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O Vale do Paraíba e o Império do Brasil

nos quadros da Segunda Escravidão


Mariana Muaze | Ricardo Salles Org.

O Vale do Paraíba e o Império do Brasil


nos quadros da Segunda Escravidão
© 2015 Mariana Muaze e Ricardo Salles Sumário
Este livro segue as normas do Acordo Ortográfico
da Língua Portuguesa de 1990, adotado no Brasil em 2009.

Coordenação Editorial
Isadora Travassos Introdução11

Produção Editorial
Parte I
Eduardo Süssekind
Rodrigo Fontoura interpretações e grandes questões
Victoria Rabello sobre a bacia do paraíba
Revisão
O Vale do Paraíba escravista
Carolina Lopes
e a formação do mercado mundial do café no século XIX21
Imagem da capa Rafael Marquese
Charles Ribeyrolles, Brazil Pittoresco
Dale Tomich
cip-brasil. catalogação na publicação Novas considerações sobre o Vale do Paraíba e
sindicato nacional dos editores de livros, rj
a dinâmica imperial 57
V243 Mariana Muaze
O Vale do Paraíba e o império do Brasil nos quadros da segunda escravidão / organização Mariana
Muaze, Ricardo Salles. - 1. ed. - Rio de Janeiro : 7Letras, 2015. A cartografia do poder senhorial:
cafeicultura, escravidão e formação
isbn 978-85-421-0368-7 do Estado nacional brasileiro, 1822-1848 100
1. Paraíba do Sul, Rio, Vale - História. 2. Escravidão - Brasil - História. I. Muaze, Mariana. Rafael Marquese
II. Salles, Ricardo. Ricardo Salles
15-26215 cdd: 981.5
cdu: 94(815) Vale expandido: contrabando negreiro, consenso
e regime representativo no Império do Brasil 130
Imagem da capa: Ribeyrolles, Charles, 1812-1860. Brazil Pittoresco: album de vistas, panoramas, mo- Alain El Youssef
numentos.... [gravura 18]. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_icono-
grafia/icon1113654/icon1113654_20.jpg. Acesso em 18/9/2015. (Acervo: Fundação Biblioteca Nacional,
Bruno Fabris Estefanes
Brasil, impressa sob permissão) Tâmis Parron
Imagem da página 101: © Acervo Arquivo Nacional, ref: BR RJANRIO 4Y.0.MAP.50, impressa sob permissão.
Imagem da página 114: © Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Brasil, impressa sob permissão.
Parte II
Imagem da página 161: © Acervo Biblioteca Nacional de Portugal, impressa sob permissão.
população e sociedade
2015
Viveiros de Castro Editora Ltda.
O paradigma da extinção:
Rua Visconde de Pirajá, 580 – sl. 320 – Ipanema desaparecimento dos índios puris
Rio de Janeiro – rj – cep 22420-902 em Campo Alegre, sul do Vale do Paraíba 159
Tel. (21) 2540-0076
editora@7letras.com.br – www.7letras.com.br Enio Sebastião Cardoso de Oliveira
Da colonização do Vale à formação de uma família: Parte III
uma introdução à história dos Werneck capital, economia e finanças
e suas estratégias matrimoniais 176
Lucas Gesta Palmares Munhoz de Paiva Terra, comércio e comerciantes na vila cafeeira de Piraí  419
Vladimir Honorato de Paula
A morte do barão de Guaribu.
Ou o fio da meada 197 “Associação de capitalistas” ou “Associação de proprietários”:
Ricardo Salles o Banco Commercial e Agrícola no Império do Brasil,
Magno Fonseca Borges um banco comercial e emissor no Vale do Paraíba (1858-1862) 436
Carlos Gabriel Guimarães
Suspeitos, transeuntes, impermanentes: personagens liminares
e a dinâmica social em um microcosmo do Império 242 Modernidade, ordem e civilização: a companhia Estrada de Ferro
Camilla Agostini D. Pedro II no contexto da direção Saquarema 477
Magno Fonseca Borges
“Tirando leite de pedra”: Pedro Eduardo Mesquita de Monteiro Marinho
o tráfico africano estimado a partir de dados etários  259
Heitor P. de Moura Filho Terras, escravos, açúcar, café, ferrovias e bancos
em Campos dos Goytacazes: o rol dos negócios de
A força da escravidão ao sul do Rio de Janeiro: Saturnino Braga no século XIX501
Os complexos de fazendas e a demografia escrava Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira
no Vale cafeeiro na segunda metade do oitocentos 302
Thiago Campos Tortuosos caminhos: obras públicas provinciais e
o difícil escoamento das mercadorias de Cantagalo,
A formação da cafeicultura em Bananal, 1790-1830 328 Campos dos Goytacazes e Macaé para o Rio de Janeiro
Breno Aparecido Servidone Moreno (século XIX)524
Ana Lucia Nunes Penha
Laços cativos: uma análise demográfica da família escrava
no plantel de Luciano José de Almeida, Bananal 1854-1882 351 Crédito e finanças no desenvolvimento da economia cafeeira
Camila dos Santos em Vassouras, Vale do Paraíba fluminense, durante o século XIX 545
Rabib Floriano Antonio
O espaço disciplinar escravista das fazendas cafeeiras
e a resistência escrava: Vale do Paraíba, século XIX371
Sobre os autores 571
Marco Aurélio dos Santos

Para matar a liberdade seria preciso fazer desaparecer


a humanidade: o jornal abolicionista 25 de Março
em Campos dos Goytacazes 392
Tanize do Couto Costa Monnerat
Em homenagem a Barbara (in memoriam) Stanley Stein
Introdução

Uma ideia perpassa todos os capítulos dessa obra e preside sua elaboração:
a de que a região do Vale do Paraíba e de suas áreas adjacentes nas provín-
cias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, organizadas em torno
da escravidão, da grande propriedade rural, da produção e exportação do
café, foram centrais na conformação socioeconômica, política e cultural do
Império do Brasil. A ideia não é nova e na época mesmo já circulava o dito
de que “o Império é o café. E o café é o Vale”.
Do ponto de vista da historiografia, o café, a escravidão e o Vale cons-
tituíram-se, desde as décadas de 1920 e 1930, em foco de importantes tra-
balhos, dentre os quais se destaca a monumental História do café no Brasil,
de Afonso Taunay.1 Nos anos 1950, o assunto foi revisitado por Alberto
Lamego, logo seguido, em 1957, pelo clássico Vassouras, fruto das pesquisas
que Stanley Stein desenvolveu na região em fins dos anos 1940.2 O livro de
Stein, tratando da questão da grande propriedade rural exportadora e das
relações entre senhores e escravos por ela engendradas, permanece insu-
perável, ultrapassando todos os modismos historiográficos que se segui-
ram. Ele foi ainda inspiração direta para o trabalho de outro historiador
norte-americano, agora já um brasilianista, Warren Dean, com o seu Rio
Claro, publicado em inglês em 1976 e, no ano seguinte, em português, que
igualmente aborda os temas da monocultura de exportação, da grande pro-
priedade e da escravidão em uma região fronteiriça entre o velho e o novo
1 Em 1927, por ocasião da Exposição do Bicentenário do Café no Brasil, o periódico O Jornal, do Rio
de Janeiro, publicou um suplemento dedicado ao evento. Mais tarde, esse material foi reunido e
publicado em livro pelo Departamento Nacional do Café, com o título O café no segundo centenário
de sua introdução no Brasil, em dois volumes (Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café,
1934). Em 1929, por sua vez, Afonso d’Escragnolle Taunay iniciou a publicação, da História do café
no Brasil, em 11 volumes, que só se encerraria em 1941, também patrocinada pelo Departamento
Nacional do Café (Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1929-1941).
2 LAMEGO, Alberto. O homem e a serra. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística, 1950; STEIN, Stanley. Vassouras: a Brazilian coffee county, 1850-1900.
Cambridge, MA: Harvard University Press, 1957 (primeira edição brasileira, com o título Grandeza
e decadência do café no Vale do Paraíba. São Paulo: Brasiliense, 1961. Última edição brasileira com o
título Vassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990).

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oeste paulista.3 Finalmente, cabe destacar, para a década de 1960, os livros Outros capítulos, no entanto, recolocam a discussão ampla sobre o Vale e
de Emília Viotti da Costa, Da senzala à colônia, de 1966, que, tratando da seu significado em sua conformação com o mundo do Império do Brasil.
cafeicultura escravista brasileira, em especial em seu momento de crise, Tanto em um caso quanto no outro, entretanto, esse livro é, ao mesmo
não deixou de conferir importância ao Vale do Paraíba, e Homens livres na tempo, fonte e resultado de um trabalho coletivo de discussão e pesquisa
ordem escravocrata, de Maria Sylvia Carvalho Franco, de 1969, analisando a que diversos pesquisadores e estudiosos têm desenvolvido sobre o Vale
população livre e pobre com foco no município de Guaratinguetá.4 nos últimos dez ou quinze anos. Nesse sentido, ele visa reunir e divulgar
Desde então, o Vale oitocentista e suas regiões circunvizinhas nunca uma série de trabalhos que se somam na recomposição do papel do Vale do
deixaram de ser frequentados pela historiografia. Nesse mesmo período, Paraíba no século XIX brasileiro.
incrementaram-se a profissionalização e a expansão do campo da História, Esse papel diz respeito, antes de tudo, à relação do Vale com a constru-
com ênfase na pesquisa arquivística e na elaboração de dissertações e teses ção e consolidação do Estado nacional. Mais uma vez, o tema não é novo,
de mestrado e doutorado, e novas abordagens tiveram grande impacto ainda que tenha perdido terreno na nova historiografia brasileira. José
entre os historiadores. O resultado da combinação desses dois processos Murilo de Carvalho, em A construção da ordem (1980) e Teatro de som-
tem sido a redução do escopo e do foco das pesquisas, até mesmo para tor- bras (1988), que afirma a autonomia do projeto da elite política imperial
ná-las viáveis nos prazos estabelecidos pelos programas de pós-graduação. frente aos grandes proprietários rurais, não deixa de reconhecer, insuficien-
Teses, dissertações, monografias, muitas delas publicadas, livros e artigos temente a nosso ver, uma “dialética da ambiguidade” que marcaria a rela-
passaram a tratar prioritariamente de temas como as famílias escravas, a ção do Estado com esses grandes proprietários.5 Outros dois clássicos da
constituição de identidades afro-brasileiras, as formas de resistência das história política do Brasil Império assinalaram a importância da expansão
populações cativas, o papel social, econômico e político de pequenos pro- cafeeira escravista pelo Vale no processo de construção do Estado nacional:
prietários, produtores ou da população livre e pobre, a constituição das As tropas da moderação, de autoria de Alcir Lenharo, publicado em 1976,6
fortunas, a agricultura de subsistência e inúmeros outros assuntos. Esses e O Tempo Saquarema, de Ilmar Rohloff de Mattos, publicado em 1987.7 A
estudos derramaram-se sobre uma vasta dimensão territorial, cobrindo tese de Ilmar Mattos, da relação entre a cafeicultura escravista e o Estado
praticamente todos os recantos, comarcas e municípios do Império, inclu- imperial foi retomada, desta feita em seu momento de crise, por Ricardo
sive os do Vale do Paraíba. O Vale, considerado como um todo, tanto em Salles em Nostalgia imperial, de 1996.8 A temática do Vale do Paraíba e sua
sua especificidade regional quanto em sua articulação central com as confi- relação com a configuração política e socioeconômica do Império voltou à
gurações econômicas, sociais, políticas e culturais mais amplas do Império baila no livro de Jeffrey Needell, The Party of Order, publicado em 2006,9
do Brasil, contudo, deixou de ser objeto direto ou indireto da maioria des- e, mais recentemente, no livro de Tâmis Parron, A política da escravidão no
ses trabalhos. Isso aconteceu tanto por uma recusa, explícita ou implícita,
em buscar grandes temas e explicações, mesmo que a partir de abordagens
5 CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro:
mais reduzidas, quanto pela escolha de estabelecer relações entre os traba- Campus, 1980; e Id. Teatro de sombras: a política imperial. Rio de Janeiro: Vértice, 1988. Nas novas
lhos geograficamente focados e os temas acima elencados. edições as duas partes da tese vêm novamente unificadas.
O livro coletivo que o leitor tem em mãos é, em parte, fruto desse 6 LENHARO, Alcir. As tropas da moderação: o abastecimento da Corte na formação política do Brasil,
1808-1842. São Paulo: Símbolo, 1979.
processo. Alguns de seus capítulos abordam os temas acima mencionados
7 MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema: a formação do Estado imperial. São Paulo:
em localidades específicas do Vale do Paraíba e em regiões circunvizinhas. Hucitec, 1987.
8 SALLES, Ricardo. Nostalgia imperial: a formação da identidade nacional no Brasil do Segundo
3 DEAN, Warren. Rio Claro: a Brazilian plantation system, 1820-1920. Stanford: Stanford University Reinado. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996. A segunda edição traz o título modificado para Nostalgia
Press, 1976. E em português Rio Claro: um sistema brasileiro de grande lavoura, 1820-1920. São imperial: escravidão e formação da identidade nacional no Brasil do Segundo Reinado (Rio de
Paulo: Paz e Terra, 1977. Janeiro: Ponteio, 2013).
4 COSTA, Emilia Viotti da. Da senzala à colônia. São Paulo: DIFEL, 1966; FRANCO, Maria Sylvia 9 NEEDELL, Jeffrey. The Party of Order: the conservatives, the State, and slavery in the Brazilian
Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo: IEB, 1969. Monarchy, 1831-1871. Stanford: Stanford University Press, 2006.

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Império do Brasil, de 2011.10 A centralidade do Vale do Paraíba na formação A noção de Bacia do Paraíba, acima esboçada, que atravessa, explícita
do Império foi ainda tematizada por Mariana Muaze, em As memórias da ou implicitamente, diversos dos capítulos desse livro, estruturou-se, his-
viscondessa, e por Ricardo Salles, em E o Vale era o escravo, ambos de 2008.11 tórica e conceitualmente, em torno da escravidão. Não apenas a escravi-
Uma primeira questão que surge quando se busca entender o Vale do dão remanescente do regime colonial, mas uma escravidão em interação
Paraíba no século XIX brasileiro diz respeito à “definição” do que vinha a ser com a construção de Estados nacionais e com a expansão internacional
essa região. O Vale do Paraíba, de um ponto de vista estritamente geográfico, do mercado capitalista. Uma Segunda Escravidão, de acordo com o con-
compreende as terras banhadas pelo Rio Paraíba do Sul na parte leste do atual ceito cunhado pelo historiador norte-americano Dale Tomich, igualmente
estado de São Paulo e oeste do Rio de Janeiro. Entretanto, já para os contem- presente como fonte de inspiração e de debate nessa obra. Essa Segunda
porâneos do século XIX, a denominação carregava outros significados: café, Escravidão se expandiu, exatamente no momento em que a escravidão
grandes propriedades e proprietários rurais e escravidão. Mais ainda, a região colonial era abolida, pela Revolução Haitiana, e por guerras e reformas
era percebida como esteio econômico do Império e o locus de sua classe domi- em outras regiões americanas. Ela alimentou e, ao mesmo tempo, derivou
nante. Nenhuma outra região, ao longo do Segundo Reinado, foi berço de tan- de um conjunto de tendências e acontecimentos históricos, na virada do
tos títulos nobiliárquicos quanto o Vale. Essa simples designação, aliás, já era século XVIII para o XIX, cujo epicentro foi a Revolução Industrial e a conso-
suficiente para passar a ideia de uma região que compreendia muito mais que lidação da hegemonia britânica no plano internacional. Esses acontecimen-
sua inscrição geográfica. Nessa área, historicamente construída, as relações tos e processos levaram a reconfigurações profundas no mercado mundial,
políticas, econômicas, sociais e culturais emprenharam de significados o aci- acarretando um crescente desequilíbrio nos preços internacionais entre
dente geográfico que lhe servia de base territorial.12 Econômica e socialmente, produtos industrializados e agrícolas; o incremento do consumo de deter-
esse Vale se estendia para o conjunto da província do Rio de Janeiro, para o minados produtos, como o café e o açúcar, demandados pelo aumento da
Oeste Velho paulista e para a Zona da Mata mineira. Ele ainda alimentava eco- população de trabalhadores e da classe média nas cidades da Inglaterra e da
nomicamente o porto e a praça do Rio de Janeiro, e, política e culturalmente,
Europa; a procura por novas matérias-primas, como o algodão. Em regiões
estava em estreita simbiose com a Corte imperial. Por isso, seguindo Orlando
como Cuba, o sul dos Estados Unidos e o Brasil, a escravidão expandiu-se
Valverde, talvez o mais correto fosse falar em Bacia do Paraíba, região que
numa escala maciça para atender a essa crescente demanda mundial por
compreenderia todas essas áreas e suas configurações socioeconômicas.13
essas commodities. Dessa forma, e ainda de acordo com Tomich, a Segunda
Escravidão não seria uma premissa histórica do capitalismo, pressupondo,
10 PARRON, Tâmis. A política da escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2011. Pelo menos três outros trabalhos recentes trataram da política imperial bus-
ao contrário, sua existência como condição para sua reprodução.14
cando afastar-se ou mesmo criticar as teses clássicas de Ilmar Rohloff de Mattos e José Murilo de O terceiro conceito histórico que anima muitas das discussões travadas
Carvalho: DOLHNIKOFF, Miriam. O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil. São Paulo: neste livro é o de classe senhorial. A noção, elaborada por Ilmar R. de Mattos,
Globo, 2005; MARTINS, Maria Fernanda Vieira. A velha arte de governar: um estudo sobre polí-
tica e elites a partir do Conselho de Estado – 1842-1889. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2007; entende a classe senhorial como uma formação histórica particular que
GOUVÊA, Maria de Fátima. O Império das províncias: Rio de Janeiro, 1822-1889. Rio de Janeiro: teve seus comportamento e valores moldados na escravidão, em particular
Record, 2008. Jeffrey Needell, em The Party of Order (já citado), por sua vez, critica a noção de
classe senhorial de Mattos, sem se deter na tese de Carvalho, ainda que o citando constantemente, naquela praticada no Vale do Paraíba, e em íntima conexão com a constru-
e adotando a terminologia de elite política para designar os dirigentes imperiais. ção do Estado e da ordem imperiais.15 A espinha dorsal da classe senhorial
11 MUAZE, Mariana. As memórias da viscondessa: família e poder no Brasil Império. Rio de Janeiro: foi constituída pelos grandes proprietários escravistas, notadamente aque-
Zahar, 2008; SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX – senhores e escravos
no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. les da região da Bacia do Paraíba, e, em especial, por aqueles que detinham,
12 Para o conceito de região como construção histórica aplicado especificamente ao Vale do Paraíba às vezes, mais de uma centena de escravos. Eram os megaproprietários de
e, mais amplamente, à província fluminense como um todo, ver MATTOS, Ilmar R. de. O Tempo
Saquarema: a formação do Estado imperial. São Paulo: Hucitec, 1987. 14 TOMICH, Dale. Pelo prisma da escravidão: trabalho, capital e economia mundial. São Paulo: Edusp,
13 VALVERDE, Orlando. A fazenda escravocrata de café. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro: 2011. Sobre a Segunda Escravidão e o Vale do Paraíba, ver capítulo 1 adiante.
IBGE, v. 29, n. 1, p. 37-81, jan.-mar. 1967. 15 Ver MATTOS, 1987. Ver também SALLES, 2008; MUAZE e PARRON, 2011.

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cativos que, em conjunto com os grandes proprietários, possuidores de 50 nos espaços definidos pelas grandes propriedades rurais. A terceira e última
ou mais escravos, tinham o controle sobre mais de 70% do total da popu- parte, “Capital, economia e finanças”, composta por 6 capítulos, analisa as
lação cativa do Vale.16 Muitos desses megaproprietários eram proprietários relações e implicações financeiras derivadas da economia cafeeira, o papel
de várias fazendas e outros negócios, diretamente ligados ao ramo do café, da tecnologia, especialmente da ferrovia na manutenção da escravidão e da
como casas comissárias, por exemplo, além de ativos financeiros variados, ordem senhorial, o papel econômico e financeiro da Baixada Campista na
constituindo verdadeiros complexos cafeeiros.17 Constituíam-se em verda- conformação da região histórica da Bacia do Paraíba.
deiros potentados que, em alguns casos, estendiam suas redes de negócios Alguns dos capítulos que se seguem já foram anteriormente publicados
por mais de uma localidade e mesmo província. Entretanto, a classe senho- em revistas, livros e outros espaços de divulgação. Sua reunião no âmbito de
rial, associada à escravidão e à grande propriedade rural, não se formava uma mesma publicação, muitas vezes com modificações, visa salientar sua
apenas em seu fazer econômico. Formava-se, com todo um modo de vida, importância e complementaridade. Em sua maioria, tais trabalhos, inclu-
um habitus, entendido como formas de ser, sentir e agir não apenas reflexi- sive, se desenvolveram e se alimentaram mutuamente no âmbito de discus-
vas, coetâneo com o habitus aristocrático do mundo europeu do século XIX, sões e atividades coletivas que resultaram neste livro.
marcado, no entanto, pela ascensão da burguesia.18 Fruto desse movimento e esforço coletivos de pesquisa, o livro visa
Esses e outros conceitos históricos, bem como análises sobre temas e repor, direta ou indiretamente, a questão da centralidade do Vale do Paraíba
localidades específicas, serão apresentados e debatidos nas três partes em na configuração do Império do Brasil na agenda de debates historiográfi-
que se divide essa obra. A primeira, intitulada “Interpretações e grandes cos. Muito desse esforço foi realizado através de pesquisas individuais con-
questões sobre a Bacia do Paraíba”, está subdividida em quatro capítulos, duzidas nos âmbitos de diferentes departamentos e programas de pós-gra-
onde são apresentadas grandes linhas interpretativas sobre o Vale e seu duação, institutos de pesquisa, em instituições públicas e privadas, sediadas
papel na configuração socioeconômica e política do Império. A segunda nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e em Binghamton,
Nova York, nos Estados Unidos.19 Uma parte significativa dessa empreitada,
parte, “População e sociedade”, se estrutura em 10 capítulos que abordam
que sem dúvida reflete esse esforço individual disseminado por diferentes
questões como a ocupação do Vale e extermínio das populações indíge-
instituições, no entanto, resulta de trabalho coletivo que vem se desenvol-
nas que ali viviam, a formação da cafeicultura, o papel desempenhado por
vendo ao menos nos últimos cinco anos, tanto em nível regional no Brasil
aqueles que, sem serem senhores ou escravos, não obstante pontuavam
quanto em nível internacional em diferentes redes de pesquisas.
aquele mundo, o tráfico internacional de escravos para a região, a forma-
Historiar esse trabalho e os resultados expressivos obtidos até agora
ção de grandes complexos cafeeiros, as relações entre senhores e escravos
demandaria um capítulo à parte, o que foge ao escopo dessa introdução.
16 A ideia de megaproprietário está em: BORGES, Magno Fonseca. Protagonismo e sociabilidade escrava Cabe, contudo, nomear suas articulações e eventos mais significativos. Em
na implantação e ampliação da cultura cafeeira: Vassouras – 1821-1850. 2005. Dissertação (Mestrado
em História Social) – Departamento de História, Universidade Severino Sombra, Vassouras, 2005; primeiro lugar, vale mencionar o Seminário Internacional O Século XIX e as
e SALLES, op. cit. Para Vassouras, cf. SALLES, op. cit. e BORGES, op. cit. Para Bananal, ver MORENO, Novas Fronteiras da Escravidão, realizado no Rio de Janeiro e em Vassouras,
Breno A. S. Demografia e trabalho escravo nas propriedades rurais cafeeiras de Bananal, 1830-
1860. 2013. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências em agosto de 2009. Muitas das ideias debatidas aqui tiveram sua origem ou
Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Pesquisas preliminares em Piraí indicam se ampliaram e consolidaram neste evento. Em segundo lugar, não poderia
igual ou maior grau de concentração da propriedade escravista.
deixar de constar o grupo internacional de pesquisadores articulados em
17 Para a ideia de complexo cafeeiro, ver os capítulos 2 e 9 adiante. João Fragoso e Ana Maria Lugão
Rios trabalharam também com a noção de fazendeiro capitalista, como aquele que diversificava torno da Second Slavery Research Network, que tem seu centro de animação
seus investimentos, ver FRAGOSO, João Luís; RIOS, Ana Maria L. Comendador Aguiar Vallim: um
empresário brasileiro dos oitocentos. In: CASTRO, Hebe Maria M. de; SCHNOOR, Eduardo (Org.). 19 Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, Universidade Federal Fluminense
Resgate: uma janela para o oitocentos. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. – UFF, Universidade do Estado do rio de Janeiro – UERJ, Museu de Astronomia e Ciências Afins –
18 Sobre a marca aristocrática do habitus da classe senhorial, ver MUAZE, op. cit. Sobre o conceito de MAST, Universidade Severino Sombra – USS, Fundação Educacional Dom André Arcoverde – FAA,
habitus em geral, ver ELIAS, Norbert. A sociedade de Corte. 2. ed. Lisboa: Estampa, 1995; e ELIAS, Universidade de São Paulo – USP, Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e Universidade
Norbert. O processo civilizador. São Paulo: Zahar, 1993. v. 2. (E volume 1 de 1994). Estadual de Nova York – SUNY.

16 17
no Fernand Braudel Center for the Study of Economies, Historical Systems,
and Civilizations, em Binghamton, EUA, e que conta com a participação
direta de alguns dos autores deste volume.
No entanto, a principal vertente formadora dos debates e ideias conti-
dos aqui é o Grupo de Pesquisas O Vale do Paraíba e a Segunda Escravidão,
que busca reunir, em seminários, simpósios, grupos de discussão e outras
formas de intercâmbio intelectual, pesquisadores e estudantes de diferen-
tes instituições que tenham por fio condutor ou pano de fundo de suas
pesquisas a região da Bacia do Paraíba do Sul no século XIX.20 O grupo PARTE I
vem promovendo seminários anuais desde 2010. O primeiro deles foi rea-
lizado em Vassouras, naquele mesmo ano; o segundo, em Bananal, no ano Interpretações e grandes questões sobre a Bacia do Paraíba
seguinte; o terceiro, novamente em Vassouras, em 2013; e o último, em 2014,
novamente nesta cidade. Estes dois últimos eventos foram promovidos no
âmbito do projeto de pesquisa “O Vale do Paraíba no século XIX e nas pri-
meiras décadas da República”, apoiado pela FAPERJ em seu Programa de
Apoio a Núcleos Emergentes – PRONEM, em sua edição de 2011.21 Membros
do grupo organizaram e participaram ainda de um simpósio temático no
Encontro Regional da Associação Nacional dos Historiadores, seção Rio de
Janeiro – ANPUH-Rio, em 2012, e, novamente, no Encontro de 2014.
Assim, essa iniciativa é um ponto de chegada e, ao mesmo tempo, um
ponto de partida para novas pesquisas e interpretações da escravidão e seu
papel na ascensão e queda do Império do Brasil.

Mariana Muaze
Ricardo Salles
Dezembro de 2014

20 Em seu último seminário, realizado em maio de 2014, em Vassouras, o grupo resolveu ampliar
o escopo de suas atividades e pesquisas e passou a se chamar O Império do Brasil e a Segunda
Escravidão.
21 As instituições participantes do projeto são: UNIRIO, UFF, FCRB, USS, através do antigo Centro de
Documentação Histórica de Vassouras (CDH), a Prefeitura Municipal de Piraí, através de seu Arquivo
Histórico Municipal, e, agregando-se mais tarde, o Museu Casa da Hera, do IBRAM, em Vassouras.

18
O Vale do Paraíba escravista e a formação
do mercado mundial do café no século XIX1
Rafael Marquese
Dale Tomich

a montagem da cafeicultura brasileira na historiografia


Será de ora em diante o escudo de armas deste Reino do Brasil, em campo
verde uma esfera armilar de ouro atravessada por uma cruz da Ordem de
Cristo, sendo circulada a mesma esfera de 19 estrelas de prata em uma orla
azul; e firmada a coroa real diamantina sobre o escudo, cujos lados serão abra-
çados por dois ramos das plantas de café e tabaco, como emblemas da sua
riqueza comercial, representados na sua própria cor, e ligados na parte infe-
rior pelo laço da Nação.2

Essas palavras, firmadas por D. Pedro em 18 de setembro de 1822, estabe-


leciam o escudo de armas a ser gravado na bandeira do Estado nacional
recém-instituído. A letra do decreto expressava, antes de tudo, uma aposta
para o futuro. Naquela altura, ainda que suas exportações verificassem cres-
cimento acelerado há cerca de uma década, o café brasileiro estava longe de
ser um “emblema da riqueza nacional”. Se o escudo pretendesse efetivamente
traduzir o quadro econômico do novo Império, deveria trazer feixes de cana
de açúcar, fardos de algodão e um navio negreiro. A aposta embutida simbo-
licamente no decreto, no entanto, logo demonstraria ter sido certeira.
Com efeito, em 1828, o Brasil despontava como o maior produtor
mundial do artigo. Ao longo da década seguinte, os valores obtidos com
1 Uma versão anterior desse capítulo apareceu em GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo (Org.).
O Brasil Imperial: 1831-1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. v. II, p. 339-383. Para a
presente edição, atualizamos a bibliografia e efetuamos algumas pequenas correções. O capítulo
foi originalmente escrito no âmbito do projeto coletivo “The world of the plantation and the world
the plantations made: the ‘great house tradition’ in the american landscape”, que contou com uma
Collaborative Research Grant da Getty Foundation entre 2005 e 2009.
2 D. PEDRO I, 1822 apud SCHWARCZ, Lilia Moritiz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca
nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 179.

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sua exportação ultrapassariam o que o país amealhava com o envio de à crise da mineração e à retomada das atividades agroexportadoras na
açúcar ao mercado mundial.3 Quase toda essa produção, ademais, vinha virada do século XVIII para o XIX. De acordo com essa interpretação, o
de uma única região. O vale do rio Paraíba do Sul, ou simplesmente Vale café, plenamente adequado às condições naturais do centro-sul do Brasil
do Paraíba, compreendendo terras das províncias de São Paulo, Rio de (terras virgens, clima, altitude, proximidade dos portos litorâneos), come-
Janeiro e Minas Gerais, passou por uma completa alteração no curso de çou a ser produzido em larga escala no momento que a demanda mundial
duas gerações. Relativamente desocupado em 1800, cinquenta anos depois aumentou, após a revolução escrava de Saint-Domingue e o arranque da
havia adquirido o caráter de típica região escravista de plantation. Algo industrialização nos países centrais, mobilizando, para tanto, os recursos
semelhante havia ocorrido em outros momentos e espaços na história do ociosos – capitais e escravos – derivados da crise da mineração.6 Em que
Brasil, como na Zona da Mata pernambucana e no Recôncavo Baiano na pesem as variações de ênfase, todos esses estudos se prenderam ao que
passagem do século XVI para o XVII, ou no Maranhão e em Campos dos Stuart Schwartz denominou como o “paradigma dependentista” de análise
Goitacases nas décadas finais do século XVIII. A escala do que se verificou do passado colonial brasileiro, ou seja, um modelo de interpretação que
no Vale do Paraíba na primeira metade do século XIX, contudo, foi inédita, ressaltava seu caráter escravista, agroexportador, voltado para a geração de
e, seu impacto para a conformação do Estado nacional brasileiro, decisivo. riquezas nos centros da economia mundial capitalista.7
Já se escreveu que, se a cafeicultura tivesse deitado raízes em outra região do Os esforços de revisão desse modelo promovidos a partir da década
território nacional e não nas proximidades da Corte, a história do Império de 1970, aliados à verificação empírica de que o estoque de mão de obra
bem poderia ter sido outra.4 Daí o dito oitocentista “o Brasil é o Vale”, com escrava empregada nos primeiros cafezais não era aquele das antigas zonas
larga carreira no senso comum e mesmo na historiografia. Mas não apenas de mineração, levou alguns historiadores a modificarem as lentes utilizadas
isso. Poder-se-ia igualmente afirmar que o café como produto de massa era para a análise da formação da cafeicultura brasileira. O foco, agora, passou
o Vale. Afora o completo domínio que o Brasil assumiu no mercado mun- a incidir sobre a dinâmica societária local. Um bom exemplo dessa perspec-
dial do artigo ao longo do século XIX, o volume inaudito de sua produção tiva é o trabalho de João Fragoso.8 Com base na constatação de que a expan-
foi central para a própria transformação da natureza daquele mercado, que são definitiva da produção escravista de café do Vale do Paraíba ocorreu em
passou das restrições ligadas ao consumo de luxo para a escala qualitativa- uma conjuntura de queda nos preços internacionais do artigo (1822-1830),
mente distinta do consumo de massa.5 Fragoso voltou sua análise para as formas de produção e de circulação
As articulações entre o mercado mundial e a montagem da cafeicul-
tura brasileira estiveram na pauta de investigação dos pesquisadores desde 6 Ver, a propósito, os trabalhos clássicos de SIMONSEN, Roberto. Aspectos da História econômica
do café. Separata de: Revista do Arquivo, São Paulo, 1940; PRADO JR., Caio. História econômica do
a década de 1940. Encarando a formação da cafeicultura como uma espécie Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.159-167. 1. ed. 1945; STEIN, Stanley J. Vassouras: um município
de “destino manifesto” do Brasil, os historiadores tenderam a relacioná-la brasileiro do café, 1850-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. 1. ed. 1957; FURTADO, Celso.
Formação econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1974. p. 110-116. 1. ed.
3 Todos os dados referentes à produção mundial de café citados neste capítulo – exceto quando 1959; VALVERDE, Orlando. A fazenda de café escravocrata no Brasil. In: ___. Estudos de geografia
fornecemos outra referência – foram retirados do cuidadoso apêndice preparado por Mario agrária brasileira. Petrópolis: Vozes, 1985. 1. ed. 1965; COSTA, Emília Viotti da. Da senzala à colônia.
Samper e Radin Fernando para o livro editado por William Gervase Clarence-Smith e Steven São Paulo: Brasiliense, 1989. 1. ed. 1966; CANABRAVA, Alice P. A grande lavoura.
Topik, The Global Coffee Economy in Africa, Asia, and Latin América, 1500-1989 (Cambridge, 7 Cf. SCHWARTZ, Stuart B. Da América portuguesa ao Brasil: estudos históricos. Lisboa: Difel, 2003.
UK: Cambridge University Press, 2003. p. 411-62). Os dados referentes aos valores relativos das
8 Cf. FRAGOSO, João. Comerciantes, fazendeiros e formas de acumulação em uma economia escravista-
exportações brasileiras podem ser vistos em PINTO, Virgílio Noya. Balanço das transformações
colonial: Rio de Janeiro, 1790-1888. 1990. 3 v. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Ciências
econômicas no século XIX. In: MOTA, C. G. Brasil em perspectiva. São Paulo: Difusão Européia do
Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1990; FRAGOSO, João Luís Ribeiro.
Livro, 1968. p. 152; e CANABRAVA, Alice P. A grande lavoura. In; ___. História Econômica: estudos e
Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-
perspectivas. São Paulo: ABPHE: Hucitec: Ed. Unesp, 2005. p. 166. 1. ed. 1971.
1830). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992; FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. O arcaísmo
4 Cf. DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica Brasileira. São Paulo: como projeto: mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil em uma economia colonial
Companhia das Letras, 1996. p. 195. tardia – Rio de Janeiro (c.1790-c.1840). Ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001;
5 Cf. TOPIK, Steven. The Integration of the World Coffee Market. In: CLARENCE-SMITH, W. G.; FRAGOSO, João. Barões do café e o sistema agrário escravista: Paraíba do Sul / Rio de Janeiro (1830-
TOPIK, S. (Org.). The Global Coffee Economy in Africa, Asia, and Latin América, 1500-1989, p. 21-49. 1888). Rio de Janeiro: 7Letras, 2013.

22 23
articuladas em torno da praça mercantil do Rio de Janeiro. Configurando É o que pretendemos fazer neste capítulo, que tratará do papel do Vale
um “mosaico de formas não-capitalistas de produção”, elas teriam permi- do Paraíba na formação do mercado mundial do café ao longo do século
tido a acumulação de capitais nas mãos dos grandes negociantes residentes XIX. Por um lado, a análise do quadro global partirá do pressuposto de que
no Rio de Janeiro, que monopolizavam o tráfico negreiro transatlântico e os espaços produtivos mundiais se formaram uns em relação aos outros. A
operavam no mercado interno. Esses capitais, por sua vez, teriam sido rein- unidade submetida à análise, por conseguinte, não serão as colônias ou os
vestidos em larga escala na produção escravista em zonas de fronteira, a países agro-exportadores tomados de forma isolada, mas sim a arena mais
despeito de sua lucratividade menor em relação às atividades mercantis. O ampla da economia-mundo. Isso é tanto mais premente para o caso dos
movimento todo seria impulsionado pelo ideal “arcaico” que conformava artigos tropicais: como iremos indicar no capítulo, os movimentos do café
o êthos senhorial-escravista, isto é, a posse de terras e homens como sinal e do açúcar guardaram uma estreita relação nos séculos XVIII e XIX. Por
decisivo de distinção social. Nas palavras de Fragoso, “no sistema abor- outro lado, a análise do quadro local levará em conta não apenas a com-
dado, o investimento na produção está subordinado a uma lógica que é a posição regional de terra, trabalho e capital, mas igualmente a dinâmica
da recorrência de uma dada estratificação assentada nas diferenças entre política, vale dizer, as relações entre fazendeiros, trabalhadores escraviza-
os grupos sociais, via prestígio”.9 Nada, portanto, de resposta às demandas dos e o Estado nacional. A formação da cafeicultura escravista brasileira
do mercado mundial: a cafeicultura escravista brasileira teria sido montada dependeu de ações políticas concertadas, no plano da esfera nacional, para
única e exclusivamente em razão das ações locais. criar as condições institucionais necessárias para o arranque da atividade
As inconsistências empíricas e teóricas do modelo de Fragoso – uma e o consequente controle do mercado mundial do artigo. Essas ações inci-
espécie de espelho invertido do “paradigma dependentista” – já foram diram fundamentalmente no campo da política da escravidão. O período
devidamente criticadas pelos historiadores.10 Em todas essas críticas, ou de montagem das grandes unidades cafeicultoras do Vale Paraíba avançou
mesmo nas interpretações mais recentes acerca do tema,11 os pesquisadores na fase de ilegalidade do tráfico negreiro transatlântico (1835-1850), com a
ressaltam a impossibilidade de compreender o processo de montagem da aquisição de escravarias que, de acordo com a lei imperial de 7 de novembro
cafeicultura escravista brasileira sem se remeter a processos globais mais de 1831, seriam formalmente livres. Sem a existência de um quadro interno
amplos, examinando suas interconexões com as condições locais. que desse segurança política e jurídica aos senhores possuidores de africa-
nos ilegalmente escravizados, certamente o Brasil não despejaria nos portos
e armazéns do hemisfério norte as sacas de café com as quais dominou o
9 FRAGOSO, 1992, p. 297. mercado mundial do produto no século XIX.
10 As críticas foram apresentadas, sobretudo, por GORENDER, Jacob., A escravidão reabilitada. São
Paulo: Ática, 1990. p. 81-83; SCHWARTZ, Stuart B. Somebodies and Nobodies in the Body Politic:
mentalities and social structures in colonial Brazil. Latin American Research Review, Albuquerque: a era das revoluções e os novos produtores
University of New Mexico Press, v. 31, n. 1, p. 113-134, 1996; MARIUTTI, Eduardo; NOGUERÓI, Luiz; na arena mundial, c.1790-1830
DENIELI NETO, Mario. Mercado interno colonial e grau de autonomia: crítica às propostas de João
Luís Ribeiro Fragoso e Manolo Florentino. Estudos Econômicos, São Paulo: Edusp, v. 31, n. 2, p. 369-
93, 2001; TEIXEIRA, Rodrigo Alves. Capital e colonização: a constituição da periferia do sistema
A despeito de o café ter sido, desde o século XVI, um dos mais valiosos
capitalista mundial. In: PIRES, Julio Manuel; COSTA, Iraci del Nero da (Org.). O capital escravista- bens agrícolas a entrar nos circuitos mercantis internacionais, os poderes
mercantil e a escravidão nas Américas. São Paulo: Educ, 2010. p. 195-199. Ver, também, MARQUESE, coloniais europeus demoraram a produzi-lo. Até fins do século XVII, os oto-
Rafael de Bivar. As desventuras de um conceito: capitalismo histórico e a historiografia sobre a
escravidão brasileira. Revista de Historia, São Paulo: USP, n. 169, p. 223-253, 2. sem. 2013. manos monopolizaram essa esfera.12 Os primeiros europeus a granjearem
11 Como, por exemplo, os trabalhos de LUNA, Francisco Vidal; KLEIN, Herbert S. Evolução da
sociedade e economia escravista de São Paulo, de 1750 a 1850. São Paulo: Edusp, 2005. p. 81-106; e 12 Cf. TUCHSCHERER, Michel. Coffee in the Red Sea Area From the Sixteenth to the Nineteenth
TOPIK, Steven; SAMPER, Mario. The Latin American Coffee Commodity Chain: Brazil and Costa Century. In: CLARENCE-SMITH, W. G.; TOPIK, S. (Org.). The Global Coffee Economy in Africa,
Rica. In: TOPIK, S.; MARICHAL, C.; FRANK, Z. (Org.). From Silver to Cocaine: Latin American Asia, and Latin América, 1500-1989, p. 50-66. Ver, também, o volume editado por esse historiador:
commodity chains and the building of the world economy, 1500-2000. Durham: Duke University TUCHSCHERER, Michel. Le commerce du café avant l’ ère des plantations coloniales. Le Caire: Institut
Press, 2006. p. 147-173. Français D’Archéologie Orientale, 2001.

24 25
o artigo foram os holandeses. Na década de 1690, a Companhia das Índias de poucos capitais.16 O sucesso econômico da cafeicultura acirrou, na década
Orientais (V.O.C.) implantou seu cultivo em Java, no que logo foi seguida de 1780, os conflitos entre esses grupos racialmente subalternos, mas endi-
pelos franceses em Reunión. Na década de 1720, quando o arbusto foi nheirados, e a população branca da colônia, vale dizer, os grandes empresá-
também aclimatado em colônias do Novo Mundo (Suriname, Martinica, rios açucareiros e os brancos pobres (petits blancs). Esse quadro altamente
Guadalupe), holandeses e franceses introduziram pela primeira vez quan- explosivo veio abaixo com os eventos revolucionários metropolitanos. A
tidades substantivas do gênero nos mercados metropolitanos. Até meados instituição da Assembleia Nacional em Paris, no ano de 1789, estimulou de
dos setecentos, contudo, o volume não foi vultoso em vista do que seria imediato os anseios autonomistas das classes senhoriais antilhanas. Ainda
obtido posteriormente: os holandeses não lograram produzir em Java mais no segundo semestre de 1789, os senhores das diversas ilhas francesas, nota-
do que 2.500 toneladas anuais, volume um pouco inferior ao que os france- damente os de Saint-Domingue, formaram Assembleias coloniais para lutar
ses obtinham na Martinica na década de 1750.13 por maior liberdade política e econômica. Entretanto, não foram apenas
O salto na produção a cargo dos europeus ocorreu após a Guerra dos Sete os proprietários escravistas brancos que se articularam para obter ganhos
Anos, em larga medida por conta da explosão cafeeira de Saint-Domingue. com a nova conjuntura política: os homens livres de cor, negros e mula-
As exportações dessa colônia pularam do patamar de cerca de 3.100 t, em tos, muitos dos quais lastreados nos recursos obtidos com o café, também
1755, para perto de 34.000 t, em 1790. Na última data, a produção dos fran- se mobilizaram, buscando ampliar seus direitos políticos. Os proprietários
ceses nas Antilhas e no Índico (Saint-Domingue, Martinica, Guadalupe, escravistas negros e mulatos exigiam em especial o direito de participação
Caiena, Reunión) somava cerca de 48.000 t, algo equivalente a 70 % do total nas eleições para a Assembleia colonial. O conflito entre negros e mulatos
do globo, estimado em 69.400 t. Como se vê, às vésperas da revolução, Saint- livres, por um lado, e brancos, por outro, acirrou-se durante o ano de 1790,
Domingue era, por si só, responsável por metade da produção mundial de distendendo-se logo em confronto aberto. Até meados de 1791, essas lutas
café, afora cerca de um terço da produção mundial de açúcar.14 Esse mercado, não comprometeram a economia escravista de Saint-Domingue. A grande
contudo, era relativamente restrito, limitado ao consumo de luxo das cama- virada veio em agosto deste ano: a impressionante revolta dos escravos da
das urbanas da Europa continental e do Levante Asiático.15 parte norte da colônia acabou de vez com o equilíbrio precário que vinha
O crescimento da cafeicultura em Saint-Domingue esteve no coração sendo mantido entre brancos e mulatos desde 1789.17
dos eventos que conduziram à revolução. Por razões técnicas e ecológicas, Não cabe aqui sumariar o processo revolucionário que levou, em janeiro
as terras inicialmente cultivadas com os pés de café foram aquelas que não de 1804, à proclamação do segundo Estado soberano do Novo Mundo.
eram empregadas na empresa açucareira, isto é, os outeiros – ou mornes ­– Importa que a Revolução do Haiti, no curso de seus quinze anos, além de
do interior da colônia, cuja geomorfologia impedia a formação de grandes ter acabado nos campos de batalha com a escravidão negra e assombrado os
unidades rurais. Com exigências iniciais de inversão bem menores que o poderes escravistas em todo hemisfério americano, alterou por completo a
açúcar, a atividade cafeeira oferecia uma via de acumulação de riqueza e configuração da oferta mundial de café e de açúcar. Mesmo que o primeiro
mobilidade social aberta aos pequenos e médios proprietários escravistas, artigo tenha continuado a ser cultivado – agora em bases camponesas – no
sobretudo ao número crescente de mulatos e negros livres que dispunham país recém-independente, ao contrário do abandono do açúcar,18 somente

13 Cf. MAY, Louis-Philippe. Histoire Économique de la Martinique (1635-1763). Fort-de-France: Société 16 Cf. TROUILLOT, Michel-Rolph. Motion in the System: coffee, color, and slavery in eighteenth-
de Distribution et de Culture, 1972. 1. ed. 1930. century Saint-Domingue; GIRAULT, Christian A. Girault. Le commerce du café en Haïti: habitants,
14 Cf. FERNÁNDEZ, Doria González. Acerca del mercado cafetelero cubano durante la primeira mitad spéculateurs et exportateurs. Paris: C.N.R.S., 1981. p. 55.
del siglo XIX. Revista de la Biblioteca Nacional José Martí, Habana, n. 2, p. 154, 1989; TROUILLOT, 17 A melhor análise recente da Revolução de Saint-Domingue está no livro de DUBOIS, Laurent.
Michel-Rolph. Motion in the System: coffee, color, and slavery in eighteenth-century Saint- Avangers of the New World: the story of the Haitian Revolution. Cambridge, MA: Harvard University
Domingue. Review, New York: Research Foundation of SUNY, v. 5, n. 3, p. 337, Winter 1982. Press, 2004.
15 VRIES, Jan de. The Industrious Revolution: consumer behavior and the household economy, 1650 to 18 Sobre as implicações políticas desta reconfiguração, ver TROUILLOT, Michel-Rolph. Haiti, State against
the present. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2008. p. 183. the Nation: the origins and legacy of duvalierism. New York: Monthly Review Press, 1990, p. 36-82.

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em fins do século XIX a produção de café voltou ao patamar anterior à revo- As terras empregadas na cafeicultura jamaicana eram diferentes das
lução, ou seja, à cifra de 30.000 toneladas anuais; nos anos do conflito e nas que se utilizavam no negócio açucareiro, por razões semelhantes às regis-
décadas imediatamente posteriores, o volume caiu para mais da metade do tradas para a colônia francesa. Ainda que, no que se refere àquele insumo,
que era em 1790. Em uma conjuntura de curva ascendente do consumo, a não houvesse competição entre o açúcar e o café, o mesmo não se pode afir-
retirada brusca de Saint-Domigue do mercado teve impacto imediato sobre mar em relação ao fator trabalho. O quadro se agravou sobremaneira após a
as demais zonas cafeicultoras mundiais. abolição do tráfico transatlântico de escravos para as colônias inglesas, não
De início, os espaços que mais se aproveitaram do vácuo de Saint- sendo de estranhar que o ponto máximo da cafeicultura jamaicana tenha
Domingue foram os que já produziam café antes de 1790. Tome-se, em pri- sido atingido justamente em 1808. Para além da exaustão ecológica e do
meiro lugar, o caso das possessões britânicas. Ao longo do século XVIII, restrito consumo metropolitano,22 os cafeicultores jamaicanos precisaram
a produção cafeeira cresceu lentamente nas Antilhas inglesas, muito por enfrentar, na esfera local, a demanda de braços escravos por parte dos enge-
conta da política tarifária adotada pela metrópole. Por volta de 1730, o nhos de açúcar, que mantiveram a duras penas sua viabilidade econômica
governo imperial estabeleceu uma pesada taxação sobre as importações de nas décadas seguintes. Não obstante a queda de competitividade, decor-
café, com o objetivo de proteger o trato asiático do chá comandado pela rente de quase dois séculos de exploração ininterrupta e de uma planta agro
Companhia Inglesa das Índias Orientais (E.I.C.).19 Na década de 1780, com a manufatureira inadequada diante das novidades trazidas por seus concor-
redução dessas tarifas, a produção colonial aumentou, a ponto de a Jamaica rentes internacionais diretos, nas três primeiras décadas do século XIX os
obter cerca de 1.000 toneladas métricas em 1790. Com o levante escravo engenhos de açúcar jamaicanos provaram ser mais eficazes que seus con-
no norte de Saint-Domingue e a radicalização do processo revolucionário, gêneres cafeeiros.23 Problema análogo de competição entre os engenhos de
a resposta dos senhores de escravos jamaicanos foi imediata. A produção açúcar e as fazendas de café pelos cativos cada vez mais escassos, sempre em
saltou para 6.000 t nos anos finais do século XVIII, atingindo o pico histó- prejuízo das últimas, verificou-se em Demerara, antiga possessão holan-
rico de 13.500 t em 1808.20 Foi nesta conjuntura que P.J. Laborie, cafeicultor desa adquirida pelos ingleses no curso das revoluções atlânticas.24
escravista de Saint-Domingue refugiado na Jamaica, escreveu – em inglês De todo modo, se os proprietários jamaicanos aproveitaram satisfato-
– seu famoso livro, reportado por boa parte do século XIX como o manual riamente o vácuo de Saint-Domingue nas décadas de 1790 e 1800, o mesmo
agronômico mais importante sobre o assunto, traduzido para o português e não se pode afirmar da V.O.C. no espaço do Índico, algo tanto mais notável
o espanhol já na década de 1800.21 em vista do papel que Java desempenharia no mercado mundial a partir da
década de 1830. Na verdade, durante todo o século XVIII, a oferta javanesa
19 Cf. SMITH, S. D. Accounting for Taste: British coffee consumption in historical perspective. Journal
of Interdisciplinary History, Cambridge: MIT Press Journals, v. 27, n. 2, p. 183-214, Autumn 1996. foi inelástica. Nos primeiros anos de exploração sistemática da atividade,
20 Cf. SMITH, S. D. Sugar’s Poor Relation: coffee planting in the British West Indies, 1720-1833. Slavery
os procedimentos de tradução de Laborie para o espanhol e o português, que muito revela sobre
and Abolition: A Journal of Slave and Post-Slave Studies, Coventry, v. 19, n. 3, p. 73, December 1998;
o corte que o Vale do Paraíba trouxe para o mercado mundial do café, ver MARQUESE, Rafael de
HIGMAN, B. W. Jamaica Surveyed: plantation maps and plans of the eighteenth and nineteenth
Bivar. A ilustração luso-brasileira e a circulação dos saberes escravistas caribenhos: a montagem da
centuries. Kingston: University of the West Indies Press, 2001. p. 159-191.
cafeicultura brasileira em perspectiva comparada. História, Ciências, Saúde: Manguinhos, Rio de
21 A edição em inglês foi publicada sob o título The Coffee Planter of Saint Domingo; with an Appendix, Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, v. 16, n. 4, p. 855-880, out.-dez. 2009.
containing a view of the Constitution,Government, Laws, and State of that Colony, previous to
22 Sobre o consumo metropolitano, ver os artigos de S.D. Smith citados nas notas 19 e 20; sobre a
the Year 1789. (Londres: T. Cadell & W. Davies, 1798). A tradução para o português, a cargo de
questão ambiental, ver MONTEITH, Kathleen E. A. Planting and Processing Techniques on
Antonio Carlos Ribeiro de Andrade, foi inserida na notável coleção dirigida pelo Frei José Mariano
Jamaican coffee plantations, during slavery. In: SHEPHERD, V. (Org.). Working Slavery, Pricing
da Conceição Velloso, O fazendeiro do Brazil: bebidas alimentosa, na parte II: “O café” (Lisboa:
Freedom: perspectives from the Caribbean, África and the African diaspora. Kingston: Ian Randle
Officina de Thaddeo Ferreira, 1800. t. III). A primeira edição em castelhano, vertida por Pablo
Publ.; Oxford: James Currey Publ., 2002. p. 112-29.
Boloix, saiu em 1809, sendo reimpressa onze anos depois: Cultivo del cafeto, o arbol que produce el
café, y modo de beneficiar este fruto. (Habana: Oficina de Arazoza y Soler, 1820). Em 1870, tratando 23 Cf. J.WARD, J. R. British West Indian Slavery, 1750-1834: the process of amelioration. New York:
da cafeicultura no Ceilão britânico, Guilherme Sabonadière considerava o manual de Laborie como Oxford University Press, 1988.
a melhor peça já escrita sobre o assunto. Ver seu O fazendeiro do café em Ceylão. Rio de Janeiro: 24 Cf. COSTA, Emília Viotti da. Coroas de glória, lágrimas de sangue: a rebelião dos escravos de
Typographia do Diário do Rio de Janeiro, 1875. 2. ed. em inglês 1870. Para uma comparação entre Demerara em 1823. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 62-86.

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posteriores a 1725, a V.O.C. coagiu as autoridades autóctones no oeste da de baixa, que conduziu à equalização entre oferta e demanda, mas que, ao
ilha, em Priangan e Ciberon, para que ofertassem café a preços fixos. Esses mesmo tempo, afastou do mercado os produtores menos eficazes.
poderes locais, por sua vez, obrigavam seus súditos a cultivarem o artigo Não por acaso, foram exatamente os anos de 1822 a 1830 que marcaram
em pequena escala, retendo parte ou totalidade da renda obtida por esses a clara diferenciação no mercado mundial entre velhas e novas regiões pro-
camponeses a título de impostos. O método foi aplicado em outras partes da dutoras de café. O processo que conduziu a tanto, todavia, iniciara-se três
ilha nas décadas finais do século XVIII, tendo sido mantido após a dissolução décadas antes. A Revolução do Haiti trouxe uma disjunção no tempo histó-
da V.O.C. em 1800 e o início da administração colonial direta pelo governo rico do mundo atlântico, inaugurando simultaneamente o declínio da escra-
holandês. Tal organização do processo de trabalho dificultava respostas rápi- vidão colonial caribenha francesa e inglesa e a ascensão dos novos espaços
das ao aumento da demanda na arena mundial, pois envolvia necessaria- escravistas do século XIX. Noutras palavras, o período entre as décadas de
mente negociação com as poderes locais: os camponeses, afinal, granjeavam 1790 e 1820 compreendeu tanto a crise da estrutura histórica do escravismo
café em pequena escala e operavam fora do sistema de preços internacio- norte-atlântico – cuja base geográfica eram as Antilhas inglesas e francesas
nais, haja vista que o montante pago por unidade era estabelecido de modo – como a montagem da nova estrutura histórica do escravismo oitocentista
coercivo pela V.O.C. Os esforços dos holandeses para aumentar a produção, – cuja base geográfica passou a residir nas vastas áreas virgens do território
na esteira da Revolução de Saint-Domingue, resultaram na séria rebelião de cubano, brasileiro e norte-americano.27 Esses novos espaços do século XIX
Ciberon, em 1805: na ocasião, os camponeses arrancaram os arbustos de café estavam fora das relações imperiais tradicionais que travejavam o Caribe
que cultivavam e queimaram os armazéns que estocavam as safras passadas. inglês e francês e não apresentavam as constrições geográficas e fundiárias
Doravante, todo o sistema de trabalho e de exploração colonial em Java teria aí presentes. Para o nosso objeto, o sul dos Estados Unidos – peça chave na
que ser reconstruído, o que renderia frutos somente três décadas depois.25 estrutura histórica do escravismo oitocentista – constitui caso à parte, pois
O mercado mundial do café, no período em tela (1790-1830), passou nunca produziu café e tampouco a produção de açúcar da Louisiana se des-
por sensíveis momentos de alta e de baixa, derivados não só do impacto de tacou no mercado mundial. Cuba e Brasil, no entanto, competiram palmo a
Saint-Domingue como também dos conflitos militares que polarizaram as palmo pelo comércio internacional de açúcar e café após 1790.
grandes potências atlânticas. Durante o curso dos eventos revolucionários As raízes do deslanche açucareiro e cafeeiro cubano se encontram no
na colônia francesa (1791-1804), os preços em Amsterdã tiveram forte alta, período das reformas bourbônicas. Cuba dispunha de amplos recursos
que se mantiveram nos três anos seguintes. O bloqueio continental e o agu- naturais para o estabelecimento de uma economia de plantation, mas até
çamento do confronto entre França e Inglaterra entre 1808 e 1812 criaram fins do século XVIII eles permaneciam subexplorados. Entre as décadas de
um descompasso entre os preços (altos) registrados na praça de Amsterdã 1760 e 1780, a política de liberalização comercial gradual promovida pelos
e os preços (baixos) pagos nos portos das regiões produtoras.26 A volta da ministros de Carlos III e a atuação decidida das oligarquias locais possi-
paz trouxe alta global acentuada do café, que perdurou até 1822. No decênio bilitaram a fundação de uma sólida rede de engenhos na parte ocidental
seguinte, os preços caíram continuamente, até atingir patamar correspon- da ilha, em torno do porto de Havana. Em fins dos anos oitenta, o mon-
dente ao que vigorara vinte anos antes. O período de 1812 a 1830, assim, pode tante da produção açucareira cubana era equivalente ao da produção total
ser apreendido como uma quadra de ajuste do mercado, sendo a primeira da América portuguesa.28 Dentre as primeiras medidas do novo monarca
fase (1812-1822) de alta, após a retração artificial, e, a segunda (1822-1830),
27 Cf. TOMICH, Dale. Through the Prism of Slavery: labor, capital, and world economy. Boulder:
Rowman & Littlefield Publ., 2004. Ver, também, BERBEL, Márcia; MARQUESE, Rafael; PARRON,
25 Sobre Java no século XVIII, ver as rápidas notas de ELSON, Robert. Village Java Under the Cultivation Tâmis. Escravidão e política: Brasil e Cuba, 1790-1850. São Paulo: Hucitec, 2010. p. 92-93.
System, 1830-1870. Sydney: Asians Studies Association of Australia: Allen and Unwin, 1994. p. 24-25; 28 Ver, a respeito, os dados de FRAGINALS, Manuel Moreno. O engenho: complexo sócio-econômico
e o estudo que lhe critica de CLARENCE-SMITH, W. G. The Impact of Forced Coffee Cultivation on açucareiro cubano. São Paulo: Hucitec: Ed. Unesp, 1989. 3 v, p.355; e ALDEN, Dauril. O período final
Java, 1805-1917. Indonesia Circle, London, v. 64, p. 241-243, 1994. do Brasil Colônia, 1750-1808. In: BETHELL, L. (Org.). História da América Latina: América Latina
26 Cf. FERNÁNDEZ, 1989, p. 157. colonial. São Paulo: Edusp-Funag, 1999. v. II, p. 559.

30 31
Carlos IV, em 1789, esteve a decretação do livre comércio de escravos por baixas, as saídas dos artigos cubanos ao mercado mundial, mas estabelecia
dois anos, uma medida longamente solicitada pelos proprietários cubanos, taxas de importação que protegiam os produtos espanhóis na colônia.30
e que foi reiterada em várias ocasiões nos anos seguintes. Ainda que por As ligações da revolução em Saint-Domingue com o avanço cafeeiro
algum tempo os traficantes hispano-cubanos não fossem capazes de domi- cubano foram bem mais estreitas do que o mero incentivo do mercado. O
nar completamente o negócio (até 1807, o abastecimento de africanos em conflito generalizado que se instaurou na colônia francesa após 1791 levou
Cuba foi realizado basicamente por mercadores ingleses e norte-america- muitos proprietários escravistas ao exílio, dentre os quais vários cafeiculto-
nos), logo o tráfico negreiro transatlântico se tornaria um dos principais res. Dada a proximidade geográfica e as condições ambientais favoráveis,
motores da economia escravista cubana, senão o mais importante.29 a região montanhosa do oriente de Cuba foi a que mais recebeu refugia-
Quando veio a oportunidade do colapso de Saint-Domingue, enfim, dos franceses. Os novos imigrantes foram decisivos para a transmissão do
os produtores cubanos estavam devidamente equipados para aproveitar as know-how técnico necessário à produção do artigo, e esse saber rapidamente
novas condições do mercado mundial. O crescimento da economia escra- foi repassado para os proprietários que estavam montando cafezais na parte
vista de plantation cubana foi vertiginoso após 1791. Foram fundados vários ocidental da ilha (eixo Vuelta Abajo- Matanzas). Até 1807, a produção cubana
novos engenhos de açúcar, os antigos elevaram sensivelmente sua capaci- foi diminuta, não ultrapassando a faixa de 1.000 t, mas o plantio em larga
dade produtiva, e, pela primeira vez, montaram-se plantações escravistas escala efetuado a partir de 1804 permitiu que, em 1810, esse número saltasse
de café, tanto no oriente como no ocidente da ilha. Esse arranque, por sua para 4.600 t. No decênio seguinte, a produção oscilou bastante, chegando
vez, contou com a reordenação do comércio de Cuba, ocorrida em resposta em anos como os de 1815 e 1821 a cerca de 10.000 toneladas métricas anuais.31
à conjuntura das guerras revolucionárias. Em 1796, as trocas de Cuba com Nesta altura (1821), a produção cubana era equivalente à jamai-
a Península Ibérica foram interrompidas, situação essa que durou até 1802. cana, sendo ambas superiores à javanesa. Na década de 1820, no entanto,
Após uma pequena normalização do intercâmbio entre metrópole e colônia, enquanto a produção jamaicana estacionou, as de Cuba e de Java cresce-
ocorreu em 1804 uma nova interrupção do comércio entre Cuba e Espanha, ram de forma substantiva, a primeira mais que a segunda. Não obstante os
que se prolongou até 1812. Nesses anos críticos, o principal parceiro comer- preços internacionais terem caído de modo acentuado entre 1822 e 1830, a
cial da colônia espanhola foram os Estados Unidos: o açúcar e o café cubanos produção cubana praticamente triplicou no período, atingindo, em 1833,
eram adquiridos por mercadores norte-americanos (cuja nação era neutra uma cifra próxima a de Saint-Domingue em 1790, isto é, cerca de 29.500
nos conflitos atlânticos do período), que reexportavam o que não era consu- toneladas. Isso foi resultado da ampliação da área de cultivo e do conse-
mido em seu país para os mercados continentais europeus. Entre 1813 e 1816, quente aumento do número de escravos alocados na atividade. Em 1827, a
com a volta da paz na Europa e a guerra entre Estados Unidos e Inglaterra, a produção açucareira e a de café empregavam em Cuba o mesmo número de
marinha mercante inglesa controlou as exportações agrícolas cubanas. O que trabalhadores escravizados, por volta de 50.000 cada.32 Afora isso, no oci-
importa em tudo isso é o fato de a erosão da Espanha como reexportadora dente da ilha, onde então se localizava a maior parte das fazendas, o arbusto
dos artigos cubanos ter levado à promulgação do livre comércio colonial em
1818, autorizando nas letras da lei o comércio da ilha com mercadores de
30 Cf. TINAJERO, 1996. p. 358-80; FRADERA, Josep M. Colonias para después de un imperio. Barcelona:
todas as bandeiras. A partir deste decreto, o controle espanhol sobre a eco- Edicions Bellaterra, 2005. p. 327-420.
nomia de Cuba tornou-se apenas fiscal: a metrópole facilitava, com tarifas 31 Cf. RIVA, Francisco Pérez de la. El café: Historia de su cultivo y explotación en Cuba. Havana: Jesus
Montero, 1944. p. 50; MARRERO, Levi. Cuba: economia y sociedad. Madri: Playor, 1984. v. 11 de 15,
29 Cf. MURRAY, David R. Odious Commerce: Britain, Spain, and the abolition of the Cuban slave p.108; ALVAREZ, Alejandro García. El café y su relación con otros cultivos tropicales en Cuba colonial.
trade. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1980; TINAJERO, Pablo Tornero. Crescimento In: SEMINÁRIO DE HISTÓRIA DO CAFÉ: HISTÓRIA E CULTURA MATERIAL, 1., Itu, 2006. Anais...
económico y transformaciones sociales: esclavos, hacendados y comerciantes en la Cuba colonial Itu: Museu Republicano Convenção de Itu; São Paulo: Museu Paulista-USP, nov. 2006; NORMAN
(1760-1840). Madri: Ministério del Trabajo y Seguridad Social, 1996. p. 44-107; JOHNSON, Sherry. JR., William C. Van. Shade-grown Coffee: the lives of slaves on coffee plantations in Cuba. Nashville:
The Rise And Fall of Creole Participation in the Cuban Slave Trade, 1789-1796. Cuban Studies, Vanderbilt University Press, 2013. p. 7-33.
Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, v. 30, p. 52-75, 1 Dec. 1999. 32 Cf. MARRERO, 1984, p. 114.

32 33
era cultivado nas mesmas zonas voltadas para a lavoura canavieira: café e Vice-Reino com as minas de Goiás e Mato Grosso); a disponibilidade de
açúcar, portanto, competiam pelos mesmos recursos naturais. uma enorme área de terras virgens entre a Serra da Mantiqueira e os con-
A década de 1820 é significativa, pois, pela primeira vez, o volume da trafortes da Serra do Mar, derivada da política oficial das “zonas proibidas”;
produção brasileira de café se equiparou ao das grandes regiões cafeicultoras por fim, um complexo sistema de transporte baseado em tropas de mulas,
do globo. Tal como na colônia espanhola, o granjeio do artigo na América muito eficazes – diante dos meios disponíveis do período – para enfrentar
portuguesa foi irrelevante até a última década do século XVIII. Como se sabe, a topografia acidentada do centro-sul do Brasil.
o arbusto foi introduzido no Estado do Grão-Pará e Maranhão na década Essa infraestrutura, contudo, não foi mobilizada para a cafeicultura nas
de 1720, no mesmo movimento que levou à sua introdução na Martinica e décadas de 1790 e 1800. Nesses anos, a resposta dos proprietários escravis-
no Suriname, mas, até fins daquele século, foi unicamente uma planta orna- tas da América portuguesa ao impacto da Revolução de Saint-Domingue se
mental. Ainda que tenha feito parte do cálculo imperial dos administrado- deu, sobretudo, no campo açucareiro. Afora a recuperação e ampliação da
res pombalinos na década de 1760, que pretendiam diversificar a pauta de atividade nas antigas regiões da costa nordeste (Recôncavo Baiano e Zona
exportações agrícolas da América portuguesa, o café não teve os cuidados da Mata de Pernambuco e Paraíba), os produtores do centro-sul montaram
que produtos como o algodão e o arroz – remetidos em grande escala para novos engenhos em Campos dos Goitacases, no Recôncavo da Guanabara,
Lisboa já na década seguinte – receberam. De todo modo, a aclimatação do no oeste de São Paulo (Itu, Jundiaí, Campinas) e mesmo ao longo das vias
cafeeiro no centro-sul da América portuguesa ocorreu nesse período, nas que então cortavam o Vale do Paraíba – um exemplo é o do famoso enge-
chácaras e quintais da cidade do Rio de Janeiro.33 nho Pau Grande, na beira do Caminho Novo. Nos anos noventa, o cres-
Como se leu na introdução do capítulo, os especialistas em história cimento da produção açucareira da América portuguesa acompanhou o
da cafeicultura brasileira relacionaram, desde seus primeiros trabalhos, a mesmo ritmo da produção cubana.34 Cabe lembrar que a conjuntura de fins
crise da mineração à montagem das fazendas de café no início do século do século XVIII estimulou igualmente a produção de mantimentos e a cria-
XIX. Com base no conhecimento atualmente disponível, pode-se afirmar ção de gado para o mercado interno, como o prova a diversificação ocorrida
que de fato existiu relação entre um processo e outro, porém não no sen- na comarca do Rio das Mortes, no sul da capitania de Minas Gerais, ou em
tido tradicionalmente apontado. Certos pontos que seriam decisivos para diversas porções da capitania de São Paulo.35
o deslanche cafeeiro do Brasil já se encontravam presentes em meados do O ponto de virada veio com a fuga da família real portuguesa para o Rio
século XVIII, muito por conta da economia do ouro: um volumoso tráfico de Janeiro. Em primeiro lugar, o súbito aumento do contingente populacio-
negreiro transatlântico bilateral entre os portos da África Central e o Rio nal da agora sede do Império Português – somado às rotas de peregrinação
de Janeiro, controlado por negociantes desta praça; a existência de vias que que o novo estatuto político do Rio de Janeiro imediatamente acionou –
cruzavam o Vale do Paraíba no sentido norte-sul (Caminho Novo entre o ampliou substancialmente a demanda por gêneros de primeira necessidade.
Rio de Janeiro e a capitania de Minas Gerais, aberto na década de 1720) e Para atendê-la, a Coroa joanina buscou aprimorar a rede de caminhos que
leste-oeste (Caminho Novo da Piedade, articulando o Rio de Janeiro a São cortavam o centro-sul da colônia, estimulando a construção de estradas para
Paulo, aberto na década de 1770 para facilitar as comunicações da sede do ligar diretamente a zona produtora de mantimentos do sul de Minas Gerais
à nova Corte. Duas dessas novas estradas, as da Polícia e do Comércio,
33 Sobre o café na América portuguesa setecentista, ver TAUNAY, Affonso de E. Subsídios para a concebidas para regularizar o fluxo de mercadorias de Minas ao Rio, seriam
História do café no Brasil colonial. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1935. Sobre as
reformas pombalinas, SILVA, Andrée Mansuy-Diniz. Portugal e Brasil: a reorganização do Império, 34 Sobre o volume da produção açucareira cubana, ver FRAGINALS, 1989, p. 355; sobre a produção da
1750-1808. In: BETHELL, L. (Org.). História da América Latina: América Latina colonial. São Paulo: América portuguesa, ver ARRUDA, José Jobson de Andrade. O Brasil no comércio colonial (1796-1808).
Edusp-Funag, 1997. v. I, p. 488-498; MAXWELL, Kenneth. A devassa da devassa: a Inconfidência São Paulo: Ática, 1980, p. 360. A respeito do engenho Pau Grande, ver o livro de MUAZE, Mariana. As
Mineira – Brasil e Portugal, 1750-1808. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1978. p. 21-53; PALÁCIOS, memórias da viscondessa: família e poder no Brasil Império. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
Guillermo. Cultivadores libres, Estado y crisis de la esclavitud en Brasil en la época de la Revolución 35 Sobre Minas, ver o primeiro capítulo de BERGAD, Laird. Escravidão e história econômica: demografia de
Industrial. México: Fondo de Cultura Econômica, 1998. p. 112-56. Minas Gerais, 1720-1888. Bauru: Edusc, 2004. A respeito de São Paulo, ver LUNA; KLEIN, 2005, p. 41-53.

34 35
absolutamente centrais para o deslanche da cafeicultura no Médio Vale do A avaliação de Saint-Hilaire encontra respaldo nos dados da exporta-
Paraíba: sua abertura gerou uma intensa febre fundiária, e em suas margens ção brasileira. A média anual no período de 1797 a 1811 (refletindo o quadro
seriam em breve fundados dois dos maiores municípios cafeeiros mundiais vigente antes da abertura dos portos) era de cerca de 400 toneladas métri-
do século XIX, Vassouras e Valença.36 Em segundo lugar, a abertura dos cas. No quinquênio de 1812-1816, o impacto do intercâmbio direto com o
portos permitiu, após 1808, a conexão direta dos senhores de escravos da mercado mundial e seus preços em forte alta rapidamente se fez sentir: a
América portuguesa com o mercado mundial. Em conjunção com o cres- produção brasileira de café subiu para uma média anual de 1.500 t. No quin-
cimento demográfico da Corte, o Decreto de Livre Comércio teve impacto quênio seguinte (1817-1821), cresceu quatro vezes em relação ao lustro ante-
imediato sobre a demanda de escravos: na década de 1800, desembarcaram rior, pulando para 6.100 toneladas anuais. Nos anos da independência (1822-
ali uma média anual de 10.000 cativos africanos. No decênio seguinte (1811- 1823), a produção dobrou, chegando a 13.500 t, o que igualava o montante
1820), sob o novo regime de comércio, a cifra praticamente duplicou: cerca de brasileiro ao que então se obtinha em Cuba. D. Pedro tinha razões de sobra
19.000 africanos aportaram anualmente como escravos no Rio de Janeiro.37 para inscrever o ramo de café no escudo de armas do Império recém-fun-
Parte desses escravos obtidos a baixo custo no trato atlântico foi destinada dado: se o valor total de sua exportação ainda não suplantara a do açúcar, o
às crescentes lavouras de café, cujos proprietários tinham à sua disposição, crescimento que o artigo verificava desde 1812 muito prometia para breve.
no porto carioca e em seus satélites ao longo do litoral até Santos, todo um O crescimento, de fato, se acelerou sobremaneira nos dez anos seguin-
sistema comercial (armazéns, casas mercantis etc) montado há tempos para tes, quando a produção quadruplicou, de 13.500, em 1821, para 67.000 t, em
a exportação de açúcar, couros, algodão e outros gêneros.38 1833. Essa cifra equivalia ao montante mundial total de 1790; o teto de Saint-
Os senhores de escravos que investiram em café na década de 1810 res- Domingue pré-revolução, até então inalcançável, era definitivamente coisa
ponderam claramente aos incentivos do mercado internacional. Afora uma do passado. No início da década de 1830, o Brasil reinava como o maior pro-
série de preços pagos diretamente aos produtores entre 1798 e 1830,39 temos dutor mundial, bem à frente dos demais competidores (Cuba, Java, Jamaica,
o registro qualitativo de Saint-Hilaire. Nos primeiros meses de 1822, ao per- Haiti). Como explicar o salto brasileiro da década de 1820, em uma conjun-
correr o Caminho Novo da Piedade, que cortava o Vale do Paraíba paulista tura de queda acentuada dos preços internacionais? Os produtores deixa-
em direção à cidade do Rio de Janeiro, o naturalista francês anotou que “as ram de reagir ao sistema de preços, guiando suas estratégias empresariais
terras dos arredores de Taubaté são muito próprias à cultura da cana e do pelo que vislumbravam em termos de ganhos sociais e simbólicos, como
café. Antigamente, era a cana o que mais se plantava, mas depois que o café argumenta João Fragoso? E por que essa produção se concentrou quase que
teve alta considerável, os agricultores só querem tratar de cafezais”. Mais exclusivamente no Vale do Paraíba?
adiante, na altura de Areias, após entrevistar um senhor de escravos, escre- Para responder às primeiras perguntas, é importante ter em conta duas
veu: “segundo o que me informaram ele, o filho e outras pessoas, a cultura especificidades do artigo. O hiato entre o plantio do arbusto e a venda de
do café é inteiramente nova nesta região e já enriqueceu muita gente”.40 grãos beneficiados no mercado é de, no mínimo, três anos, sendo que a
planta entra em produção plena somente com cinco anos de idade. Como
meio para contornar o problema, os fazendeiros adotaram a prática, desde
36 Cf. LENHARO, Alcir. As tropas da moderação: o abastecimento da Corte na formação política do
os primeiros anos da atividade no Brasil, de plantar milho e feijão entre as
Brasil, 1808-1842. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Trabalho e Emprego – Prefeitura do Rio
de Janeiro, 1992, p. 47-59. fileiras de arbustos, com o duplo objetivo de garantir sombreamento para
37 Cf. FLORENTINO, Manolo Garcia. Em costas negras: uma história do tráfico atlântico de escravos os pés recém-plantados e manter a escravaria trabalhando de forma produ-
entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995. p. 74.
tiva no amanho de mantimentos. A oferta de mais produto como resposta
38 LUNA; KLEIN, 2005, p. 58-59.
aos preços em alta em um determinado ano, portanto, só se faria sentir de
39 Ibid., p. 87.
40 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo (1822).
três a cinco anos depois. O outro dado importante, como bem ressalta Pedro
São Paulo: Edusp; Belo Horizonte: Itatiaia, 1974. p. 78, 100-101. Carvalho de Mello, é o fato de os arbustos possuírem

36 37
uma característica de bens de capital, pois uma vez plantados, podem pro- café foi de – 2,07 %”.45 Falta examinar, então, quais as condições que per-
duzir frutos de café por muitos anos. [...] Não se podia, pois, abandonar a mitiram que os senhores de escravos brasileiros ofertassem cada vez mais
cultura, sem que isso representasse graves perdas de capital, o que contras-
café no mercado mundial, a despeito da tendência acentuada de queda dos
tava com o algodão e a cana-de-açúcar. Mesmo com os preços em baixa, os
fazendeiros continuavam a cuidar das árvores já plantadas, na expectativa de valores recebidos por unidade de produto.
aumentos futuros no preço do café.41 Aqui entra o papel do Vale do Paraíba como região nova no mercado
mundial do café. Já adiantamos que havia uma infraestrutura adequada
O que os preços da década de 1820 indicam? Os valores pagos ao café no centro-sul do Brasil em fins do século XVIII, como resultado das alte-
em Nova Iorque – novo centro de distribuição mundial – caíram sensi- rações que a mineração trouxe para sua paisagem econômica. Vale reto-
velmente no período de 1823 a 1830, de 21 para 8 centavos de dólares por mar dois desses pontos, a saber, a disponibilidade de terras e o sistema de
libra.42 Todavia, devemos lembrar aqui um aspecto da crítica de Gorender transporte. O Vale do Paraíba pode ser dividido em três sub-regiões: o alto
a Fragoso, a saber, o papel da desvalorização cambial na composição dos Paraíba, ocupado por terras das nascentes até a zona de Queluz e Resende,
preços efetivamente recebidos pelos produtores brasileiros.43 A queda dos na atual divisa dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro; o médio Paraíba,
preços em dólares diminuiu de intensidade entre 1827 e 1830, com tendência de Barra Mansa até a região de São Fidélis; o baixo Paraíba, que engloba as
a se estabilizar em um patamar baixo (de 9 a 8 centavos de dólares), nos terras deste ponto até a foz, correspondentes a grosso modo aos Campos dos
exatos anos em que os fazendeiros brasileiros – conforme dados recolhi- Goitacases. O primeiro trecho foi ocupado já no século XVII, como resul-
dos por Luna e Klein para o fundo Vale do Paraíba paulista44 – passaram tado da expansão paulista em busca de índios; o terceiro trecho o foi desde
a ganhar mais em mil réis por unidade de produto; nesses anos, portanto, a segunda metade do século XVII, com a criação de gado e, posteriormente,
a desvalorização cambial favoreceu claramente os exportadores. A série de produção de açúcar.46 Pouco visitada no século XVII, na centúria seguinte a
Luna e Klein se encerra em 1830; a de Nova Iorque, por outro lado, indica sub-região do médio rio Paraíba teve sua ocupação bloqueada por conta da
alta de quase 30 % nos preços pagos em dólares entre 1830 e 1835. Os índices política oficial portuguesa das áreas proibidas, adotada a partir da década
das exportações brasileiras encontram notável correspondência com esses de 1730; a ordenação buscava “evitar o extravio de ouro ao impossibilitar
preços: a produção cresceu sensivelmente nos anos de 1826 a 1828, fruto de a abertura de novos caminhos e picadas nos matos em áreas onde inexis-
cafezais que foram plantados antes de 1823, quando os preços estavam em tiam registros, passagens e a vigilância das Patrulhas do Mato”.47 É certo que,
alta; de 1828 a 1830 (cafezais plantados entre 1824 e 1826, preços externos e mesmo antes de sua revisão na década de 1780 (no contexto do reformismo
internos em baixa), a produção estacionou em torno de 27.000 t; de 1831 ilustrado), as terras a leste e oeste do Caminho Novo – ou Estrada Real –
a 1834 (cafezais plantados entre 1827 e 1830, preços externos estacionados, foram exploradas por garimpeiros clandestinos e pequenos posseiros, mas
mas os internos em alta), saltou de 32.940 t para 67.770 t. o povoamento sistemático foi barrado de forma eficaz.48 Como resultado
Esses números dão a ver a pronta resposta dos produtores brasileiros ao desta política, havia, no médio Paraíba de fins do século XVIII e inícios do
que sinalizava o mercado. No entanto, permanece o fato de que os preços a
eles pagos caíram efetivamente na década de 1820. Segundo Fragoso, “entre 45 FRAGOSO, 1990, p. 506.
46 Ver, respectivamente, MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens
1821 e 1833, a queda anual registrada (em mil réis) para o preço unitário do
de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 81-85; e FARIA, Sheila de Castro. A colônia
em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
47 As palavras são de ANASTASIA, Carla Maria Junho. A geografia do crime: violência nas minas
41 MELLO, Pedro Carvalho de. A economia da escravidão nas fazendas de café: 1850-1888. Rio de
setecentistas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005. p. 36.
Janeiro: PNPE, 1982. v. 1 de 2, p. 12.
48 Cf. STEIN, 1990, p. 31-34; MUNIZ, Célia Maria Loureiro. Os donos da terra: um estudo sobre a
42 Cf. BACHA, Edmar; GREENHILL, Robert. 150 anos de café. Rio de Janeiro: Marcelino Martins & E.
estrutura fundiária do Vale do Paraíba Fluminense, século XIX. 1979. Dissertação (Mestrado em
Johnston, 1992. p. 333-4.
História) – Instituto de Ciências Humanas E Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói,
43 Cf. GORENDER, 1990, p. 82. 1979. p. 51-53; MOTTA, Márcia Maria Menendes. Nas fronteiras do poder: conflito e direito à terra no
44 Cf. LUNA; KLEIN, 2005, p. 87. Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Vício de Leitura: APERJ, 1998. p. 34-40.

