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Módulo 1 - O pensamento humanista em Psicologia.

Contexto histórico de surgimento da Psicologia Humanista.

Leitura Obrigatória: AMATUZZI, M. “Humanismo e Psicologia.” Por uma Psicologia Humana. São
Paulo: Ed. Alínea, 2008.

Leitura para Aprofundamento: FIGUEIREDO, L.C. “Matriz vitalista e naturista” Matrizes do


Pensamento Psicológico. 18ª edição. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012.

Reunimos sob o nome de “Psicologias Humanistas” vários modelos de compreensão de homem


que, embora divirjam entre si, convergem na ênfase dada ao sentido das vivências humanas e na
liberdade como condição ontológica. Tomaremos como foco de nossos estudos a Abordagem
Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers a partir da década de 1950, a Gestalt-Terapia,
por Fritz Perls na mesma época e a Psicologia Existencial-Humanista, desenvolvida por Carl Rogers.

As Psicologias Humanistas florescem nos Estados Unidos a partir da década de 1950. Esse período
que seguiu a Segunda Guerra Mundial estava marcado pelos horrores provocados pela
humanidade, assim como pelo temor constante da auto-destruição atômica na Guerra Fria. Nas
décadas seguintes cresceram as tensões e disputas raciais em busca do fim da discriminação e os
Estados Unidos se envolveram com a Guerra do Vietnã, que resultou na morte de milhares de
jovens soldados e na mobilização de parcela considerável da sociedade pela paz.

Nesse momento histórico, a Psicologia estava dividida entre duas “forças”: A Psicanálise freudiana,
que apresenta o homem como um organismo determinado por impulsos inconscientes que buscam
a satisfação do prazer ou a evitação do desprazer, e o Behaviorismo, que é a aplicação do modelo
científico-natural de conhecimento, apresentando o homem como um organismo determinado por
sua história de modelagem e pelo ambiente.

Assim, a Psicologia Humanista surge como a Terceira Força na psicologia. A Terceira Força considera
as psicologias de sua época deterministas, pois buscam determinar a causa dos comportamentos
humanos. Para isso, recorrem a modelos explicativos que não abarcam aquilo que o humano tem
de mais peculiar: a liberdade. Ao posicionar a questão do sentido da vida como a mais importante,
estão afirmando que a existência humana é livre e capaz de fazer escolhas em direção ao que é
significativo em sua vida. Proclamam também que o ser humano é animado por uma força vital, que
o impulsiona ao crescimento e à complexificação da existência. (Figueiredo, 2012)

Atividades Recomendadas

1) Faça uma leitura criteriosa dos textos indicados, atentando para a interpretação que a Psicologia
Humanista faz da Psicanálise e do Behaviorismo. Identifique a natureza dessa crítica; é ela
ontológica, epistemológica, metodológica, etc.?

2) Pesquise por meios tradicionais ou eletrônicos: Humanismo, Existencialismo, Contracultura.

3) Pesquise por meios tradicionais ou eletrônicos sobre os psicólogos humanistas: Carl Rogers,
Abraham Maslow, Karen Horney, Erich Fromm, Rollo May.

4) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício:

A Psicologia Humanista foi caracterizada por Erich Fromm como a Terceira Força na Psicologia. Sobre isso,
é verdadeiro afirmar:

I – A Psicologia Humanista é a Terceira Força, que surge em oposição à Psicanálise de Freud (1ª Força) e
ao Behaviorismo de Skinner (2ª Força).
II – A Psicologia Humanista surge no começo do séc XX em reação à psicologia “pouco científica” do XIX,
que era baseada na consciência e na introspecção. É ciência aplicada, e enquanto tal busca a previsão e o
controle do seu objeto de estudo (o humano).
III – A Psicologia Humanista de Rogers, Fromm, Horney defende que o sentido dos comportamentos
humanos pode ser descoberto a partir de uma análise da história de modelagem.
IV – A Terceira Força defende que ser humano é ser livre e responsável por si mesmo. Seu destino está
em suas mãos. Para isso, o homem dispõe de responsabilidade, envolvimento, capacidade de ação, de
fazer escolhas e de crescer.
V – A Psicologia Humanista considera que “o ser humano é, em seu cerne, um organismo em que se
pode confiar.”
Estão corretas as afirmações:

A) I, II e III, apenas.
B) II, III e IV, apenas.
C) I, IV e V, apenas.
D) III, IV e V, apenas.
E) I, II, IV e V, apenas.

Considerando as afirmações acima, identificamos que a I, a IV e a V estão corretas. Portanto, a


resposta é C. A afirmação II está incorreta, pois a Psicologia Humanista não surge como aplicação
do método científico-natural de pesquisa nem concebe o homem como passível de previsão e
controle. Pelo contrário, busca a liberdade do humano e os meios para resguardar ou resgatar
essa liberdade. A afirmação III está incorreta, pois afirma que as motivações humanas podem ser
compreendidas como causas, isto é, determinantes do comportamento. O ser humano é
essencialmente aberto para o seu futuro, existindo enquanto processo dirigido à realização
pessoal.

