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EDITORIAL

Paula Franco
Bastonária

Momentos inesquecíveis

A
fasquia estava muito elevada depois do rotundo pela nossa Ordem. O caráter concetual do Congresso
êxito verificado no Encontro Nacional dos Con- – sobre a profissão na era digital – e a abordagem dis-
tabilistas Certificados, realizado o ano passado, ruptiva e desafiante que procuraremos fazer sobre o que
em Vila Real. A jornada de convívio foi memorável, a aguarda os profissionais são garantias que devem mobi-
todos os níveis. Fazer mais e melhor foi o objetivo tra- lizar os profissionais a estar presentes em Lisboa. Nesta
çado para 2019. Com o empenho da organização local e revista apresentamos, em detalhe, o painel «Três vidas,
da autarquia, dos colaboradores da Ordem e, natural- três mensagens», agendado para 21 de setembro. Jorge
mente, com a adesão dos profissionais, o Encontro que Sequeira, Johnson Semedo e Ricardo Araújo Pereira vão
teve lugar, no passado dia 6 de julho, nas Caldas da Ra- demonstrar que a contabilidade mantém pontos de con-
inha, entrou para a história como o mais participado de tacto com muitas áreas da sociedade, através de exem-
sempre. Foram cerca de 1 200 pessoas – considerando plos de motivação, superação e…humor.
contabilistas e familiares – os que durante um dia es- Inesquecível será também 19 de julho, dia da última ses-
queceram as dificuldades quotidianas para o cumpri- são plenária da legislatura. Na Assembleia de República
mento das obrigações fiscais. Foi uma oportunidade é aprovada a proposta de lei 180/XIII que procede à al-
para conviver com amigos, conhecidos e travar ami- teração dos diversos códigos fiscais e também introduz
zade com colegas dos pontos mais diversos de Portugal o mecanismo do justo impedimento. Significa isto que
continental e das regiões autónomas. falta muito pouco, - ou seja, a promulgação do Presi-
Edição após edição, esta iniciativa tem vindo a ganhar dente da República -, para a materialização desta figura
o seu espaço, significando muito do ponto de vista sim- que vai melhorar substancialmente as condições para o
bólico para os contabilistas certificados, ajudando a ci- exercício da profissão, pondo cobro aos constrangimen-
mentar a sua consciência de classe. A reportagem com- tos e injustiças sociais que se acumularam ao longo das
pleta do inesquecível dia 6 de julho, no Parque D. Carlos últimas décadas.
I pode ser consultada nas páginas desta revista. Este regime de proteção para os contabilistas certifi-
Igualmente altas são as expectativas que depositamos cados é uma grande vitória para todos os profissionais.
no VI Congresso dos Contabilistas Certificados, que de- Todos os que, diretamente ou indiretamente, contribuí-
correrá na Altice Arena, a 19, 20 e 21 de setembro. Um ram para a concretização desta medida merecem uma
grande palco, com grandes nomes e uma grande am- palavra de apreço e gratidão. Estamos diante de outro
bição são os ingredientes que, estou convicta, vão fazer momento memorável que irá mudar a face da profissão
deste um dos maiores eventos alguma vez promovidos que abraçamos.

JULHO 2019 3
FICHA TÉCNICA SUMÁRIO

ANO XIX
REVISTA N.º 232 • JULHO 2019
6
Propriedade Publicidade
Ordem dos Contabilistas Departamento
Certificados de Comunicação
e Imagem da Ordem
Avenida Barbosa
du Bocage, 45 Produção editorial
1049-013 Lisboa e revisão
Contribuinte n.º 503 692 310 Departamento
Telefone: 217 999 700 de Comunicação
e Imagem da Ordem
Telefone: Entrevista a José Luís Carneiro.
Diretora 217 999 715/17/18/19
Paula Franco Fax: 217 957 332

24
comunicacao@occ.pt

Diretores adjuntos www.occ.pt


Filomena Moreira
José Pedro Farinha Impressão
Manuel Teixeira LiderGraf
Joaquim Barbosa
Álvaro Costa Tiragem
Cristina Pena Silva 10 001 exemplares

Depósito legal
Redação N.º 150317/00
Jorge Magalhães
Nuno Dias da Silva ISSN
1645-9237

Design e paginação Organismos internacionais


Duarte Camacho a que a Ordem pertence:
João Martins
Sara Brás
Marcelo Rebelo de Sousa no 1.º Congresso da Diáspora.

35
Fotografia
Jorge Gonçalves
Raquel Wise

Secretariado
Raquel Carvalho

Colaboram nesta edição


Cláudio Cardoso
Eduardo Sá e Silva
Jesuíno Alcântara Martins
José Silva
Manuela Duarte
Manuela Sarmento
Paula Franco Os artigos publicados são da exclusiva

Tânia Alves de Jesus responsabilidade dos seus autores.


Tiago Mariz

Justo impedimento foi aprovado no Parlamento

4 CONTABILISTA 232
SUMÁRIO

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A representação da Ordem, em Évora, foi inaugurada a 25 de julho.

NOTÍCIAS
14 XV Encontro dos contabilistas nas Caldas da Rainha
22 VI Congresso dos Contabilistas Certificados
24 I Congresso Mundial de Redes da Diáspora Portuguesa
29 Inauguração da representação da Ordem, em Évora
31 Segurança Social: gestor do contribuinte para CC
32 Ordem presente na Expofacic 2019
33 Debates sobre o SAF-T e seguro de responsabilidade | XVII CICA, no Porto
34 Formação - Novas regras de faturação e encerramento de contas 2019 | Novo call center da Ordem
35 SAF-T: Ordem reage a documento da SEAF | Justo impedimento aprovado
36 Ordem nos media

COLABORAÇÃO ISCAC
37 O formulário de subsídio de desemprego e a ação de impugnação judicial da regularidade e licitude do despedimento

COLABORAÇÃO ISCAP
40 O conceito de rating

GESTÃO
43 A responsabilidade social das empresas

CONTENCIOSO TRIBUTÁRIO
50 Liquidação oficiosa no âmbito do Código do Imposto sobre o Valor Acrescentado

FISCALIDADE
56 Compreender a responsabilidade fiscal dos gestores de bens ou direitos de não residentes

CONSULTÓRIO TÉCNICO
62 Perguntas e respostas

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ENTREVISTA

José Luís Carneiro, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas

É essencial para a sociedade o know-how


dos contabilistas certificados
À margem do I Congresso Mundial das Redes da Diáspora Portuguesa, que teve lugar na
representação da Ordem, no Porto, a 13 de julho, o secretário de Estado das Comunidades
Portuguesas falou da relevância lusa além-fronteiras e da importância do protocolo
rubricado com a Ordem.

Texto Nuno Dias da Silva Fotos Jorge Gonçalves

C
ontabilista – O I Congresso certo para avançar com este even- Contabilista - A que critério pre-
Mundial das Redes da Diás- to? sidiu a escolha da cidade do Porto
pora Portuguesa realizou-se J.L.C. - Era chegado o momento de para o primeiro evento do género?
a 13 de julho, nas instalações da Or- colocar estas diversas redes face a J.L.C. – A cidade do Porto - e tam-
dem, no Porto. Qual o significado face para que existisse um conhe- bém Vila Nova de Gaia - tem um
deste evento? cimento entre elas, no sentido de contexto histórico com uma ligação
José Luís Carneiro – Em primeiro se iniciar um esforço de diálogo, muito própria com a origem e cons-
lugar, gostaria de explicar a razão contacto e cooperação, tendo em tituição do país nos seus elementos
do encontro em si. Ao longo da le- vista garantir uma maior eficácia, fundamentais, porque foi daqui que
gislatura, temos procurado valori- quer na afirmação de Portugal do partiram, desde o século XVI, mui-
zar cada uma das redes da diáspora, mundo – nas sua múltiplas dimen- tos daqueles que deram contributos
de per si, trabalhando individual e sões, na cultura, na economia, na importantes para a descoberta do
bilateralmente com as redes de in- língua, na investigação e conhe- mundo, não apenas o Infante D.
vestigadores e diplomados que te- cimento – quer na construção de Henrique, que teve um papel deci-
mos no estrangeiro, colaborando alicerces da internacionalização do sivo na forma como partimos para
com o movimento associativo das país e, simultaneamente, de atra- os Descobrimentos, mas também
comunidades portuguesas, com as ção da vida internacional para as o próprio Fernão de Magalhães.
câmaras de comércio e os empresá- comunidades locais e regionais de Comemoramos em 2019 os 500
rios nacionais, sem esquecer os ga- origem desses nossos concidadãos. anos da rota magalhânica, que foi
binetes de apoio ao emigrante, em O objetivo de ter frente a frente di- iniciada por Fernão de Magalhães
Portugal e no estrangeiro, criando, ferentes redes que afirmam e de- e concluída pelo navegador espa-
pela primeira vez, estruturas de fendem o interesse de Portugal foi nhol, Juan Sebástian Elcano. A rota
apoio aos emigrantes em municí- o de provocar o efeito bola de neve. magalhânica incorpora em si mui-
pios onde temos comunidades nu- A nossa intenção é que estes en- tas dimensões: em primeiro lugar,
merosas. Para além disso, temos contros tenham uma regularidade a vontade de saber e descobrir, e de
começado a trabalhar redes que bianual gerando um movimento «dar novos mundos ao mundo»,
estão a emergir na área da cultura. que venha a culminar numa maior como disse Luís de Camões. Si-
eficácia na afirmação de Portugal multaneamente, foi a primeira vez
Contabilista - Ou seja, era o timing na vida global contemporânea. que tivemos na mesma embarcação

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ENTREVISTA

«Há um conhecimento
técnico qualificado na
OCC e esse conhecimento
pode também ser
internacionalizado pela via
da diáspora portuguesa.»

várias nacionalidades a trabalha- acolher o I Congresso Mundial das nacionais verifica que são países
rem com o mesmo propósito, tendo Redes de Diáspora Portuguesa. A onde temos as grandes comuni-
com esse trabalho conjunto contri- partir deste encontro definiremos dades portuguesas. Se olharmos
buído, com êxito, para o esforço da a estratégia partilhada da forma para os países de onde importa-
primeira circum-navegação e a gé- como devemos agir, enquanto país mos mais, vamos constatar que
nese da globalização, dando origem e enquanto sociedade, na vida glo- são igualmente países onde tam-
a uma ligação direta com todo o bal, sempre pautando a nossa ação bém temos importantes comuni-
mundo. Foi a partir desse momento pelos valores do humanismo e da dades de compatriotas.
que tomamos consciência das geo- compreensão. Finalmente, se olharmos para os
grafias, das culturas, dos povos e fluxos do turismo, de acordo com
das civilizações. Esse foi um passo Contabilista - Na intervenção da dados do Instituto Nacional de Es-
muito importante na descoberta do sessão de abertura, o primeiro- tatística, 25 por cento desses flu-
Atlântico, mas também na desco- -ministro falou em «espaço de xos têm ascendentes portugueses
berta do Pacífico. fronteira alargado» e nos valores – o que demonstra que a diáspora
políticos, culturais e económicos nacional é um importante, senão
Contabilista - De que forma é que a da diáspora. Qual a importância mesmo o mais importante, ativo
circum-navegação poderá ter sido global das nossas comunidades es- estratégico da nossa afirmação no
a génese da diáspora portuguesa? palhadas pelo mundo? mundo. É pelas pessoas concre-
J.L C. - Na medida em que essa via- J.L.C. - O valor dos portugueses no tas que contribuímos para inter-
gem continua a ser feita por muitos mundo é incomensurável e mani- nacionalizar a nossa economia, a
de nós, que continuamos a ser ci- festa-se em todas a áreas e em todas nossa cultura e é também dessa
dadãos migrantes no mundo, pro- as dimensões do desenvolvimento. forma que conferimos uma outra
curando, descobrindo e construin- Vou dar-lhe alguns exemplos ex- força global à língua portuguesa e
do oportunidades. Daí que a cidade pressivos: se olhar para os países maior robustez à nossa força po-
do Porto tenha sido escolhida para onde crescem mais as exportações lítica.

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ENTREVISTA

«O valor dos
portugueses no mundo
é incomensurável
e manifesta-se em
todas a áreas e em
todas as dimensões do
desenvolvimento.»

Contabilista - Não pensa que ainda taria de Estado das Comunidades relação de cooperação e diálogo e
falta alguma consistência política Portuguesas a 31 de maio último? que se plasmou no estabelecimen-
em termos externos? J.L.C.- Nos últimos quatro anos foi to de um protocolo em que gosta-
J.L.C.- Um congressista do esta- feito um esforço para mobilizar as ria de destacar duas importantes
do do Massachusetts disse que os instituições nacionais para a cau- dimensões: uma de cooperação
portugueses nos Estados Unidos sa da diáspora portuguesa. Hoje, é com o Ministério dos Negócios Es-
com responsabilidades políticas no claro que todos os órgãos de Estado trangeiros para efeitos de formação
Congresso norte-americano foram mais representativos da sociedade dos funcionários consulares e di-
essenciais no levantamento de um portuguesa – o presidente da As- plomáticos no domínio da contabi-
clamor que exigiu a auto-determi- sembleia da República, o governo, lidade pública, da certificação e da
nação de Timor-Leste. Este exem- nas pessoas do primeiro-ministro prestação de contas. Como sabe, a
plo mostra que os portugueses no e do ministro dos Negócios Estran- secretaria de Estado das Comuni-
mundo, quer pela vida económica geiros, quer o próprio Presidente dades Portuguesas tem a tutela dos
das empresas e pela própria ex- da República – têm, no centro das serviços consulares que, no fundo,
pressão cultural, têm uma influên- suas preocupações e da sua agenda são todos os serviços de registo e de
cia de natureza política de grande política, a importância das comu- notariado e uma das fontes gerado-
envergadura. Todos estes instru- nidades portuguesas para a afir- ras de receita do Estado português
mentos de poder devem ser pers- mação de Portugal no mundo. Em e, muito particular, do Ministério
petivados numa lógica geopolítica paralelo, tem vindo a ser desen- dos Negócios Estrangeiros. Razão
e geoestratégica do país. volvido um esforço para agregar pela qual a cooperação com a OCC
às instituições representativas do assume-se como muito importante
Contabilista - Neste I Congres- Estado português, outras organi- para garantir esta disponibilidade
so, onde é que entra a Ordem dos zações de prestígio na sociedade à direção-geral dos Assuntos Con-
Contabilistas Certificados (OCC) e portuguesa. A OCC foi uma das en- sulares e das Comunidades Portu-
o protocolo rubricado com a secre- tidades com a qual encetamos uma gueses e ao Instituto Diplomático

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ENTREVISTA

para a formação numa área tão re- e esse conhecimento pode também mos com o contributo do secretário
levante como é a da contabilidade ser internacionalizado pela via da de Estado da Internacionalização
pública. Por outro lado, numa outra diáspora portuguesa. e o Ministério da Economia, tendo
dimensão, a Ordem disponibilizou em vista garantir a possibilidade de
as suas instalações do Porto para Contabilista - A OCC revela que há certificação e de candidatura das
que o MNE pudesse realizar algu- cerca de dois mil contabilistas a re- câmaras do comércio ao estatuto
mas das suas iniciativas, sendo o sidir e a trabalhar no estrangeiro. de utilidade pública. Aliás, nes-
I Congresso Mundial das Redes da Já privou com esta classe nas múl- te Congresso vamos reconhecer,
Diáspora, a primeira do género. tiplas deslocações que fez ao ser- oficialmente, a primeira câmara
viço do Estado português. Qual a de comércio portuguesa com este
Contabilista - Ambas as entidades opinião que tem? estatuto – a Câmara de Comércio
ganham com o protocolo? J.L.C. - Tenho travado conheci- Franco-Portuguesa. Só em Fran-
J.L.C. - Tanto os espaços de Lisboa mento com muitos profissionais da ça, estima-se que existam mais de
e Porto, ambos de grande quali- contabilidade, nomeadamente ao 50 mil empresas de portugueses ou
dade, permitem abrir as portas, nível dos empresários da diáspora. de capitais nacionais. O que tenho
nomeadamente para o aprofunda- Aliás, temos aqui reunidos no Porto verificado é que na diáspora por-
mento das relações entre os con- alguns dos principais responsáveis tuguesa, seja na América, Europa,
tabilistas certificados portugue- das maiores câmaras do comércio África, Ásia ou Oceania, existem
ses e as empresas e instituições da portuguesas no estrangeiro. Foi múltiplos empresários portugue-
diáspora. Ou seja, há um conheci- desenvolvido um trabalho por par- ses que, efetivamente, estarão dis-
mento técnico qualificado na OCC te do governo, com o qual conta- poníveis para realizar um diálogo

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ENTREVISTA

PERFIL
José Luís Carneiro nasceu a 4 de ou-
tubro de 1971. É secretário de Estado
das Comunidades Portuguesas desde
2015. Licenciado em Relações Inter-
nacionais pela Universidade Lusíada
e mestre em Estudos Africanos, foi
deputado à Assembleia da República
na XIII Legislatura, onde integrou a
Comissão de Negócios Estrangeiros e
foi eleito membro da Assembleia Par-
lamentar Euro-Mediterrânica. Em São
Bento integrou ainda as Comissões de
Educação, Juventude, Ciência e Cultu-
ra e a comissão de Coesão Territorial.
Entre 2006 e 2015 foi membro do Co-
mité das Regiões. Foi assessor do Ga-
binete do secretário de Estado Adjunto
do Ministro da Administração Interna,
entre 1999 e 2000. Foi presidente
da Câmara Municipal de Baião entre
2005 e 2015. Tem trabalhos publicados
nas áreas da ciência política e relações
internacionais, e no âmbito dos pode-
res locais e regionais.

mais profundo e para, em alguns no Brexit, e aposta, seguidamente, têm sido desenvolvidas um conjun-
casos, estabelecer, pela primeira a um nível de relação bilateral, his- to de medidas que visam acautelar
vez, uma relação de trabalho com toricamente constituída – assente os interesses portugueses, mas,
a OCC. Esta iniciativa, que hoje na relação mais antiga do mundo obviamente, os interesses europeus
ocorre (n.d.r. - 13 de julho), abre as que mantemos com a Inglaterra e e luso-britânicos, historicamente
portas desse caminho que agora se que nasceu e foi desenvolvida aqui constituídos.
enceta e que deve ser desenvolvido na cidade do Porto. Essa foi uma De entre as medidas de proteção dos
no futuro. O MNE está disposto a decisão do povo britânico e tere- cidadãos adotamos, após proposta
auxiliar a Ordem no objetivo de in- mos de aguardar os termos em que de vários ministérios, um estatuto
ternacionalização e de articulação essa saída irá ocorrer e, ao mesmo a conceder aos cidadãos britânicos
com os contabilistas certificados tempo, implementar o plano de que vivem em Portugal. Nessa con-
que têm a sua atividade sediada no contingência sugerida pela União dição estão os direitos fundamen-
estrangeiro. Europeia (UE). tais de acesso à saúde, à educação,
à Segurança Social, da realização de
Contabilista – De que forma é que o Contabilista - O que é está previsto investimento no país, de reconheci-
Brexit vai afetar a nossa diáspora? para proteger cidadãos e empre- mento e validação de competências
J.L.C. - O governo e o Estado por- sas? no ensino superior, etc. Ao mesmo
tuguês têm adotado uma aborda- J.L.C. - Neste plano temos duas tempo, procuramos garantir que os
gem multilateral, que se inscreve grandes dimensões de ação: uma direitos dos portugueses no Reino
na posição da União Europeia rela- de proteção aos cidadãos e a outra Unido sejam, simultaneamente sal-
tivamente ao modo de tratamento de proteção às empesas. Em ambas vaguardados, com base no princípio

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ENTREVISTA

«Se quisermos uma


administração pública
qualificada, uma
democracia com uma
cultura assente no
escrutínio e prestação
de contas e de boa
formalização dos fluxos
económicos e dos
rendimentos do Estado, a
função dos contabilistas
certificados é essencial.»

da reciprocidade e considerando os cadores de desemprego muito baixos acordo e sem a consequente salva-
direitos que foram reconhecidos aos e que apresenta, ao mesmo tempo, guarda dos interesses das empresas
cidadãos britânicos em Portugal. uma importante coesão social, mar- que operem no nosso país ou que cá
cada por uma segurança muito sig- queiram a operar.
Contabilista - E o que está previsto nificativa do ponto de vista concreto
para as empresas? e da sua própria perceção. Por isso, Contabilista - Está tranquilo mesmo
J.L.C. - Neste âmbito foi desenvolvi- temos boas condições de investi- que o pior cenário aconteça?
do um conjunto de iniciativas, en- mento no nosso país, bem como con- J.L.C. - Temos tratado o assunto do
tre as quais uma unidade de missão dições fiscais e condições de apoio ao Brexit com um grande sentido de
tendo em vista aproveitar oportu- investimento interno. Por outro lado, realismo e com a adoção de medidas
nidades que se venham a constituir, também no domínio do apoio às em- que envolvem vários ministérios,
relativamente à deslocalização de presas, tem havido um trabalho con- procurando aproveitar as oportu-
empresas do Reino Unido para países junto do Ministério da Economia e do nidades e minorando os eventuais
da UE. Na medida em que há empre- secretário de Estado da Internacio- efeitos nocivos que resultem dessa
sas que hoje estão sediadas no Reino nalização, tendo em vista informar, decisão do povo e das instituições
Unido que são beneficiárias de um esclarecer e apoiar as empresas – um britânicos.
conjunto de incentivos e de apoios dos apoios estruturados para apoiar
financeiros da UE e que, no futuro, as empresas teve a ver com a criação Contabilista – Mudando de assunto.
para continuarem a serem beneficiá- de uma linha de crédito destinada Sei que alguns elementos da sua fa-
rias desses apoios terão que ter sede a atrair e financiar investimento no mília são contabilistas certificados..
em países da comunidade. E o que país com origem no Reino Unido, J. L. C. - De facto, tenho três familia-
temos transmitido a essas empresas, mas também com a criação de planos res na minha casa que são membros
nomeadamente em diversas sessões dentro das próprias empresas para da OCC. Uma delas exerce a profissão
realizadas na City de Londres, é que que elas se adaptem às alterações que na área da certificação e revisão de
Portugal é um país da UE que hoje venham a decorrer na eventualida- contas, enquanto os outros dois são
cresce economicamente, tem indi- de de uma saída do Reino Unido sem formados em gestão e economia. Por

12 CONTABILISTA 232
ENTREVISTA

esse motivo, recebo a revista «Con- de forais atribuídos a muitos dos Contabilista - Permita-me que
tabilista» em casa e mensalmente municípios portugueses desde o abandone a história e dê um salto
tenho oportunidade de ver o conteú- século XII. para a contabilidade no tempo pre-
do da mesma. sente. Qual a importância de uma
Contabilista - É um entusiasta da profissão como a de contabilista cer-
Contabilista - E com que impres- história da contabilidade… tifciado numa altura em que tanto
são tem ficado? J.L.C. - O setor da contabilidade foi se fala de transparência e rigor nas
J.L.C. - Devo mesmo confessar desde sempre, aliás, desde a Me- contas?
que há artigos com os quais tenho sopotâmia, relevante sob o ponto J.L.C. - É essencial para a socie-
aprendido vários e importantes de vista da evolução das organiza- dade uma classe com o know-how
aspetos relativos, nomeadamente, ções institucionais e políticas. dos contabilistas. Se quisermos
ao contributo que a OCC dá às ins- Se olharmos para a história da con- uma administração pública quali-
tituições nacionais e internacio- tabilidade podemos verificar que, ficada, uma democracia com uma
nais na uniformização das regras por um lado, as origens acontecem cultura assente no escrutínio e
de contabilidade. Não podemos na Mesopotâmia, prolongam-se prestação de contas e de boa for-
esquecer que é do desenvolvi- pela civilização egípcia, passan- malização dos fluxos económicos e
mento das regras de contabilidade do pela Idade Média – em que a dos rendimentos do Estado, a fun-
que se aperfeiçoa a administração Igreja também recupera muito do ção dos contabilistas certificados
pública, desde as origens do Es- Império Romano na forma de or- é essencial. Mas, como é evidente,
tado, muito em particular do Es- ganização e de contabilidade – e estes profissionais só certificam
tado moderno, em especial com é desta evolução que resulta um o que lhes passa pelas mãos, pelo
a reforma administrativa levada progresso significativo na cultura que considero da maior importân-
a cabo por D. Manuel - quando que na transição do século XV para cia a sensibilização da sociedade
realiza o primeiro grande plano o século XVI dá origem à reorga- para que se trabalhe a montante e
de centralização da administra- nização da administração publica, o processo de certificação ocorra
ção após a primeira grande gesta nomeadamente a portuguesa. igualmente a montante. 