38 39
XIX, uma enorme quantidade de terras virgens, sem travas fundiárias, ple- da distância dos portos do litoral. Nesse ponto residiu a maior contribuição
namente aptas em termos de altitude e clima à cafeicultura e distantes a da economia da mineração para a cafeicultura oitocentista. Em resposta à
não mais de 150 quilômetros da miríade de ancoradouros naturais localiza- demanda mineira, elaborou-se, na segunda metade do século XVIII, um
dos ao sul do grande porto do Rio de Janeiro. Não havia competição entre complexo sistema de criação e comercialização de mulas que articulava
o açúcar e o café por essas terras, como ocorria em Cuba, e tampouco a o sul da América portuguesa às capitanias de São Paulo, Rio de Janeiro e
ausência de terras virgens como na Jamaica. Trata-se, enfim, de um espaço Minas Gerais, fornecendo o meio básico de transporte para todo o centro-
aberto à montagem de fazendas com escala inédita de operação. sul da colônia. Quando veio o empuxo do mercado mundial na virada do
A produtividade dos plantios em terrenos de derrubadas, já consi- século XVIII para o XIX, esse sistema foi imediatamente mobilizado para
derável em vista do húmus acumulado secularmente pela mata, era ainda o escoamento da produção cafeeira de serra acima. Na medida em que as
maior no Vale em decorrência do método de cultivo não sombreado dos novas fazendas do Vale do Paraíba distavam dos portos do litoral não mais
pés, quando em plena produção. Se, por um lado, os cafezais manejados do que sete dias de jornada (tendo por referência a jornada habitual de três
dessa forma exigiam capinas constantes, tinham rendimento oscilante de léguas ao dia), e dados os custos relativamente baixos de aquisição e manu-
uma safra a outra e seus grãos eram considerados de qualidade inferior, tenção das tropas até meados do século XIX, a equação preço do artigo /
por outro lado apresentavam produção inicial bem mais elevada.49 Os preço do frete / volume a transportar / distância a percorrer foi plenamente
registros disponíveis indicam que a produtividade dos pés de café culti- operacional com o sistema das mulas.53
vados no Vale do Paraíba caiu ao longo do século XIX, mas, para as pri-
meiras décadas, os números são bastante altos. Saint Hilaire anotou, no o domínio do vale do paraíba
relato citado, produção de 91 arrobas de café beneficiado por 1.000 pés, ao sobre o mercado mundial do café, c.1830-1880
passo que o padre João Joaquim Ferreira de Aguiar, no primeiro manual
O gráfico das exportações globais de café entre 1823 e 1892 expressa com
agronômico que apresentou o saber elaborado no Vale do Paraíba, regis-
muita clareza a posição que o Brasil passou a ocupar no mercado mun-
trou a produtividade de 100 arrobas por 1.000 pés na região de Valença.50
dial do artigo a partir da década de 1830. O resultado das safras de 1831 a
Para efeitos de comparação, vejam-se dados relativos a duas outras regiões.
1833, que trouxeram a duplicação do volume anual, isolou-o bem à frente
Carlos Augusto Taunay, com base na observação dos cafezais da Tijuca
dos demais competidores. Outros saltos vieram entre 1843 e 1847, quando
(RJ) em fins da década de 1820, apontou 20 arrobas por 1.000 pés.51 O censo
a produção se estabilizou no patamar de 150.000 toneladas / ano, na
cubano de 1827, por sua vez, deu 27 arrobas de produção média por 1.000
segunda metade da década de 1860 (c.225.000 t/ano) e em fins da década
pés plantados na ilha, número superior às 9,8 arrobas por 1.000 pés que o
de 1870 (c.350.000 t/ano). Com ligeiras alterações de uma safra a outra, o
agrônomo cubano Tranquilino Sandalio de Noa supunha como norma em
Brasil – leia-se o Vale escravista, ao menos até meados da década de 1870,
uma grande plantation em 1829.52
quando o oeste paulista e a Zona da Mata mineira aumentaram o volume
Para escoar a produção crescente do Vale do Paraíba na década de
da produção – dominou de forma inconteste a oferta mundial no século
1820, havia que se ultrapassarem os obstáculos da topografia acidentada e
XIX, tendo por único competidor real as colônias holandesas na Indonésia
(Java), e, no intervalo de 1850-1880, porém em terceiro lugar, a colônia
49 Cf. Warren Dean, A ferro e fogo, p.234.
inglesa do Ceilão.
50 Cf. Saint-Hilaire, Segunda Viagem, p.101; Pe. João Joaquim Ferreira de Aguiar, Pequena memória
sobre a plantação, cultura e colheita do café. Rio de Janeiro: Imprensa Americana de I.P. da Costa,
1836, p. 11.
53 Cf. RIBAS, Rogério de Oliveira. Tropeirismo e escravidão: um estudo das tropas de café das lavouras
51 Cf. Carlos Augusto Taunay, Manual do Agricultor Brasileiro (1ª ed: 1839). Org.Rafael de Bivar de Vassouras, 1840-1888. 1989. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do
Marquese. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 130. Paraná, Curitiba, 1989. p. 170-197; KLEIN, Herbert S. The supply of mules to central Brazil: the
52 Cf. Marrero, Cuba, p. 110-1. Sorocaba market, 1825-1880. Agricultural History, Winter Park, v. 64, n. 4, p. 1-25, 1990.

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produção mundial de café – 1823 – 1892 (milhares de toneladas) produtividade, sob o risco de se verem excluídas do mercado. Para aquelas
antigas regiões produtoras sem reservas de áreas para expansão ou que haviam
sido afetadas pela crise do escravismo colonial (caso de Saint-Domingue em
fins do século XVIII, ou da Jamaica e Suriname nas primeiras décadas do
século XIX), a perda de competitividade logo as afastou das posições centrais
do mercado. Como se sabe este não foi o caso do Brasil e de Cuba, que, por
meio de pactos firmados dentro dos marcos de suas respectivas monarquias
constitucionais (Império do Brasil e Espanha liberal), construíram arranjos
políticos nas décadas de 1810 e 1820 que ajudaram a fundar a instituição escra-
vista em bases mais seguras, capazes de enfrentar as fortes pressões antiescra-
vistas externas capitaneadas pela Inglaterra.55 No entanto, em vista do desem-
penho cubano na produção açucareira, de sua ampla disponibilidade de terras
virgens e da continuidade do tráfico transatlântico de escravos até a década
de 1860, sua exclusão do mercado cafeeiro mundial chama a atenção. Por que
isso ocorreu? E por que Java, na Indonésia, cuja economia não era escravista,
conseguiu se manter como grande região produtora ao lado do Brasil?
Fonte: SAMPER, Mario; FERNANDO, Radin. Historical statistics of coffee production and trade from
1700 to 1960. In: CLARENCE-SMITH, William Gervase; TOPIK, Steven (Org.). The global coffee economy
No que se refere à primeira questão, houve uma relação estreita entre o
in Africa, Asia, and Latin América, 1500-1989. Cambridge: Cambridge University Press, 2003. p. 411-62. deslanche cafeeiro do Brasil, a crise da cafeicultura em Cuba e seu arranque
açucareiro. Como já escrevemos acima, na região ocidental da colônia espa-
A escala e o caráter do mercado se modificaram de modo igualmente nhola os cafezais haviam sido montados nas mesmas zonas de implantação
profundo no século XIX. Na década de 1880, a produção total de café no
dos engenhos, competindo portanto pelos mesmos recursos em termos de
globo era 10 vezes maior do que cem anos antes. Entre uma data e outra, a
terras e trabalho. Até a década de 1820, não raro os grandes senhores de
grande novidade foi o aparecimento dos Estados Unidos como comprado-
escravos empregaram seus capitais simultaneamente nas duas atividades.56
res. Nesse período, sua população aumentou quinze vezes e o consumo per
O Médio Vale do Paraíba, por seu turno, foi construído entre as décadas de
capita anual passou de apenas 25 gramas para 4 quilos. Tratava-se de um
1810 e 1830 como região exclusivamente cafeeira, distinta das zonas açuca-
mercado aberto, livre de tarifas de importação desde 1832, que pouco exigia
reiras das terras baixas fluminenses e do Oeste Velho de São Paulo. Que as
a respeito da qualidade do café adquirido. Os demais grandes compradores
terras do ocidente de Cuba não fossem tão aptas para a cafeicultura como
do período, todos localizados no norte de uma Europa em rápido processo
as do Vale, comprova-o a diferença na produtividade dos pés, há pouco
de industrialização e urbanização, também se distinguiram no século XIX
pela explosão demográfica e pelo notável aumento nas taxas de consumo aludido. O caráter de bens de capital dos arbustos de café criava uma difi-
per capita. Interessa destacar nisso tudo que a passagem do mercado res- culdade adicional para a atividade no ocidente de Cuba, região bastante
trito e de luxo do século XVIII para o mercado de massa industrial do século visitada por furacões: se a intempérie não constituía obstáculo para os cana-
XIX foi claramente induzida pela oferta a baixo custo do produto.54 viais, capazes de, em um ano, retomar o padrão anterior à sua passagem,
As novas condições da economia internacional de artigos tropicais ela podia ser devastadora para os cafezais, que teriam que se replantados e
exigiram, das regiões que operavam nessa arena, aumento constante de esperar ao menos cinco anos para recuperar a produtividade plena.

54 Cf. TOPIK, Steven. The Integration of the World Coffee Market, p. 37-40; MARQUESE, Rafael de
Bivar. Estados Unidos, Segunda Escravidão e a economia cafeeira do Império do Brasil. Almanack, 55 BERBEL; MARQUESE; PARRON, 2010, p. 95-181.
Guarulhos, n. 5, p. 51-60, maio 2013. 56 Cf. RIVA, 1944, p. 141; ALVAREZ, 2006, p. 10.

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Ao longo da década de 1820, os produtores cubanos tomaram consciên- que os senhores de engenho do Brasil ocupavam no mercado mundial.
cia do peso da competição brasileira. Os preços em queda no mercado mun- Durante a vigência do tráfico transatlântico de escravos, a economia açu-
dial eram resultado evidente do aumento global da produção. Em setembro careira brasileira acompanhou a duras penas a expansão dos cubanos nesse
de 1828, o Consulado de Havana, em resposta a inquérito solicitado pelo ramo, mas isso se tornou inviável após 1850.60
Intendente da colônia, informava que A última observação nos conduz ao ponto central para a compreensão
las nuevas plantaciones que inundaran las regiones equinociales han hecho do crescimento da produção cafeeira do Vale do Paraíba, isto é, o trabalho
bajar el precio en términos que apenas da para costear los gastos de su pro- escravo. Nos anos vinte e trinta do século XIX, era voz corrente em Cuba
ducción, viéndose arruinar rápidamente multitud de cafetales que constituían que os escravos custavam lá o dobro do que se pagava no Brasil.61 Os dados
gran parte del capital de la Isla, el cual no sería exagerado decir había dismi- fornecidos por David Eltis corroboram a percepção dos contemporâneos:
nuido en dos terceras partes.57 até a década de 1850, as curvas nos preços dos cativos adquiridos no tráfico
Diante da crise, a Sociedade Econômica dos Amigos do País de Havana transatlântico para o Brasil e para Cuba foram estritamente congruentes,
convocou, em 1829, debate sobre o assunto. Dentre as questões sobre o cul- mas os valores cubanos estiveram sempre acima dos brasileiros.62 A expli-
tivo do café colocadas na mesa, uma indagava se seria “prudente abando- cação para a diferença é simples. O tráfico para o centro-sul do Brasil era
narlo” em vista dos ganhos decrescentes.58 A resposta, na ocasião, foi nega- comandado desde a virada do século XVII para o XVIII por negociantes luso
tiva, mas os debatedores concordaram sobre a necessidade de reduzir custos -brasileiros residentes na praça do Rio de Janeiro, que operavam fundamen-
e aumentar a eficiência para fazer frente aos competidores brasileiros. talmente na zona congo-angolana: comando local das operações, viagens
No início da década de 1830, com a revisão da política tarifária nor- mais curtas e contatos mais sólidos no continente africano possibilitavam a
te-americana que tornaria o café tax free no país, os produtores escravis- redução do preço final dos africanos embarcados como escravos. Os trafi-
tas brasileiros excluíram daquele mercado seus rivais caribenhos. Em um cantes hispano-cubanos, a despeito de serem tão eficazes como seus pares
quadro de queda acentuada dos preços, a incapacidade de os produtores brasileiros e portugueses, tinham entrado no infame comércio somente no
cubanos competirem com os produtores brasileiros no principal mercado início do século XIX, e a distância a ser percorrida no Atlântico era bem
comprador do período selou o destino da cafeicultura na ilha. O início da maior do que a rota dos negreiros que se dirigiam ao centro-sul do Brasil. A
construção da malha ferroviária cubana em 1837, ao aumentar a vantagem eficiência dos traficantes cariocas permitiu inclusive a importação, após 1811,
comparativa do açúcar cubano nos mercados internacionais, levou a uma de quantidades expressivas de escravos da costa oriental da África.63
massiva transferência de recursos – terras e escravos – de uma atividade
para outra. Os devastadores furacões de 1844 e 1846 acabaram de uma vez change: hurricanes & the transformation of nineteenth-century Cuba. Chapel Hill: The University
of North Carolina Press, 2001. p. 56-108.
por todas com as perspectivas da outrora florescente cafeicultura do oci-
60 Entre 1820 e 1850, enquanto a produção de açúcar do Brasil triplicou, a de Cuba quintuplicou; nos
dente de Cuba.59 Houve, entretanto, o outro lado da moeda. O arranque quinze anos seguintes (1851-1865), contudo, a produção brasileira estacionou, ao passo que a cubana
açucareiro cubano a partir da década 1830 roubou paulatinamente o espaço duplicou. Na última data, Cuba produzia cinco vezes mais açúcar que o Brasil. Os dados são de
FRAGINALS, Moreno. O engenho, v. III, p. 356-357; e das ESTATÍSTICAS históricas do Brasil. Rio de
57 MARRERO, 1984, p. 112. Janeiro: IBGE, 1987. p. 342.
58 A citação é de Francisco de Paula Serrano: NOA, Tranquilino Sandalio de. Memoria publicada por 61 Cf. FERNÁNDEZ, 1989, p. 163.
la Real Sociedad Patriotica sobre esta cuestión del programa: “Cuáles son las causas a que puede 62 Cf. ELTIS, David. Economic Growth and the Ending of the Transatlantic Slave Trade. New York: Oxford
atribuirse la decadencia del precio del café, y si en las actuales circunstancias de su abatimiento seria University Press, 1987. p. 262-263. Ver também BERGAD, Laird; GARCÍA, Fe Iglesias; BARCIA, Maria
perjudicial empreender su cultivo, o prudente abandonarlo”. Programa publicado en el Diário del del Carmen. The Cuban Slave Market, 1790-1880. Cambridge: Cambridge University Press, 1995. p. 150.
Gobierno de la Habana en 10 de abril de 1829. In: ACTA de las Juntas Generales que celebro la Real 63 Sobre o tráfico para o Brasil, ver, além de Florentino, Em costas negras, ALENCASTRO, Luiz Felipe de.
Sociedad Económica de Amigos del País de la Habana, en los dias 14, 15 y 16 de diciembre de 1829. O Trato dos Viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia
Havana: Imprenta del Gobierno: Capitanía General: Real Sociedad, 1830. p. 79. das Letras, 2000. Para o tráfico cubano, afora os trabalhos citados na nota 27, ver FRANCO, José
59 Cf. GARCÍA, Antonio Santamaría; ALVAREZ, Alejandro García. Economia y colonia: la economia Luciano. Comércio clandestino de esclavos. Havana: Editorial de Ciencias Sociales, 1980, e Leonardo
cubana y la relación con Espana, 1765-1902. Madri: CSIC, 2004. p. 129; PEREZ JR., Louis A. Winds of Marques, The United States and the Transatlantic Slave Trade to the Americas, 1776-1867. New Haven:

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O custo dos escravos, contudo, não pode ser tomado como uma variá- patamar até 1838, quando voltou a crescer, de início lentamente, para dar
vel econômica independente, vinculada apenas ao jogo da oferta e da pro- um novo salto a partir de 1842, com 84.221 toneladas; em 1843, 89.550; em
cura. A campanha sistemática comandada pela Inglaterra contra o tráfico 1844, 91.980; em 1845, 97.440; em 1846, 123.300. A produção de 1847 chegou
negreiro transatlântico e a própria escravidão exigiu dos espaços escravistas a 141.810 t, maior volume anterior ao tráfico, estabilizando-se até o novo
em expansão uma resposta política concertada. No caso do Brasil, sua inde- salto da safra de 1855, de 181.290 t.
pendência em 1822 abrira um flanco para a pressão inglesa, pois desde o Com os números das safras da década de 1840, queremos ressaltar a
Tratado de 1817 com a então Coroa portuguesa a questão estivera congelada correlação estreita que houve entre o crescimento da cafeicultura e a escra-
no plano diplomático. Em troca do reconhecimento formal do novo Estado varia adquirida no trato atlântico, e, em particular, o quanto a produção de
soberano, a Inglaterra exigia de D. Pedro I compromisso efetivo com o 1842 em diante contou com cativos africanos comprados após 1835. Para
encerramento do tráfico. A matéria se resolveu apenas em 1826, com a assi- tanto, a ação ensaiada dos fazendeiros do Vale do Paraíba com os grupos
natura da convenção que previa o fim do tráfico entre África e Brasil para políticos ligados ao Regresso foi fundamental. Conforme a letra do tratado
três anos após sua ratificação pela Inglaterra, o que ocorreu em 13 de março anglo-brasileiro de 1827, o tráfico cessaria em março de 1830. Com o obje-
de 1827. A arenga diplomática, além de erodir parte não desprezível do capi- tivo de reafirmar a soberania brasileira na questão, um Parlamento bastante
tal político do primeiro imperador do Brasil e contribuir para sua queda em fortalecido com a queda de D. Pedro I aprovou a Lei de 7 de novembro de
1831, foi acompanhada de perto por negreiros e fazendeiros, que aceleraram 1831, que trazia disposições draconianas para combater o tráfico: os afri-
as importações na segunda metade da década de 1820.64 Entre 1821 e 1825, canos que doravante fossem introduzidos em território nacional seriam
foram desembarcados no porto do Rio de Janeiro cerca de 112.000 africanos automaticamente libertados, prevendo-se seu retorno imediato à África; os
escravizados, ao passo que, no lustro seguinte, chegaram 186.000 cativos.65 transgressores – vendedores ou compradores – seriam submetidos a pro-
A aceleração das importações expressava com nitidez a concepção coeva de cesso criminal; as denúncias contra a prática tanto do desembarque ilegal
que o tráfico seria efetivamente encerrado em 1830.
como da mera posse de escravos ilegais poderiam ser apresentadas por
Os anos de maior introdução de cativos africanos pelo porto carioca
qualquer indivíduo. Nas letras da lei, portanto, os fazendeiros que adquiris-
(1828 e 1829, com 45.000 e 47.000 africanos respectivamente) encontraram
sem africanos no trato transatlântico ficariam expostos a severas punições.
correspondência nas safras abundantes de 1833 e 1834, quando a cafeicul-
Usualmente reputado como “para inglês ver”, o Decreto de 7 de novembro
tura do Vale dobrou o volume da produção obtida em 1831. Vê-se, por-
pretendia, de fato, acabar com o tráfico transatlântico, e deste modo foi lido
tanto, que parte considerável desses novos escravos foram parar em fazen-
pelos coetâneos. Tanto é assim que, entre 1831 e 1835, as entradas diminuí-
das de serra acima. A produção de café brasileira girou em torno desse
ram abruptamente, tornando-se o tráfico como que residual.66
Yale University Press, no prelo. Sobre o trato de Moçambique no século XIX, ver KLEIN, Herbert S. O De 1835 em diante, ocorreu uma reversão profunda nesse quadro. As
tráfico de escravos no Atlântico. Ribeirão Preto: FUNPEC, 2004. p. 70-71.
vozes pró-escravistas voltaram a se articular nos espaços de opinião pública
64 A diplomacia do tráfico nas décadas de 1810 e 1820 pode ser acompanhada em BETHELL, Leslie. A
abolição do comércio brasileiro de escravos: A Grã-Bretanha, o Brasil e a questão do comércio de escravos após um período de refluxo, e uma ampla coalizão de ex-liberais modera-
– 1807-1869. Brasília: Senado Federal, 2002. p. 21-112. 1. ed. 1970. Sobre as discussões no parlamento dos e ex-caramurus com setores dos proprietários rurais mais capitalizados
brasileiro a respeito do tratado de 1826, ver RODRIGUES, Jaime. O infame comércio: propostas e
experiências no final do tráfico de africanos para o Brasil (1800-1850). Campinas: Ed. Unicamp,
do centro-sul – base da formação do futuro Partido Conservador67 – pas-
2000; SCANAVINI, José Eduardo Finardi Álvares. Embates e embustes: a teia do tráfico na Câmara do sou a advogar pura e simplesmente a anulação da Lei de 7 de novembro de
Império (1826-1827). In: MARSON, Isabel Andrade; OLIVEIRA, Cecília H.L. de S. (Org.). Monarquia,
liberalismo e negócios no Brasil: 1780-1860. São Paulo: Edusp, 2013. p. 167-209; e, em especial, PARRON, 66 A ideia central deste e do próximo parágrafo foi retirada de PARRON, 2011, p. 121-191. Sobre o
Tâmis. A política da escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, volume do tráfico ilegal para o centro-sul do Brasil entre 1831 e 1835, ver THE TRANS-ATLANTIC
2011. p. 64-80. Sobre o tratado em si, ver SANTOS, Guilherme de Paula Costa. Política e diplomacia: SLAVE TRADE DATABASE VOYAGE. Atlanta, 2009. Disponível em: <www.slavevoyages.org>.
os tratados assinados entre Brasil e Inglaterra, 1817-1831. 2015. Tese (Doutorado em História Social) – 67 Cf. NEEDELL, Jeffrey D. Party formation and State-making: the conservative party and the
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. reconstruction of the Brazilian State, 1831-1840. Hispanic American Historical Review, Durham:
65 Cf. FLORENTINO, 1995, p. 59. Duke University Press, v. 81, n. 2, p. 259-308, May 2001.

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1831. Nesse movimento de mão dupla entre as demandas de grupos sociais africanos ilegalmente escravizados, número que subiu para 308.000 na
expressivos e os esforços de arregimentação de eleitores por parte de uma década seguinte, os saquaremas conseguiram impor integralmente sua
nova força política, os fazendeiros de café do Vale do Paraíba desempenha- agenda à política imperial.69
ram papel fulcral. Por meio de pressão política direta e de ações no espaço Vê-se, por conseguinte, que o avanço cafeeiro do Brasil dependeu de
público, davam a ver sua disposição para reabrir o tráfico. Dos vários modo estrito de acordos políticos internos que dessem segurança institu-
exemplos que poderiam ser citados, cabe lembrar uma representação que cional aos que investiam no ramo. Todos os escravos africanos importados
a Câmara de Valença – município do coração cafeicultor do Médio Vale depois de 1831 eram formalmente livres, mas em momento algum o Estado
do Paraíba fluminense – endereçou ao Parlamento imperial em meados de brasileiro questionou a posse efetiva dos fazendeiros. A massa de africanos
1836. Assinado por figuras de proa do senhoriato local (Manoel do Vale ilegalmente escravizados se tornou questão política somente após a segunda
Amado, Camilo José Pereira do Faro, João Pinheiro de Souza, Visconde de metade da década de 1860, já no contexto de perda de legitimidade social e
Baependy), dizia o documento: política da instituição.70 Em meados do século XIX, os municípios cafeeiros
do Médio Vale do Paraíba se encontravam suficientemente abastecidos de
Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação. A Câmara
Municipal da Vila de Valença, tendo-vos já pedido providências sobre a lei de 7 trabalhadores cativos; de agora em diante, a reposição dessa força de traba-
de Novembro de 1831, vem hoje novamente lembrar-vos que lanceis Vossas vis- lho, bem como a aquisição dos escravos necessários à expansão em novas
tas sobre a mais respeitável e interessante porção da população do Império, que frentes, como as de Cantagalo (RJ), a da Zona da Mata mineira e do oeste de
a maior parte está envolvida na infração da mencionada lei, porque a necessi- São Paulo, ocorreria basicamente por meio do tráfico interno, que foi articu-
dade a ela os levou; cumpre portanto a Vós, Augustos e Digníssimos Senhores, lado econômica e politicamente logo nos primeiros anos da década de 1850.71
evitar a explosão que nos ameaça, derrogando em todas as suas partes a dita lei
Com ampla oferta de terra e de trabalho, as fazendas do Vale se diferen-
de 7 de Novembro de 1831, porque sua execução é impraticável e ela, longe de
trazer benefício a Vossos Concidadãos, os insinua à imoralidade; sua derroga- ciaram de suas equivalentes em outras partes do globo por suas dimensões
ção é de reconhecida utilidade, e sua execução seria concitar os Povos a uma espaciais e quantidade de mão de obra empregada. A historiografia clássica
rebelião e formal desobediência, por que essa maioria respeitável de Vossos veiculou a ideia de que a produção cafeeira do Brasil no século XIX advi-
Concidadãos de qualquer das formas procurará com todas as suas forças con- nha, sobretudo, de grandes unidades rurais, usualmente com o emprego
servar intactas suas fortunas, adquiridas com tantas fadigas e suores.68 de uma centena ou mais de escravos.72 Pesquisas cuidadosas no campo da
Contra a eventualidade de execução da lei, que libertaria os cativos demografia histórica posteriores à década de 1980 procuraram rever essa
importados após 1831 e colocaria nas barras dos tribunais seus possuidores, imagem. Valendo-se de fontes pouco exploradas anteriormente, como as
os representantes dos cafeicultores ameaçavam o poder público com a pos-
sibilidade de resistência aberta. O que estava em jogo, no entanto, não eram 69 Sobre o volume do tráfico ilegal, conferir os dados em <www.slavevoyages.org>. Sobre a política
dos saquaremas para a escravidão, ver, além de Parron, A política da escravidão, o estudo clássico
apenas os africanos até então adquiridos, mas os que doravante seriam
de MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema: a formação do Estado imperial.
comprados. Ao tornarem a matéria – desde 1835 – pauta de campanha polí- 70 Ver, a propósito, os capítulos de Beatriz Galloti Mamigonian, “O direito de ser africano livre:
tica, os agentes do Regresso Conservador acenaram aos traficantes e cafei- os escravos e as interpretações da Lei de 1831”, e de Elciene Azevedo, “Para além dos tribunais:
cultores que dariam sinal verde à retomada do infame comércio. A estra- advogados e escravos no movimento abolicionista em São Paulo”, ambos inseridos no livro editado
por Silvia Hunold Lara e Joseli Maria Nunes Mendonça, Direitos e justiças no Brasil: ensaios de
tégia funcionou muito bem, pois, na segunda metade da década de 1830, História Social. (Campinas: Ed. Unicamp, 2006. p. 129-160, 199-238).
enquanto desembarcavam nos portos do centro-sul do Império 238.000 71 Cf. CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1978. p. 63-87. 1. ed. 1972; SLENES, Robert W. The Brazilian Internal Slave Trade, 1850-1888: regional
68 O SETE D’ABRIL. Rio de Janeiro, 13 jul. 1836. Para a análise da série completa em que se inscreve economies, slave experience, and the politics of a peculiar market. In: JOHNSON, Walter (Org.). The
esse artigo, bem como o papel crucial da imprensa do Rio de Janeiro na campanha pela reabertura Chattel Principle: internal slave trades in the Americas. New Haven: Yale University Press, 2004; MOTTA,
do tráfico, ver YOUSSEF, Alain El. Imprensa e escravidão: política e tráfico negreiro no Império do José Flávio. Escravos daqui, dali e de mais além: o tráfico interno de cativos na expansão cafeeira paulista
Brasil (Rio de Janeiro, 1822-1850). 2010. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de (Areias, Guaratinguetá, Constituição/Piracicaba e Casa Branca, 1861-1867). São Paulo: Alameda, 2012.
Filosofia, Letras e Ciências Sociais. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. 72 Ver as publicações arroladas na nota 6.

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listas nominativas de habitantes e os registros de matrícula de escravos ela- cafeeiros do Médio Vale fluminense. Escravaria numerosa, entretanto, não
borados após 1871, os investigadores apontaram para a existência de uma significa necessariamente latifúndio. Não raro houve fazendas com mais de
grande quantidade de pequenos e médios proprietários escravistas envolvi- cem escravos que contavam com menos de 100 alqueires geométricos (480
dos diretamente na produção de café. A posse média de escravos, afirmam, hectares). Aliás, os trabalhos sobre a estrutura fundiária do Vale documen-
estaria bem abaixo do número tradicionalmente anotado.73 tam a presença substantiva de sítios e situações, unidades com menos de 50
A questão, no entanto, permanece em aberto, pois grande parte dos alqueires que englobavam a maioria das posses rurais, afora uma miríade
estudos demográficos disponíveis versa sobre os municípios cafeeiros de de agregados e pequenos posseiros que dependiam de acordos com os
São Paulo nas primeiras décadas do século XIX. Com exceção de Bananal grandes senhores para sua permanência na terra, em uma relação eivada de
e de Campinas, antes do quarto final dos oitocentos nenhuma localidade tensões. O tamanho usual para as fazendas que empregavam mais de cem
paulista rivalizou em volume de produção e montante relativo e absoluto escravos girava de cem a trezentos alqueires, sendo poucas as propriedades
de escravos com os grandes municípios escravistas do Vale fluminense, com área superior a isso; seja como for, eram seus donos que controlavam a
isto é, Vassouras, Valença, Piraí, Barra Mansa, Paraíba do Sul e Cantagalo. quase totalidade da superfície de seus municípios.75
Faltam pesquisas demográficas detalhadas a respeito desses municípios flu- A distribuição das propriedades rurais em uma espécie de colcha de
minenses, porém temos à disposição dois trabalhos pormenorizados sobre retalhos, com uma mescla caótica de grandes fazendas, fazendolas, sítios e
Vassouras e Bananal. Se a propriedade escrava nesses dois municípios foi posses de agregados, ligava-se não só às particularidades da ocupação agrária
desde o início da cafeicultura disseminada no tecido social, com um grande da região, em especial o papel que essa assimetria desempenhava no jogo
número de homens livres possuindo escravos, a concentração foi, não obs- político local baseado em práticas de clientelismo,76 como também às espe-
tante, muito acentuada. Os dados agregados de Vassouras para o período cificidades da organização do processo de trabalho e de produção. Por um
de 1821 e 1880, por exemplo, informam que os mega-proprietários, donos lado, a produção de café era plenamente viável em pequenas unidades que a
de mais de cem escravos e correspondentes a 9% dos senhores, possuíram
combinavam com o plantio de mantimentos destinados à venda no mercado.
48% da escravaria total; somados aos que tinham de 50 a 99 escravos (gran-
Por outro lado, dadas as necessidades de controle espacial da escravaria,77 as
des proprietários), equivaleram a 21% dos senhores donos de 70% dos cati-
vos. Os autores desses dois estudos esclarecem ainda que a acumulação de 75 A informação das fazendas com grandes escravarias, porém inferiores a 100 alqueires, foi retirada de
escravos nas mãos desses grandes e mega-proprietários ocorreu na fase de RIBAS, 1990, p. 47. Sobre a composição fundiária do Vale cafeeiro e suas tensões, ver os trabalhos de
MUNIZ, 1990; MOTTA, 1998; SANTOS, Aldeci Silva dos. À sombra da fazenda: a pequena propriedade
expansão das lavouras de café, isto é, de 1836 e 1850, durante a vigência do agrícola na economia da Vassouras oitocentista. 1999. Dissertação (Mestrado em História) – Programa
tráfico transatlântico ilegal e não após seu encerramento.74 de Pós-Graduação em História, Universidade Severino Sombra, Vassouras, 1999; NARO, Nancy
Em vista desses dados, pode-se afirmar que o grosso da produção Priscilla. A Slave’s Place, a Master’s World: fashioning dependency in rural Brazil. Londres: Continuum,
2000. p. 30-43. Para grandes fazendeiros e suas propriedades, temos à disposição bons estudos de caso:
de café de Vassouras e Bananal era obtido em unidades com escravarias MUAZE, 2008; MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de. O visconde de Guaratinguetá: um fazendeiro de
numerosas, conclusão passível de generalização para os demais municípios café no Vale do Paraíba. São Paulo: Studio Nobel, 2002. 1. ed. 1976; SILVA, Eduardo. Barões e escravidão:
três gerações de fazendeiros e a crise da estrutura escravista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984;
CASTRO, Hebe Maria Mattos de; SCHNOOR, Eduardo (Org.). Resgate: uma janela para o oitocentos. Rio
73 A bibliografia sobre o assunto já é bastante numerosa. Ver, dentre outros, MOTTA, José Flávio. de Janeiro: Topbooks, 1995; COHN, Marjorie Rocha. A fazenda Santa Sofia: cafeicultura e escravidão no
Corpos escravos, vontades livres: posse de cativos e família escrava em Bananal (1801-1829). São Paulo: Vale do Paraíba Mineiro, 1850-1882. 2013. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de
Annablume: FAPESP, 1999. p. 67-108; MARCONDES, Renato Leite. Small and Medium Slaveholdings Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013; LOURENÇO, Thiago
in the Coffee Economy of the Vale do Paraíba, province of São Paulo. Hispanic American Historical Campos Pessoa. O Império dos Souza Breves nos oitocentos: política e escravidão nas trajetórias dos
Review, Durham: Duke University Press, v. 85, n. 2, p. 259-281, May 2005; e a síntese mais recente de comendadores José e Joaquim de Souza Breves. 2010. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto
LUNA, Francisco Vidal; KLEIN, Herbert S., Escravismo no Brasil. São Paulo: Edusp, 2010. p. 108. de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010.
74 Cf. SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX – senhores e escravos no coração 76 Cf. MOTTA, 1998; GRAHAM, Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro:
do Império Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008; MORENO, Breno A. S. Demografia e trabalho Ed. UFRJ, 1997.
escravo nas propriedades rurais cafeeiras de Bananal, 1830-1860. 2013. Dissertação (Mestrado em História 77 Cf. MARQUESE, Rafael de Bivar. Moradia escrava na era do tráfico ilegal: senzalas rurais no Brasil
Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. e em Cuba, c. 1830-1860. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 13, n.

50 51
grandes unidades em plena operação tinham um tamanho máximo que era e bem espaçado dos pés, residia o propósito de otimizar o processo de tra-
ditado pelo tempo de deslocamento dos trabalhadores da quadra da senzala – balho. A adoção da primeira técnica permitia o rápido preparo do terreno
sempre acoplada à casa de vivenda e às instalações produtivas – ao eito. Nisto sem dispêndio excessivo de tempo de trabalho. A segunda técnica permitia,
reside o porquê de muitos dos mega-proprietários de escravos, donos de cen- por meio da visualização, o controle estrito do trabalho dos escravos. No
tenas e por vezes milhares de cativos, fundarem várias fazendas contíguas, amanho dos cafezais, os escravos, organizados em turmas (ou ternos, na
cada qual com sua sede (senzalas, terreiros, engenhos, tulhas), ao invés de linguagem oitocentista) sob o comando de um capataz, eram alocados cada
integrarem-nas em um único latifúndio. Fazendas com mais de 400 alquei- qual em uma fileira de arbustos, com o objetivo de seguirem todos o mesmo
res, afinal, exigiriam longas caminhadas da senzala aos cafezais, com o con- ritmo de trabalho. Dado que o espaçamento entre as fileiras era considerável
sequente dispêndio desnecessário de tempo e de energia dos trabalhadores. (de 12 a 15 palmos, 2,64 a 3,3 metros), o capataz, na base do outeiro, poderia
A configuração interna das fazendas era igualmente a de uma paisagem observar se a linha de cativos prosseguia no mesmo passo ditado pelos tra-
descontínua, algo determinado antes de tudo pela topografia dos mares de balhadores das pontas. No período de colheita, a organização do trabalho
morros. Mas não apenas isso, pois as próprias estratégias de gestão agrá- era distinta, seguindo um sistema de tarefas atribuídas individualmente a
ria adotadas conduziam a tal conformação. O plantio alinhado vertical dos cada escravo do eito e variáveis conforme o volume estimado da safra.79
pés de café ocorria nos morros de meia laranja, em terrenos de derrubada e A cafeicultura escravista brasileira combinou, assim, as duas modali-
queima de mata. No entanto, não se alocava o arbusto em todos os outeiros. dades básicas de organização do processo de trabalho escravo presentes nas
De acordo com a altitude em que se situava a fazenda, as fileiras eram dis- demais regiões de plantation do Novo Mundo, as turmas sob comando uni-
postas ou nas faces dos morros que recebiam o sol da manhã (“noruegas”), ficado (gang system) e o sistema de tarefas individualizado (task system).80
ou nas que eram ensolaradas à tarde (“soalheiras”). Durante o período de Tal arranjo, ademais, permitiu aos senhores a imposição de uma taxa assom-
crescimento dos arbustos, cultivava-se milho e feijão entre as fileiras bastante brosa de trabalho a seus cativos. Na cafeicultura de Saint-Domingue, a um
espaçadas dos pés de café; baixios, várzeas e brejos, inadequados ao cafeeiro, escravo de eito eram atribuídos usualmente entre 1.000 e 1.500 pés de café,
eram cultivados com arroz e cana. Os arbustos assim plantados permaneciam o mesmo que se imputava aos escravos jamaicanos. Em Cuba, estimava-se
produtivos por no máximo 25 anos, mas seus rendimentos eram perceptivel- que um cativo de roça cultivaria em média 2.000 pés, número semelhante
mente decrescentes a partir de 15 anos. Para manter a produção em patamares ao do início da cafeicultura no Vale do Paraíba, onde, no entanto, pres-
estáveis, fazia-se necessário replantar constantemente pés de café em matas supunha-se que os trabalhadores cultivariam também seus próprios man-
de derrubada, com vistas à substituição dos arbustos velhos e improdutivos timentos.81 Registros posteriores dão conta do que se passou a exigir dos
prestes a serem convertidos em pasto, roças de subsistência ou capoeiras.78
Na base desses esquemas de administração da paisagem, cujos dois 79 Os manuais agrícolas mais importantes para a cafeicultura escravista do Vale do Paraíba, que
expressavam as práticas efetivamente empregadas pelos fazendeiros, foram a Pequena memória do
pontos essenciais eram o cultivo em derrubadas e o plantio alinhado vertical Padre Aguiar, de 1836, e o famoso opúsculo de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck (Barão do
Paty do Alferes), Memória sobre a fundação de uma fazenda na província do Rio de Janeiro (1ª ed.
2, p. 165-188, jul.-dez. 2005. Ver, também, SANTOS, Marco Aurélio dos. Geografia da escravidão na em 1847), com a organização de Eduardo Silva (Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa:
crise do Império: Bananal, 1850-1888. 2014. Tese (Doutorado em História Social) – Faculdade de Senado Federal, 1985). Para uma análise da série completa dessas publicações, ver MARQUESE,
Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. Rafael de Bivar. Administração & escravidão: idéias sobre a gestão da agricultura escravista
brasileira. São Paulo: Hucitec, 1999. p. 157-189.
78 Para a gestão agrícola empregada no Vale, ver FRAGOSO, João Luis Ribeiro. Sistemas agrários em
Paraíba do Sul (1850-1920): um estudo de relações não-capitalistas de produção. 1983. Dissertação 80 Cf. MORGAN, Philip. Task and Gang Systems: the organization of labor on New World plantations.
(Mestrado em História) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1983. Sobre as In: INNES, P. (Org.). Work and Labor in Early America. Chapel Hill: The University of North
articulações entre administração da paisagem e administração do trabalho escravo, ver MARQUESE, Carolina Press, 1988.
Rafael de Bivar. Diáspora africana, escravidão e a paisagem da cafeicultura escravista no Vale do 81 Sobre Saint-Domingue, ver GEGGUS, David P. Sugar and Coffee Cultivation in Saint-Domingue
Paraíba oitocentista. Almanack Braziliense, São Paulo, n. 7, p. 138-152, maio 2008. Ver também and the Shaping of the Slave Labor Force. In: BERLIN, I.; MORGAN, P. (Org.). Cultivation and
STEIN, 1990, p. 260-265, e o relato contemporâneo de LAËRNE, C. F. van Delden. Brazil and Java: Culture: Labor and the Shaping of Slave Life in the Americas. Charlottesville: University Press
report on coffee-culture in America, Asia, and Africa. Haia: Martinus Nijhoff, 1885. p. 253-382. of Virginia, 1993. p. 77; para a Jamaica, HIGMAN, 2001, p. 159-191; sobre Cuba, NOA, Tranquilino

52 53
escravos com a progressiva especialização das fazendas. Um livro de con- em grandes unidades pertencentes a investidores privados. Em resposta ao
tas de Cantagalo consultado pelo diplomata Johann Jakon von Tschudi em problema, Van den Bosch propôs um esquema – logo implementado pelo
1860 apontava cerca de 3.800 pés por escravo de roça. A tese que Reinhold Estado holandês – no qual os camponeses indonésios seriam compelidos a
Teuscher – médico de partido das fazendas de Antonio Clemente Pinto pagarem imposto fundiário. Tratava-se de uma reconfiguração em novas
(barão de Nova Friburgo), também em Cantagalo – apresentou alguns anos bases de práticas pretéritas da V.O.C: sob o Kultuur Stelsel, os camponeses
antes à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro veiculava um número deveriam alocar um quinto de suas terras para o granjeio de artigos deter-
ainda maior: “5 a 6000 pés de café” para cada escravo de eito.82 As conse- minados pelo governo, fornecendo-os a preços fixos aos armazéns oficiais
quências do método agronômico que possibilitava tais taxas de explora- sem serem supervisionados no processo de produção. O café se tornou a
ção do trabalho eram a erosão, o esgotamento do solo e o envelhecimento espinha dorsal do sistema e a principal fonte de rendas para o Estado colo-
precoce dos pés, o que, por sua vez, demandava replantios periódicos em nial. Os preços pagos aos camponeses não seguiam os valores do mercado
matas virgens. Sobre-exploração dos trabalhadores e devastação ambiental mundial do café, o que resultava em uma imensa transferência de exceden-
eram faces da mesma moeda na dinâmica da cafeicultura escravista do Vale tes para os poderes coloniais. Os ganhos se ampliavam com as operações
do Paraíba e na formação do mercado de massa da bebida. da Nederlandsche Handelmaatschappij, uma companhia semimonopolista
De 1840 em diante, a única região produtora mundial que se mostrou que remetia o artigo para venda no mercado de Amsterdã.83
capaz de competir com o Vale do Paraíba foi a possessão holandesa de Java, O “sistema de cultivo” permitiu um notável aumento da produção de
na Indonésia. Suas trajetórias, porém, foram bastante distintas: enquanto café de Java em relação ao século XVIII, levando-a a oferecer parte signifi-
a produção brasileira verificou aumento constante, a de Java estacionou cativa do volume importado pela Europa no século XIX. O produto javanês,
no patamar de 75.000 toneladas métricas anuais. A discrepância muito entretanto, só poderia crescer caso ocorresse o mesmo com sua população
revela sobre a natureza do complexo cafeeiro escravista do Vale. Vimos, na camponesa, mais preocupada com a combinação de atividades econômicas
segunda parte do capítulo, que a economia de Java passou por sérias atribu- que garantiam o provento de suas famílias do que com a maximização da
lações na virada do século XVIII para o XIX. Os esforços de reforma poste- produção cafeeira, vista como uma imposição do Estado colonial.
riores ao fim da V.O.C. levaram, na década de 1830, à construção de um novo O contraste com o Império do Brasil não poderia ser mais completo.
modelo de exploração colonial, o Kultuur Stelsel, ou “sistema de cultivo”. Em 1883, já no contexto da crise do escravismo, C.F. Van Delden Laërne,
Seu elaborador, Johannes Van den Bosch, avaliava que, diante da proximi- um agrônomo holandês com vasta experiência de terreno em Java, visitou
dade com os mercados europeus e o baixo custo do trabalho proporcio- as províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo para examinar
nado pela escravidão negra nas Américas, seria impossível a Java competir qual o segredo do volume da produção brasileira. Após uma estadia de seis
no mercado mundial valendo-se unicamente do emprego de trabalho livre meses, redigiu um minucioso relatório que ainda hoje é uma das melho-
res fontes para o estudo da escravidão na cafeicultura brasileira. Após fazer
Sandalio de. Memoria publicada por la Real Sociedad Patriotica sobre esta cuestión del programa:
“Cuáles son las causas a que puede atribuirse la decadencia del precio del café, y si en las actuales uma avaliação da quantidade de cativos empregados diretamente nas fai-
circunstancias de su abatimiento seria perjudicial empreender su cultivo, o prudente abandonarlo”. nas do café, Laërne advertia o leitor que prestasse atenção “a esses cálculos,
Programa publicado en el Diário del Gobierno de la Habana en 10 de abril de 1829, p. 131-133. As
informações para o Brasil das décadas de 1820 e 1830 estão na Pequena memória de Padre Aguiar e
por mais que pareça neste país [Holanda] que o plantio do café no Brasil
no Manual do agricultor brasileiro, de Carlos Augusto Taunay, p. 130. requeira mais mãos do que efetivamente ocorre. No capítulo a respeito
82 Cf. VON TSCHUDI, Johann Jakob. Viagem às províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo: da agronomia do café, vamos aprender como é possível, com tão poucas
Edusp; Belo Horizonte: Itatiaia, 1980. p. 41. 1. ed. 1866; TEUSCHER, R. Algumas observações sobre a
estatística sanitária dos escravos em fazendas de café. 1853. 12 f. Tese (Para verificação de diploma) –
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Typ. Imp. e Const. de J. Villeneuve e Comp., 83 Sobre o Kultuur Stelsel e a cafeicultura javanesa, ver ELSON, 1994; CLARENCE-SMITH, 1994;
1853. p. 6. Pedro Carvalho de Mello (A economia da escravidão nas fazendas de café, p. 17), trabalhando FURNIVALL, J. S. Netherlands India: a study of plural economy. Cambridge: Cambridge University
com documentos do Banco do Brasil produzidos entre 1867 e 1870, anotou de 2.976 a 4.955 pés de café Press, 1944. p.80-147; BAARDEWIJK, F. V. The cultivation system, Java 1834-1880. Amsterdã: Royal
por escravo, indicando que, quanto menor a propriedade, maior era a taxa de exploração. Tropical Institute (KIT), 1993. p. 12-14.

54 55
pessoas, produzir uma safra com mais de seis milhões de sacas [360.000 Novas considerações sobre o Vale do Paraíba
toneladas]”.84 A resposta ao enigma não era difícil de ser encontrada. A
fronteira aberta e a mobilidade proporcionada pelo trabalho escravo, soma-
e a dinâmica imperial
das, após a década de 1860, à construção da malha ferroviária e à adoção de
maquinário avançado de beneficiamento que permitia poupar mão de obra
Mariana Muaze
e deslocar mais cativos ao eito,85 tornaram a produção brasileira altamente
elástica, apta não somente a responder rapidamente aos impulsos do mer-
cado mundial, como, sobretudo, a comandá-los.
É aqui que se encontra o caráter radicalmente moderno da escravidão
no Vale do Paraíba. Com base nela, o Brasil se tornou capaz de determinar
o preço mundial de um artigo indissociável do cotidiano das sociedades
O presente artigo1 trabalha com a interpretação de que a ascensão da eco-
urbanas industriais, cujos ritmos de trabalho passaram a ser marcados pelo
nomia cafeeira na região do Vale do Paraíba fluminense e a expansão da
consumo da bebida. Nas fábricas, no comércio, nas repartições públicas,
classe senhorial do Império são processos interligados e interdependentes.
nos hospitais, nas escolas ou em qualquer outro lugar no qual a cadência
Sendo assim, considera que os lucros, demandas e interesses constituídos
fosse ditada pelo tempo do relógio, o estimulante se tornou onipresente.
em torno da cafeicultura no centro-sul foram imprescindíveis para a conso-
Não por acaso, Brasil e Estados Unidos – o paradigma do novo modo de
lidação da classe senhorial na sua dimensão nacional. A economia cafeeira
vida industrial e do consumo de massa – foram as duas pontas principais
e as identidades constituídas em torno da manutenção da escravidão cria-
da cadeia da mercadoria ao longo do século XIX, algo que se estreitou na
ram condições para que esta classe entretecesse práticas de vida – materiais,
centúria seguinte. E, como em vários outros momentos do capitalismo his-
econômicas, sociais, culturais e políticas – em torno da construção de um
tórico, a formação de uma nova commodity frontier para o abastecimento
Estado nacional, conformando-o como sua principal fonte de sustentação
das zonas centrais articulou de forma direta a degradação do trabalho e da
social e objeto de direção política.2
natureza nas zonas periféricas. A novidade do Vale do Paraíba, em rela-
Portanto, na perspectiva aqui apresentada, a história local do Vale do
ção às outras fronteiras que o haviam precedido, consistiu em sua escala,
Paraíba fluminense e o contexto político, econômico e social do Brasil no
até então sem precedentes. Seus fazendeiros não só promoveram um dos
oitocentos possuem conexões essenciais. Dentre elas, pode-se destacar a
mais intensos fluxos de africanos escravizados para o Novo Mundo, parte
transformação do Vale do Paraíba fluminense em maior exportador mun-
do qual sob a marca da ilegalidade, como igualmente arrasaram, no espaço
dial de café, processo viabilizado por uma política pró-escravista, de cunho
de apenas três gerações, uma das mais ricas coberturas florestais do mundo.
nacional, claramente desenhada para garantir a continuidade desta ins-
Produção em massa, consumo em massa, escravização em massa, destrui-
tituição no Brasil.3 Contudo, não se trataria mais de uma escravidão em
ção em massa: tais foram os signos da modernidade que conformaram a
paisagem histórica do Vale do Paraíba.
1 Esta é uma nova versão do texto “o Vale do Paraíba fluminense e a dinâmica imperial” publicado
84 LAËRNE, 1885, p. 124. em Inventário das fazendas do Vale do Paraíba fluminense: fase III. Rio de Janeiro: Instituto Estadual
do Patrimônio Cultural: Secretaria de Estado de Cultura, 2010. E em Instituto Cidade Viva. Rio de
85 Cf. SUMMERHILL, William R. Order against progress: government, foreign investment, and railroads
Janeiro, 2010. Disponível em: <www.institutocidadeviva.org.br>.
in Brazil, 1854-1913. Stanford: Stanford University Press, 2003; SLENES, Robert W. Grandeza ou
decadência? O mercado de escravos e a economia cafeeira da Província do Rio de Janeiro, 1850- 2 Sobre as relações entre escravidão e construção do Estado imperial, ver: MATTOS, Ilmar Rohloff de.
1888. In: COSTA, Iraci del Nero (Org.). Brasil: história econômica e demográfica. São Paulo: IPE: O Tempo Saquarema: a formação do Estado imperial. São Paulo: Hucitec, 1990.
USP, 1986; FRAGOSO, João L. R. A roça e as propostas de modernização na agricultura fluminense 3 Ibid. Ver ainda, SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX – senhores e escravos
do século XIX: o caso do sistema agrário escravista-exportador em Paraíba do Sul. Revista Brasileira no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008; PARRON, Tâmis. A política da
de História, São Paulo: Anpuh, v. 6, n. 12, p. 125-150, mar.-ago. 1986. escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. São Paulo: Civilização Brasileira, 2011.

56 57
moldes coloniais, arcaica;4 mas uma escravidão “moderna”,5 uma “Segunda em poucos anos, senhores e negociantes escravistas se articularam politi-
Escravidão”,6 cujas marcas seriam a alta lucratividade, a relação com o mer- camente e o número de africanos traficados ilegalmente cresceu de forma
cado internacional, a exploração intensiva da mão de obra propiciada pela avassaladora. Esta tendência só foi interrompida em 1850, com a assinatura
inovação técnica e organizativa da exploração, além da proximidade polí- da Lei Eusébio de Queiroz, quando o tráfico tendeu à extinção definitiva.
tica com o estado nacional.7 Nesta ocasião, a quantidade de escravos traficados que se encontravam tra-
A estrutura produtiva e comercial montada na localidade, em torno da balhando nos complexos cafeeiros do Vale do Paraíba já era suficiente para,
praça do Rio de Janeiro e suas regiões adjacentes, entre os anos de 1820 e através da formação de famílias e da reprodução natural, garantir a sobrevi-
1840, beneficiava os fazendeiros do Vale, mas também um seleto grupo de vência numérica da escravidão e o sistema produtivo das plantations cafeei-
negociantes estabelecidos na Corte e responsáveis pelo escoamento da pro- ras funcionando por muito tempo.11
dução de café para o mercado internacional. Quando as tropas de mulas, Partindo dos princípios interpretativos acima apresentados e conside-
comandadas por arreadores, muitos deles portugueses, desciam a serra lota- rando a temporalidade entre a edificação dos complexos cafeeiros flumi-
das de carregamentos de café com destino à Corte,8 imediatamente retorna- nenses, ocorrida nos anos 1820/1830, e o auge da produção na década de
vam ao Vale com africanos escravizados recém-adquiridos, além de outras 1870,12 este texto apresenta as seguintes proposições: I– a noção de Vale do
encomendas enviadas pelas casas comissárias de confiança dos fazendeiros.9 Paraíba como uma região eminentemente cafeeira foi construída, ao longo
Como se vê, a Corte foi uma espacialidade fundamental para a estru- do século XIX, concomitantemente com a ascensão política e econômica
tura política imperial e os negócios cafeeiros. Até a década de 1830, os escra- dos plantadores de café, atuando como mais um elemento de identidade da
vos africanos desembarcavam no porto do Rio de Janeiro e de lá subiam classe senhorial do Vale; II– os agentes sociais que atuaram na ocupação do
a serra para trabalharem nas plantations. Com a Lei de 1831, declarada a Vale do Paraíba fluminense bem como o capital investido na montagem dos
ilegalidade do tráfico Atlântico, os desembarques foram dificultados pelo complexos cafeeiros tiveram múltiplas origens; III– as plantations do Vale
governo brasileiro e passaram a se dar clandestinamente.10 No entanto, se organizavam como complexos cafeeiros que mantinham uma dinâmica

4 FRAGOSO, João Luis; FLORENTINO, Manolo. Arcaísmo como projeto: mercado atlântico, sociedade 2011. Duração 43 min; e MEMÓRIAS do cativeiro. Direção acadêmica: Hebe Mattos e Martha Abreu.
agrária e elite mercantil numa economia colonial tardia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. Coordenação geral e roteiro: Hebe Mattos. Niterói: Labhoi-UFF, 2005. Ambos em UffTube: portal
5 A denominação de escravidão moderna para o século XIX é utilizada por ambos os autores a de vídeos. Disponível em: <www.labhoi.uff.br>.
seguir, contudo com definições distintas: ALENCASTRO. Luiz Felipe. Vida privada e ordem privada 11 SALLES, 2008.
no Império In: ___. (Org.). História da vida privada no Brasil: Império – a corte e a modernidade
12 A cronologia proposta por Stanley Stein para o Vale, durante muito tempo, foi tomada pela historio-
nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (História da Vida Privada no Brasil, v. 2); LUNA,
grafia sem grandes questionamentos. Nesta interpretação, até 1850, seria o período da montagem do
Francisco Vidal; KLEIN, Herbert S. Escravismo no Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial, 2009.
complexo cafeeiro no Vale, seguido dos anos de 1850 a 1864, quando a produção e as exportações do
6 TOMICH, Dale. Pelo prisma da escravidão, trabalho: trabalho, capital e economia mundial. São Paulo: produto chegariam ao auge. A falta de investimentos tecnológicos, o esgotamento das matas virgens
Edusp, 2011. Não se tratava apenas de aumentar a exploração do trabalhador escravo, aumentando para continuar crescendo, o alto preço da mão de obra escrava, a escassez das terras de “fazenda velha”
suas horas de trabalho na produção de mercadorias, mas da intensificação, dada pela introdução de seriam alguns dos elementos que desencadearam uma crise maciça do sistema a partir da segunda
inovações tecnológicas, propiciadas pela inovação técnica e organizativa, da exploração. metade dos anos sessenta. Contudo, estudos mais pontuais têm mostrado que, dependendo da pro-
7 Ibid. priedade e das estratégias de manutenção do patrimônio de seus proprietários, a história era diferente.
Portanto, a crise descrita por Stein não foi generalizada e nem a mesma em todas as fazendas do Vale
8 LENHARO, Alcir. As tropas da moderação: o abastecimento da Corte na formação política do Brasil,
fluminense. Não se trata de dizer que os problemas de esgotamento dos solos, envelhecimento dos
1808-1842. Rio de Janeiro: Moysés Baumstein, 1979.
cafezais e da mão de obra, apontados por Stein, inexistiram concretamente; mas de afirmar que seus
9 FERREIRA, Marieta de Moraes. A crise dos comissários de café do Rio de Janeiro. 1977. Dissertação efeitos foram sentidos, mais seriamente, na fronteira dos anos oitenta, e que as famílias encontraram
(Mestrado em História do Brasil) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universiadade formas diversas de lidar com o problema. Aqueles que conseguiram superar a crise e manter suas
Federal Fluminense, Niterói, 1977. fazendas investiram em títulos da dívida pública, ações de bancos e empresas, montagem de empre-
10 Sobre o tráfico ilegal de escravos, ver: MAMIGONIAN, Beatriz G. A proibição do tráfico atlântico e a sas, compra de imóveis urbanos, etc. Consultar: STEIN, Stanley J. Vassouras: um município brasileiro
manutenção da escravidão. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo. (Org.). Coleção Brasil Imperial: do café, 1850-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. SLENES, Robert W. Grandeza ou decadência?
1808-1831. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. v. 1; PARRON, 2011. Para relatos de descen- O mercado de escravos e a economia cafeeira da Província do Rio de Janeiro, 1850-1888. In: COSTA,
dentes de africanos e os lugares de memória do tráfico, consultar os vídeos: PASSADOS presentes Iraci del Nero (Org.). Brasil: história econômica e demográfica. São Paulo: IPE: USP, 1986; MUAZE,
– memória negra no sul fluminense. Direção de Hebe Mattos e Martha Abreu. Niterói: Labhoi-UFF, Mariana. As memórias da viscondessa: família e poder no Brasil Império. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

58 59
social e de trabalho hierarquizante a despeito da diversidade de sujeitos his- No vale do Paraíba (Rio de Janeiro, S. Paulo, Minas) concentram-se um milhão
tóricos que viviam e se relacionavam naquele espaço. de escravos. Outrora, os interesses da sua grande propriedade procrastinaram
a repressão do tráfico, humilhando a nação inteira.16

I Mais de meio século de grandes transformações no Império do Brasil


distanciam as falas de Saint-Hilaire e Tavares Bastos. Neste período, no
Entre os anos de 1816 e 1822, o naturalista francês Auguste Saint-Hilaire per-
que compete ao vale do Paraíba, as mudanças vão muito além da paisagem
correu diversas localidades do Império do Brasil. Para descrever a região
ou da geografia do lugar. A própria noção de “Vale do Paraíba” havia sido
aqui estudada, usou a expressão Vale do Paraíba uma única vez: “a habita-
resignificada. Não se tratava mais somente de um acidente geográfico, uma
ção de Boa Vista da Pampulha é mais elevada que Sumidouro, que, entre-
referência territorial, um mero localizador. Tornara-se uma região especí-
tanto, é mais próximo três léguas da cadeia marítima, e, por conseguinte,
fica, parte importante da província do Rio de Janeiro, com características
mais afastado do vale do Paraíba”.13 Nesta passagem, o termo foi usado como
políticas, econômicas e sociais próprias. Esta singularidade foi percebida
um marco espacial para facilitar a localização especificada pelo viajante. Em
por Tavares Bastos quando a descreveu como possuidora de muitos escra-
outros momentos do mesmo texto, o rio Paraíba do Sul consta como refe-
vos, com o predomínio de grandes fazendas e com um grupo de proprietá-
rência principal, mas mantém a mesma conotação de acidente geográfico:
rios com respaldo político e cabedal econômico suficientes para resistir ao
“estrada nova do Paraíba”, “caminho novo do Paraíba”. Quase chegando a vila
fim do tráfico de escravos. Portanto, na década de 1870, o Vale do Paraíba já
de Nossa Senhora da Glória Valença, com o mesmo sentido, descreveu: “che-
havia se constituído como uma região. Mas não qualquer uma. Tratava-se
guei às margens do Paraíba, que aqui tem, mais ou menos, a mesma largura
de uma região com projeção econômica e política no âmbito nacional.
do que no lugar em que o atravessamos, perto de Ubá. Corre o rio, majestosa-
O reconhecimento do potencial da região do Vale era assunto comen-
mente, num vale circundado de altas montanhas cobertas de mata virgem”.14
tado nas províncias e na Corte, onde era comum se ouvir nas ruas o bordão
No ano 1870, Tavares Bastos usou Vale do Paraíba duas vezes em seu
“o Império é o café e o café é o Vale”. O dito era tão popular que o político
livro A província: estudos sobre a descentralização do Brasil.15 Na primeira, ao
gaúcho Gaspar Silveira Martins, durante a campanha abolicionista, com-
precisar por onde passava o telégrafo brasileiro, relatou: “apenas uma curta
pletou-o dizendo: “O Brasil é o café, e o café é o negro”.17 Suas palavras, ape-
linha percorre o litoral do Rio de Janeiro até Campos, outra corta o vale do
sar de críticas à escravidão, reconheciam claramente a indissociabilidade
Paraíba”. Suas palavras, assim como as de Saint-Hilaire, ressaltavam o papel
entre o estado Imperial, o café, a região do Vale do Paraíba e a escravidão.
do vale como referência geográfica. Contudo, na segunda menção feita pelo
A noção de Vale do Paraíba como região política e economicamente
político e escritor brasileiro, já havia a preocupação em apresentar as especi-
consolidada também já aparecia nos anos sessenta, quando do debate sobre
ficidades econômicas daquelas terras, dando-lhes um novo significado:
a construção da Estrada de Ferro D. Pedro II na imprensa:
13 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem às nascentes do rio S. Francisco e pela província de Goiás. São
[...] A estrada de Ferro D. Pedro II, cujos destinos foram previstos e delinea-
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937. v.1, p. 23. Brasiliana Eletrônica. Disponível em: <www.
brasiliana.com.br>. Acesso em: 26 set. 2014. dos, ganhasse forças servindo ao rico Vale do Paraíba da Cachoeira até o Porto
14 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo (1822).
Novo do Cunha. (A ACTUALIDADE: Jornal Político, Litterário e Noticioso, Rio
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932. v. 5, p. 34. Brasiliana Eletrônica. Disponível em: de Janeiro, 2 fev. 1862).
<www.brasiliana.com.br>. Acesso em: 26 set. 2014. A estrada de Ferro D. Pedro II foi feita especialmente para servir ao vale do
15 Tavares Bastos foi um importante escritor e político alagoano. Ocupou a cadeira de deputado geral Paraíba e para suas partidas de imensa produção que ali se encontram. (A
pela província de Alagoas, entre 1861 e 1868. Consultar: BASTOS, Aureliano Tavares. A província:
ACTUALIDADE: Jornal Político, Litterário e Noticioso, 19 fev. 1862).
estudos sobre a descentralização do Brasil. São Paulo: Companhia Editora nacional, 1937. p. 302, 368.
Brasiliana Eletrônica. Disponível em: <http://www.brasiliana.com.br>. Acesso em: 3 maio 2011. Para
efetuar a pesquisa sobre a designação Vale do Paraíba, usamos os noventa e sete livros da Coleção
Brasiliana que estavam disponíveis na internet. Dentre os autores que também utilizaram a expres- 16 BASTOS, 1937.
são Vale do Paraíba, ainda encontramos: Alberto Torres, Manoel Bonfim e João Pandiá Calogeras. 17 TOPLIN, Robert Brent. The Abolition of Slavery in Brazil. New York: Atheneum, 1975. p. 136.

60 61
[...] O Vale do Paraíba dará produção para pagar e indenizar amplamente os capi- década de 1830.21 O caso da fazenda Pau Grande, uma das sesmarias mais
tais que se empregarem ali em estrada de ferro, e então se aproveitará em toda antigas da região, fundada na segunda metade do XVIII, por José Rodrigues
a extensão desse dinheiro que aí estará bem guardado. (CORREIO MERCANTIL:
da Cruz, é bem representativo:22
Jornal Noticioso, Commercial e Político, Rio de Janeiro, 10 set. 1867).
AÇÚCAR AGUARDENTE RECEITA TOTAL
Tantos investimentos em uma só localidade despertaram críticas áci-
das e deboches de representantes das províncias não contempladas: 1797 4:661$540 (1960@e30ss) 1:818$540 (60 pipas) 6:480$080

O Vale do Paraíba é importante, vale até estrada de ouro. O resto do país não 1801 48:916:476 (3707@) 2:450$800 (92 ½ pipas) 52:492$661
vale nada, contentam-se com postos da guarda nacional, com os filões dos car- 1805 83:038$634 (não consta) 2:089$040 (107 ½ pipas) 85:127$675
gos policiais, e com os diplomas de eleitores para fabricar deputados e sena-
dores, porque de Minas é só isso que querem, com lombo de porco e feijão 2:997$920
1810 102:747$529 (1035@26ss) 105:745$449
fresco. Além da Mantiqueira, só campos estéreis, e o Vale do Paraíba produz (63 pipas e 132 medidas)
café e pode dar [...] boas empreitadas as custas do tesouro. (O GLOBO: Jornal
Philosophico, Literario, Industrial e Scientifico, Rio de Janeiro, 29 dez. 1867).18 A análise das receitas expostas demonstra a franca expansão dos negó-
cios e confirmam que a maior parte dos lucros da fazenda advinha do comér-
Os diferentes significados dados ao Vale do Paraíba ao longo do século
cio do açúcar e da aguardente para consumo interno e exportação, ainda
XIX permitem caracterizá-lo como uma construção histórica. Nos primei-
nos anos de 1810. A produção era comercializada com diferentes compra-
ros anos do século XIX, a experiência da escassa ocupação e das imensas
dores estabelecidos nas localidades vizinhas de Barra do Inhomirim, Pillar e
matas virgens projetava o rio Paraíba como localizador para os que ali passa-
Corte. As numerosas pipas de aguardente relacionadas tinham como destino
vam, com o intuito de traçar direções que facilitassem a exploração daquelas
final Benguela e Lisboa, onde a bebida era usada no tráfico transatlântico de
terras. Não obstante, à medida em que o território foi colonizado, houve o
escravos africanos. Com negócios tão consolidados, só houve interesse em
crescimento de vilas, cidades, entrepostos comerciais, estradas, pequenos e
investir maciçamente na cultura do café por volta da década de 1830, quando
médios sítios,19 além de imensos latifúndios. As transformações sociais, eco-
o preço da rubiácea já estava em ascensão no comércio mundial. Da mesma
nômicas, políticas, culturais e de meio ambiente ocorridas alteraram as per-
forma que no exemplo descrito, muitos proprietários exploraram as duas
cepções individuais e coletivas constituídas sobre aquela espacialidade. Das
culturas concomitantemente até que, enfim, os lucros do cafeeiro superaram
relações estabelecidas e vivenciadas pelos agentes sociais, emergiu a noção
de Vale do Paraíba como região cafeeira, escravista, exportadora e economi- os da cana de açúcar redundando numa substituição definitiva.23
camente próspera.20 Esta associação foi facilitada pela rápida ampliação do
21 Para a década de 1820, os principais produtos exportados no Império tinham os seguintes índices
cultivo da rubiácea nas terras banhadas pelo rio Paraíba; também conheci- gerais: 27,8% açúcar, 21% algodão e 19,2% café. Na segunda metade do século XIX, os índices do
das como “Serra Acima”. Portanto, como fica aqui demonstrado, o espaço café bateram 60% das exportações e o Vale do Paraíba tornou-se o maior exportador mundial do
produto. O açúcar, em outras localidades do Rio de Janeiro, manteve sua força econômica e o poder
é um produto social, resultado histórico das disputas sociais e políticas em
político de muitos de seus produtores durante boa parte do XIX.
torno da significação do território. E com o vale do Paraíba não foi diferente. 22 Sobre a fazenda Pau Grande e as famílias Ribeiro de Avellar e velho da Silva, consultar: MUAZE,
Nas primeiras décadas do oitocentos, o café disputava espaço com Mariana. 2008.
algumas culturas de subsistência e, principalmente, com a cana de açúcar, 23 Para fazer esta afirmação, comparamos dois inventários de membros da família. No primeiro,
pertencente à D. Antônia Maria da Conceição (1828), não foram relacionados instrumentos de
gênero mais lucrativo na balança comercial brasileira até, pelo menos, a trabalho, bens de raiz ou plantações referentes ao seu cultivo de café. Tal constatação indica que,
até aquele momento, o cafeeiro ainda não havia se tornado o principal sustentáculo da riqueza
18 Grifos meus. Todas as quarto citações acima foram consultadas no site: Biblioteca Nacional Digital
familiar, logo, a fazenda continuava vigorando como um engenho por excelência. Já no inventá-
Brasil. Rio de Janeiro. Disponível em: <hemerotecadigital.bn.br>. Acesso em: 5 jun. 2014.
rio de seu filho, barão de Capivary (1863), encontram-se listados milhares de árvores de diferen-
19 Sobre a agricultura de subsistência e a fundação da vila de Paty do Alferes, ver: MUAZE, 2008, cap. 4. tes idades, tendo as mais antigas 24 anos, levando-me a concluir que a substituição de culturas
20 Sobre espaço e relações sociais na história, consultar: KNAUSS, Paulo. Introdução. In: ___. Cidade deve ter sido iniciada na década de 1830. A fortuna acumulada por este fazendeiro foi da ordem
vaidosa: imagens urbanas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999. p. 7. de 858:670$300, conforme seu inventário. Documentos consultados: INVENTÁRIO do Barão de

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Desde a virada do século XIX, com a industrialização europeia e a Diante da demanda crescente, o plantio da rubiácea cresceu imensa-
revolução escrava de São Domingos, houve uma reestruturação significa- mente através de dois eixos principais. O primeiro partiu de Laranjeiras,
tiva dos lugares produtores de commodities. Segundo o historiador Rafael Tijuca e Serra do Mendanha, na cidade do Rio de Janeiro, e atingiu o Vale
Marquese,24 esta colônia francesa respondia por parte significativa da pro- do rio Paraíba do Sul, onde tomou dois sentidos distintos. Para São Paulo,
dução de gêneros tropicais (como açúcar, algodão e café) até 1791, quando margeando o Caminho Novo da Piedade (desbravado em 1770 para facilitar
foi declarada a independência do Haiti. Na nova conjuntura política, houve a comunicação entre o Rio de Janeiro e as minas de Goiás e Mato Grosso),
a desestruturação dos largos plantéis ali existentes e seu espaço no mercado se destacaram as localidades de São João Marcos do Príncipe, Resende,
internacional foi suprido por novas áreas produtoras, a exemplo do Vale do Piraí e São Sebastião de Barra Mansa. Em direção à Minas Gerais, nos veios
Paraíba. Por outro lado, a Revolução Industrial inglesa e o novo ritmo de do Caminho Novo (aberto para o transporte do ouro na década de 1720),
trabalho impulsionaram a popularização do açúcar na dieta do trabalhador, foram fundadas as vilas de Paty do Alferes, Vassouras e Nossa Senhora da
o aumento do consumo de bebidas estimulantes a exemplo do café e o cres- Glória de Valença. No último caso, lembro que a proliferação das fazendas
cimento da demanda de algodão para a indústria têxtil em expansão, o que cafeeiras também foi facilitada pelas duas variantes do Caminho Novo, as
tornou a exportação destes produtos bastante lucrativa.25 estradas do Comércio (1813/1817) e da Polícia (1817), que serviram de vias
As primeiras experiências de plantio do café no Brasil foram no Pará. de escoamento para os portos fluviais de Iguaçu, Estrela e Porto das Caixas,
Na Corte, a rubiácea foi cultivada como uma planta de quintal para con- de onde o café seguia para as casas comissárias da Corte e, enfim, para seus
sumo doméstico e, entre 1760 e 1820, já se percebiam plantações pioneiras. diferentes destinos nos Estados Unidos e Europa.29
Sobre esse período inicial, Monsenhor Pizarro atestou que a Tijuca era a O segundo eixo de expansão partiu da baixada fluminense com desta-
localidade de maior produção no início do século XIX: “não há chácara ou que para as vilas de São Gonçalo e Santo Antônio de Sá (atual Itaboraí). De
fazenda que deixe de cultivar o precioso gênero”.26 Entre os primeiros plan- lá, o cultivo do café chegou a Cantagalo na década de 1840 e fez uma nova
penetração para o nordeste onde alcançou Nova Friburgo, Aldeia da Pedra
tios na urbe, destacava-se: a rua dos Barbonos (hoje, rua Evaristo da Veiga)
(atual Itaocara), Bom Jesus de Monte Verde (atual Cambuci) e São Fidélis
pertencente aos padres capuchinhos; a encosta do Corcovado e morros
de Sygmaringa. Como se vê, nos idos de 1830, a cultura do cafeeiro já havia
vizinhos com mais 3 mil pés; a da região ao norte do maciço da Carioca e
tomado quase toda a bacia do rio Paraíba,30 incluindo Entre-Rios, Paraíba
o plantio do Mata-Porcos, atual Largo do Estácio, pertencente ao holandês
do Sul, Santo Antônio de Sapucaia e Porto Novo.31 Neste processo, foram
João Hoppman.27 Para fora do centro da cidade, a cultura do café se alastrou
imprescindíveis as imensas florestas virgens que se traduziram em uma área
nas encostas de Jacarepaguá e elevações que circundam a baixada de Santa
de fronteira agrícola aberta para exploração e as vias de escoamento estabe-
Cruz e Inhaúma, onde se localizava a fazenda do padre Antonio Couto da
lecidas desde a extração aurífera.
Fonseca, no local chamado Mendanha.28
Não obstante os aspectos externos, o rápido crescimento do café no
Capivary. Vassouras: Faculdade Severino Sombra, 1863. CDH, caixa 116; INVENTÁRIO Antônia vale do Paraíba também foi facilitado pela enorme disponibilidade de terras
Maria da Conceição. Vassouras: Faculdade Severino Sombra, 1828. CDH, caixa 76. (fronteira agrícola aberta), uma rede de estradas e caminhos consolidada, um
24 MARQUESE, Rafael. Feitores do corpo, missionários da mente: senhores, letrados e o controle dos
escravos nas Américas, 1660-1860. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
know how de transporte executado por mulas desenvolvido durante a minera-
25 TOMICH, D; MARQUESE, R. “O Vale do Paraíba escravista e a formação do Mercado mundial de café”. ção, uma estrutura de tráfico negreiro eficazmente montada e uma volumosa
In: GRIMBERG, Keila; SALLES, Ricardo. Coleção Brasil Imperial: 1831-1871. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2009. Este texto recebeu uma nova edição revisada que compõe o primeiro capítulo deste livro. 29 Sobre a abertura dos caminhos e sua importância para a ocupação e expansão comercial do Vale
26 PIZARRO, Monsenhor apud MACHADO, Humberto. Escravos, senhores e café. Niterói: Cromos, 1993. p. 20. do Paraíba fluminense, consultar: NOVAES, Adriano. Os caminhos antigos do território fluminense.
27 VALVERDE, Orlando. Estudos de geografia agrária brasileira. Petrópolis: Vozes, 1985. In: INVENTÁRIO das fazendas fluminenses. Rio de Janeiro: INEPAC, 2008. t. I, p. 53-78.
28 Nestas localidades, o russo Langsdorff possuía vasta plantação na Fazenda Mandioca e o antigo 30 Para o geógrafo Orlando Valverde, a denominação bacia do Paraíba seria mais completo, pois tam-
lavrador de São Domingos, Sr. Lessesne, foi fornecedor de mudas de café com mais de sessenta mil bém incluiria as terras não diretamente banhadas pelo rio Paraíba do sul. VALVERDE, 1985.
pés plantados em sua fazenda em Jacarepaguá. 31 SALLES, Ricardo. 2008.

