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O MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA ENTRE O

CINEMA, A MEMÓRIA E A RESISTÊNCIA: UMA ANÁLISE DA OBRA “TERRA


PARA ROSE”1

Roberta dos Santos Araújo2 (robertaaraujo514@gmail.com)

“O dom de despertar no passado as


centelhas da esperança é privilégio
exclusivo do historiador convencido de que
também os mortos não estarão em
segurança se o inimigo vencer. E esse
inimigo não tem cessado de vencer”
(Walter Benjamin)

Nota: 10,0

INTRODUÇÃO

“Invasor diz que não sai da terra” (CORREIO DE NOTÍCIAS, 1985). “Mil
trabalhadores invadem fazenda em São Paulo. A invasão foi profissional” (JORNAL
DO BRASIL, 1993). “Colonos sem-terra invadem fazenda. Pelo registro policial, o
capataz da propriedade foi mantido prisioneiro durante a movimentação (PIONEIRO,
1994). “MST e o terrorismo oficializado” (VEJA, 2009). “Bolsonaro pretende
classificar como terrorismo invasões do MST” (METROPOLES, 2019). Os grifos das
frases apresentadas são meus e, vale ressaltar, meramente intencionais. O leitor não
deve surpreender-se ao saber que todos estes fragmentos são de jornais que circularam,
e alguns deles ainda circulam, no Brasil. Tais adjetivos e epítetos desqualificadores são
regra na imprensa quando o assunto em pauta é o Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra, o MST. A memória que se convencionou chamar de oficial, que circula
hegemônica, na sociedade civil é a do movimento enquanto arruaceiro, invasor e
criminoso, tendo como uma das principais propagadoras e formadoras desta memória, a
imprensa.

Como alternativa à esta memória negativa propagada pelos meios de


comunicação da imprensa nacional, filmes e documentários surgem e dão uma nova
1
Trabalho final apresentado à disciplina eletiva Cultura Política e Memória, ministrada pela professora
Michelly de Sousa Cordão, PPGH-UFCG, 2019.1.
2
Aluna do Programa de Pós Gradação em História da Universidade Federal de Campina Grande.
versão para a história, a memória e as resistências do MST e dos sujeitos que o forma.
Diante desta realidade, o estudo que segue tomará forma a partir da análise da obra
fílmica documental intitulada “Terra para Rose” (1987), dirigida por Tetê Moraes. O
documentário narra o processo de ocupação da fazenda Annoni, no Rio Grande do Sul
em outubro de 1985. A conjuntura política e econômica do período em que o
documentário foi gravado e lançado, o lugar social da diretora e de colaboradores, bem
como a sua recepção por parte do público são indispensáveis para enquadrar a obra
enquanto lugar de memória e resistência do movimento sem terra. Para tal intento, o
diálogo com os conceitos de cultura e materialismo de Reimumd Williams, de lugares
de memória do francês Pierre Nora e de História a contrapelo do Walter Benjamin, além
das discussões envolvendo história e cinema da obra de Marco Ferro se configurarão
indispensáveis no que concerne ao aporte teórico metodológico.

O que traz a obra “Terra para Rose”? O que o contexto de sua produção e lugar
social dos envolvidos em sua trama revelam? Qual memória constitui e com quais
memórias disputa a obra documental em questão? Qual a importância de produções
artísticas como esta para a ação e persistência do MST? São questionamentos que o
presente artigo ambiciona responder.

“TERRA PARA ROSE”: TEXTO E CONTEXTO

A questão agrária no Brasil é marcada pela desigualdade e pela luta por acesso à
terra. Muitos são os registros de conflitos, motins, revoltas que marcaram a ação dos
trabalhadores diante da opressão e da exclusão. Não custa lembrar os episódios de
Canudos, Contestado, a luta, ainda em curso, da demarcação do território indígena e
quilombola, as Ligas Camponesas e tantos outros movimentos sociais que se
organizaram de Norte a Sul do país e reivindicaram a posse da terra. No presente artigo,
ganharãoá destaque as ações do maior movimento pela reforma agrária da América
Latina, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, fundado no ano de
19843, mas ainda atuante na luta pelos direitos do homem do campo, com pautas que