Liberdade e Responsabilidade como características essenciais do humano.

Leitura Obrigatória: AMATUZZI, M. “Humanismo e Psicologia.” Por uma Psicologia Humana. São
Paulo: Ed. Alínea, 2008.

Leitura para Aprofundamento: FIGUEIREDO, L.C. “Matriz vitalista e naturista” Matrizes do


Pensamento Psicológico. 18ª edição. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012.

A Psicologia Humanista do século XX encontra no Renascimento, movimento artístico e filosófico


iniciado no século XV de revalorização do humano, em oposição ao Escolasticismo. Os filósofos
Humanistas introduziram a noção de livre-arbítrio, pois acreditavam no poder do homem de
planejar sua vida, comandar seu destino e direcioná-lo para a liberdade, a justiça e a paz. Além do
Humanismo filosófico, a Psicologia Humanista encontra fundamentação teórica no Existencialismo
(Kierkegaard, Sartre).

Sob a categoria “Psicologia Humanista” encontraremos o pensamento de autores diversos, como


Kurt Goldstein, Abraham Maslow, Thomas Greening, Karen Horney e Erich Fromm. Além destas
influências, Amatuzzi (2008) indica a fenomenologia de Husserl e a fenomenologia-existencial de
Heidegger como as mais importantes fundamentações teóricas. Isto será estudado posteriormente
no curso. Os humanistas compartilham, portanto, da ênfase no conhecimento da singularidade,
assim como na postulação de uma força criativa, tendente à auto-realização e ao crescimento.

Em todos os autores mencionados acima também encontramos a ênfase na liberdade para fazer
escolhas e na responsabilidade pela própria vida. Também compartilham a ênfase no conhecimento
da singularidade, assim como na postulação de uma força criativa, tendente à auto-realização e ao
crescimento. Por exemplo, Maslow ficou conhecido pela Pirâmide das Necessidades, na qual expõe
que estamos sempre em direção a experiências e realizações mais complexas, pois o ser humano,
diferentemente dos animais, não vive apenas em função da realização das necessidades.

Nós fazemos escolhas em nome de nossa realização existencial. Quanto maior o nosso grau de
liberdade, mais criativos serão nossos recursos para lançarmo-nos em direção ao nosso futuro. O
psicólogo Humanista brasileiro Mauro Amatuzzi apresenta essa ideia afirmando que “sob esse
enfoque o ser humano nos aparece não como resultante de uma série de coisas, mas como,
fundamentalmente, o iniciante de uma série de coisas...” (2008, p.11)

Atividades Recomendadas

1) Faça uma leitura criteriosa dos textos indicados, atentando para a interpretação os temas da
filosofia humanista medieval. Relacione esses temas com as reflexões da Psicologia Humanista
moderna.

2) Pesquise por meios tradicionais ou eletrônicos: Renascimento e Filosofia Humanista e sobre os


filósofos Pascal, Kierkegaard, Nietzsche.

3) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício:

A Psicologia Humanista do século XX encontrou no Humanismo, movimento filosófico medieval,


fundamentação para as suas posições na Psicologia. Esse movimento filosófico combateu a Escolástica,
recolocando como centro das reflexões o Homem, como fizera a cultura clássica anteriormente. Das
idéias e citações abaixo, as que correspondem aos ideais do Humanismo são:
I – “Qual é a utilidade de conhecer a natureza dos quadrúpedes, aves, peixes e serpentes e não
conhecer ou até mesmo negligenciar a natureza do homem?” (Petrarca)
II – O homem é um ser que, diferentemente dos demais, não tem lugar ou aspecto fixo, não tem forma
determinada nem leis que determinam sua natureza. Ele pode escolher para si mesmo seu lugar e sua
natureza e criar leis para si mesmo. (Pico della Mirandola)
III – Como a mente do homem foi criada pelo sopro de Deus e seu corpo, do barro, o homem reúne as
naturezas mortal e imortal. (Philo)

A) I e II, apenas.
B) II e III, apenas.
C) I, II e III, apenas.
D) I, apenas.
E) II, apenas.

Seus estudos da fundamentação filosófica da Psicologia Humanista devem ter-lhe mostrado que os
Humanistas medievais recuperam a dignidade do homem, mostrando que é dotado de livre arbítrio,
e colocaram a natureza humana como foco das reflexões filosóficas. Assim, as afirmações I, II e III
expressam esses ideais. A alternativa correta é C.

A questão do sentido da vida como tema central das Psicologias Humanistas.

Leitura Obrigatória: AMATUZZI, M. “Humanismo e Psicologia.” Por uma Psicologia Humana. São
Paulo: Ed. Alínea, 2008.

Leitura para Aprofundamento: FIGUEIREDO, L.C. “Matriz vitalista e naturista” Matrizes do


Pensamento Psicológico. 18ª edição. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012.