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reserva de capitais privados, acumulados em outras áreas de produção, mas Buscando as relações aqui propostas no âmbito local, pode-se verifi-
que foram investidos nos complexos cafeeiros aos primeiros sinais de pos- car que, no mesmo período (1840-1860), houve a consolidação do poder
síveis lucros a partir da expansão da demanda no mercado internacional.32 dos grandes e mega proprietários “serra acima”, no Vale do Paraíba, con-
Todo este processo de montagem de uma estrutura cafeeira escravista firmando a supremacia da região mercantil do centro-sul.37 Partindo dos
de grande porte na região do Vale do Paraíba aqui descrito deve ser enten- dados levantados por Ricardo Salles para Vassouras, pode-se dizer que os
dido de forma indissociável à construção do estado imperial e da própria senhores com mais de 100 escravos ampliaram a posse de cativos de: “34,5%
classe senhorial. A partir dos anos de 1840, após a intensa experiência federa- para 74,23% entre 1836 e 1850; para 72,2% entre 1851 e 1865 e para 70,24%
lista da Regência, houve a ascensão de uma política de estado centralizadora entre 1866 e 1880”.38 Neste processo, o grupo de pequenos e médios pro-
levada a cabo pelos conservadores Saquaremas. No novo contexto, os ideais prietários, muitos dependentes dos grandes cafeicultores (para emprésti-
de manutenção da ordem e expansão da civilização foram legitimados como mos de dinheiro, transporte de mercadoria, etc.), acabaram em dificuldades
capazes de unir diferentes interesses políticos e econômicos da classe senho- financeiras e perderam suas posses, o que auxiliava ainda mais a concen-
rial em torno da Coroa, representada pela figura do Imperador.33 Enquanto o tração de terras nas mãos dos grandes latifundiários que as adquiriam por
primeiro garantia a escravidão como peça fundamental para a sobrevivência módicos preços. Em Paraíba do Sul, o mesmo processo de concentração
do Império, o segundo valorizava as formas de comportamento e o habitus de terras e escravos também foi percebido por João Luis Fragoso.39 Ambos
europeu como modelo de civilidade a ser seguido, vislumbrando colocar o os trabalhos demonstram que os mega e grandes senhores tiveram con-
Brasil no rol das grandes nações.34 Tal processo foi definido pelo historia- dições excelentes em termos de disponibilidade de terra, mão de obra e
dor Ilmar Mattos como “expansão para dentro.” Ou seja, ao transformar os demanda por produto para competirem no mercado internacional de café.
ideais de ordem e civilização em elementos de coesão e identidade social, os Tais condições não eram de todo espontâneas: havia uma política de estado
Conservadores não só apaziguavam as diferenças no interior da classe senho- escravista favorecedora da reprodução destas relações, já que as mesmas lhe
rial, fortalecendo-a;35 mas também incorporavam as classes médias urbanas
proporcionavam base de sustentação política e econômica.
e os profissionais liberais à chamada boa sociedade do Império. Com a base
Portanto, mesmo não ocupando as mais altas posições do Executivo
de sustentação social ampliada e consolidada, foi possível manter uma polí-
e do Legislativo central, os senhores do Vale do Paraíba estiveram, direta
tica conservadora pró-escravista favorecedora dos interesses dos senhores de
e indiretamente, ligados à política imperial.40 Muitos mantinham cone-
escravos até, seguramente, a Lei do Ventre Livre, em 1871.36
escravos não era ignorado pelos conservadores, muito pelo contrário. O propósito destes políticos
32 MARQUESE; TOMICH, 2009, p. 353. era “reformar para conservar”, aprovar a emancipação do ventre escravo como forma de garantir
33 MATTOS, I. 1990. a sobrevivência da escravidão por mais alguns anos, num mundo em que esta instituição ruía.
Desejavam o menor abalo possível das estruturas sociais a fim de manter a ordem imperial e o
34 O conceito de habitus aqui trabalhado é entendido a partir das considerações de Norbert Elias, para
controle dos meios de produção pela classe dominante. SALLES, 2008.
quem habitus é a forma de sentir e agir não reflexiva, o equivalente a uma segunda natureza, que, atra-
vés do autocondicionamento psíquico, pouco a pouco vai fazendo parte da estrutura da personalidade 37 Ibid.
do indivíduo. Para compreender melhor a forma como Elias entende e trabalha com este instrumental 38 Ibid, p. 156.
teórico, deve-se inseri-lo no contexto de sua teoria geral do “processo civilizador”. Sobre o conceito 39 FRAGOSO, João Luís. Barões do café e sistema agrário escravista: Paraíba do Sul/Rio de Janeiro (1830-
de habitus ver: ELIAS, Norbert. A sociedade de Corte. 2. ed. Lisboa: Estampa, 1995; Id. Mi trayectoria 1888). Rio de Janeiro: Faperj: 7Letras, 2013.
intelectual. Barcelona: Ediciones Península,1984; Id. Processo civilizador. São Paulo: JZE, 1993. v. I-II.
40 Neste aspecto, discordo da noção de “dialética da ambiguidade” desenvolvida por José Murilo, para
35 Desta forma, os conservadores conseguem construir a Coroa como Partido, ou seja, unem a classe quem os interesses dos proprietários rurais e da Coroa entraram por diversas vezes em descompasso
senhorial e a boa sociedade em torno da figura do imperador e do funcionamento das instituições durante o Segundo Reinado. Segundo o autor, isso pode ser percebido em relação às despesas com
do estado Imperial, ao mesmo tempo em que reforçam os ideais favorecedores desta classe (ordem justiça, administração, educação, obras de infraestrutura e assistência pública nas províncias, onde a
e civilização) como política de estado. No bojo deste processo, muitos membros da classe senhorial participação da Coroa sempre deixou a desejar. Contudo, é preciso que se pense que, ao não ocupar
abrem mão de seu poder privado (casa) em prol da defesa de interesses maiores representados pelo este espaço a nível local no tocante às províncias, a Coroa deixava um vazio que era preenchido
Império. MATTOS, I., op. cit. pelos grandes senhores de terras e homens que o almejavam em troca de prestígio social, aquisição
36 A Lei Rio Branco foi aprovada, em 1871, com o intuito de minimizar as reivindicações pela abo- de títulos e privilégios políticos. A distribuição de nobiliarquia parece ter sido o mais comum meca-
lição surgidas após a guerra do Paraguai. Seu custo político em relação aos grandes senhores de nismo de compensação, pois 14% de todos os títulos conferidos por D. Pedro II foram a fazendeiros

66 67
xões com importantes nomes da Corte como forma de garantir os inte- prestígio social nas mãos das poucas famílias que conseguiram receber seu
resses cafeeiros na esfera nacional. No nível local, havia o domínio quase quinhão até as primeiras décadas do século XIX.
absoluto das câmaras municipais, assembleias provinciais, guarda nacional O pioneirismo na ocupação de terras no Vale comentado por Stanley
e execução de obras públicas por estes grandes senhores que gozavam de Stein certamente foi um fator importante para que algumas famílias con-
uma vasta rede de solidariedades tecidas entre as “principais famílias” de centrassem riqueza e poder numa fase posterior, quando o preço do café
cada localidade.41 Contudo, tal forma de articulação política não prescindia despontou no mercado internacional. Contudo, em muitos casos, tais fortu-
de disputas intra-classe, a exemplo das querelas entre o Partido Liberal e nas familiares foram erguidas ou ampliadas com base em outras atividades
Conservador ocorridas tanto no cenário nacional como local. econômicas que não o plantio do café para o mercado externo, tais como:
comércio de grosso trato, tráfico de escravos, mineração, investimento em
II imóveis, e empréstimo de dinheiro a juros. Os exemplos são distintos de
localidade para localidade. Mas, na maioria dos casos, o café não foi a única
Na década de 1950, a ocupação do vale do rio Paraíba do Sul foi estudada base na qual foram erguidas as principais fortunas da região.
pelo historiador Stanley Stein em seu trabalho clássico Grandeza e decadên- Em 4 de setembro de 1820, D. João VI assinou o decreto que permitia
cia do café. Segundo o autor, este movimento populacional foi impulsio- a criação da vila de Paty do Alferes. Daquele momento em diante, todas
nado por dois fatores principais. De um lado, a concessão de sesmarias na as casas de fazendas, casebres, ranchos para pouso de tropeiros e viajan-
região que se intensificou durante a estada da Corte portuguesa no Brasil tes, vendas, e demais formas de morada e trabalho, construídas dentro
devido à distribuição de terras em agradecimento aos serviços prestados a dos limites das antigas freguesias de Nossa Senhora da Conceição do Paty,
sua Majestade. De outro, o aumento de posses de terras derivadas da intensa Sacra Família do Caminho Novo do Tinguá, Nossa Senhora da Conceição e
movimentação proveniente da região mineradora, quando o Vale ainda era Apóstolos São Pedro e São Paulo da Paraíba Nova e os curatos de Santana de
numa zona de fronteira agrícola aberta.42 A convivência entre sesmeiros Sebolas e Senhor Bom Jesus de Matosinhos, passavam a fazer parte da vila
e posseiros, que inicialmente foi pacífica, tendeu a se acirrar na medida de Paty do Alferes.43 A região era bastante visitada por aqueles que se des-
em que as áreas de expansão agrícola foram se escasseando e os litígios tinavam as Minas Gerais pelos caminhos do ouro e se mantinham através
pelas terras foram se intensificando. O resultado de tal dinâmica histórica da produção de gêneros agrícolas como cana de açúcar, mandioca, milho,
foi uma enorme concentração de terras, escravos, poder político-militar e legumes, café, marmelos e diversas frutas. Os produtos se destinavam ao
auto-abastecimento e, em escala reduzida, o fornecimento para Corte, com
de café. Conferira a tabela abaixo. Consultar: MUAZE, 2008, p. 66-68; CARVALHO, José Murilo de.
Teatro de sombras: a política imperial. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. exceção do açúcar, que era levado, em grandes quantidades, ao porto da
41 Como exemplo, podemos citar o caso do barão de Capivary e do visconde de Uruguai, na oca- Estrela para ser encaixotado e transportado para armazéns da capital.44
sião de Membro do Conselho de Estado e chefe do Partido Conservador, que trocaram correspon- A decisão de criar uma vila em Paty do Alferes privilegiava os núcleos
dências em 1862 para acertar os nomes indicados para a próxima eleição da assembleia provincial.
Consultar: SOUSA, Paulino José Soares de – visconde do Uruguai. [Carta ao barão de Capivary]. Rio Ribeiro de Avellar e Werneck, pertencentes à mesma família de origem e
de Janeiro, 7 jan. 1862. Arquivo Nacional, Fundo Fazenda Pau Grande, notação 74. Ainda podemos pioneiros na ocupação da região desde o século XVIII, com a fundação das
citar o caso da revolta de Manoel Congo, ocorrida em Vassouras em 1838, estudada pelo historiador
Flávio Gomes. Na ocasião, o comandante da Guarda Nacional acionado para capturar os fugitivos
primeiras sesmarias do Pau Grande, Ubá e Guaribu.45 Já em 1711, André
era Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, futuro barão de Paty do Alferes e um dos maiores pro-
prietários fundiários da região com cerca de mil escravos. As demais autoridades responsáveis pela 43 Sobre o assunto, consultar: ALVARÁ de criação da Vila de Paty do Alferes, 4 de setembro de 1820
averiguação do caso – os juízes de paz e o juiz de direito – eram todos seus parentes: “o juiz de paz da apud PIRES, Fernando Tasso Fragoso. Antigas fazendas de café da província fluminense. Rio de
freguesia de Pati do Alferes, José Pinheiro de Sousa Werneck, era irmão do juiz sendo ambos primos Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 14-15 e RELATO de Monsenhor Pizarro e Araújo apud RAPOSO,
legítimos de Lacerda Werneck.” GOMES, Flávio. História de quilombolas: mocambos e comunidades Inácio. História de Vassouras. 2. ed. Rio de Janeiro: SEEC, 1978. p. 21.
de senzalas no Rio de Janeiro, século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 198. 44 Ibid.
42 A concessão de sesmarias foi abolida em 1822, quando se instituiu o reconhecimento legal das pos- 45 Sobre a família Werneck, consultar o trabalho do historiador: SILVA, Eduardo. Barões e escravidão:
ses. Ver: STEIN, 1990. três gerações de fazendeiros e a crise da estrutura escravista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

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João Antonil, ao traçar o “roteiro do Caminho Novo da cidade do Rio de primeiros anos, a produção era diversificada (mandioca, feijão, banana e
Janeiro para as minas” no livro Cultura e opulência do Brasil, fez o primeiro porcos) e escoava para a capital através das estradas do Comércio (1813) e
registro referente às terras do Pau Grande que se tem notícia. da Polícia (1820), à margem das quais nasceram as primeiras culturas dos
cafeeiros.49 Na verdade, a introdução dos cafezais na região é anterior à cria-
Dos Pousos Frios se vai à primeira roça do capitão Marcos da Costa; e dela, em
duas jornadas, à segunda roça, que chamam do Alferes. Da roça do Alferes, ção da vila de Paty do Alferes. Os tropeiros que transitavam entre os centros
numa jornada se vai ao Pau Grande, roça que agora principia, e daí se vai pou- da mineração e a cidade do Rio de Janeiro plantaram as primeiras mudas
sar no mato ao pé de um morro que chamam Cabaru. Desse morro se vai ao de café ao longo do Caminho Novo, buscando garantir alimento em futuras
famoso rio Paraíba, cuja passagem é em canoas. Da parte de aquém, está uma paradas. O grande florescimento da localidade de Vassouras acabou influen-
venda de Garcia Rodrigues e há bastantes ranchos para os passageiros; e da
ciando a alteração do centro político e facilitando a exploração do café na
parte d’além, está a casa do dito Garcia Rodrigues, com larguíssimas roçarias.46
região que já, em 1836, alcançou o índice de 300 mil arrobas exportadas.50
O citado Garcia Rodrigues Paes havia sido o principal responsável pela Para Stanley Stein, “três acontecimentos se conjugaram para completar
abertura do Caminho Novo em fins do século XVII e recebeu como recom- o povoamento de Vassouras no último quartel do século XVIII e no pri-
pensa quatro sesmarias para si e uma para cada um de seus doze filhos. meiro do século XIX: a exaustão das Minas ao norte, a expansão da cultura
Pouco tempo depois, em 1739, o capitão Francisco Tavares, também mora- do café e a eliminação dos índios Coroados na região atualmente ocupada
dor do caminho das Minas Gerais, ergueu uma capela em homenagem à por Valença na margem norte do Paraíba”. A decisão regencial de transferir
Nossa Senhora da Conceição em sua fazenda ao redor da qual outros habi- a vila para Vassouras veio satisfazer interesses políticos e econômicos das
tantes se estabeleceram. Em 1816, foi a vez do francês Saint-Hilaire passar famílias Teixeira Leite e Correia e Castro, que enriquecidas com a minera-
pela localidade. O cenário antes descrito por Antonil havia mudado e as ção, haviam se instalado na região de Vassouras na virada do século, após
terras do Pau Grande já comportavam um grande engenho de açúcar. A a exaustão das minas de ouro, procurando outra atividade econômica. A
partir delas, a família Ribeiro de Avellar se fixou na região desde 1748 e mudança da capital política também contou com a aceitação dos Ribeiro de
exerceu seu poder durante todo o Oitocentos.47 Avellar e Werneck que, na época, possuíam membros na câmara municipal
As festividades de criação da vila de Paty do Alferes e a posse da pri- de Paty que votaram pela alteração.51 O florescimento da nova vila foi rápido
meira Câmara municipal ocorreram em 23 de fevereiro de 1823. Contudo, e, em 1850, já possuía 35.000 residentes entre pessoas livres e escravos. Em
menos de 2 anos depois a mesma foi extinta para a criação da povoação 1872, este número era de 39.253 habitantes, incluindo 20.158 escravos, 19.085
de Vassouras em seu lugar.48 A nova vila de Vassouras, assim como Paty do livres de diferentes raças e origens.
Alferes, tinha sido ocupada a partir da decadência da mineração. Em seus No caso de Valença, que também seria uma das principais exportado-
ras de café, as primeiras sesmarias distribuídas foram doadas para Francisco
Para uma abordagem memorialista, ver: MORAES, Roberto Menezes de. O casal Furquim Werneck
e sua descendência. Vassouras: Liney, 1985; CASTRO, Maria Werneck de. No tempo dos barões. São Nunes Fagundes (1770), Garcia Rodrigues Paes Leme (1771) e Francisco
Paulo: Bem-te-vi, 2004. Antonio de Paula Nogueira da Gama (1797), ainda no século XVIII. A fun-
46 Grifos meus. ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. São Paulo: Melhoramentos:
dação da aldeia Nossa Senhora da Glória de Valença, em 1803, é atribuída
MEC, 1976. p. 184.
47 Concessão de meia légua de terras em Pau Grande aos irmãos Manuel e Francisco Gomes Ribeiro
da Cruz, Manoel João Goulart, capitão José Lopes França, o alferes José de Souza Vieira e os juizes
(o moço) e ao sócio Antônio da Costa Araújo. A carta de sesmaria foi requerida pelos três sócios,
ordinários capitão-mor Manoel Francisco Xavier e o Capitão Francisco das Chagas Werneck.
em 9 de outubro de 1748. Entretanto, na ocasião de sua assinatura, em 3 de outubro de 1750, foi
registrada uma légua de terras no nome dos dois irmãos portugueses. MORAES, Roberto Menezes 49 STEIN, 1990, p. 10.
de. Os Ribeiro de Avellar na Fazenda Pau Grande. Paty do Alferes: [s.n.], 1994. p. 8. 50 Ibid., p. 30.
48 WERNECK, Francisco Peixote de Lacerda. [Sem Título] O Vassourense, Vassouras, 31 dez. 1893 apud 51 Para acompanhar melhor esta discussão sobre a política local, consultar: FONSECA, Magno;
RAPOSO, Inácio. História de Vassouras, p. 21. Sobre a data da solenidade de fundação da vila há contro- SALLES, Ricardo. Vassouras – 1830/1850: poder local e rebeldia escrava. In: CARVALHO, J. M. de;
vérsias, enquanto Raposo aponta 23 de fevereiro de 1821, Antônio Martins afirma ser 21 de fevereiro do NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das (org). Repensando o Brasil do oitocentos: cidadania, política
mesmo ano. A primeira Câmara eleita (1821-1824) foi composta pelos procuradores Antônio Gomes e liberdade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

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a Ignácio de Souza Werneck, José Rodrigues da Cruz e ao padre Manoel depois, os irmãos fundaram a sociedade Avellar & Santos que, além das ter-
Gomes Leal – o primeiro e o terceiro da família Werneck e o segundo da ras de Pau Grande e Ubá, também realizava serviço de comissariado para
Ribeiro de Avellar, previamente citadas –, após terem sido nomeados pelo diversos fazendeiros do Vale, além do comércio de grosso trato com sede na
vice-rei para “proceder à civilização”, “domesticar e aldear” os índios coroa- Corte. Seus interesses se alastravam, ainda, para área de transporte e abaste-
dos que ocupavam a região. No aldeamento, foi construída e benzida a cimento do mercado interno colonial, pois faziam o comércio de mercado-
capela de Nossa Senhora da Glória que veio a originar a cidade de Valença. rias, principalmente açúcar, do interior para a capital pelo rio Inhomirim.55
A família Werneck chegou ao Vale em 1712. Seu pioneiro foi o migrante Como se vê, das quatro principais famílias do Médio Vale, todas tiveram
português João Berneque que constituiu família e se estabeleceu como lavra- fortuna originária no comércio e/ou mineração e puderam ampliá-las atra-
dor e comerciante na pequena localidade de N. Senhora do Pilar do Iguaçu. vés da aquisição de terras e da expansão do café.
Após um período em Minas Gerais investindo na exploração do ouro, seus Na região do Vale que se aproxima de São Paulo, os primeiros indícios
descendentes se fixaram no Vale fluminense por todo o século XIX. Ignácio de povoamento que se tem notícia foram concessões de sesmarias feitas na
de Souza Werneck, natural da freguesia de Nossa Senhora da Piedade da década de 1760. Nos anos de 1820, muitas destas terras já pertenciam ao
Borda do Campo, atual Barbacena, por exemplo, alcançou benesses da Coroa coronel Custódio Ferreira Leite, o barão de Aiuruoca, importante comer-
portuguesa devido aos serviços prestados na “civilização de índios” e na cons- ciante e minerador que foi contratado por D. João VI, em 1816, para coman-
trução da estrada Werneck, então chamada de Caminho da Aldeia, primeira dar a abertura da estrada da Polícia. Com o tempo, um núcleo populacional
estrada para o sertão de Valença.52 No início do século XIX, ao passar pela foi crescendo em torno da capela de São Sebastião e do rio de mesmo nome
fazenda Piedade, localizada na freguesia de Conceição do Alferes de Serra até que, em 3 de outubro de 1832, foi criada a Vila de São Sebastião de Barra
Acima (atual município de Miguel Pereira), o historiador Monsenhor Pizarro Mansa. Outros membros da família Leite também migraram para o Vale
comentou que o engenho de Ignácio Werneck “distanciava 3 ½ léguas em N. fluminense motivados pelo cultivo dos cafezais e as vantajosas atividades
S. da Piedade, no rio Sant´Anna.” Poucas décadas depois, em 1866, a proprie- comerciais e financeiras dele derivadas. No caso da família Leite, os laços
dade tinha 135 escravos e era parte do complexo formado por três fazendas de solidariedade familiar foram muito importantes na formação de uma
pertencentes ao barão e à baronesa de Paty do Alferes, seus herdeiros.53 rede de poder e prestígio na região. Afonso Taunay, em “História do café no
José Rodrigues da Cruz migrou de Portugal para o Rio de Janeiro Brasil”,56 conta que, na fundação de Barra Mansa, o coronel Custódio Ferreira
juntamente com seus irmãos Antônio Ribeiro de Avellar e Antônio dos Leite esteve acompanhado de Manoel, enquanto os outros irmãos Floriano e
Santos, para trabalhar com o tio no comércio de grosso trato. Segundo Anastácio se afazendaram em Valença e Conservatória, respectivamente. Em
Saint-Hilaire, José Rodrigues da Cruz recebeu como recompensa aos ser- Piraí e Vassouras, o coronel investiu juntamente com o cunhado Francisco
viços prestados à Coroa portuguesa as sesmarias de Ubá, onde estabeleceu
vítimas de doenças de pele, venéreas e varíola, adquiridas a partir do contato com o homem branco.
um engenho de açúcar, uma serraria e um moinho de fubá.54 Pouco tempo (BRASIL, Gerson. O ouro, o café e o Rio. Rio de Janeiro: IHGB: Livraria Brasiliana, 1970). De acordo
com rumores recorrentes na cidade de Vassouras, um dos fundadores de Valença, um grande lati-
52 PAIVA, Lucas Gesta Palmares Munhoz de. Lembranças da saudade: estratégias para a manuten- fundiário, havia eliminado os índios, seus protegidos, dando- lhes cachaça envenenada. BELLO, Luiz
ção de uma família cafeicultora. 2013. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Alves Leite de Oliveira. Relatório apresentado ao excelentíssimo vice-presidente da província do Rio de
Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013. Janeiro..., p. 35 apud STEIN, 1990, p 11.
53 INVENTÁRIO do barão e da baronesa de Paty do Alferes. Vassouras: Centro de Documentação 55 Segundo Riva Gorenstein, os Pereira de Almeida eram proprietários de navios que faziam a ligação
Histórica da Universidade Severino Sombra, [18--?]. p. 205-209. O barão e a baronesa de Paty do entre o Rio de Janeiro e as demais cidades costeiras do Brasil, atuando no ramo de abastecimento e
Alferes possuíram três fazendas principais: Piedade, Freguesia e Monte Alegre, sendo a última sua navegação de cabotagem. GORENSTEIN, Riva; MARTINHO, Lenira Menezes. Negociantes e caixeiros
residência oficial. na sociedade da independência. Rio de Janeiro: Biblioteca Carioca, 1993. p. 165. O Rio Inhomirim
54 Ibid., p. 42. Atribui-se ainda a José Rodrigues da Cruz, juntamente com Ignácio de Souza Werneck e cortava a região do vale do Paraíba e, por ser navegável, era utilizado juntamente com outros rios
o padre Manoel Gomes Leal, a fundação de Nossa Senhora da Glória de Valença, elevada, em 1823, à da província fluminense, como Paraíba, Macaé, São João, Guandu, Magé-Assu, Macacu e Iguaçu,
condição de Vila de Valença por D. Pedro I. Ainda segundo Saint-Hilaire, os índios coroados foram para o escoamento da produção para a capital até o advento das estradas de ferro. PIRES, 1984.
migrando para as florestas vizinhas de Rio Bonito, mas também muitos adoeceram e morreram 56 TAUNAY, Afonso de E. Pequena História do café. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1945.

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José Teixeira (futuro barão de Itambé) e com os sobrinhos José Eugênio, Durante a segunda década do século XIX, a cultura do café se intensi-
Joaquim José e Francisco José Teixeira Leite (futuro barão de Vassouras) que ficou na localidade que assumiu a condição de vila, em 9 de março de 1814,
lá fixaram residência, aumentando assim suas fortunas. sob o título de “São Pedro de Cantagallo”. O crescimento da referida vila
O capitão-mor. José de Souza Breves, natural dos Açores, obteve uma foi grande. Em 1820, já reunia três lojas de fazenda, mais de uma dezena de
rápida ascensão política ao chegar ao Brasil. Através de conquista de car- tabernas, uma estalagem e vinte e oito engenhos de açúcar, além de uma
gos importantes, foi acumulando terras e poder numa área de fronteira população de 1800 pessoas livres e, aproximadamente, 2.700 escravos. Na
agrícola aberta. A mando da coroa Portuguesa, ocupou os postos de: capi- ocasião, a produção de café já girava em torno de 100 mil arrobas.59 A alta
tão e sargento-mor da Companhia do distrito de Pirahy, juiz Almotacel e produtividade da localidade foi reconhecida nos anos sessenta e assim se
capitão-mor da Vila de São João Marcos, sede do extinto município de São manteve nos anos oitenta do oitocentos, quando outras partes do vale já
João do Príncipe. Em 1817, fundou juntamente com a família Moraes a fre- figuravam com queda na produção.
guesia de Sant’Ana do Piraí. Seus filhos José de Souza Breves e Joaquim José O principal personagem da região foi Antônio Clemente Pinto, primeiro
de Souza Breves multiplicaram a fortuna familiar tirando múltiplas vanta- barão de Nova Friburgo, imigrante português que enriquecera com o comér-
gens do tráfico ilegal de africanos. O primeiro, também chamado “rei do cio de grosso e o tráfico de escravos. Em meados do século XIX, já era uma
café”, possuía um complexo de propriedades que iam de Mangaratiba, no das maiores fortunas de todo o país, proprietário de duas dezenas de fazen-
litoral, onde ficavam os principais portos clandestinos para desembarque das, nas regiões de Nova Friburgo, Cantagalo e São Fidélis, e imóveis urba-
de escravos, até São João Marcos, no Vale, onde resplandecia a imponente nos, como os palacetes Nova Friburgo, (atual palácio do Catete) localizado
fazenda São Joaquim da Grama.57 na Corte, e do Gavião em Cantagalo. Nos anos de 1826, Antonio Clemente
A atual região serrana do estado passou grande parte do século XVIII Pinto fechou sociedade com João Antonio de Moraes e sua esposa Basília. No
com sua ocupação proibida pela Coroa portuguesa em virtude do controle negócio, o casal empenhou ao sócio as fazendas Santa Maria do Rio Grande
e Macabu que correspondiam à metade do que possuíam. Em troca, João
que buscava implementar sobre o tráfico ilegal de metais e pedras preciosas
Antônio receberia 600 mil réis por ano por seu trabalho na administração das
nas Minas Gerais. Os únicos habitantes desta região eram os índios coroa-
fazendas de café, além de uma retirada mensal do que fosse necessário para o
dos e goitacases, que há muito ali viviam, e as ocupações clandestinas, sendo
sustento de sua família dos proventos da fazenda Santa Maria do Rio Grande.
a principal comandada por Manoel Henrique, conhecido como “Mão de
Em poucos anos, Antonio de Moraes já havia recuperado as propriedades
Luva”. Após 1786, com o degredo de “Mão de Luva”, a Coroa resolveu mudar
empenhadas e adquirido outras, vindo a se tornar barão de Duas Barras, com
de estratégia e facultou as terras de Cantagalo aos colonos que quisessem
um patrimônio superior a quatro mil contos de réis em 1872, certamente um
se estabelecer. Em 1818, foi a vez da migração suíça. Os recém chegados se
dos mais significativos do Império.60 Histórias como estas comprovam a alta
instalaram na localidade denominada Morro Queimado, onde atualmente
lucratividade dos negócios cafeeiros durante o segundo reinado.
é Nova Friburgo, e cultivaram milho, feijão, cana e mandioca. Em 1809, foi a
Os casos aqui citados não esgotam os exemplos das famílias que foram
vez do inglês John Mawe que recebeu autorização de D. João para visitar as
pioneiras na ocupação das terras do Vale do Paraíba fluminense e que conquis-
jazidas de diamantes de Minas Gerais e do interior. Na viagem, ele observou taram destaque político, econômico e social nas localidades onde constituí-
que a mineração se esgotara e que a atividade predominante no “arraial e ram fazendas. Além da primazia na ocupação de terras numa área de fronteira
distrito das Novas Minas de Cantagallo” era a agricultura.58 agrícola aberta, estas famílias tinham em comum um passado de migração
portuguesa relativamente recente, além de serviços prestados à Coroa, o que
57 LOURENÇO, Thiago Campos Pessoa. O Império dos Souza Breves nos oitocentos: política e escravidão
nas trajetórias dos comendadores José e Joaquim de Souza Breves. 2010. Dissertação (Mestrado em 59 FERREIRA, 1977, p. 116.
História) – Programa de pós-graduação em História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010. 60 FERREIRA, loc. cit. Ver também: MELNIXENCO, Vanessa Cristina. Friburgo & Filhos: tradições
58 MAWE, John. Viagens ao interior do Brasil: principalmente aos distritos do ouro e dos diamantes. do passado e invenções do futuro (1807-1914). 2014. Dissertação (Mestrado em História Social). –
Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1944. Programa de Pós-Graduação, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

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facilitou a aquisição de terras, prestígio e a ocupação de cargos políticos e XIX como bem demonstram seus inventários. A atividade usurária auxiliava
administrativos nas localidades onde se fixaram.61 Chama a atenção também no aumento de patrimônio dos grandes senhores, já que aqueles que pediam
o fato que muitas das fortunas constituídas no rastro do café possuíam um empréstimos, na maioria das vezes, hipotecavam suas fazendas e escravos na
capital previamente acumulado em outros setores bastante rentáveis da eco- negociação. Assim, se os pagamentos fossem feitos regularmente, lucrava-se
nomia, tais como a mineração, o comércio de grosso trato, empréstimo a juros com os juros cobrados, caso contrário recebiam-se as propriedades, bens
e o tráfico de escravos. Em alguns casos, uma ou mais de uma atividade foram móveis e semoventes dos inadimplentes, dependendo do contrato.64
exercidas concomitantemente com o cultivo da lavoura para exportação, con- A vasta extensão de terras e escravaria acumuladas por estes poucos
forme explicitado nos exemplos acima. Fosse pelo recebimento de sesmarias, fazendeiros os colocava no topo da classe senhorial. Estudos recentes rela-
fosse pela posse de terras, a aquisição de vastas propriedades era facilitada tivizam o tamanho dos plantéis de escravos e demonstram que fazendeiros
àqueles (indivíduos ou famílias) que possuíam uma posição econômica e/ou com mais de cem escravos eram considerados grandes proprietários e cons-
social de destaque, reiterando a lógica social hierárquica vigente.62 tituíam uma minoria numérica no vale do Paraíba. Contudo, mesmo sendo
Desde tempos coloniais, a terra era um fator de produção que estava poucos, na região de Paraíba do Sul, por exemplo, estes homens controla-
disponibilizado no mercado, pois, na maioria das vezes, a sesmaria podia vam de 45 e 84% do valor das fazendas entre 1830 e 1885. Para se ter uma
ser alienada ou alugada por seus titulares. Desta forma, mesmo se tratando ideia mais aprofundada, os oito patronos das famílias Werneck, Pereira
de uma apropriação política, concedida através de merecimento militar ou Nunes, Andrade, Corrêa Tavares, Alves Barbosa, Moreira Castilho, Ribeiro
benefícios ao poder público, a sua transmissão ocorria através da venda, Avellar e Barroso Pereira possuíam 56,4% das terras do mesmo município
mesmo que de parte do terreno. Assim, a terra não se constituiu como um em 1879 e 21,5% da mão de obra cativa em 1872. Suas propriedades eram
bem ilimitado e acessível a todos.63 Pelo contrário, no Vale, essa tendência à empresas completas, verdadeiros complexos cafeeiros, que possuíam não
concentração se acentuava ainda mais quando os grandes senhores de terras e só a grande lavoura, mas também todos os mecanismos ligados ao benefi-
escravos se tornavam fazendeiros-capitalistas, ou seja, emprestavam dinheiro
ciamento do café (terreiro, tulha, ventiladores, despolpadores e outros tipos
a juros a outros fazendeiros, o que foi bastante comum durante todo o século
de maquinários especializados), os equipamentos acessórios à empresa
(ferreiro, serraria, olaria, etc.), os animais para o abastecimento interno da
61 João Luís Fragoso, ao estudar a formação da primeira elite senhorial no Brasil, afirmou que, no fazenda e as bestas para transporte serra abaixo até o Rio de Janeiro. Muitos
século XVI, as pressões demográficas sobre Portugal e as crises de fomes recorrentes transformaram
a região de Entre Douro e Minho numa área de migração, inicialmente para as ilhas Atlânticas e destes homens possuíam, ainda, sociedades nas casas de comissão da Corte
depois para a colônia portuguesa nas Américas. Esses migrantes seriam, principalmente, proce- e recebiam de outros fazendeiros menores (que não controlavam todas as
dentes da pequena fidalguia ou da elite de alguma capitania pobre, que, ao aportarem no Rio de
Janeiro, dariam origem às melhores famílias. Nos casos aqui abordados, mesmo se tratando de uma etapas de produção, beneficiamento, transporte e venda) uma parte signi-
imigração bastante tardia, se comparada aos estudos de Fragoso, pode-se presumir que era uma ficativa dos lucros com a rubiácea por eles produzida. As possibilidades
gente com nobreza no passado, contudo com dificuldades de manter a fortuna condizente com seu
status social, o que explicaria, inicialmente, suas transferências para o Brasil, na segunda metade do
de negócio e enriquecimento destes indivíduos se ampliam ainda mais se
setecentos. Do outro lado do Atlântico, muitos desses portugueses não tiveram dificuldades de se for considerada sua inserção na família extensa, em que diferentes mem-
integrarem às formas de comércio e atividades econômicas mais lucrativas bem como a prestação bros do grupo familiar possuíam terras, frotas de bestas, maquinários, casas
de serviços à Coroa, auxiliados por laços de parentesco, compadrio e solidariedade. FRAGOSO, João
Luís. A formação da economia colonial no Rio de Janeiro e de sua primeira elite senhorial (sécu- comissárias, recursos e contatos na Corte.65 Não foram poucas as famílias
los XVI e XVII). In: FRAGOSO, João Luís; BICALHO, Maria Fernanda; GOUVÊA, Maria de Fátima enraizadas no Vale que, como os Furquim Werneck, os Clemente Pinto e os
(Org.). O Antigo Regime nos Trópicos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
Pereira de Almeida, mantiveram parentes, ou foram eles mesmos acionistas
62 Como afirma Oliveira Viana, era costume dominante “concederem sesmarias, de preferência, a
pessoas fidalgas, ou com posses bastantes para construir engenho, excluindo assim da propriedade em casas comissárias, bancos e companhias de estrada de ferro.
da terra, as classes pobres ou desfavorecidas.” VIANA, Oliveira apud ANDRADE, Eloy. O Vale do
Paraíba. Rio de Janeiro: Real Rio Gráfica, 1989. p. 29.
63 FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de 64 FRAGOSO, 2001.
Janeiro: Nova Fronteira, 1998. 65 MUAZE, 2008.

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Como se vê, a grande concentração de terras e de escravos foi uma que não se limitavam simplesmente às terras que possuíam e nem à região
característica do Vale do Paraíba no século XIX. No período de 1836 a 1850, onde estavam estabelecidos, podendo chegar até a Corte.68
quando houve a grande expansão da rubiácea, os grande e mega proprietá- A história da expansão do café pelas diversas regiões do Vale do Paraíba
rios chegaram a possuir quase a metade dos escravos da região, conseguindo fluminense se confunde com a própria história da expansão da classe senho-
ampliar esta porcentagem para 72,2% entre 1851 e 1865.66 Nesta configura- rial do Império em termos políticos, econômicos e sociais. Homens e mulhe-
ção, também era comum aos mesmos possuírem mais de uma fazenda, for- res que, através da exploração maciça da mão de obra escrava, da concen-
mando verdadeiros complexos cafeeiros que se estendiam por diversas loca- tração da propriedade da terra, do estabelecimento de redes de sociabilidade
lidades e se complementavam em termos de mão de obra, equipamentos, e poder locais, além de suas relações com a Corte, conseguiram acumular
bens imóveis e semoventes, como fica claro nas descrições dos inventários. riqueza, prestígio social e político fortalecendo, assim, o poder de suas famí-
Ancoradas na herança acumulada previamente, em fortunas constituí- lias nas localidades em que viviam. No interior deste reduzido grupo, muitos
das em outras áreas, no tamanho da propriedade, na antiguidade da ocupa- foram os casos das fortunas que se expandiram no rastro do café. Como
ção de terras, nas heranças materiais e imateriais dos membros de suas famí- forma de ostentá-las e de gozar de um estilo de vida próprio à sua classe,
lias; esses senhores puderam exercer seu controle político e econômico por muitas famílias ergueram imponentes casas de vivenda em suas terras agre-
quase todo o século XIX. Muitos membros destas famílias da classe senho- gando valor às imensas fazendas de seus complexos cafeeiros.
rial foram vereadores, deputados provinciais, juízes de paz, comandantes da Buscando modelos de comportamento, ideais de civilização e hábitos
guarda nacional e outros postos-chave diretamente ligados à política. A esses de consumo próximos do europeu, a classe senhorial se legitimou enquanto
aspectos ainda se somavam as relações de compadrio, vínculos pessoais, grupo hegemônico ao mesmo tempo em que respaldou a política de cen-
favores, interesses eleitorais, arrendamento de terras e/ou instrumentos de tralização do Estado nacional baseada na aproximação com valores euro-
trabalho, estabelecidas com os chamados “homens livres e pobres”, seus peizados e na manutenção da ordem escravocrata.69 Mas a estreita relação
agregados. A influência destes senhores se estendeu não só aos arrendatários entre estas famílias e o estado Imperial não para por aí. Em se tratando dos
e sitiantes que se dedicavam à agricultura em suas terras e deles dependiam, grandes cafeicultores da bacia do Paraíba fluminense, é possível afirmar que
mas também aos vendeiros, tropeiros e comerciantes de pequeno porte com sem uma política de estado permissiva com a ilegalidade do tráfico transa-
negócios em suas localidades. Isso sem falar do comando exercido sobre seus tlântico de escravos (1831/1850) não teria sido possível a montagem do com-
plantéis de escravos que era garantido através do “monopólio da violência” plexo produtivo que permitiu que o Brasil dominasse o mercado mundial
sobre aqueles que não tinham o controle sobre a própria vida e liberdade. de café durante praticamente todo o século XIX.70
Como vimos, a própria dinâmica de poder exercida por essas famílias
as colocavam no papel de classe dirigente67 com supremacia na política e
68 Sobre a relação de cafeicultores do Vale com importantes políticos da Corte, ver: MUAZE, 2008,
na economia local. Suas forças extrapolavam os limites da família extensa e cap. 1 e SALLES, Ricardo. As águas do Niágara, 1871: crise da escravidão e o caso saquarema. In:
teciam uma verdadeira capilarização de influências e distribuição de favores SALLES, Ricardo; GRIMBERG, Keila. Brasil imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, Rio de
Janeiro: 2010. v. III. Nesse artigo, o autor discute de forma bastante interessante o caso do marquês
de Paraná, importante político e articulador saquarema que adquiriu a fazenda Lordello, na locali-
66 SALLES, 2008. dade de Sapucaia, em 1836, período da expansão cafeeira escravista na região, e que, na ocasião de
seu falecimento, já possuía 189 escravos trabalhando.
67 A noção de classe dirigente utilizada nesta pesquisa tem por parâmetro as reflexões de Ilmar
Mattos, para quem o conceito de classe dirigente não se restringe à burocracia do Estado em seus 69 MUAZE, op. cit.
diferentes níveis. Portanto, por classe dirigente entendem-se todos aqueles que aderiram aos prin- 70 As relações entre a política escravista do Estado imperial e a criação das condições para o arranque
cípios de ordem e civilização, envolvendo um conjunto que engloba tanto a alta burocracia imperial da produção do café brasileiro no mercado mundial são analisadas em: TOMICH, Dale; MARQUESE,
– “senadores, magistrados, ministros e conselheiros de Estado, bispos, entre outros – quanto os pro- Rafael. Op. cit., p. 64. Os autores destacam também que sem um ambiente político que assegurasse
prietários rurais localizados nas mais diversas regiões e nos mais distantes pontos do Império, mas juridicamente aqueles que adquirissem africanos escravizados ilegalmente, provavelmente, as con-
que orientam suas ações pelos parâmetros fixados pelos dirigentes imperiais, além de professores, dições para o estabelecimento da região como maior produtora mundial de café seriam outras e,
médicos, jornalistas, literatos e demais agentes não públicos”. MATTOS, I., 1990, p. 3-4. consequentemente, os lucros obtidos pelo estado com a exportação do produto também.

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Se numa perspectiva macro vislumbram-se as relações entre estado, costume – de hierarquia, autoridade e dependência”.73 Tal lógica de domina-
classe senhorial, política escravista e montagem da estrutura produtiva no ção permeava a sociedade imperial em todos os seus estratos sociais e tinha
vale do Paraíba, reduzindo o foco de observação, é possível analisar a diver- nas plantations escravistas um lócus privilegiado de experiência.
sidade de sujeitos históricos que interagiam cotidianamente nos diferen- Nos grandes complexos cafeeiros, muitos formados por mais de uma
tes espaços das plantations cafeeiras. Senhores, escravos do eito, mucamas, propriedade rural, senhores, escravos e os mais diversos tipos de homens
pajens e toda sorte de cativos domésticos, feitores, homens livres e pobres, livres e pobres que ali residiam, transitavam e trabalhavam, pautavam suas
sinhazinhas, capitães do mato, condutores de tropas, crioulos, africanos - relações pessoais pela diferença e pelo ato de apartar-se daqueles que não
múltiplos agentes que, através de experiências distintas, mantinham uma eram seus pares na configuração social vigente. Assim, as fronteiras intra-
dinâmica social e de trabalho baseada na hierarquia e nas relações desi- e extra-grupo eram qualificadas e requalificadas a todo momento. Como
guais. É parte desta história que contarei a seguir. resultado, os espaços de circulação, formas de trabalho, educação, alimen-
tação, sociabilidade, vestimenta, acesso à terra e formação familiar a que
III estes grupos sociais estavam autorizados eram fortemente demarcados.
Contudo, se na lógica paternalista tais espaços de fronteira estavam conso-
Deus e Nossa Senhora lhe darão alívios e tudo quanto deseja, minha boa mãe,
pelo bem e alívio que me deu emprestando-me a sua grande escrava que, lidados, na prática cotidiana as expressões de resistência e de não aceitação
quando se comporta bem, não há dinheiro que pague.71 das regras de dominação se faziam valer através de experiências diárias,
como as que aparecem grifadas nas afirmações da viscondessa do Arcozelo
Há dias que me fugiu da Fazenda Manga Larga o preto Adão, oficial de fer-
e o barão de Paty do Alferes citadas acima.74
reiro, e foi à casa de Sabino José Neves que mora cerca de uma légua [...] dessa
vila. [...] Mandei àquela fazenda o feitor João Henrique [...], mas o maldito Os proprietários eram o grupo social que mais se diferenciava interna-
negro não quis vir, por mais diligências que lhe fizeram, atirando-se no chão mente, considerando o tamanho das propriedades, escravaria e composição
como um louco, e dizendo que cá não vem senão morto! Em tais circunstân- das redes políticas locais e nacionais tecidas. No que compete ao Vale do
cias recorro à autoridade de V. S. para que haja de prestar-me alguma força Paraíba, já ficou demonstrado que esta hierarquização interna se adensou
policial (cuja despesa pagarei) para que o obriguem a vir e, até mesmo, se for
com o fim do tráfico em 1850, quando alguns poucos fazendeiros adquiri-
possível usar de forte correção corporal, para que ele não prossiga em sua per-
sistência e teima que é decerto um péssimo exemplo para outra escravatura.72 ram terras e escravos de um sem fim de pequenos proprietários locais que
tiveram dificuldades financeiras para manter seus plantéis. Além destes ele-
As relações sociais e de poder que se configuravam no universo das mentos, a partir da segunda metade do século XIX, valores tais como educa-
fazendas de café do Vale do Paraíba fluminense, por mais diferentes que ção, instrução, etiqueta, refinamento e novas práticas de consumo, passaram
fossem suas localidades, obedeciam à lógica excludente e hierárquica do constituir o novo habitus social da classe senhorial, tornando-se também um
Império. Como forma de domínio, o paternalismo vigiava e instituía uma campo privilegiado para disputas intra-classe por representação e prestígio.75
“política de favores” constituída através de uma vasta rede de distribuição de
benefícios e geração de dependências, que só reconhecia as relações sociais 73 CHALHOUB, Sidney. Diálogos políticos em Machado de Assis. In: CHALHOUB, S; PEREIRA, L. A
História contada: capítulos de História social da literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
na sua verticalidade. Nesta ideologia de sustentação do poder senhorial, o 1998, p. 96. O paternalismo, como qualquer outra política de domínio, possuía uma tecnologia
lugar social que os sujeitos ocupavam dependia de suas relações pessoais e própria, pertinente ao poder exercido em seu nome: rituais de afirmação, práticas de dissimula-
“não existia fora das formas instituídas – formalmente, mas também pelo ção, estratégias de estigmatizarão de adversários sociais e políticos, eufemismos e, obviamente, um
vocabulário sofisticado para sustentar e expressar todas essas atividades.
71 Grifo meu. Carta manuscrita de Mariana Velho de Avellar para Leonarda Maria Velho da Silva. 74 JOHNSON, Walter. On agency. Jornal of Social History, Oxford: Oxford University Press, v. 37, n. 1,
Petrópolis, 13 de novembro de 1862. Coleção particular Roberto Meneses de Moraes. Fall 2003. Do mesmo autor, o artigo: Agency: a ghost story. In; FOLLETT, R; FONER, E; JOHNSON,
72 Grifos meus. WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerdan - Barão do Paty. [Carta ao senhor delegado W. Slavery’s ghost: the problem of freedom in the age of emancipation. Baltimore: Johns Hopkins
de polícia do termo da Paraíba, s.d.] apud SILVA, Eduardo. Barões e escravidão: três gerações de University Press, 2011.
fazendeiros e a crise da estrutura escravista, p. 156. 75 MUAZE, 2008.

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Nas muitas fazendas do Vale, essa lógica se traduziu na construção de mesmo um suntuoso edifício em qualquer grande cidade”.78 Zaluar se encan-
novas sedes mais sofisticadas, na maioria em estilo neoclássico, com jardins tara não somente com a construção, mas com todo o seu entorno:
contendo palmeiras imperiais como símbolo do poder e riqueza de seus
A propriedade do Sr. Comendador José de Souza Breves é pois, como já disse,
proprietários.76 Paralelamente, houve ainda o investimento da classe senho- uma das maiores e das mais ricas da Província do Rio de Janeiro. A grande
rial na compra de móveis, louças, viagens, indumentárias, joias, além do extensão dos terrenos e a fertilidade deles, as vastíssimas plantações de café
aumento e especialização da escravaria doméstica. Todos os esforços eram que cobrem um largo espaço de elevados morros, o número prodigioso de
reunidos no sentido de representar a riqueza que essas famílias foram capa- cativos consagrados aos trabalhos agrícolas, os grandes auxiliares de que
dispõe o proprietário, já como abastado capitalista, já como homem de bom
zes de acumular. Tal preocupação fomentava a disputa por representação
senso e praticamente conhecedor da nossa lavoura, conferem a este estabele-
entre os membros da classe senhorial onde o ser se igualava, cada vez mais, cimento as honras de primeira grandeza.79
ao parecer, e fomentava a hierarquia interna.
A análise dos objetos e bens listados nos inventários de grandes pro- Na visão de Zaluar, o complexo cafeeiro do comendador Breves mere-
prietários do início e de meados do Oitocentos são fontes importantes para cia destaque, pois elencava características importantes para uma fazenda “de
se perceber a valorização do luxo no interior da residência, bem como nas primeira grandeza”: fertilidade dos campos, tamanho dos cafezais já exis-
formas de viver e conviver no ambiente privado. Não são raros os inventá- tentes e grandes extensões de mata virgem, esta última vista como um fator
rios onde aparecem listadas as sedes da “fazenda velha” e da nova erguida importante para garantir o investimento empregado já que a cultura do café,
com padrões de consumo bem mais sofisticadas. Eduardo Schnoor fez da forma como era praticada no Brasil oitocentista, constantemente necessi-
esse estudo para as fazendas Pinheiro e Rio Manso, pertencentes à família tava da derrubada de mata virgem para novo plantio. Além disso, o elevado
Aguiar Vallin e localizadas em Bananal, principal cidade do lado paulista número de escravos e trabalhadores livres – estes últimos denominados
do Vale produtora de café no século XIX. Comparando diferentes inven- “auxiliares” – garantiram a José de Souza Breves e a outros grandes cafei-
tários desta família, ele demonstrou que, ao longo do século XIX, a rustici- cultores do Vale a posição de “abastados capitalistas”, como se dizia à época.
dade e os padrões de organização do espaço marcadamente coloniais, que A disposição interna da casa de vivenda e os eventos sociais lá ocor-
valorizavam somente os lugares e instrumentos de produção da fazenda, ridos também receberam atenção não só de Zaluar, mas também do casal
se transformaram. Neste processo, a fazenda não será mais vista somente Agassiz, que lá esteve:
como um local de trabalho, mas também de moradia e representação. Seu Um delicioso jardim se desdobra com um tapete de flores pelo pendor da
senhor passava de simples agricultor escravista para membro da base social colina sobre que está assentada esta suntuosa habitação, e dá-lhe um novo
do novo Império.77 realce. Duas escadas laterais de mármore levam a uma espaçosa varanda, para
O investimento em luxo nas novas sedes das fazendas e as múltiplas fun- onde deita a porta do salão de espera, que é uma vasta quadra cujas paredes
ções dos complexos cafeeiros foram alvo de comentário de muitos viajantes
78 ZALUAR, Augusto Emílio. Peregrinações pela província de São Paulo (1860-1861). São Paulo: Itatiaia:
que por ali passaram ou fizeram pouso. Em sua estada em uma das proprie- EdUSP, 1975. A fazenda do Pinheiro, localizada em São João Batista do Arrozal, próximo de Piraí,
dades do comendador José de Souza Breves, o viajante português, poste- foi herdada pelo comendador José de Souza Breves de seu finado sogro, barão de Pirahy, e ampliada
ao longo dos anos. Este complexo cafeeiro teve grande importância no século XIX e, na década de
riormente naturalizado brasileiro, Augusto Zaluar comentou: “a fazenda do 1860, sua produção correspondeu a cerca de 20% de todo café produzido em Piraí. Enquanto a
Pinheiro, não é uma habitação vulgar da roça; é um palácio elegante, e seria média anual ficava em torno de quinhentos e vinte mil arrobas de café, a fazenda do Pinheiro con-
tribuía com noventa mil arrobas e a fazenda Barra Mansa, outra propriedade do comendador, com
mais dez mil. Na região de Piraí, estes números eram superados somente pelo irmão do comen-
76 D’ELBOUX, Roseli Maria Martins. Uma promenade nos trópicos: os barões do café sob as palmei- dador Joaquim José de Souza Breves, que além de noventa mil arrobas colhidas em Piraí, ainda
ras-imperiais, entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Anais do Museu Paulista: História e Cultura contava com outras cem mil arrobas provenientes de fazendas em Resende, São João do Príncipe e
Material, São Paulo, v. 14, n. 2, jul.-dez. 206. nas freguesias de São João Marcos, Passa Três, São Vicente Ferrer e São Sebastião. Sobre os irmãos
77 SCHNOOR, Eduardo. Das casas de morada à casa de vivenda. In: CASTRO, Hebe M. M. de; Breves, consultar: LOURENÇO, 2010.
SCHNOOR, Eduardo. Resgate: uma janela para o oitocentos. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. 79 ZALUAR, op. cit.

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estão adornadas pelos primorosos retratos de Sua Majestade o Imperador e que não se distanciavam muito daquelas compartilhadas pela maioria dos
Sua Majestade a Imperatriz, devidos ao hábil pincel de Cromoelston. [...] A membros da classe senhorial do Império à época.
sala nobre é uma peça soberba. Grandes espelhos de Veneza, ricos candela-
Os estrangeiros descrevem ainda que as grandes propriedades conta-
bros de prata, lustres de cristal, mobília, tudo disputa a primazia ao que deste
gênero se vê de mais ostentoso na própria capital do Império”.80 vam com farmácia, hospital, cozinhas para os hóspedes, cozinha para os
negros, capelas, pomar, roça, vasto cafezal, estradas e toda a infraestrutura
À noite, quando depois do jantar tomávamos o café na varanda, uma orquestra para beneficiamento do café. Tudo funcionando na mais perfeita ordem.
composta de escravos pertencentes à fazenda nos proporcionou boa música.
A paixão dos negros por essa arte é um fato observado em toda parte; esfor-
Nestas narrativas, a vida nos grandes complexos cafeeiros aparece esvaziada
çam-se muito para aprendê-la, aqui, e o Sr. Breves mantém em sua casa um de violência e conflito. A escravidão era “mimetizada” na grandiosidade
professor a quem os alunos fazem honra na verdade. No fim da noite, os músi- estrutural das plantations. Em termos de organização e gerenciamento dos
cos foram introduzidos nas salas e tivemos um espetáculo de dança, dado por negócios, a narrativa instituída valorizava a modernidade e o empreendi-
negrinhos que eram dos mais cômicos. Como uns diabretes, dançavam com mento de grande sucesso. Portanto, as falas dos viajantes aqui apresentados
tal rapidez de movimentos, com tal animação de vida e alegria espontânea que
era impossível não os acompanhar.81
estava em sintonia com o discurso senhorial escravista, sendo possível a
convivência entre modernidade, liberalismo e escravidão.83
A sede da fazenda é ressaltada como espaço de moradia e represen- A visão da fazenda de café como um lugar moderno variava de acordo
tação. Zaluar destacou vários elementos de composição do espaço da casa com a magnitude do complexo cafeeiro encontrado e o prestígio de seus
e de seu interior que lhe atribuíam o título de requintada residência, tais donos. Como relatam Elizabeth e Luiz Agassiz:
como: jardim bem cuidado; o uso de materiais nobres como o mármore
[...] penetramos na zona das mais ricas plantações de café. [...] Próximo
e espelhos; a disposição de objetos e mobilhas luxuosos. Contudo, o casal à última estação, há uma grande exploração rural ou fazenda, que produz,
Agassiz preferiu valorizar a preocupação do anfitrião em manter habitus segundo nos disseram, cinco a seis mil quintais de café nos bons anos. Essas
civilizados, como a apreciação da música clássica europeia. Contudo, cha- fazendas são edifícios de aspecto singular, baixos (comumente de um só
mou-lhes a atenção o fato das canções serem executadas por uma banda de andar) e muito compridos; as maiores cobrem uma área considerável. Como
se acham inteiramente isoladas e afastadas das demais habitações, os que nelas
música formada por escravos.82 Para nossos viajantes suíços, a escravidão
moram têm que fazer provisão de tudo o que é preciso para as suas necessida-
continha um lado civilizatório para os negros. Ao senhor, cabia o mérito des. Isto conserva nos proprietários costumes inteiramente primitivos.84
de custear um professor para ensinar música a seus escravos músicos. Na
descrição de Agassiz, a música clássica europeia, considerada como civili- Para o casal suíço, um dos aspectos que explicaria o “primitivismo de
zada, contrastava com as danças e lundus das crianças escravas tidas como costumes”, não obstante o potencial da propriedade em número de cafeei-
exóticas e o pitorescas. Tal contraste pode ser percebido na denominação ros plantados, era o isolamento em que a fazenda se encontrava. Contudo, a
utilizada. Enquanto os primeiros escravos eram descritos como “músicos”, descrição de Zaluar para a fazenda Ribeirão Frio supervalorizava sua orga-
os outros eram denominados de “negrinhos” e “diabretes”, qualificações nização espacial e eficiência produtiva:

80 Ibid. [...] assentada no meio de uma vasta planície, circundada por um horizonte de
81 AGASSIZ, Luis; AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil: 1865-1866. Brasília: Senado Federal, montanhas cujo recorte se desenha com facilidade, a casa espaçosa e branca
2000, p. 107. avulta dentro de um terreiro de trezentas e onze braças de circunferência! É o
82 Os escravos Benjamim, Bruno, Domingos, Elias, Emiliano, Fabiano, Roque, Valeriano eram alguns maior que tenho visto. Esta imensa praça é fechada em torno pelas senzalas,
dos cativos que formavam a banda de música da fazenda do Pinheiro. “Estavam entre os 385 escra-
vos avaliados no espólio da fazenda no início da década de 1880 e conformavam o rol dos cativos 83 MATTOS, Hebe. Escravidão e cidadania no Brasil monárquico. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. Ver
mais valiosos do Comendador, cerca de 700 mil réis cada um, só se igualando a outros escravos também: MUAZE, Mariana. A escravidão no Vale do Paraíba pelas lentes do fotógrafo Marc Ferrez.
profissionais. Interessantemente todos eles eram pretos crioulos, com exceção de Domingos, ava- In: BASTOS, Lúcia; CARVALHO, José Murilo. Dimensões e Fronteiras do Estado Brasileiro no século
liado como pardo. Aliás, quase todos eram crias da fazenda, já que somente Benjamim teria vindo Oitocentos. Rio de Janeiro: EdUERJ. 2014.
de outra propriedade.” Ver: LOURENÇO, 2010, p. 108-109. 84 Grifo meu. AGASSIZ, L.; AGASSIZ, E., 2000.

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engenho e mais oficinas, de modo que forma uma larga cidadela para onde dos. Tudo era contado e controlado: horário, quantidade de refeições, roupa,
se entra por dois grandes portões laterais. As senzalas, caiadas todas e cons- colheita e preparação do café, orações matinais, dias e formas de descanso,
truídas uniformemente, destacam-se, bem como a casa, do verde graduado
etc. Contudo, o tempo passava de forma diversa para os diferentes sujeitos
das florestas, e dão a esta propriedade um aspecto novo e agradável. [...] Uma
propriedade rural montada no pé em que se acha, o Ribeirão Frio é mais do sociais que habitavam e trabalhavam nas plantations do Vale.87
que um prédio de simples vivenda; é uma cidade em ponto pequeno, onde se Para os proprietários, a administração da produção cafeeira era sinônimo
cultivam muitos ramos de indústria e se põem em movimento todas as gra- de preservação da riqueza, do patrimônio e de sua continuidade enquanto
dações do trabalho.85 membros da classe senhorial. Para os homens livres, as possibilidades e for-
A casa de vivenda da fazenda figura, na narrativa acima, não só como mas de trabalho eram múltiplas e diferenciadas nos complexos cafeeiros:
moradia dos senhores, mas também como uma empresa agrícola, local da feitores, médicos, jornaleiros, pequenos comerciantes, arrendatários, arrea-
gerência dos negócios e da produção. Sua disposição espacial no centro era dores,88 dentre outros. Para os escravos do eito, eram mais de 16 horas de
vista como fundamental para que a fazenda mantivesse uma organização atividades diárias, um tempo de trabalho que se esgarçava, parecia não passar,
do trabalho diversificada, em larga escala, com altos índices de produti- e só era amenizado pelos descansos aos domingos e dias santos. Uma rotina
vidade, comparável com uma “pequena cidade”, espaço do progresso e do exaustiva e extenuante em meio à violência e formas de controle incessantes.
desenvolvimento. As “pequenas cidades” (complexos cafeeiros) eram, por- Não obstante estejamos tratando aqui dos complexos cafeeiros perten-
tanto, aquelas com produção e exploração do trabalho em larga escala que centes à grande e mega cafeicultores, estes não eram a maioria numérica
atendiam ao mercado mundial de café em franca expansão. dos lavradores do Vale; pelo contrário. Nas fazendas menores, os atributos
A fazenda como empresa agrícola, onde tudo é organizado em fun- de trabalho e produção falavam mais alto e a preocupação com elementos
ção do trabalho e da produção, não era uma mera impressão dos viajantes de representação não estavam na ordem do dia. As sedes eram simples e
que percorriam o Vale. Os grandes cafeicultores pensavam o conjunto de se diferenciavam da arquitetura das novas casas de vivenda que buscava
suas propriedades de forma a articularem suas produções e controlarem o demonstrar a opulência e o requinte dos senhores residentes. Contudo, não
tempo daqueles que lá moravam e trabalhavam. No documento “Instruções importando os símbolos de poder e prestígio empregados, a escravidão
gerais para a administração das fazendas”, que vigorou na fazenda Areias marcava o cotidiano de ambos os tipos de propriedades e ritmava os longos
e em outras propriedades do barão de Nova Friburgo e do conde de São dias de trabalho passados na lavoura. A escravidão era não só o cenário
Clemente, por exemplo, o tempo de todos os habitantes era regulado em fun- 87 A percepção de fazenda cafeeira como empresa organizada e produtiva também aparece em outros
documentos para além das narrativas dos viajantes. Como exemplo, podemos citar os livros de
ção do trabalho executado.86 O administrador “é responsável pelo emprego conta ou cadernos de assento das fazendas Taquara e Pau Grande. Em ambas encontramos anota-
do tempo”, afirmava o documento. Um suceder de dias e noites eram pon- ções minuciosas da safra de café vendida, empréstimo de dinheiro a juros, pagamento de dívidas,
tuados pelos sinos que batiam uma hora antes do sol nascer e badalavam em compra de produtos de subsistência, serviços médicos para os escravos, compra de material, dentre
outros gastos, que demonstram o envolvimento de um grande número de pessoas e principalmente
vários outros momentos da longa jornada a que os escravos eram submeti- do proprietário, na administração da fazenda. Mas não era só isso. As fazendas aparecem como gran-
des empresas com interdependência entre contabilidades e índices de produção. Outro documento
que também corrobora esta ideia é o diário da viscondessa do Arcozelo, filha dos barões de Paty do
85 Grifo meu. ZALUAR, 1975, p. 29. Augusto Zaluar chegou ao Brasil na década de cinquenta, se estabe- Alferes, escrito em 1887. Nele, a escrita ligeira e pontual de Maria Isabel, não deixava de demonstrar
leceu na Corte, trabalhou como jornalista no Correio Mercantil e no Diário do Rio de Janeiro. que a produção do café era uma preocupação de toda a família, inclusive das mulheres, mesmo
86 Em 1828, o Brasil atinge a marca de maior exportador de café do mundo e a região do Vale irá não estando diretamente ligadas ao trabalho no eito. Portanto, todos aqueles que viviam na fazenda
receber um grande fluxo de escravos africanos quase que diariamente. O diplomata Johann Jakon cafeeira compartilhavam uma percepção do tempo marcada pelo trabalho. Sem negar as diferenças
von Tschudi registrou no livro de contas de Cantagalo o índice de 3.800 pés de café por escravo e o brutais que separavam escravos e senhores na sociedade imperial, todos aqueles que integravam os
barão de Nova Friburgo, Antonio Clemente Pinto, operava com 5 a 6.000 pés em suas proprieda- “mundos da fazenda” vivenciavam o tempo a partir de um ponto em comum: a produção do café.
des. A região do Vale do Paraíba passava a ser uma peça chave no mercado mundial de produção, 88 As tropas de mulas que transportavam o café eram conduzidas pelos arreadores, encarregados da
distribuição e consumo de café em massa. INSTRUÇÕES Gerais para a Administração das Fazendas. direção dos escravos tropeiros (20% da força masculina da fazenda), cuja responsabilidade era a
Boa sorte, 1870. In: AGUILLAR, Nelson (Org) Negro de corpo e alma: mostra do redescobrimento. entrega segura da mercadoria no armazém do comissário no Rio de Janeiro. Geralmente, para isso,
São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo: Associação Brasil 500 anos artes visuais, 2000, p. 108, 110. eram contratados imigrantes portugueses.

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vislumbrado, mas a base da expansão social, econômica e política da classe para o barão de Nova Friburgo e o conde de São Clemente, a doença devia ser
senhorial do vale do Paraíba.89 curada o mais rápido possível para não prejudicar a produção:
Em Monte Alegre, Arcozelo, Guaribu, Paraíso, Ubá, Piedade, Pau
examinar com muitíssima atenção os pretos que tiverem dado parte de doentes,
Grande, Ribeirão Frio, Areias, Pinheiro, Taquara, São Joaquim da Grama, e os que já estão no hospital. [...] Convencendo-se que o enfermeiro tenha fiel-
São Luís da Boa Sorte, Cachoeira Grande, Forquilha, Resgate e em outras mente administrado aos doentes o que o doutor tiver prescrito, ou quando a boa
várias fazendas e sítios do Vale cafeeiro, a lida diária se repetia. Antes de o razão e experiência indicarem moléstias leves, mandem imediatamente chamar
sol nascer, os cozinheiros eram os primeiros a se levantarem para preparar a o acultativo nas que não se conhecerem ou apresentarem aspecto grave.93
primeira refeição composta de café, melaço e fubá cozido. Em seguida, um Além dos enfermos, permaneciam na fazenda escravos com funções
feitor ou capataz tocava o sino para acordar os escravos que se lavavam em especializadas no espaço doméstico ou fora dele. O habitus civilizado
um tanque de água, pegavam os instrumentos de trabalho e iam para fora da vigente na classe senhorial oitocentista exigia, cada vez mais, um requinte
senzala aguardar a reza matinal. Após a oração, o administrador da fazenda dos modos de comportamento como elemento de diferenciação interno.
contava os escravos, dividia-os em turmas com seus respectivos feitores e No ambiente das casas de vivenda, percebe-se pelos inventários e anúncios
capatazes responsáveis. Neste momento, o administrador determinava “a de jornal, uma maior especialização dos serviços domésticos. Cozinheiras,
cada feitor o serviço que deve fazer, e entregava o necessário mantimento engomadeiras, doceira, lavadeiras, costureiras, amas de leite, pajens, vallet
que de véspera devia estar preparado, mandando seguir, levando cada feito de chambre, mucamas, copeiro, cocheiro, passaram a ser funções específi-
diante de si todos os escravos de seu terno”.90 cas, com exigências distintas para as tarefas executadas. No caso dos servi-
Nas grandes fazendas, a maioria dos cativos ia para a lavoura de café, ços especializados mais ligados à produção da fazenda propriamente dita,
mas também havia aqueles que permaneciam na fazenda ou por estarem contava-se com: alfaiate, candeeiro, carpinteiro, carreiro, pedreiro, sapa-
incapacitados, com algum problema de saúde, ou porque eram incumbidos teiro, despenseiro, tanoeiro, enfermeiro, tropeiro, falqueador (derrubada
dos serviços domésticos, ou outras atividades especializadas. No caso dos de matas), ferreiro, formigueiro (extermínio de pragas), e demais ativida-
escravos enfermos, Flávio Gomes demonstra que a sociedade vassourense do des relacionadas às demandas por maior produtividade e profissionaliza-
século XIX entendia que “o senhor não era só aquele a quem deveria ser des- ção impulsionadas pelo crescimento do mercado externo do café durante
tinado o produto do trabalho, mas também aquele que deveria prover seus o século XIX.
escravos de alimento, roupas, moradias, tratá-los nas enfermidades e casti- De uma maneira ou de outra, estudos comprovam que os cativos com
gá-los quando necessário”.91 Em seu testamento, o barão de Paty do Alferes funções especializadas tinham mais probabilidade de conquistarem bene-
demonstrava que a saúde de seus escravos o preocupava não só por obrigação fícios, acumularem pecúlio e até adquirirem a tão sonhada alforria, do que
moral, mas também por medo de perdas financeiras já que a morte de uma seus colegas cativos do eito.94 Todavia, é bom lembrar que a proximidade
“peça” significava prejuízo para seus donos: “Os escravos ficavam sujeitos a com a família senhorial tanto abria chances para uma possível mobili-
infecções respiratórias, nos lugares onde descascavam e peneiravam o café, dade espacial, troca de favores e aquisição de benefícios, quanto expunha a
exposto ao sol por meio de pilões e peneiras produziam pó muito fino pre- enorme fragilidade da condição de cativo, caso este fizesse algo que direta-
judicial à saúde dos escravos afetando-lhes particularmente os pulmões”.92 Já mente desagradava aos senhores.95
89 STEIN, 1990.
90 INSTRUÇÕES Gerais para a Administração das Fazendas, p.108, 110. 93 INSTRUÇÕES Gerais para a Administração das Fazendas, p. 108, 110.
91 GOMES, 2006. 94 SLENES, Robert. Senhores e subalternos no oeste paulista. In: ALENCASTRO, L. F (Org.). História
92 INVENTÁRIO de 1862, falecido barão do Pati do Alferes; fazendas Monte alegre, Manga Larga, da vida privada no Brasil: Império – a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das
Piedade, Sant’Ana, Palmeiras, Monte Líbano, Conceição. Vassouras: Cartório do 1° Ofício de Letras, 2001 (História da Vida Privada no Brasil, v. 2).
Vassouras apud PONDÉ, Francisco de Paula e Azevedo. A fazenda do barão de Pati do Alferes: 95 A fragilidade das relações instituídas no contexto da escravidão doméstica nos EUA é narrado por:
fazenda Piedade. RIHGB, Rio de Janeiro: IHGB, n. 327, p. 120, abr.-jun. 1980. FOX-GENOVESE, Elizabeth. Within the plantation household: black & white women of the old south.

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Para a maioria que permanecia trabalhando no eito, eram realizadas labuta, quando geralmente era permitido que os escravos dançassem e can-
mais 4 refeições, sempre entremeadas com o trabalho duro, durante o qual tassem ao ar livre, e nos domingos, dia do descanso semanal e da distribui-
muitos cativos cantavam o jongo para passar o tempo.96 O almoço era ser- ção de tabaco e roupas limpas aos cativos. Nestes recessos, muitos senhores
vido às 10:00 horas composto de angu, um pouco de feijão temperado com permitiam que seus escravos cultivassem roças próprias, como era o caso
toucinho e gordura de porco. Em alguns casos, a refeição ainda podia con- de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck:
ter outros ingredientes como abóbora, batata doce e farinha de mandioca.
O fazendeiro deve, o mais próximo que for possível, reservar um bocado de
Esta breve pausa de mais ou menos uma hora também era aproveitada terra onde os pretos façam as suas roças; plantem o seu café, o seu milho, feijão,
pelas escravas para amamentarem seus bebês antes de voltarem ao trabalho. banana, batata, cará, aipim, cana etc. Não se deve porém consentir que a sua
Aproximadamente às 13:00 horas, recebiam café acompanhado do resto do colheita seja vendida a outrem, e sim a seu senhor, que deve fielmente pagar-
angu do almoço e o jantar ocorria por volta das 16:00 horas. O trabalho lhe por um preço razoável, isto para evitar extravios e súcias de taberna. Este
dinheiro serve-lhe para o seu tabaco, para comprar sua comida de regalo, sua
prosseguia até o anoitecer, quando os capatazes chamavam os escravos para
roupa fina, de sua mulher se é casado, e de seus filhos. Deve, porém proibir-se-
a nova contagem, seguida pelas atividades noturnas, tais como: secagem do lhe severamente a embriaguez pondo-os de tronco até lhes passar a bebedeira.
café nos meses de inverno, moagem do milho para fazer fubá, confecção [...] Estas suas roças, e o produto que delas tiram, faz-lhe adquirir certo amor ao
da farinha de mandioca, preparação do café para consumo, corte de lenha, país, distraí-los um pouco da escravidão, e entreter com esse pequeno direito de
transporte de água, etc. Ao voltar para a senzala, recebiam uma ceia e iam propriedade. [...] O extremo aperreamento desseca-lhes o coração, endurece-os
e inclina-os para o mal. O senhor deve ser severo, justiceiro e humano.99
dormir.97
Sobre a noite nas senzalas, o viajante suíço Johann Jakob von Tschudi Tanto a chamada brecha camponesa, quanto a permissão oficial para a
descreveu:98 constituição de famílias no cativeiro faziam parte de uma política senhorial
Cada negro possui de 3 a 4 cobertores que usa também como colchão, se não de domínio e tratamento dos escravos que articuladas buscavam manter a
prefere utilizar-se da esteira. Um pequeno travesseiro completa a cama pri- “paz nas senzalas”.100 Na fazenda Pinheiro, por exemplo, 1/3 dos cativos pos-
mitiva. [...] As senzalas ficam abertas até às 10 horas da noite, havendo até suíam uniões estáveis, totalizando 48 famílias, sendo a metade formada de
lá, um convívio misto nas mesmas. A um sinal dado por uma campainha, os casais com filhos, o que também garantia a reprodução da escravaria.101 Já a
homens e as mulheres se retiram, cada qual para sua habitação, e o guarda as
permissão para o cultivo de pequenas porções de terra além da função ideo-
fecha a chave, abrindo-as na manhã seguinte, uma hora antes de iniciar-se a
tarefa diária. As crianças menores dormem com as mães, as maiores possuem lógica de controle social também dirimia os custos da manutenção desta
suas tarimbas individuais, dormindo em geral duas crianças em cada uma. Os mão de obra. Sobre este aspecto em particular, Flávio Gomes afirma que:
negros casados vivem em recintos menores, devidamente separados.
[...] em vez de dar rações diárias aos cativos, alguns fazendeiros os dispen-
A dura rotina aqui descrita só era quebrada em casos de alguma intem- savam por um ou dois dias na semana para que cultivassem suas roças, de
onde tiravam produtos para a alimentação. Quanto aos escravos, o direito de
périe ou problema na administração da fazenda, exceto nos sábados após a
utilização de tempo para cultivar suas roças era visto como conquista. [...]
Por meio destas práticas, os cativos desenvolveram uma economia própria,
Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 1988; GLYMPH, Travolia. Out of house of bond- comerciando com taberneiros e cativos de fazendas próximas.102
age: the trasnformation of the plantation household. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.
96 LARA, Silvia Hunold; PACHECO, Gustavo. Memória do jongo: as gravações históricas de Stanley
Stein – Vassouras, 1949. Rio de Janeiro: Folha Seca; Campinas: Cecult, 2007. Sobre o assunto, assistir 99 WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória sobre a fundação de uma fazenda na província
também ao vídeo Jongos, calangos e folias: música negra, memória e poesia (2007) realizado pelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa: Senado Federal, 1985. p. 63.
professoras Hebe Mattos e Martha Abreu. 100 FIORENTINO, Manolo; GÓES, J. R. A paz das senzalas: famílias escravas e tráfico atlântico – Rio de
97 SLENES, OP. CIT, 1997. Janeiro, 1790-1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.
98 VON TSCHUDI, Johann Jakob. Viagem às províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo: Edusp; 101 LOURENÇO, 2010, p. 64.
Belo Horizonte: Itatiaia, 1980. p. 56. 102 GOMES, 2006, p. 202.

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Segundo o historiador Rafael Marquese tais concessões faziam parte da de acontecer. Jogando no território do possível sem se contrapor diretamente
“política do bom tratamento do escravo”, descrita pelo marquês de Abrantes à lógica vigente, os escravos mapeavam estratégias de subordinação que lhes
em seu livro, e composta de: fornecimento de alimentos, roupas e moradia permitiam pequenas conquistas: constituição de família, terras para plan-
adequados aos cativos; permissão para que amealhassem alguma proprie- tio, descansos em domingos e dias santos, compra da liberdade, alforria, etc.
dade como forma de inspirar no cativo o desejo do trabalho; incentivo a Várias foram as estratégias de subordinação dos escravos domésticos e do eito
formação de famílias; cuidado com as crianças escravas e diminuição da para ganhar a confiança de seus senhores e feitores. No meio de uma vida tão
carga de trabalho das grávidas e mães com crianças pequenas; algum tempo precária, pequenos benefícios podiam significar muito e aliviar um pouco
livre para lazer e descanso; tratamento dos enfermos; punições corporais as agruras do cativeiro.107 Em seu diário, a viscondessa do Arcozelo enumera
justas e bem aplicadas.103 algumas destas grandes e pequenas conquistas às vésperas da abolição:
Como se vê, eram variadas as táticas que compunham a política senho-
Os pretos de casa cantarão os Reis. (6 de janeiro de 1887, dia de Reis)
rial de domínio. O barão de Paty do Alferes, certa vez, prometeu “prêmios” Os escravos farão festa. (23 de junho de 1887, dia de São João)
de 40 réis de gratificação para cada escravo que cumprisse a tarefa de cole- Chico acabou de fazer a matricula. Ficarão livres das três fazendas 37 escravos.
tar cinco alqueires de café. No entanto, explicava ele: “com este engodo
MONTE ALEGRE: Ventura, Miguel, Mathias, Domingos Carreiro, Caetano,
que era facilmente observado, consegui que apanhassem sete alqueires, Dionísio, Jachinto, Custodio Cabinda, Laureano, Polycarpo, Eufrazia,
que ficou depois estabelecido como regra geral”.104 Para o barão, a quebra Carolina, Anacleto, Luiza, Maria Conga.
do acordo era justificada pelo fato dos escravos não estarem rendendo o PIEDADE: Madalena, Eugenia, Bento, Mathias, Antonio Monjolo, Faustino,
máximo da sua capacidade de trabalho. Portanto, a vigilância deveria ser Felipe, Thereza, Mª Cassange, Domingos Congo, Gertrudes Benguela,
constante e realizada durante o trabalho para que os escravos não lesas- Francisca Benguela, Candido, Drezida, Ambrosio Fromigueiro, Clemente,
Tude, Marcelina.
sem seus senhores em sua produção, seja prejudicando o cafeeiro durante
FREGUESIA: João Cassange, Ephigenia, Miguel, Rodrigo. (31 de janeiro de 1887)
a coleta ou em qualquer outra fase da produção, seja produzindo menos
do que sua capacidade de trabalho, ou até roubando sacas de café, outros Do embate entre a violenta política da dominação legitimada pelos
produtos ou ferramentas de trabalho. Este foi o caso do escravo Manoel, senhores e as estratégias de sobrevivência articuladas pela população
pertencente a Augusto Soares de Souza, que foi flagrado vendendo uma escrava, emerge uma dinâmica social calcada no sentimento do “sobres-
saca de café roubada para um taberneiro na paróquia de Ferreiros.105 salto” que permeava os mundos da fazenda.108 Ao conseguir pertencer à
Em resumo, pode-se dizer que a política senhorial de domínio imple- rede e fazer parte da “política de favores” de seus senhores, o escravo aca-
mentada possuía dois lados, mesmo que com potenciais desiguais de luta. bava enredado em seus anseios, cativo de suas próprias conquistas, porque
Enquanto os senhores buscavam a “paz das senzalas” através de diversos passava a conviver com o temor de perdê-las. Por outro lado, na outra ponta
recursos, entre eles a distribuição de pequenos benefícios e de posse do da gangorra de forças, os senhores viviam em constante “estado de alerta”.
monopólio da violência,106 aos escravos cabia a negociação por dentro do sis- As políticas de negociação implementadas cotidianamente eram instáveis
tema instituído. A convivência cotidiana entre livres e cativos fundava espa- e podiam rapidamente se tornar motivo de conflito, sobretudo através
ços ambíguos em que o diálogo – mesmo que entre desiguais– era passível de fugas individuais ou coletivas, rebeliões nas senzalas, roubos e ataque
103 MARQUESE, 2004, p. 268-269.
104 WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória sobre a fundação de uma fazenda na Província do 107 Sobre este tema, ver: CHALHOUB, S. Visões de liberdade: uma história das últimas décadas da escra-
Rio de Janeiro, sua administração e épocas em que se devem fazer as plantações, suas colheitas etc, etc. vidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. SLENES, 1997, p. 236. Ver ainda: MATTOS,
1. ed. Rio de Janeiro: Tipografia Universal Laemmert, 1847. p. 21 apud. SILVA, E.; REIS, J. J. Negociação e H. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista – Brasil, séc. XIX. Rio de
conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 28. Janeiro: Nova Fronteira, 1998. GUEDES, Roberto, Egressos do cativeiro: trabalho, família, aliança e
105 Caso estudado por SLENES, 1997, p. 209. mobilidade social (Porto Feliz, SP, 1798-1850). Rio de Janeiro: Mauad: Faperj, 2008.
106 Sobre o monopólio da violência como elemento de poder na sociedade imperial, ver: MATTOS, I., 1990. 108 SLENES, 1997.

