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1) As mercadorias, por trás de seus diferentes valores de uso tão específicos, que parecem tão

simples a um olhar superficial, possuem algo que as torna equivalentes entre si e passíveis de
troca: o valor. Na forma de cada mercadoria, guarda-se um valor de uso tão específico a ela, mas
no interior de todas elas há um valor de troca, que é mensurável e equalizável para a troca. O
valor, que é uma propriedade presente em toda e qualquer mercadoria capitalista, parece adquirir
vida própria no capitalismo, e ser algo natural a cada mercadoria. No entanto, ele não é fruto da
natureza e muito menos tem vida própria: ele é colocado na mesma através da força de trabalho.
Qualquer valor, de fato, só é proporcionado através do trabalho: o valor de uso é criado pelo
trabalho concreto, que pode ser traduzido por uma técnica específica cunha o objeto para um uso
determinado – como a tecelagem, que dá forma ao casaco; e o valor de troca é criado pelo
trabalho abstrato, que não é mais uma técnica específica e sim uma massa sem forma e universal
de trabalho – como observa Marx no capítulo I, aqui não há diferença entre tecelagem e
alfaiataria, pois ambas são apenas força de trabalho humana que dão valor às mercadorias,
tornando-as “simples geleias de trabalho”1.

O processo de produção do valor através da força o trabalho, por sua vez, não se dá através de
uma associação livre e individual de um Robinson Crusoé 2, mas sim através de relações sociais
de produção e da divisão do trabalho, as quais determinam diversas consequências na vida social.
Essa ação, tão peculiar ao capitalismo e àqueles que vivem sob sua égide, de considerar a
mercadoria como dotada de valor naturalmente por si e não devido à força de trabalho,
obscurecendo as relações de produção e divisão social do trabalho, é denominada de fetichismo
da mercadoria.

É como bem observa Bottomore 3 “[no capitalismo] os objetos materiais possuem certas
características que lhe são conferidas pelas relações sociais dominantes, mas que aparecem como
se lhes pertencessem naturalmente”. Tratando os objetos materiais como dotados de um valor
próprio, obscurece-se todas as relações que permeiam a sociedade e a divisão social do trabalho
que lhe é tão cara. Basicamente, analisa-se a mercadoria apenas como coisa e não como um
produto do trabalho e das relações sociais que o organiza. Nas trocas apenas trocam-se objetos

1
MARX, Karl. A mercadoria. In: O capital. São Paulo: Boitempo, 2013. P.122
2
Marx no capitulo I de O capital, A mercadoria, refere-se a “robisonadas” para referir a um agente econômico
autossuficiente.
3
BOTTOMORE, Tom. Verbete: fetichismo da mercadoria. In: O dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro,
Zahar: 2011. P 149
cujo trabalho que os materializou perde forma frente à equivalência do valor. O trabalho e as
relações sociais estão na mercadoria, mas são “fetichizados” com o fetichismo da mercadoria.
Tratam-se apenas de coisas trocadas devido a equivalência de valor e o trabalho materializado
nelas pouco importa na troca, na superfície. As relações sociais, que organizaram o trabalho,
também nunca estão aparentes, pois trocam-se apenas objetos. Novamente, é como bem ilustra
Bottomore4: “As relações sociais entre alfaiate e carpinteiro aparecem com uma relação entre
casaco e mesa nos termos da razão em que essas coisas se trocam entre si, e não em termo do
trabalho nelas materializado. ”.

Portanto, através do fetichismo da mercadoria, oculta-se toda a ordem capitalista e as relações


