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Educação Inclusiva: do Decreto-Lei

n.º 54/2018 à sala de aula

Carla Pereira
psi-carla-pereira@gmail.com

Mestre em Psicologia
Pós-graduada em Intervenção Psicológica em Contexto Escolar
Responsável pelo Serviço de Psicologia e Orientação em dois agrupamentos de escolas

novembro/2018
Í ndice

1. Educação Inclusiva---------------------------------------------------------------------------------------3

1.1 Enquadramento legal-----------------------------------------------------------------------------3

2. Modelos de Atuação------------------------------------------------------------------------------------4

2.1 Abordagem multinível-----------------------------------------------------------------------------4

2.2 Desenho universal para a aprendizagem ----------------------------------------------------5

3. Medidas de Suporte à Aprendizagem e à Inclusão----------------------------------------------6

4. Recursos Específicos de Apoio à Aprendizagem e à Inclusão --------------------------------8

4.1 Equipa multidisciplinar de apoio à educação inclusiva -----------------------------------9

4.2 Centro de apoio à aprendizagem--------------------------------------------------------------10

5. Processo de Identificação da Necessidade de Medidas --------------------------------------10

5.1 Relatório técnico-pedagógico-------------------------------------------------------------------11

5.2 Programa educativo individual-----------------------------------------------------------------12

5.3 Plano individual de transição ------------------------------------------------------------------12

6. Adaptações ao Processo de Avaliação ------------------------------------------------------------13

7. Bibliografia/Leituras recomendadas---------------------------------------------------------------14

8. Anexos--------------------------------------------------------------------------------------------------- -14

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1. Educaça o Ínclusiva

1.1 Enquadramento legal

O Decreto-Lei nº 54/2018, de 6 de julho, “estabelece os princípios e as normas que garantem a


inclusão, enquanto processo que visa responder à diversidade das necessidades e
potencialidades de todos e de cada um dos alunos, através do aumento da participação nos
processos de aprendizagem e na vida da comunidade educativa” (n.º1 do artigo 1º).

• Quais as mudanças mais significativas em relação ao Decreto-Lei 3/2008?


✓ Abandona os sistemas de categorização de alunos, incluindo a
“categoria” necessidades educativas especiais;
✓ Abandona o modelo de legislação especial para alunos especiais;
✓ Estabelece um continuum de respostas para todos os alunos;
✓ Coloca o enfoque nas respostas educativas e não em categorias de
alunos;
✓ Perspectiva a mobilização de forma complementar, sempre que
necessário e adequado, de recursos de saúde, do emprego, da
formação profissional e da segurança social.

Manual de Apoio à Prática, pág.12

O Decreto-lei n.º 54/2018 obriga a reequacionar o papel da Escola, o modo como esta vê os
alunos e como se organiza para poder responder às necessidades de todos eles. Este decreto-lei
abandona uma conceção mais restrita de “medidas de apoio para alunos com necessidades
educativas especiais” e assume uma visão mais alargada, pensando na Escola como um todo,
tendo em consideração a multiplicidade das suas dimensões e a interação entre as mesmas. Este
diploma assume ainda o pressuposto de que qualquer aluno pode, ao longo do seu percurso
escolar necessitar de medidas de suporte à aprendizagem.

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2. Modelos de Atuaçao

O Decreto-Lei n.º 54/2018 enuncia um conjunto de princípios, práticas e condições de


operacionalização da educação inclusiva que resultam de opções teóricas e metodológicas,
designadamente a abordagem multinível e o desenho universal para a aprendizagem. Estas
abordagens devem ser consideradas de forma integrada, articulada e flexível.

Manual de Apoio à Prática, pág.18

2.1Abordagem Multinível

A abordagem multinível pode ser caracterizada como um modelo compreensivo e sistémico que
visa o sucesso de todos os alunos. Esta abordagem é orientada para o sucesso de todos os alunos
através da organização de um conjunto integrado de medidas de suporte à aprendizagem.