92 93
a senhores e feitores seguidos de morte. Como afirma Robert Slenes, os são conhecidos em Paraíba do Sul, Bemposta e Piabanha, onde trabalham,
senhores sabiam que estavam “dormindo com o inimigo”, pois os líderes das e no município de Vassouras. Quem quer que os ajude será processado por
lei. Acima a recompensa para quem devolvê-los a senhora D. Luiza Rosa
revoltas nas senzalas eram, frequentemente, os escravos mais chegados.109
Sampaio, em Tatuhy, ou quem possa dar informações sobre seus paradeiros.111
Para corroborar a afirmativa de Slenes, vale citar a revolta de Manoel
Congo ocorrida no dia 5 de novembro de 1838, em Vassouras. O episódio Convivendo bem de perto com os escravos, existia toda sorte de
teve início quando os escravos de Manuel Francisco Xavier se sublevaram e homens livres que atuavam na fazenda ou nas margens das fronteiras terri-
seguiram para a fazenda Maravilha, pertencente ao mesmo dono. Ao che- toriais da mesma, realizando trabalhos diários ou sazonais. Eram ex-escra-
garem, atentaram contra o feitor, roubaram mantimentos e ferramentas do vos, feitores, arreadores, pequenos agricultores, trabalhadores por jornada
paiol e puseram uma escada na cozinha da casa de vivenda para possibilitar que se distinguiam dos cativos por possuírem o atributo da liberdade. Se
a fuga dos escravos domésticos que por ali dormiam.110 a liberdade os diferenciava dos cativos, não os equiparava aos senhores,
Para a discussão que nos interessa no momento, vale frisar aqui três cidadãos ativos, que detinham o direito de votar e serem votados, assegu-
aspectos que relativizam a completa eficácia da política de domínio senho- rado pela prerrogativa do voto censitário garantida na Constituição de 1824.
rial. Em primeiro lugar, nenhum dos escravos domésticos da fazenda Apesar de viverem apartados do mundo dos senhores por outros elementos
Maravilha resistiu à fuga ao serem convocados pelos cativos já subleva- diferenciadores como grau de instrução, práticas de consumo, etiqueta e
dos. Em segundo lugar, Manoel Congo, acusado de ser o principal líder da habitus social, os homens livres e pobres, considerados cidadãos passivos
revolta, era ferreiro e casado. Em terceiro lugar, a maioria dos escravos indi- na lógica política vigente, jogavam cotidianamente com suas relações pes-
ciados no inquérito como cabeças do movimento eram escravos domésti- soais e laços de dependência em busca de melhores condições de vida.112
cos ou possuíam alguma especialização. Portanto, nenhum dos benefícios O que definia toda a sorte de homens pobres, não escravizados, que
concedidos pela política senhorial de dominação – atuar no serviço domés- viviam no Vale do Paraíba fluminense e em toda a sociedade Imperial era o
tico, ter um trabalho especializado, constituir família – foram capazes de fato de serem livres. Contudo, se atributo da liberdade os igualava, o da pro-
impedir a fuga e a revolta por parte dos escravos que deles gozavam. priedade os hierarquizava reproduzindo a lógica “verticalizadora” da socie-
É importante que se tenha em mente que a política de dominação dade imperial. Portanto, a posse de escravos e de terras eram elementos de
senhorial vivia um equilíbrio tênue, instável e que a aceitação da mesma por diferenciação importantes no interior de um grupo social com funções tão
parte dos escravos era passível de ser alterada no menor sinal de possibili- diversas. Todavia, estas conquistas se tornaram cada vez mais difíceis na
dade de liberdade. Os escravos também tinham suas estratégias. Estavam conjuntura pós 1850, quando o preço do cativo e as possibilidades de acesso
capacitados a resistir ao sistema de dominação imposto à medida que, por à terra se restringiram na região.
fazer parte dele (como dominado), conheciam a fundo suas brechas, limi- Na sociedade oitocentista, os critérios de liberdade e propriedade
tes e imperfeições. Neste contexto, as desobediências e fugas eram bastante estavam imbricados. Ou seja, o reconhecimento social de uso da terra era
comuns e os anúncios de escravos fugidos povoaram os jornais da Corte e respaldado por favores, relações pessoais e familiares historicamente cons-
das províncias do Vale. tituídas na região e que garantiam o acesso a tal.113 Relações de fidelidade
construídas ao longo de uma vida entre homens livres e pobres e grandes
50$000. O escravo chamado Antonio fugiu em 29 de junho da fazenda Tatuhy
de Pati do Alferes. Ele é carpinteiro, africano de Benguela, com marcas de
varíola, alto, pés grandes, lábios grossos, corpulento, barba branca. Como ele 111 O MUNICÍPIO 5 de julho de 1877 apud STEIN, 1990, p. 180.
fugiu com a escrava Damiana, africana de Benguela sua esposa, muito escura, 112 Para uma discussão acerca da cidadania no Império, consultar: GRINBERG, Keila. O fiador dos bra-
baixa, robusta, faltam-lhe 3 dedos na mão direita, fala bem. Esses escravos sileiros: cidadania, escravidão e direito civil no tempo de Antônio Pereira Rebouças. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2002; MATTOS, H., 2000; MATTOS, I., 1990.
109 Ibid., p. 236. Ver ainda: MATTOS, H., 1998. 113 MATTOS, H. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista – Brasil, séc.
110 GOMES, Flávio. “As raízes do efêmero: a insurreição quilombola de Vassouras (1838)”. In: Op. cit. XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

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senhores podiam ser recompensadas no futuro. O barão de Capivary, por porque a renda mínima anual exigida era relativamente baixa para a época e
exemplo, beneficiou em testamento dois de seus “agregados”. Ao compadre a fiscalização da Coroa da lista de votantes não era das mais eficazes. Desse
José de Oliveira Barcellos deixou 3:000$000 em terras que já eram de seu modo, em tempos de eleições, muitos eleitores negociavam favores com os
usufruto e à agregada Anna Isabel do Parahyso Ribeiro doou os escravos e chefes políticos locais porque sabiam que a derrota destes grandes proprie-
as terras já arrendados por ela, além da quantia de 50$000.114 tários significaria desprestígio e perda do controle de cargos públicos.118
O estudo pioneiro de Maria Sylvia de Carvalho Franco sobre os homens Desta forma, se por um lado a pouca oferta de terras, que era uma rea-
livres na ordem escravocrata enfatizou a pluralidade de condições e de rela- lidade no Vale fluminense após a década de 1850, deixando uma grande par-
ções que este grupo social constituía junto aos grandes proprietários rurais cela da população livre vulnerável as relações pessoalizadas impostas pelos
ao nível de relações de compadrio, vínculos pessoais, favores prestados, grandes senhores; por outro, estas mesmas relações pessoalizadas abriam
interesses eleitorais, arrendamento de terras e/ou instrumentos de trabalho, possibilidades de acesso à terra, benefícios e oportunidades de inserção na
etc. Assim como Stanley Stein e Warren Dean, a autora destacou a pouca comunidade local, como demonstrou a análise do testamento do barão do
oferta de terras como favorecedora de um pequeno grupo de ricos proprie- Capivary. Obviamente que não se trata de dizer que as partes envolvidas na
tários que exercia seu poder, autoridade e controle político sobre um certo negociação se colocavam em iguais condições. O caráter violento e desigual
número de homens pobres.115 A influência destes poucos senhores não ficava das relações entre senhores e homens livres e pobres não pode ser desmere-
circunscrita aos arrendatários e sitiantes que se dedicavam à agricultura em cido. Todavia, os espaços sociais para o desenvolvimento de negociações, bar-
suas terras, mas se propagava também a vendeiros, tropeiros, jornaleiros ganhas, conflitos e rebeldias devem ser levados em consideração sob pena de
e comerciantes de pequeno porte e outros trabalhadores com negócios e encobrir as especificidades destes homens livres e despossuídos e acabar por
interesses na região.116 Como decorrência, os vínculos pessoais constituídos considerá-los uma massa de manobra sem valores e pensamentos próprios.119
entre os chamados “agregados” e os grandes proprietários locais dificulta- Mas o trabalho como lavrador agregado e pequeno sitiante ligados aos
vam a possibilidade de um existir politicamente autônomo destes homens grandes senhores não era a única função que os homens livres e pobres
livres e pobres, ao mesmo tempo em que legitimava a imposição da vontade exerciam nas grandes fazendas. Nas Instruções gerais para a administração
do mais forte sobre o mais fraco.117 das fazendas, enumerava-se: “todo o pessoal livre da fazenda, camaradas
Para José Murilo de Carvalho, ao contrário, o voto era um importante como oficiais de ofício, enfermeiros estão debaixo das ordens do adminis-
instrumento de barganha dos homens pobres frente aos senhores. Apesar trador e ele é responsável pelo bom emprego do tempo dos mesmos.[...]
de o pleito ser censitário, o número de eleitores no Império era considerável Tem o administrador o direito e a obrigação de demiti-los logo que cum-
se comparado a outros países no mesmo período. No Brasil, isso ocorria pram seus deveres”.120 Além dos citados acima, era comum nas fazendas
o emprego de trabalhadores livres para outras funções específicas e este
114 TESTAMENTO do barão de Capivary, Pau Grande 20 de fevereiro de 1863. Vassouras: Centro de
Documentação Histórica da Universidade Severino Sombra, 1863. Caixa 242. número podia aumentar de acordo com o volume de trabalho nas diferen-
115 Stanley Stein estudou o sistema da grande lavoura em Vassouras e Warren Dean desenvolveu traba- tes safras e colheitas. Na contabilidade da fazenda Pau Grande, por exem-
lho semelhante para Rio Claro, região do vale do Paraíba paulista. Ver: STEIN, 1990. plo, entre os anos de 1872 e 1876, aparecem gastos com pagamento de salá-
116 FRANCO, Maria Sylvia Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. 4. ed. São Paulo: Unesp, 1997. rios a feitores (126$000 réis/ano), jornaleiros e tropeiros.121
Sobre o espaço de sobrevivência dos homens livres e pobres na ordem escravocrata, a autora lembra
que “foi na fímbria do sistema econômico organizado para a produção e comercialização do café
que emergiram as atividades a eles relegadas. Foram esses serviços residuais, que na maior parte não
118 CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização
podiam ser realizados por escravos e não interessavam aos homens com patrimônio, que ofereceram
Brasileira, 2003. p. 33.
as oportunidades aos trabalhadores livres”. p. 65.
119 A discussão desta questão no tocante aos escravos é apresentada por REIS; SILVA, 1989.
117 Ibid., p. 94. Esta afirmação está baseada numa interpretação clássica na historiografia brasileira a
qual enfatiza uma relação desigual entre proprietários de terras e seus trabalhadores e agregados. 120 INSTRUÇÕES Gerais para a Administração das Fazendas, p. 108.
Ver: LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no 121 ARQUIVO NACIONAL. Caderno de assentamentos financeiros das despesas e rendimentos mensais da
Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca CCS da UERJ, 1949. fazenda –1870-1876. Rio de Janeiro, 1870-1876. Fundo Fazenda do Pau Grande, notação 798.

96 97
Como vimos, os diversos agentes sociais que compunham o universo dos interpretada como uma prova do forte comprometimento das forças políti-
complexos cafeeiros estavam ligados por uma imbricada teia de dependên- cas do Império com a classe senhorial escravista do Vale.124
cias, solidariedades e relações de poder que eram respaldadas por uma lógica Desta forma, se por um lado a concentração de mão de obra escrava,
de domínio verticalizada, hierarquizada e excludente que operava a partir de terras e riqueza no Vale do Paraíba proporcionou uma projeção política
critérios de liberdade e propriedade. No cotidiano das plantations cafeeiras, e econômica da região no âmbito nacional, por outro, isolou os interes-
as relações sociais e de trabalho instituídas variaram no tempo e no espaço ses escravistas naquela espacialidade. Com o fim do infame comércio, o
sem, contudo, prescindirem dos princípios da hierarquia, tão caro ao fun- aumento do preço do escravo e a intensificação do tráfico interprovincial, o
cionamento das sociedades escravistas. Tais relações de força tencionavam as mapa da escravidão mudou no Brasil.125 Nos anos de 1880, a nova configu-
dinâmicas entre os diversos grupos sociais, mas também no interior dos mes- ração apontava uma concentração maciça de escravos no Vale do Paraíba,
mos. Nas comunidades de senzala de grandes plantations, por exemplo, estas enquanto outras localidades tendiam ao esvaziamento deste tipo de mão
diferenciações eram sentidas através de conflitos entre africanos e crioulos, de obra.126 A escravidão como instituição havia perdido sua capacidade de
cativos antigos e recém-chegados.122 A situação das pessoas livres e pobres que amalgamar interesses de grupos sociais distintos. Tornara-se reduzida aos
trabalhavam nas grandes fazendas não fugia à regra.123 Contudo, a dinâmica interesses de um grupo de grandes proprietários do centro-sul, enfraque-
social vigente acenava com hipotéticas conquistas: aos escravos com a possi- cendo-a como projeto nacional.127
bilidade de constituírem famílias, fazerem roça própria, realizarem festas aos
domingos e dias santos ou serem alforriados; aos homens livres e agregados
com promessas de proteção, melhor remuneração, lotes de terra, recebimento
de escravos ou pequenas doações após a morte do proprietário a quem foram
fiéis; aos senhores com a aquisição de títulos de nobreza, enriquecimento ou
boas relações com pares mais endinheirados. Todavia, as clivagens entre os
grupos sociais em questão eram fulcrais. Enquanto para os escravos a aquisi-
ção de “benefícios,” em muitos casos, significava a garantia da própria sobre-
vivência; para os senhores se tratava da manutenção de um status quo.
A título de conclusão, pode-se dizer que, como resultado histórico
do processo de ocupação das terras “serra acima”, da rápida montagem
dos complexos cafeeiros e da ascensão dos mega proprietários de terras e 124 No âmbito interno, cito o crescimento do movimento abolicionista, a Guerra do Paraguai, o
escravos que residiam no centro-sul, em pouco tempo, o Vale do Paraíba aumento das fugas de escravos e ascensão das classes médias urbanas incluindo o grupo dos milita-
res. No âmbito externo, destaco a Guerra Civil Americana com a derrota do sul escravista e o forte
tornou-se uma peça fundamental para a economia e a política imperial, crescimento da opinião pública internacional contrária à escravidão.
sendo socialmente reconhecida como uma região. A opção conservadora 125 “As estimativas indicam que entre 1850 e 1888, foram transferidos aproximadamente duzentos mil
escravos do Nordeste para a lavoura cafeeira. Além da venda dos cativos ter sido uma das formas
pela emancipação gradativa da escravidão a despeito de todas as transfor-
de muitos proprietários de terras nordestinos saldarem suas dívidas, as secas ocorridas na região,
mações ocorridas tanto no cenário nacional quanto internacional pode ser no final da década de 1870, também contribuíram para que perdessem aproximadamente 50% do
seu plantel de escravos. O trabalhador livre foi substituindo paulatinamente a mão de obra nas
122 FLORENTINO, Manolo; GÓES, José Roberto. A paz nas senzalas: famílias escravas e tráfico Atlântico, lavouras nordestinas.” BASTOS, Lúcia; MARTINS, Humberto. O Império do Brasil. Rio de Janeiro:
c.1790 – c.1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.. Sobre a temática da família escrava, Nova Fronteira, 1999. p. 350.
Robert Slenes apresenta uma interpretação oposta de que no âmbito das comunidades de senzala e 126 Neste processo, destaco a extinção da escravidão em 1884 nas províncias do Ceará, Amazonas e na
da formação de famílias foi possível aos africanos e seus descendentes manterem relações de solida- cidade de Porto Alegre e o movimento dos caifazes em São Paulo.
riedade e elementos da cultura africana. SLENES, Robert. Na senzala uma flor. Rio de Janeiro: Nova 127 SALLES, Ricardo. Nostalgia imperial: a formação da identidade nacional no Brasil do Segundo
Fronteira, 1999. Reinado. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996. Id. Guerra do Paraguai: memórias & imagens. Rio de
123 SLENES, 1997, p. 283. Janeiro: Biblioteca Nacional, 2003.

98 99
A cartografia do poder senhorial:
cafeicultura, escravidão e formação
do Estado nacional brasileiro, 1822-1848
Rafael Marquese
Ricardo Salles

o mapa de 1848 e a cartografia das fazendas de café


Em 1848, o engenheiro militar e coronel Conrado Jacob de Niemeyer, então
superintendente da fazenda imperial de Santa Cruz, localizada na provín-
cia do Rio de Janeiro, coordenou a composição e impressão de um ambi-
cioso mapa da propriedade e de seu entorno. Dentre suas peculiaridades,
encontra-se a combinação simétrica de representações planimétricas e vis-
tas frontais dos edifícios que compunham o complexo do palácio imperial
de Santa Cruz (parte direita do mapa) com uma representação cartográfica
dos imensos fundos territoriais dos antigos domínios jesuíticos, da baía de
Mangaratiba ao rio Paraíba do Sul (parte esquerda). Nesta segunda ses-
são, destaca-se a anotação, muito rara no Brasil, das fronteiras de diversas
Imagem 1: Planta corográfica de uma parte da província do Rio de Janeiro na qual se inclui a Imperial
propriedades rurais, nas quais foram anotados os nomes de seus respecti-
Fazenda de Santa Cruz segundo as primitivas medições dos jesuítas em 1729 e remedição de 1783,
vos donos (Imagem 1). Essa última característica torna o mapa da fazenda medição anulada de 1827 e de sua posse atual para ser anexa às reflexões tendentes a determinar
de Santa Cruz uma peça ímpar para a análise da história do Império do definitivamente os seus limites. (Acervo: Arquivo Nacional, ref.: BR RJANRIO 4Y.0.MAP.50)

Brasil, em que pouco – ou mesmo nada – se mapeou a estrutura fundiária.


O contraste entre esse documento único e as práticas cartográficas vigen-
O presente capítulo parte da seguinte pergunta: por que o mapa de
tes em outros espaços de fato chama a atenção. Em projeto comparativo
Niemeyer constitui peça única no Brasil imperial, quando, na quadra his-
sobre as zonas de ponta da chamada “Segunda Escravidão” (baixo vale do
tórica oitocentista, os Estados nacionais americanos e os poderes coloniais
rio Mississippi, zona algodoeira; ocidente de Cuba, zona açucareira; Vale do
europeus demonstravam intensa preocupação com o mapeamento de
Paraíba, zona cafeeira), foi possível constatar essa especificidade do Brasil.1
territórios e de recursos naturais? Por meio do exame do mapa de 1848,
iremos explorar em que medida os processos de construção dos Estados
nacionais da Segunda Escravidão envolveram graus distintos de esquadri-
1 O projeto, financiado pela Getty Foundation e desenvolvido entre 2005 e 2009, foi desenvolvido
pela equipe composta por Reinaldo Funes, Rafael Marquese, Dale Tomich e Carlos Venegas. nhamento de territórios e de relações entre as estruturas do poder político

100 101
e suas bases sociais de sustentação, notadamente junto às classes de pro- onde nasce o rio, em São Paulo; o Médio Vale, que nos interessa mais de
prietários de terras e escravos. Em outras palavras, ao procurarmos uma perto, compreendendo as terras que vão de Cachoeira Paulista até Itaocara,
resposta para a pergunta concernente ao caráter singular do mapa de 1848, no Rio de Janeiro; o Baixo Vale, quando o rio Paraíba vai se nivelando, aos
poderemos iluminar o processo mais amplo de formação da classe senho- poucos, até a foz na Baixada Campista. No século XIX, a expansão do café,
rial escravista no Vale do Paraíba e suas relações com a construção do que chegou à região por diferentes vias, converteu o vale geográfico em uma
Estado nacional brasileiro. unidade socioeconômica e ambiental, com ligações diretas com a Zona da
A composição do mapa de Niemeyer, em fins da década de 1840, Mata mineira, o norte da província de São Paulo, a baía de Ilha Grande,
remonta aos anos imediatamente posteriores à independência do Brasil, o nordeste da província do Rio de Janeiro, a zona canavieira de Campos,
quando uma disputa por terras opôs, de um lado, a primeira geração de a Baixada e o Recôncavo em torno da Baía de Guanabara e, finalmente,
cafeicultores escravistas do Vale do Paraíba ocidental, e, de outro, D. Pedro com a praça mercantil do Rio de Janeiro e a Corte imperial. É essa região
I. Acompanhar essa disputa nos permitirá compreender o papel do processo que, seguindo o geógrafo Orlando Valverde, denominamos de Bacia do
de penetração do café na região, especialmente em uma área-chave, o Médio Paraíba.2 Num segundo círculo de desdobramento, essa região escravista,
Vale do Paraíba, para a configuração do poder senhorial. Examinaremos a organizada em torno do café e, em menor dimensão, em torno da cana-
formação de suas primeiras fazendas; o suporte que seus donos de terras e de-açúcar, conectava-se com o restante das províncias de Minas Gerais e
escravos deram ao projeto de rompimento das relações com a metrópole, São Paulo, com ramificações para o extremo meridional da América portu-
capitaneado pelo próprio príncipe português; o progressivo divórcio pos- guesa, constituindo a região Centro-Sul.
terior entre D. Pedro I e os grupos escravistas em ascensão, que culminou As terras compreendidas pelo Médio Vale do Paraíba no século XVIII,
com sua abdicação em 1831; a articulação do Regresso Conservador como e, particularmente, a porção ocidental do Médio Vale, foram regidas no
parte do processo de formação da classe senhorial radicada no Vale e con- período colonial pela política de terras proibidas, que visava interditar o con-
solidação do Estado imperial; a coroação do novo imperador em 1840 e trabando de ouro e diamantes, o que, por sua vez, permitiu que populações
o arranjo político então construído. Nesse percurso, poderemos, enfim, indígenas continuassem a habitar a região até o início do século XIX.3 Não
entender o que Niemeyer pretendia em 1848. obstante, durante os setecentos, a Coroa portuguesa promoveu a ocupação
de faixas dessa região por meio da concessão de sesmarias em dois grandes
a fazenda de santa cruz, a montagem da cafeicultura eixos. O primeiro corria grosso modo de sul a norte, ao longo do chamado
escravista no vale do paraíba ocidental Caminho Novo de Paes Leme, que ligava o porto do Rio de Janeiro às Minas
e a independência do brasil Gerais.4 O segundo eixo dispunha-se em uma faixa de leste a oeste, em torno
da Estrada Geral para São Paulo. É ele que nos interessa mais de perto.
O rio Paraíba do Sul nasce em terras paulistas, na confluência dos rios
Paraitinga e Paraibuna, na Serra do Mar. Ele corre, inicialmente, em dire-
2 VALVERDE, Orlando. A fazenda de café escravocrata no Brasil. 1. ed. 1965. In: ___. Estudos de geo-
ção oeste, até a altura de Jacareí, quando faz uma inflexão para o Norte e em grafia agrária brasileira. Petrópolis: Vozes, 1985.
direção a leste, adentrando terras fluminenses, até dobrar ao sul e desem- 3 Sobre a política de zonas proibidas, ver, dentre outros, ANASTASIA, Carla Maria Junho. A geogra-
bocar no Oceano Atlântico em São João da Barra. Seu percurso é paralelo fia do crime: Violência nas Minas Setecentistas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005. Como ressalta
Marina Monteiro Machado (Entre fronteiras: terras indígenas nos sertões fluminenses (1790-1824).
ao Oceano Atlântico, formando e ocupando uma grande calha que se situa 2010. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010. p. 35), as
entre a Serra do Mar, que se alastra paralela e próxima ao litoral, e Serra da populações indígenas que habitavam o Vale foram importantes para a eficácia relativa do bloqueio à
colonização na região durante o século XVIII.
Mantiqueira, que divide o Vale do Paraíba do altiplano mineiro. O Vale do
4 Sobre as sesmarias concedidas nesse eixo, ver LEMOS, Marcelo Sant’Anna. O índio virou pó de
Paraíba, por suas características geoecológicas, pode ser dividido em Alto café? A resistência dos índios Coroados de Valença frente à expansão cafeeira no Vale do Paraíba
Vale, compreendendo a região mais elevada, incrustada na Serra do Mar, (1788-1836). 2004. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,
Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004. p. 39. Para o processo mais amplo,

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O chamado “Caminho Novo da Piedade”, ligando o que hoje é o muni-
cípio de Lorena à fazenda Santa Cruz, começou a ser aberto na década
de 1720 com o objetivo de garantir um acesso terrestre entre a cidade do
Rio de Janeiro e a capitania de São Paulo, de modo a evitar os ataques
às partidas de ouro descidas de Minas Gerais e até então embarcadas em
Parati.5 A abertura da via deu ensejo às primeiras concessões de sesmarias
na zona ocidental do Médio Vale do Paraíba, algumas das quais localizadas
em terras da fazenda de Santa Cruz. A propriedade fora constituída por
concessões de sesmarias à Companhia de Jesus e da agregação de terras
doadas por particulares à mesma ordem, formando, entre as décadas de
1590 e 1650, seus imensos fundos territoriais, que iam da baía da Restinga
da Marambaia até a margem esquerda do rio Paraíba do Sul (Imagem 1).
Uma estimativa recente afirma que “em quilômetros quadrados, a proprie-
dade dos jesuítas equivaleria a 10% do atual território do estado do Rio de
Janeiro”.6 A notícia da abertura do Caminho Novo em 1725, que cruzaria Imagem 2: detalhe da imagem 1
as terras da fazenda, encontrou viva oposição dos padres. A concessão de
sesmarias como a de Francisco Cordovil de Siqueira, em 1729 (Imagem 2), Como o processo de medição de 1729-1731 deixava claro, todo o foco
na subida da Serra do Mar, porém em área do domínio jesuítico, levou os da exploração econômica da fazenda estava na baixada, com uma combi-
inacianos à primeira medição sistemática de seus fundos territoriais, fina- nação de pecuária semi-intensiva e produção de mantimentos (sobretudo o
lizada em maio de 1731.7 arroz), ambas dependentes das obras bastante sofisticadas de drenagem de
pântanos e construção de canais que tanto notabilizariam a fazenda de Santa
Cruz. Suas terras na região de serra acima, contudo, permaneceram inex-
ploradas ou, quando muito, utilizadas apenas para a retirada de madeira de
lei.8 Eram os indígenas não reduzidos que exerciam o domínio efetivo sobre
as terras da fazenda no Vale do Paraíba, algo que derivou tanto da opção
jesuítica pela exploração exclusiva de escravos negros na Baixada, como da
MOTTA, Márcia Maria Menendes. Nas fronteiras do poder: Conflito e direito à terra no Brasil do própria política metropolitana de interdição fundiária das zonas proibidas.
século XIX. 2ª ed. Niterói: Eduff, 2008. O início das obras de construção do Caminho Novo da Piedade trouxe
5 RODRIGUES, Píndaro de Carvalho. O Caminho Novo: Povoadores de Bananal. São Paulo: Governo
para a fazenda de Santa Cruz as tensões que já vinham polarizando jesuítas
do Estado de São Paulo, 1980. p. 23-27.
6 A avaliação é de José MENESES, José Newton Coelho. Se perpetue a Companhia nessas partes: materiali-
e autoridades régias em outros quadrantes do império português. A resis-
dade da fazenda de Santa Cruz no tempo da expulsão dos jesuítas. In: ENGEMANN, Carlos; AMANTINO, tência jesuítica à nova via foi demovida por ordem de 1732, que os obrigou
Marcia (Org.). Santa Cruz: de legado dos jesuítas a pérola da Coroa. Rio de Janeiro: EdUerj, 2013. p. 80. a permitir a abertura do caminho na propriedade. Até 1758, outras sesma-
Para a história da formação da fazenda, ver, além deste livro coletivo, o trabalho exaustivo de FREITAS,
Benedicto. Santa Cruz: Fazenda Jesuítica, Real, Imperial. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1985. v. 1 de rias seriam concedidas ao longo da Estrada Geral para São Paulo. De todo
3; e o artigo esclarecedor de FRIDMAN, Fania. De chão religioso a terra privada: o caso da Fazenda de modo, as décadas de 1730 a 1750 representaram o apogeu da fazenda sob
Santa Cruz. In: Cadernos IPPUR, ano XV-XVI, n. 2-1, p. 311-343, ago.-dez. 2001/jan.-jul. 2002.
o domínio inaciano, encerrado com a expulsão e o confisco dos bens da
7 Sobre a sesmaria concedida em 1729, representada no mapa de Niemeyer no canto inferior esquerdo
como “antiga sesmaria do Cordovil”, ver FRIDMAN, 2001-2002, p. 315; sobre a medição de 1729-1731, Companhia em 1759. A política de ampla reordenação do Império português
ver O TOMBO ou cópia fiel da medição, e demarcação da fazenda nacional de. Rio de Janeiro:
Tipografia de Lessa & Pereira, 1829. p. 62-112. 8 FREITAS, 1985, p. 92-226.

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promovida pelo futuro marquês de Pombal – dentre as quais se assomam a No início do século XIX, o café começou a se firmar ao longo do
mudança da sede do vice-reinado para o Rio de Janeiro e os esforços para Caminho Novo da Piedade, sempre combinado com outras atividades
dinamizar a agricultura escravista da América portuguesa por meio do estí- como a produção de açúcar, de aguardente e de mantimentos, ou a cria-
mulo a novos produtos e à ocupação de áreas despovoadas – trouxe grandes ção de animais.11 O estabelecimento da família real portuguesa no Rio de
implicações para a história de Santa Cruz, transformada em patrimônio da Janeiro, em 1808, trouxe um renovado impulso para a cafeicultura e demais
Coroa de Portugal. No período pombalino, verificou-se uma concessão mais atividades econômicas, seja pelo simples aumento da demanda urbana, seja
sistemática de sesmarias em terras de serra acima da fazenda, iniciando-se, pelo incremento do fluxo de capitais, abertura de novas vias e intensificação
para todos os efeitos, o processo de privatização do antigo domínio inaciano. do tráfico negreiro transatlântico.12 Todas essas transformações se articula-
Afora o entorno do Caminho Novo da Piedade, foram concedidas, a par- ram diretamente à organização espacial da fazenda de Santa Cruz, tanto na
tir de 1764, várias sesmarias na calha do rio Piraí, um afluente da margem baixada quanto na serra. Se modificações importantes, como a montagem
direita do Paraíba, logo transformada em zona de fricção com os índios, que, e o posterior leilão dos engenhos de Itaguaí e Piaí (adquiridos, em 1806,
contudo, não demorariam a ficar confinados à margem esquerda.9 pelo grande traficante de escravos Antonio Gomes Barroso), antecederam
Nesse meio tempo, a área da baixada entrava em um período de regres- a chegada da comitiva de D. João ao Rio de Janeiro, foi com sua Corte que
são econômica aguda, em decorrência da dilapidação do patrimônio pecuá- os usos da fazenda de Santa Cruz adquiriram novo sentido.13 Já em 1808,
rio por particulares, da ausência de manutenção do sistema de canais, dos o príncipe regente converteu a antiga sede jesuítica em palácio real, com
problemas com a escravaria. Na década de 1790, sucederam-se planos de amplas reformas no risco arquitetônico para adequá-la à nova função. Ao
recuperação econômica da fazenda Real, que procuraram retomar a antiga mesmo tempo em que transformava a antiga morada jesuítica em palá-
opulência pela aplicação de estratégias de gestão, muitas das quais se inspi- cio, na zona de serra acima, o príncipe regente concedia amplas sesmarias
ravam nas práticas jesuíticas. Na documentação produzida nessa ocasião, na fronteira norte da fazenda, isto é, na margem esquerda do rio Paraíba,
lemos os primeiros registros de cultivo de café nas terras da fazenda real,
território indígena que estava sendo “clareado” com o estabelecimento de
mas, em uma data tardia como 1804, o terreno de serra acima formalmente
aldeamentos em futuras terras da vila de Valença e com o fim definitivo da
pertencente à Coroa (mesmo que com a presença de sesmeiros e posseiros)
política de “zonas proibidas”.14 Adotou-se, com essas concessões, um novo
ainda era descrito como “mais inculto, e em parte mais fragoso, [...], dila-
padrão: seguindo as normativas do alvará de 5 de outubro de 1795 – que
tando-se ao ocidente para o sertão da Paraíba do Sul, onde confina com seis
estipulavam a obrigatoriedade de demarcação e medição prévia das terras
léguas ainda não reconhecidas completamente, e nem tão pouco demarca-
a serem dadas em sesmarias, confirmadas por alvará firmado já no Rio de
das.” Essas terras, no entanto, muito prometiam caso fossem solucionados
Janeiro –, em 25 de janeiro de 1809, o terreno além-Paraíba foi mapeado
os problemas relativos ao acesso:
sendo também esta segunda parte de admirável qualidade, fertilíssima, e espe- de recuperação da fazenda em fins do século XVIII, ver ENGEMANN, Carlos; RODRIGUES, Cláudia;
cial: porque oferece nos seus produtos ao agricultor cento por um: tem con- AMANTINO, Márcia. Os jesuítas e a Ilustração na administração de Manoel Martins do Couto Reis da
tudo o defeito de serem mais demorados os transportes, ainda que poderão Real Fazenda de Santa Cruz (Rio de Janeiro, 1793-1804). In: ENGEMANN, Carlos; AMANTINO, Marcia
(Org.). Santa Cruz: de legado dos jesuítas a pérola da Coroa. Rio de Janeiro: Eduerj, 2013. p. 291-314.
melhorar à medida do tempo da indústria da crescida população, dos interes-
11 Esse processo é bem documentado pelas listas nominativas de habitantes compostas para a capita-
ses, e comércio.10
nia de São Paulo. Ver, dentre outros, MOTTA, José Flávio. Corpos escravos, vontades livres: posse de
cativos e família escrava em Bananal (1801-1829). São Paulo: Annablume: Fapesp, 1999. p. 109-126; e
9 Para o impacto geral da política de fomento ilustrada pós-1763 sobre a zona da fazenda de Santa LUNA, Francisco Vidal; KLEIN, Herbert S. Evolução da sociedade e economia escravista de São Paulo,
Cruz, ver SANCHES, Marcos Guimarães. Sertão e fazenda: ocupação e transformação da serra de 1750 a 1850. São Paulo: Edusp, 2005. p. 81-106.
fluminense entre 1750 e 1820. RIHGB, v. 151, n. 366, p. 16-41, jan.-mar. 1990; sobre as sesmarias,
12 Sobre a questão, ver o capítulo 1 deste livro.
FRIDMAN, 2001-2002, p. 315; sobre os índios, LEMOS, 2004, p. 37-43.
10 REYS, Manoel Martins do Couto. Memórias de Santa Cruz: seu estabelecimento e economia primi- 13 FREITAS, Benedicto. Santa Cruz: fazenda jesuítica, real, imperial – vice-reis e reinado, 1760-1821.
tiva – seus sucessos mais notáveis, continuados do tempo da extinção dos denominados jesuítas, Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1987a. v. 2 de 3.
seus fundadores, até o ano de 1804. RIHGB, v. 17, p. 143-144, abr. 1843. Para uma análise desses planos 14 Sobre a política de aldeamentos dos coroados, ver LEMOS, 2004, e MACHADO, 2010.

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antes de ser distribuído (imagem 3). Poderosos traficantes de escravos com Na futura província do Rio de Janeiro, a primeira zona de produção
amplo trânsito na burocracia joanina, capazes de arrematar os lucrativos cafeeira em larga escala foi exatamente a que se estruturou em torno da
contratos da Coroa, como os Faro, e gente pioneira na ocupação da região Estrada Geral de São Paulo, em São João Marcos e Piraí, na década de 1810.
de Piraí, como os Gonçalves Moraes, foram agraciados com mais de uma Somente nas décadas de 1820 e 1830 é que o café se firmaria em Vassouras
sesmaria nessa zona quadriculada.15 e Valença.16 É o que estava ocorrendo na propriedade em tela, a fazenda
Olaria, situada no Caminho Novo da Piedade, fomentada por Hilário
Gomes Nogueira em sesmaria comprada em 1801. Hilário era natural de
Baependi, Minas Gerais; produtor de mantimentos para o mercado interno
e envolvido no comando de tropas de mulas, deslocou-se para a fronteira
das capitanias de São Paulo e Rio de Janeiro na virada do século XVIII para o
XIX. Em 1807, foi um dos signatários da petição demandando a fundação da
vila de São João do Príncipe, atendida por D. João em 1813, período em que
obteve mais sesmarias na região. Entre essa data e seu falecimento, em 1824,
foi um dos grandes traficantes de escravos locais, com constantes compras
de africanos na praça do Rio de Janeiro para vendê-los serra acima. Hilário
era primo de Manuel Jacinto Nogueira da Gama, futuro visconde e marquês
de Baependi (títulos recebidos em 1824 e 1826), igualmente proprietário de
terras e escravos no Médio Vale do Paraíba, na região de Valença, e, assim
como o parente, figura proeminente no Primeiro Reinado.17
Imagem 3: detalhe da imagem 1
As trajetórias dos Gomes Nogueira, dos Pereira Faro, dos Gonçalves de
Esse duplo processo de transformação, da fazenda de Santa Cruz e de Moraes e de outros núcleos familiares envolvidos com negócios cafeeiros,
seu entorno de serra acima, pode ser acompanhado pela chamada “missão demonstram a dimensão molecular do complexo processo de formação da
austríaca” de 1817. Amplas reformas no palácio foram concebidas para o nova classe senhorial brasileira e de suas relações com a independência do
casamento do príncipe D. Pedro com a princesa Leopoldina. A chegada país. A montagem da cafeicultura no Vale do Paraíba envolveu tanto um
dessa última foi precedida pela missão científica da qual fez parte o artista movimento “serra acima”, isto é, de grandes negociantes (traficantes tran-
Thomas Ender, que percorreu a Estrada Geral de São Paulo em toda sua satlânticos de escravos, em especial) e de burocratas da praça do Rio de
extensão. No fantástico conjunto de desenhos a lápis que Ender produziu, Janeiro que aplicaram seus vultosos capitais na nova atividade econômica,
temos o que talvez seja o primeiro documento visual a respeito da intro- como um movimento “serra abaixo”, isto é, de produtores de mantimentos
dução da cafeicultura escravista no Vale do Paraíba, a imagem intitulada e tropeiros do Sul de Minas Gerais que desceram a Serra da Mantiqueira
Plantação de açúcar e de café do Hilário [Gomes Nogueira], a meia milha de para investir em uma atividade muito mais rentável, voltada ao mercado
São João Marcos e a 22 milhas do Rio de Janeiro. mundial, do que suas operações no mercado interno.18 Se o movimento
16 SANCHES, 1990, p. 44-56.
15 Sobre os alvarás de 1795 e 1809, ver MOTTA, M., 2008, p. 133-134; e SILVA, Ligia Osório. Terras
devolutas e latifúndio: efeitos da Lei de 1850. Campinas: Ed. Unicamp, 1996. p. 70; sobre as sesma- 17 A respeito de Hilário Gomes Nogueira e seus negócios, ver SCHNOOR, Eduardo. Na penumbra: o
rias concedidas além-Paraíba, Fridman, “Do chão religioso à terra privada”, p.316; sobre os Faro, entrelace de negócios e famílias (Vale do Paraíba, 1770-1840). 2005. Tese (Doutorado em História)
ver GORENSTEIN, Riva. Comércio e política: o enraizamento de interesses mercantis portugueses – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de Sâo Paulo, São Paulo, 2005.
no Rio de Janeiro (1808-1830). In: MARTINHO, Lenira Menezes; GORENSTEN, Riva. Negociantes e p. 19, passim.
caixeiros na sociedade da Independência. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Trabalho e Emprego 18 Para o movimento serra acima, ver FRAGOSO, 1992; para o movimento serra abaixo, ver LENHARO,
– Prefeitura do Rio de Janeiro, 1992. p. 150-186. 1992. Ver, a respeito, os capítulos 1 e 7 deste livro, bem como o artigo de MARQUESE, Rafael. As

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“serra cima” foi, em larga medida, mas não exclusivamente, decorrente da O projeto de independência capitaneado por D. Pedro, enfim, contou
vinda da Corte para o Brasil, o movimento de “serra abaixo” obedecia a com o suporte decisivo de uma série de agentes econômicos que operavam
influxos mais antigos de expansão e povoamento, originários da ampliação na zona compreendida pela antiga fazenda de Santa Cruz, tanto na Baixada
e diversificação da economia mineradora, principalmente em sua fase de como na Serra: grandes traficantes e negociantes, como Antonio Gomes
declínio a partir da segunda metade do século XVIII.19 Quando da necessi- Barroso e Joaquim José Pereira de Faro, bem como o crescente de proprie-
dade de costurar uma ampla base de apoio para seu projeto político contra tários escravistas que estavam abrindo fazendas ao longo do Caminho Novo
as determinações das Cortes de Lisboa, o príncipe regente D. Pedro se fiou da Piedade e nas terras serra acima que haviam pertencido a Santa Cruz
nessas amplas redes de negócio e de família que articulavam as províncias – os irmãos Breves, José Gonçalves de Moraes, Hilário Gomes Nogueira,
de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e que tinham na zona oci- Brás de Oliveira Arruda, dentre outros. O Escudo de Armas do Brasil, esta-
dental do Vale do Paraíba um de seus principais loci. Em abril de 1821, no belecido em 18 de setembro de 1822, logo após a viagem de D. Pedro pelo
episódio crucial da Assembleia na Praça do Comércio, Joaquim José Pereira Caminho Novo da Piedade, pode ser tomado como um reconhecimento
do Faro, sesmeiro e cafeicultor em Piraí e Valença, fora eleito para a Junta do peso crescente do café para a economia do império recém-fundado. O
Provisional que auxiliaria o regente na inspeção dos atos dos Ministros de ramo de tabaco, um dos principais produtos da área de Baependi, no sul de
Estado indicados por Lisboa. Algo semelhante pode ser observado na via- Minas, por sua vez, expressava a via especificamente interiorana na forma-
gem realizada em março/abril de 1822 para Minas Gerais e, em especial, na ção desse complexo socioeconômico que estava na base do novo império.
viagem de agosto/setembro para São Paulo. A passagem de D. Pedro pelo
Vale do Paraíba foi calculada com o objetivo de obter o suporte de todos o tombo de 1827 e a reação dos fazendeiros
os potentados em ascensão, que, com seus filhos, formaram a Guarda de
Honra do príncipe regente – o que incluía os irmãos Breves.20 O palácio da fazenda de Santa Cruz era o preferido do primeiro imperador
do Brasil. Desde sua adolescência, quando seu pai havia modificado os usos
desventuras de um conceito: capitalismo histórico e a historiografia sobre a escravidão brasileira. dados àquele espaço pelos jesuítas e pelos administradores coloniais que se
Revista de História, São Paulo: USP, p. 223-254, 2. sem. 2013. seguiram à expulsão da ordem, D. Pedro tinha por costume realizar longas
19 Esses dois movimentos se retroalimentaram e antecederam a vinda da Corte para o Rio de Janeiro. estadias na fazenda. Entre 1826 e 1828, procedeu a uma ampla reforma da
Toda a região do sul de Minas, principalmente a Comarca do Rio das Mortes, em torno de São João
del Rei, com irradiações pela Zona da Mata e pelo Vale do Paraíba, foi irrigada pela produção de fachada e da arquitetura interna do palácio, sob o encargo do engenheiro
gêneros de abastecimento (grãos, carnes, queijos, aguardente, entre outros), através de caminhos e militar francês José Pezerat, que lhe conferiu as feições neoclássicas obser-
estradas locais, percorridos por tropas de muares, que visavam tanto a própria zona de mineração
váveis na parte direita do mapa de Niemeyer (Imagem 1). Naquela altura, o
quanto a cidade do Rio de Janeiro. Esta, por sua vez, era o grande centro fornecedor de cativos para o
interior, tanto para as minas quanto para a zona de abastecimento. Caio Prado Júnior, em Formação superintendente da fazenda imperial de Santa Cruz era Boaventura Delfim
do Brasil contemporâneo. (São Paulo: Brasilense, 1969. 1. ed. 1942), já havia chamado a atenção para Pereira, barão de Sorocaba, título recebido em 12 de dezembro de 1826.
a formação e a força dessa economia mercantil de abastecimento. Cf. LENHARO, 1992, p. 60-61, que
salienta a contribuição pioneira do historiador paulista. Além da região mineradora, em torno do Delfim Pereira fora nomeado para administrar a propriedade nacional em
eixo Rio de Janeiro/São João del Rei gravitavam o sul da colônia portuguesa, o interior paulista, toda 21 de abril de 1824, pouco após D. Pedro I ter um caso com sua esposa,
a zona da Baixada Campista no Rio de Janeiro, indiretamente, Bahia e Pernambuco, e todo o comér-
cio de escravos com a costa ocidental da África, principalmente em sua zona central (cf. FRAGOSO,
Maria Benedita de Castro Canto e Melo, irmã de Domitila de Castro Canto
1992). Na verdade, foram essas condições socioeconômicas mais amplas que, em parte, propiciaram e Melo, a futura marquesa de Santos (também em 12 de dezembro de 1826).21
a vinda da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, que, por sua vez, fortaleceu, expandiu e consoli-
dou o papel do Rio de Janeiro e do centro-sul no Império português. de Janeiro: J. Olympio, 1972, e Id. D. Pedro: jornada a Minas Gerais em 1822. Rio de Janeiro: J. Olympio,
20 Sobre a Assembleia da Praça do Comércio, ver SOUSA, Octávio Tarquínio de. História dos fundadores 1973; SCHNOOR, 2005; BITTENCOURT, Vera Lúcia Nagib. Bases territoriais e ganhos compartilhados:
do Império do Brasil: a vida de D. Pedro I. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. t I de III, v. II, p. 237- articulações políticas e projeto monárquico-constitucional. In: MARSON, Izabel; OLIVEIRA, Cecília H.
238, 285-286; e OLIVEIRA, Cecília Helena de Salles. Imbricações entre política e negócios: os conflitos L. de S. (Org.). Monarquia, liberalismo e negócios no Brasil: 1780-1860, p. 139-166.
na Praça do Comércio do Rio de Janeiro, em 1821. In: MARSON, Izabel; OLIVEIRA, Cecília H. L. de 21 As relações entre o affair de D. Pedro com Maria Benedita, cuja filha com o imperador nasceu em
S. (Org.). Monarquia, liberalismo e negócios no Brasil: 1780-1860. São Paulo: Edusp, 2013. p. 69-107. novembro de 1824, e a nomeação de Delfim Pereira para Santa Cruz, em abril daquele ano, foram
Sobre as viagens de D. Pedro, ver BARREIROS, Eduardo Canabrava. Itinerário da Independência. Rio estabelecidas por SOUSA, Octávio Tarquínio de. História dos fundadores do Império do Brasil: a vida

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Durante a administração de Delfim Pereira, a lua de mel entre D. Pedro I de julho de 1824, afirmou que a medição de 1731 ainda era válida, sendo des-
e os fazendeiros de serra acima azedou. A questão fundiária na fazenda de necessário, portanto, a confecção de um novo mapa da propriedade, como
Santa Cruz esteve no centro dessa virada. A conjuntura era amplamente advogava o desembargador procurador da Fazenda Nacional, José Joaquim
favorável ao crescimento da atividade cafeeira, e esses fazendeiros vinham Nabuco de Araújo. Em 2 de setembro de 1824, o imperador demonstrou
promovendo uma forte expansão de seus investimentos em terras e escra- aparente concordância com o parecer do Conselho. Poucos meses depois,
vos na área. A delimitação das propriedades, nestas circunstâncias, ganhou, no entanto, ocorreu uma grande reviravolta: noticiou-se, em 28 de fevereiro
então, uma relevância que não tinha tido até aquele momento. de 1825, que os originais do Tombo de 1731, ao serem transportados do palá-
Desde a expulsão dos jesuítas, havia uma imprecisão quanto aos fun- cio de Santa Cruz para o palácio de São Cristóvão, haviam sido roubados em
dos territoriais da fazenda. Uma medição iniciada em 1783 fora suspensa Campo Grande, por marginais de beira de estrada. Instaurado o inquérito,
em 1784, retomada em 1787, e considerada inválida em 1814. Por Decreto nada se apurou. Diante do sumiço dos originais, o que restava fazer senão
de 10 de outubro de 1820, D. João VI mandou que se fizesse nova medição proceder a uma nova medição? Era o que Delfim Pereira vinha advogando
e demarcação do Tombo da propriedade, aviventando os marcos da medi- desde que se tornara superintendente de Santa Cruz em 1824, e que a ban-
ção jesuítica de 1731. A necessidade de corrigir ou sanar as imprecisões, didagem miúda tornara necessidade com o assalto de fevereiro de 1825. Mas
atualizando o conhecimento exato do que realmente pertencia à Coroa, era havia bandidagem graúda nessa história: um mês após o 7 de abril de 1831,
evidente. Desde 1808, houvera um processo de amplas concessões de ses- quando D. Pedro I foi forçado à renunciar ao Império do Brasil em nome de
marias serra acima, precedidas pelas sesmarias concedidas, após 1763, ao seu filho, foram encontrados em seu gabinete os originais do Tombo de 1731,
longo do Caminho Novo da Piedade e na calha do rio Piraí. Como vimos, os mesmos que teriam sido furtados seis anos antes.22
essa onda de concessão de sesmarias e de ocupação territorial expressava o Imperador envolvido em adultérios, filhos fora do casamento, assaltos
aquecimento da economia colonial na hinterlândia carioca que vinha ocor- fajutos: dias animados, esses do Primeiro Reinado. A despeito de, desde
rendo desde fins do século XVIII. Foi essa aceleração e seu correspondente 1822, haver cópia do Tombo original feita pelo tabelião Caetano de Oliveira
adensamento social, com a formação de uma camada social superior de Gusmão, Delfim Pereira – sempre com a anuência, ainda que não explícita,
grandes comerciantes, traficantes e proprietários escravistas, que deu sus- de D. Pedro I – tocou adiante o novo processo de medição, que tampouco foi
tentação ao estabelecimento da Corte portuguesa no Rio de Janeiro, e não tranquilo. No meio da tarefa, quando os pilotos preparavam-se para iniciar
na Bahia. No reverso da medalha, o evento de 1808 aprofundou o processo a medição serra acima, o engenheiro militar César Cadolino recusou-se a
de fortalecimento desse novo grupo social dominante. A Independência do incluir nos fundos da fazenda imperial as terras do antigo sesmeiro Manoel
Brasil, em 1822, capitaneada pelo príncipe português e sustentada, mate- Pereira Ramos, confinante dos jesuítas em 1731. Consequência: foi demitido
rial e socialmente, pelos grandes proprietários, comerciantes e traficantes pelo novo barão de Sorocaba. Em 24 de julho de 1827, o superintendente,
fluminenses, mineiros e paulistas, aparentemente representou o ponto de não obstante pequenos percalços como esse, deu a medição por concluída. O
chegada de todo esse processo. No entanto, mais correto seria considerá-la importante a registrar é que, com este novo mapeamento, a fazenda imperial
como o ponto de partida da consolidação de uma nova classe senhorial. de Santa Cruz avançara bastante para a margem esquerda do rio Paraíba,
Em 19 de dezembro de 1823, D. Pedro I suspendeu a medição das ses- passando a englobar praticamente toda a calha do rio Piraí (Imagem 4).
marias concedidas em anos anteriores que se acreditava estarem dentro da
fazenda de Santa Cruz, até a feitura do novo Tombo determinado pelo Decreto
de outubro de 1820. O Conselho de Fazenda do Império, em consulta de 5

de D. Pedro I, t. II, p. 612-613. Sobre Delfim Pereira à frente de Santa Cruz, ver FREITAS, Benedicto. 22 Para todo o episódio da confecção do Tombo de 1827, ver os ótimos esclarecimentos de Antonio Keating
Santa Cruz: fazenda jesuítica, real, imperial – Império, 1822-1889. Rio de Janeiro: Edição do Autor, inseridos em FREITAS, 1987b, p. 213-217. A notícia sobre os originais do Tombo de 1731 encontrados no
1987b. v. 3 de 3, p. 125-129. gabinete de D. Pedro I, em maio de 1831, pode ser lida em A Verdade, 19 de Outubro de 1833, p. 1-2.

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Imagem 4: Mapa da medição de 1827. In: O TOMBO ou cópia fiel da medida e demarcação da Fazenda
Nacional de Santa Cruz, e possuída pelos padres da Companhia de Jesus, por cuja extinção passou.
Rio de Janeiro: Tipografia de Lessa & Pereira, 1829. Em cinza, terras na calha do Piraí. (círculo preto) e
na margem esquerda do Paraíba (círculo branco). (Acervo: Fundação Biblioteca Nacional, Brasil)

Vejamos, com uma notação nossa feita no mapa de Niemeyer


(Imagem 5), quais eram as implicações desta nova medição para a configu-
ração fundiária do Vale do Paraíba: em preto, vemos o que eram os fundos
da fazenda quando Niemeyer foi seu superintendente, em 1848; em ponti-
Imagem 5: detalhe da Imagem 1
lhado, a área do mapeamento jesuítico de 1731; em branco, o que resultou
da medição promovida por Delfim Pereira em 1827. De um momento para Para chegar ao que Niemeyer cartografou em 1848, os fazendeiros do
outro, muitas das sesmarias concedidas entre 1763 e 1822 passariam a fazer Vale do Paraíba tiveram que agir politicamente, o que fizeram assim que se
parte da fazenda de Santa Cruz e, portanto, estariam compelidas a pagar tornou público o resultado da medição de 1827. A dianteira foi tomada pela
foros, ou, no limite, a serem restituídas, haja vista a suspensão do estatuto imprensa liberal, já em franca campanha de oposição a D. Pedro I. Em 11 de
das sesmarias em 1822. agosto de 1828, o jornal Astréa afirmava que

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uma questão de grande importância, e em que se acha comprometida a pro- portanto, era o caráter da prática do exercício do poder por D. Pedro I, ou
priedade de muitos cidadãos, qual tem sido a da nova medição da nacional seja, se ela era efetivamente constitucional ou se, ao contrário, expressava
Fazenda de Santa Cruz, merece que dela se dê informação ao público, para um conteúdo marcadamente absolutista. Para o conjunto dos fazendeiros
que consultando o que aqui se refere, e os Documentos que irão aparecendo
pelos tipos, façam juízo de uma atroz injustiça, em que parecem calcar-se a de Piraí, o tratado ratificado em 1827 com a Grã-Bretanha era uma calami-
equidade a Constituição, e as Leis com escândalo, e prepotência. dade, tendo-se em conta a necessidade incessante de mais escravos para
responder à bonança cafeeira. Para alguns deles, a matéria do tráfico era
Com essas palavras, anunciava-se que o combate se daria em torno ainda mais sensível. Naqueles anos, por exemplo, os irmãos Breves já se
dos limites da ordem constitucional da novíssima monarquia brasileira. destacavam por seus negócios negreiros transatlânticos.25
Toda a sequência de publicações nos meses seguintes repisou esse ponto, Diante das negativas dos porta-vozes da Coroa de que nada havia sido
salientando as irregularidades da medição de 1827, sua ausência de amparo feito de ilegal em vista do roubo da documentação de 1731, o que impusera
legal ao negar validade aos títulos de sesmaria há muito sancionados pelos a necessidade de uma nova medição, os fazendeiros – com o auxílio da
reis de Portugal e regularmente exploradas, com atividades agrícolas, pelos pena do “Zelador do Direito de Propriedade”, autor anônimo responsável
seus donos, e o quanto ela afrontava a carta outorgada em 1824 ao atacar os por grande parte dos textos que apareceram na imprensa em 1828 e 1829 –
direitos de propriedade dos fazendeiros.23 deram um passo ousado em dezembro de 1829, mandando imprimir um
É importante lembrar que a erosão do capital político de D. Pedro I com grosso volume com a transcrição completa do levantamento jesuítico do
os fazendeiros do Vale do Paraíba vinha, pelo menos, desde junho de 1827, século XVIII, com os mapas demonstrativos daquela medição, contrasta-
quando a convenção antitráfico assinada com a Grã-Bretanha em novem- dos com o mapa da medição de 1827 (Imagem 4) promovida por Delfim
bro de 1826 chegara à Câmara dos Deputados. Para além das substantivas Pereira – que, aliás, falecera há pouco, em março daquele ano. Ou seja, o
defesas do tráfico negreiro e da escravidão como forma de inscrição positiva documento dos inacianos existia, estava disponível em cópia nos cartórios
do Brasil no concerto das nações modernas, a linha de frente pró-escravista do Rio de Janeiro, e vinha à luz para esclarecer a chamada “opinião pública”.
da Câmara valeu-se da discussão sobre a natureza do regime constitucional O mais importante, no entanto, não era tanto o Tombo de 1731, e sim as
em construção para questionar o acordo que D. Pedro I firmara com os representações “à Nação” que lhe foram acrescentadas.26
britânicos. Em pauta, o equilíbrio dos poderes e a natureza da responsa- A que abria o volume, de 20 de novembro de 1829, era assinada pelo
bilidade ministerial sobre assuntos que feriam a independência nacional, “Zelador”, e sumariava os argumentos esgrimidos em mais de um ano de
tendo em vista que a pessoa do imperador, conforme a carta que ele pró- campanha na imprensa. Na avaliação dos fazendeiros, o impulso imperial
prio outorgara em 1824, era inviolável. Abdicar da soberania brasileira em para a nova medição resultara diretamente do sucesso econômico da ativi-
matéria tão sensível para a viabilidade econômica do Império, como era o dade cafeeira:
tráfico transatlântico de escravos, por uma medida exclusiva do Executivo,
a nossa indústria, e desvelado trabalho de tantos anos, à custa de imenso dis-
sem que ela passasse pelo crivo do Poder Legislativo, representava, para os pêndio, e fadigas, fora abençoado pela Providência; mas suscitou a cobiça desses
deputados pró-escravistas, a corrupção do princípio constitucional elemen- homens, já de longe afeitos a sangrar os Povos, para com seus despojos irem
tar de equilíbrio de poderes.24 Tal como nas vindicativas da imprensa liberal negociar aos pés do Trono, e à face da Nação, iludindo a um, e oprimindo a outra.
em torno da medição da fazenda de Santa Cruz, o que estava em debate,
25 LOURENÇO, Thiago C. P. Os Souza Breves e o tráfico ilegal de africanos no litoral sul fluminense.
23 Dentre a pesada campanha da imprensa liberal em torno da querela da fazenda Santa Cruz, ver os In: MATTOS, Hebe (Org.). Diáspora negra e lugares de memória: a história oculta das propriedades
artigos em Aurora Fluminense, 13 e 27 de agosto, 1 e 29 de setembro, e 3 de outubro de 1828; Astréa, voltadas para o tráfico clandestino de escravos no Brasil imperial. Niterói: Eduff, 2013. p. 11.
27 de setembro de 1828; Astro de Minas, 18 de setembro de 1828; A Malagueta, 13 de janeiro, 6 de 26 Salvo engano nosso, Affonso Taunay, (História do café no Brasil. Rio de Janeiro: DNC, 1939. v. 5 de 15,
fevereiro e 28 de abril de 1829. p. 257-259), foi o primeiro a chamar a atenção para esse documento importantíssimo para a história
24 PARRON, Tâmis. A política da escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. Rio de Janeiro: Civilização do café no Primeiro Reinado. Sanches, Sertão e fazenda, e Fridman, Do chão religioso à terra pri-
Brasileira, 2011, p. 64-80. vada, também dele se utilizaram, mas em uma chave de leitura distinta da que apresentamos aqui.

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Pelo que se pode notar na última oração, a representação modulava de Piraí; Antonio Gonçalves de Moraes, primogênito do barão de Piraí,
com cuidado o ataque a D. Pedro I, manejando o velho topos do desconhe- casado com uma das filhas de Mambucaba; padre Joaquim José Gonçalves
cimento do monarca em relação ao que era feito em seu nome. Parece claro de Moraes, irmão do barão de Piraí; capitão-mor José de Souza Breves,
que o grupo em nome do qual o “Zelador” falava pretendia deixar uma linha primo de Mambucaba, pai de um filho homônimo e de Joaquim José de
de escape para o imperador, que não era diretamente responsabilizado pelo Souza Breves, os dois últimos casados com filhas do barão do Piraí, e donos,
que ocorria. Nesse contexto, contudo, em que a vida pessoal questionável do na segunda metade do século XIX, de uma das maiores – senão a maior –
imperador era alvo constante da oposição liberal, atacar Delfim Pereira não escravarias do Império do Brasil.29 Como se vê, um grupo coeso, poderoso,
poderia deixar de ser lido pelos coevos como um ataque – mesmo que indi- que tivera papel importante no momento da costura da independência do
reto – a D. Pedro I. A artilharia por vias tortas contra o imperador também Brasil, e que vinha cobrar a fatura de seu apoio anterior a D. Pedro I, “espe-
procurou se valer da carta por ele outorgada em 1824. A atuação da oposição rando benigno acolhimento à presente suplica, de que não pouco depende
apresentava-se como um esforço genuíno, patriótico, de fortalecimento da o crédito do Governo Imperial”. Essas figuras de proa do senhoriato de Piraí
ordem liberal no Brasil. “Os abusos do Poder Judiciário tem sido o nosso fla- puxaram um abaixo assinado no qual constavam 168 proprietários, que, em
gelo, e o Poder Executivo até agora surdo aos nossos ais”: o que mais sobrava conjunto, possuíam 6.309 escravos e produziam 173.820 arrobas de café.
aos fazendeiros senão recorrer ao Poder Legislativo e à “Opinião Pública, Para não caber dúvidas em nome de que poder efetivo falavam os signatá-
esse Poder sobre-Soberano, que mais tarde ou mais cedo se faz obedecer, rios da Representação, para cada proprietário, identificava-se o número de
aplicando já a censura, já o desprezo, e a infâmia, e afinal as penas legais”?27 escravos e as arrobas de café produzidas. Joaquim Pereira de Sousa Faro e
A carga mais pesada veio com as representações inseridas ao final do seus filhos eram os que possuíam o maior número de escravos, 540, produ-
volume. No que se refere à argumentação, nada de novo em relação ao que zindo 10.000 arrobas de café. Eram seguidos por José Gonçalves de Moraes
aparecera na imprensa entre agosto de 1828 e novembro de 1829, e que fora e companhia, com 400 cativos e, igualmente, 10.000 arrobas de café. Ao
sumariado na abertura do volume. O ponto chave estava na identificação de
todo, os 15 proprietários com cem ou mais escravos, isto é, 9% dos assinan-
quais eram os agentes diretamente interessados na matéria.
tes, tinham 2.900, ou 42%, do total de cativos e produziam 74.200 arrobas
SENHOR = O Sargento Mor José Luiz Gomes, O Coronel José Gonçalves de de café, 43% do total. Oitenta e oito signatários, 52% do total, tinham entre
Moraes por si, e seus filhos, o Coronel Joaquim José Pereira do Faro por si, e um e 19 escravos. Os 65 fazendeiros restantes, 39%, tinham entre 20 e 99
seus filhos, o Capitão Mor José de Souza Breves, O Capitão Antônio Gonçalves escravos. Esses dados mostram que a propriedade escravista da cafeicultura
de Moraes, o Reverendo Joaquim José Gonçalves de Moraes, o Capitão Manoel
Thomás da Silva, o Capitão Joaquim Gomes de Souza, o Padre Gonçalves de
nascente já vinha ao mundo concentrada e, ao mesmo tempo, difundida.30
Moraes, Francisco Luís Gomes, Antônio Esteves de Magalhães Pusso, José Tal peculiaridade, e sua importância para a conformação da classe
Correia Porto, Joaquim Antônio de Oliveira, e outros, fundados no §.30.do senhorial em seu domínio direto sobre terras e homens, mas também em
art. 179 da Constituição, e bem assim no art. 99, vêm à Presença Augusta de sua relação com o poder central, era evidente na estratégia de quem assinou
V.M.I., esperando benigno acolhimento à presente súplica, de que não pouco
a representação. Tanto grandes quanto pequenos o fizeram, mas os primeiros
depende o crédito do governo Imperial, pois que a nação inteira espera ansiosa
o resultado da luta entre os Suplicantes e alguns Agentes do poder que nela 29 Sobre os entrelaces familiares e breves informações biográficas desses fazendeiros, ver ALEGRIO,
comprometem a glória de Vossa Majestade Imperial, julgando fazer serviços.28 Leila Vilela. O café no Vale do Paraíba fluminense no século XIX: terras, fazendas, plantações, comér-
cio e famílias. Rio de Janeiro: Centro do Comércio de Café do Rio de Janeiro, 2008. p. 29-44.
Coronel Joaquim José Pereira do Faro, primeiro barão do Rio Bonito, 30 Veja-se, para efeitos de comparação, as trajetórias congruentes de Vassouras e Bananal, estudadas res-
que já vimos atuando no processo de independência; José Luiz Gomes, pectivamente por SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX – senhores e escra-
vos no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008; MORENO, Breno Aparecido
futuro barão de Mambucaba; José Gonçalves de Moraes, em breve barão Servidone. Demografia e trabalho escravo nas propriedades rurais cafeeiras de Bananal, 1830-1860.
2013. Dissertação (Mestrado História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,
27 O TOMBO ou cópia fiel da medição, e demarcação da Fazenda Nacional de Santa Cruz..., p. i-xiii.. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. São necessárias pesquisas sobre o assunto, mas pode-se
28 Ibid., p. 129. aventar que a propriedade escrava em Piraí nasceu mais concentrada do que em Bananal e Vassouras.

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encabeçaram a lista e foram salientados com as marcas de asterisco. Esses assim em propriedade plena de seus donos anteriores, justamente os que
signatários adotaram uma estratégia de demonstração explícita de riqueza haviam puxado a representação de 1828.32
e poder. Dentro do quadro periclitante das finanças do Primeiro Reinado e Aprovado no final do ano legislativo, o Decreto de novembro foi
da quase que exclusiva dependência dos recursos obtidos com as taxas sobre expressão cabal da corrosão do poder de D. Pedro I e, portanto, do processo
a exportação para mantê-las de pé, os dados relativos ao volume da produ- que em poucos meses levaria à sua queda. Ele deve ser lido de modo con-
ção cafeeira eram uma referência direta da importância crescente do Vale do junto com o envolvimento do imperador com a questão dinástica portu-
Paraíba para o Império, no exato momento em que seu comandante havia guesa, com a derrota na Cisplatina, mas, sobretudo, com seus choques com
rifado o acesso irrestrito de seus fazendeiros à força de trabalho africana. O a Assembleia Geral, nos quais a questão do encerramento do tráfico transa-
artigo 99 da Constituição de 1824, citado no trecho, rezava que “a Pessoa do tlântico negreiro e a afirmação da soberania nacional brasileira ocuparam
Imperador é inviolável, e Sagrada: Ele não está sujeito a responsabilidade papel central. O imbróglio de Santa Cruz, em realidade, representou a outra
alguma.” Daí a estratégia de fustigá-lo pelo ataque indireto a seus prepostos, face da luta dos senhores de escravos contra o imperador que colocara em
por meio de representações endereçadas à Câmara dos Deputados, conforme risco a reprodução de sua força de trabalho. O evento de 25 de novembro
rezava o parágrafo 30 do artigo 179, também citado: “todo o Cidadão poderá de 1830 marcou uma espécie de “desforra” dos fazendeiros, que viam seus
apresentar por escrito ao Poder Legislativo, e ao Executivo reclamações, quei- interesses diretamente ameaçados pela iminente extinção do tráfico inter-
xas, ou petições, e até expor qualquer infração da Constituição, requerendo nacional, em relação a D. Pedro. O imperador tentou, com a medida, recu-
perante a competente Autoridade a efetiva responsabilidade dos infratores”.31 perar terreno, mas já era tarde. Para sintetizar nosso argumento, cremos
Quais foram os desdobramentos parlamentares da ação dos fazendei- que a questão da fazenda de Santa Cruz na década de 1820 deve entrar no
ros e dos políticos que se valeram do caso para fustigar o primeiro impera- rol dos vetores que trouxeram a queda do primeiro imperador brasileiro. E
dor do Brasil? Em 5 de outubro de 1830, Bernardo Pereira de Vasconcelos, também, uma década mais tarde, da afirmação e da consolidação no poder
um dos expoentes da oposição liberal moderada a D. Pedro I, e que muito do segundo imperador.
em breve se destacaria como o campeão do tráfico transatlântico de escra-
vos para o Brasil, apresentou à Câmara dos Deputados um projeto de lei a afirmação do poder senhorial e o mapa de 1848
que atendia por completo à representação dos fazendeiros de dois anos
antes, anulando para todos os efeitos a medição promovida por D. Pedro I Até 1837, a freguesia de Sant’Anna pertenceu ao termo da vila de São João
e Sorocaba entre 1825 e 1827. A classe senhorial do Vale do Paraíba já encon- do Príncipe. Em dezembro daquele ano, foi elevada à categoria de vila de
trara seu grande porta-voz e líder no Parlamento brasileiro. Rapidamente Piraí, com instalação definitiva em outubro do ano seguinte. Ao longo das
décadas de 1830 e 1840, os potentados que haviam se engajado na luta con-
discutido em 13 de outubro, o projeto foi aprovado com poucas alterações,
tra D. Pedro I em torno dos direitos sobre suas terras promoveram vários
sendo finalmente sancionado por um D. Pedro I então enfraquecido. O
melhoramentos na região do novo município, como a abertura e conserva-
Decreto de 25 de novembro de 1830, composto por três curtos artigos, esta-
ção de estradas e pontes e a construção da infraestrutura do espaço urbano.
belecia que a fazenda imperial de Santa Cruz compreendia “somente os
O paço da Câmara Municipal, por exemplo, foi erigido inteiramente a
terrenos em cuja efetiva e legitima posse se achava o Senhor D. Pedro I no
expensas de José Gonçalves de Moraes, José Luis Gomes, Joaquim Gomes
dia 25 de março de 1824”, isto é, no dia em que foi outorgada a Constituição
de Souza, Raymundo de Souza Breves, Silvino José da Costa, Felisberto
brasileira; todos os terrenos anexados pela medição de 1825-1827 ficavam
Ribeiro Franco, Carlos de Souza Pinto de Magalhães, Manoel Gonçalves
Vallim, José da Conceição, Antonio José de Barros Vianna, Manoel José de
31 Sobre a prática mais ampla das petições ao Parlamento no Primeiro Reinado, ver PEREIRA, Vantuil.
Ao soberano Congresso: direitos do cidadão na formação do estado imperial (1822-1831). São Paulo: 32 ANAIS DA CÂMARA DOS DEPUTADOS, [S.l.], p. 591, 5 out. 1830; Id., p. 600, 13 out. 1830; COLEÇÃO
Alameda, 2010. das Leis do Império do Brasil, 1830. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1876. p. 63.

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Barros Vianna, Domingo Pereira dos Santos e Manoel Gonçalves Pereira empresarial bastante complexa para fazer frente à pressão antitráfico bri-
– os quatro primeiros, nomes centrais das representações de 1828 e 1829. A tânica em águas africanas e brasileiras. Afora isso, os potentados de Piraí
igreja matriz, tendo sido destruída por um incêndio, foi reconstruída entre expressaram sua militância pró-tráfico nas instâncias formais de represen-
1839 e 1841 ao custo total de 48 contos de réis, para o que contou com uma tação política, apoiando e subscrevendo o conteúdo das várias petições que
comissão encarregada de levantar os fundos necessários entre os fazendei- foram endereçadas à Assembleia provincial do Rio de Janeiro e ao Parlamento
ros da região, composta por José Gonçalves de Moraes, José Luiz Gomes, imperial demandando a anulação da Lei de 7 de novembro de 1831 e a lega-
Raimundo de Souza Breves, Manoel Gonçalves Vallim, José da Silva Penna lização do tráfico transatlântico de escravos, sob o argumento de que ele era
e Francisco Marques de Moraes. Os nomes se repetem.33 imprescindível para a riqueza do Império, escorada na exportação de café.
Notável, também, a expressão social e política obtida pelo grupo após a Essa campanha teve desdobramentos práticos: em 1840, três anos após a ins-
queda de D. Pedro I. José Gonçalves de Moraes recebeu o título de barão de tituição do município, havia 11.186 escravos em Piraí, equivalendo a 64,91%
Piraí em 1841, com grandeza em 1848. Joaquim José Pereira de Faro e filhos, do total de habitantes, número que cresceu para 19.090 cativos em 1850, ou
centrais nas representações do final da década de 1820, teriam sua base de quase três quartos do total de habitantes. Em pouquíssimas regiões do Brasil
atuação política e econômica no município de Valença; Pereira Faro tornou- o desequilíbrio demográfico entre senhores e escravos chegou aos patamares
se o primeiro barão do Rio Bonito no mesmo ano em que José Gonçalves de verificados em Piraí durante a vigência do tráfico ilegal.35
Moraes recebeu seu título, em 1841. Como se vê, ambos foram agraciados Em conjunto e do ponto de vista não tão imediato e de maior alcance da
logo nos primeiros anos do Segundo Reinado. José Luiz Gomes tornou-se conformação das relações sociais e do Estado, a atuação desses fazendeiros
barão de Mambucaba em 1854. Afinado politicamente a esses potentados na esfera local, provincial e imperial assinala um momento decisivo na for-
– todos eles quadros importantes do chamado Partido da Ordem – José mação da classe senhorial, na qual eles fizeram valer sua voz em relação ao
de Souza Breves filho foi Comandante Superior da Guarda Nacional nos Estado nacional por meio de uma articulação política específica: o Regresso
municípios de Piraí e Itaguaí (1844) e deputado na Assembleia provincial conservador. Atores importantes da consolidação da hegemonia saquarema
do Rio de Janeiro em três legislaturas (1838-1843; 1844-1845; 1848-1849). Seu durante a década de 1840, os fazendeiros de Piraí foram, portanto, peças-
irmão, Joaquim José de Souza Breves, se do ponto de vista político consti- chave para a construção do desenho institucional do Segundo Reinado.
tuía exceção em vista de sua atuação nas fileiras liberais (com participação Para escoar o volume cada vez maior de café obtido com uma escra-
importante no levante de 1842), também foi por várias vezes deputado na varia em crescimento, o melhoramento das vias que serviam ao sistema de
Assembleia provincial do Rio de Janeiro (1842-1843; 1846-1847; 1848-1849), transporte baseado em mulas era imprescindível. Nesse campo, os grandes
e, em 1846, presidente da Câmara Municipal de Piraí.34 fazendeiros de Piraí contaram com o suporte técnico do engenheiro militar
Com pares de outros municípios do Vale do Paraíba, esses grandes Conrado Jacob de Niemeyer, responsável, entre 1837 e 1839, pela Primeira
fazendeiros de café foram os maiores responsáveis pela reabertura do trá- Seção da Diretoria de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro, que
fico transatlântico ilegal de escravos para o Brasil na segunda metade da abrangia todo o litoral sul e a zona ocidental do Vale do Paraíba fluminense.
década de 1830. Nesses anos, os irmãos Breves, em associação com o barão Sua trajetória e algumas de suas realizações como funcionário público gra-
de Piraí, tornaram-se eles próprios agentes negreiros, com uma organização duado, particularmente quando esteve à frente da fazenda nacional de Santa
Cruz, na década de 1840, expressam a constituição da classe dos fazendei-
33 A informação sobre a construção do Paço Municipal pode ser lida no Almanack Laemmert Provincial
do Rio de Janeiro para o ano de 1875, p. 185-186; sobre a reconstrução da matriz de Piraí, ver o Relatório ros escravistas do Centro-Sul, especialmente da região da Bacia do Paraíba
do presidente de província do Rio de Janeiro para os anos de 1840 (p. 31-32) e 1842 (p. 4).
34 Informações obtidas no Almanack Laemmert do Rio de Janeiro (Corte e província) para os anos de
1844 a 1848. Sobre a atuação política dos irmãos Breves, ver também LOURENÇO, Thiago Campos
Pessoa. O império dos Souza Breves nos oitocentos: política e escravidão nas trajetórias dos comen-
dadores José e Joaquim de Souza Breves. 2010. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade 35 Sobre os Breves como traficantes nos anos 1840, ver LOURENÇO, 2010; sobre a campanha pela rea-
Federal Fluminense, Niterói, 2010. p. 78-121. bertura do tráfico, PARRON, 2011, p. 121-252; sobre a demografia de Piraí, SALLES, 2008, p. 258-259.

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e do Médio Vale do Paraíba, em classe senhorial.36 Isto é, em uma classe Durante a segunda metade da Regência, enquanto Niemeyer traba-
nacionalmente dominante, de base territorial, assentada sobre determina- lhava na 1ª seção, a fazenda imperial de Santa Cruz foi gerida pelo coronel
das relações de produção, escravistas, e sobre uma economia, produtora Francisco Gonçalves Fernandes Pires, administrador-geral de 1834 a 1840,
de commodities para o mercado mundial capitalista, cuja dominação se e, por portaria de 30 de junho do último ano, superintendente. Em seu
reproduzia por sua interseção com o Estado imperial. período à frente da propriedade nacional, a produção de arroz foi final-
No verão de 1836-1837, as três pontes da freguesia de Sant’Anna do Piraí mente recomposta após décadas de abandono, e concluída a ala direita do
haviam sido levadas em uma grande enxurrada. Uma delas, orçada em três palácio conforme projeto de Pezerat, que também desenhou o novo edifício
contos de réis, teve metade de seus custos de reconstrução bancados por do Curtume, mais próximo das feições de um grande solar do que de um
José Gonçalves de Moraes, que puxou uma subscrição local para cobrir o local de produção. Os conflitos fundiários do Primeiro Reinado haviam se
restante dos gastos. Outra, “na porção da Estrada que de Angra conduz tornado passado após o Decreto de 25 de novembro de 1830 e a queda de
a São João do Príncipe”, também foi recomposta à custa de particulares, D. Pedro I: Fernandes Pires manteve boas relações com os foreiros, elevou
neste caso com José de Souza Breves à frente. Nas duas pontes, o técnico as rendas da fazenda, e morreu no exercício do cargo em 1 de novembro de
responsável foi Niemeyer. No ano seguinte, o futuro barão de Piraí solicitou 1846. Nessa altura, o palácio de Santa Cruz era o preferido do jovem impe-
a Niemeyer que preparasse um projeto para a construção de uma ponte rador D. Pedro II, peça essencial nas engrenagens do complexo de expres-
“suspensa de ferro” sobre o rio Paraíba na altura da ponte da Escuma, para são simbólica do poder monárquico. Sua troca por Petrópolis, cuja cidade e
ligar a fazenda de Três Saltos à sua unidade satélite do outro lado do rio, palácio começaram a ser construídos após 1844, só se deu após a morte do
além, é claro, de servir aos demais transeuntes. Conforme se lê no relatório príncipe varrão em Santa Cruz, no verão de 1850.39
provincial de 1839, “essa empresa é sem dúvida importante, atenta a largura Cinco dias após o falecimento de Fernandes Pires, Conrado Jacob de
do caudaloso Paraíba, e a afluência de tropas e passageiros, que há de trazer Niemeyer foi nomeado por D. Pedro II como novo superintendente da
o melhoramento dessa estrada, muito principalmente se a levarem até o fazenda de Santa Cruz. Nascido em Lisboa, em 1788, pertencente a uma
extremo da Província”. Ao que tudo indica, o projeto não chegou a ser reali- família de engenheiros militares alemães que se deslocara para Portugal no
zado, o que não impediu Niemeyer de continuar prestando seus serviços aos século XVIII, Niemeyer mudou-se para o Brasil em 1809. Fez parte das tro-
grandes fazendeiros de Piraí. Em 1838, ele projetou e construiu uma grande pas que combateram as revoluções pernambucanas de 1817 e 1824, e atuou
ponte sobre o rio Piraí, bancada por Raymundo de Souza Breves.37 Nesses como comandante de armas do Ceará nos anos 1820. Como vimos, entre
anos em que ocupou a diretoria da 1ª Seção de Obras Públicas, Niemeyer, 1836 e 1839 realizou numerosas obras na zona ocidental do Vale do Paraíba
além de se responsabilizar pelo estabelecimento dos limites dos municípios fluminense. Ao deixar o cargo, o conhecimento acumulado na região lhe
de Valença, Piraí, Barra Mansa e Resende, realizou trabalhos cartográficos permitiu contratar, como empreiteiro particular, as obras de reconstrução
com vistas à composição de uma carta geral da província do Rio de Janeiro, da Estrada do Comércio. Quando as realizava, participou, como projetista,
cujos exemplares foram colocados à venda em 1840.38 da construção da Igreja Matriz de Vassouras. Em 1843, Niemeyer também
cuidou de obras de reparação no sistema hidrográfico de Santa Cruz.40 O
36 Para o conceito histórico de classe senhorial, ver MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema: contrato de construção com a província do Rio de Janeiro foi encerrado em
a formação do Estado imperial. São Paulo: Hucitec, 1987; e SALLES, 2008, primeira parte. 1844, ano em que Niemeyer publicou, na imprensa do Rio de Janeiro, um
37 VIEIRA, José Ignácio Vaz. Sem título. Niterói: Typographia Nictheroy de Rego, 1837. p. 48-49; SOUSA,
Paulino José Soares de. Discurso. Niterói: Typographia Nictheroy de Rego, 1838. p. 61; Id. Relatório
do Presidente da Província do Rio de Janeiro... para o anno de 1839 a 1840. Niterói: Typographia de
Amaral & Irmão, 1851. p. 52. 39 FREITAS, 1987b, p. 131-134, 294, 400.
38 Mapa disponível no sítio da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro: NYEMEIER, Conrado Jacob de. 40 Notícia fornecida em O Brasil, em 30 de março de 1843. Sobre a trajetória de Niemeyer, ver também
Carta da Província do Rio de Janeiro, 1840. Rio de Janeiro: Lit. do Arquivo Militar, 1849, 32 x 46,3 PEIXOTO, R.A. A carta de Niemeyer de 1846 e as condições de leitura de produtos cartográficos.
cm. Disponível em: <www.bn.br>. Anos 90, Porto Alegre, v. 11, n. 19/20, p. 299-318, jan.-dez. 2004.