JULHO 2019 13
XV Encontro dos Contabilistas foi o maior de sempre
1 200 pessoas estiveram nas Caldas da Rainha
Texto Nuno Dias da Silva Fotos Raquel Wise

G
astronomia, desporto, cultura, colaboradores da Ordem esteve em per- dades. Um desafio logístico de grande
música e um dia pleno de con- manência para que o processo fosse céle- exigência para a organização, ainda para
vívio e animação. Foram estes re. Aos participantes eram ofertados, em mais devido ao número recorde de parti-
os ingredientes para o sucesso alcançado sacos de algodão ecológicos e reciclados, cipantes, mas que a avaliar pelo feedback
pelo XV Encontro Nacional de Contabi- t-shirts alusivas ao evento, programas dos presentes, foi altamente superado.
listas, realizado a 6 de julho, nas Caldas e mapas de orientação, licor de ginja e Como muitos partiram dos seus locais
da Rainha. O histórico e romântico Par- doce de maçã reineta e pera rocha, sem de residência ainda de madrugada, nada
que D. Carlos I foi o epicentro de um dia esquecer as bolas azuis que fizeram as melhor do que um pequeno-almoço re-
para a história. Tratou-se do primeiro delícias dos mais pequenos. Os que so- forçado, composto por sandes e fruta,
encontro dos contabilistas certificados licitassem recebiam, igualmente, bilhetes para aguentar um dia que se adivinhava
com direito a lotação esgotada. Foram 1 para aceder a alguns dos mais emblemá- intenso e desgastante.
200 pessoas, entre profissionais e acom- ticos museus da cidade das Caldas da
panhantes, que estiveram presentes na Rainha – o Museu da Cerâmica, a Casa Clima de cooperação
pitoresca localidade do Oeste. Museu São Rafael, o Museu do Ciclismo Ainda não eram 10 da manhã e já as
Foi junto ao popular «Céu de Vidro» das e o Museu José Malhoa, por exemplo. t-shirts rosa e amarelas (estas últimas
Caldas da Rainha que se iniciou o proces- As pulseiras identificativas eram o «livre atribuídas ao staff) coloriam o frondoso
so de credenciação. Uma vasta equipa de trânsito» para aceder a todas as ativi- parque D. Carlos I. Mas desengane-se

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quem pensasse que se estava a realizar companhias perfeitas para as primeiras chegavam os autocarros provenientes de
uma competição. Na verdade, o clima foi fotografias. A moldura alusiva ao en- Lisboa, Porto, Braga e Bragança. Agora
de cooperação ao longo de todo o dia. contro também ficou nas imagens para a que estavam todos, era tempo de come-
À entrada, algumas das figuras alusivas posteridade. Os bombos da Escola Téc- çar a festa!
a Rafael Bordalo Pinheiro davam as boas nica e Empresarial do Oeste (ETEO) e a
vindas: o sacristão, a saloia com cesto, Associação Cultural Recreativa de Santo Uma aventura no parque
o gato assanhado, o saloio com alfor- Onofre (Bjazz) abriram as hostilidades O difícil era escolher: ténis, futebol, pas-
ges e o inevitável Zé Povinho foram as musicais do evento, ao mesmo tempo que seios de barco no lago, yoga, pinturas fa-

JULHO 2019 15
ciais, insufláveis, visitas aos museus e até os jogos de futebol, sediados a cerca de de Freud, Adler e Frankl, como «forma de
uma exposição sobre uma resenha dos 500 metros de distância, no campo sin- encontrar o sentido para a vida», o pa-
encontros anteriores, foi a ementa não tético da Quinta da Boneca. Uma nuvem dre Nazaré sublinhou a importância da
gastronómica. Mas foram os passeios de carregada quis ser espetadora de um jogo realização pessoal no trabalho, com a se-
charrete em torno do Parque D. Carlos I - que esteve longe de ser «a feijões» - e guinte frase: «Se não gostas do que fazes,
que concitaram as atenções da maioria. durante cerca de cinco minutos refrescou aprende a gostar daquilo que fazes.» Aos
De forma discreta, mas sempre atentos os atletas. Quando o relógio apontava contabilistas certificados e às respetivas
ao que se passava no concorrido parque 15 minutos para o meio-dia, foi tempo de famílias, o padre Joaquim Nazaré recu-
público num sábado de manhã de julho, descer até ao centro da cidade, mais con- perou uma velha frase do saudoso Raúl
os elementos da Cruz Vermelha e da Po- cretamente à Igreja de Nossa Senhora do Solnado: «Façam o favor de ser felizes.»
lícia de Segurança Pública estiverem vigi- Pópulo, nas traseiras do Hospital Termal. Terminada a homília, foi tempo de regres-
lantes a todas as movimentações. Nada O habitual momento de eucaristia, já sar ao parque. Os estômagos suplicavam
podia falhar em termos de segurança. uma tradição nestes encontros, esteve a por urgente abastecimento. Enquanto se
Junto ao Museu José Malhoa, a instru- cargo do padre Joaquim Nazaré. A igreja, ultimavam os últimos detalhes dentro da
tora Rita Lemos alternou a calma do que leva o nome da padroeira das Caldas, tenda gigante, com 100x15 metros, eram
yoga, com os ritmos dançáveis da zumba. encheu, num ápice. servidas as entradas. Lá dentro, a oferta
Mente sã em corpo sã, um convite para gastronómica que esperava os partici-
famílias inteiras descomprimirem de uma «Façam o favor de ser felizes!» pantes era de arregalar os olhos e os es-
semana agitada. O sacerdote optou por uma abordagem tômagos. Nos pratos quentes em bufete,
Todas as atividades estavam concentra- multidisciplinar. Referindo-se aos «traba- um creme de legumes à francesa, para
das no parque central das Caldas, exceto lhadores» e à «psicoterapia existencial» começar, seguindo-se miminhos de ga-

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roupa coberto com molho de mexilhões surpresas não se ficaram por aqui. Na profissionais, o edil acrescentou que «os
e medalhões de lombinho cobertos com terra de Bordalo o mestre não podia fal- contabilistas certificados desempenham
molho de mostarda. A restante ementa tar, desta feita na pele do ator José Ra- uma função decisiva que une todo o país»
do repasto era constituída por uma ge- malho e do seu inseparável gato Pires. e que «uma boa prestação de serviços às
nerosa mesa de saladas, frutas e doces. Fernando Tinta Ferreira começou por re- pessoas passa por contas certas e bem
Para adoçar, ainda mais, os paladares os ferir que a realização deste evento nas feitas.» Aproveitando a presença de Ra-
tradicionais beijinhos das Caldas adorna- Caldas mais não era do que «uma for- fael Bordalo Pinheiro em palco, o autarca
vam as mais de 120 mesas dispostas na ma de honrar o compromisso da Rainha deixou uma farpa: «sSe tivesse um bom
tenda, quase parecendo um mega-casa- Dona Leonor.» Após ter experimentado contabilista, a fábrica não teria tido pro-
mento. os benefícios das águas termais da lo- blemas, caro Rafael!»
calidade, a Rainha D. Leonor, mulher de
Honrar o compromisso D. João II, ordenou a construção de um «A união é o mais importante
da Rainha Dona Leonor hospital, à volta do qual se formou a po- de tudo»
Antes dos discursos da praxe, «servidos» voação que assim ficou conhecida como Por seu turno, a bastonária congratulou-
à hora do café, uma primeira surpresa. A «Caldas da Rainha». -se com a participação alcançada neste
exibição de um vídeo, protagonizado pelo A monarca tinha como objetivo cuidar evento: «Se em Vila Real, onde estive-
cantor Toy, em que o artista setubalense da saúde dos enfermos, sem esquecer ram 800 pessoas, foi um sonho tornado
homenageou, de forma bem humorada o a vocação hospitaleira. «Receber bem realidade, nas Caldas este sonho ultra-
extenuante, os trabalhos dos contabilis- quem nos visita continua a ser um ponto passou todas as dimensões imaginadas
tas profissionais, com uma nova roupa- de honra para nós», referiu o autarca das e chegamos às 1 200 pessoas». Após os
gem do seu hit «Toda a noite». Mas as Caldas. Referindo-se em particular aos tradicionais agradecimentos à Câmara

JULHO 2019 17
Municipal – por continuar a cimentar Alice Torres, uma contabilista certifica- para a reportagem da OCC.
a parceria, após ter disponibilizado da que completou 67 anos a 6 de julho. Porco no espeto e sardinhas no pão foi
espaços para as reuniões livres e for- o lanche servido no Parque das Bicicle-
mações –, à organização local e aos Porco no espeto, sardinhas tas. Mas a cereja no topo do… Encontro,
colaboradores da Ordem, por terem e 90 quilos de bolo como sempre acontece, foi abertura de
tornado possível o maior encontro de Depois do farto repasto, a festa transfe- três bolos, cada um com 30 quilos, acom-
sempre, Paula Franco referiu «ser este riu-se para as portas do Museu José Ma- panhando pelo obrigatório espumante.
um dia tão importante de convívio lhoa, onde estava instalado o palco para Perante tanta tentação gastronómica,
como estar numa formação de caratér os momentos musicais. A melancolia do difícil foi mesmo resistir. A pensar nos
técnico» porque, na verdade, «a união fado de Zita Sousa, as melodias românti- mais carenciados, a organização decidiu
é o mais importante de tudo.» Este é cas de Celso Coelho e os acordes da or- reencaminhar as sobras do evento para a
mais um passo para o «crescimento e questra ligeira Monte Olivett animaram a Refood das Caldas da Rainha.
a credibilização», acrescentou a líder quente tarde das Caldas. Os que não ou- Ainda não começara a cair a noite, quan-
dos contabilistas, que aproveitou o saram dar um pé de dança, estenderam- do se iniciou a partida dos autocarros,
ensejo para apelar aos presentes para -se ao comprido no relvado junto ao mu- rumo aos seus destinos de origem. Ou-
se inscreverem para o VI Congresso, a seu e em volta da estátua do consagrado tros, que de deslocaram em viatura pró-
realizar no final de setembro, em Lis- pintor. Foi este também o local perfeito pria, aproveitaram para «queimar os últi-
boa. Ainda houve tempo para cantar para a foto de família, sob o olhar aten- mos cartuchos.». Exaustos, mas felizes e
os parabéns à aniversariante Maria to do drone que captava imagens aéreas preenchidos.

18 CONTABILISTA 232
JULHO 2019 19
14 edições, 14 histórias
Exposição retropetiva sobre todos os encontros

recebeu duas edições consecutivas –,


prosseguiu, também em duas vezes se-
guidas, em Almeirim, para depois, a par-
tir de 2007, se espalhar pelas seguintes
localidades: Esposende, Coimbra, Évora,
Lisboa, Faro, Viseu, Vila Flor, Aveiro e
Porto. O evento sofreu um interregno
em 2016 e 2017, tendo regressado em
2018, em Vila Real. A exposição foi
percorrida com especial saudade por
profissionais e também por não mem-
bros. O ponto de inscrição para o VI
Congresso também estava instalado na
Casa dos Barcos. Uma colaboradora da

A
Casa dos Barcos, no Parque D. vasto acervo de imagens, os 14 encon- Ordem, trajada com a t-shirt alusiva ao
Carlos I, foi o local escolhido tros nacionais dos contabilistas realiza- evento, prestou auxílio aos membros
para a exposição fotográfica dos até à data. Uma volta a Portugal que desejaram reservar o seu lugar no
que recordou, através da seleção de um que se iniciou em 2002, na Batalha – que Altice Arena, em setembro.

20 CONTABILISTA 232
Libertar a pressão e esquecer o trabalho
Membros elogiaram organização e escolha do local

V
ieram de todos os pontos de Por- da nossa zona de trabalho e fazer uma
tugal continental e das regiões coisa completamente diferente». Para
autónomas. Nas Caldas da Ra- o final fica, seguramente, um dos mais
inha cruzaram-se recordistas de presen- veteranos. Inácio Abreu reside em Mira-
ças em edições do Encontro e completos -Sintra e revela com orgulho ser o CC nú-
estreantes nestas andanças. Foi o caso mero 1 839. «Tenho vindo praticamente
das duas amigas, Carla Neiva e Anabe- a todas estas belíssimas festas, se faltei
la Ribas, que viajaram de Cabeceiras de foi a duas ou três, no máximo, por mo-
Basto para a primeira experiência do tivo de força maior», disse. Há 22 anos
género. Se Carla apreciou o «espaço e ça no encontro. Fernando Silva e Rogé- inscrito na Ordem, Inácio enaltece, com
a agradável troca de experiências», Ana- rio Correia viajaram de Braga. «Correu indisfarçável orgulho, a grandeza da pro-
bela leva das Caldas «toda a envolvên- muito bem. Os sítios escolhidos foram fissão que um dia abraçou e a qualidade
cia» que fez deste um «dia de lazer», à agradáveis. É um dia para comemorar das organizações da OCC, «não fosse-
margem dos computadores e das pape- porque a nossa profissão acarreta muitas mos nós contabilistas».
ladas. Alberto Cunha também participou responsabilidades e é para descomprimir Clara Roque Oliveira foi o rosto de uma
pela primeira vez no Encontro. Veio de das nossas obrigações, nomeadamente a vasta comissão organizadora local, cons-
Braga para «confraternizar, rever caras e IES. Só segunda-feira é que volto ao tra- tituída também por Vanda Sousa, Natá-
conhecer novas pessoas. Hoje não é dia balho». Para Rogério Braga esta é a se- lia Leandro, Francisco Ferraz e Cristina
para trabalhar. Não se fala de contabi- gunda vez que participa no Encontro. «A Ferraz. Esta caldense de 49 anos conhece
lidade, mas de amizade. As contabilida- viagem foi cansativa, mas este é um dia o Parque D. Carlos I como a palma da sua
des durante a semana já nos desgastam para descomprimir. Tenho muitos anos mão, o que foi um aspeto fundamental
o suficiente», assevera. Alberto Cunha nisto e tenho pena de não seguir este para a organização e gestão das ativida-
acrescenta que o objetivo de «juntar convívio desde as primeiras edições.» des. Apesar de cansada, o balanço não
pais, filhos e avós» numa só atividade foi Sofia Figueiredo nasceu em Santarém, podia ser mais positivo. «Foi uma orga-
plenamente cumprido. De Santa Maria da mas há vários anos fixou residência nas nização gigantesca, iniciada no princípio
Feira viajou a família Coelho. Célia e Pau- Caldas da Rainha. «É a primeira vez que do ano. Fomos aprendendo todos os dias
lo, o casal, acompanhados pelos filhos, venho e pelas imensas atividades que fo- e conseguimos motivar os colegas para
Diogo e Daniela, não deram o seu tempo ram disponibilizadas e pela qualidade da o evento num período tão sensível em
por mal empregue. Se o pai destaca «to- organização fiquei convencida em repetir termos de trabalho», declarou. «Eventos
das as atividades», sublinhando a beleza na próxima edição», referiu. «Num pe- destes servem para libertar a pressão e
que desconhecia das Caldas da Rainha, a ríodo do ano tão stressante, um evento esquecer o trabalho por um dia. Até por-
mãe salienta o valor cultural de uma visi- destes serve para deixarmos de lado os que a vida não é só papéis. A amizade é
ta ao museu. computadores e os gabinetes e virmos importante e sozinhos não vamos a lado
O Minho esteve, uma vez mais, em for- até aqui para conviver. Permite-nos sair nenhum».

Vídeo 1 disponível no canal OCC Vídeo 2 disponível no canal OCC Fotos disponíveis no flickr

JULHO 2019 21
Humor, experiências de vida e… contabilidade
VI Congresso dos Contabilistas Certificados, em setembro

A
s implicações do mundo digi-
tal na profissão contabilísti-
ca são o principal pilar do VI
Congresso dos Contabilistas Certifi-
cados, mas o evento a realizar nos
dias 19, 20 e 21 de setembro, na Al-
tice Arena, em Lisboa, tem prepara-
da uma abordagem multidisciplinar
bem patente nas sessões paralelas.
A profissão na era digital, do lado de
lá da fronteira e o profissional 360.º o sucesso». Neto esteve oito anos xa» de abordar a profissão, no último
são os temas destas sessões que como diretor de contabilidade e fis- dia do congresso. Mais do que fazer
vão receber dezenas de oradores, de calidade da The Navigator Company um diagnóstico do papel da profis-
Portugal e do estrangeiro. Mas esta (antiga Portucel/Soporcel), estando, são, o VI Congresso pretende alertar
nova perspetiva também se estende desde 2016, como diretor de patrimó- os contabilistas certificados para os
às sessões plenárias. nio e produção florestal desta empre- tempos de rápida mudança, o para-
sa de sucesso. A sua parceira de de- digma tecnológico e digital e os seus
O profissional e a accountability bate será Marta Costa, diretora geral impactos no trabalho do contabilista,
Nas sessões plenárias de dia 20 de do grupo h3, a cadeia portuguesa de na relação com os clientes, os empre-
setembro, sexta-feira, está prevista hambúrgueres gourmet, com presença sários e nas novas oportunidades de
uma mesa redonda sobre «O papel também no Brasil e Angola, conhecida negócio. O objetivo primordial passa
do contabilista na empresa». Mário por investir em soluções inovadoras e por sensibilizar os preparadores da
Ferreira, dono da Douro Azul e um eficientes. informação, de modo a que ninguém
dos mais bem sucedidos empreen- fique para trás.
dedores e gestores nacionais e João Abordagem «fora da caixa» Saiba como «liderar a profissão di-
Paulo Silva, responsável financei- Também para o último dia dos tra- gital» e inscreva-se no VI Congresso.
ro da José de Mello Saúde, um dos balhos, a organização idealizou um Até 31 de agosto o preço da entrada
maiores grupos na área da saúde, painel subordinado ao tema «3 vidas, é de 35 euros – inclui passe para os
vão esgrimir argumentos sobre esta 3 mensagens.» O professor Jorge Se- três dias (sessões plenárias, sessões
temática. queira, o educador Johnson Semedo paralelas, centro e feira de negócio,
e o humorista Ricardo Araújo Pereira almoço e coffee breaks). Consulte o
Dia do Contabilista vão identificar os pontos de contato microssítio do evento e fique a saber
Na manhã de 21 de setembro, sába- das suas experiências pessoais e pro- as condições de inscrição para o con-
do, Dia do Contabilista, será a vez de fissionais com a contabilidade e os gresso e para o programa social, que
Nuno Neto e Marta Costa debaterem contabilistas certificados. Será uma inclui um jantar e um espetáculo de
a «Accountability: o caminho para forma descontraída e «fora da cai- dança.

22 CONTABILISTA 232
Patrocinador premium: Patrocinador principal:

Jorge Sequeira

Docente, comentador e orador motivacional, Jorge Sequeira


conta com mais de três centenas de apresentações, palestras
e seminários e promete apresentar orientações que facilitem a
condução de processos disruptivos. Doutorado em Psicologia,
tem como áreas de especialização: mudança organizacional;
superação pessoal; negociação; liderança; resiliência; motivação;
condução de equipas; empreendedorismo e criatividade.

Johnson Semedo

Ao longo de quase três décadas, Johnson Semedo foi


delinquente, toxicodependente e esteve preso em várias
cadeias do país, numa longa e dolorosa viagem que começou
bem cedo. Pelo caminho, várias tentativas de recuperação, a
morte do pai e, mais tarde, da mãe. Situações que, já muito
depois dos 30, acabaram por recolocar a vida de Johnson
nos carris. Criou a Academia do Johnson onde trabalha todos
os dias com quase duas centenas de jovens em risco com o
objetivo de os manter longe do «caminho mais fácil.»

Ricardo Araújo Pereira

Filho de um piloto da TAP e de uma assistente de bordo, Ricardo


Araújo Pereira (RAP) começou a «voar» com os seus Gato Fedorento,
um projeto de referência do humor português contemporâneo.
«Melhor do que falecer» e «Gente que não sabe estar», ambos
programas emitidos na TVI, marcaram o seu regresso ao pequeno
ecrã, desta vez a solo. Coincidindo com o retorno do seu programa
de sátira política, RAP promete explicar a ligação improvável entre
humor e contabilidade. Rigorosamente a não perder.

JULHO 2019 23
.

A diáspora reencontrou-se na casa dos contabilistas


Texto Nuno Dias da Silva | Fotos Jorge Gonçalves

U
m dia histórico para as comu- ro de dezembro foram os representantes primeira a usar da palavra. A bastonária
nidades e também para a Or- da diáspora. reconheceu «o prazer e a grande hon-
dem. As instalações da OCC, no ra» de acolher um acontecimento desta
Porto, acolheram, no dia 13 de julho, o I Portugueses pelo mundo dimensão e referiu que «os contabilistas
Congresso Mundial de Redes da Diáspora No total, foram 453 congressistas, em certificados podem assumir um papel de
Portuguesa, subordinado ao tema «Por representação de 38 países, oriundos dos apoio e elo de ligação entre os portugue-
uma visão estratégica partilhada.» E, cinco continentes. Espanha, França, Ale- ses espalhados pelo mundo. Com efeito,
pela primeira vez, as três mais altas figu- manha, Suiça, Luxemburgo, Brasil, África os contabilistas portugueses assumem
ras do Estado – Presidente da República, do Sul, Estados Unidos, Venezuela, Chi- um papel preponderante no processo de-
presidente da Assembleia da República e na e Canadá, foram algumas das nações cisório e no controlo de gestão de cada
primeiro-ministro – estiveram presentes presentes na cidade «Invicta». Pelos cor- empresa.» Paula Franco lembrou que a
num evento na casa dos contabilistas. redores das instalações da Ordem, circu- Ordem tem desenvolvido inúmeros pro-
A azáfama começou desde muito cedo: lavam outras caras conhecidas: foi o caso jetos de aproximação entre contabilistas
ao nível da logística, segurança, sem es- dos presidentes da RTP e da TAP, Gonçalo e empresários, «tendo embarcado de
quecer a presença massiva da comuni- Reis e Miguel Frasquilho, respetivamente, braços abertos no desafio lançado pelo
cação social. Não era caso para menos, e do secretário de Estado da Internacio- secretário de Estado das Comunidades
dada a presença de um invulgar conjunto nalização, Eurico Brilhante Dias. Portuguesas e o Ministério dos Negócios
de individualidades políticas e adminis- Estrangeiros, ao celebrar um protocolo
trativas do Estado português, eclesiásti- Empresários, os mais valiosos de promoção da relação entre o tecido
cas e empresariais. Contudo, os primeiros parceiros empresarial da diáspora portuguesa e os
a convergir para o n.º 43 do Largo Primei- A anfitriã do evento, Paula Franco, foi a contabilistas certificados.» A bastonária

24 CONTABILISTA 232
.

Portugueses espalhados pelo mundo estiveram no Porto

mostrou-se ainda disponível para acolher «Escutar a diáspora» comunicação social. Da discussão e do
futuras iniciativas do género que aproxi- Para finalizar, usou da palavra o che- debate emergiram contributos para de-
mem empresários e contabilistas, tendo fe de Estado. Marcelo Rebelo de Sousa senvolver e aprofundar uma estratégia
deixado o repto para que a próxima edi- defendeu que «o grande desafio» do comum para consolidar a concretiza-
ção se realize, novamente nas instalações país passa por colocar a diáspora como ção das aspirações dos portugueses no
do Porto, ou no auditório de Lisboa. Até «prioridade global» dos residentes em mundo.
porque, sublinhou, «os empresários serão território nacional, porque a presença O encerramento esteve a cargo de
sempre vistos como os mais valiosos par- dos portugueses «no mundo» é uma Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da
ceiros.» das razões pelas quais eles «são muito Assembleia da República. A segunda fi-
bons». De acordo com o Presidente da gura do Estado começou por destacar
Uma «poderosa rede global» República, a emigração é considerada «a portugalidade e a heterogeneidade,
O vice-presidente da Câmara Municipal em Portugal «tão natural como respi- que é tão nossa», tendo ainda abordado
da Porto, Filipe Araújo, congratulou-se rar», mas deve ser alvo de «atenção», outros temas como «o posicionamento
pelo facto de a escolha para o I Congres- porque é «muito importante» para o de Portugal como nação e a relação com
so ter recaído na cidade «Invicta.» José país. as comunidades», a idade da globaliza-
Luis Carneiro, secretário de Estado das Na aguardada intervenção de fundo, D. ção e as exigências da sociedade do co-
Comunidades Portuguesas, referiu que José Tolentino de Mendonça, arquivis- nhecimento.
«o encontro de todas estas redes é mui- ta dos Arquivos Secretos do Vaticano No final do evento foi cantado o hino
to significativo e não deixará de produzir e bibliotecário da Biblioteca Apostólica nacional por Kátia Moreira e Pedro
efeitos estratégicos no futuro.» Vaticana, defendeu ser necessário «des- Rodrigues, portugueses residentes em
Por seu turno, o primeiro-ministro, Antó- truir preconceitos» e «escutar melhor a França.
nio Costa classificou as redes da diáspo- nossa diáspora de modo a abrir espaço
ra portuguesa como uma «poderosa rede para a criação de uma reciprocidade ge-
global» que o país tem de ser «capaz de nerativa.» Vídeo 1 disponível no canal OCC
articular», reforçando a «proximidade»
com as suas comunidades emigrantes A portugalidade
espalhadas pelo mundo. O ministro dos e a heterogeneidade Vídeo 2 disponível no canal OCC

Negócios Estrangeiros, Augusto Santos A parte da tarde ficou reservada para


Silva defendeu o potenciar do contacto os painéis temáticos: associativismo,
entre as redes da diáspora para melhorar ciência e conhecimento, economia e de- Fotos disponíveis no flickr
o impacto da ação governativa. senvolvimento, cidadania, apoio local e

JULHO 2019 25
.

Paula Franco e o secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro

Paula Franco dá as boas-vindas ao primeiro-ministro, António Costa.

António Costa e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augus-


to Santos Silva entram no auditório da Ordem.

A bastonária da Ordem e o Presidente da República, Marcelo


Rebelo de Sousa.

A bastonária na receção ao presidente da Assembleia da Repú-


blica, Ferro Rodrigues.

26 CONTABILISTA 232
.

António Costa Marcelo Rebelo de Sousa

Eduardo Ferro Rodrigues D. José Tolentino de Mendonça

A presença de individualidades de diversos quadrantes atraiu a presença


massiva da comunicação social ao auditório da Ordem, no Porto.

JULHO 2019 27
.

O I Congresso Mundial de Redes da Diáspora Portuguesa contemplou


diversos momentos de cariz etnográfico: ranchos folclóricos, fado
académico, fado de Lisboa e a atuação da tuna universitária do Porto.
O encerramento aconteceu com o hino nacional interpretado por Kátia
Moreira e Pedro Rodrigues, portugueses residentes em França.