Nível 3
Medidas Adicionais

Nível 2
Medidas Seletivas

Nível 1
Medidas Universais

Contínuo de
intervenções
(tipo,
intensidade,
frequência)

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A abordagem multinível adota uma visão compreensiva que reconhece a complexidade do
processo ensino-aprendizagem, contemplando de forma integrada e articulada dimensões
individuais e contextuais, isto é, do aluno e do contexto educativo.

Trata-se de uma abordagem com enfoque nas intervenções de carácter universal, dirigidas a
todos e da responsabilidade de todos.

As principais características da abordagem multinível são:

✓ A organização multinível das medidas de suporte à aprendizagem;

✓ A determinação de um contínuo de medidas de suporte à aprendizagem;

✓ O enfoque no currículo e na aprendizagem;

✓ A opção por práticas que sejam teórica e empiricamente sustentadas;

✓ A organização de processos sistemáticos de monitorização.

2.2Desenho Universal para a Aprendizagem

O desenho universal para a aprendizagem (DUA) é uma abordagem curricular que assenta num
planeamento intencional, proativo e flexível das práticas pedagógicas, considerando a
diversidade de alunos em sala de aula. As práticas pedagógicas sustentadas no DUA
proporcionam oportunidades e alternativas acessíveis a todos os alunos em termos de métodos,
materiais, ferramentas, suporte e formas de avaliação, sem alterar o nível de desafio.
Assim, o DUA pretende identificar e remover as barreiras à aprendizagem e participação e
maximizar as oportunidades de aprendizagem para todos os alunos.
A implementação de práticas pedagógicas em sala de aula tendo por base o DUA implica uma
abordagem flexível e personalizada por parte dos docentes, na forma como envolvem e
motivam os alunos nas situações de aprendizagem, no modo como apresentam a informação
e na forma como avaliam os alunos, permitindo e os conhecimentos adquiridos possam ser
manifestados de maneira diversa.

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Meios de envolvimento (“Porquê?”)

Meios de representação (“0 quê?”)

Meios de ação e de expressão (“Como?”)

A planificação de uma aula de acordo com o DUA deve ter em consideração quatro aspetos
fundamentais: os objetivos da aula, os métodos de apresentação dos conteúdos, os materiais
utilizados e as formas de avaliação.
Na página 27 do manual de apoio à prática são apresentadas algumas sugestões/reflexões
relativamente ao planeamento das aulas seguindo o DUA.

3. Medidas de Suporte a Aprendizagem e a Ínclusa o

As medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão pretendem garantir a todos os alunos a


equidade e a igualdade de oportunidades de acesso ao currículo, de frequência e de progressão
no sistema educativo.
As medidas são desenvolvidas tendo em conta os recursos e os serviços de apoio ao
funcionamento da escola, os quais devem ser convocados pelos profissionais da escola, numa
lógica de trabalho colaborativo e de corresponsabilização com os docentes de educação
especial, em função das especificidades dos alunos.

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Adicionais

Seletivas

Universais

• As medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão são organizadas em três níveis de


intervenção: universais, seletivas e adicionais.
• A mobilização das medidas de diferente nível é decidida ao longo do percurso escolar do
aluno, em função das suas necessidades educativas.
• Medidas de diferentes níveis podem ser aplicadas simultaneamente.
• A definição das medidas a implementar é efetuada com base em evidências decorrentes da
monitorização, da avaliação sistemáticas e da eficácia das medidas.
• A definição de medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão é realizada pelos docentes,
ouvidos os pais ou encarregados de educação e outros técnicos que intervém diretamente com o
aluno.