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mapa da Estrada do Comércio, e em que assinou com o poder provincial quem, não sabemos com precisão, mas podemos supor pelo exame de seus
um acordo adicional para sua manutenção.41 critérios de organização visual.42
Em 1846, Niemeyer aceitou o convite do imperador para assumir a Um rápido cruzamento das informações constantes do Registro
Superintendência da fazenda de Santa Cruz. Sua vasta experiência no ser- Paroquial de Terras para a freguesia de Sant’Anna do Piraí, lavrado entre maio
viço público o habilitava para a tarefa, mas o que possivelmente motivou a de 1854 e janeiro de 1856, com o que vemos no mapa de 1848, permite perceber
escolha final de D. Pedro II foi a Carta Geral do Império do Brasil, lançada que as múltiplas unidades anotadas com nomes próprios (de indivíduos, de
em 1845 e premiada pelo imperador no ano seguinte, além, é claro, dos núcleos familiares ou de fazendas) não equivaliam ao que os contemporâneos
relevantes serviços que já havia prestado aos fazendeiros do Médio Vale compreendiam exatamente como as fronteiras das propriedades rurais dessa
do Paraíba e à Província do Rio de Janeiro. Niemeyer exerceu a função em região.43 Niemeyer se valeu da produção cartográfica anterior das sesmarias
Santa Cruz de novembro de 1846 a março de 1856. Nesse longo período, distribuídas entre 1730 e 1823 para projetá-las no mapa da fazenda de Santa
uma de suas medidas foi justamente a composição do mapa de 1848, objeto Cruz. Sesmarias essas que foram bastante reconfiguradas no processo de
deste artigo. montagem das fazendas de café. Como a historiografia vem demonstrando,
Segundo Benedicto Freitas, durante a administração Niemeyer, a sala a cartografia da estrutura fundiária no Brasil encontrou limites intransponí-
da Superintendência era decorada com uma planta topográfica da fazenda, veis para se realizar ao longo do século XIX.44 A própria natureza do primeiro
“em vistosa moldura dourada”. O historiador da propriedade também “cadastro nacional” de terras, o Registro Paroquial dos anos 1850, ao envolver
informa que, por cem cópias litográficas do mapa, pagou-se à sociedade apenas declarações verbais sobre o que eram os limites de cada propriedade,
Heaton & Rensburg a quantia de 265$000. A firma fora fundada em 1840 porém sem quaisquer atos de mapeamento, bem o comprova.
pelo inglês Georges Mathias Heaton e pelo holandês Eduard Rensburg. Houve uma lógica clara na nomeação que Niemeyer adotou para
Dentre seus múltiplos trabalhos de impressão, que incluiu as ilustrações do registrar as fazendas de café que faziam fronteira com as terras da imperial
fazenda de Santa Cruz. Para comprovar isso, basta uma mirada na faixa ao
Brasil pitoresco de Victor Frond, a dupla ganhou a reputação de serem os
longo do rio Paraíba. Na Imagem 6, observa-se como o engenheiro mili-
melhores litógrafos de mapas do Império do Brasil, ainda que seu campo
tar fez questão de inscrever no espaço ou o nome dos grandes potentados
mais rentável fosse a impressão de partituras musicais. Anúncios da firma
cafeeiros, envolvidos ou não no abaixo-assinado de 1828 contra D. Pedro I
no Diário do Rio de Janeiro e no Correio Mercantil da década de 1840 per-
(“Terras dos Breves”, major José Luiz Gomes, major José Luiz Gomes e Faro,
mitem avaliar o valor relativo que foi cobrado para a composição do mapa
João Pereira do Faro, marquês de Baependi etc.), ou das propriedades que
de 1848. As partituras impressas pela Heaton & Rensburg eram vendidas a
os vinham notabilizando (Mangalarga, Três Saltos, o coração das atividades
um valor de 500 a 1.000 réis cada, ou seja, a um preço unitário bem maior
do barão de Piraí, Botafogo, Campo Alegre, propriedades de um de seus
do que a firma recebera para imprimir os 100 exemplares de Santa Cruz.
genros, o barão de Vargem Alegre, Sant’Anna, o coração das atividades de
Ademais, nossa pesquisa não logrou encontrar anúncios de venda do mapa
Pereira Faro etc.). A toponímia empregada pelo mapa marcava claramente
de Santa Cruz na imprensa da Corte, ao passo que vários outros propa-
o domínio desses homens e de suas fazendas sobre a paisagem da província
gandearam a venda, por subscrições, da Carta Geral do Império do Brasil.
Por conseguinte, pode-se aventar a hipótese de que Niemeyer encomen- 42 FREITAS, 1987b, p. 20. Sobre a Heaton & Rensburg, ver HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: sua
dou a impressão do mapa de Santa Cruz para ofertá-lo como presente. Para história. São Paulo: Edusp, 2003. p. 148, e CARDOSO, Pedro Sánchez. A lithos: edições de arte e as
transições de uso das técnicas de reprodução de imagens. 2008. Dissertação (Mestrado em História)
– Pontífice Universidade Católica, Rio de Janeiro, 2008. p. 60-62. Os anúncios podem ser lidos em
Diário do Rio de Janeiro, em 20 de setembro e 12 de dezembro de 1845; 16 de junho, 13 de julho e 21 de
dezembro de 1846; 28 de outubro e 4 de novembro de 1847; e no Correio Mercantil de 4 de abril de 1849.
41 O mapa pode ser consultado no sítio da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Sua referência é a
seguinte: NYEMEIER, Conrado Jacob de. Planta hydro-topographica da Estrada do Commercio entre 43 O referido registro pode ser consultado no sítio do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro
os rios Iguassu e Parahiba. Rio de Janeiro: Heaton e Rensburg Lith, 1844. 80 x 17 cm. Disponível em: (http://www.aperj.rj.gov.br/)
<http://www.bn.br>. 44 Ver, em especial, MOTTA, M., 2008; e SILVA, 1996.

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do Rio de Janeiro. Além do mais, se voltarmos para a Imagem 5, vemos Pedro II, que, aliás, os visitara em janeiro daquele ano de 1848, prestando-
que, em 1848, como resultado da Lei de 25 de novembro de 1830, a zona lhes as devidas deferências pelo papel central que vinham desempenhando
dos grandes cafeicultores se encontrava definitivamente fora da alçada da para a construção da ordem institucional do Segundo Reinado.45
imperial fazenda de Santa Cruz.

Imagem 7: detalhe da Imagem 1.

D. Pedro I quisera se impor a esses fazendeiros, que haviam se cons-


tituído em uma de suas principais bases de ascensão ao trono do Império
do Brasil, e por essa razão foi destronado. Seu filho subiu e manteve-se
no poder pelas mãos desses mesmos fazendeiros. Reinou por quase meio
século. Quando finalmente foi derrubado, junto com o regime monárquico,
Imagem 6: detalhe da Imagem 1. por um golpe militar, o mundo da classe senhorial, com a abolição da escra-
vidão, encontrava-se em processo de desagregação. Outros fazendeiros e
Há que se ressaltar, por fim, a bissegmentação da litografia e o sentido outro regime estavam no horizonte, mas isso é assunto para outra ocasião.46
da inscrição, no seu lado direito, da vista frontal do palácio imperial e da
planta do complexo de edificações de seu povoado (Imagem 7). A mensa-
gem era clara: por meio dessa organização visual, o poder do imperador e
o poder dos fazendeiros se tornavam estritamente articulados: enquanto o
primeiro reconhecia sem questionamentos o domínio dos segundos sobre
serra acima e a importância deles para a economia e a ordem social do
Império do Brasil, estes se subordinavam espacial e simbolicamente ao seu
monarca. Todos sabiam que o fundamento da riqueza dos fazendeiros resi-
45 Sobre a visita de D. Pedro II ao Vale em 1848, ver TELLES, Augusto Carlos da Silva. A visita de D.
dia no domínio de terras e de homens, ou seja, sobre uma estrutura fun- Pedro II a Vassouras. RIHGB, Rio de Janeiro: IHGB, n. 290, jan.-mar. 1971.
diária cujo estatuto era relativamente incerto e sobre seres humanos ilegal- * Rafael Marquese agradece ao CNPq pela bolsa de produtividade em pesquisa a que este texto se
vincula, e, Ricardo Salles, ao Pronem-Faperj. Os autores agradecem ainda a todos os membros do
mente escravizados conforme a legislação do próprio país. Composto antes
Grupo Interinstitucional de Pesquisa O Vale do Paraíba e a Segunda Escravidão (parte da Second
de 1850, isto é, antes do encerramento definitivo do tráfico negreiro tran- Slavery Research Network), a Leila Vilela Alegrio, quem primeiro nos chamou a atenção para o
satlântico e da aprovação da Lei de Terras, o mapa de Niemeyer promovia mapa de 1848, e a Iris Kantor, pelas conversas sobre Conrado Jacob de Niemeyer. O texto faz parte
de uma pesquisa mais ampla que resultará em livro, cujo título provisório é Escravidão, Café e
uma associação visual direta entre os fazendeiros do Vale do Paraíba e D. Poder: a vila de Piraí, o Império do Brasil e a economia mundial, 1763-1889.

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Vale expandido: chamada teoria política pluralista. Apoiados na experiência democrática dos
Estados Unidos, presumiam que o processo de tomada de decisões públi-
contrabando negreiro, consenso e cas resultava de contínuas negociações entre grupos movidos por interesses
regime representativo no Império do Brasil1 colidentes e investidos de um poder de barganha relativamente equilibrado,
numa dinâmica que tornava improvável a prevalência hegemônica de uns
Alain El Youssef sobre outros. Em suas análises, adotaram duas noções complementares. De
Bruno Fabris Estefanes um lado, caracterizaram os grupos econômicos, mesmo os mais poderosos,
Tâmis Parron como politicamente incoesos. De outro, entenderam que as fontes de poder
necessárias à atuação dos grupos sociais eram distribuídas com relativa
simetria pelo conjunto da sociedade. Em resultado, julgaram pouco rele-
vante conceituar elites e definir postos formais do Estado como campo para
o exercício do poder. Em vez de estudar o Estado, parecia melhor examinar
o sistema político plural mais amplo no qual a participação democrática de
diversos grupos sociais formava a agenda pública. Como escreveu Robert
estado, sociedade, escravidão Dahl, autor do influente Who governs? (1961), a “teoria sobre elite dirigente”
pode ser “um tipo de teoria quase-metafísica”. Na hipótese de uma elite exis-
As mediações entre Estado e sociedade no Brasil do século XIX é uma das
tir, cumpriria defini-la, delimitar suas preferências e verificar se elas real-
questões perenes da historiografia imperial que foram abordadas desde o
mente prevaleciam na tomada de decisões públicas.2
ensaísmo interpretativo da década de 1930 até os dias de hoje. A evolução
Embora um dos primeiros trabalhos a oferecer uma alternativa cons-
por que o tratamento do assunto tem passado nos últimos quarenta anos,
ciente à teoria pluralista tenha sido The power elite (1956), de C. Wright
após a montagem e o incremento do sistema de pós-graduação no país,
Mills, a redação da investida mais sistemática contra ela coube a Ralph
longe de se esgotar na tradição intelectual brasileira, sofreu influência de
Miliband, que publicou em 1969 The State in capitalist society. Miliband
um debate europeu e norte-americano travado no campo da ciência polí-
levou a sério o desafio de averiguar a existência de uma elite econômica e o
tica entre o imediato pós-guerra e a década de 1980. Nas próximas pági-
modo como ela se impõe aos demais grupos ou classes sociais na formula-
nas, iremos mapear as linhas gerais dessa discussão e seguir seu impacto
ção da agenda pública. Para tanto, definiu o que entendia por elite, a fração
em dois autores que ainda possuem grande influência na pesquisa sobre
dominante da classe capitalista, e o que entendia por Estado, a inter-relação
o Brasil oitocentista: José Murilo de Carvalho e Ilmar Rohloff de Mattos.
de cinco instâncias: aparato de governo (Executivo e Legislativo); aparato
Apurar o entendimento dos termos que eles propuseram para a análise das
administrativo (banco central, burocracia do serviço público, empresas
mediações entre Estado e sociedade contribui não só para situar o lugar
estatais); aparato coercivo (corporações militares e policiais); aparato judi-
historiográfico do presente capítulo, mas também para delinear o sentido
cial; e governos subcentrais (assembleias legislativas locais). A estratégia
dos principais estudos atuais sobre a política nacional no Império do Brasil.
de adotar uma concepção estreita do grupo de acumuladores de capital e
Na crise dos regimes ditatoriais e corporativistas que se seguiu à Segunda
uma concepção ampla dos lugares formais de poder atendia a dois objeti-
Guerra Mundial, cientistas políticos norte-americanos desenvolveram a
vos simultâneos: o de realçar a influência política assimétrica de um grupo
1 O presente texto é uma versão modificada do artigo “Vale expandido: contrabando negreiro e a
social diminuto e o de mostrar que não é preciso ocupar a maior parte do
construção de uma dinâmica política nacional no Império do Brasil”, publicado em Almanack,
n. 7, p. 137-159, 1. sem. 2014. Agradecemos em particular à leitura de André Nicacio Lima, Felipe 2 DAHL, Robert A. A critique of the ruling elite model. The American Political Science Review,
Landim, Luiz Fernando Saraiva, Ivana Stolze Lima, Leonardo Marques, Marcelo Ferraro, Marco Cambridge: Cambridge University Press, v. 52, issue 2, p. 463, Jun. 1958; e Who governs? Democracy
Holtz, Ricardo Salles e Waldomiro Lourenço da Silva. and Power in an American City. New Haven: Yale University Press, 2005.

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governo – nem das cinco instâncias do Estado – para induzir o processo de poder” uma coesão ideológica que do contrário lhe faltaria. As acusações
de decisão política. Com isso, distinguiu poder político de poder eleito- recíprocas e a recepção do debate, todavia, reduziram a visão do Estado em
ral, bem como governo de Estado, confusões comuns na época e hoje em Poulantzas a um determinismo estreito e a de Miliband a um instrumenta-
dia. A noção de que uma fração de classe exerce poder mesmo sem estar lismo vulgar. Nas palavras de um estudioso do assunto, a polêmica “estilha-
no governo o levou a uma leitura gramsciana segundo a qual a hegemonia çou [a incipiente] teoria política marxista”.4
deixava de ser compreendida apenas como efeito das “instituições cultu- O mesmo contexto intelectual da teoria política pluralista que estimu-
rais”, aparecendo também como consequência da ação do Estado, “um dos lou a publicação do livro de Miliband, bem como o debate subsequente
principais arquitetos do consenso conservador” e da “socialização política” entre ele e Poulantzas, também informou a pesquisa de doutorado que José
(universalização) dos interesses peculiares a um grupo.3 Murilo de Carvalho defendeu em Stanford em 1974 sobre a especificidade
The State in capitalist society ajudou a projetar Miliband como “o prin- da política brasileira oitocentista e cujos resultados foram publicados nos
cipal cientista político marxista no mundo anglófono”, tornando-o um dos hoje clássicos A construção da ordem (1980) e Teatro de sombras (1988).
estudiosos mais citados em meados da década de 1970, segundo os cálculos Assim como Miliband, Carvalho rejeitou o axioma da teoria pluralista
da American Political Science Association. O livro, contudo, desencadeou que depositava no equilíbrio dos grupos sociais o sentido do processo de
uma azedada troca de resenhas entre o autor e Nicos Poulantzas nas pági- tomada de decisão política e a consequente noção de que os postos formais
nas da New Left Review que continuou em seus respectivos livros posterio- do Estado eram irrelevantes para uma interpretação política. No início de
res. Nos textos contra Miliband, Poulantzas colocou em destaque proble- A construção da ordem, advertiu que “os estudos mais recentes que se pren-
mas de alto valor heurístico para a pesquisa histórica, entre os quais o do dem excessivamente a questões do tipo ‘quem governa’” – título do livro de
sujeito como ator social e o da autonomia relativa do Estado frente à socie- Dahl – deixam “de lado a natureza do próprio governo e o sentido da ação
dade. Para Poulantzas, o Estado capitalista possuía uma adequação formal da elite [já que as fontes do poder são tidas por difusas].” Carvalho desen-
à reprodução expandida do capital que tornava dispensável a pesquisa do volveu então o conceito de “elite política imperial” para designar os ocupan-
perfil social dos indivíduos alocados em seus postos-chave. Ao estudar os tes dos postos políticos nacionais (deputado geral, presidente de província,
ocupantes do aparelho estatal, Miliband teria usado um método da ciência ministro, senador, conselheiro), os quais, sendo “políticos”, se destaca-
política não-marxista – de Dahl, digamos – para fazer uma análise pre- vam da esfera econômica e, sendo da “elite”, se distinguiam da vida local.
tensamente marxista, adotando, assim, uma concepção instrumentalista Moldados por semelhante formação intelectual (Faculdade de Direito),
de Estado. Segundo Poulantzas, os marxistas deviam usar a noção, por ele percurso profissional (magistratura) e ocupação de cargos (citados acima),
desenvolvida, de “autonomia relativa do Estado”: mesmo desprovido da esses paladinos da lei conduziram com homogeneidade e coesão as grandes
influência direta, pessoal, volitiva, da elite capitalista (autonomia), o Estado transformações que o Brasil sofreu durante a monarquia.5
enseja a reprodução ampliada do capital, beneficiando os acumuladores Carvalho teve um segundo tipo de interlocutor. Pretendia corrigir os
(relativa). Em suas respostas, Miliband identificou a posição de Poulantzas excessos do ensaísmo marxista brasileiro que considerava o Estado oito-
como “super-determinismo estruturalista” irredutível às diferenças empíri- centista epifenômeno de forças sociais ou econômicas. Sua “elite política
cas dos regimes políticos particulares. As análises dos dois possuíam pontos 4 BARROW, Clyde W. The Miliband-Poulantzas debate: an intellectual History. In: ARONOWITZ,
de contato – valendo-se de Gramsci, por exemplo, Poulantzas também con- Stanley; BRATSIS, Peter (Org.). State theory reconsidered: paradigm lost. Minneapolis: University of
Minnesota Press, 2002. p. 3; WETHERLY, Paul; BARROW, Clyde W.; BURNHAM, Peter. Class, power
siderou o Estado um meio importante para que uma fração da classe capi-
and the State in capitalist society: essays on Ralph Miliband. New York: Palgrave Macmillan, 2008.
talista exercesse “papel dominante” sobre as demais e conferisse ao “bloco Os textos de Miliband e Poulantzas estão disponíveis nos números 58 (nov.-dez. 1969), 59 (jan.-fev.
1970), 82 (nov.-dez. 1973) e 95 (jan.-fev. 1976) da New Left Review e podem ser acessados no site da
3 MILIBAND, Ralph. The State in capitalist society. Nova York: Basic Books, 1969. p. 191. Sobre o autor, revista (<http://newleftreview.org/>).
BLACKBURN, Robin. Ralph Miliband, 1924–1994. New Left Review, n. I/206, London, p. 15–25, Jul.- 5 CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: teatro de sombras. Rio de Janeiro: Civilização
Aug. 1994. Brasileira, 2003. p. 25. 1. ed. 1980.

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imperial”, afastada das bases materiais da vida social, elegeria como plata- 1985. Tal como a pesquisa de Carvalho, o livro reagiu contra a teoria plura-
forma a unidade nacional, o controle civil do poder e a democracia limitada lista do sistema político e as abordagens marxistas por serem ambas “teimo-
dos homens livres. Com a escravidão, instituição máxima do mundo econô- samente centradas na sociedade”, e condenou os “debates teóricos” travados
mico, seu contato seria de concessão circunstancial ou “tática”, isto é, tole- na década anterior como “altamente especulativos”. Não é à toa que a longa
rava-a por depender dela para fechar o orçamento público: “não podiam”, lista das pesquisas que Skocpol cita no capítulo que dá nome à obra inclui
escreveu, “matar sua galinha dos ovos de ouro”. Tão logo terminasse seu um texto de José Murilo de Carvalho. Em linhas gerais, pode-se dizer que
“acúmulo primitivo de poder”, essa elite conduziria a nave do Estado à erra- Skocpol propôs estudar o Estado como ator dotado de racionalidade pró-
dicação do cativeiro. A esse jogo de espera e destruição o autor chamou pria e capaz de reunir seus membros em torno de um conjunto de interesses
“dialética da ambiguidade”.6 socialmente autônomos. Embora assuma que “o contexto socioeconômico e
Em seu diálogo com a teoria pluralista norte-americana e com o sociocultural” não deve ser desprezado na análise, ela concentra seu esforço
ensaísmo marxista brasileiro, Carvalho adotou dois pressupostos de aná- de reflexão em elencar: a) os casos em que o Estado goza de autonomia; b) os
lise. O primeiro era político. O modelo da teoria pluralista podia se apli- meios de que dispõe para fazê-lo (financeiros, pessoais, institucionais); e c)
car a países “como Inglaterra e Estados Unidos”, onde “o papel do Estado o poder que possui para mudar o comportamento dos atores, “em especial
tendeu a ser menos relevante e, portanto, predominaram na elite política os economicamente dominantes”. Como notou Leo Panitch em “The impov-
elementos oriundos dos mecanismos de representação parlamentar”. Em erishment of State theory”, o livro que pleiteava ver as instituições políticas
contrapartida, “a estrutura política do Império era suficientemente sim- como fatores causais autônomos foi publicado “bem no momento em que
ples”, sendo “as decisões da política nacional” tomadas “por pessoas que o poder estrutural do capital e o alcance estratégico e ideológico das clas-
ocupavam os cargos do Legislativo e do Executivo”. O outro pressuposto ses capitalistas tinham se tornado, talvez, mais plenamente visíveis do que
era socioeconômico. Nos “países de revolução burguesa abortada”, como nunca”. Em que pese o paradoxo histórico, Skocpol, Evans e Rueschemeyer
Portugal e Brasil, “o elemento burocrático” predominou sobre as classes avalizaram o institucionalismo e o empiricismo desprovido de teoria como
sociais na composição de uma agenda pública, visto que faltaria densidade posturas científicas promissoras em diversas áreas das ciências humanas.8
à vida social brasileira devido à ausência de um mercado interno por onde Justamente em 1985, ano da publicação de Bringing the State back in,
se aglutinassem setores do mundo produtivo. Com os dois pressupostos, Ilmar Rohloff de Mattos defendeu na Universidade de São Paulo a tese
Carvalho procedeu à simplificação da estrutura política e à simplificação de doutorado que seria publicada no ano seguinte com o título O tempo
da vida socioeconômica para que seu modelo pudesse concentrar poderes saquarema – assim como Carvalho redigira sua tese antimarxista no auge
decisórios nas mãos da “elite política imperial” e afastar essa elite dos influ- da teoria marxista do Estado, Mattos arrematou sua pesquisa marxista no
xos do mundo material.7 auge da abordagem antimarxista do Estado. Seu livro é bem conhecido,
Concebida e realizada no auge da teoria marxista do Estado, a pesquisa mas o teor de seu enquadramento analítico, talvez pela filiação ao gênero
de José Murilo de Carvalho se desdobrou em livros quando os instrumentos estilístico do ensaísmo brasileiro, nem sempre é devidamente apreendido
heurísticos de Miliband e Poulantzas tinham sido reduzidos às caricaturas por seus leitores. Mattos examinou a construção do Estado imperial e a
do instrumentalismo e do determinismo. A publicação mais representativa formação da classe senhorial como dois processos que se tornaram associa-
da troca de paradigmas então em curso talvez seja Bringing the State back in, dos sob a “intervenção consciente e deliberada de uma determinada força
que Peter Evans, Dietrich Rueschemeyer e Theda Skocpol organizaram em social”. Incorporando a historiografia disponível sobre o mercado interno,

6 Ibid., p. 42, 166, 138, 194, 232. Essa leitura foi desenvolvida em CARVALHO, José Murilo de. Escravidão 8 SKOCPOL, Theda. Bringing the State back in: strategies of analysis in current research. In: EVANS,
e razão nacional. In: ___. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: Ed. Peter B.; RUESCHEMER, Dietrich; SKOCPOL, Theda. Bringing the State back in. Cambridge:
UFMG, 1998. p. 35-64. Cambridge University Press, 1985. p. 3-37; PANITCH, Leo. The impoverishment of State theory. In:
7 CARVALHO, 2003, p. 32-62. WETHERLY; BARROW; BURNHAM, 2008, p. 92.

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argumentou que essa “força social” se compôs de atores provenientes da mais capazes de universalizar valores particulares no Brasil eram a Coroa e o
região de agricultura mercantil-escravista, isto é, um complexo econô- Estado estritamente definido: “à Coroa incumbe ainda tornar cada um dos
mico integrado pelo polo açucareiro da baixada fluminense, pelos tropei- Luzias parecido com todos os Saquaremas”. Na mesma passagem, endos-
ros engajados no comércio de abastecimento, pelos negociantes radicados sando a célebre frase de Joaquim Nabuco, advertiu que na monarquia “tudo
na Corte e, com destaque, pelos proprietários cafeicultores espalhados no se espera do Estado [...], a única associação ativa”. O peso conferido ao apa-
curso médio do Vale do Paraíba. E definiu os saquaremas, núcleo histó- rato formal do Estado na universalização de valores e interesses específicos
rico do Partido Conservador, como o grupo político mais envolvido com a não deixava de possuir precedente na historiografia brasileira e nas próprias
defesa dos interesses da região.9 leituras de Gramsci que Miliband e Poulantzas tinham feito.10
Ao reintroduzir a escravidão na história política pela porta da frente, Nos últimos dez anos, as análises da política disputada na arena nacio-
Mattos procurou contornar os dois extremos que estigmatizaram, de modo nal do Império do Brasil têm delineado um panorama eclético que em
impreciso, o debate teórico marxista da década de 1970: reduzir o Estado grande medida deriva ou é consequência das posições mencionadas acima.
a epifenômeno instrumental da classe econômica dominante e fundar sua Elas avançam nas sendas abertas pelo marxismo gramsciano (Ricardo Salles,
análise em categorias abstratas estruturalmente deterministas. Para tanto, 1996 e 2008), se inscrevem no institucionalismo não-marxista (Miriam
fez duas leituras filtradas. Evitou referências diretas a Miliband e Poulantzas, Dolhnikoff, 2005) ou adotam um empirismo desprovido de teoria que iden-
assimilando deles, no entanto, o entendimento de que os escritos de Gramsci tifica as múltiplas dimensões do processo histórico com o ponto de vista dos
podiam conciliar teoria, ação social e tendência conjuntural. E procedeu a atores estudados (Richard Graham, 1990; Roderick Barman, 1999; Jeffrey
uma sutil, porém crucial, adaptação da matriz gramsciana ao cenário brasi- Needell, 2006).11 O presente capítulo, reconhecendo como válido o que há em
leiro oitocentista. O segundo ponto merece comentário à parte. comum às interpretações de Mattos e Carvalho, bem como à maior parte das
Gramsci tinha rejeitado a classificação do Estado e da sociedade como pesquisas atuais – o Estado nacional como ator de peso nas práticas políticas
unidades discretas da história, propondo no lugar da dicotomia o que pode do Império –, pretende reinterpretar algumas mediações entre a economia
ser entendido como Estado ampliado. Por essa perspectiva, a organização do escravista da Bacia do Vale do Paraíba, a arquitetura institucional do Estado
Estado compreende tanto monopólios coercivos (extração do fisco, regra- imperial e a dinâmica política nacional nos quadros da expansão da econo-
mento da conduta, exercício da violência) como instituições ditas privadas mia mundial na primeira metade do século XIX. Seu propósito é delinear:
(partidos, agremiações, imprensa, escolas), que universalizam interesses a) o papel do comércio negreiro transatlântico ilegal na projeção em nível
de grupos sociais específicos. O uso de meios repressores e suasórios para nacional de um grupo de políticos da Bacia do Vale do Paraíba (chamados na
a generalização de valores particulares está na raiz da hegemonia, compo-
nente intrínseca à natureza dos Estados ampliados contemporâneos. Porque 10 MATTOS, 2004, p. 215, 192. A leitura que Mattos fez de Gramsci se afasta da mais recorrente
os termos de Gramsci descrevessem a fundação das democracias europeias entre os gramscianos; tecnicamente, porém, dir-se-ia que ela não contradiz a obra do italiano.
Em um conhecido artigo, Perry Anderson demonstrou que Gramsci chegou a usar, embora não
após 1870, Mattos evitou aplicá-los à organização do Estado brasileiro que frequentemente, “direção” como sinônimo de “hegemonia”; e que, em algumas passagens dos
ocorreu de 1830 a meados de 1860. Tanto é assim que o vocábulo hegemonia Cadernos do Cárcere, o conceito de “hegemonia” pode até descrever o resultado do predomínio do
Estado sobre a sociedade civil. Ver ANDERSON, Perry. The antinomies of Antonio Gramsci. New
ocorre uma única vez em seu livro e designa justamente o mundo que a Left Review, v. 1, n. 100, p. 5-78, Nov.-Dec. 1976.
burguesia criou na Europa no final do século XIX. Ao contrário do que se 11 SALLES, Ricardo. Nostalgia imperial: a formação da identidade nacional no Brasil do Segundo
escreve amiúde, seu livro não contém a expressão “hegemonia saquarema”, Reinado. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996; e Id. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX – senhores
e escravos no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008; DOLHNIKOFF,
mas “direção saquarema”. O detalhe não é uma curiosidade lexical. Sem des- Miriam. O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil. São Paulo: Globo, 2005; GRAHAM,
prezar o papel da imprensa e da educação, Mattos sugeriu que as instituições Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997. 1. ed. 1990;
BARMAN, Roderick J. Citizen emperor: Pedro II and the making of Brazil – 1825-91. Stanford:
9 MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema: a formação do Estado imperial. São Paulo: Stanford University Press, 1999; e NEEDELL, Jeffrey D. The Party of Order: the conservatives, the
Hucitec, 2004. p. 14, 36-37, 69 e 78. State, and slavery in Brazilian Monarchy, 1831-1871. Stanford: Stanford University Press, 2006.

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historiografia de saquaremas); e b) o impacto do Estado que eles moldaram, a convenção entrar em vigência e redigiram uma norma mais draconiana
ao aprovar a reforma do Código de Processo Criminal (Lei de 3 de dezembro que o próprio acordo anglo-brasileiro. O regulamento, longe de ser uma
de 1841), sobre a nacionalização das disputas partidárias no Império do Brasil “lei para inglês ver”, conferiu o status de livres (não de libertos) aos africa-
e sobre o sentido de um dos poderes previstos na Constituição de 1824, o nos contrabandeados, previu processo criminal não apenas à tripulação dos
Poder Moderador. Espera-se que, ao fim da exposição, seja possível assimilar navios apreendidos, mas a todos aqueles envolvidos no comércio (interme-
elementos aparentemente distantes – mercado mundial, escravidão, Bacia do diários, proprietários etc.) e permitiu a qualquer indivíduo delatar desem-
Vale do Paraíba, Código do Processo Criminal, eleições, Poder Moderador barques ilegais às autoridades responsáveis, com direito a uma recompensa
– como engrenagens de um conjunto dinâmico que começou a operar paula- de 33$000 por africano localizado. De 1831 a 1834, os índices do comércio
tinamente em meados da década de 1830 e que veio a ser objeto de sucessivas negreiro transatlântico para o Brasil bateram em seu nível histórico mais
reformas na segunda metade do século XIX. baixo desde o final do século XVII.13
A Lei de 7 de novembro de 1831 criou o enquadramento institucional
sociedade e regresso para as ações e para o discurso dos parlamentares e publicistas brasileiros no
problema do tráfico negreiro transatlântico. Um caso notável é o de Evaristo
Assim que D. Pedro I abdicou (7 de abril de 1831), um grande debate cons- Ferreira da Veiga. Arauto dos moderados na imprensa do Rio de Janeiro, ele
titucional desaguou na ascensão do grupo parlamentar conhecido na his- se convenceu de que “o principal meio a se empregar, para obter a efetiva
toriografia como moderado. O clima político era emocionalmente carre- abolição do tráfico, é a persuasão” e se pôs a pregar nas páginas de sua Aurora
gado, pois estava em jogo a possibilidade de redesenhar o Estado imperial Fluminense os lugares-comuns do antiescravismo britânico. Entendia que o
centralista consagrado na Constituição de 1824. A feição que a monarquia comércio de africanos representava grande risco para a estabilidade social
devia ter – se federativa, se próxima da fórmula adotada na república norte do país, uma vez que o tornava um “barril de pólvora” em contato com o
-americana, se parecida com a da monarquia francesa – ocupou as mentes, facho da revolta escrava. O papel da Lei de 7 de novembro na formulação
compassou os corações e pautou os jornais da época.12 de seu discurso terrificante é decisivo: “ficando ladinos, e sabendo que têm
Tão relevante quanto a arquitetura do edifício imperial era, por assim a lei por si, [os africanos importados ilegalmente] podem e hão de para o
dizer, o chão social em que ele se ergueria, isto é, o assunto do tráfico negreiro futuro demandá-[la], ou mesmo, para obterem a sua liberdade, recorrerão a
transatlântico. Entre as barganhas subjacentes ao reconhecimento interna- meios que ameacem a tranquilidade do país, as propriedades, e que até com-
cional de sua independência, o Brasil tinha assinado com a Grã-Bretanha prometam a obediência do restante da escravatura”. Os artigos de Evaristo
dois tratados na segunda metade da década de 1820, um comercial fixando da Veiga foram acompanhados de perto por decisões contrárias ao tráfico,
por 15 anos suas tarifas aduaneiras a 15% ad valorem e outro proibindo o tomadas pela principal agremiação civil da época, a Sociedade Defensora
comércio negreiro transatlântico três anos após sua ratificação (1827-1830). da Liberdade e Independência Nacional. Seus membros chegaram a abrir,
A Câmara dos Deputados explorou o tratado antitráfico em sua campa- em 1834, um concurso para premiar quem apresentasse “a melhor memória
nha contra D. Pedro I, acusando-o de ceder demais a Londres. Todavia, analítica acerca do odioso tráfico de escravos africanos”.14
dado o isolamento internacional do Império no assunto, os parlamentares
13 Cf. os dados em THE TRANS-ATLANTIC SLAVE TRADE DATABASE VOYAGE. Atlanta, 2009.
descriam da viabilidade de se manter o tráfico negreiro transatlântico após Disponível em: <www.slavevoyages.org>.
14 AURORA FLUMINENSE. Rio de Janeiro, 10 mar./7 abr. 1834. As referências a Wilberforce e ao
12 A bibliografia sobre o assunto é extensa. Ver, entre outros, SILVA, Wlamir. Liberais e povo: a construção movimento abolicionista inglês estão nas edições de 14/05/1834 da Aurora e no Jornal do Commercio
da hegemonia liberal-moderada na província de Minas Gerais (1830-1834). São Paulo: Hucitec, 2009; de 17/01/1834, quando este encampava o projeto dos moderados em suas páginas. Para o quadro
NEEDELL, 2006; BASILE, Marcello. O Império em construção: projetos de Brasil e ação política na geral da imprensa moderada, cf. YOUSSEF, Alain El. Imprensa e escravidão: política e tráfico
Corte imperial. 2004. Tese (Doutorado em História Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, negreiro no Império do Brasil (Rio de Janeiro, 1822-1850). 2010. Dissertação (Mestrado em História
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004; DOLHNIKOFF, 2005; e MOREL, Marco. Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de Sâo Paulo, São Paulo,
O período das regências (1831-1840). Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003. 2010. p. 111-164.

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Ocupando posições estratégicas no governo nacional, o moderado de escravos) e das tendências dos processos globais que o próprio Estado
Diogo Antonio Feijó, padre e fazendeiro de São Paulo, pôde reduzir a atos brasileiro – que dizer então do governo? – não tinha condições de controlar.
administrativos a palavra antiescravista posta em circulação na imprensa da No plano externo, a reorganização mundial do comércio após o
Corte. Como ministro da Justiça, mandou distribuir cartazes com as multas Congresso de Viena ocasionou uma guerra fiscal entre os Estados Unidos e
e as penas estipuladas pela Lei de 7 de novembro de 1831, a fim de estimu- a Grã-Bretanha que, indiretamente, repercutiu nos interesses escravistas do
lar os delatores e inibir os contraventores. E redigiu despachos aos juízes de Vale do Paraíba. Na república norte-americana, grupos manufatureiros do
paz solicitando-lhes bons olhos de ver e bons ouvidos de ouvir no cerco à Norte que desejavam fechar o mercado doméstico à Grã-Bretanha suscita-
clandestinidade. Ao vencer as eleições para o cargo de regente, tentou firmar ram uma oposição do sul livre-cambista na década de 1820, produzindo no
com o governo português uma cooperação bilateral para o combate do con- Congresso anos de disputas tarifárias cujo desfecho teve um trágico timing
trabando. E, por causa dos desfalques que as tarifas aduaneiras rebaixadas a com a proibição do tráfico negreiro transatlântico para o Brasil. Sob uma
15% ad valorem abriam no orçamento imperial, enviou a Londres o marquês intensa pressão política do sul, de 1830 a 1833, os Estados Unidos reduziram
de Barbacena, autor da Lei de 7 de novembro de 1831, numa missão espe- o direito de entrada sobre a libra do café de 5 centavos de dólar para 2, de 2
cial para rediscutir com os britânicos o conjunto das barganhas negociadas para 1 e, finalmente, de 1 centavo de dólar para a isenção. A tarifa alfandegá-
por ocasião do reconhecimento internacional da Independência brasileira. ria zerou em março de 1833, depois de atingir, em 1831, um pico de 61% sobre
Barbacena devia solicitar a revisão para cima dos direitos de entrada no Brasil o preço do produto. A abertura irrestrita das aduanas tornaria os Estados
e oferecer em troca um acordo antitráfico mais severo que o vigente. Segundo Unidos o maior mercado consumidor de café na economia global, e isso
instruções de Feijó, o marquês empregaria “todos os meios a seu alcance [...] teve efeito imediato sobre a atuação dos produtores e negociantes do Vale do
para que se possa mais efetivamente reprimir no mar o tráfico de africanos”.15 Paraíba. Outro evento de magnitude no sistema internacional foi o experi-
A despeito do esforço, se não de todos, ao menos dos mais proeminen- mento abolicionista que o Parlamento britânico iniciou com o Emancipation
tes moderados ligados a Feijó na luta contra a introdução de novos africa- Act, de agosto de 1833. Além de intensificar a leitura negativa das conse-
nos no Brasil, a partir de 1834, se tornou cada vez mais acentuada na Bacia quências econômicas da emancipação, a lei tornou patente a alguns políticos
do Vale do Paraíba a tendência à rearticulação do comércio negreiro sob brasileiros que, a partir dali, abolicionistas e colonos do Caribe britânico se
a forma de contrabando em escala sistêmica. O empenho de Feijó e seus uniriam no combate ao tráfico negreiro em outros espaços do continente
aliados mostra, na realidade, que não bastava assumir o governo (Poder americano. Essa frente antiescravista deveria ser contida para que o Brasil
Executivo) para abafar a pressão escravista pela reabertura do infame aproveitasse as oportunidades econômicas que se abriam no mercado livre
comércio. Era preciso engajar diversas instâncias do Estado e diferentes do Atlântico Norte com a reformulação alfandegária dos Estados Unidos e
grupos sociais em uníssono. Mas o arco de alianças que torna concebível e com o próprio experimento abolicionista nas Antilhas britânicas.16
realizável uma ação eficaz do Estado dependia da atuação de atores locais Os processos globais ajudam a entender por que, em 1834 e 1835, os
(políticos, membros da burocracia, homens de grosso trato e proprietários moderados de Feijó e Evaristo sentiram no sabor de suas maiores vitórias
um travo de derrota. Enquanto celebravam o Ato Adicional e a eleição de
15 A distribuição de cartazes está em CONRAD, Robert. Tumbeiros: o tráfico escravista para o Brasil. Feijó para o cargo de regente, o tráfico negreiro começou a readquirir sua
São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 95. A tentativa de acordo com Portugal está em MARQUES, João
Pedro. Os sons do silêncio: o Portugal de oitocentos e a abolição do tráfico de escravos. Lisboa:
Imprensa de Ciências Sociais, 1999. p. 242-243. Sobre o envio de Barbacena a Londres, BETHELL, 16 MARQUESE, Rafael; PARRON, Tâmis. Internacional escravista: a política da Segunda Escravidão.
Leslie. A abolição do comércio brasileiro de escravos: a Grã-Bretanha, o Brasil e a questão do Topoi, Rio de Janeiro, v. 12, n. 23, p. 97-117, jul.-dez. 2011; MARQUESE, Rafael. Estados Unidos,
comércio de escravos, 1807-1869. Brasília: Senado Federal, 2002. p. 140-145. 1. ed. 1970; e ELLIS JR., Segunda Escravidão e a economia cafeeira do Império do Brasil. Almanack, n. 5, p. 51-60, 1º sem.
Alfredo. Feijó e a primeira metade do século XIX. São Paulo: Cia. Editora Nacional do Livro, 1980. p. 2013; e PARRON, Tâmis, Disputas locais, competições globais: a crise da nulificação e o mercado
224-229. Ver também RODRIGUES, Jaime. O infame comércio: propostas e experiências no final do de café e açúcar nos Estados Unidos. In: SEMINARIO INTERNACIONAL: CUBA Y LA PLANTACIÓN
tráfico de africanos para o Brasil (1800-1850). (Campinas: Ed. Unicamp, 2000. p. 142-164), sobre a ESCLAVISTA – EL TERRITÓRIO Y EL PAISAGE SOCIAL, 5., 2013, Habana. Anais... Habana: Fundación
ineficácia dos juízes de paz para a supressão do contrabando. Antonio Núñez Jiménez de la Naturaleza y el Hombre, 6-9 nov. 2013.

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antiga intensidade. No instante em que assumiu o governo, o padre paulista 70 mil toneladas métricas,20 muitas câmaras municipais enviaram petições
começou a perder o controle sobre o Estado que tinha ajudado a reformu- ao Parlamento solicitando a revogação da Lei de 1831, em clara sintonia com
lar. A ironia se torna evidente à luz da cruzada encabeçada pelo mineiro o grupo liderado por Vasconcelos. A grande maioria das vilas peticionárias
Bernardo Pereira de Vasconcelos, que, saído das fileiras moderadas, viria se localizava nas áreas articuladas à produção cafeeira no Vale do Paraíba:
a liderar, na segunda metade da década, o grupo conhecido por Regresso. Areias, Bananal, Mangaratiba, Resende, Barra Mansa, Vassouras, Valença,
Astuto orador, o político transformou-se no campeão do comércio de afri- Paraíba do Sul e Vila do Presídio. Quando as representações chegavam à
canos no plenário da Câmara dos Deputados, acompanhado de perto por Câmara, representantes do Regresso costumavam aproveitar o ensejo para
seu conterrâneo Honório Hermeto Carneiro Leão e pelos aliados fluminen- defender a revogação da Lei de 7 de novembro de 1831, fazendo, assim, com
ses Joaquim José Rodrigues Torres e Paulino José Soares de Sousa. Juntos, que a notícia fosse espalhada pelos proprietários do Vale e incitasse-os a
esses homens deram forma ao que se pode chamar de política do tráfico peticionarem novamente ao Parlamento. O grau de coesão entre regressis-
negreiro, cujo propósito consistia em reabrir o comércio de escravos sob a tas e cafeicultores em particular pode ser visto no fato de uma curiosa peti-
forma de contrabando em nível sistêmico, escolhendo como alvo a Lei de 7 ção da Câmara Municipal de Vila de Valença ser publicada na edição de 13
de novembro de 1831. Eles elaboraram um discurso legal que previa a revo- de julho de 1836 de O Sete d’Abril. O texto prometia “rebelião e formal deso-
gação do diploma pelo Parlamento, mas, por conta de pressões domésticas bediência” dos senhores em caso de cumprimento da legislação antitráfico
e britânicas, adotaram uma linha de atuação que, na prática, suspendeu pelo Estado. Ao publicá-la em seu jornal, Vasconcelos divulgou um projeto
informalmente sua aplicação. No lugar de um instrumento jurídico oficial, senhorial que delimitava o raio de ação tolerável do Estado.21
forjaram um procedimento político oficioso.17 Os membros do Regresso também teceram alianças com notabilidades
Os efeitos da manobra não foram pequenos. À semelhança do que políticas das províncias açucareiras da Bahia e de Pernambuco. Desde pelo
tinham promovido os moderados, a campanha que resultou na reabertura menos 1837, o baiano Francisco Gonçalves Martins e os pernambucanos
do tráfico negreiro também teve amplo desdobramento nos espaços públi- Francisco do Rego Barros e Pedro de Araújo Lima – o último viria a se
cos do Rio de Janeiro, sobretudo no que diz respeito à imprensa. Enquanto tornar regente após a renúncia de Feijó – engrossaram o coro regressista na
Vasconcelos emitia discursos no Parlamento, seu jornal, O Sete d’Abril, Câmara dos Deputados,22 tornando-se fundamentais para a formação de
publicava uma série de textos abertamente escravistas.18 Um deles, de 1º uma maioria parlamentar em prol do tráfico negreiro.
de agosto de 1835, resumiu a plataforma dos regressistas, estampando com As alianças entre os parlamentares do Regresso e, em especial, os ato-
todas as letras que a escravidão “era acomodada aos nossos costumes, con- res da Bacia do Vale do Paraíba coincidiram com o aumento explosivo do
veniente aos nossos interesses e incontestavelmente proveitosa aos mesmos volume do tráfico negreiro transatlântico para o Brasil. Se, de 1831 a 1834,
africanos, que melhoravam de condição”. A abolição do comércio de cativos entraram no país pouco mais de 46 mil cativos (média anual de 11 mil e
não deveria, portanto, ser “objeto de lei, mas que devia se deixar ao tempo quinhentos), apenas no ano de 1835 cerca de 37 mil africanos ingressaram de
e ao progresso do país”.19 forma ilegal no país, a grande maioria deles (30 mil) na região sudeste, onde
A atuação na imprensa e no Parlamento ajudou a selar os interesses dos irrigaram o coração da economia exportadora brasileira. Em 1836, o tráfico
cafeicultores e de outros atores econômicos da Bacia do Vale do Paraíba aos entrou na casa dos 50 mil e aí permaneceu nos anos seguintes. É importante
dos políticos do Regresso. Em meados da década de 1830, quando o Brasil atentar para a cronologia: não foi o governo do Regresso, iniciado apenas
se tornou o maior produtor mundial de café com uma safra anual superior a
20 MARQUESE, Rafael; TOMICH, Dale. O Vale do Paraíba escravista e a formação do mercado mundial
17 PARRON, Tâmis. A política da escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. Rio de Janeiro: Civilização do café no século XIX. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo. O Império do Brasil (1808-1889): 1831-
Brasileira, 2011. p. 121-178. 1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. v. II, p. 339-374.
18 YOUSSEF, 2010, p. 165-187. 21 PARRON, 2011, p. 163-171; e YOUSSEF, 2010, p. 168-187. Cf. O SETE D’ABRIL, 13 jul. 1836.
19 O SETE D’ABRIL, 1 ago. 1835. 22 NEEDELL, 2006, p. 68-69.

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em setembro de 1837, que reabriu o tráfico negreiro transatlântico sob a regresso e estado
forma de contrabando sistêmico. A retomada do infame comércio começou
de baixo para cima: penetrando primeiro nas instâncias inferiores da polí- De 1824 a 1841, a monarquia brasileira não possuía um aparelho oficial
cia e do Judiciário, passando depois às Câmaras Municipais e, por fim, che- capaz de controlar as eleições em nível nacional. Como não havia justiça
gando às Assembleias Legislativas Provinciais e ao próprio Parlamento. O eleitoral, isto é, uma instância dedicada ao assunto que fosse apartada dos
Regresso assumiu o Executivo sendo ao mesmo tempo vetor e efeito dessa demais ramos administrativos do Estado, o processo de organização, apu-
força e, uma vez aboletado no poder, definiu em favor do tráfico a posição ração e supervisão do sufrágio cabia a uma série de autoridades inespecífi-
do governo imperial, garantindo a segurança jurídica da propriedade ilegal. cas. Uma das mais importantes era a figura do juiz de paz. Segundo uma lei
A ação dos regressistas, ao lado de uma guinada imperialista da diplomacia ordinária de 1827 e o Código de Processo Criminal (1832), o juiz de paz era
britânica a partir de 1839 que não cabe analisar neste espaço, contribuiu um cargo eleito nas paróquias que agregava funções hoje tidas como poli-
para que, na década seguinte, a defesa do contrabando se tornasse uma ciais (vigilância da ordem pública), pré-processuais (inquérito e exame de
espécie de consenso suprapartidário.23 corpo de delito), processuais (apresentação de denúncia) e eleitorais (qua-
Em síntese, a entrada clandestina no Brasil dos africanos escravizados lificação dos cidadãos em não-votantes, votantes e eleitores). Os parlamen-
conformou não apenas a reprodução ampliada da agroexportação escravista tares que lhe deram poderes tão dilatados provinham da oposição formada
por algumas décadas, provendo aos proprietários a mão de obra de que care- no I Reinado, a qual receava investidas abusivas de um Estado centralista
ciam para montar novas fazendas ou aumentar as antigas. Forneceu também (conforme a Carta de 1824) dirigido por um suposto tirano (D. Pedro I).
capital político aos regressistas, ligando a trajetória de seus líderes aos interes- Os textos legais que aprovaram ainda investiram os munícipes de poderes
ses de uma base social bem definida na Bacia do Vale do Paraíba do Sul, aqui na nomeação dos juízes de órfãos, dos juízes municipais e dos promotores,
entendida como o complexo composto pelo norte açucareiro fluminense, bem como ampliaram as atribuições do júri, autorizando-o a formalizar
pelo curso médio do Vale do Paraíba dedicado à cafeicultura, pelas linhas do ou a barrar aberturas de processo.25 Nessa configuração, as eleições parla-
mercado interno entre a Corte e o sul de Minas Gerais e pela praça mercantil mentares dependeram, em parte, da atuação do juiz de paz, blindado na
do Rio de Janeiro.24 Essa união trouxe benefícios aos proprietários da região paróquia contra as ordens do Executivo.
e à liderança do Regresso. Para os agentes da esfera econômica, ela conteve a A reforma constitucional de 1834, conhecida como Ato Adicional, alte-
pressão britânica até a destruição definitiva do tráfico negreiro transatlântico rou o quadro jurídico-político que fortalecera as localidades. Como os par-
(1850), consagrou a legitimação da propriedade ilegal e garantiu a estabilidade lamentares pareciam ter perdido o controle social (segundo alegavam) e
da escravidão até a promulgação da Lei do Ventre Livre (1871). Aos atores do eleitoral nas localidades, conseguiram consagrar no Ato Adicional uma fór-
mundo político, rendeu o apoio necessário para que tocassem adiante uma mula que, sem deixar de tolher o governo central, esvaziou também o poder
concepção particular de Estado. Cumpre ver agora como um grupo gestado municipal. Um de seus principais aspectos foi a instituição das Assembleias
no interior da Bacia do Vale do Paraíba interferiu na dinâmica política de Legislativas Provinciais, que podiam criar ou suprimir postos do Judiciário,
outras regiões do Brasil. Como o Vale se tornou um Vale expandido. à exceção do de desembargador (art. 10º,§7º). Valendo-se do expediente,
algumas províncias (São Paulo, Pernambuco, Ceará, Sergipe, Paraíba do
Norte e Maranhão) transferiram atribuições do juiz de paz à figura do pre-
23 Os dados do tráfico negreiro foram retirados de <www.slavevoyages.org>. Propondo outra visão do feito, cargo por elas inventado e cujo ocupante era designado pelo presi-
problema, Jeffrey Needell escreveu: “Alguns acusam o apenas o partido reacionário pelo apoio a tal dente de província, o qual, mesmo sendo preposto do Executivo, agia sob
comércio [contrabando negreiro]. As estatísticas mostram, contudo, que ele começou sob Feijó e
floresceu por todo o Quinquênio Liberal [1844-1848]. Os estadistas de ambos os partidos concordavam consulta das Assembleias Legislativas Provinciais. Pela perspectiva local, o
com o óbvio – sem escravidão, nada de economia”. NEDELL, 2006, p. 120. Tal interpretação só é
sustentável se for suposto que o controle do governo coincide com o controle do Estado. 25 FIGUEIRAS JR., Araújo. Código do processo do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Laemmert, 1874. p.
24 Definição baseada em MATTOS, 2004, p. 45-113; e SALLES, 2008. 162-231.

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controle dos recursos estratégicos passava da paróquia para as províncias. 7º do art. 10º do Ato, proibindo que as províncias redefinissem funções de
O Ato centralizava. Na ótica da Corte, o centro tolerava que as periferias agentes previstos por Lei Geral (como a de 1827 e o Código do Processo a
redefinissem o júri, os juízes municipais, os promotores e, encaminhando o respeito do juiz de paz). No ano seguinte, procederam à reforma do Código
problema do juizado de paz, regulassem a seu modo o tempo de serviço, as de Processo Criminal, chamada na época de Lei de 3 de dezembro de 1841.
competências e os critérios de remoção dos prefeitos. O Ato fragmentava.26 Resumido a seu teor central, o texto depositou as funções policiais, pré-pro-
De 1835 a 1841, a paulatina diversidade provincial do Judiciário deu o que cessuais e processuais do juizado de paz – aquelas que tinham sido transfe-
pensar aos deputados e senadores do Império do Brasil. Durante os embates ridas aos prefeitos em algumas províncias, o que agora era considerado irre-
parlamentares que então se travaram, os líderes do Regresso formularam gular – para os novos cargos de delegado e de subdelegado, nomeados ou
uma saída que aparentava destinar-se somente à administração racional do pelos presidentes de província ou, para driblar demandas das Assembleias
bem comum. Propuseram uniformizar e centralizar o aparelho judiciário, Legislativas Provinciais, pelo governo central. Também incluiu o comissá-
passando seu controle dos níveis local e provincial para o nacional. Em seus rio fardado na mesa eleitoral responsável pela qualificação dos cidadãos
discursos, argumentavam que as alterações judiciais efetuadas por algumas em não-votantes, votantes e eleitores; colocou as posições da magistratura
Assembleias tornavam o país pouco administrável; e que os poderes dos juí- togada (promotores, juízes municipais, juízes de órfãos e juízes de direito)
zes de paz nas províncias que os mantinham intactos impediam a aplica- à mercê do bico de pena dos ministros da Justiça e do Império, que os
ção imparcial da lei, pondo em risco a ordem social e a unidade territorial podiam remover com relativa liberdade; e criou o cargo de chefe de polí-
do país, principalmente nos casos em que se devia julgar os implicados em cia para cada província, que, designado pelo Executivo, deteve o controle
revoltas regionais. Criminalidade, punição de separatistas e administração de inúmeros postos menores, como inspetores de quarteirão, carcereiros,
pública foram os valores substanciais de suas falas parlamentares.27 amanuenses, escrivães de paz etc.28
A defesa do contrabando negreiro também pode tê-los ajudado a fazer Os regressistas tinham prometido uniformizar o Judiciário, e assim fize-
ser aceito o novo arcabouço institucional de um Judiciário centralizado. ram. Embora a historiografia consensualmente identifique a Interpretação
Como o conjunto das reformas conservadoras tinha por fim esvaziar os do Ato Adicional e a reforma do Código de Processo Criminal como obras
poderes das autoridades locais, justamente daquelas cujo consentimento do Regresso, não há um único entendimento sobre o sentido que elas
tinha sido crucial para a retomada inicial do tráfico negreiro em larga adquiriram. José Murilo de Carvalho e Ilmar Rohloff de Mattos, a despeito
escala, a defesa do infame comércio que os líderes do Regresso encampa- de suas diferenças metodológicas e teóricas, partilharam a leitura de que as
ram a partir de 1836 parece ter cumprido um papel político obscuro, o de reformas conservadoras efetuaram uma centralização judiciária, adminis-
oferecer ao eleitorado da Bacia do Vale do Paraíba e de outros enclaves de trativa e política que selou a unidade do país quando as revoltas regionais
plantation do Império a fiança de que a centralização do regramento da ameaçavam despedaçá-lo. Essa visão, que em linhas gerais provém do pró-
conduta poderia atingir diversas ações sociais, menos a dos envolvidos no prio século XIX, foi contestada por Miriam Dolhnikoff. Em O pacto impe-
contrabando. Os efeitos práticos do projeto que os regressistas propuseram rial, a historiadora definiu o Ato Adicional como um arranjo federativo
não se esgotavam na questão do tráfico ilegal nem possuíam a neutralidade que se tornou o maior fator isolado na preservação da unidade nacional
que suas falas parlamentares davam a entender, como se percebe na aná- brasileira e argumentou que as leis do Regresso não expressavam uma con-
lise das reformas propriamente ditas. Em 1840, os regressistas aprovaram cepção particular de Estado nem “atacava[m] o cerne do pacto federativo”.29
uma lei de “Interpretação do Ato Adicional”, com a qual modificaram o § Representaram apenas uma remodelação, desejada pela virtual totalidade
dos parlamentares, de um ramo específico do Estado, o Judiciário.
26 FLORY, Thomas. Judge and jury in imperial Brazil, 1808-1871: social control and political stability
in the new State. Texas: University of Texas Press, 1981. p. 28-84, 158-163; e DOLHNIKOFF, 2005, p. 28 FIGUEIRAS JR., 1874. p. 162-231; e GRAHAM, Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX.
97-100. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997. p. 82-100. 1. ed. 1990.
27 FLORY, op. cit., p. 28-84; e NEEDELL, 2006, p. 73-116. 29 DOLHNIKOFF, 2005, p. 131.

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Correta em alguns aspectos, a análise de Dolhnikoff subestima o fun- eleitoral” era um preceito ético incontestável. Todavia, alegando não poder
damento social das mudanças institucionais, esvaziando as diferentes con- abrir mão do recurso, explicaram como entendiam a relação entre o rodí-
cepções de Estado dos atores do tempo e desatendendo a base econômica zio partidário no governo, a ciranda nas nomeações para diferentes cargos
do processo histórico subjacente à aprovação e à manutenção das leis do públicos e a construção das fidelidades partidárias no Brasil:
Regresso. Sua leitura não leva em conta que, na ausência de uma justiça
Há em todos os partidos muitos homens que os seguem, não por convicções e
eleitoral autônoma, instituída apenas na década de 1930, o desenho do princípios, mas por paixão ou conveniência. Era natural que esperassem que,
Judiciário modelava a dinâmica político-partidária no país. Isto é, se os quando o seu subisse ao poder, os tratasse com a mesma largueza com que seus
conservadores tinham prometido uniformizar o Judiciário, e assim o fize- adversários tinham tratado os seus. [...] Os denominados saquaremas, sobre
ram, os efeitos de sua ação extrapolaram em muito essa esfera específica do os quais unicamente podia apoiar-se o ministério, alguns pelo natural desejo
de vingança, outros pelo de verem consolidado o domínio de suas ideias,
Estado. Dotando o governo central de centenas de cargos que podiam ser
outros por quererem recuperar as posições que ocupavam, saudavam o dia
oferecidos às localidades como moeda de troca por apoio eleitoral – como 29 de setembro de 1848 com grandes esperanças. Não faltou quem esperasse
os de delegado e subdelegado, que controlavam os recursos estratégicos da e reclamasse uma inversão nas posições oficiais igual àquela que havia feito o
vida local –, a Lei de 3 de dezembro de 1841 deu ao Executivo influência Ministério de 2 de Fevereiro [de 1844, do Partido Liberal]. Muitos que durante
inédita sobre o resultado dos pleitos para a Câmara dos Deputados.30 essa administração e as subsequentes haviam perdido emprego e posição, as
reclamavam como indenizações. [...] Se não satisfizesse essas exigências, [o
Se a face mais evidente e propagandeada do Judiciário centralizado
ministério] descontentaria aqueles de quem unicamente podia esperar apoio
era seu papel ordenador na luta contra a anarquia regencial, os próceres e daria assim força aos seus adversários.31
do Regresso não deixaram de confessar sua importância na construção dos
partidos e na condução das eleições nacionais. Uma das mais explícitas A defesa do sistema político-eleitoral pós-1841 não permaneceu oculta
dessas defesas se encontra num pedido de demissão coletiva que o famoso nos escaninhos da administração imperial. Quando foi combatido na
Ministério de 29 de setembro de 1848 – aquele que abrigaria a trindade saqua- década de 1850, o esquema recebeu apoio na imprensa. Num artigo de 1853
rema – apresentou a D. Pedro II em 1851. A motivação do gesto foi a desinte- publicado no Velho Brasil, Justiniano José da Rocha mimetizou, em tom
ligência entre a Coroa e os ministros no assunto da interferência do governo satírico, o discurso que a oposição liberal vazou depois de uma vitória elei-
central sobre as eleições para a Câmara dos Deputados. O Imperador dese- toral do Executivo: “nessas eleições interveio o governo [...]; houve uma
java cercear as nomeações partidárias para cargos não políticos, possibilita- completa invasão do Poder Executivo na eleição que é do povo”. Mas per-
das sobretudo pela Lei de 3 de dezembro de 1841. Por decoro, os signatários guntou: “O que é o governo entre nós” no discurso da oposição? Concluiu
elogiaram em abstrato sua iniciativa: “Não fazer das mercês, dos empregos que não eram apenas “os seis ministros e os dezoito presidentes de pro-
e das recompensas devidas aos servidores do Estado unicamente moeda víncia”, isto é, cargos previstos na Constituição, mas também “um subde-
legado, um inspetor de quarteirão” etc., ou seja, postos regulados pela Lei
30 A primeira pesquisa a acusar isso talvez tenha sido a de Thomas Flory, cujas observações ganharam de 3 de dezembro de 1841. Era aceitável que tais cidadãos, “que estão nas
desdobramentos nos estudos focados na arena política nacional – de Roderick Barman, Richard
Graham e Jeffrey Needell –, bem como nos que identificaram o impacto das nomeações do governo posições oficiais”, exercessem “cada qual a sua influência”, desde que “dentro
central sobre a dinâmica política regional – de Judy Bieber, Jeffrey Mosher, Marcus Carvalho. Para dos limites imprescritíveis da legalidade”, o que excluía a força física. O que
as referências, ver nota 10 e ainda BARMAN, Roderick J. Brazil: the forging of a nation, 1798-1852.
Stanford: Stanford University Press, 1988; BIEBER, Judy. Power, patronage, and political violence: state
“o partido ministerial fez para vencer as eleições” foi “o mesmo que fez a
building on a Brazilian frontier, 1822-1889. Nebraska: University of Nebraska Press, 1999; MOSHER, oposição: combinou chapas, candidatos, eleitores, reuniu suas influências
Jeffrey. Political struggle, ideology and state building: Pernambuco and the construction of Brazil, 1817-
1850. Nebraska: University of Nebraska Press, 2008; CARVALHO, Marcus J. M. Os nomes da revolução: 31 VIANNA, Hélio. O pedido de exoneração coletiva do Ministério de 29 de setembro de 1848. In: ___.
lideranças populares na Insurreição Praieira, Recife, 1848-1849. Revista Brasileira de História, São Vultos do Império. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968. p. 145-153. Assinaram o documento:
Paulo: Anpuh, v. 23, n. 45, p. 209-238, jul. 2003; e CARVALHO, Marcus J. M.; CÂMARA, Bruno Visconde de Monte Alegre, Eusébio de Queirós, Joaquim José Rodrigues Torres, Paulino José Soares
Dornelas. A Rebelião Praieira. In: DANTAS, Monica Duarte (Org.). Revoltas, motins, revoluções: de Sousa, Manuel Felizardo de Souza e Melo e Manuel Vieira Tosta, em 15 de novembro de 1851.
homens livres pobres e libertos no Brasil do século XIX. São Paulo: Alameda, 2011. p. 355-389. Como se sabe, os regressistas foram apodados de saquaremas a partir da década de 1840.

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[nomeações], concentrou seus esforços: a diferença única é que esta foi sistema. É sua parte integrante. Como escreveu Paulino, “eleição livre, par-
vencida, aquele vencedor”. O que o articulista não esclareceu é por que o lamento independente, em linguagem parlamentar, quer dizer eleição nossa
governo central foi – e sempre tinha sido desde 1841 – triunfante nas elei- e dos nossos amigos; parlamento composto de nós e dos nossos amigos”.34 É
ções para a Câmara dos Deputados. A resposta veio, surpreendentemente, forte sua descrença na autonomia das urnas.
numa obra de doutrina jurídica.32 O sistema que os homens do Regresso inventaram possuía um aspecto
Em 1862, na esteira da discussão sobre o sistema representativo no delicado e controverso, ao menos para um partido que blasonava de defen-
Brasil que a política da Conciliação ajudou a despertar, Paulino José Soares sor da Constituição de 1824. A oposição não conseguiria vencer o governo
de Sousa, então visconde de Uruguai, publicou seu aclamado Ensaio sobre nas eleições nacionais nem construir robustas minorias no Parlamento.
o direito administrativo. Entre as várias questões que abordou ali, Paulino A roda do poder travava. Nesse quadro, o Poder Moderador acabaria por
defendeu as implicações eleitorais da reforma judiciária que os saquaremas adquirir um sentido novo. Segundo a Constituição de 1824, ele possuía uma
tinham composto em 1841: série de competências, entre as quais a de ser acionado para resolver fric-
ções insuperáveis entre o Legislativo e o Executivo: velaria “sobre a manu-
A lei de Interpretação do Ato Adicional e a de 3 de dezembro de 1841 modifi- tenção da independência, equilíbrio e harmonia dos mais poderes políticos
caram profundamente esse estado de coisas. Pode por meio delas ser montado
um partido, mas pode também ser desmontado quando abuse. Se é o governo
[Executivo, Legislativo, Judiciário]” (art. 98). Quando houvesse um impasse
que monta, terá contra si, em todo império, todo o lado contrário. Abrir-se-á entre o gabinete e o Parlamento, restava ao Imperador demitir e renomear
então uma luta vasta e larga, porque terá de se basear em princípios, e não “livremente os ministros de Estado”. Ele também podia dissolver “a Câmara
a luta mesquinha, odienta, mais perseguidora, das localidades. E, se a opi- dos Deputados”, mas só “nos casos em que o exigir a salvação do Estado”
nião contrária subir ao poder, encontrará na legislação meios de governar. Se, (art. 101, incisos VI e IV). Os termos são claros: a troca ministerial era livre;
quando o Partido Liberal dominou o poder no Ministério de 2 de fevereiro de
a dissolução da Câmara, excepcional.
1844, não tivesse achado a lei de 3 de dezembro de 1841 [...] ou teria caído logo
ou teria saltado por cima das leis.33 O modelo institucional que os saquaremas desenharam alterou o sen-
tido dos artigos 98 e 101 da Constituição imperial. Se o Moderador nomeava
No passo, Paulino repertoriou os argumentos favoráveis ao uso político o ministério e os ministros encaminhavam as eleições parlamentares, ele
das nomeações que o governo central fazia para os postos judiciários, poli- não atendia à sua finalidade de velar “sobre a manutenção da independên-
ciais e conexos previstos na reforma do Código de Processo: a) arrancava cia” entre os três poderes. Além disso, o fim do rodízio partidário na Câmara
as disputas políticas à lógica local (o antigo “estado de coisas”), vista como dos Deputados mediante eleições exigia que ele trocasse os ministros e dis-
desprovida de espírito de grandeza; b) forjavam meios institucionais para solvesse a Câmara para que o novo Executivo tivesse um Parlamento de
a aliança político-partidária, em nível nacional, dos diversos grupos espa- sua cor política. O Poder Moderador tinha de gozar uma ampla liberdade,
lhados nas províncias; c) dava à relação entre o Executivo e o Parlamento não prevista na Constituição, para que as dissoluções fossem instrumento
maior governabilidade; d) prevenia o uso de meios coativos para a obtenção rotineiro de alternância partidária no poder, e não recurso de “salvação do
de resultados eleitorais favoráveis ao governo. O controle eleitoral resul- Estado”. De súbito, D. Pedro II se viu sujeito a uma restrição e a uma ampli-
tante do quadro judiciário do Império não é visto como abuso, distorção do tude inéditas de suas competências políticas. Restrição porque foi prejudi-
cado no respeito à finalidade constitucional do Moderador, a preservação
32 ROCHA, Justiniano J. da. A eleição e a câmara. O Velho Brazil, Rio de Janeiro: Typographia
Americana de Justiniano José da Rocha, v. XIII, n. 1.688, p. 2-3, 2 jul. 1853. Para uma síntese das
da independência dos três poderes. Amplitude porque usaria um recurso
reformas conservadoras, suas relações com Justiniano e seu efeito sobre o debate político brasileiro constitucional (a dissolução da Câmara) de modo inconstitucional (rotinei-
nas décadas de 1850 e 1860, PARRON, Tâmis. O Império num panfleto? Justiniano e a formação do ramente, a fim de atender à alternância partidária no governo). A regra pode
Estado no Brasil do século XIX. In: ROCHA, Justiniano José da. Ação; reação; transação e seus textos.
São Paulo: Edusp. No prelo. conter exceções, mas será esta: sempre que um saquarema pede autonomia
33 URUGUAI, Visconde de. Ensaio sobre o direito administrativo. In: CARVALHO, José Murilo de
(Org.). Visconde do Uruguai. São Paulo: Ed. 34, 1999. Cap. XXX, § 8, p. 465-466. 34 URUGUAI, 1999. p. 410-411.

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absoluta para o Poder Moderador, sub-repticiamente está pedindo auto- concorrência eleitoral, e não como algo que a substitui; e a construção do sis-
nomia absoluta para suas nomeações partidárias e para a fabricação das tema, mais que uma inevitabilidade imposta pela herança colonial, teria sido
eleições nacionais. Numa conhecida passagem de seu livro, Ilmar Mattos condicionada pela distribuição assimétrica de recursos materiais que vigo-
afirmou que os saquaremas “forjaram a Coroa em Partido”.35 Talvez fosse rava no país. Em 1841, a malha centralizada do Estado se expandiu amparada
possível dizer que eles, na verdade, forjaram uma Coroa para os partidos, na adesão dos espaços econômicos mais expressivos e dependentes do trá-
como requeria a Lei de 3 de dezembro de 1841. fico negreiro transatlântico – a Zona da Mata pernambucana, o Recôncavo
O argumento exposto nas páginas precedentes possui implicações his- baiano, mas sobretudo a Bacia do Vale do Paraíba – ao projeto parlamentar
toriográficas. A imagem de que o Estado imperial possuía um sistema elei- vitorioso de Vasconcelos, Carneiro Leão, Rodrigues Torres, Paulino, Eusébio
toral pouco aberto a pleitos competitivos por causa da oferta de cargos pode de Queirós e Araújo Lima. Parte desse conjunto conservador, por sua vez,
remeter à interpretação que Richard Graham elaborou em Patronage and guardou uma coerente defesa do contrabando negreiro e da Lei de 3 de
politics in nineteenth-century Brazil (1990). Baseado numa cuidadosa investi- dezembro de 1841 como princípios que o diferenciavam, em graus variáveis
gação documental, o historiador atribuiu o emperramento da máquina elei- no tempo e no espaço, de outros grupos políticos do Império do Brasil.
toral do Império ao clientelismo, fenômeno que ele define em níveis coinci- A união entre a Bacia do Vale do Paraíba e o Regresso conservador
dentes com os do sistema eleitoral brasileiro da época: no chão da vida local, foi o principal veio investigativo de O tempo saquarema. Posteriormente,
designa a proteção social a votantes em troca do sufrágio para eleitores; no Jeffrey Needell desenvolveu o assunto em seu minucioso The Party of Order,
alto da política nacional, descreve a oferta de cargos públicos a eleitores em uma boa síntese da história do Partido Conservador entre as décadas de
retorno de apoio a candidatos do governo. Graham é primoroso na des- 1830 e 1870. Uma das ideias centrais do livro é que o “regime represen-
crição das práticas do patronato, todavia uma questão de método conduz tativo e constitucional” do Império do Brasil foi “reconstruído pelo par-
sua leitura a uma extrapolação temerária. Evitando empregar “categorias” tido reacionário entre 1837 e 1842” nos termos do que fora “esboçado na
que “os atores históricos [...] não necessariamente reconheciam”, a fim de Constituição brasileira de 1824”. A reorganização regressista da monarquia
“focalizar os significados que eles próprios deram às suas ações”, concluiu incluiria a noção conceitual do equilíbrio entre os poderes, a Interpretação
que o clientelismo, ubíquo no país desde o período colonial, se impôs aos do Ato Adicional e a reforma do Código de Processo Criminal. Como
atores do tempo como a principal finalidade da vida política, desbancando identifica as múltiplas dimensões do processo histórico com perspectiva
até os temas da construção do poder central ou da defesa de interesses eco- dos indivíduos que estuda – nesse particular, seu método não é diferente
nômicos particulares. No símile que emprega para esclarecer o fenômeno do de Graham –, Needell considerou plenamente constitucional o que os
– “semelhante àquelas árvores altas da floresta amazônica que extraem ali- saquaremas fizeram e enunciaram: D. Pedro II, investido do Moderador,
mento das próprias folhas que caem” – evidencia-se a dimensão tautológica podia mesmo dissolver livremente a Câmara e aqueles que discordavam
de sua definição de clientelismo, a qual desconsidera diferenças de programa disso desferiam um “ataque ao papel constitucional do imperador”. Baseado
partidário entre as lideranças parlamentares, o vínculo intrínseco do tripé na opinião dos interesses escravistas dos saquaremas, concluiu que a Lei
cargos, eleições & construção do Estado ao longo do século XIX e as relações do Ventre Livre, porque patrocinada pela Coroa, contraditou “o princípio
que proprietários das diversas regiões econômicas do país travaram com o do equilíbrio constitucional de poderes”, derramando uma herança maldita
Estado imperial em conjunturas políticas específicas. Não importa a feição sobre o país. “Foi esse legado autoritário, estatista, mal coberto por uma
das árvores. Juntas, elas compõem a floresta indeterminada do clientelismo.36 fina camada de legitimação institucional, que sobreviveu à monarquia, uma
Segundo o argumento aqui apresentado, a oferta de cargos deve ser presença sombria na cultura política do Brasil desde então”. Em algumas
entendida como componente integrante da montagem de um Estado sem passagens sua narrativa oferece antes uma paráfrase da visão saquarema da
história política imperial que um exame dessa política.37
35 MATTOS, 2004, p. 192.
36 GRAHAM, 1997, p. 22, 299. 37 NEEDELL, 2006, p. 2, 278, 320-321.

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Cabe, por fim, perguntar se os deputados que o sistema de 3 de dezem- profissional, mas sim uma criatura mista, meio local e meio geral, meio
bro de 1841 produzia eram dotados de uma autonomia decisória que os particular e meio pública, meio espontânea e meio oficial. Dessa forma,
alçava à condição de “elite política imperial”, mais devotada às questões as decisões eventualmente impopulares do Parlamento podiam gerar nos
de Estado que ao meio socioeconômico que os elegeu. Em A construção círculos dos proprietários duras críticas dirigidas não apenas aos deputados
da ordem, José Murilo de Carvalho, embora mencione variações regio- ou aos eleitores que os escolheram, mas também ao próprio Executivo que
nais e note a importância da economia para a política, procedeu a diver- os recomendara. E, como o Poder Moderador, enredado no sistema criado
sos cálculos para indicar que somente de 5% a 8% dos deputados imperiais em 1841, era o primum mobile das eleições, parte dos erros podia correr
provinham da esfera econômica (isto é, viviam como proprietários rurais também por sua conta. Todos eram corresponsáveis.
ou negociantes), enquanto os que atuavam para o governo (na função de A falta de uma clara cisão entre polícia, burocracia, gabinete, eleições
magistrados ou militares) compunham de 24% a 38% do total. Tais núme- e Poder Moderador, além de coligar as esferas privada e pública nas corri-
ros corroboram sua leitura antimarxista segundo a qual o Estado imperial das eleitorais, criou interpenetrações nas instâncias decisórias do governo
brasileiro era pouco penetrável às demandas do mundo econômico. Seria (Parlamento, Executivo, Conselho de Estado, Poder Moderador) que, con-
possível advertir que dois fatores concorrem para essa suposta inexpressivi- forme a conjuntura, podiam produzir efeitos diversos, ora fragilizando o sis-
dade numérica dos agentes econômicos. Segundo os critérios de Carvalho, tema como um todo, ora reforçando-o. Dois exemplos distantes no tempo
os atores que eram ao mesmo tempo magistrados/militares e proprietários ajudam a ilustrar o argumento. Na década de 1880, durante a crise aguda da
rurais foram considerados apenas como atuantes na esfera do governo. escravidão no Império do Brasil, o Parlamento votou contra a legalidade do
Ademais, o corpus documental utilizado, em geral esboços biográficos status jurídico do homem escravizado, emancipando os cativos sem inde-
encomiásticos como a Galeria dos brasileiros ilustres (1861), não dá ênfase às nizar os senhores. Os proprietários atingidos pela medida não inculparam
fontes de renda privada do biografado. O uso de inventários post-mortem apenas os eleitores ou os parlamentares eleitos; sua insatisfação atingiu as
dos deputados (tarefa que ainda espera por ser feita) e a revisão dos crité- raias do Executivo e do Poder Moderador, direta ou indiretamente ligados
rios de classificação da ocupação profissional poderiam gerar uma imagem à montagem das eleições e, portanto, da composição da Câmara. A conjun-
bem distinta da chamada “elite política imperial”.38 tura de 1880 aporta um caso em que grande parte dos proprietários se con-
Outra objeção ao modelo pode ser feita em termos qualitativos. Se a venceu de que havia uma corresponsabilidade geral negativa no sistema. Na
mercê de cargos públicos e as eleições parlamentares andavam unidas no ótica deles, todo o conjunto, inclusive o trono imperial, podia vir abaixo. Na
mesmo processo de construção do Estado nacional, então o ato de escolha década de 1840, se deu o oposto. Enquanto o Parlamento defendeu o con-
dos representantes políticos nascia de um amplo consórcio entre sociedade trabando negreiro, as interpenetrações mencionadas acima (entre público e
e Estado no qual se entrelaçavam a vida local (grandes proprietários) e as privado, mas também entre as instâncias decisórias do governo) fortalece-
instituições nacionais (recursos públicos). O sistema podia até dar autono- ram tanto o Estado quanto os interesses escravistas, como se houvesse uma
mia ao Executivo, uma vez que a influência eleitoral redundava em banca- percepção de corresponsabilidade geral positiva no sistema.
das mais governáveis no Parlamento. A regra, porém, valia apenas para a
solução de questões pontuais dentro do prazo de uma legislatura. A renova- considerações finais
ção do Parlamento a cada quatro anos solicitava novas negociações com as
localidades, novas ofertas de cargos, nova proposição de nomes aceitáveis Dialética da ambiguidade. A expressão foi criada por José Murilo de
pelos proprietários rurais. Como a Câmara era, em parte, moldada pelo Carvalho para descrever a relação entre a “elite política imperial”, defi-
próprio Executivo, o deputado, fosse magistrado ou fazendeiro, não era na nida como antiescravista, e o instituto do cativeiro, do qual dependiam as
verdade nem o “homem do eleitor” nem um perfil abstrato de ocupação finanças do Estado que ela geria. A expressão é discutível. A relação que
Carvalho descreve entre políticos nacionais e Estado não é “ambígua”, uma
38 CARVALHO, 2003, p. 95-117. vez que a elite sempre possui, em seu modelo, orientação antiescravista.

