidos pelas expressõesp zreregwe, ie-
gz/m2oX etc., aos quais se encadeia um posicionamento
de uma premissa (maior) poli6onicamente introduzida no
pessoal:
discurso. Trata-se, em grande número de casos, da voz da
sabedoria popular (como quando se argumenta a partir de
(6) Pareceque vamos ter uma mudança na política económica
provérbios e ditos populares),da perspectivada comuni-
dade ou do grupo a que se pertence, do interlocutor ou Há muito tempo ela estava se fazendo necessária.

dos valores estabelecidos em dada cultura. Vejam-se os


exemplos: B. Passemosagora aos casosem que o locutor não adere à
perspectiva poliEonicamente introduzida.
(2) Ele é dessaspessoasdesmesuradamenteambiciosas,portanto
vai acabar ficando sem nada. (Quem tudo quer, tudo perde).
l Negação Ducrot (1984) distingue a negação meta- dado, expressão
ou termo; e um segundo(E2=L), que
lingüística da negaçãopolêmica (ambas polifónicas). A menciona, aspeando, o que diz o primeiro, para manter
primeira visa a atingir o próprio locutor do enunciado distância, isto é, eximir-se ou diminuir a responsabilida-
oposto, do qual se contradizem os pressupostos,como de sobre o que está sendo dito. Por exemplo:
em (7):
(IO) ..."0 regime militar teve a longevidade que teve por causa
(7) Li: Pedro deixou de beber (Ei = Pedro bebia) dessa resignação com 'o possível' uma postura eternizada
Lz: Pedro não deixou de beber, ele nunca bebeu (L= E2) por Ulysses Guimarães". (Fernando Rodrigues, 'IA CPMF eo
'possível"', Folha de São Paulo, 16/07/1996, 1 2)
Na segunda, encenam-sedois enunciadores: Et, que pro- (11) ..."Antigamente nem o policial podia expor sua arma; era
obrigado a carrega-lano coldre, presa.Hoje os 'homens da 69
68 duz o enunciado afirmativo e E2 = L, que o contradiz, como
em (8): lei' exibem como troRus suas escopetas,metralhadorase fu-
zis." (Luiz Caversan, "Não às armas", Folha de São Paulo, id.

(8) Pedro não é trabalhador; ele é até bem preguiçoso. (L= Ez) Ibid.)
(Ei = Pedro é trabalhador)

2. Enunciados introduzidos por .aa co /z#r;a, peãora /zürjo, Authier distingue diversas funções das aspas nessaoperação

que não se opõem ao segmentoanteriormente expresso' de distanciamento: mpm zú' z;/l@z'xrncüfáa(paramostrar que nos dis-
que tem a mesma orientação argumentativa, mas à pers' tinguimos daquele(s) que usa(m) a palavra, que somos "irredutíveis'

pectiva do enunciador EI, poliGonicamente introduzida, às palavras mencionadas; zú'ca zzüsremz#fü(para assinalar uma pa-
como se pode verificar no exemplo: lavra que se incorpora "paternalisticamente", por saber que o
interlocutor Edaria assim); .peziCglgíÜlcm(no
discurso de vulgarização
(9) Luísa não é uma amiga leal; pelo contrário, tem'se demons- científica, que assinalam, freqüentemente, o uso de termos ou ex-
trado pouco conRiável. pressõesvulgares como um passo intermediário para permitir o
(El= Luísa é uma amiga leal) emprego posterior da palavra "verdadeira", "carreta", à qual o locu-
tor adere); .ú'.prozr@o(para mostrar que as palavrasou expressões
3 lapas de distanciamento" -- nessescasosde "aspeamento" usadas não são plenamente apropriada, que estão sendo emprega-
(de co/zoínfãoaz/ro/zi'm/c.z,
conforme Authier, 198 1), tem- da no lugar de outras,constituindo, muitas vezes,metáforasba-
se, simultaneamente, o que se costuma denominar de z/se nalsb\& ê7ifmeÇde\nús\êndxaÜ\& questionamento ofensivo ou irónico
e me/zçãodo termo ou expressão aspeada. Encena-se um (quanto à propriedade da palavra ou expressãoempregada pelo
primeiro enunciador (Ei), responsávelpelo usodo enun- interlocutor por prudência ou por imposição da situação).
t