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4.Recursos Especí ficos de Suporte a Aprendizagem e a Ínclusa o

Recursos Humanos Específicos:


✓ Docentes de Educação Especial
✓ Técnicos Especializados
✓ Assistentes Operacionais (preferencialmente com formação específica)

Recursos Organizacionais:
✓ Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva (EMAEI)
✓ Centro de Apoio à Aprendizagem
✓ Escolas de Referência no Domínio da Visão
✓ Escolas de Referência para a Educação Bilingue
✓ Escolas de Referência para a Intervenção Precoce na Infância
✓ Centros de Recursos de Tecnologias de Informação e Comunicação para a Educação
Especial

Recursos Existentes na Comunidade:


✓ Equipas Locais de Intervenção Precoce
✓ Equipas de Saúde Escolar dos ACES/ULS
✓ Comissões de Proteção de Crianças e Jovens
✓ Centros de Recursos para a Inclusão
✓ Instituições da Comunidade (serviços de atendimento e acompanhamento social do
sistema de solidariedade e segurança social; serviços de emprego e formação
profissional; serviços de administração local; estabelecimentos de administração local
✓ Estabelecimentos de educação especial com acordo de cooperação com o ME

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4.1 Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva

Elementos Permanentes: Elementos Variáveis:

✓ Docente que coadjuva o ✓ Docente titular de


diretor turma/Diretor de turma
✓ Docente de educação especial ✓ Outros docentes do aluno
✓ Três membros do conselho ✓ Técnicos do CRI ou outros
pedagógico com funções de que intervêm com o aluno
coordenação pedagógica de ✓ Pais/EE
diferentes níveis de educação
e ensino
✓ Psicólogo

Competências da EMAEI:

• Sensibilizar a comunidade educativa para a inclusão;


• Propor as medidas de suporte à aprendizagem;
• Acompanhar e monitorizar as medidas;
• Prestar aconselhamento aos docentes na implementação de
práticas pedagógicas inclusivas;
• Elaborar o RTP, o PEI e o PIT
• Acompanhar o funcionamento do Centro de Apoio à Aprendizagem

Nota: é aconselhável a EMAEI elaborar um regimento e um plano de atividades a desenvolver


no âmbito das suas competências.

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4.2 Centro de Apoio à Aprendizagem

O centro de apoio à aprendizagem (CAA) é uma estrutura de apoio agregadora dos recursos
humanos e materiais, dos saberes e competências da escola (nº 1 do artigo 13º).

O CAA tem como objetivos específicos (nº 6 do artigo 13º):

✓ Promover a qualidade da participação dos alunos nas atividades da turma a que


pertencem e nos demais contextos de aprendizagem;
✓ Apoiar os docentes do grupo ou turma a que os alunos pertencem;
✓ Apoiar a criação de recursos de aprendizagem e instrumentos de avaliação para as
diversas componentes do currículo;
✓ Desenvolver metodologias de intervenção interdisciplinares que facilitem os processos
de aprendizagem, de autonomia e de adaptação ao contexto escolar;
✓ Promover a criação de ambientes estruturados, ricos em comunicação e interação,
fomentadores de aprendizagem;
✓ Apoiar a organização do processo de transição para a vida pós-escolar.

5. Processo de Ídentificaça o da Necessidade de Medidas

A identificação da necessidade de medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão deve ocorrer


o mais precocemente possível e efetua-se por iniciativa dos pais ou encarregados de educação,
dos serviços de intervenção precoce, dos docentes ou de outros técnicos ou serviços que
intervêm com a criança ou aluno.
A identificação é apresentada ao diretor da escola, com a explicitação das razões que levam à
necessidade de medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão, acompanhada da
documentação considerada relevante.

Nota: Consultar exemplo de modelo em anexo.

Após receber a identificação, o diretor da escola dispõe de 3 dias úteis para entregar o processo
à EMAEI. A equipa deverá então proceder à análise da documentação recebida e convocar os
elementos da equipa variável cuja presença considerem pertinente para tomar uma decisão
relativamente às medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão a mobilizar.

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5.1 Relatório Técnico-pedagógico (artigo 21º)

O relatório técnico-pedagógico é o documento que fundamenta a mobilização de medidas


seletivas e ou adicionais de suporte à aprendizagem e inclusão.