28 CONTABILISTA 232
NOTÍCIAS

A concretização de sonho antigo


Representação de Évora foi inaugurada a 25 de julho

O
prometido é devido. Para dar
cumprimento a uma promessa
eleitoral, o Conselho Diretivo
inaugurou no passado dia 25 de julho a
delegação da Ordem, em Évora. Loca-
lizada na Rua do Iroma, n.º 1, a poucos
metros do Rossio de São Brás, o novo es-
paço – em regime de aluguer – passará a
estar à disposição de todos os membros,
em particular dos cerca de 650 residentes
no distrito, nomeadamente para as reu-
niões livres e as formações em sala, que
até ao momento tinham lugar na Comis-
são de Coordenação e Desenvolvimento para Évora e que, estou certa, ficará na de assuntos técnicos, profissionais, lití-
Regional (CCDR), na «cidade-museu.» memória de todos os colegas do distrito. gios e de mediação entre clientes, serão
Que este espaço vos motive a vir e, as- outras das possibilidades tendo em vista
Espaço de união e cumplicidade sim, estarem mais próximos da Ordem e «facilitar a vida aos membros.»
A sessão de debate e reflexão sobre o identificarem-se com esta instituição.» A
SAF-T e o seguro de responsabilidade bastonária acrescentou ainda que a dele- Identidade preenchida
civil profissional foi o mote perfeito para gação de Évora pretende ser «um espaço António Nabo, membro da Assembleia
anunciar aos membros do distrito alen- de encontro, reforço da união e cumpli- Representativa de Évora, congratulou-se
tejano a novidade: «É a concretização cidade entre colegas.» Para além de for- pela abertura do espaço no bairro da
de um sonho antigo e um dia muito feliz mações e reuniões em sala, a resolução Horta das Figueiras: «A nossa identida-

JULHO 2019 29
NOTÍCIAS

de é baseada em dois fatores: a história Marília Teles mostra-se satisfeita pelo


e os locais. Évora é uma cidade cheia facto de a capital alentejana ter sido «a
de história na profissão. Faltava-nos primeira a ter delegação da Ordem»,
o espaço para que a nossa identidade facto que considera uma «grande van-
pudesse ficar preenchida. Agora já o tagem», em particular para dinamizar
temos.» Por seu turno, Rui Herdadi- a partilha de conhecimentos. Apreensi-
nha, o outro membro da Assembleia va com o processo relacionado com o
Representativa eleito pelo distrito, re- SAF-T, esta profissional mostra-se con-
feriu que «Évora tem de estar sempre fiante que o papel de intermediação da
presente e não podíamos ficar esqueci- Ordem junto da Autoridade Tributária
dos.» Herdadinha agradeceu o esforço vai ser favorável aos contabilistas cer-
que a direção tem feito neste domínio tificados.
e apelou aos profissionais que lotavam
a sala para frequentarem a delegação, Sentimento de pertença
«usando aquilo que é nosso.» Serafim Alvito não podia estar mais
de acordo com esta iniciativa da Or-
Mais «próximos» de Lisboa dem. Residente em Montemor-o-Novo,
Durante o coffee break que se seguiu, este profissional refere que «é mui-
houve oportunidade para registar as to mais importante termos uma casa
impressões dos membros do distrito. nossa. Sentimo-nos mais à vontade.»
João Murcho, que trabalha na área da Este contabilista acrescenta que, pese
contabilidade vai para três décadas, embora a curta distância com Lisboa,
considera que esta inauguração é uma «ter uma delegação da Ordem perto
forma de «estar mais perto uns dos ou- do nosso local de trabalho é primordial
tros e também de Lisboa.» Apesar de para resolver alguns problemas e ques-
Vídeo disponível no canal OCC
não ser assíduo nas reuniões livres, este tões mais prementes.»
contabilista certificado de Évora con- A delegação da Ordem tem 100 metros
fessa que costuma frequentar as for- quadrados de área bruta e uma sala Fotos disponíveis no flickr
mações temáticas. Também de Évora, com capacidade para 60 lugares.

30 CONTABILISTA 232
NOTÍCIAS

O ministro Vieira da Silva e a bastonária da Ordem durante as suas intervenções nas «Jornadas do Contribuinte da Segurança Social.»

Gestor do contribuinte para contabilistas certificados


Segurança Social acolheu favoravelmente proposta da Ordem

D
ecorreram no dia 18 de julho, Estas jornadas, que decorreram no Contraordenações eliminadas
em Lisboa, as «Jornadas do auditório do Instituto da Segurança Para além disso, o esforço que a Or-
Contribuinte da Segurança Social, em Lisboa, contaram com in- dem tem feito, em paralelo com a
Social», com a presença da bastoná- tervenções da secretária de Estado da Segurança Social, para eliminação
ria, Paula Franco, para apresentação Segurança Social, Cláudia Joaquim, da das contraordenações aplicadas aos
e debate do modelo do gestor do bastonária, Paula Franco e do ministro contribuintes – na sua maioria diziam
contribuinte. Reconfigurado em 2017, do Trabalho, Solidariedade e Segurança respeito à atribuição tardia de NISS
o modelo do gestor do contribuinte Social, José Vieira da Silva. Foi preci- a trabalhador, inoperacionalidade do
passou a ter, a partir dessa data, um samente o titular da pasta a anunciar sistema da Segurança Social e atri-
alcance nacional visando promover o o acolhimento da proposta da basto- buição tardia da senha – está a sur-
«acompanhamento efetivo e perso- nária da Ordem para criar um gestor tir bons resultados e atualmente as
nalizado das ‘maiores’ entidades em- do contribuinte para os contabilistas referidas contraordenações estão a
pregadoras», nas diversas vertentes certificados que assim podem ter um ser eliminadas.A Ordem solicita aos
da relação com a Segurança Social, interlocutor privilegiado na Segurança profissionais que tenham contribuintes
passando a ter uma «ótica nacional.» Social para resolução dos problemas ainda com as contraordenações por
Segundo a tutela, atualmente, são dos seus clientes. Este processo conti- eliminar ou novas contraordenações
acompanhadas 2 498 entidades em- nuará a ser acompanhada pela Ordem, aplicadas, que entrem em contacto
pregadoras, com presença em todo o alocando-lhe a instituição a sua melhor com os serviços de contencioso tribu-
território. atenção e apoio. tário da OCC.

JULHO 2019 31
NOTÍCIAS

Ordem participou na Expofacic 2019


Colaboradores prestaram esclarecimentos aos visitantes

À
semelhança do que acon- ro Costa e Jorge Barbosa estiveram
teceu na Feira Nacional de na tarde de 26 de julho no stand
Agricultura, em Santarém, da Ordem dos Contabilistas certi-
a Ordem esteve presente, com um ficados. Na ocasião, a bastonária
stand próprio, na Expofacic 2019, trocou impressões com a presiden-
com colaboradores em permanên- te e o vice-presidente da Câmara
cia, procurando, desta forma estar Municipal de Cantanhede, Helena
mais próxima dos empresários e Teodósio e Adérito Machado, res-
das associações que os represen- petivamente.
tam e, por inerência, da sociedade Em todos os dias da feira a Or-
em geral. A 28.ª edição da feira de dem disponibilizou colaboradores
Cantanhede decorreu entre os dias especializados em diversas áreas
25 de julho e 4 de agosto. – TOConline, mediação de conflitos
e esclarecimentos técnicos e jurídi-
Esclarecimentos especializados cos – para prestar esclarecimentos
O Conselho Diretivo, constituído aos visitantes de uma das maiores
pela bastonária Paula Franco, a vi- feiras do género em Portugal, que o
ce-presidente, Filomena Moreira e ano passado registou cerca de 400
os diretores Manuel Teixeira, Álva- mil visitantes.

32 CONTABILISTA 232
NOTÍCIAS

Debates sobre SAF-T e seguro de responsabilidade civil


Sessões juntaram 1 400 profissionais em todo o país

C
erca de 1 400 contabilistas de julho. O Conselho Diretivo, liderado realizados em Lisboa, Porto, Braga e
certificados participaram nas pela bastonária Paula Franco, percorreu Leiria foram os mais participados. Em
18 sessões de debate e refle- o país para trocar impressões com os setembro, será a vez dos membros do
xão sobre o SAF-T da contabilidade e o membros de todos os distritos de Por- Conselho Diretivo se deslocarem até ao
seguro de responsabilidade civil profis- tugal continental sobre duas temáticas Funchal, Ponta Delgada, Angra do He-
sional realizadas na segunda quinzena que estão na ordem do dia. Os eventos roísmo e Horta.

A contabilidade na era digital: oportunidades e desafios


XVII CICA, a 7 e 8 de novembro, no Porto

T
erminou a 5 de agosto o prazo O tema do congresso é «A contabilida- interdependente, global e digital.
para a submissão de trabalhos de na era digital: oportunidades e desa- Até 10 de setembro os autores dos tra-
para o XVII Congresso Inter- fios.» O XVII CICA está aberto a uma balhos serão notificados da decisão da
nacional de Contabilidade e Auditoria grande variedade de tópicos, com o ob- comissão científica do evento e, final-
(CICA), organizado pelo Instituto Supe- jetivo de estimular abordagens interdis- mente, 7 de outubro, é a data limite para
rior de Contabilidade e Administração ciplinares e complementares, promover os autores com trabalhos aceites proce-
do Porto (ISCAP) e pela Ordem dos Con- a disseminação do conhecimento cientí- derem à inscrição.
tabilistas Certificados (OCC), que irá fico, a troca de experiências e saberes Toda a informação está disponível no
realizar-se a 7 e 8 de novembro de 2019, profissionais e a transferência de conhe- microssítio criado em exclusivo para o
nas instalações do ISCAP, no Porto. cimento, numa sociedade cada vez mais evento, acessível no sítio da Ordem.

JULHO 2019 33
NOTÍCIAS

Casos práticos de Encerramento


IVA e novas regras de contas 2019
de faturação

Novas regras de faturação


e encerramento de contas 2019
Formações eventuais agendadas para outubro e novembro

C
asos práticos de IVA e novas outubro e vão percorrer 24 cidades do três colaboradores. O custo das for-
regras de faturação e Encer- continente e das regiões autónomas. mações é de 32 euros, caso o membro
ramento de contas 2019 são O encerramento de contas 2019 será opte pelo manual em papel, ou de 27
as formações de caráter eventual que o último ciclo de formação eventual euros caso prefira a versão digital do
a Ordem agendou, a nível nacional, do ano e vai decorrer entre 18 de no- manual.
para outubro e novembro, respetiva- vembro e 2 de dezembro, também em Os calendários e os programas de am-
mente. Portugal continental e ilhas. bas as formações encontram-se dispo-
As sessões sobre as novas regras de Como é habitual, os contabilistas cer- níveis no sítio da Ordem e em perma-
faturação terão lugar entre 7 e 22 de tificados podem inscrever, no máximo, nente atualização.

Já se encontra operacional o call center


21 7999 700 é o único número para contactar a Ordem

F
oi concluído com êxito, no dita que este passo significa uma
passado dia 25 de julho, o pro- nova etapa no relacionamento, cada
cesso de reinstalação do call vez mais próximo, que quer manter
center da Ordem. A partir de ago- com os contabilistas certificados. Em
ra o único número de telefone para março último, em entrevista a esta
contactar a Ordem é o 21 7999 700. revista, a bastonária, Paula Franco
Agora que este problema se encon- antecipava que a resolução desta
tra ultrapassado, tendo causado situação «implicaria uma mudança
grandes transtornos aos membro da enorme na qualidade que queremos
Ordem, o Conselho Diretivo acre- dar aos membros.»

34 CONTABILISTA 232
NOTÍCIAS

Ordem reage a documento


da Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais
Bastonária lamenta que se ponha em causa o trabalho dos contabilistas

N
o passado dia 3 de julho a As- a informação e posterior encriptação do
sembleia da República aprovou excesso de dados que não são necessá-
uma proposta de alteração ao rios para preenchimento da IES.
Decreto-Lei n.º 8/2007, de 17 de janeiro,
diploma que regula a submissão do SAF- Bastonária repudia insinuações
T-T para preenchimento da IES, indo de Em comunicado com data de 19 de ju-
encontro às preocupações manifestadas lho, a bastonária Paula Franco refere que
pelas associações empresariais e socie- «esta proposta parece, no entanto, não
dade civil sobre o excesso de informação
que era transmitida à Autoridade Tribu-
respeitar aquilo que os senhores depu-
tados aprovaram: a exclusão dos dados
SAF-T
tária e Aduaneira (AT). "previamente à submissão” e não a pos-
Posteriormente, a Secretaria de Estado teriori como é defendido.» Paula Franco as contas das empresas.» Num registo
dos Assuntos Fiscais (SEAF), através de acrescenta que para justificar este mo- contundente, a bastonária «repudia estas
um documento enviado à Comissão de delo, «a SEAF vem alegar que o envio do insinuações» e lamenta «que se ponha
Orçamento, Finanças e Modernização ficheiro com toda a informação é funda- em causa o bom nome, trabalho e dedi-
Administrativa (COFMA), apresentou mental porque a informação submetida cação dos contabilistas.»
os modelos de submissão do SAF-T que na IES não é fiável, insinuando que os
mantêm como premissa o envio de toda empresários e contabilistas manipulam Disponível no site OCC

Justo impedimento aprovado na última sessão plenária


Falta apenas a promulgação do Presidente da República

F
oi aprovado, ao início da tarde de que o contabilista certificado exerce uma
19 de julho, na última sessão ple- profissão exigente e implacável em ter-
nária da presente legislatura, a mos de prazos e perante qualquer impon-
proposta de lei 180/XIII que procede à derável ou vicissitude não tem qualquer
alteração dos diversos códigos fiscais, justificação para evitar uma coima ou
introduzindo melhorias na operaciona- incumprir um prazo. Felizmente, e como
lização dos serviços da administração tudo indica, o profissional vai passar a ter
tributária e ajustes em várias normas argumentos para se defender.»
relativas às obrigações declarativas dos Na mesma comunicação, Paula Franco,
contribuintes e que altera ainda o Esta- destaca o empenho manifestado quer
tuto da Ordem dos Contabilistas Certi- pelo secretário de Estado dos Assuntos
ficados (OCC), introduzindo-se o novo Fiscais, Mendonça Mendes, quer pelos
mecanismo do justo impedimento. grupos parlamentares, «em especial o
do PCP que, desde sempre, foi sensível te da República, que deve acontecer em
Argumentos de defesa às preocupações dos contabilistas certi- agosto. A entrada em vigor acontecerá
Em mensagem enviada aos membros ao ficados.» em 2020.
final da tarde do mesmo dia, a bastoná- Para que o justo impedimento se torne
ria refere que «a votação de hoje é o re- uma realidade, falta apenas a promulga- Disponível no site OCC
conhecimento, por parte dos deputados, ção do diploma por parte do Presiden-

JULHO 2019 35
NOTÍCIAS

REDES SOCIAIS

Justo impedimento
989 259 visualizações
aprovado em sessão
3636 subscritores plenária

Foi aprovada, na última sessão


plenária da legislatura, a proposta
de lei 180/XIII que procede à alte-
ração dos diversos códigos fiscais,
introduzindo melhorias na opera-
cionalização dos serviços da ad-
ministração tributária e ajustes em
várias normas relativas às obriga-
ções declarativas dos contribuin-
tes e que altera ainda o Estatuto
da Ordem dos Contabilistas Cer-
tificados (OCC), introduzindo-se o
mecanismo de justo impedimen-
to, que vai melhorar as condições
para o exercício da profissão de
contabilista.
TVI/TVI 24 - Como escolher um contabilista?
A bastonária, Paula Franco, foi a convidada do programa «Economia 24»

52 869 seguidores
ANÁLISE DA ORDEM
A faturação eletrónica
Artigo de Célia Correia França,

24 227 FOTOS
jurista da Ordem

Pagamento por conta - IRS/


IRC
1 272 SEGUIDORES Artigo de Felícia Teixeira,
consultora da Ordem

NOVIDADES DE ÂMBITO TÉCNICO*


Os pareceres técnicos mais vistos em julho:
CONTAS & IMPOSTOS
| Imparidades em dívidas de clientes | Ouro para investimento
Trabalhadores domésticos
| Remuneração convencional do capital | Comissões (booking)
Artigo de Elisabete Cardoso,
social | Despesas em nome e por conta consultora da Ordem
| Regime da margem | Pagamentos por conta de IRC – RETGS
| IRC - Pagamentos por conta | Créditos incobráveis
| Suprimentos | Imparidades – Inventários Regras de faturação – artigo
35.º-A do CIVA
* Pareceres disponíveis no sítio da Ordem https://www.occ.pt/pt/noticias/novidades-de- Artigo de João Antunes,
consultor da Ordem
ambito-tecnico/

36 CONTABILISTA 232
COLABORAÇÃO ISCAC

O formulário de subsídio
de desemprego e a ação de
impugnação judicial da regularidade
e licitude do despedimento
A ação de impugnação judicial da regularidade e licitude do despedimento (AIRLD) pode ser
utilizada em caso de despedimento individual, ser comunicada por escrito ao trabalhador a
decisão de despedimento, extinção do posto de trabalho ou inadaptação.

Tiago Mariz * | Artigo recebido em junho de 2019

O
formulário para obtenção ao trabalhador a decisão de despe- nica ao trabalhador a cessação de uma
de subsídio de desempre- dimento individual» (artigo 98.º- relação jurídica laboral que não seja
go pode ser utilizado como C). Acrescenta o artigo 98.º-E CPT despedimento; por exemplo: caduci-
comunicação escrita de decisão de que a «secretaria recusa o recebi- dade do contrato a termo e o trabalha-
despedimento para instruir uma mento do formulário indicando por dor pretende que seja declarada ilícita
ação de impugnação judicial da re- escrito o fundamento de rejeição a cessação do contrato por entender
gularidade e licitude do despedi- quando (…) c) não tenha sido junta que o contrato é sem termo; cessa-
mento (AIRLD)? a decisão de despedimento». ção de um contrato de prestação de
O Código de Processo de Trabalho A existência de um despedimento serviços que o trabalhador considera
(CPT) prevê, nos artigos 98.º-B a individual comunicado por escrito ser um contrato de trabalho; empre-
-P, a AIRLD. Trata-se de um pro- é um pressuposto da aplicabilidade gador considera que o contrato cessou
cesso especial urgente, que se apli- da AIRLD: não se pode discutir na por abandono e o trabalhador entende
ca no contexto descrito no artigo ação se houve ou não despedimen- que não abandonou as suas funções e
387.º do Código do Trabalho. to: este facto tem que ser inequí- que se está na presença de um despe-
Apenas se pode utilizar este pro- voco. Importa é que da comunica- dimento, ou denúncia do contrato no
cesso especial no caso de: tratar-se ção do empregador ao trabalhador período experimental, considerando
de despedimento individual; ser resulte a vontade de proceder ao o trabalhador que não se verificam os
comunicada por escrito ao traba- despedimento deste, mas não têm pressupostos daquela denúncia.
lhador a decisão de despedimen- que ser usadas nessa comunicação Ora, tem suscitado dúvidas a situa-
to, (por facto imputável ao tra- as expressões «despedimento» ou ção em que o trabalhador junta com
balhador), por extinção do posto «despedir». o formulário inicial desta ação o im-
de trabalho ou por inadaptação; e presso para obtenção do subsídio de
ser utilizado o formulário próprio Declaração de situação desemprego, assinado pelo empre-
(aprovado pela Portaria n.º 1 460- de desemprego gador e no qual consta, no motivo
C/2009, de 31 de Dezembro). Im- Não são abrangidas pela AIRLD as si- da cessação do contrato de traba-
perativo é que «seja comunicada tuações em que o empregador comu- lho, assinalada com um X, a men-

JULHO 2019 37
COLABORAÇÃO ISCAC

ção a uma das seguintes causas de internet, com a autorização do tra- por si só, na AIRLD.
cessação do contrato de trabalho: balhador (conforme prevê o n.º 2, Entendemos ser esta posição mais
«justa causa por facto imputável do art.º 73.º). consentânea com a flexibilidade
ao trabalhador», «despedimento Uma opinião considera que, tendo que os tribunais superiores têm
por extinção de posto de trabalho» aquela declaração um fim especí- usado na interpretação da exigên-
e «despedimento por inadapta- fico, relativo à obtenção do sub- cia deste requisito formal.
ção». Poderá esse documento ser sídio de desemprego, distinto do Por exemplo, no acórdão do
uma «comunicação escrita da de- que é próprio da «comunicação de TRL de 19-04-2017, no proc. n.º
cisão de despedimento», prevista despedimento» dirigida pelo em- 32017/16.8T8LSB.L1-4, pode ler-
no art.º 98.º-C, n.º 1, CPT? pregador ao trabalhador, que re- -se: «É certo que a empregadora,
Tal "Declaração de situação de de- presenta a transmissão de uma de- em tal escrito, não utiliza a pala-
semprego" está prevista no art.º claração de vontade de fazer cessar vra “despedimento”, mas o certo
43.º do Decreto-Lei n.º 220/2006, o contrato de trabalho, não pode é que o documento em causa in-
de 3/11, (que estabelece o regi- ser utilizada para instruir a AIRLD. corpora uma declaração de ces-
me jurídico de proteção social da Nesse raciocínio, aquela declaração sação do contrato de trabalho por
eventualidade de desemprego dos não é «comunicação escrita da de- extinção do posto de trabalho, que
trabalhadores por conta de ou- cisão de despedimento» pelo que é o mesmo que dizer um despe-
trem) e deve ser emitido e entre- a secretaria judicial deve recusar o dimento por extinção do posto de
gue ao trabalhador pela entidade formulário, conforme impõe o art.º trabalho.»
empregadora para o trabalhador 98.º-E CPT.
o apresentar na Segurança Social Não é a nossa opinião. Do texto do Requerimento do subsídio
quando requerer o subsídio de de- modelo de declaração previsto no de desemprego
semprego (art.º 73.º, n.º1, daquele Decreto-Lei n.º 220/2006, de 3/11, O acórdão do TRP de 5-1-2015,
diploma). O mesmo documento resulta a obrigação de constar a proc. n.º 553/14, reforça que um
pode ser entregue pelo emprega- expressão da vontade de despedir, documento tem o «teor de co-
dor à Segurança Social, através da pelo que deve poder ser utilizada, municação» ainda que não utilize

38 CONTABILISTA 232
COLABORAÇÃO ISCAC

o termo despedimento e, ainda o


TRP, afirma, no acórdão de 22-
10-2012, Proc. n.º 1207/11, que a
comunicação escrita de despedi- Não são abrangidas pela AIRLD as situações em que o
mento «não tem que ser o escrito empregador comunica ao trabalhador a cessação de uma
da decisão final do respetivo pro-
cesso devidamente tramitado.» relação jurídica laboral que não seja despedimento; por
A questão que se coloca é, pois, a
exemplo: caducidade do contrato a termo (...).
de saber se o formulário destinado
a pedir o subsídio de desemprego,
quando a) devidamente preenchi-
do pela entidade empregadora; b)
por esta assinado e c) por esta en-
tregue ao trabalhador ou enviada
por internet para segurança social desemprego» pode permitir ins- porta a última remuneração. E,
reveste as características de «co- truir o formulário da AIRLD. nos termos do n.º 2 desse artigo,
municação da decisão de despedi- Não se oponha a este argumen- «o empregador pode, mediante
mento», de acordo com a alínea c) to que o caráter lacónico de uma autorização do beneficiário, apre-
do n.º 1, do artigo 98.º-E. «declaração» consubstanciada no sentar online no sítio da Internet
Na verdade, das normas do CPT preenchimento de uma quadrí- da segurança social a declaração
aplicáveis resulta que a «decisão cula virá a impedir o empregador com a informação prevista no nú-
de despedimento» que tem que de, em seguida, no seu articulado, mero anterior, comprovativa da
acompanhar o requerimento da desenvolver a motivação do des- situação de desemprego, apresen-
AIRLD tem que ser «escrita» e pedimento, carreando os «factos e tando desde logo ao beneficiário
tem que ser «comunicada» ao tra- fundamentos constantes da deci- o respetivo comprovativo». Da
balhador (98.º-C, n.º 1, primeira são de despedimento comunicada conjugação destas normas resul-
frase). ao trabalhador.» ta que, normalmente, o próprio
Ora, pensamos que a «declaração Parece-nos que os conceitos em requerimento é instruído com a
de situação de desemprego» apre- causa (justa causa por facto impu- declaração de desemprego emitida
sentada à Segurança Social tem as tável ao trabalhador, inadaptação pela entidade empregadora; mas,
características necessárias para, e extinção de posto de trabalho) se assim não for, pode esta enviar
só por si, instruir a AIRLD nos ter- são fundamentos, devidamente essa declaração diretamente para
mos previstos nos artigos 98.º - C sedimentados na lei, na doutrina e a segurança social.
e seguintes, CPT. Porquanto, se na prática laboral para permitirem Em conclusão: entendemos que o
bem observarmos a composição compreender bem o fundamento formulário da AIRLD não deve ser
gráfica dessa declaração [Mod. RP do despedimento. Também não se rejeitado se instruído apenas com
5044/2018 – DGSS] estão previstas pode perder de vista que, nos seus o requerimento de subsídio de
as quadrículas para as opções que articulados, o empregador junta desemprego, devidamente preen-
permitem o desencadear da AIRLD igualmente toda a documentação chido e assinado pela entidade
de acordo com os artigos 98.º - C necessária a essa fundamentação empregadora. Este entendimento
e seguintes: justa causa por facto (designadamente o processo dis- protege muitos trabalhadores que
imputável ao trabalhador, despe- ciplinar, se for o caso). obtêm esta declaração da entida-
dimento por extinção de posto de Acresce que, nos termos do ar- de empregadora e nada mais, pelo
trabalho e despedimento por ina- tigo 73.º, n.º1, Decreto-Lei n.º que ficariam obrigados a recorrer
daptação. Obviamente que apenas 220/2006, o requerimento de sub- à ação comum em situações que,
quando uma destas quadrículas sídio de desemprego é instruído afinal, se enquadram na previsão
esteja preenchida, ou seja, quando com informação do empregador normativa da AIRLD. 
seja um destes o motivo do des- comprovativa da situação de de-
pedimento é que a «declaração de semprego e da data a que se re- *Professor do ISCAC

JULHO 2019 39
COLABORAÇÃO ISCAP

O conceito de rating
É um termo muito em voga no universo económico e financeiro. Os objetivos e os critérios
quantitativos e qualitativos de análise são aqui revistos.