4 'Z)/fo r emenf" -- termo usado por Grésillon & grupo ou de um "topos" (cf Ducrot, 1987), ao qual se opõe
Maingueneau (1984), para designar a alteração (na forma o segundoenunciador, com o qual o locutor se identifica E2
e /ou no conteúdo de provérbios, slogans ou frases deitas, a = L). Tem-se aqui, segundo Ducrot, o mecanismo da con-
título lúdico ou militante, com o objetivo de captaçãoou, cessão:
acolhe-seno próprio discursoo ponto de vista do
mais frequentemente, de subversão.Trata-se de uma estra- Outro (EI), dá-se-lhe uma certa legitimidade, admitindo-
tégia muito comum na publicidadee bastantefreqüente o como argumento possível para determinada conclusão,
em outras formas de linguagem, como, por exemplo, o para depois apresentar,como argumento decisivo, a pers-
humor e a músicapopular (cf., por exemplo, a música pectiva contrária. É este o caso de todos os enunciados in-
Bom Conselho",de Chico Buarquede Hollanda). Tam- troduzidos por conectoresde tipo adversativoe concessivo.
bém aqui, a voz do enunciador genéricoON é introduzida,
representandoa sabedoriapopular, à qual o locutor adere Como afirma Ducrot, o m'zs constitui o operador 71
70
ou se opõe. Vejam-se os exemplos: argumentativo por excelência,já que os enunciados que contêm
mm e seussimilares, bem como os que contêm operadoresdo
(12) "Dê um anel xxxx de presente. Lembre-se: Mãos só tem duas' paradigma do embora, permitem introduzir, num de seus mem-
(publicidade de uma joalheria por ocasião do Dia das Mães, bros, a perspectivaque não é ou não é apenas-- a do locutor,
publicada na Revista Veja) para, em seguida, contrapor-lhe a perspectiva deste, para a qual o
enunciado tende. Seguem alguns exemplos:
Observem-se, também, os "détournements" do provérbio
"(quem vê cara, não vê coração", extraídos de textos publicitários (16) O candidato não é brilhante, mas honesto.