que regem a sociedade capitalista. A relação de divisão do trabalho é uma delas, seja a divisão do
trabalho entre operários numa fábrica, seja a divisão social do trabalho, que é a competição entre
diversos proprietários privados no mercado.5 Os dois tipos de divisão do trabalho são frutos do
desenvolvimento histórico; o primeiro, por exemplo, como aponta Marx no capítulo XII do
Capital, iniciou-se com a divisão manufatureira do trabalho. A manufatura era fruto do trabalho
separado de vários operários que realizavam pequenas tarefas para conjuntamente forma-la.
Assim, a divisão manufatureira do trabalho era uma espécie de cooperação. No entanto, ela
difere da cooperação simples: embora ambas dividam a produção de uma única mercadoria em
várias pequenas tarefas para vários trabalhadores individuais, criando um trabalhador coletivo, a
cooperação simples e a divisão manufatureira do trabalho divergem quanto a condição do
trabalhador. O trabalhador na cooperação simples é mais autossuficiente do que o da divisão
manufatureira do trabalho, pois sua tarefa individual no processo de produção de uma
mercadoria cria por si um valor de uso, diferentemente da tarefa individual de um trabalhador na
divisão manufatureira, que só constitui um valor de uso no final do processo de produção – e,
portanto, não cria um valor de uso por si apenas. Consequentemente, o trabalhador na
cooperação simples é mais completo do que o da divisão manufatureira do trabalho.

A divisão do trabalho manufatureira também proporcionou o desenvolvimento da maquinaria.


Como as funções vão se especializando cada vez mais com a divisão manufatureira do trabalho,
as ferramentas de trabalho também vão ficando cada vez mais específicas, o que cria a condição

4
Ibidem, p.150
5
No verbete divisão do trabalho, Bottomore – em O dicionário do pensamento Marxista – diz que Marx usa dois
conceito de divisão do trabalho.
para a criação das máquinas – pois estas são a combinação de específicos instrumentos. Contudo,
as máquinas alteram drasticamente a divisão do trabalho: se o outro processo de produção, na
divisão manufatureira do trabalho, era movido dependente da operação das ferramentas por parte
dos operários e, portanto, subjetivado, agora com o maquinário na indústria moderna, ele se torna
objetivado pois as máquinas, apesar de serem controladas por operários, não são o tempo inteiro
dependentes do trabalho humano como eram as ferramentas. As intempéries do trabalho
orgânico com as máquinas estão largamente reduzidas. Deste modo, o efeito que o maquinário
cria é o mesmo que a divisão manufatureira do trabalho e a cooperação têm: ao tornarem a
produção cada vez mais produtiva, esses fenômenos possibilitam um tempo menor de trabalho
necessário e um tempo maior de trabalho excedente na jornada de trabalho, logo, possibilitando
uma taxa de mais-valia relativa6 maior a ser extraída pelo patrão.

2) Antes de tentarmos compreender o ataque empreendido aos trabalhadores através dessas duas
reformas agressivas justificadas “pelo desastre das contas públicas”, há de compreendermos
sobretudo como funciona um dos conceitos marxistas mais importantes: a mais-valia, que é
subdividida em absoluta ou relativa. Ambas têm em comum o fato de serem a apropriação pela
classe capitalista do valor gerado pelo trabalho excedente da classe operária; todavia, elas
funcionam de modos diferentes. Primeiro, há de pensarmos no conceito de mais-valia absoluta, o
qual já nos revelará outros conceitos importantes para entendermos a mais-valia relativa.

A mais-valia absoluta funciona da seguinte forma: Um empregado cuja a força de trabalho


produza um valor 20 reais por hora, e cuja força de trabalho diária vale 100 reais, necessita
trabalhar apenas 5 horas para cobrir suas necessidades diárias e portanto (re)produzir sua força
de trabalho. No entanto, sua jornada de trabalho é de 8 horas. O trabalho realizado nas 5h
necessárias, para criar o valor que torna possível a reprodução da sua força de trabalho, é
chamado de trabalho necessário; contudo, sua jornada de trabalho é de 8h, logo, há ainda mais
3h de sobra, as quais são horas excedentes e, por isso o trabalho realizado nelas é chamado de
trabalho excedente ou sobretrabalho. Nessas horas de trabalho excedente o empregado cria um
valor excedente ao necessário para a reprodução de sua própria força de trabalho, que é
apropriado por seu empregador gratuitamente para a valorização do valor. Esse valor excedente,
que o empregado cria, mas não usufrui pois ele é apropriado por seu empregador, chama-se

6
Essa será discuta nos seus por menores na questão seguinte.
mais-valia. A mais-valia obtida com o prolongamento da jornada de trabalho e,
simultaneamente, do tempo de trabalho excedente, chama-se de mais-valia absoluta.