Por Eduardo Sá e Silva* | Artigo recebido em junho de 2019

O
s sistemas tradicionais do ting visavam classificar uma emis- que terá em situação de crise con-
risco de crédito podem são específica, caso de obrigações juntural. Assim, os dois aspetos
classificar-se em dois sis- ou outros títulos da dívida, numa fundamentais são:
temas: scoring (pontuação) e rating escala de notação de risco, pelo •Antecipação dos fluxos de cai-
(notação). que refletiam um juízo de valor xa operacionais (operational cash
Na prática existe uma certa confu- sobre a capacidade de pagamento flow);
são entre os dois termos. Enquanto atempado do serviço de dívida da •Capacidade de pagar juros e ca-
rating significa avaliar, scoring sig- operação em causa. Deste modo, o pital nas datas contratualizadas.
nifica anotar, somar pontos. Assim, sistema de rating tinha por objetivo O rating é uma atividade que se tem
ambos são sistemas de classificação exclusivo informar sobre a proba- vindo a especializar por setor de
de crédito, mas o scoring é um sis- bilidade do emissor pagar o capital atividade. Interessa assim distin-
tema mecanicista de pontuação. e os juros. Assim, dois títulos de guir os Estados, os bancos, e em-
Enquanto o rating é um sistema de dívida do mesmo emissor podiam presas não financeiras.
avaliação e, por isso mesmo, ape- oferecer riscos distintos, depen- Deste modo, a função de um rating
sar de ter rácios na sua análise, in- dendo das caraterísticas intrínse- é a de emitir uma opinião sobre a
clui outros fatores, pelo que a clas- cas de cada operação (por exemplo, capacidade de um devedor pagar as
sificação de rating tem diversos a maturidade e as garantias serem suas dívidas. Como corolário, um
julgamentos qualitativos, nomeada- diferentes). Na prática, porém, os determinado rating é também uma
mente, quanto à evolução futura da subscritores confundiam as opera- opinião sobre a probabilidade do
operação ou entidade. Assim pode ções com a entidade que os emitia. devedor entrar em incumprimen-
afirmar-se que os ratings atribuídos Tendo em consideração este facto, to. Assim, os credores dispõem de
são uma opinião sobre a capacida- as agências de rating passaram a uma avaliação da qualidade do de-
de e vontade de uma empresa hon- classificar as entidades indepen- vedor no momento de lhe empres-
rar, atempadamente e na íntegra, os dentemente das caraterísticas de tar dinheiro, pois o nível de risco é
compromissos financeiros sujeitos a cada operação. importante para definir a taxa de
rating e indicam a probabilidade de juro exigida. Devedores com piores
incumprimento (probability of default Objetivo do processo de rating ratings – mais arriscados – têm que
(PD)) dos mesmos. No nosso enten- O objetivo do processo de rating pagar taxas de juro mais elevadas;
dimento, o sistema de rating é mais é avaliar a capacidade da entida- enquanto devedores com melhores
abrangente que o sistema de scoring de em gerar meios financeiros nos ratings – menos arriscados – fi-
e, inclusive, pode incluir este. Deste prazos devidos. A análise centra-se nanciam-se a taxas mais baixas.
modo, não são incompatíveis e com- nos fluxos de caixa operacionais do O rating ou notação do risco de
plementam-se. emissor em relação ao serviço de crédito é uma medida estatística
Originalmente, os sistemas de ra- dívida e na margem de segurança da probabilidade de ocorrência de

40 CONTABILISTA 232
COLABORAÇÃO ISCAP

factos não abonatórios para a em- de análise de risco de crédito que rios qualitativos, mas o contrário
presa e respetivos credores, pois contribuem como inputs para o ra- também se verifica.
impossibilitam o cumprimento das ting das instituições bancárias são De salientar que, os critérios qua-
suas obrigações financeiras. O ra- divididos em dois grandes grupos: litativos são bastante subjetivos,
ting é uma opinião ou mesmo um - Critérios quantitativos que tendo assim um elevado grau de
juízo de valor sobre a capacidade são, por norma, comuns a todas confidencialidade e uma certa de-
de a empresa assumir os seus com- as instituições e baseiam-se em pendência do analista de crédito
promissos financeiros. Constitui, indicadores e rácios de análise que os analisa e da política adotada
pois, mais um elemento de análise económica e financeira das em- por cada instituição, facto que di-
fundamental, por forma a tomar presas clientes; ficulta de uma certa forma a reali-
decisões de investimento acerta- - Critérios qualitativos, ao con- zação de um estudo com atributos
das. trário dos critérios quantitativos, necessários e resultados significa-
Pode dizer-se que o rating é uma me- estes apresentam uma certa co- tivos sobre os mesmos.
todologia de análise de crédito que notação de volatilidade tanto em Já os critérios quantitativos são,
avalia uma série de fatores, tendo termos de definição como em por norma, mais genéricos e ba-
em conta atributos e qualificações termos de grau de importância. seiam-se em indicadores e rácios
predefinidas, atribuindo uma nota Portanto, há que salientar que as de análise económica e financeira
a cada um desses fatores e uma nota técnicas de análise qualitativa e das empresas clientes.
final ao conjunto destes. Com base quantitativa apresentam um certo Algumas instituições podem dar
nesta nota, o risco é classificado (ra- grau de importância na análise de mais importância a este ou aquele
ting), podendo assim a instituição crédito e que para a análise de ra- indicador, mas as interpretações
determinar o valor a conceder ao so- ting a sua importância depende de dadas a cada um deles tem, regra
licitante. instituição para instituição. Algu- geral, um consenso mais alarga-
mas instituições na sua análise de do.
Critérios de análise rating dão mais importância a cri- *Docente
Conforme já referido, os critérios térios quantitativos do que a crité- Investigador CEOS/ISCAP

JULHO 2019 41
COLABORAÇÃO ISCAP

Temos:

Análise qualidade
da gestão; setor de
Propósito do atividade e envolvência
crédito Projeção das
demonstrações
financeiras e fluxos de
caixa (cash flows)

Qualitativa
Fontes de
reembolso Análise da Elaboração Notação Estrutura
empresa de previsões (rating) do e preço do
cliente crédito
Quantitativa

Analise histórica
das demonstrações
financeiras

O que conduz ao seguinte processo de crédito:

PROCESSO DE CRÉTIDO

Elaboração
Pedido do Análise do Proposta de do serviço da
cliente risco de crédito dívida, em
crédito conformidade
com a
capacidade
Análise futura ao
Análise
qualitativa cliente.
quantitativa
Constituição do Negociação
dossier de crédito

Scoring ou rating
do cliente
Condições:
•Limites
•Montante
•Prazo
•Preço
•Garantias

42 CONTABILISTA 232
GESTÃO

Responsabilidade social
das empresas
Face à realidade, é insuficiente a tese que privilegia a ideia de que o mercado se encarrega
de eliminar as empresas que atuam indevidamente e de premiar aquelas que operam de
acordo com elevados padrões morais.

Por Tânia Alves de Jesus*, José Silva*, Manuela Duarte* e Manuela Sarmento** | Artigo recebido em abril de 2019

A
atitude socialmente res- tamentos egocêntricos através da in- Conceito de responsabilidade social
ponsável das empresas re- tegração nas empresas de preocupa- das empresas
vela a sua consciência so- ções e responsabilidades sociais. Tal O conceito de RSE foi, com a publi-
cial assente na sua compreensão da atitude manifesta-se na procura das cação do livro intitulado de Social
importância dos problemas sociais empresas pela sua sustentabilidade, responsabilities of the businessman,
e na intenção da organização em tendo em vista, não só a sua pró- de Howard Bowen, em 1953, ini-
contribuir positivamente para a pria existência e o seu pleno sucesso cialmente associado às obrigações
transformação social da sociedade. empresarial e social, mas também e às ações voluntárias a assumir por
Assim, os comportamentos empre- contribuir para o desenvolvimento parte dos empresários, adaptadas,
sariais são questionados e avaliados sustentado. Na literatura, verifica- para além dos objetivos económicos e
quanto à sua adequação em termos -se que a RSE apresenta um grande legais, aos objetivos e aos valores na
das responsabilidades das empresas conjunto de teorias e abordagens sociedade (Carroll, 1999). De acor-
perante a sociedade. A responsa- complexas, por vezes contraditórias do com o qual se defende que deverá
bilidade social das empresas (RSE) e pouco claras, existindo uma enor- haver um aumento de RSE quando as
vê-se assim dirigida pelos modelos me controvérsia em torno da ética empresas aumentam o seu poder na
desenvolvidos por indivíduos que empresarial e da RSE. Por um lado, sociedade. Desde então tem-se de-
integram as empresas, represen- a ética empresarial está diretamente senvolvido um intenso debate sobre
tando a relação que estes preten- relacionada com o comportamen- a RSE. Este centra-se essencialmente
dem que a empresa desenvolva com to ético e socialmente responsável nos fins que devem orientar as ativi-
a sociedade. Será que o mercado se dos empregados. Por outro lado, é dades das empresas, considerando a
encarrega de eliminar as empre- um desafio tornar a RSE como parte RSE como um desenvolvimento par-
sas que atuam indevidamente e de integrante da cultura empresarial e ticular da responsabilidade social que
premiar as empresas que atuam de do modelo estratégico da empresa, abrange tanto empresas como orga-
acordo com elevados padrões mo- passando essencialmente pela ges- nizações, instituições e indivíduos
rais? tão ética no relacionamento entre as (Rodrigues e Duarte, 2011).
A responsabilidade social das em- várias partes interessadas e a gestão Entretanto, surgiram noções de RSE,
presas (RSE) parece corresponder a socialmente responsável na promo- também designadas de visão liberal,
uma gestão libertadora de compor- ção do bem-estar social. que defendem que esta deve ter como

JULHO 2019 43
GESTÃO

objetivo exclusivo o lucro e que este estará associado à empresa que, para modelo não impediu que lhe fos-
possibilitará às empresas contribuir além de cumprir com as suas respon- sem apontadas diversas fragilidades
de forma adequada para a socieda- sabilidades económicas fundamen- (Almeida, 2010; Rego et al., 2007).
de com a riqueza gerada e através do tais e legais, também cumpre com Destacam-se o cumprimento das
pagamento dos respetivos impostos. os seus deveres éticos e realiza outras responsabilidades filantrópicas que
De acordo com esta perspetiva a RSE atividades filantrópicas. poderão colidir com as responsabi-
esgota-se no objetivo único de gerar A configuração piramidal do mode- lidades económicas, a filantropia ser
o lucro e enriquecer os seus proprie- lo permite destacar as responsabi- apontada como uma manifestação do
tários. Destaca-se o célebre artigo lidades económicas como base que exercício da responsabilidade ética e
de Friedemann de 1970 onde o autor suporta todas as outras que, apesar o sentido ascendente e unidirecional
considera que a única responsabili- de terem importância sequencial, do cumprimento das responsabili-
dade social da empresa é para com deverão ser cumpridas simultanea- dades poder contrariar o princípio
os seus proprietários ou acionistas e mente. Por um lado, as responsabili- da equanimidade subjacente à res-
traduz-se na maximização do lucro. dades éticas e filantrópicas remetem ponsabilidade social. Tendo em vista
Uma das definições mais populares na para comportamentos que, apesar colmatar algumas das fragilidades do
literatura norte-americana sobre RSE de não serem exigidos por lei, são modelo piramidal foi posteriormente
foi a proposta apresentada por Carroll socialmente desejáveis e eticamen- proposto um modelo composto pe-
(1979) englobando responsabilidades te justificados indo de encontro das los três domínios económico, legal
e expetativas sociais, económicas, expetativas criadas na sociedade e ético com várias orientações em-
legais, éticas e discricionárias da so- com a atuação da empresa. Por outro presariais. Apesar de questionável,
ciedade inerentes ao desempenho lado, para além de considerar que as de acordo com o modelo dos três
social da empresa. Posteriormente, responsabilidades económicas fa- domínios existem fronteiras nítidas
o modelo desenvolve-se para que as zem parte integrante da RSE, apon- que permitem classificar uma de-
quatro componentes sejam inseridas ta para o lucro como uma condição cisão como puramente económica,
numa pirâmide e denominando a não egoísta do capitalismo, sem o legal ou ética, existindo no entanto
responsabilidade discricionária de fi- qual as restantes responsabilidades sete possibilidades de classificação. O
lantrópica. De acordo com a perspe- não podem ser cumpridas. Contu- melhor desempenho ocorrerá quan-
tiva de Carroll o melhor desempenho do, a importância reconhecida do do a empresa consegue conciliar de

44 CONTABILISTA 232
GESTÃO

forma ideal os três domínios, o que


nem sempre se verifica.
Outras definições de RSE, como a A atitude socialmente responsável das empresas revela
da Comissão Europeia (CE) Europeia a sua consciência social assente na sua compreensão
(COM, 2001), integram preocupações
ambientais e sociais na interação da e na importância dos problemas sociais e na intenção
empresa com outras partes interes-
da organização em contribuir positivamente
sadas, numa base voluntária. Impli-
ca que se considere nas estratégias para a transformação social da sociedade.
empresariais as expetativas de todas
as partes interessadas assim como
um princípio de inovação e melho- na, à gestão dos riscos negativos para me controvérsia em torno da ética e
ria contínua. Outra área associada à o ambiente e para a comunidade, à da RSE. Destacam-se as abordagens:
RSE é a sustentabilidade e o desen- gestão ética no relacionamento com a abordagem da RSE em gerar lucro,
volvimento sustentável, assente em as várias partes interessadas e gestão na sua visão clássica ou a que consi-
preocupações ambientais, económi- socialmente responsável na promo- dera os interesses e necessidades das
cas e sociais. Destaca-se a conceção ção do bem-estar social. Referindo- várias partes interessadas, e a abor-
de RSE proposta pela World Business -se a ética empresarial ao estudo dos dagem que se relaciona com a missão
Council for Sustainable Development comportamentos e das decisões em- moral das empresas como forma de
(WBCSD) como sendo um compro- presariais com impacto no bem-estar levar a refletir sobre a empresa en-
misso empresarial contínuo para um individual e social e sendo a RSE uma quanto entidade moral ou ética, in-
desenvolvimento económico sus- atitude que se reflete na prática de serindo-se na tese da moral mínima
tentável, melhorando a qualidade de uma gestão socialmente responsável ou do dever moral de contribuir para
vida dos seus colaboradores, das fa- e na adoção de um modelo de gestão o bem da sociedade.
mílias, da comunidade onde está in- social, verifica-se assim o seu inter-
serida e da sociedade em geral. Deste relacionamento onde a RSE constitui Responsabilidade social da empresa
modo, o desenvolvimento sustentá- uma base do campo da ética empre- em gerar lucro para o proprietário
vel visa a satisfação das necessidades sarial. Uma das abordagens considera que a
humanas, atuais e as das gerações RSE das empresas passa por gerar lu-
futuras, em harmonia e para que se Empresa ética cro. Considerando a importância das
garanta a conservação do meio am- e socialmente responsável
 empresas serem lucrativas, desta-
biente. Defende-se uma estratégia de A atitude socialmente responsável cam-se duas visões da função social
RSE a longo prazo baseada em inte- das empresas revela a sua consciên- do lucro: a visão que considera que a
gridade e valores sólidos como forma cia social assente na sua compreen- RSE das empresas é gerar lucro para
de trazer benefícios para as empresas são e na importância dos problemas o acionista ou proprietário; e a visão
e contribuir para o bem-estar da so- sociais e na intenção da organização que considera que a empresa deverá
ciedade. Outros autores também re- em contribuir positivamente para a gerar lucro mas agindo em função
ferem que a RSE e a sustentabilidade transformação social da sociedade. dos interesses das várias partes inte-
empresarial deverá compreender ati- Tal atitude manifesta-se na procura ressadas.
vidades empresariais que satisfaçam das empresas pela sua sustentabilida- Quanto à função social de gerar lu-
o bem-estar das outras partes inte- de, tendo em vista, não só a sua pró- cro para o acionista, pode verificar-
ressadas (Marrewijk, 2003; Sprink- pria existência e o seu pleno sucesso -se esta visão na doutrina ética de
le e Maines, 2010). Assim, um dos empresarial e social, mas também Friedman (1970), uma das aborda-
maiores desafios da RSE é torná-la contribuir para o desenvolvimento gens clássicas que tem marcado o de-
parte integrante da cultura da em- sustentado. Neste contexto, verifi- bate em torno da RSE, onde um dos
presa e do seu modelo estratégico. ca-se que a RSE apresenta um gran- princípios é o de que os gestores têm
Podem verificar-se vários níveis de de conjunto de teorias e abordagens o dever ético de atuar em prol dos in-
atuação das empresas que vão desde complexas, por vezes contraditórias teresses dos proprietários.
o exercício da RSE interna e exter- e pouco claras, existindo uma enor- De acordo com esta perspetiva con-

JULHO 2019 45
GESTÃO

sidera-se que a RSE da empresa resu- que ações sociais e de responsabilida- para resolver problemas sociais. De
me-se ao aumento dos lucros. Enfa- de social deverão ser adotadas pelos forma contrária, ainda nesta visão e
tiza-se, deste modo, a RSE do pondo gestores se estas forem relevantes na de acordo com Samuel (2003), sa-
de vista económico e legal através do geração de lucro, sendo as restantes lienta-se o argumento da teoria neo-
respeito pelas regras, não obstan- ações prejudiciais às liberdades con- clássica que defende que ao maximi-
te ser pouco ética. Verifica-se assim tratual, económica e política. Na lite- zar a riqueza dos proprietários se está
que a relação da RSE com a ética pode ratura verifica-se que a visão clássica a concorrer para o bem-estar da so-
coincidir no essencial com a ética da RSE tende a ser considerada como ciedade em geral, estando as relações
empresarial, na sua parte aplicada. fundamentalista, defendendo-se que com as restantes partes interessadas
De acordo com Friedman (1970), o o lucro não deverá ser obtido a qual- dependentes do exclusivo interesse
gestor deverá agir de acordo com a lei quer preço, não sendo incompatível do capital.
e costumes éticos perante os proprie- com a defesa do meio ambiente e que
tários ou acionistas, não lhe compe- as empresas têm um elevado poder Responsabilidade social da empresa:
tindo a gestão dos lucros da empresa social que deverá ser recompensado agir em função dos stakeholders
para fins sociais e de solidariedade com responsabilidade (Davis, 1975). Quanto à visão que considera que a
social. Analisando noutra perspetiva, Os defensores da visão clássica argu- empresa deverá ser lucrativa agindo
se os valores despendidos em ações mentam que precisamente pelo facto em função dos interesses das várias
socialmente responsáveis contri- das empresas terem mais poder se- partes interessadas, defende-se tam-
buírem para aumentar os preços dos ria perigoso abandonarem a filosofia bém que o lucro deverá constituir a
produtos ou diminuir os salários dos de mercado, sustentada no modelo remuneração dos capitais investidos
empregados estes serão, dos clientes da concorrência perfeita, e envere- e permitir avaliar a eficiência e efi-
ou dos empregados, respetivamente. darem por objetivos sociais difusos. cácia da empresa perante as partes
Por outro lado, de acordo com esta Por outro lado, poderia enfraquecer interessadas. Contudo, apesar do
abordagem considera-se que as em- a eficácia da atuação de outras insti- lucro ser também uma forma de des-
presas não têm responsabilidade e tuições que estão mais vocacionadas centralizar as responsabilidades, de

46 CONTABILISTA 232
GESTÃO

sustentar e criar os empregos futuros,


esta visão não defende que a finalida-
de da empresa é enriquecer os seus
acionistas através da procura mono- Se uma empresa pretender ser lucrativa e atuar sem respeitar
polizada do lucro. Questiona-se, por certos padrões morais mínimos, será considerada irresponsável
um lado, sobre qual o principal dever
dos gestores, se zelar pelos lucros pelos eventos dentro da sua zona de poder de intervenção e
para os acionistas ou proprietários por não ter atuado de forma a prevenir a ocorrência de danos.
ou se deverão também considerar os
interesses da comunidade em geral
e das outras partes interessadas. Por
outro lado, se será ético que os gesto- considerarem que estas não contri- jetiva que a medição do seu desen-
res utilizem recursos da empresa para buem para os desejados resultados volvimento social ou ambiental, dado
atividades de responsabilidade social económicos (Garriga e Melé, 2004). que estas atividades poderão contri-
e se estes têm legitimidade para to- Por outro lado, e de acordo com Rego buir negativamente para os resulta-
mar esta decisão. et al. (2007) outros autores conside- dos da empresa e mesmo assim con-
Tendo suporte na teoria das par- ram que teorias e princípios éticos tribuir para o progresso ambiental e
tes interessadas, a função social do devem ser seguidos pelas empresas social. Consequentemente, torna-se
lucro nas empresas visa proteger para fazerem o que é correto para o cada vez mais necessário levar as
os interesses da organização e dos bem da sociedade. Neste contexto, empresas a apresentarem relatórios
seus acionistas assumindo-se res- e de acordo com a teoria normati- de sustentabilidade e a procurarem
ponsabilidades sociais em função va das partes interessadas, admitem a certificação ética e de responsabi-
das necessidades e prioridades das que as partes interessadas têm inte- lidade social.
restantes partes interessadas e ava- resses legítimos na ação empresarial
liando as consequências da ativida- aos quais a empresa deverá responder Responsabilidade social da empresa
de da empresa sobre o plano social, de acordo com princípios de justiça, na missão moral
fazendo parte da missão da empresa benefício mútuo e cooperação, inde- Quanto à missão moral das empre-
contribuir para o bem-estar da so- pendentemente de daí provir para os sas, estas poderão inserir-se na tese
ciedade em geral. Suportando-se acionistas ou proprietários algum be- da moral mínima ou assumir o dever
num paradigma em que a empresa é nefício. Sendo, no entanto, um pro- moral de contribuir para o bem da
considerada como parte integrante cesso difícil para as empresas, desta- sociedade, podendo ou não o cum-
de uma comunidade perante a qual ca-se a solução apresentada por Felix primento da lei e o mercado serem
deverá assumir responsabilidades, (2011) que aponta para as soluções suficientes para remover ou evitar
uma empresa eticamente respon- de segunda ordem e não certamente nas empresas práticas eticamente
sável terá que ir para além do mero as ideais mas que melhor equilibram questionáveis. De acordo com John
cumprimento da lei e agir de acordo equidade, eficiência, rendibilidade e Simon, Charles Powers e Jon Gun-
com as expetativas das várias partes harmonia interna, recorrendo a có- nemann, in Rego et al. (2007), as em-
interessadas. Contudo, os motivos digos de conduta para as organiza- presas devem aderir a certos padrões
que levam as empresas a assumir ções. Solução esta só possível através morais considerados mínimos.
responsabilidades sociais perante as da ligação da empresa com a ética e Nestes casos, se uma empresa pre-
várias partes interessadas divergem. de uma visão da RSE assente no en- tender ser lucrativa e atuar sem res-
Alguns autores consideram uma ló- tendimento dos conceitos de interde- peitar certos padrões morais míni-
gica instrumental, ou seja, conside- pendência e impermanência. mos, será considerada irresponsável
ram que a RSE pode melhorar o de- Analisando as duas visões apre- pelos eventos dentro da sua zona de
sempenho económico e financeiro sentadas da função social do lucro, poder de intervenção e por não ter
da empresa, logo torna-se lucrativa alerta-se para o facto da medição atuado de forma a prevenir a ocor-
para os proprietários, deixando-se dos lucros de uma empresa ser uma rência de danos. Deste modo, in-
por vezes de se praticar ações etica- medida, apesar dos vários métodos dependentemente do âmbito legal
mente corretas quando os gestores contabilísticos alternativos, mais ob- da RSE, as empresas veem-se assim

JULHO 2019 47
GESTÃO

com imposições negativas de não vidual e coletiva do homem é cultivar tos como benefícios proporcionados
causar prejuízo. Assim, de acordo a sabedoria, a sua tese é de que a mis- pela comunidade que deverão ori-
com esta perspetiva, as empresas são mais importante das empresas ginar por parte das empresas gra-
têm o dever de não causar prejuízo passa por estas exercerem toda a sua tidão devendo estas atuar de forma
podendo, contudo, ter em vista o lu- criatividade e iniciativa para concre- a resolver os problemas sociais. Por
cro desde que com isso não causem tizarem ocasiões de realização hu- outro lado, e como consequência,
danos dentro das suas zonas de poder mana tendo em vista tornar o mundo deve considerar-se que as empresas
de intervenção para a qual estão ca- melhor. Para tal, os gestores deve- devem gratidão à comunidade pelos
pacitadas e cujos eventos podem ser rão, através de discernimento moral, benefícios e poder que obtiveram e
responsabilizadas. avaliar e optar pelos bens e serviços têm deveres de cidadania que deve-
No que se refere ao dever moral de com valor moral capazes de contri- rão assumir, assentes na premissa de
contribuir para melhorar o mundo buir este objetivo. Rego et al. (2007) que um grande poder é um dom que
ultrapassa-se, na prática, a tese da salientam que as empresas detêm deverá ser utilizado para bons fins.
moral mínima, ou seja, para além de poder e competências consideráveis Deste modo, muitas empresas, como
evitarem os danos as empresas deve- que deverão utilizar para bons fins membros institucionais da socieda-
rão fazer o bem, mesmo que tal não e de forma a beneficiar a sociedade. de, têm deveres de cidadania e ultra-
seja exigido legalmente. Por um lado, as competências que as passam a tese da moral mínima as-
Mulligan (1993) in Rego et al. (2007) empresas têm só as possuem porque sente na premissa de que as empresas
refere que o poder que as empresas as receberam da comunidade através estão obrigadas de prevenir os danos,
detêm foi-lhes concedido pela so- dos sistemas existentes, como por optando por obrigações morais afir-
ciedade, pelo que elas têm o dever exemplo o sistema de educação, legal mativas que correspondem ao dever
de gratidão de retribuir esse poder, e outros serviços que esta proporcio- de fazer tudo para promover o bem.
devendo estas agir de acordo com nou. Quanto à existência de legislação
um plano de responsabilidade social Assim, a educação dos trabalhado- sobre RSE, considera-se que nem
e integrá-lo na sua visão estratégia. res, o sistema legal, as instituições sempre o seu cumprimento é causa
Assumindo que a missão moral, indi- de saúde e outros serviços são vis- suficiente para garantir o adequado