e citados em Frasson (1991): (17) Francisco é inteligente, mas não serve para o cargo.
(18) Devemos ser tolerantes, mas há pessoasque eu não suporto!
(13) "Quem vê cara, não vê Aids:
(14) "Quem vê cara não vê fdsi6lcação" (
Note-se,em (18), que o primeiro membrodo enunciado
(15) "0 Instituto de Cardiologia não vê cara, só vê coração' funciona como um atenuador("disclaimer"),por meio do qual o
locutor tenta preservar a própria face, procurando mostrar-se con-
Funcionamento semelhante ao "détournement" é o da pa- forme o modo de pensa' e/ou agir que constitui o ideal da comuni-
ródia, em que se altera (adultera)um texto já existentecom o dade a que pertence ao menos em se tratando do discurso público;
objetivo ou apenasde produzir humor ou de desmoralizá-loou somente no segundo membro do enunciado é que ele vai manifes-
fazer-lhe oposição. tar sua verdadeira opinião. Essetipo de enunciação é extremamente
comum no discurso preconceituoso em geral: lembrem-se, a título
5 Contrajunção consiste na introdução da perspectiva de \
de exemplo, os enunciados do tipo: "eu não sou racista, mas... (cfl
um outro enunciadorEI, genéricoou representante
de um Van Dijk, 1992, entre várias outras obras do mesmo autor).
6 Certos enunciados comparativos -- os enunciados compa- Em (19), a perspectivade que o mais importante é apre-
rativos, como -demonstra Voga (1 977,1980), têm caráter ce?fáo do i ceifa opõe-se àquela -- polifonicamente introduzida
argumentativo e, segundo a estrutura argumentativa, ana- de que o importante é o fz/restaco c e/a do pZa/zo,sendo-lhe
lisam-se sempre em lema e come z# /o, que são comutáveis argumentativamente superior.
do ponto de vista sintático, mas não do ponto de vista
argumentativo. No casodo comparativo de igualdade, se O discursoindireto livre constitui também um casointe-
o primeiromembroda comparação
for o tema,a argu- ressante de polifonia. Nele, mesclam-se as vozes de dois
mentação ser-lhe-á favorável; seo tema 6oro segundo mem- enunciadores (na narrativa, personagem (EI) e narrador (E2».
bro da comparação,o movimento argumentativo serádes- Daí deriva a ambigüidade dessetipo de discurso, isto é, a dificul-
favorável ao primeiro. Em "Pedro é tão alto como Jogo", dade de distinguir o ponto de vista (perspectiva) de onde se Eda.
72 73
por exemplo, se Pedro Goro tema, o enunciado serve para
assinalara sua "grandeza", constituindo-se em argumento Pode-seconcluir, portanto, que não há coincidênciatotal
a ele favorável; por outro lado, se o tema for Jogo, o enun- entre os conceitos de intertextualidade e polifonia.
ciado se dispõe de modo a assinalarsua "pequenez", ou Na intertextualidade, a alteridade é necessariamenteates-
seja, o movimento argumentativo será desfavorável a João tada pela presença de um intertexto: ou a fonte é explicitamente
(cf. também Koch, 1987). No último caso, a paráfrase mencionada
no textoqueo incorporaou o seuprodutorestá
adequada seria: "Pedro e não Jogo deve ser considerado presente,em situaçõesde comunicaçãooral; ou, ainda, trata-se
suficientemente alto para EmerX". Ora, o ponto de vista de textos anteriormente produzidos, provérbios, frases deitas, ex-
segundo o qual Jogo seria a pessoaadequada para emer X é pressõesestereotipadas ou Gormulaicas, de autoria anónima, mas
introduzido poli6onicamenteno enunciado e o locutor ar- que Errem parte de um repertório partilhado por uma comuni-
gumenta em sentido contrário a este. Observe-seo exem- dade de fda. Em se tratando de polifonia, basta que a alteridade
plo (19), extraído da "Folha de São Paulo' seja encenada, isto é, incorporam-se ao tcxto vozes de enunciadores
reaisou virtuais, que representamperspectivas,pontos de vista
(19) 'Tão importante quanto o sucesso concreto do plano ou diversos, ou põem em jogo "topoi" diferentes, com os quais o
seja, a inflação baixar de verdade -- é a percepçãodo sucesso. locutor se identifica ou não (para maior aprofundamento, con-
Explicando melhor, é a confiança de que os preços estão mes- sulte-se Koch).
mo sob controle."(Gilberto Dimenstein, "Um tiro contra Deste modo, a meu ver, o conceito de polifonia recobre o
Lula", Folha de São Paulo, 08/06/1994) de intertextualidade, isto é, todo caso de intertextualidade é um
casode polifonia, não sendo, porém, verdadeira a recíproca: há
L casos de polifonia que não podem ser vistos como manifestações
de intertextualidade.
Por tudo o que aqui foi discutido, confirma-se que, do
ponto de vista da construçãodossentidos,todo texto é perpassa-
do por vozes de diferentes enunciadores, ora concordantes, ora
dissonantes, o que Eazcom que se caracterize o 6enâmeno da lin-
guagemhumana, como bem mostrou Bahktin (1929), como es-
sencialmente dialógico e, portanto, poli6ânico.

74
PARTEll

ACONSTRUÇAO DO
SENTIDONOTEXTOFALADO