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Oficialmente, enquanto movimento nacional, o MST foi fundado na ocasião do 1° Congresso Nacional
dos Trabalhadores Sem Terra, no ano de 1984, na cidade de Cascavel, no Estado do Paraná. No entanto,
as ações e organizações dos trabalhadores rurais, especialmente na região Sul, vinham sendo
desenvolvidas desde o final da década de 1970, quando, com ajuda da Comissão Pastoral da Terra, os
trabalhadores realizavam reuniões e ocupações de terra. Para maiores informações sobre a formação e
territorialização do MST, ver BRANFORD, Sue. Rompendo a Cerca: a história do MST. Tradução
Rubens Galves Merino. São Paulo, Casa Amarela, 2004.
vão além da conquista da terra, mas que ambicionam a permanência do trabalhador e da
trabalhadora no campo.

Desde a sua gênese, o MST carrega as duras perseguições por parte dos
latifundiários, seus maiores algozes, e por parte da imprensa, que atua como difamadora
das ações do movimento. Os fragmentos de jornais acima apresentados dão noção do
quão pejorativas são as matérias de alguns jornais brasileiros em relação às ocupações,
aos protestos, articulações do MST. Logo, a memória que foi se constituindo é a pior
possível, tachando os militantes de invasores, rebeldes e bandidos primitivos,
parafraseando Hobsbawm. A obra de Tetê Moraes, que não é a única 4 a tratar das ações
do movimento dos trabalhadores sem terra ainda nos seus primeiros anos, apresenta-se
como um caso alternativo à esta memória consumida como “oficial”.

Com duração de 84 minutos, Terra para Rose se passa no interior o Estado do


Rio Grande Sul5, especificamente na região conhecida como Pontão, onde está a
fazenda Annoni. Na madrugada do dia 30 de outubro, 1500 famílias de trabalhadores
rurais sem terra decidiram marchar para ocupar a fazenda, que desde meados da década
de 1970 estava sob os auspícios da justiça em processo de desapropriação. Cansadas de
esperar pela liberação judicial, 8000 pessoas romperam as cercas de arame e realizaram
a primeira ocupação do MST. O longa metragem está dividido em seis partes,
denominadas, respectivamente, de “A Promessa”, “A Pressão”, “A Espera”, “O
Confronto”, “O Sonho” e “A Trégua”, contudo, o enfoque da diretora é no cotidiano
destas famílias que se instalaram na Annoni, o dia a dia na ocupação, o preparo dos
alimentos, a vivência das famílias, as ações políticas, as marchas e as místicas, enfim, a
realidade vivida pelos sujeitos envolvidos na trama.

 Roseli Celeste Nunes da Silva (1954-1987), a Rose, que dá nome ao filme, é o


que poderíamos chamar de protagonista da obra. O foco da câmera é especialmente nas
mulheres da ocupação, a elas cabe um papel significativo dentro movimento, e Moraes
soube, com maestria, captar e dar voz a estas personagens, podendo ser caracterizado
como uma versão feminina da história da primeira ocupação do movimento. Desde a
ocupação na madrugada do dia 30 de outubro, passando pelos diários embates com a

4
A título de exemplo, e contemporâneos da obra em tela, os filmes “Cabra Marcado Para Morrer (1980),
do cineasta Eduardo Coutinho e “Encruzilhada Natalino” (1985), dirigido por Berenice Mendes,
5
A fazenda Annoni, com 9.250 hectares, está localizada na região de Pontão, no município de Sarandi,
interior do Estado do Rio Grande do Sul.
polícia e até mesmo a marcha das famílias até Porto Alegre são eventos todos narrados
pela ótica predominantemente feminina.

O que salta aos olhos na obra de Tetê Moraes é o contexto histórico da produção
do filme. O ano é 1985, o país estava sob a égide da “redemocratização”, no governo
federal, o primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura militar. Ao som
instrumental do hino nacional brasileiro, a narrativa, para a qual empresta voz a atriz
Lucélia Santos6, vai desenrolando-se a partir do levantamento de dados sobre a
realidade fundiária nacional, sem deixar de lado o processo histórico de luta dos
trabalhadores pela reforma agrária. Vale destacar o mandato do então presidente José
Sarney (PMDB), que à época criou o Ministério do Desenvolvimento e da Reforma
Agrária, instituição que despertou a esperança em trabalhadores rurais sem terra não só
da fazenda Annoni, mas de todo o país.