48 CONTABILISTA 232
GESTÃO

comportamento organizacional.
Por vezes a lei, sendo criada por ho- A atitude socialmente responsável das empresas revela
mens, pode estar a refletir interes- a sua consciência social assente na sua compreensão
ses da sociedade com valores mo-
rais menos valiosos em detrimento da importância dos problemas sociais e na intenção
de outros que seriam mais impor-
da organização em contribuir positivamente
tantes para a sociedade. Assim, as
empresas poderão agir e ser incen- para a transformação social da sociedade.
tivadas a atuar de acordo com a lei
mas de forma condenável do ponto terroga se as políticas de mercado Conclusão
de vista ético e de elevados padrões adotadas serão as mais corretas, Torna-se essencial relembrar que as
morais. De acordo com Mulligan dado que provavelmente metade empresas são geridas por ser huma-
(1993) in Rego et al. (2007), mesmo da população mundial continua a nos e que estas serão o reflexo dos
que não existam imposições legais sofrer por não ter asseguradas as valores humanos básicos, conside-
ou restrições, as empresas deverão necessidades básicas de alimento, rados no mercado e nas empresas,
abandonar atividades que não se- abrigo, cuidados médicos e educa- à medida que individualmente estes
jam moralmente valiosas, mesmo ção, concluindo que a riqueza dos se desenvolvem. A atitude socialmen-
que para tal se ponham em causa ricos é mantida à custa dos pobres, te responsável das empresas revela
os seus lucros. especialmente através da dívida a sua consciência social assente na
Quanto à hipótese de considerar internacional. sua compreensão da importância dos
que o mercado é suficiente para Num contexto em que atualmente problemas sociais e na intenção da
remover ou evitar nas empresas os media têm uma influência ini- organização em contribuir positiva-
práticas eticamente questioná- maginável sobre as pessoas, tor- mente para a transformação social da
veis e que este acaba por exercer na-se difícil dizer se a legislação sociedade. Assim, do ponto de vista
uma função complementar à lei é suficiente para influenciar com- da RSE e da sua atividade, na realidade
na remoção de práticas eticamente portamentos mais éticos no mer- atual, considera-se insuficiente a tese
questionáveis poderá ser discutí- cado tendo em vista conseguir a que privilegia que o mercado se en-
vel. Sendo que o mercado procu- paz genuína e a harmonia. Lama carrega de eliminar as empresas que
ra satisfazer as necessidades dos (2000) aponta que talvez a melhor atuam indevidamente e de premiar as
consumidores não há garantia que maneira, tendo em conta que os empresas que atuam de acordo com
este esteja a operar cultivando uma assuntos de ética só são realmen- elevados padrões morais. Verificam-
responsabilidade social. De acordo te efetivos quando vêm do interior, -se a insuficiência da lei e do mercado
com Lama (2000) esta deverá as- passará pela educação das crianças como eficazes substitutos dos com-
sentar num sentido de responsabi- para estarem conscientes das suas portamentos não éticos nas ativida-
lidade universal que é o da dimen- responsabilidades quando con- des das empresas que pressupõem e
são universal de todos os nossos tactarem com os media. De forma remetem para uma disciplina ética de
atos e da igualdade de direitos dos semelhante, e tentando aplicar o caráter interior. Por outro lado, colo-
outros à felicidade e à ausência de mesmo raciocínio do autor aos vá- cam-se várias dificuldades e desafios
sofrimento para além do seu pró- rios intervenientes no mercado, se ao nível da definição dos limites de
prio grupo, mas sim do resto da todos despertarmos para a impor- responsabilidade moral das empresas
Humanidade. Para tal considera tância dos valores básicos, privile- e legitimidade da RSE definida pelos
que é necessário cultivar-se a to- giando uma educação mas com um seus gestores. 
lerância e o contentamento sem os sentimento de compaixão alarga-
quais o desejo de adquirir é impos- do, assente no desenvolvimento de *Docentes no ISCAL
sível de satisfazer, acabando por se um sentimento de equanimidade ** Docente na Universidade Lusíada
transformar em avidez, semente em relação aos outros, teremos to-
da inveja e da rivalidade agressiva dos um comportamento mais ético Bibliografia disponível em («A Ordem
e gerando uma cultura excessiva- quando contactarmos e interagir- –Publicações – Revista Contabilista –
mente materialista. O autor in- mos no mercado. Bibliografia»)

JULHO 2019 49
CONTENCIOSO TRIBUTÁRIO

Liquidação oficiosa no âmbito do


Código do Imposto sobre o Valor
Acrescentado
O cuidado que os sujeitos passivos de IVA devem ter no regular cumprimento das
obrigações declarativas, para evitar liquidações oficiosas, é o mote para este artigo.

Por Jesuíno Alcântara Martins * | Artigo recebido em julho de 2019

A
nomenclatura das garan- defesa dos interesses legalmente mal quer no domínio da verdade
tias impugnatórias idó- protegidos dos contribuintes tem de material, na estrita observância da
neas para tutela plena e ser desenhada, em geral, em função ordem jurídica tributária vigente.
efetiva dos direitos e interesses dos normativos da LGT e do CPPT, Daqui decorre uma relação obriga-
legalmente protegidos dos sujeitos no que toca à identificação do meio cional sinalagmática, perspetiva-
passivos da relação jurídica tribu- procedimental ou processual idó- da numa visão dualista assente no
tária e demais obrigados tributá- neo, prazos de ação, fundamentos, exercício de direitos e no cumpri-
rios está edificada nos domínios regras de competência e requisitos mento de deveres, norteada pelos
normativos da Lei Geral Tributá- ou pressupostos legais. princípios da cooperação, da pro-
ria (LGT) e do Código de Proce- porcionalidade e da justiça.
dimento e de Processo Tributário Ato tributário de liquidação Independentemente da cédu-
(CPPT). Sempre que o destinatário O principal ato que emerge da rela- la de tributação, o sujeito passivo
de um ato tributário ou de um ato ção jurídica tributária é o ato tribu- da relação jurídica tributária, em
administrativo em matéria tribu- tário de liquidação. É através deste função do seu enquadramento le-
tária considerar que é prejudicado ato tributário que a Autoridade gal, tem por obrigação principal o
ou lesado pela decisão de um órgão Tributária e Aduaneira (AT) con- dever de proceder ao pagamento
da administração tributária pode cretiza as suas atribuições, pros- da dívida tributária e de dar cabal
exercer o direito de impugnação segue o interesse público e realiza cumprimento às obrigações aces-
ou de recurso, com vista a garan- os fins do sistema fiscal com a ar- sórias a que está adstrito (art.º 31.º
tir a observância da legalidade e recadação das receitas decorrentes da LGT), beneficiando, generica-
dos demais princípios vigentes no da tributação dos contribuintes em mente, de uma presunção de ver-
ordenamento jurídico tributário. função da sua capacidade contri- dade e de boa-fé.
A ação de defesa pode ser exercida butiva, revelada através dos rendi- O exercício dos poderes tributá-
no plano administrativo, através mentos auferidos ou utilizados e da rios, com o propósito de acautelar
de recurso hierárquico para o mais titularidade de património. o interesse público, pode poten-
elevado superior hierárquico do au- A atividade tributária materializa- ciar a emergência de situações de
tor do ato tributário, ou no plano do da na sucessão de atos e de forma- dialética conflitual que podem não
processo judicial tributário, atra- lidades dirigidas à declaração de ser dirimidas no âmbito da colabo-
vés de ação impugnatória dirigida direitos tributários dos sujeitos da ração, participação e cooperação
ao juiz do tribunal tributário de 1.ª relação jurídica tributária tem de que vinculam, mutuamente, a Ad-
instância. A linha estruturante da se conformar, quer no plano for- ministração Tributária (art.º 59.º,

50 CONTABILISTA 232
CONTENCIOSO TRIBUTÁRIO

n.º 3 da LGT e art.º 45.º do CPPT), te relativa às garantias dos sujeitos de tributação, e que consubstancia
o sujeito passivo e os demais obri- passivos. A título de exemplo, re- uma medida de avaliação indire-
gados tributários. Quando, assim, fere-se o artigo 140.º do CIRS e o ta. A liquidação oficiosa resulta de
acontecer é fundamental que os artigo 97.º do CIVA. facto imputável ao sujeito passivo
contribuintes utilizem com ido- consubstanciado em ação de in-
neidade, rigor e exigência técnica Liquidação oficiosa cumprimento da obrigação decla-
os meios impugnatórios adequa- Uma das principais obrigações rativa. Todavia, a Administração
dos para fazer vingar os seus di- acessórias dos contribuintes con- Tributária está obrigada a notificar
reitos e interesses legalmente pro- siste na apresentação da declara- o contribuinte para este apresen-
tegidos. Para o efeito, é necessário ção de rendimentos ou da decla- tar a declaração em falta (cf. al.
ter presente que a LGT e o CPPT ração periódica de imposto. A falta b) do n.º 2 do artigo 60.º da LGT e
constituem o catálogo geral de ti- de apresentação desta declaração, n.º 3 do artigo 76.º do CIRS), bem
pificação e de especificação dos sem prejuízo da respetiva censura como a liquidação oficiosa exige a
meios de defesa a utilizar, quer no em sede contraordenacional, pode prévia participação do sujeito pas-
domínio das ações impugnatórias, conduzir a que a Administração sivo, podendo, a notificação para
quer no capítulo das garantis não Tributária tenha de, nos termos da o exercício deste direito ser feita
impugnatórias, com expressão no lei, produzir liquidações oficiosas conjuntamente com a notificação
procedimento tributário e no pro- (cf. artigo 88.º do CIVA, artigo 77.º, que vise a apresentação da decla-
cesso judicial tributário. Há que n.º 1, al. c) do CIRS e artigo 90.º, n.º ração em falta. A continuidade do
sublinhar que a LGT e o CPPT en- 1, al. b) do CIRC), independente- incumprimento conduzirá à reali-
cerram a estrutura geral do edifício mente de, originariamente, a com- zação da liquidação oficiosa.
garantístico tributário, o qual, sem petência para a liquidação do tri- A liquidação oficiosa tem de ser
prejuízo de no âmbito daqueles buto pertencer à AT ou ao próprio fundamentada e validamente noti-
diplomas acolher algumas especi- contribuinte. A liquidação oficiosa ficada ao sujeito passivo (cf. artigo
ficidades, exige a observância das é uma liquidação administrativa 77.º da LGT e artigo 36.º do CPPT).
regras especiais insertas nos respe- que obedece às regras específicas Em matéria de IRS e de IRC, se o
tivos códigos de tributação na par- estabelecidas no respetivo código contribuinte considerar que existe

JULHO 2019 51
CONTENCIOSO TRIBUTÁRIO

excesso de quantificação poderá Os sujeitos passivos de IVA devem ter um especial cuidado
lançar mãos aos meios impugnató- no cumprimento das obrigações declarativas, de modo
rios (reclamação graciosa, impug-
nação judicial ou tribunal arbitral) a obstar à realização de liquidações oficiosas e,
para formular a defesa dos seus
designadamente, não devem deixar a gestão dos seus
direitos e interesses legais. Porém,
em matéria de IVA é fundamen- interesses legais e patrimoniais para uma fase em que a defesa
tal ter presente que a liquidação
destes possa induzir a uma ação jurídica tendencialmente
oficiosa prevista no artigo 88.º do
CIVA impõe a observância de re- votada ao insucesso.
gras especiais em ordem à regula-
rização da situação tributária. negócios anual seja inferior a 650 ção cadastral ativa. A ausência de
No código do IVA estão previstos 000 euros. No regime mensal a de- consciência ou de perceção sobre
dois tipos de liquidação oficiosa. A claração periódica (DP) é apresen- esta realidade é suscetível de criar
liquidação oficiosa (LO) do artigo tada até ao dia 10 do segundo mês enormes e gravosos problemas no
88.º do CIVA aplicável aos contri- seguinte àquele a que respeitam as âmbito da situação tributária dos
buintes enquadrados regime nor- operações e no regime trimestral contribuintes com, eventuais, pre-
mal de tributação e a LO prevista a declaração periódica é apresen- juízos patrimoniais e financeiros
no artigo 89.º do CIVA aplicável tada até ao dia 15 do segundo mês para o interessado.
aos contribuintes enquadrados no seguinte ao trimestre do ano civil Quando um sujeito passivo enqua-
regime dos pequenos retalhistas a que respeitam as operações. Em drado no regime normal deixar
(art.º 60.º a 68.º do CIVA). Dada a relação a cada período de tributa- de realizar operações tributáveis
sua relevância vamos nos focalizar ção, o sujeito passivo tem de pro- (transmissões de bens, prestação
na LO do artigo 88.º do CIVA. ceder ao apuramento do imposto de serviços, etc.) duas hipóteses se
Não obstante a norma da alínea c) (art.º 27.º do CIVA) e em função lhe colocam:
do n.º 1 do artigo 29.º do CIVA es- do resultado (imposto a entregar - Fazer a cessação da atividade
tabelecer que os sujeitos passivos nos cofres do Estado ou crédito de económica (art.º 33.º do CIVA);
referidos na alínea a) do n.º 1 do imposto a favor do sujeito passivo) - Entregar a DP com a menção de
artigo 2.º devem enviar mensal- proceder à entrega da declaração que não foram realizadas opera-
mente uma declaração relativa às periódica e entregar o imposto de- ções tributáveis (n.º 2 do art.º 29.º
operações efetuadas no exercício vido ou, então, reportar o crédito do CIVA).
da sua atividade no decurso do se- para o período de tributação se- A obrigação de entregar a DP, nos
gundo mês precedente, com a in- guinte ou solicitar o reembolso, se termos do n.º 2 do artigo 29.º do
dicação do imposto devido ou do for caso disso (art.º 22.º do CIVA). CIVA, subsistirá até que o sujeito
crédito existente e dos elementos passivo decida efetuar a cessação
que serviram de base ao respetivo Apresentação da atividade ou, em alternativa, a
cálculo, há que realçar que no re- da declaração periódica Autoridade Tributária e Aduaneira,
gime normal do IVA existem dois Há que sublinhar que os sujeitos nos termos do n.º 2 do artigo 34.º
períodos de tributação: i) o men- passivos enquadrados no regime do CIVA, efetuar oficiosamente
sal, e ii) o trimestral. Em face dos normal têm sempre de proceder à a cessação de atividade do sujei-
normativos das alíneas a) e b) do entrega da declaração periódica, to passivo. O contribuinte só deve
n.º 1 do artigo 41.º do CIVA, estão ainda que no respetivo período de deixar de apresentar a DP, com
enquadrados no regime normal de tributação (mensal ou trimestral) menção de inexistência de qual-
periodicidade mensal os sujeitos não tenham realizado qualquer quer operação tributável, quando
passivos cujo volume de negócios tipo de operação tributável (ativa for notificado pela AT da situação
anual seja igual ou superior a 650 ou passiva) – n.º 2 do artigo 29.º de cessação oficiosa da atividade
000 euros e estão no regime nor- do CIVA. Ou seja, a obrigação de- económica.
mal de periodicidade trimestral os clarativa subsiste sempre que o O cotejo dos normativos do CIVA,
sujeitos passivos cujo volume de contribuinte tenha a sua inscri- designadamente, o n.º 2 do artigo

52 CONTABILISTA 232
CONTENCIOSO TRIBUTÁRIO

29.º, o n.º 1 do artigo 41.º e o artigo ta ou a participação do sujeito passi- DP e, consequentemente, obstar a
88.º do CIVA, conduz a que, sempre vo – exercício de direito de audição que a LO se converta em liquidação
que o sujeito passivo não apresentar – em momento prévio à liquidação definitiva, atitude que se aconselha
a declaração periódica, haja lugar à oficiosa, quando a AT identificar a vivamente.
efetivação de liquidação oficiosa a falta de apresentação da DP deve Há que sublinhar que, nos termos
realizar pelos serviços centrais da notificar o contribuinte para este do n.º 4 do artigo 88.º do CIVA, a
AT. Cumulativamente, por cada pe- apresentar a declaração em falta ou, LO ficará sem efeito sempre que se
ríodo de tributação em que a obriga- em alternativa, exercer o direito de verificar alguma das circunstâncias
ção declarativa não seja cumprida, audição. Só a apresentação da decla- seguintes:
verificar-se-á a prática da infração ração periódica pode impedir a rea- •Se o sujeito passivo, dentro do
fiscal prevista e punida pelos ar- lização da liquidação oficiosa. prazo de 90 dias, apresentar a de-
tigos 116.º e 26.º do Regime Geral A liquidação oficiosa tem de ser claração em falta, sem prejuízo da
das Infrações Tributárias (RGIT). A validamente notificada ao sujeito aplicação da respetiva penalidade;
infração é relatada em auto de no- passivo, através de via postal (carta •Se a liquidação for corrigida com
tícia que dá lugar à instauração de registada com aviso de receção) ou base em elementos recolhidos em
processo de contraordenação, com a através de transmissão eletrónica de procedimento de inspeção tribu-
subsequente aplicação de uma coi- dados. Uma vez concretizada a no- tária ou noutros ao dispor dos ser-
ma. A falta de pagamento da coima tificação, o sujeito passivo tem 90 viços da AT;
no processo de contraordenação dias para proceder ao pagamento da • Se for declarada a cessação ofi-
tributário dará lugar à instauração liquidação oficiosa, sob pena de co- ciosa referida no n.º 2 do artigo
de processo de execução fiscal com brança coerciva (n.º 3 do artigo 88.º 34.º do CIVA e a liquidação disser
vista à cobrança coerciva da coima do CIVA). respeito ao período decorrido des-
(art.º 65.º do RGIT). A liquidação oficiosa tem a natureza de o momento em que a cessação
Por imperativo legal (al. b) do n.º 2 de liquidação administrativa provi- deveria ter ocorrido.
do art.º 60.º da LGT), que determina sória, pelo que, durante os 90 dias É de realçar que o sujeito passivo
a prévia notificação do contribuinte subsequentes à notificação, o sujeito não deve deixar a gestão dos seus
para apresentar a declaração em fal- passivo pode proceder à entrega da interesses no domínio da atuação da

JULHO 2019 53
CONTENCIOSO TRIBUTÁRIO

AT, esta tem por missão prosseguir civa em processo de execução fiscal, sivamente do entendimento da AT.
o interesse público e, em abstra- com as inerentes penhoras de bens Fica, assim, bem evidenciado que
to, tal conduz a que, nos termos da (n.º 6 do art.º 88.º do CIVA). a LO em sede de IVA está sujeita a
lei, os seus interesses consistam na Acresce que a LO não é suscetível regulamentação e a procedimentos
cobrança de impostos. A defesa dos de ação impugnatória (n.º 2, in fine, específicos, pelo que os sujeitos pas-
interesses legalmente protegidos do do art.º 97.º do CIVA). Esta opção do sivos devem ter um especial cuidado
contribuinte só a este competem. legislador conduz a que o valor da em relação ao cumprimento da obri-
Refira-se que só a circunstância LO não seja sindicável em sede de gação declarativa (DP), de modo a
elencada no primeiro ponto supra reclamação graciosa ou de impug- obstar a que exista fundamento para
indicado é que é da iniciativa do su- nação judicial. A liquidação oficiosa a realização de liquidações oficiosas.
jeito passivo, os outros dois depen- tem por base os elementos de que a
dem da ação da AT, sendo que, na AT disponha (SAF-T – facturas) e o Cuidado no cumprimento
nossa perspetiva, não deve o con- seu valor mínimo está balizado nos das obrigações
tribuinte optar por depender da ini- normativos do n.º 1 do artigo 88.º Sem prejuízo de estar vedada a sin-
ciativa ou dinâmica dos serviços da do CIVA. A quantificação da LO só dicabilidade da legalidade da LO
AT. Assim, sempre que se verificar a pode ser alvo de discussão no pra- com fundamento na sua quantifi-
existência de LO, no prazo de 90 dias zo dos 90 dias e a sua correção só cação, há que ter presente que, caso
a contar da respetiva notificação, o pode ser feita por via da entrega da se venha a verificar que a AT não
sujeito passivo deve optar por apre- respetiva DP, com a sobreposição do procedeu à fundamentação da LO
sentar a DP e, subsequentemente, valor através desta declarado. Após ou que não concretizou a sua noti-
fazer a correlativa cessação da ati- o decurso deste prazo, o legislador ficação validamente ao sujeito pas-
vidade económica, se for caso disso. optou por impor, de forma absoluta, sivo, a doutrina e a jurisprudência
É fundamental ter presente que a o dever de pagamento da LO sempre têm admitido que a legalidade da
ausência de reação do sujeito passi- que a mesma tenha evoluído para LO seja sindicada através dos meios
vo, uma vez decorrido o prazo de 90 cobrança coerciva, sem prejuízo da impugnatórios idóneos e adequados
dias, implica que a LO se torne defi- sua correção em momento poste- à anulação do ato de liquidação. Este
nitiva e evolua para cobrança coer- rior, mas esta fica a depender exclu- entendimento pode ser aferido no

54 CONTABILISTA 232
CONTENCIOSO TRIBUTÁRIO

acórdão do Tribunal Central Admi- dever de fundamentação dos atos mente, não devem deixar a gestão
nistrativo do Norte (TCAN), tirado e decisões dos órgãos da Admi- dos seus interesses legais e patrimo-
no processo n.º 00610/08.8BEPRT, nistração Tributária por parte dos niais para uma fase em que a defe-
2.ª secção, Contencioso Tributário, serviços da AT, dando assim cum- sa destes possa induzir a uma ação
datado de 27.11.2014, ou ainda na primento ao imperativo decorren- jurídica tendencialmente votada ao
decisão arbitral proferida no pro- te do artigo 77.º da LGT, do artigo insucesso, ao invés, com uma ação
cesso arbitral n.º 64/2013-T. 152.º do Código de Procedimento rápida, eficaz e pertinente, devem
Há, todavia, que sublinhar que, Administrativo (CPA) e do n.º 3 pugnar pelo regular cumprimento
em face dos normativos ínsitos do artigo 268.º da Constituição da das obrigações tributárias e, assim,
nos artigos 38.º, 38.º-A, 39.º e 41.º República Portuguesa (CRP). contribuir para a realização da justi-
do CPPT, são cada vez menos fre- Impõe-se, então, concluir que os ça tributária. 
quentes as situações de ausência ou sujeitos passivos de IVA devem ter
de irregularidade na realização da um especial cuidado no cumpri-
notificação dos atos de liquidação, mento das obrigações declarativas, *Professor universitário
bem como existe um inquestioná- de modo a obstar à realização de Consultor
vel e profundo aperfeiçoamento do liquidações oficiosas e, designada- Árbitro no CAAD

IVA - LIQUIDAÇÃO OFICIOSA (LO)

Pagamento da
Prazo
Início de atividade liquidação
90 dias
Art.º 88.º
Art.º 31.º Regularização n.º4

Não pagamento da
liquidação
Volume negócios

Art.º 42.º Enquadramento Não envia DP


regime normal
Envia DP Certidão
Sujeito de dívida
passivo PEF
Mensal Trimestral Art.º 29.º Art.º 88.º
Art.º 2.º n.º 2 n.º3
Declaração periódica Art.º 88.º Art.º 27.º
al. c) n.º1 art.º 29.º n.º6
Liquidação oficiosa
Não
Envia DP com meio
Operações
Não envia DP pagamento correto
tributárias

Apuramento do Com meio


Sim imposto Envia DP pagamento incorreto

Art.º 27.º
Sem meio pagamento

JULHO 2019 55
FISCALIDADE

Compreender a responsabilidade
fiscal dos gestores de bens ou
direitos de não residentes
Este artigo aborda o regime jurídico de responsabilidade fiscal que enquadra os
intermediários funcionais de cidadãos estrangeiros não residentes que desenvolvem
atividade económica no nosso país.