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Nem “dialética”, dado que o cativeiro e o conjunto de valores das altas esfe-
ras do Estado, incompatíveis do início ao fim do Império, aparecem como
fenômenos imutáveis no tempo.
A ordem jurídico-político-partidária do Império do Brasil só foi mon-
tada e, mais que montada, sustentada graças a um amplo acordo firmado
entre proprietários e parlamentares que redefiniu a relação da sociedade e
do Estado com um tipo de peculiar propriedade privada, o africano juridi-
camente livre. Mas qual era a natureza desse acordo, de onde provinha a sua
força, qual o seu gradiente desproporcional de beneficiários e prejudicados? PARTE II
A reabertura do tráfico negreiro transatlântico sob a forma de contrabando
em escala sistêmica distribuiu vantagens aos atores sociais de forma horro- População e Sociedade
rosamente desigual. Beneficiou antes os homens e mulheres livres de fato
que aqueles livres apenas por direito; no universo dos primeiros, antes os
que habitavam as zonas de exportação agrícola e suas áreas estreitamente
conexas que todas as outras somadas; entre as zonas de plantations, antes os
enclaves do Vale do Paraíba expandido que os das demais regiões geoeco-
lógicas do país; no Vale, antes os grandes proprietários que os pequenos, os
médios e os não-proprietários. Como um edifício tão assimétrico se man-
teve por tantos anos de pé sobre o terreno irregular da mais pura ilegalidade?
O segredo da mágica está na lógica de sucessão dos poderes, não
necessariamente criada para proteger a escravidão ilegal, mas que não teve
outro efeito prático. Com a reforma do Código de Processo Criminal em
1841, o sistema de sucessão eleitoral nacional tendeu a criar legislaturas
monopartidárias. Ao reforçar a governabilidade política, ele perderia legiti-
midade caso uma das legislaturas denunciasse o contrabando negreiro ou,
depois de 1850, a propriedade escrava ilegal. A mecânica da sucessão quase
monopartidária nos três Poderes só era admissível, portanto, se o inad-
missível (a escravização ilegal de pessoas livres em massa) se convertesse
num assunto abscôndito, invisível, apolítico, apartidário. Numa fórmula de
círculo vicioso: o sistema político-partidário-eleitoral de 1841 funcionava
apenas com o consenso social do escravismo ilegal, e o consenso social
do escravismo ilegal se reforçava com o funcionamento daquele sistema
político-partidário-eleitoral. Dessa maneira irônica e trágica que misturava
ordem e desordem, mas não era ambígua, a desigualdade social foi prote-
gida da forma mais eficaz possível, pois o que não se podia pronunciar tam-
pouco se podia reduzir a lei. Na prática, a morfologia do Estado brasileiro
baniu a palavra para melhor manter a coisa. Fez do indizível o inominável.

156
O paradigma da extinção:
desaparecimento dos índios puris
em Campo Alegre, sul do Vale do Paraíba
Enio Sebastião Cardoso de Oliveira

Os puris ocupavam, no período dos setecentos, uma extensa área da região


do Vale do Paraíba. Esses índios eram de uma etnia bem diferente dos
outros ameríndios que habitavam o litoral da província, não só no aspecto
físico, mas também cultural, pois falavam um dialeto do tronco linguístico
de origem macro-gê. Pontuados pela historiografia como primeiros habi-
tantes de Campo Alegre da Paraíba Nova, a atual cidade de Resende, Médio
Vale do Paraíba, os puris conheceram a ação colonizadora por volta do
século XVIII. Com a expansão das fronteiras agrícolas do império luso-bra-
sileiro, ocorreram diversos conflitos entre índios e colonos na região. Uma
das consequências principais deste processo foi a fundação do aldeamento
de São Luis Beltrão com o objetivo de reduzir os índios puris. Em meados
do século XIX, essa etnia já era considerada extinta pelas autoridades da
Coroa, desaparecendo dos documentos oficiais.
O presente artigo pretende analisar, a partir das observações de fontes
disponíveis, se os índios puris na região de Campo Alegre da Paraíba Nova
realmente foram extintos ou se tratou de um “desaparecimento proposi-
tal”, promovido pelas autoridades em seus documentos oficiais. Para tanto,
iremos utilizar como fontes os diversos relatos dos viajantes e memoria-
listas que estiveram na região no final do século XVIII e XIX e aplicaram
a seguinte metodologia de comparação com as fontes oficiais, que são:
cartas, relatórios de presidentes de províncias, de funcionários e militares,
tanto do período colonial e do Império brasileiro, requerimentos de pedi-
dos de sesmarias e outros.

159
os sertões dos “índios brabos” ser caracterizada como uma fronteira aberta, ainda considerada “alto sertão”
de campo alegre da paraíba nova pelas autoridades portuguesas, ou como pontuamos aqui: “sertão dos índios
bravos”. Como tal, esta região apresentava tensão entre os colonos em pro-
Campo Alegre, no século no final do século XVIII, era uma área que se
cesso de expansão em direção aos sertões e os índios de várias etnias com
estendia da fronteira da antiga capitania de São Paulo até a confluência do
variadas situação geopolíticas – “deslocados”, “destribalizados”,5 “estanciados”.6
rio Preto com o Paraibuna, e deste último com o rio Paraíba do Sul,1 onde
A região dos chamados sertões era uma extensa área que, ainda no
atualmente estão os municípios de Comendador Levy Gasparian e Três
final do século XVIII, representava uma parte expressiva do território da
Rios. Do litoral em direção aos sertões, seus limites eram dados pela Serra
antiga capitania do Rio de Janeiro, sendo caracterizada como um espaço de
do Mar e o Rio Preto, fronteira natural com a antiga Província das Minas
solidão, deserto ou sertão.7
Gerais, cobrindo o sul do Vale do Paraíba Fluminense.2 Esta região era con-
siderada, naquele período, como uma área de “sertões dos índios brabos”3
ou simplesmente “sertões”.
A região dos sertões dos “índios brabos” seria uma área imprecisa na
metade do século XVIII. Segundo a fonte abaixo, a região de Campo Alegre
fazia parte da área de sertões:
Dis Ignacio de Sousa Werneck Capitão do Distrito da Freguesia da N. da
Conceição do Alferez, que no ano de 1788 foi ale encarregado VS. Majestade
Ex.ma D. Luis de Vasconcelos, eram então Vice- Rei deste Estado de combater
os índios Bravos, que habitavam no “Certão” entre os Rios Paraíba, Preto os
quais donde frentes sortidas vindas para atacar os povos da Freguesia da Sacra
Família das outras vizinhas fazendo lhes muitas mortes [...]4

Podemos notar na fonte acima que as palavras “certão” e “índios bravos”


eram utilizados como referência à região de Campo Alegre da Paraíba Nova,
uma área ocupada pelos índios soltos e “considerados hostis”, sem o controle Mapa da região de Campo Alegre da Paraíba Nova e seus limites e fronteiras in: FREYCINET, Louis.
De Carte de la province de Rio de Janeiro Material cartográfico / par M. Louis de Freycinet,
do Estado português. Ou seja, uma terra ainda “inóspita, não civilizada” Escala [ca. 1:840000], 1824. – Disponível em: http://purl.pt/3426. Acesso em: 05/01/2011.
no modelo e princípios do final do século XVIII. Portanto, nesse período, a (Acervo: Biblioteca Nacional de Portugal).
área ainda não estava totalmente ocupada pelas frentes coloniais podendo 5 Bessa Freire e Marcia Fernanda Malheiros classificam como “índios urbanos”, “índios destribaliza-
dos” os que viviam como prestadores de serviços públicos e privados, inclusive na cidade do Rio
1 FREYCINET, Louis M. Carte de la province de Rio de Janeiro [Material cartográfico]. [S.l. : s.n.], de Janeiro. FREIRE , José Ribamar Bessa; MALHEIROS, Márcia Fernanda. Aldeamentos indígenas do
1824. 1 mapa: p&b, com traçados color. Escala ca. 1:840000. 25 Lieues moy de France (25 ao grau) Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Eduerj, 2010. p. 13. Disponível em: <http://www.taquiprati.com.br/
= (13,20 cm). 29,90 x 53,70 cm em folha de 50,20 x 67,90 cm. Disponível em: <http://purl.pt/3426>. arquivos/pdf /Aldeamentos2aedicao.pdf>. Acesso em: 4 jan. 2011.
Acesso em: 11 fev. 2011.
6 Segundo o Dicionário do padre D. Raphael, Bluteau, reformado e acrescentado por Antonio de
2 Idem. Moraes Silva do século XIX, a palavra “estanciar” significa “fazer estância, parar para descansar em
3 A detecção de “índios brabos” e soltos pelo sertão instigava um discurso sobre a necessária intervenção algum sítio. [...] Se estava longe de algum lugar onde determinava estanciar, alojar-se”. BLUTEAU,
da mão “civilizadora” da “sociedade civil” sobre eles, instituindo-se, a partir de então, religiosos, milita- Raphael. Diccionario da lingua portugueza. Reformulado e acrescentado por Antonio de Moraes
res e particulares na tarefa de contratá-los e “civilizá-los”. [...] Quando em 1767 o militar Manoel Vieyra Silva. Lisboa: Typographia Lacerdina, 1813. p. 560. O memorialista João Maia faz a referência dessa
Leão classifica os índios “soltos” do Rio de Janeiro como “brabos” e seu promissor território como palavra em seu livro quando tenta mostra localização dos índios puris na região: “assim como
“sertão”. MALHEIROS, Márcia Fernanda. “Homens da Fronteira”: índios e capuchinhos na ocupação toda a zona de ‘serra acima’ nesta província até os seus limites com São Paulo e Minas Gerais, [...]
dos sertões do leste do Paraíba ou Goytacazes, século XVIII e XIX. Niterói: Eduff, 2008. p. 39. e nessa região inculta, e ocupada em grande parte por índios estanciados em diversos pontos. João
4 ARQUIVO NACIONAL. Oficio de Ignacio de Sousa Werneck ao vice-rei Luis de Vasconcelos, sobre a Maia tentar demonstrar que os índios puris de Campo Alegre se localizam em diversos pontos
suposta violência dos índios na região do Rio Paraíba e Preto. Rio de Janeiro, [17--?]. Fundo vice-rei- da região onde permaneciam estacionados”. MAIA, João Azevedo Carneiro. Do descobrimento de
nado. Conjunto documental: correspondência de capitães-mores e comandantes de regimentos de Campo Alegre até a criação da Vila de Resende, 2. ed. Resende: CCMM, 1998. p. 14.
vilas do Rio de Janeiro. Caixa 484, pacote 2, 4º seção, 13º classe, série I, 4. Coleção 328 a 376. 7 MALHEIROS, 2008, p. 31.

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O fato de Campo Alegre ainda conservar aspectos de sertão em fins expõe os benefícios que essa produção pode trazer à população da capita-
dos setecentos, nos leva a constatação de que a chegada do conquistador e nia e os cuidados que se deve ter em relação ao extravio do ouro. De certa
a fundação da freguesia teria iniciado uma relação conflituosa entre colo- maneira, sempre ocorreu uma grande preocupação com a questão do con-
nizadores e indígenas, diga-se de passagem não muito diferente de outras trabando de ouro no Brasil, a criação das casas de fundição e dos registros
regiões da colônia. No entanto, mesmo antes dessa data, Campo Alegre já de ouro são fatos que comprovam esse cuidado.10 Contudo, a grande dife-
era visitada por bandeirantes que a utilizavam como rota para as áreas pro- rença da carta citada é o destaque dado ao autor à região de Campo Alegre
dutoras de ouro nas Minas Gerais.8 Ao analisarmos uma parte do relatório como sendo uma localidade que deveria ter um tratamento especial pela
do capitão Henrique José de Carvalho Queiros ao conde de Resende, perce- possível existência de ouro.
bemos que o dito capitão relata uma suposta descoberta de ouro na região Neste momento, cabe questionar no que o processo de descoberta de
de Campo Alegre, destacando sua importância: ouro na região de Campo Alegre contribuiu para a hostilidade dos coloniza-
No Vice Reinado do Exmº Sr Luiz de Vasconcelos viram a esta cidade era já dores para com os índios da região e a fundação do aldeamento de São Luis
vez na sua chegada a dar-lhe as boas vindas, e não faltei neste ponto; porém Beltrão? O próprio relatório do capitão Henrique José de Carvalho Queiros
vejo depois o guarda Mor Miguel Nunes Bernardes para tratar de matéria, e ao vice-rei nos dá alguns importantes indícios quando afirma a possibili-
de fato foi bem atendido, e esperançado dos mesmos sem suposto não deu dade da existência de ouro ainda no reinado do vice-rei conde do Cunha
a última decisão, porque já nesse tempo corria a noticia da vinda de V. Ex. e
parece que a gloria desta descoberta tão importante estava reservada para feliz (1763 a 1767)11 e de lavras antes da formação de povoados na região. O ouro
governo de V. Exª, e fazer felizes os Povos do Estado principalmente os desta seria, portanto, um dos fatores que poderiam explicar as primeiras levas de
Capital, por quanto não pode deixar de resultar um grande argumento ao Real povoadores e o aumento populacional na região, justificando, assim, sua
Erário, a ao Comercio; porque as Minas Gerais cada vez vão em maior deca- elevação à freguesia de N. S. da Conceição do Campo Alegre, pelo alvará
dência, e este descoberto há de vir substituir-lhe a sua falta, e como há contigo
as mesmas Minas, as providencias para evitar os extravios são as mesmas que de 2 de janeiro de 1757.12 Uma concentração populacional poderia ter ocor-
se observam nas Minas, só com a diferença que lá vão as partes meter o ouro rido diante de uma ocupação de colonos atraídos pelo ouro e pelo comér-
nas casas de fundição, e cá é necessário constituir um fiscal, que receba o ouro cio para abastecer os tropeiros e exploradores que passavam por Campo
das mesmas partes, e o faça remeter a casa da Moeda desta Capital debaixo de Alegre, além da necessidade de produção agrícola para atender a demanda
guias, lacrados e haver grande vigilância nas guardas de pago [...].9
de consumo das regiões produtoras de ouro das Minas Gerais diante da
Como podemos notar, o capitão relacionava a relevância da desco- proximidade com o Caminho Real, Caminho do Ouro ou Caminho Velho
berta de “ouro” aos benefícios que a mesma traria ao erário real. Além
disso, narrava a decadência da produção de ouro em Minas Gerais e como
essa descoberta poderia favorecer a capitania o Rio de Janeiro e a região de
Campo Alegre que intensificariam as atividades comerciais. Esse relatório 10 Sobre a questão do contrabando de ouro na região do Vale do Paraíba, Maria de Lurdes Zuquim, em
seu trabalho, pontua: “[...] se abria em vários caminhos que atravessavam a serra da Mantiqueira,
rumo a Minas Gerais [...]. A Coroa portuguesa tentou por vários meios controlar e fiscalizar a cir-
culação desses produtos. Para evitar o contrabando, que logo surgiu e cresceu rapidamente, foram
8 “[...] vem ainda hoje vestígios de lavrados em alguns ribeirinhos muito antes de se fundar a Povoação,
construídas Casas de Registro em pontos cuidadosamente escolhidos. [...] em 1695, foi criação da
porém como naqueles tempos havia muito ouro divertiam-se os mineiros para entrar diversas partes
primeira casa de fundição, em Taubaté, para controlar a arrecadação do crescente fluxo de ouro das
entrando e saindo com expedições, a que vulgarmente chamavam Bandeiras”. QUEIROS, Henrique
José de Carvalho - capitão. [Fragmento da Carta ao Vice Rei, Rio de Janeiro 8 de Fevereiro de 1791]. Minas para o Porto de Paraty pelo Caminho do Ouro [...]. ZUQUIM. Maria de Lurdes. Os caminhos
Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1791. Fundo SDH: diversos códices. Conjunto documental: coleção do rural: uma questão agrária e ambiental. São Paulo: Ed. Senac, 2007. p. 27-28.
de memórias e outros documentos sobre vários objetos. Códice 807, v. 5, p. 106. 11 ZUQUIM, loc. cit.
9 ARQUIVO NACIONAL. Relatório do capitão Henrique José de Carvalho Queiros ao vice-rei. In: 12 A localidade, atual município de Resende, foi batizada em honra a Nossa Senhora da Conceição de
___. Coleção memória: vice-reinado – cópia e mais papéis de Campo Alegre, sobre terras mineiras Campo Alegre, recebendo predicamento de freguesia dez anos após a sua construção, pelo Alvará
(Rio de Janeiro, 8 de fevereiro de 1791). Rio de Janeiro, 1791. Fundo SDH: diversos códices. Conjunto de 2 de janeiro de 1757. Ver: ANUÁRIO Geográfico do Estado do Rio de Janeiro. 11. ed. Rio de Janeiro:
Documental: Coleção de memórias e outros documentos sobre vários objetos. Códice 807, v. 5, p. 106. Departamento de Geografia, 1958. p. 228.

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do ouro.13 Veja no mapa abaixo o Caminho do Ouro, também conhecido pagamento de impostos sobre o que fosse encontrado. Tal medida, de certa
como Caminho Real.14 maneira, facilitou o aumento da população nas áreas produtoras, a possibili-
Esse processo de ocupação se manteve até a metade dos oitocentos, dade de contrabando,17 e os atritos com os índios puris. O aumento popula-
levando o aumento dos atritos entre os colonizadores e os índios, principal- cional nessa área e regiões mineiras gerou também conflitos entre diferentes
mente da etnia puri. Uma das hipóteses deste artigo é que, a intensificação etnias indígenas. O fato foi assinalado por Joaquim Norberto em seu livro
de tais conflitos ocasionou a fundação do aldeamento de São Luis Beltrão Memória histórica das aldeias do Rio de Janeiro quando citou que os puris se
na localidade de Campo Alegre, capitania do Rio de Janeiro. A intenção era deslocaram para a região de Campo Alegre fugindo dos índios botocudos de
reduzir os índios e controlar as etnias que habitavam as proximidades da Minas Gerais. Portanto, o aumento de indígenas e colonos na região foi, sem
freguesia, principalmente os puris, além dos coroados, estes bem menos dúvida, um catalizador de conflito em Campo Alegre.
numerosos naquela extensa região. Como afirma Joaquim Norberto Silva e Sousa, o deslocamento dos boto-
Podemos notar no mapa acima a proximidade dos caminhos oficiais cudos desencadeou conflitos com os próprios puris da Serra da Mantiqueira
em relação a Campo Alegre, de onde surgiram várias trilhas e picadas que que, por sua vez, se deslocaram para as regiões mais baixas de Campo Alegre:
iam pelo Vale do Paraíba e pela Serra da Mantiqueira em direção às regiões
Os Puris obrigados a deixarem a serra da Mantiqueira pelos Butucudos, asso-
mineiras.15 lavam as povoações vizinhas dos Campos Alegres apresentando uma atti-
Sobre a procura de ouro na região, o capitão Henrique José de Carvalho tude tão hostil e ameaçadora pela sua erupção, que o pavor tornou-se geral.
Queiros faz os seguintes apontamentos: Assustando os fazendeiros com suas depredações, pelos assassinatos que viam
commeter diariamente em pessoas de sua família ou conhecimento, aban-
[...] às despesas se podem evitar em muitas partes observando-se o regimento donaram as suas fazendas situadas a margem septentrional do Parahyba os
das terras Mineiras que se pratica em Minas; e este é o verdadeiro sistema indios, acoroçoados com este triumpho, redobraram de animo e vieram per-
deixar o Povo na liberdade de procurar ouro, porque que lhe fará as despesas segui-los na margem opposta do rio, mais audazes ff atrevidos do que nunca.
á sua custa.16 Convinha represar a torrente de tantas hostilidades apresentando-lhes oppo-
sição forte e apoiada nas armas, mas então a intervenção da religião não devia
O capitão aconselha o vice-rei conde do Cunha a fazer uso do regimento ser esquecida como foi, para opprchrio da civilisação [...].18 [grifos nossos].
das terras mineiras que previa a liberdade da população da exploração do
ouro. Essa medida se pautava na economia que proporcionaria ao erário O registro do autor é datado no século XIX, portanto, ressalta a visão
real, pois as despesas ficariam a cargo dos próprios exploradores mediante à dos índios em posição de agressores e dos donos de terras como vítimas
dessa agressão. Norberto, assim como outro memorialista João Maia
13 A Coroa procurou transformar o Caminho do Ouro, ou Caminho Real, como a única estrada ofi-
Azevedo Carneiro,19 mantém o relato de que os puris foram obrigados a
cial – a única via por onde a Coroa portuguesa autorizava que fosse transportado o ouro extraído
das Gerais. Porém existiam outros caminhos – Parati era a principal estrada terrestre para a serra deixar os sertões da Mantiqueira, indicando que a expansão colonial colo-
da Mantiqueira, rumo às Minas, pelo “Caminho Velho”, “Trilha dos Mineiros”, “Trilha do Ouro”, cava em cheque os territórios indígenas. Os puris, então, se deslocaram
ou ainda pelo “Caminho ou Trilha do Facão”. A trilha do Facão partia de Parati, atravessava a Serra
do Mar pela serra da Quebra Cangalha, até os Campos de Cunha e alcançava o Vale do Paraíba em até se estabelecerem na margem setentrional do Paraíba, a cinco léguas do
Guaratinguetá, em uma picada de 95 km, depois abria-se em várias caminhos que atravessava a Campo Alegre, em um sítio chamado Minhocal nas margens do Ribeirão
Serra da Mantiqueira, rumo a Minas Gerais”. ZUQUIM, op. cit., p. 27, 29.
14 LURDES. Maria de. Caminho real do ouro, Caminho Velho, ou caminho do ouro. 1 mapa. Escala 17 Sobre rotas clandestinas de ouro, Pizarro afirma que: “[...] Patenteada, porém à poucos annos uma
indeterminável. Disponível em: <http://diretoriomonarquicodobrasil.blogspot.com/2010/12/ picada, que das terras mineraes, e serra da Mantiqueira vinha occultamente à esse termo, e passava
paraty-estrada-real-reviva-os-bons.html>. Acesso em: 08 abr. 2011. por junto da Aldeã às margens daquelle Rio”. PIZARRO, José de Souza Azevedo. Memórias históricas
15 Ibid. do Rio de Janeiro e das províncias annexas a’jurisdição do Estado do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa
Régia, 1820. t. V, v. V.
16 QUEIRÓS, Henrique José de Carvalho – capitão. [Fragmento da carta ao vice-rei. Rio de Janeiro,
8 de fevereiro de 1791]. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1791. Manuscrito. Fundo vice-reinado. 18 SILVA, Joaquim Norberto Souza. Memória histórica e documentada das aldeias de índios da pro-
Conjunto Documental: Correspondência de capitães-mores e comandantes de regimentos de vilas víncia do Rio de Janeiro... RIHGB, Rio de Janeiro: IHGB, v. 17, 3. série, n. 14, p. 243, 1854.
do Rio de Janeiro. Caixa 484, pct. 1, folha 106. 19 MAIA. João Azevedo Carneiro. Do Descobrimento de Campo Alegre até a Criação da Vila de Resende.

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São Luis,20 afluente do Rio Preto. Segundo o autor, por volta de 1780, estes De porte acaçapado [...] – Von Spix e Von Martins
índios começaram a realizar ataques às fazendas21 até que foram reduzidos Geralmente muito Baixos [...] – Eschwege Wilhem Ludwig Von
oficialmente ao aldeamento de São Luis Beltrão, na fronteira com a provín- Pequenos como nas outra partes [...] – Manoel Aires Casal
cia das Minas Gerais. De Corpo apoquentado [...] – Manoel Aires Casal
Pequena Estatura [...] – Joaquim Norberto25
a presença dos índios puris
em campo alegre da paraíba nova Entretanto, o príncipe Maximiliano, em sua observação sobre a ques-
tão da pequena estatura dos puris, afirmou: “devo confessar que nenhuma
Sobre a origem do nome “puri”,22 segundo Freire e Malheiros, afirmam diferença nesse particular observei entre os Puris e as outras tribos”.26
ser esta uma designação pejorativa dada pelos índios coroados. Teodoro Observação essa que difere dos registros de outros pesquisadores da época.
Sampaio, segundo o verbete de Métraux, analisa etimologicamente a pala- O que podemos presumir dessas impressões é que havia uma grande hete-
vra puri que designa: “povo miúdo, gentinha, fraco, de pequena estatura”.23 rogeneidade nas populações indígenas em vários aspectos, não se limitando
A descrição etimológica de Sampaio confirma, portanto, o que dizem Bessa apenas ao físico. Algumas dessas diferenças poderiam ser frutos da contra-
Freire e Márcia Malheiros ao pontuarem: dição analítica entre as diversas narrativas de cronistas e viajantes, inclusive
O nome Puri é uma designação pejorativa dada a eles pelos Coroado. Os confundindo-as no momento de classificá-las, a exemplo do que ocorrera
Puris, Telikong ou Paqui, estavam divididos em pelo menos três sub-grupos: com os coroados. Segundo Norberto, o termo “coroado” passou a desig-
Sabonan, Uambori e Xamixuna, que ocupavam um território na área do rio nar toda a tribo que utilizasse um corte de cabelo característico que lem-
Paraíba e Serra da Mantiqueira. No séc. XVIII, antes de serem vendidos como brasse uma coroa: “No Rio de Janeiro o nome de Coroado foi generalizado
escravos foram estimados em mais de 5.000 índios. No séc. XIX, foram aldea- a todos os selvagens que se distinguiam pela maneira de cortar o cabello”.27
dos em São Fidelis e na Missão de São João de Queluz, registrando-se 655
Ainda segundo Saint-Hilaire, o nome coroado foi dado pelos portugueses
índios Puri em Resende, em 1841. Em 1885, Ehrenreich localiza remanescentes
Puri no baixo Paraíba.24 aos índios que tinham o hábito de “cortar os cabelos no meio da cabeça, à
maneira dos nossos sacerdotes, ou seja, antes, de não conservar mais do que
Conforme a narrativa acima, temos a impressão de que o povo puri uma calota de cabelos, como fazem ainda hoje os botocudos”.28
era uma etnia possuidora dos mesmos atributos físicos que as demais Devemos ressaltar que apesar da grande diversidade, fruto de uma classi-
etnias que viviam na capitania do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX. ficação confusa dos viajantes e cronistas do século XIX, os coroados aos quais
Existem diversas outras descrições físicas dos índios puris, mas a descrita nos referimos são aqueles que eram linguisticamente vinculados ao tronco
por Métraux acabou se generalizando. Segundo Paulo Pereira dos Reis, a macro-gê, que Marcelo Sant’Ana Lemos adota como da família Puri-Coroado,
pequena estatura dos Puris em relação a outros etnônimos fazia com que proposto por André Metraux.29 Bessa e Malheiros também classificam de
vários autores os descrevessem como frágeis e pequenos:

20 Ibid., p. 14. 25 REIS, 1979, p. 69.


21 REIS, Paulo Pereira dos. O indígena do Vale do Paraíba: apontamentos históricos para os estudos 26 WIED-NEUWIED, Maximiliano Alexandre Philipp. Viagem ao Brasil. Tradução de Edgar Süssekind
indígenas do Vale do Paraíba Paulista e regiões circunvizinhas. São Paulo: Governo do Estado de de Mendonça e Flávio Poppe de Figueiredo. São Paulo: Nacional, 1940. p. 108. (Coleção Brasiliana).
São Paulo, 1979. p. 102. 27 BLUTEAU, 1813, p. 88.
22 FREIRE; MALHEIROS, 2010, p. 17. 28 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem às nascentes do Rio São Francisco. Belo Horizonte: Itatiaia; São
23 “O Puri era um nome pejorativo concedido a eles pelos Coroados”. MÉTRAUX, Verbete purys, p. 534 Paulo: Edusp, 1975. p. 38.
apud SAMPAIO, Teodoro Fernandes. O tupi na geografia nacional. 3. ed. Salvador: Seção Gráfica da 29 LEMOS, Marcelo Sant’Ana. O índio virou pó de café? A resistência dos índios coroados de Valença
Escola de Aprendizes Artífices, 1928. frente à expansão cafeeira no Vale do Paraíba (1788-1836). 2004. Dissertação (Mestrado em História)
24 FREIRE; MALHEIROS, 2010, p. 13, 17. Disponível em: <http://www.taquiprati.com.br/arquivos/pdf/ – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de
Aldeamentos2aedicao.pdf>. Acesso em: 4 de jan. 2011. Janeiro, 2004. p. 50.

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coroados aqueles índios pertencentes à família Puri, que habitavam as ramifi- Os índios, em geral, são de estatura pequena; a cor é um amarello pardo -
cações da Serra do Mar e os vales dos rios Paraíba, Pomba e Preto.30 não cor de cobre como se costuma contar; o cabello é liso e preto; o olho é
um pouco obliquo, de uma cor negro-bruma e, os ossos sygomatico salientes
Nesse aspecto, remeteremos às impressões do naturalista Von Martins
constituem caráter essencial. O seu corpo não é avantajado porque parte infe-
que verificou em seu trabalho que os índios brasileiros apresentavam uma rior do tronco e de ordinário grosso, as pernas finas e a cabeça grande. São
grande diversidade de caracteres físicos: “[...] alguns altos e baixos, esbeltos tidos como imberbes porque extirpam cuidadosamente todos os pellos que
e corpulentos, vermelhos acobreados amarellados e até brancos, com pouca apparecem e [...] tem sempre menos barbas e pellos do que os portugueses.35
barba ou se constantemente não a depilam, apresentam-na regulamente
O viajante Freireyss narrou seu encontro de três tribos: a primeira de
basta”.31 Von Martius, assim como Von Spix – que também teve contato com
“Coroados com cerca de 2.000 mil pessoas morando em residências fixas,
os puris, coropós e coroados –, afirmava a existência da diversidade física
uma de Puris com aproximadamente 500 membros e outra de Coropós
dos índios ao mesmo tempo em que generalizava suas descrições antropo-
com 200 índios, localizados as margens do rio Pomba, um afluente do rio
lógicas.32 Assim, os ditos naturalistas em suas viagens pelo Brasil fizeram
Paraybuna”.36 O naturalista fez questão de pontuar em seu relato o ódio em
uma descrição abrangente, mas detalhada sobre essas etnias, às quais pode-
que viviam essas comunidades em relação ao homem branco, fazendo seve-
mos recorrer como fonte histórica:
ras críticas de como o homem branco tratava os índios. Outra ponderação
Os índios são baixos ou de estatura mediana; os homens tem quatro a cinco pés que Freireyss fez em relação aos puris e coroados foi que os primeiros eram
de altura, as mulheres em geral, pouco mais de quatro pés; todos têm corpos sempre mais fortes do que os coroados.37
robustos, largos e acaçapados. Só raramente, se acha entre êles alguns de esta-
Analisando esses autores e cronistas, percebe-se que existem divergên-
tura alta, esbelta. Têm espáduas largas, pescoço curto e grosso. [...] as extremi-
dades são pequenas, as inferiores não são polpudas; são sobretudo, franzinas as cias em suas falas, fato muito natural se tratando do estudo de uma nação
barrigas e pernas e as nádegas; as superiores são arredondadas e musculosas. O indígena já extinta e da qual há grande carência de registros. O mesmo
pé é estreito no calcanhar, muito largo na frente, o dedo grande aparta-se dos ocorre quando analisamos os apontamentos de Manuel Martins do Couto
outros; [...] o colorido da tez é vermelho cúprico, mais ou menos carregado, Reys, engenheiro militar que percorreu várias regiões dos sertões da capi-
diferençado-se segundo a idade, a ocupação e estado de saúde do indivíduo [...]
tania do Rio de Janeiro nos séculos XVIII e começo do XIX. Reys descreveu
Em geral são de cor tanto mais escura, quanto mais robusto e ativos.33
os puris da seguinte forma: “são estes índios assas corpolentos, audazes,
Outro naturalista, o alemão Georg W. Freireyss, viajante entre os anos destemidos, vigilantes, e de máximas muito atraiçoadas, inclinados a toda
de 1814 e 1815, conheceu a região das Minas Gerais e deixou um manuscrito a deshumanidade, dando morte a qualquer vivente que encontram, seja ou
de 91 páginas no qual fazia relatos sobre os índios puris e coropós localiza- não irracional, ainda que os não ofendam”.38 Como se vê, Couto Reys con-
dos próximos ao presídio de São Batista em Minas Gerais. Suas observações tradiz a maioria das descrições de outros observadores ao relatar a condição
possuem grande riqueza de detalhes no que compete a essas etnias.34 física corpulenta dos puris, além disso, Couto Reys também atentava para
as características dos índios puris como violentos e de atitudes desumanas
30 A família Puri era subdividida em vários grupos, entre os quais, Maritong, Cobanipaque, Tamprun
e Sasaricon. FREIRE; MALHEIROS, 2010, p. 8.
31 REIS, 1979, p. 61.
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo: Tipografia do Diário Oficial, v. VI (1900-
32 Esses naturalistas generalizaram essas etnias “pelo menos em seus traços predominantes aos indi-
1991), p. 236, 1902.
víduos dos subgrupos acima apontados. Von Spix e Von Martius escreveram: “Todos os índios que
chegaram a conhecer aqui (M. G.), das tribus dos Puris, Coropós e Coroados pouco se diferençavam 35 Ibid., p. 237 e 239. Segundo Freireyss , “havia muito tempo que pretendia observar esses selvagens em
entre si na conformação do corpo e nas feições”.REIS, loc. cit. suas condições naturaes e com esse objetivo, deixei a Vila Rica, em 14 de dezembro de 1814”.
33 SPIX, J. B. V.; MARTIUS, K. F. P. V. Viagem pelo Brasil. Tradução: Lúcia Furquim Lahmeyer. Rio de 36 Ibid., p. 239
Janeiro: Imprensa Nacional, 1938. v. 37 Ibid., p. 350
34 FREIREYSS, Georg Wilhelm. Viagem a várias tribos de selvagens na Capitania de Minas Gerais; 38 MANUSCRITOS de Manuel Martins do Couto Reys, 1785. Rio de Janeiro: Arquivo Público do Rio de
permanência entre elas, discrição se seus usos e costumes. Tradução de Alberto Lotgren. Revista do Janeiro, 1997. p. 72.

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em seu relato – violência que justificou o conflito que gerou o aldeamento desaparecimento dos índios na região de campo alegre
de São Luis Beltrão em 1788.
Paulo Pereira dos Reis,39 ao comparar vários pesquisadores como Os conflitos entre índios e colonizadores se acentuaram no século XVIII.
Freireyss, Toledo Piza, Alfred Métraux e Paulo Ehrenreich, conclui que a Como afirma Lemos,41 “serra acima”, nas regiões litorâneas já ocupadas
pelos luso-brasileiros, já havia neste período uma grande parte dos índios
origem dos índios puris, coroados e coropós seria ligada aos grupos nati-
mergulhados em um processo de destribalização e caboclismo,42 portanto,
vos que nos primeiros séculos de colonização foram chamados generica-
misturados na sociedade tida como “civilizada” do colonizador português.
mente de “tapuias”, índios do sertão, ou tupis no litoral. Isto ocorreu por-
Desta forma, “o aumento de conflitos ‘serra acima’, revela um choque de
que a diversidade dos índios da colônia portuguesa era reduzida a apenas
fronteira, onde o sertão não é mais um espaço vazio e desconhecido a
dois grupos. Os tapuias eram aqueles desconhecidos para os europeus, com
ser conquistado”.43 Um choque de fronteiras entre diferentes sociedades,
cultura e língua diferentes daquelas etnias que viviam no litoral (os tupis).
uma ligada ao mundo “civilizado” e luso-brasileiro e outra ao sertão dos
Desta forma, tanto os puris, coropós e coroados eram conhecidos no uni-
“índios bravos”. Na história colonial da américa portuguesa, as fronteiras
verso étnico dos primeiros anos de colonização como tapuias. Nesse con-
foram disputadas entre as sociedades indígenas e a sociedade luso-brasi-
texto, Luciana Maghelli, em seu trabalho, conclui:
leira. Tratou-se, portanto, não só de uma fronteira agrícola econômica ou
[...] os Puri, Coroado e Coropó, pertenciam ao tronco lingüístico Macro-Gê comercial, mas também uma fronteira social, estabelecida a partir da dis-
e não ao Tupi. Também conhecidos como ‘Tapuia’, os índios pertencentes ao puta entre culturas com modos diferentes de vida.44
tronco Macro-Gê, sempre foram vistos por colonos e colonizadores como
inimigos, selvagens, destituídos de qualquer traço de humanidade. Ao con-
Os conflitos não cessaram em Campo Alegre no século XVIII. A pre-
trário daqueles pertencentes ao tronco Tupi que, exatamente em razão de sença constante de sociedades indígenas e suas relações com o mundo
terem se aliado mais facilmente aos portugueses, foram muito mais fácil e colonizador podem ser sentidas de diversas formas: “correrias” (conflitos
rapidamente dizimados. Somente o selvagem Tapuia ousara sobreviver em diretos); aldeamento imposto; recuo dos índios para florestas ainda não
pleno século XIX.40
exploradas; invasão e expulsão dos colonos de suas fazendas; etc.45 Além
Observando tanto os autores citados quanto os relatos de viajantes do disso, os inúmeros pedidos de concessão de sesmarias para a região,46 no
século XVIII e XIX, concluímos que os ameríndios que viviam na região do começo do século XVIII, apontam o crescimento dos interesses portugueses
Médio Vale do Paraíba eram nitidamente vistos como diferentes daque- e assinalam a expansão luso-brasileira em direção aos “sertões dos índios
les que viviam no litoral e de origem genérica distinta dos tapuias, sur-
gindo, então, o reconhecimento de diferenças étnicas e contrastes desses 41 LEMOS, 2004, p. 25.
índios de tronco linguístico macro-gê, que passaram a serem reconhecidos 42 Destribalização foi conceituado por Bessa Freire e Márcia Malheiros como “índios urbanos” que
viviam como prestadores de serviços públicos e privados, inclusive na cidade do Rio de Janeiro.
como etnias com identidade cultural própria por parte dos colonizadores FREIRE; MALHEIROS, 2010, p. 13. Sobre o conceito de caboclo, utilizaremos a definição dada por João
luso-brasileiros. Desta forma, mesmo pertencendo ao tronco linguístico Pacheco de Oliveira. Para o antropólogo, o termo “pardo” incluía os mestiços em geral, os índios
foram localizados na categoria de“caboclos” – OLIVEIRA, João Pacheco de. Ensaios em antropologia
macro-gê e habitando a região de Campo Alegre – mesma localidade dos histórica. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1999. p. 138.Vânia Maria Losada Moreira utiliza essa definição
coroados e coropós – os puris possuíam uma identidade cultural e um uni- em seu trabalho intitulado Guerra e paz no Espírito Santo: caboclismo, vadiagem e recrutamento
militar das populações indígenas provinciais (1822-1875). In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA:
verso social diferenciado, fruto das interações com outros grupos étnicos. GUERRAS E ALIANÇAS NA HISTÓRIA DOS ÍNDIOS – PERSPECTIVAS INTERDISCIPLINARES, 23.,
2005, Londrina. Anais... Londrina: Anpuh, 2005. p. 4.
43 LEMOS, 2004, p. 25.
39 REIS, 1979. 44 LEMOS, loc. cit.
40 MAGHELLI, Luciana. Aldeia da pedra: estudo de um aldeamento indígena no Norte Fluminense. 45 Ibid., p. 33.
Dissertação (Mestrado em História Social) – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível 46 ARQUIVO NACIONAL, Fundo Sesmarias, Processos de diversas naturezas referentes a concessão de
Superior, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2000. p 121-122. terras. Código do Fundo BI, período 1714 a 1888, microfilme nº NA 031-2005.

170 171
brabos” e ao patrimônio dos índios nas terras de São Luis Beltrão. É nesse de redução dos índios levada a cabo pelo projeto do Estado português nos
panorama que se dá a fundação do aldeamento de São Luis Beltrão que, ao tempos do Diretório Pombalino e no período da Viradeira.
mesmo tempo, pretendia “amansar os índios”, tomar posse da terra e efeti- O cerco aos índios puris na freguesia de Campo Alegre também foi
var a presença portuguesa na região. resultado de uma política de estímulos à formação de aldeamentos, ocorrida
Na busca pela posse da terra e a expansão das fronteiras agrícolas, a partir do meado do século XVIII, com o objetivo de diminuir e controlar
Campo Alegre fica praticamente loteada por sesmarias que, com a desculpa os conflitos, reduzir a mobilidade dos índios para favorecer a posse da terra
de serem terras devolutas, foram solicitadas por inúmeras pessoas como pelos colonizadores e garantir a expansão das fronteiras em direção à região
Francisco Manuel da Silva Melo que pleiteou uma sesmaria em 1798, em dos sertões. Assim, em 1835, o aldeamento foi elevado à categoria de freguesia
Rio Negro, na freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Campo Alegre: com o nome de São Vicente Ferrer. Como afirma Manuela Carneiro Cunha,
a política indigenista do século XIX estava muito mais ligada à expropriação
Ilmo Exº. SM.
das terras indígenas do que a sua redução em mão de obra. Desta forma, a
Informe a Sr. Chanceler ouvido por escripto ao Sr Procurador da Câmara. perda progressiva de terras e a diminuição da participação como força de
Diz Francisco Manoel da Silva de Melo, Cap.ª do Regimento de Estrª. desta trabalho na região podem ser dois dos fatores pelos quais ocorreu o desapa-
Praça, q lhe tem possibilidade e força para poder estabelecer uma fazenda de
creações e cultura, e por que tem a certeza q no Distrito de Campo Alegre se
recimento do índio nos documentos oficiais. Essa progressiva invisibilidade
achão terras devolutas no novo caminho que se abril para Minas, nas margens dos índios nesses documentos, não representava que eles tenham desapare-
do rio Negro entre as terras dos índios da Aldeia de São Luis, correndo sua cidos da região, pois continuavam a ser detectados pela população local. Era
medição, pelo Rº acima e pelo Rio abaixo, Rogo a Vs Exª lhe faça a mercé de muito mais uma forma encontrada pelo Estado imperial brasileiro de não
conceder a Sesmarias duas legos de terras completas com os seus respectivos reconhecer as terras dos índios, no caso o antigo aldeamento de São Luis
Sertons. Para Vs Exª seja conceder lhe a dita Sesmaria. E R M.47
Beltrão, a partir do momento em que os puris se tornassem oficialmente
O documento acima, um pedido de sesmaria à sua majestade, foi feito extintos, do que o seu desaparecimento de fato. No entanto, o não registro
por um militar, o que era uma prática comum na época após a realização de dos índios na região nesses documentos demonstrava a diminuição de sua
algum feito em benefício da Coroa. Merece destaque, ainda, o fato de que importância para o projeto de dominação do Império brasileiro em Nossa
as terras solicitadas estavam nas proximidades do aldeamento de São Luis Senhora da Conceição de Campo Alegre da Paraíba Nova, que naquele
Beltrão, o que mostra o avanço das fronteiras agrícolas em direção às áreas momento já tinha sido elevado à categoria de vila com o nome de Vila de
de sertões em Campo Alegre, fato que ocorreu em todas as áreas de “sertões Resende em 1801. Ou seja, se não são mais importantes, não precisam ser
dos índios brabos” da capitania do Rio de Janeiro. mais registrados, o que não significa que tenham desaparecido de todo.
Podemos observar em várias fontes primárias que São Luis Beltrão Ao analisarmos a documentação como cartas entre autoridades, decre-
possuía uma população bastante volátil. A quantidade de nativos neste tos, relatórios de militares e funcionários, requerimentos de sesmarias, a
aldeamento se modificava a cada ano, tanto pelas condições de sobrevivên- partir da década de 30 do século XIX, podemos perceber que os índios puris
cia interna quanto por fatores externo, como o aumento das áreas de ses- passaram a ser citados cada vez menos nos documentos oficiais. À primeira
marias que peticionavam o patrimônio dos índios de São Luis Beltrão. São vista, tal fato significaria um processo de extinção da etnia na região. Um
Luis Beltrão foi a única área destinada aos índios reconhecida da região até documento datado de 1855 classificava que o número de pessoas considera-
a fundação dos aldeamentos de Valença e de Conservatória do Rio Bonito, das indígenas na freguesia era de apenas 43,48 demonstrando sua diminui-
ambos ligados à etnia coroada e também fundados a partir de uma política ção drástica e indicando o desaparecimento das etnias na região. Contudo,
o mesmo documento apresenta esses indígenas misturados à população
47 MELO, Francisco Manoel da Silva. Pedido de sesmarias. Rio de Janeiro: Informativo da Câmara do
Rio, 3 jul. 1798. Notação: BI 15. 144. Códice BI, Microfilme NA 031-2005. 48 [Sem título]. Rio de Janeiro: APERJ, 1855. Fundo PP, notação 0126, maço 7, caixa 0044.

172 173
geral,49 sendo reconhecidos como caboclos, ou pardos já miscigenados. Os Hoje, no distrito de Fumaça, em Resende, onde estão localizados
livros de batismos da matriz de São Vicente Ferrer também reconhecem a antiga Igreja de São Vicente Ferrer e o antigo aldeamento de São Luis
várias pessoas como pardas,50 que, segundo João Maia, seria “pardos pegos Beltrão, alguns habitantes ainda se colocam como descendentes dos antigos
no mato”.51 Foi, portanto, através destes artifícios que criou-se o “paradigma índios puris e chamam de “Aldeias” aquela localidade, o que mostra como
da extinção”, tornando os índios desta região invisíveis nos documentos ainda permanecem vivos na memória popular os significados do aldea-
oficiais52 referentes ao antigo aldeamento de São Luis Beltrão e à região de mento da antiga Nossa Senhora de Campo Alegre da Paraíba Nova.
Campo Alegre da Paraíba Nova.

considerações finais
Baseado em fontes da época, João Maia afirmou que o último puri (ou pelo
menos reconhecido como tal) se chamava Victoriano Bori Santará, por
nome de batismo, e possuía cerca de oitenta anos quando faleceu em 1864. O
conjunto de fontes analisado para esta pesquisa aponta a presença de índios
em Campo Alegre, alguns inclusive na Vila de Resende. Os livros de batis-
mos, por exemplo, demonstram que os índios ainda viviam na região, pois a
palavra “pardo” aparece com frequência, designando um abrupto processo
de miscigenação do índio puri com o homem branco, mas não sua inexis-
tência. Ao contrário, muitas fontes oficiais produzidas pós-1830 induzem a
crer que os índios desapareceram de Campo Alegre, que realmente entram
em processo de extinção, sendo assimilados à sociedade branca, agora
Imperial, perdendo seus traços culturais ou acaboclando-se. Contudo, num
movimento oposto que valoriza a memória e não o esquecimento, devemos
citar as narrativas históricas acerca do aldeamento de São Luis Beltrão, dos
índios puris, feitas por parte da população do sul do Vale do Paraíba, prin-
cipalmente das atuais cidades de Resende, Itatiaia e Porto Real. Muito desta
herança, passada de geração em geração, chega aos nossos dias através dos
nomes puris dado às ruas, praças, clubes e até jornais, onde antigas lendas
puris ainda são contadas no universo folclórico da região.

49 MAIA, 1998, p. 21.


50 LIVRO de batismo da paróquia de Nossa Senhora de Fátima – antiga São Vicente Ferrer. [S.l.: s.n.]:
1884. Livro I, p. 2.
51 Segundo João Maia: “Nos assentamentos de batismos do Vigário Henrique José de Carvalho encon-
tram-se algumas notas de batizados de menores com essa declaração singular: “apanhado no mato”
– o que faz presumir que era de costume irem moradores ao sertão à caça de crianças para sujeitá
-las ao serviço, fazendo muito favor de mandá-los batizar”. MAIA, op. cit., p. 21.
52 MALHEIROS, 2008, p. 3.

174 175
Da colonização do Vale à formação de uma família: lavrador e comerciante, na localidade que surgia de Nossa Senhora do Pilar
do Iguaçu. As suas atividades iniciais no Rio de Janeiro eram de comer-
uma introdução à história dos Werneck ciante, porém há poucas informações sobre a vida deste imigrante, tor-
e suas estratégias matrimoniais nando-se nebuloso tanto conhecer suas origens quanto saber no que traba-
lhava antes de mudar-se para o interior. Após migrar para Pilar do Iguaçu,
Lucas Gesta Palmares Munhoz de Paiva como já possuía escravos, provavelmente se dedicou à produzir alimentos
para as grandes fazendas e o núcleo urbano da cidade do Rio de Janeiro.
As atividades comerciais no Rio de Janeiro e aquelas praticadas em Pilar
do Iguaçu lhes permitiram o contato com a família do sesmeiro português
Manuel de Azevedo Matos, um comerciante e minerador,1 estabelecido na
freguesia de Nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo. Manuel Matos
transitava constantemente pelo Caminho Novo e todos os anos descia ao
Este trabalho pretende mostrar a relação entre a colonização do Vale do Rio de Janeiro para “dispor de produtos da mineração e adquirir outros
Paraíba fluminense e o surgimento de um poderoso ramo familiar na para trançá-los por aqueles”.2 Nesse ínterim, conheceu e se casou, em 16 de
região, os Werneck. Através da figura de Ignácio de Souza Werneck, consi- dezembro de 1733, na freguesia da Candelária, com Antônia Ribeira,3 filha
derado o patriarca da família, observamos as relações da Coroa portuguesa de João Berneque, já na condição de fazendeiro. O consórcio veio unir a
com ramos familiares recém chegados à região no início de sua coloniza- riqueza e status oriundos da mineração e do comércio, com a riqueza e
ção. Foram os serviços prestados por alguns de seus indivíduos ao Estado status de uma família produtora agrícola, possuidora de terras e escravos.
português que lhes facilitaram a aquisição de sesmarias, prestígio político, Em meados do século XVIII, Manuel de Azevedo Matos irá se fixar na
social e econômico, ao mesmo tempo em que contribuíam para a funda- região do Vale do Paraíba como fazendeiro e agricultor.4 Segundo perce-
ção do município de Valença e a colonização de diversas regiões vizinhas. bemos na documentação, Manuel Matos ainda estava envolvido nas ati-
Portanto, é possível afirmar que a expansão das fronteiras trouxe o forta-
vidades de mineração, de acordo com um documento em que seu filho,
lecimento social, político e econômico de Ignácio Werneck e sua família.
É objetivo deste artigo demonstrar, através da trajetória do ramo fami-
1 Natural da freguesia de Nossa Senhora da Piedade da Ilha do Pico, veio para o Brasil na primeira
liar Werneck, que Vale, cidade e família cresceram juntos em princípios metade do século XVIII, instalando-se em Nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo, para
do século XVIII, através da interdependência com a Coroa. Numa zona de dedicar-se à mineração.
João Fragoso também comenta a figura de Manoel de Azevedo Matos, como comerciante que con-
fronteira agrícola aberta, o caráter prematuro de chegada à região foi deci- verteu sua acumulação mercantil em fazendas escravistas. Ver: FRAGOSO, João. Homens de grossa
sivo para a consecução de grande poder familiar. Desta forma, analisare- ventura: acumulação mercantil e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
mos, ainda, como a teia social formada através de casamentos endogâmicos Arquivo Nacional, 1992. p. 365.
2 WERNECK, André Peixoto de Lacerda. [Sem Título]. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 21 nov.
e exogâmicos com as famílias ricas da região propiciaram riqueza, prestígio 1909. Biblioteca Nacional — Sessão de periódicos.
social e domínio político para os Werneck até o fim do século XIX, período 3 Filha de Izabel de Souza (esposa de João Berneque) e neta de Francisco Gomes Ribeiro. Daí a
de desestruturação socioeconômica da região. origem do ramo Souza Werneck e a ligação inicial dos Werneck com os Ribeiro de Avellar, onde as
duas famílias são reconhecidas por participar da fundação dos municípios de Valença e Vassouras.
Francisco Gomes Ribeiro foi um próspero comerciante, provedor da Santa Casa de Misericórdia
os primeiros tempos no Rio de Janeiro e manteve sólidas ligações com o governador da capitania do Rio, Salvador de Sá.
Patriarca da família Ribeiro de Avellar, ganhou a sesmaria que deu origem à fazenda Manga Larga,
O iniciador da família Werneck no Brasil foi o imigrante Johann Werneck, ao lado da sesmaria do Pau Grande, que também passou a ser propriedade de seus descendentes.
4 Ele se fixa inicialmente na freguesia de Nossa Senhora da Conceição, São Pedro e São Paulo da Paraíba,
que teve seu nome naturalizado para João Berneque. Após assentar Praça um antigo pouso de tropas no Caminho Novo. Fonte: SILVA, Eduardo. Barões e escravidão: três gera-
no Rio de Janeiro, migrou para o interior em 1711, se estabelecendo como ções de fazendeiros e a crise da estrutura escravista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 50.

176 177
Ignácio Werneck, recebe uma sesmaria na região de Ouro Preto em 1759;5 ou agrícola que poderia ser vendida aos tropeiros.10 Manuel de Azevedo Matos
seja, exercia as atividades de produtor rural, minerador e comerciante con- abrira a Estrada do Azevedo, de seu próprio nome, que saía da sede de sua
comitantemente. Poucos anos depois, ele construiu sua principal moradia e fazenda ligando-se ao Caminho Novo e, mais tarde, foi responsável por sua
deu continuidade à empresa agrícola na freguesia de Paty do Alferes,6 dedi- manutenção, como era comum aos proprietários mais abastados. A acu-
cando-se à produção de mercadorias demandadas no mercado próximo à mulação de terras em suas mãos, durante a fase inicial de colonização do
cidade do Rio de Janeiro. Para tanto, funda a fazenda de Nossa Senhora Vale, se deu também pela falta de limites e fronteiras que designassem o real
da Piedade,7 à margem esquerda do rio Sant’Anna, adquirindo as sesma- tamanho das terras.
rias e terras denominadas “sesmaria do padre Werneck”, sesmaria do Saco Outro fato importante a se destacar é que, em 1769, Manuel Matos pos-
e as terras de Monsores.8 Essa concessão de muitas sesmarias nas mãos de suía cerca de 50 escravos.11 Esta era uma grande quantidade de cativos para
poucos proprietários era uma estratégia do governo colonial, que concen- a época, considerando-se também que ele estava em um período de forma-
trando terras nas mãos de homens ligados diretamente à política colonial ção da sua empresa agrícola na região.
buscava expandir o ideal de civilização e o controle do estado. A partir de Assim, as famílias Werneck e Azevedo Matos possuíam situação econô-
cada fazenda, um novo núcleo de expansão colonial e povoamento surgia: mica privilegiada. Tanto João Berneque quanto Manuel de Azevedo Matos
eram prósperos comerciantes (sendo este último também minerador) e
Cercadas pela floresta que avançava por todos os lados, em contato com o
mundo apenas quando viajantes paravam para pernoitar, as primeiras fazen- detinham o status social de donos de terras e escravos. Vemos, então, a for-
das não eram apenas estações secundárias cercadas por minúsculas roças típi- mação de um poderio econômico, político e social através da junção fami-
cas dos anos anteriores a 1800. Eram núcleos de povoamento [grifo nosso].9 liar entre estes dois imigrantes, no Brasil do século XVIII. Porém, somente
com o segundo filho do matrimônio entre Manuel de Azevedo Matos e
Além disso, a concessão de sesmarias foi importante para a abertura da
Antônia Ribeira, filha de João Berneque – Ignácio de Souza Werneck –,
fronteira agrícola da região. Entre as solicitações de sesmarias havia aque-
o sobrenome Werneck ascenderá em todo o Vale do Paraíba, sendo reco-
les que as recebiam por terem ajudado a abrir uma estrada, estação ou a
nhecido como uma linhagem rica e poderosa, formada por cafeicultores e
manutenção das mesmas, ou aqueles que recebiam a concessão de maneira
escravistas, estreitamente ligados ao Estado.
que a Coroa os obrigava a um serviço que a beneficiasse, como a produção

ignácio de sousa werneck


5 RAMOS, Belisario Vieira. O Livro da família Werneck: 1742-1879. Rio de Janeiro: Companhia. e a consolidação do poderio familiar
Carioca das Artes Gráficas, 1941. p. 1.
6 Localizava-se no Vale do Sant’Anna, num antigo pouso de tropas ao longo do Caminho Novo, o qual O capitão Ignácio de Souza Werneck nasceu em 25 de julho de 1742, na
deveria chamar-lhe atenção em suas anuais viagens pelo tal caminho. Com sua esposa Francisca e freguesia de Nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo (Barbacena,
seus filhos Ana e Ignácio, levanta sua primeira moradia na margem direita do rio Sant’Anna pro-
vavelmente em 1771. Fonte: PONDÉ, F. P. A. A fazenda do barão de Pati do Alferes. In: INSTITUTO Minas Gerais), segundo filho do açoriano Manuel de Azevedo Mattos e
HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO. Anais do Congresso de História do Segundo Reinado. Rio Antônia Ribeira; recebeu os sobrenomes dos avós maternos (pois não era
de Janeiro, 1975. p. 85.
o primogênito) como costume da época. Aos 11 anos, Ignácio Werneck foi
7 Por volta de 1780, Manuel mudara-se para outro ponto da margem do rio Sant’Anna, fundando ali
seu estabelecimento de aguardente, denominado de Piedade. Fonte: PONDÉ, op. cit., p. 89. levado ao Rio de Janeiro, hospedando-se na casa do seu tio padre Campelle.
8 SILVA, 1984. p. 50. Foi iniciado nos estudos no internato do Seminário São José e, nas suas
Ao falecer em 1788, um pouco antes de completar 90 anos, deixou em partilha a sesmaria que saídas semanais, hospedava-se na casa e aos cuidados do correspondente
englobava a Piedade e terras em volta, chamada de “sesmaria do padre Werneck”, para seu filho
Ignácio; a Manuel de Azevedo Ramos deixou a sesmaria do Saco; e a Ana de Jesus a sesmaria dos de seu pai, o ajudante de milícias Francisco das Chagas Monteiro. Francisco
Monçores. Fonte: PONDÉ, op. cit., p. 90.
9 STEIN, J. Stanley. Vassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900. Rio de Janeiro: Nova 10 Ibid., p. 35.
Fronteira, 1990. p. 47. 11 WERNECK, A.,1909.

178 179
era comissário e investidor de Manuel de Azevedo Matos e um homem prejuízos e causando depredações e o vice-rei ordenou que Ignácio tomasse
considerado na praça comercial do Rio de Janeiro. Ignácio Werneck passou conhecimento daquela região e dos lugares onde poderia se edificar algum
grande parte da sua infância e adolescência na casa deste homem e se casou posto de guarda que: “embaraçasse aqueles selvagens” e “procurasse pacifi-
com sua filha, Francisca Laureana das Chagas Monteiro, em 26 de setembro car os espíritos dos moradores”.15
de 1769, o que o levou a abandonar o seminário. Os três primeiros filhos Por proposta do senado da Câmara, em 11 de outubro de 1788, Ignácio
do casal foram batizados na freguesia da Sé do Rio de Janeiro, sendo que entrava na lista tríplice, junto de seu irmão Manuel de Azevedo Ramos,
os outros nove, na freguesia do Alferes, o que indica que o casal Ignácio então sargento, e José Rodrigues da Cruz (já considerado “homem rico da
Werneck e Francisca Laureana permaneceu algum tempo no Rio de Janeiro cidade”),16 para capitão das ordenanças de Nossa Senhora da Conceição do
até Ignácio se estabelecer como proprietário de terras e escravos, provavel- Alferes, tendo a escolha do vice-rei recaído em seu nome, patente que foi
mente entre janeiro de 1773 (batizado da terceira filha) e setembro de 1774 confirmada em 16 de junho de 1789.17 Vemos aí, tanto Ignácio como seu
(batizando o quarto filho já em Paty do Alferes).12 irmão envolvidos com altos postos militares da colônia. A ascensão militar
Quando seu pai, Manuel de Azevedo Matos, falece em 1788, Ignácio de Ignácio através da prestação de serviços à Coroa foi rápida e, em pouco
recebe por herança a sesmaria conhecida anos depois por “sesmaria do tempo, foi escolhido, diante de três nomes importantes, a assumir o posto
padre Werneck”,13 que englobava terras nos dois lados do Rio Sant’Anna, de capitão das ordenanças daquela vila.
junto da fazenda da Piedade, a principal da família. Casado com a filha de A partir de 1789, D. Luís de Vasconcelos e Souza, vice-rei do Brasil,
um grande e rico comerciante na praça do Rio de Janeiro (que também ordenou que fosse iniciada a catequese de vários indígenas ali aldeados, den-
tornava-se seu investidor na produção da fazenda), estabelecido no Vale tre os quais se destacavam os índios coroados que, a essa época, habitavam o
como fazendeiro possuidor de grandes quantidades de terras, escravista, e território de Valença, numa área compreendida entre os rios Paraíba e Preto.
vizinho de fazendas de homens que geraram famílias importantíssimas na Foram encarregados do serviço de aldeamento Ignácio Werneck, na época
colonização do Vale,14 seu poder começou a consolidar-se. capitão de ordenanças, junto de José Rodrigues da Cruz, na época dono da
Foi na carreira militar que Ignácio Werneck ascendeu em importância fazenda de Ubá e o padre Manoel Gomes Leal. Como cita portaria da época:
perante a Coroa, como um dos homens mais importantes para a coloni-
Tôda a pessoa a quem fôr apresentada prestará o auxilio que lhe requerer o
zação da região do Vale do Paraíba fluminense. Ele irá mapear, explorar e Cap. das Ordenanças lgnácio de Souza Werneck para a Aldeiação dos Índios
encontrar postos estratégicos para o estabelecimento de milícias reais na Coroados, que por Ordem Régia se mandou estabelecer nas margens superio-
região, bem como será um dos nomes cruciais para a fundação do muni- res do rio Paraíba. Rio, 2 de Abril de 1802. Com a rubrica de S. Ex.18
cípio de Valença. À época de seu casamento, já era furriel da Fortaleza
do Leme, tendo ingressado na carreira militar devido a perturbações de A partir de então, os colonizadores começaram a obra de catequese
ordem política que levaram o vice-rei do Brasil a organizar forças milita- através da figura do padre Manoel Gomes Leal. Uma das primeiras provi-
res auxiliares, entre as quais um batalhão de estudantes no qual se alistou. dências foi a construção de uma capela no principal aldeamento dos coroa-
Poucos anos depois de se estabelecer no Vale, já era alferes das ordenanças dos, onde se originou a povoação. A capela foi dedicada a Nossa Senhora da
da freguesia de N. S. da Conceição de Alferes. Em 3 de outubro de 1768, foi Glória de Valença, em homenagem ao vice-rei conde de Resende, que era
encarregado de diligências no distrito da Sacra Família e em outros circun- 15 ARQUIVO NACIONAL. Rio de Janeiro, [18--]. Fundo da Família Werneck. Microfilme 003_91.
vizinhos. Segundo a documentação, os índios da região estavam trazendo Notação 2.1.
16 Citação de André Peixoto de Lacerda Werneck retirado, segundo ele, do Arquivo Público, caixa 573.
12 SILVA, 1984. p 52. Fonte: ARQUIVO NACIONAL, loc. cit.
13 A seu irmão Manoel de Azevedo Ramos coube a sesmaria do Saco, e à sua irmã, Ana de Jesus, a dos 17 Citação de André Peixoto de Lacerda Werneck retirado, segundo ele, do Arquivo Público,
Monçores. Fonte: PONDÉ, 1975, p. 90. Ordenanças do Reinado, v. 80, p. 115. Fonte: ARQUIVO NACIONAL, loc. cit.
14 A fazenda da Piedade fazia divisa com a de Manuel Peixoto, com a fazenda Pau Grande, de 18 ARQUIVO PÚBLICO: Portarias do vice-reinado, v. 27. apud IÓRIO, Leoni. Valença de ontem e de
Francisco e Manuel Ribeiro, bem como as de seu irmão e irmã. hoje. Valença: [s.n.], 1953. p. 21.

180 181
descendente da tradicional família portuguesa dos marqueses de Valença. Estes eram trabalhos preparatórios para a abertura posterior da Estrada do
O interessante é que os três pertencem a um mesmo tronco familiar: Comércio, importantíssima para o escoamento do café, ligando o rio Preto,
Manoel Gomes Leal, parente por parte de seu irmão Manoel de Azevedo na fronteira com Minas, ao porto de Iguaçu. Numa época de escassez de
Ramos, e José Rodrigues da Cruz, do ramo Ribeiro de Avellar.19 Ordenou D. recursos técnicos, de mão de obra especializada, de conhecimento de campo
Fernando José, de Portugal, então vice-rei, em carta de 20 de novembro de e região, a experiência com a exploração e abertura de caminhos torna aquele
1801, que Ignácio Werneck “prestasse todo auxílio a esse serviço, desse prin- que o possui valioso aos olhos da administração colonial.
cípio e abertura de caminhos e facilitasse o suprimento de gêneros [...]”.20 Outro fato significativo para a conquista de postos por Ignácio Werneck
Tais documentações mostram uma eficiência e presteza em Ignácio que é que o mesmo sabia ler e escrever, diferente da maioria dos fazendeiros de
lhe favorecia a ser escolhido para os serviços da Coroa, como, por exem- sua época,24 o que lhe agregava mais valor no momento em que precisava-se
plo, a ordem verbal do vice-rei marquês de Lavradio que o encarregou de criar mapas e relatórios sobre a situação da região. Outros postos importan-
informar sesmarias, declarando este ter “despachado muitas com clareza e tes serão recebidos por Ignácio Werneck ao longo de sua vida: supervisor
precisão”.21 Assim, se envolverá diretamente na exploração do território, ao das contas que José Rodrigues da Cruz tinha de apresentar à Real Junta da
mapeá-lo e conhecê-lo, bem como abrindo os caminhos necessários a sua Fazenda de três em três meses e responsável pela fixação de editais que obri-
colonização. A 9 de março de 1808, apresentou um relatório acompanhado gassem os sesmeiros a cultivar as suas terras dentro, também, do prazo três
de mapa feito à pena, do sertão entre os rios Preto e Paraíba, detalhando meses, sob pena de comisso.25 Mais tarde, o vice-rei, em carta ao capitão-
todo o território, descrevendo os seus caminhos e opinando sobre locais mor e outra de igual teor ao sargento-mor de Macaé, tratava da cobrança
para estabelecimento de guardas. do Imposto Real para o Hospital dos Lázaros e, em virtude de reclamação
Como se vê, este homem participou intensamente na colonização e na do intendente geral do Ouro acerca do relaxamento que os comandantes
produção de dados para a exploração deste território em seu serviço para dos Distritos davam às suas obrigações – não prestando contas –, mandava
a Coroa. A experiência com abertura de caminhos e exploração de novos elogiar a Werneck e a Antônio Luiz dos Santos (comandante do Distrito de
territórios poderia ter sido recebida de seu pai, o qual abriu o Caminho do Sacra Família), seu genro, pela maneira com que, nesse assunto, se tinham
Azevedo, como citado antes aqui. Era pelo “Caminho da Aldêa”, aberto por distinguido dos demais.26 Com o falecimento de José Rodrigues da Cruz,
Ignácio Werneck, que se fazia ligação do sertão de Valença com a aldeia dos ficou Ignácio Werneck encarregado do serviço que este prestava à Coroa, o
Araris, em Rio Bonito (atual Conservatória), através do rio das Flores, e, que fez com “combatente gênio, prudência e filantropia”.27 Tal confiança da
por outro lado, punha-se em contato com a Estrada Geral para Minas, e os Coroa depositada nos serviços e no nome de Ignácio Werneck será retra-
caminhos auxiliares do Pilar, do Azevedo e do Tinguá (freguesia de Sacra tada no fato de que, na ocasião da chegada do príncipe regente D. João,
Família do Tinguá).22 Mais tarde esse “Caminho da Aldêa” será denominado estava Werneck encarregado dos seguintes serviços: prender os desertores
de “Estrada Real do Werneck”, ou “Estrada do Verneck”, sendo conservada e ladrões; civilização dos índios e povoadores do sertão entre os rios Preto
como umas das principais da província, a primeira estrada de chão batido e Paraíba; da construção de uma ponte no Rio Utum; do conserto e con-
que ligara Iguaçu ao sertão, onde mais tarde iria nascer a cidade de Valença.23 servação dos caminhos do Couto e do Azevedo (aberto por seu pai como
vimos); do aterro e ponte do Rio Marambaia (encarregado disto em 11 de
19 Como vimos, José Rodrigues da Cruz é irmão de Antônio Ribeiro de Avellar e recebeu as sesmarias
de Ubá por serviços prestados à Coroa. À época já era dono da fazenda denominada Pau Grande.
20 ARQUIVO NACIONAL. Fundo da Família Werneck. Microfilme 003_91. Notação 2.1. 24 STEIN, 1990, p. 49.
21 Citação de André Peixoto de Lacerda Werneck retirado, segundo ele, do Arquivo do Distrito 25 ARQUIVO NACIONAL, loc. cit.
Federal – Sesmarias fora da cidade. Fonte: ARQUIVO NACIONAL, loc. cit. 26 Citação de André Peixoto de Lacerda Werneck retirado, segundo ele, do Arquivo Público nas
22 IÓRIO, 1953, p. 18. Portarias do vice-reinado, v. 28. Fonte: ARQUIVO NACIONAL, loc. cit.
23 Citação de André Peixoto de Lacerda Werneck retirado, segundo ele, dos Relatórios dos Presidentes do Rio 27 Citação de André Peixoto de Lacerda Werneck retirado, segundo ele, do Arquivo Público, reparti-
(1840-1850). Fonte: ARQUIVO NACIONAL. Fundo da Família Werneck. Microfilme 003_91. Notação 9.12. ção do juiz das sesmarias Herculano, caixa 26. ARQUIVO NACIONAL, loc. cit.

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agosto de 1802). Ignácio Werneck, já com certa idade, irá pedir demissão poderosos e ricos fazendeiros que o cercavam, nenhum possuía qualidade
desses encargos a El-Rei, e mesmo assim não será atendido.28 A esta época, e vínculos com a Coroa suficientes a ponto de substituí-lo em suas fun-
Ignácio, através da sua relação com a Coroa, domínio e conhecimento do ções. Logo vemos que após sua morte, o poder local continuará no seio de
território, já havia alcançado uma posição de comando regional de extrema sua família, pois seu filho Francisco das Chagas Werneck o substituirá no
importância para a administração e colonização da região, daí a recusa da comando dos distritos de Nossa Senhora da Conceição do Alferes, ficando
Coroa em que deixasse seus serviços; não havia ali um substituto, dado o encarregado dos mesmos serviços de seu pai, como a conservação das
poder e conhecimento enraizados em sua pessoa durante tantos anos de estradas do Werneck e do Azevedo, e da “civilização” dos índios do sertão
serviço e estabelecimento de seu domínio. entre os rios Preto e Paraíba.32
Outro fato que mostra o status do capitão Werneck na região foi o epi- Dois anos após sua reforma, em 11 de outubro de 1811, Ignácio Werneck
sódio no qual defendeu o aldeamento de índios, para que não houvesse ficou viúvo com doze filhos vivos e resolveu dedicar-se à vida eclesiástica
o apresamento destes por parte da Coroa. Tendo o governo do príncipe ordenando-se padre. Aproveitando seus antigos estudos eclesiásticos e,
regente mandado prender índios em Valença para a Armada Nacional, obtida a licença e a demissão do posto de sargento-mor reformado das orde-
Werneck opôs-se veementemente nanças da Corte em 13 de dezembro de 1813, recebeu a prima tonsura e as
ordens menores a 18; subdiaconato a 19 do mesmo mês e ano; diaconato a 23; e
[...] em documento de uma energia e elevação, que assombram, e protestando
pela volta dos recrutas dizia que se não voltassem desaparecerá todo o serviço, o presbiterato a 30 de janeiro de 1814.33 Rezou sua primeira missa neste mês e
que conseguira com grande trabalho fazer em benefício do aldeamento.29 ano, diante da imagem de Nossa Senhora da Piedade, mandada vir da Europa
por seu pai.34 Faleceu a 2 de julho de 1822, aos 80 anos, em sua propriedade,
Tal recrutamento forçado de índios poderia causar uma revolta, tra- deixando todos os seus doze filhos maiores de idade, dando partilha a todos.35
zendo grandes danos e até mesmo o desaparecimento do aldeamento que Pensando este episódio de outra forma, vemos que, além do poder
dera início na região, dificultando a ocupação das terras, inclusive de suas social, econômico e político, agora Ignácio estabelecia também um poder
próprias fazendas e sesmarias. Mesmo com seus protestos e pedidos, a religioso; além de major responsável pela administração dos caminhos,
Coroa não atendeu a Ignácio. Por causa disso, requereu reforma, ascen- fiscalização e cobrança dos impostos, pacificação local, latifundiário rico
dendo ao alto posto de sargento-mor, a 20 de outubro de 1809.30 Vemos na e escravista, agora este se torna um padre, fazendo com que seus filhos,
documentação que “apesar de ter obtido exoneração do cargo que exercia, parentes e agregados exerçam as atividades religiosas dentro de sua própria
não lhe dera governo substituto, ficado exercendo interinamente essas fun- fazenda e diante de sua própria pessoa. Um fato a se destacar aqui é que,
ções, mas já sem aquela dedicação de outrora”.31 depois de 1780, ao iniciar suas lavouras, mandou vir para sua companhia
Isso nos leva a indagar sobre a importância deste homem para a Coroa diversas famílias mineiras que o auxiliaram no cultivo e formação de enge-
naquele território e naquele momento, e o quanto isto permitirá que seus nhos de aguardente, dando terras a todas.36 Estas serão suas dependentes
descendentes prosperem no futuro. Também podemos pensar quais as diretas. Além dos índios que aldeou e acabaram por se tornarem seus ser-
liberdades de atuação naquele lugar, e de expansão de seu poder social, viçais (dos quais apadrinhou muitos),37 e dos cativos que possuía herdados
desfrutadas por alguém que está, de certa forma, acima da lei e das regras
dada sua crucial função para a administração colonial. Diante de todos os 32 Nomeado pelo príncipe regente a 29 de março de 1814. Fonte: SILVA, 1984. p. 54.
28 ARQUIVO NACIONAL. Fundo da Família Werneck. Microfilme 003_91. Notação 9.12. 33 Ibid., p. 53.
29 ARQUIVO NACIONAL, loc. cit. 34 PONDÉ, 1975, p. 93.
30 Citação de André Peixoto de Lacerda Werneck retirado, segundo ele, do Arquivo Público – 35 RAMOS, 1941, p. 1.
Regimento Geral das mercês, liv. 8, p. 44-v; e do Arquivo do Ministério da Guerra, Patentes do 36 PONDÉ, 1975, p. 91.
Exército do Brasil, v. 19, p. 174. Fonte: ARQUIVO NACIONAL, loc. cit. 37 “Há no arquivo da Catedral de Valença, o primeiro livro de registro de batizados, datado de 1809,
31 ARQUIVO NACIONAL, loc. cit. no qual se constata que, nesse mesmo ano, foram batizadas 59 pessoas, dentre as quais 42 índios,

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de seu pai e adquiridos posteriormente, diversos dependentes brancos de Os casos aqui citados não esgotam os exemplos das famílias que foram pio-
famílias livres com algum cabedal econômico somaram-se às centenas de neiras na ocupação das terras do Vale do Paraíba fluminense e que conquista-
ram destaque político, econômico e social nas localidades onde constituíram
agregados ao seu poder familiar. Que tamanha herança material e imaterial
fazendas. Além da primazia na ocupação de terras numa área de fronteira
este homem legara à sua família! agrícola aberta, essas famílias tinham em comum um passado de migração
Seus filhos não receberam somente as terras das diversas fazendas e portuguesa relativamente recente, além de serviços prestados à Coroa, o que
sesmarias que Ignácio herdou ou foi agraciado em serviços à Corte; eles facilitou a aquisição de prestígio e a ocupação de cargos políticos e adminis-
herdaram também o sobrenome, o cabedal político, social e econômico, trativos nas localidades onde se fixaram. Chama a atenção também o fato de
que muitas das fortunas constituídas no rastro do café possuíam um capital
o status elevado que seu pai atingiu; herdaram as redes de dependência
previamente acumulado em outros setores bastante rentáveis como a mine-
e compadrio, as redes de sociabilidade com a Coroa e com outras gran- ração, o comércio de grosso trato e o tráfico de escravos, conforme vimos
des famílias. Essa é uma herança imaterial que permite a perpetuação do nos exemplos familiares explicitados. Em alguns casos, essas atividades foram
poder social, político e econômico pela sua família. A historiadora Mariana exercidas concomitantemente com o cultivo da lavoura para exportação [...]
Muaze, em tese de doutorado, analisando a família Ribeiro de Avellar e sua Fosse pelo recebimento de sesmarias, fosse pela posse de terras, a aquisição de
vastas propriedades era facilitada àqueles (indivíduos ou famílias) que pos-
junção com os Velho da Silva, diz que o “[...] prestígio e poder vigoravam
suíam uma posição econômica e/ou social de destaque, reiterando assim a
como uma herança imaterial que era repassada aos herdeiros, mantê-la para lógica social hierárquica vigente.40
as próximas gerações, assim como a fortuna eram os grandes desafios”.38
Mostramos a relação entre Ignácio Werneck e a colonização de Valença, O poder regional do padre Werneck estava consolidado. A construção
pois as famílias pioneiras na colonização do Vale foram também aquelas que desse poder, como vimos, relaciona-se com a formação do município de
conseguiram prematuramente um número grande de sesmarias e, assim, Valença e, como veremos adiante, com o crescimento e consolidação polí-
foram acumulando terras, numa zona de fronteira agrícola aberta, obtendo tica de diversos outros municípios no Vale do Paraíba, através da ascensão
grande poder regional. O caráter pré-maturo de chegada à região foi deci- social de seus filhos, netos e bisnetos. Sua família agora colonizará todo o
sivo para a consecução de grande influência política, econômica e social: Vale, participando da fundação de municípios e fazendo destes lócus de
atuação e conformação do seu poder. Mas, para que esse domínio conti-
O resultado de tal dinâmica histórica foi uma enorme concentração de terras, nue, é necessário desenvolver estratégias para que seu patrimônio não se
escravos, poder político-militar e prestígio social nas mãos das poucas famílias
disperse, bem como seu status político e social não se acabe. Para tanto,
que conseguiram receber seu quinhão até as primeiras décadas do século XIX.39
as estratégias matrimoniais serão fundamentais para perpetuar o poder da
Quando a colonização se der efetivamente na segunda metade do família Werneck na região, bem como expandi-lo e dinamizá-lo.
século XIX e o Vale se transformar numa área de fronteira agrícola fechada, Ao falecer, o padre Werneck incluiu seus doze filhos vivos na partilha
essas famílias já serão grandes latifundiárias, o que potencializa seu poder dos seus bens. Sua fortuna foi suficiente para legar uma considerável quanti-
e domínio. A historiadora Mariana Muaze confirma nossa pesquisa em dade de bens para cada um e seu tempo de vida o possibilitou planejar cui-
artigo sobre o Vale do Paraíba e sua formação histórica: dadosamente o casamento de todos os filhos. Porém, traçar a trajetória desta
herança de uma forma que não se dispersasse mas que pudesse ser ampliada,
servindo de padrinhos, a muitos deles, o finado capitão Ignácio de Souza Werneck e Ana Joaquina,
demandava certo cuidado com os casamentos de seus filhos. Como habitava
irmã do padre Gomes Leal”. Fonte: IÓRIO, 1953, p. 55. uma região de exploração recente, casar seus herdeiros com famílias que
38 MUAZE, M. A. F. O Império do retrato: família, riqueza e representação social no Brasil oitocen- tivessem posses inferiores às suas ou oriundas de um status social inferior
tista (1840-1889). 2006. 402 f. Tese (Doutorado em História Moderna e Contemporânea) – Centro
de Estudos Gerais, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense,
seria algo a ser evitado; todavia, encontrar boas famílias para realizar esses
Niterói, 2006. p. 367-368. casamentos também era algo difícil, pois ainda eram raras as famílias ricas e
39 Id. O Vale do Paraíba fluminense e a dinâmica imperial: inventário das fazendas do Vale do Paraíba
fluminense – fase III. Rio de Janeiro: Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, 2010. p. 303. 40 Ibid., p. 314.