O RTP deve conter:

Nota: Consultar exemplo de modelo em anexo.

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5.2 Programa Educativo Individual (artigo 24º)

O programa educativo individual contém a identificação e a operacionalização das adaptações


curriculares significativas e integra as competências e as aprendizagens a desenvolver pelos
alunos, a identificação das estratégias de ensino e das adaptações a efetuar no processo de
avaliação.

Assim, sempre que se considere necessária a medida adaptações curriculares significativas,


deverá proceder-se à elaboração do PEI, para além do RTP. Na elaboração do PEI é fundamental
identificar as competências a atingir pelo aluno de acordo com o Perfil do Aluno à Saída da
Escolaridade Obrigatória.

Nota: Consultar exemplo de modelo em anexo


Consultar o Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória

5.3 Plano Individual de Transição (artigo 25º)

Sempre que o aluno tenha um programa educativo individual este deve ser complementado por
um plano individual de transição para a vida pós-escolar e, sempre que possível, para o exercício
de uma atividade profissional. O PIT deverá ser elaborado três anos antes da idade limite da
escolaridade obrigatória (15 anos), sendo alvo de avaliações e atualizações constantes de acordo
com as experiências que o aluno vai vivenciando.

Nota: Consultar exemplo de modelo em anexo

A construção do PIT exige que a equipa multidisciplinar, em conjunto com o aluno e os pais,
clarifique:
✓ Interesses, potencialidades e competências do aluno;
✓ Áreas a investir;
✓ Actividades a realizar;
✓ Entidades envolvidas e locais onde se vão realizar as actividades;
✓ Responsáveis em cada fase do processo;
✓ Mecanismos de acompanhamento e supervisão.

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6. Adaptaço es ao Processo de Avaliaça o (artigo 28º)

As escolas devem assegurar a todos os alunos o direito à participação no processo de avaliação.

• Constituem adaptações ao processo de avaliação:


a) A diversificação dos instrumentos de recolha de informação;
b) Os enunciados em formatos acessíveis;
c) A interpretação em LGP;
d) A utilização de produtos de apoio;
e) O tempo suplementar para a realização da prova;
f) A transcrição das respostas;
g) A leitura dos enunciados;
h) A utilização de sala separada;
i) As pausas vigiadas;
j) O código de identificação de cores nos enunciados.

As adaptações ao processo de avaliação interna, independentemente do nível de ensino, são


competências da escola.

No que respeita ao processo de avaliação externa no ensino básico:


✓ Todas as adaptações são da competência da escola;
✓ As mesmas devem ser comunicadas ao Júri Nacional de Exames.

No que respeita ao ensino secundário é da competência da escola a decisão, fundamentada,


das seguintes adaptações que devem ser comunicadas ao Júri Nacional de Exames:
a) a utilização de produtos de apoio;
b) a saída da sala durante a realização da prova/exame;
c) a adaptação do espaço ou do material;
d) a presença de interprete de língua gestual portuguesa;
e) a consulta de dicionário de língua portuguesa;
f) a realização de provas adaptadas.

A escola pode requerer autorização ao JNE para realizar as seguintes adaptações:

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a) a realização de exame de Português Língua Segunda (PL2);
b) o acompanhamento por um docente;
c) a utilização de instrumentos de apoio à aplicação de critérios de classificação de provas,
para alunos com dislexia, conforme previsto no Regulamento das provas de avaliação
externa;
d) a utilização de tempo suplementar.

7. Bibliografia/Leituras recomendadas

• Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho


• Para uma educação inclusiva, manual de apoio à prática
• Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (Despacho n.º 6478/2017, de 26
de julho)
• Decreto-Lei n.º281/2009, de 6 de outubro (Sistema Nacional de Intervenção Precoce)

8.Anexos

• Modelo de identificação da necessidade de medidas


• Modelo de relatório técnico-pedagógico
• Modelo de Programa Educativo Individual
• Modelo de Plano Individual de Transição
• Lista de acomodações curriculares

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