A crítica de Tetê Moraes ao governo Sarney e a chamada “Nova República” é


contundente. Mesmo diante de um governo civil e de ambições democráticas, capaz
mesmo até de criar um ministério sinalizando interesse pela reforma agrária, conflitos
pela terra explodiram por todo país, só no contexto em tela, mais de dois mil por todo o
Brasil, e a reforma caminhava a passos bem lentos. Logo, a república nascente veio com
velhas promessas, sem tantas novidades. Além do contraditório governo Sarney, estava
na ordem do dia a discussão sobre a futura Assembleia Constituinte e a possibilidade de
que os deputados voltassem seus olhos para a desigualdade fundiária brasileira e a
reforma agrária entrasse em pauta e pudesse, enfim, se efetivar. Todas estas questões
pertinentes não passaram despercebidas pela diretora e estão inscritas no longa
metragem de forma crítica.

E daí partem alguns questionamentos: quem é Tetê Moraes? Por que dirigir e
dedicar-se àa uma produção cujo mote é a ocupação de uma fazenda por trabalhadores
rurais sem terra? Qual lugar social ocupa diretora e colaboradores do filme documental
“Terra para Rose”? Maria Tereza Moraes nasceu no Rio de Janeiro em 1943, estudou
direito na UFRJ, mas dedicou-se muito mais à carreira jornalística, trabalhou em
diversos jornais, dentre eles os Correio da Manhã e Jornal do Brasil. Chegou a ser
oficial da chancelaria do YtamaratiItamarati, de onde enviava notícias que não
conseguia publicar no Brasil ditatorial para jornalistas for do país, por conta destas

6
Lucélia Santos, que narra todo filme, além de atriz, também era militante próxima às ações do Partido
dos Trabalhadores.
manobras foi acusada de enviar notícias negativas do Brasil para o exterior, o preço
pago por sua coragem diante das mãos de chumbo do Estado brasileiro foi a prisão, a
tortura e o exílio, Tetê Moraes ficou longe do seu país por 10 anos7.

A sua carreira inclinada para a denúuncia dos desmandos que o país viveu no
período da ditadura militar, a sua inclinação para pautas que visam aà diminuição das
desigualdades sociais, a sua experiência de exilada política, dizem muito sobre o seu
interesse em produzir um documentário como “Terra para Rose”. A opressão, a tortura,
a exclusão que vivera assemelha-se ao cenário com o qual se deparou no ano de 1985 na
fazenda Annoni. Trabalhadores sem terra, vítimas do exílio forçado que o latifúndio
dolorosamente modernizado os obrigou a passar, a tortura de viver sob condições
limites em um acampamento sem condições elementares de subsistência e a pressão
constante que essas famílias viviam sob a mira dos latifundiários e do Estado é a
matéria prima de Tetê Moares. Como disse em entrevista a um jornal da época, “Nunca
plantei um tomate, mas sei que a questão agrária é crucial no Brasil 8” (JORNAL DO
BRASIL, 1987).

A estreia do filme “Terra para Rose” aconteceu no dia 20 de outubro de 1987


durante o XX Festival de Cinema de Brasília. A primeira exibição foi no auditório do
salão vermelho do Hotel Nacional que, além do público que lotou o espaço, contou com
a presença inusitada de figuras como Bolívar Annoni, ex-proprietário da fazenda
ocupada, e o assessor do ministro da reforma agrária 9. Apesar dos inconvenientes, a
estreia foi um verdadeiro sucesso no festival. A obra recebeu vários prêmios 10, inclusive