Na época do florescimento da Psicologia Humanista nos Estados Unidos, em meio ao


questionamento sobre o sentido dos valores vigentes na sociedade atual e sobre o sentido das
guerras, perguntava-se: por que o ser humano se destrói? E com isso: qual é o sentido da vida?
Nessa mesma época ganha força o movimento de contracultura (simbolizado pelos hippies), a
experimentação com drogas alucinógenas, a invenção da pílula anticoncepcional e a libertação
sexual. Os antigos valores eram modificados. O que é uma boa vida? Como se deve viver? O que
nosso modo de civilização nos legou até hoje?

Essas perguntas se interessam pelo sentido da vida. A pergunta pelo sentido da vida é o leit motif
das Psicologias Humanistas. Todas as Psicologias Humanistas consideram a questão do sentido da
vida a questão mais importante na vida de cada um de nós. Perguntar pelo sentido da vida significa
questionar os valores que balizam meus comportamentos, pois é com base neles que
determinamos o que é ‘certo’ e ‘errado’, ‘bom’ e ‘mal’. É com base nesses valores que tomamos as
pequenas e grandes decisões de nossas vidas. Significa reconhecer que todos os nossos
comportamentos são motivados e visam um sentido.

Ao colocar o sentido como questão principal, a Psicologia Humanista diferencia-se das Psicologias
de outras abordagens teóricas. Estas se preocupam em explicar comportamentos. Para isso,
recorrem a hipóteses explicativos sobre o funcionamento do homem. Ao fazer isso, deixam de lado
aquela que é a principal questão humana: o que faço com minha vida?

Atividades recomendadas:

1) Faça uma leitura criteriosa dos textos indicados, atentando para a questão do sentido como
questão principal da Psicologia Humanista.

2) Reflita e redija uma reflexão pessoal sobre sua a vida e tente identificar os valores que a
norteiam. Apóie-se nas seguintes perguntas indicadas por Thomas Greening (1975): a) o que
significa para você ser plenamente humano? b) que sentimento decorre do fato de estar vivo
agora? c) como devemos nos tratar uns aos outros?

3) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício:

A peça Hamlet, escrita por Shakespeare entre 1599 e 1601, narra a história do princípe da
Dinamarca, cuja tio, assassino de seu pai para assumir o trono, desposa sua mãe. O fantasma do
rei assassinado aparece para o príncipe, que trama uma vingança. Leia atentamente o solilóquio
de Hamlet e responda à questão a seguir.

Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado
sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes?
Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos
golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se.
Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá
trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa
idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os
golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não
retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente,
se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a
suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém
voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio
noutros males ignorados?
De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a
máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o
nome de ação perdem. (WILLIAM SHAKESPEARE, Hamlet)

A partir do solilóquio de Hamlet e do contexto das abordagens humanistas em psicologia, é correto


afirmar que:

I – A questão que atormenta Hamlet nesse solilóquio é a questão do sentido de sua vida.
II – A questão do sentido da vida era menosprezada pela psicologia do começo do século XX, até
que o humanismo enfatizou sua importância. Para o humanismo, o sentido da vida é a principal
questão humana.
III – Hamlet está em depressão, por isso questiona se vale à pena continuar vivendo ou se deve
se suicidar. A depressão foi causada pela perda de seu pai, assassinado, e por seu tio ter se
casado com sua mãe, tornando-se seu padrasto.
IV – Para a psicologia humanista, o suicídio é uma escolha livre e responsável da pessoa.

São corretas as afirmações:

a) I e II, apenas.
b) II e II, apenas.
c) III e IV, apenas.
d) I, III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.

Para a Psicologia Humanista, uma poesia, uma dança ou uma música podem ser tão reveladoras da
existência humana quanto um tratado filosófico. No trecho acima, encontramos o famoso solilóquio
de Hamlet, atormentado pela morte de seu pai. A afirmação I apresenta uma interpretação para o
solilóquio: Hamlet lida com o sentido de sua vida. Está correta. A afirmação II expõe a questão do
sentido como foco da Psicologia Humanistas. Está correta. A afirmação III apresenta Hamlet como
padecendo de um distúrbio psiquiátrico (depressão). Com base em que seria feita essa afirmação?
A questão que Hamlet apresenta – se vale à pena viver ou não – não é fruto de psicopatologia,
mas, sim, expressão da pergunta humana pelo sentido da própria vida, que todas as pessoas
fazem, de modos mais ou menos temáticos. Esta afirmação está, portanto, errada. A afirmação IV
apresenta o suicídio como uma escolha livre e responsável. Está errada, pois o suicídio é um
atentado contra a vida humana. O suicídio encerra a abertura para o futuro, que é condição para o
homem poder fazer-se, criar-se e encontrar novos sentidos.
A alternativa que apresenta as afirmações I e II como corretas é A.

4) Realize os exercícios deste módulo, anotando as dúvidas que surgirem durante a resolução.
Busque respostas às suas dúvidas na bibliografia indicada ou através de novas pesquisas
bibliográficas. Caso suas dúvidas persistam, apresente-as ao professor, nas aulas presenciais.