Já a mais-valia relativa é operada da seguinte maneira: Ao invés da jornada de trabalho ser


prolongada para o tempo de trabalho excedente ser maior, como na mais-valia absoluta, o que
ocorre é diferente. Devido às inovações nas forças produtivas, aumenta-se a produtividade e,
portanto, diminui-se o tempo socialmente necessário para a produção de uma unidade dessa
mercadoria. A quantidade de valor colocada nessa mercadoria através do trabalho, seja humano
ou não, ainda é a mesma, no entanto, produz-se mais mercadorias na mesma quantidade de
tempo. Isso nos mostra que o valor incluído em cada unidade dessa mercadoria é menor do que
antes, devido a produtividade, o que leva a um barateamento da mesma. Deste modo chega-se a
duas conclusões: Primeiramente, com o barateamento dessa mercadoria, o custo para um
trabalhador reproduzir a sua força de trabalho cai e, deste modo, o tempo de trabalho necessário
para a obtenção desse valor também cai, aumentando o tempo de trabalho excedente; em
segundo lugar, podemos pensar de modo alternativo que, se um trabalhador demorava 8h para
produzir 8 casacos e hoje, devido aos avanços nas forças produtivas, ele produz o dobro,
teoricamente só seriam necessárias 4h para produzir a mesma quantidade de mercadoria que
outrora, o que lhe daria tempo extra para descanso; todavia, sua jornada de trabalha não foi
diminuída e, assim, esse tempo extra torna-se tempo de trabalho excedente - visto que não é mais
necessário trabalhar 8h para se produzir 8 casacos e sim 4h. Ambas as conclusões dizem a
mesma coisa: a maior produtividade faz com que se diminua o tempo de trabalho necessário e se
aumente o tempo de trabalho excedente; o valor extraído pelo trabalho nesse tempo excedente
criado pela produtividade é chamado de mais-valia relativa.

A Reforma trabalhista proporciona ao patrão maior extração de mais-valia absoluta, pois


aumenta, de maneira sutil, mas eficaz à burguesia, a jornada de trabalho do empregado. Uma
série de mudanças pretendidas nos mostra isso: A revogação do art. 384, que se refere à
obrigatoriedade de o empregador conceder ao menos 15 minutos de descanso ao funcionário,
antes do início do período extraordinário de trabalho; a revogação do art.59, referente a proibição
de horas extraordinárias a trabalhadores em regime de tempo parcial; a mudança no art. 58A, que
altera diretamente a jornada de trabalho para trabalhadores em regime de tempo parcial – que
hoje não pode ser mais de 25 horas semanais e, com a pretendida mudança, seria de 26 horas
semanais (com 6 horas extraordinárias possíveis) ou de 30 horas semanais (com 2 horas
extraordinárias possíveis).Como a escolha do cumprimento dessas “horas extraordinárias” muitas
vezes não está ao encargo dos empregados, visto que se oporem a elas muitas vezes podem
sofrer represálias, a duração da jornada de trabalho estará mais ainda na mão dos patrões; estes
poderão submeter seus empregados cada vez mais a essas “horas extraordinárias”.
Consequentemente, possibilitar-se-á mais tempo excedente de trabalho e mais extração de mais-
valia absoluta.

A reforma da previdência atua no mesmo sentido, aumentando a jornada de trabalho da classe


trabalhadora. Ao passo que na reforma trabalhista a jornada aumenta em horas diárias e
semanais, através das “horas extraordinárias”, a reforma da previdência aumenta a jornada de
trabalho em anos. Isso porque há uma mudança, em especial, que postergará cada vez mais o
direito a aposentadoria e, portanto, prolongará o período de extração de mais-valia. Esta é a que
se dá no parágrafo 7A do art.201: extingue-se a aposentadoria por anos de contribuição, que é
hoje de 35 (homem) e 30 (mulher), e unifica-se a idade mínima de aposentadoria para homens e
mulheres em 65 anos com pelo menos 25 de contribuição – sendo que atualmente com 15 anos
no mínimo de contribuição, as mulheres podem se aposentar aos 60 e homens aos 65. Os
trabalhadores rurais, cujas idades mínimas para aposentadoria eram 5 anos a menos que
trabalhadores comuns, também em decorrência da mudança nesse parágrafo, passam a ter de
seguir o mesmo regime, isto é, têm de cumprir 65 de idade e 25 de contribuição. Num país onde
o trabalho formal ainda não é o predominante, a maior parte da população terá de trabalhar mais
ainda para conquistar o direito de aposentadoria. Logo, percebe-se que tanto a reforma
trabalhista como a reforma da previdência atuam como maximizadores de mais-valia absoluta, 7 a
primeira pelo aumento da jornada de trabalho de diária e semanal, e a segunda pelo aumento
direto dos anos em jornada de trabalho. Ambas, ainda que por caminhos diferentes, conduzem ao
mesmo fim, portanto.