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No período em que esteve no exílio, Tetê Moraes dirigiu o departamento de pesquisa da Editora
Nacional do Chile no governo de Salvador Allende, fez mestrado em comunicação nos EUA, trabalhou
como correspondente na França de uma emissora americana chamada Pacific Radio e na sua passagem
por Portugal trabalhou como no Ministério da Educação (JORNAL DO BRASIL, 1987).
8
O despertar para o tema do documentário se deu em 1984, sobretudo, no período em que Tetê Moraes
esteve acompanhando uma comissão da BBC de Londres durante a produção de uma série de TV que
focalizava a cultura e o modelo econômico da região Nordeste e de São Paulo, neste período, a jornalista
relatou que esbarrou com a questão da terra em todos os Estados que visitou. Dos inúmeros conflitos que
ocorriam à época, a ocupação da fazenda Annoni era o maior, e por ele Tetê se interessou, relata em
entrevista (JORNAL DO BRASIL, 1987).
9
À época, o ministro da reforma agrária era Jader Barbalhos, segundo informações obtidas no jornal
Tabloide Digital, ambos estavam hospedados no Hotel Nacional, tanto Barbalhos, quanto seu assessor,
porém, esteve presente na exibição do filme apenas o assessor. Em relação ao Bolívar Annoni, ainda
segundo mesmo jornal, se hospedou no hotel, junto com seu advogado, ”coincidentemente” um dia ates
da exibição do filme, sendo meio que “obrigado” a assistir a estreia de “Terra para Rose” ((TABLOIDE
DIGITAL, disponível em: <https://www.millarch.org/artigo/terra-para-rose-o-documentario-do-ano >
acesso em 25 de jul, 2019.
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Além de ser eleito o melhor filme do festival de Cinema de Brasília em 1987, o filme ganhou os
festivais da Bahia e de Havana, em Cuba.
o de melhor filme, e com esta aprovação, Tetê Moraes conseguiu levar “Terra para
Rose” muito mais rápido para o circuito comercial.

Na estreia do longa no Rio de Janeiro, por exemplo, centenas de trabalhadores


rurais sem terra tomaram as ruas da cidade em sinal de protesto e de aclamação pelo
sucesso da obra que contava uma parcela da história da luta pela terra. Outra
característica emblemática do filme documental de Tetê Moraes foi o seu esforço de
fazê-lo chegar até às ocupações, às comunidades de sem terra, ao povo que emprestou
sua história para o roteiro da obra. E tal ambição só se concretizou graças aos prêmios
que o longa recebeu, os valores possibilitaram uma maior repercussão da obra, nada
mais pertinente para o momento em que discutia-se a assembleia constituinte na qual
estavam depositadas as esperanças de uma reforma agrária. Em sua estreia e circulação,
o filme Tetê Moraes endossava o grito por justiça social levando para os cinemas e para
as barracas de lona a história e o exemplo de luta por um pedaço de terra.

O CINEMA COMO LUGAR DE RESISTÊNCIA E MEMÓRIA

Marc Ferro, em seus estudos sobre história e Cinema, observou diversas


mudanças nas produções fílmicas ao longo do tempo, para o autor, o trabalho
cinematográfico pode tornar-se ainda “mais ativo como agente de uma tomada de
consciência social”, desde que o foco das produções mudem e passem de “filme de
militantes para filme militante”, pois ele ainda alerta, “é ilusório pensar que a linguagem
cinematográfica é inocente” (FERRO, 1992, p.15). Na década de 1960, referindo-se ao
movimento cinemanovista, Glauber Rocha sentenciou que “onde houver um cineasta, de
qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a
serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo”
(ROCHA, 1965). 25 anos depois, mesmo não sendo ligada ao movimento de Glauber
Rocha, Tetê Moraes fez da sétima arte um lugar a à serviço das causas de seu tempo,
fazendo falar os sujeitos do movimento sem terra, realizando o que poderíamos de
chamar de “cinema a contrapelo”.

Segundo Raymond Williams, em uma análise da produção cultural, a arte não


deve ser tomada como objeto isolado, pois:

Quando nos vemos analisando uma obra particular, ou um grupo de obras,


com frequência percebendo a da comunidade essencial de que faz parte e sua
individualidade irredutível, devemos primeiro nos voltar para a realidade da
sua prática e para as condições da prática tal como foi realizada
(WILLIAMS, 2011, pp. 66-67).
Logo, enquadrar a obra de Tetê Moraes como sendo uma produção alternativa,
como um filme militante, só é possível depois de ter realizado o exercício de análise do
contexto e das condições em que a obra foi produzida, e o tópico anterior ilustrou um
panorama que diz muito sobre as condições de possibilidades para a execução do filme.
O Brasil saindo de um período de 21 anos de ditadura militar (1964-1985), os
movimentos sociais, seja do campo ou da cidade, se reorganizando, novas pautas
surgindo no país, a assembleia constituinte em discussão, a reivindicação da reforma
agrária na ordem do dia, todos estes eventos formam o pano de fundo da obra. Momento
em que as condições objetivas estavam dadas para produção de um filme como “Terra
para Rose”, que trouxe muito mais do que entretenimento para os que o assistiram,
trouxe a voz de homens e mulheres sem terra, trouxe uma versão da história dos de
baixo para uma sociedade que acostumou-se a consumir a história midiatizada pelos
jornais, história, diga-se de passagem, que criminaliza o sem terra, que decompõe sua
luta e suas ações.

Williams também enfatiza que os filmes devem ser vistos como formas
alternativas de informações, não apenas como amplificadores de notícias, como são os
jornais e a televisão. O caráter alternativo do filme de Tetê Moraes também pode ser
encarado como resistência, uma vez que emerge dentro das relações sociais capitalista,
que busca investir não em produções contestadoras do status quo, mas sim naquelas que
visam a sua reprodução. A obra representa o grito desesperado dos trabalhadores pela
reforma agrária no país marcado pela desigualdade fundiária e pela cordialidade para
com os latifundiários e poderosos, sendo assim, “Terra para Rose” também é um ato de
resistência.

O filme de Tetê Moraes representa produção alternativa, uma forma de


resistência e um lugar de memória para o MST. O historiador Pierre Nora declarou que
“os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória
espontânea” (1993, p.13), logo, “Terra para Rose” também pode ser pensado como
lugar de memória para a história dos sujeitos que formam o Movimento de
Trabalhadores Rurais sem Terra, uma cristalização, a partir da película cinematográfica,
da memória de homens e mulheres que formaram o que hoje representa um dos maiores
movimentos sociais da América Latina. Assim como os lugares de memória
desqualificadores do MST foram se constituindo na imprensa ao longo dos anos, na
obra em questão uma nova memória encontra abrigo e resiste. Uma memória
alternativa, que contesta aquela produzida por jornais, revistas e pelo discurso de ódio
do latifúndio.

Diante desta discussão de memória, vem à tona a proposta lançada pela


disciplina, qual seja, pensar a cultura política e a memória no Brasil pós ditadura militar.
O filme “Terra para Rose” foi produzido exatamente no período da chamada
redemocratização, logo, corrobora com a construção de uma memória para um novo
Brasil, que reivindicava reforma agrária, democracia e transparência para a chamada
Nova República que instaurava-se. Porém, vale salientar que a memória que esboçou-se
a partir da obra em questão, e de tantos outros filmes, peças teatrais, livros, etc, não se
tornou hegemônica. As tentativas de sufocamento da memória dos anos de chumbo da
ditadura foram inúmeras, os desafios para a produção de u são uma realidade, o MST,
em especial, ainda hoje enfrenta os impropérios vindos da mídia, dos latifundiários e de
frações de classe da sociedade que foram educados para encarar o movimento como
sendo um grupo de marginais, bandidos, e mais recentemente, de terroristas. A
memória, da qual o filme em tela é parte que se buscou construir, ainda luta por seu
lugar na história.

O desfecho do filme de Tetê Moraes é trágico. Cabe lembrar que a ênfase da


diretora na figura de Rose se deu, sobretudo, por ela ser mulher militante e por ter dado
à luz ao primeiro bebê11 que nasceu na fazenda Annoni. Mas, o protagonismo de Rose
foi além do desejo cinematográfico de Mores e de sua produção. No dia 31 de março de
1987, durante uma das manifestações do movimento de trabalhadores rurais sem terra
que ocupavam a fazenda Annoni, dezenas de camponeses foram vítimas de um brutal
atropelamento. Três pessoas morreram, dentre as vítimas fatais estava Rose, seu corpo
foi dilacerado pelo caminhão. À época, a empresa proprietária do veículo alegou
problemas nos freios, mas as investigações confirmaram que toda a mecânica estava em
perfeitas condições de uso. Um inquérito foi instaurado, o cenário esboçado não era de
acidente, mas de assassinato. Rose morreu lutando pela terra, Tetê Moraes finaliza o
filme apresentando as cenas do dia da morte dos trabalhadores de Annoni.