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com filhos dispostos no “mercado matrimonial” naquela região de explora- Com os Werneck não será diferente: Ignácio formara uma grande rede
ção recente. Outro agravante no seu caso era o grande número de filhos, que de poder constituída por parentes, agregados livres e escravos, e entre os
o levava a repartir suas posses e terras em inúmeras partes. fazendeiros da região. Logo, a família cria todo um poder e espaço social na
As alianças familiares que Ignácio Werneck iria formar seriam cru- região que possibilite sua permanência na mesma e expansão de seu pode-
ciais para a continuação do poder e patrimônio de sua família. Logo, as rio; a partir da família e para a família, serão estabelecidos os primeiros
estratégias matrimoniais eram uma das principais formas de sobrevivên- espaços de poder e sociabilidade da região.
cia desenvolvida por este clã. Quando discorremos sobre a manutenção do
patrimônio e as estratégias referentes à ampliação, expansão e permanên- estratégias matrimoniais e
cia do poder político-econômico, os planejamentos matrimoniais talvez ampliação das redes de poder e influência
se conservem como as mais bem-sucedidas ações nesse intuito, de todas
É possível traçar características em comum nas uniões matrimoniais de seus
as gerações da família no século XIX: não haverá “erros” nas estratégias de
filhos e filhas. As cinco filhas que se casaram, uniram-se em matrimônio com
casamento dos Werneck. Como cita Luciano Figueiredo:
homens filhos de capitães portugueses, e dos cinco cônjuges, quatro exerce-
Nas regiões de fronteira, a família de elite não era apenas uma unidade de ram altos postos militares (sobretudo após a criação da Guarda Nacional).44
grupo, mas sim um verdadeiro núcleo de afirmação social e, sobretudo, de Dos quatro filhos casados, três de suas mulheres eram filhas de capitães
manutenção de posições e privilégios. As grandes famílias traçavam cuida-
dosamente os planos do casamento dos filhos, a distribuição da herança e a portugueses e uma neta de capitão português.45 Esse aspecto de “militari-
migração dos membros. [...] Modelo altamente concentrador da riqueza, as zação” ou preferência por pretendentes envolvidos com cargos militares
famílias evitavam por todos os meios dispersar o patrimônio, concentrando a pode ser explicado pela própria condição de Ignácio Werneck, o qual passou
herança no descendente que cuidaria, como representante de sua geração, dos por diversos postos militares, reformando-se como major das ordenanças
negócios e interesses familiares.41 naquela região. Estava casando seus filhos com pessoas da mesma condição
Mônica Ribeiro discorre, em seu estudo, sobre a expansão, caracteriza- social, demonstrando certo corporativismo na escolha matrimonial. Além
ção e montagem do sistema agrário da Zona da Mata mineira e afirma que, disso, todos pretendentes, tanto homens quanto mulheres, ou eram fazen-
com a chegada de colonizadores em regiões de fronteira agrícola aberta, deiros possuidores de grandes quantidades de terras ou filhas de sesmeiros
forma-se um tecido social composto por famílias que buscavam através de na região. Isso era primordial para manter e expandir o patrimônio da famí-
redes de matrimônio e compadrio, estratégias para a manutenção do poder lia Werneck, juntando grandes porções de terras, potencializando o poder
e ascensão social, almejando o status de grandes proprietárias de terras e na região com latifúndios diversos pertencentes à mesma família; também
escravos. Constitui-se uma grande rede de alianças, através de retribuição mostra ser um aspecto de manutenção do status, pois todos são grandes pos-
de privilégios recebidos, estratégias socioeconômicas que visam à preser- suidores de terras e escravos, um casamento entre iguais.
vação do patrimônio fundiário e sua ampliação, práticas endogâmicas de
matrimônio e “um mercado de terras influenciado pelo jogo das relações 44 A 1° filha de Ignácio Werneck, Maria do Carmo Werneck, casou-se com o tenente-coronel José
interpessoais”.42 Daí sua análise ser centrada “não nos grupos e sim, nas Pinheiro de Souza. A 3° filha, Luiza Maria Angélica, casou-se com o capitão Antônio Luiz dos
Santos. A 4° filha, Anna Mathilde Werneck, casou-se com o sargento-mor Francisco Peixoto de
relações interfamiliares, a partir das escolhas e atitudes de alguns indiví- Lacerda. A 7° filha, Isabel Maria da Visitação, casou-se com o capitão João Pinheiro de Souza. A 11°
duos mais proeminentes percebidas em diferentes escalas [...]”.43 filha, Joaquina Theodora de Jesus, casou-se com João José Alves, nascido no Paty do Alferes, filho
do capitão Francisco José Alves.
45 Manoel de Azevedo Matos casou-se com Rosa Maria dos Santos, filha do capitão José Luís dos
41 FIGUEIREDO, Luciano. Mulher e família na América portuguesa. São Paulo: Atual, 2004. p. 61.
Santos. Francisco das Chagas Werneck casou-se com Anna Joaquina de São José, filha do capitão
42 OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Negócios de família: mercado, terra e poder na formação da cafeicul- Francisco José Alves. Ignácio das Chagas Werneck casou-se com a filha do tenente-coronel José
tura mineira – 1780-1870. Bauru: Edusc; Juiz de Fora: Funalfa, 2005. p. 20-23. Pinheiro de Souza, e neta do capitão português de mesmo nome. Esta última, após viúva, contraiu
43 Ibid., p. 22. segundas núpcias com José de Souza Werneck, último filho de Ignácio de Souza Werneck.

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Daqueles doze filhos, apenas três filhas morreram solteiras, pois como socioeconômicas de manutenção do status familiar. Dos nove casamentos,
vimos, além de ser difícil encontrar tantos pretendentes numa região de três se deram com dois filhos e uma neta do capitão português José Pinheiro
exploração recente, casar suas filhas com pessoas de um status social infe- de Souza, vindo do Porto, que se casou com D. Paula Pereira Monteiro, nas-
rior ou que não oferecessem uma segurança para o futuro patrimonial e cida em Pilar do Iguaçu. Já o segundo e o terceiro casamento dos filhos de
social da família não era aceitável. Era preferível mantê-las solteiras, não Ignácio Werneck dá-se com os filhos do Capitão português José Luis dos
repartindo mais as terras e o patrimônio familiar, ainda que as tais tivessem Santos, vindo do Porto, casado com D. Inácia Maria do Rosário, nascida em
parte na divisão dos bens.46 Piedade da Borda do Campo, Minas Gerais. Os demais casamentos são com
A rede de sociabilidade matrimonial foi construída, sobretudo entre filhos do capitão Francisco José Alves, nascido em Braga, e casado com D.
portugueses, pois dos nove casamentos, um pretendente era português Ana Maria de Jesus, nascida em Paty do Alferes; e com Francisco Peixoto de
e todos os outros eram filhos ou filhas de pais portugueses, casados com Lacerda, erradicado também em Paty. Ou seja, o pai de Ignácio Werneck,
mulheres brasileiras (oriundas de Pilar do Iguaçu, Paty do Alferes e Piedade Manuel de Azevedo Matos, era comerciante e minerador em Piedade da
da Borda do Campo). Tais portugueses eram, em sua maioria, originários Borda do Campo e, nas suas viagens ao Rio de Janeiro, passava exatamente por
do Porto e dos Açores.47 Isto nos leva à hipótese de uma rede de sociabili- Pilar do Iguaçu, para também comercializar produtos, sendo intermediário
dade entre essas famílias, que já se estendia desde Portugal, pois o pai de comercial de muitas famílias de proprietários rurais tanto em Minas quanto
Ignácio Werneck, Manuel de Azevedo Matos, era açoriano também. nas propriedades ao longo do Caminho Novo. Assim, Ignácio Werneck
Ao analisar cada casamento, podemos também traçar a trajetória herdara a sociabilidade construída pelo seu pai com a família Santos, em
do pai de Ignácio Werneck na colônia, e desvendar algumas estratégias Piedade da Borda do Campo, e também a sociabilidade com a rica família
Pinheiro de Souza em Pilar do Iguaçu, local este onde Manuel Matos tam-
46 Uma de suas filhas solteiras, Francisca Laureana das Chagas, engravidou de seu cunhado Francisco bém conheceu seu sogro, João Berneque, e casou-se. Os demais casamentos
Peixoto de Lacerda, enquanto o mesmo ainda era casado. O filho ilegítimo nunca foi reconhecido acontecem exatamente em Paty do Alferes, freguesia onde Ignácio Werneck
pelo pai, mas foi acolhido pela família, chegando a se tornar uma figura pública em Vassouras
exercendo os cargos de juiz de paz e vereador. A historiadora Mariana Muaze trabalhou com este
finalmente se estabeleceu como rico proprietário rural e escravista.
caso em sua tese de doutorado. Cf. MUAZE, 2006, p. 149-151. Opinião diversa sobre o caso tem a São décadas de redes de sociabilidades construídas por Manuel de
historiadora Sandra Lauderdale. Cf: GRAHAM, Sandra L. Caetana Says No: women’s stories from a Azevedo Matos, que serão transmitidas à Ignácio Werneck, seu filho, coin-
Brazilian slave society. Cambridge: Cambridge University Press, 2002.
47 Maria do Carmo Werneck, a 1° filha de Ignácio Werneck, casou-se com o tenente-coronel José
cidindo no casamento de seus netos – uma herança imaterial riquíssima
Pinheiro de Souza, filho do capitão português José Pinheiro de Souza, nascido em Unhão, passada através das gerações; todos estes casamentos se dão entre famílias
Felgueiras, Porto e de D. Paula Pereira Monteiro, nascida em Pilar do Iguaçú. Luiza Maria Angélica, de portugueses vindos recentemente para o Brasil, estabelecidos como pro-
terceira filha de Ignácio Werneck, casa-se com o capitão Antônio Luiz dos Santos, filho do capitão
português José Luis dos Santos, nascido em Guifões (concelho de Bolsas, Porto), capitão e sesmeiro prietários rurais, lavradores e comerciantes, que se casam com mulheres
e de D. Inácia Maria do Rosário, nascida em Piedade da Borda do Campo, Mariana, MG. Manoel brasileiras.48 É um padrão muito semelhante, ou sintoma, das estratégias
de Azevedo Mattos, quarto filho, casa-se com Rosa Maria dos Santos, filha de José Luis dos Santos,
nascido em Guifões (concelho de Bolsas, Porto), capitão e sesmeiro e de D. Inácia Maria do Rosário,
matrimoniais para o último século do período colonial entre as famílias que
nascida em Piedade da Borda do Campo, Mariana, MG. Anna Mathilde Werneck, quinta filha casa- formarão as cidades do Vale do Paraíba.
se com o sargento-mor Francisco Peixoto de Lacerda, nascido em 1770, na freguesia de São Salvador Essa herança imaterial recebida – as redes de sociabilidade e matrimo-
da Vila de Horta, na Ilha do Faial, Açores. Francisco das Chagas Werneck, sexto filho casa-se com
Anna Joaquina de São José, filha do capitão Francisco José Alves, nascido em Braga, e de D. Ana niais estabelecidas – pode explicar também o fato de todos os casamentos
Maria de Jesus, nascida em Paty do Alferes. Isabel Maria da Visitação, nona filha, casa-se o capitão entre os filhos de Ignácio Werneck serem exogâmicos. Chama-nos aten-
João Pinheiro de Souza, filho do capitão português José Pinheiro de Souza. Ignácio das Chagas
Werneck, décimo filho, casa-se com Francisca Joaquina de Jesus Pinheiro, filha de José Pinheiro de ção o fato de Ignácio não preferir casar seus filhos e filhas com seus sobri-
Souza e de Tereza Maria de Jesus. Joaquina Theodora de Jesus, décima primeira filha, casa-se com nhos, filhos de seu irmão, Manuel de Azevedo Ramos. Manuel tinha terras
João José Alves, nascido no Paty do Alferes, filho do capitão Francisco José Alves e de D. Ana Maria
de Jesus. José de Souza Werneck casa-se também com Francisca Joaquina de Jesus Pinheiro, após 48 E destaco ainda que, dos nove casamentos, oito são com apenas três famílias portuguesas: Pinheiro
viuvez. Fontes: FORJAZ, Jorge; MENDES, Antônio Ornelas. Genealogia das quatro ilhas: Faial, Pico, de Souza, Santos e Alves – cada uma destas casando dois ou mais filhos e filhas com a família de
Flores, Corvo. Lisboa: Dislivro Histórica, 2011. v. 1, p. 261-267. RAMOS, 1941. p. 16-18. Ignácio Werneck.

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vizinhas às suas (dividiram as sesmarias do pai) e o casamento entre primos A família Pinheiro de Souza chegou ao Brasil ainda no século XVIII,
era recorrente nesta época, dado a escassez de famílias na região. Não tra- onde o patriarca, José Pinheiro de Souza, estabeleceu-se como comerciante
balhamos com a hipótese de ter ocorrido alguma briga ou rompimento de na praça comercial do Rio de Janeiro. Seus filhos e irmãos provavelmente
laços entre os irmãos, pois Manuel Ramos também irá unir em matrimônio tornaram-se comerciantes também, até que parte da família migrou para as
sua família com os Pinheiro de Souza, além de, curiosamente, nomear um terras do Vale, ao receberem diversas sesmarias no início do século XIX.52
de seus filhos como Ignácio de Souza Werneck, talvez em homenagem ao Uma descoberta genealógica importante foi que o patriarca dessa família
irmão.49 Além disso, era uma época de expansão dos laços de sociabilidade no Brasil, casou-se em segundas núpcias com Paula Pereira Monteiro, irmã
e o estreitamento do relacionamento com outras famílias seria mais impor- de Francisco das Chagas Monteiro, que era o sogro de Ignácio de Souza
tantes politicamente neste momento. Werneck.53 Ou seja, os Pinheiro de Souza já haviam ligado-se com a famí-
As uniões exogâmicas neste período potencializaram o domínio polí- lia de Francisco das Chagas Monteiro, rico e importante comerciante na
tico, social e econômico no seio dessas famílias, além de permitir a concen- praça comercial do Rio de Janeiro, e de certa forma com a família de Ignácio
tração de grandes extensões de terras para as mesmas. Junto aos Werneck, Werneck. Este fato confirma mais uma vez que as redes de sociabilidade
os Pinheiro de Souza, Santos, Alves e Peixoto de Lacerda estavam em prol entre os Werneck e os Pinheiro de Souza vinham de Manuel de Azevedo
de um mesmo objetivo, que era formar laços matrimoniais e um poder Matos, pai de Ignácio Werneck, pois Francisco das Chagas Monteiro era aju-
social e material na região mantendo seu patrimônio, fortalecendo-o e dante de campo e investidor deste; e dentro desse poderoso jogo de uniões
expandindo-o. Há a hipótese de tais famílias já possuírem alguma sociabili- matrimoniais entre ricos comerciantes, entrou Ignácio Werneck e sua famí-
dade ainda nas ilhas portuguesas. Todavia, ao resolver firmar uniões matri- lia. Um grande aporte de capital para formação dos complexos agrícolas e
moniais com, sobretudo, duas ou três famílias, Ignácio Werneck está con- status político foi adicionado à sua rede familar e de sociabilidade.
centrando, conservando e aumentando suas terras e escravos, dinamizando Logo, o casamento entre João Pinheiro de Souza e Isabel Maria da
Visitação representa a concretização da manutenção e expansão do poder
o poder social e político da sua família em toda a região do Médio Paraíba.
político, econômico e social através das estratégias matrimoniais dos
Dentre os casamentos orquestrados por Ignácio de Sousa Werneck, tive
Werneck. A herança material e imaterial herdada por estes vai possibili-
a oportunidade de analisar mais detidamente em minha dissertação de mes-
tar grande distinção dessa nova família – Pinheiro de Souza Werneck – na
trado o caso da união de sua filha Isabel Maria da Visitação com o major
região do Vale e mais especificamente em Valença.
João Pinheiro de Souza, pais de Maria Izabel de Jesus Vieira, uma importante
João Pinheiro de Souza casa-se com Isabel Maria da Visitação em 30 de
fazendeira que, depois de ficar viúva, administrou sua fazenda e negócios de
outubro de 1809, na Freguesia de Paty do Alferes. Segundo vemos na docu-
forma próspera e eficaz por mais de quarenta anos.50 Foi justamente com a
mentação, João Pinheiro requereu, em 1807, uma sesmaria ao longo do Rio
família Pinheiro de Souza que Ignácio Werneck uniu mais filhos, ao todo
Paraíba, pois “tinha possibilidades para as cultivar; e desejara fazer ali o seu
quatro casamentos.51 Com eles, iniciou as estratégias matrimoniais (pois
estabelecimento”.54 O processo para o recebimento das terras foi concluído
casou sua primeira filha) e com eles terminou-as (casando seu último filho).
em 1816, quando o governo de D. João VI concedeu-lhe a sesmaria São João.
49 Essa hipótese da homenagem dá-se pelo fato de não haver ninguém em sua família com esse Esta sesmaria se localizava à margem esquerda do rio, confrontando-se com
mesmo nome, a não ser o irmão. Fonte: WERNECK, Francisco Klors. Origem da família Pinheiro de
Souza (ramo fluminense). [S.l.: s.n, s.a]. Arquivo pessoal. p. 6-7.
Francisca Joaquina de Jesus Pinheiro, casará com o 10° filho do padre Werneck, Ignácio das Chagas
50 PAIVA, L. G. P. M. de. Lembranças da saudade: estratégias para a manutenção do poder de uma famí-
Werneck. Após a morte de Ignácio das Chagas, a viúva se casará com o último filho de Ignácio
lia cafeicultora no século XIX. 2013. 148 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de
Werneck, José de Souza Werneck.
Pós Graduação em História, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.
Link de acesso:http: <//historiaunirio.com.br/ppg/c.php?c=download_dissert&arq=NTE%3D>. 52 Essas informações foram cedidas pelo pesquisador Adriano Novaes (INEPAC; CDH-VALENÇA).
51 A 1° filha de Ignácio Werneck, Maria do Carmo Werneck, casa-se com o tenente-coronel José 53 WERNECK, F., Origem da família Pinheiro de Souza (ramo fluminense). [s.l.: s.n, s.a]. Arquivo
Pinheiro de Souza. O irmão deste tenente-coronel, João Pinheiro de Souza, se casará com a 9° pessoal. p. 2.
filha de Ignácio Werneck, Izabel Maria da Visitação; uma filha também de José Pinheiro de Souza, 54 ARQUIVO NACIONAL. Fundo da Família Werneck. Microfilme 006_91. Notação 675.

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as terras do Conde de Baependy, indo da ponte do Desengano, hoje Juparanã, ordem social de Valença e sua região: “No virtuoso e venerado ancião que
até a Estação do Commercio.55 Em 1822, o casal migrou da freguesia de Paty ahi baixou ao túmulo, perdeu o município de Valença um dos seus vultos
do Alferes para a fazenda de São João, em Nossa Senhora da Glória,56 e ali mais importantes, um de seus mais desvelados amigos”.64
começou seu empreendimento agrícola, criando todos os seus nove filhos.57 Sem dúvida foi um importante nome para a política do Partido
Assim, João Pinheiro se estabeleceu na região onde mais tarde seria Conservador na região do Médio Paraíba e para o Império por suas ativida-
Valença. Durante os 40 anos que lá viveu, exerceu os mais elevados cargos des de cafeicultor escravista e latifundiário. Além do poder vindo das alian-
municipais, tanto de eleição popular como da nomeação do governo.58 Em ças familiares, sua rede de sociabilidade contará com a presença de amigos
remuneração aos serviços prestados, foi agraciado por D. Pedro II primei- ricos e poderosos da região, como revelam os jornais: “Como homem, deixou
ramente com o hábito da Ordem da Rosa, em 18 de julho de 1841, e depois numerosos amigos, e nem sequer se apontam desafeiçoados”.65 Destacam-se
com o oficialato da imperial Ordem da Rosa, em 1° de maio de 1849.59 Como entre estes o visconde do Rio Preto e o futuro conde de Baependy, os quais
agricultor, produziu café em sua fazenda de São João, “com a qual ganhou presentes em seu enterro carregaram o féretro até o túmulo.
uma modica e mui honesta fortuna”.60 Além do status conseguido através Tamanho poder e influência se refletirá na sua grande e poderosa prole.
da sua riqueza, dos serviços prestados à Coroa, do acúmulo de grandes Dos seus nove filhos, sete deixaram descendência; os três homens torna-
quantidades de terras e escravos e dos diversos cargos políticos que exerceu ram-se grandes fazendeiros e políticos na região do Vale e as quatro mulhe-
em Valença, também se mostrava dignificado pelos favores que tributou res vão se casar com seus primos e ricos fazendeiros do Médio Paraíba. Os
à Igreja. Foi um dos principais contribuintes para a construção da igreja jornais destacam a importância dos filhos de João Pinheiro: “Deixa-se per-
Matriz de Valença, deu um sino para a capela de Nossa Senhora do Rosário petuando em uma numerosa família que fazia o seu orgulho, e assim devia
e nos últimos momentos antes de sua morte deixou legados à irmandade de acontecer, porque o ramo daquela estirpe não podia deixar de ser bom até
Nossa Senhora da Glória e à Santa Casa de Misericórdia de Valença. ao âmago”.66 Aquele “chefe de uma importante família”67 tinha seus filhos
João Pinheiro de Souza veio a falecer em 19 de fevereiro de 1860 por reconhecidos por todos serem “fazendeiros abastados e bem conhecidos
enfermidade. Na ocasião, todos os jornais o descreveram como rico e reno-
por suas posições e virtudes cívicas e domésticas”.68 Logo, dentre estes se des-
mado fazendeiro do município de Valença: “No dia 19 do corrente mês de
tacam o visconde de Ipiabas, um dos mais importantes nomes do Partido
Fevereiro de 1860, pelas 4 horas da manhã, pagou o tributo á terra o Ilmo.
Conservador em Valença e o barão de Potengy. O renome e poder, ampliado
Sr. capitão João Pinheiro de Souza, oficial da ordem da Rosa, e honrado
e repassado por João Pinheiro de Souza aos seus filhos, lhes dará condições
fazendeiro do município de Valença”;61 “O município de Valença acaba de
de se destacarem na sociedade com uma herança imaterial riquíssima.
sofrer uma perda bem sensível”;62 “Um nome precioso passou para o catá-
Assim, vemos que as estratégias matrimoniais, além de concentrarem
logo dos finados!”.63 Em diversas vezes é reconhecido como “ilustre finado”,
e ampliarem o patrimônio composto por terras, escravos e demais rique-
“nobre cidadão”, “honrado fazendeiro” e figura importante para a política e
zas, também aumentavam o status, o poder político, o renome da família,
55 ARQUIVO NACIONAL. Fundo da Família Werneck. Microfilme 003_91. Notação 1.1. o domínio social. Ao casar com uma grande família, as possibilidades de
56 ARQUIVO NACIONAL. Fundo da Família Werneck. Microfilme 003_91. Notação 27. ascensão social eram claras.
57 ARQUIVO NACIONAL. Fundo da Família Werneck. Microfilme 004_91. Notação 92.1. Ver também Conforme descrevemos, os Werneck, ao chegarem ao Vale recém-ex-
TELLES, Luís Gomes de Souza. [Sem título]. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 25 fev. 1860.
plorado, procuraram casar seus filhos com sesmeiros portugueses ou de
58 ARQUIVO NACIONAL. Fundo da Família Werneck. Microfilme 004_91. Notação 113.
59 ARQUIVO NACIONAL. Fundo da Família Werneck. Microfilme 006_91. Notação 667-668. 64 ARQUIVO NACIONAL. Fundo da Família Werneck. Microfilme 004_91. Notação 113.
60 TELLES, op. cit. 65 TELLES, op. cit.
61 BARROS, Nogueira de. [Sem Título]. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 fev. 1860. 66 BARROS, 1860.
62 [ARTIGO do Redator do Jornal]. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 25 fev. 1860. 67 [ARTIGO do Redator do Jornal], 1860.
63 TELLES, 1860. 68 TELLES, 1860.

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famílias portuguesas, também recém-chegados e de mesma situação e A morte do barão de Guaribu.
renome que estes tinham. Eram casamentos exogâmicos, porém entre
iguais; em sua maioria, se davam sempre com as mesmas famílias. São
Ou o fio da meada1
casamentos entre grupos que vieram de Portugal durante os séculos XVII
e XVIII, geralmente pertencentes à pequena fidalguia ou da elite de alguma
Ricardo Salles
capitania portuguesa, que por alguma dificuldade financeira decidiram Magno Fonseca Borges
transferir-se para a colônia no intuito de manter-se econômica e social-
mente. João Fragoso os define como as melhores famílias da terra.69 Assim,
construíram em torno de si próprias uma imagem e um espaço social no
âmbito familiar como as melhores famílias do Vale.
Um grande tecido social foi composto na região e mais especificamente
na cidade de Valença, que teve seus espaços políticos e sociais (a Câmara
Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, barão de Guaribu, é o personagem cen-
dos Vereadores, a Santa Casa de Misericórdia, as irmandades religiosas, a
tral deste ensaio. Nascido no Rio de Janeiro, por volta de 1795, e falecido em
delegacia de polícia, etc.) construídos e dominados por estas famílias. É
Paty do Alferes, município de Vassouras, em 1863, Cláudio foi um grande
em torno destas famílias e para estas famílias que estes espaços e a pró-
proprietário de terras e escravos nessa região. Com o exame de testamentos,
pria cidade é construída, auxiliadas pela estreita ligação com a Coroa, que
inventários, avaliações e outros documentos, referentes a seus pais, irmãos,
depende profundamente das mesmas para realizar seus ideais políticos e
ao próprio Cláudio e a membros da classe senhorial de Vassouras, pode-
civilizatórios no interior. Através dos cargos exercidos e das honrarias rece-
remos seguir o fio da meada da acumulação de capital escravista através
bidas, percebemos o status e a posição da família Werneck perante a Coroa,
da montagem, expansão e declínio da grande propriedade rural escravista
e podemos conceber o tamanho de tão grande herança imaterial que está
cafeicultora na região no período entre aproximadamente 1820 e 1890.
sendo perpassada entre as gerações dos Werneck e daqueles que a eles se
Seguiremos, ainda, como tudo isso envolveu a formação e a reprodução de
unem. O grupo familiar se manifesta como patrimônio imaterial.
um ethos e um habitus senhoriais específicos. As relações entre senhores e
A família era o valor primeiro a ser mantido e expandido no seio da
escravos, como parte integral e inseparável desse processo, serão analisadas
classe senhorial e na sociedade patriarcal. É a família, através do sobrenome
no âmbito do que estaremos denominando de comunidade de plantation.
familiar, como os Werneck, que absorve as consequências das atitudes de
A análise gira ao redor da principal propriedade da família Gomes Ribeiro
seus patriarcas, quando se expandem economicamente e dominam politica-
de Avelar, a fazenda do Guaribu.
mente. O fim de todos os esforços políticos e econômicos, das construções
Numa sexta-feira, dia 3 de setembro de 1863, em sua fazenda do
das redes de sociabilidades e das estratégias matrimoniais é sempre tornar
Guaribu, em Paty do Alferes, na comarca de Vassouras, morria Cláudio
a sua família, o seu sobrenome, cada vez mais renomado, poderoso, rico
Gomes Ribeiro de Avelar. Desde 1860, possuía e exibia o título de barão de
perante aquela sociedade, através dos seus descendentes. E para perpetuar
Guaribu, do qual tinha evidente orgulho. Tanto que, em seu testamento,
a família, os Werneck se valem, com sucesso, das políticas de casamento, as
ditado uma semana antes de seu falecimento, ele declarava: “... meu nome
quais irão continuar nas gerações seguintes. Logo, a família senhorial oito-
era Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, antes de Sua Majestade o Imperador
centista tinha grande peso e valor como cabedal político e simbólico para a
agraciar-me com o título de Barão de Guaribu”.2 Estava na casa dos 60 anos
manutenção e transmissão de poder na sociedade imperial.

69 FRAGOSO, João. A formação da economia colonial no Rio de Janeiro e de sua primeira elite senho- 1 Originalmente publicado em HEERA. Juiz de Fora: Ed. UFJF, v. 7, n. 13, p. 57-94, jul.-dez. 2012.
rial (séculos XVI e XVII). In: FRAGOSO, João Luís; BICALHO, Maria Fernanda; GOUVÊA, Maria de 2 INVENTÁRIO e Testamento de Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, barão de Guaribu. Vassouras:
Fátima (Org.). O Antigo Regime nos Trópicos. RJ: Civilização Brasileira, 2001. Centro de Documentação Histórica da Universidade Severino Sombra, 1863.

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e nascera na cidade do Rio de Janeiro. A morte do barão e suas circunstân- dos feitores, cumprindo jornadas de 14 ou mais horas de trabalho no cultivo
cias permitem analisar uma intrincada rede de relações sociais, envolvendo e no tratamento do café, vivendo em grandes senzalas.
ricos fazendeiros, libertos e escravos, ao longo de quase todo o século XIX, No lugar desse quadro, muitas vezes reconstruído pela historiogra-
em uma das regiões mais importantes e destacadas do Império do Brasil, o fia dos anos 1980 em diante com cores ainda mais carregadas para fins de
município de Vassouras, no Vale do Paraíba fluminense. Uma rede marcada ser criticada e contrastada, surgiu outro, de um campo escravista marcado
pelos laços de família, por favores, trocas, concessões e compadrios, mas pela média e pela pequena posse de escravos. A pesquisa nos inventários de
principalmente pela força e pela assimetria das relações de poder, domina- Vassouras – e tudo indica que o mesmo se aplica a outras regiões grandes
ção e exploração. produtoras de café do Vale, talvez até de forma mais intensa – mostra que
Antes de nos debruçarmos sobre a história de Cláudio Gomes Ribeiro de era e não era bem assim. O exame dos inventários de Vassouras entre 1821,
Avelar, no entanto, é importante traçar um quadro do mundo em que ele vivia. data do primeiro inventário abrindo uma série, e 1880, marco do início do
período de decadência da lavoura cafeeira no município, mostrou a neces-
proprietários, escravos e alforriados em vassouras sidade de ir além da tradicional divisão entre pequenos, médios e grandes
proprietários de escravos. A existência de números significativos de donos de
Esse mundo era a região conhecida como Serra Acima, que se notabilizou um a 20 escravos ao lado de proprietários de 30, 40, 50 ou mais cativos, bem
pela produção de café no século XIX. O barão era um grande proprietá- como outros, plantéis com 100, 200 ou mais escravos, levou à necessidade da
rio de terras e escravos em Vassouras. A designação “grande”, entretanto, seguinte classificação dos proprietários de escravos em cinco faixas: minipro-
não dá conta da dimensão de sua propriedade escravista, assim como de prietários de escravos, donos de 1 a 4 cativos; pequenos proprietários, possui-
alguns outros poucos donos de escravos da região. A análise da distribui- dores de 5 a 19 escravos; médios proprietários, entre 20 e 49 escravos; grandes
ção da propriedade de escravos, de acordo com os inventários post-mortem proprietários, donos de 50 a 99 cativos; e megaproprietários, com 100 ou mais
em Vassouras, no período entre 1821 e 1880, evidenciou a existência de escravos. Concretamente, no período entre 1821 e 1880, foram localizados:
megaproprietários de escravos. Isto é, proprietários de 100 ou mais cativos.
Ao todo, foram detectados 65 megaproprietários em um conjunto de 729 • 2% de inventários sem escravos;
inventários encontrados neste período.3 Esses números parecem confirmar • 16% de miniproprietários;
• 39% de pequenos proprietários;
a ideia, algo disseminada na historiografia atual, de que, a despeito da exis-
• 22% de médios proprietários;
tência de grandes potentados com mais de 1.000 cativos e diversas proprie-
• 12% de grandes proprietários;
dades, como os irmãos Breves, em Piraí e adjacências, e o barão de Nova
• 9% de megaproprietários.4
Friburgo, em Cantagalo e cercanias, por exemplo, o cultivo de café no Vale
do Paraíba do século XIX era feito basicamente em propriedades com cerca O que se vê, portanto, é uma propriedade escravista disseminada, com
de 20 cativos. Propriedades em que o convívio entre o senhor, sua família mini e pequenos proprietários de escravos representando 55% de todos
e seus escravos era muito próximo, marcado por pressões por parte dos proprietários. Os inventários desta faixa de proprietários, normalmente,
escravos, concessões e negociações cotidianas. Essa imagem difere bastante não listavam senzalas, equipamentos de beneficiamento de café, grandes
daquela da plantation escravista estabelecida pela historiografia anterior, terreiros e poucos apontavam a propriedade de terras. Houve um número
principalmente dos anos de 1960 e 1970. Uma imagem dos grandes plantéis expressivo de alforrias nesta faixa de proprietários, sempre que foi possível
de cativos, em sua imensa maioria homens, submetidos à rígida disciplina verificar esse fenômeno nas listagens de cativos dos inventários. O mesmo
aconteceu quando se pôde identificar em que categoria de proprietário de
escravos se encaixavam os autores de testamentos que alforriaram escravos.
3 SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX – senhores e escravos no coração do
Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. 4 Ibid.

198 199
Algumas vezes, ex-cativos alforriados, por vontade testamental de seus Neste quadro, as alforrias que aparecem em alguns testamentos e
donos, recebiam como escravos companheiros e companheiras com quem mesmo em alguns inventários beneficiam uma proporção muito menor
conviviam, até bem pouco, no cativeiro. De uma hora para outra, por força das escravarias, se comparadas com o universo dos pequenos proprie-
da execução de um testamento, um cativo podia se transformar em uma tários. Negociações, pressões, concessões e a moeda de troca da alforria
pessoa livre, na condição de liberta. Podia mesmo se transformar, e mui- também faziam parte do universo das relações entre os grandes senhores
tos se transformaram, em um pequeno proprietário de escravos. Pode-se e seus escravos. Como fica evidente pela descrição dos elementos compo-
supor que essas mudanças não eram completas surpresas. Elas parecem ter nentes de um grande inventário, entretanto, o ambiente em que essas rela-
expressado longos processos de negociações, formais ou informais, ditos ou ções se davam era muito distinto daquele encontrado entre os pequenos e
não ditos, entre as partes envolvidas. A retórica benevolente dos testamen- mesmo os médios proprietários.5 A diferença vinha, em primeiro lugar, pelo
tos em que se davam as alforrias, quase sempre com expressões de gratidão número de cativos, o perfil do plantel, o tipo de unidade produtora, o tipo
ou recompensa em relação aos serviços prestados pelos alforriados, eviden- de propriedade. Tratava-se de centenas de escravos ou de um punhado cati-
cia essa dimensão das relações entre os senhores e seus escravos. Tudo isso vos? O trabalho era feito em turmas supervisionadas, implicando em disci-
mostra que, de fato, se tratava d um universo social complexo, marcado por plina rigorosa e com metas a serem cumpridas, com castigos quando não o
negociações e concessões em que a alforria era a moeda de troca corrente fossem e recompensas, em dinheiro ou “fichas” da fazenda, quando fossem
nas relações entre estes senhores e seus escravos. excedidas? Ou era um trabalho feito em pequenas lavouras, muitas vezes
Também entre os testamentos e inventários de grandes e megaproprie- até mesmo ombro a ombro com o senhor ou sua família? Havia espaços
tários aparecem as alforrias e as doações a ex-escravos alforriados, inclusive para roças individuais ou familiares cultivadas pelos cativos em seus dias
de cativos. Isso acontecia, entretanto, em menor escala e em um ambiente livres? Havia maior ou menor equilíbrio entre os sexos, com a existência,
distinto. Neste caso, estão presentes as senzalas, os grandes terreiros, os equi- em número significativo, de famílias? As relações entre senhores e escra-
pamentos de beneficiamento de café. Uma paisagem que está ausente entre vos eram diretas ou se davam através de intermediários? As rotinas de vida
mini e pequenos proprietários. O contrário acontece com os grandes e mega- eram experimentadas em grandes senzalas, em torno dos terreiros, ou em
proprietários. Nos inventários de grande e megaproprietários, podemos pequenas posses, com a choupana dos escravos ao lado das pequenas casas
encontrar lances e lances de senzalas, cobertas com telhas ou com cobertura ou casebres de seus senhores? A presença do senhor se dava em grandes
de capim, com varandas ou sem varandas, algumas com piso. Algumas em casas de vivenda, inacessíveis, ao menos para os escravos do eito? Ou essa
linha, outras possivelmente em quadras. Encontram-se também as tulhas presença mostrava uma relativa fragilidade social dos pequenos proprietá-
para armazenar o café durante a sua secagem, os engenhos de cana, de café rios, se comparada com os grandes potentados? Havia ali uma capela onde,
ou de uso não discriminado, os grandes terreiros, sendo que alguns cal- de quando em quando, aparecia um padre para rezar missas, batizar e casar?
çados. Aparecem ainda máquinas despolpadoras para ventilar e separar o Em segundo lugar, as diferenças diziam respeito ao tipo de impacto que
café. São avaliados cafezais novos, cafezais antigos e, em alguns casos, matas. o jogo de pressões e negociações e principalmente as alforrias traziam para
Podem-se ver alguns hospitais ou enfermarias para os cativos. Aparecem as escravos e senhores. Em uma pequena posse ou propriedade com poucos
casa de vivendas, as pratarias, os móveis, os jogos de louça, talheres, dívidas escravos, as alforrias podiam mudar radicalmente a vida de todos os envol-
a receber e a pagar, obrigações com irmãos, pais, filhos, sobrinhos, com- vidos. Os herdeiros de um pequeno proprietário podiam, por efeito das dis-
padres, afilhados. Arrolam-se, em algumas ocasiões, centenas de escravos posições de um testamento, simplesmente deixar a condição de proprietá-
distribuídos por duas ou mais propriedades. As famílias de cativos aparecem rios de escravos. Ou podiam passar da condição de pequenos proprietários,
com maior frequência. Entre estas centenas de escravos, muitos deles descri-
5 CABRAL, Domênico Renan da Silva. Concessões ou conquistas: a política de benefícios testamentá-
tos com seus ofícios, podemos ver alguns feitores e capatazes. rios na crise do escravismo em Vassouras – 1851- 1870. 2006. Monografia de conclusão de curso,
Departamento de História, Universidade Severino Sombra, Vassouras, 2006.

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conforme a categorização que está sendo adotada, para a de miniproprie- o significado social da alforria. Numa inversão conceitual que remonta ao
tários. Ex-escravos alforriados podiam, não fosse o fato de serem libertos, arcabouço teórico marxista e althusseriano, pode-se dizer que este signifi-
passar para a mesma condição social de seus antigos senhores. cado social acabava por sobredeterminar as práticas e os significados dos
Em uma grande propriedade, apesar do impacto das alforrias ser enor- ambientes locais. Ainda que cada situação particular, com seu desenvol-
memente significativo na vida de quem era alforriado, os efeitos desses vimento e desfecho único, impactasse, compusesse e, no limite, pudesse
atos eram muito mais reiterativos da situação em que se davam as relações transformar o quadro e os processos gerais, cada uma delas estava neles
locais entre senhores e escravos. Se o ex-escravo fosse continuar vivendo contidos. A compreensão desse fato é essencial para se aquilatar as condi-
na fazenda, o que normalmente acontecia, tudo a seu redor permaneceria ções e os alcances potenciais das agências dos grandes senhores, dos peque-
mais ou menos como antes. Para seus antigos companheiros, o testemunho nos senhores, de seus escravos e dos libertos no mundo escravista do século
de sua alforria, sem dúvida significativo, era balanceado pela experiência XIX. Numa formulação simples, quanto mais inseridos ativamente no qua-
predominante de dezenas e dezenas de outros escravos que viveriam e mor- dro e processos gerais, maior era o peso da agência dos atores sociais no
reriam nesta condição. sentido de conferir significados, definindo um vocabulário social, à multi-
Apesar dessas distinções em relação ao impacto que as negociações plicidade de situações cotidianas em que senhores e escravos se enfrenta-
entre senhores e escravos e as alforrias podiam ter, e normalmente tinham, vam, negociavam, faziam concessões e obtinham conquistas. No caso con-
dependendo do ambiente local em que ocorriam, encontramos sempre a creto do período que está sendo analisado, entre 1820 e 1880, o quadro e os
mesma retórica, o mesmo vocabulário social empregada, seja na grande, processos gerais pendiam decididamente para os grandes senhores.
seja na pequena propriedade. Encontramos, em ambos os casos, a mesma Isso não aconteceu apenas por obra de tendências e dinâmicas sociais
condição subalterna do liberto quando analisamos os documentos ou mais amplas e ocultas. Estas existiam e nem sempre ou quase nunca foram
quando lemos testemunhos diversos que relatam, direta ou indiretamente, claramente percebidas em sua totalidade de significados pelos contemporâ-
estas situações. Essa coincidência de retórica e vocabulário social e o uso da neos. Mas também havia razões bem concretas para que a balança pendesse
mesma moeda de troca em ambientes tão diferentes não se dava ao acaso e para os grandes senhores. Razões que dizem respeito ao poder e ao papel
tampouco era desprovida de um significado muito preciso. Até o início da que estes tinham na vida local, no poder provincial e geral, e na ordem
década de 1870, com o final da Guerra do Paraguai e a onda de alforrias para institucional do Império. Adicione-se a essas razões, de ordem mais geral,
o recrutamento que ela propiciou, e com a Lei de 28 de setembro de 1871, o fato bem mais concreto de que a grande maioria dos escravos vivia, sofria
que previa o fim gradativo da escravidão, institucionalizou pecúlio escravo suas agruras e morria em grandes propriedades rurais, onde suas possibili-
e criou um sistema legal nacional de emancipações, a alforria foi sempre dades de negociação e pressão eram menores.
descrita, entendida e vivenciada como um ato privado de benevolência Uma olhada mais de perto na distribuição da propriedade escra-
senhorial. Um ato que recompensava o bom escravo, até mesmo quando vista em Vassouras, de acordo com os dados obtidos na série de inventá-
era uma transação comercialmente vantajosa ou ao menos que não trazia rios post-mortem para o período entre 1821 e 1880, corrige uma primeira
prejuízo financeiro ao senhor, quando comprada pelo ex-escravo. Um ato impressão, que por ventura se tivesse, de que a propriedade de escravos era
que requeria, e normalmente obtinha, ainda que formalmente, através dos principalmente distribuída entre pequenas e médias posses, em que pese
códigos de conduta social praticados, a gratidão do liberto. a existência de um punhado de grandes proprietários. Vimos que mini e
Essa retórica e vocabulário comuns implicavam que predominava, na pequenos proprietários de escravos, representando 55% dos inventários
valoração, no entendimento das partes e, principalmente, no sentido geral encontrados, predominavam amplamente sobre grandes e megaproprie-
de instituto reiterativo da ordem escravista, o significado que era confe- tários, que somaram 21% dos mesmos inventários. Se considerarmos, no
rido às alforrias e às negociações entre senhores e escravos pelas práticas entanto, a proporção de escravos que cada uma dessas categorias possuía,
vigentes nas grandes propriedades. Eram essas práticas que determinavam a coisa muda radicalmente de figura. Grandes e megaproprietários foram

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donos de 70% dos 28.245 dos escravos arrolados nos inventários no período. negociações de reconhecimento da independência, minaram as relações
Mini e pequenos proprietários ficaram com 12% dos cativos, enquanto entre as facções políticas liberais e o monarca. Este foi se vendo isolado,
18% pertenceram a médios proprietários. Esses dados mostram qual era o contando apenas com o apoio mais restrito de grupos de comerciantes,
ambiente predominante nas relações entre senhores e escravos. Assim, o principalmente portugueses, de uma pequena elite cortesã, assim como
ambiente das grandes propriedades e das plantations não prevalecia apenas de alguns grandes proprietários que mantinham estreitas ligações com o
pelo poder efetivo e simbólico dos grandes senhores na sociedade, por sua núcleo de poder. Diante da pressão das ruas, ganhou importância uma
riqueza e força material, na sociedade em geral. Prevalecia também porque nova oposição liberal, que acabou por forçar a abdicação de Dom Pedro I.
era sob seu domínio que viviam e morriam a grande maioria dos escravos.6 Essa nova oposição, através de sua facção moderada, vinha se aproximando
cada vez mais seus laços políticos, clientelares e pessoais com a camada de
o barão de guaribu e a terra dos barões grandes proprietários de terras e escravos da região da Bacia do Paraíba do
Sul. Essa aproximação ocorreu inclusive com alguns que, até a abdicação,
Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, barão de Guaribu, era um desses gran- haviam sustentado o imperador. Esse foi o caso de Manuel Jacinto Nogueira
des senhores, um megaproprietário de escravos na terminologia adotada, da Gama, marquês de Baependi.
quando morreu em 1863. Nesse momento, Vassouras vivia seu apogeu. O Ato Adicional de 1834, ao conferir maior poder ao parlamento e
Desde a década anterior, quando a produção de café talvez tenha alcan- estruturar as relações entre o plano local e o central, através da criação das
çado seu momento máximo, a região e a cidade davam mostras de pujança. assembleias provinciais e outras medidas, completou o solapamento das
Claúdio fazia parte de uma geração, nascida entre o final do século XVIII e bases tradicionais de poder, herdadas do Antigo Regime colonial e de sua
o início do século XIX, que, juntamente com seus pais, formara o território lógica territorialista, como colocou Ilmar Rohloff de Mattos.7 Em Vassouras,
e construíra a cidade, como expressão simbólica e material de seu poder na o vereador Joaquim Ribeiro de Avelar, de quem já voltaremos a falar, na
região. Entre estas famílias, destacavam-se aquelas que Mariana Muaze vem Câmara Municipal, apoiou o Ato Adicional. De uma de suas janelas, fez um
chamando de os quatro grandes: os Ribeiro de Avelar, os Lacerda Werneck, discurso para as pessoas que se concentravam diante do edifício, saudando
os Correia e Castro e os Teixeira Leite. Essas famílias, vindas de Minas Gerais a reforma. A centralização do regime se mostrara demasiada. Era neces-
ou do Rio de Janeiro, haviam se estabelecido na margem oriental do rio sário dar margem ao desenvolvimento a um sistema que garantisse maior
Paraíba, desde finais do século XVIII, ao redor e ao longo do Caminho Novo autonomia para as províncias. Um sistema que ensaiasse uma monarquia
para as Minas Gerais, aberto no começo do século. Algumas já estavam federativa, fundada sobre os princípios americanos.8
na área desde então. Essas famílias receberam sesmarias e deram origem a Os fatos demonstraram, entretanto, que não se poderia ou não se deve-
grandes propriedades rurais, como as fazendas Pau Grande, Ubá e Piedade, ria ir tão longe.
produzindo açúcar, aguardente e derivados, carne suína e mantimentos. A experiência de sucessivas revoltas, inclusive com a Revolta dos Malês
Suas histórias ganharam relevância com a expansão do café e a conso- em Salvador, fez com que muitos priorizassem a busca da ordem, mesmo
lidação do Império do Brasil. Vendo crescer sua importância econômica e que ao preço de recuar de algumas das reformas há pouco aprovadas. A par-
estreitando seus laços com as facções políticas da Corte, eles participaram tir desse momento, a política dos moderados, respaldada na região escra-
do impulso liberal que forçou a separação de Portugal, apoiando a ascensão vista em expansão, que se desenvolvia juntamente com o mercado mun-
de Dom Pedro I ao trono do Império do Brasil. A constituição outorgada de dial capitalista, se deu no sentido de deter o “carro da revolução”. Assim, as
1824 e os desdobramentos da política implementada pelo primeiro impe- mudanças institucionais promovidas no conturbado período entre finais
rador, com seu forte viés absolutista e, principalmente, com a perspectiva
de eminente proibição do tráfico internacional, forçada pela Inglaterra nas 7 MATTOS, Ilmar Rohloff de. O gigante e o espelho. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo (Org.).
O Brasil imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. v. 2.
6 SALLES, 2008. 8 RAPOSO, Inácio. História de Vassouras. Niterói: SEEC, 1978.

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da década de 1820 e meados da década de 1830 corresponderam a um claro gem ao chamado Tempo Saquarema, que se estendeu até pelo menos a volta
deslocamento da base social do Estado imperial em direção ao poder eco- dos liberais ao governo, em 1862, após 14 anos de jejum de poder. Estava
nômico, territorial, material e político dos grandes proprietários de terras formada uma nova base social e econômica de poder, igualmente territo-
e escravos da região da Bacia do Paraíba. Tais mudanças foram conduzidas rialista e centralista, mas agora constitucional. Estavam dadas as condições
sob a liderança dos liberais moderados e, a partir de 1835, dos regressistas para a expansão de um Império de novo tipo, que atingiria seu auge com o
que formaram as bases do futuro Partido Conservador da década de 1840.9 Segundo Reinado, nas décadas de 1840 a 1860.
Na região sudeste, duas revoltas tiveram grande repercussão neste Do ponto de vista institucional, a década de 1850 se abriu com a proi-
mesmo período e contribuíram para que os fatos se encaminhassem nesta bição efetiva do tráfico internacional, a Lei de Terras e o código comercial,
direção: a Revolta de Carrancas, em Minas Gerais, em 1833, e a de Manoel ambas de 1850, e com a aprovação do código comercial pouco depois. Foi
Congo, em Vassouras, em 1838. As condições socioeconômicas que se con- exatamente neste momento que a relação entre o Estado imperial e os gran-
figuram na esteira da expansão, com a grande afluência de africanos para des fazendeiros, que só viria a ser rompida com a Abolição, em 1888, se con-
a região, trazidos pelo tráfico internacional para abastecer as fazendas que solidou. Em parte, esta consolidação dependeu destas medidas. A principal
se desenvolviam, fizeram o resto. Um clima de temor se instalou entre a delas, a extinção do tráfico, só ocorreu devido à insuportável pressão inglesa
população livre.10 Nessa conjuntura, um poder central com pulso firme era e, aparentemente, comprometia os interesses, se não imediatos, a médio e
bem-vindo. Estavam dadas as condições favoráveis à ligação orgânica dos longo prazo dos grandes fazendeiros escravistas. Contudo, em discursos pro-
regressistas, e, com sua vitória e transmudação em conservadores, do pró- nunciados no parlamento, nos anos imediatamente posteriores à aprovação
prio Império, com a grande propriedade escravista. O ponto de encontro da Lei, Eusébio de Queirós e Honório Hermeto Carneiro Leão, dois próceres
entre esses dois movimentos, o político por um lado e o econômico e social conservadores, apressaram-se em assegurar que não. Diante de propostas de
por outro, foi propiciado pela reabertura e expansão do tráfico atlântico de aprofundar uma legislação que regulasse as relações entre senhores e escravos
escravos africanos. e que limitassem a escravidão, apontando para seu fim em futuro não ime-
Proibido em 1831, por força dos acordos de reconhecimento da inde- diato, mas previsível, Carneiro Leão defendeu que as leis e os costumes que
pendência com a Inglaterra, e sem ter nunca cessado totalmente, o tráfico garantiam a escravidão ainda deviam perdurar por séculos no país. Eusébio,
foi retomado e ampliado, sob a forma de contrabando aberto aproximada- por seu turno, já justificara antes a proibição do tráfico como medida que,
mente a partir de 1835. Essa retomada foi capitaneada pelos regressistas, que além de ser salutar diante da enorme presença africana que se avolumava e
respondiam a uma pressão política e social vinda do Vale.11 Até 1850, negrei- comprometia a ordem pública, extirpava a ameaça de que a grande proprie-
ros brasileiros, portugueses, norte-americanos e de outras nacionalidades dade passasse para as mãos dos traficantes, com quem os senhores se endivi-
despejaram escravos africanos, em escala nunca antes experimentada, pelos davam. Carneiro Leão era direto na defesa dos interesses escravistas, Eusébio
portos brasileiros, principalmente do Sudeste e do Rio de Janeiro. Todo esse tergiversava: nem a ameaça africana era tão grande, nem os senhores encon-
movimento histórico, cujo marco decisivo foi a vitória do Regresso, deu ori- travam-se tão endividados.12 Os dois temas, no entanto, lhes eram caros.
Não por coincidência, Honório era ele mesmo dono de uma grande
9 BASILE, Marcello. O laboratório da Nação: a era regencial (1831-1840). In: GRINBERG, Keila; propriedade escravista em Sapucaia, divisa do Rio de Janeiro com Minas
SALLES, Ricardo (Org.). O Brasil imperial. Gerais. Igualmente Eusébio era casado com a filha de uma grande proprie-
10 GRINBERG, Keila; BORGES, Magno Fonseca; SALLES, Ricardo. Rebeliões escravas antes da extin-
tária de Vassouras, esposa em segundas núpcias de José Clemente Pereira.
ção do tráfico. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo (Org.). O Brasil imperial. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2009. v. 1; RIBEIRO, João Luiz. No meio das galinhas as baratas não têm razão. Mas, a atuação de Queirós e Carneiro Leão nesse momento expressava
Rio de Janeiro: Renovar, 2006; GOMES, Flávio dos Santos. Histórias de quilombolas: mocambos e muito mais que sua ligação direta e pessoal com a grande propriedade
comunidades de senzala no Rio de Janeiro – século XIX, Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.
11 PARRON, Tâmis. A política da escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. Rio de Janeiro: Civilização 12 DISCURSO. Anais da Câmara dos Deputados, [S.l.], 16 jul. 1852; DISCURSO. Anais da Câmara dos
Brasileira, 2011. Deputados, 26 maio 1855.

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escravista, ainda que este fato não deixe de ser importante. Ela assinalava e causou viva impressão em Charles Ribeyrolles, quando de sua visita à
sua atuação como dirigentes, intelectuais nas palavras de Antonio Gramsci, região em 1858. Nesse meio tempo, a vila também passava por melhora-
de todo um grupo social: a classe senhorial. Intelectuais porque, voltados mentos incentivados pela Câmara Municipal. Em 1848, o imperador visitou
para a política, moldavam os interesses gerais, de longo prazo, não apenas a região e a vila, onde foi recebido na casa de Pedro Correia e Castro, irmão
imediatos, corporativos, específicos e individuais dessa classe. Interesses de Laureano e que, em dezembro do mesmo ano, receberia seu título de
gerais e de longo prazo que, por sua vez, só existiam como tais a partir de barão de Tinguá. A partir daí, passou a ter lugar o grosso das concessões de
sua ação e de sua conformação por estes intelectuais no plano do Estado e títulos a potentados locais. Em 1853, a igreja matriz da vila ficou pronta. Em
da política. Interesses que, neste momento, tornavam-se interesses domi- 1849, iniciou-se a construção da nova sede da Câmara Municipal, só con-
nantes e, ainda pela ação de intelectuais como Eusébio e Carneiro Leão e cluída em 1872. Ergueram-se ou reformaram-se algumas residências urba-
outros, se expressavam como visão de mundo, como hegemonia. nas que ostentavam grande luxo, como, por exemplo, o palacete do barão de
Concretamente, a direção saquarema do Partido Conservador, naquele Ribeirão. Em 1857, Vassouras foi elevada à condição de cidade.13
momento crítico de 1850, conduziu um recuo inevitável diante da pressão Tudo isso foi obra da geração de grandes senhores, alguns descendentes
britânica, sem comprometer a ordem escravista. A mensagem de 1850 e do de grandes proprietários já residentes anteriormente na região. No começo
que se seguiu foi clara: ninguém mais mexeria na escravidão. Com a Lei de da década de 1860, no entanto, essa geração estava em vias de desaparecer.
Terras, a grande propriedade da terra estava assegurada e, se necessário, Entre 1860 e 1865, além do próprio barão de Guaribu, faleceram ao menos
podiam ser exploradas alternativas imigrantistas, caso houvesse carência de 14 grandes senhores de escravos, para contar só os megaproprietários, consi-
mão de obra. A preeminência social dos fazendeiros estava estabelecida; a derando-se os inventários encontrados e outros dados genealógicos. Destes,
relação de dependência entre o Estado imperial e a classe, soldada. quatro eram barões: Laureano Correia Castro, barão de Campo Belo em
A história de Vassouras e de suas principais famílias, entre elas os 1854, proprietário da fazenda do Secretário, fundador da vila de Vassouras,
Gomes Ribeiro de Avelar, esteve indissoluvelmente ligada a esse processo falecido em janeiro de 1861; Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, barão
histórico geral brevemente descrito. Em 1833, em meio a disputas pelo de Paty do Alferes em 1852, cunhado de Guaribu, proprietário, entre outras,
poder local, as quatro grandes famílias acima mencionadas promoveram da fazenda da Piedade, fundador da vila de Vassouras, falecido em novem-
a criação da vila de Vassouras e a transferência da sede do município para bro do mesmo ano; Joaquim Ribeiro de Avelar, barão de Capivari, em 1846,
lá, em detrimento da vila mais antiga Paty do Alferes. O movimento foi tio de Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, membro da primeira Câmara
liderado pelos Teixeira Leite e pelos Correia e Castro, que tinham terras e Municipal, dono da fazenda Pau Grande, falecido em 1863.
interesses em Vassouras, mas foi apoiado pelos Lacerda Werneck e pelos Foram distintas as inserções sociais e políticas desses barões, ainda
Ribeiro de Avelar, que eram proprietários na região de Paty. que com um traço em comum: todos permaneceram residindo em suas
A parir desse momento, essas quatro famílias, bem como aquelas de fazendas, não possuindo, ao que se saiba, residências urbanas. Werneck foi
seus compadres e aliados, como os Furquim de Almeida e os Avelar de o que mais laços estabeleceu com a política provincial e imperial, tendo
Almeida, dominaram a política local até pelo menos a década de 1870. Além sido comandante da Guarda Nacional na região. Tinha articulações com os
disso, tiveram grande influência na política provincial e junto ao governo saquaremas, especialmente com Eusébio de Queirós. Participou ativamente
geral. No plano municipal, em 1832, criaram a Sociedade Promotora da da contenção da Revolta Liberal de 1842 no Vale.14 O barão de Guaribu, por
Civilização e Indústria da Vila de Vassouras. Na década de 1840, come-
çaram a se reformar as antigas casas de morada ou mesmo a se construir 13 BORGES, Magno Fonseca. Protagonismo e sociabilidade escrava na implantação e ampliação da
novas casas de vivenda nas fazendas. Laureano Correia Castro, barão de cultura cafeeira – Vassouras – 1821-1850. 2005. Dissertação (Mestrado em História Social) –
Vassouras, Universidade Severino Sombra, 2005.
Campo Belo, por exemplo, teria chamado o engenheiro alemão Koeler para 14 NEEDELL, Jeffrey. The Party of Order: the conservatives, the State, slavery in the Brazilian monar-
reformar a sede de sua fazenda do Secretário. A casa ficou pronta em 1844 chy, 1831-1871. Stanford: Stanford University Press, 2006; MAUAD, Ana Maria; MUAZE, Mariana.

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seu turno, sempre restringiu sua atuação a suas propriedades e, eventual- Quanto a este último aspecto, um inventário de 1812 nos ajudará a fazer
mente, ao plano local. A própria sede de seus domínios, a casa de vivenda isso. Trata-se do inventário de Francisca Laureana das Chagas Monteiro,
da fazenda Guaribu, não tinha grandes requintes arquitetônicos e ainda esposa de Ignácio de Souza Werneck. Francisca e Ignácio foram os pais de
lembrava as antigas sedes coloniais de fazendas. Ana Matilde Amélia Werneck, casada com Francisco Peixoto de Lacerda,
e avós de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, barão de Paty do Alferes,
os bens do barão: origens a quem acima nos referimos. Francisca faleceu em 1812. Neste momento,
Ignácio procedeu ao inventário dos bens do casal. A data é importante por-
Cláudio não era casado e não tinha filhos, ao menos reconhecidos. Seus que, neste momento, estavam sendo distribuídas sesmarias pela região em
herdeiros, portanto, seriam seus irmãos. Entretanto, como ele não tinha larga escala. Por tudo isso, por sua riqueza descritiva em alguns detalhes e
cônjuge, podia legalmente dispor de todos os seus bens. Assim, distribuiu, por um processo de verossimilhança, o inventário de Francisca Laureana
através do seu testamento, diversas quantias de pequena monta entre sobri- pode nos ajudar a melhor entender como se deu a formação da grande
nhos e afilhados. Outras, deixou a irmandades e confrarias a que pertencia. cafeicultura escravista do Médio Vale do Paraíba.
Reservou valores para que se rezassem capelas por sua alma, assim como De seus bens, constavam extensas braças de terra, um conjunto de edi-
pelas almas de seus irmãos e de seus escravos já falecidos. Também mandou ficações, que, em sua grande maioria, eram modestas, com cobertura de
rezar capelas pelas almas do purgatório. O barão declarava ainda que... capim. Havia um engenho para moer mandioca, cana e utensílios para o
[...] os bens que possuo são as Fazendas de Guaribu, Antas, Boa União, fabrico de aguardente. Ainda estavam listados e avaliados alguns animais,
Encantos e Guaribu Velho, com todas as terras e benfeitorias nelas existentes, entre porcos e galinhas. Embora se tenha autodenominado sitiante na fre-
escravatura, tropa, gado, diversos trastes e obras de prata [...]. Declaro que guesia de Nossa Senhora da Conceição de Serra Acima, Ignácio detinha
tenho transação de negócio com diversas pessoas, tanto de débito como de uma grande porção de terras, que ultrapassavam nove mil braças quadra-
haver, as quais se por ventura eu não liquidar, serão afinal liquidadas por meu das. Da estrutura produtiva descrita no inventário, pode-se ver que estas
testamenteiro com as formalidades legais.15
terras eram utilizadas para a produção de alguns gêneros, como a farinha
A quantia que esses bens representavam em 1863 era impressionante: de mandioca, e o principal deles, açúcar e aguardente.17
1.127:858$700, tirando as dívidas que eram, segundo ele, negócios de pouca A aquisição de tantas terras havia acontecido em parte por concessão em
monta.16 Pelas quatro propriedades – estamos considerando a Guaribu sesmaria, em parte por compra em resta pública. Ignácio Werneck iniciara o
e a Guaribu Velho como uma só – estavam listados 835 escravos: 444 na processo de ocupação destas terras a partir de uma missão específica deter-
Guaribu, 305 na Antas, 80 na Encantos e 6 na Boa União. Esses escravos, minada pelo vice-rei D. Luís de Vasconcelos e Souza em 1789. Essa missão
em conjunto, representavam 62,1% de sua fortuna. As terras representavam era “abrandar e aldear” os grupos indígenas que ocupavam a região. Ignácio
13,5%, os cafezais, 11,9% e cafés em coco, 5,7%. Os pouco menos 7% restantes não estava sozinho nesta tarefa. Em 1800, José Rodrigues da Cruz, um dos
estavam distribuídos em construções diversas, pratas, animais, instrumen- sócios da Casa do Pau Grande, com negócios na praça do Rio de Janeiro,
tos de trabalho, máquinas e ferramentas. Para entender como essa fortuna também estava envolvido na incumbência de domesticar estes indígenas.
fora amealhada, é necessário retroceder no tempo e avaliar sua formação, Aos poucos, ia mudando o perfil da ocupação econômica e demográfica
do território, ou, ao menos, a sua intenção. Quando da abertura do Caminho
juntamente com a casa de Guaribu e com a cultura do café na região.
Novo para as Minas, a partir do início da segunda década do XVIII, emer-
giram um conjunto de pequenos sitiantes e posseiros a margearem o cami-
A escrita da intimidade: diário da viscondessa de Arcozelo. In: GOMES, Angela de Castro (Org.). nho e suas variantes com pequenos pousos e tabernas e a servirem aos que
Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: FGV, 2004.
15 TESTAMENTO de Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, barão de Guaribu. 17 INVENTÁRIO de Ana Matilde Werneck. Vassouras: Centro de Documentação Histórica da
16 INVENTÁRIO de Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, barão de Guaribu. Universidade Severino Sombra, 1812.

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se deslocavam no eixo do Rio de Janeiro a diversos povoados e vilas na escala modesta, os primeiros anos do século XIX. Ainda na segunda década,
região das Minas Gerais. A partir da segunda metade do século, já se podem o açúcar era amplamente predominante. Inventários de grandes fazendas
encontrar algumas grandes unidades de produção de açúcar e aguardente, mais antigas, que remontavam sua origem ao século XVIII, como a Guaribu,
assim como de carnes e outros mantimentos, voltadas tanto para o mercado inventariada em 1839, e a Freguesia, inventariada em 1840, corroboram esta
externo, quanto para o abastecimento interno, principalmente do Rio de conclusão. Nestes inventários, de unidades produtoras então já principal-
Janeiro. mente dedicadas à produção de café em larga escala, ainda se encontram
Na última década do século XVIII, a saída de Santo Domingos do mer- as antigas moendas, engenhos e até formas de açúcar, além de maquinário
cado mundial de açúcar e café, ocasionada pela revolução dos escravos no para o fabrico da aguardente.22
contexto da Revolução Francesa e dos conflitos internacionais dela decor- Neste ponto, podemos retomar a história da fazenda do Guaribu, que se
rentes, impulsionou ainda mais a ocupação das terras de Serra Acima. Em insere exatamente nesse processo de passagem da cultura e produção da cana
trabalho monográfico, Luís César de Oliveira Santos, usando como informa- para a produção de café. Suas origens estão ligadas à fazenda Pau Grande,
ção as descrições da região de Monsenhor Pizarro, de 1795, e de D. Caetano, que pertencia à Companhia Avelar e Santos, pertencente a Antônio Ribeiro
de 1813, identificou que, embora a região fosse parcamente ocupada nos dois de Avelar, seu irmão José Rodrigues Cruz e ao cunhado Antônio dos Santos.
momentos, houve um crescimento populacional médio de 3,41% ao ano. Antônio Ribeiro de Avelar chegou a ser arrolado no auto de devassa da
Ou seja, no intervalo de 18 anos, a população foi ampliada em 61,45%.18 A Conjuração Mineira, o que o teria levado a se retirar para as terras da fazenda.
implantação de unidades produtoras de açúcar era a grande responsável Dois anos depois, ele veio a falecer. Neste mesmo ano, sua viúva, Antônia
por isso. Em 1816, o viajante Saint-Hilaire, de passagem para Minas, ficou Maria da Conceição, deixou a cidade do Rio de Janeiro e se mudou defini-
impressionado com as dimensões do complexo produtivo, basicamente vol- tivamente, com os filhos, para a Pau Grande. Sua filha Joaquina Matildes de
tado para o açúcar, das fazendas Pau Grande e Ubá, pioneiras na região.19 Assunção casou-se com seu primo paterno, Luís Gomes Ribeiro.23
Do conjunto de bens listados por ocasião do inventário da esposa de O casal passou a residir na Pau Grande junto com a sogra e seus demais
Ignácio de Souza Werneck, como verificado acima, a grande maioria estava filhos. Luís tornou-se o administrador da fazenda. Em pouco tempo, com-
voltada para produção do açúcar. Eram, entre outros, “um engenho de prou as partes pertencentes a Antônio dos Santos e João Rodrigues da Cruz.
moer cana que trabalha com água com três lances em um dos quais se acha Em 1811, fez construir ou reformar a casa de morada, dando origem a um
um sobrado”, escumadeiras, tachos de cobre – alguns já bem arruinados grande sobrado, em estilo casarão, que marcou inúmeras fazendas de café,
e outros em bom uso, denotando tanto a larga utilização como o investi- mas já com traços neoclássicos, que tanto impressionou Saint-Hilaire em
mento na renovação dos utensílios –, destilador, esfriadeiras.20 1816. Tratava-se de uma ampla construção dividida em duas alas separadas
O inventário já apresentava uma modesta roça de café, recém-plan- por uma capela no centro de proporções razoáveis. Luís e sua família habita-
tado, avaliada pela pequena quantia de três mil réis. Um nada se comparado vam em uma das alas e a sogra e seus filhos na outra. Entretanto, desde 1811,
às trinta e nove arrobas de açúcar, avaliadas cada uma a mil e duzentos réis, haviam começado os desentendimentos entre a sogra e seu filho Joaquim
perfazendo o total de quarenta e seis mil e oitocentos réis.21 A partir deste Ribeiro de Avelar por um lado, e Luís pelo outro. Joaquim, nesta altura, estava
dado, pode se ter como marco do início da cultura do café na região, em com 20 anos e queria ter mais voz, se não o mando, nos negócios da família.24

18 OLIVEIRA, Luís César de. Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Serra Acima, 1800-1810.
2008. Monografia de conclusão de curso, Departamento de História, Universidade Severino 22 INVENTÁRIO de Luís Gomes Ribeiro. Vassouras: Centro de Documentação Histórica da
Sombra, Vassouras, 2008. Universidade Severino Sombra, 1839; INVENTÁRIO de Manoel Francisco Xavier. Vassouras: Centro
19 SAINT-HILAIRE, Auguste. Segunda viagem do Rio de Janeiro a São Paulo e a Minas Gerais. Belo de Documentação Histórica da Universidade Severino Sombra, 1840.
Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975. 23 MUAZE, Mariana. As memórias da viscondessa: família e poder no Brasil imperial. Rio de Janeiro. J.
20 INVENTÁRIO de Francisca das Chagas. Zahar, 2008.
21 Ibid. 24 Ibid.

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O fato de que, neste momento, se intensificava a ocupação da região, exerciam forte poder político, econômico e/ou militar. O mais notável des-
com novas doações de sesmarias e ampliação das existentes, ainda na esteira ses casamentos foi o de Maria Isabel com Francisco Peixoto de Lacerda
da expansão da produção de açúcar para mercado mundial e com a vinda Werneck, filho de Ana Matilde Amélia Werneck e Francisco Peixoto
da Corte para o Rio de Janeiro, talvez tenha contribuído para acirramento Lacerda, como vimos há pouco. O futuro barão de Paty do Alferes logo se
das disputas entre Joaquim e o cunhado. Em 1817, deu-se o rompimento da tornou um dos principais proprietários e chefe político da região. Maria
Sociedade do Pau Grande. Luís Gomes Ribeiro, com a esposa e filhos, deixou Isabel casou-se cedo, em 1823, como era comum, e no ano seguinte, com
a propriedade e passou a residir na fazenda do Guaribu, um desdobramento 16 anos, teve seu primeiro filho. Nesta altura, Lacerda Werneck já ocupava
da própria Pau Grande. Apesar do rompimento da sociedade, estes conflitos uma posição proeminente, tendo apoiado ativamente o “Partido Brasileiro”
não significaram a ruptura dos laços familiares entre o ramo da família que na época da independência.
permaneceu na Pau Grande e aquele que se deslocou para a Guaribu. Cláudio, nosso personagem principal, devia ser o filho mais velho de
Essa apartação reproduzia um processo comum de ocupação das ter- Luís e Matildes, ou o segundo a ter nascido. Em seu testamento, redigido em
ras na região. Por um lado, esse processo podia ocorrer por incorporação 1829, Luís nomeou como seus testamenteiros a esposa, em segundo lugar,
de novas terras, muitas delas virgens, ao domínio de um mesmo senhor ou seu filho Francisco e, na ausência de ambos, Cláudio. De acordo com a idade
clã familiar. Esse foi o caso da formação da casa de Pau Grande. Esse tipo de que declarou em seu testamento, Cláudio teria nascido em 1800. Contudo,
expansão, normalmente ainda que não de forma exclusiva, foi mais comum como nasceu no Rio de Janeiro e em 1800 seu pai já vivia na fazenda Pau
no momento de ocupação do território. Por outro lado, a ocupação de terras Grande, é muito provável que tenha nascido antes. De qualquer forma, na
ocorreu também, como foi o caso da Guaribu, por divisão no interior de um altura em que Luís redigiu seu testamento, já era homem feito e de certa
mesmo clã e a formação de novos ramos familiares e novas casas. De um modo importância. Em 1833, quando da formação da primeira Câmara Municipal
ou de outro, esse processo trouxe um dado importante no que toca a formação de Vassouras, foi eleito vereador. Já seria então ele mesmo um proprietá-
das grandes propriedades rurais. Um grande senhor de terras e escravos mui- rio de terras e escravos? Provavelmente. Como adquirira essa propriedade?
tas vezes não era o detentor de apenas uma unidade agrária. À medida que Fora-lhe passada às mãos por doação paterna ou fora por ele comprada?
uma propriedade crescia em número de pés de café plantados, a expansão se Não há como saber ao certo. O fato é que, como seus irmãos, entre os anos
dava pela aquisição ou uso de outro conjunto de terras, geralmente próximas à de 1830 e, no máximo, na primeira metade dos anos de 1840, ele se tornou
sede anterior, mas entremeada por outras propriedades. Assim, se consolidou um grande proprietário.25
um padrão de ocupação da terra semelhante a uma grande colcha de retalhos, Francisco era comerciante e na ocasião do testamento já devia estar
onde grandes unidades eram vinculadas entre si pela propriedade e adminis- estabelecido na cidade do Rio de Janeiro, ainda que também possuísse
tração centralizada, mas, algumas vezes, espacialmente separadas por outras terras. Nesta praça, cuidava de negociar as mercadorias produzidas pela
unidades, normalmente menores. Tudo isso promovia constantes desloca- Guaribu e outras fazendas. Outro irmão, Antônio Gomes Ribeiro, à mesma
mentos por terras, busca de alianças, pressões por compra, inimizades, etc. época, já era senhor da fazenda do Mato Grosso, onde se deu parte do
Foi neste quadro que os negócios da Guaribu e da família de Luís inquérito do caso Manoel Congo, em 1839. Paulo Gomes Ribeiro ainda
Gomes Ribeiro, entre sua saída da Pau Grande, em 1817, e sua morte, em não deixara a casa paterna. Era o administrador da Guaribu e também do
sítio dos Encantos. Viria a se tornar proprietário da fazenda São Luís, que
1839, migraram para o café. E, com essa migração, se expandiram consi-
provavelmente passou a suas mãos quando se casou com sua ex-cunhada,
deravelmente, seja em termos de aquisição de novas terras, seja por sua
Feliciana José de Carvalho Avelar, viúva de seu irmão Francisco.
subdivisão em um conjunto maior de propriedades. Vejamos.
A Guaribu era a origem e o centro de todo esse complexo de proprie-
Do consórcio entre Luís Gomes Ribeiro e Matildes de Assunção, nas-
dades familiares. No final da década de 1830, era uma fazenda de grande
ceram 13 filhos, seis meninas e sete meninos. Todas as filhas se casaram
com parentes e aparentados ou com membros de respeitadas famílias, que 25 GRINBERG; BORGES; SALLES, 2009.

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estrutura. De acordo com o inventário de Luís, aberto em 1841, dois anos anteriores para a produção de café, caso da própria Guaribu e de proprie-
após sua morte, tinha 244 escravos e uma grande quantidade de instrumen- dades mais antigas, como a Pau Grande, a Ubá e a Freguesia. Pelo número
tos agrícolas: 127 enxadas, 9 foices, 21 foicinhas, 20 machados. Tinha toda de pés de café aproximado com o da fazenda Guaribu, no entanto, pode-se
a tralha necessária para equipar tropas de muares e grande quantidade de dizer que o cultivo da rubiácea começou mais ou menos na mesma época
ferramentas de pedreiro, ferreiro e carpinteiro. Eram duas casas de vivenda, nas duas unidades.29 Esse processo de implantação foi longo, complexo,
sendo uma provida de quarto de hóspedes. Uma casa de recolher café, uma custoso e envolveu riscos financeiros de porte.
casa de engenho com pilões de oito mãos, um paiol de sete lances, dois moi- Vale a pena se deter sobre esse ponto com um pouco mais de vagar,
nhos e um engenho de serrar. Era dotada ainda, e diga-se que isto não era uma vez que ele traz importantes consequências de ordem historiográfica.
comum na época, de uma olaria com forno de cozer telhas e um engenho A terra era preparada para o cultivo através do desmatamento e desto-
para fabrico de açúcar e aguardente. A fazenda, que fazia rumo com as do camento. A primeira operação era realizada a machado e fogo. As melhores
Pau Grande e Ubá, tinha 119 mil pés de café.26 e maiores árvores eram derrubadas e a madeira, que não fosse imediata-
Se a estrutura da Guaribu, em 1839, já era de admirar, vale lembrar que mente utilizada nas demais construções da fazenda, era armazenada para
se tratava de uma unidade de moradia e produção com início ou ampliação uso futuro. Depois disso, restava ainda realizar a retirada dos grandes tocos
de suas atividades a partir de 1817. O sítio dos Encantos era uma propriedade com raízes e da vegetação rasteira. Tratava-se do roteamento, ou, como
mais recente. Em seu testamento, de 1829, Luís declarava ter “dado à minha escreveu Luís em seu testamento, da “roteação” da terra. Essa tarefa era
mulher voluntariamente trinta escravos para roteação e cultivo de um sítio penosa e demorada. Por isso, ele designara 30 escravos para sua realiza-
denominado Encantos”.27 Rotear a terra significava limpar o terreno de sua ção no sítio dos Encantos. O terreno estava, então, pronto para o plantio
vegetação rasteira, que não era destruída com a derruba e queimada da das mudas. A formação ou ampliação dos cafezais, em escala comercial, se
mata. Na década seguinte, sob a administração de Paulo, ainda um rapaz dava através do reconhecimento dos melhores pés de café e da retirada de
de seus 20 anos, a propriedade se transformou em uma grande unidade suas mudas para replantio, e não através de sementes. Sabemos desse fato
de produção. Pelo inventário de Luís Gomes Ribeiro, sabemos que tinha por um processo criminal de 1840, envolvendo escravos da Guaribu, onde
então uma casa de vivenda, paiol, moinho tocado por água, com engenho foi mencionado que alguns cativos estavam saindo da senzala, na parte da
de pilões e ventilador para secar café. Havia ainda um engenho de farinha manhã, para a função de retirada das mudas de café.30
de mandioca movido por roda d’água, uma casa de máquinas e nela um O cultivo por mudas e não por sementes produzia melhores resultados,
moinho tocado por tração animal (usava-se bestas para este fim). Para o mas era muito mais trabalhoso e dispendioso, por ser um processo mais deli-
trabalho no eito, contava com 103 escravos. Cento e nove mil pés de café cado, que requeria mão de obra dedicada a esse fim. Além de cultivá-las,
estavam plantados, quase o mesmo número da Guaribu.28 havia que transportá-las de forma cuidadosa para lhes garantir sobrevida
A Encantos pode ser tomada quase como uma propriedade “modelo” até o lugar do plantio. Esse era feito em linhas traçadas e esquadrinhadas
do ponto de vista da implantação da cultura do café na região do médio perpendicularmente aos morros ou, mais raramente, em curvas de nível. Lá,
Vale, especialmente em Vassouras, Valência e adjacências. Diferentemente elas eram colocadas cuidadosamente em covas previamente preparadas, com
da Guaribu, não sofrera qualquer transformação ou adaptação de atividades largura e profundidades suficientes para garantir o crescimento da planta.
Após o plantio da muda no solo, era necessário uma série de outros cuidados,
26 TESTAMENTO de Luís Gomes Ribeiro. Vassouras: Centro de Documentação Histórica da
Universidade Severino Sombra, 1829.
27 TESTAMENTO de Luís Gomes Ribeiro.
28 TESTAMENTO de Luís Gomes Ribeiro; SALLES, Ricardo; BORGES, Magno Fonseca. Vassouras – 29 TESTAMENTO de Luís Gomes Ribeiro.
1830-1850: poder local e rebeldia escrava. In: CARVALHO, José Murilo de; NEVES, Lúcia Maria B. 30 BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Processo Criminal. Homicídio. Réu:
P. das Neves (Org.). Repensando o Brasil do oitocentos: cidadania, política e liberdade, Rio de José Crioulo. Vítima: Esperança. Vassouras: Centro de Documentação Histórica da Universidade
Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. Severino Sombra, 1840.