3) Althusser propõe-se a mostrar os desafios e os recursos - para superar estes desafios - no


trabalho teórico marxista. Seu esforço torna possível um tipo de método a parte da ciência guiada
por métodos empiristas - que apesar de auto declararem-se como baseados em “fatos” são frutos
7
Adicionalmente, também poder-se-ia argumentar que, como mais trabalhadores estariam produzindo ao mesmo
tempo, aumentar-se-ia a produtividade e a taxa de mais-valia relativa a ser extraída, portanto, também
aumentaria devido a ambas reformas. Infelizmente, não há tempo e espaço suficiente para esse lúcido argumento
aqui.
apenas de considerações ideológicas - baseado na suma importância da teoria junto a observação
ao invés da simples observação e tomada dos “fatos” empíricos como realidade inquestionável; a
teoria marxista, parceira caríssima à observação, por sua vez, é um sistema de termos
interligados criados e explorados primeiramente por Marx.

Bottomore, em La Sociologia Marxista, não está preocupado como Althusser em abrir uma
possibilidade para se fazer ciência com a teoria marxista, mas sim em descrever as correntes
dentro do marxismo. Isto é, a intenção de Bottomore, portanto, é colocar a história do
pensamento marxista e suas correntes internas em primeiro plano, refazendo o curso que as
ideias de Marx tomaram após sua criação. A intenção do texto é um trabalho de história das,
segundo ele, duas macro-correntes do pensamento marxista: a que coloca o marxismo como uma
filosofia crítica e não como uma ciência; e a que é uma “sociologia amplamente positivista”
(p.12) mas sem estar relacionada com o positivismo comtiano. Essa segunda é a que estabelece o
marxismo como uma ciência social positiva, empírica e verificável como qualquer outra, mas
inspirada pelo pensamento marxista.

Burawoy, por outro lado, tem intenções metodológicas e teóricas tão fortes e latentes como
Althusser. Numa crítica veemente aos chamados “4Rs” da ciência positiva, Burawoy estabelece
que há uma forma alternativa de se fazer ciência: um modo de ciência que ao invés de somente
tentar objetivar tudo através de pesquisas quantitativas, tematiza a presença do observador em
relação com o objeto, criando uma espécie de ciência reflexiva. Esta cria a possibilidade, e por
vezes até a necessidade – como no caso de Burawoy no estudo da “zambianização” -, de uma
ciência social de cunho marxista sem perder cientificidade alguma, e ainda reparar as
insuficiências de uma ciência positiva.

Conclui-se que Burawoy e Althusser dedicam-se mais ao propósito teórico e metodológico de


que há a possibilidade de se fazer uma pesquisa científica marxista, sem de algum modo, isso ser
uma ideologia ou somente um panfleto político. Embora o uso dos nomes seja diferente nos dois,
eles lutam contra o mesmo inimigo, o qual sustenta que uso de uma teoria marxista nas ciências
sociais conduz a um erro: “os empiristas” em Althusser e o “positivismo” em Burawoy. A teoria
marxista para ambos é perfeitamente aplicável às ciências sociais, sendo até necessária para
reparar os erros dos positivistas/empiristas. Já para Bottomore, em seu esforço mais histórico que
teórico, a teoria marxista não é somente aplicável como constitui uma das duas grandes correntes
do pensamento marxista, a da sociologia marxista, que batalha frente a corrente da “filosofia
crítica”.

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