Por Cláudio Cardoso * | Artigo recebido em junho de 2019

V
ivemos num tempo em que normativa complexa na medida em lio não se confunde com o concei-
a liberdade de circulação que se exige a verificação e corre- to de residência, sendo este mais
de pessoas, capitais e bens lação de diferentes conceitos jurí- amplo que aquele, e o conceito de
é uma realidade em contínuo cres- dicos. Ditos elementos previsionais residência habitual civil é frequen-
cimento. Assiste-se, com efeito, a correspondem, em primeiro lugar, temente afastado por razões de
um crescente número estrangeiros a ao próprio conceito de «gestor de ordem funcional, como sucede no
desenvolver atividade económica em bens ou direitos», ao conceito de IRS. Aliás, no âmbito das relações
Portugal que recorre a intermediários «não residente» e ao de [sem] «es- tributárias prevalece o conceito
para em seu nome celebrar negócios tabelecimento estável.» de residência habitual disposto no
jurídicos. Para tanto em muito têm Conforme se retira da epígrafe, en- CIRS. Destarte, a aferição do es-
contribuído o denominado regime contram-se expressamente excluí- tatuto de residência fiscal desvela
dos Golden Visa e o regime especial de dos da previsão os casos de gestão nuclear importância, não somente
tributação dos residentes não habi- de bens ou direitos de sujeitos resi- para verificação do pressuposto da
tuais (RNH). Pelo que releva conhe- dentes em território nacional. Por responsabilidade fiscal do preten-
cer o regime jurídico da responsabi- outro lado, pese embora o número so gestor, mas porque consiste no
lidade fiscal imputável àqueles que se dois do aludido preceito refira-se critério de sujeição espacial a IRS.
assumem intermediários funcionais a «entidade não residente», nem Permitindo, assim, nos termos do
de não residentes. O dito regime en- por isso, sob pena de injustificada artigo 15.º, n.º 2 CIRS, isolar o quid
contra-se, largamente, previsto no violação do princípio da igualdade da responsabilidade do gestor: os
artigo 27.º LGT, onde no seu número e da unidade teleológica do Direi- impostos devidos pelos rendimen-
1 se estabelece: «Os gestores de bens to fiscal, dever-se-á entender uma tos obtidos em Portugal (artigo 18.º
ou direitos de não residentes sem es- responsabilidade por débitos fis- CIRS) pelo sujeito não residente.
tabelecimento estável em território cais de pessoas jurídicas, dela se Nos termos do artigo 16.º CIRS,
português são solidariamente res- subtraindo os impostos das pessoas consideram-se, em termos sim-
ponsáveis em relação a estes e entre si naturais não residentes. plificados, residentes em território
por todas as contribuições e impostos No que às pessoas singulares con- português as pessoas que no ano a
do não residente relativos ao exercí- cerne, estabelece o artigo 82.º CC que respeitam os rendimento ha-
cio do seu cargo.» ex vi artigo 19.º, n.º 1, al. a) LGT que jam nele permanecido por mais de
a pessoa tem domicílio no lugar da 183 dias seguidos ou interpolados
Pressupostos do regime sua residência habitual. Sucede, em qualquer período de 12 meses
Estamos perante uma previsão porém, que o conceito de domicí- com início ou fim no ano em causa

56 CONTABILISTA 232
FISCALIDADE

(critério temporal); ou as que nele Cumpre, também, referir que os e 3.º, n.º 3 CIRC. Exigindo-se, no
hajam permanecido por período RNH não integram a previsão do entanto, como pressuposto à res-
de tempo inferior a 183 dias, se regime do artigo 27.º LGT, na exa- ponsabilidade fiscal do artigo 27.º
no mesmo disponham de habita- ta medida em que o artigo 16.º, n.º LGT, a inexistência de estabele-
ção em condições que façam supor 8 CIRS impõe como pressuposto cimento estável (artigo 5.º CIRC).
intenção atual de a manter e usar de acesso a este regime especial a Nesta sede, mais que indagar sobre
como residência habitual (critério aquisição do estatuto de residente o sentido e alcance dos conceitos
da habitação). Todavia, os critérios em território português nos termos de direção efetiva e estabeleci-
expostos ter-se-ão de articular gerais. mento estável, importará sumaria-
com o conceito operativo de resi- Por sua vez, as pessoas coletivas mente recortar as suas implicações
dência fiscal parcial previsto nos ter-se-ão por não residentes sem- no objeto da responsabilidade do
artigos 15.º, n.º 3 e 16.º, n.º 3 CIRS. pre que a sua sede estatutária (ar- gestor. Em primeiro lugar, coman-
O que, em sentido inverso, poderá tigos 159.º CC e 12.º, n.º 3 CSC) ou dam os artigos 3.º, n.º 1, al. d) e
implicar que a pessoa do gestor de direção efetiva se localize fora do 56.º CIRC, que os rendimentos das
bens ou direitos seja responsável território nacional, conforme se pessoas coletivas visados pelo arti-
fiscal durante apenas uma parte do retira da conjugação normativa en- go 27.º LGT serão determinados de
ano. Esquematicamente: tre os artigos 19.º, n.º 1, al. a) LGT acordo com as regras e categorias

Residência parcial versus critério temporal:

Chegada a TN:25 de março

Tributação da 31 de
Tributação mundial dos rendimentos dezembro de N
fonte
1 de
janeiro
de N

Não residente Residente


(84 dias) (281 dias)

Artigo 27º LGT

Residência parcial versus critério habitação:

Habitação em condições de supor como residência habitual

Chegada a TN:15 de outubro

Tributação da fonte Tributação mundial dos rendimentos

1 de
31 de
janeiro
Não residente Residente dezembro
de N
(289 dias) (76 dias) de N

Artigo 27.º LGT

JULHO 2019 57
FISCALIDADE

do CIRS. Em segundo lugar, dentro sem estabelecimento estável em gos 4.º, n.º 3, al. a) e 94.º, n.º 1, al. c)
dos rendimentos não imputáveis a território nacional que procedam à CIRC), na circunstância do locatário
estabelecimento estável considera- alienação de imóveis nele situados, não haver procedido à retenção, re-
dos obtidos em território nacional haverão de apresentar a declara- cairá sobre o não residente a respon-
pelo artigo 4.º, n.º 3 in fine do CIRC, ção modelo 22 do IRC declarando sabilidade originária pelo imposto não
destrinçar entre aqueles que não são as mais-valias da operação e pagar retido nos termos do número 2 do ar-
objeto de retenção na fonte dos que o o imposto autoliquidado até ao ter- tigo 28.º LGT e, sucessivamente e num
são e, no âmbito destes, entre os que mo do prazo para o cumprimento da segundo momento, sobre o seu gestor
o são título de pagamento por contra aludida obrigação declarativa – até ao abrigo do artigo 27.º. Estando em
e a título definitivo nos termos exa- ao 30.º dia após a data da transmis- causa rendimentos sujeitos a retenção
rados artigo 94.º CIRC. A apontada são onerosa do imóvel nas situações a título definitivo nos termos do artigo
distinção releva para a determina- de mais-valias (artigo 120.º, n.º 5, 94.º, n.º 3, al. b) CIRC, a responsabi-
ção do momento e modo da opera- al. b) CIRC) – findo o qual sem que lidade dos gestor de bens ou direitos
cionalização da responsabilidade do se demonstre satisfeita a prestação de acordo com o artigo 28.º, n.º 3 LGT
gestor. Pois que, relativamente aos tributária poderá a AT notificar o operará a três tempos: 1.º não retenção
rendimentos não objeto de reten- gestor para substituir-se ao gestido do imposto pelo substituto; 2.º rever-
ção na fonte ou seja aqueles que não no seu pagamento. Por outro lado, são contra o sujeito não residente por
se encontram previstos no elenco tratando-se de rendimentos sujeitos insuficiência patrimonial da entidade
do artigo 94.º, a responsabilidade a retenção na fonte, ainda que a tí- obrigada à retenção e; 3.º responsabi-
do gestor de bens ou direitos nas- tulo definitivo, nem assim fica em- lidade solidária do gestor de bens ou
ce no momento do incumprimento bargada a responsabilidade fiscal do direitos por incumprimento do sujeito
do sujeito passivo originário. Neste gestor. É que, convém não perder de não residente/responsável subsidiá-
âmbito, adquirem especial interesse vista o regime de responsabilidade rio. Esquematicamente:

Responsabilidade Responsabilidade
A título de pagamento originária do não solidária do
por conta art.º 94.º, residente gestor de bens ou
Sujeitos a retenção nº. 1 CIRC art.º 28.º,n.º2 LGT direitos
art.º 94.º CIRC
Responsabilidade Responsabilidade
A título definitivo art.º
subsidiária do não solidária gestor
94.º,n.º 3 CIRC
residente art.º de bens ou
Rendimentos obtidos 28º, nº. 3 LGT direitos
pelo não residente
não imputavel a
estabelecimento estável
art.º 4.º, n.º 3 CIRC
Excussão
prévia do
Responsabilidade substituto art.º
Não sujeitos a retenção 23.º, n.º 2 LGT
solidária do gestor de
bens ou direitos art.º 27.º
LGT

prático, os rendimentos provenien- aplicável ao instituto da substituição Da definição de gestor de bens ou di-
tes de alienação onerosa de imóveis tributária. Estando perante rendi- reitos do artigo 27.º, n.º 2 LGT, con-
nos termos previstos na alínea a) do mentos sujeitos a retenção a título clui tratar-se de uma figura dotada
número 3 do artigo 4.º CIRC. Com de pagamento por conta do imposto de heterogeneidade jurídico-concep-
efeito, no respeito pelo artigo 118.º, devido a final, como sendo os prove- tual, na medida em que o legislador
n.º 3, as entidades não residentes nientes da locação de imóveis (arti- se socorre dos traços de diferentes

58 CONTABILISTA 232
FISCALIDADE

institutos jurídicos para delimitar os jurídica que deve orientar a interpre- para o cumprimento das obrigações
seus pressupostos subjetivos como se tação das normas tributárias. acessórias do não residente, mas não
atesta pelas expressões “assumam” e De salientar é que, até à aprovação da as contributivas. Dito isto, o represen-
“sejam incumbidas”. À face dessa na- Lei n.º 82-E/2014, de 31 de dezembro, tante fiscal resume-se à pessoa a quem
tureza heterogénea, podemos classifi- que revogou o número 3 do artigo 27.º o não residente concedeu o mandato
car a gestão de bens ou direitos como da LGT, vigorou a presunção ilidível para levar a cabo a gestão da dimen-
figura específica do direito tributário, de que o representante fiscal do não são formal da relação jurídica tribu-
sem paralelo ou equivalente jurídi- residente considerava-se o seu gestor tária em Portugal, mas não a direção
co-conceptual suficiente em outras de bens ou direitos e, por conseguin- de negócios do representado. Destar-
áreas do direito positivo. Com efeito, te, responsável solidário pelos seus te, pese embora representante fiscal
numa primeira leitura do preceito em débitos fiscais. Tratam-se, todavia, de e gestor de bens ou direitos possam
questão, cedo se identifica uma dupla figuras e conteúdos funcionais distin- coincidir na mesma pessoa, somen-
invocação à fonte das obrigações civis, tos. Ao representante fiscal, nos ter- te pela última qualidade poderá ser
por um lado ao instituto da gestão de mos do artigo 19.º, n.º 7 LGT, incumbe responsabilizada pelo pagamento do
negócios e, por outro, ao mandato. Há garantir o cumprimento das obriga- imposto. Atualmente as duas figuras
que acautelar, porém, a interpretação ções acessórias do não residente, pre- encontram autonomização normativa
do normativo. O meio operaciona- vistas nos diferentes códigos fiscais, a no artigo 9.º, n.º 3 do Decreto-Lei n.º
lizante da gestão de bens ou direitos prestação de esclarecimentos solici- 14/2013, de 28 de janeiro, ao determi-
não se restringe à gestão de negócios tados pela AT, assim como o exercício nar-se que sempre que a lei fiscal exi-
ou mandato, porquanto a expressão dos direitos de reclamação, recurso ou ja a existência de representante para
linguística “por qualquer meio” permi- impugnação do não residente. Repa- pessoa singular não residente, é reco-
te-nos supor uma operacionalização re-se que o termo garantir não é, aqui, lhido – no âmbito do procedimento de
mediante um conjunto de atos e com- empregue no sentido técnico-jurídi- registo do contribuinte - número de
portamentos materiais por outrem, co, ou seja, não serve para significar contribuinte do representante, bem
independentemente de qualquer que o representante é garante da obri- como o do gestor de bens ou direitos
pressuposto jurídico-formal. O que gação principal de pagamento do im- quando este exista.
bem se compreende à luz da unidade posto – como sucede no ordenamento Como se avançou, a operacionalização
teleológica fiscal e da prevalência do jurídico espanhol. Pela representação da gestão de bens ou direitos indepen-
substrato económico sobre a forma fiscal inscrevem-se poderes e deveres de de qualquer pressuposto jurídico-

JULHO 2019 59
FISCALIDADE

-formal, podendo a fonte de vontade


da direção do negócio residir no gestor
de bens, quando este unilateralmente
assuma a administração do negócio O gestor de bens ou direitos sendo notificado
por conta do não residente; ou no não
residente, quando este incumba, por para pagamento do imposto em débito, ou citado
exemplo, através de mandato ou auto- em sede de processo de execução fiscal, poderá apresentar
rize por procuração, terceiro residente
em Portugal a aí gerir o seu negócio. reclamação graciosa, impugnação do ato de liquidação
Qualquer que seja a modalidade pela e pedido de revisão nos termos do artigo 22.º, n.º 5 da LGT.
qual se desenvolva a ação gestionária,
conditio sine qua non é que a mesma
se consubstancie na direção de ne-
gócio do não residente, no interesse e 27.º para os advogados, que: (…) «im- direitos. Por duas ordens de razão:
por conta deste. Fácil fica de entrever porta, assim, atender caso a caso ao a) A mera outorga voluntária de po-
que a direção de negócios configura-se conteúdo do mandato em que se ba- deres de representação a outrem,
pressuposto central à figura do ges- seia a actuação do gestor, de modo a v.g. procuração, trata-se de um ne-
tor de bens ou direitos. Pese embora que, em concreto, se possa averiguar gócio jurídico unilateral, porquanto
compreendamos a utilização de con- se o mandatário dispõe da suficien- subjaz-lhe uma relação de autoriza-
ceitos indeterminados nesta matéria te liberdade de actuação para que se ção, pelo qual na esfera jurídica do
– razões de praticabilidade e evitação possa concluir, quando ocorrerem os procurador é inscrita a mera pos-
de evasão e fraude fiscal -, a verda- restantes pressupostos legais, pela sua sibilidade atuar nos limites dos po-
de é que o artigo 27.º LGT traduz-se responsabilidade solidária a título de deres concedidos, podendo ocorrer
numa verdadeira norma de incidên- gestor de bens ou direitos da entida- que nunca faça uso desses poderes,
cia fiscal (artigo 8.º LGT). Pelo que, à de que representa.» Assim, a aferição ou que tão pouco conheça a exis-
luz do princípio da legalidade fiscal, da existência de direção de negócios, tência e teor da procuração. Por
considerar-se-ia adequada a densifi- não pode ser executada de modo geral outro lado, havendo uma relação
cação normativa do conceito, atenta e abstrato, devendo a AT, na instru- contratual de mandato subjacente
a natureza marcadamente impositi- ção do respetivo PEF, proceder a uma à outorga da procuração, além dos
va deste regime. Podemos, contudo, análise especificada dos poderes atri- poderes de representação na esfera
avançar alguns apontamentos à in- buídos ao gestor e/ou do seu quadro do procurador, agora mandatário, é
terpretação da ratio legis do conceito. de atuação real e concreta, por forma gravado o dever jurídico de praticar
Em primeiro lugar, para se falar de a qualificar a sua extensibilidade e, os atos e negócios previstos no con-
direção de negócios com proprieda- consequentemente, averiguar da sua trato. Mas, a celebração de contrato
de, o gestor deverá possuir autonomia responsabilidade pelo cumprimento de mandato (representativo ou não
na formação da vontade do não resi- da obrigação do pagamento acessório representativo) igualmente não sig-
dente e na determinação dos atos por do débito fiscal. Em segundo lugar, a nifica que o mandatário exerça os
ele praticados em território nacional. direção de negócios haverá de tradu- deveres jurídicos a que se encontra
Dito de outro modo, nos casos em que zir-se num conjunto de atos materiais adstrito, não desenvolvendo, de
o gestor se limite a executar ordens e de gestão delimitado no tempo. Isto facto, a direção de negócios do não
instruções do dominus, sem margem é, contrariamente ao entendimento residente – sem embargo dos efeitos
autonómica na seleção e constituição fixado pela AT no citado Ofício, en- advenientes do incumprimento do
dos factos tributários, não estamos tendemos que a outorga de amplos contrato de mandato (artigo 1161.º
perante uma direção de negócios, mas poderes de representação voluntária CC), irrelevantes no plano da rela-
perante o cumprimento de instruções ou o mandato, associados a uma in- ção jurídica tributária. Assim, do
emitidas por terceiros. Neste sentido tervenção pontual em negócio jurí- mesmo modo que para o preenchi-
bem andou a AT ao fixar, no Ofício- dico alheio não é consentânea com o mento da responsabilidade subsi-
-Circulado n.º 60.084, de 28/11/2011, conceito de direção de negócios e, por diária dos gerentes de pessoas cole-
a respeito das implicações do artigo conseguinte, com a gestão de bens ou tivas 1 se tem exigido uma gerência

60 CONTABILISTA 232
FISCALIDADE

de facto, e na medida que é sobre a


AT quem impende o ónus jurídico O gestor é solidariamente responsável com o gestido, o que
de a provar nos termos do disposto significa a inexistência do benefício da excussão prévia do
no artigo 74.º LGT, idêntica ordem
de raciocínio dever-se-á adotar na património deste (artigo 22.º, n.º 4 e 23.º, n.º 2 LGT).
interpretação do artigo 27.º, n.º 2
A responsabilidade do gestor de bens ou direitos não se
LGT. De acordo com o elemento
sistemático-racional, mediante o subsume à solidariedade passiva prevista no artigo 21.º da LGT.
qual na construção normativa da
LGT, se presume que o legislador Um responsável solidário prévia, somente responde acessoria-
pautou-se por um pensamento ou devedor solidário? mente pelo incumprimento do dever
unitário, por razões de coerência Na estatuição do regime encontra-se de pagamento omitido pelo gestido.
caberá à AT provar a existência da um dos sistemas de responsabilidade Dito isto, pode dizer-se que, apesar
direção de negócios de facto. mais severos do ordenamento jurídico: de solidária, a responsabilidade do
b) Secundariamente, porque a ideia objetivo e solidário. Objetivo, pois que gestor é subsidiária quanto à dimen-
de direção de negócios não se satis- contrariamente ao regime previsto no são temporal em que opera – pos-
faz com a prática de um isolado ato artigo 24.º LGT, a efetivação da respon- teriormente ao incumprimento no
de gestão, como a intervenção em sabilidade do artigo 27.º é independen- pagamento voluntário pelo devedor
escritura pública em representação te de qualquer ação, omissão ou inten- originário.
do não residente. Parece-nos cla- ção do gestor. Prescinde, portanto, do
ro, quer à letra, quer ao espírito da nexo de culpa funcional do gestor na Meios de reação
norma, que o conceito de direção diminuição do património do devedor O gestor de bens ou direitos sendo
de negócios implica um conjunto originário. Revelando-se despiciendo, notificado para pagamento do im-
material de atos de gestão reite- em sede de oposição à execução fiscal, posto em débito, ou citado em sede
rados num certo lapso de tempo. a circunstância do gestor provar (ou de processo de execução fiscal, po-
Isto é, o procurador, mandatário não provar) que o incumprimento da derá apresentar reclamação gracio-
ou gestor de negócios que somen- obrigação fiscal do não residente não sa, impugnação do ato de liquidação
te interveio na outorga de negócio procedeu da sua culpa. e pedido de revisão nos termos do
jurídico, por exemplo na aliena- Além da responsabilidade operar au- artigo 22.º, n.º 5 da LGT e/ou deduzir
ção de um imóvel, por conta e no tomaticamente, o gestor é solidaria- oposição à execução caso pretenda
interesse do sujeito passivo origi- mente responsável com o gestido, o alegar ilegitimidade processual (ar-
nário, não poderá considerar-se que significa a inexistência do bene- tigo 204.º, n.º 1, al. b) CPPT) por, à
administrador desse bem nem, por fício da excussão prévia do patrimó- face dos pressupostos ao regime do
maioria de razão, diretor de negó- nio deste (artigo 22.º, n.º 4 e 23.º, n.º artigo 27.º da LGT, não considerar-
cios. Aliás, até porque aquele que 2 LGT). A responsabilidade do gestor -se gestor de bens ou direitos, ou,
atua como procurador ou man- de bens ou direitos não se subsume à ainda, por considerar que a quantia
datário na venda de um ativo não solidariedade passiva prevista no arti- exequenda não corresponde a um
possui, por regra, poderes para re- go 21.º da LGT. Esta respeita ao regime débito tributário abrangido pela sua
ter parte do preço correspondente obrigacional supletivamente aplicável responsabilidade temporal ou obje-
ao imposto futuramente devido a às situações de pluralidade passiva ab tiva.
título de mais-valias. Não poden- initio, decorrentes da corealização do
do, por imperativo da capacidade facto tributário por mais de uma pes- *Solicitador
contributiva, proporcionalidade e soa, pelo qual todas são [co]devedoras Licenciado em Solicitadoria pelo IPCA
segurança jurídica, ser responsa- originárias do tributo, na medida que
bilizado pela obrigação tributária em relação a todas elas se verifica a Notas
aquele que, legal e factualmente, presunção de benefício económico. O 1
Neste sentido V. Ofício-Circulado n.º
não tinha possibilidade de asseve- gestor de bens ou direitos é um sujei- 60.058, de 17/04/2008 da DGSI e Ac. do
rar que tal pagamento viesse a ser to passivo não originário que, ainda TCN, no processo n.º 00349/05.6BEBRG,
no futuro efetuado. que sem o privilégio da excussão de 11/03/2010.

JULHO 2019 61
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Estimativa de imposto alterações de estimativas contabilísticas Conta caixa


previstas na NCRF 4.
O apuramento do imposto IRC a pa- Pelo que, verificando-se que o imposto li- O sócio-gerente de uma empresa
gar/recuperar deve de ser contabili- quidado é superior ao imposto estimado, unipessoal paga em dinheiro a um
zado a 31/12/ano “n “ou em janeiro/ a diferença é lançada a débito da conta fornecedor de serviços (subcontra-
ano “n+1”? 6885 - Insuficiência da estimativa para tos). No entanto, esse dinheiro não
A dúvida é se a 31/12/ano “n” tem de impostos, sendo o movimento a crédito passa pelo banco. Sendo o valor de
estar espelhado o valor a pagar/re- feito na conta 24.14 - Imposto liquidado cada fatura inferior a três mil euros,
cuperar ou o valor estimado. após se ter efetuado a transferência do segundo a lei, pode ser pago em
saldo credor da conta 24.13 - Imposto dinheiro e não precisa passar pelo
estimado para a conta a liquidar. banco.
A questão colocada refere-se ao procedi- Se o imposto liquidado é inferior ao im- Utilizando a conta caixa, se essa não
mento contabilístico do cálculo e registo posto estimado, estaremos perante um tem lá esse valor (o que pressupõe
da estimativa de imposto sobre o rendi- desagravamento do resultado contabilís- um caixa negativo), logo, pela lógica,
mento (IRC). tico que deve ser registado na conta 7882 é pago pelo sócio-gerente (25).
No final de cada exercício económico, a - Excesso da estimativa para impostos, Deve lançar-se noutra conta e so-
empresa deve proceder ao apuramento por débito da conta 24.13 - Imposto es- licitar que façam declarações para
da matéria coletável e cálculo do im- timado. O valor correspondente ao IRC juntar a esses lançamentos? Haverá
posto a pagar, sendo essa estimativa liquidado será transferido da conta 24.13 mais algum procedimento a ser efe-
lançada (no final do ano “N”) a débito da para a conta 24.14. tuado?
conta 812 - Imposto sobre o rendimento De notar que as diferenças de estimati-
por contrapartida do registo na respetiva va devem ser corrigidas no quadro 07 da
24.13 - Imposto estimado, independen- modelo 22. Assim, o valor da insuficiên- A questão colocada refere-se ao pa-
temente da empresa ser tributada pelo cia de estimativa deverá ser acrescido no gamento em numerário de faturas. A
regime geral do lucro tributável ou pelo campo 724, o valor do excesso de esti- Lei n.º 92/2017 que aditou o artigo
regime simplificado. mativa deve ser deduzido no campo 765 63.º-E à Lei Geral Tributária, proí-
O cálculo da estimativa de imposto efe- da declaração modelo 22. be pagamentos ou recebimentos em
tua-se da seguinte forma: No regime simplificado, e uma vez que numerário superior a três mil euros,
Estimativa de imposto = (Result. antes de não há preenchimento do quadro 07, te- abrangendo agora qualquer paga-
impostos +- Correções fiscais - Prejuízos mos: mento ou recebimento ainda que não
- Benefícios fiscais) x Taxa de IRC + Der- Estimativa de imposto = Matéria coletá- seja efetuado no âmbito de uma ope-
rama - Deduções à coleta + Tributações vel x taxa de IRC - Deduções à coleta + ração comercial.
autónomas + Resultado da liquidação Tributações autónomas, sendo que: Para os sujeitos passivos de imposto
(artigo 92.º do CIRC). Matéria coletável = somatório dos vários (IRC e IRS), com contabilidade orga-
Ou rendimentos obtidos x coeficiente aplicá- nizada, o limite de pagamento em nu-
Estimativa de imposto = Imposto liqui- vel a cada um desse tipo de rendimentos merário de faturas são os mil euros,
dado + PEC (utilizado) + Derrama + Tri- (com o limite mínimo de 60 por cento da conforme previsto no n.º 2 do artigo
butação autónoma + (+juros compensa- RMMG, atendendo, todavia, ao n.º 5 do 63.º-E da LGT, conjugado com o n.º 1
tórios) + Resultado da liquidação (artigo artigo 86.º-B do CIRC). do artigo 63.º-C da LGT.
92.º do CIRC). O facto de a sociedade estar enquadra- Em termos da documentação utiliza-
Contudo, nem sempre essa estimativa do da no regime simplificado, apurando-se a da de suporte a estes movimentos,
imposto a pagar se revela correta. Exis- matéria coletável através de coeficientes, lembramos que o CIRC, no seu artigo
tindo diferença entre a estimativa do IRC tal não implica qualquer procedimento 123.º, refere que todos os lançamen-
e o pagamento efetivo, no momento do distinto a nível do registo contabilístico tos devem estar apoiados em docu-
pagamento (ano “N+1”) essa diferença de estimativa do imposto ou do apura- mentos justificativos devidamente
de IRC reconhecida nos resultados do mento do IRC a realizar na contabilidade datados.
período corrente (no momento do pa- aquando da entrega da declaração mo- Se a empresa tem a prática de fazer
gamento - autoliquidação de IRC), aten- delo 22. pagamentos a fornecedores, de mon-
dendo ao tratamento prospetivo para as Resposta de junho de 2019 tantes relevantes, através de caixa,