Marx disse que a história tende a se repetir, primeiro ela acontece como tragédia
e depois repete-se como farsa. O atropelamento e a morte de Rose não foram exclusivos
na história do MST e dos movimentos que lutam por justiça social. No curso da

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Em 1 de novembro de 1985, Rose deu à luz ao primeiro bebê que nasceu na fazenda Annoni, Marcos
Tiaraju.
produção do presente artigo, por exemplo, o ódio atropelou mais um trabalhador sem
terra. Desta feita, a vítima foi Luís Ferreira Costa, um pedreiro de 72 anos que
participava de um ato no acampamento Marielle Vive, em Valinhos, São Paulo no dia
18 de julho de 2019. Rose, Luís e tantas outras vítimas do ódio, da opressão e das
desigualdades sociais causadas pelo capitalismo. A história e a memória do MST são
marcadas pela difamação do movimento e pelo ódio que sofrem dos poderosos. A
produção de Tetê Mores é um serviço ao conhecimento histórico, que como afirma
Walter Benjamin (1994), tem como principal sujeito a classe combatente e oprimida.

A epíigrafe do início do presente texto, extraída das teses “Sobre o Conceito de


História” de autoria de Walter Benjamim (1994), é um desafio lançado aos historiadores
e às historiadoras que se dedicam ao estudo dos movimentos sociais do campo, qual
seja, o de dar esperança aos que por ora encontram-se na condição de vencidos e, a
partir da junção entre reflexão e ação, fazer cessar as vitórias dos atuais vencedores.
Mesmo não sendo historiadora, mas na sua condição de cineasta, Tetê Moraes deu voz
aos vencidos, fez vir à tona uma realidade que muitos desconheciam dos despossuídos
da terra, de mulheres que desdobram-se para cuidar dos filhos, da alimentação dos seus
companheiros, da labuta diária nos barracos de lona do acampamento, mas que ainda
assim atuam na linha de frente da luta pela reforma agrária. A obra de Tetê Moraes é
lugar de memória, de resistência e de luta contra tudo que foi negativamente
midiatizado e construído sobre o movimento dos trabalhadores rurais sem terra.

COMENTÁRIOS:

1. Gostei muito do artigo: crítico e acadêmico. Escrita bem organizada, direta


e clara;
2. Usou dois materiais trabalhados na disciplina: Nora e um texto de Glauber;
3. Fez análise de um documentário com o qual pôde articular os debates da
disciplina com seu projeto de dissertação. O que é muito bom.
REFERÊNCIAS

Jornais
Correio de Notícia – PR
Jornal do Brasil
O Pioneiro - RS
Sites consultados
<https://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/o-mst-e-o-terrorismo-oficializado/> acesso em
23 de jul, 2019.
<https://www.metropoles.com/brasil/bolsonaro-pretende-classificar-como-terrorismo-
invasoes-do-mst> acesso em 23 de jul, 2019.
<http://bases.cinemateca.gov.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/> acesso em 21 de jul, 2019.
<http://www.mst.org.br/2015/10/30/o-sonho-era-ter-um-pedaco-de-terra-diz-sem-terra-
sobre-a-primeira-ocupacao-do-mst.html> acesso em 21 de jul, 2019.
<https://www.millarch.org/artigo/terra-para-rose-o-documentario-do-ano > acesso em
25 de jul, 2019.
BRANFORD, Sue. Rompendo a Cerca: a história do MST. Tradução Rubens Galves
Merino. São Paulo, Casa Amarela, 2004.
FERRO, Marc. Cinema e História. Tradução Flavia Nascimento. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1992
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Tradução Nélio Schneider. São
Paulo, Boietempo, 2011.
NORA, Pierre. Entre Memória e História: a problemática dos lugares. Projeto
História, São Paulo, n. 10, 1993.
ROCHA, Glauber. Estética da Fome. Espaço Cine Experimental, São Paulo, 2013.
WALTER, Benjamin. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e
história cultural. Tradução Sérgio Rouanet. 7. ed., São Paulo, Brasiliense, 1994.
WILLIAM, Raymond. Cultura e Materialismo. Tradução André Glaser. São Paulo,
Unesp, 2011.