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que iam da rega à proteção contra as formigas cortadeiras, que proliferavam Os investimentos realizados por Luís Gomes, possivelmente na transforma-
e atacavam, de forma voraz, quando a mata era levada ao chão ou queimada. ção do sítio dos Encantos em fazenda de alta produtividade, dotada de inú-
Até a época da primeira colheita do café em escala comercial, ainda que meras benfeitorias e equipamentos, demandara investimento de capital. É
com pequeno retorno, transcorreriam cinco anos. Se tudo desse certo, valia a possível que Luís tenha obtido o dinheiro junto a seu filho. De qualquer
pena. O pé de café era um bem de capital, que renderia frutos todos os anos forma, o fato é que em seu inventário, todos os seus herdeiros reconheceram
numa curva de aproximadamente vinte anos, quando começava seu envelhe- que o casal tinha uma dívida de 46:223$934 para com Cláudio.32
cimento e sua queda acentuada de produtividade. Na mesma época em que Era um montante significativo, ainda que perfeitamente pagável, como
no Médio Vale se implantava a cultura do café, tratados agrícolas que circu- se verá. Representava cerca de ¼ do monte total do inventário de Luís. Se
lavam no reino das Duas Sicílias recomendavam a substituição da cultura de agregarmos ao valor do monte – o conjunto de bens pertencentes ao casal
grãos pelo cultivo de árvores perenes, mais lucrativas no mercado mundial que Luís havia disposto e distribuído ainda em vida – sua terça, podemos
e que tinham valor intrínseco. Essas culturas perenes passavam a constituir estimar que ele fora capaz de acumular uma fortuna aproximada de uns
um importante ativo, além de render periodicamente com a colheita de seus 350 contos de réis. Portanto, no que diz respeito à sua dívida com Cláudio,
frutos. Ainda de acordo com esses tratados, essa era uma forma de adaptar ainda estamos falando de um valor superior a 10% de todos os bens do
a atividade agrícola às novas condições de expansão do mercado mundial, casal Gomes Ribeiro. Para poder dispor deste valor para emprestar ao pai, é
promover a civilização nas áreas rurais e modernizar a propriedade agrícola porque Cláudio já havia amealhado bens e fortuna consideráveis, talvez até
de grande porte, capaz de produzir em escala comercial.31 superiores à fortuna acumulada pelos pais. Mas, o mais interessante dessa
Com ou sem conhecimento direto dessa recomendação e prática que dívida entre pai e filho, do ponto de vista da historiografia, está em como ela
embasavam a expansão do cultivo de oliveiras e a produção de azeites pelo foi incorporada, tratada e paga na partilha. A começar com uma afirmação
sul da península italiana, era isso que se estava fazendo com o café no Vale no auto de partilha de que também não entravam...
do Paraíba.
E com enorme sucesso. [...] em monte os trinta e seis contos, trezentos vinte seis mil, seiscentos e
trinta reis (36:326$630), que declara o inventariante a folhas vinte e sete verso,
de ter havido de rendimento líquido nas Fazendas, como das contas folhas
acumulação de capital escravista quarenta, e folhas quarenta e duas, por terem sido dados por conta de qua-
renta e seis contos, duzentos e vinte e três mil, novecentos trinta e quatro reis
Tudo isso é fundamental para entender a trajetória de Cláudio Gomes (46:223$934), que o casal comum devia ao herdeiro Claudio Gomes Ribeiro
Ribeiro de Avelar, absolutamente interligada com a implantação, expansão e de Avelar, como da declaração folhas trinta e nove, comprovada com o reque-
apogeu da cultura escravista do café na região. Mas é mais importante ainda rimento mandado, e quitação folhas; e por isso só a quantia restante de nove
para entender o caráter absolutamente moderno e voltado para lucro de sua contos, oitocentos, novecentos. Digo de nove contos, oitocentos e noventa e
sete mil, trezentos e quatro reis (9:897$304). E que se atende na presente
trajetória, assim como a dos outros potentados do café no mesmo período. partilha ao dito herdeiro.33
Entre 1817, quando abandonara a fazenda Pau Grande junto com o pai,
e 1833, quando foi um dos vereadores da Câmara de Vassouras, é quase certo Ao apresentar a cobrança no inventário, todos os herdeiros foram unâ-
que Cláudio já tivesse constituído sua própria plantation, provavelmente a nimes em concordar com a veracidade da dívida. José Gomes Ribeiro de
fazenda das Antas. O fato é que, em 1839, já havia conseguido promover acu- Avelar, no entanto, mesmo reconhecendo a dívida, fez a exigência que a
mulação suficiente para figurar no inventário do pai, como seu único credor. mesma não fosse paga com bens do casal. Leia-se: escravos e terras. Dizia

31 PETRUSEWICZ, Marta. Latifundium: moral economy and material life in a European periphery.
Michigan: The University of Michigan Press, 1999; DAL LAGO, Enrico. Agrarian elites: American slave- 32 INVENTÁRIO de Luís Gomes Ribeiro.
holders and southern Italian landowners, 1815-1861. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 2005. 33 Ibid.

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ele: “Pague-se sim. Mas não com os bens do casal; porquanto o casal não e mesmo o ampliaram. Entre 1823 e 1870, as exportações brasileiras salta-
está em circunstâncias de lançar mão de bens para pagar dívidas...”.34 ram de 13.560 para 208.250 toneladas métricas. Isso apesar, ou por conta, da
Algumas conclusões podem ser tiradas de tudo isso. Em primeiro constante queda de preços do produto, em parte compensada pela valoriza-
lugar, é provável que Cláudio quisesse que sua dívida fosse paga exatamente ção cambial, que se prolongou até 1848.
com terras e, principalmente, escravos. Essa conclusão é reforçada pelo fato A perenidade da cultura do café e a estabilidade e equilíbrio demográ-
de que ele, diante da impossibilidade disso acontecer dada a interdição de ficos dos grandes plantéis, já formados ou em vias de se formar a partir da
José, pôs-se a comprar, total ou parcialmente, a parte em escravos que cabia década de 1850, explicam também porque, mesmo depois de efetivamente
a cada um dos demais herdeiros, seus irmãos. extinto o tráfico, a produção escravista de café no Vale permaneceu sendo um
A segunda conclusão que se impõe com a história da dívida entre Luís e negócio extremamente lucrativo, até, pelo menos, o início da década de 1880.
Cláudio é sobre a lucratividade excepcional de uma fazenda de café no final Voltemos à partilha dos bens e, particularmente, dos escravos de Luís
da década de 1830. Somente a safra de 1839 rendera líquido, isto é, desconta- Gomes Ribeiro. A viúva Matildes ficou com 252 dos 411 escravos que per-
dos os gastos com transporte e comissões para fazer chegar e vender o café tenciam ao casal. Destes, 90 pertenciam à Guaribu, que tinha 244 escra-
no Rio de Janeiro, mais de 36 contos de réis! O que correspondia a cerca de vos no total. Cláudio ficou com 55 cativos. Apenas três não pertenciam à
10% do total dos bens de Luís Gomes Ribeiro e sua esposa. Que outro inves- Guaribu. Paulo, que era o administrador da Guaribu e dos Encantos, ficou
timento poderia dar tamanha rentabilidade no Brasil imperial de então? com 11 escravos. Os demais herdeiros ficaram com grupos que variaram de
Não admira que Cláudio preferisse escravos e terras na hora de receber 4 a 18 cativos.36
sua dívida. Cai por terra, aqui, a tese do arcaísmo como motor principal do Em algum momento entre a morte do pai e a da mãe, em 1847, oito
investimento em escravos e terras. Plantar, colher, beneficiar e vender café anos depois, se não imediatamente após o falecimento do pai, Cláudio
Serra Acima dava um retorno superior, ou ao menos comparável, a qualquer assumiu os negócios da família. Em 1847, ele foi o inventariante dos bens
outra atividade disponível no mercado brasileiro, e talvez até atlântico. da mãe. Possivelmente, neste mesmo período, adquiriu novos escravos.
O cálculo e a decisão de Cláudio de investir em escravos, terras e café Quando Matildes morreu, ela possuía 200 escravos. A comparação com os
deu certo. Em um espaço de 24 anos entre a morte de seu pai e a sua, ele 252 que lhe couberam do inventário de Luís, em 1841, representa uma perda
acumulou uma fortuna cinco vezes maior, ao menos em termos nominais, de 1/5 do plantel. Uma perda muito significativa para que tenha sido cau-
do que o monte do inventário de seu pai. A principal razão para isso estava sada por mortes, ainda que isso não fosse impossível. Talvez tenha doado
na evolução dos preços dos escravos neste período. Em média, ele evoluiu ou vendido alguns desses escravos, eventualmente a Cláudio. Em seu tes-
de cerca de 250 mil réis em 1839 para quase um conto de réis em 1863.35 tamento, ditado no Rio de Janeiro, em 1841, ela já o fizera legatário da terça
Ou seja, eles quase quadruplicaram no período. Essa alta de preços, parte de seus bens de que podia dispor livremente. Por esse testamento,
se teve um grande fator impulsionador com o fim do tráfico em 1850, já ditado pouco depois da morte do marido, sabemos também que seu filho
vinha de antes, iniciando-se exatamente no começo da década de 1840. Ela Francisco havia falecido, uma vez que não constava entre seus herdeiros e
refletia, em um momento de recrudescimento do tráfico, a valorização dos que Joaquina e Luís haviam se mudado para o Rio de Janeiro, onde mora-
negócios do café como um todo. A evolução das exportações de café bra- vam em uma casa perto do Largo de São Francisco.37 Paulo ficara sendo o
sileiro no mercado internacional explicam por que os senhores do Vale, e administrador das fazendas, possivelmente sob a supervisão de Cláudio,
com eles, o governo imperial, apesar da proibição legal de 1831, da pressão que, nesta altura, já tinha sua própria fazenda.
inglesa e do aumento dos preços dos escravos, mantiveram o tráfico aberto
36 AUTO de partilha de Luís Gomes Ribeiro.
34 INVENTÁRIO de Luís Gomes Ribeiro. 37 TESTAMENTO de Joaquina Matildes de Assunção. Vassouras: Centro de Documentação Histórica
35 Fonte: dados colhidos nos inventários de Vassouras, 1821-1880. da Universidade Severino Sombra, 1841.

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O fato é que Cláudio recebeu com a morte de sua mãe cerca de 70 Sumariando, a Guaribu era a principal propriedade de Cláudio.
escravos, mais os que lhe cabiam como herdeiro. O fato é que ele seguiu Concentrava a maioria de seus escravos, seus cafezais eram os mais valio-
acumulando cativos. Quando morreu, em 1863, possuía 823 escravos, prati- sos, ainda que suas terras não tivessem, proporcionalmente, tanto valor
camente o dobro da quantidade pertencente a seu pai em 1839. Também as quanto as das demais propriedades. Tomando-se como marcos a ida de Luís
fazendas do Guaribu e o sítio, agora fazenda, dos Encantos haviam passado Gomes Ribeiro para a Guaribu, em 1817, e a morte de Cláudio, em 1863, a
às suas mãos. A menção em seu testamento à Guaribu Velho faz supor que evolução dos negócios desse ramo da família Avelar confundiu-se com a
essa propriedade fora por ele expandida ou passara por reformas. Esse pro- expansão do café. Esta expansão, por sua vez, baseou-se na expansão das
cesso pode, inclusive, ter se iniciado ainda durante a vida do pai e adminis- terras para cultivo e no incremento dos números da escravaria. Em 1863,
tração de Paulo, se lembrarmos que o inventário de Luís menciona a exis- como mostra a análise do valor das terras de suas fazendas comparadas
tência de duas casas de vivenda. Além da Guaribu e da Encantos, Cláudio com o valor dos cafezais e o número de escravos por unidade de produção,
possuía mais duas fazendas que não estavam listadas entre os bens de seu ainda havia terras disponíveis para o plantio na região de Vassouras.
pai, a das Antas e Boa União.
A Guaribu era a sede principal dos negócios do barão de Guaribu.
o plantel e a comunidade de plantation
Nela, estavam erguidas as edificações mais valiosas, com casa de vivenda
e grandes senzalas. Na sua parte do inventário, também foram arrolados A parte mais valiosa da fortuna de Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, seu
utensílios de prata. Logo após a listagem de seus bens, o inventário elen- plantel de escravos, era bem mais que um conjunto de bens. Ainda que não
cava móveis com valor pouco superior a cinco contos de réis, possivelmente se deva perder de vista este fato por um só instante, como não perdiam os
pertencentes também à Guaribu. Finalmente, o desejo manifestado por contemporâneos. Em última análise, esta era a condição que mais pesava
Cláudio de que fosse enterrado na capela da Guaribu, se já estivesse con- em sua sorte, que limitava suas escolhas e demarcava seu alcance, ainda que
cluída, corrobora esta conclusão. A propriedade era produtiva. Concentrava nunca isoladamente. A condição para que o plantel “funcionasse” era que ele
444, ou 59,63%, dos escravos do barão, e suas terras estavam avaliadas em se constituísse, muito rapidamente, em um corpo coletivo de trabalho. Um
41:150$000, equivalentes a 27,05% do conjunto de terras. O valor de seus corpo que deveria “funcionar” de forma perene, ao longo de um período de
cafezais era de 71:060$000, 52,84% do total dos cafezais.38 tempo prolongado, por anos e mesmo décadas. A constituição desse corpo
A fazenda dos Encantos, com seus 80 cativos, possuía cafezais, avalia- coletivo e perene de trabalho requeria e implicava em sua transformação em
dos em 13:820$000, 9,54% do total desse ativo. Possivelmente, ainda tinha uma comunidade de plantation. Os grandes e médios plantéis de cativos,
terras por cultivar, já que suas terras estavam avaliadas em 36 contos de por mais recente e marcada pelo tráfico que fosse sua formação, nunca eram
réis, valor pouco inferior ao das terras da Guaribu. As outras unidades pro- apenas um agrupamento de homens reunidos para o trabalho. Uma parte
dutoras eram as fazendas das Antas e Boa União, em quase tudo avaliadas considerável do tempo dos escravos era dedicada a atividades “sociais” que
em conjunto, o que faz supor que suas terras fossem contíguas. As duas resultavam em outras clivagens organizativas e sociabilidades que não aque-
juntas concentravam 311 escravos (33,14% do total). Suas terras equivaliam las ditadas pela produção. Demograficamente, suas idades, procedências,
a 49,30% do valor de todas as terras das fazendas, praticamente o dobro aptidões, condições físicas e mentais, crenças e valores eram diferenciados.
do valor das terras da Guaribu. A Boa União não possuía cafezais ou estes Mesmo que houvesse uma predominância de adultos jovens do sexo mascu-
foram avaliados juntamente com aqueles das Antas. Estes tinham seu valor lino, em seu meio, havia também a presença de mulheres, crianças e idosos.
estimado em 60 contos, 44,62% do valor de todos os cafezais.
Laços familiares, mais ou menos estáveis e em maior ou menor número,
eram estabelecidos. Esses cativos interagiam entre si, com seus senhores,
seus prepostos e com pessoas da comunidade mais abrangente.
38 INVENTÁRIO de Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar.

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Nestas circunstâncias, dizer que os cativos, através de suas vontades, faces de uma mesma moeda de reiteração das relações sociais escravistas. O
ações, práticas, costumes, crenças e valores, conformavam seu mundo, e cessamento do tráfico, em 1850, afetou essa dinâmica, ainda que em ritmo
mesmo o de seus senhores, não é um exagero. Derivar disso – que eles, por lento e não mecanicamente. Ela continuou sendo modulada e vivida no
estes meios, muitas vezes superassem suas condições sociais –, pode levar interior das relações de forças entre senhores e escravos.39
a profundos equívocos. Seu mundo era, antes de tudo, o de seus senhores, Essas relações de forças e dinâmica socioeconômica eram marcadas,
ainda que eles também o moldassem, e nele influenciassem, etc. A von- por sua vez, pela cultura e pela ideologia patriarcal-paternalista escravista
tade e os interesses que predominavam nesse mundo era a dos senhores. que caracterizava o ethos e o habitus senhoriais e condicionava o mundo
Entender que os escravos forçavam a vida comunitária em contraposição prático e cultural em que se moviam tanto senhores como escravos.
aos senhores, que só queriam deles extrair sobretrabalho, é uma simplifica- Senhores e escravos, contudo, moviam-se neste mundo de formas e com
ção ingênua das relações sociais e de poder. O trabalho escravo para existir consequências diferenciadas e desiguais. A constante resistência escrava à
e produzir requeria e implicava na comunidade de plantation, tanto quanto, escravidão – ideia cara à nova historiografia da escravidão e ao chamado
durante a vigência do tráfico internacional, requeria e implicava na comu- paradigma da agência40 – ocorria no espaço subalterno delimitado por esta
nidade africana de origem que seriam escravizados. O africano, que morria cultura e ideologia. Cultura porque, fruto da interação e dos confrontos
socialmente com sua escravização, renascia cativo na comunidade de plan- entre senhores e escravos, era diversa, plural, complexa, em suas origens e
tation. E, quando não estava em uma situação imediata de plantation, sua práticas. Ideologia, e ideologia de classe e senhorial, na medida em que essa
situação era condicionada pela economia de plantation e pela sociedade cultura não era neutra e não afetava ou era vivida da mesma maneira e em
escravista que em torno dela se organizava. iguais condições por todos os agentes. Em seus testamentos, para ficarmos
O recrudescimento da escravidão e do tráfico atlânticos, em íntima no corpo discursivo em que estamos baseando boa parte de nossa análise,
conexão estrutural com o desenvolvimento do mercado internacional capi- senhores encomendavam missas pela sua própria alma e a de seus parentes
talista, a partir da última década do século XVIII, além de seu óbvio impacto mortos, além das almas do purgatório. Também o faziam pelas almas de
econômico, teve implicações de ordem cultural e política. No caso especí- seus cativos falecidos. Gratidão e mesmo afeto apareciam nas alforrias e
fico que aqui nos interessa, o do que estamos denominando de comuni- benevolências que concediam a alguns e às vezes até muitos de seus cati-
dades de plantation, no Brasil e, mais especificamente, na região da Bacia vos. Com isso, salvavam suas almas e aliviavam suas consciências, porque
do Paraíba, esse impacto se deu sobre um chão socioeconômico e cultural havia uma tensão inerente e constituinte entre sua consciência cristã e a
preexistentes. Mesmo nas áreas do Vale que foram desbravadas para dar nova concepção liberal e racional de ser humano e a escravidão, mesmo
lugar à implantação da cultura cafeeira, onde, portanto, os aspectos de uma quando esta fosse, e normalmente era, justificada por outros motivos. Com
dinâmica mercantil e produtiva capitalista foram os determinantes, isso foi isso, também reafirmavam e reiteravam seu papel, posição, autoridade e
feito a partir de práticas e costumes já estabelecidos. Práticas e costumes o mundo escravista, reafirmando seu lugar de patriarcas de uma família
estes que remetiam a uma inserção secular na produção para o mercado social estendida, que incluía seus escravos.41
internacional e, em menor escala e de forma subordinada, interno. Práticas Reconhecer as limitações da agência escrava não quer dizer que estes
e costumes que, igual e não menos significativamente, eram fruto das lutas fossem seres inermes e amorfos, submetidos ao bel-prazer de seus senhores.
também seculares entre senhores e escravos, entre traficantes e cativos.
Todo esse complexo socioeconômico e cultural adaptou-se às novas con- 39 MARQUESE, Rafael de Bivar. A dinâmica da escravidão no Brasil: resistência, tráfico negreiro e
alforrias, séculos XVII a XIX. Novos Estudos, São Paulo: Cebrap, n. 74, mar. 2006.
dições de desenvolvimento do mercado histórico internacional capitalista, 40 CHALHOUB, Sidney; SILVA, Fernando Teixeira da. Sujeitos no imaginário acadêmico: escravos e tra-
assim como foi também um dos vetores de sua formação. Em conjunto, esse balhadores na historiografia brasileira desde os anos 1980. Cadernos AEL, São Paulo, v. 14, n. 26, 2009.
processo histórico resultou no que Rafael Marquese chamou de dinâmica 41 Sobre a questão do paternalismo nas relações entre senhores e escravos no Novo Mundo, especial-
mente no sul dos Estados Unidos, ver os trabalhos de Eugene Genovese, entre eles, O mundo dos senho-
da escravidão no Brasil. Dinâmica em que alforrias e tráfico eram as duas res de escravos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, e Roll Jordan roll. Nova York: Random House, 1976.

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Tampouco se pode especular sobre se assim fossem, como seria o compor- De qualquer forma, o que se pode perceber é que, entre 1830 e 1850,
tamento dos senhores. Esse seria um jogo contrafactual e anacrônico. Suas Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar se valeu fortemente do tráfico interna-
vontades, desejos, costumes, ações, práticas contavam e os senhores sabiam cional para compor seu plantel de escravos. Em 1863, seus escravos africa-
disso, contavam e viviam – bem – com isso, ainda que não sem temores e nos eram numerosos e tinham diversas procedências. Foram listados como
sobressaltos. Debitar toda e qualquer ação e prática dos escravos na conta angolas, benguelas, cabindas, calabares, cassanges, congos, inhambanes,
de sua resistência é transformar essa noção numa tautologia inócua que minas, moçambiques, mucenas, monjolos, quilimanes, rebolos, sofalas.
nada explica ou especifica. Ações de resistência eram contrárias às normas Dois foram nomeados como mouros.
e aos costumes, ainda que esperadas. Por isso eram punidas, com castigos Na listagem, constava o ofício de 36 cativos. Como nenhum destes era
também previstos e esperados. Mas eram a exceção e não a regra do mundo da roça e todos tivessem ofício especializado, pode se supor que os demais
escravista. Quando isso se invertia, e isso não deixou de acontecer, era a adultos, tanto homens como mulheres, fossem dedicados ao trabalho no
crise das relações escravistas. Crise que, em alguns casos, foi fatal para o campo, na criação de animais e em outras tarefas da produção. Todos os
poder senhorial. escravos com ofícios eram homens. Nada menos que 19, ou 52,8% deles,
Tudo isso também não quer dizer que, individual e, mais excepcio- eram casados. Dezesseis eram africanos, 13 de procedência ignorada e sete
nalmente, coletivamente, alguns escravos não obtivessem por suas forças, eram crioulos. Cinco eram capatazes, todos casados, três africanos e dois de
pelas circunstâncias em que viviam, assim como por outros fatores, con- procedência ignorada. Nove eram tropeiros, quatro africanos e os demais
quistas efetivas em relação à condição em que se encontravam na sociedade de procedência ignorada. Seis eram pedreiros, dois crioulos, um africano
escravista. Isso acontecia e esses ganhos podiam ser significativos. Podiam e os demais sem procedência. Seis eram carpinteiros, quatro africanos e
significar a liberdade e mesmo sua passagem para a condição de um pro- dois crioulos. Dois eram ferreiros, ambos africanos. Constavam ainda um
prietário de escravos. Essas possibilidades, no entanto – e como veremos caseiro, um copeiro, um cozinheiro, um do moinho, um enfermeiro, um
adiante –, tinham limites dificilmente transponíveis e eram, via de regra, hortelão, um marceneiro e um mucamo. A não ser provavelmente quando
reforçadoras da ordem escravista, tanto do ponto de vista local quanto geral velhos, estes cativos estavam entre os escravos mais valiosos de Cláudio. De
e institucional. seus cinco capatazes, quatro foram avaliados em 1:800$000 e um, Dionísio,
A formação do plantel de cativos de Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar de procedência ignorada, em dois contos de réis. Quatro dos carpinteiros,
e sua transformação em uma comunidade de plantation, em que ele atuava Germano, inhambane, Faustino, de procedência ignorada, José e Laurindo,
como senhor e patriarca, foi parte integrante do processo que generi- crioulos, valiam 1:600$000. Marcos, marceneiro, de procedência moçam-
camente descrevemos acima. É possível ter uma ideia de como Cláudio bique, estava avaliado em 1:200$000. Belisário, sem procedência, era os
formou seu plantel e como tudo isso aconteceu. Seus primeiros escravos, escravo sem ofício mais valioso: 1:800$000. Outros tantos, com proce-
ainda antes da morte de seus pais, devem ter sido adquiridos principal- dências diversas e sem ofício declarado, foram avaliados entre um conto e
mente pela compra de africanos novos trazidos pelo tráfico internacional. 1:700$000 réis.
Alguns ainda antes da primeira proibição deste comércio do tráfico, em O conjunto desses dados – origem africana, condição de casado ou
1831. Lembremos que, por esta altura, ele já era homem feito e vereador da envolvido em uma relação estável, ofício e valor elevado – indica que esses
primeira Câmara Municipal de Vassouras. A compra de africanos pode ter escravos não valiam apenas pelo ofício que exerciam. Com a exceção óbvia
diminuído no interregno do tráfico residual até, mais ou menos, 1835. A dos capatazes, os demais escravos com ofícios tinham valores compatíveis
partir daí, as novas aquisições de cativos africanos devem ter sido retoma- com outros cujo ofício não foi listado. Assim, pode-se considerar que a pró-
das em escala ainda maior. Infelizmente, na listagem de 1863 de seus escra- pria condição de escravo com um ofício refletia um papel e posição de des-
vos em seu inventário, não constam suas idades, o que poderia confirmar, taque na comunidade de plantation. O fato de que 52,8% dos escravos com
com mais certeza, esse movimento de formação do plantel. ofício fossem casados, contra 24,1% de todo o plantel, reforça essa hipótese.

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Estamos diante de algo semelhante ao que Manolo Florentino e Roberto já adultos e separados de seus pais, também entrassem neste rol, não sendo,
Pinto de Góes chamaram de capital político dos senhores.42 entretanto, listados como tais. A idade mais nova encontrada em 1874 é de
Só que aqui já não se trata de uma coletividade impactada e mexida 10 anos. Pode ser que os menores não fossem avaliados, ou o fossem com
pela incidência do tráfico atlântico. Lembremo-nos que estamos em 1863. A seus pais ou com suas mães. Em 1885, os escravos remanescentes só foram
comunidade de plantation que se formara a partir da acumulação escravista listados a partir dos 21 anos de idade. Isso, por um lado, reforça a suposição
de capital – e de escravos –, realizada por Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, acima, uma vez que estes escravos teriam nascido depois de 1863. Por outro,
era uma comunidade estável, com uma majoritária presença de crioulos em mostra que, nesta ocasião, algum outro critério foi utilizado como idade
seu interior. Aprofundemos este ponto. mínima, agora fixada em 21 anos, para a avaliação e listagem.
Quando o tráfico internacional cessou ou diminuiu substancialmente, Apesar de termos as listagens dos escravos do barão de Guaribu nas
Cláudio lançou mão do tráfico interno para abastecer suas fazendas de mão avaliações de 1874 e 1885, dada a incidência de nomes repetidos e a não
de obra. Na primeira avaliação, em 1863, havia diversas marcações de escra- existência de sobrenomes entre os cativos, fica muito difícil afirmar que
vos provenientes de outras localidades ou províncias no Brasil: 34 baianos, determinado escravo que encontramos na avaliação de 1863 seria o mesmo
11 cariocas, um escravo de Iguaçu e três mineiros. Em 1863, a proporção que encontramos em 1874 ou 1885. O fato de que muitos cativos tivessem
entre cativos africanos e crioulos na formação do plantel estava equilibrada. idade avançada, acima de 60 anos, sendo 55 deles com mais de 80, em 1885,
Para 618 dos 823 escravos listados em seu inventário, constava a informação é um claro indício da estabilidade da comunidade de plantation formada
de naturalidade, portanto 75% do total. Destes, 322, representando 52,2%, pelo barão de Guaribu. Entre esses escravos idosos em 1885, encontramos
eram crioulos. Entre os 47,8% de africanos, apenas 43, perfazendo 15%, eram Joaquim, inhambane, pedreiro, com 83 anos de idade. É muito provável que
mulheres. Das quais, 14, ou 32,5%, eram casadas ou tinham relações está- fosse o mesmo Joaquim, inhambane e pedreiro, da avaliação de 1863, e o
veis. Esta proporção era praticamente a mesma, 31,2%, dos escravos afri- Joaquim, só que então dado como cabinda, com 73 anos, avaliado em 1874.
canos casados ou vivendo em uniões estáveis, que eram 79. Apenas cinco Mas não há como ter certeza. Poucos são os casos como o de Ventura, cuja
mulheres e cinco homens crioulos eram casados. Neste ponto, percebe-se trajetória, não sem dificuldades, pudemos traçar em todos os três inven-
uma notação interessante no documento. Por alguma razão, que não pode- tários. Fazendo o itinerário que percorremos do fim, isto é, de 1885, para
mos precisar ao certo, diversos casais foram anotados sem que a procedên- o começo, 1863, o encontramos na avaliação de 1885. Um velho capataz da
cia de um ou dos dois cônjuges fosse especificada. Na maioria das vezes, fazenda das Antas, de nação mucena. Constava como tendo 83 anos de
isso aconteceu com as mulheres. Enquanto 17 homens casados foram lista- idade e sendo casado com Francisca. Seu valor era de 50$000. Francisca,
dos sem procedência, o mesmo se deu com 79 das mulheres. De qualquer a quem era atribuída a idade de 80 anos, estava doente e não tinha valor
modo, no total, os escravos casados ou vivendo em uniões estáveis eram estabelecido. Em 1874, Ventura tinha 72 anos. Já era capataz das fazendas
199, representando 24,1% de todo o plantel, como dito acima. das Antas e Boa União e estava avaliado em 100$000. Sua companheira
Isso mostra que havia claramente estabelecida uma comunidade de plan- Francisca, que então constava como tendo 63 anos de idade, e não 69, como
tation estável, principalmente, ainda que não exclusivamente, na fazenda do faria supor sua idade declarada em 1885, valia bem mais, 600$000. Em 1863,
Guaribu. Mostra ainda que esta comunidade estava em vias de entrar, se já Ventura era tropeiro. Devia estar, então, com seus 61 anos, mas, como todos
não entrara, em uma fase de crescimento vegetativo positivo. Quatrocentos e os outros cativos, não possuía idade declarada na listagem. Foi avaliado em
sessenta cativos do total, ou 55,6%, estavam inseridos em relações familiares. 300$000, o mesmo valor atribuído à sua companheira Francisca, que podia
Eram casais, pais únicos ou viúvos, filhos, órfãos e netos. Somente estas três estar com 52 anos, se levarmos em consideração a informação de 1874, ou
últimas categorias somavam 261 indivíduos. É bastante provável que outros, 59, se a base for o dado de 1885. Tinham ao menos uma filha, Ana, avaliada
42 FLORENTINO, Manolo; GÓES, José Roberto Pinto de. A paz das senzalas: famílias escravas e tráfico
com um alto valor, 1:200$000. Tinham ainda duas netas, Maria Francisca e
atlântico, Rio de Janeiro, c. 1790-c.1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997. Minervina, avaliadas, respectivamente, por 50$000 e 250$000.

228 229
Quando Cláudio adquirira Ventura? Com quase toda certeza, ele não Deliberava ainda que 120 escravos da Guaribu deveriam ser deixados
o herdara do espólio da mãe. No inventário de Joaquina Matildes, de 1847, aos legatários, conforme os escolhesse Manoel.
encontramos um Ventura. Mas ele era de nação cabinda e constava como À Virgínia, irmã dos legatários, deixava a quantia de trinta contos de
tendo 21 anos. É improvável que se tratasse do mesmo Ventura, mucena, réis em dinheiro. Determinava que os bens deixados aos legatários não
que parece ter vivido toda sua vida de cativo na fazenda das Antas, ainda poderiam ser vendidos ou alienados durante toda a vida. Por morte de
que não saibamos desde quando. um deles, deveriam passar aos irmãos, inclusive Virgínia, a não ser que o
Seja como for, o pouco que sabemos da longa vida de Ventura e falecido possuísse “descendentes legítimos, ou naturais, legalmente habili-
Francisca é que tiveram filhas e netas. Pela Lei dos Sexagenários, aprovada tados”, que, neste caso, deveriam gozar da herança livremente. O legado de
em 28 de setembro do mesmo ano da última avaliação do inventário do Virgínia deveria lhe ser entregue quando casasse ou se emancipasse.
barão de Guaribu, 1885, já seriam legalmente livres. É possível que tenham Cláudio não esqueceu Maria das Antas.
descido a seus túmulos nesta condição. O fato é que se mostraram capazes Deixo a Maria das Antas a quantia anual de quatrocentos mil réis, que cessa-
de ascender dentro dos limites do mundo das comunidades de plantation. rão logo que seus filhos a sustentarem e vestirem, e além deste legado quero
Outros foram além. É hora de voltarmos ao testamento do barão de que ela seja sustentada pela Fazenda das Antas, e que não lhe falte o necessário
Guaribu. à vida enquanto aí viver, e até que seus filhos tomem conta de seus legados.45

Há poucas, se é que alguma, dúvidas que os legatários eram filhos do


os dois legados do barão barão de Guaribu e logo voltaremos a esta questão. Por hora, voltemos ao
Cláudio não deixou herdeiros, ascendentes ou descendentes. Podia assim legado.
dispor livremente de todos os seus bens. Como vimos, deixou pequenas Ter passado bens somente para os filhos homens mostra como o código
quantias para diferentes pessoas e mandou realizar diversos serviços reli- de comportamento patriarcalista e paternalista funcionava na zona penum-
giosos, bem como fez doações a entidades às quais pertencia. Mas ainda brosa que marcava as relações íntimas e afetivas entre os senhores e suas
sobrava muito, quase tudo. Se não deixou filhos, legítimos ou naturais, escravas. O sustento da filha Virgínia estava assegurado, tendo ela recebido
como fez questão de frisar, ele instituiu quatro legatários em seu testamento. trinta contos de réis que passariam às suas mãos quando se casasse ou se
emancipasse. Virgínia só teria acesso aos bens ou parte deles por herança,
Deixo a Manoel Gomes Ribeiro de Avelar, estudante, filho de Maria das Antas em caso de morte de algum dos irmãos.
e a seus dois irmãos Luís e João, nascidos todos de ventre livre, as minhas
Fazendas Boa União, Antas e Encantos, com todas as suas benfeitorias, terras Maria das Antas ficava em situação semelhante, recebendo apenas um
e escravos que nelas existem...43 pequeno estipêndio e a recomendação que fosse sustentada pela fazenda
das Antas. Nada, tampouco, impedia Cláudio de deixar o legado que desti-
Prosseguia: nou a seus filhos não reconhecidos diretamente a Maria das Antas. Ao não
[...] existindo atualmente na fazenda do Guaribu os escravos Marçal car- fazê-lo, mostrou como o patriarcalismo, que delegava a todas as mulheres
pinteiro, mulher, filhos e irmãos, Faustino Inhambane, pedreiro, Joaquim um papel subalterno na sociedade imperial, podia ser mais intenso no caso
pedreiro, Inhambane e família, Albério Inhambane, Thomas Caseiro, Modesto das mulheres escravas, sendo um fator de reiteração da ordem escravista.
Caseiro, Luiz Inhambane, tropeiro e família, Matheus tropeiro, Messias tro- A existência dos filhos, nascidos de ventre livre, portanto cidadãos plenos
peiro, Antonio Moçambique, tropeiro, Simão Crioulo, Germano Inhambane,
cozinheiro, Sabino tropeiro, que são pertencentes a Fazenda das Antas, e que,
do Império, deixava Maria das Antas, uma liberta, como seu nome e a con-
portanto, fazem parte deste lugar.44 dição dos filhos deixam entrever, em uma situação social subalterna. Ela

43 INVENTÁRIO de Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar.


44 Ibid. 45 Ibid.

230 231
permanecia na mesma condição de dependência, sendo protegida por seus Relações sexuais e afetivas entre senhores e mulheres escravas foram
filhos, a quem ficava devendo certa obediência. corriqueiras ao longo da história da escravidão brasileira. Faziam parte da
Os filhos de Maria das Antas eram menores, mas não era ela quem sua dinâmica. Elas não escapavam da violência social das relações escravis-
deveria administrar seus legados. Cláudio nomeou como tutor seu primo tas. Na sociedade patriarcal e paternalista do século XIX, as relações entre
Joaquim Mascarenhas Salter. Em sua falta, a seu irmão Quintiliano e, ainda homens e mulheres, pais e filhos, senhor e dependentes eram marcadas pela
na falta deste, a seu outro irmão João, barão de Paraíba. Ao tutor caberia desigualdade entre os papéis masculino e feminino. Mas, não se tratava de
cuidar da criação dos tutelados, de sua educação e da administração de seus patriarcalismo e paternalismo em geral. A escravidão dava o tom dessas
bens e dinheiro. A escolha dos tutores e sua ordem denotam algo interes- práticas. A vontade do senhor prevalecia na escala social. Essa vontade era
sante. Cláudio havia nomeado seus dois irmãos como seus testamenteiros, forte – literalmente – e arbitrária quando se tratava das relações com os
só que na ordem inversa: primeiro o barão de Paraíba, depois Quintiliano.46 escravos. E, entre as vontades senhoriais, estava a vontade sexual.
Nesse caso, parece ter seguido uma ordem de praxe, nomeando os paren- Mesmo assim, havia limites, não escritos, mas estabelecidos, à vontade
tes mais próximos e o mais velho em primeiro lugar. No caso da tutoria senhorial. Limites que derivavam dos costumes e da moral e também da
dos legatários, a escolha obedeceu a critérios diferentes, possivelmente pressão, efetiva ou potencial, exercida pelos escravos sobre seus senhores. O
guiados por afinidade e confiança. A primeira escolha recaiu sobre um quanto esses limites eram mais estreitos ou mais amplos dependia, em geral,
do quadro histórico, institucional e cultural assegurado pela força e pela vio-
primo e Quintiliano foi o escolhido como seu primeiro substituto. João e
lência, que instituíra e constantemente reinstituía a escravidão moderna. Em
Quintiliano também foram declarados os herdeiros dos bens que restas-
particular, dependia das condições em que se davam as relações cotidianas
sem, uma vez cumprido o testamento.
entre determinado senhor e seus escravos no plano local, num momento
Pode-se especular sobre essas escolhas, que certamente não eram
específico. Relações sexuais entre senhores e escravas podiam ser estáveis
casuais. A linha de interpretação que seguiremos é que Cláudio, cons-
ou ocasionais. Normalmente eram relacionamentos extraconjugais, mais ou
ciente ou inconscientemente, deixou essa vida com dois legados familiares
menos assumidos e abertos à curiosidade e ao comentário públicos.
distintos, íntima e inextricavelmente interligados. Um de ordem privada,
seu legado propriamente dito, relativo a seus filhos, que ele quis proteger, Alguns desses relacionamentos deixaram vestígios na documentação.
mesmo que não os tivesse reconhecido como tais. Outro, sua herança, de Como aconteceu com América, escrava do barão de Capivari. O barão era
ordem social, relativo a sua posição na sociedade, determinada pelo ethos e ninguém menos que Joaquim Ribeiro de Avelar, irmão de Joaquina Matildes
pelo habitus do grupo social a que pertencia, a classe senhorial. de Assunção, tio de Cláudio e pivô da crise que acarretara a ruptura da
A ambiguidade e o conflito eram as marcas da relação entre esses dois sociedade entre Luís Gomes Ribeiro e sua sogra, resultando na fundação
legados. Não apenas, nem principalmente, porque sempre há defasagem e da casa do Guaribu. Capivari passara a ser dono da fazenda Pau Grande,
mesmo conflito entre a pessoa e sua persona. No que diz respeito a Cláudio, entre outras. Morto em 1865, ele deixou a fazenda Cachoeira e 44 escravos a
essa ambiguidade e conflito diziam respeito às contradições – entre senhores América, com quem possivelmente tinha uma relação afetiva. No entanto,
e escravos – que cindiam a própria sociedade imperial em geral e as comuni- diferentemente de Cláudio, o barão tinha um filho natural homônimo, filho
dades de plantation, como a da casa do Guaribu, em particular. Contradições de mulher livre, mais tarde 2º barão e visconde de Ubá, seu herdeiro uni-
que, para além das violências e dos conflitos cotidianos, eram marcadas tam- versal. A herança de América foi contestada. Dos 44 escravos que lhe foram
bém por negociações, acomodações e vivências em comum. Entre Cláudio legados, acabou recebendo nove. Seus descendentes ainda disputavam a
e Maria das Antas, como em tantos outros casos, tal vivência em comum posse das terras em 1917.47
chegou ao ponto das relações sexuais e afetivas, ainda que sempre desiguais. Mas a história que mais nos interessa aqui, por sua semelhança e con-
traste com o caso de Cláudio, envolveu o barão de Tinguá, Pedro Correia e
46 TESTAMENTO de Luís Gomes Ribeiro de Avelar. Vassouras: Centro de Documentação Histórica da
Universidade Severino Sombra, 1829. 47 SALLES, 2008.

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Castro, o mesmo que, recordemos, recebera Dom Pedro II em sua visita a Revelava, então, a razão dessa generosidade:
Vassouras, em 1848. Assim como Cláudio, Pedro nunca se casou. Manteve
[...] deixo a Laura, mãe de minhas fâmulas e fâmulo, Catharina, Antônia,
também, ao longo de toda sua vida, um relacionamento estável com uma Mariana, Leocádia, Maria, e Martinho, quatro contos de réis, deixo mais qua-
ex-escrava, Laura. Pedro ditou seu testamento em 24 de abril de 1865, qua- tro escravos, sendo três machos e uma fêmea, não entrando em conta dos
tro anos antes de sua morte, em 2 de abril de 1869. Como de praxe, deixava quatro que acima dou, a escrava de Nação Benguela, digo a escrava que lhe dei
instruções que rezassem missas e capelas por sua alma, assim como pela de em minha vida de nome Joana de Nação Benguela [...]51
seus irmãos e seus escravos falecidos. Libertava 25 escravos, muitos deles
Ao assumir seus seis filhos naturais com Laura, Tinguá sabia o que
aparentados entre si.
estava fazendo. Pelo Decreto no 463 de 2 de setembro de 1847, os filhos natu-
Sobre Laura, de nação conga, ele fazia questão de explicitar que passara
rais dos nobres passavam a ter os mesmos direitos hereditários que compe-
“carta de liberdade no dia dezoito de Novembro de mil e oito centos e qua-
tiam aos filhos dos plebeus.52 Mesmo assim, ele não deixava dúvidas de sua
renta e nove”, e que esta alforria estava “lançada no livro de notas”. Prosseguia:
vontade e prosseguia:
Esta preta tem seis filhos sendo cinco fêmeas e um macho, a saber, Catharina,
casada com Antônio Agrícola de Fontes, Antônia, casada com Albino Nunes Declaro, [...] depois de cumpridas todas as minhas disposições, por meus legí-
de Assis, Mariana, casada com Anacleto Dias de Paiva, a estas três favorecias timos herdeiros as minhas fâmulas e fâmulo...
muito bem, Leocádia casada com José Borges Monteiro, a esta só lhe dei dois
escravos, digo duas escravas e um escravo [...]48 E, ainda mais:
Para desencargo de minha consciência e salvação de minha alma, declaro
Neste ponto, percebemos a primeira e impactante diferença entre as
que as minhas fâmulas e fâmulo, neste meu testamento nomeado, são meus
disposições do barão de Tinguá e aquelas do barão de Guaribu. No início filhos, e por meus filhos sempre os tenho. E por esta forma hei por findo este
de seu testamento, Pedro nomeara como seus testamenteiros “[...] em pri- meu testamento, e peço e rogo a justiça de sua Majestade Imperial, que Deus
meiro lugar, Antônio Agrícola de Fontes, em segundo lugar, José Borges guarde o faça cumprir e o guarde e lhe dê todo o vigor e inteiro cumprimento,
Monteiro, em terceiro lugar Albino Nunes de Assis”. Portanto, os maridos e pelo qual revogo outro qualquer anterior a este por ser esta minha ultima e
de três das filhas de Laura, Catharina, Leocádia e Antônia. Mais surpresas derradeira vontade [...]53
ainda viriam. Ele prosseguia, listando os dois outros filhos de Laura: Os casos dos barões de Guaribu, Capivari e Tinguá certamente não
[...] tenho em meu poder, debaixo de minha proteção, Maria, de idade de foram os únicos em que grandes senhores se envolveram sexual e emocio-
dezesseis anos, mais ou menos, Martinho, de idade de quatorze para quinze nalmente com suas cativas. Relacionamentos com escravas, eventuais ou
anos. Como acima digo, debaixo de minha proteção que os tenho criado com duradouros, mais assumidos ou menos assumidos, com todas as tensões
todo o amor e doutrina a estes dois fâmula e fâmulo, ainda não lhes fiz bem e conflitos que implicavam, compunham o universo do ethos e do habitus
nenhum [...]49
senhoriais. Não apenas porque eram permitidos e praticados, mas porque o
Em caso de sua morte, nomeava seu primeiro inventariante e segundo eram dentro de limites razoavelmente estabelecidos. Limites que assegura-
testamenteiro, José Borges Monteiro, tutor desses menores que tinha sobre vam uma separação entre essa intimidade transgressora, da ordem do pri-
sua proteção e que criara “com todo amor e doutrina”. Dava aos filhos de vado e do pessoal, e o mundo de práticas e representações da classe senho-
Laura e a seus fâmulos diversos pequenos legados em termos de quantias rial, inclusive daquelas igualmente de ordem privada. O caso de Cláudio é
em dinheiro e cativos.50 exemplar nesse sentido.

48 TESTAMENTO de Pedro Correia e Castro. Vassouras: Centro de Documentação Histórica da


Universidade Severino Sombra, 1865. 51 Ibid.
49 Ibid. 52 COLEÇÃO das Leis do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1847. t. IX, parte I.
50 Ibid. 53 TESTAMENTO de Pedro Correia e Castro.

234 235
Logo nas primeiras linhas de seu testamento, fica patente a ambigui- no Cemitério da Fazenda das Antas”.57 Imerso na tensão de seus dois legados,
dade e o conflito que marcavam as relações entre seu legado privado, no o pessoal e transgressor, e o de sua família e classe social, Cláudio deixava o
âmbito da transgressão, e o público. símbolo do poder senhorial para seus irmãos. Aqui, se marcava o limite que
Maria das Antas e seus filhos com ela não poderiam ultrapassar.
Jesus Maria e José. Eu Barão de Guaribu estando doente de cama, porém em
meu perfeito juízo e claro entendimento, que Deus Nosso Senhor foi servido Seu tio e desafeto, o barão de Capivari, talvez porque tivesse um filho
dar-me, deliberei fazer o meu testamento pela maneira seguinte: Declaro que natural com uma mulher livre, fora mais além e nada reconhecera ou deixara
o meu nome era Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, antes de Sua Majestade o pistas de seu relacionamento com América. No extremo oposto, o barão de
Imperador agraciar-me com o título de Barão de Guaribu. Declaro que sou Tinguá não só reconhecera seus filhos e seu relacionamento com Laura,
católico Romano, natural do Rio de Janeiro, nascido e batizado na Freguesia de como fizera questão de enfatizar esse fato em seu testamento. Em nenhum
Santa Rita, filho legitimo de Luís Gomes Ribeiro e Dona Joaquina Matildes de
desses casos, entretanto, a sorte dos parentes consanguíneos dos barões foi
Assunção, ambos já falecidos, sendo igualmente falecidos os meus avós. Declaro
que sou mais de sessenta anos, e que sempre vivi no estado de solteiro, e por isso fácil. Ainda que todas essas famílias descendentes de barões tenham dei-
não tenho filhos legítimos assim como também não os tenho naturais.54 xado marcas, escritas ou na tradição oral local, nenhuma conheceu a proe-
minência dos herdeiros legítimos da nobreza imperial vassourense, uma
O peso das representações de sua classe era grande. Isso fica expresso das mais numerosas do Império.
em sua explicitação de sua dupla condição, pessoal e pública: “[...] meu Mesmo a sorte de Laura, a mais bem sucedida dessas ex-escravas aman-
nome era Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, antes de Sua Majestade o cebadas, não esteve à altura do destino normal dos herdeiros do baronato
Imperador agraciar-me com o título de Barão de Guaribu”.55 A partir dessa imperial. Pouco sabemos do que lhe aconteceu. Numa espécie de arremate
declaração inicial, o que se segue no testamento é marcado pela duplicidade de sua história, em fins da década de 1880, o barão do Amparo adquiriu e
e tensão entre os legados privado e social do barão. A começar pelo não demoliu a casa na cidade que ela, suas filhas e seu filho haviam herdado do
reconhecimento dos filhos. Mesmo na hora de sua morte – o testamento barão de Tinguá. Em seu lugar, Amparo fez erguer um portentoso palacete,
foi ditado uma semana antes de seu passamento, quando já estava enfermo espécie de canto do cisne da arquitetura imperial da cidade, que hoje não
–, ele não reconheceu nem seu relacionamento com Maria das Antas, nem passa de uma de suas mais imponentes ruínas.
seus filhos com ela. No entanto, garantiu aos filhos homens parte substan- Mas nem só de símbolos viviam os barões e senhores. Voltemos à his-
cial de seus bens. Exatamente a parte mais produtiva: as fazendas das Antas, tória dos legados do barão de Garibu.
da Boa União e dos Encantos, com todos seus escravos e ainda outros 120
O visconde da Paraíba, inventariante dos bens deixados por herança
que pertenciam à Guaribu.56
por seu irmão, morreu em 1879. Quintiliano, então, assumiu o inventário,
Aos seus dois irmãos, João e Quintiliano, ele deixou a fazenda do Guaribu,
até sua própria morte, em 1889. Desse ponto em diante, ao que parece, Luís
incluída aí a do Guaribu Velho. A Guaribu não era sua fazenda mais lucrativa,
Leovigildo Ribeiro de Avelar, um dos filhos e legatários do barão de Guaribu,
mas, simbolicamente, era a parte mais significativa de seus bens. Nela estava
assumiu a função de inventariante. Duas questões surgem imediatamente:
a origem da família em termos de seu poderio social. Dela advinha o nome
por que o inventário do barão de Guaribu ainda estava aberto, vinte e seis
de seu título, quando, segundo sua própria afirmação, deixara de ser apenas
anos após sua morte? Por que, nesta quadra, a tarefa de sua administração
Cláudio. Na Guaribu, estavam ainda a casa de vivenda, as pratas e, provavel-
passara a um de seus legatários, e não a algum descendente de seus herdeiros?
mente, os móveis que constam no inventário. Na capela da Guaribu, queria
Comecemos pela segunda resposta. Em 1889, o que restara de valor dos
ser sepultado, se esta estivesse pronta. Caso contrário queria “ser sepultado
bens de Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar, com o envelhecimento completo
dos cafezais da Guaribu, o esgotamento de suas terras e, principalmente,
54 TESTAMENTO de Cláudio Gomes Ribeiro Avelar.
com a abolição da escravidão no ano anterior, estava bastante reduzido em
55 Ibid.
56 Ibid. 57 Ibid.

236 237
termos de valor. Talvez já não fosse algo de que não se pudesse abrir mão. Estranho e suspeito, não? Antes mesmo da morte de Paraíba, alguém,
Além disso, Quintiliano, como que seguindo uma tradição familiar, morrera que escreveu uma matéria anônima no Jornal do Commercio de 2 de julho
sem descendentes legítimos. É bastante possível que, então, a administração de 1876, também achou. A matéria intitulava-se “A testamentária do finado
dos bens deixados em inventário e também do legado, como já se verá, do barão de Guaribu”. Depois de dizer que o assunto de que trataria causaria
barão de Tinguá deixasse de oferecer vantagens. Ao menos aos descenden- estranheza, o artigo explicava o caso. O barão falecera em 1863, deixando
tes da segunda geração de senhores de Vassouras que, ainda que às voltas “[...] de mil e muitos contos de réis, representada por três fazendas de cul-
com as consequências da abolição, ainda gozavam de poder e prestígio. tura de café e com mais de oitocentos escravos”.59
Para Luís Leovigildo, seu irmão João e sua irmã Virgínia, juntamente
Por seu testamento legou duas dessas fazendas, as melhores com 500 e tantos
com seu marido, no entanto, o legado do barão de Guaribu ainda valia uma escravos, a três protegidos seus de menores idades, fez diversos legados em
briga na justiça. Tanto que os dois últimos, em janeiro de 1897, entraram com dinheiro, e dos remanescentes instituiu herdeiros dois de seus irmãos, e mar-
uma ação de prestação de contas contra Luís, que assumira – e ainda não cou o prazo de três anos para cumprimento do testamento.60
resolvera! – a administração do inventário. É exatamente por conta dessa
Treze anos depois, nada se resolvera e o espólio ainda estava em aberto.
ação, e de uma matéria publicada no Jornal do Commercio em 1876, que
Qual seria a razão de um fato tão extraordinário, perguntava o anônimo
conseguimos reconstituir a sorte dos dois legados do barão de Guaribu e,
articulista? O rendimento das fazendas dava e sobrava para arcar com todos
assim, temos a resposta para nossa primeira pergunta: por que o inventário
os encargos que o barão deixara, da ordem de 600 ou 700 mil réis.
de Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar permaneceu aberto por tanto tempo?
A resposta se inicia pelo esclarecimento a uma outra pergunta: quem [...] para fazer face aos seus encargos deixou essas fazendas com uma produ-
mantivera o inventário aberto? Já vimos que primeiro o barão – depois vis- ção anual de 30 a 40.000 arrobas de café, que aos preços altos que desse tempo
para cá tem tido esse gênero, devia por força dar ao espólio uma renda anual
conde – de Paraíba, até sua morte, e, depois, Quintiliano Gomes Ribeiro
de 200 a 300.000$, não se falando na dívida ativa que também deixou.
de Avelar, dono das prósperas fazendas de São Luís e da Boa Sorte.
Propriedades que, em 1889, ano de sua morte, ainda dispunham de áreas Três anos eram tempo suficiente para pagar os encargos e resolver o
cobertas por matas e ricos cafezais.58 Quintiliano era também o tutor dos espólio. Se não, em seis ou sete anos tudo teria que estar resolvido. Mas
legatários, e esse fato já parte de nossa resposta. Em algum momento, que não estava. E aqui a outra parte da artimanha. Havia pendências sobre o
não conseguimos especificar, mas foi logo, Joaquim Mascarenhas Salter testamento que diziam respeito a questões entre os coerdeiros e o finado
renunciou à tutoria de Manoel, seus irmãos e de seus bens. A tarefa foi, barão referentes ao espólio de seus pais. Por isso o processo era demorado.
então, assumida por Quintiliano. Nesse meio tempo, Paraíba, sem oposi- O testamenteiro, entretanto, tinha os meios para agilizar o processo. Ainda
ção de Quintiliano, alegou que não podia fechar o inventário de seu irmão mais porque – e aqui certamente o articulista estava sendo irônico – ele
porque este determinara que suas dívidas fossem saldadas com o rendi- era um dos coerdeiros e tinha interesse nisso. No entanto, enquanto este
mento de suas fazendas. No entanto, como essas dívidas, que envolviam o imbróglio não fosse resolvido, a quem deveriam pertencer por direito os
espólio de seus pais, Luís Gomes Ribeiro e Joaquina Matildes de Assunção, rendimentos das fazendas deixadas aos menores, “desde o tempo em que
eram objeto de disputas, não eram facilmente resolvíveis. Enquanto isso se devia achar-se paga a dívida, e eles empossados de seus legados?” Não era
acertasse, herança, legado e os rendimentos dos bens do barão de Guaribu “negócio pequeno; são os rendimentos de duas fazendas com 500 escravos
seriam administrados pelo inventariante. Em 1879, com a morte de Paraíba, por espaço de 5 ou 6 anos!”. Concluía perguntando se não “teria direito a eles
inventariante e tutor passaram a ser uma só pessoa: Quintiliano. o legatário que suicidou-se há 3 ou 4 anos, desgostoso por se ver cheio de

58 INVENTÁRIO de Quintiliano Gomes Ribeiro de Avelar. Vassouras: Centro de Documentação 59 A TESTAMENTÁRIA do finado barão de Guaribu. Jornal do Commercio, 2 jul. 1876.
Histórica da Universidade Severino Sombra, 1889. 60 Ibid.

238 239
dívidas, que não podia pagar por não ter recebido o seu legado?”.61 Tratava-se Vassouras não gerou sua Chica da Silva, ainda que não faltassem can-
de Manoel, o irmão mais velho e que, a esta altura, teoricamente, já poderia didatas a ela: Laura, a companheira por toda a vida do barão de Tinguá,
estar à frente da administração do legado, tivesse o espólio sido concluído. de quem praticamente nada se sabe sobre seu destino; América, possível
O artigo prosseguia em suas observações finais... manceba do barão de Capivari, que viu seu legado contestado; e Maria das
Antas, mãe dos filhos do barão de Guaribu, legatários de três de suas fazen-
[...] consta ultimamente (é tão sério o que se diz, que não queremos ainda acre-
ditar) que esses legatários não receberam as suas fazendas em consequência das e de muitos de seus bens, inclusive escravos. Do ponto de vista mate-
de um contrato de arrendamento que assinaram, ficando eles a receber unica- rial, essas candidatas tiveram que lutar para garantir a posse de seus bens,
mente por ano 20:000$, continuando tudo no mesmo estado que até aqui [...]62 a maioria sem sucesso ou com sucesso parcial. Simbolicamente, houve a
tentativa de apagá-las da memória e da história, ainda que sua lembrança
Diante de tudo isso, o articulista perguntava, retoricamente, a razão
sempre volte, de quando em quando, lá como cá.
pela qual “... o honrado tutor desses legatários, nomeado no testamento,
pediu há alguns anos demissão do cargo? Não, está claro?”.63
Em 1885, o inventário do barão de Guaribu continuava em aberto e uma
nova avaliação foi feita. Vinte e dois anos depois de sua morte, o valor de
seus bens estava reduzido a menos de 1/3 de seu valor inicial. Escravos, ter-
ras e benfeitorias do conjunto de fazendas eram avaliados em 316.675$300.
O cafezal da fazenda das Antas, avaliado em 60 mil contos em 1863, valia
agora 7.400$000. O da Guaribu caíra de 71 mil contos para 17.800$000. Os
escravos ainda eram o patrimônio de maior valor, representando 48,4% dos
bens.64 Em 1863, eles eram 62% do total.

epílogo
Nesse ponto, fica claro que não foi apenas o tormento de Cláudio, tensio-
nado entre sua classe e sua prole, que deixou brechas para que seus irmãos,
de sangue e de classe, embarreirassem o cumprimento de seu legado pri-
vado. O caso de Tinguá e o Decreto de 1847 mostram que ele poderia ter
reconhecido seus filhos como seus legítimos herdeiros. Não o fez e agiu
deliberadamente ao não reconhecer a paternidade de seus filhos naturais.
Não queria lhes passar sua herança. Mas quis garantir seu sustento e bem
-estar futuros. É impossível que não soubesse os riscos que corria e os que
podiam advir para Maria das Antas e seus filhos por conta de sua decisão.
Resolveu arriscar. Deu no que deu.

61 Ibid.
62 Ibid.
63 Ibid.
64 INVENTÁRIO de Cláudio Gomes Ribeiro de Avelar.

240 241
Suspeitos, transeuntes, impermanentes: Já em meados do século XIX, o Império fazia brotar imponentes pal-
meiras enfileiradas nas entradas de propriedades que iniciavam fortuna na
personagens liminares e a dinâmica social região da antiga Comarca de Vassouras, o que incluía as freguesias de Paty
em um microcosmo do Império.1 do Alferes, Sacra Família do Tinguá, São Sebastião dos Ferreiros, Santa Cruz
dos Mendes e Nossa Senhora da Conceição de Vassouras. Era a força impe-
Camilla Agostini rial enraizando seus símbolos e materializando sua expressão de poderio.
Com uma densidade demográfica de escravos relativamente baixa até
cerca de 1830, a região recebeu, logo em seguida, um grande número de cati-
vos recém-chegados do continente africano para o trabalho nas fazendas
que investiam fortemente no cultivo e produção do café. Em sua maioria
procedente de uma grande região da África Central, esses africanos, cujas
diferenças etno-linguísticas poderiam expressar dificuldades de convívio,
introdução começaram a encontrar mais semelhanças entre si do que supunham em
suas terras de origem. Iniciava-se um processo de reconhecimento e for-
De finais do século XVIII até cerca de 1830, a região de Vassouras se carac-
mação de uma identidade mais ampla, baseada na experiência do cativeiro.5
terizou mais como um lugar de passagem do que um importante foco de
A formação dessas comunidades de senzala foi pensada de formas
desenvolvimento agrícola, tal como veio a ser nas décadas que se seguiram.
diferentes pela historiografia ao longo das décadas. Desde a impossibili-
Contatos com grupos indígenas foram estabelecidos, terras e fronteiras foram
dade de constituição de laços familiares, como defendido pela chamada
“negociadas”,2 a violência e o apresamento de nativos levados a cabo.3 Roças
Escola Paulista – ou que a agência e as redes de sociabilidade escravas não
de mantimento, vendas e ranchos de tropeiros eram até então os principais
teriam tido força política contra a ordem vigente;6 tendo sido, por vezes,
estabelecimentos coloniais que povoavam essas redondezas, auxiliando o
suas articulações revertidas em benefício do interesse dos próprios senho-
comércio de gêneros que seguiam no lombo de mulas em direção às Minas.4
res –,7 passando pelo estudo da formação de uma identidade baseada em
paradigmas e referenciais culturais comuns, reconhecidos na diáspora, com
1 Gostaria de agradecer aos organizadores Mariana Muaze e Ricardo Salles pelo convite para parti- grande relevância na constituição de laços familiares e comunitários, que
cipar deste volume e sua leitura atenta do manuscrito, assim como a Marcos André T. de Souza e fortaleceria social e culturalmente os grupos escravos;8 até um interesse
Suzana Corrêa por comentários que ajudaram esta versão final. Agradeço à Unicamp e à Fapesp
que foram as instituições que deram suporte para a pesquisa que proporcionou o material traba-
lhado neste texto, no tempo do meu mestrado quando residi em Vassouras; e, em especial, à Robert
Slenes por todo apoio e inspiração no desenvolvimento desta pesquisa à época. Agradeço a Rafael
Marquese pelo interesse em compartilhar inquietações que estimulam o debate e sua sugestão de
como a noção de vizinhança apresentada por Anthony E. Kaye poderia somar com a perspectiva
de redes sociais que trabalhei anteriormente. Por fim, agradeço a Ricardo Salles pelo interesse no 5 SLENES, Robert. “Malungu, ngoma vem!”: África encoberta e descoberta no Brasil. Cadernos da
material produzido na referida pesquisa como transcrições, banco de dados, mapas, índice temá- escravatura, Luanda, 1995; Id. Na senzala uma flor: as esperanças e recordações na formação da
tico, quadros estatísticos, entre outros, e em torná-lo público, disponibilizando-o a pesquisadores família escrava. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
interessados através do CEO/Unirio. 6 MARQUESE, Rafael. Diáspora africana, escravidão e a paisagem da cafeicultura no Vale do Paraíba
2 Machado, Marina M. Entre fronteiras: posses de terras indígenas nos sertões. Rio de Janeiro, 1790- oitocentista. Almanack Braziliense, São Paulo, n. 7, maio 2008; SALLES, Ricardo. E o Vale era o
1824. Niterói: EdUFF, 2012. escravo: Vassouras, século XIX – senhores e escravos no coração do Império. Rio de Janeiro:
3 Muniz, Célia M. Loureiro. Os donos da terra: um estudo sobre a estrutura fundiária do Vale do Civilização Brasileira, 2008.
Paraíba fluminense – século XIX. 1979. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal 7 FLORENTINO, Manolo; GÓES, José R. A paz das senzalas: famílias escravas e tráfico Atlântico, Rio
Fluminense, Niterói, 1979; Stein, Stanley J. Vassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900. de Janeiro, c. 1790-1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. 8 SLENES, 1995; Id., 1999; GOMES, Flávio dos Santos. Histórias de quilombolas: mocambos e comuni-
4 STEIN, op. cit., 1990; MUNIZ, op. cit., 1979. dades de senzalas no Rio de Janeiro – século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1993.

242 243
de afastamento desses referenciais comuns, repletos de “africanidades”, em nas mãos dos grandes proprietários de escravos, com o domínio da produção
prol de conquistas pela liberdade no âmbito do sistema escravista.9 cafeeira que era, a esta altura, a força econômica do Império. Estes, que com-
No presente estudo, o intuito é o de refletir sobre como personagens punham a comunidade política, tal como entendida por Mattos, eram ou se
liminares, na sociedade escravista vale-paraibana do século XIX – que não fizeram “barões”; e também não foi incomum que estivessem ligados direta-
estavam necessariamente compondo comunidades escravas –, podem con- mente ao comércio negreiro.14 Vezes ainda, mesmo associados a práticas ilíci-
tar sobre a dinâmica social que permeava as diferentes “comunidades” de tas, no período de clandestinidade do tráfico de escravos, tinham a confiança
uma maneira geral; e não apenas aquelas definidas por grupos escravos. A e solidariedade dos jornais, entre outras forças políticas que repercutiam dire-
mobilidade dessas figuras permite ainda vislumbrar a força de fronteiras tamente na vida cotidiana no Vale do Paraíba oitocentista.15
socioculturais e os novos lugares (físicos e sociais) que surgiam e eram con- As grandes fazendas contavam com áreas produtivas, senzalas, cafezais.
quistados com o passar do tempo. Possuíam, também em suas terras ou proximidades, pequenas casas de agre-
Nesse contexto rural, como mencionado, a partir do segundo quartel gados, jornaleiros, que prestavam serviços aos fazendeiros e/ou possuíam
do século XIX, a demografia escrava na região iniciou uma curva ascen- pequenas roças voltadas para a produção de mantimentos. A historiografia
dente. O “potencial explosivo” desta demografia foi comentado mais recen- convencionou chamar-lhes “livres e pobres”, que seriam as comunidades de
temente por Salles, que enfatizou o baixo índice de alforrias na região até lavradores de roça referidas por Mattos. Para além desses espaços e perso-
1880 (apesar de momentos de flutuação das taxas durante este período de nagens diretamente ligados à produção agrícola, havia ainda as vendas, os
1830 a 1880).10 Até 1850, africanos formaram, assim, um fluxo contínuo de ranchos para tropas, pequenas povoações que se formavam nos arredores da
recém-chegados que encontravam uma sociedade rural em formação.11 Vila, onde estavam a casa de câmara, cadeia, igreja matriz, etc.
A chegada de novos africanos – mais particularmente centro-africanos A mobilidade de cada personagem nesse fragmento de sociedade
– até fins da década de 1850 foi substituída, em seguida, pelas levas de novos rural oitocentista não se dava da mesma forma ou sob as mesmas condi-
escravos trazidos para o trabalho com o café, vindos de outras regiões do ções. Mobilidade aqui é uma referência à circulação no espaço (geográfico/
Brasil.12 Hebe Mattos, inspirando-se nos trabalhos de John Blassingame, traduz físico), nas vizinhanças constituídas por redes de sociabilidade; mas tam-
esta sociedade rural que se estruturava em todo Vale do Paraíba sul-fluminense bém ao trânsito por lugares sociais então estabelecidos, como o de senho-
através da constituição de comunidades escravas, comunidades de lavradores de res, escravos, agregados, feitores, clérigos.
roça e comunidades políticas.13 A seguir, direcionarei uma lente de aumento para alguns recortes dessa
Assim, em meados do século XIX, as chamadas comunidades escravas, sociedade rural: algumas vizinhanças, vizinhos e redes de intriga e fofoca
compostas por centro-africanos e seus descendentes crioulos, foram a princi- do dia a dia. Em outro momento, apresentei a estratégia de adaptação de
pal força de trabalho em todo o entorno da Vila de Vassouras, que despontava ferramentas da teoria das redes sociais da sociologia e da antropologia para
com a cultura do café. O poder político sobre esta economia e sociedade estava se pensar esta realidade pretérita, usando para isso o potencial dos proces-
sos criminais na abordagem da experiência cotidiana.16
9 MATTOS, Hebe. Das Cores do Silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista – Brasil, Se no referido trabalho me detive na análise densa dos processos, a par-
século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.
tir desta metodologia, neste momento o objetivo é revisitar alguns dos casos
10 SALLES, 2008, p. 184-187.
de forma breve com dois propósitos: 1) incorporar aos princípios da aborda-
11 STEIN, 1990; KARASH, Mary. A vida dos escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850. São Paulo: Companhia
das Letras, 2000; FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma história do tráfico atlântico de gem das redes sociais as noções de vizinhança apresentadas por Anthony E.
escravos entre a África e o Rio de Janeiro, séculos XVIII e XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional,
1995; SLENES, 1999; SALLES, op. cit, 2008. 14 FLORENTINO, 1995.
12 SLENES, Robert. The Brazilian Internal Slave Trade, 1850-1888: regional economies, slave experience 15 ABREU Martha. O caso Bracuhy. In: MATTOS, Hebe; SCHNOOR, Eduardo (Org.). Resgate: uma
and the politics of a peculiar market. In: JOHNSON, Walter. (Org.). The chattel principle: internal janela para o oitocentos. Rio de Janeiro: Toopbooks, 1995. p. 172.
slave trades in the Americas. New Haven: Yale University Press, 2005; SALLES, op. cit., 2008. 16 AGOSTINI, Camilla. Dinâmicas de fronteiras entre comunidades escravas e de lavradores livres.
13 MATTOS, 1995, p. 77. Habitus, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1-2, 2010.

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Kaye,17 assim como o conceito de liminaridade de Victor Turner18 aplicado os escravos construíram e pensaram os espaços sociais, nas relações com
ao cotidiano;19 2), aprofundando, com isso, uma reflexão sobre personagens diferentes atores sociais (especialmente senhores e outros escravos).24 Esta
liminares naquela sociedade, suas práticas e relações sociais.20 análise é desenvolvida pelo autor com o uso de inúmeras fontes, entre elas
Desta maneira, serão revisitados casos que nos aproximam das práticas jornais, diários de viajantes, interrogatórios com escravos, entre outros.25
de “trabalhadores móveis”, da experiência de grupos e indivíduos errantes ou Caberá incorporar algumas contribuições do autor, enriquecendo o olhar
nômades, da circulação de pessoas em vendas e tabernas, da relação entre sobre microcosmos do Império na região do Vale do Paraíba, isto é, frag-
trabalhadores livres e escravos, e da relevância de lugares ilícitos, alternativos mentos de sociedade da região cafeicultora de Vassouras. A proposta é
ou escusos por onde esses personagens transitavam. Em suma, espaços, situa- ampliar a ideia das comunidades escravas com a noção de vizinhança de
ções e personagens liminares sempre suspeitos aos olhos das autoridades.21 Kaye, aliada às ferramentas dos estudos de redes sociais.
Kaye no livro Joining Places relembra a historiografia sobre a formação
de comunidades escravas que para ele já pareciam estar a alguns anos, de fragmentos de sociedade:
certa forma, esquecidas ou menos valorizadas pelos historiadores, com as vizinhanças, redes e seus personagens
atenções voltadas mais para questões sobre as margens de autonomia dos
escravos na sociedade escravista.22 No entanto, o autor propõe retomar a “Fragmentos de sociedade” nada mais são do que um conjunto de espaços
abordagem sobre essas comunidades escravas a partir de um novo ponto sociais ou vizinhanças e as múltiplas e complexas relações neles vivencia-
de vista, que inclui a relação entre espaços sociais e atores sociais, além das cotidianamente, isto é, microcosmos que compõem um universo social
da noção de agência da teoria da estruturação de Anthony Giddens.23 Seu em determinada região. O fato de serem espaços sociais implica na ideia
interesse se volta, assim, para “vizinhanças escravas”, considerando como de que eles são constituídos por espaços geográficos e pessoas; são como
contextos que podem ser abordados em diferentes instâncias – seja como
17 KAYE, Anthony E. Joining Places: slaves neighborhoods in the old south. Wilmington: The uma vizinhança (implicando sua situação geográfica/física, constituída de
University of North Carolina Press, 2007. redes de sociabilidade), seja como lugares socialmente definidos como os
18 TURNER, Victor. Schism and continuity in an African society. Manchester: Manchester University
de “escravo”, “agregado”, “senhor”, “clérigo”, que têm sua prática cotidiana
Press, 1957; Id. The ritual process: structure and anti-structure. Chicago: Aldine Publishing Co.,1969;
Id. Drama, fields, and metaphors: symbolic action in human society. Ithaca: Cornell University geralmente associada a determinados espaços de ação.
Press, 1974. No entanto, esses espaços sociais (em todas as suas instâncias) não são
19 AGOSTINI, Camilla. Estrutura e liminaridade na paisagem cafeeira do século XIX. In: ___. (Org.). estáticos. Segundo Kaye,
Objetos da escravidão: abordagens sobre a cultura material da escravidão e seu legado. Rio de
Janeiro: 7Letras, 2013.
The neighborhood was a place; the arena for activities of every type; a set of
20 As ideias de estrutura e liminaridade às quais me reporto são inspiradas nas formas como Victor people, bonds, and solidarities; a collective identity. Just as neighborhood, like
Turner (1957, 1969, 1974) concebe estabilidade e mudança, fazendo uma transposição ou adaptação
desses conceitos para o estudo do cotidiano (ver AGOSTINI, op. cit., 2002; 2013). J. Van Velsen
propõe interessante abordagem dessas situações pontuais a partir dos processos-crimes em VAN
VELSEN, J. A análise situacional e o método de estudo de caso detalhado. In: FELDMAN-BIANCO,
24 Essas paisagens, como ressalta Kaye, são constituídas de espaços sociais diversos, com usos e sig-
Bela. Antropologia das sociedades contemporâneas: métodos. São Paulo: Global Universitária, 1987.
nificados variados, de acordo com as circunstâncias, conjuntura ou pessoas envolvidas. Esses espa-
21 Para reflexões sobre esses “trabalhadores móveis”, ver MATTOS, 1995; e WISSENBACH, Maria ços geográficos (físicos), como lembra o autor, podem ser também considerados “estados mentais”
Cristina. Sonhos africanos, vivências ladinas: escravos e forros no município de São Paulo (1850- (Ibid., 2007, p. 5). Recentemente foi defendida a tese de doutorado Geografia da escravidão na crise
1880). São Paulo: Hicitec. 1999. Sobre os significados sociais de grupos e indivíduos nômades e do Império: Bananal, 1850-1888 por Marco Aurélio dos Santos, na USP, São Paulo, 2014, que se
desenraizados, uma bela leitura pode ser encontrada em DUARTE, Regina H. Noites circenses: espe- baseia nesta abordagem de vizinhanças. É notável como o interesse de Kaye soma com perspectivas
táculos de circo e teatro em Minas Gerais no século XIX. Campinas: Ed. Unicamp, 1995. Sobre as arqueológicas sobre a formação, uso e os sentidos conferidos às paisagens, tal como as de Julian
implicações sociais e econômicas das vendas e tabernas na integração (ilícita) de quilombolas na Thomas em Archaeologies of place and landscape. In: THOMAS, Julian (Ed.). A companion to social
sociedade, ver SANTOS, Flávio dos. Histórias de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas arcaheology. Oxford, UK: Blackwell Publishing, 2007; DAVID, Bruno; THOMAS, Julian. Landscape
no Rio de Janeiro – século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1993. archaeology: introduction. In: DAVID, Bruno; THOMAS, Julian (Ed.). Handbook of landscape archae-
22 KAYE, op. cit., 2007, p. 7, 9-10. ology. California: Left Coast Press, 2008; HOLDER, Ian apud DAVID; THOMAS, 2008, entre outros.
23 Ibid., p. 12-13. 25 KAYE, op. cit., 2007, p. 12.

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all collective identities, implied a certain solidarity, so a particular antagonism diferentes lugares sociais e suas margens de flexibilidade. Claro, isto não se
defined the terrain.26 dá de forma ilimitada e nem equivalente para todos.
O aspecto dinâmico das vizinhanças, produtor e movido por forma- Nesse sentido, um senhor e um escravo “em seus devidos lugares”, ironi-
ção de identidades e antagonismos, fluxos de pessoas, ideias e coisas, em camente, compartilham das mesmas limitações. Por outro lado, figuras limi-
muito se assemelha com características das chamadas redes sociais.27 De nares na sociedade seriam, talvez, a maior expressão de impermanência e da
uma maneira geral, vale lembrar que a abordagem de redes oferece ferra- possibilidade de mudança. Nesse sentido, cabe perguntar o significado desses
mentas metodológicas para observar mobilidade, relações “não institucio- personagens e espaços liminares no processo de transformação social. Outra
nalizadas”, tensões, conflitos e a construção de identidades e lugares sociais questão que torna a primeira mais complexa é pensar em como as bagagens
a partir da experiência cotidiana. Um elemento básico desta metodologia é ou conteúdos culturais participam deste processo.
redirecionar o foco dos indivíduos, grupos ou instituições para as relações
entre indivíduos, grupos ou instituições.28 Tendo a atenção voltada para o personagens liminares e redes de fofoca
entre, o pesquisador é levado para o âmbito de múltiplas fronteiras sociais, Voltando às fazendas na região de Vassouras que começavam a se estabele-
cuja natureza é relacional, e que se articulam concomitantemente, de forma cer desde as décadas de 1830, com auge de suas fortunas entre 1850 e 1870,
flexível e complexa.29 Da mesma forma, as divisões e alianças instituíam e podemos mapear alguns espaços fundamentais ou estruturais de sua pai-
destituíam fronteiras políticas que seriam expressões das próprias “políticas sagem em formação. Após atravessar a fileira de palmeiras imperiais que
de vizinhança”, como sugerido por Kaye.30 algumas delas exibiam logo na entrada, de imediato, seria possível iden-
Esses espaços socialmente constituídos podiam se configurar, assim, tificar o chamado quadrilátero funcional. Nele, os espaços fundamentais
como estruturais e/ou liminares no âmbito da escravidão, dependendo das como casa senhorial, paióis, cozinhas, e outros espaços de trabalho, além
circunstâncias e dos atores envolvidos. Assim, o eito poderia ser ao mesmo das habitações escravas (incluindo as senzalas de tipo pavilhão ou barracão,
tempo local de trabalho forçado e contenda; as senzalas como sinônimo de cômodos dentro da própria casa senhorial, ou mesmo lugares mais inusi-
descanso, trabalho ou mesmo conflito; e as matas como locais para o aqui- tados como o paiol), estavam distribuídos, formando, assim, um quadrado
lombamento ou culto.31 Para observar essa dinâmica, uma boa estratégia é com o terreiro para secagem do café ao centro. Este era o padrão da arquite-
focar nas fronteiras sociais que se estabelecem nas relações entre os espaços tura das fazendas nesta região nos oitocentos.32 No entanto, outros espaços
e os personagens. Isto é, observar a dinâmica dessas fronteiras implica dire- fora deste quadrado também eram fundamentais, como o próprio eito com
cionar o olhar para espaços e atores liminares e seus significados na socie- as inumeráveis fileiras de pés de café, e sua lida de todo dia.
dade como um todo. Essa abordagem ressalta a impermanência do status O cotidiano dessas fazendas, do qual os processos-crimes nos permi-
quo das pessoas e dos lugares, considerando a possibilidade de trânsito por tem aproximar, contava também com referências de lugares que podiam ter
sentidos diversos, como era o caso dos terreiros, por exemplo. Eles apare-
cem citados como áreas externas de habitações independentes, como um
26 Ibid., p. 5. tipo de quintal; como terreiros de roça, que eram espaços de organização
27 Apontadas detidamente em AGOSTINI, 2010.
28 WETHERELL, Charles. Historical social network analysis. Intenational Review of Social History,
Cambridge: Cambridge University Press, n. 43, 1998. 32 Para significados e implicações desta arquitetura do café no Vale do Paraíba oitocentista, conferir as
visões e argumentos de MARQUESE, Rafael. Moradia escrava na era do tráfico ilegal: senzalas rurais no
29 BARTH, Fredrik. Ethnic groups and boundaries: the social organization of culture difference. Oslo:
Brasil e em Cuba, c. 1830-1860. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v.13, n.
Universitets Forlaget, 1970; JONES, Siân. The archaeology of ethnicity: constructing identities in the
2, 2005; Id. Diáspora africana, escravidão e a paisagem da cafeicultura no Vale do Paraíba oitocentista.
past and present. Oxford: Routledge, 1997.
Almanack Brazilienze, n. 7, 2008; STEIN, 1990; GOMES, Flávio. Outras cartografias da plantation: espa-
30 KAYE, op. cit., 2007, p. 5-6. ços, paisagens e cultura material no sudeste escravista. In: AGOSTINI, Camilla. Objetos da escravidão:
31 Ibid., p. 5. abordagens sobre a cultura material da escravidão e seu legado. AGOSTINI, op. cit., 2013, entre outros.

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do trabalho coletivo no eito, que podiam incluir uma cozinha de roça tem- No entanto, muitos mexericos surgiram por conta do assassinato de
porária; além do próprio terreiro central do quadrilátero.33 Maria, uma menina com 13 anos de idade, filha de um vizinho chamado
Todos esses espaços vividos no cotidiano da fazenda, no entanto, eram Chico Paulista, que tinha em sua casa uma venda que atendia os arredores,
constantemente negociados. Algumas situações de liminaridade, de tensão além de bananeiras, chiqueiro e paiol. O assassinato de Maria foi trágico,
social, como um conflito ou crime, poderiam trazer à tona questionamentos sendo ela encontrada estuprada e com seus miolos espalhados pelas tou-
sobre os usos e sentidos dos mesmos. Aqui cabe lembrar que espaços estru- ceiras das bananeiras no quintal.37 Toda a gente comentava a brutalidade
turais são liminares em potencial, quando se tornam espaços de contesta- e o grande mistério de quem teria sido o criminoso, tendo o processo se
ção, permitindo, assim, a possibilidade da mudança. Quando estes espaços arrastado por quase uma década sem conseguir elucidar o autor daquela
estruturais são mapeados é como se desenhássemos o cenário do contexto atrocidade. A dinâmica dos mexericos, a certa altura, levou aos ouvidos das
em estudo. No entanto, como estes são espaços onde as pessoas atuam e se autoridades uma fofoca, três anos depois de o crime ter acontecido. Maria
constituem ao mesmo tempo, não podem ser considerados apenas cenários Ferro teria lavado uma camisa ensanguentada de Chico Mandú no dia da
estáticos. Mas sim como parte da realidade cotidiana; como agentes poten- tragédia. No entanto, nem Chico Mandú, nem Maria Ferro parecem ter
ciais para transformações junto às pessoas e às coisas que nele habitam.34 entendido essa história, uma vez que, segundo eles, não tinham nenhuma
Existem, por outro lado, alguns espaços que são “de liminaridade por intimidade ou mesmo proximidade um com o outro.
excelência”, como quilombos e ocupações em áreas de mata fechada.35 Neste No caso dos dois envolvidos, no entanto, são sugeridas no processo
caso, liminaridade se remete à sua condição no sistema dominante daquela algumas motivações pecu