62 CONTABILISTA 232
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então deve ser feita também uma ri- IRS - mínimo epígrafe «Mínimo de existência» visa
gorosa reconciliação entre os docu- de existência evitar a tributação de sujeitos passivos
mentos que titulam essas despesas e que não tenham uma verdadeira capa-
os respetivos pagamentos, nomea- Determinado contribuinte é cidadão cidade contributiva, em face dos rendi-
damente através da confrontação nacional, divorciado, vive sozinho mentos reduzidos que auferem.
com os recibos. sem dependentes e sem ascendentes Com as alterações introduzidas pela
A conta 26 - Sócios deverá registar e é residente fiscal em território na- Lei n.º 114/2017, de 29 de dezembro -
as operações relativas às relações cional durante todo o ano. Lei do Orçamento do Estado para 2018
com os titulares de capital, não se Aufere exclusivamente uma pensão - foi alterado o mínimo de existência
incluindo nesta conta as transações paga pelo Centro Nacional de Pen- (que era em 2017 de 8 500 euros)
correntes, de investimentos ou apli- sões da Segurança Social no valor passando a estar indexado ao valor
cações financeiras. Nesta conta se- ilíquido mensal de 703,99 euros por do indexante de apoios sociais (IAS),
rão registados os empréstimos, os 14 meses (9 855,86 euros no total), logo, o mínimo de existência estabe-
lucros atribuídos ou adiantados e sendo que é retido na fonte, a título lecido para 2018 é de 9 006,90 (1,5 x
outras operações semelhantes rela- de IRS, 4,4 por cento no valor men- 14 x 428,90 - Portaria n.º 21/2018, de
tivas aos sócios da empresa. sal, o que corresponde a 30 euros e a 18 de janeiro). Também se procedeu
Uma sociedade é um ente jurídico um total anual de 420 euros. ao alargamento da sua aplicação aos
distinto dos sócios que a criaram, Pretende saber-se se o contribuin- rendimentos decorrentes do exercício
tendo património afeto ao exercí- te em questão está abrangido pela de uma atividade profissional indepen-
cio da sua atividade, que não pode- aplicação dos números 1 e 4 do arti- dente, constante da lista de atividades
rá ser confundido com o património go 70.º do Código de IRS, sendo que, prevista no artigo 151.º do Código do
pessoal que pertence aos sócios. As se o mínimo de existência, conforme IRS (com exceção das «Outras ativi-
operações realizadas pela socieda- o número 1, é de 1,5 x 14 x 435,76 dades exclusivamente de prestação de
de, ainda que muitas vezes postas (valor do IAS para 2019) = 9 150,96 serviços - Outros prestadores de ser-
em prática pelos próprios sócios, de- euros e a aplicação das taxas es- viços»).
verão ser devidamente identificadas tabelecidas no artigo 68.º dá como A nova redação entrou em vigor a 1 de
pela sociedade. Isto é, os pagamen- resultado 834,02 euros, após a de- janeiro de 2018 pelo que só será apli-
tos de dívidas da sociedade deverão dução específica de 4 104 euros e cável aos rendimentos obtidos no ano
ser por ela efetuados e registados aplicando ao remanescente 5 751,86 de 2018 - declaração de rendimentos
nas contas da mesma. euros a primeira taxa de 14,5 por a entregar em 2019. A declaração de
Em termos fiscais, existe também cento, verifica-se que o resultado rendimentos modelo 3 será normal-
a obrigação de serem efetuados, desta aplicação é um valor líquido de mente entregue, sendo que a aplicação
através de transferência bancária, imposto de 9 021,84 euros (9 855,86 do mínimo de existência será realizada
cheque nominativo ou débito direto, euros - 834,02 euros) que é inferior pela Autoridade Tributária aquando do
todos os movimentos relativos aos em 129,12 euros ao mínimo de exis- processamento da liquidação de IRS.
sócios, bem como já anteriormente tência do Código de IRS. Dispõe atualmente o n.º 1 do artigo
referido, todos os pagamentos rela- Partindo do pressuposto que o des- 70.º do Código do IRS: «(...) da apli-
tivos a faturas ou documentos equi- crito no parágrafo anterior está cor- cação das taxas estabelecidas no ar-
valentes da atividade da empresa de reto, o contribuinte em questão será tigo 68.º não pode resultar, para os
valor superior a mil euros, conforme reembolsado, aquando da liquidação titulares de rendimentos predominan-
o artigo 63.º-C da LGT. do IRS por parte da AT, da totalidade temente originados em trabalho de-
No caso concreto, entendemos que do valor das retenções na fonte so- pendente, em atividades previstas na
deve informar o gerente da socieda- bre a pensão (420 euros)? tabela aprovada no anexo à Portaria
de em causa, do limite de pagamento n.º 1011/2001, de 21 de agosto, com
em numerário de faturas, bem como exceção do código 15, ou em pensões,
dos documentos requeridos para ti- Questiona-nos acerca da aplicação do a disponibilidade de um rendimento lí-
tular a operação das mesmas. artigo 70.º do Código do IRS que diz res- quido de imposto inferior a 1,5 x 14 x
peito ao mínimo de existência. (valor do IAS) (...)».
Resposta de junho de 2019 O artigo 70.º do Código do IRS sob a O mínimo de existência para o ano de

JULHO 2019 63
CONSULTÓRIO

2019 será de 9 150,96 euros, pois o IAS IVA - Direito à dedução De acordo com a alínea a) do n.º 1 do
fixado para este ano, pela Portaria n.º artigo 21.º do Código do IVA, é excluído
24/2019, de 17 de janeiro, é de 435,76 Determinada empresa pretende ad- do direito à dedução o IVA suportado
euros (435,76 x 1,5 x 14 = 9.150,96). quirir uma viatura híbrida plug-in, com a aquisição, fabrico ou importa-
Não resulta claro dos dados da ques- cujo valor de aquisição ronda os 60 ção, locação, utilização, transformação
tão se a dúvida se coloca perante a mil euros. Em termos de dedução de e reparação de viaturas de turismo,
declaração de rendimentos de 2018 (a IVA poderá haver lugar à dedução barcos de recreio, helicópteros, aviões,
entregar em 2019), situação em que de 100 por cento do IVA do valor da motos e motociclos, sempre que a ex-
o mínimo de existência tem por refe- aquisição? E em relação às despesas ploração destes bens não constitua
rência o IAS de 2018 (428,90 euros); de reparação, combustível, etc., é objeto da atividade do sujeito passivo
ou se, a dúvida se coloca perante os aceite fiscalmente a dedução do IVA - alínea a) do n.º 2 do artigo 21.º do
rendimentos de 2019 (declaração de destas despesas? Código do IVA.
rendimentos a entregar em 2020), cujo Considera-se «viatura de turismo»
IAS de referência será de 435,76 euros. para efeitos de IVA, qualquer veículo
Admitindo este último cenário (ren- As questões colocadas referem-se à automóvel, com inclusão do reboque
dimentos de 2019/IRS a entregar em dedutibilidade de IVA referente à aqui- que, pelo seu tipo de construção e equi-
2020), para efeitos de aplicação do sição, despesas de manutenção e con- pamento, não seja destinado unica-
mínimo de existência, considerando servação e gastos com combustíveis, mente ao transporte de mercadorias ou
um rendimento coletável de 5 751,86 referentes à aquisição e utilização de a uma utilização com caráter agrícola,
euros (9 855,86 – 4 104), por aplica- um veículo automóvel, ligeiro de pas- comercial ou industrial ou que, sendo
ção das taxas gerais previstas no arti- sageiros híbrida plug-in, com valor de misto ou de transporte de passageiros,
go 68.º do Código do IRS, o imposto a aquisição de aproximadamente 60 mil não tenha mais de nove lugares, com
suportar ascende a 834,02 euros (isto euros. inclusão do condutor - alínea a) do n.º 1
é, 5 751,86 x 14,5%). Se deduzirmos o As viaturas comumente designadas hí- do artigo 21.º do Código do IVA.
imposto ao rendimento, a diferença é bridas plug-in combinam um motor de Contudo, na sequência da reforma da
de 9 021,84 euros. Dado que o mínimo combustão e um motor elétrico. chamada fiscalidade verde, a Lei n.º 82-
de existência está fixado, para 2019, D/2014, de 31 de dezembro, procedeu à
em 9 150,90 euros, o imposto tem que Direito à dedução - aquisição, despesas alteração das normas fiscais ambientais
ser reduzido, podendo apenas atingir a de manutenção e conservação nos setores da energia e emissões, trans-
quantia de 704,90 euros. De harmonia com o artigo 19.º do Có- portes, água, resíduos, ordenamento do
De referir que nestes cálculos estamos digo do IVA, só confere direito a dedu- território, florestas e biodiversidade, al-
a tratar de imposto liquidado (coleta ção o imposto mencionado em faturas terando, para o efeito, o Código do IVA,
ilíquida). As retenções da fonte que passadas em forma legal, em nome e aditando a alínea f) do n.º 2 do artigo
foram efetuadas funcionam como pa- na posse do sujeito passivo, conside- 21.º.
gamento por conta do imposto devido rando-se passados em forma legal, os «2 - Não se verifica, contudo, a exclusão
a final. Sendo que, para apuramento que contenham os elementos mencio- do direito à dedução nos seguintes casos:
da coleta líquida, após apuramento do nados no n.º 5 do artigo 36.º e n.º 2 do (...)
imposto liquidado serão deduzidas as artigo 40.º (fatura simplificada). f) Despesas relativas à aquisição, fabrico
deduções à coleta. Só após este cál- Por outro lado, determina o n.º 1 do ou importação, à locação e à transforma-
culo será feito o encontro de contas, artigo 20.º do Código do IVA, que só ção em viaturas elétricas ou híbridas plu-
entrando nesta fase as retenções na pode deduzir-se o imposto que tenha g-in, de viaturas ligeiras de passageiros
fonte. incidido sobre bens ou serviços adqui- ou mistas elétricas ou híbridas plug-in,
Assim, no caso em análise, uma even- ridos, importados ou utilizados pelo quando consideradas viaturas de turis-
tual devolução do imposto retido esta- sujeito passivo para a realização das mo, cujo custo de aquisição não exceda
rá dependente das deduções à coleta operações de transmissões de bens e o definido na Portaria a que se refere a
de que o sujeito passivo possa benefi- prestações de serviços sujeitas a im- alínea e) do n.º 1 do artigo 34.º do Códi-
ciar. posto e dele não isentas, nos termos da go do IRC (Depreciações e amortizações
alínea a) ou nas operações elencadas não dedutíveis para efeitos fiscais, n.r.).»
Resposta de junho de 2019 na alínea b). Tal norma contempla a possibilidade

64 CONTABILISTA 232
CONSULTÓRIO

de exercer o direito à dedução do IVA normalmente utilizáveis em viaturas au- ligeiras de passageiros híbridas plug-in e
contido nas despesas relativas à aquisi- tomóveis, com exceção das aquisições de ainda a viaturas ligeiras de passageiros
ção, fabrico ou importação, à locação e gasóleo, de gases de petróleo liquefeitos movidas a GPL (gás de petróleo liquefei-
à transformação em viaturas elétricas (GPL), gás natural e biocombustíveis, cujo to) ou GNV (gás natural veicular).
ou híbridas plug-in de viaturas ligeiras imposto será dedutível na proporção de A estes veículos ligeiros, as taxas aplicá-
de passageiros ou mistas elétricas ou 50 por cento, a menos que se trate dos veis variam consoante o escalão onde se
híbridas plug-in, quando consideradas bens a seguir indicados, caso em que o insere o custo de aquisição da viatura,
viaturas de turismo, cujo custo de aqui- imposto relativo aos consumos de gasó- mantendo-se a existência dos três esca-
sição não exceda o definido na Portaria leo, GPL, gás natural e biocombustíveis é lões definidos para as viaturas referidas
n.º 467/2010, de 7 de julho, portaria esta, totalmente dedutível: no n.º 3 do artigo 88.º do CIRC:
referida na alínea e) do n.º 1 do artigo i) Veículos pesados de passageiros; «(...) 3 - São tributados autonomamen-
34.º do Código do IRC. ii) Veículos licenciados para transportes te os encargos efetuados ou suportados
Nesse sentido, a Portaria n.º 467/2010, públicos, excetuando-se os rent-a-car; por sujeitos passivos que não beneficie
de 7 de julho, é clara na delimitação dos iii) Máquinas consumidoras de gasóleo, isenções subjetivas e que exerçam, a
limites para o custo de aquisição ou va- GPL, gás natural ou biocombustíveis, que título principal, atividade de natureza
lor de reavaliação das viaturas ligeiras não sejam veículos matriculados; comercial, industrial ou agrícola, rela-
de passageiros ou mistas para efeitos da iv) Tratores com emprego exclusivo ou cionados com viaturas ligeiras de passa-
alínea e) do n.º 1 do artigo 34.º do Código predominante na realização de opera- geiros, viaturas ligeiras de mercadorias
do IRC. Assim: ções culturais inerentes à atividade agrí- referidas na alínea b) do n.º 1 do artigo
Viaturas adquiridas nos períodos de tri- cola; 7.º do Código do Imposto sobre Veículos,
butação que se iniciem em 01/01/2015 v) Veículos de transporte de mercadorias motos ou motociclos, excluindo os veí-
ou após essa data: com peso superior a 3 500 kg. (...).» culos movidos exclusivamente a energia
62 500 euros - Veículos movidos exclusi- Neste sentido, referimos que, relativa- elétrica, às seguintes taxas:
vamente a energia elétrica; mente ao combustível utilizado no veí- a) 10 por cento no caso de viaturas com
50 000 euros - Veículos híbridos plug-in culo, aplica-se a regra estabelecida na um custo de aquisição inferior a 25 000
37 500 euros - Veículos movidos a gases alínea b) do n.º 1 do artigo 21.º, ou seja, euros;
de petróleo liquefeito (GPL) ou gás natu- o IVA suportado nas aquisições de gaso- b) 27,5 por cento no caso de viaturas
ral veicular (GNV) lina não é, em caso algum dedutível, e o com um custo de aquisição igual ou su-
25 000 euros - Restantes viaturas. IVA suportado na aquisição de gasóleo, perior a 25 000 e inferior a 35 000 euros;
Perante o exposto, o sujeito passivo, não GPL, gás natural e biocombustíveis são c) 35 por cento no caso de viaturas com
poderá exercer o direito à dedução do dedutíveis apenas em 50 por cento. um custo de aquisição igual ou superior
IVA, suportado na aquisição, uma vez Neste sentido, reforçamos que o IVA a 35 000 euros (...).»
que, o valor de aquisição é superior ao referente à aquisição de gasolina não No caso de viaturas ligeiras de passa-
limite estabelecido para os veículos híbri- é passível de dedução por força da ex- geiros híbridas plug-in, as taxas referidas
dos plug-in. clusão prevista na alínea b), do n.º 1, do nas alíneas a), b) e c) do n.º 3 do artigo
Relativamente às despesas de manuten- artigo 21.º do CIVA, mesmo que tal aqui- 88.º do CIRC são, respetivamente, de 5,
ção e conservação da referida viatura, sição se destine à utilização nos veículos 10 e 17,5 por cento (para entidades que
uma vez que, se trata de uma viatura li- bifuel. não registem prejuízo fiscal) e respeti-
geira de passageiros, estão excluídas do vamente 15, 20 e 27,5 por cento (para
direito à dedução pelo disposto na a) do Tributação autónoma entidades que registem prejuízo fiscal).
número 1 do artigo 21.º do CIVA. Não sendo um tema questionado, consi- Só são consideradas como viaturas hí-
deramos útil, no entanto, enquadrar as bridas plug-in, as viaturas com dois mo-
Direito à dedução - combustíveis viaturas híbridas plug-in relativamente à tores (um motor a gasolina ou gasóleo
Em relação ao direito à dedução dos tributação autónoma. Com a Lei da Re- e um motor elétrico) mas cujo carrega-
combustíveis, utilizados na viatura, apli- forma da Fiscalidade Verde, aditaram-se mento do motor elétrico (também) possa
ca-se a regra estabelecida na alínea b) do dois novos números ao artigo 88.º do ser efetuado por ligação através de ficha
número 1 do artigo 21.º: CIRC, nos quais se preveem taxas de à corrente elétrica.
«(...) tributação autónoma mais baixas apli-
b) Despesas respeitantes a combustíveis cáveis a encargos relativos a viaturas Resposta de junho de 2019

JULHO 2019 65
CONSULTÓRIO

SAF-T (PT)
Na contabilização de faturas de
clientes, consumidores finais, o re-
gisto das mesmas tem que ser agru-
pado diariamente ou pode ser agru-
pado mensalmente?

As questões colocadas referem-se


com as obrigações relacionadas com
o SAF-T relativo à contabilidade.
Há a referir, desde logo, que as obri-
gações referidas não são novas, de- vem registar-se todas as operações quantidade de faturas a clientes,
correndo dos códigos fiscais e das de natureza contabilística, de acordo este procedimento pode apenas ser
notas técnicas da estrutura de dados com as regras mencionadas no n.º 2 possível mediante a integração auto-
do SAF-T. do artigo 123.º do CIRC. mática das faturas emitidas através
Em termos fiscais, refere o artigo Nos diários devem ser registadas de programas informáticos de fatu-
17.º do Código do IRC (CIRC), que todas as operações, de uma forma ração no programa informático de
a contabilidade deve estar organi- cronológica, podendo ser atribuí- contabilidade, não sendo praticável
zada de acordo com a normalização da uma numeração sequencial, que em tempo útil o registo contabilísti-
contabilística, de modo a permitir o deve constar do registo informático co manual das faturas.
apuramento do lucro tributável, sen- no programa de contabilidade e no Esta integração pode ser efetua-
do que este apuramento do lucro tri- próprio documento justificativo do da mediante a extração do fichei-
butável irá ter como base os elemen- movimento contabilístico. ro SAF-T do programa informático
tos resultantes dessa contabilidade, O objetivo desta numeração sequen- de faturação que será integrado no
eventualmente corrigidos pelas dis- cial é a identificação clara de todos programa informático da contabili-
posições do CIRC. os registos contabilísticos efetuados dade. No caso de faturas emitidas
Esses elementos resultantes da con- e permitir um acesso mais rápido e por fornecedores, pode recorrer-se
tabilidade têm origem nos registos fácil à obtenção da informação e da ao ficheiro obtido do Portal E-fatura
contabilísticos, que devem ser apoia- busca do respetivo documento justi- que contem as faturas emitidas e co-
dos em documentos justificativos, ficativo. municadas por cada fornecedor.
datados e suscetíveis de serem apre- O registo contabilístico das faturas Importa referir que esta obrigação
sentados sempre que necessário, de clientes e fornecedores e outros apenas se aplica a faturas emitidas
conforme as regras estabelecidas no documentos relevantes fiscalmente, pela empresa que devam ser incluí-
n.º 2 do artigo 123.º do Código do no respetivo diário, terá que ter uma das no Anexo O da IES (mapa recapi-
IRC (CIRC). sequência cronológica, mas essa se- tulativo de clientes).
Em termos de organização contabi- quência pode ser meramente numa O mesmo procedimento deverá ser
lística, pode cada empresa efetuar a base mensal (e não diária). Para as aplicado às faturas emitidas pelos
distinção dos vários registos conta- faturas de fornecedores, a sequência fornecedores, sendo a referida obri-
bilísticos através da divisão em diá- cronológica é efetuada em função da gação apenas aplicada às faturas
rios de operações por vários tipos de data de receção dos documentos, e emitidas a fornecedores que devam
naturezas, como por exemplo, diário não necessariamente em função da constar do anexo P da IES.
de faturação, diário de bancos, diá- data de emissão dessas faturas. Apenas ficam excluídas desta obri-
rio de compras, diário de caixa, diá- Cada documento comercial deve gação as transações com bens e ser-
rio de operações diversas ou outros. corresponder a um movimento úni- viços previstas nas alíneas b), c), d)
Nesses diários ou, em alternativa, co. No caso de lhe serem emitidas e e) do artigo 21.º do CIVA, porque
num diário geral, se não tiver optado um grande número de faturas de excluídas de constar nos anexos O
pela criação de vários diários, de- fornecedores ou emitir uma grande e P da IES, conforme notas técnicas

66 CONTABILISTA 232
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dos campos 3.4.3.9 e 3.4.3.10 cons- IRC - Benefícios fiscais um apoio financeiro no âmbito do
tantes na estrutura de dados do fi- quadro comunitário de apoio Portu-
cheiro SAF-T, nomeadamente faturas No quadro 78-A1 da declaração mo- gal 2020.
de aquisição de fornecimento de re- delo 22 deve identificar-se o projeto Nos termos do n.º 6 do artigo 23.º do
feições combustíveis, deslocações e de investimento, que neste caso é o Código Fiscal do Investimento (reda-
estadas. Portugal 2020, mas no campo 759 ção do Decreto-Lei n.º 162/2014,
Para esta situação é possível o regis- pede o valor atualizado com base de 31 de outubro), o regime fiscal
to desses encargos pelo agregado do na taxa publicada pela Comissão de apoio ao investimento (RFAI) é
montante total das faturas, não se Europeia, que para o ano de 2018 é cumulável com auxílios de Estado
efetuando qualquer referencia a for- negativa em 0,18. Neste caso apli- para o mesmo investimento, nomea-
necedor nesse registo contabilístico. ca-se a taxa negativa? Nos quadros damente apoios financeiros, desde, e
Assim, para qualquer outro tipo de seguintes o benefício financeiro será na medida em que, não sejam ultra-
despesa, vendas ou serviços presta- a ausência de juros, uma vez que é passados os limites máximos aplicá-
dos em que existe o direito à dedu- um financiamento a taxa zero (0). veis aos auxílios com finalidade re-
ção de IVA ou IVA liquidado, efetua- Para calcular este benefício a taxa é gional em vigor na região na qual o
-se o registo fatura a fatura sempre negativa também? investimento seja efetuado.
que sejam incluídas nos anexos O e P As orientações da União Europeia
da IES, independentemente do mon- em matéria de auxílios estatais com
tante, e mesmo que se aproveite de Relativamente à primeira questão, finalidade regional para 2014-2020
qualquer dispensa da sua entrega, refira-se que a dúvida diz respeito estão publicadas no Jornal Ofi-
conforme previsto no artigo 29.º do ao âmbito dos benefícios fiscais ao cial da União Europeia n.º C 209/1,
CIVA com a redação dada pelo De- investimento das empresas, nomea- de 27 de julho de 2013 (OAR) e no
creto-Lei n.º 28/2019, de 15 de fe- damente o regime fiscal de apoio ao Regulamento (UE) n.º 651/2014, de
vereiro. investimento (RFAI) quando utilizado 16 de junho de 2014, que aprovou
em cumulação e utilização simultâ- o regulamento geral de isenção por
Resposta de junho de 2019 nea para o mesmo investimento de categoria (RGIC), publicado no Jor-

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CONSULTÓRIO

nal Oficial da União Europeia n.º C tes referidos para a determinação C 14, de 19 de janeiro de 2008.
187/1, de 26 de junho de 2014. do incentivo máximo para o bene- As taxas de referência podem ser
A Portaria n.º 297/2015, de 21 de fício fiscal do RFAI devem também consultadas através do sítio de in-
setembro, estabelece a regulamenta- atender ao montante desses apoios ternet da Direção-Geral da Concor-
ção para a aplicação dos benefícios financeiros, conforme previsto nos rência da União Europeia:
fiscais ao investimento do RFAI, tal n.ºs 5 e 6 ambos do artigo 23.º do http://ec.europa.eu/competition/
como decorre do n.º 7 do artigo 23.º CFI. state_aid/legislation/reference_ra-
do CFI. Os limites máximos aplicáveis aos tes.html
O benefício fiscal do RFAI pode ser auxílios estatais com finalidade re- Se forem excedidos estes limites má-
determinado em função de percen- gional previstos no n.º 5 do artigo ximos, nomeadamente pela utiliza-
tagem dos investimentos relevantes, 23.º do Código Fiscal do Investimen- ção simultânea do RFAI e da obten-
dependendo da região onde é efe- to devem atender às condições de- ção de subsídios e empréstimos sem
tuado o investimento, num montante terminadas no artigo 4.º da Portaria juros ou com taxas de juro reduzidas
até cinco milhões de euros, e de mais n.º 297/2015, nomeadamente: como medida de apoio no âmbito do
dez por cento sobre o restante inves- - Qualquer investimento inicial ini- Portugal 2020, o correspondente ex-
timento que exceda esse montante, ciado pelo mesmo beneficiário, in- cesso é adicionado ao IRC liquidado
conforme o artigo 43.º do CFI. cluindo qualquer empresa do mesmo para efeitos de apuramento do im-
Essas percentagens limite podem ser grupo, num período de três anos a posto a pagar ou a recuperar, con-
majoradas em 10 pontos percentuais contar da data de início dos traba- forme determina o n.º 4 do artigo 4.º
para as médias empresas e em 20 lhos de um outro investimento relati- da Portaria n.º 297/2015.
pontos percentuais para as micro e vamente ao qual tenham sido conce- No limite e, em termos práticos, se
pequenas empresas tal como defini- didos benefícios fiscais, ou qualquer os benefícios de Estado das medidas
das na recomendação n.º 2003/361/ outro auxílio de Estado com finali- de apoio financeiro excederem des-
CE, da Comissão, de 6 de maio de dade regional na mesma região de de logo o referido limite máximo de
2003, exceto quanto a projetos de nível 3 da nomenclatura das unida- apoios de finalidade regional, a em-
investimento cujas aplicações rele- des territoriais para fins estatísticos presa já não beneficia da dedução
vantes excedam 50 milhões de euros. (NUTS), deve ser considerado parte fiscal de IRC referente ao RFAI.
No caso de projetos de investimento de um projeto de investimento único; Quanto às taxas de referência esta-
cujas aplicações relevantes excedam - O valor dos benefícios fiscais con- rem negativas neste momento, efe-
50 milhões de euros, independente- cedidos de dedução à coleta de IRC tivamente trata-se duma questão
mente da dimensão da empresa, o (e isenção ou redução do IMI) nos pertinente.
montante máximo de benefício fiscal termos do RFAI deve corresponder Em nossa opinião, parece não fazer
possível está limitado a 50 milhões ao seu valor atualizado reportado sentido efetuar a atualização dos
de euros, adicionado de 50 por cen- ao termo do período de tributação montantes de benefícios fiscais usu-
to sobre o investimento entre 50 em que sejam realizadas as aplica- fruídos ou das próprias aplicações
milhões e 100 milhões de euros. O ções relevantes (e ao termo do ano relevantes, com a utilização de taxa
eventual excedente a 100 milhões da aquisição ou construção do imó- de referência negativa. Qual a utili-
não é considerado para o benefício vel, para efeitos do benefício fiscal dade dessa informação para efeitos
fiscal. do IMI); do controlo dos limites máximos de
Tal como referido, o RFAI é cumulá- - O valor atualizado dos benefícios auxílios estatais com finalidade re-
vel com outros apoios de Estado com fiscais deve ser determinado com gional previstos no artigo 43.º do
finalidade regional, nomeadamente base nas taxas de atualização apli- CFI?
incentivos financeiros, como os sub- cáveis nos vários momentos em que Não temos conhecimento da exis-
sídios não reembolsáveis e emprésti- os benefícios fiscais são utilizados, tência de entendimento sobre esta
mos sem juros ou com juros reduzi- tal como estabelecido na Comunica- matéria por parte da Autoridade
dos de medidas de apoio financeiro ção da Comissão sobre a revisão do Tributária, ou mesmo das entidades
do Portugal 2020, para o mesmo in- método de fixação das taxas de refe- gestores da atribuição de subsídios
vestimento. rência e de atualização publicada no no âmbito do Portugal 2020.
Todavia, quando assim seja, os limi- Jornal Oficial da União Europeia, n.º Sugerimos que solicite esclarecimen-

68 CONTABILISTA 232
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tos sobre os cálculos atualizados feridas acima, são as publicadas pela subvenção tem de ser calculado uma
com taxas de referência negativas Comissão Europeia. vez que o valor do reembolso não
para os benefícios financeiros (do Os níveis de auxílio são definidos confere uma vantagem para a em-
Portugal 2020) à entidade gestora como uma percentagem dos custos presa encontrando-se esta vantagem
respetiva, e solicite esclarecimentos elegíveis. Assim, para determinar se apenas no valor dos juros que a em-
à AT sobre a atualização com essas um auxílio é ou não enquadrado nos presa fica dispensada de pagar.
taxas negativas relativamente aos auxílios regionais é necessário to- No caso de um empréstimo em con-
benefícios fiscais usufruídos. mar em consideração a intensidade dições favoráveis (poer exemplo, sub-
Sobre a segunda questão, para de- do auxílio a atribuir. A unidade de sídio reembolsável), o ESB consistirá
terminar se um auxílio é ou não medida comum da intensidade do na diferença, para um determinado
compatível com o Mercado Comum auxílio é o equivalente-subvenção ano, entre os juros de referência cal-
é necessário tomar em considera- bruto, que permite comparar a in- culados à taxa de referência em vigor
ção a intensidade do auxílio e, por tensidade dos auxílios concedidos de no momento da concessão e os juros
conseguinte, o montante do auxílio diferentes formas. efetivamente pagos, ou seja constitui
expresso em equivalente-subvenção. O equivalente subvenção bruto (ESB) o apuramento do elemento de auxí-
Para efeitos do RFAI, essa intensida- é o valor que efetivamente corres- lio enquanto vantagem conferida ao
de do auxílio corresponde aos limites ponde a uma vantagem financeira beneficiário que este não conseguiria
máximos de auxílios estatais de fi- atribuída pelo Estado (independen- obter em condições normais de mer-
nalidade regional previstos no artigo temente do organismo que atribui a cado.
43.º do CFI. ajuda). No caso em concreto, os auxílios de
No cálculo do equivalente-subvenção No caso de se tratar de um incenti- Estado obtidos correspondem a um
dos auxílios a desembolsar em diver- vo a fundo perdido o corresponden- subsídio reembolsável e uma parte
sas prestações deve ser aplicada a te equivalente de subvenção bruto é do subsídio reembolsável que pode
taxa de juro prevalecente no mer- igual ao valor do incentivo, uma vez tornar-se não reembolsável se forem
cado aquando da concessão do au- que a totalidade do apoio corres- cumpridos determinados objetivos
xílio. Para assegurar uma aplicação ponde de facto a uma vantagem fi- contratualizados.
uniforme, transparente e simples das nanceira que o Estado proporciona à Para os subsídios reembolsáveis, que
regras em matéria de auxílios esta- empresa. são normalmente empréstimos obti-
tais, é conveniente considerar que as No caso de se tratar de um subsídio dos a taxas de juro mais favoráveis
taxas do mercado aplicáveis são as reembolsável ou de uma bonificação ou sem taxa de juro (ou período de
taxas de referência. Estas taxas re- de juros, o respetivo equivalente de carência), esses auxílios de Estado

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devem ser determinados pela diferen- nomeadamente relativos a subsídios Nos termos da alínea a) do n.º 27 do
ça entre os juros pagos (de valor re- reembolsáveis (apoios por taxas de artigo 9.º do CIVA, estão isentas des-
duzido ou zero) e aqueles que seriam juro reduzidas ou nulas) (ESB), são te imposto as operações de «conces-
devidos por aplicação das referidas efetuados pelas entidades gestoras são e a negociação de créditos, sob
taxas de referência. da atribuição desses apoios, pelo que qualquer forma, compreendendo ope-
Este cálculo deve ser efetuado du- se sugere que se solicite essa infor- rações de desconto e redesconto, bem
rante o período contratualizado para mação a essas entidades. como a sua administração ou gestão
a atribuição do subsídio. Pelo que efetuada por quem os concedeu.»
se esse empréstimo (ou parte dele) Resposta de junho de 2019 A Autoridade Tributária e Aduaneira
for transformado em subsídio não tem entendido que a expressão «ne-
reembolsável, então, a totalidade do IVA - Faturação gociação» prevista nas normas cita-
montante do valor atribuído como das deverá significar que se incluirá
subsídio não reembolsável, deve ser Atente-se na seguinte situação: "A" na isenção não apenas a concessão
considerado para como auxílio de - Vendedor de automóveis; "B" - do crédito propriamente dita ou a
Estado para efeitos do controlo dos Empresa que negoceia créditos com prestação de fianças, avales, cauções
limites máximos definidos no artigo financiadoras (CAE 66190); "C" - Fi- e outras garantias, mas também a sua
43.º do CFI. nanciadoras. negociação, ou seja, a intervenção de
Quando se excedem os limites máxi- "A" angaria clientes para "B" num terceiros visando a sua concretização.
mos de apoio dos incentivos de finali- contexto de contrato de crédito De acordo com a informação vincu-
dade regional, por utilização cumula- para aquisição de um veículo e "B", lativa: Processo n.º 2656 - Despacho
tiva dos apoios financeiros (subsídios por sua vez, negoceia junto de "C" de 16 de novembro de 2011, no seu
reembolsáveis com taxas de juro (financiadoras) a melhor opção de ponto 14, encontramos o conceito
nulas ou reduzidas ou subsídios não crédito. de «negociação», que diz «(...) a ex-
reembolsáveis) com o RFAI, esse mon- A entidade "A" ao faturar a "B" a pressão negociação está associada
tante em excesso deve ser adiciona- prestação de serviços por angaria- à informação técnica subjacente ao
do ao IRC liquidado para efeitos de ção de clientes referente a contrato produto financeiro conducente à con-
apuramento do imposto a pagar ou de crédito, também está abrangido cessão do crédito, não sendo, portan-
a recuperar, a ser incluído no campo pela alínea a) do n.º 27 do artigo 9.º to, atividade de negociação fornecer,
372 (reposição de benefícios fiscais) do CIVA? apenas informações de natureza do-
do quadro 10 do rosto da declaração cumental e, eventualmente, receber
modelo 22. as propostas de adesão ao crédito.»
Tal como referido acima, no limite, se Questiona-nos relativamente ao en- Estando mais explicitado no ponto 15
os benefícios de Estado das medidas quadramento em sede de IVA da pres- o seguinte: «Ora, se a requerente não
de apoio financeiro excederem des- tação de serviços de angariação de se limitar a fornecer aos potenciais
de logo o referido limite máximo de clientes. As prestações de serviços clientes informação documental rela-
apoios de finalidade regional, a em- efetuadas no território nacional, a tí- tiva aos produtos financeiros, tendo
presa já não pode beneficiar da de- tulo oneroso, por um sujeito passivo antes por objetivo conseguir que se
dução fiscal de IRC referente ao RFAI. agindo como tal, são operações su- concretize entre a entidade bancária
Para efeitos desse controlo da utiliza- jeitas a imposto, conforme resulta da e o cliente a celebração de um con-
ção do benefício fiscal do RFAI, face alínea a) do n.º 1 do artigo 1.º do Có- trato de crédito, que melhor se ajuste
à dedução à coleta de IRC e aos li- digo do IVA. O conceito de prestação à situação financeira e às necessida-
mites máximos dos auxílios de finali- de serviços para efeitos de IVA encon- des/conveniências deste, estar-se-á
dade regional, devem ser preenchidos tra-se no artigo 4.º deste Código. perante uma prestação de serviços,
os subquadros 074 e 078 do quadro Não obstante a sujeição a imposto, que se subsume numa operação de
07 do anexo D da declaração modelo importa sempre, perante determinada negociação de crédito.»
22, conforme as instruções da decla- operação, verificar se existe, ou não, Verificadas estas condições, as refe-
ração modelo 22 para os respetivos norma de isenção que se lhe aplique. ridas comissões de intermediação/
campos. Para o efeito, deve analisar-se o dis- angariação não serão objeto de tribu-
Os cálculos dos apoios financeiros, posto no artigo 9.º do Código do IVA. tação em IVA, aplicando-se a isenção

70 CONTABILISTA 232
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prevista nas alíneas a) e b) do n.º 27 serviços de angariação de clientes é aplique as normas internacionais de
do artigo 9.º do Código do IVA, que uma operação sujeita a IVA nos ter- contabilidade ou o plano de contas
contemplam as operações de nature- mos gerais previstos no Código do das entidades seguradoras e bancá-
za bancária e financeira, incluindo a IVA, devendo assim este prestador de rias nos termos do artigo 4.º e 5.º do
intermediação, aplicando-se qualquer serviços proceder à liquidação do im- mesmo diploma.
que seja a qualidade da entidade que posto, considerando que esta ativida- Como se constata, as sociedades co-
praticar tais operações. de não cumpre com os requisitos e a merciais portuguesas, bem como as
Contudo, a atividade de intermediá- regulamentação legal referidos. sucursais de empresas estrangeiras,
rio de crédito foi recentemente regu- estão obrigadas a adotar o Siste-
lamentada pelo Decreto-Lei n.º 81- Resposta de junho de 2019 ma de Normalização Contabilística
C/2017, de 7 de julho. Presentemente, (SNC) previsto no Decreto-Lei n.º
apenas os intermediários de crédito SNC 158/2009, de 13 de julho, nos ter-
autorizados pelo Banco de Portugal mos do artigo 3.º desse diploma,
podem exercer esta atividade. É obrigatória a aplicação do SNC e sem prejuízo das opções pela adoção
Neste diploma, Decreto-Lei n.º 81- respetivo código de contas a uma das normas internacionais de conta-
C/2017, de 7 de julho, estabelece-se sociedade por quotas com início de bilidade nos termos dos artigos 4.º e
o regime jurídico que regula as con- atividade em 2010, sendo uma en- 5.º do referido diploma.
dições de acesso à atividade de inter- tidade residente e com estabeleci- As empresas que estejam a adotar
mediário de crédito e à prestação de mento estável em Portugal e fazen- o SNC são obrigadas a utilizar e a
serviços de consultoria relativamente do parte de um grupo estrangeiro? efetuar os registos contabilísticos
a contratos de crédito e, bem assim, As quotas dessa empresa são deti- nas contas definidas no Código de
a forma como estas atividades devem das pela empresa-mãe deste grupo Contas do SNC, conforme previsto
ser exercidas. em 95 por cento e em 5 por cento no preâmbulo e artigo 2.º da Porta-
De acordo com as disposições deste por um sócio particular. ria n.º 218/2015, de 23 de julho.
regime jurídico, a atividade dos inter- Deverá continuar a aplicar-se o SNC Tratando-se de sociedade por quo-
mediários de crédito, consubstancia- e respetivo código de contas na or- tas, relativamente à preparação e
da na apresentação ou proposta de ganização da contabilidade desta apresentação de demonstrações
contratos de crédito a consumidores, firma, como tem sido feito até ago- financeiras individuais, apenas é
na assistência em matérias relacio- ra? possível a adoção de normas inter-
nadas com produtos de crédito ou na nacionais de contabilidade adotadas
celebração de contratos de crédito pela União Europeia, nos termos do
em representação das instituições A questão colocada refere-se às disposto do n.º 3 do artigo 4.º do De-
mutuantes, apenas pode ter como ob- obrigações de adoção do Sistema de creto-Lei n.º 158/2009, com redação
jeto operações de crédito concedidas Normalização Contabilística (SNC) e do Decreto-Lei n.º 98/2015.
por entidades legalmente habilitadas o código de contas do SNC por uma Nos termos do n.º 3 do artigo 4.º do
a conceder crédito a título profissio- sociedade comercial com sede em Decreto-Lei n.º 158/2009, de 13 de
nal, sendo-lhes vedado intervir na Portugal detida maioritariamente julho, com redação do Decreto-Lei
comercialização de outros produtos por uma empresa estrangeira. n.º 98/2015, de 2 de junho, as so-
e serviços bancários, nomeadamente De acordo com a alínea a) do n.º ciedades portuguesas que estejam
no âmbito da poupança e dos serviços 1 do artigo 3.º do Decreto-Lei n.º incluídas no âmbito da consolidação
de pagamento. 158/2009, de 13 de julho, com reda- de entidades que sejam obrigadas a
Face ao exposto, entendemos que ção do Decreto-Lei n.º 98/2015, de aplicar as normas internacionais po-
apenas as prestações de serviços 2 de junho, as entidades abrangidas dem elaborar as respetivas demons-
realizadas por estes intermediários pelo Código das Sociedades Comer- trações financeiras individuais em
de crédito se enquadram na isenção ciais, nomeadamente as sociedades conformidade com as normas inter-
prevista no n.º 27) do artigo 9.º do comerciais com sede em Portugal, nacionais de contabilidade adotadas
Código do IVA, porquanto, é uma ati- são obrigadas a aplicar o Sistema de nos termos do artigo 3.º do Regula-
vidade regulamentada. Normalização Contabilística (SNC), mento (CE) n.º 1 606/2002, do Par-
No caso em análise, a prestação de com exceção das entidades a que se lamento Europeu e do Conselho, de

JULHO 2019 71
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rente remunerado de uma sociedade.


De acordo com a regra da territoria-
lidade prevista no n.º 2 do artigo 15.º
do Código do IRS, os não residentes
são tributados em território nacional
pelos rendimentos aqui obtidos.
É no artigo 18.º do Código do IRS que
se identificam as diversas situações
que configuram rendimentos obtidos
em território nacional. Apenas os
casos previstos nesta enumeração
é que são suscetíveis de tributação
em território nacional. Caso se este-
ja perante algum tipo de rendimen-
to obtido por não residente que não
conste do rol das situações elenca-
19 de julho de 2002, ficando as suas Se a empresa portuguesa estiver a das, então tal rendimento não se
demonstrações financeiras sujeitas a adotar as normas internacionais de considera abrangido pelas normas
certificação legal das demonstrações contabilidade nos termos do artigo de incidência em sede de IRS.
financeiras. 4.º do Decreto-Lei n.º 158/2009 não Assim, estabelece a alínea a) do n.º 1 do
Esta opção pode ser aplicada ainda está obrigada a adotar o código de artigo 18.º do Código do IRS que os
que a empresa-mãe esteja sedeada contas do SNC, sendo essa utilização rendimentos do trabalho dependente
num outro Estado-membro da União uma mera opção, nos termos do pon- decorrentes de atividades exercidas
Europeia, cujas demonstrações fi- to 4.2 do anexo ao Decreto-Lei n.º em território nacional, ou quan-
nanceiras sejam consolidadas nos 158/2009, com redação do Decreto- do tais rendimentos sejam devidos
termos dos artigos 4.º e 5.º do Re- -Lei n.º 98/2015. por entidades que nele tenham re-
gulamento (CE) n.º 1 606/2002, do sidência, sede, direção efetiva ou
Parlamento Europeu e do Conselho, Resposta de junho de 2019 estabelecimento estável a que deva
de 19 de julho de 2002, conforme o imputar-se o pagamento, são consi-
n.º 5 do artigo 4.º do referido Decre- IRS - Residência fiscal derados rendimentos obtidos em ter-
to-Lei. ritório nacional.
A opção deve ser exercida por todas Um não residente que aufira em Por- Sendo este rendimento de trabalho
as subsidiárias portuguesas incluídas tugal, no ano de 2019, rendimentos dependente pago por sociedade por-
no perímetro de consolidação da re- de trabalho dependente que não ex- tuguesa, então, encontra-se abran-
ferida empresa-mãe, sedeada na Bél- cedem os 600 euros e, por isso, não gido pelas normas de incidência em
gica, tendo que ser mantida por três estejam sujeitos a retenção na fonte sede de IRS. Este tipo de rendimento
períodos de relato, conforme o n.º 6 ficam isentos de entregar declaração é tributado à taxa liberatória de 25
do artigo 4.º do mesmo diploma. modelo 3 de IRS em 2020 e, conse- por cento conforme resulta do dis-
O exercício desta opção é efetuado quentemente, totalmente isentos de posto na alínea a) do n.º 4 do artigo
na preparação e apresentação das pagar IRS relativo a esses rendimen- 71.º do Código do IRS.
próprias demonstrações financeiras tos? Aplica-se a mesma regra caso No entanto, de acordo com a re-
individuais das sociedades portugue- esse não residente seja gerente re- dação dada aos n.ºs 5 e6 do artigo
sas, nomeadamente em divulgações munerado de uma sociedade? 71.º do CIRS, pela Lei n.º 71/2018,
nas notas do anexo. de 31 de dezembro (OE 2019), aos
Para a realização desta opção não rendimentos o trabalho dependente
existe qualquer obrigação declarati- Questiona-nos sobre a tributação de mensalmente pagos ou colocados à
va para efeitos fiscais, para além da rendimentos de trabalho dependente disposição dos respetivos titulares
indicação do normativo contabilísti- auferidos por um não residente. No não é aplicada qualquer retenção
co aplicado no anexo A da IES. caso pressupomos ser um sócio-ge- na fonte até ao valor da retribuição

72 CONTABILISTA 232
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mínima mensal garantida, quando os há lugar à entrega da declaração de A situação em análise trata de duas
mesmos resultem de trabalho ou ser- rendimentos modelo 3, pela obten- sociedades anónimas que cessaram a
viços prestados a uma única entida- ção dos rendimentos que são, em re- atividade em Portugal a 23 de abril
de, aplicando-se a taxa aí prevista à gra, tributados mediante a aplicação de 2019 e que estão a ser transferi-
parte que exceda esse valor. de taxas liberatórias, as quais por das para um outro Estado-membro.
Para o efeito, deve o titular dos ren- serem "taxas de liquidação" desobri- Ambas as sociedades possuem bens
dimentos (não residente) comunicar gam os seus titulares do rendimento imóveis no seu ativo, sobre as quais
à entidade devedora, através de de- desta obrigação. já solicitaram avaliação imobiliária.
claração escrita, que não auferiu ou Neste sentido, solicitam-se esclare-
aufere o mesmo tipo de rendimentos Resposta de junho de 2019 cimentos quanto à aplicação do arti-
de outras entidades residentes em go 83.º do Código do IRC.
território português ou de estabele- IRC - Transferência Nos termos do n.º 1 do artigo 83.º
cimentos estáveis de entidades não de sociedade do Código do IRC, para a determina-
residentes neste território. ção do lucro tributável do período de
Uma vez que o Decreto-Lei n.º Determinadas sociedades cessaram a tributação em que ocorra a cessação
117/2018, de 27 de dezembro fixou atividade em 23 de abril 2019 e estão a de atividade de entidade com sede ou
para 2019, a retribuição mínima ser transferidas para fora de Portugal, direção efetiva em território portu-
mensal garantida para 600 euros, mas dentro da União Europeia. guês, incluindo a Sociedade Europeia
se no caso exposto os rendimentos Neste momento a administração da e a Sociedade Cooperativa Europeia,
auferidos pelo não residente (geren- sociedade já solicitou avaliação imobi- em resultado da transferência da
te remunerado) não excederem este liária de um ativo fixo tangível (imóvel), respetiva residência para fora desse
valor não serão sujeitos a retenção que se encontra numa das sociedades. território, constituem componentes
(cf. n.ºs 5 e 6 do artigo 71.º do CIRS). Na outra sociedade existem também positivas ou negativas as diferenças,
De referir, assim, que paralelamente outros ativos fixos tangíveis (edifícios), à data da cessação, entre os valores
da emissão do recibo de vencimen- onde também está a ser feita a sua de mercado e os valores fiscalmente
to, assiste à entidade residente em avaliação de mercado. relevantes dos elementos patrimo-
território nacional a obrigatorie- Pelo artigo 83.º do IRC será calculado niais dessa entidade, ainda que não
dade de entrega da declaração mo- o mapa das mais ou menos-valias de expressos na contabilidade.
delo 30 (aprovada pela Portaria n.º modo a apurar os valores fiscalmente Acresce o n.º 2 do mesmo artigo que
438/2004, de 30 de abril), até ao fim relevantes dos elementos patrimoniais no caso de transferência da residên-
do segundo mês seguinte ao do pa- desta entidade. cia de uma sociedade com sede ou
gamento ou colocação à disposição Esta avaliação, ao ser feita por uma direção efetiva em território portu-
dos respetivos beneficiários, em con- entidade externa, exige o parecer de guês para outro Estado da União Eu-
formidade com o disposto na alínea um ROC? Este procedimento terá que ropeia ou do Espaço Económico Eu-
a) do n.º 7 do artigo 119.º do Código ser refletido na contabilidade ou só na ropeu, neste último caso, desde que
do IRS, por remissão do artigo 128.º declaração modelo 22, uma vez que exista obrigação de cooperação ad-
do Código do IRC. não vai haver alienação de nenhum pa- ministrativa no domínio do intercâm-
Não obstante, quando haja lugar a trimónio, só irá haver a transferência bio de informações e da assistência
efetuar retenção na fonte (sobre o das sociedades? A mais ou menos-va- à cobrança equivalente à estabeleci-
valor que exceda o valor da retribui- lia contabilística apurada pelo mapa da na União Europeia, o imposto, na
ção mínima mensal garantida) devem 31 é para refletir no quadro 07 da de- parte correspondente ao saldo po-
ser entregues em guias autónomas, claração modelo 22? Ou são apenas sitivo das componentes positivas e
assinalando-se que se trata de reten- as mais e as menos-valias fiscais? Se negativas referidas no número ante-
ções efetuadas a não residentes, sem houver uma mais-valia fiscal e outra rior, é pago de acordo com uma das
prejuízo da análise da convenção ou menos-valia fiscal, o valor a colocar na seguintes modalidades:
acordo bilateral existente entre os declaração modelo 22 é o saldo ou te- - Imediatamente, pela totalidade do
países em causa. nho que refletir a positiva e a negativa? imposto apurado na declaração de
Na ótica do gerente remunerado Em relação à declaração modelo 22, rendimentos apresentada nos termos
(não residente) realçamos que não quais os campos a preencher? e prazo estabelecidos no n.º 3 do ar-

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tigo 120.º; ou ao vencimento de juros à taxa pre-


- No ano seguinte àquele em que se vista para os juros de mora;
verifique, em relação a cada um dos - A opção deve ser exercida na de-
elementos patrimoniais considera- claração modelo 22 referente ao
dos para efeitos do apuramento do período em que ocorre a redomici-
imposto, a sua extinção, transmis- liação, a ser entregue até ao final do
são, desafetação da atividade da terceiro mês seguinte àquele em que
entidade ou transferência, por qual- ocorreu a cessação, que no caso em
quer título, material ou jurídico, para apreço será até 31 de julho, sendo
um território ou país que não seja que pode haver lugar a prestação
um Estado membro da União Euro- de garantia bancária equivalente a
peia ou do Espaço Económico Euro- montante do imposto acrescido de
peu, neste último caso, desde que 25 por cento, em caso de fundado
exista obrigação de cooperação ad- receio de frustração da cobrança do
ministrativa no domínio do intercâm- crédito tributário.
bio de informações e da assistência à - Quando exercida a opção b), a em-
cobrança equivalente à estabelecida presa tem de entregar a declaração
na União Europeia, pela parte do im- modelo 22 anualmente, até 31 de - Campo 789: se o saldo apurado for
posto que corresponda ao resultado maio, cujo imposto a pagar é acres- positivo e a mudança da sede ocorra
fiscal relativo a cada elemento indi- cido pelos juros referidos na alínea para um país da UE ou EEE;
vidualmente identificado; ou I). - Campo 790: se o saldo apurado for
- Em frações anuais de igual montan- - Caso tenha sido exercida a opção positivo e a mudança da sede ocorra
te, correspondentes a um quinto do da alínea c), a empresa tem de efe- para fora de um país da UE ou EEE;
montante do imposto apurado com tuar o pagamento do imposto da se- - Campo 796: se o saldo apurado for
início no período de tributação em guinte forma: negativo.
que ocorre a transferência da resi- - Até ao termo do prazo para en- Em termos contabilísticos, se houver
dência. trega da declaração de rendimentos lugar a apuramento de mais e me-
Aplicando à situação em análise, com mencionada no n.º 4, relativamente nos-valias pelo decorrer da cessa-
a redomiciliação das duas entidades à primeira fração anual; e ção, o efeito das mesmas terá de ser
residentes para um Estado-membro - Até ao último dia do mês de maio anulado nos campos 767 e 736, res-
há lugar ao denominado exit tax, de cada ano, independentemente de petivamente, sendo as mais-valias
uma vez que tal operação se qualifi- esse dia ser útil ou não, acrescido fiscais refletidas nos resultados obti-
ca como uma cessação de atividade dos juros vencidos calculados nos dos pela redomiciliação nos campos
em Portugal e, por conseguinte, há termos do n.º 3, relativamente às mencionadas na alínea acima.
lugar à tributação de uma mais-valia restantes frações de pagamento. Por último, alude-se ainda à leitura in-
pela diferença entre o valor de mer- Face ao exposto, e em resposta dire- tegral da informação vinculativa refe-
cado do património da empresa (ati- ta às questões colocadas, refere-se rente ao processo n.º 3 417/2009, san-
vo líquido do passivo) e o valor fiscal o seguinte: cionado por despacho de 8 de março
desses mesmos ativos. - O apuramento dos valores de mer- de 2010, pelo subdiretor-geral, onde a
Uma vez que as empresas irão alte- cado dos ativos da empresa deve ser Autoridade Tributária refere no ponto
rar a sua residência para um Esta- apurado por um ROC. 5 que «para a determinação do lucro
do-membro, as empresas têm como - O apuramento de resultados pela tributável devem concorrer, no senti-
opção o pagamento diferido do im- mudança de sede para o estrangeiro do em que dispõe o atual artigo 83.º
posto ao abrigo da alínea b) e c) do é um procedimento fiscal, pelo que do CIRC, todos os resultados, sejam
n.º 2 do artigo 83.º do Código do apenas terá de ser refletido na de- ou não mais-valias ou menos-valias,
IRC, sobre os quais se salienta as se- claração modelo 22. apurados de acordo com as regras aí
guintes especificidades previstas nos - Quanto ao preenchimento da de- previstas.»
n.ºs 3 a 9 do artigo: claração, os campos a preencher são
- Em ambas as modalidades há lugar os 789, 790 e 796: Resposta de junho de 2019

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